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Edição nº 0

Dessossego

Fernando Pessoa

Um sábio não tem ideia

François Jullien entrevista com

Eduardo Refice


expedidente

Editores Flรกvia Pontes Giovana Giacomini Raquel dos Santos Talitha Matsuda Conselho Editorial Professora Rita Solieri

Projeto Grรกfico Flรกvia Pontes Giovana Giacomini Raquel dos Santos Talitha Matsuda

Fotos

Flรกvia Pontes


editorial

Iniciar um projeto editorial é um trabalho árduo e penoso, mas com muita vontade e garra iniciamos o processo de edição de uma revista virtual. Visivo vem para os apreciadores das artes visuais e todas as suas vertentes, vem para todos aqueles que procuram em suas revistas, um lugar onde possam se encontrar naquilo que mais gostam. Nós da Visivo temos compromisso com a qualidade e veracidade de nossas informações e procuramos passar sempre o que há de melhor para nossos leitores. Junto com o desenvolvimento de nossos meios de comunicação a Visivo acompanha todas as novas tecnologias, podendo ser lida da maneira que você preferir no meio virtual, e temos orgulho de dizer que nosso leitor sempre estará em primeiro lugar. Queremos Visivo como um canal sempre aberto para a participação e a colaboração de todos.


Ă­ndice

KOAN

Lugares imaginĂĄrios

18

22 As 10 bruxas

mais assustadoras do cinema

Eduardo Recif

34 Fotografias

46


SEÇÕES

Fernando Pessoa Desassosego

4

literatura

48

14

filosofia

19

artes

28

cotidiano

32

cinema

37

entrevistas

44

exposições

Tecnologia

30

fe

40


literatura

Fernando

Fernando Antônio Nogueira Pessoa Nasceu: Lisboa, 13 de Junho de 1888 Faleceu: Lisboa, 30 de Novembro de 1935 Profissão: poeta e escritor português Sobre: É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um “legado da língua portuguesa ao mundo”.

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o dPessoa o g e s s o s s a s e antes, o e sonho, ou unca durmo: viv bém m a dormir, que ta sonho em vida e

N

é vida. nsciência: ão em minha co Não há interrupç ainda, ou rca e não durmo sinto o que me ce nhar desm; entro logo a so se não durmo be que sou é durmo. Assim, o de que deveras imagens, senrolamento de um perpétuo de sempre de onexas, fingindo conexas ou desc mens e a postas entre os ho exteriores, umas s entre os erto, outras posta luz, se estou desp tou dorluz que se vê, se es fantasmas e a sem como disamente, não sei mindo. Verdadeir so afirmar da outra, nem ou tinguir uma coisa to, se não ando estou desper se não durmo qu quando durmo. estou a despertar

al a vertempo. Não sei qu Não sei o que é o uma. alg m te e ele tem, se dadeira medida qu e o tempo que é falsa: divid A do relógio sei oções sei em s r fora. A da especialmente, po po, mas m te o lsa: divide, não que também é fa ; nele da ra er é A dos sonhos a sensação dele. gadaon ol pr z , um na ve roçamos o tempo emos viv e qu o depressa, e mente, outra vez coisa r ue alq qu to conforme é apressado ou len . ro natureza igno do decorrer cuja e o teme tudo é falso, e qu Julgo, às vezes, qu para enque uma moldura po não é mais do recordação e é estranho. Na quadrar o que lh pos estão m te inha vida, os que tenho de m os, sendo is e planos absurd dispostos em níve s quinze certo episódio do eu mais jovem em anos solenes.

aranhou. lo que alguém em A vida é um nove nrolada e la, se estiver dese s absurdos, Há um sentido ne tão, pensamento . Mas, tal en m e be -m a am lad eg ro en Ch se um o, ou posta ao comprid via repelir. Penso lerolada é um prob e não consigo toda en qu er carro tiv es um se de , tá ro como es vagar dent sem , um embrulhar-se homem medita de rio is as óp ua pr ig lo o rã ve se no ma sem sa, penso se que segue depres no mar o onde. as com que caem velocidades identic na esplanae se desiquilibrou e já vou qu qu o is po ou ei, da er ici ev su cr is es sincrônicos os Sinto isso, e depo através almente não são , re do se an o qu ns r, Pe . ze da di sa esmo tempo, sonhando as frase que ocupam o m o com as nt s, ju to , en to im sin ov ir, m m -dor penso obscuda noite de meio fumo, escrevo e da chuva o ais íd qu ru os o s, tre go en va os paisagens de sonh . ramente. • mais vagos ainda os m ar rn to a , lá fora parque que nas alamedas do Era sem dúvida, u a vida. dia de que resulto se passou a tragé coisa; tra e desejavam ser ou Eram dois e belos . ro es no tédio do futu o amor tardava-lh Visivo

