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SAÚDE

Foto: Herbert Clemente

JOÃO PESSOA - PARAÍBA 1° A 7 DE DEZEMBRO DE 2011 Jornal do Laboratório do Curso de Jornalismo da UFPB

pág. 8 Foto: Cairé Andrade

CULTURA Literatura popular pág. 14

Inclusão aquática

Foto: Cairé Andrade

Foto:Pedro Alves

Ciência e cobaias pág. 10

ESPORTE

CULTURA Artes cênicas pág. 15

QuestãodeOrdem

Obras expõem trabalhadores a situações de risco na UFPB Foto: Herbert Clemente

Falta de hábito no uso de equipamentos básicos de segurança tais como luvas, capacetes e roupas adequadas ameça a segurança de operários em atividade nas obras do Campus I

Foto: Lorena Oliveira

Bloco cirúrgico está paralisado e pacientes ficam sem atendimento há mais de um mês

O Hospital Universitário Lauro Wanderley é referência na Paraíba em atendimentos de alta complexidade e em todo o estado é só ele que realiza, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cirurgias de redução de estômago. É este mesmo hospital que os profissionais de saúde que trabalham lá chamam de sucateado. No momento, o bloco cirúrgico está fechado e mais de 800 pessoas esperam na fila para fazer o procedimento. O que agrava a situação é que esses doentes não podem aguardar que a direção cumpra prazos de licitação para compra de materiais básicos, sob risco de morrer. A Justiça determinou reativação dos serviços e contratação, por concurso público, de mais profissionais para a instituição. pág. 9

Campus

Esporte

Educação

Descentralização Foto: Cairé Andrade

Suspensas cirurgias no HU

O aumento da produção e do desenvolvimento do setor de construção civil na Paraíba também se reflete no Campus I da UFPB, por causa dos projetos de expansão da universidade. Em consequência, os riscos de acidentes relativos à segurança no trabalho foram evidenciados pelo acidente que aconteceu no dia 31 de outubro, envolvendo dois operários. Joélisson Hélio Justino, de 24 anos, e Diogo Rodrigues, de 23, caíram enquanto trabalhavam em uma construção na expansão da residência universitária e foram rapidamente dirigidos ao hospital de emergência e trauma, senador Humberto Lucena. O coordenador administrativo da Prefeitura Universitária, engenheiro eletricista e de segurança do trabalho, Roberto Ribeiro, alegou, na tentativa de amenizar o caso, que se tratava de um fato isolado que foi causado por irresponsabilidade do operário. A legislação, no entanto, aponta que em casos de acidente de trabalho, a culpa é do empregador e não do empregado. O engenheiro civil, Masao Mitsunaga, foi convidado pela equipe do Questão de Ordem para avaliar em que condições de segurança trabalham os operários na UFPB. pág. 5

Criação de novos Centros alteram perspectivas políticas e de gestão na universidade | pág. 12

Política

Cultura

A peteca da vez Pré-candidatos Cine Gourmet Expansão agride Comunicação meio ambiente auxilia educação é o badminton discutem Reuni em João Pessoa

A expansão horizontal do Campus I da UFPB ameaça a mata atlântica, pelo avanço das obra, prejudicando o ecossistema e o habitat de animais selvagens. Ecologista explica as condições atuais de algumas espécies e aponta soluções para o problema. pág. 7

A metodologia pedagógica da Educomunicação faz parte da vida acadêmica de grande parte dos estudantes, mesmo que muitos deles não a percebam. Os meios de comunicação ganham cada vez mais espaço na produção escolar dos alunos. pág. 3

Novidade esportiva no Campus I, o badminton chegou na universidade trazendo euforia. A modalidade olímpica está sendo praticada na universidade, como projeto de extensão para os alunos e professores do curso de Educação Física. pág. 8

Na segunda parte do debate entre os candidatos à Reitoria da UFPB, o Reuni foi o assunto mais explorado pelos reitoráveis. Os quatro candidatos explanaram suas opiniões sobre o programa do Governo Federal e a gerência dele na gestão Polari. pág. 11

Festival cinematográfico realizado nos campi de Bananeiras e da capital evidencia as relações entre o audiovisual e a gastronomia. O longa cômico Estômago ou o bizarro Delicatessen são apenas dois exemplos da amplitude da temática trazida à tona. pág. 13


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opinião

JOÃO PESSOA - PARAÍBA 1° A 7 DE DEZEMBRO DE 2011 Jornal do Laboratório do Curso de Jornalismo da UFPB

editorial

O

Cidadão? Operários são símbolos da contradição

erro de uma única história

Histórias, sejam elas transmitidas oralmente ou registradas nos métodos científicos de uma ortodoxia ocidental, sempre trazem um recorte da realidade vinculado ao interesse de quem as conta. São sempre construídas com uma intencionalidade, fruto de um conjunto de valores inseridos no repertório do contador, por isso nunca vão alcançar a inatingível imparcialidade. Eis, portanto, o perigo de se conhecer apenas uma história. As interpretações positivistas transmitiram a história da humanidade, diante de uma perspectiva generalista, reducionista, imutável e maniqueísta, privilegiando a versão do dominador, o corajoso e destemido branco europeu. A história do dominado, do ameríndio, do africano e do asiático sempre existiu, mas foi silenciada pelo amordaçamento das estruturas de poder. O pós-positivismo então surge na tentativa de quebrar paradigmas estigmatizados, tentando mostrar que a realidade em que vivemos é fruto de uma construção, que as conjunturas sociais são mutáveis e que o mundo ainda pode ter solução. O que é preocupante para muitos é: Com que mãos estão sendo escritas as histórias da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)? Até que ponto não está se cometendo o mesmo erro de se contar uma mesma história, sob o único olhar? O jornalista é, segundo Caco Barcellos, “um historiador do tempo presente”. Muitas das interpretações de uma época são buscadas nos jornais. Esse meio de comunicação social já passou por

inúmeras transformações ao longo do tempo. Deturpações agressivas da sua proposição fundante comprometem na prática a história do tempo presente. Se a história continuar a ser contada sob um único olhar, corrompido e comprometido, em um futuro não tão distante, o erro será perpetuado. O Questão de Ordem, fundamentado em um processo educacional, é o contra-ponto de um jornalismo empresarial, se trata do dever ser. É a tentativa incansável de se contar o outro lado da história, que é, por vezes, silenciado. O que estimula a produção desse jornal é a incansável tentativa de não se permitir que a UFPB tenha apenas uma história, uma única interpretação da sua realidade. Este jornal se propõe ouvir a voz dos operários que entram na universidade para construir, não para se instruir; a voz dos pacientes sem atentimento no Hospital Universitário Lauro Wanderley que esperam esperançosamente para ter acesso à saúde, diante de um bloco ciríurgico paralisado; a voz dos esportes que são oprimidos pelo país do futebol; a voz dos portadores de deficiências especiais que querem ser percebidos como capazes, a voz dos apaixonados pela arte que não desistem, mesmo sem incentivos institucionais à infra-estrutura do Teatro Lima Penante; a voz de um época de efervescência cultural que foi esquecida e de uma ditadura que oprimiu estudantes. O Questão de Ordem se propõe a ampliar essas vozes, pelo desejo de fazer da UFPB um universo diverso de infinitas histórias.

“Tá vendo aquele colégio moço Eu também trabalhei lá Lá eu quase me arrebento” O número de pessoas que transitam pela universidade é superior a 37 mil ao dia. Em todos os corredores, há gente indo e vindo para resolver algo de sua atividade acadêmica, seja estudante, professor ou servidor técnico. O processo de expansão experimentado nesses últimos cinco anos na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) aumentou ainda mais esse ritmo frenético da gente que vai buscar seu lugar no futuro. Mas, talvez o símbolo maior desses anos seja as construções ao redor de quem tanto corre de um lado para o outro. Com o cimento e a cal, há uma outra legião de trabalhadores que entram na universidade pela primeira vez, pela porta de serviço. Os operários que trabalham na maior instituição de ensino do estado ultrapassam todos os dias os muros da universidade sem jamais terem transpostos os obstáculos da educação. O trabalho braçal, que usa da força e do desgaste físico, sob sol e chuva é o que há de mais contrastante entre os estudantes, que se esforçam em livros e longas aulas para que nunca lhes sobrem a penosa labuta, a qual centenas de operários se submetem rotineiramente na UFPB. Este contraste vira transparência. Vira-se a cara, ou a consciência, a esta realidade ao alcance de todos que passam pela universidade. A dignidade irrefutável

do ofício destes operários esbarra, então, na concepção de servidão que muitos atribuem nesta divisão de classe, observada na UFPB. Mas, este não é o único problema. Como pode ser visto, em matéria nesta edição do jornal, muitos desses operários da construção civil estão sujeitos a acidentes de trabalho, sem a devida proteção de equipamentos que lhes garantam a segurança mínima para exercerem sua função. O argumento usado por engenheiros, sejam das empresas contratadas, sejam os da universidade, é que estes equipamentos estão a disposição e eles não usam. É claro que deve ser incômodo e calorento estar paramentado com estes equipamentos, mas não seria este argumento dos engenheiros mais um símbolo da ignorância, que não se combate dentro da universidade, da educação, que não se promove a estes trabalhadores? Se não houve, anteriormente, incentivo a educação destes trabalhadores para que hoje estivessem em uma condição social mais favorável, hoje não os estimulam a evitar acidentes de trabalho que podem lhes comprometer toda a vida. É o Estado errando mais uma vez com esses cidadãos. Antes que a universidade tenha se pintado de negro, de mulato, de operário e de camponês, como dizia Che Guevara, ela tem se pintado do avermelhado dos tijolos, deixando que estas classes de trabalhadores participem do processo de expansão das universidades públicas apenas com a força de seu trabalho nas construções que servirão aos outros, ou, com esperança, aos seus filhos. É pouco e é desigual.

Há uma legião de trabalhadores que entram na universidade pela porta de serviço.

Serviço de urgência não pode esperar Larissa Pereira

©Giovanna Ismael

Charge

Joel Cavalcanti

Setenta dias! Esse foi o prazo estimado pela diretoria do Hospital Universitário Lauro Wanderley para resolver as pendências no bloco cirúrgico da unidade e reativá-lo. Mas, o que, inevitavelmente, se questiona com esse prazo é: como um serviço de saúde de urgência pode ficar suspenso por tanto tempo? Ao que parece, não há uma resposta exata como num cálculo matemático convencional, mas mesmo assim a ineficácia na prestação deste tipo de serviço parece ser regra, uma grande convenção. Quando se trata de atendimento público, a necessidade do paciente do SUS (Sistema Único de Saúde) parece o mínimo e é assim mesmo. O jeito é sofrer à míngua no leito do hospital para preservar a BUROCRACIA. Ah! Ela sim merece atenção, tanto que quebrei a regra editorial deste jornal para escrevê-la com letra maiúscula. É absurdo, mas não é novo nem, muito menos, privilégio do Hospital Universitário Lauro Wanderley, em João Pessoa na Paraíba. Virou senso comum, frase feita, clichê dizer que serviço de saúde público e ineficiência andam juntos. Mas, não é, portanto para ser aceito com tranqüilidade. No caso local, a diretoria do hospital disse reunir esforços para não cumprir esse prazo de mais de dois meses com o bloco cirúrgico fechado e pretende antes disso, retomar o atendimento. Logo, assim como deve

ser qualquer setor de urgência, para ontem. Mas, ainda sim, eles têm esbarrado em processos de licitação que não caminham, rastejam, ao longo dos dias, e fazem também rastejar as chances de cura dos pacientes que esperam literalmente deitados por um procedimento. Alguns deles garantem: a demora é tanta que até cansa. Não há como evitar, a perspectiva de melhora que eles alimentam se esvai pelos corredores do HU que a cada dia ficam mais vazios, com pelo menos 40 médicos dispensados de suas obrigações por aposentadoria coletiva em um único mês. Realidade que leva alguns crédulos a pensar que o Governo Federal parece pretender também aposentar os hospitais universitários. O nosso HU, então, está visivelmente cansado, enfadado, esmorecido. Apesar da aparência imponente, ele esconde, por trás de suas paredes, a fragilidade capaz de transformar em utópicos os sonhos de profissionais de saúde, de oferecer atendimento digno e de fazer ruir a já sobrevida que enfrentam os pacientes. Em pensar que esta unidade hospitalar é a única do estado a realizar, por exemplo, cirurgia bariátrica pelo SUS e que há, pelo menos, 20 pacientes com excesso de peso, além de tantas outras complicações de saúde, motivadas por esse problema. Eles e tantos outros estão esperando para ter acesso à saúde, que faço questão de lembrar aos nossos leitores: é dever do estado, direito do povo.


educação

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Métodos de ensino utilizam os meios de comunicação

Escolas e universidades utilizam a Educomunicação como forma de incentivo para os estudantes Foto: Divulgação/Internet

Caio Ismael Durante muitos anos, a educação escolar e a Comunicação Social foram pensadas como áreas distintas, com papéis que representam diferentes funções. Não se imaginava de que forma os meios de comunicação poderiam participar da realidade acadêmica, a fim de aperfeiçoá-la. A partir da década de 1970, a hibridização dos conceitos começou a ser discutida pelo jornalista e professor uruguaio, Mário Kaplun, que acreditava na junção destes dois campos das ciências humanas como apoio no processo de formação do homem. Para ele, a comunicação seria difusora da educação. Descobriu-se, então, que a relação entre esses dois campos do conhecimento é algo tão antigo quanto jogar bola na escola. Esse “fazer mídia escolar” recebeu o nome de Educomunicação, termo usado pelos pesquisadores de ambas as áreas. Consiste em usar meios de comunicação para educar, a exemplo de um jornal ou de um rádio, com o objetivo de garantir a participação do estudante. O neologismo Educomunicação, que a princípio parece uma simples junção das palavras educação e comunicação, na realidade, não apenas une as áreas, mas destaca de modo significativo um terceiro termo: a ação. Essa metodologia pedagógica tem o objetivo de aproveitar os espaços de produção da comunicação como um espaço para a educação. Desta forma, o uso do rádio, dos videogames, dos blogs e do computador promove o protagonismo dos jovens e garante a horizontalidade da comunicação, tentando diminuir as diferenças hierárquicas entre educadores e educandos.

Metodologia pedagógica da Educomonicação em discussão nas universidades brasileiras como instrumento facilitador do ensino Segundo o coordenador do curso de Comunicação Social da UFPB, Dinarte Varela, não há nenhuma iniciativa da instituição para a criação de um curso que forme profissionais em Educomunicação. “Além desta iniciativa, a universidade deve garantir uma boa estrutura para o curso, e esse não é um processo simples”, complementou. A metodologia da Educomunicação tem passado despercebida pelos estudantes da instituição, compondo a sua realidade acadêmica. “A Educomunicação está presente no dia-a-dia dos alunos da UFPB, mesmo que eles não percebam”, explicou. O Ensino a Distância da UFPB conta com laboratórios e plataformas na internet que auxiliam

Com o objetivo de atender às necessidades tecnológicas da sociedade pós-moderna, escolas e universidades de todo o mundo têm aderido a projetos de educação, através das mídias digitais. Apesar do pouco tempo da explosão comercial da internet, mais da metade das universidades americanas já possui algum tipo de educação no ciberespaço. O ensino à distância faz parte também da realidade da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mesmo sendo vista por muitos como um ensino de qualidade inferior ao presencial, o Ensino a Distância (EaD) é considerado o ensino do futuro. Nestes espaços, o aluno passa à condição de protagonista de sua própria aprendizagem.

na inclusão digital e facilitam a vida dos estudantes. habilitação O curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) conta com a habilitação para a formação em Educomunicação. A proposta é formar profissionais com uma consciência crítica e uma visão acadêmico-científica com o objetivo de atender às necessidades do mercado e da pedagogia. A formação do educomunicador não é feita na concepção do ensino tradicional, pois são aplicadas dinâmicas de aprendizagem que reconheçam a interface pedagógica dos processos comunicacionais.

