a product message image
{' '} {' '}
Limited time offer
SAVE % on your upgrade

Page 1


Capítulo 1 A Velha Molambenta

Ela chegou da janela do sobrado e fez uma carranca. Olhou para o relógio da igreja e viu que já havia se passado dois minutos do meio dia. A Velha Molambenta já estava bem longe. Aquela era a trigésima quinta vez que Selminha observava a pontualidade daquela velha lerda e mal-cheirosa que passava pela rua sempre naquele horário, cantando, com a sua voz rouca, cantigas que ela nunca conseguia decorar. Saiu da janela e foi conferir as horas no antigo relógio pendurado na parede da sala. Percebeu que o relógio da igreja estava certo.

Por um motivo qualquer o Toninho se

esquecera dos sinos. “Não poderei mais confiar naquela lesma”. — Pensou Selminha desconcertada, indo pegar o seu agasalho vermelho de listras pretas que havia deixado sobre o canapé da tia Francisca minutos antes do almoço. Depois foi até a cozinha e falou apressadamente com a cozinheira Chiara, que estava entretida com as suas louças e panelas: —Diga a minha mãe que fui até à casa paroquial. — disse, fazendo menção de sair, mas retornou ao ouvir a voz de sua tia Francisca que surgira de dentro da despensa com seus cabelos ruivos emaranhados, dizendo: —Não pise na calçada da casa do Judas. Selminha olhou para a cozinheira e depois se aproximou de Francisca. —Onde está mamãe? — perguntou Selminha a sua tia. Então Francisca olhou para os bolsos de seu casaco de lã e levantou os pés do chão como se estivesse procurando algo. Depois disse com seu jeito infantil: 2


—Não está comigo. Talvez eu a tenha colocado dentro do saco de feijão por engano. Espere que vou ver se consigo tirá-la de lá. Selminha sorriu e depois segurou na mão magra e branca de Francisca. —Não tem importância, tia. — disse Selminha — Mamãe sabe como sair de dentro do saco de feijão. Pode deixar que ela se vira. Francisca abaixou a cabeça timidamente e sorriu. —Tem certeza disso? — sussurrou ela como se estivesse tentando impedir a cozinheira de escutar a conversa. —Claro! Não se preocupe. — então Selminha abraçou ternamente a tia e depois lhe beijou a face rosada — Quando ela sair de dentro do saco de feijão, — continuou — diga a ela que fui à casa do padre, tá bom? Francisca concordou com a cabeça e depois sorriu satisfeita por ter sido incumbida de fazer algo. Selminha saiu de casa e subiu a ladeira da igreja. No caminho, avistou Zé Jeromo e não perdeu tempo: —Zé Jeromo, bebão! — provocou ela. O bêbado fez uma careta e disse rispidamente: —Bebo é eu e tonto é ocê! — ele sempre respondia da mesma forma a todos que o insultavam na rua. Selminha riu do bêbado e foi para a casa paroquial. Dona Clarinda estava terminando de encher de brasa o ferro de passar. Segunda-feira era dia de cuidar das roupas. —Boa tarde, Dona Clarinda! — disse Selminha ao entrar — Onde está o Toninho?

3


—Ainda não vi aquele pirralho hoje. Deve ter acordado bem cedo pra vadiar na rua e até agora não voltou para casa. — disse Clarinda mal-humorada — vai levar uma tremenda sova quando chegar. Não almoçou e nem tocou o sino do meio-dia.

Padre Jonas vai

excomungá-lo! Selminha ficou intrigada. Talvez o mau humor de Dona Clarinda a impediu de analisar o sumiço do filho. Toninho era uma lesma, mas nunca havia deixado de cumprir suas obrigações na igreja. —A senhora não acha tudo isso muito estranho? — perguntou Selminha como se quisesse acordar Dona Clarinda daquele transe causado pelo mau humor. —Estranho é eu nunca ter sido dura o suficiente com aquele moleque irresponsável. Ah, deixa ele... Quando eu puser as mãos naquele corpo magrelo... Selminha deu com os ombros e saiu para a rua. Tentava imaginar o que poderia ter acontecido com o seu melhor amigo. Lembrou-se que no dia anterior fizeram novos planos para descobrir o mistério da Velha Molambenta. Há mais de três meses que eles observavam as atitudes estranhas da velha e queriam a todo custo descobrir o seu grande segredo. Tudo começou quando Chiara, a cozinheira, contou uma história sobre o Coronel Asa de Cobra, um português que possuía uma vasta extensão de terras e que lutou contra os puri-coroado e deles tomou toda a região onde mais tarde seria erguida a cidade de Muniz Freire. Segundo Chiara, havia bem debaixo da praça do Divino Espírito Santo uma câmara secreta que fôra construída pelo malvado coronel e que em algum lugar da praça, havia uma passagem que dava para a misteriosa câmara. Diziam que a tal Velha Molambenta era a única pessoa que sabia onde estava a passagem. Isso foi o bastante para que Selminha e Toninho se empenhassem em se aproximar da velha.

4


Selminha caminhava pelas ruas da cidade e tentava encontrar uma explicação para o sumiço do amigo. “Será que ele tomou coragem de seguir a Velha Molambenta sozinho?” “Danado! Será que ele fez isso e não me chamou?” Ela estava cada vez mais nervosa com as suas desconfianças. Andou mais rápido e decidiu ir atrás da velha. Olhou para o relógio da igreja e viu que já havia se passado vinte minutos do meio-dia. Sabia que a Velha Molambenta sempre parava no bar do Bidal para comer pastel velho. Correu até lá, mas ela já tinha ido embora. —Acabou de sair, Selminha. — disse Bidal lá de dentro da cozinha. Ela saiu chispando dali e foi em direção ao Caparaó, lugar onde supostamente morava a velha. Correu o mais rápido que pôde e de longe a avistou com seu imenso saco de bugigangas. Tomou coragem e gritou bem alto: —Ei, dona! Mas a velha não olhou para trás, continuou a arrastar-se em passos lerdos. Selminha estava disposta a perder o fôlego, mas não ia deixar de falar com ela. Correu ainda mais rápido. —Ei, senhora! — chamou Selminha com a voz cansada. O suor escorria pelo rosto rosado. A velha então parou, mas não olhou para trás. Apenas tossiu duas vezes e depois escarrou num gesto asqueroso e impaciente. —A senhora poderia me dar um minuto da sua atenção? — perguntou Selminha tentando ser gentil, mesmo não tendo idéia de como deveria tratar aquela mulher esquisita. Então a velha virou-se de frente para ela e sorriu. Se bem que aquele sorriso mais parecia um esgar de um daqueles bonecos de madeira feitos pelo sr. Virgilino. Dois ou três 5


dentes podres apareciam no meio daquela bocarra murcha e gosmenta que recendia ovo podre. Mas aquela feiúra fedida não causou tanto desespero em Selminha quanto a aproximação lenta e ameaçadora da velha. As pernas da menina começaram a tremer e naquele momento não havia como escapar. O suor escorria ainda mais insistente e o único movimento que ela pode fazer foi fechar os olhos e imaginar como seria o seu fim. “Ela vai me devorar... Ó meu Deus...” “Não! Ela não tem dentes suficientes para me comer” “Talvez então ela me engula inteira como fazem certas cobras... Com aquela bocarra e aquela pança não poderia ser de outra forma. Ela vai me engolir...” “Preciso fugir... mas como?” Selminha sentia a aproximação da velha e aquele fedor insuportável chegava até suas narinas aumentando o seu desespero. Mesmo de olhos fechados, ela sabia que a Velha Molambenta estava bem próxima. Ela começou a sentir aquela mão fedorenta subindo em direção do seu rosto. “Como não pensei nisso antes? — pensava Selminha em desespero — “Ela vai me estrangular... Ó meu Deus!” Mas para a sua surpresa, Selminha sentiu um leve toque na sua face esquerda. Tão delicado que parecia ser o toque das mãos de sua querida tia Francisca. Ela então tomou coragem e abriu os olhos. Ainda estava desesperada. A Velha Molambenta acariciou a face suada de Selminha e depois pegou delicadamente em seu cabelo. Selminha olhava atônita para o semblante admirado da Velha e percebeu as lágrimas que escorriam pela face suja e sulcada. —Po-por que a senhora está chorando? — balbuciou Selminha. 6


—Não deveria existir beleza e juventude neste mundo. — disse a velha se afastando e ficando de costas para a menina. Selminha ficou calada, esperando a próxima reação dela. —O que um anjo poderia querer com um monstro como eu? — perguntou a velha. —Estou procurando meu amigo Toninho. Pensei que a senhora pudesse ter notícias dele. —Não sei quem é o seu amigo e nem tão pouco do seu paradeiro. O que te faz pensar que eu tenho a solução para o seu problema? —Ta-talvez seja pelo fato da senhora estar sempre pelas ruas. —Estar sempre nas ruas não significa ser obrigada a saber da vida de pirralhos mimados. Selminha respirou profundamente e tomou coragem para falar a verdade: —Toninho estava a sua procura e por isso achei que a senhora soubesse dele. Então a velha virou-se para ela e com o semblante assustado disse: —Como é o seu amigo? —Baixinho e magrinho. Tem o cabelo loiro e as... —...faces sardentas. — completou a velha. —A senhora o viu?! — perguntou Selminha animada. Ela pigarreou e depois cuspiu novamente no chão. —Ele me seguiu ontem a noite e veio me fazer perguntas cujas respostas eu não podia dar. —E o que aconteceu depois? —Ele insistiu e disse que tinha feito uma aposta. —Que tipo de aposta? 7


—Disse-me que havia apostado com uma amiga que ele conseguiria descobrir antes dela o caminho para a tumba do Coronel Asa de Cobra. “Danado!” —E a senhora contou a ele o segredo? —Quem foi que disse que eu sei do segredo? —Chiara, a cozinheira lá de casa. —Chiara?! — murmurou a Velha Molambenta. — Quer dizer que você é filha de Cecília? —Sim. Minha mãe se chama Cecília, filha de Henrique e irmã de Francisca. —Francisca dos Cabelos Vermelhos? —Sim. A senhora a conhece?! — perguntou Selminha assustada. E um longo silêncio se fez entre elas. —Há muitos anos fomos amigas... — disse finalmente, a Velha Molambenta — Mas um desastre nos separou para sempre. —O que aconteceu?! — Selminha estava surpresa com aquela revelação. —É uma longa e antiga história que talvez não deva ser contada a uma criança como você. —Por que não? Já tenho 10 anos, viu? A velha estava indecisa. Pigarreou mais uma vez, andou vagarosamente de um lado para o outro e depois decidiu: —Venha comigo que eu te contarei toda a história. —Para onde vai me levar? —Para o mesmo lugar onde levei o seu amigo curioso.

