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Revista

de Design

edição 1 - Ano I - R$ 15,00


Ca p a Cadeira Vermelha e Azul, de Gerrit Rietveld, 1917. Foto: Divulgação

contaTo falecom@dz.com.br

Quer ido Leitor Exp e d iente Geoffrey Scarmelote

SecretÁria de redação Gabriella de Lucca

Assistente de redação Mariana Pasini

Revisão Nathália Moraes

Comercial Samantha de Tommaso

Reportagem Gabriella de Lucca, Geoffrey Scarmelote, Mariana Pasini, Nathália Moraes, Samantha de Tommaso

Conselheiro Editorial Carlos Roberto da Costa

Editora de Arte Fabiana Caruso

Colaboradores Eduardo Foresti (texto), Rafael de Queiroz, Raquel Faila (fotos)

Agradecimentos Aliki Ribas, Camila Mamede, Diogo Bercito, Ethel Leon, Helena Jacob, Renato Assada e Ricardo Rosado

O sa bor do n ovo Pela Equipe DZ Analisar o rótulo e extrair o conceito. Enumerar novidades. Falar de sentimentos. Teletransportar momentos fotográficos. Reunir as informações do mundo do design – editorial, de produto e de moda – pode soar superficial, fácil, pretensioso. Mas não é. Chegar a esse produto que você, leitor, tem agora em mãos, foi um grande exercício – não apenas jornalístico, mas de paciência, jogo de cintura, trabalho em equipe. Deparamo-nos com uma natureza transformadora, como a do design, com a missão de fazê-la transformar. Queremos que, a cada página, você reflita e se inspire para o desenvolvimento de seus trabalhos. E, principalmente, enriqueça seu repertório pessoal e profissional. DZ é uma revista bimestral de design que visa trazer ao mercado brasileiro uma publicação com conteúdo que incite à análise, ligado aos interesses tanto dos

Quem faz Em pé, da esquerda para a direita: Geoffrey, Gabriella e Samantha; sentadas: Mariana e Nathália.

FOTO: raquel faila

EdiTOR

profissionais como dos apreciadores dessa área. Chegamos com a proposta de esmiuçar processos criativos, materiais, pessoas e ideias por trás de um produto. Viaje conosco pelos passos do moveleiro francês Michel Arnoult. Surpreenda-se, como nós, com a expansão do graffiti. Celebre, sem reservas, os 90 anos da escola de Bauhaus. Participe da história dessa revista e envie seus trabalhos para a seção Portfólio. Sinta-se à vontade para, durante a leitura, explorar sua criatividade. Acreditamos que a arte e o design devem ser incentivados. A nossa intenção é oferecer, a cada página, possibilidades de reflexão e inspiração. Esperamos que, ao final dessa experiência, você tenha aprendido, ampliado seus horizontes e, sobretudo, aguarde ansiosamente – como nós – pelo próximo número.


Nesta Edição oult o n r A d e ue ensinou da de s o s s a a f ra n c ê s q o ser i ade ã ç u d Nos ip o o id nho d na pr ntabil

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O cam o a pensar ia e suste ir nc b ra s i l e c o m e l e g â s, t, móvei iaLigh V a d nadoo, proprietário ign mundial e i m u l O i i e L o t S e r g i s p a ra o d e s m R a s h i d Ronn ons tempo signer Kar i b e prevê eforço do d r vro i l m ganha gue u l ign u j e o des r e c p n Sem ca pa s livrarias, ve pelarateleiras da Nas p ativo ri dultaor ts exigem mais c a e d deiragrande, os toycriados a c n i B r p ra g e n t e p a ra s e r e m Feitos ia e estilo c turar tazes a paciên i n i ca em m ecr ia r a s Lego n m o Cineânico Craig Ly com peças de O br it s clássicos e rela nis e e d de film n i de Crs mesclam tê e m o e Síndsrivos, os sneak Exclu e ar te d o b ra s lata bana, o graffiti r e t r s ba t u ra u Va moor porado à cusl e públicos Já inc ovos r umo rno e n d a o h gan n Mda escola de do g i s e D n ó doão dos 90 anoflsuentes do mu v A A e m o ra ç n mais i s m a o d c a A u s, u m Bauha

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SUMÁRIO

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Seções

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Editorial Notas Compras 10 perguntas sobre Agenda Biblioteca Design BR Opinião


FOTOS: divulgação

Q ue n tin h a s

produtos Bem-humorados

Fique por dentro das últimas dicas de design

“Livrar o mundo da caretice, do óbvio e da escala de cinza e estampar um sorriso no rosto das pessoas”: esse é o lema de O Segredo do Vitório (www.osegredodovitorio.com). A loja on-line está no ar desde novembro de 2008 e é repleta de produtos divertidos e diferentes – a maioria de lojas estrangeiras que não entregam no Brasil, como as norte-americanas Fred & Friends e Kikkerland. O site foi criado pelo casal curitibano Paulo Stolfo e Flavia Bley, apaixonado por objetos coloridos e com design bem-humorado. A ideia por trás de ser apenas virtual, sem um espaço físico, foi a de atingir o nicho de pessoas acostumado a procurar esses produtos lá fora. “Apenas algumas lojas enviam para o Brasil. Quem dificulta é a Receita Federal, que tributa tudo com 60% do valor do produto mais o frete”, diz Flávia. “Sempre levávamos um susto com o que a Receita cobrava para retirarmos nossas compras nos correios. Pensávamos: ‘deve ter mais alguém neste país que goste dessas coisas!’, conta a proprietária do site. Agora, quem é o tal Vitório e qual o seu segredo... ah, isso eles não revelam!

Impasses atrasam chegada do IED ao Rio

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Programado para iniciar suas atividades em agosto, no antigo Cassino da Urca, o Instituto Europeo di Design (IED) está sem data definida para abrir as portas no Rio de Janeiro. Segundo o vereador Eliomar Coelho (PSOL/RJ), não houve licitação para o funcionamento do Instituto, nem estudo de impactos ambientais sobre a área de instalação. O tombamento do prédio, cedido ao IED pelo ex-prefeito César Maia em 2007, também dificulta o andamento das obras. O atual prefeito, Eduardo Paes, cogitou transferir a escola para o armazém 7 do Cais do Porto, mas recuou após reunir-se com os dirigentes do IED. Agora, a prefeitura tenta na Justiça o direito de concluir a reformado Cassino.

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Design com propósito Criado pelos designers italianos Pasquale Volpe e Tommaso Minnetti, o projeto Good 50 X 70 convida profissionais de todo o mundo a criar cartazes voltados às causas de diversas instituições internacionais, como WWF, Unicef, Anistia Internacional, Greenpeace e Unesco. Neste ano, 210 pôsteres – cujas medidas batizam a empreitada – foram selecionados para o catálogo, vendido no site www.good50x70.org. Os preços variam de 22 a 27 euros e a renda é revertida às agremiações participantes.


NOTAS

Zoo York quer loja própria no Brasil Desde setembro no país, a marca fundada pelos skatistas americanos Rodney Smith, Eli Morgan Gessner e Adam Schatzcriaram, em 1993, deve abrir sua primeira loja no Brasil no primeiro semestre do ano que vem, no shopping Cidade Jardim, em São Paulo. Voltada para a urbanwear, a Zoo York foi uma das primeiras a difundir o skate, o hip-hop, o punk e o grafitti como estilo de vida. Por aqui, a primeira coleção da grife apostou na mistura de estilos, no design e na estamparia. Tatuagens, grafites, ícones de Nova York, skate, surf e BMX são sempre parte do universo criativo da marca, que, por enquanto, vende seus produtos em lojas como Torquay e Tahai.

Novidades na Serpentine Galley O designer alemão Konstantin Grcic é o curador convidado para a primeira exposição de design da Serpentine Gallery, em Londres. Grcic trabalhará com o grupo de curadores fixos da galeria: Julia Peyton-Jones, Hans Ulrich Obrist e Kathryn Rattee. Convidar um curador de fora para selecionar e desenhar a exposição integra o conceito do pavilhão da Serpentine, que desde 2000 recebe projetos de artistas renomados. A mostra Real Design vai de 26 de novembro a 7 de fevereiro de 2010 e exibirá objetos de uso corrente, que estão em produção ou à venda. Haverá uma área com origens e processos produtivos de algumas das peças expostas.

Empresas reduzem embalagens para cortar custos Motivadas por apelo ecológico e necessidade de reduzir custos, as empresas de diversos segmentos diminuem novamente as medidas de suas embalagens, que chegam a ocupar apenas um quarto do volume anterior. Em alguns casos, a redução acontece com uma solução de design, sem que as quantidades sejam alteradas. Em outros, o produto é reformulado de tal maneira que, mesmo em versão compacta, tenha o mesmo conteúdo do original. Até o início de 2010, cinco grandes fabricantes de bens de consumo, como Unilever e Procter&Gamble, devem colocar versões menores de seus produtos nos supermercados brasileiros. Em tempos de crise financeira, garrafas, caixas e pacotes menores significam menos gastos com insumos na produção e mais economia em transporte e estocagem.


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PERFIL

nos passos de

Ar n o u l t Autor de móveis simples e funcionais, que não descartam conforto, durabilidade e estética, o francês é uma fonte de inspiração para o século 21

Por Mariana Pasini


Q

tos totalmente em madeira de reflorestamento e duram anos a fio. São cadeiras, poltronas, sofás, mesas e estantes feitas em formas econômicas e padronizadas, com o diferencial de serem desmontáveis. É o resultado da sensibilidade desse desenhista que conseguiu detectar um momento peculiar nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil. Com a crescente industrialização do país, a parcela da população que vivia na cidade saltou de 19 milhões para 138 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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uando chegou em terras brasileiras, em 1950, Michel Arnoult tinha ideias fervilhando na cabeça. Muito provavelmente, algumas delas diziam respeito ao presente que acabaria deixando ao país: um novo modo de pensar e fazer os móveis para a classe média, combinando produção seriada, bom gosto e durabilidade. Menos provável, porém, era que ele soubesse o quanto esses conceitos influenciariam toda uma geração de designers. Os produtos pensados por Arnoult têm linhas elegantes e contidas, são hoje fei-

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Arnoult previu cedo a importância da produção nacional


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importantes da Mobília Contemporânea, marca criada pelo designer com dois sócios em 1955. A empresa fabrica os móveis a partir de produtos originais que foram usados desde os anos 1960 e 1970 e duram até hoje. “Recebemos muitos elogios pela reedição dessa linha”, conta Silvia Serber, diretora de marketing da Atec. “E é incrível: os móveis realmente eram e ainda são de uma qualidade absurda. Podemos ver hoje, quarenta anos depois, que ainda existem produtos inteiros da Mobília Contemporânea”, completa. Nomear as criações não era o forte do designer, conforme relatos da família. Com exceção da cadeira Ouro Preto, cujo título Arnoult deixou designado, a Atec batizou todos os relançamentos com os nomes de lugares no Brasil admirados por ele, consultando sua família. São dez produtos fabricados em eucalipto reflorestado tingido no tom da imbuia, destinados tanto ao uso domiciliar quanto para escritórios.

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A indústria começava a fomentar o consumo desenfreado. O então presidente da República, Juscelino Kubitschek, anunciava os “50 anos em 5” que o Brasil deveria avançar. A classe média crescia, mas suas casas e apartamentos diminuíam, o que não significava a necessidade de poltronas, cadeiras e sofás feios e pouco resistentes. Arnoult se preocupava com o aproveitamento da matéria-prima e a produção racionalizada, o que garantia um preço mais acessível a seus móveis. Fazendo-os desmontáveis, facilitava seu transporte; ao variar as formas e recombiná-las, tornava-os eternos. Nenhuma de suas criações foi pensada como objeto de ostentação: o alvo sempre foi o grande público. Não está claro o paradeiro de boa parte dos projetos e desenhos técnicos dos móveis que Arnoult criou. Isso não impediu que a empresa Atec Original Design, com escritórios em São Paulo e no Rio de Janeiro, reeditasse desde o ano passado alguns dos exemplares mais

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A mesa Angra tem o eucalipto trabalhado com o máximo de aproveitamento

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i n spir a d or Não é pequeno o número de desenhistas influenciados por Arnoult. Nascido no Rio Grande do Sul, Fernando Jaeger é um deles. A partir de técnicas antigas de marcenaria, ele se preocupa em criar móveis sóbrios e “sem firulas”, num estilo quase espartano, como já foi considerado o trabalho de seu inspirador, e não tem preconceitos contra esse rótulo: “Talvez esse espartano esteja mais para ‘sintético’. Tem muito conceito atrás de um móvel assim. A ideia, a forma e a ergonomia mudam para atender a diferentes necessidades”. As cadeiras Twist e Croma de Jaeger são exemplos desses ideais. Os traços econômicos e sem formalidades originam formas anatômicas e corretas, que acolhem bem o corpo. Nos anos 1980, Jaeger foi o representante do francês na rede Tok&Stok, criada em São Paulo. O gaúcho discorre sobre madeiras e sustentabilidade

com o interesse e a familiaridade de quem sabe o que fala. Ao mesmo tempo em que Arnoult tentava desenvolver projetos sustentáveis em eucalipto com a empresa brasileira Aracruz Celulose, nos anos 1980, o desenhista voltou-se para a madeira reflorestada. A opção ocorreu involuntariamente. Ele havia escolhido, por acaso, a pinus -– madeira clara de reflorestamento cultivada pela empresa alemã Freudenberg no interior de São Paulo. Mas acabou identificando-se com o cultivo sustentável, já que a floresta era constantemente replantada e abastecia a indústria num ciclo ininterrupto. Jaeger ainda lembra do preconceito em relação ao eucalipto naquela época: “Havia alguns aficionados, mas ninguém nunca o olhou como uma madeira possível de ser usada na cadeia produtiva da indústria moveleira”, explica. “Viamno como matéria-prima para celulose, carvão ou forno de pizzaria”. O designer considera que o modo de pensar de Arnoult foi fundamental para que se fizesse um uso maior dessa madeira que, reflorestada, causa menos impactos na floresta nativa. Hoje, o eucalipto é largamente utilizado para a fabricação de móveis, mas ainda existem entraves logísticos, como o transporte da madeira, que encarece o produto final, e empresas intermediárias entre a madeireira e o profissional, que colocam preços mais salgados na matéria-prima. Sobre a dificuldade de encontrar madeira de reflorestamento para seus produtos, Jaeger tem um comentário singelo: “E daí?”.

Releituras da poltrona Pelicano feitas por Francisco Cálio (ao lado e acima)

Ele possui uma parte do seu showroom em São Paulo destinada a clientes com orçamento limitado. Assim como a adoção de material sustentável, Jaeger pensa que é uma questão de atitude a ser tomada. “Isso tudo diz respeito a como o móvel é produzido. Se você usa mais operações de máquina e mais matéria-prima, obviamente ele será mais caro. Se você racionaliza isso, consegue móveis bons, duráveis, bem construídos, confortáveis e com preços acessíveis”, esquematiza.


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homenagem em milão

Em 2003, aos 81 anos, Arnoult ganhou a 17ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira na categoria mobiliário, com a poltrona Pelicano. Estruturada em 9 quilos de madeira reflorestada e lona de algodão, fácil de montar, foi uma das criações do francês que mereceram releituras de nove designers brasileiros para a 1ª Mostra Brasil é Cosi. A mostra, integrante do projeto de mesmo nome que pretende divulgar o design brasileiro mundialmente, foi realizada no Salão Internacional do Móvel de Milão deste ano, entre 22 e 27 de abril. No espaço destinado a Arnoult, as releituras da poltrona, feitas por designers como Jum Nakao, Brunete Fraccaroli e Giovanna Nucci, alcançaram a repercussão esperada. Pedro Paulo Franco, designer e diretor da loja A Lot Of, que idealizou e realizou a mostra, pensa que a escolha do homenageado casou perfeitamente com os objetivos do Brasil é Così.

“O cenário do design atual apresenta duas vertentes diferentes: produtos seriados com consciência ecológica, concentrando processos de fabricação junto a um único material, e preocupações sociais e ecológicas, utilizando por exemplo madeira reflorestada”, afirma. “Essas conjunturas valorizam e respaldam todo o trabalho de Arnoult.” Franco é otimista: “O mundo hoje está mais preparado para assimilar os seus pensamentos”. O designer paulistano Francisco Cálio foi um dos escolhidos para reler a Pelicano. “Fiz um trabalho descontraído, modernizei a poltrona, que já é um ícone”, comenta. Grande admirador de Arnoult, Cálio discorre sobre a originalidade do francês com o entusiasmo de quem fala do trabalho de um mestre: “Ele foi um precursor. Inovou numa época em que as pessoas andavam conformadas”, lembra Cálio. “Criou algo inusitado atemporal, com possibilidades e funções ilimitadas: onde você colocar o móvel, ele compõe perfeitamente, seja na varanda, na sala ou no escritório”.

linhas leves Design espartano e sem firulas, as cadeiras Twist, de Fernando Jaeger, seguem a linha do francês

O interesse maior de Arnoult era antes fabricar móveis duráveis do que enriquecer com eles. Prova disso é a vida simples e elegante que levam os herdeiros do designer. Annick Arnoult, sua filha, mora no Butantã, em São Paulo, num sobrado típico de classe média, de espaços aconchegantes, móveis sóbrios e um quê de hippie. “Papai não era nada egoísta, não guardava segredos, estava sempre disposto a ajudar”, lembra a produtora musical. Tímida e reservada, ela fala do pai com humildade, carinho e brilho nos olhos. “Ele era workaholic, trabalhava muito, estava sempre inventando. As cadeiras da sala de jantar de nossa casa eram protótipos dos desenhos e trabalhos dele. Mas ele era também absolutamente apaixonado pelo que fazia”, conta.


PERFIL

d e sm o nt ando A rno ul t A história do designer que juntou boas ideias à produção racional e seriada

FOTOS: divulgação

Nascido em Paris em 1922, Michel Arnoult aprendeu marcenaria quando foi preso e obrigado a trabalhos forçados pelas tropas nazistas. Após se formar na União das Artes Decorativas, na capital francesa, ele topou trabalhar na Cidade do México para a empresa Bloc & Cia. A inovação e a experimentação que se enxergam em seu trabalho só poderiam ter saído da mesma mente inquieta e aventureira que, em 1950, dirigiu um jipe do México até Caracas e de lá para o Rio de Janeiro, motivada pela vontade de conhecer o arquiteto Oscar Niemeyer. E foi à porta dele que Arnoult bateu quando pisou em terras cariocas. Com a disposição de seus 28 anos, conseguiu um estágio no escritório do arquiteto, mas logo ficou claro que seu interesse maior era o design. O clima no Brasil era diferente, ele logo notou. A população parecia ser mais aberta aos estrangeiros do que no México e menos afeita a frescuras como os europeus. Arnoult cursou a Faculdade de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1951 a 1955 e então contratou um marceneiro em Curitiba para que ele fabricasse os móveis que desenhava. Estava criada a Mobília Contemporânea, empreendimento feito juntamente com os sócios Norman Westwater e Abel de Barros Lima. Com ela, os três venderam móveis simples e desmontáveis, e com o diferencial da venda por correio. Michel inaugurou o conceito Peg Lev: fabricados em série, seus produtos podiam ser comprados em supermercados e facilmente montados em casa. Avesso a burocracias e ao trabalho administrativo, Arnoult deixava-os por conta dos dois sócios. Em

1973, com 11 lojas no Brasil e o lançamento de novas linhas a cada três anos, a Mobília Contemporânea fechou as portas devido a complicações financeiras. Três anos depois, o francês inaugurou a Senta, que vinha com as mesmas propostas de sua primeira empresa: produtos charmosos, resistentes e leves, cuja montagem não consistia num desafio intelectual. Após o encerramento das atividades dessa companhia, ele compôs seus produtos para trabalhos sob encomenda. A sustentabilidade começou a marcar seu trabalho em 1980, quando participou de uma pesquisa sobre eucalipto no Instituto de Pesquisa Tecnológicas da Universidade de São Paulo. A partir dela, Arnoult encontrou novas técnicas de secagem para o eucalipto, e desenvolveu sua linha a partir dessa madeira reflorestada, com a qual foi o precursor no Brasil. Àquela época, a Europa já não permitia a fabricação de móveis com madeira que não fosse certificada. Mesmo que a madeira utilizada por Arnoult antes desse período não fosse reflorestada, a produção de seus móveis sempre foi pensada tendo em vista o melhor emprego e o menor desperdício possíveis da matéria-prima. Arnoult adotou o Brasil como pátria. Nunca abandonou o sotaque no português, mas aos poucos aportuguesou o francês. Gostava do clima, da atitude, e de uma brasileira em particular. A paulista Norma Paulo de Freitas morava num apartamento em cima da primeira loja da Mobília Contemporânea e foi com ela que ele se casou, em 1959. Teve dois filhos, Jean e Annick, que herdaram os dotes artísticos do pai: ele é músico, ela é produtora musical e possui formação na área de Moda.

Poltrona e banqueta Ouro Preto, a única linha batizada pelo designer


O iluminado Por Gabriella de Lucca

Ronnie Lot Sergio

comanda a ViaLight, empresa que

investe em luminárias

assinadas pelo

FOTO: nathália moraes

designer egípcio Karim Rashid


Hoje todo mundo reconhece as empresas italianas, alemãs e espanholas como fontes de design de qualidade. Por que não ter algo assim no Brasil?

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A ViaLight tem uma longa trajetória. Em 1984, o pai de Ronnie, Robin Santana Sergio, fundou-a como uma pequena loja de iluminação. Ainda na década de 1980, foi o precursor das luminárias tubulares e fluorescentes, além de criar uma linha decorativa. Dez anos depois de sua fundação, Ronnie entrou na empresa. Ele havia terminado o ensino médio nos Estados Unidos e, quando voltou para o Brasil, começou a cursar administração de empresas na faculdade Dom Pedro II, em sua cidade natal. “Tinha interesse em arquitetura, mas optei por administração para poder conciliar com o trabalho. Acho que foi uma escolha mais sensata, tomei o rumo certo”, avalia. Orientado pelo pai, mas sem nenhum privilégio por ser o “filho do dono”, trabalhou em diversos departamentos, aprendendo um pouco de cada função até se tornar um verdadeiro homem de negócios.

