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Esta revista faz parte da edição nº 2711 de 9 junho de 2016 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

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gabinete imagem e comunicação

junho 2016

o futuro começa aqui

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O FUTURO COMEÇA AQUI Editorial

Com este número, o 2º em edição impressa em 2015/2016, chegamos ao fim de mais um ano letivo. É, portanto, tempo de balanços e avaliações. As escolares, mas também as outras, que nos fazem olhar para trás: perguntamo-nos, por exemplo, o que fizemos no P&V? O que foi bem feito? O que foi mal feito? Valeu a pena? Por um lado, fica-nos a satisfação de termos cumprido o objetivo de publicar em formato digital edições mensais (disponíveis em http://age-mgpoente.pt/gic/index.php/ponto-virgula) e, em março e junho, os números impressos. É também compensador o facto de termos já ultrapassado o número de 50.000 visitantes da página acima referenciada. Destes, cerca de 20 000 são visitas do ano passado, pelo que teremos que concluir que conseguimos melhor em 2015/26, um acréscimo de cerca de 50%. Igualmente gratificante é o facto de termos verificado um aumento da participação das várias escolas do Agrupamento, nomeadamente da Guilherme Stephens, que, por exemplo, no número de maio, apresentou cerca de 10 peças, quase metade do total. Vemos ainda como ponto positivo a participação das Associações de Pais e Encarregados de Educação, que, em resposta ao nosso convite, nos fizeram chegar vários textos, que publicámos. Também como positivo consideramos o facto de continuarmos a contar com a participação de alunos, como, por exemplo, e entre outros, a Catarina Sousa, o Francisco Fernandes, a Gabriela Dâmaso, o Fábio Casaleiro, que, no meio dos seus afazeres, nunca deixaram de respeitar os compromissos que assumiram connosco. Aqui fica o nosso reconhecimento. Por outro lado, muitos são os aspetos que gostaríamos de melhorar: gostaríamos de conseguir que o P&V cobrisse melhor todas as escolas do Agrupamento, gostaríamos de ter mais alunos a publicar, gostaríamos de ter mais feed-back dos nossos leitores, gostaríamos de não deixar de lado nenhum dos inúmeros acontecimentos e atividades de tantos

estabelecimentos de ensino, gostaríamos de ter mais páginas sobre assuntos que interessam os nossos alunos, desde o desporto à música. Gostaríamos... Mas esperamos lá chegar. Na verdade, se há razão para avaliar o que foi feito, para olhar para trás, é que isso nos faz também olhar para a frente, para o futuro que desejamos e preparamos. É também isso que fazemos no Agrupamento — e foi o que escrevemos na capa, que o futuro começa aqui. Nomeadamente no pré-escolar e no 1º ciclo: por isso, a grande repórter do P&V, Alice Marques, fez uma ronda por todas as escolas e deixa-nos, numa das primeiras páginas, o relato do que viu, com agrado e admiração pelo trabalho que aí é feito. Damos também seguimento à rubrica “Anos depois”, tendo seguido neste número os passos de dois ex-alunos que são agora grandes profissionais: o João Nobre, médico, e a Daniela Silva, veterinária. Também do esforço que o Agrupamento tem feito para conseguir mais sucesso para os alunos que o frequentam, tornando-os mais aptos a construírem um futuro melhor, é dada conta no artigo assinado pela coordenadora do TEIP, Isilda Silva. Ainda como testemunhos deste desígnio de olhar o futuro, publicamos os textos dos alunos Francisco Fernandes, que demonstra desde já a sua preparação para vir a ser um consumidor cultural esclarecido, no seu caso, no campo do cinema; do Fábio Casaleiro, focado na dança e sedento de saber mais, na procura da sua identidade; e da Catarina Sousa, com a sua reflexão sobre a violência contra as mulheres, a que nunca será indiferente. Assinalamos ainda o sucesso da Joana Duarte, do 12 ºE, uma jovem artista já premiada; do 1º ano de ensino do mandarim no Agrupamento; e de iniciativas como a Exposição “Somos ARTE”, o Palco de Talentos, o Sarau Mediateca ComVida, a comemoração do Dia Mundial da Criança, o II Encontro Musical Interescolas do Agrupamento, o MEGA Fitness Solidário. Também a

participação do Agrupamento nas atividades do Desporto Escolar, no Fórum de Formação, no Festival de Teatro Alemão é objeto da nossa atenção. Finalmente, esperamos que os nossos leitores gostem de ler o texto que publicamos nas páginas centrais, com testemunhos de professores sobre as suas vivências de África, texto que surgiu ainda como complemento das comemorações do 25 de abril e da descolonização. É que o futuro precisa sempre de um presente que conheça bem o seu passado...

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Coordenação:

agrupamento de escolas marinha grande poente

Redação: AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Alice Marques, Catarina Sousa, Clara Fernandes, Cármen Santarém, Francisco Fernandes, Gabriela Dâmaso, Margarida Amado, Impressão: Gráfica Diário do Minho

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Tiragem: 2000 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

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A VIAGEM DE JOANA DUARTE P&V

Joana Duarte, aluna do 12º E da Calazans Duarte, estreou-se publicamente como fotógrafa com a exposição A viagem, patente entre 13 e 17 de maio na Galeria Jorge Martins, no Sport Operário Marinhense. São 55 fotografias em papel, mais umas dezenas projetadas, seleccionadas entre mais de 5mil, que esta jovem pacientemente foi fazendo ao longo de 4 meses, em viagens ocasionais ou propositadas. Trechos de lugares próximos e familiares da fotógrafa, como Nazaré, Vieira, Alcobaça, Figueira da Foz, Leiria ou a Estrada Atlântica são mostrados em imagens captadas com sensibilidade e bom gosto. Mas a viagem leva-nos também até à Sevilha monumental e do flamengo, imagens que esta jovem há de guardar para sempre da sua viagem de finalistas e agora fixadas e partilhadas em fotografias. Os rostos, de gente simples, com as marcas da sua história pessoal, são de pessoas com as quais se

cruzou nestas viagens. Joana Duarte começou a interessar-se pela fotografia ainda muito pequena. Gostava particularmente dos negativos: “recortava-os e depois via-os à luz”. Há uns meses, uma fotografia dela foi premiada pelo Correio da Manhã. Esse foi o impulso necessário para arriscar mostrar mais fotografias. Mas não suficiente. Joana encontrou estímulo e apoio no professor José Nobre que foi o seu “braço direito e braço esquerdo” para organizar esta exposição. Teve também o apoio da mãe e da colega Lara, na decisão dos títulos para cada fotografia, quando a as palavras começavam a faltar-lhe. Em breve Joana Duarte entrará num curso superior de Marketing e Publicidade, onde aprenderá também sobre esta arte que, por ora, encara apenas como um hobby. Mais tarde, quem sabe se aquela sensação da “natureza a renascer no meio de ruínas”, um rosto ou um gesto que a impressionem não serão

suficientemente fortes para que opte por se tornar uma fotógrafa profissional?! Está a começar bem. Além do prémio CM, acaba de ganhar uma menção honrosa no XIII CONCURSO NACIONAL ESCOLAR - PINTURA / DESENHO - FOTOGRAFIA – VÍDEO promovido pela Câmara Municipal de Portel.

My Castle has the Nation's Color's

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DA FONTE SANTA À MOITA Afinal não é difícil sentá-los! Alice Marques

É 9 de maio, dia da Europa. Na escola da Várzea, mais de meia centena de meninos do pré-escolar aguardam sentados que a ligação com uma escola espanhola se faça e possam ver e falar com meninos como eles, que vão aparecer no ecrã. Parecem uma onda azul, com os seus bibes muito limpos e agitando bandeiras de Espanha, que eles mesmos fizeram com a ajuda das educadoras Diana Oliveira, Anabela Pessoa e Lurdes Robalo. A presença de mais um elemento na sala não provoca grande agitação. Estão habituados aos flashes desde que nasceram. Estabelecida a ligação, a videoconferência realiza-se. A educadora Diana Oliveira conduz a sessão, falando em espanhol, chamando à frente alguns meninos para trocarem algumas palavras com os meninos de Leon. Dos dois lados, a pergunta recorrente é: como se diz? E

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descobrem afinal que castelhano e português são línguas hermanas! Em quatro dias, a repórter do P&V fez a ronda completa pelos estabelecimentos de ensino do pré-escolar e 1º ciclo do Agrupamento Marinha Grande Poente. Entrou em dezenas de salas, falou com dezenas de professoras, ouviu dezenas de meninos e meninas e até recebeu mimos de alguns. A compostura que observou nas salas de 1º ciclo remeteu-a para o título do livro escrito pela jornalista Dulce Neto, durante o Ministério de Marçal Grilo, Difícil é sentá-los. E concluiu que, se fosse ela a escrever um livro a partir desta ronda, teria de contrapor com o título: Afinal não é difícil sentá-los. Em todas as salas do pré-escolar viu crianças brincando sem algazarra e nas do 1º ciclo encontrou meninos sentados, concentrados, de livros abertos, a realizar sem grande barulho, as

suas fichas de trabalho. Em todas as escolas encontrou professoras e educadoras motivadas, em geral satisfeitas com as condições do espaço onde trabalham, com a relação com o diretor e com os resultados de aprendizagem. A integração no grande Agrupamento é consensual: têm quase tudo a ganhar e pouco a perder. Se sacrificaram alguma autonomia orçamental, que dificulta a aquisição de materiais na hora, o que afinal se deve mais às exigências do ministério da Educação, que obriga a requisitar tudo nas plataformas informáticas, do que à centralização de gestão, ganharam possibilidade de partilha de experiências, conhecimentos e recursos, de acompanhar o percurso escolar dos alunos, de participar em projetos comuns, em suma, sem perderem as suas especificidades, estão de facto a construir uma cultura de Agrupamento.


O envolvimento dos pais, através das suas associações, participando em atividades periódicas e mesmo propondo algumas, colaborando com trabalho e às vezes com donativos na melhoria das condições e materiais pedagógicos para as escolas, foi outra tónica que o P&V pode registar da conversa com as educadoras e professoras. O mesmo se pode dizer da relação com as Juntas de Freguesia, sempre disponíveis para o que está ao seu alcance, embora sobre algumas intervenções de fundo, da responsabilidade da Câmara Municipal, já não haja este consenso. Registamos as carências, em geral, poucas: uns equipamentos lúdicos para o recreio em Casal de Malta, pois são mais de 200 crianças, um espaço coberto para acesso à biblioteca e cantina na Francisco Veríssimo, mais casas de banho e um arranjo do telhado na escola da Várzea, uma pintura nova no pré-escolar da Amieirinha e pouco mais. Outras carências, como reforço do sinal de internet ou computadores mais atualizados, vão sendo supridas com a colaboração dos pais ou mesmo de empresas, como a Libbey/Crisal, que ofereceu dois ao Jardim de Infância da Amieirinha, usados, mas a funcionar muito bem.

De todos os estabelecimentos há crianças a frequentar as AAAf (Atividades de Animação e Apoio à Família) no pré-escolar e as AEC (Atividades Extra Curriculares) no 1º ciclo. Este ano, o projeto do agrupamento inclui a música, a ciência e a atividade física, cujas atividades são promovidas pela empresa Tempos Brilhantes. A ideia da escola a tempo inteiro vai ganhando terreno. Mas há quem veja esta ideia como um excesso de escola. Dolores Mesquita, educadora na Amieirinha há 20 anos, tem bem presente o tempo em que avós e amas substituíam as AEC, na sua opinião com a vantagem do reforço dos laços afetivos entre gerações. Também não esconde que neste nível etário já se verificam alguns ”comportamentos desajustados que poderiam ser estudos de caso a seguir ao longo de todo o percurso escolar”. A especificidade destes estabelecimentos escolares e as ideias das educadoras e professoras tornam cada um merecedor de uma grande reportagem, que a seu tempo faremos. Mas vale a pena referir, de Casal de Malta, É divertido aprender a comer, desenvolvido em colaboração com os pais dos meninos e meninas do pré-escolar, O Jornal de Parede, o Livro do Mês e a História do Mês; a pequena horta da

Fonte Santa ou as turmas + Sucesso (2ºano em Casal de Malta, 4º ano na Guilherme Stephens – ler, nesta edição, a reportagem Pequenos com Grandes Sonhos). São apenas alguns exemplos. Nas turmas de 2º ano, as provas de aferição foram tema incontornável de conversa. Sem surpresas e sem dramatismos, aqui deixou de haver consenso, que aliás já não existia antes da decisão do diretor. Na turma da Fonte Santa, a coordenadora Aida Mira confessou que alguns meninos ficaram muito nervosos quando souberam que iam fazê-la. Na Amieirinha, uma conversa entre duas meninas, a Ana e a Sara, demonstrou que as crianças sabem que não há razões para alarme: “Sim, vamos ter prova de aferição”- diz a Sara torcendo o nariz. Mas a Ana logo esclarece: “E então? É só mais uma ficha, mas com tudo o que aprendemos ”. Na escola da Várzea, a professora Maria do Céu Lopes vai desdramatizando a prova, mas é muito frontal: “claro que lhes vou dizendo que gostava de ter bons resultados”. Rodrigo, um menino atento à conversa, esclarece: “quem estuda vai ter prova de aferição, quem não estuda vai ter prova de aflição”. Mais eloquente é impossível.