AFROBRASILIDADE

Jéssica Feijó A historiografia oficial sempre priorizou a fala do colonizador, do explorador. A história do colonizado, do explorado, existiu, mas não ganhou visibilidade no processo histórico. Foi quase sempre tratatada de forma maniqueísta, reducionista e generalista. Depois da descolonização afro-asiática, a partir da de 1990, as teorias pós-coloniais discutem o problema de se conhecer uma única história, contada diante de interesses e objetivos políticos de dominação bastante claros. Diante desse contexto, o campus de Areia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) sediou, em 21 e 22 de novembro, o I Seminário sobre Estudos Quilombolas e o I Encontro de Comunidade Quilombolas para discutir como a história registrou, ao longo dos anos, a formação dos quilombos. Esse evento foi palco para a discussão acadêmica e empírica sobre o ensino na educação básica da África, das suas influências na sociedade brasileira e do reconhecimento das comunidades quilombolas. O professor Rosival Gomes, vice-coordenador dos eventos, explica que a pluralidade foi muito ignorada na história da educação brasileira. “Sem

o reconhecimento e a valorização das nossas próprias etnias, o ensino escolar seguiu um modelo eurocêntrico ocidentalizado, e tanto o povo indígena como o povo quilombola não tiveram seus direitos civis reconhecidos”, afirma o professor. A defesa da educação se refere ao direito do povo à informação, à difusão do conhecimento sobre a história. Fundamental à reconstrução da realidade pelo brasileiro. Não há um consenso sobre o número preciso, mas os dados da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apontam 800 comunidades quilombolas registradas, no país, e 252 processos de regularização fundiária em curso. Na Paraíba, são identificadas 35 destes povos. Os grupos se organizaram de diversas formas ao longo do tempo, passando por fugas, ocupação de terras livres e isoladas, doações, recebimento de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado, heranças e até pela simples permanência nas grandes propriedades nas quais seus parentes trabalhavam, brasileiros que também ajudaram a construir o país. Essas comunidades também abrigam índios e mestiços. Além disso, há entre aquelas, as de origem escrava e outras for-

Foto: Divulgação/Internet

A historiografia dos quilombolas

Dança quilombola como símbolo da pluralidade cultural na história do brasileiro madas por negros excluídos da sociedade que se uniram em núcleos. Desde 2003, a legislação brasileira estabelece ensino de História e Cultura Afrobrasileira na educação básica, mas são reclamadas ações contundentes. O exercício da cidadania plena passa pela retomada do abismo de tradições, ensinamento e histórias que não nos foram transmitidas pelo discurso oficial. Carmem da Silva, professora do ensino fundamental e integrante do Quilombo Paratibe, na Paraíba, resume com simplicidade e eloquência as palavras de dezenas de estudiosos e quilombolas. “Não é só ter uma história. É

deixar de aceitar mentiras dadas sobre nós mesmos. É compartilhar a história verdadeira, mesmo sendo cheia de contradições”, declara. “É essencial que a educação das escolas brasileiras liberte-se da dominação de uma única fala, que se diz oficial, a fala do branco. É essencial para o povo dos quilombos e todo o país conhecer sua cultura e a de seus antepassados, todos eles. Se não arrumarmos isso, estaremos regredindo e impedindo a correta leitura do Brasil, cometendo e perpetuando os mesmos erros do passado. Deter nossa própria história muda tudo”, conclui.

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Funcionários se adequam a redes sociais Da Redação As redes sociais são hoje, com a adesão de milhares de usuários à internet, um instrumento político. Além de integrar e aproximar lugares e pessoas, o teor de imediaticidade e o raio de alcance dos compartilhamentos movimentam muita gente, em certos casos até uma nação, em prol de uma causa. No Brasil, a recente aprovação da Lei da Ficha Limpa é a prova da potencialidade de mobilização popular proporcionada delas mídias digitais. Diante da recente importância exercida pelas redes sociais na organização comunicacional e na estratégica das empresas, das repartições, dos órgãos públicos e dos demais setores, a Pró-reitoria de Gestão de Pessoal (Progep) e o Pólo Multimídia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) ofereceram um curso sobre as mídias sociais para os seus servidores. No semestre passado, estudantes do curso de Mídias Digitais fizeram um vídeo-protesto, vinculado nas redes sociais. O vídeo era uma paródia da música “Oração”, da Banda Mais Bonita Da Cidade, que criticava o reitor Rômulo Polari pelo atraso na construção do prédio que deveria alocar o curso. Esse protesto criativo gerou uma verdadeira batalha virtual, uma vez que a UFPB apresentou uma contra-resposta. No entanto, a tréplica dos alunos mostrou que a universidade não estava preparada para responder, à altura, as reivindicações, na mesma plataforma digital. O curso oferecido pelo Progep e pelo Pólo Multimídia preparou os funcionários para adquirir conhecimentos sobre redes sociais, uma vez que, ao final do curso, eles estariam aptos a identificar potencialidades de uso, prever e gerenciar crises, além de ampliar o conhecimento sobre as inúmeras ferramentas. O objetivo do curso foi apresentar aos servidores do Pólo Multimídia e da TV UFPB as ferramentas mais utilizadas nas mídias sociais, ensinar os conceitos básicos, preparando-os para identificar quais mídias devem ser usadas em diferentes contextos de comunicação. O curso foi realizado de 16 a 18 de novembro deste ano, no laboratório de informática do Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN), e teve carga horária de 40 horas. O curso interage com a comunidade acadêmica e com a sociedade em geral. “O objetivo é preparar os funcionários do Pólo Multimídia para entender e fazer bom uso das mídias sociais, além da óbvia função de divulgar seus serviços e ações”, esclareceu Maurício Melo, subeditor do site G1 PB e responsável por ministrar o curso. Para Heloíse Desirré, estudante de radialismo e estagiária da TV UFPB, o curso foi de suma importância, já que ela trabalha diariamente com atualizações das redes sociais da emissora. “Nada melhor do que me aperfeiçoar e aprender as melhores estratégias para poder desempenhar de forma mais eficaz minha função. Além de manter-me atualizada com as tendências da comunicação, quero estar preparada de forma completa para encarar o mercado virtual”, enfatizou Heloíse.


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educação

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Empresas juniores incentivam o empreendedorismo na UFPB

Alunos de Administração recebem premiação nacional por iniciativas que dão prestação de serviço ao setor público e privado Uane Junilhia

As empresas juniores são compostas e administradas exclusivamente por estudantes que possuem tutela de um ou de mais professores, encarregados de orientá-los. Essas organizações possuem o aprendizado como plano primordial e retribuição por seus serviços. As EJs, como são conhecidas, possuem uma estrutura física consolidada que facilita a realização das atividades. Os estudantes começam a trabalhar em conjunto no mesmo espaço, a respeitar divisões hierárquicas e a concorrer no mercado formal, prestando consultoria para clientes reais. Foi a necessidade dessa prática que levou a idealização e a criação da primeira empresa júnior da história, no ano de 1967, na capital da França. No Brasil, elas chegaram por volta de 1988. A Paraíba formou a sua 1ª empresa júnior, em 19 de novembro de 1991, quando nasceu a Empresa Júnior de Administração (EJA), localizada no Campus I da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Especialidade A EJA é especializada em gestão com foco nos micro e pequenos empresários, oferecendo serviços nas mais diferentes áreas da Administração, como marketing, recursos humanos, qualidade, finanças

e projetos. Sua consultoria é cerca de 70% mais barata que o mercado convencional. Os próprios estudantes são responsáveis por gerenciar a empresa, tomar decisões importantes e lidar diretamente com clientes. “O salário não é fixo e todo o dinheiro arrecadado é revertido para a empresa, em treinamentos dos membros, na compra de livros e de materiais de estudo. Aplicamos todo o conhecimento teórico efetivamente na prática”, complementou Ítalo Guimarães, membro do Departamento de Marketing do EJA. No começo de sua instalação, a EJA enfrentou dificuldades para obter reconhecimento da coordenação do curso de Administração da UFPB, no entanto, hoje a situação mudou. “Depois de alguns anos, o Ministério da Educação reconhece que as empresas juniores podem ser usadas como um dos critérios de avaliação de um curso”, explicou o diretor presidente do EJA, Anderson Toscano. Entre as prestações de serviços e os clientes estão diversas empresas públicas e privadas, como a Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), o Tribunal Regional Eleitoral, a Prefeitura de João Pessoa, a Zippo, a Indústria Santa Clara e a Farmácia RedeMed Bancários. Atualmente, a EJA possui 26 membros e é a empresa júnior que detém o maior destaque no cená-

Foto: Cairé Andrade

Estudantes na EJA Consultoria, com sede no CCSA, em atuação em gerenciamento na área de prestação de serviços empresariais rio paraibano. Nestas duas décadas de existência, a EJA já recebeu reconhecimento em diversos prêmios de renome no cenário paraibano e até em âmbito nacional, como o TOP-20, que premiou as 20 melhores empresas juniores do país. No Nordeste, a EJA está entre as três melhores empresas juniores, e na Paraíba já recebeu o “nível 1” do

Prêmio Paraibano da Qualidade. Diego Félix, ex-membro da EJA, trabalhou um ano e oito meses no projeto e afirmou que a experiência foi um divisor de águas para o mercado de trabalho. “Estou trabalhando numa empresa que prestei consultoria pela EJA. Eles gostaram do meu trabalho e me convidaram para trabalhar lá”, concluiu.

A UFPB já conta com cerca de oito empresas juniores distribuídas nos cursos de graduação em Economia, em Engenharia, em Biblioteconomia, em Contabilidade, em Comunicação Social e em Administração, dentre outras que estão em processo de criação em outros cursos, como de Geografia e de Relações Internacionais.

CRIATIVIDADE

Invenções da universidade são patenteadas Foto: Divulgação

barras, acoplado a um parafuso, que é movido por um motor elétrico de corrente contínua alimentado através da bateria do veículo. O produto também foi pensado para diminuir o tempo gasto na troca do pneu. “Basta o motorista apertar o botão que aciona o mecanismo. Enquanto isso, ele pode colocar o macaco para erguer o carro e desatarraxar a roda. Quando voltar, o estepe já estará pronto para ser retirado”, explicou o professor.

Mecanismo Auxiliar de Troca de Pneu Automotivo evita prejuízos à saúde e facilita a vida dos usuários Clarissa Lopes Descobrir, criar e inventar faz parte do cotidiano do homem. Muitas dessas invenções ajudaram a facilitar a vida da sociedade. Há sempre alguém de mente brilhante capaz de criar algo. As universidades do mundo inteiro têm se tornado esse espaço para a descoberta e a criação. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) não é diferente. O professor Jair Silveira, do curso

de Engenharia Mecânica da UFPB, se dedicou à criação de um novo objeto. Inventou um acessório para carros chamado Mecanismo Auxiliar de Troca de Pneu Automotivo (Matpa), que auxilia o motorista a retirar o estepe do carro. “ A idéia surgiu no dia em que fui trocar o pneu do carro e logo após senti dores na coluna lombar, pois eu já tinha predisposição de desconforto nessa região do corpo”, relatou. De acordo com recomendações

médicas, o ser humano não deve carregar objetos que ultrapassem mais de 15% de sua massa corporal. A retirada do pneu do porta-malas pode acarretar o prejuízo da coluna vertebral. Por isso, o professor Jair criou um mecanismo eletromecânico para o levantamento e posicionamento da roda reserva, de acordo com os princípios da ergonomia, proporcionando maior conforto ao usuário. O sistema desenvolvido foi baseado em um mecanismo de sete

Aguardente Outro produto criado dentro da UFPB foi a aguardente de algaroba. A invenção do engenheiro de alimentos e pesquisador da UFPB, Clóvis Gouveia da Silva, foi desenvolvida com uma planta leguminosa, originária de regiões áridas da América do Sul. Segundo o pesquisador, a idéia surgiu devido ao fato de ter nascido e convivido desde criança em regiões de pólo de cultivo e aproveitamento da algaroba. A planta era usada em atividades rurais e domésticas do seu dia a dia. A formação em Engenharia de Alimentos possibilitou que o Clóvis percebesse era possível transformar o elevado potencial de açúcares fermentescíveis da planta em produtos fermento destilados, biocombustíveis e alimentos. A bebida produzida é exótica e inédita, de sabor agradável, cor amarelo dourado e é feita de um in-

sumo que possui um rico valor nutricional e energético, tendo também propriedade afrodisíaca, segundo a crença popular. Além de todos esses atributos, a produção da aguardente de algaroba agrega valores, a exemplo da cultura renovável da algarobeira e da geração de renda e de emprego para a população da região semiárida da Paraíba. “As regiões semiáridas do Nordeste possuem extensas áreas ocupadas por algarobais que são cultivados dentro de um sistema de planejamento e manejo trazendo uma série de vantagens econômicas, sociais e ambientais”, explicou Clóvis. O que muda no processo de produção da aguardente de algaroba é o fato de ser feita a partir da extração e da fermentação dos açúcares provenientes dos frutos da algarobeira. Depois passa pela destilação e bidestilação desse fermentado e o envelhecimento em barris de carvalho. Ambos os produtos foram patenteados no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), porém a burocracia e o elevado valor referente ao patenteamento acabam por impedir que os inventores brasileiros o façam. Prova disso são as várias etapas até a obtenção da carta-patente e os altos preços pagos ao Estado pelos direitos de exclusividade das invenções e, principalmente, pela manutenção da patente que chega a custar R$ 1.950.


campus

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Operários trabalham em situação de risco em construções da UFPB Trabalhadores se arriscam em obras do Campus I com a falta de equipamentos de segurança obrigatórios para evitar acidentes Gustavo Peixoto A construção civil é uma das áreas mais promissoras na Paraíba, e, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já aumentou 8,45%, no último ano. No entanto, de acordo com a Delegacia Regional do Trabalho da Paraíba (DRT-PB), a quantidade de acidentes de trabalho nesse setor é preocupante, por causa da falta de utilização de equipamentos obrigatórios e essenciais para a segurança. Essa realidade também se fez presente no Campus I. Joélisson Hélio Justino, de 24 anos, e Diogo Rodrigues, de 23, operários de obras na universidade caíram do segundo andar de uma construção que ampliava a residência universitária da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no último dia 31 de outubro. Eles foram levados ao Hospital de Emergência e Trauma. Masao Shimizu Mitsunaga, engenheiro civil, que também possui experiência na fiscalização de produção e de qualidade do trabalho, constatou irregularidades na segurança do trabalho dos operários em algumas obras realizadas pelo campus da UFPB. Masao apontou a falta de equipamentos obrigatórios em alguns dos operários e o acúmulo de entulho, como concreto e vigas de ferro, próximo à esfera de trânsito dos trabalhadores, aumentando o risco de acidentes nas obras. “Há bastante irregularidade. Muita gente está sem capacete, luva, bota e cinto de segurança”, afirmou Masao, ao avaliar a segurança de uma das obras realizadas no Centro de Tecnologia (CT) da UFPB. Ele também enfatizou a necessidade do uso de acessórios que contribuem para uma boa proteção da saúde em construções, como máscaras e protetores auditivos. Contratação Em consequência do corte orçamentário das verbas do Governo Federal, destinadas à mão-de-obra para as reformas nas universidades federais, todas as construções feitas dentro da UFPB são precedidas por uma licitação, sendo proposta em um pregão eletrônico, em que se efetua a contratação de uma empre-

Foto: Herbert Clemente

mentos de segurança e a imposição de prazos: “É algo realmente importante para a gente, mas, muitas vezes, não tem jeito, a gente tem que terminar a obra”. Segundo informações concedidas à equipe do Questão de Ordem, os engenheiros das empresas contratadas fiscalizam as obras e repassam as avaliações tanto para a própria empresa quanto para os engenheiros da universidade. O problema é que os engenheiros das empresas contratadas fazem vista grossa e não repassam os problemas de insegurança no trabalho, o sentimento de impunidade por parte dos operários se instaura, já que esse processo é feito de maneira negligente. É diante desa constatação que cabe aos órgãos responsáveis da UFPB acompanhar de forma precisa esse processo, sem tentativas de isenção.