8


Selminha sentiu um calafrio percorrer todo o corpo. Estava ao mesmo tempo amedrontada e seduzida pelo convite da Velha Molambenta. Não conseguia confiar completamente naquela mulher feiosa, mas a sua curiosidade era maior do que a sua desconfiança e seu medo. Ela precisava ouvir a história sobre o passado de tia Francisca e mais ainda de saber onde estava o seu amigo Toninho. —Vamos, então! — disse Selminha tentando ser firme. A Velha Molambenta fez um estranho sorriso e começou a caminhar em direção ao morro do Caparaó. Selminha a seguiu em silêncio.

Tiveram de subir até o alto do morro. A Velha Molambenta morava num casebre de madeira, fedido e mal-arrumado como ela mesma, que ficava bem na beira de um barranco íngreme e bastante alto. Lá de cima dava para ver boa parte da cidade. Selminha ficou parada admirando a paisagem, enquanto a Velha Molambenta abria a porta do casebre. —Não tem medo de morar aqui em cima? — perguntou Selminha. —Não tenho medo de nada, meu anjo! — disse a velha abrindo a porta e fazendo sinal para Selminha entrar na frente. Selminha entrou e viu que o interior daquela casa curiosamente era bem arrumado e asseado. Selminha ficou surpresa. Parecia que ali dentro era três ou quatro vezes maior do que havia imaginado quando olhara o exterior. Ela caminhou pela sala e observou atentamente toda a mobília e objetos de decoração. Não conseguia entender aquele contraste. Era como se tivesse entrado em outro lugar por engano. Olhou para as janelas de madeira e percebeu que

9


todas estavam fechadas. Foi até uma delas e fez menção de abri-la, mas foi impedida. Selminha olhou para trás e se assustou com a nova aparência da Velha Molambenta. —O que aconteceu?! — perguntou Selminha assustada. — Quem é você? O que antes era uma velha mal-vestida, suja e sem educação, agora havia se transformado numa senhora distinta, de penteado impecável e roupas mais limpas que os lençóis do Padre Jonas. —Seja bem-vinda a minha casa, querida Selminha! — disse a Velha Molambenta em sua nova aparência — Pode me chamar de Filomena. —Como fez isso?! — perguntou Selminha. — Por acaso a senhora é uma bruxa? Então Filomena sorriu e depois segurou delicadamente nas mãos de Selminha. —Venha, meu anjo! Vamos nos sentar. Tenho muita coisa para te contar. — disse Filomena levando Selminha para um dos sofás da sala. —Por que mantém as janelas fechadas? — perguntou Selminha ao se sentar. —Aqui dentro é um mundo à parte. É onde eu consigo ser eu mesma. Por isso evito abrir as janelas para que o mundo de fora não macule o meu mundo real. —O que quer dizer com isso? Então Filomena suspirou de tristeza e depois disse cabisbaixa. —Fui condenada a ser um monstro aos olhos dos outros por ter sido pouco obediente e demasiadamente corajosa. —Não consigo entender as suas palavras como também não entendo o que vejo aqui dentro desta casa. —Vou começar então a falar sobre o meu pai, o Coronel Asa de Cobra. Logo você vai entender tudo.

10


Capítulo 2 O Coronel Asa de Cobra

—Meu pai foi um dos primeiros estrangeiros a chegar por estas terras por volta de 1820. — começou Filomena — Aqui viviam os puri-coroado, índios bravios com os quais meu pai lutou durante muitos anos para a aquisição destas terras. E foi durante as batalhas com a tribo puri, que eu nasci. Selminha prestava muita atenção nas palavras de Filomena. A desconfiança e o medo haviam desaparecido por completo. A nova aparência da Velha Molambenta era encantadora. —Aos 17 anos, tive o meu primeiro contato com os índios. — continuou Filomena — Foi num dia em que passeava sozinha pelas redondezas da fazenda de meu pai que o índio Caramaduza me abordou, rasgou um pedaço de meu vestido e o fixou com uma flecha no tronco de uma árvore, para servir de mensagem ao meu pai. Levou-me em seguida como prisioneira para a sua taba. Mais tarde, pude entender e perdoar Caramaduza pelo seu ato. Os índios me aprisionaram como última tentativa de salvar o Largo dos Macucos, uma área sagrada para eles, onde estavam as plantas medicinais que curavam as doenças da tribo. O Largo dos Macucos era a única área de terra que meu pai ainda não tinha conquistado. —E os índios machucaram você? — perguntou selminha cada vez mais interessada naquela história. —Na verdade, não sofri nenhum tipo de agressão. Eles me colocaram numa oca, junto com quatro índias, que me vigiavam ininterruptamente ao mesmo tempo em que cuidavam de mim, dando-me comida entre outros cuidados. Fiquei aprisionada durante três meses e nesse

11


período as batalhas entre meu pai e os puri cessaram, pois, sabendo que eu estava sob o poder dos índios, o coronel decidiu cessar as batalhas para preservar a minha vida. —E como você conseguiu sair de lá? Então Filomena sorriu e depois disse com uma espécie de orgulho: —Eu não saí. —Como assim?! —Durante o tempo em que fiquei aprisionada, fui aprendendo o idioma puri e aos poucos me tornei amiga dos índios. Pude então descobrir através deles todas as atrocidades cometidas por meu pai. E o sorriso de orgulho deu lugar as lágrimas na face de Filomena. —Depois de descobrir o que os índios haviam sofrido nas garras de meu pai, resolvi lutar com eles. —Quer dizer que você lutou contra o seu próprio pai?! — Selminha estava eufórica. Filomena tornava-se para ela uma heroína. —Na verdade não foi uma batalha, mas um plano para fazer com que o coronel deixasse de ser tão cruel. —Que plano? Filomena então olhou para Selminha e novamente o sorriso se estampou no seu rosto. —Combinei com Caramaduza o seguinte plano que mais tarde pusemos em prática: primeiramente o Coronel deveria ser raptado e levado para a floresta. O plano era fazer com que ele morresse sem morrer de verdade. —Como assim?! —Meu pai deveria achar que ele estava morto, entendeu? —Ainda não. 12


—O Pajé da tribo puri sabia preparar uma bebida que fazia as pessoas ter a sensação de morte iminente. E esse chá foi dado a meu pai na floresta, depois que ele foi raptado. Ele tomou o chá à força e sofreu com o efeito da droga até desmaiar, achando que estava morrendo. Depois foi levado para uma caverna, próxima à taba, previamente preparada para sugerir a sensação de estar no purgatório. Selminha então começou a entender o propósito daquilo tudo. —Preparamos labaredas na caverna e também muitos disfarces para os índios. — continuou Filomena — Eu também usei um disfarce e ainda treinei uma voz masculina para fazer o papel de juiz. Meu pai ficou dentro de uma jaula suspensa feita de madeira. Construímos um purgatório fictício para o Coronel Asa de Cobra. —E o que aconteceu quando ele acordou? —Ele foi levado para a caverna ainda sob o efeito da droga e quando ele acordou, já estava tudo preparado para o grande julgamento. Não tinha como ele desconfiar de nada. Selminha então começou a rir. —Pode parecer engraçado, minha querida, mas não é. — disse Filomena — Fiz então o julgamento do meu próprio pai — continuou — e o obriguei a se lembrar de todas as maldades que ele cometera. Depois o sentenciei a vida eterna no inferno para que ele pagasse pelos seus erros. Foi a primeira vez que vi meu pai se humilhar. Ele chorou feito uma criança, pedindo perdão por tudo o que havia feito, sem nem ao menos desconfiar de que aquilo tudo era uma farsa. —E o que aconteceu com ele depois disso? —Nós o deixamos sozinho na caverna por três dias e três noites. Sem comida e sem água. Depois retornamos com as nossas fantasias e lhe demos uma segunda chance. —Como assim?! 13


—Fizemos-lhe a seguinte proposta: Ele teria mais uma chance de voltar a viver e reparar todo o erro que cometera, deixando de perseguir os índios e dando-lhes o direito de permanecerem em suas terras. Só desta forma que ele poderia se livrar da eternidade no inferno. —E ele aceitou a proposta? —Ora, minha querida Selminha!

Depois de três dias sem comer e sem beber,

aprisionado numa caverna escura e fria e ainda com medo de ir para o inferno, qualquer proposta é aceita. —E como vocês fizeram para libertá-lo da caverna sem que ele desconfiasse? —Nós lhe demos mais uma dose da bebida preparada pelo Pajé e depois o deixamos na floresta. —E ele cumpriu com a promessa? —Cumpriu até descobrir toda a farsa. —Mas como ele descobriu?! —Meses depois, numa de suas caçadas na floresta, descobriu sem querer a caverna onde havíamos encenado o purgatório. Selminha então arregalou os olhos. Era como se ela também tivesse culpa naquela farsa. —O ódio do Coronel aumentou depois da descoberta — disse Filomena — A sua maldade era ainda maior do que imaginávamos. No momento em que descobriu a farsa, ele evocou todo o mal do mundo e vendeu a sua alma em troca de uma vingança jamais imaginada. —O que ele fez? — perguntou Selminha assustada.

14


Filomena então se levantou e caminhou desalentada pela sala. Depois, como se tivesse encontrado a solução para um problema doloroso, foi até a sua estante de livros e pegou um pequeno livro encardido. —Não ouso contar o desfecho desta história. Não conseguiria pronunciar uma só palavra dessa tragédia. Tome este livro que eu mesma escrevi e descubra você mesma. — disse Filomena entregando o livro a Selminha.

