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Cativa do inimigo Sara Craven Natasha Kirby está no meio do fogo cruzado da disputa entre sua família e os Mandrakis. O impiedoso magnata Alex Mandrakis tem a empresa dos Kirby nas mãos, e pretende usar essa vantagem a seu favor. Por isso, dá a Natasha um ultimato: sua inocência em troca da salvação do império. Cativa no luxuoso iate de Alex, o medo de Natasha se transforma em uma paixão incontrolável. Ela sabe que deveria odiá-lo, mas cada toque de Alex a faz desejar que essa sedução implacável dure para sempre.

Somente a negócios Day Leclaire Gabe Piretti nunca esqueceu a mente brilhante e o corpo sensual de Catherine Haile, apesar de ter sido abandonado por ela anos atrás. O plano para trazê-la de volta para sua vida – e sua cama – já estava em andamento quando Catherine pede ajuda para salvar sua empresa. Gabe usará o desespero dela para conseguir o que deseja. Mas o que acontecerá quando ele tiver de escolher entre os negócios e o prazer?


Sara Craven Day Leclaire

CATIVA DO INIMIGO & SOMENTE A NEGÓCIOS

Tradução Alda Porto Celina Romeu

2015


SUMรRIO

Cativa do inimigo Somente a negรณcios


Sara Craven

CATIVA DO INIMIGO

Tradução Alda Porto


Sobre a autora Sara Craven nasceu em South Devon e cresceu em um lar repleto de livros. Trabalhou como jornalista na emissora local cobrindo todo o tipo de notícia, desde exposição de flores a assassinatos. Começou a escrever para a Mills & Boon em 1975. Quando não está elaborando romances, ela gosta de assistir filmes, ouvir música, ir ao teatro, cozinhar e comer em bons restaurantes. Atualmente, Sara vive em Warwickshire.


CAPÍTULO 1

– ENTÃO – DISSE Natasha Kirby, com um olhar firme ao redor da mesa iluminada, com a voz fria. – Alguém vai me dizer o que está acontecendo? Explicar o que faço aqui? Ou terei de adivinhar? Seguiu-se um incômodo silêncio, assim Andonis respondeu, com um sorriso bajulador. – Ora, irmã, é só que faz... Tempo demais... Que nos visitou. Po, po, po, precisa haver algum problema para convidá-la para uma festinha familiar? – Não. Mas geralmente venho visitar a mãe de vocês na primavera e no início do outono. E não vejo muitos sinais de comemoração, se isto é uma festa. Ao contrário, pensou, a atmosfera na casa lembrava mais um terremoto. Captara isso desde que chegara. Nem poderia dizer que estava surpresa, diante dos acontecimentos recentes. Embora a refeição estivesse excelente... Seu carneiro preferido, notou com cinismo... A conversa à mesa fora tensa, quase emudecida. Até Irini, a caçula dos filhos de Basilis Papadimos, estivera mais calada que de hábito, como se contivesse a aberta hostilidade à irmã adotiva inglesa. O que devia, reconheceu Natasha, ser um alívio. Contudo, de algum modo não fora... Natasha recostou-se na cadeira, suspirou baixinho e pensou: Ai, Deus, lá vem encrenca. Eu sabia. Porque os conhecia... Bem demais. E desde a infância, pensou com ironia. Pelo menos desde que Basilis, um corpulento e ruidoso amigo de seu pai, aparecera naqueles dias traumáticos após a morte súbita de Stephen Kirby e a levara para o palacete nos arredores de Atenas, ignorando todos os protestos das agências londrinas de amparo à criança. – Sou seu padrinho – rosnara, com os olhos ferozes sob as grossas sobrancelhas. – E, para um grego, isso significa uma vida de responsabilidade. Stephanos sempre soube que eu aceitaria de bom grado sua filha como minha. Não preciso dizer mais nada. E quando o milionário proprietário da empresa de navegação Arianna falava com tal determinação, era melhor obedecer. Fora acolhida com toda bondade por madame Papadimos, que a mandara chamá-la de Thia Theodosia, depois lhe acariciara o macio cabelo louro e dera-lhe um lenço perfumado de sândalo, quando as inevitáveis lágrimas de espanto começaram a escorrer-lhe pelo rosto pálido.