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Uma empresa falhará se não inovar criativamente. A afirmação do norte-americano Phillip Kotler – considerado o “pai do marketing” – durante visita ao Brasil, em 2007, não poderia ser melhor aproveitada pela ViaLight. O tímido Ronnie Lot Sergio, 33 anos, é diretor da empresa, sediada em São José do Rio Preto, sua cidade natal. A fala mansa e o sotaque do interior de São Paulo, com um sonoro “r” puxado, guardam muitas de suas ambições mais fortes. Em março e setembro deste ano, o empresário lançou duas linhas de luminárias desenhadas por Karim Rashid, inaugurando o segmento de design da empresa de iluminação. Ele comanda a ViaLight desde 2004, quando tornouse diretor. A partir daí, o primeiro passo foi adaptá-la ao seu perfil administrativo, deixando-a mais enxuta, competitiva e produtiva. Investiu em novos equipamentos, mais modernos e eficientes, melhorando o processo fabril. Também ampliou a participação no mercado de varejo com abertura de showrooms em Londrina (PR), Araçatuba (SP) e em São José do Rio Preto. Hoje, os produtos chegam a praticamente todos os estados no Brasil, além do comércio com Argentina, Chile, Paraguai e Venezuela.

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investimentos A experiência consolidada no mercado de luminárias permitiu voos mais altos: a empresa assinou, no final de 2005, um contrato com o designer egípcio Karim Rashid. Lançou, em março deste ano, uma linha de luminárias assinadas por ele. “O Karim tem um trabalho reconhecido mundialmente e isso agrega muito à nossa marca”, conta Ronnie. A escolha não foi mero acaso. O objetivo atual traçado pela ViaLight é focar em produtos de design. O fato de Karim ser estrangeiro, longe de revelar qualquer preconceito em relação à produção nacional,

Versão de mesa da luminária Ikon

FOTOs: nathália moraes / divulgação

está ligado à possibilidade de internacionalizar a empresa. “Com o Karim, a ViaLight fica mais valorizada”, analisa. “O produto pode ser oferecido e reconhecido no mundo inteiro”. Parcerias com o México e os Estados Unidos já estão em andamento. A maior preocupação de Ronnie é onde o produto será vendido. “Não adianta expor em qualquer lugar. É um artigo de design, a loja precisa ter esse perfil de venda”, explica. São oito tipos de luminárias divididas em duas linhas: uma delas é feita em aço com pequenas cruzes e asteriscos desenhados, por onde passa a luz. Já a outra tem como matéria-prima o vidro e ainda não tem previsão de lançamento. Em São Paulo, elas podem ser encontradas nas lojas A Lot Of e Zona D, mas devem ser comercializadas também em Teresina, Goiânia, Salvador, Santos e Rio de Janeiro. Atualmente, este novo segmento da empresa não tem pressa para se adaptar ao mercado e compreender sua dinâmica. A estratégia é consolidar o nome no Brasil e em seguida partir para outros mercados. A ViaLight é dividida em três ramificações. A primeira delas é a VR, marca de luminárias e ventiladores de teto, para vendas em atacado, que pode ser encontrada nas lojas Leroy Merlin e Balarot. O brasileiro André Cruz é o diretor de design da marca desde o início do ano e redesenhou alguns produtos, além de criar novos. Há também a ViaLight Projetos, que é voltada para o setor hoteleiro e empresas, e tem seus produtos vendidos nos show rooms. Ao perceber a necessidade de lançar luminárias Com o Karim, com design, foi criada a ViaLight Design, que iniciou suas atividades com a ViaLight fica a coleção de Karim Rashid. “Este é um mercado que está em expansão, mais valorizada. não podíamos ficar fora dele”, diz.


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próximo passo

O dinamismo e a novidade do mercado dão novo fôlego às ambições da ViaLight. E para concretizar tantos projetos, Ronnie conta com a ajuda de seus dois irmãos mais novos, Gustavo – que cuida da área comercial e visita lojas por todo o Brasil como supervisor de vendas – e Fábio, responsável pelos fornecedores internacionais. Casado há quase cinco anos, o empresário vive em sua cidade natal até hoje. Já teve um escritório da empresa em São Paulo, que não deu certo devido aos altos custos de manutenção. Depois dessa nova empreitada, o degrau seguinte será a parceria com algum designer brasileiro, que já seja reconhecido. “Ainda é cedo para lançarmos alguém menos conhecido, às vezes ele é tão bom ou melhor, mas precisamos consolidar a nossa marca para depois investir em novos talentos e, quem sabe, ajudá-los a fortalecer seu nome”.

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Não adianta expor em qualquer lugar. É um artigo de design.

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O empresário Ronnie Lot Sergio, comanda a ViaLight

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o queridinho

do design

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O designer egípcio Karin Rashid

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O rosto alongado e de traços fortes, escondido pelos óculos com armação de acetato, deixa transparecer o sucesso no qual transforma tudo em que põe as mãos. Nascido no Cairo em 18 de setembro de 1960, filho de pai egípcio e mãe inglesa, Karim Rashid foi criado no Canadá, estudou na Itália e hoje mora nos Estados Unidos. Considerado um dos maiores nomes do design atual, sua imaginação não tem limites, seja projetando hotéis, baladas, restaurantes, sapatos e até produtos de limpeza. Hoje, tem mais de dois mil produtos lançados no mercado. Formou-se em Desenho Industrial em 1982, na Carleton University, em Ottawa, e seguiu para a Itália para terminar seus estudos com grandes designers como Gaetano Pesce e Ettore Sottsass. Em 1993, inaugurou seu estúdio em Nova York.

Workaholic assumido, estão entre seus clientes Prada, Issey Miyake, Method, Umbra, Sony, Giorgio Armani, Grendene e Carolina Herrera. Ele também se arrisca como DJ e já tem dois CDs lançados e sete livros. Karim tem 70 objetos na coleção permanente de 14 museus pelo mundo, entre eles o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) e o Centro Pompidou, em Paris. Preocupado com o meio ambiente, está sempre inovando não só no design e na utilização de seus produtos, mas também na matéria-prima e em sua reutilização. Desenvolveu toda a linha de embalagens Method, fabricante de produtos de limpeza ecologicamente corretos. Suas fórmulas têm ingredientes biodegradáveis, derivados de materiais naturais como a soja e coco que surpreendem por seus formatos e cores.

Defensor do design democrático ou “designocracia”, termo que inventou, afirma que não trabalha pensando apenas na classe mais alta, mas em todas as pessoas. Segundo ele, o design não é só visual ou estético, mas está por toda parte e representa o que realmente é o mundo contemporâneo. Há dois anos, Karim vive na ponte aérea com o Brasil, onde já desenhou para a grife Melissa, assinando as sandálias Aranha, High e Dynamik. No ano passado, participou de uma palestra no Boom SP Design, em outubro. Na mesma época, inaugurou sua exposição no Instituto Tomie Ohtake, também em São Paulo, em cartaz até janeiro deste ano, exibindo suas últimas criações que exploravam o rosa, cor favorita do designer.


PERFIL Você costuma dizer que sua missão é democratizar o design. Como trabalha para isso?

KR

Desde criança, sempre me perguntei porque o design não poderia ser uma coisa mais democrática, que todo mundo pudesse aproveitar. Mas hoje ele é vendido em qualquer lugar. Primeiro, tento criar objetos democráticos, que possam ser comprados por todo mundo. Depois, procuro disseminar a cultura do design para o maior número de pessoas. Ele provoca mudanças no nosso dia-a-dia, no conforto. Há muitos pontos em que eu penso simultaneamente na hora de criar, como métodos de produção, matérias, uso, tecnologia, conforto, comportamento, forma, estética, custo, mobilidade, transporte e o mais importante: a cultura da companhia para a qual estou trabalhando. Se não há um casamento entre minha ideologia e a deles, então o projeto não será bem-sucedido. O design não é um ato egoísta, ele é colaborativo e deve ser para todos, não só para a elite. Sempre comparo desenhar um objeto bastante democrático com escrever uma música que se torne um hit pop. Algumas pessoas podem fazer isso e, quando acontece, há um sentimento maravilhoso de que você consegue causar um impacto na memória das pessoas.

Quais materiais prefere usar?

KR

Apesar de trabalhar com todos os materiais, amo plástico. Ele é muito melhor do que qualquer material natural e possui ótimas propriedades. Agora estou trabalhando com diversos bioplásticos. A oportunidade de criar novas formas, objetos que são altamente complexos e orgânicos, só pode ser feita com plásticos e bioplásticos. Eles também são melhores do que processos rápidos de manufatura para fazer produtos mais democráticos. Eu trabalho pela frase “a forma segue o produto”, e as formas do futuro serão inspiradas pela matéria de cada artigo. Meu interesse é torná-las mais sensuais, humanas, evocativas e esculturais tanto quanto for possível, tentando encontrar uma nova forma que nunca existiu.

Porque o rosa é tão predominante nas suas criações?

KR

Rosa é meu branco super otimista. É enérgico, fulgente, envolvente, uma coragem para o mundo masculino que domina a paisagem que construímos. Existem muitas variações e tons de rosa para todos os gostos, todas as pessoas. A cor também comunica claramente a ideia de imaterialidade, entropia, energia e otimismo. Rosa é o novo preto! Alguém disse uma vez que eu faço formas masculinas virarem femininas. O mesmo vale para a minha cor favorita. A cor é um dos fenômenos mais belos da nossa existência. É vida. Para mim é uma forma de lidar e tocar com nossas emoções, nossa psique, nosso espírito. Algumas cores são suaves, outras são fortes, o que importa é que elas trabalhem juntas. Ela pode ser bem ou mal usada, mas ninguém deve ter medo dela. É uma euforia espiritual fenomenológica. O que acha do design brasileiro?

KR

O Brasil é um epicentro incrível de cultura, arte, beleza e contemporaneidade. Isso tudo é tão onipresente no país! Eu também acho que a cultura é vibrante, positiva e otimista, e esse é o ambiente perfeito para o design. Mas o Brasil tem uma longa tradição de ter design feito apenas por brasileiros. Agora é que estão começando a sair do país e abrindo portas para designers de todo o mundo. A ViaLight é um grande exemplo disso.

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Rosa é meu branco super otimista


N

unca julgue um livro pela capa”, diz o velho ditado popular. A máxima, disparada em situações que exigem análise

profunda, é o oposto do que sugere o design editorial. Entre milhares de títulos expostos em uma livraria, o que faz com que uma ou outra publicação se destaque é a aparência. Fotografias de belas paisagens, cores fortes e marcantes, padronagens que imitam tecidos e até o título escrito de maneira rebuscada: vale tudo para chamar a atenção do comprador. De posse da obra, o leitor também se depara com um outro tipo de desenho, que inclui a tipografia e a diagramação. Formado em Editoração pela Escola de Co-

á Por Nath

s

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municação e Artes da Universidade de São

es

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Paulo (ECA-USP), Ricardo Assis é proprietário da Negrito Produção Editorial, sediada em São Paulo e há oito anos no mercado. A empresa, que publica em média dez títulos por mês, sur-

m u e julgu ela p o r v li

giu da necessidade de Assis profissionalizar a grande demanda de trabalhos que executava como freelancer.

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Ele acredita que um projeto bem feito é essencialmente invisível. “O que a editoração deve fazer é permitir o transe, aquele estado em que a pessoa está em contato direto com a história e as ideias do autor, sem sequer reparar no tipo de fonte ou papel utilizados no livro”, explica. “Quando alguém agarra uma publicação e a devora, página após página, existe um trabalho de editoração bem executado atrás da história interessante, pois o design permite essa

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condição. Ao mesmo tempo, quem de nós não tentou ler livros e mal passou da terceira página?”, questiona Assis. “Muitas vezes a leitura pode ser tão desconfortável que, somada às idéias do autor, nos afasta definitivamente de uma obra.”


DESIGN GRÁFICO

Capa do designer Ricardo Assis

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FOTOs: divulgação

Não dá para fazer um bom projeto gráfico sem conhecer a fundo a intenção de quem escreve

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Fábio Uehara, também egresso da ECA-USP, é responsável pelo departamento de capas da Companhia das Letras. Sediada em São Paulo, há 22 anos no mercado e com quase 2.500 títulos publicados (mais de 230 só no ano passado), a editora mantém três selos: Cia. das Letras, Companhia das Letrinhas e Companhia de Bolso. Em todos, a produção conta com profissionais contratados (designers) e colaboradores (pesquisa iconográfica e ilustradores). “O destaque na prateleira vem pela criatividade e elegância, uma tipografia alinhada, uma imagem plástica bem escolhida e interessante. Tudo isso distribuído em uma boa diagramação”, diz Uehara, leitor assíduo desde criança que escolheu o ofício para unir o gosto por leitura e desenho.

Na Companhia das Letras, a criação dos trabalhos passa por diversas fases. “Os projetos são iniciados com o editor-chefe, o editor responsável do livro e a diretoria do departamento de produção. Depois, entra o designer gráfico”, destrincha Uehara. A equipe é guiada pelo briefing, que pode ser tanto um estilo a ser seguido, uma imagem sugerida pelo autor ou o conteúdo do livro, deixando o capista apresentar a sua própria interpretação da obra. A Negrito Produção Editorial tem na literatura a referência para a paginação dos volumes. “O editor de arte deve ter contato direto com o texto original do autor, entender a estrutura, como é a divisão dos capítulos e das partes, se a obra tem citações e notas de rodapé. Não dá para fazer um bom projeto gráfico sem conhecer a fundo a intenção de quem escreve”, acredita Assis.

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Produção e inspiração

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Capas de Fábio Uehara, da Companhia das Letras. Para cada livro, cores e imagens que traduzem a mensagem da obra. Em Descobertas Perdidas, um de seus trabalhos favoritos, o destaque fica por conta da pirâmide maia em Chichen Itzá, no México.

FOTOs: divulgação

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DESIGN GRÁFICO


Trabalhos de Ricardo Assis, que ganhou o Prêmio Jabuti com o projeto de A Plumária Indígena Brasileira

Guerra de canetas Não é raro o autor interferir na editoração sem conhecer exatamente as ferramentas e conceitos utilizados na hora de paginar. Ricardo Assis alerta que o bom editor media os conflitos entre autores e departamento de arte. O processo para alcançar uma boa diagramação é essencialmente igual para os dois lados da moeda: conhecer o livro, entender a estrutura e começar o trabalho. O responsável pela Negrito acrescenta: o designer não pode ser preguiçoso na busca por inovações. “Temos que experimentar pequenas variações de tamanho de letra e entrelinhamento e tipo de grafia até chegar à obra ideal. O design de livros deve prestar atenção especialmente aos pequenos detalhes”, afirma.

Buscar referências nas artes plásticas, fotografia, cinema e ilustração também integram a concepção de um projeto exemplar. Fábio Uehara lembra a importância de conhecer a história e a atualidade do design, além de arte e cultura. “O livro é, simultaneamente, um objeto cultural e comercial”, explica. Para quem crê que o bom profissional deve ter vastos conhecimentos de desenho e artes plásticas, Ricardo Assis – que afirma não dominar as técnicas de desenho e caligrafia – avisa: “O necessário é ser um bom leitor. Essa é a premissa básica para fazer bons projetos”. Afinal, o design de livros deve traduzir visualmente o conteúdo de uma obra.


Feitos para os grandinhos, os Toy Art mesclam a inocência dos bonecos e a ousadia da estética urbana Por Samantha De Tommaso

FOTOs: divulgação / samantha de tommaso

M

eras semelhanças aproximam os Toy Art de peças decorativas ou brinquedos. Os “brinquedos arte”, como são também conhecidos, tornaram-se verdadeiros objetos de desejo de colecionadores em todo o mundo. Trazem uma linguagem adulta, muitas vezes irônica, que dialoga com uma cultura diferente daquela vista em bonecos tradicionais. O precursor foi Michael Lau, um designer de Hong Kong, formado pelo Design First Institute, que, em 1997, customizou versões urbanizadas de G.I. Joe (os famosos Comandos em Ação da Hasbro) para uma banda musical de amigos. No lugar das roupas militares tradicionais, usou nos personagens peças da cultura hip-hop americana e da arte do skate, parte do seu universo.


ARTE URBANA

onde comprar Plastik rua Dr. Melo Alves, 459 São Paulo – SP tel. (11) 3081-2056

Poderosa Ísis rua Augusta, 2202 São Paulo – SP tel. (11) 3091-9636 Katkiller www.katkiller.com.br Wassabe www.wassabe.com

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Casa Dissenso rua Pinheiros, 747 São Paulo - SP tel. (11) 3061-9842

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Livraria Pop rua Dr. V. de Carvalho Pinto, 297 São Paulo – SP tel. (11) 3081-7865

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A iniciativa de Lau desencadeou o movimento Toy Art, um verdadeiro fascínio por bonecos colecionáveis, que serviu como uma ponte para que artistas pudessem reproduzir sua arte e exprimir sua identidade em um objeto 3D. Designers, artistas plásticos, ilustradores e grafiteiros estão entre os que criam e consomem os toys. As embalagens, geralmente, exibem a mensagem “voltado ao público adulto”. Se antes ter um bichinho de pelúcia ou uma boneca transformava o consumidor crescido em motivo de chacota, com o Toy Art não há esse risco. O surgimento dos toys veio como uma espécie de libertação para os adultos. Calcados no conceito de contestação, esses bonecos exibem traços futurísticos e nada ingênuos, e representam a arte contemporânea. Você encontrará desde figuras deprimidas, agressivas e irônicas, até monstrinhos e humanoides. Não estranhe uma eventual identificação com esses personagens e até a criação de um laço afetivo que faça querer levá-los para casa. Algum desejo de infância pode ter sido resgatado. Outra peculiaridade é a tiragem limitada. Os artistas criam um modelo e reproduzem poucas peças, que dificilmente serão iguais. Elas geralmente são numeradas e assinadas para garantir a autenticidade e con-

ferir um caráter de item de coleção. Alguns toys são customizados apenas uma vez, o que lhes atribui um valor ainda maior. Os materiais utilizados variam entre vinil, tecido, argila, madeira, canvas, metal, resina e porcelana. Após a criação das plataformas, os artistas podem comercializá-las em branco (sem pintar), para que o consumidor ou outros artistas possam customizá-las por conta própria. Esse processo é conhecido como DIY (Do It Yourself) – “faça você mesmo”, na tradução para o português. Na Plastik, primeiro e maior distribuidor especializado em Toy Art do país, você encontra os DIY, inclusive os famosos moldes Munny e Dunny, desenvolvidos pela empresa americana Kid Robot (maior do gênero), do designer Paul Budnitz. Criada em 2006 por Nina Sanders, a Plastik possui o diferencial de reunir loja, galeria e livraria em um mesmo espaço. A sede fica no bairro dos Jardins, em São Paulo, e ali são comercializados mais de 500 produtos nacionais e importados. Essa paulistana de 28 anos, formada em História da Arte pela Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, é também colecionadora de toys e possui mais de 200 peças. Foi assim que surgiu a ideia de abrir a loja. “Meu primeiro contato foi em 2002, quando comprei um toy na Kid Robot. Depois do primeiro, nunca mais parei. Em qualquer viagem que fazia para o exterior, comprava um”, disse Nina em entrevista ao site de notícias UOL em maio deste ano. Nossa reportagem traz mais alguns artistas desse universo.

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sem fronteiras

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Bastam 52 centímetros de pano para que o paulistano Josmar Madureira, de 39 anos, reproduza com originalidade grandes astros da música, cinema, moda, cultura pop e da arte em geral. Publicitário por formação, ilustrador e designer freelancer, Josmar fundou, em 2005, a Katkiller – um estúdio de criação que, inicialmente, funcionava como grife de camisetas. Ali eram desenvolvidas estampas inteligentes e criativas, tanto para a própria marca quanto para outras grifes. Inspirada em ícones pop e desenvolvida toda em pano, a linha de Toy Art da Katkiller surgiu em 2007. Devido à repercussão e à demanda, não demorou até que os bonecos se tornassem o carrochefe da marca. Apontado como um dos precursores do movimento Toy Art no Brasil, Josmar conta que “a ideia era fazer uma releitura de algo que estava há muito tempo guardado no fundo do baú – os tradicionais bonecos de pano dos tempos de nossos avós”. O artista discorda de quem acha que os bonecos são exclusividade dos adultos. Ele acredita ter desenvolvido um produto único e completo, que atende a todas as faixas etárias, agradando pais e filhos. “É contemporâneo e conceitual, funciona muito bem como artigo de decoração e, o melhor de tudo, é colorido e divertido”, esmiúça o artista.

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Cláudia Holanda e Cris Mergulhão

Além do intuito lúdico, a Katkiller vende seus toys como um produto sustentável, que utiliza materiais ecologicamente corretos. Os bonecos são confeccionados em algodão cru (corpo), tecidos diversos (roupa), fibra de poliéster 100% virgem (enchimento antialérgico) e face silkada e/ou pintada com tinta à base de água. Uma equipe de apenas cinco pessoas compõe a empresa. A tiragem mensal de bonecos gira entre 200 e 250 peças. A Katkiller vende toys para todo o Brasil, bem como para a Inglaterra e os Emirados Árabes. No catálogo, há uma variedade de mais de 40 modelos, cada qual com seu grau de complexidade. Consequentemente, cada peça leva um tempo específico para ser produzida. Entre as maiores conquistas da grife estão projetos firmados com a Colcci, a MTV e a Patachou, que solicitaram a confecção de toys personalizados. “A busca por um posicionamento de vanguarda tem feito com que esse tipo de cliente nos procure para criar artifícios que imprimam seus conceitos. A Toy Art, sem dúvidas, possibilita isso”, explica o designer. A contemporaneidade de seus bonecos rendeu a Josmar a oportunidade de figurar entre os maiores nomes da Toy Art mundial, junto a Tokidoki, Jon Burgerman e Gary Baseman. Louis Bou, em seu livro Toyland (Instituto Monsa de Ediciones, 255 págs, R$ 107), publicou nesse ano as criações da Katkiller.