Trabalhadores, sem equipamentos adequados, manuseiam fiação elétrica em obra no CT, desconsiderando normas prescritivas de segurança sa terceirizada para realizar a obra. O controle dos funcionários e dos operários da empresa e suas atividades, cargos e funções pertencem à administção da própria empresa. O papel da UFPB é manter uma fiscalização da qualidade de trabalho, o que inclui condições satisfatórias de segurança, o desempenho das obras e o cumprimento do prazo, por parte das empresas. Com cerca de 150 construções sendo realizadas simultaneamente por toda UFPB, a Prefeitura Universitária (PU) disponibiliza engenheiros para fiscalizar cada obra. Visão institucional O coordenador administrativo da PU, engenheiro eletricista e de segurança do trabalho, Roberto Ribeiro, enfatizou o controle e o poder de interferência da universidade, em todas as construções espalhadas pelo campus. “A universidade tem 100% de interferência em todas as obras que estão sendo realizadas. Nós temos um engenheiro designado para fiscalizar cada obra em andamento”, afirmou. Roberto Ribeiro explica que muitos operários recebem a ordem de utilizarem os Equipamentos de Pro-

teção Individual (EPI) e os de Proteção Coletiva (EPC), e ressalta que, apesar das fiscalizações periódicas, alguns funcionários ainda desrespeitam as normas impostas pela instituição. “Nós entregamos o EPI. Depois eles não usam, não querem usar”, afirmou o coordenador. O engenheiro ainda demonstrou tranquilidade, quando questionado a respeito de acidentes de trabalho que ocorrem no campus, salientando que “das 150 obras que estão acontecendo, apenas um acidente aconteceu e não por irresponsabilidade nossa, mas dos próprios operários; ou seja, uma taxa de acidentes praticamente nula”, respondeu, tentando minimizar a ocorrência do acidente. A avaliação feita pelo engenheiro civil Masao se constransta de forma incisiva com a opinião institucional concedida por Roberto Ribeiro de que a universidade tem interferido completamente, fiscalizando as obras, uma vez que muitas irregularidades foram deflagradas por um profissional da área, prevendo, de certo modo, iminentes acidentes de trabalho, o que demonstra claramente a parciomoniosa fiscalização feita, já que há irregularidades e

ineficácia dessa atuação da universidade para reverter o problema. Realidade Um operário de uma das obras em andamento (que não quis se identificar) declarou que as empresas cedem os equipamentos necessários para a proteção de seus trabalhadores, mas muitas vezes os próprios funcionários negligenciam a utilização dos mesmos pelas próprias limitações físicas da construção. “A gente recebe sim os equipamentos, mas no momento não utilizamos pelas condições da obra. O cinto, por exemplo, não tem onde prender na fachada em que a gente está trabalhando agora”, afirmou o funcionário, conformado com a situação. No entanto, ele procura deixar bem claro a relação entre as limitações de equipa-

Legislação Segundo a Lei 8.213/91, sobre acidentes de trabalho, cabe ao empregador fornecer todos os equipamentos de proteção individual, além do cumprimento de medidas coletivas e individuais de proteção e segurança do trabalhador, o que inclui a conscientização. Segundo declarações feitas na imprensa por Eduardo Varandas, procurador chefe do Ministério Público do Trabalho, o problema da falta de uso de equipamentos de segurança é cultural, por isso é importante que haja incentivos de conscientização por parte dos responsáveis pela obra, uma vez que esses equipamentos podem previnir e reduzir os danos de acidentes, a exemplo do cinto de segurança que deve ser usado em alturas superiores a dois metros. Segundo ele, a lei garante que mesmo que o empregado se recuse a usar os equipamentos exigidos, caso haja ocorrências de acidentes do trabalho, a culpa é do empregador, não do empregado.

Foto: Cairé Andrade

Foto: Herbert Clemente

Uso correto de equipamento em construção no CCS é raro em outros canteiros de obra em andamento, espalhados pela universidade

Equipamentos de uso obrigatório para previnir quedas não são tulizados pelos operários


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campus

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Comissão da Verdade esclarecerá crimes ocorridos entre 1946 e 1988 Comissão Nacional da Verdade (CNV) pretende esclarecer violações dos Direitos Humanos no período ditatorial, no Brasil Secyliana Braz No período da ditadura militar, entre 1964 a 1985, o Brasil foi marcado pela falta de democracia, pela supressão de direitos constitucionais, pela perseguição política, pelos vários tipos de censuras e pela repressão aos opositores do governo. Inserida no contexto político da época, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) também sofreu punições disciplinares aplicadas aos alunos e ex-alunos da instituição. Em 1969, a reitoria da universidade mandava cancelar ou impedir as matrículas dos alunos que resistiam ao golpe de 1964. Muitos estudantes foram excluídos da vida acadêmica, tiveram suas vidas pessoais e profissionais prejudicadas. O Conselho Universitário (Consuni) agiu também repressivamente contra professores e técnicos da UFPB. Segundo o historiador e professor universitário, José Jonas Duarte, a ditadura interviu diretamente na universidade. Depôs o reitor e nomeou outra pessoa para inserir os princípios reguladores do regime ditatorial. “Eu era um jovem estudante, que participava das mobilizações contra a ditadura. Não aconteceu nada de sério comigo, a não ser alguns sustos com a perseguição da polícia, mas tudo coisa pouca, perto do que ocorreu com os dirigentes estudantis e docentes da época”, observou. A intervenção da política militarista não atingiu somente o cenário universitário. Mesmo fora do ambiente estudantil, alunos e professores eram controlados e limitados pelos preceitos do regime. Segundo o cineasta, jornalista e professor da UFPB, Alex Santos, no início dos anos 1960, a cidade de San-

Divulgação / Internet

Protestos contra o regime militar no Brasil, entre as décadas de 60 e 80, já denunciavam a repressão do governo aos seus opositores ta Rita era uma espécie de entreposto do movimento comunista entre a capital do estado da Paraíba e a cidade de Mari. Nessa época, existia um forte movimento estudantil na cidade, responsável por editar o jornal “Os Sinos de Santa Rita”. “Em uma das ocasiões, nós estudantes, nos reunimos no primeiro andar da loja Metro de Ouro para confecção de faixas – protestos. Um desses encontros foi rechaçado pela polícia. Com a nossa debandada alguns estudantes foram presos e trazidos para o 15RI (15º Regimen-

to de Infantaria) da capital.” Em outro momento, sendo desta vez no Cine São João, em Santa Rita, em uma das exibições do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, do cineasta Glauber Rocha, a Polícia Federal (PF) suspendeu a sessão, confiscando o filme que estava sendo exibido. “Como eu era o responsável pelas exibições, fui intimado a comparecer à PF de João Pessoa e a dar explicações sobre o conteúdo do filme. Desde então, para que pudéssemos continuar as exibições do Cinema e Arte, antes de toda sessão,

eu era obrigado a apresentar o filme à PF para que fosse feita a análise”, explicou o cineasta, jornalista e professor, Alex Santos, referindo-se ao monitoramento do conteúdo dos filmes exibidos aqui na Paraíba durante o regime militar. No início do governo de João Baptista Figueiredo, em 1979, a política brasileira segundo os próprios militares da época, entrou em um processo de abertura lenta, gradual e segura. Seu governo foi marcado, dentre outros acontecimentos, pela reforma partidária e

pelas Diretas Já. No entanto, uma das mais importantes decisões do governo para a abertura política foi a promulgação da Lei da Anistia, em 28 de agosto de 1979, com o objetivo de perdoar todos os crimes decorrentes do período da ditadura militar. A decisão de aplicar essa lei dividiu, historicamente, opiniões em todo o país. Trinta anos depois, em dezembro de 2009, o ex-presidente da república Luiz Inácio da Silva, assinou o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) com a finalidade de trazer à tona a verdade histórica sobre o período referente à ditadura militar para promover a reconciliação nacional. Depois de dois anos de incertezas e negociações, a presidente Dilma Rousseff sancionou, no dia 18 de novembro, a lei de criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que pretende esclarecer violações de Direitos Humanos, ocorridas entre 1946 e 1988. Segundo declarações feitas à imprensa, Dilma, que foi vítima de perseguições durante a ditadura, garantiu que: “O Brasil inteiro se encontra, enfim, consigo mesmo, sem revanchismo, mas sem a cumplicidade do silêncio”. O tempo, mais uma vez, aguarda o resgate da memória, a reconstrução da história e a retratação dos inúmeros casos de repressão contra alunos, professores, jornalistas. O país tem uma dívida a ser paga com seu passado, ou melhor, com cerca de 140 desaparecidos políticos e cada família, e eis que, finalmente, a Comissão Nacional da Verdade ressurge agora repleta de sentido. Ela que promete examinar e esclarecer as graves violações de Direitos Humanos.

Foto: Ítalo di Lucena

COMUNICAÇÃO

TV UFPB é reestruturada e voltará no próximo ano Gustavo Peixoto A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) fundou, em 17 de fevereiro de 2005, o seu novo projeto de caráter experimental para a própria instituição e, em especial, para os alunos do curso de Comunicação Social: a TV UFPB. É um projeto inovador no âmbito da produção audiovisual, que criou uma via de acesso aos universitários, cedendo espaço para a formação de profissionais nesta área de atuação. O projeto seguiu em fase experimental, mas não demorou muito até que chegasse a ser oficializado. Logo, passou a ser transmitida na TV a cabo, pelo Canal Futura, mudando, no ano de 2010, para a TV Brasil, de quem se tornou associada, por meio de parceria entre a UFPB e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Dessa forma, a emissora passou a integrar a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP).

No dia 7 de Janeiro de 2009, David Fernandes, ex-diretor do Pólo Multimídia da UFPB, confirmou a concessão da TV para canal aberto. Com previsão para ser transmitida na primeira metade de 2012, também em parceria com a TV Brasil, pelo canal 43 em UHF, sigla para o termo inglês Ultra High Frequency, que significa frequência ultra alta. A instituição já instalou o seu novo centro exibidor no Pólo Multimídia, com padrão de qualidade da TV Brasil. A UFPB já investiu na aquisição de um transmissor e de uma antena, além de contratar profissionais para reforçar sua equipe, mediante concurso público. No entanto, a TV se encontra fora do ar para um período de reestruturação, o que implica diretamente no processo de formação dos universitários interessados em produção audiovisual, durante este tempo, que tem a duração de cerca de dois anos, desde o acordo proposto para a transmissão em rede aberta. Apesar

Ainda fora do ar, TV UFPB passa por reestruturação e tem previsão de voltar a funcionar até a primeira metade do próximo ano do longo período, a emissora afirma que está construindo o seu novo estúdio com equipamentos modernos e tecnologia de ponta. Também declarou que está realizando uma pesquisa de campo sobre o conteúdo para a nova programação. O coordenador de operações, Paulo Lages, informou que toda a transmissão em rede aberta deverá ser feita em sinal analógico, utilizando o sistema em alta definição. No entanto, os equipamentos só de-

verão ser adquiridos a partir do próximo ano, através de uma licitação feita pela universidade. O coordenador também afirmou que toda a produção da TV está vinculada diretamente à EBC. “Este canal aberto pertence à EBC. Quem tem canal independente, tem; quem não tem, não tem mais,” disse Paulo. Segundo a professora e atual diretora do Pólo Multimídia da UFPB, Sandra Moura, a TV UFPB também está em fase de planejamento, em

parceria com a Televisão América Latina (TAL), que é uma rede de intercâmbio de programação televisiva com cerca de 170 associados, entre os quais se encontram canais públicos de TV, entidades culturais e produtores independentes. A professora também afirmou que “há um projeto produzido apenas pelos alunos de Comunicação”, chamado “De Portas Abertas”, indicando que o trabalho permanece em atividade, mesmo sem transmissão.


campus

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Expansão horizontal do campus I acarreta consequências ambientais Crescimento nas edificações dentro da UFPB está prejudicando as áreas de preservação ambiental e preocupa ecologistas Yordan Cavalcanti O embate entre crescimento urbano e desenvolvimento sustentável se reflete nas diversas esferas da sociedade. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) não é diferente. Com as obras do Plano de Reestruturação das Universidades Federais (Reuni), a instituição está crescendo horizontalmente de forma muito rápida. Contudo, apesar desse aumento de área ser fundamental para atender às necessidades dos estudantes e à qualidade de ensino, ele gera uma série de consequências ambientais. A UFPB se localiza no meio da mata atlântica. Animais e plantas acabam tendo um contato com o meio urbano que pode ser prejudicial para as espécies. “É claro que essa ‘invasão’ vai ter uma consequência negativa”, afirmou Tarcísio Alves, professor de Ecologia da UFPB. Ele explicou que as obras feitas no campus acabaram criando fragmentos de floresta que ficam isolados uns dos outros, e que para um animal ter acesso a esses fragmentos, ele precisa atravessar a rua, onde há trânsito de carros e de pessoas. “A anatomia do bicho-preguiça, por exemplo, não o permite andar em quatro ou em duas patas; ele foi feito para se movimentar sobre as árvores, por isso ele atravessa a rua

se arrastando e fazendo um enorme esforço”. Além disso, para expandir algumas áreas, é necessário a retirada de árvores, o que diminui ainda mais o hábitat dos animais. Soluções Para o ecologista, a situação poderia ser amenizada se as construções fossem altas e menos extensas. “Os prédios deveriam ser mais altos, dessa forma, tomaríamos menos espaço horizontal e desmataríamos menos áreas”, explicou, lembrando também que o fato dos blocos estarem em um nível de altura abaixo das árvores dificulta a circulação do ar. O professor Tarcísio também prevê outro problema: os animais urbanos, como gatos e cachorros, por entrarem em contato com áreas florestais, podem acabar ficando selvagens. Várias pessoas que afirmam que, quando não havia tantos animais domésticos nas proximidades da UFPB, esquilos, cutias, preás e pequenos roedores circulavam as áreas da universidade. O biólogo especulou que os felinos podem ter predado essas espécies. O diretor de Projetos e Estudos da UFPB, Marcelo Diniz, garantiu que as construções são feitas com todos os cuidados ambientais necessários. “Antes de iniciar qualquer obra, a Sudema (Secretaria de Defesa do Meio Ambiente) e o Ibama

Foto: Herbert Clemente

Obras de expansão do Reuni invadem reserva de mata atlântica dentro do campus diminuindo o habitat natural de animais silvestres (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) fazem uma vistoria, para, então, autorizar a construção”, afirmou. Ele explicou também que as árvores que podem ser retiradas são aquelas que não são nativas da mata atlântica, como as castanholas. “Caso seja necessário tirar alguma

planta original da mata atlântica, há um sistema de reposição das árvores em outras áreas”, complementa. Quanto ao fato de a expansão ser horizontal e não vertical, Marcelo explica que normalmente as verbas federais vêm pequenas e parceladas, o suficiente apenas para uma reforma ou para um prédio de um

piso, mas as medidas preventivas já estão sendo tomadas para evitar esse tipo de problema. “Nós agora estamos construindo prédios pequenos, mas com capacidade de suportar mais andares, para que, quando vierem mais verbas, seja feito um novo andar e não um novo prédio”, explica o diretor.