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literatura

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O Livro das Ignorãças Manoel de Barros Poesia 1

Poesia 2

Poesia 3

No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio. Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto. Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Hoje eu desenho o cheiro das árvores. Não tem altura o silêncio das pedras.

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave. Poesia é voar fora da asa.

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filosofia

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O virtual Jean Baudrillard | Senhas

Em sua acepção mais usual, o virtual se opõe ao real, mas sua subita emergência, pelo viés das novas tecnologias, dá a impressão de que, a partir de então, ele marca a eliminação, o fim desse real. Do meu ponto de vista, como já disse, fazer acontecer um mundo real é já produzi-lo, e o real jamais foi outra coisa senão uma forma de simulação. Podemos, certamente, pretender que exista um efeito de real, um efeito de verdade, um efeito de objetividade, mas o real, em si, não existe.

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filosofia

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O

virtual não é, então, mais que uma hipérbole dessa tendência a passar do simbólico para o real que é o seu grau zero. Neste sentido, o virtual coincide com a noção de hiperrealidade. A realidade virtual, a que seria perfeitamente homogeneizada, colocada em números, “operacionalizada”, substitui a outra porque ela é perfeita, controlável e não-contraditória. Por conseguinte, como ela é mais “acabada”, ela é mais real do que o que construímos como simulacro.

Não estamos mais na boa e velha acepção filosófica em que o virtual era o que estava destinado a tornar-se ato, e em que se instaurava uma dialética entre as duas noções. Agora, o virtual é o que está no lugar do real, é mesmo sua solução final na medida em que efetiva o mundo em sua realidade definitiva e, ao mesmo tempo, assinala sua dissolução. Chegando a esse ponto, é o virtual que nos pensa: não há mais necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas. Mas será que o virtual é o que põe fim, definitivamente, a um mundo do real e do jogo, ou

ele faz parte de uma experimentação com a qual estamos jogando? Será que não estamos representando a comédia do virtual, com um toque de ironia, como na comédia do poder? Essa imensa instalação da virtualidade, essa performance no sentido artístico, não é ela, no fundo, uma nova cena, em que operadores substituíram os atores? Ela não deveria, então, ser mais digna de crença que qualquer outra organização ideológica. Hipótese que não deixa de ser tranquilizante: no final das contas tudo isso não seria muito sério, e a exterminação da realidade não seria, em absoluto, algo incontestável. Mas, no momento em que nosso mundo efetivamente inventa para si mesmo seu duplo virtual, é preciso ver que isto é a realização de uma tendência que se iniciou há bastante tempo. A realidade, como sabemos, não existiu desde sempre. No virtual, não se trata mais de valor; trata-se, pura e simplesmente, de gerar informação, de efetuar cálculos, de uma computação generalizada em que os efeitos de real desaparecem. Mas podemos igualmente pensar que tudo isso não passa de um caminho mais curto para uma jogada que não podemos ainda discernir qual seja. •