ARTE URBANA

Josmar Madureira

negócio entre irmãs As irmãs Cláudia Holanda e Cris Mergulhão, naturais de Recife (PE), encontraram no graffiti e na moda underground contemporânea a inspiração para criar a Urbanus Toys, uma marca de Toy Art desenvolvida em cerâmica. Cris é formada em arquitetura e trabalhou na área de ambientação e design de móveis antes de ingressar nos trabalhos em cerâmica. Cláudia formou-se na área de saúde, mas logo descobriu nas artes plásticas uma alternativa prazerosa, o que lhe abriu portas para trabalhar com pintura em tecido e serigrafia. Em 2001, as duas decidiram trabalhar juntas com modelagem e pintura em cerâmica, produzindo luminárias, fontes e outros objetos de decoração. Apenas em 2007 surgiu a ideia de criar bonecos. “Achamos que fazer toys em cerâmica seria algo inovador, pois não conhecíamos nenhum outro trabalho de Toy Art feito com essa técnica”, conta Cris. “Ficamos muito satisfeitas com o resultado da primeira coleção, que foi bem aceita nas lojas de design daqui.

Logo apresentamos nossos toys em São Paulo e também tivemos uma excelente recepção”, completa. As artistas usam como base para criação dos personagens a estética da arte urbana. “Nossos personagens são punks, emos, monstrinhos. Alguns são meio góticos, outros mais fofinhos. Não acho que tem um estilo único. Alguns são mais figurativos, outros mais lúdicos”, explica a arquiteta. A Urbanus Toys produz, em média, 50 peças a cada quinze dias. Todas as modelagens das matrizes são criadas pelas irmãs, cuja coleção soma 14 modelos. As lojas para as quais elas vendem seus toys, entre elas a Livraria Pop, não mantêm estoque. Os pedidos chegam com a especificação do modelo e da quantidade dos toys, mas a pintura fica a critério das artistas. “Pela impossibilidade de reprodução perfeita, deixamos essa etapa mais livre, ao gosto da nossa inspiração”, diz Cris.


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Marina Moura

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Bruno Oliveira


ARTE URBANA

toys em equipe No ateliê Onze & Onze, três artistas trabalham com pintura e serigrafia, reproduzem gravuras, cartazes para shows e criam Toy Art. O recém-chegado Thiago Balbi, de 29 anos e natural de Taubaté, interior de São Paulo, é formado em Desenho Industrial e Programação Visual pela Faculdade de Belas Artes. Já fez ilustrações para revistas como Fórum e Caros Amigos e foi responsável pelo desenvolvimento do projeto gráfico do CD e DVD acústico dos Engenheiros do Hawaii, em 2004, pela Universal Music e MTV Brasil. Thiago está no processo de desenvolvimento do seu primeiro toy – um peixe com cara de totem. A designer Marina Moura tem 25 anos e é formada há quatro em Desenho Industrial pela FAAP. É pós-graduada em curadoria na Espanha. Hoje, trabalha como freelancer em comunicação visual. Para corar o extenso currículo, Marina criou o toy Banana Love. Ela tem verdadeira paixão por desenhar e pintar, e o personagem que deu origem ao Banana Love já existia em suas ilustrações e telas. Essa foi a primeira peça em resina que o ateliê produziu. Eles tiveram a ideia de fazer um item pequeno, leve, com aproximadamente três polegadas, feito a partir de um único molde – bem próximo aos que são vendidos no mercado. Portanto, fizeram uma plataforma oca, com a resina só na parte externa. E para manter o caráter da originalidade, típico do Toy Art, a tiragem limitou-se a apenas cem peças. “É um objeto de colecionador. É aí que está a arte. Eu fiz cem e acabou. E dessas cem, a cada dez, seis são marrons, três são roxas e apenas uma é dourada, que é a mais rara”, explica Marina. As bonecas vêm em blind boxes, isto é, quem compra não sabe o que tem dentro. Cada peça é pintada, flocada uma a uma, assinada e numerada. A Banana Love custa 40 reais e hoje só é vendida na Casa Dissenso e na Livraria Pop. Em breve, estará disponível também na loja virtual Wassabe. O namorado de Marina, Bruno Oliveira, de 26 anos, formou-se em Audiovisual pela Anhembi-Morumbi e, posteriormente, fez uma licenciatura em Artes Plásticas na Faculdade Mozarteum. Suas criações em Toy Art são o Toco, o Minitoco e o Minitoco Deluxe. Ele trabalha como artista plástico há seis anos. O pai tem o mesmo ofício e os dois já tiveram um ateliê juntos. “A coisa vem de família”, diz bem-humorado.

Os toys de Bruno também têm tiragem limitada. Primeiro, veio o Minitoco, em apenas 50 peças. O tronquinho de árvore é feito de canvas – tem o mesmo preenchimento dos bichos de pelúcia e por fora é de tela. Já do Minitoco Deluxe, que está para ser lançado, serão produzidas 200 unidades. O diferencial é que esses vêm em blind boxes, e além do galho da versão original, trazem também um tentáculo ou uma cabeça de alce. Além das plataformas próprias, Bruno foi convidado a customizar o toy Lobinho DYI, criação da loja virtual Wassabe. O artista pintou à mão três peças para uma promoção que a marca lançou para o Dia dos Namorados. A polivalência é mesmo um de seus pontos fortes. “Foi ele quem modelou e fez todo o estudo para produzir a Banana Love em toy”, orgulha-se Marina. Ela explica que até certo ponto o processo é manual, depois torna-se semi-artesanal. “É preciso de um molde para produção em série. Primeiro é feito um desenho de onde são tiradas as medidas de cada parte, para só então começar a modelagem em clay, uma argila sintética. Depois, há um molde de silicone e dele tiramos as peças. Para conseguir o produto final, pegamos duas peças em resina e cada uma delas é trabalhada e lixada até que fiquem perfeitas. Tudo é executado no ateliê, até as embalagens”, esclarece a designer. E a característica multifacetada de Bruno não para por aí. “Convenci a Marina a fazer o toy. Cuido do processo inteiro, desde a confecção, a distribuição, até a venda, tanto que depois peguei a mochila e fui de loja em loja oferecer”, diz o namorado e braço direito. Em setembro, os dois participaram da exposição Reprodutíveis – série 3, da galeria RV Cultura e Arte, em Salvador (BA), ao lado de artistas como Adriano Lemos e Arthur D’Araujo. Eles acreditam que aqueles que fazem Toy Art, geralmente, não ganham dinheiro com isso, mas sim com exposições, palestras, entre outras coisas. “O toy é uma extensão do trabalho do artista”, afirma Bruno. A ideia do casal é tentar lançar mais linhas em um ano. 2010 promete!


abrindo portas Maíra, ao lado de Alessandro Braga, é dona da Poderosa Ísis, uma espécie de loja e galeria charmosa, na rua Augusta, em São Paulo, que comercializa roupas, acessórios e objetos de arte. Ela conheceu Adriano enquanto ambos expunham em feiras, como Mercado Mundo Mix, Como Assim? e Pulgueiro. Hoje, são bons amigos e parceiros de negócio. Segundo Maíra, as telas de Adriano são o maior atrativo da loja. E reconhece também a transformação no estilo do amigo. “O traço dele mudou muito ao longo do tempo. Era mais ingênuo. Se você olhar os desenhos mais antigos, vai notar a diferença”, relata. “Há poucos dias, vendi algumas das peças dele para um merchant”, conta, orgulhosa. Além dos trabalhos do pernambucano, a Poderosa Ísis oferece produtos de vários outros artistas nacionais de Toy Art. Entre eles, Fabíola Cally, criadora da personagem Tôsqka, Ismael Lito, autor do Paleolito – um dos primeiros DIY de vinil lançados no Brasil – e Delfina Renck Reis, dona da Dodô Dadá Toy Art. Para Maíra, é essencial estimular a arte brasileira. “É muito gratificante abrir as portas para vários artistas, porque de alguma forma estamos valorizando o trabalho deles também”, desabafa. “Como dificilmente rolam feiras de designers aqui no Brasil, esses artistas acabam fazendo feirinhas de artesanato, que no meu ver, depreciam um pouco a arte. Imagine o toy ou a tela expostos ao lado do pano de prato!”

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Adriano Lemos

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ARTE URBANA

Maíra e Alessandro Braga

arretado e moderno Figuras góticas, parecidas com os personagens dos filmes de Tim Burton, mas de um traço único, é o que encontramos nas criações de Adriano Lemos, pernambucano de Afogados da Ingazeira. De lá, ele só trouxe as raízes. Com um mês de vida, Adriano já viajava com a mãe rumo a São Paulo. E foi na capital paulista que o gosto pela arte tomou forma. Ele concluiu o curso de Desenho de Comunicação em 2000, na Escola Técnica Estadual Carlos de Campos – uma instituição que faz parte do patrimônio histórico da cidade de São Paulo – e no mesmo ano começou a vender seus primeiros bonecos, feitos em porcelana fria, a conhecida massa de biscuit. Três anos antes, houve tentativas em durepox. Por ser um material de difícil manuseio, o projeto não foi levado adiante. Somente mais tarde, a mãe de uma amiga recomendou a massa de biscuit. Foi quando a inspiração de adolescente se concretizou em bonecos punks e skatistas, que logo tiveram grande receptividade, pois eram inovadores para a época. Mais tarde, teve a ideia de divulgar seu trabalho em feiras de design, e como não dispunha de verbas, a alternativa foi montar sua banca do lado de fora. A qualidade das peças chamou a atenção dos organizadores, que o convidaram para os eventos. Quando a onda Toy Art invadiu o mercado, Adriano se interessou pelos moldes de vinil e resolveu estudar alguns livros, que usou como referência para, posteriormente, em setembro de 2008, criar o Fooze, sua própria

plataforma DIY. A figura passou dos rascunhos em papel para a modelagem em biscuit, depois para a forma em silicone e, por último, a uma peça acabada, que deu origem ao molde final. Então, ele contratou os serviços de uma fábrica e produziu as primeiras 200 peças. Um shopping de Ribeirão Preto (SP), cliente da mesma fábrica, conheceu o trabalho de Adriano e entrou em contato para comprar uma tiragem dos toys, que eles dariam como brinde no Dia dos Namorados. No processo industrial, uma máscara de serigrafia foi usada para produzir 20 mil peças dos quatro modelos customizados pela agência do próprio cliente. Já os toys de customização própria são pintados à mão, um a um, com pincel e tinta vinílica. Em alguns, são utilizadas canetas de marcar CD. Há modelos tão complexos que demandam sete horas de trabalho. Esses são produtos mais caros, comercializados em torno de 200 reais. “Os Fooze que customizo são únicos. Nunca um vai ser igual a outro e eu até prefiro fazer pinturas diferentes para cada toy”, diz o artista plástico que, aliás, não se sente muito confortável com o termo. “Prefiro dizer que sou marceneiro. Se digo que sou artista plástico, o povo vai me achar metido”, brinca. Além dos toys, Adriano cria outros tipos de bonecos, luminárias e também pinta telas. O traço ousado das pinturas veio da época em que ele dividiu uma loja de artes com Maíra Maciel. “Tínhamos o espaço, mas nada para colocar nas paredes, então resolvi pintar”, conta.


Cinema em miniatura O designer britânico Craig Lyons recria pôsteres de filmes famosos com peças do brinquedo Lego

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Por Gabriella de Lucca e Nathália Moraes

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C

riado na década de 1950, o brinquedo

No repertório do artista estão, entre outros,

de montar – inventado originalmente

Indiana Jones e Cães de Aluguel, que segun-

para crianças – é uma febre no mundo

do ele, foi o mais trabalhoso de ser produzido,

pop, especialmente na música, cinema e games.

pois foi necessário fotografar os bonequinhos

Nascido na cidade de Bourne, em Lincolnshire,

um a um para montar o cartaz. Para recriar os

no Reino Unido, o designer gráfico Craig Lyons

pôsteres, Lyons monta a cena usando Lego e

tem uma coleção de mais de 10 mil peças de

depois a fotografa. Na maioria das vezes, usa

Lego. Sua paixão pelo brinquedo – e também

o Photoshop para dar o acerto final e incluir o

por cinema – fez com que começasse a recriar

logo do filme. Resultado: um trabalho artístico e

pôsteres de filmes com os famosos bloquinhos.

bastante criativo. A seguir você confere alguns

Seu primeiro trabalho foi Tubarão. “É o meu fa-

dos cartazes feitos pelo britânico.

vorito”, conta Lyons.


FOTOs: divulgação

ENSAIO

Com os braços de um boneco e uma peça feita de rosquinha, Lyons recriou o cartaz de Simpsons - O Filme, mas também usou o Photoshop para finalizar o pôster.


O cartaz de E.T. – O Extraterrestre, filme ícone da década de 1980, é composto exclusivamente com

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peças do brinquedo dinamarquês.

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ENSAIO


O primeiro trabalho de Craig Lyons – e o seu favorito – recria o cartaz de Tubarão, clássico

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produzido por Steven Spielberg.

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ENSAIO

Harry Potter e a Ordem da Fênix deixa os bonecos do Lego com um ar sombrio. O mais curioso é que o designer não esqueceu de fazer a cicatriz na testa de Harry, grande marca do bruxinho.


Síndrome de

Cinderela

Ter um calçado único deixou de ser mote do conto de fadas e virou realidade por meio dos sneakers Por Nathália Moraes

S

er a escolhida do príncipe por ter um sapato exclusivo, de cristal, com tamanho único. Se o conto de fadas soa antigo, a modernidade

já se encarregou de fazer a releitura de Cinderela. Em inglês, sneaker é um dos termos que designam

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tênis. Mas a moda conferiu outra conotação à pala-

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vra, agora relacionada aos calçados exclusivos, com design arrojado e fora da proposta esportiva. Os sneakers são cada vez mais procurados pelos fashionistas, que buscam peças customizadas e com ar retrô. Quanto mais original for o calçado, melhor. “Dentro de qualquer círculo social, uma pessoa com um modelo exclusivo lança tendência, pois tem nos pés um objeto de desejo”, diz a designer Kate Lu. Nossa reportagem foi buscar quais caminhos esses tênis tão bacanas têm percorrido pelo Brasil.


moda

Sneaker customizado pelo grafiteiro Jimmy, que tem como referĂŞncia o hip hop


W

estado e ao movimento musical manguebeat.

2005, no formato blog, para agregar e difundir

Feito em couro, mescla as cores azul e creme e

a cultura sneaker. “Percebi que ninguém falava

possui um solado transparente, com marcas de

sobre o assunto, até então desconhecido aqui

lama e um caranguejo de miçangas coloridas.

no Brasil”, conta Ricardo Nunes, criador da pá-

Pontos verdes, amarelos e vermelhos estão

gina. Após um ano e meio no ar, o blog virou

nos cadarços, palmilhas e na parte superior do

um mini-portal dedicado a cobrir a cena de sne-

sneaker e que lembram as lantejoulas e brilhos

akers no país, que dava os primeiros passos,

existentes nas vestes típicas dos lanceiros. A

além de trazer informações em português so-

versão foi vendida em algumas lojas, com tira-

bre os lançamentos globais.

gem de 330 pares.

No aniversário de dois anos do portal, Ricar-

Para celebrar o terceiro ano do site, mais

do foi convidado pela Nike a desenhar um tênis

uma peça comemorativa – dessa vez, assinada

comemorativo em homenagem ao site. O sne-

pela designer Kate Lu, em parceria com a Dia-

aker foi batizado de Lanceiro, desenhado com

dora. Formada em administração de empresas,

base no modelo Air Max 1 (que acabava de ser

Kate abandonou o mercado financeiro para tra-

lançado e é assinado por Fabrício Machado, da

balhar com design. Hoje, migrou para desenvol-

Nike). Para criar esse tênis, Ricardo baseou-se

vimento de linguagem off-line para empresas e

em sua terra natal, Recife, capital pernambuca-

adorou ser convidada para desenhar um tênis.

na. O nome, Lanceiro ou Caboclo de Lança, re-

“Fazer um sneaker é muito bacana, porque

mete aos maracatus rurais da Zona da Mata do

você sabe que as pessoas vão desejar aquele

Fazer um sneaker é muito bacana, porque você sabe que as pessoas vão desejar aquele tênis FOTOS: divulgação

Da eb para os pés

O site Sneakers BR surgiu em dezembro de


moda

tênis” relata. “Você expressa a sua arte em um produto que é pouco convencional”. Para desenvolver o calçado, a empresa disponibilizou diversos modelos e materiais. A autora ainda sugeriu algumas mudanças para deixar o sneaker com a cara da página na web. “O tênis precisava ter alguns elementos que existem também no site, pois é comemorativo. Para fazer isso, seguimos uma tabela de cores e algumas referências do Sneakers BR. Não foi tão difícil buscar os materiais”, avalia. Há apenas 48 pares em todo o planeta, enviados a colecionadores e formadores de opinião dentro da cultura deste tipo de calçado. “A edição será publicada na Sneaker Freaker, que é a revista mais importante do seguimento no mundo. Ela tem três edições anuais e é considerada a Bíblia dos sneakers”, explica Kate. “Todo tênis que sai lá se torna uma referência mundial” arremata, orgulhosa de seu trabalho.

Modelo Lanceiro, desenhado em comemoração ao aniversário de dois anos do Sneakers BR


moda

Calçar um sneaker pelo qual você pagou muito e não gostar é chato

subúrbio

Chic

“Foi natural eu entrar no universo sneaker, pois o mundo em que vivo é movido por essa cultura, que inclui o hip hop”, diz Jimmy, grafiteiro, tatuador e custom – que, ao contrário dos designers, não chega a criar um projeto desde seu princípio, mas personaliza modelos de tênis de acordo com suas ideias ou pedidos. Ele conta que já gostava de sneakers desde que via, em filmes antigos, os grafiteiros fazendo tênis para os B-boys (dançarinos de breakdance) irem às batalhas de hip hop em Nova York. Começou pintando os tênis dos amigos, mas não vingou. “No início, pintei uns dois pares com todas as tintas erradas. Conforme usavam, as tintas saíram de uma maneira bizarra, grudavam na calça”, conta.


çado customizado é a exclusividade. “Podem

Estados Unidos, Espanha e Alemanha, possui

olhar, achar muito característico, muito ‘style’, e

sneakers com o toque, cores e desenhos do

decidir comprar o calçado” explica. Mas, mes-

grafiteiro, que nunca imaginou tanto sucesso.

mo considerando a cultura da customização um

Para quem acredita que a cultura sneaker

trunfo, ele acredita que a mania ainda não pe-

fica apenas no pé dos usuários, Jimmy con-

gou no Brasil. “O tênis é um suporte muito caro.

ta que já foi convidado para diversas exposi-

Calçar um sneaker pelo qual você pagou muito

ções sobre o tema, tanto em lojas quanto em

e não gostar é chato”, completa.

galerias de arte, e cheg ou a desenhar um

Suas referências vêm do cotidiano, univer-

modelo gigante para uma mostra. “Teve um

so urbano, moda conceitual e da cultura hip

projeto da Nike, em São Paulo, realizado jun-

hop. “Quando fiz sapatos femininos, procurei

to à revista Good, de moda. Nesse trabalho,

colocar um aspecto mais conceitual no cal-

pintei um Air Max 90 gigante”, lembra. “O tê-

çado, tanto no acabamento quanto nos mate-

nis pode ser considerado um quadro. Então,

riais, mas sempre conectado ao graffiti”, conta

os donos de galeria procuram os customiza-

Jimmy, que vende seus trabalhos com a ajuda

dores”, conclui Jimmy.

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da internet. Gente de diversos países, como

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Jimmy reforça: a grande vantagem do cal-

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Versão Star Wars, de Jimmy

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moda

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EXclusivo por

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Popó vive em dois mundos muito diferentes. Para ganhar a vida, trabalha como restaurador de quadros e convive com obras de grandes pintores brasileiros, como Portinari, Volpi e Di Cavalcanti. Porém, nas horas livres, gosta mesmo é de pintar paredes com seus graffitis. “O trabalho que paga minhas contas, há quatro anos, é o de restauração. Nele, cuido de grandes obras, enquanto no meu mundo acabo sujando a cidade”, brinca o grafiteiro. O mundo que Popó chama de seu é um universo bem urbano, que inclui o graffiti, o skate e também os sneakers, que ele customiza, por acaso, desde 2006, quando sua namorada concluía a faculdade de moda. “Ela estava fazendo o trabalho de conclusão de curso e ajudei nos calçados. Pintei alguns All Stars e personalizei uma galocha com tinta permanente”, lembra. Na mesma época, Popó se interessou pela customização de tênis em couro e consultou o amigo Jimmy: “Ele consome a cultura sneaker há muito mais tempo que eu e me ensinou bastante”, conta. “Lembro quando a gente começou a andar de skate. Saíamos de Guarulhos para vir para a Barra Funda, porque havia uma loja que vendia tênis de skate por um preço mais bacana”, diz Popó.

Acaso Para ele, a customização é uma saída para quem busca exclusividade sem sacrificar o bolso. “Os tênis mais legais são também os mais caros. Por isso, as pessoas fazem o sneaker do seu jeito. Em vez de pagar 450 reais em um calçado, a galera pode aplicar 150 reais em algumas tintas, pintar e ganhar exclusividade”, explica o grafiteiro, que possui um blog no portal da MTV. Lá, conta as novidades sobre sneakers e exibe vídeos para ensinar técnicas de customização. Para produzir, Popó segue as sugestões do cliente. “Escolhido o tema, pesquiso conceitos para aplicar. Muitas vezes, o próprio tênis me dá dicas sobre qual desenho posso encaixar, como posso brincar com as formas”, explica. E já que a customização não “paga as contas”, Popó aproveita para trabalhar tranquilamente nos pares – o que faz apenas quando está inspirado. “Cada tênis tem um carinho especial, um jeitinho certo. Por isso, posso demorar mais de um mês para acabar”.