Os rapazes da casa, Stavros e Andonis, acolheram-na mais exultantes, vendo-a, claro, como outra vítima feminina, junto com a irmã caçula, Irini, para as provocações e brincadeiras de mau gosto. Embora enlutada, Natasha imediatamente percebera que Irini ressentira-se tão logo a viu transpor o limiar da família Papadimos, e pouco acontecera desde então para mudar isso. Ela sempre a veria como uma estranha... A intrusa imposta pelo pai. E a atitude do próprio Basilis não ajudara a melhorar a situação. Por mais jovem que fosse, ela sentiu uma incômoda consciência pelo fato de a vida de Irini já ser uma longa e dolorosa disputa pela atenção do pai, disputa a qual parecia perder. Pois no que se referia à filha única, ele tinha bondade suficiente, mas sempre mantendo a distância, como jamais se mostrava com os filhos. Nem com ela própria, a quem dedicava cálida afeição. E se Irini comportava-se como um anjo, ou transformava-se num demônio desdenhoso e carente, como acontecia num piscar de olhos, era indiferente para ele. Portanto, sem incentivos para ser boa, geralmente escolhia a última opção, e os resultados eram de estraçalhar os nervos. – E pensar que o nome dela quer dizer paz – comentara Stavros com azedume, um dia, após uma briga espetacular, com gritos e bater de portas. – Devia chamar-se Hécate das Três Cabeças, pois choraminga feito um cachorro, morde feito uma cobra e parece um cavalo. Fora punido por crueldade, mas Natasha sabia que ele e Andonis ainda usavam o nome às escondidas para atormentar a irmã. À medida que ia ficando mais velha e perspicaz, Natasha perguntava-se por que a mãe, que devia conhecer os motivos das lágrimas, dos faniquitos e do mau gênio de Irini, não intervinha, salientando ao marido as disparidades daquele tratamento aos garotos. Mas talvez fosse porque tinha uma batalha pessoal a travar. Sempre parecera frágil, uma sombra diante da vibração extraordinária do marido, mas agora, desde a morte deste, parecia em lento e deliberado desbotamento do quadro familiar, limitando-se a viver na própria ala com Hara, dedicada enfermeira e companheira, sempre por perto. Tampouco participara do banquete dessa noite, o que Natasha julgava um mau sinal, pois Stavros e Andonis jamais discutiam negócios na frente da mãe. Se fosse apenas uma ocasião social, ela teria comparecido. As esposas, claro, constituíam um caso à parte. Tanto Maria quanto Christina achavam-se presentes... E, tensas, exibiam sorrisos forçados e risadas agudas demais. Olhou a mesa em volta. – Por isso, vamos deixar as sutilezas de lado e falar a verdade? Suponho que me convidaram para discutir os recentes e comentados acontecimentos da linha Arianna. – Não há nada a discutir. – Irini não falara muita coisa até então, mas voltara-se, de repente, com o intenso olhar reptiliano. – As decisões já foram tomadas. Basta você concordar. Natasha mordeu o lábio. Sabia que isso sempre fora um pomo de discórdia... Basilis declarara em testamento que a filha adotiva devia ter um lugar no conselho dos Papadimos, com direito pleno de voto e o mesmo nível salarial do resto da família. Ela abrira mão do salário, e quase não comparecia às reuniões do conselho, mas diante das matérias publicadas nos jornais nos últimos meses, percebera, pesarosa, que talvez houvesse cometido um grande erro.


