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06 de Fevereiro de 2013

Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua As melhores imagens da sua História

A Biblioteca dos Bombeiros

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stou no alto do quartel dos bombeiros, na varanda do terceiro piso de um dos edifícios mais bonitos da nossa terra, onde sobressai uma fachada esculpida em granito, a observar a paisagem do além Douro, as vinhas que serpenteiam o Vale Abraão e a curva do rio a espreguiçar-se, numa manhã intensa de luz, sobre uma cidade que alongou as suas fronteiras a poente, às portas do envelhecido Salgueiral. Quando, há mais de cem anos, os primeiros voluntários se constituíram como um corpo de bombeiros, equipado apenas de um carro bomba e material rudimentar para apagar os fogos, estavam bem longe de imaginar que a sua desejada casa de leitura, organizada com a dedicação e ajuda benemérita de muitos reguenses que ofereceram livros usados para encher uma pequena estante, se tornaria, desde então, um lugar para servir a cultura na cidade do Peso da Régua. Não sabemos o que esteve na mente daqueles altruístas bombeiros e dos associados contribuintes, mas, talvez mais que uma necessidade de ocupar os tempos de lazer e os serões das noites frias de inverno, na ausência das badaladas do sino do Cruzeiro a avisarem fogo, sentiram a importância de ter um espaço no seu quartel, então situado no Largo da Chafarica, para fomentarem o gosto pela leitura e desenvolverem uma acção cultural. Eram eles que se substituíam aos responsáveis políticos sem iniciativas culturais e, numa terra onde ainda faltava uma biblioteca pública. Por acção de alguns, e muito dinamismo, os bombeiros não esperaram pelos favores da câmara e juntaram livros de interesses diversificados, uns de ciência, outros de ensaios sobre a viticultura duriense, tratados de política, biografias de gente importante e já esquecida, os melhores romances portugueses, toda a obra de Eça, Camilo, Herculano, Garrett, João de Deus e Abel Botelho, a poesia romântica e, para deleite dos mais curiosos, não faltavam as populares enciclopédias ilustradas. Quem conheceu esta casa de leitura foi João de Araújo Correia, muito novo, que, acompanhado pelo seu pai, ao tempo bombeiro voluntário, a pôde visitar quando era uma modesta estante de livros arrumados e que o deixou completamente deslumbrado. Mais tarde, o homem e o escritor, sem

“Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca.” (Jorge Luís Borges) sair do seu sagrado eremitério e com a ajuda dos seus amigos de Lisboa, conseguiu convencer a poderosa e distante Fundação Gulbenkian, nos inícios dos anos 60, a fazer da velha estante da sua infância, uma biblioteca ordenada, catalogada, com mais obras literárias e edições mais recentes. Se assim o soube idealizar e planear, depressa lhe fizeram a vontade e nasceu a Biblioteca Dr. Maximiano de Lemos, com novos livros oferecidos pela benemérita instituição, o que, naquele tempo, foi motivo de regozijo para muitos jovens leitores, ávidos de descobrir novos autores. Foi essa biblioteca que eu frequentei no meu tempo de adolescente. A partir dos meus treze anos tornou-se um lugar de passagem obrigatória, três vezes ou quatro por mês. A bem dizer, eu estava a iniciar-me nos livros, em novas leituras e novos autores, desconhecidos e misteriosos, mas que iam despertar a minha imaginação para lá das portas do pequeno mundo que, até àquele momento, estava ao meu alcance e me era visível da varanda da biblioteca. Confesso que, não sendo um admirador de ficção científica, procurei naquela biblioteca, por recomendação de um amigo, um livro com o estranho título de Fahrenheit 451, da autoria do escritor americano Ray Bradbury, de 1953. Mal eu sabia, que nele ia encontrar, como personagem principal, um bombeiro encarregado não de apagar os incêndios, mas de queimar livros. Sim, aquele bombeiro de nome Montag tinha a missão de queimar LIVROS…! Para mim, estava muito claro, que a função dos bombeiros nunca seria essa. Queimar livros, um acto que resume apagar, incinerar o conhecimento, a ilusão, a magia e a memória do Universo. Ao princípio, pensei que o autor se tivesse enganado, mas percebi que, admirador de livros e das bibliotecas, onde até escreveu aquela sua obra, pretendia fazer uma crítica aos regimes totalitários de então, que viam o livro como um perigo e um inimigo, ao mesmo tempo que satirizava o poder da televisão e a alienação que ela exerce sobre a maioria das pessoas. Ao contrário do que pensam os ditadores, para nós é difícil imaginar a vida sem livros, sem os quais nós não seríamos nada. Por alguma razão, a literatura traz inquietação ao mundo e, como incomoda muita gente, quando os livros não são queimados na fogueira da Santa Inquisição, cen-