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filosofia

KOAN Rubens Alves

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O

s mestres Zen eram educadores estranhos. Não pretendiam ensinar coisa alguma. O que desejavam era “desensinar”. Avaliações de aprendizagem? Nem pensar. Mas estavam constantemente avaliando a desaprendizagem dos seus discípulos. E quando percebiam que a desaprendizagem acontecera, eles riam de felicidade... Loucos? Há uma razão na loucura. “Desensinavam” para que os discípulos pudessem ver como nunca tinham visto. Nietzsche dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Ver é coisa complicada, não é função natural. Precisa ser aprendida. Os olhos são órgãos anatômicos que funcionam segundo as leis da física ótica. Mas a visão não obedece às leis da física ótica. Bernardo Soares: “O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”. É preciso ser diferente para ver diferente. Mas, e o “Ser”? Ele é feito de quê? “Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”, dizia Wittgenstein. O “Ser” é feito de palavras. Prisioneiros da linguagem, só vemos aquilo que a linguagem permite e ordena ver. A visão é um processo pelo qual construímos nossas impressões óticas segundo o modelo que a linguagem impõe. Então, para se ver diferente, é inútil refinar a linguagem, refinar as teorias. O refinamento das teorias só aumenta a clareza da mesmice. A pedagogia dos mestres Zen tinha por objetivo desarticular a linguagem, quebrar o seu “feitiço”. Com o que concordaria Wittengstein, que definia a filosofia como uma luta com o feitiço da linguagem. Quebrado o feitiço, os olhos são libertados dos “saberes” e ganham a condição de olhos de criança: vêem como nunca haviam visto. Está lá em Alberto Caeiro, que fazia poesia para que os seus leitores ganhassem olhos de criança...

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filosofia

A psicanálise é uma versão moderna da pedagogia Zen. Freud sugeriu que os neuróticos são pessoas “possuídas” pela memória, memória que as obriga a viver vendo um mundo da forma como o viram num dia passado. A memória nos torna prisioneiros do passado, não nos deixa perceber a “eterna novidade do Mundo”. Os neuróticos são prisioneiros da sua mesmice. Por isso, são confiáveis: serão hoje e amanhã o que foram ontem. A psicanálise é uma pedagogia da desaprendizagem. É preciso esquecer o que se sabe a fim de ver o que não se via. Se a terapia for bem-sucedida, se o paciente conseguir desaprender suas memórias, então ele estará livre para ver o mundo que nunca havia imaginado. Roland Barthes teve uma iluminação Zen na sua velhice. Na sua famosa “Aula”, ele diz, como “últimas palavras”: Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; vem, em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender. E ele concluiu: “Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia.”

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Os mestres Zen nada ensinavam. O seu objetivo era levar os seus discípulos a “desaprender” o que sabiam, a ficar livres de qualquer filosofia. Para isso eles se valiam de um artifício pedagógico a que davam nome de koan. Koans são “rasteiras” que os mestres aplicam na linguagem dos discípulos: é preciso que eles caiam nas rachaduras de seus próprios saberes. A psicanálise repete a mesma coisa: a verdade aparece inesperadamente quando acontece o lapsus, a queda, uma fratura do discurso lógico. Aí, nesse momento, a iluminação acontece. Abre-se um terceiro olho que estava fechado. Acontece o satori: o discípulo fica iluminado. Isso que estou dizendo os poetas sempre souberam. Poemas são koans, violências à lógica da linguagem para que o leitor veja um mundo que nunca havia visto. É por isso que a experiência poética é sempre um evento místico, de euforia. Não resisto à tentação de transcrever um trecho do poema de Vinícius de Moraes, “O operário em construção”. Tenho medo desse poema porque choro todas as vezes que o leio. Ele começa descrevendo a mesmice do mundo que o operário via no seu cotidiano, os pensamentos que ele pensava, as palavras que ele falava. Mas, de repente... •

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Um sábio não tem ideia François Jullien

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m sábio, estabeleceremos de saída, não tem idéia.

“Não ter idéia” significa que ele evita pôr uma idéia à frente das outras- em detrimento das outras: não há idéia que ele ponha em primeiro lugar, posta em princípio, servindo de fundamento ou simplesmente de início, a partir do qual seu pensamento poderia se deduzir ou, pelo menos, se desenvolver. Princípio, arché: ao mesmo tempo o que começa e o que comanda, aquilo por que o pensamento pode começar.