TECNOLOGIA

NTI implementa projeto de internet wi-fi Thaís Garcia O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou, em 2009, uma pesquisa sobre o acesso à internet na Paraíba, declarando que, desde 2005, houve aumento de mais de 100% na utilização desse serviço. Em apenas três anos, a porcentagem da população do estado, com 10 anos ou mais, chegou a 12,4% no quesito navegar na web. Esse número dobrou, revelando que de cada 100 paraibanos, 26 estavam conectados à rede. Na Paraíba, a internet teve como local de origem a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em meados da década de 1980. Ainda nos dias de hoje, a universidade se destaca quando o assunto é tecnologia, estando sempre em busca de novos projetos. Tendo em vista que a internet tornou-se uma importante ferramenta não só para lazer, mas principalmente para pesquisa e busca pelo conhecimento, a UFPB colocará a disposição de alunos, professores e funcionários o serviço intitulado de Acesso Livre à Internet (Ali). O Ali é um projeto instituído pelo Núcleo de Tecnologia (NTI) da UFPB que visa à implantação de sinal wi-fi em todo ambiente do campus. Foi aprovado pelo CT-Infra, fundo de infra-estrutura da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), responsável por fazer uma rede física principal por onde passam os dados dos usuários da internet. De acordo com Sérgio de Albu-

Foto: Thaís Garcia

Alunos da UFPB utilizam rede sem fio clandestinas para acessar a internet em ambientes impróprios dificultando o uso legal do sinal querque Souza, diretor do NTI da UFPB, o orçamento para este projeto estará pronto até o fim deste ano e, a partir do ano que vem, os primeiros testes serão executados. Os estágios de andamento do projeto serão, segundo Sérgio, primeiramente organizar a rede física de forma estruturada, composta de fibra ótica com velocidade de 10 gigabytes, para que se tenha uma rede sem fio de qualidade. Hoje, cada setor possui uma rede com velocidade proxima dos 100 megabytes, com o objetivo de aumentá-la para 1 gigabyte. O passo seguinte é o projeto

piloto, que deve ser executado, provavelmente, na Reitoria e seus arredores, biblioteca central, Prefeitura e setor administrativo. Cisco, Motorola e Extreme Network estão entre as empresas cotadas para fazer levantamento de quantos Pontos de Acesso, dispositivo que realiza a interconexão entre todos os dispositivos móveis, serão necessários para fazer a cobertura de wi-fi em toda universidade. É frequente a aparição de sinais de redes sem fio clandestinas em alguns departamentos, bibliotecas setoriais e ambientes impróprios pa-

ra estudo. Muitas vezes, com senhas desconhecidas, dificultando o acesso de seus usuários que não sabem a quem recorrer; quando conseguem acessar dispõem de baixa velocidade e condições de ambiente inapropriadas. O diretor do NTI assegura que o núcleo não tem nenhuma responsabilidade quanto a esses sinais, alegando que são os próprios professores, coordenadores e pessoas do departamento que compram pontos de acesso de uso residencial, na faixa de R$ 200. “A pulverização é muito ruim, pois, por exemplo, se alguém atacar nosso sistema não

temos como saber. Já aconteceu de disponibilizarem filmes pela UFPB através da internet. Então, soubemos e bloqueamos o ponto de acesso, porque não sabíamos de quem era exatamente o Protocolo de Internet (IP, código de identificação do computador ligado à rede)”. Através do novo sistema os administradores, terão o controle de quem utilizará o serviço. Os professores já estão cadastrados e todos os campi terão a mesma senha o mesmo login para utilização desse serviço. O acesso será livre, checado apenas se houver caso de denúncia de atos ilegais, porém, neste caso, será bloqueado somente o IP do usuário responsável pela ilegalidade, já não ocorrerá mais o bloqueio de um ponto de acesso inteiro, prejudicando várias pessoas. Sérgio Albuquerque declara que a demora de implementação do sistema de internet é proveniente dos altos custos dos aparelhamentos necessários: “Não é comprar um equipamento de R$ 200 que resolve o problema, o equipamento custa na faixa de quase R$ 2.000 cada um e que tenha qualidade”, completa. Os aparelhos terão que ter qualidade para garantir o serviço de suportar vários notebooks, tablets e celulares. O valor recomendado pela CT-Infra é de aproxidamente dois milhões e meio de reais para iniciação do projeto. Apesar dos preços elevados, o diretor garante que vale a pena em comparação com os benefícios que o Ali trará para a vida acadêmica.


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esporte

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Projeto de inclusão aquática tem participação de crianças especiais Alunos do 7° período de educação física projetam festival de natação com intuito de propagar diversidade no Campus I Daluanne Melo Em um país marcado por tanta diversidade, seja de étnia, de gênero, de religião, de orientação sexual ou, até mesmo, de deficiência, a luta pelo fim do preconceito e a pela inclusão dos chamados “diferentes” na sociedade parece algo interminável. Ao buscar uma realidade social mais justa e inclusiva, os estudantes do 7º período do curso de Educação Física da UFPB resolveram desenvolver o projeto da disciplina de Organização de Eventos Esportivos, voltado para uma causa nobre: a conscientização de que “ser diferente, é normal”. O Festival de Inclusão Aquática trouxe cerca de 100 competidores às piscinas da UFPB. Dentre os participantes, mais de 20 possuíam algum tipo de deficiência intelectual. O evento, que aconteceu durante a manhã do dia 18 do mês de novembro, reuniu aproximadamente 300 pessoas. Vânia Farias destacou a importância do evento para a inclusão social: “Este trabalho que está sendo feito pela universidade é muito importante, porque essas pessoas (deficientes) lutam muito para se sociabilizar no nosso meio dos

‘normais’”. Vânia é mãe da Nathália Farias, competidora representante da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e vencedora da categoria feminina dos 25m livre, entre 10 e 12 anos para deficientes intelectuais. “A Nathália estuda desde os três anos e sempre participa de tudo. Faço questão que ela se envolva, principalmente nas atividades em grupo para facilitar o convívio”, revela Vânia, fazendo questão de dizer a fórmula mágica da vencedora. Os benefícios da natação, contudo, não se restringem apenas ao nível social. De acordo com a professora Michele Almeida, educadora física da APAE, as funções perceptivas, cognitivas, e, principalmente, motoras e respiratórias são muito bem trabalhadas com a prática do esporte, por isso, apresentam uma melhora muito significativa: “Muitos deles apresentam um déficit motor por conta de uma paralisia cerebral ou de outros fatores, então, são realizados exercícios de junções de movimentos, aperfeiçoando a coordenação motora. Além disso, a prática da respiração é extremamente importante, porque eles ainda não têm essa função

respiratória bem trabalhada”. Para Laerte Nascimento, de 32 anos, competidor da categoria adulta para deficientes intelectuais, o resultado da prática foi maravilhoso. “A natação me ajudou muito. Eu melhorei meu aspecto físico. Eu era muito ‘paradão’ em casa e a natação mudou a minha vida, porque hoje eu estou me sentindo muito bem com a minha saúde”, revelou entusiasmado. A professora Elaine Cappellazzo, responsável por ministrar a disciplina de Organização de Eventos Esportivos, explica que a iniciativa da realização de um evento, que inclua pessoas com deficiência, veio a partir do momento em que ela, juntamente com seus alunos, percebeu que há um número muito reduzido de crianças participando deste tipo de competições. “Buscamos, então, fazer este festival com um caráter diferenciado, convidando estas pessoas para participarem do evento de natação, junto com as crianças que fazem parte do projeto de extensão da UFPB”, completa. Foi a partir dessa iniciativa que, juntos, resolveram promover a inclusão desta pequena parcela da população à realidade majoritária. “A principal ques-

NOVIDADE

Badminton chega a UFPB como projeto de extensão Mariana Costa Dinâmico, competitivo e divertido, o badminton ganha seu espaço em competições oficiais em todo o Brasil. O esporte nasceu na Índia e é similar ao tênis, jogado individualmente ou em dupla, mas, no lugar da bola, os atletas têm que jogar uma peteca – de nylon ou de penas – para o lado adversário, sem permitir que ela toque no chão. É também o único esporte olímpico que possui a categoria mista, em que homens e mulheres dividem a mesma quadra. No Brasil, Daniel Paiola é um dos atletas de mais destaque. Ele já conquistou medalha de bronze no XVI Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara, uma vitória inédita para a modalidade. O parabadminton se destaca no ranking internacional, com dois atletas brasileiros, nos primeiros lugares, em suas categorias. O esporte também estreou nas Olimpíadas Escolares deste ano e teve uma grande quantidade de inscritos, na faixa etária de 12 a 14 anos. Na UFPB A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desenvolve um projeto de extensão de badminton para os alunos do curso de Educação Física. O professor do Departamento de Educação Física e atual diretor técnico da Federação de Badminton do Estado da Paraíba (FEBAPB), Pierre Normando Gomes da Silva, é o responsável pela divulgação do esporte e pela realização do projeto dentro da universidade. O objetivo é a formação do pro-

Foto: Herbert Clemente

Universitários praticando mais uma nova modalidade esportiva nos quadras do campus I fessor e a capacitação dos alunos de Educação Física para levar mais uma possibilidade esportiva para as escolas, não somente pela busca de talentos. Pierre salienta que a meta é “divulgar o esporte, trabalhar a formação da cidadania e a confraternização entre os alunos”. O badminton também foi levado à Escola Estadual de Ensino Fundamental Professora Antônia Rangel de Farias e à Escola Municipal Governador Leonel Brizola, através do programa de estágio supervisionado, coordenado por Pierre. Segundo ele, nos jogos internos, realizados nas escolas, o badminton foi o esporte que teve mais inscrições de alunos e chegou a superar o futebol. “É um esporte fácil de aprender, e que, ao mesmo tempo, desenvolve uma performance. Você acaba se envolvendo e praticando o esporte, cada vez mais”, observou. Giselly dos Santos, aluna do 5º período de Educação Física, na UFPB,

conheceu o badminton informalmente, através de amigos. Foi atraída pela novidade e pela agilidade do jogo, além de diversos benefícios adquiridos pela prática esportiva, a exemplo da auto-estima e da socialização. Segundo Giselly, a introdução do esporte na universidade é importante para a grade curricular do curso de Educação Física, que ainda é bastante tradicional e não inclui novas modalidades. “O currículo é muito fechado. O badminton foi implantado no curso para suprir uma necessidade na grade curricular. Novas modalidades são necessárias não só para os alunos de Educação Física, mas para toda a UFPB”, complementa. Neste ano, o badminton ganhou maior destaque, já que entre os dias 19 e 20 de outubro, aconteceu o I Torneio Esportivo de Badminton, promovido pela II Semana de Ciência, Tecnologia, Esporte, Arte e Cultura (SECITEAC), na UFPB.

tão que está sendo evidenciada (no evento) é a questão social, porque, infelizmente, ainda falta a decência de olhar para esses indivíduos de forma natural”, concluiu. Paula Urbano, aluna no 7º período de Educação Física e organizadora do evento, revela que não foi nada fácil conseguir realizar o festival. “Nós enfrentamos muita dificuldade, principalmente, para conseguirmos apoio financeiro. Não se faz um evento sem dinheiro, ainda mais com esse porte. Mas, nós não desistimos, continuamos tentando, porque sabíamos que o resultado valeria à pena. O nosso propósito era muito maior”. Interação Para a felicidade dos alunos-organizadores, a professora revela que o evento não poderia ter tido um resultado melhor. Para ela, o principal objetivo foi atingido: a interação entre pessoas diferentes: crianças com e sem deficiência, estudantes, professores, familiares e amigos. “A Ideia é somar. Nós estamos juntos. A sociedade é para todos! Esta é a grande valia de um evento como este. É estarmos sempre unidos para que todos aprendam que é possí-

Foto: Cairé Andrade

Crianças participam do festival de natação na UFPB e mergulham felizes na piscina vel se desenvolver a inclusão, não só no esporte, mas na vida e isto, certamente, é o que há de mais importante”, finalizou.

Estrutura para esporte a disposição dos alunos Yordan Cavalcanti Praticar atividades físicas regulares ajuda a controlar a pressão arterial, regula os níveis de colesterol, contribui para a perda de peso e previne diversas doenças, além do próprio ganho de resistência, de flexibilidade e de bem-estar mental. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), existem várias opções de prática. O Campus I dispõe de quadras poliesportivas e de campos de futebol para que o público possa praticar uma atividade física saudável e prazerosa. Para utilizar as estruturas da UFPB, é preciso fazer uma reserva, através de uma solicitação escrita, que deve ser entregue na secretaria do Departamento de Educação Física. Nela deve conter o nome do responsável pela reserva, a data, o horário e a quadra que pretende usufruir. “Nós temos um calendário que é feito mensalmente, com todas as quadras e campo. Se alguém quiser fazer uma reserva, manda a solicitação e nós vamos preenchendo os espaços”, explicou Guilherme Lins, assessor administrativo do Departamento de Educação Física. “Nós fazermos o calendário pouco antes do começo do mês. As vagas não duram muito tempo, a procura é muito grande”, completou, lembrando também que equipamentos e materiais esportivos só são disponibilizados para educadores. As áreas esportivas podem ser utilizadas por qualquer pessoa, com exceção das piscinas, que só

podem ser utilizadas em caso de atividade acadêmica. As reservas, contudo, são feitas seguindo uma ordem de prioridades. A prioridade é dos professores, depois dos alunos da UFPB e, em seguida, dos demais cidadãos. São disponibilizados para as reservas dois ginásios poliesportivos cobertos, duas quadras externas, dois mini campos de futebol e um campo em medidas oficiais. Eduardo Henrique, que cursa o 4º período de Engenharia de Produção Mecânica, é freqüentador assíduo das áreas esportivas do Campus I. “É um bom incentivo da UFPB para que os alunos pratiquem esportes, melhorando a qualidade de vida”. Ele, que reúne sua turma toda semana, garante que o serviço é organizado e eficiente. “Podemos marcar a quadra em horários bem cômodos e o sistema de reserva mensal faz com que não seja necessário ir até o departamento toda semana. Nunca presenciei nenhum desrespeito ao sistema, pelo contrário, há um respeito pelo horário delimitado. Há vezes que as pessoas, cujo horário estourou, se juntam com a turma do horário posterior”, relatou. Mesmo diante das facilidades de acesso às quadras, os usuários dos espaços de esporte fazem uma reclamação quanto às condições físicas das áreas. “Há alguns desníveis nas quadras externas, o que gera poças e lôdo, em caso de chuva. As redes já estão muito gastas e há pedaços do piso que já estão se soltando, podendo causar ferimentos se houver uma queda”.


saúde

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Cirurgias são suspensas no HU Desde o último dia 31 de outubro, o bloco cirúrgico está fechado para reforma e só deve voltar a funcionar em setenta dias Larissa Pereira O agricultor João Luis da Silva está internado no Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU), há mais de um mês. Ele tem um tumor no intestino e espera por uma cirurgia. O agricultor se preparou para fazer o procedimento três vezes, mas, em todas, houve adiamento. “Não agüento mais ficar nesta cama. Tenho cinco filhos para criar. Eles precisam de mim”, disse transtornado. O que aumenta a aflição de Seu João é que o estado de saúde dele não permite que seja feita uma transferência ou que ele receba alta para ficar com a família. Além disso, ele só pode ser curado do câncer se retirar o nódulo em cirurgia. Pelo menos outros 800 pacientes estão na mesma situação. O drama de Seu João deve durar mais tempo do que ele espera. As cirurgias eletivas estão suspensas no HU por 70 dias, prazo que começou a contar no início do mês de novembro. O bloco cirúrgico deve passar por uma reforma estrutural. Além disso, os cirurgiões também comunicaram que não fariam os procedimentos por falta de materiais básicos. Os médicos residentes denunciaram, em nota de repúdio divulgada à imprensa paraibana, no dia 10 de novembro, que não há luvas descartáveis, fios cirúrgicos, materiais de anestesia e outros insumos médicos de baixo custo. “Os pacientes são os principais prejudicados. A fila está aumentando e a situação não se resolve”, reclamou o médico residente da cirurgia geral, Adriano Rodrigues. Ele disse ainda que foi informado pela direção que tudo isso não estaria sendo comprado pela falta de repasse de verbas do Governo Federal à unidade de saúde universitária. Outro risco à saúde dos pacientes é a falta de produtos como reagentes, necessários para fazer exames. O laboratório que atende à clínica-médica do hospital fica com o serviço comprometido ou paralisado por esse motivo, com frequência. “Exames cardíacos e outros necessários para identificar patologias chegam a demorar até dois meses para serem feitos”, lamentou o médico residente da clínica médica, João Eudes Moraes. O médico denunciou também que quando um profissional do laboratório entra em férias não há outro que o substitua,