Porque o desastre cercara recentemente a linha Arianna. O Arianna Queen sofrera um súbito surto de envenenamento alimentar que afetara quase dois terços dos passageiros. O Princess fora detido em Malta quando a tripulação entrara em greve pelo pagamento de salários atrasados, e duas embarcações menores também enfrentaram problemas, resultando na redução dos cruzeiros. E o novo carro-chefe, Empress, vira-se inundado de queixas após a viagem inaugural por causa das más instalações nos camarotes particulares e dos banheiros que não funcionavam direito. E isso apenas na linha de passageiros. Os cargueiros que compreendiam a frota Leander também haviam tido problemas, com um navio-tanque encalhado e o inevitável vazamento, além de um incêndio a bordo de outro. Lera todas essas histórias de horror, apavorada, sabendo que nada disso teria acontecido se Basilis fosse vivo e estivesse no comando, por ser um homem que tinha faro para encrenca. Na verdade, muito antes do ataque cardíaco, ele já falava na reforma em massa de toda a frota de navios de cruzeiro, em particular as galés e as casas de máquinas. Ela julgava apenas que, após a morte, num ato de gritante burrice, haviam-se mantido em suspenso esses planos sensatos e necessários. Se fosse consultada sobre o cancelamento ou adiamento dessa modernização, teria lutado com unhas e dentes pelo respeito aos desejos de Basilis. Era a única medida econômica a ser tomada. Não que os irmãos ouvissem conselhos, sobretudo femininos. E nisso, via-se obrigada a admitir, assemelhavam-se ao pai, defensor da visão obscurantista de que a mulher servia mais no quarto que na sala da diretoria. Deixara-a rígida de choque no dia em que fizera 18 anos, chamando-a ao gabinete para esboçar os planos do próximo casamento: o dela. Soubera horrorizada que, com o cabelo louro claro, a pele sedosa e os grandes olhos verdes, caíra nas graças dos suscetíveis jovens dos ricos círculos sociais em que se movimentava o clã Papadimos. Nenhum dos pretendentes em potencial levara em consideração saber se lhe atribuíam ou não um cérebro. Encaravam-na apenas como uma noiva-troféu. Mas, anunciara Basilis, magnânimo, teria permissão de escolher entre eles. Tampouco iria sem vintém ao marido, pois a soma em dinheiro que o pai deixara-lhe em confiança multiplicara-se sob sua administração. Tudo isso, além do dote que ele próprio lhe daria. Nossa, pensara Natasha, tentando conter a apavorada risada avolumando-se no íntimo. De repente me tornei o partido da temporada, senão do ano. Levara horas para convencê-lo de que tais planos estavam condenados ao fracasso. Tinha uma visão própria do futuro, em choque fundamental com a dele, que não incluía casamento... Pelo menos por alguns anos. Horas mantendo-se firme diante de retumbante desaprovação e censura dele. E de resistência à sutil chantagem emocional usada como último recurso, quando viu que a raiva e as súplicas haviam falhado. E horas de sinceras garantias de que o amava muitíssimo, e sentiria eterna gratidão pelos cuidados recebidos na infância e adolescência. Que lhe devia mais do que algum dia poderia pagar. Assumira o comando do próprio destino, mais na Inglaterra que no país de adoção. E lá tentaria fazer uma vida para si. Agora, desviava o olhar dos irados olhos da irmã adotiva e dizia em voz baixa: – Entendo. Posso indagar o quê, exatamente, me prepararam na linha pontilhada? Stavros estendeu a mão com a garrafa de vinho.