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PEQUENOS COM GRANDES SONHOS A turma +Sucesso da Stephens Alice Marques

São 2 meninas e 8 meninos. Integram a turma + Sucesso do 4º ano, a funcionar na escola Guilherme Stephens. Experiência idêntica decorre também com uma turma de 2º ano da escola de Casal de Malta. Traduz-se, formalmente, em reforço pedagógico em Português e Matemática. Para as aulas de Estudo do Meio e Expressões, os meninos dispersam-se pelas turmas de origem. A detecção atempada de dificuldades permite começar um ano letivo com estes grupos, com a concordância dos encarregados de educação. Mais sucesso escolar é o objetivo. Mas os ganhos podem ir muito para além disso. A repórter do P&V cruzou-se por acaso com a Dulce, que, vendo a máquina fotográfica, ficou um tanto preocupada e quis saber se “era para o book”. Mas não era. “Ainda bem”, respondeu ela. É que “não vinha vestida para isso”! Esclarecida a missão, segui a Dulce até à minúscula sala onde ia decorrer uma aula de Matemática com o professor Fernando Emídio. Depois da agitação inicial, e conseguido um espaço onde pudesse apoiar o bloco de notas e ter um ângulo para fotografar todos, criou-se um clima para falar sobre esta experiência e sobre os grandes sonhos destes dez pequeninos. A Dulce gosta muito das aulas nesta turma pequenina. Diz-nos que “num grupo com menos

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pessoas dá mais motivo de concentração de aprender mais”. Quando for grande, ela vai ser designer de moda. Desde que isso seja possível, mesmo dando “alguns erros na escrita”, que é sua dificuldade. A Ana, a menina que se segue, gosta muito desta turma. O problema é mesmo a Matemática. “Ainda se fizessem mais jogos! Mas fazer contas...”disso é que ela não gosta. Todos os rapazes, sem exceção, gostam de estar na turma pequena. O Francisco Vitorino até gostava de ficar sempre em turmas assim. E a Matemática, para ele, é um gosto! O outro Francisco, o Conduto, gosta de tudo: escrever, fazer contas, saber coisas sobre animais. É difícil escolher o que vai ser. Pelo menos, para já. O Martim gosta muito de português, mas não para ser jornalista. Já tem o futuro planeado: “eu quero ser Sniper, (atirador, esclarecem-me os colegas) ir para o exército e para as missões de guerra”. Quem também já sabe muito bem o que quer ser e até já está a trabalhar nisso é o Tiago. Ele vai ser Youtuber e explica-me como é: “eu faço vídeos sobre jogos, ponho no Youtube e quantos mais subscritores tiver, mais dinheiro ganho”. Pergunto-lhe quanto. Garante-me que já está a ganhar 2 cêntimos por cada subscritor e fala-me de um Youtuber que chega a ganhar 5 mil euros por mês. Sinto-me realmente infoexcluída! O Rafael gosta desta turma e também da outra a

que pertence e está decidido a apostar na cozinha. Quer ser cozinheiro. Mas não um cozinheiro qualquer: há-de ter não um, mas “muitos restaurantes, uma cadeia deles, e ser Chef”! Vai “inventar pratos, ter muito sucesso, ganhar muito dinheiro”. O Gonçalo aproveita a onda monetária para dizer que há de “nadar nas poupanças” mas não será como o tio Patinhas, que “é mau”. Quer “ser polícia, para apanhar os ladrões”. Ah! E porque “gosta de fardas”. O Pedro quer ser piloto de rali. Mas também quer ser Chef. E também mecânico, é claro. O mais ambicioso de todos é o Tomás. Tem planos para “ser dançarino, cantor e inventor”. Até já está a aprender Hip Hop. Mas há um problema: tem “pânico de palco”. Fica a pensar na minha sugestão: começar a dançar nas praças. Afinal anda a aprender Hip Hop, que é uma dança de rua! Saio da turma + Sucesso, com a certeza de que estes meninos e meninas têm tudo a ganhar por fazer parte desta experiência, que o sucesso escolar passa por “ uma relação mais personalizada com cada aluno e estar num grupo em que expor as dificuldades e os medos deixa de ser um embaraço”, como nos disse o professor Fernando Emídio.


1300 ATLETAS NOS CAMPEONATOS REGIONAIS DO DESPORTO ESCOLAR P&V Nos dias 6, 7 e 8 de maio, decorreram na Marinha Grande Campeonatos Regionais do Desporto Escolar. Participaram nestes campeonatos 1300 atletas, vencedores das coordenações locais dos distritos de Aveiro, Coimbra, Castelo Branco, Guarda, Leiria e Viseu. O evento incluiu diversas modalidades desportivas individuais, de atletismo, perícia e corridas em patins, e os desportos coletivos basquetebol, voleibol e futsal. A organização foi da Coordenação Local do Desporto Escolar de Leiria, com o apoio da Câmara Municipal da Marinha Grande e dos

Agrupamentos de Escolas do Concelho: Nascente, Poente e Vieira de Leiria. Um evento desportivo com esta dimensão implicou a disponibilidade de dezenas de professores e assistentes operacionais, também na preparação das refeições e dos dormitórios improvisados, já que os atletas ficaram instalados nas escolas da Marinha Grande. Uma tarefa gigantesca que por isso mesmo mereceu um elogio do diretor na reunião do Conselho Pedagógico de 10 de maio. Para além da competição, na sexta feira à noite, os participantes foram recebidos no pavilhão da Escola Guilherme Stephens com Hip Hop e Zumba, em sessão de boas vindas organizada pela turma 11ºC.

A exemplaridade da organização foi, de longe, o aspeto mais relevante deste evento. Do ponto de vista desportivo merece ainda destaque a equipa de voleibol feminina do Agrupamento Poente da cidade anfitriã, que conseguiu um segundo lugar.

AEMGP NO VII FÓRUM DE EMPREGO E FORMAÇÃO O Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente esteve presente no VII Fórum de Emprego e Formação, que decorreu nos dias 10, 11 e 12 de Maio, no Antigo Mercado de Santana, em Leiria. A iniciativa, promovida pelo jornal Região de Leiria, com o apoio institucional do Município, é uma mostra da oferta formativa existente no distrito, para o ensino secundário e superior. No espaço do Agrupamento Marinha Grande Poente, para além da informação da oferta formativa para o ano letivo 2016/17, estiveram expostos alguns trabalhos feitos pelos alunos dos cursos profissionais. Este ano, o destaque foi para os trabalhos dos alunos dos Cursos de Energias Renováveis, Cozinha/Pastelaria, Auxiliar de Saúde e Protésicos Dentários. Muitos alunos da Calazans visitaram este Fórum, graças ao apoio logístico da Câmara Municipal da Marinha Grande, com um autocarro diário, e da disponibilidade de professores que fizeram também o transporte de pequenos grupos.

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MELHORIAS PASSO A PASSO Isilda Silva

A crença numa racionalidade ilimitada, capaz de fazer face às mais variadas exigências sociais, alimentou a ideia de criação dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) nos anos 80 e 90. Foi com base nesta crença que foram desenhadas as primeiras medidas de educação compensatória em Portugal (PIPSE, 1987; Escolas de Intervenção Prioritária, 1988; PEPT, 1991; TEIP, 1996), sustentadas teoricamente pelo Relatório Coleman de 1966 nos EUA e pelas críticas europeias a um modelo de escola reprodutora das desigualdades sociais, que teve em Bordieu e Perrenoud dois dos seus principais interlocutores. São portanto estas as décadas, de acordo com Rui Canário, de emergência da «crise da educação»: crise porque se assistiu à massificação do ensino, mas também porque se perdeu o sentido da ação que tem tardado a adaptar-se à natural heterogeneidade dos seus (novos) públicos. No caso português, esta consciência é um pouco mais tardia, uma vez que só com o 25 de abril se conseguiu concretizar a legítima aspiração ao direito à educação para todos e que ainda hoje só está

parcelarmente cumprido, na medida em que o direito à educação não se faz apenas pelo acesso igualitário à escola, mas também pela construção de caminhos de sucesso para todos os que a frequentam. Para cumprir abril na educação, temos, por isso, que partir do realismo e não do racionalismo, de um ceticismo moderado em vez do idealismo dogmático. Em educação, como na vida, temos que começar por algum lado e, sobretudo, perceber para onde queremos ir. O debate em torno dos caminhos do sucesso para todos está

aí, presente no atual Plano Nacional de Promoção do Sucesso Educativo (PNPSE), bandeira política do atual governo e que está em grande medida sustentado pela recomendação da CNE n.º 2/2015 e pelo grupo de investigação comparada «aqeduto». Somos, na verdade, a par da Holanda, Espanha, Luxemburgo e França, um dos países da OCDE que mais «chumba», conforme podemos verificar no gráfico abaixo:

Mas, ao contrário da Holanda, os alunos portugueses que «chumbam» são sobretudo provenientes das classes sociais mais desfavorecidas (87%), facto que legitima não apenas o debate em tornos dos «chumbos» mas sobretudo a necessidade de uma mudança substantiva de atitude em relação ao ato pedagógico de fazer aprender.

A espantosa realidade dos números interpela-nos por isto mesmo, tornando imperativa a nossa ação. Mas, do meu ponto de vista, vale mais irmos passo a passo, realisticamente. O que a seguir se apresenta são um conjunto de 9 passos que estamos a percorrer desde 2012, ano de adesão do nosso agrupamento ao Programa TEIP:

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ANOS DEPOIS... Alice Marques/Margarida Amado

Estiveram cá alguns anos. Como todos os jovens, aqui tiveram os seus amores e desamores por colegas e professores, acharam algumas aulas “secantes”, viveram o nervosismo dos testes e sobretudo dos exames. Deixaram a escola secundária por volta dos 18 anos e “fizeram-se à vida”. Onde estão hoje esses/essas jovens? O Ponto & Vírgula publica nesta edição mais duas entrevistas a antigos alunos da Calazans Duarte: João Nobre, médico no hospital de Leiria, e Olga Silva, veterinária na Marinha Grande

Olga Silva Veterinária e proprietária da clínica MGPatas P&V: Em que ano frequentou a escola Calazans Duarte? Olga Silva: Fiz o secundário na Calazans Duarte, nos anos de 1992/93 a 1994/95. P&V: Como escolheu a área de estudos? Fez testes de orientação vocacional? OS: Não fiz quaisquer testes. Na altura escolhia a área A, creio que se chamava então científiconaturais. Eu queria ser veterinária. Aliás desde os meus 6-7 anos que me lembro de querer ser. Eu dizia ao meu avô que ia ser veterinária, o que ele achava muito mal. Dizia que era um trabalho para homens. P&V: E era mesmo, nesse tempo? OS: Era uma profissão de homens, sim, para tratar cavalos e vacas. Como eram animais grandes, algumas intervenções exigiam alguma

força, por isso o meu avô dizia: “isso é trabalho para homens”. P&V: Mas quando escolheu estudar veterinária, uma década depois, já não era só uma profissão de homens? OS: Quando fui para o curso já não. E atualmente há mais mulheres veterinárias do que homens. O curso incluía também medicina veterinária de animais de pequeno porte. E continua a ser assim, faz-se veterinária geral e depois podemos especializar-nos. Não há muito tempo começou a haver até outras espacialidades como cardiologia, neurologia, dermatologia… P&V: A Dra Olga trabalha com alguns animais em particular? OS: A minha área são os animais de companhia, não exóticos. Há quem se especialize só em animais exóticos. P&V: As notas com que terminou o 12º

permitiram-lhe entrar na primeira opção, ou foi para medicina veterinária porque não teve notas para medicina humana? OS: Fui para a minha primeira opção: medicina veterinária na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, na altura considerada a melhor do país. Fiz a licenciatura nos 6 anos, sendo o último de estágio. P&V: Adaptou-se bem à cidade e à universidade? OS: Muito bem. Vila Real é uma cidade pequena, pouco maior do que a Marinha Grande. Vivia muito na cidade, até porque, na altura, sem autoestradas, chegar a Vila Real eram 6 horas de viagem, não dava para vir frequentemente a casa. Na universidade só foi preciso muito trabalho. Não senti quaisquer falhas na minha formação do secundário, mas o trabalho não tem comparação. É um curso muito, muito trabalhoso. Por isso havia uma grande taxa de

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desistência. Só para ter uma ideia: no meu ano entraram 175 alunos e no ano em que saí só terminaram 30, e alguns já tinham entrado em anos anteriores. E tive colegas que andaram mais de 10 anos para terminar o curso. P&V: Quando terminou o curso foi fácil arranjar emprego? OS: Sim, foi imediato. Depois do ano de estágio, que fiz num hospital veterinário em Vila Real, fui trabalhar para Aveiro, 10 meses. Depois fui para Alcobaça, onde trabalhei 4 anos. Desde que fui para Aveiro, comecei a vir à Marinha Grande fazer domicílios. E quando estava em Alcobaça, fazia mais, porque vinha ficar a casa diariamente. P&V: Quando abriu a clínica MGPatas? OS: Abri a clínica em janeiro de 2011 e logo no primeiro ano comecei a contratar colegas para trabalhar comigo. Às vezes são colegas de longe e não ficam muito tempo, porque ainda não há desemprego em medicina veterinária, e por isso os recém-formados rapidamente arranjam trabalho mais próximo das suas terras. P&V: Mas a Dra Olga continua a estudar. Está a fazer alguma especialização veterinária? OS: Não, estou a fazer medicina humana. Por razões de saúde, preciso de substituir parte do trabalho veterinário que exige mais esforço físico por um trabalho que não tenha essa exigência. P&V: Tem a perceção de que as pessoas dedicam cada vez mais atenção aos animais domésticos? OS: Em geral sim, mas há que fazer algumas distinções. Nas aldeias, as pessoas têm, por exemplo, cães de guarda ou de caça, ou gatos para caçar ratos e não se pode dizer que os cuidem com afeto. Nas cidades é diferente, as pessoas têm animais de companhia e em geral tratam-nos com o afeto com que tratam as pessoas de família. Mas sem dúvida pode dizer-se que há uma grande evolução positiva na forma como as pessoas cuidam dos animais. P&V: Como comenta a lei recentemente aprovada no Parlamento (proposta do PAN) que permite deduzir as despesas de saúde animal no IRS? OS: Acho muito bem, há muito que se esperava uma lei destas e felizmente há um partido como PAN que teve como ponto de honra levar a proposta ao parlamento. P&V: O que lhe dá mais satisfação no seu trabalho? OS: Gosto de todo o trabalho que faço, quer na

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clínica quer os domicílios. Sejam cães ou gatos, é indiferente. Gosto que fiquem bem, de os ver felizes. E gosto sobretudo de saber que em casa os animais continuam a ser bem tratados. P&V: Tem alguma reserva à eutanásia dos animais? OS: Tenho. Quando se quer acabar com a vida do animal só porque sim. E isso não faço. Esgoto sempre as possibilidades de os deixar bem e se não tenho condições aqui para algumas intervenções, encaminho para colegas que têm. Mas quando os animais estão em sofrimento e já não podemos fazer nada por eles, penso que dar-lhes uma morte tranquila, sem dor, é uma solução de grande humanidade. P&V: É difícil comunicar aos donos essa decisão? OS: A decisão da eutanásia é sempre de três: dos donos, minha e do animal. Ele não pede mas percebemos que já não tem hipótese de recuperar. Portanto o mais importante é avaliar as hipóteses e sermos verdadeiros. P&V: Ganha-se atualmente mais como veterinário ou como médico? OS: Como médico não sei, mas sei que a clínica veterinária não é algo muito rentável, porque há muitos gastos associados. Além disso, não podemos praticar preços muito altos, sob pena de os donos não trazerem os animais. P&V: Talvez a situação mude com a nova lei… OS: Esperemos que sim, afinal é esse o objetivo: considerar as despesas com a saúde dos animais para o IRS.