Fotos: Lorena Oliveira

Apesar da justificativa da direção de fechar o setor para reforma, as obras no bloco cirúrgico do HU ainda não têm previsão de início, o que deve atrasar a volta dos atendimentos o que fragiliza ainda mais o serviço que tem alta demanda. Além disso, a impressora do eco cardiograma está quebrada, impossibilitando a realização deste exame. Os médicos residentes reclamam que a paralisação do bloco cirúrgico prejudica também o aprendizado deles. “São mais de 10 residentes que tem na prática 80% do seu aprendizado”, ressaltou Lorena Oliveira, médica residente da cirurgia geral. Há hoje, 12 residentes de cirurgia, seis de anestesia, além de alunos do 5º e do 6º ano da graduação de medicina parados. Eles pediram à direção do hospital para acelerar a resolução do problema e para transferir os pacientes que estão na fila para outros hospitais. Versão oficial Segundo o diretor técnico do HU, Jordane Reis, foram feitas reuniões para discutir maneiras de resolver o problema antes do prazo de 70 dias, previsto pela diretoria. Ele adiantou que há processos de licitação em andamento para compra de materiais, mas que caminham lentamente. O diretor informou que pelo fato de o HU ser um hospital-escola, a unidade deve receber em breve, recursos financeiros do Mi-

nistério da Educação (MEC) que devem ser utilizados para minimizar este impasse. “Mas ainda sim, precisamos de um concurso público para área administrativa. Aumentando a equipe do setor responsável pela compra desses equipamentos, podemos apressar e muito a aquisição deles”, garantiu. Prazos judiciais O Ministério Público Federal na Paraíba considerou grave e urgente a situação no Hospital Universitário, por isso pediu à Justiça Federal que determine a reativação das cirurgias no prazo máximo de 20 dias. Já o procurador chefe do trabalho, Eduardo Varandas, notificou o reitor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para que realize, no prazo máximo de um ano, um concurso público para preenchimento de vagas na unidade. Segundo o procurador chefe, há 124 profissionais terceirizados, exercendo a atividade fim, o que é considerado ilegal. A assessoria de imprensa da Reitoria informou que, até o ano passado, a instituição não podia realizar concurso público por não estar autorizada pelo MEC, mesmo que um funcionário se aposentasse ou

um cargo ficasse vago por qualquer outra razão. Isso mudou em setembro de 2010 com a criação com servidor equivalente, pois a UFPB passou a ter autonomia para fazer prova de concurso e preencher o cargo. Porém, para novas funções isso não se aplica. Para tanto é necessário que a vaga seja criada pelo Ministério do Planejamento e, em seguida, o concurso deve ser autoriza-

do pelo MEC. É exatamente o que acontece com o HU. Mais de uma centena de servidores terceirizados foram contratados, porque não havia tempo para aguardar todo esse processo e só então dispor do funcionário contratado por concurso público. Como se trata de serviço de saúde foi utilizado essa estratégia urgente, que é vista como ilegal.

FILA DE ESPERA Os números abaixo se referem a casos de pacientes que estão com indicação de cirurgia fechada e os exames pré-operatórios completos, mas ainda esperam para realizar os procedimentos.

129 77 119 188 305 14

Cirurgia Abdominal

Cirurgias de Hérnia Abdominal

Cirurgias Urológicas

Cirurgias na cabeça e/ou Pescoço

Cirurgias Ginecológicas

Cirurgias de Mama

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Com os profissionais impossibilitados de trabalhar, o bloco cirúrgico do Hospital Universitário tem corredores vazios há mais de um mês

Cirurgias Bariáticas


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saúde

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Animais utilizados como cobaias Projetos científicos fazem experimentações com animais para estudar a fisiologia deles e descobrir curas para doenças Foto: Cairé Andrade

Luis Thales A utilização de animais para experimentos na realização de pesquisas é um dos meios de estudo bastante usado nas áreas das ciências da natureza e da saúde. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN) e o Centro de Ciências da Saúde (CCS) se utilizam da experimentação com animais para pesquisas científicas. A prática carrega um histórico de pesquisas que contribuíram para a evolução da humanidade e da ciência. Um exemplo bastante conhecido deste uso é a produção de medicamentos, testados em laboratório, para doenças antes tidas como incuráveis. Contudo, a experimentação em animais é também uma prática contestada, pois há pessoas que consideram que essas experiências são o sacrifício de uma vida. O professor em fisiologia humana e animal comparada do Departamento de Sistemática e Ecologia (DSE), Paulo Montenegro, acredita que a ciência não pode prescindir do uso de cobaias. “A gente ainda não pode responder muitas perguntas sem usar cobaias. Mesmo assim, tem de haver bom senso e respeitar a ética do uso que deve ser o mínimo (de animais) necessário”, destacou. Tipos de experimentação O professor, único que trabalha com experimentação no DSE, explicou que existem dois processos de estudos nessa área: in vitro e in vivo. No in vitro (em vidro), não há interações fisiológicas, ou seja, tudo é feito fora do organismo. São utilizadas células

Pesquisas com camundongos estão sendo feitas para identificar a cura para enfermidades do animal em laboratórios. O in vivo (em vivo), em contrapartida, se pratica com todo o organismo. Ele também divide a experimentação animal em três categorias: não-invasiva, pou-

co invasiva e muito invasiva. Chama-se não-invasiva a experimentação que apenas se observa o comportamento do animal. Já as pouco invasivas promovem a interação, mas não

causam a morte do animal, enquanto que as muito invasivas podem levar à morte do animal. Além de ministrar uma disciplina, envolvendo as experimentações não-invasivas e as pouco invasivas com o peixe tilápia, o professor também desenvolve uma pesquisa de doutorado em que ele utiliza o Pleurodema Diplolister, um pequeno sapo que é coletado na praia de Intermares, no município de Cabedelo, com a permissão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA). No Laboratório de Tecnologia Farmacêutica (LTF) da UFPB, onde existe um biotério, local onde se mantém e reproduzem animais para estudos em laboratório, há várias pesquisas sendo realizadas sobre fármacos, como plantas medicinais, que fazem testes em animais. A professora doutora do Departamento de Fisiologia e Patologia do CCS, Márcia Regina Piuvezam, vê que a prática se mantém necessária, pois ainda há drogas que precisam passar por este procedimento para serem levadas aos humanos. “Deve haver utilização racional dos animais e o uso de todos os protocolos que minimizem dor e estresse”, enfatizou. Márcia afirma ainda que em 16 anos de trabalho nunca viu nenhuma manifestação contra a experimentação na universidade. Todo projeto de pesquisa que pretende usar esta prática, precisa passar por um comitê de ética, presente em várias instituições, e que na UFPB é chamado Comitê de Ética em Pesquisa Animal (Cepa). Nesses órgãos são avaliados se os projetos que lá tramitam estão de acordo com a legislação e com a ética do uso de

animais em experimentação. Cabe a eles fiscalizar semestralmente estas pesquisas e decidir se a quantidade de animais e a metodologia de pesquisa nesses projetos são realmente adequadas às experimentações, se visam à diminuição da dor e do estresse psicológico e físico, submetidos aos animais nas pesquisas. No LTF, Márcia trabalha no Laboratório de Imunologia e coordena projetos na área de imunofarmacologia. A professora descreve um processo que faz com camundongos: “Nós testamos algumas plantas que têm sido utilizadas na população, na medicina popular, para cura de asmas, resfriados e rinites. Os químicos (do laboratório) desenvolvem os compostos, e nós testamos em animais. Nós induzimos a asma, parecida com a humana, no animal, e em seguida fazemos vários experimentos e testes, para saber se os compostos, ou mesmo os extratos, melhoram o estado clínico desse animal”, explanou. A aluna do curso de Farmácia, Laiz Aline Brasileiro, estuda no Laboratório de Imunologia, pelo Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica (Pivic), desenvolvendo um trabalho de pesquisa que observa os efeitos de óleos essenciais da medicina popular em camundongos com artrite induzida por ovoalbumina, substância tóxica para o animal. Laiz não se sente desconfortável com a utilização dos animais. “Não há sofrimento para nós, porque a gente faz de tudo para que eles sofram o mínimo possível. Eu sou a favor à medida que é aceito por um Comitê de Ética Animal”, acrescenta a aluna.

atividade física

Estudantes praticam caminhada involuntária pelo Campus Daniel Peixoto A caminhada, assim como qualquer outro tipo de exercício físico, é saudável, contanto que seja moderada. Fácil, sem custo ou contra-indicação, emagrece rápido, tonifica os músculos e reduz os riscos de doenças. Em virtude das longas distâncias que são obrigados a percorrer entre os blocos de sala de aula, os alunos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) praticam a caminhada sem perceber. Preocupados em se dedicar às provas, aos trabalhos e a outras tarefas do cotidiano estudantil na universidade, alguns deles se esquecem de fazer exercícios físicos. Porém, os minutos, entre o término de uma aula e o início de outra, muitas vezes, são usados para percorrer uma longa distância, a maioria, a pé. A caminhada é uma alternativa de exercício simples, prazerosa, que afasta o sedentarismo. É interessante, ainda, para aqueles que não gostam de praticar atividades físicas mais exigentes. Na rotina da UFPB, o que a diferencia da caminhada exercida com o objetivo de adquirir qualidade de vida é o fato de seus adeptos, em grande maioria, os alunos, por vezes, an-

darem estressados e apressados, além de não estarem vestidos com roupas e calçados apropriados. Pelo campus Alguns alunos de Engenharia Civil, por exemplo, passam por essa experiência. Precisam se locomover por parte da UFPB para assistir às aulas. Flávio Henriques é um deles. Estudante do 3° período, ele tem que percorrer o que considera uma maratona, quase todos os dias. Ele completa o percurso Central de Aulas (CA) – Centro de Tecnologia (CT), duas vezes, em dois dias da semana. Já a aluna do 4º período de Ciências Sociais, Mariana Davi, costuma andar bastante, desde o a praça da alegria no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), passando pelo CA, onde assiste a grande parte de suas aulas, até o centro de vivências, no horário do almoço. Contudo, ela já percorreu distâncias mais longas: “Eu já caminhei de uma ponta a outra. É realmente muito cansativo, principalmente, no sol quente, mas acho que a caminhada é também uma forma de sociabilidade, porque você acaba encontrando amigos pelo caminho, o que ajuda no convívio”, declarou. Alguns alunos se perguntam se

Foto: Thaís Garcia

Roupas e calçados inapropriados são um perigo à saúde desses estudantes que precisam percorrer longas distâncias para estudar essa forma de exercício é saudável. A aluna do 3° período de medicina, Joana Valkasser, alerta: “Essas caminhadas não devem substituir uma atividade física com acompanhamento de um profissional, mas não tem contra-indicação”. Ela acrescenta que o ideal seria que essa atividade fosse exercida com roupas e cal-

çados apropriados, o que algumas pessoas já fazem no campus, mas depois do horário de serviço. A educadora física Natália Pires ressaltou que o efeito da caminhada só é obtido caso seja praticada no máximo 7 km/h. Além disso, quando o corpo se adapta ao esforço é preciso aumentar a inten-

sidade para melhorar o condicionamento físico. Por isso, essas caminhadas no cotidiano acadêmico, podem não resultar em grandes benefícios à saúde. “Uma caminhada não faz mal a ninguém, só vai ajudar, mesmo que não seja feita da maneira ideal”, reforçou a educadora.


política

JOÃO PESSOA - PARAÍBA 1° A 7 DE DEZEMBRO DE 2011 Jornal do Laboratório do Curso de Jornalismo da UFPB

Reitoráveis debatem Reuni e definem tema de eleição Pré-candidatos à Reitoria discutem o programa que alterou o acesso e a estrutura da universidade Joel Cavalcanti A segunda e última parte da entrevista com os pré-candidatos à reitoria em 2012, iniciada na edição passada do Questão de Ordem, é especial, pois é temática sobre o Reuni. Apesar de inicialmente não ter sido pensado nesta separação por um tema, uma vez que o jornal questionou os reitoráveis sobre outros temas, a exemplo da qualidade da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e dos quase oito anos da gestão de Rômulo Polari, no entanto nas respostas dos entrevistados ficaram evidentes as consequências do processo de expansão, experimentado na UFPB, nesses últimos cinco anos. É possível prever que este será o tema mais discutido, defendido e criticado durante toda a campanha. Todos os pré-candidatos, mesmo contrastando-se na ênfase como tratam o tema, consideram positiva a expansão provocada pelo Reuni. Aparecida Ramos, Lúcia Guerra e Luiz Renato, por exemplo, destacam a importância social desse projeto diante da desigualdade enfrentada no país. “Novos estudantes, oriundos das classes sociais mais pobres tiveram acesso à universidade. Isso é formidável e deve ser ressaltado”, observou Aparecida Ramos. Lúcia Guerra lembrou ainda que: “Na Paraíba, metade das vagas do ensino superior é em instituições públicas, o dobro do desempenho nacional e isso é fruto do sucesso do projeto Reuni. No entanto, numa outra perspectiva, em comparação à média brasileira, que é de 165 vagas para cada 10 mil habitantes, na Paraíba, esse número ainda é baixo: apenas 88 vagas”, assegurou a pró-reitora de extensão. Para Luiz Renato, o programa “foi importante para a inclusão de muitos brasileiros, que estavam excluídos em todo Brasil, de realizar um curso superior”, declarou. Contudo, Luiz Renato e Margareth Diniz, na entrevista, procuraram descolar o Reuni da imagem de Polari, minimizando sua interferência e atribuindo os benefícios deste programa à gestão do ex-presidente: “O Reuni foi uma iniciativa do governo Lula, ampliando quantitativamente o acesso ao ensino superior no Brasil. Nesse contexto, a UFPB inseriu-se neste programa”, assinalou a atual chefe do Centro de Ci-

ências da Saúde (CCS). Seguindo a mesma lógica, Luiz Renato assevera que: “Durante o governo Lula, as universidades receberam bastantes recursos para sua expansão, infra-estrutura e novos cursos, através do programa”.

tados, não são professores apenas dos novos cursos”, defende.

ra honrar seus compromissos com as obras licitadas na UFPB. Mesmo nesse cenário, entre as IFES no Brasil, a UFPB é uma das 10 melhores em conclusão de suas obras do projeto Reuni”, afirmou.

