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Quinta-Feira, 22 de Março de 2012

Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua As melhores imagens da sua História

Antão de Carvalho O retrato de uma paixão pelo Douro “A Régua nunca avaliou o seu grande talento, embora o estremecesse carinhosamente” Pina de Morais (Noticias do Douro, 1948) José Alfredo Almeida

Q

uando visitei, pela primeira vez, o Museu dos Bombeiros da Régua surpreendeu-me ver exposto um retrato de Antão de Carvalho na galeria dos sócios beneméritos. Confesso que desconhecia, por completo, que tivesse qualquer afinidade pessoal ou institucional de relevância na história da associação. O que eu sabia da biografia do Dr. Antão Fernandes de Carvalho em nada o relacionava com factos ou acontecimentos da história da Corporação dos Bombeiros. Sabia que era natural de Vila Seca de Poiares, onde nasceu em 1871 e que se tinha formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Proprietário rural e viticultor exercera com fama a profissão de advogado e desempenhara funções políticas relevantes, entre as quais, as de Presidente da Câmara do Peso da Régua, Deputado da Nação e Ministro da Agricultura. Conhecia-lhe referências da sua acção como paladino do Douro, o mais combativo, reivindicativo e devotado defensor regional, e o fervor pelas ideias do regime republicano, o qual que representou politicamente na Régua ainda no tempo da monarquia. Coubera-lhe a missão de, no dia 10 de Outubro de 1910, em substituição do monárquico presidente da câmara ler, no salão nobre dos Paços do Concelho, com a assistência de muito povo, forças militares, autoridades civis e representantes de associações locais – aqui, quase de certeza, estariam presentes os directores da Associação Humanitária dos

Bombeiros Voluntários - o texto de proclamação da República. Com a queda da monarquia, Antão de Carvalho assumiria a presidência da câmara da Régua e, no cumprimento dessas suas funções, suspeitei eu que tivesse concedido significativo auxílio e cooperação à Corporação de Bombeiros, fundada em 28 de Novembro de 1880 e, agora, comandada por um intelectual de mérito, José Afonso de Oliveira Soares. Embora distinguida por “Real Associação” pelo Rei D. Luís, na instituição o espírito republicano sentia-se presente em muitos associados e bombeiros que professavam os ideais do novo regime. Por certo, estes bombeiros voluntários esperavam que Antão de Carvalho fomentasse mais apoio, já que careciam de materiais para os fogos e de instalações apropriadas para a sua sede e o quartel. A ter assim acontecido, o que eu não tinha a certeza, estava estabelecido o elo de ligação de Antão de Carvalho e o Corpo de Bombeiros para que, mais tarde, fosse distinguido o como Sócio Benemérito. O meu entendimento precisava de ser confirmado com um testemunho credível, mas as pesquisas foram infrutíferas. Com valor e interesse encontrava uma carta manuscrita pela D. Zélia Carvalho, sua irmã, a agradecer a gratidão dos bombeiros pelas dávidas e, no Salão Nobre, estava uma pintura do retrato do cunhado António Fernandes Carvalho. De qualquer forma, sentia-me orgulhoso por esta figura histórica de importância nacional, dotado de valores e de humanismo, o

activista militante na defesa de região duriense, estar presente na história dos bombeiros. Sinceramente até deixei de considerar importante saber qual terá sido o seu contributo para com os bombeiros mas, para mim, estaria relacionado com a sua acção como presidente da câmara, no período de 1915-1925, Julgava eu - e bem, afinal - que poderia ter prestado à corporação uma valiosa colaboração institucional, assim garantindo às populações a protecção e o socorro de bens e vidas. Mas quando eu menos esperava, ao consultar edições antigas do jornal Notícias do Douro, encontrei a justificação para que aquele retrato de Antão de Carvalho estivesse guardado no museu dos bombeiros. O essencial estava narrado numa notícia que dava o seu falecimento, no dia 13 de Agosto de 1948. Assim, nestes termos simples: “...que à Presidência do snr. Dr. Antão ficou devendo valiosos serviços, entre os quais, quais a instalação do seu quartel da Rua dos Camilos.” Foi nesse quartel, uma velha casa sem condições, onde os carros e as ambulâncias mal cabiam, que os bombeiros estiveram instalados, desde 1923 até 1954. Tiveram de esperar muito tempo, nesse local, para abrirem as portas do novo quartel, uma construção de raiz, projectada por arquitecto famoso, mas conseguiram realizar o objectivo que ficará por concretizar nos mandatos de Antão de Carvalho na presidência da Câmara. Quando morreu Antão de Car-

valho, o Douro e a Régua ficaram de luto. As principais instituições que ele estivera ligado, como a Câmara Municipal, a Casa do Douro e o Grémio dos Vitinicultores, colocaram bandeira a meia haste. O mesmo fez a Associação Humanitária em sinal de respeito pela perda do seu distinto Sócio Benemérito. Os directores e um piquete de bombeiros fizeram-se representar nas cerimónias fúne-

bres. Os bombeiros carregaram com a sua urna aos ombros até ao pronto-socorro Buick que a transportou para Vila Seca de Poiares, onde o seu corpo foi repousar, por alguns momentos, na velha casa de família, a Casa Amarela. Por fim, sempre acompanhado pelos bombeiros, o cortejo retomou o caminho em direcção do cemitério de Poiares e aí foi sepultado. (continua no próximo número)

SEMANÁRIO INDEPENDENTE DEFENSOR DO ALTO DOURO

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Antão de Carvalho-O retrato de uma paixão pelo Douro  

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