Calçado customizado pelo restaurador Popó, que costuma seguir as sugestões dos clientes


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vamos bater lata Emblema da cultura de rua, o graffiti rompeu barreiras sociais e paredes de galerias para ganhar o status de movimento artístico Por Geoffrey Scarmelote e Samantha De Tommaso

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FOTOS: divulgação / samantha de tommaso

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odificar o espaço público por meio da arte. Descrever assim a proposta da intervenção urbana, em poucas linhas, pode remeter à simplicidade. Então, cuidado! O ato de pegar latas de tinta e grafitar muros por aí esconde histórias, paixões, caminhos e movimentos mais complexos do que o produto final pode revelar. O graffiti teve início há milhares de anos, com as pinturas rupestres nas paredes das cavernas, durante o período Paleolítico Superior (40.000 a.C.). A evolução dos traços, a passagem para as telas e o retrato do cotidiano dão a tônica de um dos mais difundidos elementos da arte urbana ao redor do mundo.


Arte urbana

Arte no banheiro O paulistano Celso Gitahy, de 41 anos, começou no graffiti com rabiscos. “Percebi que o banheiro de bar é muito interessante, porque tem aquela caixa de descarga. E quando o homem está urinando fica olhando pro alto, tendo aquela sensação de alívio que é muito interessante. Pensei ‘puxa, esse negócio branquinho aqui’... Aí eu comecei a desenhar”, conta, bem-humorado. A brincadeira evoluiu. Na segunda metade da década de 1980, durante a faculdade, Gitahy aprendeu com os amigos grafiteiros Maurício Villaça e Alex Vallauri as técnicas de stêncil e não parou mais. Hoje, alçou a nova abrangência do graffiti: as exposições. Pet Machine figurou até o mês passado na Mônica Filgueiras Galeria de Arte. Os 30 trabalhos, desenvolvidos ao longo da carreira de Gitahy, mostram “uma perspectiva poética e animal do caos e da insanidade da obsessão humana com máquinas em detrimento do ser vivo: a banalização da vida”.

Celso Gitahy e os seus principais trabalhos


Arte urbana

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Velhos tracos, novos rumos

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O graffiti ainda encontra certa resistência de crítica e público para encarar mostras e exposições. É para quebrar essa barreira que José Carlos “Baixo” Ribeiro, de 43 anos, estilista especializado em skate, rock e graffiti, abriu a Galeria Choque Cultural, no bairro de Pinheiros, São Paulo. “O jovem não é muito bem contemplado pelos espaços artísticos, que geralmente são muito formais e criam um ambiente um pouco chato pra galera mais nova, que tem uma experiência visual muito mais poluída pra chegar numa galeria, ou num museu muito comportado”, explica. “A ideia da Choque Cultual é criar um público novo para as artes plásticas. É uma galeria focada em pintura, que tem a cidade como suporte”, arremata. Em setembro, o arquiteto por formação começou uma nova empreitada, o Acervo da Choque. A nova galeria fica na Vila Madalena e abriga todo o acervo da Choque Cultural, além de ter exposições dos artistas que fazem parte da galeria. Quem inaugura o espaço é TitiFreak, que fica em cartaz com a exposição AmorInsistente até dia 14 de novembro.

Baixo Ribeiro ousou ao criar a galeria Choque Cultural e proporcionar um novo espaço ao graffiti


Grafiteiro, gracas a Deus A veia underground do graffiti, porém, continua latente. Binho Ribeiro, um dos principais nomes do street art mundial e um dos pioneiros no Brasil e América Latina, já trabalhou com embalagens e cenografia. Mesmo assim, cultiva as raízes urbanas de sua arte. “Sou grafiteiro, graças a Deus. Quando a gente pinta na rua, não tem essa pretensão de conseguir trabalhos ou de fazer algo que a sociedade acha lindo”, comenta. “Fazemos algo dentro do conceito do que realmente queremos. Sempre tive bastante oportunidade no lado profissional dentro da cultura do graffiti, desde a decoração de uma loja de skate a grandes projetos e encontros. Um lado se agrega ao outro”, arremata.

Binho Ribeiro não abre mão das raízes marginais do underground


Do bueiro para o mundo

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Os paulistanos do Duo 6emeia são um bom exemplo de como o graffiti pode sedimentar uma carreira artística. Anderson Augusto, o “São”, de 26 anos, é ilustrador, designer e grafiteiro. Chegou a cursar Design Gráfico na Universidade Anhembi Morumbi, mas não concluiu. Leonardo Ávila Fontes, o Delafuente, de 27 anos, é artista plástico, desenhista e pintor. Formou-se técnico em Design Gráfico.

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Duo 6emeia deu nova cara à Barra Funda

Amigos dos tempos de ginásio, ambos herdaram da família o gosto pelas artes. Os irmãos de Anderson são desenhistas e o pai de Leonardo é artista plástico. Após perderem o contato na adolescência, reencontraram-se em 2006. Começaram a desenhar juntos, e então surgiu a ideia de colorir os bueiros da Barra Funda, onde moram, com graffitis. “Modificamos o bairro pra melhor. Todo mundo está acostumado a ver cinzas e sujeira. Quando veem algo colorido, um personagem rabiscado, acham graça e dão risada sozinhos”, diverte-se Delafuente. Com a iniciativa, veio a necessidade de criar um nome para assinar os trabalhos. 6emeia foi uma inspiração no único horário em que os dois ponteiros do relógio apontam para baixo. “A ideia é fazer as pessoas olharem para a calçada enquanto andam, prestando atenção nos bueiros coloridos”, explica São. A notoriedade veio após a publicação de fotos dos bueiros na internet. O Wooster Collective, um site americano que celebra a arte de rua, teve acesso às imagens e publicou uma matéria sobre a dupla. Na sequência, o site hospedeiro Fotolog escreveu uma reportagem sobre os amigos.

Vários usuários os adicionaram e começaram a replicar os trabalhos. Com isso, outros veículos entraram em contato, a maioria de fora do Brasil, como o diário italiano La Repubblica, a sucursal irlandesa do gratuito Metro e a revista francesa Shoes Up.


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Em julho deste ano, o 6emeia viajou a trabalho para a Europa. A convite da organizadora do Slot Art Festival, em Lubiaz, na Polônia, eles fizeram um trabalho de live paint (pintura ao vivo) em um mosteiro abandonado do século 16, além de palestras. Da Polônia, São e Delafuente seguiram para Karslruhe, na Alemanha, onde pintaram as fachadas laterais da instituição de arte Steiger. Para os próximos meses, a dupla deve continuar com o projeto de revitalização de áreas degradas da capital paulista. “Com essa repercussão toda, a gente vai tentar alguma autorização junto à Telefônica e à Eletropaulo para trabalhar em postes de luz e telefone”, explica São. Sinal de que ainda vem muita tinta por aí.

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A avó do design moderno Celeiro de ideias, a Bauhaus completa 90 anos em 2009, enquanto estudiosos e profissionais ainda avaliam suas Contribuições para o design mundial

Por Gabriella de Lucca, Geoffrey Scarmelote e Mariana Pasini


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Bauhaus Dessau, o edifĂ­cio-sede da escola, desde 1925

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FOto: Keute, Jochen

arquitetura

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Cartaz para a exposição itinerante da Bauhaus em Basileia, 1929 e, abaixo, cartaz de Joost Schmidt para a exposição Bauhaus de 1923, em Weimar

Candeeiro de mesa de vidro, de Karl J. Jucker e Wilhelm Wagenfeld, 1923-24

Tapeçaria de parede de Anni Albers, 1926

Cadeira em ripas de madeira, segunda versão, de Marcel Breuner, 1923 Cadeira de madeira com contraplacado leve, de Marcel Breuer, 1924


capa

O

objetivo último de todo trabalho plástico é a construção”. A frase, do arquiteto alemão Walter Gropius, inicia o manifesto Bauhaus, datado de 1919. Em 2009, chegou ao nonagésimo aniversário a escola de design mais influente já erguida, tanto por papel e concreto, quanto por ideias e pessoas. Epicentro de círculos de intelectuais e designers, a Bauhaus, do alemão “Casa de Construção”, abrigou um turbilhão de diferentes vertentes artísticas no meio de um debate intenso em torno das relações entre design, artesanato, arte e indústria. Funcionalistas, produtivistas e construtivistas deixaram sua marca no DNA da escola, fazendo com que essa mistura de interpretações e pontos de vista continue sendo sua maior contribuição, além de uma influência inominável em áreas como arquitetura, design, arte e pedagogia. A Bauhaus procurou fomentar um design sóbrio, buscando nas formas geométricas de inspiração construtivista a linguagem universal que fizesse dialogar os diferentes gostos dos indivíduos. Essa linguagem foi a solução da escola

para o problema da forma no design industrial e unir a arte e a técnica, questão em voga desde o século anterior ao do seu surgimento. Entre as contribuições da escola para o design atual, estão a aceitação dos metais em móveis e objetos de maneira explícita e aberta, o que antes era inimaginável. A escola foi tema de exposição em Berlim até o mês passado, no centro de arte Marin-GropiusBau, em comemoração aos seus 90 anos. A mostra, batizad de Bauhaus, um Modelo Conceitual, contoou com peças do Mudeu de Arte Moderna de Nova York (MoMa). Até janeiro de 2010, as Sullivan Galleries da School of the Art Institute of Chicago (SAIC), nos Estados Unidos, abrigam a exposição Learning Modern, com instalações, vídeos e trabalhos difitais inspirados na herança da escola. É o mundo comemorando os 90 anos.

Carimbo da Bauhaus Estatal de Weimar, concebido por Oskar Schlemmer, 1992

Alegre ascensão, litografia de Kandisky, 1923


Bagas Silvestres de Paul Klee, 1921-22

Walter Gropius em 1920

Jarro com tampa e decoração gravada, de Otto Lindig, 1922

Esquema de cor para interior de um apartamento, Wilhelm Jacob Hess, 1932

O Golpe Contra a Bauhaus, colagem de Iwao Yamawaki, 1932; e, à direita, o primeiro carimbo utilizado pela Bauhaus de 1919 a 1922, concebido por Karl-Peter Röhl Reunião no pátio após o encerramento da escola, em abril de 1933


Ao longo de seus breves – mas produtivos – 14 anos de existência, a Bauhaus atravessou fases distintas de acordo com a cabeça de quem a dirigia. Entre 1919 e 1928, sob a batuta de Gropius, a educação voltou-se para o ensino e o estudo do design – apesar de seu projeto inicial de dedicação maior à arquitetura, o departamento dessa forma de arte da escola só foi aberto em 1927. O curso, conta Marcos Braga, era configurado entre um grupo de artes, outro de oficinas artesãs, com a presença do mestre artesão, e um ciclo profissional com a arquitetu-

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Antes da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha promovia uma política de Estado que incentivava a observação do desenho industrial feito ao redor do mundo. “Eles levaram isso tão a sério que chegam a mandar pessoas importantes para fora da Alemanha para investigar e observar como era resolvida a questão do desenho para a indústria e para a arquitetura em outros países”, explica Marcos Braga, professor de História do Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Ao aplicar tais conceitos na indústria nacional para fomentar a competição com a Inglaterra, o país buscava a unificação das formas e a padronização dos gostos, na contramão do Arts and Crafts, movimento inglês que pregava a volta ao artesanato nos moldes medievais, condenando a produção mecanizada. Com objetos tipificados, os bens industrializados alemães ganhariam o mercado interno e, depois, o externo. A partir daí, dois designers e intelectuais se posicionaram a partir de visões opostas. Hermann Muthesius, de um lado, defendia formas padronizadas e estandardizadas, que minimizassem diferenciações e pudessem ser produzidas – e consumidas – em larga escala. Do outro, Henry van der Velde, artista belga do art nouveau, também admitia a importância da produção seriada, mas apostava em peças que permitissem mais experimentações e variações, produzidas num volume menor. Enquanto o primeiro condicionava a estética de um objeto à sua funcionalidade, o segundo não separava ou diferenciava esses dois aspectos. Por ser estrangeiro, van der Velde não assumiu um projeto novo que se colocava à época: uma escola que unisse o artesanato, a arte e a produção industrial. O escolhido foi o jovem berlinense Walter Gropius (1883-1969) que, embora tenha sido inicialmente

ra como eixo de formação. “Você tinha uma formação artística, uma formação artesã e uma formação em arquitetura. A Bauhaus recupera alguns conceitos e tentativas de união de arte e técnica para qualificar o produto industrial. Isso é um debate típico do século 19.” Em seguida, quando Adolf Meyer assumiu a direção, a Bauhaus voltou aos ideais de Hermann Muthesius, porém de forma adaptada ao comunismo: a padronização traria um barateamento dos produtos, que então se tornariam acessíveis aos operários. Depauperada, a escola não experimentou grandes inovações com Mies van der Rohe, seu último diretor, e foi fechada pelo regime nazista em 1933. Por conta do estilo padronizado e frio que pregava, a escola já chegou a ser apontada como fonte de inspiração para os prédios cinzentos e sem vida das grandes cidades e para o desenho apático dos produtos modernos. “Isso aconteceu pela apropriação deturpada do mercado internacional em cima de algumas premissas da Bauhaus apenas no lado da linguagem estética, não dos aspectos políticos e sociais de democratizar a boa forma garantindo a funcionalidade da arquitetura”, conta Braga. A Bauhaus influenciou o design das décadas de 1950 e 1960 como nenhuma outra escola de design. A partir da fundação da WtG-Ulm, o modo de pensar a atividade foi se espalhando pelo mundo. O que hoje é conhecido como “estilo Bauhaus” é o nome dado pelos norte-americanos o trabalho originado na insitiuição comandada Gropius. Nesse período, entre 1922 e 1923, a Bauhaus chegou ao auge e sofreu maior influência construtivista – o que também contribuiu para que os nazistas a relacionassem aos bolcheviques russos, os principais propagadores do construtivismo. Um fato interessante é que, anos depois, os próprios nazistas utilizaram as formas da Bauhaus no desenho industrial e na arquitetura – ou seja, o conflito com a instituição era apenas político.

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Um pouco de história

influenciado por Muthesius, aos poucos se aproximava do modo de pensar de van der Velde. O que o fez mudar de idéia? “A Primeira Guerra Mundial, que aconteceu numa proporção violenta, num volume de matança como nunca tinha ocorrido antes, provocou desilusões na intelectualidade com a tecnologia”, explica Marcos Braga. Em 1919, na República de Weimar, surgiu a Staatliches Bauhaus, ou Casa Estatal da Construção, a partir da união da Escola do Grão-Duque para Artes Plásticas de Weimar, que foi dirigida por van der Velde e fechada em 1915, e de outra Escola Superior de Belas Artes também em Weimar, a Kunstgewerberschule. Ao fundá-la, com o apoio do governo weimariano, Gropius já tinha em mente o foco num design mais artesanal. Como ele pregou no Manifesto Bauhaus, artistas e artesãos deveriam, em conjunto, pensar a estrutura dos produtos.

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capa

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Braga avalia que o grande legado da Bauhaus está no modo do ensino. O estudioso afirma que a instituição germânica, síntese dos debates artísticos que movimentaram o mundo entre os séculos 19 e 20, influencia até hoje a criação de design a partir de núcleos ligados às artes. “Durante décadas, influenciou escolas no mundo todo a ideia de ter uma formação básica que passe pelas artes, pelo artesanato, pela formação técnica e pela formação conceitual das formas. Desde a percepção ao trabalho com as cores, essa noção de uma preparação básica é o grande mérito da Bauhaus”, diz. Interpretar a escola como um conceito pedagógico é fundamental para entender sua chegada ao Brasil. O ponto de vista é defendido pelo professor Pedro Luís Sousa, docente de Desenho Industrial na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Precisamos salientar que os objetivos de um conceito pedagógico são sempre formadores, ou seja, visam a capacitação de seus alunos para um tipo de trabalho”, explica. “No caso da Bauhaus, um tipo de trabalho inovador. Nesse aspecto, ela teve uma influência muito limitada no Brasil”, defende. Para Fernando Vázquez, arquiteto espanhol radicado no Brasil que teve a Bauhaus como objeto de estudo de doutorado, a principal porta da instituição no país foram as revistas alemãs que circularam, principalmente, no Rio de Janeiro durante a década de 1930 – como a Die Form e Moderne Bauformen. Vázquez salienta, porém, que o acesso a esses veículos era restrito. “O alemão não era uma língua muito popular ou divulgada no Brasil, o que certamente reduzia o número de leitores. Provavelmente, a influência foi mais visual do que erudita”, esmiúça. Professores e ex-alunos da Bauhaus estiveram no Brasil, porém apenas de forma particular, sem que pudessem

FOto: Armando Vernaglia Junior

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Brasil? Prazer, Bauhaus

exercer maiores interferências no ensino ou mesmo na formulação de conceitos pedagógicos. Walter Gropius nos visitou, estabeleceu contatos com arquitetos brasileiros, alguns ligados ao projeto do Ministério da Educação no Rio de Janeiro (Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemayer, Lucio Costa, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos), considerado um marco da arquitetura moderna do país. Porém, segundo Sousa, a influência mais forte nesse projeto foi do francês Le Corbusier e não da arquitetura alemã. O artista plástico e arquiteto suíço Max Bill (1908-1994), cujo reconhecimento inicial de seu valor artístico deu-se através da premiação na 1ª Bienal de São Paulo, estabeleceu alguns vínculos e foi sempre um tema de discussão para grupos ligados tanto ao design como à arte concreta no país. Bill foi um dos responsáveis pela difusão dos conceitos da Bauhaus em todo o mundo, através não apenas de suas obras nas artes plásticas, bem como em artigos e ensaios. Nascido na Bélgica, Alexander S. Buddeüs também deixou sua marca por aqui. Lecionou durante dois anos no curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas-Artes, dirigido por Lúcio Costa, além de construir alguns edifícios no Rio e em Salvador, onde ergueu, entre 1932 e 1936, o Instituto do Cacau. O arquiteto alemão Alexandre Altberg foi responsável por alguns edifícios racionalistas até os anos 1940. Seus trabalhos concentraram-se na então capital federal. Algumas residências foram modificadas, mas ainda estão de pé, na rua Paul Redfern, em Ipanema. “Deve-se interpretar tais influências como um fenômeno indireto, já renovado em relação ao que seriam os pressupostos de uma pedagogia propedêutica da Bauhaus”, destaca o professor da UFRJ. Fernando Vazquez vai além. “A participação desses arquitetos na formação da Arquitetura Moderna no Brasil pode ser considerada depreciável”, dispara.


capa

O projeto do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), um dos mais populares ícones da capital paulista, é da arquiteta modernista ítalo-brasileira Lina Bo Bardi


FOto: Guilhermino Pinheiro

No edifício CBI Esplanada, em São Paulo, o polonês Lucjan Korngold adotou técnicas inovadoras para criar uma arquitetura simples e equilibrada


capa Casa Sommerfeld, Berlim, 1920-21, de Walter Gropius e Adolf Meyer, foi o primeiro grande projeto

igrejinha

FOto: divulgação

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Supremo Tribunal Federal, em Brasília-DF

FOtos: Marcelo Barbosa

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Igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha, também de Oscar Niemeyer. A construção durou apenas 100 dias.

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Segundo Vázquez, o estudo do fenômeno Bauhaus desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial foi mais importante para marcar algum tipo de influência se comparado à experiência direta, especialmente em design gráfico. “Artistas como Antonio Maluf, criador do cartaz da 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, foram fortemente influenciados pela estética tipográfica da Bauhaus”, relata. “Relacionado com este tipo de influencia podemos lembrar a exposição da obra de Max Bill em 1950. Não encontro, na arquitetura anterior aos anos 1950, influências diretas do ‘estilo’ Bauhaus na arquitetura moderna no Brasil. O cenário tomou forma, certamente, na órbita do racionalismo francês representado por Le Corbusier e seus seguidores nativos, Lucio Costa e Oscar Niemeyer”, completa. Porém, ele ressalta que os anos 1950 foram importantes para marcar uma revisão do pensamento Bauhaus por parte de arquitetos e fundamentalmente de artistas plásticos.

A arquitetura do Clube dos Marimbás, projeto de Lucio Costa em parceria com Gregori Warchavchik, reflete a herança do movimento modernista

FOto: Ana Maria Cotrim

Efeitos pós-guerra

A presença da Bauhaus no ensino brasileiro, de fato, só pode ser considerada através de fontes indiretas, a partir década de 1960, com a criação da Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro, a ESDI. Essa instituição foi bastante influenciada pelos padrões pedagógicos da HfG-Ulm, Hochschule fur Gestaltung de Ulm, escola alemã fundada no início da década de 1950, considerada inicialmente como uma sucessão da Bauhaus e dirigida por seu ex-aluno Max Bill. “Outras eventuais influências ou iniciativas isoladas podem ter ocorrido. Porém, não tiveram um caráter de continuidade, essencial para que se possa analisar criticamente um processo pedagógico”, analisa Sousa. “Professores e ex-alunos da Bauhaus estiveram no Brasil, porém apenas de forma particular, sem que pudessem exercer maiores interferências no ensino ou mesmo na formulação de conceitos pedagógicos”, completa o docente da UFRJ.


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FOto: Marcelo Barbosa

Bauhaus 2.0

Edifício do Congresso Nacional do Brasil inaugurado em 1960 e projetado por Oscar Niemeyer

Ainda hoje, os conceitos que romperam as fronteiras da cidade germânica de Weimar reverberam nas mais diversas áreas – inclusive a internet. Vinicius Madureira, diretor de arte e publicitário que coordenou diversas equipes de criação em agências web, acredita na integração entre a Bauhaus e a rede mundial de computadores. Para ele, o fácil acesso à informação via internet diminuiu as disparidades e trouxe à baila um mundo muito mais voltado para resultados em curto prazo. Por consequência, os jovens se distanciaram dos conceitos de design e arte, inclusive na hora de desenvolver sites. “Essa busca pela perfeição em tão pouco tempo tem feito muitos novos profissionais optarem por um caminho curto, ou seja, aprender a executar o design sem entendê-lo”, afirma Madureira. “Vemos muitos que criam com destreza, mas são simplesmente ótimos operadores de computador – que desconhecem, inclusive, os conceitos que utilizaram para criar”, completa. Formado pela Faculdade Cásper Líbero e Webdesigner pelo Senac-SP, Frederico Antonelli faz coro a Vinícius Madureira. “Aprendemos a técnica, não a teoria. Podemos afirmar que o curso de webdesign hoje equivale ao de datilografia há alguns anos. É uma maneira fácil e rápida de conquistar um emprego”, diz. Para ele, o cenário é alarmante, pois no curso de webdesign, ninguém pensa em mídias sociais. “Quem tem o know-how de programação não se interessa pelo potencial comunicativo da internet. E os jornalistas, que são preparados para pensar a comunicação e em como transmitir uma mensagem, não sabem ou não se interessam por layouts para a web”, explica Antonelli. “Aliar webdesign à informação é essencial, é uma nova porta que se abre, mas quase ninguém explora. Ou por preguiça, ou por distração, ou por ignorância”, conclui.

