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Quinta-Feira, 29 de Março de 2012

Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua As melhores imagens da sua História

Antão de Carvalho O retrato de uma paixão pelo Douro “O Dr. Antão de Carvalho ocupa um lugar primancial na galeria dos grandes homens de todos os tempos que o Douro tem tido”- Júlio Vasques ( A Defesa do Douro,1930)

A

ntão de Carvalho não morreu, se pensarmos que ficou a sua obra que construiu com empenho cívico, determinação, inteligência e muita paixão a pensar no bem colectivo. Como o mais carismático e eminente dos paladinos do Douro fez parte de elite social, económica, cultural e política que dirigiu um movimento de defesa dos lavradores do Douro: a disciplina da produção, o aumento dos preços e o escoamento do vinho do Porto. Ele foi líder principal de uma reforma institucional do sector vitinícola duriense. Na sua casa, no Largo Sacadura Cabral, nº61, na Régua, redigiu as bases e depois o contra-projecto que criou na Régua, em 1932, uma organização associativa para representar interesses da lavoura, a Federação Sindical dos Vitinicultores do Douro - Casa do Douro. Os amigos chamaram-lhe o “João das Regras” do Douro e que representava a “Voz do Douro”. Pina de Morais, escritor nascido em Valdigem seu contemporâneo, com quem conviveu na defesa da mesma causa, definiu-o como um “Jurista Romântico”. Escreveu numa brilhante crónica, depois da sua morte, a lamentar a sua perda irreparável para o Douro, onde sintetizou a razão do qualificativo: “Jurista romântico escrevi eu. Era de facto um jurista romântico, pois aliava a estrutura rígida da lei, o romantismo dos homens de 1820 e o seu sonho infinito que nimba as almas que se dão inteiramente ao torrão onde nasceram.” O escritor João de Araújo Correia traçou-lhe o génio nestas palavras: “Pertencia a uma raça hoje extinta à superfície da terra portuguesa. Era orador. Como advogado, tinha desenvolvido o verbo congenial na prática forense. Fora da teia elevao à sublimidade num comício em

José Alfredo Almeida prol do Douro. Tão orador era, que não sabia escrever. Só sabia ditar.” (..) Antão de Carvalho, homem de palavra tão fácil, que subia com ela ao céu da fantasia numa tertúlia de gente positiva, manteve-se no foro e na política sem o mínimo desvio. Foi ministro sem deixar de ser jurisconsulto. Se se desgarrava, durante uma conversa, nunca se desgarrou a inquirir testemunhas nem a rezar o credo democrático” O seu talento e a sua paixão pelo Douro mereceram do autor do romance Sangue Plebeu, onde evoca o motim de 1915, em Lamego, esta nota de apreciação: “Teria uma biografia brilhante, excepcional, se tivesse ficado nos grandes meios ao serviço do seu país. Tanto melhor para o Douro, porque este não teve nunca, que eu saiba, quem puzesse tanto coração, quem se identificasse e vibrasse com as suas alegrias e sofresse com as suas dores…” A paixão pelo Douro e à sua terra natal, à Régua foi o estado de alma permanente de Antão de Carvalho e que o próprio exarou no seu testamento público: “Coerente com os princípios morais, sociais e políticos que dominaram a minha agitada vida e pelos quais indefectivelmente lutei, afirmo, neste solene momento, a minha concordância com a moral cristã na República e o meu anseio de que esta se adapte ao imperativo do progresso, em marcha para uma mais perfeita e justa organização social. No isolamento em que actualmente vivo, tenho sempre presentes no espírito e no coração esta sagrada Região Duriense e a linda terra da Régua, bem como acima de tudo a modesta aldeia em que nasci, dando por bem empregados o trabalho e sacrifícios de toda a ordem que durante anos lhe consagrei. O meu funeral será feito à vontade do meu testamenteiro, dos adiante nomeados, que aceitar desempenhar o respectivo cargo. Desejo no entanto, que ele seja modesto e

simples, espelho do que fui em vida, sem convites ou sugestões e que o meu corpo vá repousar no jazigo de família, ereto no cemitério de Poiares, deste concelho, junto de meus pais e irmãos, como tal considerando o meu bom cunhado António, passando se assim entenderem, na ridente aldeia de Vila Seca, onde nasci, estando ou não depositado algum tempo na velha “Casa Amarela”, relíquia familiar, ou na formosa capelinha de que minha irmã Zélia é desvelada protectora. Será a ronda do morto sem descanso como na atormentada vida se viu.” Razão terá, certamente, João de Araújo Correia, que no artigo “Dois Paladinos” (in Comércio de Porto, de 30-10-65), faz uma enérgica apologia aos históricos defensores da região: “ O Douro, sempre em crise latente, podia contar com os seus paladinos. Confiava neles, secundando-os com os seus vivos e assinaturas. Hoje, se não tiver alguém que o alumie, não sabe

donde lhe vem o mal nem de que lado lhe virá o remédio”. Como é verdade quando diz que o Douro de hoje precisa de o voltar a escutar sobre as eterna questão duriense: “Sempre que o Douro sofre, com vinhos por vender ou à espera de pagamento, vou ao cemitério do Peso entrevistar Júlio Vasques. Subo ao cemitério de Poiares para conversar como Dr. Antão de Carvalho. Fora de fantasia, é capaz de me apontar o bom caminho…”. Se hoje a sociedade esquece ou ignora os seus melhores, aquele retrato de Antão de Carvalho evoca as memórias de um homem singular que deixou marcas que perduram no nosso tempo. Agora que os lavradores do Douro vivem outra grave crise e que a Casa do Douro por ele idealizada, se encontra quase à beira do fim, percebemos quanto importante e necessário foi este homem para a região duriense, para todos nós que dependemos da economia do vinho. Aquele seu retrato está no lugar

SEMANÁRIO INDEPENDENTE DEFENSOR DO ALTO DOURO

certo, no lugar daqueles se entregam ao bem, num exemplo de dedicação, altruísmo e generosidade incessante para com o seu semelhante, valores e princípios que Antão de Carvalho defendeu apaixonadamente na sua passagem muito intensa pela vida Significa também dos bombeiros gratidão a um benemérito que em muitos pequenos gestos, tão pequenos que não ficaram registados em nenhum lugar, a não ser numa página de um jornal, mas que tanto significaram para os bombeiros. Quem sabe, se não foi graças, a essa velha casa adaptada a Quartel que lhes permitiu o sonho de construírem um quartel, nesses difíceis anos 30 no Douro e no país, que é o mais belo edifício da cidade do Peso da Régua. Se os bombeiros devem muito a Antão de Carvalho, a Régua e região duriense devem-lhe muito mais – ele que foi o maior defensor do Douro e do Vinho do Porto.

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Antão de Carvalho - O retrato de uma paixão pelo Douro 2