15


Capítulo 3 A Maldição do Coronel

Selminha abriu o livro e começou a ler a terrível história da vingança do Coronel Asa de Cobra: “A maldade é companheira inseparável da vingança. É rainha suprema da alma dos biltres. Se alimenta do ódio dos perdedores e da inveja dos fracos. Mas a maldade é ainda mais poderosa quando se torna dona não só da alma, mas também do corpo. Desta forma ela é capaz de agir por conta própria e realiza desastrosas façanhas capazes de destruir o mundo. E foi assim que aconteceu com o malvado Coronel Asa de Cobra: ao evocar para si toda a maldade do mundo, viu a sua vontade sucumbir e dar lugar ao insaciável Poder Destrutivo. Por estas terras nunca houve e jamais haverá tamanha proeza. Nem mesmo o mais terrível monstro criado pela imaginação humana seria capaz de promover algo tão inacreditável. Após sair da caverna do purgatório, Coronel Asa de Cobra percebeu que não era mais o mesmo. A evocação não fora somente um ato de extremo desespero por ter sido enganado e humilhado por aqueles que ele odiava. Ele podia sentir algo formigando por todo o seu corpo como se em suas veias corresse lava incandescente ao invés de sangue. O mal havia tomado conta de seu corpo e naquele momento, ele nem desconfiava do que sua intenção era capaz de fazer. Em sua mente muitas coisas se confundiam. Ele queria uma vingança maior do que o seu ódio. Matar os inimigos não era o bastante.

16


—Indolor é a morte dos meus inimigos! — vociferava o Coronel pela floresta afora — Vingança é o meu nome! A Maldade agora é a minha mãe! Ele abandonou seus companheiros de caça e seguiu em direção a taba puri. Algo lhe dava a certeza de que nada poderia impedi-lo de realizar sua vontade. Entrou na taba e não foi visto por ninguém. Procurou pelo cacique Caramaduza e foi encontrá-lo sozinho em sua oca. Caramaduza se assustou com a aparição abrupta de Asa de Cobra, que logo foi dizendo: —Eu condeno a sua alma a abrigar todos os meus inimigos. — sentenciou o coronel, dominado pela Maldade — De hoje em diante suas terras me pertencem e não mais haverá puri-coroado pisando neste mundo. Vivam todos eternamente aprisionados na alma do meu maior inimigo. E eternamente o seu corpo existirá. E eternamente os seus olhos ficarão fechados para o mundo. Durma, vil criatura! Seu povo pisará eternamente em sonhos. Se alimentará eternamente de vagas lembranças e viverá eternamente no engodo. Sim! Engodo é o nome do seu novo mundo. E desta forma Caramaduza caiu desfalecido e levou consigo todos os índios de sua tribo que foram condenados a viverem eternamente aprisionados na sua alma. Asa de Cobra gargalhava satisfeito. Mas a sua alegria terminou ao ouvir a voz da sua filha Filomena: —O que você fez com Caramaduza?! — disse Filomena assustada ao ver o corpo do cacique estirado no chão. —Pensei que estivesse morta! — disse ele admirado. —Na verdade preferia nem ter nascido para ter de chamar alguém tão sujo de pai. — revidou Filomena. 17


Dos olhos do Coronel saíam faíscas. —Como ousa falar assim?! Por acaso esteve do lado destas criaturas? —Sim! — disse ela com firmeza — Agora faço parte desta tribo. Por eles deixo de ser sua filha. —Não posso acreditar no que minha intuição me diz neste exato momento! Seria possível uma filha ser tão dissimulada com o próprio pai?! Seria possível um ser humano enganar e humilhar com tamanha frieza alguém do próprio sangue?! Como ousa me desafiar desta forma? Como pode ser tão petulante a ponto de me enganar com suas fantasias? —Eu o desprezo! Então o Coronel teve a certeza de que Filomena fizera parte da farsa do purgatório. Não podia resistir ao desejo intenso de castigá-la tão severamente quanto havia castigado o cacique e seu povo. Ergueu sua mão direita e amaldiçoou também sua própria filha: —Que a sua juventude e beleza jamais voltem a ser vistas por olhos humanos. Você viverá sozinha e infeliz por toda a eternidade e se algum dia você se arrepender do que fez com o seu próprio pai, cairão de seus olhos lágrimas de sangue e a sua boca amargará de tal forma que desejará a morte mais dolorosa. Está condenada à feiúra e ao desprezo. A maldade contra aqueles que você deveria ajudar, será o único antídoto para a sua desgraça. E ao dizer essas palavras, o coronel viu sua filha se transformar numa velha medonha e mal cheirosa. Depois de aprisionar os puri dentro da alma de Caramaduza, O coronel mandou construir no Largo dos Macucos uma câmara mortuária subterrânea, onde colocou secretamente o corpo do cacique. Décadas depois, foi construído sobre o Largo dos Macucos o povoado onde mais tarde se tornaria a cidade de Muniz Freire. E quanto a Filomena, a filha do Coronel Asa de Cobra, nunca mais houve notícia. 18


Selminha fechou o livro e depois viu Filomena chegar com uma bandeja onde trazia chá e biscoitos. —Como poderei acreditar em algo tão absurdo? — perguntou Selminha. Filomena então se sentou do lado da menina e começou a servir o chá. —O mundo nem sempre é como a gente imagina, minha querida. — disse Filomena entregando uma das xícaras a Selminha. — Você é jovem demais para entender o poder da Maldade. —Não posso acreditar que um povo inteiro possa ser aprisionado na alma de um índio. E muito menos que eu possa conversar com alguém que já viveu mais de um século e que aparenta ter menos da metade. —Eu ainda nem comecei a viver a aurora da minha eternidade. — disse Filomena sorvendo o chá quente — Fui condenada a viver para sempre na solidão. —E quanto a minha tia Francisca. O que ela tem a ver com toda essa história? Então Filomena colocou a xícara sobre a mesinha em frente ao sofá e depois se acomodou lentamente. —Francisca tinha mais ou menos a sua idade quando eu a vi pela primeira vez. — começou Filomena — Ela era tão bela e ao mesmo tempo tão esperta que chamou minha atenção. Contei a ela toda a história que acabei de contar a você e ela se entusiasmou de tal forma que decidiu se enveredar por caminhos perigosos. —Que caminhos? — Selminha voltou a sentir desconfiança daquela mulher. —Ela me convenceu a revelar a passagem secreta para a tumba onde fora enterrado o corpo de Caramaduza. O resto você já pode deduzir.

19


—Não deduzo nada! — disse Selminha com irritação. — diga-me você: o que aconteceu com tia Francisca? Filomena então se levantou. Estava relutante. —Vamos, diga! O que você fez com minha tia? — insistiu a menina. —O meu único erro foi ter revelado a ela o caminho para a tumba. — então Filomena ficou em silêncio por alguns instantes para tentar conter as lágrimas. Depois continuou com a voz vacilante: — Ela entrou na tumba e mesmo sabendo que não deveria tocar no corpo de Caramaduza, ela o fez. —O que acontece quando alguém toca no corpo do índio? Isso você não me contou e também não estava no livro que eu li. —A alma daquele que toca no corpo de Caramaduza é aprisionada para sempre na alma do índio. E foi isso o que aconteceu com Francisca. —Se minha tia está aprisionada na alma de Caramaduza, então quem é aquela que brinca comigo todos os dias? —Aquilo a quem você chama de tia, é apenas o corpo de Francisca. Não passa de um corpo sem alma. As suas palavras e ações são como uma gravação. Isto é o que restou da verdadeira Francisca: uma marionete. Dos olhos de Selminha, caíam lágrimas de tristeza. —Não é verdade! — gritou Selminha se levantando também. — Não acredito nas suas palavras! Diga-me logo onde está Toninho, pois foi por causa dele que vim até aqui. Não quero saber mais de suas histórias absurdas. —Seu amigo decidiu por conta própria se enveredar no mesmo caminho que aprisionou a alma de sua tia. — disse Filomena com a voz carregada de tristeza. Selminha estava atônita. Mal respirava. 20


—Não tive a intenção de fazer mal ao seu amigo! — continuou Filomena olhando para os olhos desesperados de Selminha. — Talvez ele não tenha tocado no corpo de Caramaduza. Talvez entrou na tumba só para matar a curiosidade. Quem sabe ele escolheu ser mais sensato que sua tia? —Quero saber onde fica a tumba! — disse Selminha decidida. Filomena se esquivou. —Não ouso revelar este segredo a ninguém mais.

Acho que já causei muitas

desgraças, revelando o caminho para a tumba. —Diga onde fica a passagem, pois como você mesma disse: Toninho pode ainda não ter tocado no corpo de Caramaduza. Ele ainda pode ser salvo. Filomena andou de um lado ao outro da sala e depois disse meio contrariada: —Vamos esperar a noite chegar e depois a levarei até lá.

21


Capítulo 4 A Tumba do Índio Caramaduza

Saíram de casa depois que o sino da igreja tocou as doze baladas da meia noite. Filomena voltou a ser a Velha Molambenta e conduziu Selminha até a Praça Divino Espírito Santo. Pararam em frente a um dos bancos de concreto da praça e a Velha Molambenta se curvou e fez um grande esforço para empurrá-lo. Depois olhou para Selminha. —Eis a passagem para a tumba de Caramaduza. — disse a velha apontando para o buraco no chão. Selminha ficou parada, esperando a reação da velha. —Venha, vamos entrar! — disse ela entrando primeiro. Selminha continuou estática. —Anda logo! — chamou a Velha Molambenta lá de dentro. Então Selminha olhou ao redor, suspirou e depois a seguiu. Desceram por uma escadaria estreita até um túnel escuro e frio. A Velha Molambenta segurava uma lamparina que clareava um pouco a escuridão do caminho. Andaram por quase dez minutos e depois chegaram na tumba de Caramaduza. Um cheiro estranho, talvez de mofo, talvez de coisa podre, impregnava toda a câmara onde jazia bem no centro o corpo do índio. Ele estava intacto, estirado sobre uma pedra de mármore lapidada. Selminha se aproximou como se estivesse sendo atraída por aquele corpo, mas foi detida pela velha que a puxou para longe do índio. —Não se aproxime, querida! — alertou a velha, antes de ouvir um estranho barulho. 22


Elas olharam assustadas em direção ao som. aproximava.

Eram passos de alguém que se

Muitas coisas passaram pela mente assustada de Selminha.