Para romper esse ciclo, Vinicius Madureira propõe a aplicação da estética da Bauhaus na construção das páginas virtuais. Como? “Com um layout simples e funcional. Um bom exemplo é o site do tablóide inglês The Guardian”, cita. Os recursos disponíveis nas páginas, como barras de busca e nuvem de tags – um espaço que destaca os termos mais presentes no site – também podem ser associados ao funcionalismo da escola alemã. “Essas ferramentas obedecem ao preceito de que a forma deve resultar da perfeita adequação à função. O motivo de uma barra de buscas se adapta à função de procurar o conteúdo desejado”, esquematiza. “O problema hoje em dia é saber usar estes elementos na dose certa”, arremata. De acordo com Madureira, o uso dos conceitos estéticos também confere mais identidade ao trabalho do webdesigner. Ele reforça que a Bauhaus primava em ser funcional nos projetos, e que o desenvolvimento de um produto deve reter as necessidades de quem irá usá-lo, sempre de forma elegante e com visual limpo. “Designers como Marcel Breuer, que desenvolveu a famosa cadeira Wassily, replicada no mundo inteiro, mostram bem o que é unir a criatividade à estética funcional”, lembra. “Traduzir isto para a web é apenas mudar o meio, o design sempre será o mesmo, sempre será projeto, independente do lugar que estiver”, sugere o publicitário. E Frederico Antonelli complementa: “É preciso ter criatividade, sim. Mas é bom lembrar que para alcançá-la são necessários 1% de inspiração e 99% de transpiração”.


Esparramados Aliar beleza e conforto nem sempre é fácil. Confira os conceitos e soluções de alguns designers de móveis para conquistar o público.

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Por Gabriella de Lucca e Nathália Moraes

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Poltrona Fusca, de Kiko Sobrino e Alessandro Jordão


Produto

no sofá A “

credito que o design tenha que gerar sensações”. A sentença é de André Cruz, designer de móveis que sempre tenta mesclar a beleza

e o conforto em suas criações. Mas nem todos os projetos conseguem reunir um formato arrojado e conforto. Quem nunca bateu o olho em um sofá ou em uma cadeira, imaginou-se na posição mais aconchegante possível, mas, após sentar, saiu com aquela dor nas

comodidade. “Tem gente que gosta de comprar determinados objetos que não trazem nenhum conforto, mas a presença deles naquele ambiente os deixa tão satisfeitos que isso basta”, explica o designer André Marx. Nossa reportagem verificou para qual público estão voltados os conceitos que motivam os designers e empresários na hora de criar ou comercializar seus produtos.

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Há quem preze o formato do móvel em detrimento à

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na estética e no conforto que o produto proporciona.

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costas? Aí está um desafio para os projetistas: acertar

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S i n es t es i a s

André Cruz está no mercado desde 1987, quando deixou a área de publicidade para trabalhar com o desenvolvimento de móveis e objetos. “Trabalhei com cinema publicitário e em produtoras grandes, que tinham marcenaria própria. Por isso, sempre que eu construía um cenário, fazia também o móvel para ele”, conta. “Essa brincadeira começou a virar um hobby, e logo se tornou uma profissão”, arremata Cruz. Em seu escritório, o André Cruz Design e Ideias, em Perdizes, zona oeste de São Paulo, ele lida com diferentes tipos de projetos, estudos de mercado, reposicionamento de marcas e criações para empresas de estofados, mobiliário e iluminação. No quesito conforto, ele acredita que o desenho tem de gerar sensações. “Antes de você sentar em um sofá, para saber se ele é confortável, o desenho tem que passar a sensação de conforto também. Para mim, a forma, o desenho, todo esse universo de sensações está dentro do design”, explica. “A cadeira e o sofá devem ser bonitos e confortáveis, a base de mesa tem de sustentar um tampo mais pesado e comportar um número de cadeiras em volta”, diz.

André Cruz já deixou de lançar alguns produtos após sentir que eles não estavam prontos, por motivos de conforto ou problemas na produção. “Acredito que grande parte do que projetei atingiu o equilíbrio desejado para o lançamento. Se algum ficou aquém, corrigi. É claro que o ideal é muito difícil, porque você deve mesclar o custo de uma produção com o preço de venda”, justifica o moveleiro. No momento de desenvolver suas criações, o designer tenta se isolar de informações que possam influenciar o trabalho. “Em época de criação, não leio revista, nem jornal. Não quero ter informação externa para poder trabalhar o meu interior”, diz Cruz. A informação interna a que ele se refere vem de seus cadernos de anotações e do seu dia-a-dia. “Cada vez mais, minha referência é a vida, a arquitetura, viagens. Não tenho uma referência específica, muito pelo contrário”.

Sofá e cadeira branca (acima), do Estúdio André Cruz: ergonomia e conforto


André Marx é formado em Física, mas trabalha com móveis desde 1987. Começou com uma oficina em sua casa e não parou mais. Sua matéria-prima básica é a madeira de demolição, mas ele também usa aço-inox e vidro para os acabamentos. Marx tem como referência o corpo feminino, animais marinhos e insetos.

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O aconchego da sarjeta

Para ele, há dois tipos de conforto: o psicológico e o físico. “Tem gente que gosta de comprar determinados objetos que não lhes dão nenhum conforto físico, mas a presença deles naquele ambiente os deixa tão satisfeitos que isso lhes basta”, explica. O designer procura conciliar os dois pontos de vista, mas nem sempre alcança seu objetivo, já que a madeira é um material duro e às vezes desconfortável. “Posso sentar na sarjeta, num banco e num sofá, mas o sofá traz mais conforto que o banco, e o banco que a sarjeta – isso na teoria. Na prática, eu posso estar muito infeliz sentado num sofá e muito feliz sentado na sarjeta, o que não significa que a sarjeta é mais confortável. Mas a minha felicidade suplanta isso”, avalia. Segundo Marx, o bem estar físico varia de acordo com o momento.

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O banco Araribá é feito com madeira de demolição; abaixo, a cadeira Bi

Seu trabalho é voltado para cadeiras, poltronas, espreguiçadeiras e bancos. Todos os móveis são produzidos por ele na oficina que fica em sua casa, no bairro do Morumbi, zona sul da capital paulista. “Nunca tive nenhum funcionário e espero nunca vir a ter”, afirma. Por conta disso, suas peças são feitas sempre em séries limitas, com cerca de doze móveis por linha. De acordo com André Marx, arrumar alguém para ajudá-lo é difícil, porque ele trabalha com madeira maciça e os marceneiros de hoje não estão acostumados a usar esse tipo de material. Em São Paulo, três lojas vendem seus produtos: Arango, A Lot Of e Dibot. Mas as criações também chegam a Brasília e Rio de Janeiro. “Meu objetivo é a arte utilitária, algo que o consumidor use e se sinta bem”, explica. O designer está totalmente voltado para as vendas e procura sempre trabalhar com peças lucrativas, mesmo que não goste tanto delas. Pé no chão, Marx é categórico: “cultura é muito bonito, mas não paga minhas contas”.

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FOTOS: divulgação

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Co n f o r t o bem brasileiro

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Amigos há mais de 15 anos, Kiko Sobrino e Alessandro Jordão são formados em Artes Plásticas e cursaram, em 2000, a pós-graduação na Domus Academy de Milão. Lá permaneceram por dois anos e aprenderam com ícones da área, como Karim Rashid, Phillipe Starck e Moroso. Na mesma época, decidiram criar seu próprio estúdio, o Mãos Contemporary Design, no Brooklin, zona sul de São Paulo. Kiko e Alessandro preferem materiais sustentáveis, mas não trabalham com madeira de demolição nem espumante inflamável. Eles gostam de criar com materiais sintéticos que possam ganhar um novo uso depois.

Para a dupla, o bom designer deve unir beleza e conforto. “Se a função é sentar, o conforto é primordial sempre”, diz Sobrino. “Como a gente trabalha com elementos naturais, que existem, já possuímos uma facilidade estética. Nossas criações não partem do nada, então o mínimo que podemos fazer é nos preocupar com o conforto do usuário”, afirmam. Sobrino acredita que o desenho industrial de hoje valoriza muito mais a beleza, sem se preocupar com a usabilidade da peça. “O design foi feito para servir o ser humano, para ser útil”, avalia. Os amigos buscam referências em viagens, temas do cotidiano e, principalmente, nos ícones brasileiros. Em 2004, veio a Coleção Brasil, com móveis que simbolizam grandes capitais brasileiras: a chaise Pão de Açúcar, em homenagem ao Rio de Janeiro; a poltrona Capô de Fusca, que remete a São Paulo; os bancos Esplanada, com a cara de Brasília; os pufes e cadeiras Feijão, simbolizando a Bahia; e, finalmente, a peça Romeu e Julieta, uma ode a Belo Horizonte. Agora, os designers conferem outro viés ao patriotismo. “Hoje vamos para a Europa buscar referências e depois transformamos em elementos brasileiros”, contam.

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A chaise Pão de Açúcar faz parte da coleção Brasil

Os bancos Clicquot estão estre as novas criações dos designers


Produto

Asse n t os saudáveis

Escolher móveis para escritório pode ser um desafio, pois é necessário considerar a ergonomia e conforto das cadeiras e mesas. Se a opção não for adequada, o corpo pode sofrer as consequências, como dores crônicas na coluna, braços e ombros – principalmente para quem trabalha muito tempo sentado ou digitando. Esse é o segmento que a Atec Original Design, no mercado desde 1987, explora. A empresa é uma das distribuidoras oficiais dos produtos Herman Miller, “pioneiros na pesquisa e desenvolvimento de mobília com materiais sustentáveis, design ergonômico e original”, diz João Figueira, diretor da Atec.

Uma das cadeiras comercializadas é a Embody, desenvolvida por Jeff Weber e Bill Stumpf. O produto foi capa da revista I.D. na edição Melhores de 2008, que elegeu as criações de destaque no ano passado. “A Embody facilita o fluxo de sangue pelo corpo e ajuda a cuidar da saúde de quem passa horas em frente ao computador. Ela alinha a cabeça ao monitor e reduz a compressão na coluna”, explica João. O assento e o encosto do modelo também se adaptam ao corpo e distribuem o peso dos usuários. A profundidade do assento pode se ajustar a diferentes comprimentos de pernas. Para desenvolver a peça, foram consultados cerca de 30 profissionais, entre médicos, biomecânicos e terapeutas, que ajudaram a testar as hipóteses e revisar os protótipos. O modelo Aeron também é comercializado pela Atec. A cadeira foi eleita o design da década pela Sociedade Americana de Design e garante mais conforto na região lombar. Outro diferencial é o revestimento Pellicle, que permite a ventilação e diminui a pressão do corpo na cadeira. Precisa mais? Aeron Chair garante mais conforto para a coluna. A esquerda, a premiada cadeira Embody

onde comprar Arango pça Benedito Calixto, 42 São Paulo – SP tel. (11) 3061-5127

A Lot Of Concept Store al. Gabriel Monteiro da Silva, 256 São Paulo – SP tel. (11) 3068-8891

Mãos Contemporary Art rua Ribeiro do Val, 1140 São Paulo – SP tel. (11) 5561-3115

E outros endereços


O cuteleiro Peter Hammer, que já criou peças para a minissérie A Muralha, exibida em 2000, pela TV Globo


PRODUTO

Com design de encher os olhos, as facas artesanais são desde instrumentos de trabalho para policiais até objetos de coleção

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colecionadores e produtores de televisão e cinema, não passaram batidas na minissérie A Muralha, exibida pela rede Globo em 2000. “São facas moldadas a partir de uma pesquisa histórica, de acordo com a época e com o perfil do personagem que irá manuseá-la”, explica. E, se alguém tem dúvidas, “cortam e furam de verdade”. Hammer divide os clientes em três grupos. O maior é formado pelos que usam as facas profissionalmente, seguido pelos amadores (pescadores e mergulhadores, por exemplo) e, por fim, os colecionadores. Apesar de focar-se na confecção de artigos funcionais, o cuteleiro lembra que é comum o público se render primeiro ao desenho, e não a funcionalidade. Defensor do trabalho autoral, ele reforça que o resultado é fruto de inspiração. “Se alguém copia seu produto e as pessoas descobrem, o seu nome acaba”, sentencia.

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erramenta ou obra de arte? “Faca é uma ferramenta. Quando muito bem feita, com criatividade, é até uma obra de arte”, explica o cuteleiro artesanal Pedro Guilherme Telles Rosa – ou Peter Hammer, pseudônimo pelo qual é conhecido. Aos 39 anos e há quase duas décadas no ramo, esse paulista de Bauru, cidade a 345 quilômetros da capital, é um dos 200 brasileiros que exercem a profissão. De porte atlético, barbas e cabelos ruivos e sempre vestido com roupas camufladas, no melhor estilo exército, Hammer é constantemente comparado ao boneco Falcon, da Estrela, lançado em 1978. A semelhança foi explorada, inclusive, pelo apresentador Jô Soares, durante uma entrevista ao Programa do Jô em 2002. Mas o homem com cara de brinquedo está além da caricatura. Suas peças, vendidas para

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Por Samantha De Tommaso

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FOTOS: divulgação / samantha de tommaso

A lâmina de aço (uma combinação de ferro com carbono; quanto mais carbono, melhor o aço) é moldada a martelo em brasa, ou seja, o aço é esquentado e trabalhado ainda quente. É um processo que exige excelente habilidade do artesão. “É como brincar de massinha”, explica Silvana Mouzinho. Por ser mais difícil, o processo de forjamento é o mais valorizado entre os cuteleiros, embora não dê para perceber se a faca foi forjada ou desbastada depois de pronta.

Sistema de forjamento

Usa-se uma placa laminada de aço, na qual se faz o desenho da faca, recortando-a em seguida. É um processo menos demorado. A maioria das facas usadas em cozinha são recortadas. “É igual ao molde usado em costura de roupa”, explica Silvana. “O cuteleiro corta com serrote a chapa laminada, usa também lixadeira, e vai trabalhando, dando o ângulo certo à faca”. Ao contrário do forjamento – quando a peça fica praticamente pronta a partir do molde, e é necessário tirar só o excesso de material – no desbaste é preciso remover bastante as rebarbas até a faca ficar completamente limpa.

Sistema de desbaste


PRODUTO

Mulheres Afiadas

A fala serena, o biotipo pequeno e as mãos miúdas guardam o pioneirismo de Marina, primeira mulher a exercer o ofício no país. Ela trabalha com o marido desde que se conheceram, durante um curso ministrado por Peter Hammer. Hoje, além do trabalho artesanal, ela chefia a produção das facas Wotan, fabricadas pela empresa Corneta, sediada em Osasco, na Grande São Paulo.

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Marina Farão criou uma faca para o Brasil 500

Silvana Mouzinho diz que só produz peças únicas

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Mulher de Hammer, Marina Farão tem 42 anos, nove dedicados à cutelaria. Afinado no casamento, o casal difere na hora de trabalhar. “Gosto de colocar muitos detalhes. O Peter prefere um desenho mais limpo”, explica a artista, que criou a sua primeira peça artesanal para venda em 2000, em celebração aos 500 anos do descobrimento do Brasil. Por sinal, “uma das coleções mais admiradas entre todas que fizeram para a data”, conta o marido, orgulhoso. O artigo comemorativo foi confeccionado em aço inox, com empunhadura de madeira pau-brasil e o Cruzeiro do Sul desenhado na lâmina. Cada detalhe foi escolhido com cuidado para representar as origens do país. Aos fins de semana, viajava de Lençóis Paulistas, onde morava, para Bauru, onde fez o curso, só para poder trabalhar nesta e outras peças.

Ao lado de Marina, apenas outra mulher desempenha essa arte no Brasil: a paranaense Silvana Delcorso Lopes Mouzinho, de 50 anos. Quando trabalhava como secretária executiva em uma importadora de facas de São Paulo, Silvana visitou uma feira de cutelaria e se encantou com o trabalho de Marina Farão. Em 2002, começou a produzir as próprias peças. Na sequência, decidiu participar do curso de Hammer. “Gosto de fazer facas pequenas, pontudas e com cabos arredondados”, conta. Silvana entende que facas artesanais são únicas. “Mesmo que tentássemos criar duas peças iguais, ou em escala, isso não seria possível... Seria, quando muito, um processo semi-industrial”, diz. “Por isso, não tenho um catálogo. O cliente fala o que quer e até traz um modelo, mas o produto será único”, arremata a cuteleira.

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o que é uma faca wotan?

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“Não existe no Brasil uma faca de melhor qualidade do que a Wotan em relação à dureza, resistência e funcionalidade”, conta a cuteleira Marina Farão. Wotan é o nome de uma linha de facas especiais para caça, pesca, prática de esportes, uso em combate e para colecionadores. Peter Hammer é o responsável pela criação, composta por três diferentes modelos e produzida pela Cutelaria Corneta, uma extinta empresa alemã, cuja filial continuou a funcionar no Brasil. De uma ação conjunta entre a Corneta e o Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro (Bope), surgiu

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uma nova versão da Wotan 3. Com processo de design e fabricação reformulados, a 3K é feita em aço carbono 52100 forjado, tem ponta reforçada e pintura epóxi negra. A corporação, depois de avaliar e submeter a Wotan 3K a rigorosos testes, aprovou e elegeu essa faca como a preferida dos homens da unidade de combate. Ela é usada como ferramenta para operações especiais, isto é, arrombamentos, auxílio em escaladas, montagem de cargas de demolição, perfuração de tijolos e, como último recurso, no combate individual para garantir a sobrevivência.


PRODUTO

Faca de valor, salário nem tanto Segundo Peter Hammer, cinco itens valorizam uma faca artesanal: os valores enxergados pelos olhos do comprador (qualidade de desenho, acabamento e ajustes); os valores invisíveis (estrutura interna e material utilizado, não vistos a olho nu); capacidade de corte; materiais de valores agregados (um arabesco especial ou um cabo de marfim de elefante, por exemplo); e, por último, a assinatura do artesão, que pode conferir credibilidade ao produto. Aliás, credibilidade seguida de valorização é uma das reclamações de Hammer e sua mulher em relação a esse mercado. “Se exercêssemos nossa profissão em outro país, não trabalharíamos tanto e seríamos mais reconhecidos”, reclamam. A renda fixa do casal se

a excelência do aço damasco

resume ao salário de Marina como chefe de produção da Corneta e ao que o marido recebe ministrando aulas no Espaço-Escola de Cutelaria Corneta. No terreno da fábrica, o artesão tem um galpão que funciona como oficina e escola. Além disso, ambos administram a Hammer Assessoria, que presta apoio a outras empresas do nicho. Já a produção das facas, atividade que os dois preferem, é uma renda extra. “A faca mais cara do Brasil é de minha autoria, feita também para a comemoração dos 500 anos, e que foi vendida por 2.500 dólares”, orgulha-se Peter, que não acredita que feiras e associações sejam benéficas para profissão: “Servem mais para trocar cartãozinho”, diverte-se. Já a ex-pupila Silvana Mouzinho é otimista em relação ao merca-

Damasco é um processo de caldeamento (fusão de peças de metal por aquecimento) de vários tipos de aço, que formam uma liga extremamente valorizada para facas. “São aços de diferentes durezas, colocados em camadas, como em uma lasanha”, explica Silvana. Depois de aquecidos, são dobrados.

do brasileiro. Atualmente, dirige a Sociedade Brasileira de Cutelaria (SBC), organiza o Salão de Cutelaria de São Paulo (ex-São Paulo Knife Show e principal feira do setor, existente desde 2001) e coordena o grupo de discussão Conversa Afiada. “Gostamos de facas e de conversar sobre isso”. Já o foco do sósia do boneco Falcon, que não participa muito das discussões, está na arte em si. “O apaixonado por facas as produz em primeira pessoa: pensa que se o objeto não servir para ele próprio, não vai servir para o seu cliente”, resume. Como nada é tão afiado assim, a arte de fazer facas conta com um ingrediente nem sempre bemvindo. Para Peter Hammer, a maioria dos cuteleiros, assim como ele, tem um defeito: o prazo de entrega. “É crônico”, brinca.

Na etapa seguinte, são corroídos por produtos químicos, e é aí que se forma o desenho final. Peter Hammer foi o primeiro cuteleiro a caldear aços no Brasil, reduzindo o damasco. Ele mesmo explica que fazer um pequeno pedaço do aço de damasco pode levar semanas, tamanha a complexidade do processo.

onde comprar Casa Bayard Esporte Shopping Ibirapuera São Paulo – SP tel. (11) 5536-4155

Cutelaria Nova Zurita rua da Carioca, nº 7 Rio de Janeiro – RJ tel. (21) 2262-0229

Casa das Munições rua Rockefeller, 1310 Curitiba – PR tel. (41) 3334-2633

Fivela de Ouro rua Bueno de Paiva, 838 Paraisópolis – MG tel. (35) 3651-1638


Irmãos

FOTOS: rafael de queiros

Humberto, à esquerda e Fernando


Entrevista

Coragem Na contramĂŁo do design seriado, Fernando e Humberto Campana apostam no trabalho autoral e na mistura de tendĂŞncias Por Gabriella de Lucca e NathĂĄlia Moraes


repercussão. Depois de passarem por tempos difíceis, veio a recompensa. Em 1998, fizeram uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), com curadoria de Paola Antonelli, que os lançou para o mundo. Neste ano, expuseram seu “Jardim de Infância” no Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre julho e setembro e também assinaram o figurino e cenário do espetáculo de dança Metamorfoses, executado pelo Ballet National de Marseille em outubro. Mais do que talento, eles tiveram coragem. Enquanto o design internacional caminhava para a industrialização, Fernando e Humberto seguiram em outra vertente. Resgataram o trabalho artesanal, teceram novas superfícies e valorizaram materiais considerados lixo.