P&V: Disse-me que está fazer o curso de medicina. Vai substituir a medicina veterinária pela humana quando terminar o curso? OS: Não conto com isso. Vou continuar a tratar os bichinhos. P&V: Que memórias guarda da Calazans Duarte? OS: É uma boa escola. Tem bons professores e bons funcionários. Eu gostei muito de ser aluna na Calazans Duarte.


João Nobre 28 anos, médico no Hospital de Leiria, 4º ano de Internato em Cirurgia

P&V: Em que anos frequentou a escola Calazans Duarte? João Nobre: Fiz o secundário na Calazans, entre 2002/3 e 2004/5. P&V: Como escolheu a área de estudos? A escola proporcionou-lhe orientação vocacional? JN: Desde miúdo que queria ser médico. Claro que isso tem a ver com a profissão dos meus pais, que são ambos médicos. Mas sim, no 12º ano, creio que fiz testes de orientação vocacional e os resultados bateram certo. P&V: E se os resultados tivessem dado outra orientação…? JN: Teria escolhido a medicina, fossem quais fossem os resultados. P&V: A média com que acabou o secundário, naturalmente permitiu-lhe entrar na primeira opção… JN: Sim, a minha média de candidatura foi de 18,58, num ano em que a média mínima foi de 18,1. Entrei na Faculdade de Medicina na Universidade de Coimbra. P&V: As médias para entrar em medicina são as mais altas. Concorda com este critério único para entrar num curso de medicina? JN: Não concordo com este critério restrito. Acho que devia haver uma entrevista, que definisse também o perfil do candidato. Mas não podemos esquecer que o curso de medicina também dá acesso a outras vertentes, por

exemplo a investigação médica. As notas muito altas que são exigidas dão origem a alguns equívocos. Tenho a noção de que há jovens que vão para medicina só porque têm notas muito altas e não as querem desperdiçar. Lembro-me de colegas que foram “enganados” para medicina só por terem notas altas. P&V: Adaptou-se bem ao ensino superior e à cidade de Coimbra? JN: Sim, foi fácil. Coimbra é uma cidade fantástica, tudo é próximo, pode-se ir a pé a todo o lado, a população é muito jovem, pois grande parte são os estudantes. Quase nos esquecemos que também vivem lá outras pessoas. Em Lisboa ou no Porto, sendo cidades muito maiores, seguramente tem-se uma vida mais solitária. Quanto à preparação académica para fazer o curso, acho que não há entraves intelectuais. Não é um curso difícil, mas exige uma enorme capacidade de trabalho. Tenho ideia de que qualquer curso de engenharia é muito mais difícil. Por exemplo, quem não souber matemática terá muita dificuldade nas engenharias. Em medicina nada é impossível de aprender por falta de uma boa preparação no secundário. Claro que há a biomatemática, a biofísica, a bioestatística, que exigem alguma preparação de base, mas podem-se fazer com notas menos boas… P&V: O curso é de 6 anos, mas depois são outros tantos para uma especialidade. Como é que se acede à especialidade? JN: Sim, são 6 anos e outros tantos para nos

tornarmos especialistas. Eu terminei o curso em julho de 2011, mas no último ano já estava a preparar-me para o exame de acesso à especialidade, que fiz em Novembro desse ano. É um exame penoso. São 100 perguntas sobre 5 áreas médicas diferentes. O que assusta mais são os livros, mais de mil páginas difíceis de engolir. Para ter uma ideia: na primeira leitura eu demorava entre 30 a 45 minutos por página. É um exame de seriação, com pouquíssimo interesse para a prática clínica. Quem não consegue entrar na especialidade pretendida, repete o exame no ano seguinte, se tiver coragem, ou acaba por entrar numa especialidade que não lhe interessa. P&V: Ficou bem colocado nesse exame? JN: Sim, o suficiente para entrar na primeira vaga que escolhi. Foi um enorme alívio fazer esse exame. De tal forma que no dia seguinte, andava pela cidade e sentia-me… estranho. Faltava-me o malote com aqueles quilos de livros. P&V: Depois de terminar os 6 anos, começou imediatamente a trabalhar como médico? JN: Como disse, fiz o exame de acesso à especialidade e a nota ficou congelada até terminar o chamado ano comum, que fiz no Hospital dos Covões, no ano 2012. Em janeiro de 2013 entrei na especialidade pretendida, Cirurgia Geral, no Hospital de Leiria, P&V: Neste período em que se prepara para ser um cirurgião, o que faz é prática cirúrgica, certo? Que tipo de cirurgias faz?

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JN: Há uma hierarquia, vários patamares dos tipos de cirurgia que vamos fazendo. Começa-se por pequenas cirurgias com anestesia local, como tirar quistos, sinais; depois passa-se ao apêndice, hérnias, varizes; num patamar mais alto, fazemos cirurgia à vesícula, depois tiróide, estômago e intestinos, sempre com a supervisão de um especialista. P&V: O que determina esses patamares? JN: Essencialmente a dificuldade e os riscos da cirurgia. P&V: São intervenções cirúrgicas muito diversas… JN: Sim. E acho isso muito positivo. O hospital de Leiria, sendo um hospital periférico, proporciona aos internos uma maior abrangência de intervenções cirúrgicas e acho isso muito bom. Não acho que no internato se devam formar especialistas dentro da especialidade. P&V: Mas o João pensa tornar-se um especialista dentro da cirurgia? JN: Sim, tenho ideia de vir a especializar-me em cirurgia colorrectal. P&V: Algumas das cirurgias que faz são por laparoscopia? JN: Todas as possíveis. Há uma política cirúrgica laparoscópica. P&V: Trabalha também com médicos estrangeiros. Acho-os bem preparados? JN: Sim, trabalho com alguns médicos estrangeiros e alguns são maus. Mas claro que também há alguns bons. P&V: Qual é a sua opinião sobre esta situação de termos cada vez mais médicos portugueses a emigrar e o país ter de recorrer a médicos estrangeiros? JN: É que, ao contrário do que muita gente pensa, os médicos são mal pagos. Se fossem bem pagos, preencheriam as lacunas e não haveria recurso a médicos tarefeiros, estrangeiros. P&V: O sistema de saúde português já foi um dos melhores do mundo, mas agora ouvimos frequentemente queixas sobre o mau funcionamento dos serviços. Há razões para isso? JN: Há vários aspectos a considerar. De facto, as listas de espera engrossam, mas há que ter em conta que a população muitas vezes não faz um uso racional dos serviços. Há um excesso de recurso às urgências. O médico de família, para a maioria dos casos devia ser o primeiro a ser consultado, mas também é certo que muitos cidadãos não têm médico de família e por isso recorrem às urgências. De 100 doentes diários que vemos, fazemos duas ou três cirurgias. Isso

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dá uma ideia clara do recurso inadequado às urgências. Mas não podemos deixar de ver quem procura a urgência. E há muita responsabilidade em ver um doente e dizer-lhe “isso não é nada, pode ir para casa”. P&V: Um cirurgião enfrenta por vezes situações complicadas. Como é que os médicos se preparam para as enfrentar? JN: Aprendemos, com a experiência, que as coisas nem sempre correm bem. Dificuldade em cicatrizar, hérnias que voltam, junções de intestino que abrem podem acontecer e ter origens muito diversas, mas para a opinião pública, a culpa é sempre dos médicos. Os médicos são o grupo profissional mais escrutinado permanentemente. P&V: Já lhe aconteceu morrer um doente durante a cirurgia. Como lida com isso? JN: Sim, já tive um caso. Mas os médicos são treinados para lidar com a morte, criam defesas. Se não o fizessem, não podiam ser médicos. O mais difícil é comunicar aos familiares. O curso não nos treina para estas conversas. Aprendemos, com a experiência, que não somos Deus e que as pessoas morrem. P&V: Está na ordem do dia a discussão sobre a eutanásia. Qual é a sua posição sobre isso? JN: Deontologicamente é muito difícil defender a eutanásia. Mas posso dizer que não concordo com a distanásia – isto é, o prolongamento duma vida artificialmente, de alguém a quem a medicina já não pode oferecer mais nada para recuperar e que vai acabar entubado. P&V: Os médicos ainda fazem o juramento de Hipócrates? JN: Sim, fazemos. É uma cerimónia formal, no final do curso, em que lemos em coro o Juramento de Hipócrates. P&V: Há algum professor da Calazans em especial que recorde como alguém que contribuiu para se tornar a pessoa que é hoje?

JN: É curioso que me recorde em especial da professora de matemática, Silvéria Sabugueiro. Eu gostei tanto de matemática com esta professora que cheguei a ponderar seguir um curso de matemática. E lembro-me de ter esta conversa com ela e de ela me dizer. “João, tu estás talhado para a Medicina”. P&V: Ouvindo-o, percebe-se que a sua opção pela medicina era inevitável. O que gostaria de deixar como mensagem para os estudantes do secundário que aspiram seguir medicina? JN: Em primeiro lugar, que tenham a certeza de que é isso que querem. Que adquiram sobretudo métodos de estudo, porque o curso é muito, muito trabalhoso. Que não tenham a ilusão que vão enriquecer. E sobretudo que não pensem que por escolherem medicina são melhores do que os outros.


MEMÓRIAS DE ÁFRICA Alice Marques

Viveram parte da sua infância e juventude em África, onde nasceram ou para onde foram levados de tenra idade. Das cidades onde moraram, guardam memórias sensoriais, do perfume intenso da terra quente molhada, do som assustador das trovoadas, imagens do planalto sem fim ou do mar a perder de vista. Mas são únicas outras memórias que conseguem descrever, filtradas, é certo, pelas dezenas de anos que os afastam dessas vivências, e fazem deles pessoas singulares. São 3 professores (Rui Rei, José Nobre e Ernesto Ferreira) e uma professora (Ana Paula Santos) da escola Calazans Duarte, que livremente falaram para a reportagem que o P&V integra nas comemorações dos 42 anos do 25 de Abril e da descolonização, um dos objetivos concretizados pelo MFA. Sem pretensão de rigor histórico, pois é de memórias que se trata. Fragmentadas, difusas, a maioria, nítidas algumas. As memórias possíveis, quatro décadas depois do adeus.