Quantidade versus qualidade Se por um lado os candidatos de oposição ratificam os benefícios desse projeto, por outro fazem acentuadas críticas sobre a priorização das metas de expansão contidas no Reuni em contraposição ao apoio da qualidade dos cursos já existentes. Luiz Renato, que se destaca por fazer afirmações mais severas contra a atual gestão, alega que “o problema é que as construções das obras viraram prioridade número um do reitor. É importante ter um foco na melhoria da qualidade acadêmica dos diferentes cursos e procurar meios para viabilizar os projetos acadêmicos e científicos”, apontou. Aparecida Ramos afirma que vê com “preocupação as iniciativas no sentido de acelerar a formação universitária no âmbito do ensino de graduação. Uma das lógicas do Reuni era o apoio a projetos de reestruturação, de maneira que alguns cursos ficaram de fora, porém uma administração superior que se preze não pode de maneira alguma discriminar cursos”, criticou. Esta opinião é compartilhada também por Margareth Diniz, que acrescenta: “Os cursos já existentes, em sua parcela considerável, não receberam recursos suficientes dentro deste programa para implementar transformações qualitativas importantes em sua estrutura acadêmica”. Na condição de candidata da situação e participante direta da atual administração, Lúcia Guerra defende os procedimentos adotados pelo atual reitorado e apresenta uma versão diferente dos seus concorrentes: “O discurso de setores da oposição de criar ‘duas’ universidades não encontra respaldo na realidade. Todos os nossos indicadores de qualidade melhoraram independentemente dos cursos serem novos ou antigos, pois a administração investiu em novos laboratórios, em novas e melhores salas de aulas e na abertura de vagas para concursos de docentes. As avaliações dos cursos da UFPB, em geral, não mostram diferenças importantes, pois esses novos contratados, altamente capaci-

Obras paradas Uma das faces mais visíveis do Reuni é a quantidade de construções empreendidas dentro do Campus. Ocorre que muitas delas estão bastante atrasadas e outras paralisadas. Tal situação torna-se mais um ponto convergente entre as críticas dos candidatos opositores. Luiz Renato denuncia que “a UFPB teve acesso a um volume importante de recursos, mas que infelizmente foi mal gerido. As obras, em constante atraso, vêm prejudicando a formação dos alunos”. Margareth Diniz, por sua vez, demonstra que entende e aceita os processos que levaram ao atraso nas obras: “Este é um gargalo que as gestões do serviço público enfrentam. Tem muito a ver com processos licitatórios e as amarras legais”. Já Aparecida Ramos lembrou o tempo em que enfrentou este problema quando era chefe do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) e, segunda ela, encontrou solução para os atrasos nas obras. “Logo que assumi a direção do CCHLA, todas as obras estavam atrasadas ou sequer haviam começado. Herdei a maior expansão da UFPB, e, no entanto, a mais atrasada. A primeira coisa que fiz foi reunir o Conselho de Centro, expus a gravidade da situação com transparência, e pedi a união de todos. Deu certo: a união do CCHLA se efetivou e as obras, com muito esforço, começaram a desentravar. Tomarei uma atitude semelhante na Reitoria”, garantiu. Lúcia Guerra, mais uma vez, traz análises diferentes dos candidatos de oposição. Ela rebate: “Primeiro vamos deixar uma coisa bem clara: não existem obras abandonadas na UFPB. O que ocorreu é efeito colateral da acertada política econômica do Governo Lula para o Brasil se desenvolver. A UFPB investiu cerca de R$ 150 milhões em contratações de obras, reformas e adequações. Como todas as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), a UFPB teve problemas com atraso nas obras, causado por uma questão estrutural, já que o aquecimento do mercado imobiliário foi e é uma realidade no Brasil que se refletiu e se reflete na Paraíba. A indústria da construção civil local não tinha capacidade econômica pa-

LUIZ RENATO

MARGARETH DINIZ

CIDA RAMOS

LUCIA GUERRA

É Engenheiro de Materiais, com Pós-Doutorado em Materiais Compostos pela INPL (França). Idealizou o Programa de Responsabilidade Social da UFPB e o Fórum de Responsabilidade Social da Paraíba. Foi Pró-Reitor da Secretaria Especial de Integração Universidade Setor Produtivo, vice-diretor do CT, vice-chefe do Departamento de Engenharia Mecânica e do Programa de Pós-graduação de Engenharia Mecânica. Atualmente coordena o Laboratório de Materiais.

Graduada em Farmácia e Medicina, e Pós-Doutora em Biotecnologia, é Professora Associada III do Curso de Farmácia e de Pós-Graduação em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos e Desenvolvimento e Inovação Tecnológica em Medicamentos. Foi diretora técnica e Médico-Assistencial do HU, além de ser membro da Câmara Técnica de Medicamentos Fitoterápicos (ANVISA). É autora de livros e artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais. Atualmente é chefe do CCS.

É professora associada II do Departamento de Serviço Social e Doutora em Serviço Social pela UFRJ. Foi Chefe do Departamento de Serviço Social da UFPB, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Diretora do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Publicou artigos em revistas nacionais e internacionais sobre avaliação das políticas sociais brasileiras. Já foi Presidente do DCE e da ADUFPB. Atualmente é Secretária de Estado de Desenvolvimento Humano.

É doutora em História Social pela USP. Coordenou o Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional e presidiu o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades. É professora associada II, presidente da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos da UFPB, integra a Comissão do Sistema de Gestão de Documentos de Arquivo do MEC e coordena a Rede de Educação em Direitos Humanos. Há três mandatos é pró-reitora de extensão da UFPB.

Avaliação de Polari Por fim, perguntamos a todos os pretensos candidatos quais são, segundo eles, os pontos positivos e os negativos da administração de Rômulo Polari. Margareth Diniz esquivou-se de responder esta questão de maneira mais direta. A chefe do CCS disse que: “Esta avaliação não pode ser pontual, muito menos pessoal. Ela deve ser feita essencialmente de maneira conjunta com a comunidade acadêmica e a sociedade”. Por sua vez, a atual pró-reitora de extensão, Lúcia Guerra disse não concordar com o que chamou de “posições maniqueístas e fragmentadas da avaliação das políticas públicas”. Apesar disso, ela, sem destacar um ponto negativo da gestão da qual faz parte, assinalou ainda que a universidade “saiu de um modelo de desresponsabilização do ensino superior e está preparada para dar um novo salto de qualidade, porque suas bases estão mais fortalecidas”. No sentido inverso, Luiz Renato não acrescentou nenhum ponto positivo e ressaltou: “A atual gestão não aproveitou de forma eficiente nem vem aproveitando esse grande momento. A falta de planejamento dessas construções tornou a vida dentro da universidade um caos. A administração atual está terminando sua gestão sem dar efetivamente uma contribuição para o estado. As iniciativas de integração têm sido feitas de forma isolada por seus professores, pesquisadores e servidores, através de suas competências, esforços pessoais e relações profissionais”. Já Aparecida Ramos conseguiu reforçar os dois aspectos: “Houve um crescimento da UFPB e das demais universidades federais, paralisadas e em crise de financiamento, durante o período da gestão de Fernando Henrique Cardoso, na presidência da República. O reitorado de Polari, desta maneira, é representativo deste período de expansão do ensino superior, através do projeto Reuni. No entanto, é preciso dar um passo adiante e alterar as relações de poder na universidade, ainda muito verticalizadas”, finalizou.

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EU PROTESTO Envie suas queixas e reivindicações para este espaço do QO. redacao.qo@gmail.com

Ensino

Protesto contra os professores que não se preocupam em passar o conteúdo por meio de aulas expositivas, em que haja diálogos e interação entre os alunos e uma discussão entre todos, em vez disso, os docentes passam a responsabilidade para os estudantes, seja por meio de inúmeros fichamentos ou seminários. Francisco de Paiva, estudante do 8º período de Psicologia.

Estrutura Protesto pela falta de livros na biblioteca setorial de espanhol e a estrutura do ambiente da biblioteca que, além disso, tem poucos recursos. Protesto, ainda, pelos banheiros do CCHLA que estão sem trancas nas portas, e com precárias condições de higiene. Angélica Viana, estudante do 1º período de Letras Espanhol.

Comjunto Eu protesto contra o coletivo comjunto, porque eles se dizem representar os alunos de comunicação, mas têm atitudes que não refletem a ética dos cursos. Arthur Xavier, estudante de 2º período Jornalismo.

Estacionamento Protesto pelo descaso da UFPB que deveria se importar mais com a falta de iluminação do estacionamento que fica muito escuro à noite, sem falar na falta de segurança; meu carro foi arrombado em plena luz do dia. Rossana Rodrigues, estudante do 7º período de Letras Inglês.

Professores Eu protesto contra a má qualidade da estrutura universitária. Tem melhorado, mas ainda é muito deficiente. Faltam professores para dar disciplinas enquanto outros são sobrecarregados com até cinco cadeiras por período. Cintya Nayara, estudantes do 8º período Letras Espanhol.


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política

JOÃO PESSOA - PARAÍBA 1° A 7 DE DEZEMBRO DE 2011 Jornal do Laboratório do Curso de Jornalismo da UFPB

Ampliado apoio político à Reitoria Com um aumento histórico na criação de novos centros, gestão Polari aumentou sua força política dentro do Consuni Ilustração: Joel Cavalcanti

Joel Cavalcanti Este ano ficará marcado administrativamente para a atual reitoria, pela recente criação de vários novos centros universitários. A Universidade Federal da Paraíba (UFPB), até 2006, possuía nove centros. Hoje já são 16, sendo sete deles criados nos últimos sete anos da atual gestão de Polari, além de quatro novos centros só neste ano. Trata-se de algo inédito na história da instituição, que atende a questões de planejamento orçamentário. Contudo, possui também importantes implicações políticas que podem favorecer a Reitoria. O pró-reitor de planejamento, Paulo Fernando, argumenta que, com a expansão provocada pelo Reuni, “é natural que surgisse a necessidade de desmembramento dos centros”. Ele aponta as vantagens administrativas que, a seu ver, democratiza a utilização do orçamento da universidade. “Descentralizar é democratizar o processo decisório, torná-lo mais próximo da comunidade universitária, o que permite maior transparência, mas carrega junto maior responsabilidade dos administradores locais. O diretor de centro não mais encaminhará memorandos à Reitoria, solicitando a compra de um equipamento ou um pagamento por um serviço, pois ele próprio terá autonomia para executar seu orçamento, mas também responderá por atrasos e será responsabilizado por falhas frente aos órgãos de controle externo, como a Controladoria-Geral da União e ao Tribunal de Contas da União”, alertou. Otávio Machado, chefe do Centro de Educação (CE), concorda com a necessidade de criação destes centros, mas

não concorda com o pró-reitor no discurso de “democratizar o processo decisório”. Para o chefe do CE, o processo ainda está bastante burocrático e centralizado na pró-reitoria de administração e na prefeitura universitária. “Esse processo foi muito rápido e eu já me preocupo com a manutenção de muitos blocos novos que foram construídos no CE. Hoje é mais fácil comprar um carro para a universidade do que pedir a pintura da porta de uma sala de aula”, comparou. Urgência Além dos questionamentos quanto à manutenção e ao custeio dos centros, setores da oposição à gestão atual apontam que, com essa medida, Polari tem ampliado ainda mais o seu apoio político dentro do Conselho Universitário (Consuni), que é o órgão deliberativo superior que decide questões de política geral da universidade. Isso porque todos os seus representantes são definidos diretamente e de forma monocrática pelo reitor, sem o recurso da eleição, o que torna estes representantes pro tempores, em potenciais aliados políticos da Reitoria. Outra crítica recorrente a atuação do reitor, que é também presidente do Consuni, diz respeito ao fato de que ele classificou como “urgentes” vários

projetos que encaminha ao conselho. Esta é uma condição legal, prevista no Regimento dos Órgãos Deliberativos da Administração Superior. Quando usado, no entanto, esse recurso impede a concessão de vista no processo, ou seja, pode ser analisado outra vez somente no decorrer da própria sessão, impedindo que a votação do processo seja suspensa, somando-se, ainda, a impossibilidade de saída do plenário, o que obriga a votação da matéria na reunião. Ainda segundo o regimento está definido que em matérias de pouca complexidade, mas de natureza urgente, o relator do processo está dispensado de realizar parecer por escrito. O artigo só não deixa claro o que é de “pouca complexidade”. Agamenon Travassos, Coordenador da Secreta-

ria dos Órgãos Deliberativos da Administração Superior afirma que os regimentos da UFPB são cheios de falhas e esse artigo seria mais uma delas. Entre os processos, classificados como “urgentes” enviados ao Consuni, está a criação do Centro de Biotecnologia. Apesar de isso ter impedido uma discussão maior e mais apropriada, o projeto foi aprovado com 20 votos a favor, uma abstenção e apenas quatro contra. Otávio Machado foi um dos que votaram a favor, mas reitera que discorda da utilização deste recurso. “Eu sou contra. Já me manifestei várias vezes contrário a isso dentro do conselho. Não se pode usar ‘urgência urgentíssima’ para se criar um centro”, manifestou-se o representante do CE, alertando ainda que, em virtude

dessa pressa, muitos conselheiros não sabem como funcionará esse centro. Apesar deste amplo apoio ao reitor, Otávio Machado afirma que Polari não exerce uma interferência direta dentro do Consuni, apesar de destacar que alguns conselheiros votam favoráveis a tudo que vem da reitoria. “É claro que é possível que a gente se surpreenda com o representante indicado pelo reitor, mas o conselheiro é independente. Se tiver ética e for compromissado com a universidade, não vai seguir tudo o que o reitor quiser”, afirma. O que a comunidade acadêmica espera é que a formação do Consuni espelhe a pluralidade de pensamentos que vigoram na universidade e que os conselheiros indicados sejam autônomos em suas decisões.

IDENTIDADE

Formação de coletivos gera discussão sobre representatividade Luis thales A representatividade estudantil em universidades é estabelecida por meios tradicionais, como os Centros Acadêmicos (CA) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE). Ao longo da história do país, os estudantes tiveram a oportunidade de se organizar politicamente através dessas unidades organizacionais, com o intuito de defender seus ideais perante as instituições de educação ou até mesmo diante da política social vigente. Hoje, a classe estudantil não mais possui interferência destacada nos rumos do poder público, de tal forma que essas representatividades não formam líderes das causas dos discentes. Nesse contexto, surgem os coletivos que, mais do que representatividade, buscam identificação. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), vários alunos vêm procurando nos coletivos uma forma de se organizar politicamente. Diante disso, a UFPB possui alguns destes grupos, a exemplo do Desentoca, de Direito, do Canto Geral, de Psicologia e do Comjunto, de Comunicação Social. Os coletivos universitários, formados por alunos e graduados das diversas áreas, têm características políticas. O ponto de maior semelhança entre os coletivos é a proposição de novas pautas e de ações, correspondentes à visão do que devem ou necessitam abordar, principalmente a temas que não são, muitas vezes, abarcadas pelos CAs ou pelo DCE. Professora doutora da Universidade Federal da Paraíba, Virgínia Silva é uma das integrantes do Comjunto. Virgínia argu-

menta que os coletivos conseguem atrair os alunos em diversos aspectos. “É normal que os universitários busquem coletividades em que de fato se reconheçam. Por um lado, porque o ser humano é, por excelência, um animal gregário, precisa estar com os outros, e, por outro lado, pela própria e incômoda percepção de que certa concepção de ‘representatividade’ no meio do movimento estudantil já não dá conta dos seus anseios e questionamentos que são vivenciados de forma direta”, observou Virgínia. Para o estudante de Rádio e TV e membro do CA de Comunicação Social, Philipe Phaustino, “alguns coletivos nascem por sentirem a necessidade de algo a mais, dentro da universidade. Quando sentem a falta de alguém fazendo e propondo temas para eles, aí alguns estudantes decidem se unir e tentam preencher isso”, esclareceu o estudante. A formação do Comjunto se deu justamente pela necessidade que via em pautar questões antes não questionadas. “É isso que nos interessa dentro desses coletivos, essa possibilidade de você também ultrapassar os muros da universidade, dessa institucionalização do discurso, da construção do pensamento crítico”, analisou Maria, jornalista e integrante do coletivo. Outro jornalista que participa do Comjunto é Emerson Cunha. Ele acredita que os coletivos têm um papel a desempenhar. “Eu acho que os coletivos têm uma grande importância. Talvez não tenham uma grande repercussão, mas eu acho que dentro das suas áreas eles conseguem pelo menos movimentar, trazer algum tipo de reflexão, nem

Foto: Herbert Clemente

Coletivo Comjunto, criado em 2007, reúne-se semanalmente para debater temáticas importantes da UFPB que seja em uma pessoa dentre mil”, contou Emerson, percebendo que os coletivos nem sempre são vistos com bons olhos. Protesto No mês de outubro, o Comjunto protestou no debate sobre Jornalismo Sensacionalista da Paraíba, realizado no auditório da Reitoria e promovido pelo CA de Comunicação Social. O coletivo, na intenção de problematizar a questão, planejou um protesto para criticar o sensacionalismo praticado por parte da imprensa paraibana. Na mesa-redonda, o polêmico apresenta-

dor do programa Correio Verdade, Samuka Duarte, foi alvo de críticas pela plateia. “Talvez algumas pessoas tenham entendido errado, mas o protesto não foi contra Samuka, mas contra ao Sistema Correio de Comunicação”, explica Maria sobre a intervenção do Comjunto. “E contra, na verdade, toda economia política dos sistemas de comunicação que utilizam o jornalismo sensacionalista e a questão das sensações da morte, para ter audiência e gerar lucro”, acrescentou Emerson, acreditando que a imagem do coletivo possa ter sido maculada no debate, apesar de ter julgado o ato como importante.


