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Cachoeiro de Itapemirim(ES)

FICÇÃO & ENSAIOS LITERATURA

A

gora é oficial. Temos o orgulho de apresentar Bruno Torres Paraíso como nosso mais recente colaborador. Aproveitando a oportunidade do ano dos centenários ilustres, Bruno faz uma série de perfis dos homenageados, começando por João de Deus Madureira Filho. Este personagem é tão importante para a história de Cachoeiro que dividimos a texto em duas partes. Publicaremos a segunda na semana que vem, acompanhada por novas fotos garimpadas por Tânia e Maurinho Madureira entre os guardados da família. As fotos de hoje são cópias de cópias, mas seu valor histórico compensa a qualidade fotográfica de menor qualidade.

JOÃO

MADUREIRA

Gilson Leão

Um espírito renascentista as margens do Itapemirim PARTE UNO

por BRUNO TORRES PARAÍSO

N

ascido em 26 de janeiro de 1912, João de Deus Madureira Filho, de tradicional família cachoeirense, se vivo fosse, estaria comemorando seu cem anos. Morreu bem antes disso, em 1983, causando verdadeira comoção pública na terra que tanto amou e que tanto também o amou. Os milhares de alunos e de crianças que por ele foram tratados com tanto desvelo, que lhe devem, em grande parte o privilégio de viver em crescer em dignidade, sempre em busca de valores elevados para preencherem suas vidas, apesar da imensa saudade, enchem-se de júbilo para festejar um mestre admirável, um homem ímpar na sua postura diante da vida e do mundo. Aí, não tem jeito: Cachoeiro tem que contraditar o mestre e olhar para o passado, profundamente agradecida por ter sido o seio de uma vida tão profícua – e de outras não menos ilustres, todas elas contemporâneas de Madureira, seus pares em grandes, cujos centenário também se comemora agora: Deusdedit Baptista, Solimar de Oliveira, Waldemar Mendes e Carlos Frederico Garschagen – além dos cinqüenta anos da morte do poeta Newton Braga. Uma urbe que tem uma história assim, com tantos filhos ilustres, tem todo o direito de estufar o peito e dizer, como Rubem Braga, cheio de malícia:” Modéstia à parte, sou de Cachoeiro de Itapemirim”. Quando me perguntam: por que terá João de Deus Madureira Filho escolhido como especialidades médicas por excelência o sanitarismo e “pediatria suja”, eu sempre respondo, ressaltando o seu compromisso com a medicina social, aquela a quem todos devem ter acesso, um dever do Estado: porque ele era impoluto. Pessoas assim podem tocar na sujeira, porque jamais serão tocadas por ela.

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Além de tantas virtudes, era um democrata. Respeita a maneira de pensar do outro, mesmo se confrontasse com a sua visão de conservador médio, que jamais se associaria à direita intolerante. Era um udenista no que essa antiga partidária tinha de melhor. Quem pensava diferente era um antagonista, nunca um adversário. Pensar diferente nunca a impediu de ter amigos das mais diversas cores ideológicas.

Dr. João durante uma aula de geografia no Liceu

E respeitava os jovens, aos quais educava, mas nunca catequizava. Aceitava que buscassem seus próprios caminhos, ainda que por experiência os antevisse, muitas vezes, como ingênuos, arriscados. Podia aconselhar, jamais impor. Fui de uma geração altamente contestadora, que enfrentou o golpe militar de 1964 e a porta da sua casa e do seu coração jamais esteve fechada para mim e os que pensavam como eu. Hoje, reverencio a sua lucidez, mas não tenho dúvida de que somente um grande educador deixa o caminho livre para o jovem escolher suas opções e com elas aprender, amadurecer. Ninguém aprende sabendo. Faz-se o caminho ao andar. Para lembrar uma expressão que ele sempre usava: “Cachola” de jovem não deve ser controlada, mas deixada livre: obviamente, liberdade com responsabilidade; direito conjugando com dever. Seu consultório na Praça Jerônimo Monteiro, anexo à sua casa, tinha as portas permanentemente abertas. A ninguém era recusada uma consulta, sempre acompanhada dos remédios necessários e também de alimentos indispensáveis para ajudar na reconquista da saúde. Tinha a cumplicidade de uma companheira incrível: a educadora Adyr Miranda Madureira, que mesmo depois que ele partiu continuou a cumprir o seu “dever”. Apesar disso, Madureira jamais aceitou o rótulo de médico humanitário. Nem fez disso trampolim para uma carreira política que tinha plena condição de concretizar com alta responsabilidade. Foi sempre, essencialmente, médico e educador, e nem por isso deixou de viver uma vida confortável, sem ostentação, mas acima da média. Também jamais admitiu receber honrarias por conta disso. Convidado por mim para fazer parte da Academia Cachoeirense de Letras, recusou, porque não tinha vocação de cultivar o próprio umbigo, para a placidez de uma imortalidade postiça. Só depois de morto, quando não mais podia recusar honrarias, é que seus pares o acolheram, com plena justiça, como patrono da cadeira número 15 da Academia Brasileira de Pediatria, ao lado de expoentes dessa especialidade: uma honra e tanto para um pediatra da província, que sempre exerceu o seu metiê nos limites geográficos de Cachoeiro de Itapemirim e uma ou outra adjacência.

Médico de formação erudita – um médico humanista –, que dignificou como poucos a profissão, fez da pediatria, da clínica médica e do sanitarismo os seus cavalos de batalha. Não ficou circunscrito ao consultório. Embreava-se pela periferia da cidade para cuidar da população mais carente e fazia isso com o saber de um profundo conhecedor da natureza. Não apenas receitava remédios. Ensinava a população a se alimentarem recorrendo à natureza à sua volta, pródiga de frutos, ervas, verduras e animais capazes de matar a fome, de vencer anemias e de prevenir tuberculoses, a desnutrição e outros males que a assolavam naqueles tempos em que a cidade carecia de serviços básicos de higiene e suporte médico-hospitalar adequado. Ele chegava no seu jeep: era a esperança que aportava naquelas grotas que poucos se animavam a desbravar. Seu amor às crianças era indescritível e ele jamais fez alarde disso. Sua “pediatria suja’, expressão que ele próprio cunhou para exprimir o que fazia, salvou incontáveis vidas da ameaça da desnutrição e de outros males produzidos pela pobreza. Quantas daquelas crianças outrora sem esperança estão hoje aí, puxadas por suas mãos competentes da sepultura precoce, dando conta do seu recado!... Amigo da natureza, ele adorava pescar e caçar, mas sempre dentro dos limites estabelecidos pelas leis naturais: jamais fora delas. Exercitar essas atividades tinha para ele um significado muito especial: o de estar mais próximo do extasiante espetáculo dos rios piscosos, dos mistérios do mar e das matas e florestas fechadas, moradas naturais do mundo animal. O predador que havia nele se exercitava com humanidade, dentro das linhas do respeito ao meio ambiente. Os ecochatos de hoje, fiscais impenitentes (e muitas vezes predadores num outro sentido, pois muitas vezes são adeptos daquela péssima sabedoria popular: “Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”) certamente o condenariam, mas João Madureira tinha a consciência tranquila: conhecia plenamente as suas virtudes e defeitos, e não há dúvida de que as primeiras lhe eram prevalentes. Ele conhecia bem os sepulcros caiados e não caía nas suas ciladas. BRUNO T PARAÍSO * ornalista e editor. Membro permanente e fundador da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IGHES).

DR JOÃO MADUREIRA POR BRUNO PARAÍSO  

PÁGINA CINECLUBE JECEVALADAO NA FOLHA DO ES