Poltrona Banquete Panda

FOTOS: divulgação

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ernando é mais alto que Humberto, muito extrovertido e falante. O irmão é o seu oposto, mais introspectivo e com a fala sempre objetiva. Já é possível ver nele algumas marcas da idade e o cabelo grisalho não o deixa esconder seus 56 anos, ante 48 do caçula. Em comum, eles guardam a sintonia de ideias e ideais. Conhecidos internacionalmente, os irmãos Campana cresceram em Brotas, no interior de São Paulo. O Estúdio Campana surgiu há 21 anos. Humberto, formado em Direito, criava peças, objetos e algum mobiliário. Fernando, arquiteto, foi trabalhar com o irmão. A primeira exposição aconteceu em 1989 e foi batizada de Des-Confortáveis, mas não teve grande


Entrevista Os Campana tornaram-se populares no Brasil após assinarem coleções para a Melissa

entrevista

Vocês costumam discutir juntos ou cada um dá uma ideia?

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Discutimos juntos. E é até fácil, porque a gente “viaja” muito junto. Mas hoje, adotamos um vocabulário de ideias e formas que vamos só transpondo. Às vezes, surge alguma coisa de uma conversa informal. Uma visita ao museu, um espaço, um parque.

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Qual linha de trabalho vocês seguem? Como se retratam? Somos designers. Fazemos pontes entre várias disciplinas. Hoje, o design abrange outras disciplinas como moda, arte, arquitetura. Este é o século de rompimento de fronteiras e não de limitação. Tudo que me interessa relativo a criar significa liberdade. Quando deixei advocacia, queria ser livre, não queria ter patrão, queria viver da minha criação. Para mim, tudo o que é desafio é válido. É um design investigativo, de buscar novas fontes, novas ideias. Às vezes, elas até vem em um estado mais bruto e não industrializado. Daí temos a paciência de esperar que a técnica e certos processos se desenvolvam com mais tecnologia ou métodos para que essas peças se tornem industriais e seriadas. Algumas peças ficam no limite da escala do ateliê. São séries limitadas. O importante é o trabalho ter nossa alma, nosso conceito. Elas [as peças] têm um poder de comunicar mais forte. Quando não tem isso, nem interessa. Mesmo que seja fazer um carro novo, se não é o carro que a gente pensaria, se é só mudar a lanterna, já não é o que nos interessa. Não temos o tesão de fazer essas coisas, só mudar uma vírgula.

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Como vocês começam um processo de criação? Vamos conversando, ou a gente tem uma ideia e o outro termina. Hoje em dia vem muito através de briefing também. Um museu pede uma curadoria ou a Grendene pede um sapato, por exemplo. Mas existem trabalhos que correm em paralelo. O Humberto tem um hábito de pensar determinado número de materiais e começar a trabalhar. Com isso discutimos e vão surgindo objetos, mas muitas vezes o que era para nascer cadeira nasce luminária ou cresce mesa...isso é que é bacana. Não definimos “vamos fazer cadeira hoje”. Primeiro, deixamos o material se revelar, para que depois a gente tenha condições de trabalhar um móvel ou uma luminária ou uma escultura.

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O Fernando é arquiteto, profissão mais próxima ao design, mas o Humberto é advogado. Quando vocês começaram a trabalhar juntos? A profissão chegou até a gente. Nunca pensei em ser designer, queria ser escultor. Um dia, o Fernando veio me ajudar no meu estúdio, que era de escultura e peças de cerâmica, cestaria. Aí ele ficou até hoje. Acho engraçado porque não teve nenhum programa, nenhuma estratégia. Fui lá para fazer entrega da parte de cerâmica para lojas de presente, fazer nota fiscal e colar concha nos espelhos que ele fazia [risos]. Acho bacana isso. E até hoje acontece assim, a gente não programa “vamos fazer uma cadeira assim ou assado”. Tem um fluxo que nos leva a fazer um determinado tipo de trabalho ou outro, como trabalhar com sapato ou fazer uma curadoria. Na nossa primeira exposição, a intenção não era ser comercial, vendável. A gente até chamou de Des-Confortáveis e foi numa galeria que também trabalhava com móveis, na Vila Madalena. Era um lugar totalmente fora de circuito para a época, 1989. Tudo isso foi acontecendo e a gente foi vendo que aquilo tinha uma ligação, uma coerência com o que queríamos fazer. A carreira de designer veio ao nosso encontro, mais do que nós a procuramos.

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Cadeiras Harumaki

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Queremos sempre trazer algo novo. Inverter processos, subverter. A ideia de para quê o material veio. A mangueira de aguar jardim, por exemplo, vem com uma determinada função, mas a gente começou a ver uma outra, que é sentar. Então se tornou o plástico de uma cadeira, que produz uma textura. Uma máquina não conseguiria fazer aquilo.

Então a escolha do material começa do zero? Do zero. Às vezes, a forma vem primeiro que o material. É, a forma primeiro e depois a função. Se a gente começar a trabalhar pela função, vamos ser matemáticos demais e não vai ter a poesia. Não nos prendemos a isso. Deixamos por último o lado mais técnico, mais funcional, para poder trabalhar o conceito, a forma, cor, textura. Uma das características do nosso trabalho é falar alto, depois a gente vai limpando.

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Tem algum material pelo qual vocês tenham preferência ou acham melhor de trabalhar? Estou adorando trabalhar com fibras, vime. É um material que eu acho a cara do Brasil, do nosso clima. Couro também. Cerâmica também é legal. Mas eu acho que todos nos interessam, desde que não tenham uma limitação. Para citar um briefing de exemplo: o plástico da Melissa não é o melhor para se trabalhar. Mas eles tiveram a intenção de nos deixar colocar o máximo de PVC reciclável dentro de um calçado: 30%. A gente também está numa outra ponta, com fibras naturais, que é totalmente contra esse processo. Quisemos mostrar que o PVC é eternamente reciclável. O problema do plástico é ser colocado na natureza sem nenhum outro fim. Mas a primeira coleção nós fizemos quase sem pensar na questão da reciclagem.

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Os irmãos desenvolveram para a marca francesa Lacoste esta edição limitada de 12 camisas, bordadas somente com o logo, que lembra a renda do Nordeste

Vocês costumam dar preferência para o uso de materiais recicláveis? Sim, mas no início não foi assim. Era o design da escassez. A gente não tinha dinheiro para fazer uma peça de determinado material, então fomos buscar o que tinha de similar no mercado. A gente só não queria trabalhar com as madeiras nobres, mogno, jacarandá. Teve uma época que trabalhar com jacarandá era sinônimo de design brasileiro. Essa estrada a gente não quis trilhar.

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Hoje em dia, é óbvio, tem que ter uma escolha para uma matéria ou um processo que demande menos emissão de carbono. Também tem o que a gente chama de ecologia social. Na verdade, o que nós fazemos é humanizar a produção. Ao invés de só colocar uma máquina e um botão, colocamos dez pessoas trabalhando. Isso resgata a auto-estima de muita gente. Tem muito vimeiro que trabalha com palha que começa a ficar alcoólatra porque não tem oportunidade. Falta valorização do trabalho. E isso a gente está pouco a pouco resgatando. Muitos dos nossos móveis são feitos à mão, não tem nenhum que seja uma máquina só fazendo. É o slow design.

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Vocês citaram a Melissa e algumas condições do briefing. Como é trabalhar com uma marca? A empresa dá liberdade? Nosso trabalho tem uma peculiaridade de questionamento. Quem chega até nós já sabe com quem vai lidar. Não vai querer uma coisa racionalista, toda matemática. Primeiro que a gente nem vai desenvolver. Mesmo colocando o maximalismo, tentamos entender o processo da empresa para dar esse caráter à produção. Quando a gente vai trabalhar na Itália, com o Alessi ou com a Edra [indústrias de móveis], temos mais diálogo do que outros designers com a produção. Já temos esse treino aqui no estúdio. Acho uma vantagem. Enquanto muitos designers trabalham só no computador, no bidimensional, a gente vai na escala 1x1 direto. Isso nos dá uma possibilidade de diálogo com o técnico, com o dono da empresa ou até com o cara que vai apertar o parafuso, porque a gente sabe como apertar esse parafuso.

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Entrevista Isso é bom, porque vocês participam de todo o processo. Temos uma base. Comecei do nada, fazendo espelho de conchas. Aprendi tudo, desde nota fiscal, entregas, embalar. Eu e o Fernando sabemos como funciona todo o processo. Tem transportadora que pergunta “como eu ponho isso no caminhão?”. Até isso a gente tem que saber. Como embalar, como divulgar, como colocar numa vitrine, expor. Isso é importante. Hoje em dia, muitos designers pensam que essa é a profissão da moda. Você sai, bota uma roupa bonita e uns óculos [risos], tem um carro bacana e pronto: “sou designer”. Não é tão assim, mas acho que depende do que cada um quer para si.

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Vocês participaram do Salão de Milão deste ano. Isso repercute no trabalho? A Itália abre um mercado pro mundo. Costumam chegar mais convites para fazer uma exposição, uma mostra, uma cenografia de teatro. Abre portas. A Itália e o Salão de Milão, quando trazem um lançamento, não é para vender na semana que vem, nem daqui a 15 dias. É para um ano. É um timing diferente do Brasil. Acho que tem tudo aqui, criatividade, mão-deobra, maquinário, mas não existe uma razão de fazer. Não dá tempo de maturar o projeto ou de informar bem, fazer a opinião do público. Primeiro começa com a mídia, depois as lojas que vão expor de uma determinada forma na vitrine. De-

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Feita de cordas trançadas, a cadeira Vermelha, lançou os designers para o mundo e faz parte do acervo do MoMa

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A sobreposição dos pedaços de madeira na cadeira Favela é baseada nas formas dos barracos

Vocês se preocupam em agradar o mercado? Tem peças que são sementes para outras que vão ser mais aceitas. Não descarto quando um trabalho não dá certo, que não vai vender, porque nesse processo vou aprender muito e ganhar maturidade para, mais tarde, voltar nele com um olhar mais apurado, sofisticado. Acho que a função do design é atingir o maior número de pessoas. É diferente das artes plásticas, em que há restrição a um tipo de público, ou é uma crítica a um determinado comportamento ou situação, um testemunho de uma época. O design pode fazer isso e ainda levar função. Hoje, acho que é um instrumento de comunicação também, porque ele vai - de uma forma muito mais rápida que uma obra de arte - entrar na casa de alguém e começar a falar com aquela residência, com aquele público diferente. Você vê pelas exposições de design, como elas têm muito mais público, leigo mesmo. O design é imediato. Gosto ou não gosto. Nós podemos trabalhar nas duas pontes, tanto fazendo um manifesto através das nossas peças quanto torná-lo comercial e estar na casa de mais pessoas.

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mora dois anos para vender. Isso no Brasil não existe, essa persistência de esperar o projeto ficar maduro. Geralmente, o que se lança é uma ideia, um conceito, um protótipo. A gente joga num salão para ver qual é a reação do público, e mesmo que ela seja negativa, eles vão mandar melhorar o projeto, revê-lo, para que tenha uma aceitação. E a gente aprende muito com isso. A cadeira Vermelha, por exemplo, foi projetada em 1993 e só em 1997 entrou em produção industrial. A cadeira Favela é de 1990 e só saiu em 2003. Então, mais paciência do que essa [risos]...não existe. Tem que ter tempo para pensar coisas que sejam mais vendáveis e digestíveis.

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O design brasileiro está ganhando reconhecimento lá fora? Sim. Atualmente, tem criadores brasileiros, alguns moram na Europa, que estão conquistando espaço. Existe uma enorme procura por design brasileiro. Todo mundo está sempre nos perguntando o que tem de novo, o que está surgindo. O que falta um pouco no Brasil são as escolas darem mais poesia e liberdade. Toda a escola brasileira forma o profissional para ser industrial, para fazer carro. Deveriam focar para outros aspectos, como o artesanato. O Brasil é rico nisso. A maioria das pessoas veem como uma coisa inferior. Falta isso para indústria do mobiliário. Por exemplo, o Rio Grande do Sul, se tivesse mais propostas com desafio, conceito, provavelmente poderia até mudar o processo das empresas que copiam os móveis italianos. O design brasileiro está muito ainda preso aos conceitos modernistas. Isso me choca. As pessoas às vezes duvidam do nosso trabalho, eu vejo matérias. Eles se perguntam: “será que eles são designers?” [risos]. Fazemos todas essas loucuras mas não somos designers. Estamos só brincando. Chamam para dar um tom na festa só. A manualidade não está presente no país. É um ra. As pessoas não consideram a habilidade artesanal. Computador, botão, máquina, isso sim é considerado. E não é por aí. O que fazemos também é trabalhar numa linha muito tênue entre o kitsch e o regionalista. Poderia ficar horrível, até pode. Tem coisas que ficam horríveis mesmo, mas a gente tenta rever e não abortar o projeto. Ele pode ser kitsch e folclórico, popular, sem nenhuma indagação, com uma outra linguagem. A renda é uma coisa bacana. O [Renato] Imbroise faz isso, de combinar materiais diferentes. Nós fizemos isso com o vime. O tecedor está acostumado com um padrão de trama, a gente fez com que ele tivesse caroço, tecesse com outros materiais, mas sem deixar que ele perdesse a noção do que está fazendo. No começo eles se assustam. Depois, têm mais amor pelo que estão fazendo.

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Quais são os projetos que estão em andamento agora? A gente lançou em junho uma edição limitada para a Lacoste, na França. São três tipos de edição de camisas pólo: uma é especial, que vai para todas as lojas, outra vai só paras lojas conceituais e a terceira é super limitada, tem somente 12 masculinas e 12 femininas. A gente pensou na renda e fez uma pólo só com o logo do jacaré. Você olha e parece uma renda do Ceará. Tem certas coisas que até valorizam o processo. Todo mundo que olhava em Paris dizia “nossa, isso parece renda brasileira”. Mas o processo foi manual, as camisas foram uma a uma costuradas. Tem também a exposição do Vitra Design Museum que vai viajar durante cinco anos por todo o planeta e vem para o Brasil. Tem também o hotel em Atenas, um projeto que já dura dois anos. É de arquitetura de interiores. A gente criou um workshop com estudantes de arquitetura de lá, para eles reprojetarem os móveis. É um hotel antigo, então estamos tentando reprocessar tudo o que tem dentro, não jogar nada fora, principalmente os móveis. O nosso trabalho é muito alta-costura, alfaiataria, então precisamos ter gente que entenda. Eles fizeram dentro do hotel uma escola.

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Sofá Sushi


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Eles sugerem tudo. Qual vai ser o talher, o prato. Pensar a cultura grega contemporânea e não só a antiga. Era um hotel dos anos 1960, que foi fechado, e depois comprado por esse cara que nos chamou. Ele só pediu que não colocássemos o prédio abaixo, por ser um edifício de seis andares, no centro de Atenas, mas o resto a gente tem liberdade. Nossa maior preocupação foi isso, não pegar o que estava dentro, jogar fora e comprar um novo. Tinha muita coisa de mármore também, mas com rachadura por causa de terremoto. A gente decidiu polir, limpar e manter aquilo. São cicatrizes de arquitetura. O dono do hotel queria que fosse direcionado mais para o emocional. A gente queria um hotel mais ecológico, mas tivemos que mudar. Estamos usando plástico por exigência dele, que é um dos maiores colecionadores de arte contemporânea do mundo e tem um em casa. Falou que queria um hotel arte. E para negócio ainda, porque é no centro de Atenas. A gente está montando uns painéis que são favela. Tudo quanto é móvel antigo a gente recortou e está recolocando nessas paredes, tem até pedaço de cama. Deve ficar pronto no ano que vem. A crise atrasou um pouco o ritmo da obra. Pra gente é melhor, porque podemos testar mais, só que trabalhamos mais do que foi proposto. Isso mostra que ele tem confiança na gente. Eu não queria fazer um projeto de arquitetura, mesmo depois de 28 anos de formado. E a gente aceitou nessa condição de trabalhar como se fosse alfaiataria, alta-costura. Porque arquitetura demora. O Humberto já enjoou do projeto. Eu disse “ah, você vai enjoar dez vezes até ficar pronto”, porque é isso, fazer aos poucos, rever. É diferente do móvel. Estamos acostumados a fazer protótipos lá no estúdio e, de repente, já temos uma série de cadeiras do jeito que queremos, na hora que queremos, mesmo que não seja com o material e o acabamento, mas a gente tem o visual daquilo. Lá não, ficamos rabiscando no papel como vai ser, sem ter a dimensão.

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Hoje em dia, muitos designers pensam que essa é a profissão da moda. Você sai, bota uma roupa bonita e uns óculos [risos], tem um carro bacana e pronto: sou designer.

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B onequinha de luxo Como uma menina que passava as tardes desenhando encontrou na moda a sua vocação

Por Mariana Pasini e Nathália Moraes

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jeito meigo e recatado esconde uma moça tagarela, curiosa e com muita vontade de trabalhar. Entre os vícios, usar a palavra “tipo”. A garota não aparenta a idade que tem, parece mais nova, e com trejeitos delicados consegue fazer com que qualquer um sinta-se em casa. Os cabelos cacheados e castanhos, a pele clara, o corpo magro, a baixa estatura e o ar de criança denunciam que as roupas cheias de mimo, que levam seu nome, só podiam mesmo ter sido criadas por ela. Tudo faz parte desse grande pacote menina-mulher que é Karin Feller. Aos 22 anos, a designer e ilustradora é uma das mais novas apostas da moda brasileira. Ela mora no Sumarezinho, zona oeste de São Paulo, num aparta-

mento aconchegante com os pais e irmãos. À porta, o capacho já mostra a delicadeza da família: em formato de flor rosa, ele recebe os convidados, sobre uma inscrição em madeira que contém o nome do clã, “Feller”. Seu quarto, todo em tons de rosa, possui no mural diversas imagens de referência. Entre eles, uma foto com looks mais ousados e recados escritos à mão com canetas coloridas. Suas criações chamam a atenção pelo visual despojado, à la street, e os volumes. Detalhes suaves e femininos, como drapeados e babados, e a brincadeira com materiais inusitados, como clipes de papel, também são exemplos de suas marcas registradas. Nas figuras e desenhos que produz em fluxo constante, o toque feminino dá o tom.


FOtos: Luisa Santosa

moda

Karin é assistente de estilo da designer de moda carioca Juliana Jabour, que é toda elogios para a jovem. A pupila afirma ter total liberdade para apresentar ideias novas à estilista consagrada ou mesmo recriar suas peças antigas. Para aguentar o dia-a-dia maluco e conciliar as criações próprias com a assistência à Jabour, a jovem estilista tem a sua receita: “Força de vontade, disciplina, organização, garra e coragem. Tem que ter lista de coisas para fazer no dia e não pode deixar nada para depois”. Mesmo sendo difícil, vale a pena, ela garante. Por isso, sempre anda com um caderno de anotações. “Se deixar escapar uma ideia, você não lembra mais. Tem que ficar rabiscando e depois pegar todos aqueles rabiscos e organizar”, aconselha. Desenhar, para ela, sempre foi uma atividade divertida e espontânea. “O tema da coleção sempre surge para mim, nunca tenho que pensar muito. Escuto uma música, vejo alguma coisa nova, e pronto, está aí o tema”, ela explica.

Karin Feller é assistente da estilista Juliana Jabour


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Karin deixou Tel Aviv, em Israel, onde nasceu, aos 9 anos. Veio para o Rio Grande do Sul e de lá para São Paulo. Sua convivência em família sempre foi ótima: “Eu era a irmã que mima e que cuida”, conta. Com um pé nas artes desde criança, ela assustou seus pais quando decidiu ser desenhista de rua. A família não aprovou totalmente a tendência da filha para esse ramo artístico e procurou direcioná-la para uma profissão menos arriscada. Foi assim que Karin encontrou sua vocação na moda. Formada pela Faculdade Santa Marcelina em 2008, no mesmo ano ganhou destaque na 23ª Casa de Criadores, evento anual que traz o que há de novo no circuito alternativo de moda. Seu projeto de conclusão de curso, inspirado na teoria do caos, rendeu-lhe o prêmio máximo na 1ª edição do concurso Ponto Zero, que divulga o trabalho de designers em início de carreira, ainda estudantes. A sensação da vitória? “Incrível! Foi tipo, pronto, Karin, agora você entrou no rio, tem que nadar!”, brinca.

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Para o verão de 2010, Karin apostou na textura de São Paulo como mote inspirador. Na coleção apresentada na Casa de Criadores deste ano, a estrutura da cidade apareceu em estampas, formas e tie-dye, colorida em tons claros e delicados, como rosa e laranja. Fugindo do óbvio – “quando é literal, perde a graça”- Karin sabia o efeito que queria causar no público: “Você olha para aquilo e fala, nossa, de onde veio?”. Ansiedade não é palavra distante de seu vocabulário cotidiano. “Dá também um pouco de medo, mas sou jovem. Se errar, ainda dá tempo de consertar”, afirma. Recém-saída do mundo adolescente, já com um pé na vida adulta, Karin tem uma visão madura do mercado. “A concorrência está crescendo muito. Só ‘bom’ não serve, só ‘talento’ não adianta. Tem que ter visão e pensar em negócio, ter o pé no chão e ir devagar”, enumera. A moça acredita que o mundo tende a cada vez mais ser atraído pelas criações dos designers brasileiros. Hoje, a jovem estilista busca inspiração para seu próximo desfile no tema das bonecas russas, trabalho que sempre adiou, mas que agora vem com força total. Quais serão as estampas e motivos que devem surgir da cabeça de Karin Feller? O público descobrirá na 26ª edição da Casa de Criadores, de 17 a 27 de novembro, que mostrará a coleção outono-inverno 2010. Mas para chegar lá, bem como ao reconhecimento pleno, uma coisa é certa: a estilista ainda terá muito trabalho.