surados e proibidos, são os escritores condenados, exilados, presos quando surge uma ditadura. Se hoje recordo este intemporal livro é porque quero voltar à Biblioteca dos Bombeiros, com tempo para revisitar livros raros que ali se guardam, sempre à espera de novos leitores. Quero também lembrar o nobre exemplo de cidadania destes bombeiros e o seu contributo para organizar uma biblioteca como a nossa. Eram homens generosos, sensíveis e que apreciavam a cultura como uma forma de valorizar e enriquecer as suas vidas e foram pioneiros numa atitude que, naquele tempo, foi aplaudida e acarinhada também pela sociedade civil. De uma pequena estante nasceu uma biblioteca preservada e mantida pelas gerações vindouras, que estimulou os hábitos de leitura e que cresceu com a oferta de milhares de exemplares de colecções de livros raros. Sem poderem ter lido o romance Fahrenheit 451, que haveria de ser publicado na nossa época, como uma obra que pretendia prever o futuro, os primeiros bombeiros conheciam o valor dos livros e a importância de ter uma biblioteca. Se não leram esse romance, aqueles homens do final do séc. XIX, tiveram à sua disposição os grandes autores portugueses e estrangeiros, os clássicos e os contemporâneos e até aqueles que, sendo naturais da Régua, tinham sido publicados a nível nacional. Entre outras obras esquecidas de Afonso Soares, Bernardino Zagalo, Mário Bernardes Pereira, encontrei numa estante um pequeno livro de João de Lemos (1819-1890), poeta ultra-romântico, que ficou celebrizado pela poesia A Lua de Londres, que começa com estes memoráveis versos:

“É noite, o astro saudoso rompe a custo um plúmbeo céu, tolda-lhe o rosto formoso alvacento, húmido véu, traz perdida a cor de prata, nas águas não se retrata, não beija no campo a flor, não traz cortejo de estrelas, não fala de amor às belas, não fala aos homens de amor.” O livro do poeta reguense intitula-se Canções da Tarde e a sua primeira edição saiu na Typografia Portuguesa, de Lisboa, em 1875. Sobre esta obra em concreto não se sabe como a crítica fez a sua recensão, mas é interessante salientar que a poesia deste autor mereceu apreciações literárias positivas, como esta de J. A. Barreiros: “cantou o amor, Deus, a Pátria, sentimentos íntimos, em versos de acento melancólico e de grande emoção lírica. (…) O ritmo musical, em algumas composições, é de excelente efeito e apropriado à declamação.” O poeta ultra-romântico teve fiéis leitores e, apesar de as suas obras não serem actualmente reeditadas, o seu nome está referenciado nos compêndios da história da literatura portuguesa como um dos poetas mais marcantes da segunda geração romântica. Costuma dizer-se que “por trás de cada livro há uma pessoa” e por trás daquele exemplar, encadernado numa capa dura, de Canções da Tarde está alguém muito especial, a pessoa a quem pertenceu o livro, uma benfeitora que, depois de o usar, entendeu oferecê-lo à biblioteca Real Associação Humanitária dos “Bombeiros Voluntários”do Pezo da Regoa. Sabemos quem é essa mulher, ela não

SEMANÁRIO INDEPENDENTE DEFENSOR DO ALTO DOURO

quis deixar a sua dávida no anonimato e, na capa do exemplar, fez questão de a assinalar, escrevendo um “ offerece”, a que acrescentou, numa delicada caligrafia em tinta permanente, a sua identificação. Ainda bem que anotou o seu nome. Ficamos a conhecer a sua admiração literária pelos versos escritos por um poeta reguense e, porventura, o gosto pela poesia das senhoras do seu tempo. Ficamos a saber também que as obras de poesia romântica rechearam a estante da primitiva casa de leitura. E ficamos também com uma presença feminina num mundo que, na época, era praticamente um exclusivo masculino, mostrando que, também elas, mesmo não apagando incêndios, tinham outras formas de ajudar o próximo. A mulher que ofereceu aquele livro era esposa de um bombeiro, o primeiro Comandante, Manuel Maria de Magalhães, ele que chegou também a publicar nos jornais locais versos românticos. Foram as atitudes beneméritas iguais à de D. Leonor Cristina Ermida de Magalhães que fizeram sobreviver até aos nossos dias a biblioteca dos bombeiros, tendo sempre à disposição livros que podem não prever o futuro nos seus imensos detalhes, mas que são espelho dos tempos antigos e, sobretudo, daqueles que vivemos. Sejam livros de ficção científica a antever novos mundos, sejam os intemporais livros de poesia mais amorosa e ardente, sejam os mais clássicos ou sejam os mais modernos que têm aí lugar. Assim, ao longo dos tempos, esta biblioteca tornou-se numa verdadeira casa de leitura, como a desejaram os seus ousados fundadores e que não se ficaram pela missão voluntária de apagar os fogos nas casas da Rua da Bandeira e nos armazéns de vinhos da Ameixoeira e do Parreiral. Eles, que eram homens altruístas, generosos e cultos, acreditaram que o incentivo à leitura e, em geral, ao desenvolvimento cultural, se não salvam das chamas e das cinzas do fogo os bens materiais, pelo menos, salvam das cinzas da ignorância muitas vidas humanas. E foi desta maneira que a Régua, há mais de cem anos, teve a sua primeira biblioteca de natureza pública…um templo do conhecimento e de humanidade, graças ao espírito empreendedor dos seus bombeiros voluntários “da velha guarda”. José Alfredo Almeida

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