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SALVADOR QUINTA-FEIRA 13/3/2014

Xando P./Ag A Tarde, em 13/11/2002.

LITERATURA Dissertação detalha livro pouco conhecido do artista de produção múltipla

A dissertação ainda não foi publicada em livro, mas pode ser acessada em www.ppgel.uneb. br e também no site do Ipeafro (www.ipeafro. org.br)

Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento CLEIDIANA RAMOS

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março, Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu. Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra. A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade. “O senso comum tem uma noção de poesia como algo que está apenas no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho . A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Ba-

“Sua obra é literatura negra e traz a mensagem da luta cotidiana contra o racismo” LINDINALVA BARBOSA, mestre em Estudo de linguagens

Lúcio Távora / Ag. A TARDE

Abdias Nascimento deixou obra vasta que inclui teatro, artes plásticas e militância política

hia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias. Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Organizado (MNU). De acordo com ela, embora o livro traga poesia, ele reflete o

espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum. Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do

ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência. “Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas.

“A praça era um verdadeiro centro cultural, ajudando a amenizar a repressão vivida”

Movimento Poetas na Praça completa 35 anos de história Um grupo de artistas que se juntaram e transformaram a Praça da Piedade na “Praça Nacional da Poesia”. O Movimento Poetas na Praça, que comemora 35 anos de existência, reuniu uma gama de agitadores culturais compartilhando experiências artísticas com poesia, teatro, dança e performance. Foi a partir de algumas reuniões de artistas, jornalistas e resistentes à ditadura, todos pensando na liberdade de expressão e procurando alternativas para que pudessem manifestar suas inquietações, que, em 1979, surgiu o Movimento Poetas na Praça. De uma prosa com cafezinho a performances e recitais, tudo por conta da vontade de se expressar. Observando o interesse das pessoas, Geraldo Maia, junto com Eduardo Teles, idealizaram o movimento. Assim começaram com os recitais, realizados de segunda a sexta-feira, na

Abdias era assim”, diz. “Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era ferramenta para a luta contra o racismo; Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora. O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro. “Em uma de suas biografias, ele coloca que o momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva. Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia. O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.

André Penteado / Divulgação

POESIA

GISLENE RAMOS

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Praça da Piedade, sempre às 16 horas.

GERALDO MAIA, cofundador do MPP

O dia da poesia

Amanhã, 14 de março, será comemorado o Dia Nacional da Poesia e o MPP tem forte ligação com o dia. Em 1980, o grupo promoveu um Passeio Poético, uma caminhada pelas ruas de Salvador até a Praça Castro Alves, poeta cultuado pela maioria. Todos fantasiados, rostos pintados e distribuindo os chamados “panflemas”, panfletos com poemas. Entre os artistas que ali se reuniam estava o cineasta Edgard Navarro – famoso por seus filmes polêmicos e subversivos, como o média-metragem Superoutro. Segundo o cineasta, o tempo vivido na época era de muita repressão política e aquelas pessoas tinham uma pulsão libertária e um desejo grande de mudança, o que levou à imediata identificação. "Reconheci a minha tribo", conta Edgard.

CHARGE NO JORNAL

Integrantes do Movimento Poetas na Praça em atividade na Praça da Piedade, nos anos 1980

A praça ao povo

O MPP levou para a praça obras de poetas importantes, até então censurados, como Gregório de Matos e Cuíca de Santo Amaro, além da produção de livretos, com a ajuda de escolas e professores que simpatizavam com o grupo. Para Navarro, “aquilo mexia com o cotidiano das pessoas, com seus compro-

missos do dia a dia". Geraldo Maia, cofundador do movimento, conta que “a praça era um verdadeiro centro cultural, ajudando a amenizar a repressão vivida”, por causa da ditadura militar. Apesar das ameaças, agressões e prisões, o grupo contava com importantes defesas, como a de Jorge Amado, a imprensa e alguns inte-

Em 1982 foi publicada uma charge em A TARDE em defesa do Movimento Poetas na Praça. Um soldado chega ao superior e diz: “Doutor, já prendemos toda a quadrilha, só falta o chefe deles, esse tal de Gregório de Matos”

lectuais da academia. O grande desafio e mérito do MPP foi a tomada de posse da praça, um local público que ficou a serviço do povo com a arte. Atualmente, muitos dissidentes do movimento continuam com atividades similares em praças, escolas ou em outros espaços culturais, mantendo ainda o espírito libertário do Poetas na Praça.

O Movimento Poetas na Praça levou às ruas obras de Gregório de Matos e Cuíca de Santo Amaro

Workshow com o cantor Russel Allen

Dodô & Osmar será no dia 8 de abril

O cantor norte-americano de heavy metal Russell Allen faz workshow em Salvador nesta sexta-feira, às 19 horas, no Teatro do Irdeb (Federação). Conhecido entre os fãs de metal como o vocalista das bandas Symphony X e Adrenaline Mob, Allen é californiano e tem na bagagem turnês mundiais e produções de discos e bandas. O evento terá a participação do vocalista e produtor brasileiro Thiago Bianchi (Shaman/Noturnal). Ingressos: Foxtrot Bella Vista e Piedade. Informações: 9396-2525.

Os melhores do Carnaval de 2014 serão conhecidos durante a cerimônia de premiação do Troféu Dodô & Osmar, no dia 8 de abril, no palco principal do Teatro Castro Alves. O Dodô & Osmar, uma realização do Grupo A TARDE e do Grupo Engenho, é considerado o maior e mais importante reconhecimento da festa momesca baiana. O Troféu já reconheceu e revelou talentos hoje consagrados no Brasil, a exemplo de Tomate (2005), Alinne Rosa (2004), Cláudia Leitte (2003) e Ivete Sangalo (1995).

CURTAS Exposição celebra amizade Brasil/Holanda A partir de hoje e até o dia 26, a Praça Central do Salvador Shopping recebe a exposição Brasil e Holanda – Paz e Justiça: Refletindo sobre o passado, construindo um futuro melhor. Focada nos temas “Relembrar, Refletir e Reagir”, a exibição traz à tona fatos históricos entre Brasil e Holanda e proporciona uma reflexão sobre este passado comum. A mostra é dividida em três partes. A primeira aborda a história de João Maurício de Nassau e sua influência no Brasil no século 17. A segunda mostra a história de Anne Frank e do holocausto na

Europa. E na terceira estão expostos os painéis relacionados à Haia, a Cidade Internacional da Paz e da Justiça.

João Maurício de Nassau, Anne Frank e a cidade de Haia são os focos da mostra que está no Salvador Shopping

Castro Alves tem festival de poesia O aniversário do poeta Castro Alves (1847-1871) será comemorado hoje em sua cidade, Cabaceiras do Paraguaçu (Recôncavo baiano), com a realização do 13º Festival de Declamação de Poemas de Antônio Castro Alves. O evento, que já é tradição na cidade, é uma iniciativa da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Dimus/Ipac). Também dá início às comemorações dos 167 anos de nascimento do autor de Espumas Flutuantes. Hoje, no Parque Histórico Castro Alves.

Reprodução

Poeta Castro Alves é lembrado nos 167 anos de seu nascimento

Movimento Poetas na Praça  

Matéria sobre Movimento Poetas na Praça, Salvador anos 80. Publicada em 13.03.2014