“A nossa terra é onde somos felizes”

Rui Rei nasceu em Bustos (distrito de Aveiro). Menino e moço, sua mãe o levou para Luanda, viver para casa duns tios, que o amaram, protegeram e lhe proporcionaram alguns anos de uma vida a que só as elites, brancas ou negras, tinham acesso. Rui lembra-se ainda das sensações à chegada a Luanda, cidade enorme, com avenidas largas: “sentia-me tão pequenino”! As idas à praia aos fins de semana, os carros do tio e o colégio Cristo Rei, dos Maristas, preenchem boa parte das suas memórias dos anos que viveu em Luanda. Instalado no Bairro Vila Clotilde, com vizinhança “de todas as cores e credos”, o Rui menino fez-se homem nos Maristas. Aí aprendeu o rigor, a autonomia, a responsabilidade e a tolerância, valores que preza e procura incutir aos seus alunos. Fala com incontida admiração dos 11 campos de jogos deste colégio, no qual se concretizava uma educação baseada no princípio

clássico “mente sã em corpo são”. A multiculturalidade é um conceito que aprendeu vivendo-o em África. Os seus colegas e amigos, feitos no colégio, eram brancos e negros, filhos das elites financeiras e administrativas da colónia, e os professores também eram oriundos de geografias diversas: da Itália, China, França…A evocação das equipas desportivas que integrou, as festas com as miúdas do liceu feminino, ali mesmo ao lado do colégio, a praia, o trabalho das férias nas empresas do tio, a montar estruturas metálicas, provocam-lhe um brilhozinho nos olhos. Tudo isto foi vivido em plena guerra colonial, mas dela não tem qualquer má memória pois era lá longe, no Norte e Leste de Angola. Lembra-se vagamente de ver passar colunas militares, do envolvimento do tio nas “conversações para uma solução para Angola”, da fazenda ocupada por uma base militar. Com 14-15 anos estava longe de pensar que a guerra era a agonia do império. Regressou a Portugal antes do 25 de abril, onde veio, com a

mãe para “construir uma casa em Bustos”, mas problemas de saúde desta impediram a viagem de volta. Se a chegada a Luanda, aos 10 anos, fora o encantamento, o regresso à sua terra, aos 16, foi o total desencanto. Encontrou pouco desenvolvimento, mentalidades fechadas, uma terra de horizontes estreitos. Mas rapidamente se adaptou. Ingressou no colégio de Oliveira do Bairro, e foi aí que soube do 25 de abril, explicado em reunião num dia normal de aulas. Terminou o 7ª ano, entrou na Universidade, a revolução continuou e a vida do Rui também. Mas Luanda, guardada na memória, aparecia-lhe em sonhos. Foi assim, durante duas décadas: “sonhava voltar a Angola”. E voltou. Sozinho, em 1996, fazer o que chamou “a viagem do desmame”. Memória dum tempo mais próximo, mais filtrada pelo conhecimento, pela racionalidade e pelo sentido crítico, é desta Angola que nos fala o professor Rui Rei: “uma desilusão pura e dura. ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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Depois da independência, Angola desenvolveu uma economia de guerra e os angolanos, o espírito de sobrevivência, que ainda existe. Angola ainda não deu o salto para uma economia de paz. Não basta construir hotéis na baía de Luanda e apartamentos para as elites. É preciso investir na educação, nos cuidados de saúde para todos e ter um plano de distribuição da terra, para que Angola se torne um país viável e deixe de ser um país rico, onde há sobretudo pobres”. Este regresso ao “passado”, necessidade

absoluta, mas sem nostalgia, foi também o confronto com as suas memórias. Consultou os manuais escolares angolanos e constatou que falavam dum “colonialismo de que não tinha memória”, mas admite que a hegemonia branca e os preconceitos raciais foram parte dessa história. Mas o Rui menino não a viveu. Depois da viagem do descontentamento, deixou de sonhar com Angola: “encontrei a minha Angola, do calor e do perfume da terra molhada, noutras partes do mundo, no Brasil, por

exemplo. Já não estou amarrado a essas memórias”. Memórias que têm a ver com felicidade, o sentir-se bem num espaço. Luanda, diz-nos , “será sempre uma terra da memória de felicidade. E também uma terra de onde trouxe uma riqueza incomparável: um olhar sobre o mundo, a partir da imensidão do planalto, e a consciência da insignificância da cada ser humano”.

“Tenho memórias de rostos assustados”

Zé Nobre, como o conhecemos, nasceu em Lubango, no planalto de Huila, a sul de Luanda, quando a cidade se chamava Sá da Bandeira. A mãe fora para Angola, viver com uma tia, quando era menina de 9 anos. Ambrizete, hoje Nizeto, a norte de Angola, foi a cidade da sua infância e juventude. Seu pai, cabo-verdiano, foi trabalhar para Ambrizete. E com as coincidências que a história faz e desfaz, aí se conheceram e se amaram. Funcionário da casa civil, percorreu Angola como um nómada moderno. Um dia fixaram-se em Sá da Bandeira/Lubango, e aí nasceu o Zé, irmão do meio de duas irmãs. Seis anos é muito tempo para criança, mas muito longínquo para memórias nítidas. Ainda assim, o Zé lembra-se de ser criado com amas, de ter empregados, da casa e dos carros, de ter aquilo a que hoje chama “todas as mordomias”. Mais nítida é a memória do “embondeiro frondoso atrás da casa e da mangueira a que trepava para apanhar mangas, das brincadeiras na rua, com as

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manas e com os miúdos filhos do pessoal que trabalhava para o estado, brancos e negros”. E do pai a chegar a casa sempre com um cacho de bananas, ao ponto de já nem as poder ver. Do barulho dos tiros, das bombas, da guerra que já não era a do ultramar, mas a civil que se prolongaria por muitos anos. Mas o Zé não sabia, não podia saber. Falho de olfato, não tem memória do perfume da terra, de que a mãe recorrentemente lhe fala. Mas leva vantagem em memórias visuais, sobretudo daqueles rostos “assustados”, “de olhares vazios, de incerteza” diz ele hoje, quando recorda o “escuro de navio, que fazia eco”, um cargueiro que o levou de Moçâmedes, (atual Namibe) até Luanda, uma viagem de três dias e três noites, em Outubro de 1975. Rostos que recorda também doutros lugares onde esteve, em trânsito, até à viagem num avião russo, que havia de o trazer para Lisboa, porque “eles estavam por toda a parte”. Ainda hoje “seria capaz de representar esse olhar”, diz-nos com convicção. Recorre à memória da mãe, para

quem “Angola continua a ser o seu país”, para reconstituir as suas memórias difusas, que confundem geografias e datas: “ Em Luanda tentamos ficar num hotel, tínhamos dinheiro mas não tínhamos onde o gastar. Alguém nos arranjou um quarto onde ficamos cerca de 8 dias. Por fim fomos para um campo de concentração, pensando que seria mais fácil o embarque, o campo ficava na periferia da cidade e onde não havia nada. Estivemos lá cerca de 8 dias, depois conseguimos embarcar num avião russo, 377, até Lisboa”. Chegar à Chamusca, vila ribatejana da sua mãe, onde viviam familiares que os acolheram, foi o grande choque para os pais. Recebeu-os a avó, de quem recorda as palavras ditas à mãe: “Olha! Afinal o teu marido não é tão preto como eu pensava”. São ainda memórias que o ligam a Angola o pai a deslocar-se ao porto de Lisboa todas as semanas, ver se tinham chegado os seus pertences. Um dia, chegou o frigorífico. Mas foi grande a deceção quando, ao abri-lo, deu com as bonecas das suas irmãs, e os seus carrinhos…


não vinham. Chorou baba e ranho, e o pai, para o compensar, fez-lhe “um carrinho de uma lata de atum”. Quase um ano depois, já em 1976, o pai chegaria à Chamusca no “Datsun 1200 azul claro” e aí sim, foi uma alegria imensa. A viverem numa casa sem eletricidade, o Datsun passou a ser também a fonte de energia. O pai encostava-o à janela da sala, ligava os cabos da TV à bateria e assim assistiam à magia da primeira telenovela na televisão portuguesa, Gabriela, Cravo e Canela. Depois o serão continuava, a descascar ervilhas, outra memória que retém desta nova vida na Chamusca. Recomeçar com quase nada, para quem estava habituado a viver com mordomias e com liberdade, parece só ter sido difícil para a mãe.

No primeiro dia de escola, o Zé foi de calções e meias pelo joelho e sentiu-se apenas “estranho”, porque mais ninguém se vestia assim. No primeiro Natal passado em Portugal, recebeu de prenda um pacote de sugus de menta, que ainda hoje são um dos sabores da sua preferência. A galinha coxa, Frederica, que fazia diariamente o caminho da escola com ele e regressava sozinha a casa como se tivesse cumprido a sua tarefa, ou o cão de nome Escadeirado, são memórias que o fazem sorrir. Para a mãe, hoje com 71 anos, Angola será sempre a terra da liberdade, onde tinha vida social, impossível de fazer na vila ribatejana. Mas era ao pai, “visto como português de terceira” que chamavam retornado, quando afinal fora a mãe a única a

“retornar”. Acontecera o 25 de Abril que os trouxera para Portugal, mas o acontecimento histórico só haveria de aprendê-lo na escola. O país que se tornou seu mudou e a vila ribatejana acompanhou, aos poucos, a abertura aos novos tempos. A mãe arranjou trabalho no registo civil, o pai numa escola, e hoje, com 76 anos, é um homem muito respeitado na vila, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia, função a que chegou por mérito. A mãe quer recordar Angola onde foi livre e feliz, o pai voltou a Cabo Verde, mas regressou, e o Zé sente que “pertence ao sítio onde mora em cada momento”. Agora pertence à Marinha Grande e à escola Calazans Duarte.

“Nas margens do Limpopo, fui feliz”

Ana Paula Santos nasceu em Peniche, mas os três anos já os fez em João Belo, também Xai Xai, cidade na costa de Moçambique. A praia Sepúlveda, a 7 kms da cidade, é um dos pontos turísticos de maior procura nesta antiga colónia portuguesa. E é também uma das primeiras memórias que esta professora evoca. Seu pai, que fora para Moçambique um ano antes, tinha uma padaria e distribuía pão nas aldeias vizinhas, no mato, e era um das poucas pessoas que tinha uma carrinha, “uma daquelas pão de forma” que aos fins de semana servia também

para transportar amigos e conhecidos para a praia. Ana Paula tem muito boa memória desse tempo. Mas as suas memórias são filtradas por um sentido crítico, presente na avaliação que faz:“Moçambique não era o El Dorado, um espaço onde se achava riqueza; o meu pai trabalhou muito e vivemos algum tempo com privações; emigrar para África também foi um degredo”. Em João Belo faltavam infraestruturas essenciais: “as estradas eram de terra batida, não havia água canalizada e o meu pai adaptou as rodas de uma bicicleta aos trilhos do caminho de ferro para se deslocar mais rapidamente para

ir buscar água”. Subitamente evoca uma memória auditiva: “lembro-me do barulho do gerador, pois era assim que tínhamos luz elétrica”. Depois veio o tempo de ir para a escola. Ana Paula foi para a escola pública de João Belo, com 7 anos. Era uma escola mista, num edifício colonial, à maneira das escolas da metrópole na época, como veio a verificar quando regressou, 13 anos depois. Aí fez os seus primeiros amigos, brancos, pretos, indianos, filhos de funcionários públicos, de comerciantes e de agricultores. Terminada a quarta classe, fez o exame de ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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admissão a um colégio privado, de Nossa Senhora do Rosário, onde concluiu o equivalente ao 2º ano do ciclo. Aí aprendeu a tolerância, a ver os outros como iguais. Algumas professoras eram freiras, outras, jovens licenciadas que tinham ido da metrópole. Recorda-se ainda de alguns nomes: da professora Guiomar, que ensinava Física e Química (“ou seria Matemática?!”) da Judite, professora de Inglês. E sobretudo do muito desporto que praticou e das muitas atividades extracurriculares culturais: o teatro, a dança, a patinagem, as visitas de estudo. Entrou depois numa escola pública onde terminou o 5º ano (equivalente ao 9º), já depois do 25 de abril. Na flor da juventude, vibrava com as canções dos Beatles e outros músicos da moda, que chegavam a João Belo através dum emissor da África do Sul, país que visitou algumas vezes e onde viu, com os seus olhos, que “lá não era como em Moçambique, havia autocarros para brancos e autocarros para negros” mas não percebia porquê. Bebia cocacola e usava minissaia e estava longe de saber que estas e outras coisas eram interditas na metrópole. A sua memória evoca a liberdade. Lá longe, havia a guerra. Soube dela quando uns primos e colegas um pouco mais velhos foram para a guerra. Viu-os partir para norte, brancos e pretos, e dizia-se que “iam para a guerra”. Mas entender a guerra era outra coisa. “Éramos muito pouco politizados” – diz. Conheceu muito bem Lourenço Marques (hoje Maputo, a capital), uns 200 kms a sul, que recorda como “uma bela cidade, grande, ampla, com largas avenidas e muito mar”. É a partir da capital que recorda algumas das cenas mais fortes vividas em Moçambique. Corria o ano de 1974. No dia 7 de Setembro, ao sair de Lourenço

Marques, a sua família foi barrada por um grupo armado com metralhadoras. “Falavam inglês, tinham vindo do norte e cercaram a capital”. Eram tropas da Frelimo, soube Ana Paula depois. Mas conseguiram passar a barreira e seguiram para João Belo, porque, explica “nessa altura ainda havia muitos negros que pediam para deixarem passar os brancos”. A partir desse dia, “deixamos de dormir em casa, juntávamo-nos em prédios. Lembro-me de ouvir as metralhadoras ao longe e ter medo”. Estava matriculada no 6º ano (equivalente ao 10º) no Liceu Salazar, em Lourenço Marques, mas não chegou a ir à escola. Um dia, todos foram convocados para um comício, por tropas da Frelimo que percorreram a cidade de carro e falavam com um megafone. O seu pai foi informado de que “a padaria, que ficava por baixo da casa, ia passar a ser o quartel da Frelimo”. Prudente, o pai decidiu mandar as suas quatro meninas (a mãe e as três filhas) passar uns tempos a Portugal. Trouxeram apenas a bagagem para umas férias, mas uma lei entretanto publicada já não as deixou regressar. Ana Paula aceitou esta mudança, mas não foi fácil adaptar-se à vida na Marinha Grande. Era novembro, sentiu o choque do frio, da falta do sol, do céu escuro. E do que recorda hoje como a imagem visual mais forte dos primeiros dias na cidade do vidro: “passei junto ao portão da Ivima e vi centenas de homens e mulheres vestidos de escuro. Pensei que era outra revolução”. Foi para o liceu de Leiria, porque na Marinha Grande não havia o 6º ano. Entrou só no 2º período e um acaso empurrou-a para uma turma de letras. Em Moçambique, tinha-se matriculado

em ciências, mas como não tinha documentos para provar as suas habilitações, aceitaram-na, provisoriamente. “Havia um corredor cheio de jovens que não cabiam nas salas; eu não queria ficar no corredor, então fui para uma sala onde havia menos alunos, arranjei um lugar e fiquei. Era uma turma de letras. Mas isso também não tinha importância, porque era provisório, eu iria voltar para Moçambique”. Mas não voltaria. Esta certeza teve-a Ana Paula uns meses depois, em abril de 1975, quando o pai regressou, doente. Foi aceitando, com realismo, que não voltaria a sentir as águas cálidas da praia Sepúlveda, não voltaria a abrir a janela do quarto e ver os hipopótamos deitados na areia nas margem do grande rio Limpopo, não voltaria a sentir o cheiro a manga e caju, a ver a terra avermelhada, o sol alaranjado espreguiçando-se na paisagem, que o seu pai não voltaria a ser o dono das padarias de João Belo, mas viveria na Marinha Grande com a dignidade com que sempre vivera em África, sem recorrer a subsídios, esperando, paciente, que Moçambique se tornasse um país de oportunidades de negócio. Era o fim do império, como hoje compreende: “a descolonização era inevitável, mas foi feita de forma precipitada, sem acautelar a presença dos brancos lá. Mas foi assim que se fez a história”. Percebeu então a força profética das palavras que lhe disseram os seus mainatos, um negro e uma negra, quando ela, a mãe e as irmãs entraram na carrinha que as levaria a Lourenço Marques para a viagem de regresso: “Adeus senhora, adeus meninas, não nos voltamos a ver”.