– Apenas uma pequena negociação – declarou em tom tranquilizador. – Uma tática dilatória. Só isso. Natasha recusara o vinho e encarara-o com rosto empedernido. – É mesmo? Bem, se é tão trivial, por que me arrastar por toda essa distância e não apenas enviar os documentos aos meus advogados em Londres, como acertado em minha última visita? Tenho uma empresa a administrar. Sem surpresa, ouviu um desdenhoso riso de Irini, seguido pela explicação em uníssono dos irmãos de que não era tão simples assim. Era uma questão familiar, portanto, melhor tratá-la pessoalmente, sem incomodar os advogados. – Oh, Deus – murmurou Natasha, vendo Christina morder o lábio e Maria puxar as correntes de ouro no gordo pescoço quando trocaram visíveis olhares de inquietação. – Tudo deve ser muito pior do que imaginei. Toda a história acabou por vir à tona, e os irmãos adotivos sucederam-se na narração, coro de algum drama antigo, como os das peças de Ésquilo e Sófocles às quais ela assistia com Basilis. Apenas a tragédia atual era muito diferente. Relacionava-se com a má administração, ganância e estupidez em enorme escala, com o desastre à espera nos bastidores. Pois agora as seguradoras faziam grandes cobranças, os acionistas apavoravam-se, o que pela primeira vez tornava o antes poderoso império de Basilis vulnerável. Coisa que ela jamais julgara capaz de acontecer. – Mas tomamos medidas para regularizar a situação – anunciou Stavros. – Planejamos uma grande reforma de toda acomodação de passageiros na linha Arianna – acrescentou, como se de repente houvesse tido a ideia sozinho. – Que bom – comentou ela. E, sem dúvida, antes tarde do que nunca. – Só que o financiamento necessário revelou-se mais difícil de conseguir do que pensávamos – acrescentou Andonis. Mas se esperavam pedir-lhe um empréstimo, sofreriam séria decepção. A empresa Helping Out, que abrira com a herança do pai, já se firmara o suficiente para permitir-lhe aceitar uma sociedade e pensar em expansão. Pois sempre surgiam emergências, grandes e pequenas, na vida das pessoas. Precisavam levar o cachorro para passear, ou pegar os filhos na escola, ou contratar alguém como babá quando saíssem de férias. Ou tinham parentes idosos a visitar ou levar às compras. E, no cenário do pior caso de acidente, doença ou luto, precisariam de alguém calmo e digno de confiança para intervir e assumir. Assegurar o serviço de refeições prontas e fazer a vida continuar com um elemento de estabilidade até tudo se acertar. Era muito satisfatório saber que a Helping Out tinha um excelente nome em matéria de crédito, e a maioria da clientela vinha por recomendação pessoal, embora ficasse um pouco surpresa ao descobrir que ela e Molly Blake haviam acabado de fazer 21 anos. A empresa proporcionava-lhes uma vida decente, as duas empregavam gente boa e garantiam um pagamento correto, sem temer cooperar quando necessário. No momento, porém, não havia folga financeira. – Claro, exploramos cada possibilidade – continuou Stavros. – E esperamos que o empréstimo esteja disponível muito em breve. Mas enquanto finalizamos os detalhes, precisamos cuidar de outro problema.