cultura

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Coral universitário Gazzi de Sá proporciona a inclusão social Canto coral, após pesquisas científicas e antropológicas, se mostrou como importante ferramenta na interação entre pessoas Camila Bitencourt O canto coral, praticado em universidades, em escolas, em igrejas, em associações, em clubes, em empresas públicas e privadas, é uma atividade qualificada como lazer para muitos praticantes. Indo mais além, estudos comprovam que a participação em corais desenvolve integração e inclusão social, sendo uma ferramenta para motivar seus coristas, além de orientá-los para o aperfeiçoamento de habilidades vocais e musicais. A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) possui seu próprio coral, o Coral Universitário Gazzi de Sá, que possui 45 coristas e seis músicos, tendo como regente o maestro Eduardo Nóbrega. O grupo é formado, em 80%, por estudantes. Sendo um projeto da Coordenação de Extensão Cultural (COEX) e da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PRAC), foi criado em 1961. No decorrer de sua trajetória, participou de inúmeros festivais e encontros nacionais e internacionais. No exterior, já realizou apresentações nos Estados Unidos, na Europa e na Argentina. Para Eduardo Nóbrega, além do aprendizado musical, o canto coral une as pessoas e estimula a criatividade. “Busco através do canto coral um meio para alcançar objetivos

Foto: Osmar Santos

Grupo se apresenta no Festival Paraibano de Coros (Fepac). A incenação criativa faz parte de diversas perfomances dos corais maiores, pois o canto é uma poderosa ferramenta para comunicação de uma mensagem e um veículo valiosíssimo de educação tanto de jovens quanto de adultos”, afirma. “Por essa razão, trabalhar levando em consideração a sociedade à qual pertencemos faz toda a diferença,” conclui o maestro. Além da técnica, Yuri Moreira, que é correpetidor do Coral Gazzi de Sá, ou seja, que acompanha a musicalidade vinculada ao vocal, há oi-

to anos, aponta a sociabilidade como benefício do canto coral. “Além de me propiciar momentos de relaxamento, alegria, felicidade, de poder esquecer um pouco do corre-corre da vida, ainda posso conquistar novas amizade”, diz Yuri. Festival de Coros O Maestro Eduardo Nóbrega também coordena, desde 2003, o Festival Paraibano de Coros (Fepac). O Festival reúne corais de todo o Brasil pa-

ra apresentações temáticas. A 9ª edição aconteceu entre os dias 9 e 12 de novembro deste ano no Teatro Paulo Pontes. O encerramento ficou a cargo do Coral Gazzi de Sá, que fez uma homenagem ao músico paraibano Adeildo Vieira, com o espetáculo intitulado “Um novo Pierrô”. De acordo com o maestro, a proposta do grupo é priorizar os artistas do estado e Adeildo Vieira é uma expressão nata da música paraibana. “Já homenageamos Tom K, Sivuca,

Livardo Alves, Hildeberto Barbosa, João de Arimateia, entre outros. No caso de Adeildo Vieira, foi um consenso entre eu e mais duas pessoas. Quando comunicamos ao artista, ele ficou muito emocionado, agradeceu bastante. Mostramos a ele que a escolha não era pela nossa amizade, mas sim pelo conjunto de sua obra”, revela Eduardo. O Fepac não possui caráter competitivo. O objetivo é estimular e difundir a arte do canto coral no Brasil, além de incentivar o aprimoramento técnico dos coros. De acordo com o coordenador, o 9º Fepac reuniu mais de duas mil vozes durante quatro dias. “Entre os 47 selecionados, 24 grupos são de outros estados, promovendo assim o intercâmbio cultural”. O coordenador afirma que o canto coral cresceu consideravelmente na Paraíba depois do Fepac. “O festival veio reacender a chama do movimento coral no estado”, declara Eduardo. Para o coparticipante Yuri, os festivais são a possibilidade de mostrar a culminância de todo um trabalho construído durante vários meses. “Podemos demonstrar todo um processo criado com muito amor, determinação e empenho. Todo coral espera por um festival para poder, através da sua música, emocionar, levar uma mensagem, seja ela como for”, conclui.

CINE GOURMET

Festival audiovisual na UFPB apresenta semelhanças entre cinema e gastronomia Giovanna Ismael Feito por qualquer um, mas não é qualquer um que acerta: cinema e gastronomia possuem muito mais semelhanças do que se pode imaginar. Seja pela lágrima da cebola que se corta, ou do filme que emociona; seja pelo “Western Spaghetti” (filmes de bang-bang dirigidos por italianos) ou pelo Ratatouille, a receita ou o filme. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o projeto de extensão Cine Gourmet abrange o tópico em seu Festival de Filme Gastronômico, que traz uma mistura das temáticas ao público. O Cine Gourmet envolve os cursos de bacharelado em Agroindústria; Engenharia de Alimentos; Veterinária; Zootecnia; Agronomia; Nutrição e licenciatura em Ciências Agrárias. O Festival passou pelo campus de Bananeiras, entre os dias 7 e 12 de novembro, e pelo de João Pessoa, nos dias 21 a 25, do mesmo mês. A coordenadora do Cine Gourmet, Edilma Coutinho, expôs a relação estreita que existe entre alimentação e cultura. “A comida estrutura um código social que envolve relações étnicas, de gênero e de trabalho, com dimensões espaciais e temporais. Isso é um tema inesgotável para o cinema, assim, a alimentação tem ganhado cada vez mais espaço no cinema”, disse. “Para

se ter uma ideia da dimensão do gênero, o Festival de Berlim tem uma amostra dedicada ao tema”, conclui. A proposta dos organizadores é discutir as dimensões sociais, simbólicas e culturais da alimentação que, refletida pela exibição dos filmes, marca sua importância nas relações humanas, na identificação e na identidade dos povos. Segundo Edilma, o objetivo maior é “ampliar a perspectiva e trabalhar uma abordagem mais social e antropológica, em que emerge a regionalidade, a familiaridade e o sentimental na produção, no preparo e no consumo de alimento”. Os filmes exibidos variaram entre os gêneros drama, comédia e animação: Sem Reservas (EUA, 2007), Tomates Verdes Fritos (EUA, 1991), O Tempero da Vida (Turquia, 2003), Julie & Julia (EUA, 2009), Ratatouille (EUA, 2007), Como Água para Chocolate (México, 1992), Estômago (Brasil, 2007). A coordenadora explicou que os critérios de escolha dos filmes foram dois: “o primeiro (...) foi de ordem didática, fundamentando na riqueza do tema para debates em sala de aula; o segundo foi de ordem prática, pois alguns filmes mais antigos não estão disponíveis para venda”. Além da pipoca Poucos são os que discordam do “ingrediente x” existente nessa relação.

Flávia Tabosa, estudante de Jornalismo na UFPB e entusiasta do cinema e da gastronomia, não faz parte deste pequeno grupo. Tendo uma irmã que trabalha com fotos gastronômicas, sempre esteve próxima do ambiente gourmet. Sua percepção sobre “comida” mudou quando, aos 15 anos, conheceu um chef e lhe perguntou onde poderia encontrar universidades de culinária no país. “Em toda casa em que uma mãe ensina a filha a fazer arroz, ela gradua a filha em culinária. Minha profissão abrange muito mais, eu sou gastrônomo”, respondeu o chef. Aquelas duas frases, segundo a estudante, ecoaram em sua cabeça e lhe fizeram pesquisar e entender a diferença trazida à tona. Percebeu que a gastronomia estava além da simples confecção de alimentos e que há “uma refinação e uma preocupação com a apresentação de um elemento que é cotidiano para nós: a comida”. A partir do momento em que pôde diferenciar culinária de gastronomia, Tabosa conseguiu observar de imediato a semelhança nem tão evidente para muitos: “O cinema espetaculariza situações que vivemos cotidianamente e nos apresenta com o mesmo refinamento em que a culinária apresenta o alimento. Ambos são elementos adicionais para proporcionar prazer nessas funções básicas”. João Paulo Palitot, aluno de Rádio e

TV na UFPB e diretor de filmes independentes, acredita que o uso correto dos ingredientes é uma semelhança primordial entre cinema e gastronomia: “Vejo o cinema como um amontoado de idéias e pessoas que interagem em cada parte do processo para formar no final um belo conjunto que desça pela garganta de todos com um ótimo sabor ou pelo menos não faça ninguém vomitar”. Ainda segundo João Paulo, o longa “gastronômico” que mais marcou sua vida foi Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet. Palitot explica que o fil-

me “se passa em um futuro apocalíptico em que uma família bizarra faz comida com carne humana, já que a carne bovina está em escassez em todo o planeta”. “Não me marcou pela culinária e os lindos pratos que você acredita que aparecerão em tela, mas pelo tema e forma estranha com que ele [Jeunet] aborda o assunto”, esclarece. Aponte seu smartphone ou tablet com um software leitor de “QR Code” instalado e veja o trailer do filme Delicatessen

Foto: Divulgação

Cena do filme brasileiro Estômago (2007), uma das atrações do Fest de Filme Gastronômico


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cultura

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Efervescência dos anos 70 na UFPB teve instituição como protagonista Durante a época da ditadura militar, engajamento da Universidade Federal da Paraíba se destacava no cenário cultural Cairé Andrade Entre os anos de 1976 e 1980, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) passou por uma sequência de acontecimentos favoráveis para a cultura popular, seja para o corpo constituinte da universidade (docentes e discentes), seja para a comunidade externa. Criações como o Departamento de Música e o Teatro Lima Penante constituíram o momento de maior destaque na cultura, desde a federalização da universidade. Os núcleos fizeram parte das criações mais importantes da época: o Núcleo de Teatro Universitário (NTU), o Núcleo de Pesquisa e Documentação Popular (Nuppo), o Núcleo de Documentação Cinematográfica (Nudoc) e o Núcleo de Arte Conteporânea (Nac) expandiram a interferência da comunidade acadêmica na sociedade. A fundação do Teatro Lima Penante, com oficinas de atuação, iluminação e das mais diversas áreas nas artes cênicas, também foi um resultado positivo dos movimentos feitos pelo corpo docente da universidade, que continuam firmes e fortes nos dias atuais. De acordo com Iveraldo Lucena, professor membro da Aduf-Pb e Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários no período de 1976 a 1980, vários grandes artistas atuais são os mesmos que se destacaram nessa época: Clóvis Pereira na

área de música; Antônio Dias e Chico Pereira na área das artes plásticas; no cinema, Manfredo Caldas e Paulo Melo; na cultura popular, Osvaldo Trigueiro; e Fernando Teixeira e Ednaldo do Egypto na área do teatro. Dentre esses nomes, também foi citado Bertrand Lira, atualmente professor do Demid e cineasta, que relatou as experiências adquiridas na sua época de estudante: “A universidade era um caldeirão cultural onde se misturavam tendências e movimentos de todos os tipos. Minha bandeira era a cultura. Eu queria consumir, fazer, vivenciar todo aquele momento fascinante que se apresentava aos meus olhos incrédulos. Acredito que vivi os melhores momentos da UFPB”. Movimento estudantil Nos meados da década de 70, na UFPB, havia a censura proveniente da Ditadura Militar, o que causou nos alunos uma inibição para possíveis movimentos estudantis. De acordo com Iveraldo Lucena, isso provocou no reitorado a atitude de recuperar os diretórios e deixá-los funcionando com eleições livres. “A causa disso foi o surgimento dos tais eventos promovidos pelos alunos, como a organização de festivais de música, eventos teatrais, enfim. Foi uma época na qual os estudantes tiveram a liberdade de ação, para discutir problemas relaciona-

Foto:Edson Carneiro

Encontros de cunho cultural eram frequente na UFPB, como é o caso desta exposição de brinquedo popular da Paraíba, no ano de 1978 dos à reitoria, do restaurante, de casos de estudantes”, explica. O professor completa defendendo a UFPB, afirmando que o Estado “saiu na frente, na década de 70, quando permitiu a escolha dos dirigentes dos diretórios através das eleições. Isso não era comum nas universidades da época”. Por conta disso, Iveraldo acredita que isso tenha contribuído para os movimentos.

Quando questionado sobre a ausência de movimentos estudantis culturais atuais na UFPB, ele diz que isso ainda é um resquício da época da ditadura: “Um dos grandes males do movimento de 64 foi ter ‘calado’ o movimento estudantil. Este sempre foi muito contribuinte para a vida política do país. E na universidade existe a estrutura dos diretórios, mas não existe uma par-

ticipação significativa deles”. Iveraldo conclui afirmando que esta é a hora dos alunos se engajarem politicamente. “Este é o momento do jovem se exercitar na atividade política. Sem isso, o estudante se torna uma pessoa sem participação na sociedade, sem expressão. A cidadania consiste também na convivência com a comunidade acadêmica, não apenas na Academia”.

LITERATURA POPULAR

Projeto incentiva produção e criação na área Pedro Alves A Literatura Popular brasileira, como muitas manifestações culturais do país, é uma arte diretamente influenciada pela colonização portuguesa no século XVI. Vinda do velho continente, a Literatura Popular se enraizou, sobretudo, no Nordeste brasileiro, reduto, até hoje, rico em produções desse tipo. A Literatura Popular é fundamentalmente de origem oral e é considerada uma das artes mais intrínsecas ao povo, por ser feita por ele e para ele, de modo espontâneo e natural, retratando a realidade vivida, os valores tradicionais e a criatividade desses indivíduos. Com o objetivo de estudar, pesquisar e difundir esse tipo de arte, foi criado em 1977, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Programa de Pesquisa de Literatura Popular (PPLP). O PPLP foi criado com recursos do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes (CCHLA) e pertence ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV). O programa consiste, primordialmente,

em reunir trabalhos de pesquisadores em Literatura Popular, nacionais e internacionais, além de difundir as suas mais variadas formas: Literatura de Cordel, Poesia Oral, Tradicional, Conto Popular e também a Xilogravura, arte plástica presente nos folhetos de cordel. O PPLP também objetiva estimular os alunos a conhecer mais sobre o gênero e a produzir trabalhos acadêmicos e produções literárias. Formado por estudantes dos cursos de Letras e de Biblioteconomia. Aos discentes de Letras é designado o trabalho de busca, de pesquisa e de análises das obras em Literatura Popular, enquanto os de Biblioteconomia se preocupam com importante organização do acervo, que possui cerca de seis mil cordéis, dentre as produções que o programa possui. As coordenadoras Elizabeth Baltar, professora do curso de Biblioteconomia, e Fátima Batista, professora do curso de Letras, são duas personagens importantes para a manutenção do PPLP. Doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), Fátima Ba-

Esse projeto é exemplar. É de uma universidade que se localiza no coração da região Nordeste.

Foto:Pedro Alves

acesso às obras de Literatura Popular, www.pplp-ufpb.blogspot.com. Para mais informações acerca do PPLP, além do blog, é possível entrar em contato com as coordenadoras do projeto pelo e-mail pplp. ufpb@gmail.com. O PPLP está localizado no 2º andar da Biblioteca Central da UFPB e dispõe de uma excelente estrutura para pesquisas, para estudos e para armazenamento de obras.