Uma vez ele colocado, o resto segue. Mas, justamente, aí está a cilada, o sábio teme essa direção imediatamente tomada e a hegemonia que ela Visivo

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instaura. Porque a idéia assim que é proposta faz as outras refluírem, nem que para vir depois a associá-las a si, ou antes, ela já as jugulou por baixo do pano. O sábio teme esse poder ordenador do primeiro. Assim, essas “idéias”, ele tratará de mantê-las no mesmo plano – e está nisso sua sabedoria: mantê-las igualmente possíveis, igualmente acessíveis, sem que nenhuma, passando a frente, venha a ocultar a outra, lance sombra sobre a outra, em suma, sem que nenhuma seja privilegiada. “Não ter idéia” significa que o sábio não está de posse de nenhuma, não é prisioneiro de nenhuma. Sejamos mais rigorosos, literais: ele não avança nenhuma. Mas é possível evitar isso? Como poderíamos pensar sem nada propor? No entanto, assim que começamos a avançar uma idéia, diz-nos a sabedoria, é todo o real (ou todo o pensável) que, de repente, recua: ou antes, eilo perdido atrás, será necessário tanto esforço e mediação, daí em diante, para se aproximar dele. Essa primeira idéia proposta rompeu o fundo de evidência que nos rodeava; apontando de um lado, este em vez daquele, ela nos fez pender para o arbitrário, nós fomos para este lado e o outro fica perdido, a queda é irremediável: ainda que depois reconstruamos todas as cadeias de razões possíveis, nunca escaparemos – aprofundaremos sempre mais, enterraremos sempre mais, sempre presos nas anfractuosidades e nas entranhas do pensamento, sem nunca mais voltar à superfície, plana, a da evidência.

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Por isso, se você desejar que o mundo continue a se oferecer a você, diz-nos a sabedoria, e que, para tanto, ele possa permanecer indefinidamente igual, absolutamente estacionário, você tem de renunciar à arbitrariedade de uma primeira idéia (de uma idéia posta em primeiro; inclusive aquela pela qual acabo de começar). Porque toda primeira idéia já é sectária: ela começou a monopolizar e, com isso, a deixar de lado. Já o sábio não deixa nada de lado, não deixa nada de mão. Ora, ele sabe que, ao se propor uma idéia, já se toma, nem que temporariamente, certo partido em relação à realidade: quem se põe a puxar um fio da meada das coerências, este em vez daquele, começa a preguear (plisser) o pensamento em certo sentido. Por isso, propor uma idéia seria perder de saída o que você queria começar a esclarecer, por mais prudente e metodicamente que o faça: você fica condenado a um ângulo de visão particular, por mais que se esforce depois para reconquistar a totalidade; e, daí em diante, não parará de depender dessa prega (plí), a prega formada pela primeira idéia proposta, de passar por ela; não parará mais, tampouco, de voltar a ela, querendo suprimi-la, e por isso de amarrotar de outro modo o campo do pensável – mas perde para sempre o sem pregas do pensamento. •

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arte

Lugares imaginári O tema desta edição traz três ilustradores que criaram cenários fantásticos e surrealistas inspirados nos textos de Von Grimmelshausen, Frank Baum e Ítalo Calvino

CENTRUM TERRAE

situada a cerca de 1500 qui Região superfície da Terra

, cujo acesso é feito p tradas mais conhecidas é pelo MUMMELSEE, mas di por lagos quantos dias do ano. Todas as passagens se que governa Centrum Terrae à maneira de uma abe espíritos da água mortais, mas vivem até trezentos an nem podem ser mortos:eles simplesmente desaparec zes de pecar e, portanto, não são atingidos pela ira de

Cada um dos lagos que dão acesso a Centrum Terra que se veste à maneira do povo do país onde se situ normalmente associada aos soberanos terrenos. Os l tro motivos principais: oferecer aos espíritos da águ ancorar os mares e oceanos do mundo, funcionando os mantêm no lugar; oferecer uma rede de reservas de Deus. A função dos espíritos que vivem neles é manter pérolas que ainda estão moles e se parece com ovos c

(Johann Hans Jakob Christoffel Von Grimmelshausen, De Teutsch, Nurembergue, 1668; Continuatio des abenteuerliche lben, Nurembergue, 1669)

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ios

ilômetros abaixo da

por vários lagos. Uma das eniz-se que há tantas entradas e encontram no palácio do rei elha rainha. Seus súditos são nos e não sofrem de doenças cem. Os espíritos são incapae Deus.

ae é dirigido por um príncipe ua o lago, mas sem a pompa lagos foram criados por quaua uma janela para o mundo; um pouco como pregos que e água; exprimir a vontade de r a terra úmida. Eles cultivam cozidos.

er abenteuerliche Simplicissimus Simplicissimi oder Schluss desse-

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arte

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CUTTENCLIP

ldeia de Quadling, em oz, cercada por muros altos pintados A com ornamentos azuis e rosa.