– Por infelicidade, a notícia de nossos problemas chegou a outras pessoas – insistiu Andonis com o relato de desgraças. – E, se há sangue na água, os tubarões rondarão. Corre o boato de que alguns rivais pensam numa tomada hostil, o que é péssimo. – Até duas semanas atrás – argumentou Stavros –, quando recebemos uma oferta de compra imediata com metade do lucro da linha Arianna e da frota de carga. – E você encara isso como problema em vez de solução? Andonis bateu com o punho na mesa. – Foi um insulto. – Por que ofereceram uma ninharia? – questionou Natasha pensando em voz alta. – Não – respondeu Stavros. – Consideramos o dinheiro justo. – E sempre pode melhorar – sugeriu ela, hesitante. – Se, como diz, há espaço para negociação. – Não há – respondeu Andonis, olhando o irmão, com a raiva de ambos tangível. – De tal fonte, não. Natasha inspirou, trêmula, quando de repente compreendeu. Oh, Deus, mais um episódio nesta eterna briga familiar. Por favor... Que não aconteça. Pronunciou baixinho: – Em outras palavras, a Mandrakis Corporation. – E viu o recuo geral, como se tivesse dito uma obscenidade. – Mas, decerto, tudo isso é passado, agora que Thio Basilis morreu e Petros Mandrakis aposentou-se. – Então você é uma tola por pensar assim – observou Irini, depreciativa. – Porque o filho, Alexandros, assumiu o lugar dele. – Alex Mandrakis? – interrogou Natasha, incrédula. – O playboy da universidade ocidental e queridinho das colunas de mexericos? Oh, sem essa. A julgar pela fama, ele se interessa muito mais por fazer amor do que guerra. Andonis fez uma careta irônica. – Talvez ele seja assim. Mas agora chefia o império Mandrakis, e faz todo mundo saber disso. – Mas por quanto tempo? – inquiriu Natasha, seca. – Até a temporada pós-esqui chamá-lo dos Alpes, ou o Harém Flutuante iniciar o cruzeiro de verão no Mediterrâneo? – Referia-se ao apelido dado pela imprensa sensacionalista ao iate Selene de Mandrakis. Balançou a cabeça. – Logo se cansará de ser o mais recente magnata e voltará ao antigo estilo de vida. – Nossa informação diz que não. É de fato o filho do pai e tornou-se uma força respeitável. Por isso precisamos ter cuidado. “Filho do pai”, repetiu Natasha, em silêncio. Reprimiu um suspiro. “Se ao menos se pudesse dizer isso de vocês dois”, pensou sem prazer. – Porque é tão nosso inimigo quanto foi o pai – acrescentou Irini. – E não vai contentar-se enquanto não acabar com toda a família Papadimos, morta de fome na sarjeta. Natasha franziu os lábios. – Um pouco exagerado, com certeza. Stavros acabou de admitir que recebeu uma boa oferta pela sociedade nas duas linhas. – Por saber que não a aceitaríamos – disse Andonis. – Que preferiríamos morrer primeiro. Não muito provável, pensou Natasha friamente. – No entanto – mencionou Stavros, meio triunfante –, informamos o interesse dele aos banqueiros, e informamos que vamos pensar no assunto. Já começaram a mudar as atitudes com relação ao nosso pedido de refinanciamento.


– Na verdade, fizeram uma oferta tão logo explicamos nossos termos para a sociedade. Termos que atam nossos mútuos interesses como aros de ferro, e que já apresentamos a Mandrakis. A tal tática dilatória, mana. Contamos com ela. Mas não já, pois é visível que o deixamos intrigado, a ponto de pedir-nos garantias que nos dispusemos a dar, embora, mais uma vez, não agora. – Você entende que desejamos atá-lo – explicou Andonis. – Levá-lo a acreditar na autenticidade dessas negociações. Que estamos dispostos, como diz você, a esquecer o passado... Mas não estamos e, quando ele descobrir, já teremos nosso empréstimo e ele não mais será necessário. Entendeu? Bem demais, pensou Natasha. Em voz alta, proferiu: – Sem querer estragar os planos de vocês, talvez não seja tão simples. E se os bancos exigirem uma assinatura como parte essencial do acordo? Se quiserem assegurar-se de que Mandrakis é sócio até se decidirem? – Improvável – respondeu Stavros. – Pois a natureza do novo acordo é uma questão muitíssimo delicada, e o banco hesitará em pressionar qualquer dos lados. Friamente, Natasha afirmou: – Eu não julgaria os bancos tão delicados quando enormes somas estão em jogo. E embora a Mandrakis Corporation possa ser à prova de fogo, por causa, ou apesar, do novo presidente do conselho, a ficha dos Papadimos no último ano não parece tão sensacional assim – acrescentou, ignorando o ruído indignado de Irini. – Vão correr um grande risco. – Mas não encararão assim – respondeu Stavros. – Se acreditarem que nossas famílias logo se unirão por mais de um acordo comercial. – Desculpe – disse Natasha, devagar. – Acho que não entendi. – Sugerimos um tipo diferente de sociedade – explicou Andonis, sorridente. – Nada menos que um casamento na família. E é nisso que ele pensa agora mesmo. Natasha olhou automaticamente para Irini. Não é de admirar o mau humor dela, pensou. Quer falem sério ou não, é bastante ruim ver-se oferecida a alguém como Alex Mandrakis, que desconhece o significado da palavra fidelidade. E muda de mulher como de ternos elegantes. Embora quase tudo que Natasha soubesse dele viesse de colunas de mexericos e revistas vistosas que o mostravam com destacada regularidade. Mas vira-o uma vez numa recepção em Atenas a que comparecera com a amiga Lindsay Wharton, cujo pai relacionava-se com a embaixada. – Uau! – reagira Lin, rindo. – Não olhe agora, mas uma das maravilhas do mundo acaba de entrar, acompanhado. – Do que está falando? – perguntara Natasha, intrigada. – Alex Mandrakis – suspirara a amiga. Mandrakis, pensou Natasha, sobressaltada. Basilis jamais a deixaria vir àquela festa se soubesse da presença do filho do arqui-inimigo. Ainda assim, arriscou uma olhada, por julgar improvável que os caminhos dos dois voltassem a se cruzar. Mesmo sem Lin descrevê-lo, seria difícil não vê-lo, o mais alto de todos em volta, pura elegância esbelta em um smoking.