Exposição organizada pelo PPLP mostra pequena parte do acervo de seis mil cordéis tista é coordenadora desde 2003. Para ela, o programa é de suma importância por se tratar de um tema bastante ligado à cultura nordestina e brasileira. “Nossa finalidade com o PPLP é recriar a Literatura Popular, difundi-la em outros locais para que ela continue viva na nossa cultura. Temos como objetivo também a formação de estudiosos para criar um espaço de confluência entre poetas e estudantes”, contou. Ainda segundo Fátima, os estudos, as pesquisas e as produções acadêmicas sobre o tema já existem em grande número, mas as dificuldades financeiras para as publicações desses trabalhos acabam sendo um grande empecílho para a difusão do tema na comunidade acadêmica, bem como fora desse uni-

verso. “Já tem muito trabalho sobre o assunto feito por estudantes do nosso programa. Deveria existir um apoio maior da UFPB para a publicação dessas produções e para a pós-graduação”, complementou. Márcia Ferreira de Carvalho, doutorando em Letras, é participante do PPLP e explica um pouco como é o envolvimento dos alunos com o Projeto. “O trabalho é feito através de digitalização de material pertinente ao acervo, como cordéis, monografias, dissertações, teses. Tem também a tarefa de conservação do material, catalogação, envelopamento de cordéis e pesquisas vinculadas as suas, respectivas, Instituições de Ensino”, esclarece. O blog do programa possui informações sobre as reuniões e o

Evento Especial Entre os dias 18 e 25 de novembro, foi realizado no hall de entrada da Biblioteca Central da UFPB, a VI Semana de Literatura Popular. O evento foi composto por palestras, mesas redondas, música e algumas homenagens a nomes da Literatura Popular como os pernambucanos Marcelo Soares e Marco di Aurélio. O professor de português Arnaldo Saraiva, pesquisador sobre o tema na Universidade do Porto, foi um dos mais renomados estudiosos presentes no evento. “Esse projeto é exemplar. É de uma universidade que se localiza no coração da região Nordeste, que produz uma história cultural e muitas obras da Literatura Popular”, declarou Arnaldo. “A UFPB foi pioneira a tratar desse tema tão importante, mas tão desprezado pela academia e isso deve ser exemplo para que outras instituições comecem a ter um olhar mais especial sobre o tema”, concluiu.


cultura

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Teatro Lima Penante passa por dificuldades estruturais

Núcleo de Teatro Universitario (NTU), vertente das artes cênicas, enfrenta as consequências do esquecimento institucional Natan Cavalcante

Há mais de três décadas presente na história do teatro paraibano, o Núcleo de Teatro Universitário (NTU) forma e incentiva a cultura no estado. Lugar destinado à produção e à difusão das artes cênica, o Núcleo é um centro composto pelo Teatro Lima Penante, pela Pousada Nautília Mendonça, pelas três salas de ensaio, e pela biblioteca. O NTU é vinculado à Coordenação de Extensão Cultural (COEX), que, por sua vez, é subordinada à Pró-reitoria de Assuntos Comunitários (PRAC), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Palco de inúmeros festivais e espetáculos, o Teatro Lima Penante, bem como o complexo que abrange o NTU, desde sua criação, na década de 80, é ponto de encontro de grupos de teatro e de outras manifestações populares, que realizam seus projetos nas salas de ensaio e levam sua arte para os palcos. O Lima Penante forma gerações de atores e de diretores, seja por meio de suas oficinas, a exemplo da Oficina de Teatro, nas férias, para crianças e para adolescentes, ou por meio de seus festivais, como o Festival Estudantil de Teatro. Ambas as iniciativas acontecem há aproximadamente 20 anos, eventos que consolidaram a função de centro for-

Foto: Herbert Clemente

A sala 2 do Lima Penante é um motivo de reivindicação pelo piso - exigem que seja de madeira -, e climatização adequada mador que o NTU tem. Mesmo tendo tamanha importância no cenário cultural paraibano, o Núcleo de Teatro Universitário, que é um projeto de extensão da UFPB ligado à PRAC, encontra-se em situação degradante. Mônica Macedo, funcionária do NTU e atriz, disse que o Núcleo é carente do apoio da Instituição. “A universidade deveria ser o nosso órgão mantenedor,

mas não é bem assim”, relata, referindo-se ao descaso em que se encontra o teatro. “Mantemos muito mais por amor, amor à nossa arte, já que a maioria dos funcionários daqui são artistas de teatro e somos nós, com nossa vontade, que mantemos isso aqui”, conclui. Descaso De acordo com alunos e profes-

sores, as salas de ensaio, onde nasceram grupos de teatro e onde se construíram importantes trabalhos teatrais, encontram-se em constante deterioração, pois o piso de madeira está se desgastando cada vez mais. Ainda segundo eles, a biblioteca, que tem o seu acervo constituído de doações, está fechada. O teatro também não é exceção. O tablado, que constitui o palco, possui

tábuas afundadas, além de algumas das cadeiras que estão quebradas e de outros problemas estruturais do complexo; tudo consequência da má manutenção. Everaldo Pontes, ator paraibano e também funcionário do NTU, relata que há falta de verba, de clareza e de transparência. “A gente não tem estabilidade, não se sabe quando a verba virá e, quando ela chega a nós, é nada ou quase nada. A gente mendiga muito”. Ele explica que a COEX não interfere ideologicamente nos seus projetos e que na grande maioria das vezes esse é o único apoio que a UFPB dá ao Núcleo de Teatro Universitário. “A gente produz um evento aqui com a nossa vontade, com a nossa articulação enquanto cidadãos e enquanto artistas da comunidade”, completa Everaldo Pontes. Apesar dos problemas estruturais, o Lima Penante continua presente no calendário cênico da Paraíba. Com pautas, que são as reservas no teatro, marcadas durante o ano todo, além das salas de ensaio que também são muito solicitadas, o NTU continua fazendo seu papel de disseminador da arte na região. O Teatro ainda continua sendo o abrigo onde os artistas iniciantes descobrem sua arte e onde os artistas experientes aprimoram a sua.

NO PALCO

Semana Cênica apresenta performances Yordan Cavalcanti Para muitos, o Teatro não pode ser resumido a ensinamentos que se aprende em uma sala de aula através de livros, de gráficos ou de cálculos. Subindo ao palco, as teorias de Stanislavsk ou as coreografias de Pina Bausch acabam ficando em segundo plano e dão lugar à vivência e às próprias emoções do artista. Quando se está em contato com o público, vários aspectos da atuação devem ser considerados, como a interação, a possibilidade das reações atrapalharem e também o próprio nervosismo e ansiedade que a plateia proporciona. Com todas essas questões, as graduações de Artes Cênicas não se preocupam unicamente com esses detalhes e, por isso, não são meramente teóricas. Em seu conteúdo prático, há considerações sobre o que se vai levar ao palco. Pensando nisso, a coordenação dos cursos de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) realiza semestralmente a Semana Cênica. Trata-se de um evento que dá oportunidade para que estudantes de diversos períodos da área apresentem os resultados ou os experimentos de cena das disciplinas práticas. “Esse evento é muito importante para testar um trabalho que foi desenvolvido, através de longos processos de experiências e de vivências”, afirmou Marcelo Moura, estudante do 5º período de Artes Cênicas, que vai participar pela 4ª vez na mostra. Neste ano, a Semana Cênica será rea-

Foto: Herbert Clemente

Foto: ?

Alunos participam da mostra encenando espetáculos para o público, produzidos em sala de aula e acompanhados pelos professores lizada entre os dias 5 e 9 de dezembro, na Sala Verde, no Teatro Lampião, na Capela Universitária e até mesmo em espaços abertos, todos localizados na UFPB. Ao todo, serão dez apresentações com entrada franca. “Nós podemos não aproveitar a peça toda, mas alguns trechos e algumas técnicas são sim aproveitadas em outros processos nossos”,

explicou Marcelo. Segundo Erlon Cherque, coordenador das graduações em Teatro, as apresentações não tem caráter avaliativo, a não ser que o professor considere necessário. Ele esclareceu também que o trabalho não tem uma continuidade, restringindo-se assim a apenas um período letivo. Cabe ao educador inscrever o grupo caso sinta que a apresentação está madura o

suficiente para ser exibida. Portanto, as turmas não podem participar por vontade própria, também não podem fazer parte do evento estudantes de outros cursos. Pedras no caminho Apesar de toda a preparação, os atores terão que enfrentar um problema: o prédio do curso de Artes Cênicas está em reforma e algumas

das salas utilizadas para os ensaios, ao longo do semestre, foram interditadas. Marcelo Moura também acredita que a reforma irá atrapalhar o evento. “Com certeza apresentar em um espaço provisório, que não estamos acostumados, vai influir na atuação. Nosso curso é muito precário”. O coordenador Erlon também apontou as consequências das obras: “As obras interferem não apenas na Semana Cênica, mas no próprio desenvolvimento das aulas (...). Os ensaios ficam restritos às salas de aula ou espaços alternativos e isso reflete nas apresentações”, completou. Contudo, mesmo com todos os transtornos, o professor Erlon vê as obras positivamente. Ele explica que a reforma tem a proposta de adequar o curso à implementação do Plano Político Pedagógico (PPP) da graduação, que está em fase de reformulação para contemplar uma formação aprimorada e associada à realidade artística e científica contemporânea do país e do mundo. “As obras visam melhoria das condições do curso, inclusive no que se refere às observações do MEC (Ministério da Educação), durante a avaliação. As obras são mais que necessárias”, declara. Todos os problemas estruturais não tiraram a animação dos atores, que prometem muito empenho na Semana Cênica. “A expectativa ainda é alta, até para ver como vamos nos sair considerando as condições da reforma. Mas, eu sei que meus colegas do curso são bons e que não vão decepcionar na hora da apresentação”, disse Marcelo Moura.


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literatura

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Uma andança pela UFPB Pedro Alves Os fatos que relatarei agora me deixaram bastante encabulados. Não tinha aula para mim nesse dia na Universidade, mas fui para lá com o intuito de explorá-la e conhecer melhor seus lugares. Comecei, é claro, pelo ambiente em que estudo. Cheguei ao Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA) e o lugar tava muito movimentado. Vi um alvoroço na sala Aruanda e fui lá ver o que acontecia. Ia passar um filme ali e muita gente queria assistir. Uma fila enorme se formou e nela encontrei McLuhan. Acenei e ele me respondeu, o que me deixou feliz pelo fato dele ter se lembrado de mim, já que não foram muitas as vezes em que nos encontramos. Umas três no máximo, nos primeiros períodos do curso que faço. Vi que o filme em cartaz era Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e como já assisti, decidi não ficar. Fui em direção, então, ao Departamento de Letras, onde encontrei Shakespeare e Dickens recitando alguns poemas. Fiquei um tempo vendo e ouvindo aquilo. Uma maravilha. Só saí de lá quando ouvi um barulho no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) e, de curioso, fui saber do que se tratava. O som vinha da Praça da Alegria e percebi que estavam por ali, tocando um rock europeu, Marx e Engels. A plateia estava meio impaciente, porque pediam que tocassem Raul Seixas, mas eles não conheciam muito da sociedade alternativa seixista. Acho que só não houve algum tipo de revolução, porque ideais contrários, de fato, ali não existiam. Fiquei feliz de vê os alemães, mas comecei a ficar inquieto, porque não tinha achado nenhum ilustre paraibano na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Continuei andando pelo centro, pensativo, mas, ainda, esperançoso. Quando avistei um ruma de gente, cheguei junto, na torcida de encontrar um conterrâneo. Mas não foi o que aconteceu, o que não me decepcionou, por hora. Quem estava por lá era Sócrates, dialogando com várias pessoas. Fiquei um tempo ali, ouvindo as profundas palavras que dizia. Quando Sócrates saiu, todos se foram e eu fiquei. Fiquei pensando nesse fato que me entristecia bastante, o de não encontrar nenhum Paraíba.

O mais perto disso, ao longo da andança, aconteceu em seguida, quando fui ao Centro de Educação (CE) e vi numa mesa ao lado do caixa do Banco do Brasil, Piaget conversando com o pernambucano Paulo Freire. Nessa hora de momentânea esperança liguei para o meu mestre Ariano. - Alô, mestre? – Falei. - Diga aí, João - Ele me respondeu. -Ô mestre, quando é que tu aparece aqui na UFPB? - João, eu só fui aí uma vez e não me chamaram mais não. – Ele respondeu. - Não acredito, não. Pois, então tá, nos encontramos mais tarde mestre. – Falei me despedindo. - Claro que sim, quando você quiser garoto – Falou o taperoense. Terminada a conversa fiquei incrédulo. Após um bom tempo sem ação, enxerguei a derradeira possibilidade. Fui correndo ao Departamento de Música. Não era possível não ter um cabra macho paraibano ali. Cheguei e a primeira cena que vi foi o cara da xérox tentando dizer a Beethoven quanto era a cópia das três partituras que ele havia pedido, enquanto Mozart tentava fazer gestos para que o compositor alemão compreendesse a situação comercial. Confesso que fiquei emocionado de vê-los, mas não tardei a adentrar ao recinto na busca de um conterrâneo. É, mas foi tudo em vão. Só havia uma sala aberta e lá estavam Vivaldi e Chopin conversando. Nesse momento, disquei para meu amigo Jackson. - Ô Jackson, me diz aí, quando tu vem para UFPB? – Perguntei curioso. - Isso ai que você falou, é você seu caba safado – Falou o rei do ritmo nervoso. - Calma rei, eu tô falando da universidade da Paraíba, macho – Expliquei. - Nêgo véi, nunca tive por aí por essas terra não – Relatou. - Oxente, danôsse, tá bom então, Jackson, até jajá – Despedi-me. - Inté, João – Falou. Desliguei o celular novamente incrédulo. Decepcionado, resolvi sair da universidade e voltar para casa para encontrar os amigos, como combinado. O nosso universo também é importante.

Humor

Para quê? Larissa Perera Para quê o brilho das estrelas? Se os olhos estão ofuscados pela ilusão. Para quê a inspirar-se na Lua? Se não usas a emoção. Para quê falar de flores? Se muitas delas já não existem mais. Para quê falar do amor? Se ele se foi e não volta mais. Para quê dizer que amas? Se o amor é utopia. Para quê mentir aos outros? Se para ti mesmo fingias. Se os versos não são mais escritos Para quê falar em poesia? Se afinal ninguém mais acredita Nos sonhos, nas paixões, nas fantasias. Mas se tu ressuscitares dessa letargia, descobrirás que o mundo é teu, que o amor existe e que eu sou Julieta e tu és Romeu.

Os heterônimos comem meus miolos Natan Cavalcante Minha vocação para escrita não é semelhante a dos parnasianos que escrevem como um exercício diário, repetitivo, cansativo, em busca de um texto mais perfeito que o anterior. Confesso que, em certos momentos, essa vertente de escritores até me atrai pelo seu empenho, mas depois caio em mim, refletindo com meus botões, encardidos de ouvir estórias compridas, e chego à conclusão que sou mesmo um romântico. Sim, pois ao contrário daqueles que fazem da escrita um mero exercício insípido e pouco atraente de juntar palavras num amontoado de versos rítmicos e metrificados, eu sou, na verdade, como já disse há pouco, um romântico, que espera que as palavras cheguem. Apesar de procurá-las com afinco, sou daqueles que espera a inspiração chegar, ou qualquer outra banalidade que me ponha a escrever. É claro, no entanto, que a fujona da Srtª Inspiração costuma aparecer pouco, pois com o tanto de pretendentes que possui, uma visita é artigo raro. Para compensar esse meu lado romântico pouco produtivo vinha pensando se já não seria o caso de assumir um transtorno de múltiplas personalidades e criar um, quem sabe dois, heterônimos que me substituíssem quando eu não quisesse escrever, por falta de idéias, ou por indisposição rotineira. O que daria a possibilidade de ter em mim

outro escritor, de uma personalidade diferente da minha, que escrevesse com um estilo diferente, e que não fosse movido pela inspiração; quem sabe até mesmo um parnasiano. Pronto! Assunto decidido. Agora só faltava mesmo um nome, pensava eu na aula, e até acho que pensei em voz alta, pois segundos depois o professor chega e me diz que as matérias feitas por mim na 1ª edição do Questão de Ordem tinham vindo com minhas assinaturas erradas. − Malditos heterônimos! – pensei eu. − Pois é, Natan. Seu nome saiu errado – continuou o professor, com seu ar professoral. − Mas, não pode ser professor, eu assinei todos às vezes Natan Cavalcante! Como pode ter saído Natan CavalcantI ou Natan Ulisses? Natan CavalcantI é até aceitável, mas Natan Ulisses? Quem é esse, professor? – exclamei irritado. − E agora não tem mais jeito, o jornal já vai ser rodado – completou o professor Está feito! Pensei naquele momento. Certamente Fernando Pessoa, um mestre na arte de criar heterônimos, deve ter me achado um amador por ter criado os meus heterônimos de maneira tão estúpida, sem ao menos ter a possibilidade de escolher o nome. Mas, certamente ele também deve ter sofrido com os maus hábitos que esses heterônimos tem. Nunca pensei que fosse tão difícil conviver com eles.


Questão de Ordem 3a Edição