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THE LAST PICTURE SHOW

por Gilson Leão gileao57@gmail.com

odos os casamentos são ruins Sam? Não Sonny, só em 90 por cento dos casos.... Esse clima de pessimismo e desolação é a tônica de “A ùltima sessão de cinema” de Peter Bogdanovich, exibida nesta segunda feira na Sky, canal TCM. Vivo com a Sky uma relação de amor e ódio. As faturas chegam em cima da hora, são pagas com antecedência e recebo telefonemas dois dias depois com ameaças de cortes. Aí, Nelson, dá vontade de mandar cancelar a assinatura e aguardar uma organização melhor da empresa. Só que os filmes, por mais repetitivos que sejam, nos surpreendem e conseguem nos manter a distância desses pavorosos canais abertos com seus BBBs e Pastores da Noite. Hoje, enquanto jantava um cachorro quente de salsicha Swift, para amargar a pena, comprei algumas Itaipavas e liguei a Sky. Dez horas da noite, segunda depressiva e amarga, brigado com a mulher, os filhos e com o mundo, e...de repente o TCM resolve reprisar The Last Picture Show. Realmente, como dizem os gringos, eu não estava “in the mood” para assistir tanta desesperança, mas obra de arte é revigorante mesmo quando a amargura é a tônica da história. Americano tem a mania de listas. Outro dia lí uma sobre as cenas mais tristes da história do cinema. Esse filme tem para mim um dos finais mais tristes de todos. A morte do menino retardado e o retorno de Sonny a casa de sua amante quarentona. Aliás, Bogdanovich arrebenta no quesito amargura e desesperança, e através da arte dá uma clara lição de vida as gerações posteriores a este filme. Depois de Anarene, tudo tende a melhorar. Até a cultura de Cachoeiro de Itapemirim. Jacye - pronuncia-se Gei-cê- Sonny, Duanne, Sam - the Lion- são personagens que ficaram marcados como exemplos do bom cinema.

1971

- Assistí este filme no Cacique. Jeff Bridges, Oscar de melhor ator em 2011, tinha ainda 21 anos, mas interpretava um personagem de 19. Cibyl Shepperd, gostosíssima, faz o papel de Jacye (Gei-cê), Timothy Bottons foi Sonny e Ben Johnson, Sam The Lion. Na época da exibição nós tínhamos vinte e poucos anos e acompanhamos a decadência de nossos cinemas de forma simultânea ao cinema de Anarene - Texas. O São Luiz virou Cine Plaza e só passava Kung Fú. O Cacique encerrou as sessões cults das quartas e as trocou por porno-chanchadas. O Broadway foi sendo derrubado devagar até virar Igreja de Edir Macedo, cujos demônios devem até hoje atemorizar aquele prédio abandonado. Nossos cinemas morreram décadas depois do de Anareme - Texas, assombrados pelo espectro do cinema de Sam-The Lion, mas da mesma forma devorados pelos ridículos programas de TVs. Em Anarene, a sessão derradeira foi o filme Rio Vermelho de Howard Hawks, com John Wayne e Montgomery Cliff. Em Cachoeiro, para mim, foi Roma de Felline, exibido numa quarta feira vazia no Cacique, numa cópia mais despedaçada que nossas almas de cinéfilos, que até hoje não nos acostumamos a assistir filmes dublados em Shopping Centers da cidade. Nessa segunda, porém, via Sky, tudo voltou. Duanne foi para a Coréia, Jacye (Gei-cê) para a faculdade em Dallas, Sam the Lion morreu em cima de uma mesa de sinuca, e Sonny continua em Anarene, tentando recuperar uma época que não voltará - como todas as outras - jamais. Ah, esquecí de comentar. A maravilhosa trilha sonora é totalmente baseado nos blues rurais, escutadas através da pequena juke-box da lanchonete de Sam - The Lion.

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partir desse filme Bogdanovich consagrou-se como um dos mais importantes diretores de Hollywood. Nesse momento, esqueço os percalços da Sky, faço as pazes com as faturas que chegam atrasadas, com as atendentes on-line que não resolvem meus impasses, jogo as latas vazias de Itaipava no lixo, despeço-me do balcão, e vou dormir em paz. Não vou negar uma certa inveja de Sam- The Lion, que pelo menos morreu em cima do pano verde de sua sinuca Tujaque, antes de assistir a derrocada do cinema de Anarene. Ou ser obrigado a assistir Roma de Felline mais cortado que chanchada da Atlântida.

DECORES TINTAS


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