“A minha família é as nações unidas” Outrora parte do Império de Monomotapa, situado numa rota de migrações, Moçambique sempre atraiu diversos povos. Esta referência é o ponto de partida para as histórias que Ernesto Ferreira, professor de Educação Física, contou à repórter do P&V. Ele mesmo é produto dessa mestiçagem construída ao longo dos séculos. Uma avó materna zavala, uma avó paterna zulu, um avô materno alemão e um avô paterno persa estão na sua árvore genealógica. Ele é o último dos sete filhos de seu pai e conta, no seu parentesco, com primos e tios espalhados pelo mundo, resultado da contínua diáspora que tem sido a história humana. “Quando a família se reúne, é um quadro das Nações Unidas”, diz-nos com pertinência e humor.

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Beira é a segunda maior cidade moçambicana. Uma cidade “com uma geografia difícil, parte dela em região pantanosa”, banhada pelo imenso Oceano Índico. Ernesto nasceu aí, há 61 anos, ainda a cidade não era a grande metrópole em que se transformou, mas sim “uma cidade com desorganização urbanística, estradas com muitas curvas”. Assim a recorda. Com o pai a trabalhar nos caminhos de ferro da Beira, Ernesto cresceu no Bairro Ferroviário, um bairro de brancos, onde a sua família era a única negra. Depois dos anos na escola primária António Enes, foi para o liceu Pedro Anaia ,“Liceu Papaia” como lhes chamavam os alunos “por não perceberem a sentido daquele nome”. Também aí “os negros se contavam pelos dedos”. Portugueses, chineses, indianos (principalmente de Goa) e paquistaneses coexistiam pacificamente, sem racismo e sem discriminação, pois estes preconceitos não são genéticos, mas culturais. “Com 15-16 anos, não havia consciência de diferenças”, diz-nos. “Havia um prédio no bairro, onde as raças eram tantas, que era conhecido por “as Nações Unidas”. Já na organização do liceu e no acesso aos empregos a discriminação existia, claramente a favor dos brancos idos da metrópole. Os seus irmãos mais velhos “sentiram-na na pele”. José Afonso foi seu professor de geografia, muitos anos antes de ser o Zeca, cantor da Grândola Vila Morena. Também por lá andava o aluno Mia Couto, um branco que, como “muitos outros, portugueses, chineses… tinha um coração negro”. Isto era “no tempo de Woodstock e essa foi a minha onda musical”, recorda o Ernesto. País de fonteiras com sete países anglófonos, Moçambique sempre recebeu muita influência cultural anglo-saxónica. Mas chegava também o cinema da Nouvelle Vague, a música francesa e a portuguesa, claro. Ernesto conta a sua história como quem escreve a história do país. Recorda-se bem que a maioria (arrisca 90%) das professoras eram esposas dos oficiais, o que lhe causava estranheza: “então eles iam para a guerra e levavam as esposas, os cães e os gatos…?” Mas a guerra era “lá longe, em Mueda, Tete, Nampula, Quelimane” e Ernesto não a recorda vivida, mas ouvida. O irmão mais velho passou quatro anos “na zona quente”, em Mueda, integrado no exército português. “Quando vinha a casa, de licença, não falava muito, mas tinha comportamentos estranhos; estava afetado pelas imagens do massacre a que assistiu e o seu comportamento afetava toda a família”. Ernesto reconhece que “tinha medo, criou-se um

imaginário da guerra, onde havia os terroristas, os turras, de que qualquer criança tinha medo. Eu sabia que era lá longe, mas tinha medo de ser apanhado por ela”. Mas não foi esta guerra que o apanhou. Aos 20 anos, a sua visão de África mudou: ”tive acesso ao programa da Frelimo, de Eduardo Mondlane. Simpatizei muito com aquela literatura e pensei em Moçambique como um país independente. Considero-me um humanista e dificilmente um humanista pode discordar desta ideia.” Ernesto não foi para a Frelimo, ao contrário de alguns colegas. Foi para a Escola de Educação Física, do Instituto de Educação Física de Moçambique, onde os professores portugueses, idos do INEF da Metrópole, formavam bacharéis em educação física, futuros professores. A independência de Moçambique apanhou-o estudante do 2º ano. Interrompeu o curso e tornou-se treinador de basquetebol e professor numa escola preparatória. Foi nela que se confrontou com posições ideológicas da Frelimo, que levaram à sua expulsão de Moçambique: “eu era um jovem professor e um dia, em reunião do grupo dinamizador, foi decidido que, quando houvesse borlas (faltas de professores), a turma tinha de ir capinar, quer dizer cortar o mato da escola. Era novembro, um calor abrasador e eu opus-me a essa decisão. Houve uma segunda vez e eu voltei a ser contra e questionei o valor pedagógico daquela medida”. E assim, ”um dia, estava a sair da escola e fui preso pela Polícia de Investigação Criminal. Estive 32 dias na prisão e tive ordem de expulsão, sem saber porquê. E não era português nem moçambicano, era um cidadão apátrida. Saí da prisão e 24 horas depois apanhei um avião. Fui da Beira a Dar-Es-Salam, na Tanzânia, daí a Luanda e de Luanda a Lisboa. À chegada a Lisboa, sem família e sem nunca cá ter estado, com 212 rands no bolso (+- 400 escudos) senti-me nascer de novo”. Era dia 1 de julho de 1976. No dia seguinte foi à procura do João Boaventura, ex-diretor do Instituto de Educação Física, que o orientou. Foi integrado no IARN, sem ser retornado, e ficou um mês num lar desta organização,

“num prédio velho na Rua da Imprensa Nacional”. Entrou no INEF, na Cruz Quebrada, e terminou o seu curso, integrado numa turma especial de alunos vindos da Escola de Educação Física de Moçambique, a última do INEF, que depois passaria a ISEF e é atualmente a Universidade da Motricidade Humana. Apesar de comunicar semanalmente com os pais e lhes “assegurar que estava bem”, eles quiseram vir confirmar. Vieram, seis meses depois, e já não puderam regressar. Já com mais de 60 anos, os pais tiveram de recomeçar a vida numa terra estranha: “para eles sim, foi difícil. O meu pai começou a fumar aos 65 anos! Meteu os papéis e foi para a reforma. Meia dúzia de anos depois, voltaram à Beira e conseguiram trazer alguns haveres de grande valor afetivo: os meus brinquedos, que ainda hoje tenho, papéis, fotografias. Os bens económicos ficaram, a casa onde vivíamos foi nacionalizada”. Veio também a namorada, com quem casou aos 27 anos, tiveram um filho, agora com 35 anos, continuou professor de Educação Física, ligou-se ao basquete. Depois andou pelo país: Lisboa, Leiria, Setúbal, Tondela, Barreiro. Aqui comprou casa, os dois irmãos também, tal como os pais. O pai, hoje com 104 anos, cheios de vida e de memórias, continua no Barreiro. Os últimos anos são recordados em vertigem: o fim do casamento, a separação, o reencontro com uma antiga namorada daqui da região de Leiria, uma passagem pela Marinha Grande e a curiosidade por esta escola Calazans Duarte. Quis o acaso que abrisse uma vaga: “concorri e cá estou. Será certamente a minha última escola”. Só agora começa a pensar em voltar a Moçambique. “Para exorcizar”. Mas hesita, pressente que pode “ficar dividido, sem saber se há-de voltar ou ficar”. Depuradas as memórias da terra e do mar, Ernesto evoca Joseph Ki Zerbo, o escritor de Burkina Faso que o ajudou a ler a história de África, a arrumar as ideias. Hoje pensa na história de Moçambique não em termos de raças, mas de afetos. Compara o colonialismo português com o anglo-saxónico, esse sim, racista: “Os ingleses nunca se ligaram afetivamente a África, mas os portugueses fizeram de Moçambique Portugal”. Entristece-o e envergonha-o ver Moçambique ocupar um lugar de topo entre os países pobres do mundo. Um país cuja “maior riqueza é o povo”. “Um povo que não precisou de ler Marx para saber o que é o comunitarismo”

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UM RAPAZ BAIXO NUM MUNDO DE GIGANTES Fábio Casaleiro

bailarino, a sua mãe suicida-se. Porém, esta alma

rumo ao que hoje conhecemos como dança

sonhadora eleva ao mundo a verdadeira

contemporânea, reconhece que a personalidade

essência do desejo. Contraria as probabilidades

e a carga emocional que um bailarino impõe

e o preconceito, defendendo desde sempre que

numa performance são fatores irreproduzíveis,

a vida deve ser vivida com regras, mas sem

intocáveis, algo único e que nasce dentro de

limites: "As regras são os blocos de composição

cada ser humano.

da diversão".

Mikhail Baryshnikov é citado paralelamente a

Em 1964, inicia os seus estudos na Vaganova

Nijinsky e Nureyev, outros grandes nomes da

Ballet Academy, em São Petersburgo, na Rússia,

cultura do ballet russo. Contudo, Mikhail

dando imediatamente nas vistas através da

apresenta uma personalidade muito singular,

conquista do primeiro prémio na divisão júnior,

levando a que a sua pureza, força, técnica e

do Concurso Internacional Varna, na Bulgária.

precisão fossem reconhecidas por vários

Ingressa depois no Ballet Mariinsky, uma das

coreógrafos e críticos de dança, como Clive

maiores companhias de dança do mundo,

Barnes (escritor e crítico do New York Times)

fundada no século XVIII e originalmente

que o apresenta como “o mais perfeito bailarino

Não é fácil sonhar, principalmente quando o

conhecida como o Ballet Imperial Russo.

que alguma vez vi”.

sonho parece algo inalcançável, incompreendido

Em 1974, procura algo inovador que o levasse a

É também autor de vários projectos como White

e de difícil acesso. A desmotivação é, de certo

sair da sua zona de conforto e para isso viaja até

Oak Dance Project, onde junta artistas de

modo, garantida, mas, às vezes, vale a pena

ao Canadá. Durante essa estadia, alterou a sua

diversas áreas para que trabalham com um

contrariar as probabilidades. Baryshnikov que o

opinião política, posicionando-se contra o

objectivo em comum, e Baryshnikov Arts Centre.

diga!

regime popular socialista, pedindo asilo político

Em 1998, surpreendeu o público com um

Михаил ì Николаеì вич Барыш ì ников (ou Mikhail

em Toronto. Após a saída do isolamento, a sua

espectáculo de criações contemporâneas onde,

Nikolaévich Baryshnikov) é um daqueles

primeira performance foi com The National

segundo as suas próprias palavras "O ballet

pequenos sonhadores que desejava o mundo do

Ballet of Canada, numa versão televisiva.

clássico é para jovens. O que mais me fascina na

ballet com toda a honestidade de uma criança.

Posteriormente, embarca até aos Estados Unidos

dança contemporânea é a possibilidade de

Contudo, a exigência extrema na postura e

da América, onde autonomamente se junta à

interpretar a nossa própria idade”, criando

constituição física dos bailarinos (sendo baixo,

New York City Ballet, como solista, um dos

trabalhos para bailarinos mais velhos.

ele não teria a capacidade de contracenar com

papéis mais importantes nas Companhias de

Ainda vivo, Baryshnikov é reconhecimento pelo

uma bailarina em pontas), o preconceito e o

Dança. Aqui, entra em contacto com George

público e pelos críticos que o homenageiam com

desejo dos pais para que o seu filho ingressasse

Balanchine, um dos mais disputados e famosos

diversos prémios e saudações: em 1977, recebe

numa carreira profissional séria, segura e

coreógrafos de sempre, portador de uma

a indicação para o Óscar de Melhor Ator

estável, levou a que Baryshnikov sofresse de um

musicalidade “indescritível”. Durante esta

Secundário e para um Globo de Ouro, com a

acesso, à vista de muitos, improvável no mundo

parceria, Baryshnikov aprendeu que a técnica

participação no filme “The Turning Point”; em

da dança.

não é tudo e que a personalidade e a forma

2006, um diploma honorário da Universidade de

Nascido na então República Socialista Soviética

como se deve exprimir gestualmente deve ser o

Nova Iorque e outro, em 2007, do Conservatório

da Letónia (atual República da Letónia), a 27 de

que verdadeiramente une o bailarino ao seu

da Universidade de Shenandoah. Venceu dois

Janeiro de 1948, Mikhail Baryshnikov será uma

público. Afirma que "Não importa quão alto

Emmy's, na categoria especial de Televisão e

das revelações do mundo das artes, na sua

levanto a minha perna”; defende ainda que a

ainda foi reconhecido com diversas menções

época. E não só!

técnica é clara e universal, uma simples

honrosas durante a sua vida. Fez parte da

Com 12 anos, encontra a possibilidade de se

reprodução e tentativa, onde se cria uma

produção do original “Quebra-nozes”, de

integrar na dança clássica; porém, em

espécie de competição para ver quem é mais

Tchaikovsky, que passa do teatro à televisão,

simultâneo, vê-se confrontado com um dos

forte, mais estável e equilibrado, mais flexível,

sendo um bestseller em DVD, nomeado para um

maiores desafios da sua vida, algo capaz de

acrescentando que "Não tento dançar melhor

Emmy Award, e reconhecido como um dos

influenciar qualquer um a desistir no primeiro

do que ninguém, tento apenas dançar melhor do

clássicos de Natal de todos os tempos.

