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—Rohan— lhe chamou uma voz baixa e rouca. Girou a cabeça, a dor do pescoço por estar pendurado suspenso tanto tempo disparou pelas costas até as pernas. Rohan afastou a dor e olhou à direita. Se pudesse, sorriria. Thorin. A não mais de uma longitude de um braço dele. Na penumbra podia contar as costelas do viking. —Aye3, Thorin, ouço-lhes. —Somos os próximos, irmão. Rohan assentiu com a cabeça, sabendo que a cela que ocupavam com não menos de uma vintena de cavalheiros capturados e um sarraceno tatuado logo estaria vazia. Cada dia o som das celas esvaziando-se estava mais perto. A ira brilhou de novo. Tinham sido traídos, muitos deles. Colocados como confiadas peças de xadrez em uma guerra onde um dia lutava pau a pau com um cavalheiro e no seguinte te matava por detrás. Rohan tragou saliva com dificuldade, a lenta passagem pela ressecada garganta não era menos dolorosa que a tortura que tinha sofrido. Estava morrendo agora, de dentro para fora. — Eu te juro isto, Thorin: Levarei ao menos uma dúzia destes cretenses comigo antes que os morcegos me devorem. —Aye, eu também. Por debaixo dos cílios, sem ter força para lutar mais, Rohan olhou ao redor da cela, aos homens; cavalheiros mercenários como ele que tinham sido capturados em uma emboscada durante uma incursão em uma aprazível aldeia das montanhas que envolviam a cidade sarracena do Viseu. O ódio lhe queimava tão ferozmente nos olhos que ele o sentiu no coração. Os homens pendurados as algemas sobre seus ombros, vestidos somente com uma tanga. O único equilíbrio precário que tinham encontrado era sobre os dedos dos pés para evitar que os braços soltassem das articulações. Olhou as caras que conheceu na terra onde tinha nascido na Normandía. Warner, um órfão da casa de seu pai adotivo; Stefan, o filho mais velho do conde de Valery; e o velho amigo de Rohan e companheiro de juventude, Thorin. Os outros Wulfson, Ioan, Rhys, e o escocês, Rorick tinha conhecido aqui, lutando na terra dos sarracenos, agora reunidos no poço da morte. Todos eles compartilhavam um denominador comum. Todos e cada um dos golpes. Forçados a empunhar uma espada para sobreviver. Sim, eram cavalheiros mercenários que tinham prometido fidelidade ao rei Fernando I de Castilla e León4. Por um preço. E todo eles, aparetemente, estavam condenados a uma morte atroz nessa terra estrangeira por isso. Tal era a vida daqueles de sua classe. —Podem ser vencidos. —disse uma profunda voz com acento estrangeiro do outro lado de Rohan. Girou a cabeça para olhar ao homem cuja pele rivalizava com a mais escura das noites sem lua. Em todos os dias que tinha compartilhado este pequeno espaço com ele, não tinha pronunciado uma só palavra. Por que agora? Sabia ele, acaso, que sua hora estava próxima? Com as palavras do homem, a energia, por pequena que fosse, elevou-se aos limites da úmida cela. — Por que nos diria isso, sarraceno? —exigiu Rohan. 3

Nota PRT: Aye tem o significado de sim, mas falado de maneira informal. Fernando I o Magno (1016-1065), rei de Castilla (1035-1065) e de León (1037-1065). Era o segundo filho de Sancho III de Navarra e dona Mayor de Castilla 4

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O legado da espada de sangue 01 - o senhor da rendição - Karin tabke  

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