Suas pernas

começaram a tremer. —O que é isto? — sussurrou Selminha. —Não sei. — respondeu a velha que parecia estar mais assustada que a menina. O som ia aumentando e o eco dos passos dominava todo o recinto. A luz da lamparina começou a produzir uma imensa sombra numa das paredes da câmara e o desespero das duas intrusas ia aumentando. —Quem está aí? — perguntou a Velha Molambenta. Não houve resposta. Alguém se aproximava delas e parecia já estar quase chegando. —Vamos sair daqui! — sugeriu Selminha em desespero. —Não podemos. Só há uma saída. — então a velha apontou na mesma direção de onde vinha o barulho dos passos. —Quem está ai? — insistiu a Velha Molambenta sem escutar resposta. Então elas esperaram em silêncio a aparição daquilo que lhes causava desespero. —Toninho! — disse Selminha aliviada e ao mesmo tempo surpresa ao ver o amigo entrando na câmara. O menino se aproximou delas e depois fez um estranho sorriso, dizendo: —Não pise na calçada da casa do Judas. — disse ele, repetindo a mesma frase usada por tia Francisca. Selminha e a Velha Molambenta se entreolharam e tiveram a certeza de que ele havia se perdido. —Chegamos tarde demais! — disse a velha.

23


Selminha olhou para o amigo e viu com imensa tristeza aquele olhar vago, os gestos involuntários e o sorriso ingenuamente infantil. Tudo exatamente como sua tia Francisca. —Não acredito que isso tenha acontecido com Toninho! — disse Selminha em desespero — A culpa é toda sua, velha amaldiçoada! —Não diga isso, pirralha! — disse a velha berrando. Sua voz ecoou por toda parte feito um trovão. — Seu amigo tomou uma decisão. Não tenho culpa nenhuma. —Não poderia ter revelado a ele o caminho para esta tumba. —Como não deveria ter revelado a você também. Todos que se perdem no mundo de Caramaduza, perdem-se por conta própria. E você também está perdida como sua tia e seu amigo. —O que quer dizer com isso? —Posso ver estampado em seu rosto o desejo de tocar no corpo de Caramaduza. Você não sairá desta tumba sem antes perder sua alma. — as palavras da Velha Molambenta soavam como uma sentença. —Não tenho intenção de perder minha alma. Você por acaso está me induzindo? Então a Velha gargalhou feito uma bruxa. —Aproxime-se da sua prisão, menina estúpida! — vociferou a velha. Selminha então percebeu que havia caído numa armadilha.

Aquelas palavras

começaram a dominar a sua vontade. —Você me enganou! — disse a menina. —Tudo o que te falei é verdade. Não escondi nada de você. A decisão de vir até aqui foi sua.

24


—Você mentiu, sim, quando disse que a sua beleza jamais seria vista por olhos humanos. Eu pude ver você se transformar depois que entrou em sua casa. Diga-me por que consegue ser bela quando está dentro de casa? Por acaso conseguiu desfazer a maldição? —Não tenho mais nada a lhe falar. A história acabou. —Não acabou! — gritou Selminha — Você foi condenada a ser não só feia como também malvada. —O que está dizendo, fedelha?! — berrou a Velha Molambenta. —O seu pior castigo não foi se tornar uma mulher feia, mas uma mulher má. — continuou Selminha sagazmente — Lembro-me de ter lido que o único antídoto para a sua feiúra era a maldade contra aqueles que você deveria ajudar. —Cale-se! — disse a velha tampando os olhos como se estivesse envergonhada. —Quanto mais maldade fizer, mais bela e jovem você se torna, não é verdade? A velha só chorava. —A maldição que seu pai lançou sobre você é muito mais rigorosa do que aquela lançada sobre os índios. A sua vaidade conseguiu destruir toda a sua bondade. De nada adiantou ajudar os índios. Agora você se tornou tão malvada quanto o Coronel Asa de Cobra. —Chega! — disse a velha olhando para Selminha com ódio — Não vou suportar mais as suas palavras. Quero que você desapareça deste mundo e caia nas garras da eterna prisão. Aproxime-se do índio! — continuou a velha em seu feitiço. Selminha começou a caminhar, contra a sua vontade, em direção ao corpo de Caramaduza. —Pare com isso! — implorava a menina desesperada por não conseguir controlar mais seu corpo.

25


—Entre agora para o mundo de Caramaduza e aprisione a sua alma eternamente — disse a velha finalmente. Selminha então tocou no corpo de Caramaduza e a Velha Molambenta sorriu satisfeita como alguém que acaba de matar sua sede.

26


Capítulo 5 O Mundo de Caramaduza

Um pouco mais real que um sonho e um pouco menos angustiante que um pesadelo. Essa era a sensação de Selminha ao acordar no meio da floresta. Um animalzinho se aproximou dela. Era uma ave. Não era uma galinha. Algo que a menina nunca vira antes. Parecia inofensiva sozinha. Selminha tentou sorrir, mas achou melhor não demonstrar alegria. Estava sozinha no meio de uma floresta sem saber se tudo aquilo era real ou não. Teria adormecido logo após o almoço e sonhado com todo o episódio na casa da Velha Molambenta? Teria o sonho começado na tumba do índio? Estaria realmente aprisionada na alma de Caramaduza? Ela tentou ignorar a pequena ave que piava timidamente, mas a insistência do animal era maior que a indiferença da menina. Ela se levantou do chão e olhou ao redor. Não sabia para onde ir. Não tinha nada que indicasse um caminho. Só havia as árvores, o som dos animais e aquela ave que parecia ter sido incumbida de ficar ao seu lado. Lembrou-se da Velha Molambenta e abaixou a cabeça. “Bem que minha mãe me avisou para nunca confiar em estranhos” — Pensou Selminha. O desespero esfriou seu estômago e fez suas mãos tremerem. Estaria condenada a ficar presa eternamente no mundo de Caramaduza? Estaria realmente aprisionada? Seria verdade a história da maldição do Coronel Asa de Cobra? A pequena ave piou mais alto e depois se afastou. Por algum motivo, Selminha achou correto segui-la. Andou pela floresta durante muito tempo. A ave não parava e andava cada 27


vez mais rápido. Selminha logo se cansou. Queria poder parar um minuto para descansar, mas não podia perder a ave de vista. Mas, de repente, a ave parou. Havia chegado ao seu destino. Selminha olhou ao redor e não conseguiu conter a sua empolgação. Era um lugar de beleza descomunal, onde as árvores tinham todas as cores que o olho humano conhecia. Na superfície do estreito riacho que cortava o lugar, dava para ver imagens de todas as formas executando incontáveis movimentos ao mesmo tempo que refletia as cores das árvores. Aquelas águas não obedeciam as regras naturais dos riachos que Selminha já vira e por isso corriam para baixo e para cima. Às vezes até se elevavam como chafarizes mágicos em forma de mãos acenando boas vindas. O sol brilhava de um jeito que Selminha nunca vira antes. Ela caminhava no meio daquele pequeno paraíso e os seus cabelos esvoaçavam ao vento produzido pelas asas das gigantescas borboletas, que apesar do tamanho, eram tão graciosas quanto as menores borboletas que Selminha já vira. As flores emitiam sons que, junto com o som da fauna, produzia uma harmoniosa melodia. O ar tinha um suave aroma adocicado que parecia com o delicioso cheiro do bolo de maracujá feito por Chiara, a cozinheira. Tudo era novo e impressionante, mas ao mesmo tempo fazia Selminha ter a sensação de estar num lugar conhecido. Ela observava atentamente cada montanha e cada árvore. Já havia estado ali antes, mas não reconhecia aquela nova e mágica aparência. Um mundo reformulado. Um paraíso construído sobre o mundo que Selminha conhecia, mas não conseguia se lembrar. E foi com a abrupta aparição de uma estranha criatura que Selminha começou a entender tudo aquilo: —Bem-vinda ao Largo dos Macucos! — cumprimentou a criatura — Se é que posso desejar boas vindas a uma prisioneira.

28


Selminha olhava assustada para aquela coisa baixinha e redonda que lembrava vagamente a mesma ave que a conduzira até aquele lugar. —Quem é você? — perguntou Selminha. —Sou Cugo, o rei dos macucos. — respondeu a criatura com a sua voz desafinada — Sou aquele que Caramaduza escolheu para reinar neste paraíso. Caramaduza, o dono deste mundo. O criador de todas as coisas. O bondoso imperador que me deu o dom da palavra e também me incumbiu de receber todas as almas vindas do Mundo da Maldade. —Por acaso sou também uma dessas almas? — perguntou Selminha indignada. —Não se ressinta, ingênua criança! Você não tem culpa por ter nascido no Mundo da Maldade e principalmente por ter sido enganada pela Cruel Vaidade da nossa pior inimiga. —Como sabe que fui enganada? Então Cugo riu e depois disse baixinho: —O engodo é a porta de entrada para o Mundo de Caramaduza. As almas entram neste mundo por culpa da Cruel Vaidade. “A Velha Molambenta” — deduziu Selminha. —Você sabe do que estou falando, não é? — disse Cugo piscado seus olhos amarelos. —Acho que sim. —Provavelmente você deve saber também que será difícil sair do mundo de Caramaduza. —Difícil?! — perguntou Selminha admirada — Pensei que fosse impossível sair daqui. E mais uma vez Cugo riu da menina. —Nada é impossível quando se encontra a Virtude Original. — disse ele com exaltação. 29