instante. Após a sua primeira experiência como

que eu mesmo.” Dando os primeiros passos

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PALCO DOS TALENTOS - uma edição especial P&V

Teve lugar na noite de 4 de maio, no grande auditório da Calazans Duarte, uma edição especial do Palco de Talentos. Assistiram ao espetáculo, para além dos pais, membros da direção do AEMGP e a Vice-Presidente da Câmara, Cidália Ferreira, as professoras Sabine Carlow-Meyer e Sophie Schulze que, no âmbito do programa Erasmus, vieram da Alemanha visitar a Calazans e foram presenteadas com este desfile de talentos. Os alunos honraram a tradição portuguesa da “arte de bem receber” e por isso até houve um momento de música alemã: Beatriz Pereira cantou "Geiles Leben" de Glasperlenspiel, acompanhada à guitarra por Rafael Pereira. Mas esta edição foi também especial por ter sido a primeira em que participaram talentos de várias escolas do Agrupamento Poente. A organização foi da professora Cármen Santarém, do Wilson Francisco e da Isabel Cardoso, presidente da Associação de Estudantes da Calazans, apoiados por uma equipa técnica

exclusivamente constituída por alunos. E, se em vários momentos o equipamento áudio não esteve à altura, o mesmo não se pode dizer da equipa e dos artistas, que não se pouparam a esforços mesmo quando os microfones falharam ou as colunas distorceram o som. The show must go on! Foram mestres de cerimónia André

Martins e a Beatriz Pereira. O coro dos pequeninos do pré-escolar e do 1º ciclo da escola da Fonte Santa abriu o espetáculo, com duas canções: “Canção da Primavera" e "O Gafanhoto". Seguiu-se um desfile de talentos, de música instrumental, canto, dança e humor. Vicente Rodrigues, da

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Escola Primária da Várzea, tocou, à guitarra, "In the Meadow" e David Pereira, da Guilherme Stephens, executou ao piano um "Estudo de Cornelius Gurlitt". O piano foi também o instrumento de Mariana Gameiro que executou "Mika's song" de Yiruma, acompanhou Yasmine Nicole em canto e Beatriz Bernardino e Marta Ferreira numa dança clássica. Não faltou o Hip Hop, com o grupo SIM (André Ricardo, Carolina Carapeta, Joana Matias, Mariana Matos, Melanie Dukowsky e Teresa Pereira) e a Sabrina Gil, como sempre, encantou com "Listen", da Beyoncé. Antes do intervalo, Beatriz Bernardino e Marta Ferreira executaram um trecho de dança

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contemporânea, num palco demasiado pequeno para estes dois talentos. Beatriz Oliveira presentearia o auditório com sapateado, em dois momentos, e a dupla Beatriz Pereira e Rafael Pereira estiveram de volta ao palco depois do intervalo, cabendo a este guitarrista e cantor, um dos momentos mais interativos da noite, com Beijo, de Rui Veloso. A voz doce de Irina Oliveira, com a sua inseparável guitarra elétrica, encheu o auditório com "Yellow" dos Coldplay e Maria Beatriz Ferreira fechou o espetáculo musical com "Angel" da Sarah Mclachlan. A noite de talentos foi atravessada pelas súbitas

entradas em palco da “intrometida” Filipa Ferreira, um prodígio teatral num registo humorístico, reforçado pelo inusitado traje de gala, o pijama, que encantou os presentes, sobretudo os mais pequeninos. E porque se tratava de mostrar talentos, o intervalo foi um autêntico banquete, servido no hall, com iguarias em miniatura mas em abundância, confeccionados pelos muito talentosos alunos do curso de Cozinha e Pastelaria.


ALEMÃO EM CENA

P&V

De 11 a 14 de maio, teve lugar, no Fórum Municipal Romeu Correia em Almada, a VI edição do festival de teatro escolar "Alemão em Cena", onde alunos de todo o país, vindos de 13 escolas, apresentaram peças de teatro em alemão, sob o tema Wege (Caminhos). Este festival é promovido e apoiado pelo Goethe-Institut, no âmbito da implementação do Projeto Escolas Piloto de Alemão (PEPA), que engloba presentemente um total de trinta e seis escolas em todo o país. As peças, que anualmente têm uma temática diferente, são escritas pelos alunos com a ajuda do professor de alemão que os acompanha. O grupo deste ano, "Die Träumer" com a peça "Die Irrwege des Lebens", é composto por oito alunos do nosso agrupamento: Bruno Matos, 8º ano, Anastasia Khimich,10º ano e Daniela Matias, Daniel Constantin, David Carlos, Inês Silva, Luciana Pinto e Marta Lobo do 11º ano. Foram acompanhados pela professora Cármen Santarém e contaram com a ajuda dos professores Eunice Oliveira e Francisco Matos. Durante o festival, os jovens atores e atrizes foram apoiados pelo pedagogo-encenador Carlos Melo, e participaram em oficinas dedicadas à dança, língua, corpo/voz e circo,

realizadas por profissionais das áreas. Tiveram, ao mesmo tempo, a oportunidade de passar um momento único de convívio e de aprendizagem. A apresentação pública do festival teve lugar nos dias 12 e 13 de maio. Para além da estreia das

peças de teatro dos alunos e apresentação do trabalho das oficinas, os professores também foram chamados ao palco para mostrar os resultados da sua oficina de teatro.

PROFESSORAS ALEMÃS VISITAM AS ESCOLAS DO AEMGPOENTE Cármen Santarém

No âmbito do Programa Erasmus+, ação 1, estiveram de visita ao Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente a Vice-Presidente Sabine Carlow-Meyer e a professora Sophie Schulze, da escola Oberschule Westercelle na Alemanha, entre os dias 3 e 8 de maio. As docentes foram recebidas pelo diretor Cesário Silva e, durante os dias que visitaram o nosso agrupamento, tiveram a oportunidade de assistir a diversas aulas e dialogar com os professores. Ficaram impressionadas com o tamanho e a qualidade das instalações da escola, elogiaram a oferta formativa, os projetos e as atividades que o agrupamento põe ao dispor dos seus alunos. Interessaram-se pela organização do sistema escolar português, especialmente pelo tema inclusão, temática essa que tem marcado fortemente a história da educação na Alemanha desde 2009, quase um ano depois da "Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência" ter entrado em vigor na ordem internacional, a 3 de maio de 2008.

Na tarde do dia 4 de maio, as docentes foram recebidos no Salão Nobre da Câmara Municipal da Marinha Grande, pela Vice-Presidente Cidália Ferreira. Visitaram o centro da cidade, a biblioteca, o museu e o edifício da resinagem. Espera-se que um intercâmbio entre escolas, num futuro próximo, seja possível, e que o Projeto Erasmus+, ação 2, Find your way to the future - School , Job and Life in Europe, na qual a Oberschule Westercelle, o Agrupamento Marinha Grande Poente e mais três escolas (Holanda, Suécia, Grécia) estão envolvidos, seja aprovado. Na noite de 4 de maio assistiram ao "Palco de talentos" e ficaram entusiasmadas ao ponto de quererem fazer o mesmo na sua escola, mesmo que não tenham o mesmo equipamento técnico. Voltaram para a Alemanha com a imagem de um pais com paisagens maravilhosas e de um povo muito hospitaleiro. ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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APRENDER MANDARIM, UMA EXPERIÊNCIA MUITO POSITIVA Gabriela Dâmaso/ Alice Marques

A turma de Mandarim, a funcionar desde o início do ano letivo, está muito satisfeita com os resultados. Os alunos já aprenderam cerca de 2000 palavras e as suas classificações demonstram que têm razões para estar satisfeitos: à exceção de 3 notas entre 10 e 13, a maioria dos alunos teve entre 16 e 18 no 2º período e pretende subir no 3º. Todos concordam que escrever os carateres é mesmo o mais difícil desta língua, que é a mais falada na China (955 milhões). A professora Jing Yuan Ba não falava nada de português quando

chegou a esta escola. Contudo, a comunicação não foi difícil, visto que a maioria dos alunos fala muito bem inglês e esta foi a língua de comunicação inicial. Para a Nicole Duarte até foi uma vantagem: «O facto de a professora não saber falar português e falar pouco inglês fez com que nos tivéssemos de aplicar mais na disciplina». Atualmente a comunicação na sala de aulas já se faz nas três línguas e uma delas é o português. Como disse a Maria Marques «já está a ser mais fácil comunicar, pois a professora já entende bastante português». A professora é da

mesma opinião: «já estou mais confortável com o português, já falo algumas palavras em português com eles. Os jovens que escolheram aprender o Mandarim fizeram-no a pensar no futuro. Conhecer uma língua que é cada vez mais atual, dada a situação económica da China no mundo, é para estes jovens uma mais-valia; e há outros jovens que pensam o mesmo, por isso «já estão previstas novas turmas para o ano, que apenas aguardam autorização do Ministério da Educação» como disse ao P&V o diretor Cesário Silva. A visita de avaliação que os técnicos do Ministério da Educação fizeram, no mês de maio, deixou todos muito satisfeitos: os alunos falaram mandarim e o diretor e a professora ficaram orgulhosos do seu desempenho.

REPÓRTER DO P&V SELECIONADA PARA MISSÃO Catarina Sousa, selecionada para a Missão no Rock in Rio dos dias 18,19,20 e 21 de Maio, do Grupo dos Jovens Repórteres do Ambiente, esteve em Lisboa durante esses quatro dias para escrever sobre o impacto ambiental que o festival tem na freguesia e sobre o programa ambiental do evento. Um dos temas abordados nos artigos escritos foi o facto de o RiR ser o único festival de música do mundo a ter um certificado (ISO 20121) que confirma a sua sustentabilidade. A repórter do P&V foi uma dos 12 jovens selecionados para esta missão, o que é motivo de orgulho para a equipa do GIC e para o Agrupamento.

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“A ÚNICA COISA QUE ESTAVA NA MENTE ERA SE AQUILO ME ESTAVA MESMO A ACONTECER, RECUSAVA-ME A ACEITAR”

UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA Catarina Sousa

O mês de Abril foi assinalado como mês contra a violência, sendo um dos tipos mais comuns em Portugal, a violência doméstica. Fátima Fernandes (nome fictício), de 33 anos, foi vítima de violência doméstica, no ano de 2007, por parte do namorado na altura, e aceitou divulgar a sua história no P&V. A primeira vez que Fátima se apercebeu da violência do namorado foi quando saíram juntos a um bar e ele a insultou no meio de uma conversa com os amigos. Triste com o que estava a decorrer, deixou-o sozinho e foi para a casa que estavam a partilhar no momento. Pedro (nome fictício) seguiu Fátima até casa, revoltado com o acontecido e agrediu-a com pontapés e murros. “A única coisa que estava na mente era se aquilo me estava mesmo a acontecer, recusava-me a aceitar”comentou a vítima à medida que contava a história. Após lhe ter rasgado a roupa, Pedro, num ato de raiva, esmurrou a porta e ficou com a mão em sangue.“No final, ele ainda era a vítima, porque se tinha aleijado, e eu era o motivo da sua raiva. Desculpei-o porque ele justificou os atos com o álcool e demonstrou arrependimento. Infelizmente era apenas o princípio”. Apesar de se terem passado meses até à segunda agressão grave, Pedro magoava Fátima no dia-a-dia, com empurrões, chamando-lhe nomes e fazendo com que ela se sentisse inferior. Ao contrário do que é esperado, a vítima não pediu ajuda a ninguém porque ela própria encontrava justificações para os atos do agressor. Para além disso, não falava com o pai nem com o resto da família visto que a sua relação não era aceite. Mas a situação ficou mais grave quando, num jantar, Fátima foi convidada para dançar e depois de ter tentado deixar o restaurante, o namorado lhe ter partido o vidro do carro e lhe ter batido até ela ficar inconsciente. Pedro conduziu o carro até uma estrada escura e puxou-a pelos

cabelos para fora do carro para continuar com a violência. “Pensei que ia morrer, ele pontapeou-me a caixa torácica e assustoume imenso, não conseguia respirar”. Depois disso, ele devolveu-a de volta a casa e ao subir as escadas ameaçou-a que se gritasse ele a matava. Em choque, Fátima trancou-se na casa de banho e passou lá a noite, assustada com a ameaça. No dia seguinte, o agressor chamou membros da sua família para reconfortarem a vítima e voltou a prometer que não iria voltar a acontecer. Apesar de nunca ter havido sexo forçado, o agressor não era fiel e atribuía a Fátima o comportamento dele mesmo. “Cheguei a fugir de casa e dormir no carro após as agressões”, conta Fátima. Quando se apercebeu da gravidade das mesmas, procurou defender-se porque, “era preferível morrer a defender-me do que morrer apenas pelas mãos dele”. Pôs fim às agressões e deixou o namorado quando ele insultou o filho dela, de uma primeira relação, mas mesmo assim teve de se esconder durante uma semana devido às ameaças de morte. Infelizmente, esta história, sendo pessoal, não é única. No relatório anual da APAV de 2015, 9.612 das vítimas que apresentaram queixa contra este crime eram, em 82,2% dos casos, do s exo femin in o, 39,5% co m id a d es compreendidas entre os 25 e os 54 anos de idade. E estamos apenas a contabilizar os casos que são denunciados! Muitos dos casos não o são devido ao medo que é imposto às vítimas pelos agressores, à vergonha ou à falta de informação sobre linhas ou grupos de apoio. A violência doméstica não está apenas relacionada com o local onde acontece, mas sim com a relação entre a vítima e o agressor. Está na altura de haver mudanças. Para isso devem ser realizadas mais campanhas de sensibilização para passar a mensagem de que a vítima não está sozinha e que não se deve conformar com o que lhe está a acontecer.