Escuto uma música, vejo alguma coisa nova, e pronto, está aí o tema [da coleção]


A mArcA BrAsil Ainda com participação tímida no PIB do país, o mercado de joias, bijuterias e folheados cresce a passos largos e fortalece a identidade brasileira no cenário mundial

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Por Geoffrey Scarmelote

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a contramão do mercado mundial de luxo – que em 2009 pode sofrer uma recessão de até 4% segundo a consultoria Eurostat e o banco JP Morgan – o Brasil segue otimista. Lá fora, o setor joalheiro, que anualmente movimenta 15 bilhões de dólares, já sentiu os efeitos da crise. Detentor de marcas como Montblanc e Cartier, o conglomerado suíço Richemont anunciou uma queda de 12% nas vendas no último trimestre do ano passado. Em terras tupiniquins, as exportações do setor joalheiro rendem cerca de 100 milhões de dólares por ano. Fomentado pela riqueza em matériasprimas e pelos investimentos na especialização de ourives, o mercado de joias e bijouterias no Brasil quer ousar não só na forma dos produtos, mas nas estratégias para se manter firme no segmento.


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Nem tudo o que reluz... O nicho de bijuterias e folheados não integra o mercado de luxo. Apesar disso, movimenta cerca de 220 milhões de dólares por ano e gera mais de 200 mil empregos diretos no país – cujo Produto Interno Bruto (PIB) está na casa dos 2 trilhões de reais. Uma participação ainda pequena para a empresária Vera Masi, diretora-executiva da Bijoias, o maior evento do setor na América Latina. “Estamos nadando de braçada. Na última edição da feira, em agosto, registramos um crescimento de 26% em relação ao mesmo período do ano passado”, comenta. “Diante dessa alta, aguardamos um aquecimento de 35% para a próxima edição, que acontece nesse mês”, completa Masi.

Peça da coleção Canaã, de Adriana Bragança

Criada em 1990, paralela a Feira Internacional da Indústria Têxtil (Fenit), a Bijoias foi inspirada na Semana de Moda de Paris, onde, simultaneamente aos desfiles, aconteciam também os lançamentos em bijuterias e acessórios. Hoje, há de se ressaltar, o terreno está mais arado do que há duas décadas. Um dos motivos é a difusão do mercado e a formação de novos profissionais, voltados aos conceitos de moda. “Há 20 anos, era impossível imaginar um curso de design de joias. Hoje, conseguimos manter um núcleo de extensão só para essa área”, conta Andréa Tibery, desenhista industrial e professora da Universidade de Brasília (UnB). “Antes, a ourivesaria apenas integrava a grade do curso de Desenho Industrial. O interesse dos alunos pela área despontou com o fortalecimento da moda no país”, explica Tibery. Na UnB, o departamento de Desenho Industrial e o Laboratório de Joias, coordenado por Tibery, oferecem cursos semestrais nas áreas de pesquisa e extensão em Joalheria Básica e Desenho Técnico de Joias. Nas aulas, o discente tem contato com os metais, processos de laminação e fundição e representação de projetos até a execução final da peça.

A Mirácolo, de Presidente Prudente/SP, explora pérolas e pedras naturais em sua ampla linha de colares. Destaque para os modelos clássicos, feitos com pérolas de água doce, com tamanhos que vão de 0,45m a 1,60m. Aliás, as pérolas cultivadas em água doce vêm, em sua maioria, dos lagos e rios da China. Elas têm formato assimétrico, brilho médio e alto e podem ser brancas ou ter sombreado rosa ou vermelho claro.


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A grife Franco George, Uberlândia/MG, está sintonizada aos apelos das mulheres em total sintonia com a moda. Para a próxima temporada, aguarde brincos poderosos, com pérolas e cristais, aliados às cores quentes.

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A mistura do vintage com o futurista dá vida à nova coleção da Euro Relógios. De um lado, o ar retrô que traz a tona recordações clássicas e atemporais. De outro, construções arquitetônicas e formas geométricas mostram um design único e totalmente novo, tal qual apontam as tendências da temporada.


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Made in Brazil

O brasileiro extrapola as diretrizes das tendências e simplesmente cria

Mercado aquecido, profissionais especializados e fartura em materiais são elementos que fortalecem o design brasileiro no mercado externo de acessórios. Mas o principal ingrediente dessa equação está na ousadia de nossos profissionais. “Embora a moda siga um comportamento mundial, o brasileiro tem muita criatividade, sempre busca materiais alternativos e explora diferentes técnicas artesanais”, defende Vera Masi. “Aqui, transformam até mesmo folhas caídas e escorpiões em joias. O brasileiro extrapola as diretrizes das tendências e simplesmente cria.”

Adriana Bragança está nesse time. A designer carioca tem entre suas clientes celebridades como as apresentadoras Xuxa e Ana Maria Braga e as atrizes Juliana Paes, Deborah Secco e Rosa Maria Murtinho. Apesar da clientela estelar, Adriana mantém a humildade. “O segredo é o mesmo de qualquer outro negócio: diversificar, buscar sempre algo diferente”, conta. “Gosto de trabalhar com pedras únicas, como lodolita, rutílo, cocochonita e labradolita, que já tem consigo a exclusividade”, arremata a designer, que estudou moda nos Estados Unidos.

Adriana Bragança com o ator Eriberto Leão e, ao lado, com Rosamaria Murtinho


O caminho das pedras

Colares, pulseiras e aneis bem coloridos, para alegrar o look feminino e ressaltar o visual das mulheres modernas. Essa é a aposta da Philipines, que juntou miçangas e contas às pedrarias artesanais e pulseiras de madeira e de resina, como nesse conjunto, em ametista.

O Brasil é a inspiração das criações da carioca Adriana

FOtos: divulgação

Durante a criação, Adriana prefere que as próprias pedras indiquem a forma, de modo intuitivo, sem uma concepção prévia do produto final. E por falar em caminho das pedras, foi um momento de dificuldade financeira que a levou para as bijuterias. “Em uma fase muito difícil da minha vida, meu marido, empresário, foi para o Japão e me deixou uma reserva em dinheiro. Com ela, comprei os primeiros materiais”, relata. O brilho nos olhos e o sorriso estampado no rosto não deixam escapar o prazer que essa carioca da gema tem no que faz. “O sucesso é só a consequência de um bom trabalho, fui muito abençoada!”. O novo catálogo foi batizado para expressar essa gratidão: Canaã, a terra prometida por Deus no Antigo Testamento.


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A grife Piu Bella traz novidades com modelagens mais leves. Aneis, colares e pulseiras de aço escovado chegam ao país com banhos diferenciados, como o Ionizado, o banho Brown e o banho em dourado, que conferem sofisticação às peças. Além disso, os produtos são hipoalergênicos.

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A previsão para o setor de acessórios genuinamente brasileiros é otimista. Vera Masi explica que esse nicho não tem limites para crescer, pois mexe com a vaidade feminina e masculina. “Nossos designers são criativos e ousados, se inspiram na flora e fauna brasileiras, que são únicas. Nosso povo é alegre e extrovertido e encanta todo o mundo. Tudo isso cria uma situação bastante favorável aos nossos produtos”, afirma a empresária, entusiasmada.

Mas o diagnóstico não vem só do ufanismo. “Com a retração da economia, bijuterias e acessórios são mimos acessíveis, além de fazerem bem ao ego feminino”, esmiúça a empresária. “Além disso, a confecção de acessórios se torna fonte de renda alternativa para muitos trabalhadores que tiveram seus rendimentos comprometidos com a crise”, completa.

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Futuro brilhante?

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A designer gráfica Fabiana Daniel acredita na renovação e aposta na ousadia para se manter no mercado

FOto: sxc.hu

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Corel Draw, e meu interesse por diagramação e tratamento de imagens foi despertado”, comenta. Para o Trabalho de Conclusão do Curso Técnico, ela criou uma agência de comunicação integrada e executou uma campanha de marketing direto, com mais de 30 peças publicitárias, para a rede varejista Magazine Luiza. “Foi uma correria, era muito nova e o nível de exigência do colégio era o mesmo para alunos de Ensino Superior”, lembra. “Mas valeu a pena, porque ali percebi de fato o quanto queria ser uma designer”, diz a moça, que ficou responsável pela parte gráfica do projeto.

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porta do guarda-roupa, forrada por cartões postais e cards promorcionais, e os cartazes de filmes antigos espalhados pelo escritório dão a pista: ali mora uma designer. Aos 22 anos e egressa da Faculdade de Belas Artes, a paulistana Fabiana Daniel vive com a família no bairro da Penha, zona leste da capital. Técnica em Publicidade pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, “Fabi”, como é chamada pelos familiares e amigos, entrou em contato com as ferramentas de editoração logo cedo. “Aos 14 anos, fui apresentada ao bom e velho

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Ainda durante o Ensino Médio, começou a trabalhar como operadora de atendimento no Núcleo Brasileiro de Estágios – Nube. Foi o primeiro passo de uma carreira de quase sete anos dentro da empresa, onde está até hoje. “Pouco depois de iniciar a faculdade, em fevereiro de 2005, fui promovida ao setor de comunicação”, explica. Lá, Fabiana participou de diversos projetos. “Tive a oportunidade de acompanhar a modernização do logotipo, a mudança de identidade visual e hoje coordeno toda a área de criação e desenvolvimento de materiais institucionais e de vendas da empresa”, enumera. No desenvolvimento dessas atividades, a designer conta com ferramentas como Adobe

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Illustrator e Adobe Photoshop. Seus referenciais teóricos vêm de profissionais como Jinyoung Shin, Vanyam James Jean, David Carson, Paula Scher, Sagmeister, Paul Rand e Neville Brody. Mas ela enfatiza: “costumo caminhar na contramão das faculdades e teorias, que buscam um design moldado, sem personalidade própria. Meus jobs respeitam a cultura das empresas e a identidade visual dos clientes com os quais trabalho, mas sempre tento inserir um ‘temperinho’ meu nas coisas. Isso faz com que o resultado tenha um pouco do meu sangue criativo”. Além do Nube, ela trabalha com outras empresas, como freelancer, que “funcionam como um exercício para não cair na rotina”.

[os freelances] funcionam como um exercício para não cair na rotina


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Trabalhos feitos por Fabiana

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o debate sobre qualquer tipo de design é um pouco de mim também

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Para se manter no segmento, cultiva uma visão ousada. “Para mim, o design é simples, objetivo e não requer reflexão e sim interpretação, ou seja, o debate sobre o qualquer tipo de design é um pouco de mim também”, explica. “Há muitas oportunidades e quem é competente e persiste acha espaço em qualquer mercado. A área tem crescido no Brasil e espero que continue crescendo com o valor do desenho”, acrescenta Fabiana. Para o futuro, sonhos e realidade se misturam em uma atmosfera repleta de cores e formas. “Costumo dizer que minha vida é uma verdadeira montanha-russa! Todos os dias, acordo com uma maneira diferente de pensar e agir. Talvez isso seja um reflexo do meu trabalho, pois sempre tenho projetos diferentes para realizar e aprendo todos os dias”, sentencia. “Meu sonho sempre foi trabalhar em uma gráfica. Adoro cores e gosto de ver a magia acontecer. Mas o dinamismo de uma agência de publicidade sempre me chamou muita atenção. Cada dia é um dia, e procuro viver intensamente cada um deles. O que pode acontecer amanhã? Você sabe?”.

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De vilão a mocinho Aos poucos, o mundo do design começa a reconhecer e usar o potencial da madeira de eucalipto Por Mariana Pasini


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eucalipto é pau para toda obra. Lugarcomum quando o assunto é celulose e papel, o público pode não vê-lo com bons olhos, mas cada vez mais faltam argumentos para sustentar o preconceito contra a qualidade do material. Com cerca de 20 espécies introduzidas no Brasil, a grande vantagem da árvore é a alta produtividade em menos tempo e utilização de pouco espaço para plantá-lo. Versátil, ele é matéria-prima para diversas aplicações, desde a estruturação interna à composição de cadeiras, mesas, estantes e armários. Impacto ambiental? Apenas quando derrubada a mata nativa para que seja cultivado. A planta apresenta até uma vantagem em relação a outras, notadamente o Pinus (gênero da planta), por permitir a divisão do seu território com matas nativas sem invadir suas áreas. No país, as primeiras mudas de eucalipto foram trazidas da Austrália, de onde é originário, na década de 1860, como mero objeto de curiosidade. Mas foi em pleno desenvolvimento cafeeiro paulista da virada do século 19, após intensas pesquisas do agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, que a planta ganhou um objetivo comercial definido: combustível para as caldeiras dos trens que transportavam café, o que poupou boa parte das nossas matas originais. O designer deve atentar a qual espécie usará.

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Os exemplares mais duros e densos são os mais propícios para a fabricação de objetos e móveis, ao contrário dos mais leves, próprios para serem moídos e virar celulose ou papel. O saligna, por exemplo, é um material leve, porém pouco resistente. O citriodora, no entanto, é uma madeira robusta e durável. Algumas definições são aplicáveis a todas as espécies e devem ser levadas em conta pelo profissiona que deseja trabalhar com elas. Guido Otte, presidente da construtora catarinense de móveis Butzke, resume eucalipto uma palavra: nervoso. “Genericamente, os eucaliptos produzem madeiras com grandes tensões, geradas por retrações tangenciais e radiais”, explica. Além disso, as fibras da madeira de eucalipto não são as formas mais organizadas da natureza: tortas e rebuscadas, diferente de outros gêneros, elas diminuem um bocado o poder de corte de serras comuns e exigem mais precisão para que a madeira não empene depois. Seu processo de secagem também é difícil: quando não respeitadas as características de cada espécie, as chances de problemas futuros são altas. Felizmente, esses problemas podem ser contornados com a tecnologia adequada. O eucalipto cresce reto e seus galhos ficam mais para cima. É possível administrar o fornecimento da madeira

É isso que nós, designers, fazemos errado por enquanto: ainda não descobrimos como tirar proveito dessa madeira de uma forma mais inteligente

e ter um controle maior sobre o resultado final. Dados de 2006 da Sociedade Brasileira de Silvicultura apontam uma produtividade de 30 a 40 metros cúbicos por hectare para o gênero. Deve-se, no entanto, prestar atenção que uma árvore que se adaptou bem a uma área não necessariamente o fará em outra. Além disso, deve-se repor o solo de maneira orgânica ou até química. Matéria-prima barata em relação às outras madeiras no mercado, é grande seu potencial comercial nas classes C e D. Mesmo assim, o mercado de eucalipto para móveis e objetos ainda é pulverizado, sem muitas empresas de alto porte. O designer Christian Ullmann, porém, não endossa o coro dos entusiastas da madeira de eucalipto. Nascido em Buenos Aires e radicado no Brasil desde 1996, ele prefere o diferencial das nossas madeiras nativas. “O eucalipto não é uma madeira charmosa nem tem apelo, não dá vontade de trabalhar com ela”, dispara. Para ele, a madeira australiana será sempre um “bastardo do setor florestal”. Ulmann também questiona quão bom pode ser o negócio do eucalipto sob a ótica do custo ambiental que seu cultivo pode acarretar. O designer alerta que derru-


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Mesa bar e Chaise Ibiza

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bar mata original para plantar eucalipto não é, de modo algum, um negócio sustentável, pois além de acabar com a flora original, uma floresta de reflorestamento não pode ser habitada por animais ou comunidades ribeirinhas. Mesmo dentro da possibilidade de uma plantação que atenda aos princípios ambientais, ele se pergunta: “E por que não plantar madeira nativa?”. Para o moveleiro, somam pontos contra a madeira a memória negativa que o público tem dela, construída, segundo ele, por empresários que procuravam lucro fácil nas décadas de 1980 e 1990.

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Para o moveleiro, somam pontos contra a madeira a memória negativa que o público tem dela, construída, segundo ele, por empresários que procuravam lucro fácil nas décadas de 1980 e 1990. Até hoje, o portenho argumenta, ninguém parou para pensar qual é a melhor aplicação para o eucalipto. “É isso que nós, designers, fazemos errado por enquanto: ainda não descobrimos como tirar proveito dessa madeira de uma forma mais inteligente”, arremata. A arquiteta e designer catarinense Marina Otte aposta na criatividade como solução do impasse. Filha de Guido Otte, da Butzke, ela trabalha com o eucalipto desde 1998 e aposta que, dentro dos limites da madeira, é possível proceder de várias formas. Marina exemplifica o ponto de vista com um modo engenhoso para driblar a dificuldade em obter formas curvas: usar

partes seccionadas. E já que a cor natural do eucalipto não é um grande atrativo, mais clara do que, por exemplo, o mogno ou a imbuia, com as quais as pessoas estão mais acostumadas, tingi-la é uma opção. “A gente tem que se adaptar ao material que escolhe”, defende Marina, para quem o eucalipto em ripas é o mais fácil para trabalhar. Ela não nega que a certificação florestal, que limita os riscos ambientais e visa garantir o reflorestamento, encarece o produto final. “O eucalipto pode ser mais caro na hora da compra, mas se você conservar bem e considerar que pode durar a vida inteira, com certeza é mais barato”.

Sofá Duna


Meio Ambiente Até hoje, o portenho argumenta, ninguém parou para pensar qual é a melhor aplicação para o eucalipto. “É isso que nós, designers, fazemos errado por enquanto: ainda não descobrimos como tirar proveito dessa madeira de uma forma mais inteligente”, arremata. A arquiteta e designer catarinense Marina Otte aposta na criatividade como solução do impasse. Filha de Guido Otte, da Butzke, ela trabalha com o eucalipto desde 1998 e aposta que, dentro dos limites da madeira, é possível proceder de várias formas. Marina exemplifica o ponto de vista com um modo engenhoso para driblar a dificuldade em obter formas curvas: usar partes seccionadas. E já que a cor natural do eucalipto não é um grande atrativo, mais clara do que, por exemplo, o mogno ou a imbuia, com as quais as pessoas estão mais acostumadas, tingi-la é uma opção. “A gente tem que se adaptar ao material que escolhe”, defende Marina, para quem o eucalipto em ripas é o mais fácil para trabalhar. Ela não nega que a certificação florestal, que limita os riscos ambientais e visa garantir o reflorestamento, encarece o produto final. “O eucalipto pode ser mais caro na hora da compra, mas se você conservar bem e considerar que pode durar a vida inteira, com certeza é mais barato”. Para Ricardo Cardim, mestrando do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, o principal desafio relacionado ao eucalipto é a tecnologia. “Há muitas espécies e o potencial ainda não foi totalmen-

te estudado para a indústria moveleira”, enumera. “O eucalipto não é fácil de serrar e tem uma secagem complicada, que precisa respeitar a anatomia de cada espécie. Mas toda madeira é boa, dependendo do uso que você vai fazer dela”, alerta Cardim. Ele acrescenta que a sustentabilidade é uma questão de metodologia e a possibilidade de um cultivo sustentável do eucalipto é latente. Como os próprios consumidores estão cada vez mais exigentes quanto à certificação da madeira, o negócio de madeira reflorestada começa a realmente valer a pena, segundo sua avaliação. O biólogo derruba o mito de que o gênero absorve muita água. “Por crescer muito rápido, ele precisa de muito nutriente e também de muita água para formar toda a sua estrutura”, esclarece. O que precisa ser feito é a reposição dos nutrientes do solo de maneira orgânica ou química. E o estudioso dá o veredicto: “O eucalipto em si não é o vilão, mas uma ferramenta para a produção de madeira que nós precisamos tanto”. A árvore nunca terá a qualidade ou até o luxo das chamadas madeiras de lei, mas cresce a uma velocidade surpreendentemente rápida e responde bem se trabalhada com a tecnologia adequada. Além disso, é de se perguntar que outras opções restam ao designer que deseja trabalhar com madeira, já que a extração e a exploração de material nativo da Amazônia estão proibidas pelo Código Florestal. Para resolver o dilema, vale o conselho de Marina Otte: “a questão é se adaptar”.

Mesa pufe Duna

Marina Otte


Por Mariana Pasini

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ambém conhecida como madeira de redescobrimento, ela começa a despontar no mundo do design. Entre suas vantagens, estão a reutilização e a reciclagem de componentes que, de outra forma, não seriam tão bem aplicados e poderiam inclusive ser esquecidos. Cynthia Marzola, lojista da Raízes Design e apaixonada por madeira, esmiúça alguns detalhes sobre essa matéria-prima cujo uso só tende a crescer.


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Poltrona M么naco

10 perguntas sobre

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10 perguntas sobre A chamada madeira de demolição é basicamente madeira antiga, utilizada em construção civil, aplicada no design? Sim. Na maioria das vezes, a madeira vem de casas que são derrubadas no interior de Minas e do Paraná, substituídas por obras de alvenaria. Para não desperdiçarmos esse material, aproveitamos para transformá-lo num móvel de design bacana. As madeiras são todas de aproveitamento de casas derrubadas.

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Elas sofrem tratamento?

RD

Todas elas passam pelo tratamento total: descupinização, lavagem, clareamento, para dar o tom que você quiser. Em seguida, são aparelhadas. E isso de acordo com o que você for fazer. Se for um piso, fazemos o macho-fêmea [peças que se encaixam]; se for só para móveis, ela recebe o tratamento normal e é trabalhada dentro do design da peça. Não há mais o problema de a madeira estar verde? Não é bem assim. Na madeira, todo mundo se engana um pouco com isso. Perguntam “a madeira é centenária, então ela não vai abrir?” Vai. Com toda madeira, deve-se evitar o máximo possível do uso contínuo em áreas externas, que pedem manutenção. A madeira é linda? Sim, mas corre o risco de abrir. De acordo com a região para onde vai, ela pode abrir inteirinha sem o reforço adequado. É como o ser humano: tem vida e continua trabalhando.

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Uma vez tratada, o que pode ser feito com ela? De tudo! Eu, por exemplo, trabalho desde o revestimento de pisos, paredes, tetos, pergolados, bancadas pra lavabos até os móveis de design. Resolvi inserir produtos modernos para dar uma cara contemporânea à madeira de demolição. Entrei com o corian, que é uma resina. A bandeja Panamá, por exemplo, tem o apoio em madeira e as alças em corian. A poltrona Mônaco tem vidro. Ao misturar com produtos mais modernos, emprego menos madeira. Ou seja, uso mas não abuso da madeira de demolição.