—Virtude Original?! —Provavelmente a Cruel Vaidade não lhe falou sobre a Virtude Original. —Filomena não disse nada a respeito. Diga-me você o que é. Então Cugo se esquivou como se estivesse envergonhado e depois respondeu baixinho: —Eu não sei e acho que nunca saberei. Sou uma criação de Caramaduza, portanto não tenho alma e só as almas podem entender e encontrar tal Virtude. Dizem que a única alma deste mundo capaz de dizer o que é a Virtude Original é a rainha das Almas do Bem. Os olhos de Selminha brilharam. Ela ficou eufórica com a possibilidade de retornar ao seu mundo e impedir que a Velha Molambenta continuasse a aprisionar mais almas no mundo de Caramaduza. —Leve-me então a essa rainha, pois preciso sair deste mundo o mais rápido possível. Então Cugo ciscou de um lado para o outro e depois respondeu com um pouco de mau-humor: —O caminho até a rainha das Almas do Bem pode ser curto como também pode ser longo. — disse ele — Isso depende daquele que a procura. —Não consigo entender as suas palavras. —Antes de chegar até rainha — disse ele finalmente — você deve seguir o Caminho do Autoconhecimento e descobrir se vai morar com as almas do bem ou com as almas do mal. —Como assim?! —No início havia somente a Terra das Almas Amaldiçoadas, onde vive até hoje toda a tribo puri, amaldiçoada pelo Coronel Asa de Cobra. Mas depois que começaram a chegar as almas das vítimas da Cruel Vaidade, Caramaduza achou melhor dividi-las em dois grupos: as almas do Mal e as almas do Bem. O Largo dos Macucos foi criado para receber todas as 30


almas e encaminhá-las ao Caminho do Autoconhecimento que é onde cada alma descobre se é boa ou má. —Quantas almas já foram aprisionadas por Filomena? —Centenas! A Cruel Vaidade descobriu que quanto mais almas aprisionar, mais próxima da beleza e juventude ficará e só vai parar quando a sua vaidade for saciada. —E se a vaidade de Filomena for insaciável?! —Então as pessoas do seu mundo correrão grande perigo. Selminha lembrou-se de todos os seus amigos e parentes. Todos estavam correndo perigo, afinal de contas a Velha Molambenta ainda tinha muita maldade para praticar antes de ganhar a sua beleza e juventude. Ela deveria ser impedida o mais rápido possível. —Mostre-me o Caminho do Autoconhecimento, pois não tenho tempo a perder! — disse Selminha com decisão. Então Cugo a levou até a entrada para o Caminho do Autoconhecimento e, dali mesmo, se despediu da menina: —Tenha cuidado em sua caminhada! — alertou ele. —Não pode me dar nenhuma pista sobre o que vou encontrar pela frente? —Você só vai encontrar o que realmente merece encontrar e a decisão que tomar quando chegar ao final, deverá ser sábia e rápida. Siga o primeiro impulso e não permita que a indecisão desperdice o seu tempo e confunda a sua alma. Faça o que você achar que deve fazer, sem se preocupar com as conseqüências, pois no mundo de Caramaduza não existe castigo para os erros e nem recompensa para os acertos. Selminha pensou sobre aquilo que acabara de ouvir e depois começou sua caminhada.

31


Capítulo 6 O Caminho do Autoconhecimento

Era uma estrada sem curvas, coberta com as folhas coloridas que caiam incessantemente das árvores que se enfileiravam dos dois lados. Selminha andou por muito tempo sem encontrar nada e nem ninguém. O caminho parecia não ter fim e ela já estava desesperada. Cansada, ela parou e se recostou no tronco de uma árvore azul. Foi quando começou a ouvir sons distantes. Ela olhou para trás e avistou alguma coisa estranha se aproximando. O som aumentava cada vez mais. Parecia uma marcha de soldados. Selminha se escondeu atrás da árvore e esperou a tropa se aproximar. —Uma-uma-uma-uma-uma-uma... — gritava o exército de sacis que se aproximava. Ela olhou estarrecida para aquela estranha cena: Havia duas fileiras de sacis. A da esquerda pulava primeiro e a outra pulava em seguida, formando uma marcha inacreditavelmente sincronizada. — Uma-uma-uma-uma-uma-uma... O exército parou bem perto da árvore onde Selminha se escondia. Então o chefe dos sacis fungou como se estivesse sentindo um cheiro desagradável e depois colocou o cachimbo na boca, baforando em seguida uma grande quantidade de fumaça que logo ganhou vida no ar e rondou o local até encontrar Selminha. A fumaça do cachimbo então se transformou numa terrível garra que segurou firme no casaco vermelho de listras pretas de Selminha e a ergueu, levando-a até o chefe dos sacis.

32


—O que pensa que está fazendo aqui na minha estrada? — indagou o Saci-chefe com arrogância. —Estou indo para a Terra das Almas do Bem. — disse Selminha. Então o Saci-chefe se curvou numa gargalhada debochada. —Branquela estúpida! — disse ele entre soluços — Por acaso não sabe que caminhar em linha reta não leva a lugar nenhum? —Se esta estrada não leva a lugar nenhum então por que você e o seu exército de uma perna só estão marchando? — Onde pensa que vai chegar? Então o Saci-chefe piscou de baixo para cima e depois fez uma careta para ela. —Você ainda não entende o poder do uma-uma-uma... — disse ele com irritação. —E o que tem isso a ver com o que te perguntei? Então o exército gritou bem alto: —Uma-uma-uma-uma-uma-uma... —Agora pode entender o nosso poder? — perguntou o Saci-chefe satisfeito. —A única coisa que ouvi foi um grito estúpido de quem não sabe contar. — revidou Selminha — Se pelo menos fosse uma-duas-três... então quem sabe poderia achar mais sensato. —Não sabemos contar como você. A única coisa que nos interessa é o uma-umauma... O nosso grito é muito mais poderoso do que você imagina. Junte-se a nós e entenderá o verdadeiro significado do uma-uma-uma... —Não me uno àquilo que não compreendo. — disse ela cruzando os braços — Prefiro ficar eternamente parada do que seguir um bando de sacis que marcham numa estrada sem fim e que não sabem contar nem até três. Não tem sentido algum em gritar eternamente umauma-uma... 33


—Que vantagem há em saber contar? — perguntou o Saci-chefe — Aqueles que contam como você também não chegam a lugar nenhum. Por acaso existe um número final na sua contagem? Então Selminha ficou quieta. De certa forma o Saci-chefe tinha razão. —Contamos apenas uma-uma-uma... e é esse o segredo da eternidade. Quem conta como você estará sempre caminhando sem esperança de encontrar um final. —E por acaso vocês encontraram o final da eternidade contando uma-uma-uma? — revidou a menina. —Uma é o início e Uma é o final, entendeu? — disse o Saci-chefe — A nossa contagem nos leva ao final e depois ao início da eternidade num piscar de olhos. Repetindo o mesmo número eternamente estamos fechando o círculo da eternidade. Se a nossa contagem fosse como a sua, então caminharíamos em linha reta sem jamais saber se estamos no início, no meio ou no fim. Selminha estava confusa. Havia uma certa lógica nas palavras do Saci-chefe, mas ela ainda não estava convencida. —Caminhar em círculos eternamente, contando o mesmo número parece ser muito chato. — disse ela — Além do mais, caminhando dessa forma estarão eternamente presos ao uma-uma-uma... Prefiro contar do meu jeito mesmo sabendo que jamais chegarei ao final, pelo menos conhecerei coisas novas a cada número que contar. —Pode até ser desta forma. — disse o Saci-chefe — entretanto estará sempre perdida. —Por que? —Quem caminha sem saber se está perto ou longe do final, então logicamente está perdido.

34


—Estar sempre perdida não me parece ser uma desvantagem quando a única outra opção é andar eternamente em círculos. É melhor estar perdida do que estar condenada. — disse Selminha dando as costas para o exército de sacis. —Não adianta. — disse o Saci-chefe — Vai chegar a hora em que você vai querer se unir ao Uma-uma-uma. Isso é inevitável. Caminhamos em círculos e por isso podemos estar em qualquer lugar e em qualquer tempo. Você está perdida e ainda por cima solitária. O Umauma-uma é a única solução para a angústia causada pela eternidade. Unindo-se ao Uma-umauma, você não estará mais sozinha e nem perdida. Selminha então fechou os olhos. A indecisão apareceu e a sua alma começou a se tornar vazia. Era o poder do uma-uma-uma se manifestando. Ela tinha que tomar rapidamente uma decisão: seguir o exército ou continuar perdida e solitária. O que seria melhor para sua alma: caminhar eternamente em círculos, sem objetivo, mas com a ilusão de saber exatamente onde fica o início e o fim da eternidade, ou caminhar em linha reta, solitária e perdida, sem nunca chegar a lugar nenhum? Lembrou-se então das palavras de Cugo: “A decisão que tomar deverá ser sábia e rápida. Siga o primeiro impulso e não permita que a indecisão desperdice o seu tempo e confunda a sua alma. Faça o que você achar que deve fazer, sem se preocupar com as conseqüências, pois no mundo de Caramaduza não existe castigo para os erros e nem recompensa para os acertos.” —Está bem. — disse Selminha finalmente, ficando de frente para o Saci-chefe e o seu exército — Já decidi. Então o Saci-chefe fez um meio sorriso e por pouco não festejou. —Diga, então qual caminho vai seguir? —Vou seguir o caminho reto. — disse Selminha com decisão — Vou me perder na eternidade e assim aprender coisas que vocês jamais aprenderão. Se o caminho reto é infinito, 35


infinita será a minha aprendizagem e infinita também será a minha esperança de encontrar pelo caminho pelo menos uma alma amiga que possa caminhar e aprender comigo. E ao dizer essas palavras, Selminha viu o caminho do Autoconhecimento se dividir em dois, formando uma encruzilhada. O Saci-chefe então cuspiu no chão e depois fez um sinal para o seu exército. Marcharam pelo caminho da esquerda. Selminha agora sabia que rumo tomar. Caminhou pela estrada da direita.