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VII SARAU A MEDIATECA COM

VIDA

PRÉMIOS E ANIMAÇÃO Margarida Amado

Realizou-se no dia 25 de maio o VII Sarau da Mediateca da Escola Secundária Engº Calazans Duarte. O convite, dirigido a todos, era para as 21 horas, e enquanto o público ia chegando ao auditório, nos bastidores faziam-se os últimos preparativos. O professor António Santos, responsável pela Mediateca, verificava os últimos detalhes do alinhamento do espetáculo que ia começar e confirmava a presença de todos os premiados. Ao seu lado, a funcionária Teresa Silva, que todos conhecem do balcão da Mediateca, estava preparada para ajudar no que fosse preciso. O Wilson Francisco, aluno responsável por todo o apoio técnico, certificava-se de que nada ia falhar e, experiente já nestas andanças, sabia que só no fim da noite iria poder respirar com sossego. A Beatriz Pereira e o Rafael Pereira, alunos que iam apresentar o sarau, estavam a postos e prontos para dar as boas vindas a todos e abrir a sessão. E foi o que começaram a fazer, logo de seguida, apresentando, com muito à vontade e boa disposição, todos os momentos do espetáculo. Este incluiu quer momentos de animação, em que foram estrelas os alunos, quer momentos de

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entrega de prémios aos vencedores dos concursos promovidos pela Mediateca. Assim, animaram musicalmente a noite, as vozes da própria Beatriz Pereira, da Sabrina Gil, do Rafael Pereira e da Yasmine Veiga; os instrumentos da Mariana Gameiro e da Inês Craveiro – piano; da Ema Neves - violino; do Jorge Castanho- guitarra, com o André Poças bateria; e os Rushed Up, que misturam à voz e às guitarras elétricas o som do violino. Mas houve também a poesia de Natália Correia, Alexandre O'Neill e Sophia, dita por várias alunas do Grupo de Teatro; um animado momento de dança; e, para acabar, a peça “Branca das Neves, o Caneira, o Espelho, o Boss e os outros” apresentada pelo CalaBoca, a Companhia de Teatro da Calazans, que teve a sua origem em 2010 no Clube de Teatro, uma secção da Mediateca. Todos os artistas mereceram os aplausos do público, que gostou do que viu e ouviu. Muitos aplausos mereceram também os alunos premiados. O Sérgio Trincão, que ganhou o prémio do concurso Fala Barato, com a sua legenda para uma das fotografias propostas, recebeu-o das mãos do professor Tony Silva. A vencedora do concurso Passaporte de Leitura foi

a grande leitora Mariana Morgado, tendo o prémio sido entregue pela professora Ana Costa. Já a professora Fátima Alendouro entregou o prémio do Concurso de Fotografia à Ema Neves. Coube à Marina Lopes o prémio do Concurso do Conto, entregue pelo professor António Santos. Finalmente, o Concurso de Poesia, o mais antigo da Mediateca, que já vai na sua 15ª edição, teve duas vencedoras: em 2º lugar a Beatriz Bernardo e em 1º, a Beatriz Couto. Estes últimos prémios foram entregues pelo professor Jorge Alves. Foram ainda entregues certificados aos atores do CalaBoca pela professora Maria José Ladeiro, também em nome da professora Ermelinda Silva, a outra responsável pelo Grupo de Teatro, que não pôde estar presente. Por último, foram chamados ao palco todos os alunos participantes em atividades da Mediateca e em projetos como o Projeto de Voluntariado, o Toastmasters, o Hoje Há Intervalo, o Café com Livros, a Mediateca ComVida... No final do sarau, para que conste, confirma-se: uma Mediateca Com Vida! E regista-se: estão realmente de parabéns os alunos premiados, os professores envolvidos e os participantes no Sarau. Ficamos à espera do próximo ano!


II ENCONTRO MUSICAL INTERESCOLAS MARINHA GRANDE POENTE Clara Fernandes

Decorreu no passado dia 25 de maio o II Encontro Musical Interescolas Marinha Grande Poente. Segundo apurámos junto do grupo dinamizador da iniciativa – grupo de professores de música da Escola Guilherme Stephens – a ideia para a realização deste evento surgiu no ano anterior na sequência da inspiração colhida no Agrupamento de Viseu, mais concretamente, em Cinfães, junto do Professor Adelino. Este ano, o grupo de professores – Carlos Vieira, Nuno Brito e Paulo Lopes – concretizou a segunda edição deste Encontro, desta vez com algumas alterações relativamente ao ano anterior: em vez da utilização do Pavilhão Multiusos da EB Guilherme Stephens, a iniciativa pôde contar com o apoio da Câmara Municipal da Marinha Grande na cedência do espaço da Casa da Cultura Teatro Stephens bem como na disponibilização de pessoal técnico , o que emprestou ao evento uma maior qualidade que beneficiou público e músicos. O acolhimento dado aos organizadores e

convidados, nas pessoas da Dra Helena Godinho e José Freire, é sem dúvida objeto de reconhecimento público, demonstrando bem que a articulação entre várias estruturas é vital para a consecução dos objetivos culturais comuns à Escola e à autarquia. Falando em articulação, cumpre registar o apoio da Direção do Agrupamento , bem como o do professor José Nobre e do GIC, de cuja colaboração e empenho resultou a elaboração do troféu entregue aos participantes, bem como dos certificados e demais materiais identificadores e de divulgação da iniciativa. O dia decorreu de forma agradável, com exibições de alto nível, registando-se a contínua presença na plateia de muitos alunos do 1º CEB que ali se deslocaram com os seus professores para usufruírem de momentos de alegria e de convívio com a música . Neste II Encontro estiveram presentes durante a manhã, a Escola EB2 Padre Franklin (Vieira de Leiria), Agrupamento de Escolas Marinha Grande Nascente, Agrupamento de Escolas de S.

Martinho do Porto, tendo o nosso Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente fechado a parte da manhã. Já de tarde, pudemos acolher o Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto (Cinfães), o grupo Tocándar, o Agrupamento de Escolas da Batalha e, finalmente, a Associação Tempos Brilhantes (ALE – AEC). Para o próximo ano, o núcleo organizador está já a pensar na melhor forma de levar mais alunos a assistir ao evento, uma vez que o valor da música e os talentos dos participantes justificam uma maior participação e um ainda maior envolvimento do público jovem. Até lá, o P&V deixa o convite : passe neste sítio e conheça mais do que se faz com a música e pela música em contexto escolar. https://clubemusicapoente.wordpress.com

incentivtour turismo e transportes unipessoal lda ispor! d u se o a sa e r p m uma e

sede: Rua Joaquim Carvalho de Oliveira nº 7 r/c | Telemóvel nº 916744410 ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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UMA VIAGEM AO PASSADO, COM RETORNO AO PRESENTE Fábio Casaleiro

No âmbito das atividades escolares da disciplina de História da Cultura e das Artes, do curso de Artes Visuais, as turmas de 11º e 12ºanos foram convidados a integrar na visita de estudo a Lisboa, cujo principal objetivo foi ver os contrastes e a evolução da arte ao longo do tempo. Daí o roteiro: começar no Museu Nacional da Arte Antiga e acabar na ARCO, na Cordoaria Nacional. Partimos às oito horas e quarenta e cinco minutos. No autocarro, era visível o entusiasmo e a curiosidade que se ia instalando. Ninguém sabia o que iria ver, principalmente na ARCO, uma vez que já tínhamos sido confrontados com as mais diversas realidades plásticas. Às 10:50, chegamos ao Museu Nacional de Arte Antiga, instalado num edifício barroco. Inaugurado em 1884, é o maior e um dos mais importantes do nosso país, tendo na sua posse obras de artistas nacionais e internacionais dos séculos XII a XIX. Contudo, apenas um quarto das aquisições do museu se encontra exposto, para infelicidade dos que visitam estes espaços. Das obras expostas, o barroco francês era visível em grande parte, com obras de Nicolas Poussin e Luca Giordano, por exemplo. Porém, era ainda maior o número de obras de autores menos conhecidos (i.e. não vêm nos manuais de

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História de Arte), mas com obras igualmente grandiosas e deslumbrantes e com níveis de mistério, tal como os nossos artistas de eleição. A obra mais visitada, os Painéis de São Vicente, é composta por seis painéis que são uma espécie de “fotografia da sociedade portuguesa da época dos descobrimentos”. Esta obra prima é da autoria de Nuno Gonçalves, pintor da corte do rei Afonso V, estando desde 1912, neste museu. Após a hora de almoço, dirigimo-nos à Cordoaria onde estava instalada a ARCO. A feira original decorre há vários anos em Madrid e inclui galerias de todo o mundo, porém apenas 45 constavam desta “Arco boutique”, o que provocou alguma deceção aos alunos que tinham criado altas expetativas. Muitos mostraram-se logo indignados com o estado do edifício. Alguns deles defendem que seria importante enquadrar esta exposição num local mais apelativo, afirmando que preferiram o Museu; porém, outros perceberam que é natural que uma exposição (provisória), não esteja instalada num museu. Existiu a propósito algum ruído sobre o preço da entrada. Uma aluna ouviu uma rapariga dizer que “não voltaria a uma exposição daquele género, porque pagara 15€ euros para uma exposição com poucas

condições”, o que mereceu da Diana Coelho e da Joana Ferreira uma crítica pertinente: “Não pagamos para ver o edifício mas sim as obras”. A Carolina considerou até que o espaço, sendo “vintage” era ele mesmo uma “obra de arte” e o Tiago defendeu que “o facto de o edifício não ser apelativo levou-nos a dar mais atenção às obras expostas”. Sobre as obras expostas, houve algum consenso: foi dececionante o facto de “não haver sequer uma performance” ou “alguma coisa que chocasse”, como disse a Catarina Sousa. Também os professores se fizeram ouvir, alegando que “observar este contraste entre arte antiga e contemporânea torna esta visita numa atividade pedagogicamente importante”. Mas a polémica não acabou por aqui: o professor Manuel Silva mostrou alguma desilusão, considerando existir um excesso de ”fast art” (arte rápida), na qual não se percebe o trabalho do artista. Em suma, é possível destacar a valorização que foi dada ao Antigo por parte de alguns alunos e professores, assim como a importância que outros atribuíram ao Contemporâneo, mostrando o seu gosto pela liberdade de interpretação. À primeira vista, o que levou à desilusão ou valorização foram as expetativas de cada um.


MEGA FITNESS SOLIDÁRIO Associação de Pais dá a mão ao GAAF

Clara Fernandes

Numa dança solidária, a Associação de Pais da Escola Básica Guilherme Sthepens dá a mão ao GAAF. No passado dia 28 de maio, na Escola Guilherme Stephens, teve lugar uma tarde triplamente saudável: alegria e boa disposição para alimentar o espírito, danças para energizar o corpo e angariação de fundos destinados a apoiar quem tanto apoia a comunidade escolar – o Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família, o GAAF, já conhecido de todos. S. Pedro decidiu também participar e trouxe alguma chuvinha que não ajudou à festa, mas que não conseguiu impedir que a mesma se realizasse, tal a determinação manifestada por todos os “Apegus” que estão cada vez mais fortes entre os elementos desta comunidade. Uma iniciativa que mereceu o aplauso e reconhecimento de todos – os presentes de

corpo e alma, os que, de alguma forma, fizeram chegar a sua contribuição para a festa, os que beneficiam com o trabalho do GAAF; uma troca de “corações” solidários. Uma tarde a repetir. A certeza de que, todos juntos, faremos sempre mais e melhor, e que nunca é perdido o tempo

dedicado a ajudar quem precisa. Para o ano, queremos mais! Parabéns, Apegus! Parabéns GAAF! Obrigada!

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MANHÃ MÁGICA Para mais de 500 crianças do Agrupamento Marinha Grande Poente Clara Fernandes

1 de junho, 9 horas, Parque dos Mártires do Colonialismo. Num exercício rápido de coordenação e entreajuda, entre os adultos que organizam a Festa, aparecem os equipamentos necessários: do chão erguem-se estruturas coloridas e fofas que dançam, já adivinhando as canções de sorrisos que as crianças vão entoar numa manhã mágica que não esquecerão tão cedo. Surge um percurso de 5 estações, em que os mais pequeninos realizarão várias atividades desportivas e lúdicas, desde as estafetas aos saltos “loucos” nos insufláveis, passando por jogos de equipa, em que a brincadeira e a alegria serão as lições do dia. Longe de livros e canetas, as crianças puderam rir, correr, sorrir, competir e dançar ao som ritmado de canções alegres, até que o sol a pique indique que é tempo de voltar às escolinhas e, quem sabe, desenhar ou escrever sobre o que se viveu. Esta foi a manhã mágica que voou da fantasia para junto das crianças do Pré-Escolar e 1º CEB do Agrupamento, tendo sido idealizada, concebida e organizada pelo Núcleo de Estágio da ESEACD (Luís Tasquinha, Ricardo Carvalho, Ricardo Pimentel, Suzi Sousa e seu Orientador, professor Cláudio Sousa), com total apoio da Direção da Escola Secundária Eng.º Acácio Calazans Duarte (Professor Cesário Silva) e a professora Coordenadora do 1.º Ciclo (Fernanda Barosa). De registar também o apoio do professor Tiago, responsável pelo Curso de Educação Formação de Cozinha, para a confeção das bolachas que serviram de medalha de participação. Um sucesso entre todos! A iniciativa, cujo objetivo principal era transmitir valores e vivências aos alunos de forma a poderem enriquecer e promover o seu dia, foi

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um êxito, tendo contado com a presença das seguintes escolas (Pré e 1.º Ciclo) do Agrupamento - JI da Amieirinha, JI Ordem, EB Casal de Malta (e Pre-Escolar), EB Fonte Santa , EB Várzea, EB Guilherme Stephens, num total de 283 crianças do Pré-escolar e 289 do 1º CEB . Estiveram apenas ausentes a Escola Francisco Veríssimo, a Escola da Moita e da Amieirinha, pois tiveram uma visita de estudo neste dia. A Câmara Municipal da M.ª Grande colaborou no transporte dos alunos das escolas mais distantes. O Núcleo de Estágio faz desta atividade – que foi uma das primeiras iniciativas deste género - um balanço positivo, atrevendo-se a lançar o desafio para repetições futuras, num cenário de plena articulação entre todos os elementos da comunidade. As crianças merecem-no, fazendonos acreditar que, por elas e com elas, todos os esforços são justificados e largamente recompensados.