A única entrada é uma porta pequena na qual se lê este aviso: “Roga-se aos visitantes que andem com lentidão e cuidado e evitem tossir ou provocar qualquer corrente de ar”. A advertência é necessária porque toda a população da aldeia é de bonecos de papel vivos. Cuttenclip (que poderia ser traduzido por CorteRecorte) consiste de casas e ruas cortadas de papel colorido. A exceção é uma casa de madeira no centro da aldeia de papel. Trata-se da casa da governante e criadora da comunidade, srta. Cuttenclip, que vivia originalmente perto do castelo de Glinda, a Boa, no extremo sul de Oz; ela fazia bonecos de papel tão lindos que era uma pena que não tivessem vida. Glinda deu-lhe então papel vivo e todos os seus recortes passaram a pensar e falar. O problema é que esses bonecos eram carregados pela menor brisa. Glinda instalou então a srta. Cuttenclip numa área abrigada e construiu um muro em volta. Também protegeu a aldeia da chuva, para que o povo de papel não se danificasse ou dissolvesse. A srta. Cuttenclip é obviamente adorada por seus súditos; quando a vêem, ficam felizes de acenar seus lenços de papel e cantam o hino nacional, A bandeira de nossa terra natal.

(L. Frank Baum, The Emerald City of Oz, Chicago, 1910) Visivo

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arte

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Eudóxia

m Eudóxia conserva-se um tapete no qual se pode conE templar a verdadeira forma de cidade. À primeira vista, nada é tão pouco

parecido com Eudóxia quanto o desenho do tapete, ordenado em figuras simétricas que repetem os próprios motivos com linhas retas e circulares, entrelaçado por agulhas de cores resplandecentes, cujo alternar de tramas pode ser acompanhado ao longo de toda a urdidura. Mas, ao se deter para observá-lo com atenção, percebe-se que cada ponto do tapete corresponde a um ponto da cidade e que todas as coisas contidas na cidade estão compreendidas no desenho, dispostas segundo as suas verdadeiras intenções, as quais se evadem aos olhos distraídos pelo vaivém, pelos enxames, pela multidão. A confusão de Eudóxia, os zurros das mulas, as manchas de negro-de-fumo, os odores de peixe é tudo o que aparece na perspectiva parcial que se colhe; mas o tapete prova que existe um ponto no qual a cidade mostra as suas verdadeiras proporções, o esquema geométrico implícito nos mínimos detalhes. É fácil perder-se em Eudóxia: mas, quando se olha atentamente para o tapete, reconhecese o caminho perdido num fio de carmesim ou anil ou vermelho-amaranto que, após um longo giro, faz com que se entre num recinto de cor púrpura que é o verdadeiro ponto de chegada. Cada habitante de Eudóxia compa-

ra a ordem imóvel do tapete a uma imagem da sua cidade, uma angústia sua, e todos podem encontrar, escondidas entre os arabescos, uma resposta, a história de suas vidas, as vicissitudes do destino. wSobre a relação misteriosa de dois objetos tão diferentes entre si como o tapete e a cidade foi interrogado um oráculo. Um dos dois objetos – essa foi a resposta –tem a forma que os deuses deram ao céu estrelado e às orbitas nas quais os mundos giram; o outro é reflexo aproximado do primeiro, como todas as obras humanas. Há muito tempo os profetas tinham certeza de que o harmônico desenho do tapete era de feitura divina; interpretou-se o oráculo nesse sentido, sem dar espaço para controvérsias. Mas da mesma maneira pode-se chegar à conclusão oposta: que o verdadeiro mapa do universo seja a cidade de Eudóxia assim como é, uma mancha que se estende sem forma, com ruas em ziguezague, casas que na grande poeira desabam umas sobre as outras, incêndios, gritos na escuridão. • (Italo Calvino, Le città invisibili, Turim, 1972; As cidades invisíveis, trad. Diogo Mainardi, São Paulo, 1990)