36


Capítulo 7 A Terra das Almas do Bem

De longe já dava para ver a gigantesca árvore. Havia várias casinhas redondas que pendiam dos galhos, como frutos de madeira. Selminha avistou crianças das janelas lhe dando boas-vindas. Aquela visão era de certa forma confortante. Era como estar chegando em casa. No tronco da grande árvore havia um portal que provavelmente era o acesso às casas. Selminha se aproximou da árvore e foi recebida por um menininho que parecia ser o porteiro. —Bem-vinda à Terra das Almas do Bem! — disse o menino cordialmente — Você escolheu o caminho reto e por isso veio para o lugar onde as ingênuas almas moram. —Por que “ingênuas”? — indagou Selminha. —Acreditar na Cruel Vaidade é um grave sintoma de ingenuidade. — respondeu o menino — Mas não fique desapontada, pois não existe uma alma sequer neste mundo que não tenha sido enganada pela Cruel Vaidade. Você não é mais e nem menos ingênua que todos nós. —Se estou aqui, não foi por causa da ingenuidade. Fui vítima da minha curiosidade. —De qualquer forma, você está aprisionada e jamais conseguirá sair deste mundo. Isso pode parecer um pouco trágico, mas na verdade é uma dádiva. —Como pode uma prisão ser uma dádiva? Então o menino sorriu e depois disse: —Aqui você jamais envelhecerá e também jamais irá morrer. —Não tenho medo de ficar velha e nem tão pouco de morrer. Fui aprisionada, mas não vou ficar aqui para sempre. 37


—Todos dizem isso, mas depois chegam à conclusão de que não existe saída. O tempo vai fazer você mudar de idéia e aceitar o seu destino. —O tempo não será capaz de mudar a minha idéia. —Por que tem tanta certeza disso? — perguntou o menino com uma certa ironia. —Ora, meu amigo. — respondeu Selminha no mesmo tom de voz. — Você mesmo disse que jamais vou envelhecer e muito menos morrer. —E o que isso tem a ver com o que estamos falando? —Se o tempo não é capaz de tirar a minha juventude e nem a minha vida, então não será capaz de tirar a minha persistência. Sei que a Virtude Original existe e por isso também existe uma chance de sair daqui. Então o menino se calou por alguns segundos e depois respondeu cabisbaixo: —Encontrar a Virtude Original é quase impossível. Nem mesmo a nossa rainha conseguiu encontrá-la. —Disseram-me que ela era a única alma deste mundo que sabia como encontrar a Virtude Original. —Ela sabe o caminho que toda alma deve seguir para encontrar a Virtude Original, mas isso não quer dizer que ela tenha encontrado. —Diga-me então onde está a rainha. Quero falar com ela pessoalmente. Então o menino fez um gesto impaciente e depois disse apressadamente: —Suba as escadas da direita até chegar no galho 724. Procure o fruto 27 e bata apenas uma vez na porta. Selminha entrou no tronco da árvore e seguiu as instruções do menino. Subiu as escadarias em espiral e procurou por entre os diversos galhos aquele indicado pelo porteiro. E

38


foi só depois de muito procurar que ela avistou a pequena placa indicando o galho 724. Subiu as escadas daquele galho até chegar ao fruto 27. Bateu uma vez na porta e esperou. —Pode entrar. — disse a voz infantil de dentro do fruto de madeira. Selminha virou a maçaneta e entrou. A moradia, ao contrário das escadarias, era bem arejada e das janelas dava para ver as belas paisagens da Terra das Almas do Bem. A mobília de madeira era simples e parecia ser de brinquedo devido ao tamanho e forma. Selminha deu alguns passos pela sala e depois ouviu alguém que se aproximava. —Bem-vinda a minha humilde casa! — disse a menininha de cabelos ruivos e sorriso tímido. —Obrigada! — disse Selminha olhando fixamente para a menina, tentando se lembrar de onde a conhecia. Aquele sorriso era muito familiar, mas não era o bastante para fazer Selminha se lembrar. — Gostaria de falar com a rainha das Almas do Bem. — continuou Selminha. Então a menininha sorriu novamente e depois disse: —Pode falar. —Obrigada pela gentileza, mas prefiro falar pessoalmente com ela. — disse Selminha falando cordialmente para não ser indelicada. —Ora, minha querida, fale comigo e estará falando com a rainha. Selminha olhou desconfiada para a menina e depois disse admirada: —Quer dizer que a rainha é uma...menininha? —E o que há de errado em ser uma menininha? — disse a menina como se estivesse ofendida — Por acaso você está achando que eu sou ingênua demais para governar um povo?

39


Você está me definindo, valendo-se apenas daquilo que você vê? Posso parecer uma criança, mas já vivi muito mais tempo do que você imagina. Selminha ficou quieta, olhando fixamente para o rosto rosado daquela menina, tentando se convencer de que tudo aquilo que a sua intuição lhe revelava era impossível. O seu coração bateu mais forte e sua euforia aumentava a cada segundo perto daquela menina. Ela sabia o seu nome, mas perguntou só para ouvir mais uma vez a sua voz: —Qual o seu nome? A menina olhou para Selminha e depois respondeu sorrindo: —Francisca. Os olhos de Selminha se encheram de lágrimas. Aquela criança de cabelos ruivos era a alma daquela velhinha bondosa que ela sempre chamara de tia e que nunca imaginara vê-la como uma criança. —Tia Francisca?! — murmurou Selminha. —O que disse? — perguntou a rainha se aproximando. Selminha não conseguia desviar seus olhos da menina. —Tia Francisca! — repetiu Selminha. —Tia?! — no rosto de Francisca surgiu uma estranha expressão. —Sim, você é minha tia, irmã de Cecília, minha mãe. Filha de Henrique, meu avô. Conheço você numa aparência bem diferente, mas tão doce e tão bela quanto a sensação que estou tendo agora olhando para você. —Será possível tamanha coincidência? — disse Francisca derramando a primeira lágrima — Será também possível tamanha felicidade? Não posso acreditar que estou feliz por ver uma sobrinha aprisionada. Será justo sentir felicidade por estar perto da filha de minha irmã? Não será egoísmo demais sentir-se feliz por estar junto de uma sobrinha, mesmo 40


sabendo que o preço desse encontro é a sua prisão? Eu deveria estar zangada, triste, mas o que sinto é grandioso demais para me entristecer. — Então Francisca abraçou demoradamente a sua sobrinha. —Não há motivo para tristeza, querida tia. — disse Selminha — A minha agonia foi embora. Não me importo por estar aprisionada, pois encontrei a alma daquela que tanto amo e sei que mesmo não conseguindo sair daqui, jamais vou sentir tristeza, pois estarei sempre do lado da minha querida tia. A prisão se torna menos dolorosa, quando estamos acompanhados por almas amigas. —Você está certa. O verdadeiro prisioneiro é aquele que não tem amigos. A cela se torna mais fria e triste quando estamos sozinhos. —Mas agora não estou mais sozinha — disse Selminha — Jamais poderia imaginar que a minha querida tia fosse se tornar minha companheira neste mundo, como também não imaginei que você fosse a rainha das Almas do Bem! —E afinal de contas o que você queria falar para mim quando chegou aqui? —Disseram-me que você é a única alma deste mundo que sabe o caminho para a Virtude Original. Então Francisca abaixou a cabeça desanimada como se estivesse envergonhada. —Quer dizer que você mal chegou a este mundo e já está pensando em encontrar a Virtude Original? — perguntou Francisca —Sim, querida tia! Conheço bem as intenções de Filomena e por isso preciso voltar para o mundo real para impedi-la de aprisionar mais almas. Quero que você me ajude a sair daqui. —Não sei se é uma boa idéia. —Por quê?! 41


—Não sabe o quanto estou feliz por saber que tenho uma sobrinha corajosa, mas por outro lado não posso permitir que você corra o risco de se tornar uma alma frustrada como eu me tornei. —E por que eu haveria de me tornar frustrada? —A cada alma aprisionada neste mundo é dada uma única oportunidade de entrar na Floresta das Virtudes para procurar a Virtude Original.

E se a alma falhar e acabar

desperdiçando essa oportunidade, sairá da floresta com a certeza absoluta de que ficará eternamente aprisionada. Isso aconteceu comigo. Como fui tola por pensar que era capaz de encontrar facilmente a Virtude Original! A única coisa que encontrei foi a certeza de que sou tão vaidosa e egoísta quanto aquela que me enganou e me aprisionou no mundo de Caramaduza. —Não diga isso, tia! Estou tão disposta a procurar pela Virtude Original que me entristeço ao ouvir uma pessoa que julgo tão bondosa dizer que não é capaz de encontrá-la. —Mas a bondade a que você se refere pode não ser o caminho para a Virtude Original. A Vaidade tem muitas faces e é por isso que nos enganamos facilmente, confundindo-a com uma virtude. —Se a bondade não pode ajudar a encontrar a Virtude Original, então o que poderá ajudar? Então Francisca hesitou por alguns momentos e depois disse sem olhar para a sobrinha: —Todas as virtudes são bastardas exceto a Virtude Original, a qual não conseguimos ver ou ter conhecimento completo dela. —O que são Virtudes Bastardas?

42


—Toda virtude que nasce do egoísmo e da vaidade é bastarda. Saber identificar as Virtudes Bastardas é um dom que te ajudará a encontrar a Virtude Original. —Então me ensine mais coisas sobre as Virtudes Bastardas e sobre a Floresta das Virtudes, pois quero estar preparada quando começar a minha busca. — disse Selminha animada. —Não poderei te ensinar muita coisa, pois o caminho até a Virtude Original é diferente para cada um que a procura. O seu coração é o único que poderá te guiar na sua busca. —Isso quer dizer que vou ter de ir sozinha? Francisca olhou para a sobrinha e disse com tristeza: —Sim.

43


Capítulo 8 A Despedida

Selminha ficou na Terra das Almas do Bem durante uma semana. E nesse período procurou incessantemente por Toninho. Foi a todas as casas. Perguntou a todos os moradores da grande árvore.

Procurou pelas redondezas. Temia que o seu melhor amigo tivesse

escolhido o caminho para a Terra das Almas do Mal, mas tentou não se convencer disso. Tinha grandes esperanças de encontrá-lo antes de partir para a Floresta das Virtudes. Queria dizer a ele sobre os seus planos de sair do Mundo de Caramaduza e impedir a Velha Molambenta de continuar aprisionando mais almas. Mas ela não o encontrou e, por fim, resolveu partir assim mesmo. Tia Francisca preparou tudo para a viagem e depois mandou selar uma de suas borboletas gigantes para levar Selminha até a Floresta das Virtudes. Ela tentou ser forte diante da sobrinha, mas chorou na hora da despedida. —Desculpe-me, querida! — disse Francisca a Selminha, enquanto observavam a preparação da grande borboleta — Não queria chorar, mas é inevitável. Odeio chorar de tristeza! —Não fique triste, minha tia. — disse Selminha dando-lhe um forte abraço — Tenho certeza de que ficaremos juntas, seja no mundo de Caramaduza ou no mundo real. Então Francisca se desvencilhou delicadamente dos braços de Selminha, enxugou as lágrimas e depois disse: —Acho que chegou o momento de você caminhar sozinha. A solidão deverá ser sua companheira enquanto você estiver na Floresta das Virtudes. 44

Não caminhe ao lado da


Felicidade e nem ao lado da Tristeza, pois são elas as enviadas da Vaidade e do Egoísmo para confundir a sua alma e afastá-la do seu objetivo. Se você conseguir derramar apenas uma lágrima, sem estar triste ou feliz, então é porque conseguiu encontrar a Virtude Original. E quando essa Única Lágrima cair no chão vai dar origem a uma árvore com apenas um fruto. E aquele que comer desse fruto será libertado da prisão. Desejo a você toda a sorte do mundo e espero que você seja mais sensata do que eu. Vá e siga somente as regras do seu coração, pois é ele o seu único companheiro. Selminha então sorriu para a sua tia e depois lhe beijou a face direita num gesto de despedida. Caminhou em direção da borboleta gigante e depois olhou para trás mais uma vez. Sorriu para Francisca e depois partiu.