E um rosto tampouco inesquecível, pensou, sem ar, as acentuadas feições bronzeadas do nariz à profunda fenda no queixo, passando pela boca, melhor descrita como pecaminosa. De repente, como se alertado por alguma invisível antena, ele girou a cabeça e aqueles olhos muito escuros sob sobrancelhas retas e pretas retribuíram-lhe o olhar, a boca curvada num sorriso ao percorrêla numa avaliação tão franca quanto total. Despira-a com os olhos. Natasha sentira uma onda de sangue quente subir dos pés à cabeça e rezou que o solo se abrisse e a engolisse para sempre. Mas isso não aconteceu, e teve de limitar-se a dar as costas, fingindo que ele não existia. Agora, falou, asperamente: – Se ele houvesse, de repente, se transformado no sr. Perspicaz, saberia que é uma armação. Afinal, Irini jamais foi discreta nas opiniões sobre a família Mandrakis. Fez-se um estranho silêncio. De novo, os irmãos entreolharam-se, mas agora riam. – Irini? – Stavros balançou a cabeça, prazeroso. – Não seríamos tão tolos. Não, a noiva que lhe oferecemos foi você, Natasha mou. Alargou o sorriso de satisfação. – Então, o que acha? Esperto, ne?


CAPÍTULO 2

– ESPERTO? – NATASHA elevou a voz. – É a ideia mais ridícula que já ouvi na vida. Ambos devem ter enlouquecido. – Mas, Natasha, só pedimos que faça por nós uma coisa simples. – Andonis curvou-se. – Basta assinar uma carta, que mandaremos a Mandrakis, dizendo que você aceita casar-se com ele como propôs. Será uma dificuldade tão grande? – Garanto que ele jamais concordará com essa proposta. Não deseja casar-se com ninguém. – Andonis deu de ombros. – Por que deveria amarrar-se a uma quando tantas beldades querem dividir a cama do sujeito? Que idade tem? Trinta? Dentro de dez, 15 anos, talvez, se case para gerar um filho, se encontrar uma mulher que o queira. Até lá, Natasha mou, ele fará exatamente o que quiser. – Mas não se preocupe – interveio Irini, ressentida. – É improvável que o agrade, com esse cabelo claro, pele branca e sem sangue nas veias. – Sorriu-lhe, desdenhosa. – Como pode desejar ser querida por qualquer homem? Com Mandrakis, estará em perfeita segurança. Novamente, Natasha sentiu a inquietante lembrança dos divertidos olhos escuros varrendo-lhe com frieza o corpo de 17 anos, e do excitado murmúrio de Lin: “Dizem que ele faz amor em quatro idiomas. Não é de morrer pelo cara?” Ela podia dar a Irini várias respostas vigorosas, pensou, incluindo a informação de que namorava um homem em Londres que a achava muito desejável, mas controlou-se. – A segurança, na verdade, não entra na equação. Recuso a deixar-me envolver nesse esquema maluco. Por favor, entendam bem isto. Fez-se um silêncio, e então Stavros declarou: – Francamente, irmã, entristece-me sua falta de gratidão, a falha no dever pela família que a criou. Essa carta é apenas uma formalidade. Assim, será demais pedir? Sobretudo quando ele espera recebê-la de nós? E tanta coisa depende dela? – Eu achava que você queria deixar as coisas se arrastarem – respondeu Natasha. – Mantê-lo à espera. – Foi o que fizemos – argumentou Andonis. – Mas agora precisamos de um gesto... Uma pequena conciliação para mantê-lo interessado.