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Usar a madeira de demolição é promover design sustentável? Exato, pois preserva a biodiversidade e os ecossistemas naturais. Ao invés de derrubar uma árvore para fazer um móvel, aproveita-se uma madeira que está em uso há

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muitos anos. Para o empreendimento humano ser sustentável e garantir a preservação da biodiversidade, deve ter em vista quatro princípios básicos: ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. A madeira de demolição preenche esses requisitos. É um mercado que tende a crescer?

RD

Com certeza. Lá fora, inclusive, dão muito mais valor à madeira de demolição do que no Brasil. Uma prova do potencial desse mercado estava na Casa Cor desse ano, em que cerca de 80% dos ambientes contavam com madeira de demolição, seja em peças avulsas, pisos ou paredes. Por aqui, há a febre de MDF, compensados, lacre, mais fáceis de se trabalhar. O boom no mercado da madeira de demolição ocorreu há cerca de dez anos e está sendo descoberto aos poucos. Há profissionais adeptos da madeira de demolição, como Carlos Motta, Pedro Petri e Hugo França. É um material difícil de encontrar?

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É, é bem complicado. Até conseguir os fornecedores... E é um meio de mercado muito desleal. Extremamente desonesto, dificílimo de contatar, é uma dor de cabeça. Mas compensa pelo resultado final. O cliente chega, os arquitetos chegam, e ficam encantados. Mas é muito difícil, os fornecedores, de um modo geral, são precários, são pessoas muito simples e difíceis de negociar, prometem uma coisa e mandam outra, às vezes você compra um lote enorme de mil metros quadrados, por exemplo, e 600 vêm bacana, 400 não. Como funciona o fornecimento?

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Há duas formas. Na primeira, há um fornecedor com fácil acesso aos caminhoneiros que vendem a madeira. Então, já compro dele o móvel com a madeira. Na segunda, eu tenho um outro, aqui de São Paulo, que consegue o móvel do Paraná. Coloco meus fornecedores dos caminhoneiros em contato com essa fábrica e eles compram. Senão, a logística fica muito complicada. Outro problema é que há vários preços para os lotes. Quando está muito barato, pode desconfiar. É aquela história, quando o milagre é grande, o santo desconfia! Tem de todo preço, varia bastante. O necessário é viabilizar o custo e pesar a qualidade.

Ela é mais difícil de trabalhar?

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É difícil conseguir a mão de obra, que deve ser especializada – normalmente, marceneiros mais antigos, que viveram numa época em que não existia essa história tão fácil de MDF. Aqui na Raízes Design, trabalhamos com peroba rosa de demolição. É muito dura, mas tem uma grande vantagem: é amarga e os cupins não gostam. E isso é um grande diferencial. Não vou dizer que ela nunca vai dar cupim. Se você pegar um lote que já teve algum problema e não fizer um trabalho de higienização perfeito, há o risco de ela vir a ter cupim. Porém, a possibilidade é mínima. Optamos pela peroba por conta de sua beleza natural. Há preconceito no público?

RD

Nenhum. Muito pelo contrário! Quando eu falo que é madeira reaproveitada, eles adoram! Afinal, também estão preocupados com o meio ambiente. Na medida em que as pessoas percebem a importância da sustentabilidade, essa consciência ecológica só tende a crescer. Quando resolvi apostar nisso, tive medo que passasse logo, que fosse uma febre. Agora, acredito que a madeira de demolição vá ficar cada vez mais em alta, sempre com muita criatividade. Depende de nós, lojistas, trazer novidades ao mercado e fazer com que o consumidor assimile a ideia.

Raízes Design Bandeja Panamá Madeira de demolição e Corian, R$ 864,00

serviço Raízes Design al. Gabriel Monteiro da Silva, 276 São Paulo – SP tel. (11) 2597-3084


FATTO STAMP

A Abracaf e o Itaú, juntos para trazer mais vantagens para seu cliente e sua concessionária. Planos diferenciados para atender cada cliente e aumentar suas vendas. Planos com carência, planos em 72 meses, Plano 30. O estoque da sua concessionária a 1 clique do mouse do seu cliente, através do iCarros, o site de compra e venda de veículos do Itaú. A parceria com o Itaú traz oportunidades para você atrair clientes e aumentar o fluxo da sua concessionária. Pois nós sabemos que fazer diferente é fazer a diferença na hora de vender.

UMA EMPRESA DOS CONCESSIONÁRIOS FIAT


Bienal do Ibirapuera 8ª Bienal de Arqutetura tem “Ecos urbanos” como tema

av. Pedro Álvares Cabral, s/nº Portão 3 Parque do Ibirapuera - São Paulo - SP tel. (11) 5576-7600. Grátis Até 06/12

Os ares cosmopolitas prometem sacudir a edição, aberta ao público até o dia 6 de dezembro, no Pavilhão da Bienal do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Uma exposição mostra como 12 países receberam megaeventos. Para discutir a produção nacional, a área Expo Brasil conta com cerca de 50 trabalhos - 25 projetos e 25 obras. Na expo Internacional, a novidade fica por conta da premiação aos melhores trabalhos, semelhante àquela concedida à produção brasileira. E, às vésperas da Copa do Mundo da África do Sul, os organizadores prometem debater a infraestrutura montada para o evento.

1 de NOVEMBRO Encerramento das inscrições para o Prêmio Green Good Design. Podem participar arquitetos, designers, urbanistas, instituições e organizações com trabalhos voltados para o design sustentável. A premiação acontece em março. Informações no site www.europeanarch.eu.

3 de NOVEMBRO Termina a EXS 09 em São Paulo. Os admiradores da sticker art podem ver nos muros da loja El Cabritón y Amigos adesivos de 200 artistas nacionais e internacionais.

El Cabritón y Amigos rua Augusta, 2008 - Jardins São Paulo - SP tel. (11) 3081-6130. Grátis

FOTOS: divulgação


AGENDA

Universidade Anhembi-Morumbi av. Roque Petroni Jr., 630 Morumbi - SP tel. (11) 5095- 56344 R$ 240 a R$ 660

5 de NOVEMBRO A segunda edição do Simpósio Internacional e Brasileiro sobre Design Sustentável, evento científico mais importante da América do Sul sobre o tema, acontece dias 5 e 6 novembro, na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Entre os palestrantes confirmados está John Thackara, um dos profissionais de visão mais sistêmica em relação a sustentabilidade, e Carlo Vezzoli, professor do Politécnico de Milão, que já há 15 anos faz pesquisas na área. A coordenação científica é do professor Aguinaldo dos Santos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Informações pelo e-mail asantos@ufpr.br.

Experimentadesign Lisboa Rua Cidade de Lobito, Atelier 3 Lisboa, Portugal

8 de NOVEMBRO Último dia do Experimentadesign Lisboa, bienal cultural dedicada ao design, projeto e criatividade. Informações em www.experimentadesign.pt

MEIAS ÓRFÃS brasil concurso de mobiliário Design.br Fim das inscrições para o concurso de mobiliário Design.br, promovido pela loja Micasa. Os projetos serão avaliados e julgados por grandes nomes do design como Fernando e Humberto Campana, Marcio Kogan e Marcelo Rosembaum. Podem ser apresentados projetos de estantes, bancos, cadeiras, sofás, puffs, aparadores e mesas, que nunca tenham sido comercializados. Profissionais e estudantes podem participar. A cerimônia de premiação acontecerá em 27 de fevereiro de 2010. Mais informações no site www.micasa.com. br/design.br

15 de NOVEMBRO

Poster4 tomorrow

Término das inscrições para o concurso Poster4Tomorrow, que selecionará os 100 melhores cartazes que representem a luta pelos Direitos Humanos em todo o mundo. os contemplados serão exibidos em ´metrópoles como Amsterdã, berlim, Nova Iorque e Paris no ano que vem. Para se inscrever, acesse http://www.poster4tomorrow.org/

10 de NOVEMBRO Início da exposição Meias Órfãs Brasil, que pega carona no ano da França no país. Idealizado pela estilista franco-brasileira Márcia de Carvalho, o projeto traz alunos da reconhcida escola parisiense Esmod em parceria com a Universidade Castelo Branco, do RJ. Os futuros estlilistas transformam meias que perderam seus pares em outras peças, como echarpes, mantos e chapéus. O workshop com os alunos se estenderá a donas de casa carentes de Marechal Deodoro, em Alagoas. mais informações no site http:// meiasorfasbrasil.blogspot. com/


AGENDA

16 a 18 de NOVEMBRO

até 22 de NOVEMBRO Uma retrospectiva do designer argentino Alejandro Sarmiento, conhecido por usar artigos recicláveis e resíduos em suas obras, ganha espaço no Museu da Casa Brasileira. Prepare-se para muita inovação tecnológica e experimentação de novos materiais.

O pavilhão do Shopping Frei Caneca, em São Paulo, recebe a 47ª Bijóias SP. A maior feira de bijuterias, acessórios, jóias de prata, aço e folheados da América Latina é exclusiva para lojistas e traz as novidades para o verão.

24 de NOVEMBRO

47ª Bijóias SP Centro de Convenções Frei Caneca Rua Frei Caneca, 569, 4º e 5º andares, Cerqueira César São Paulo - SP

23º Prêmio Design - Museu da Casa Brasileira. O concurso anual reconhece os trabalhos brasileiros que se destacaram na arquitetura e no desenho industrial. A exposição dos vencedores começa no dia seguinte à premiação.

Alejandro Sarmiento Museu da Casa Brasileira Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 São Paulo/SP tel. (11) 3032-3727 e (11) 3032-2564

23º Prêmio Design

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26ª Casa de Criadores

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Centro de Convenções Frei Caneca rua Frei Caneca, 569, 4º e 5º andares Cerqueira César - São Paulo/SP tel. (11) 3472-2000

25 a 27 de NOVEMBRO Início da 26ª Casa de Criadores. Realizado desde 1997, o evento aponta as principais tendências da moda no Brasil. A edição contempla o que deve ganhar as ruas na temporada outono/ inverno. Mais de 20 marcas apresentarão suas coleções no Centro de Convenções Frei Caneca.

Saint Étienne Cidade do Design Centro Cultural Banco do Brasil Rua Álvares Penteado 112 Centro - São Paulo - SP Ter. a dom., das 10h às 20h. tel. (11) 3113-3651

30 de NOVEMBRO São Paulo recebe a exposição “Saint Étienne - Cidade do Design”. A mostra, que integra o calendário ofical do Ano da França no Brasil, começou na Bienal Internacional do Design de Saint Étienne, no ano passado. O evento traz trabalhos inéditos que unem tecnologia e sustetabilidade. Já passou por Brasília, Rio de Janeiro e fica em Curitiba até 21/11. Na semana seguinte, aporta em São Paulo, onde fica até 1º de janeiro de 2010.


Biblioteca

Tem Qu e Te r Os livros fundamentais do design

Textos inéditos da arquiteta Lina Bo Bardi O livro revela a extraordinária capacidade que a arquiteta ítalobrasileira tinha de transformar seu universo criativo em palavras. Seus textos foram reunidos pela primeira vez em Lina Por Escrito, mas haviam sido publicados originalmente em revistas italianas. Os 33 artigos repassam e propõem novos conceitos para temas como habitação, mobiliário, arte popular, museologia, restauro, educação e políticas culturais. Os textos são ilustrados por desenhos originais, fotografias e obras gráficas da própria arquiteta, incluindo alguns layouts empregados na publicação de seus textos. Através de seus escritos é possível perceber como a mulher que criou projetos emblemáticos, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), Sesc Pompeia e o Museu de Arte Moderna da Bahia, foi peçachave na constituição de um olhar moderno sobre a cultura, tanto na Itália como no Brasil.

Lina Por Escrito Lina Bo Bardi Organização: Silvana Rubino e Marina Grinover Cosac Naify, 208 págs R$ 59

Adrian Forty Tradução: Pedro Maia Soares Cosac Naify, 352 págs R$ 59w

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Forty aventura-se num terreno inóspito, frequentemente evitado pelos profissionais: o uso da atividade como justificativa de convenções sociais, destrinchando o design e jogando-o cru a nossos olhos. A edição da Cosac Naify traz também uma interatividade inovadora com a cartela de adesivos que permite a cada leitor montar a capa de seu próprio exemplar. É uma obra referência para aqueles que desejam entender o design para compreender a sociedade – e vice-versa.

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Objetos de Desejo: Design e Sociedade Desde 1750

Com Objetos de Desejo: Design e Sociedade desde 1750, Adrian Forty propõe uma tarefa nada fácil: esmiuçar a complexa e nem sempre aparente relação entre o design e a dinâmica social. Porém, o professor da Bartlett School of Architecture de Londres a realiza com destreza em pouco mais de 300 páginas com linguagem ágil e saborosa, valendo-se de reproduções de jornais e catálogos de produtos de cada época analisada. O livro, de 1986, ainda surpreende pela atualidade.

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Sociedade de consumo

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Biblioteca

A linguagem visual na era da tecnologia

Edição lembra 90 anos da Bauhaus

Nem só de boas ideias é feito o design. Com as mudanças tecnológicas que vêm com softwares poderosos e aparelhos precisos, as possibilidades criativas aumentam e também a necessidade de conhecer cada vez mais ferramentas. As educadoras Ellen Lupton e Jennifer Cole Phillips deixam isso claro em Novos Fundamentos do Design, em que explicam como a forma mais adequada para cada criação nunca é alcançada sem amplo conhecimento técnico. O objetivo do livro é trazer os pontos cruciais do design – como ritmo, cor e textura – associados às novas tecnologias. O guia mostra com exemplos práticos a relação entre técnica e intenção. As colaborações de estudantes de design de diversas partes do mundo, da China a Porto Rico, dos Estados Unidos à Índia, enriquecem o livro. Obrigatório para quem não quer ficar parado quando o assunto é design.

A escola de design que influenciou importantes artistas do século 20 completa 90 anos em 2009 e é tema do livro ABC da Bauhaus: a Bauhaus e a Teoria do Design, organizado pelos críticos norte-americanos J. Abbott Miller e Ellen Lupton. Com um projeto gráfico bem elaborado, a obra reúne ensaios sobre a linguagem visual do movimento. O designer e teórico J. Abbott Miller mergulha na história da educação para mostrar a enorme influência da teoria alemã do Jardim da Infância (Kindergarten) – que pregava o estímulo ao desenvolvimento da imaginação das crianças – nos princípios elaborados pela Bauhaus. Já Ellen Lupton, uma das estudiosas mais ativas e reconhecidas atualmente, examina de forma crítica os principais elementos do “dicionário visual” criado pela escola, questionando sua neutralidade e seu afastamento da linguagem verbal.

Novos Fundamentos do Design Ellen Lupton e Jennifer Cole Phillips Tradução: Cristian Borges Cosac Naify, 248 págs R$ 69

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Produtos que exploram a emoção

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Design Emocional Donald A. Norman Tradução: Ana Deiró Rocco, 278 págs R$ 45

Será que os objetos bonitos funcionam melhor do que os feios? Esta é a questão que o psicólogo, engenheiro elétrico e professor de ciência da computação Donald Norman tenta responder no livro Design Emocional, em que apresenta ao leitor uma nova tendência de consumo. Segundo ele, o usuário atribui o que sente diretamente aos objetos, mediante as emoções geradas em suas experiências de utilização. A obra também trata de uma série de produtos que intrigam e irritam o consumidor – como o espremedor de sucos Phillip Starck e o computador –, além de ser uma manifesto contra os manuais de instrução, considerados inimigos da modernidade. Para Norman, um design bem elaborado dispensa apresentações e bulas. Por fim, o autor afirma que muitos objetos são funcionais, os utensílios domésticos, por exemplo, mas nem sempre prazerosos de usar.

ABC da Bauhaus: a Bauhaus e a Teoria do Design Ellen Lupton e J. Abbott Miller Tradução: André Stolarski Cosac Naify, 72 págs R$ 55


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, ô Al ! e ã m a m Salva-vidas de muitas emergências, o orelhão é um exemplar do design brasileiro que ganhou o mundo

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Por Gabriella de Lucca

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Chu Ming Silveira nasceu em Xangai, na China, naturalizou-se brasileira e formou-se em Arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Morreu em 1997, aos 56 anos. Para preservar sua memória seus filhos Djan e Alan Chu Silveira elaboraram um site sobre a invenção: www.orelhao.arq.br.

os tempos em que pagers e telefones celulares figuravam apenas em roteiros de ficção, e em que uma linha telefônica custava cerca de mil dólares – o equivalente a 1.900 reais, o telefone público era a opção de muitos brasileiros para realizar uma chamada. Mas as antigas cabines telefônicas, além de serem fácil e frequentemente depredadas, custavam 3 mil cruzeiros cada uma – um valor alto para a época, marcada pela inflação. Foi para acabar com esse “boi na linha” que Chu Ming Silveira, arquiteta chinesa radicada em São Paulo, criou os protetores para telefones públicos. Idealizado em 1970, o orelhão – como ficou popularmente conhecido – foi implantado experimentalmente na rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, no final do ano seguinte. O local escolhido foi a Companhia Telefônica Brasileira (CTB) – que mais tarde se transformou na Telesp. Os primeiros orelhões ganharam as vias públicas da capital paulista em


Design Brasil 25 de janeiro de 1972, aniversário da cidade. No Rio de Janeiro, os protetores para telefones públicos chegaram cinco dias antes, em 20 de janeiro, feriado de São Sebastião. Chu Ming descreve no memorial do projeto que “procurou encontrar uma solução de design e acústica para protetores de telefones públicos que apresentassem uma relação custo-performance melhor dos que a dos já existentes e que se adequassem às nossas condições ambientais.” A arquiteta era chefe da seção de projetos da CTB nesse período. Partindo da forma de um ovo, ela criou o design do protetor, que tinha cor alaranjada. O aparelho telefônico em si era um caixotão vermelho, que funcionava com fichas de ranhura dupla. Após longa pesquisa, Chu Ming chegou ao material que atendia a requisitos como proteção do usuário e do telefone, baixo custo de fabricação e manutenção, facilidade de instalação, durabilidade, boa acústica e estética: a fibra de vidro não transparente.

A altura dos orelhões, de 1,75 metros, é baseada na estatura média dos homens brasileiros. Atraente ao público, o modelo foi copiado em países da América do Sul, como Bolívia e Chile, e também na China – país de sua inventora. Na 1ª Bienal de Arquitetura, ocorrida em São Paulo de 8 a 30 de junho de 1973, no Parque do Ibirapuera, a arquiteta expôs os projetos de sua autoria relativos aos protetores para telefones públicos. Chu Ming também projetou variantes do orelhão, como o “orelhinha” (o protetor público interno de acrílico, que até hoje se encontram instalados em todos os aeroportos brasileiros), a concha, que foi uma variante encontrada somente em postos de gasolina e o que foi mais importante para esse mobiliário urbano nas ruas – as variações modulares duplas e triplas. Depois disso, cada cidade brasileira adaptou o design do orelhão conforme suas características culturais. Na Bahia, por exemplo, é possível encontrá-los em forma de berimbau e coco.

FOTOS: divulgação


opinião

Design de macarrão Por Eduardo Foresti, colaborador da revista DZ fícios com design avançado. Mas por que essa superexposição? O termo design surgiu no início do século passado, após o processo de industrialização e paralelo ao modernismo. Servia para designar o profissional que projetava objetos destinados à produção em massa – ou seja, os desenhistas industriais. Os modernistas acreditavam que um bom produto precisava unir a forma e a função de uma maneira harmônica, sem que um atributo ofuscasse outro. Para tanto, o designer deveria pensar em artigos úteis, simples, fáceis de reproduzir e esteticamente agradáveis. Por isso a palavra acabou associada, ao longo do tempo, a artefatos bem resolvidos e convenientes, cuja execução foi pensada e repensada. Posteriormente, o vocábulo teve seu significado ampliado e passou a representar qualquer atividade re-

lacionada ao processo de dar forma a algum objeto, e também ao seu desenho. Por esse motivo, quem cria sites, por exemplo, também é tratado como designer. Vivemos em uma sociedade cada vez mais visual: a forma passou, gradativamente, a ter mais importância e significado para a população. Valoramos cada vez mais a origem dos objetos, sua história e, por consequência, o seu design. Porém, geramos situações extremas ao classificar toda e qualquer atividade manual de design. Soa inadequado. Ainda que se trate da tentativa de apropriar uma palavra com conotação positiva, para tentar glamourizar uma atividade artesanal por vezes desvalorizada, é preciso bom senso. Não estranhe ao se deparar por aí com um designer de sobrancelhas, unhas, ou mesmo com um designer de macarrão!

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Formado na FAU-USP e pós graduado na Basel School of Design, na Suíça, Eduardo Foresti começou sua carreira no escritório de branding e design Landor Associates, em San Francisco. No Brasil, atuou na Almap/ BBDO, F/Nazca e Giovani, FCB como designer gráfico e web designer, e criou para grandes marcas como Sagatiba, Kaiser, VW, Audi, Claro, Brahma e Pepsi. Seus trabalhos já foram premiados nos festivais de Londres, Cannes, Clio, CCSP e One Show. Hoje é Diretor de Criação da ?EC.

ilustração: Claudia Guindani

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Abra uma revista. Não precisa ser de moda, nem de arquitetura. Dê uma volta a pé pela rua Teodoro Sampaio, observe as vitrines e os nomes das lojas. Assista a qualquer canal de televisão durante uma hora. O que essas atividades têm em comum? O bombardeio da palavra design. Há dez anos, era pouco comum conhecer o termo, que atualmente integra o vocabulário da maioria das pessoas. Ao folhear uma revista qualquer, você verá que o termo é usado para falar de móveis e arquitetura. Se for um veículo de moda ou comportamento, haverá extremos: designers de pães, bolos e até de cabelo. No passeio pela Teodoro Sampaio, haverá muitas lojas com design no nome ou anúncios de “móveis com design”, para vender desde um berço até uma réplica da cadeira Barcelona. E, ao assistir à TV, os comerciais falarão de carros e edi-


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DZ revista de design  

DZ issue zero. Design magazine project of Sao Paulo Casper Libero University of Journalism, Brazil.

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