45


Capítulo 9 A Floresta das Virtudes

A Floresta das Virtudes ficava numa área bem distante da Terra das Almas do Bem, mas se não fosse aquela borboleta, a viagem certamente seria ainda mais longa e menos excitante. Era a primeira vez que Selminha voava. Sempre sonhara em voar num daqueles aviões que via nas revistas de sua mãe, mas jamais imaginou voar, montada numa borboleta gigante. Aquela era uma experiência que ela jamais esqueceria. Como era bom ver as coisas lá de cima! Mas a viagem terminou e Selminha foi deixada no meio da floresta pela borboleta gigante. Ficou parada vendo a borboleta indo embora e um sentimento angustiante tomou conta dela. Estava longe de casa.

Sozinha. Insegura. Tentou ser forte, mas a tristeza não

deixou de aparecer. Ela olhou ao seu redor e viu somente vegetação. Tudo ali era silenciosamente belo. Misteriosamente inofensivo. Era uma floresta diferente. Não ventava. Não fazia frio e nem calor. Não se ouvia sons de animais. As flores não exalavam cheiro algum. Era uma floresta só para os olhos. Selminha ficou parada por muito tempo, tentando decidir que rumo tomar, mas não havia nada que indicasse um caminho. Se pelo menos uma folha caísse de uma das árvores, dando-lhe um sinal... Mas nada acontecia. Tudo era estático. Mudo. Inodoro. Ela pensou por muito tempo numa solução e depois sorriu com a idéia que surgiu de repente em sua mente: “Esta estranha floresta parece que existe só para os olhos. Então o que aconteceria se eu fechasse os olhos de repente?” — pensou Selminha fechando os olhos e depois sorrindo 46


admirada. De olhos fechados ela começou a ouvir o som dos pássaros e a sentir o aroma das flores e o frescor em sua pele. Ela gritou alto de alegria. Foi como descobrir sozinha como fazer uma máquina funcionar. Ela então voltou a abrir os olhos e novamente deixou de sentir o frescor em sua pele e o aroma das flores, e também de ouvir o som dos animais. A sua visão não podia trabalhar em conjunto com os outros sentidos dentro daquela floresta. Ou ela enxergava ou ela sentia e ouvia. Imaginou que aquela curiosa característica tinha uma finalidade. Mas qual? A única coisa que ela sabia era que não podia ficar ali parada. E para caminhar naquela floresta ela tinha de optar pela visão, mesmo não podendo ouvir e sentir. Então ela ignorou tudo aquilo e caminhou de olhos abertos, mesmo não sabendo para onde estava indo. Ela caminhou por muito tempo e só parou quando sentiu o toque em seu ombro direito de alguém que estava atrás dela. Selminha se assustou e olhou para trás. —Toninho?! — disse ela admirada. —Há muito tempo que estou te seguindo. — disse Toninho — Mas você anda rápido demais! —Onde você estava, sua lesma? — ralhou Selminha — Eu te procurei por toda a parte. O que aconteceu? Por acaso você foi para a Terra das Almas do Mal? —Claro que não! — disse ele ofendido — É que quando eu estava no Caminho do Autoconhecimento, tive de dar uma paradinha para descansar e acabei dormindo demais. Selminha então riu do amigo e depois disse: —Você é mesmo uma lesma, seja no mundo real ou no mundo de Caramaduza. — então Selminha ficou em silêncio e fez uma estranha expressão. Depois disse com animação — Eu estou ouvindo você... Então Toninho olhou assustado para a amiga. 47


—E daí? O que há de tão espetacular em me ouvir? — disse ele. —Ora, lesma! — disse Selminha — Será que você não reparou que nesta floresta a visão não funciona junto com os outros sentidos? —Claro que reparei. — disse ele desapontado — Por acaso você pensa que sou burro? —Mas essa regra parece ser válida somente para as coisas da floresta, — continuou Selminha — pois nós dois conseguimos ao mesmo tempo ver e ouvir um ao outro. —É mesmo! — admirou-se Toninho — Isso eu ainda não tinha reparado. —Que estranho! — disse Selminha andando de um lado para o outro, tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo. E depois, como se tivesse despertado de um sonho difícil de entender, ela olhou para o amigo e começou o interrogatório. —Mas afinal de contas o que você está fazendo aqui, na floresta das virtudes? —Quando cheguei na Terra das Almas do Bem, disseram-me que você tinha vindo para cá para encontrar a Virtude Original. Por isso vim para te ajudar a encontrá-la. —Mas não podemos andar juntos, pois o caminho para a Virtude Original é diferente para cada um que a procura. —O caminho é diferente porque cada um o enxerga de uma maneira, mas isso não quer dizer que temos de andar sozinhos. —Quem foi que te disse isso? —Ninguém me disse. Eu mesmo deduzi. — disse Toninho com a voz firme. Selminha então pensou naquilo que seu amigo acabara de dizer. De certa forma fazia sentido. —Você é uma lesma, mas de vez em quando você raciocina. — disse Selminha — Não é que você tem razão!

48


Então Toninho inflou o peito e sorriu com orgulho. Era raro receber um elogio da amiga. —Viu só! — disse ele — Se não fosse a minha esperteza, você estaria sozinha nesta floresta. —Ah, por favor, deixa de ser convencido. — disse ela — Cedo ou tarde eu também chegaria a essa conclusão. E além do mais estar comigo é o mínimo que você pode fazer para consertar a burrada que você fez. —Mas o que é que fiz? —Quem mandou ir atrás da Velha Molambenta sozinho? Então Toninho abaixou a cabeça e ficou quieto. —Se estou aqui é por sua culpa, viu? — continuou Selminha. —Minha culpa?! —Sim, sua culpa! — repetiu ela — Se você tivesse mantido o acordo de procurar a Velha Molambenta comigo, então nada disso teria acontecido. —Como pode saber se seria diferente? — defendeu-se ele — A Velha Molambenta é muito mais esperta do que a gente imagina. Ela nos enganaria de um jeito ou de outro. —Acho que não. — disse Selminha — Se tivéssemos continuado com o nosso acordo, então teríamos tido mais cautela. Eu só aceitei ir para a Tumba de Caramaduza, porque ainda tinha esperanças de te salvar. Então Toninho abaixou a cabeça novamente e disse com a voz carregada de tristeza: —Quer dizer que você tentou me salvar? —Sim, mas quando cheguei na tumba, você se aproximou de mim e disse a frase dos condenados.

49


—Eu?! — perguntou ele admirado — Como poderia estar na tumba se eu já havia sido aprisionado quando você chegou lá? —Ora, sua lesma! O que foi aprisionado foi somente a sua alma. O seu corpo e o meu ainda estão no mundo real. Lembra da minha tia Francisca? Então ele afirmou com a cabeça. —Pois então — continuou ela — Tia Francisca também está aprisionada neste mundo. —Então quer dizer que no mundo real nós viramos retardados? Então Selminha arregalou os olhos e disse muito ofendida: —Não fale assim da minha tia Francisca, viu? —Desculpe-me! — disse ele — Mas não sabia disso. —Sim. Tia Francisca foi aprisionada há muitos anos. A Velha Molambenta me contou tudo. —Então quer dizer que o Pedro Preto, e o Zé Jeromo também estão aprisionados? Selminha então se lembrou desses dois homens que todos julgavam dementes e se surpreendeu com a conclusão de Toninho. —Sim. Eles também podem ter sido aprisionados pela Velha Molambenta, pois tem o mesmo comportamento alienado de minha tia. —Nossos pais então devem estar pensando que a gente ficou doido. Coitada da minha mãe! —Não vamos ficar pensando nessas coisas. — disse Selminha — Temos muito o que fazer. Venha comigo. —Mas para onde vamos? Você sabe o caminho? —Lógico que não, lesma! A única coisa que sei é que não podemos ficar parados. Temos de caminhar e de preferência bem rápido. 50


Capítulo 10 O Lago Dourado

Selminha caminhava na frente, andando rápido e com passos firmes. Toninho ia atrás, quase sem fôlego e pedindo para pararem a todo instante. Caminharam por muitas horas até que chegaram a um estranho lugar. Ali havia um lago onde as águas pareciam ser de ouro. O brilho das águas estava refletido em toda a vegetação ao redor, dando a impressão de que tudo naquele lugar era feito de ouro. Eles então avistaram uma mulher que se mantinha parada, de frente para o lago, olhando toda aquela paisagem. —Parece uma estátua. — disse Toninho. —Uma estátua de ouro. — acrescentou Selminha. —O que será que ela está fazendo ali? —Vamos lá ver. — disse Selminha partindo na frente. Toninho hesitou, mas acabou seguindo a amiga. Aproximaram-se daquela mulher e Selminha perguntou a ela: —O que você está vendo? Então a mulher demorou a responder, fazendo Selminha pensar que ela fosse realmente uma estátua, mas por fim falou com a sua voz estranha: —Vejo a beleza do mundo. Então Selminha olhou para Toninho e depois perguntou novamente a mulher:

51


—Tudo nesta floresta só é sentido e ouvido de olhos fechados. Por que consegui ouvir a sua voz de olhos abertos? —Você só escuta e sente de olhos abertos as coisas que não pertencem a esta floresta. E eu não faço mais parte daqui. Consegui descobri o que é verdadeiramente belo e por isso me tornei superior. —E o que é verdadeiramente belo? — perguntou Selminha. Então a mulher sorriu como uma criança que ri de um espetáculo circense. —Ora, ingênua criança! — disse a mulher — Por acaso você não está vendo que tudo neste lugar, inclusive o meu corpo, é feito de ouro? O que há de mais belo e valioso no universo a não ser o ouro? Por acaso você já viu algum rei usando uma coroa que não fosse de ouro? Por acaso as moedas mais valiosas são feitas de outro material sem ser o ouro? Você conhece algum deus que não possui pelo menos um adorno dourado em sua roupa? Tudo o que existe de mais belo no universo tem pelo menos uma parte dourada, seja na cabeça, seja no bolso ou no altar. Então Selminha olhou novamente para Toninho e depois disse a mulher: —Tem razão! — disse Selminha — O dourado é belo, mas existem outras belezas de outras cores que talvez sejam bem mais valiosas do que o ouro. —Cite apenas um exemplo. — disse a mulher com a voz carregada de arrogância. —Apenas um? Isso seria injusto, pois como vou poder exaltar a beleza de uma borboleta que consegue ter mais cores que um arco-íris sem falar da beleza de um jardim que abriga as mais variadas flores com os mais variados perfumes? Então a mulher riu novamente de Selminha.