Exposição de alunos finalistas de Artes da Calazans

SOMOS ARTE Margarida Amado

E é que somos mesmo! De facto, o título da exposição dos alunos finalistas do curso de artes da Calazans não podia ser mais pertinente. Se os jovens que mostram as suas obras se identificam assim, a verdade é que essa identificação se adequa provavelmente a todos nós. Só a espécie humana se dedica a essa atividade — a que chamamos arte — e fá-lo desde os tempos mais remotos. Não por lhe ser útil ou necessária à sobrevivência ou adaptação, em termos biológicos ou sociais, mas por outra ordem de razões. Talvez as que decorrem da necessidade ou aspiração a outra coisa, que não existe e que leva alguns à criação. Da pintura à música, a atividade criativa artística será então, no homem, também sinal das suas origens, a poeira de estrelas de que se formou a vida. Na verdade, se somos literalmente pó de estrelas, somo-lo também metaforicamente, na insatisfação perante as coisas concretas e limitadas da realidade quotidiana. Somos arte, portanto, por procurarmos essa dimensão outra, a das estrelas. A exposição Somos Arte, inaugurada no dia 2 de Junho, no Sport Operário Marinhense, inclui obras dos 12 jovens artistas que frequentaram as aulas de Desenho, Oficina Multimédia e de Oficina de Artes dos professores José Nobre e Rui Coelho, respetivamente. Nela encontramos todo o tipo de trabalhos, do desenho à pintura, dos objetos de três dimensões à fotografia (estas projetadas, permitindo a amostragem de muito maior número, algumas de temática livre, outras de preparação para outros trabalhos). No conjunto dos desenhos (a lápis de cor, grafite, pastel de óleo, tinta da china e sanguínea), são de referir a série dos sapatos e a dos olhos. Desta última, destaca-se o “Olho de crocodilo”, diferente de todos os outros, humanos. O autor, Luís Ribeiro, fê-lo por achar “mais desafiante”... e venceu o desafio. O conjunto de pintura oferece uma grande variedade de obras. Logo à entrada, os 12 autorretratos olham para nós e interrogam-nos. Ou fazem-nos interrogá-los: por que é que a Deise Santos escolheu representar-se assim, com duas metades de rosto, uma em cada lado exterior das duas telas, expostas contiguamente de forma a criar uma larga superfície amarela entre ambas? Ela explica: “Queria fazer-me agora e quando era pequena, primeiro pus as duas metades juntas, mas depois achei melhor assim, até visualmente”. Pergunto-lhe: então é o tempo entre elas? “Talvez, sim, talvez”, diz ela.

Dos trabalhos a três dimensões (utilizando vidro, molas de roupa e outros), muito haveria a dizer; mas aqui fica a “Vénus” feita com molas pela Inês Silva, que diz que não tem grande coisa a dizer... que “é suposto ser um corpo humano, cortado aos bocados... faltam-lhe elementos, o pescoço, por exemplo... tudo tinha um significado, relacionada com feminismo, mas agora...” E mais não diz... Mas quando se entra, o que salta logo à vista são 12 portas, pintadas de ambos os lados, espalhadas pela vasta sala, como que marcando o espaço. Estas resultam de uma parceria com a CPCJ e a Câmara Municipal no âmbito da comemoração dos Direitos das Crianças. Segundo o professor José Nobre, a escolha da utilização de portas decorre do objetivo de variar os suportes usados, de elas se associarem à ideia de rua (e estas portas vão para a rua, ficando expostas no jardim do Edifício da Resinagem) e também da sua simbologia: tendo dois lados, os alunos foram convidados a representar num deles o positivo e no outro, o negativo. O resultado é muito interessante e variado: alguns artistas optaram pelo figurativo, outros pelo mais abstrato e outros usaram a estrutura das portas, integrando as pequenas janelas de algumas delas como elemento da composição pictórica. As temáticas vão também variando, desde a representação da criança dilacerada pelo divórcio dos pais, de um lado, à representação da família feliz, do outro, como fez a Margarida Armindo, com figuras sem roupa “como vieram ao mundo, para mostrar como a pessoa verdadeiramente é.”

A porta da Soraia Pereira (que tem um autorretrato cheio de cores luminosas, “mas também um pouco de preto e cinzento, que eu também sou assim”) apresenta um lado negativo com figuras de vítimas de bullying e toxicodependência, e, entre elas, um vulto a tentar passar para o outro lado, agarrando-se ao vidro da porta: “Não tem cara, nem nada, só interessa que está a tentar passar para o outro lado.” E desse outro lado, a mão está a ser agarrada por uma figura, meio pessoa, meio árvore, com raízes fortes, “que representa a ajuda que a vai fazer nascer de novo, que é esta pequena árvore ao lado da grande.” A Carina Veríssimo mostra-me a sua porta: “O lado cor de rosa/encarnado era para ser o lado bom; mas fiz-lhe uns buracos, porque mesmo na infância, na nossa inocência temos coisas más. E depois passou a ser o lado mau, com aquele boneco verde a sair de um buraco, com malas – e eu não conheço o meu pai... Ali em baixo, aquele boneco é um monstro, é os medos das crianças. E as cores a escorrer representam a inocência ferida.” Fui ver o outro lado: são muitas mãos espalmadas, coloridas e “é o que as crianças gostam de fazer, pintar com as mãos, não quis fazer nada elaborado, só a simbologia.” À falta de espaço, acrescento apenas uma referência elogiosa a mais uma porta: a do Luís Ribeiro, mais abstrata, mas com enorme força expressiva, traços marcados a cores fortes, numa exuberância de formas que cobrem toda a superfície. A exposição está patente até ao dia 16 de Junho e merece bem uma visita.

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POESIA, FLORES E LIVROS, UM TEXTO INFINITO Margarida Amado

Se, como escreveu Umberto Eco, “os livros falam sempre de outros livros” e se, como escreveu Júlia Kristeva, “todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto”, também na poesia encontramos essa espécie de “texto

infinito”, feito de todos os poemas, os já feitos e os que estão para vir, como um labirinto que se vai sempre acrescentando. Em 1916, Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), que vive perseguido pela aguda consciência da morte, escreveu que preferia rosas e

Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude. Logo que a vida me não canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo. Que importa àquele a quem já nada importa Que um perca e outro vença, Se a aurora raia sempre, Se cada ano com a Primavera As folhas aparecem E com o Outono cessam? E o resto, as outras coisas que os humanos Acrescentam à vida, Que me aumentam na alma? Nada, salvo o desejo de indiferença E a confiança mole Na hora fugitiva. Cerca de 7 décadas depois, num livro publicado em 1991, Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), respondeu que preferia dálias, talvez por lhe terem sido “flores menos fugazes”, oferecendo-se ao seu “coração que as bebe/ sepultura que as devora”. E se lhes abrevia a morte, colhendo-as e colocando-as em jarras, elas não deixam de ser matéria para os seus poemas: Das flores, prefiro as dálias Talvez as dálias que mais vezes coloquei em jarras, quando cada ano voltavam, tenham sido por isso flores menos fugazes. Olharam-me, quando as vi de relance prontas para a colheita deste ano e para ornamentarem agora o meu coração que as bebe, sepultura que as devora. Pensei que eram flores comuns, meias-esferas de seca matéria, que atrai como toda a matéria, abelhas e poetas.

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magnólias aos valores da pátria e da virtude. Essas flores, símbolo do efémero, são de certa maneira o seu refúgio de grande indiferente contra o cansaço da vida que, fatalmente, passa:


UM FILME - TABU Francisco Fernandes

“Tabu” é um filme português de 2012, realizado por Miguel Gomes, que homenageia a obra homónima de F. W. Murnau, de 1931. A longametragem invoca constantemente características do cinema mudo dos anos 20/30, tanto na forma como foi gravada (em 16mm), como no invulgar formato de 4:3 ou no simples facto de ser a preto e branco. Embora a realização e a cinematografia do filme sejam notáveis, especialmente pela capacidade de recriação de um ambiente saudoso para os cinéfilos, a verdade é que “Tabu”, vencedor de inúmeros prémios em festivais e louvado pela crítica internacional, é uma obra no sentido completo da palavra. Desdobra-se em três partes—um Prólogo, a parte “Paraíso Perdido” e a parte “Paraíso”—e cultiva a sua narrativa, linearmente, através da flutuação nos anos perdidos da principal personagem, Aurora, uma idosa instável, que vive com a sua empregada africana. Aurora (Laura Soveral) recorre, ao longo da segunda parte, “Paraíso Perdido”, passada na Lisboa atual, à sua solitária vizinha Pilar (Teresa Madruga), para a salvar dos próprios devaneios. E Aurora é, de facto, a personagem maior em “Tabu” e que define o ambiente das duas partes. Na primeira, à semelhança de Aurora, paira um ar efémero de sonho, de congeminação fugaz. Este aspeto fundamental reflete-se, com maestria, na cinematografia e na arte do filme; na colocação de luzes para passar uma impressão de fantasia, ou na rotatividade de uma mesa de casino, enquanto Aurora conta um sonho a Pilar, para transmitir a ideia de fugacidade e divagação. Com o decorrer das circunstâncias, Pilar é levada a conhecer Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo), que lhe conta a história de vida de Aurora, com a qual a sua se confunde. E começa aí a terceira parte do filme, “Paraíso”, onde ocorre um transporte para o passado, para uma colónia portuguesa em África. É possível dizer que esta parte é a mais importante, por se explicar nela a essência de Aurora, e, consequentemente, de toda a segunda parte. Além disso, é com a terceira parte que o prólogo mais se identifica. No prólogo, o filme introduz o assunto definitivo da história: o amor de perdição, através da curta história de um “intrépido explorador”, que comanda um grupo de escravos na exploração dos longos campos africanos. Essa temática não é só uma tradição lusitana na literatura; em “Tabu”, a

atmosfera que se desenvolve pela ação direta ou indireta das personagens tem motivação no que é referido na longa-metragem como “o mais insolente músculo de toda a anatomia”, o coração. Contudo, não deixa de ser curioso que uma das principais figuras do filme, o crocodilo, seja comummente interpretado como agente do mal, da ausência do coração. Em “Tabu”, o crocodilo tem um significado essencial e que se estende desde o prólogo, passado há, pelo menos, um século, até à terceira parte, que se passa pouco antes do início da guerra do ultramar. O crocodilo é um agente neutro, mas inelutável, como um presságio fatalista—é a figura da inevitável consumação pestífera da tragicidade, ligado incontornavelmente à morte. Contudo, na mitologia egípcia, o deus crocodilo Zabek era sinal de fertilidade. E em “Tabu” existe também essa dualidade: o crocodilo de Aurora é ainda a principal ligação entre ela e o pai da sua filha, e, ao mesmo tempo, o homem com quem mantem uma relação extraconjugal. Mais uma vez, a forma como Aurora existe e é, delineia o ambiente da própria parte. Mas África não serve só como pano para o desenrolar da história trágica e marcante de Aurora. África, na inteligente ótica de Miguel Gomes, representa a credulidade dos tempos antigos, especialmente na forma como marcam a imagem dos personagens que lá habitaram, e na forma como o novo século e a nova vida, em Lisboa, é tristemente vaga. Através da exploração do filme mudo na terceira parte, o que é obviamente uma referência ao saudosismo, tanto dos personagens, como do próprio realizador, pelo antigo, da utilização de músicas dos anos sessenta e do mergulho

ingénuo de Aurora na inconsequente vileza do amor, África representa a calmaria, a bonança de uma vida abastada onde as coisas sabiam bem, onde a confiança era um suporte tangível e a imagem credível. E após essa África, esse “Paraíso”, nada restou no “Paraíso Perdido” a não ser a frustração existencial de Aurora e Gian Luca, a desconfiança e a vaguidade de um mundo a que não se pertence, porque não se o viu chegar, onde as coisas fogem e são urbanamente desatentas, onde não é possível parar para admirar uma paisagem, onde a imagem é fugidia, e que constitui um cemitério de lembranças, invadido pela decepção do passado e da paixão queimada. Não é por acaso que, para transpassar essa invasão, Gian Luca conte a sua história africana num jardim florestal. “Tabu” é um projeto incrível por várias razões. É um projeto para amantes de cinema e para espetadores comuns. Além de fazer uma homenagem preciosa a um clássico, garante sempre manter a sua identidade, porque não seria possível fazê-lo de outra forma. Aliás, parece-me que seria impossível fazê-lo se não fossem todos os componentes técnicos que invocam a década de trinta. É uma profunda história, que Xerazade contaria eventualmente ao Rei Shahriar, de amor de perdição, de existencialismo frustrado, mas sobretudo de imagem. E a imagem que fica é simples—África, nos anos sessenta, com colhedores de algodão a trabalhar melancolicamente num sol pesado, e as montanhas sob bruma lá ao longe.

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P&v junho16  

Revista P&V de Junho de 2016

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