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filosofia

Julio Cortázar

ada

Instruções para subir uma esc

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inguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar. As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela

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parte do corpo situada em baixo à direta, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé. Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Podese sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o memento da descida. •


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entrevista

Muito conhecido por suas colagens digitais, é um artista, ilustrador, tipógrafo e designer gráfico. Tem um site vasto, o Misprinted Type, e seus trabalhos são de cair o queixo, além disso ele disponibiliza várias fontes (criadas por ele) para download gratuito. Dentre seus clientes mais conhecidos estão: The New york Times, Entertainment Weekly, HBO & Showtime.

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Visivo: Você alguma vez já se sentiu inseguro ao fazer um job? Interpretar um briefing? Se sim, você acha que isso passa com o tempo? Eduardo Recife: Sim, muitas vezes percebo que nem sou a pessoa ideal para aquele projeto. E passo esta informação para o cliente. Prefiro perder um trabalho do que entregar algo que não satisfaça nem a mim nem ao cliente. Não acho que isto passe com o tempo, dificuldades vão sempre aparecer. Acho que com o passar do tempo você amadurece e percebe quando é hora de dizer não. Visivo: Você já trabalhou para agências, ou sempre teve seu próprio escritório? Eduardo Recife: Trabalhei em um escritório de design por 2 anos em 2000-2001. E apesar de ter sido um bom aprendizado, decidi sair e dedicar ao trabalho de freelancer… e é o que tenho feito desde então.

Visivo: Como você vê a carreira de Design hoje no Brasil? Eduardo Recife: Acho que hoje me afastei muito do design e acredito que trabalho hoje mais como um ilustrador. Nem me lembro da última vez que usei o Indesign ou fui acompanhar um trabalho na gráfica, mas acho que o mercado tem crescido e a sua aceitação também. Visivo: Quais dos designers e tipógrafos contemporâneos você mais admira (Brasil e exterior)? Eduardo Recife: Não tenho pesquisado muito sobre design ultimamente, mas gosto muito do trabalho da Marian Bantjes.

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entrevista

Visivo: Fale sobre seu processo criativo. Você segue algum modelo ou varia de trabalho para trabalho? Eduardo Recife: Não tenho um modelo e varia sim de trabalho para trabalho. Mas normalmente penso em um conceito e uma estética que tenha a ver com o projeto e começo a pesquisa por imagens. Visivo: Que hábitos você considera fundamentais para o estudante e profissional da área de design/artes visuais? Eduardo Recife: Acho que a prática e a experimentação são muito importantes. Hoje em dia todo mundo se interessa mais por ganhar dinheiro ou ser reconhecido, o que não é ruim, mas não devia ser a principal preocupação de quem trabalha com isto. Acho que o desenvolvimento e amadurecimento de uma linguagem própria e do trabalho em si, deveria ser a principal preocupação.

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“Hoje em dia todo mun ganhar dinheiro ou se que o desenvolviment uma linguagem própr deveria ser a principal


ndo se interessa mais por er reconhecido [..]. Acho to e amadurecimento de ria e do trabalho em si, l preocupação.”

Visivo: Como você trata a questão do direito autoral e onde consegue as imagens que usa nos seus trabalhos? Eduardo Recife: O direito autoral é um questão delicada. Logo quando comecei eu não me preocupava com isto, mas hoje em dia tomo mais cuidado; principalmente quando são trabalhos que vão ter uma grande circulação e visibilidade. Tive problemas uma vez com uma ilustração para o New York times, tinha usado uma imagem de um padrão de um livro e após ser publicada a ilustração a autora entrou em contato comigo dizendo que precisava pagar $250 pelos direito autorais. Podia ter sido pior. Mas enfim… acho que uma regra boa é usar o bom senso, também não adianta tentar usar somente imagens com permissão dos autores. Se fosse desta forma a colagem já teria morrido há muito tempo.