52


—Não seja tão medíocre, menina! — disse a mulher dourada — Você não entende o verdadeiro valor das coisas. Por acaso uma borboleta pode substituir a coroa do rei ou um jardim pode substituir um castelo? —Uma borboleta é leve demais para suportar tamanha responsabilidade de dar a um homem o poder de reinar. Como também um jardim é aberto demais para proteger um rei do sol e da chuva. Mas nem uma coroa de ouro e nem um castelo são capazes de me fazer sorrir pela simples vontade de sorrir. A felicidade que uma coroa e um castelo dão a um rei é tão falsa quanto a beleza que você enxerga nesse lago. —Como ousa definir a verdadeira felicidade? O que uma menina estúpida poderia saber sobre isso? —Talvez uma menina possa conhecer muito mais sobre a felicidade do que uma mulher que pensa ser de ouro. —Se sou desta forma é porque soube escolher o que é verdadeiramente belo. E por saber o que é verdadeiramente belo, tornei-me também bela. A beleza do mundo é o ouro, pois é ele que reflete o seu brilho dourado, transformando tudo o que está perto dele em ouro também. Veja o brilho de minha pele. — disse a mulher mostrando o braço direito para Selminha. —Isso é apenas o reflexo dourado do lago. — revidou Selminha — Aliás tudo aqui neste lugar não passa de reflexo. Não é ouro de verdade. Até mesmo esse lago é falso. O ouro que você pensa enxergar é apenas um reflexo dourado. —Já que esse é o seu pensamento então vá e encontre o verdadeiro ouro. Você é muito petulante, mas teve um raciocínio coerente. Se acha que tudo isso é um reflexo, então deve achar também que existe algo que causa esse reflexo. E o causador dessa falsa beleza deve ser então a coisa mais importante do mundo. 53


—Está insinuando que o causador do reflexo dourado é a Virtude Original? — perguntou Selminha. Então a mulher se levantou e ajeitou os longos cabelos. —Se a Virtude que você procura for para você a coisa mais importante do mundo, então ela será a causadora do reflexo dourado. — disse a mulher. —E onde estará o causador desse reflexo? — perguntou Toninho, falando pela primeira vez. —Provavelmente deve estar no fundo do lago dourado, pois é dele que vem toda essa beleza dourada que transformou tudo ao seu redor. — deduziu a mulher. —Mas se entrarmos no lago, vamos nos afogar. — disse Toninho. Então a mulher riu com deboche. —Será que vocês ainda não sabem que a morte não existe no mundo de Caramaduza? Selminha então olhou para o seu amigo e isso foi o suficiente para decidirem mergulhar no lago.

54


Capítulo 11 A Virtude Original

Eles entraram no lago e mergulharam até o fundo. Viram então um pequeno disco dourado que, apesar do tamanho, irradiava uma luz tão intensa que eles mal conseguiam manter os olhos abertos. Selminha se aproximou primeiro e fez menção de pegar o disco, mas foi impedida por Toninho, que a empurrou violentamente, pegando o disco e fugindo em seguida. Selminha ficou confusa. Não entendeu a atitude do amigo. Mas o seguiu mesmo assim. —O que aconteceu com você, lesma? — gritou Selminha furiosa ao sair do lago. —Nunca mais me chame de lesma! — disse Toninho com uma voz que Selminha nunca tinha ouvido antes — Agora a lesma é você. E além de lesma é também estúpida e ingênua. —Por que está fazendo isso? — perguntou Selminha admirada com a atitude do amigo. —Ora, sua idiota! — disse Toninho — Acha mesmo que eu fiquei dormindo no caminho do autoconhecimento? Acha também que eu seria tão burro a ponto de não seguir o exército de sacis? Selminha então arregalou os olhos diante da traição do amigo. —Você só pode estar brincando! — disse ela. Então Toninho gargalhou e depois começou a gritar como se estivesse caçoando dela: —Uma-uma-uma-uma-uma! Selminha tampou os ouvidos. Não queria ouvir aquele grito novamente. 55


—Você perdeu a sua única chance de conhecer o verdadeiro poder deste mundo. — vociferou Toninho — Se você fosse tão esperta como diz ser, então teria seguido o caminho do uma-uma-uma. Olhe para mim! Veja no que me transformei. —Não vejo nada de mais em você. Para mim, você continua sendo uma lesma. Então Toninho olhou para ela com ódio e depois desapareceu no ar, aparecendo logo em seguida atrás de Selminha. —Viu só! — disse ele repentinamente, fazendo Selminha tomar um grande susto. Ela então olhou para trás e viu que Toninho estava diferente. Ele havia se transformado em algo tão medonho que ela quase não o reconheceu. —Não me chame mais de lesma! — continuou ele — Agora sou mais rápido do que os seus pensamentos. Tenho o poder de ir e vir no caminho da eternidade num piscar de olhos. Sou mais esperto do que uma lebre e mais feroz que um leão. —Você não é nada! — disse Selminha virando as costas para ele. —Sou tudo. — berrou ele — E além disso tenho o que você mais deseja. — então ele ergueu o disco de ouro com orgulho. Então Selminha se virou e olhou para o disco na mão de Toninho. Ficou observando atentamente aquele pequeno disco que fora colocado por acaso entre ela e o sol, como num eclipse. O que antes era algo reluzente, agora havia se tornado negro. O lado do disco de ouro que estava diante de Selminha tornara-se negro, pois não recebia a luz do sol. Aquela visão foi uma certeza que Selminha queria ter. Uma Dádiva. Uma lágrima. Sim, a Única Lágrima saiu de um de seus olhos e caiu no chão, bem diante daquele disco que tampava a luz do sol. Toninho ficou estarrecido diante do que acabara de ver. A Única Lágrima derramada por Selminha fez nascer entre eles a pequena árvore. Selminha então colheu o único fruto e antes de comê-lo disse: 56


—Você jamais terá o que eu mais desejo, pois o que eu estava procurando não pode pertencer ao mal. Mesmo que você roube todo o ouro deste mundo, jamais vai conseguir enxergar a verdadeira beleza. Você foi para o lado do mal e o mal é a escuridão. Ao erguer esse disco de ouro, você me fez lembrar de algo óbvio, mas ao mesmo tempo tão difícil de lembrar: o ouro não reluz no escuro! O que faz dele algo belo é a luz que bate sobre o metal e faz surgir o brilho dourado. Agora posso entender que o mundo só é belo por causa da luz. Se não fosse ela, os nossos olhos não enxergariam nada. Nem o ouro e nem as borboletas. O que vemos neste mundo não pode ser motivo de felicidade e muito menos de tristeza, pois a verdadeira beleza não está aqui e sim sobre nós. Todas as nossas virtudes são falsas, são apenas reflexos da Virtude Original. Pode ficar com esse objeto, pois não dou a mínima para ele. E depois de dizer essas palavras, Selminha comeu o fruto e desapareceu bem diante dos olhos de Toninho.

57


Capítulo 12 A Liberdade

Ela abriu os olhos. Estava deitada em sua cama. Ficou confusa. Era como se estivesse acordando de um longo sonho. Levantou-se e caminhou até a janela. Viu o movimento da praça Divino Espírito Santo e depois sorriu. Aquilo era a sua realidade. Saiu do quarto e foi até a cozinha. Chiara estava sentada, descascando batatas para o almoço. A cozinheira olhou estranhamente para Selminha e depois continuou o seu serviço. —Onde está mamãe? — perguntou Selminha. Então a cozinheira voltou a olhar para a menina com estranheza e depois se levantou da cadeira. —O que foi Chiara? — perguntou Selminha — Parece que viu um fantasma. Então a cozinheira gritou com euforia: —Dona Cecília! Minutos depois, Cecília surge na cozinha com o semblante assustado: —O que foi Chiara? Então a cozinheira apontou o dedo para Selminha. —Acho que ela voltou ao normal. — disse a cozinheira a sua patroa. Cecília olhou ansiosamente para a sua filha. —O que está acontecendo aqui? — perguntou Selminha assustada com a reação delas. Cecília sorriu e chorou ao mesmo tempo. Abraçou a sua filha como se fosse a primeira vez que a via depois de um século. —Você está bem, minha querida?! — perguntava Cecília entre soluços. 58


—Claro que estou, mamãe! — disse Selminha — Por que não haveria de estar? Cecília ergueu sua filha nos braços e festejou. —Pensei que você tivesse ficado como sua tia Francisca. — disse Cecília indo se sentar na cadeira com a filha no colo. Selminha teve a certeza de que não havia acordado de um sonho. O Mundo de Caramaduza existia, como também existiu toda a sua história naquele mundo. Muitas coisas passavam por sua mente. Ela não conseguia definir o que estava sentindo naquele momento. Talvez fosse alívio por ter conseguido sair de lá. Talvez orgulho por ter conseguido encontrar a Virtude Original. Talvez tristeza por ter deixado para trás a alma de sua tia Francisca e de seu amigo traidor Toninho. Mas apesar de não saber o que estava sentindo, ela sabia muito bem qual era a sua missão e sabia também que uma nova história estava para começar em breve...

Fim

59

Profile for Giandro Gomes

O Largo dos Macucos - A Virtude Original  

livro infanto-juvenil de Giandro Gomes

O Largo dos Macucos - A Virtude Original  

livro infanto-juvenil de Giandro Gomes

Advertisement