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entrevista

Visivo: O seu trabalho foi influenciado pelo Scott Makela e a geração Emigre? Eduardo Recife: Minha maior influência naquela época não foi da Emigre, mas de um coletivo que se chamava swanky. Eram vários tipógrafos jovens, que seguiam a linguagem da tipografia grunge dos anos 90. Foi meu primeiro contato com esta estética. Nem conhecia David Carson naquela época, mas fui influenciado por aquela estética. Acho que hoje as coisas perderam um pouco o valor. Naquela época quem fazia fontes era por amor mesmo. Não tinha muito reconhecimento e nem era algo lucrativo. Fui começar a vender algumas fontes quase 10 anos depois. •

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cinema

“10 Asas de morcego, 2 cascas de ferida, 5 aparas de unha de gato preto, veneno de cobra, sangue de dragão à vontade, 3 baratas e 2 minhocas, 1 chifre de bode… Coloque todos os ingredientes no caldeirão fervendo e sirva à meianoite de uma noite de lua cheia.”

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10 Bruxas

mais assustadoras do cinema

C

om o domínio de receitas malditas, as bruxas são retratadas no imaginário popular como figuras de índole ruim, experientes em magia negra e capazes de sequestrar criancinhas para seus rituais secretos. Sua existência está relacionada à Idade Média, o período onde o medo fazia com que as pessoas acreditassem no Diabo e associassem a uma maldição o simples fato de alguém questionar as tradições impostas pelo clero. Durante à Inquisição, principalmente no século XVII, muitas mulheres foram acusadas de bruxaria, linchadas e queimadas pela população, restando à imaginação retratá-las como seriam vistas nos séculos seguintes nas histórias infantis: feias, narigudas, usando um longo chapéu, roupas pretas, tendo na vassoura seu acessório de locomoção pelas noites.

dadeiros conceitos – vide wicca -, mostrando que elas não são adeptas da magia negra, mas favoráveis às energias da Natureza e todo seu misticismo.

Na literatura e no cinema, a sua conotação negativa foi intensificada. Histórias como “João e Maria“, “O Mágico de Oz“, “A Bela Adormecida” desenvolveram nas crianças a crença em sua existência como ensinamentos para evitar que andem sozinhas, não confiem ou aceitem doces de estranhos. Hoje em dia, a liberdade religiosa permitiu os ver-

O cinema de horror faz muito uso do tema. Desde o cinema colorido da Hammer, “Bruxa – A Face do Demônio“, “O Caçador de Bruxas“, até os filmes atuais, “Lenda Maldita“, “Caça às Bruxas“ e “Morte Negra” as bruxas sempre marcaram presença em produções interessantes, com seus feitiços perturbadores e sua aparência repugnante. Confira a seguir uma lista com as bruxas mais apavorantes do cinema e comemore seu Halloween ao lado delas!

“Quem é Bruxa?”, um dos bordões da famosa “Bruxa do 71“, do seriado Chaves, considerada umas das primeiras góticas da televisão, retrata bem a confusão gerada pela conotação negativa da personagem. Ainda que “Harry Potter” e seu Lorde Voldemort e “As Brumas de Avalon“, de Marion Zimmer Bradley, tentem abafar a trilogia sobre as bruxas “Mayfair”, de Anne Rice, e alguns filmes mais suaves sejam produzidos – “Convenção das Bruxas“, “Jovens Bruxas“, “Abracadabra“, “As Bruxas de Salem“, “As Bruxas de Eastwick“, “O Pacto“, “Elvira – A Rainha das Trevas” – elas sempre são vistas como pessoas maléficas e assustadoras. Ter medo de fantasma, zumbis, lobisomens ou monstros em geral necessita da crença no bizarro associado ao sobrenatural, mas bruxas existem, são pessoas comuns que praticam magias, ainda que haja duvidas de sua eficácia.

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cinema

10 Fúria de Titãs (Clash of Titans, 1981) – Aventura sobre o mito de Perseu e sua batalha contra a Medusa e o gigantesco monstro Kraken para salvar a princesa Andromeda. Os efeitos do remake não superam o charme do original a cargo de Ray Harryhausen, nem muito menos o elenco, os personagens bizarros como as bruxas cegas – Stygian – que surgem para atrapalhar o herói, obrigando-o a roubar seus olhos.

bruxa Claudia Hoffman, cujo ponto alto é sua maquiagem de velha e a interpretação soberba.

7 9 A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy

Hollow, 1999) – Este filmaço de Tim Burton traz uma história de horror gótico sobre o personagem título que caça as cabeças, seguindo a orientação daquele que possui seu crânio. Poderia passar despercebido nesta lista de filmes se não houvessem duas bruxas assustadoras, uma extremamente inteligente e dominadora, e outra, residente numa floresta morta, com aspecto sombrio, cujos olhos saltam de sua face diante do personagem de Johnny Depp.

8 Floresta Negra (Snow White: A Tale of Te-

rror, 1997)– Sabe aquela história da Branca de Neve? Já imaginou se a narrativa elevasse os elementos sombrios, deixando de lado toda a magia Disney numa trama de horror? Assim é “Floresta Negra“, uma produção de época com a mesma ideia do clássico infantil, tendo como destaque Sigourney Weaver, vivendo a terrível

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Viy – Espírito do Mal (Viy or Spirit of Evil, 1967) – Com efeitos risíveis, esta produção russa aborda uma famosa lenda local sobre uma bruxa, Pannochka, que depois de espacanda se torna uma bela moça e tenta se vingar de seu algoz durante três noites, envocando criaturas bizarras, incluindo o demônio Viy. Apesar da baixa qualidade técnica, é interessante a ousadia dos realizadores em fazer a bruxa voar, além dos monstros que surgem para atacar o seminarista Khomá no final.

6 Olhos de Fogo (Eyes of Fire, 1983) – Outra produção paupérrima que reflete bem o climão dos filmes antigos numa história de bruxaria bem criativa e interessante. Depois de expulsos de uma cidade, um padre e alguns seguidores se estabelecem numa floresta entre ruínas e são obrigado a enfrentar a fúria de entidades maléficas do local, sob o domínio de uma terrível bruxa.


5 Pumpkinhead – A Vingança do Diabo / San- 2 A Bruxa de Blair (Blair Witch Project, 1999) – gue Demoniaco (Pumpkinhead, 1989) – Depois que tem seu filho morto acidentalmente por um grupo de jovens, pai busca ajuda de uma bruxa para trazer um demônio vingativo. Ainda que a produção seja sobre a tal criatura que surge para eliminar aqueles que foram amaldiçoados, é impossível não se lembrar da assustadora bruxa com seu aspecto que remete ao próprio Pumpkinhead, tanto que a capa do DVD americano é ilustrada por seu rosto macabro.

3 A Máscara de Satã (Black Sunday, 1960) – Esse clássico em preto-&-branco de Mario Bava não poderia ficar de fora desta lista, principalmente por trazer Barbara Steele na atuação que lhe daria o título merecido de Scream Queen. Desde a cena inicial, quando ela é condenada à morte e tem a marca do demônio queimada sobre suas costas, e seu rosto cravado por uma máscara com pregos até o momento em que ressurge ao lado de seu irmão Igor Javutich – numa cena incrível -, é impossível não sentir calafrio com seus olhos expressivos e sua feição maléfica.

Alguns infernautas irão criticar a presença desta produção nesta lista, dizendo que o filme não tem bruxa…blá blá blá. Pois este longa que deu origem ao Boca do Inferno é, sem dúvida alguma, uma das produções com mais elementos sobre o tema do que o infernauta possa imaginar. Não há a presença física, mas o terror psicológico está presente a todo momento, fazendo com que o público (pelo menos, aquele que se envolve com a trama) sinta a presença da tal bruxa, sendo em seus rituais na floresta, nos sons assustadores da noite, nas marcas deixadas pelas vítimas ou na cena final.

1 Suspiria (1977) - Dario Argento é responsável

pela trilogia das mães – “Mãe dos Suspiros“, “Mãe das Trevas” e “Mãe das Lágrimas“, gerando três belos filmes de horror com elementos de bruxaria. O filme de abertura é simplesmente o melhor dos três, um clássico absoluto com cenas de violência gráfica e momentos antológicos. Trata-se de “Suspiria“, sobre a jovem Suzy Bannion, que vai para a Alemanha aprimorar seus estudos de dança numa academia, sem saber que o local é um covil de bruxas, lideradas pela terrível Helena Markus, fundadora da escola.

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