Inquieta, ela empurrou a cadeira para trás, levantou e encaminhou-se até as altas portas de vidro que davam para o jardim. – Sem indagar-me primeiro. Você não tinha o direito. – Mas que mal há? – questionou Andonis. – Não acontecerá casamento entre vocês. Juramos. Só precisa dizer que aceita os termos que oferecemos. Dar-lhe algo para pensar. – Olhou-a, suplicante. – Lembre-se de como meu pai resgatou-a e a tratou como se fosse filha dele. Talvez seja hora de pagar essa bondade com um pouco de generosidade. Ela comentou, friamente: – Sabe que seu pai não teria tocado num acordo desses. Odiava demais a família Mandrakis para oferecer até mesmo um falso ramo de oliveira. E Alex Mandrakis viu-me, mesmo que não lembre... – É verdade – concordou Stavros. – Mas Mandrakis vai parecer idiota quando conseguirmos o dinheiro e descartarmos a oferta dele com desprezo. Vai perder a dignidade junto aos acionistas, e, acima de tudo, junto ao pai. Nossa vitória final será maior do que poderíamos esperar. E isso nosso pai adoraria. Como bem sabe, irmã. É, pensou Natasha, amargurada. Bem demais. No tocante à família Mandrakis, também Basilis parecia abandonar toda lógica e juízo. Jamais perderia uma oportunidade de pregar-lhes uma séria peça. Todavia, não ocorrera a Stavros ou Andonis que seu plano podia revelar-se uma faca de dois gumes, e Alex ter um plano semelhante? Se assim for, pensou ela com fatalismo, que Deus nos ajude. – Muito bem. Se não há mesmo outro caminho, dê-me a carta e, pelo pai de vocês, assinarei. Mas continuo julgando uma ideia realmente terrível, e espero de todo coração que não acabe tudo em lágrimas. NÃO SE tratava apenas dessa carta, refletiu ela depois, deitada na cama. Havia todo um maço de documentos relativos ao refinanciamento que precisava assinar, e obedeceu com cautela, sentada à velha escrivaninha no antigo gabinete de Basilis, com Stavros e Andonis de sentinelas gêmeas orientando-a. Depois, os dois mal ocultaram o ar triunfante diante daquela capitulação, e ela recusou a oferta de juntar-se a eles no saloni, num brinde de comemoração, alegando que tinha um voo cedo no dia seguinte e precisava descansar. Só que não conseguia dormir, pois a irritante convicção de que acabara de cometer um horrível erro mantinha-a desperta. Desejava mesmo descer ao gabinete, recuperar a carta e destruí-la. Mas haviam-na trancado no cofre, junto com os outros documentos. Dizer aos irmãos Papadimos no desjejum que mudara de ideia não faria diferença alguma, pensou ressentida. Tarde demais para recuar. Sentira-se tentada a confiar em Thia Theodosia quando a visitara a caminho da cama. Mas encontrara-a deitada no sofá, com um livro esquecido no colo, fitando o espaço com olhos que só viam tristeza, e não podia aumentar-lhe os problemas.


Por isso sentara-se ao lado, trouxera-lhe um sorriso aos lábios com as histórias de alguns clientes da Helping Out, e, como sempre, pedira a bênção de despedida à mãe adotiva. Após aquela noite, precisava de toda proteção. Consolava-se com o fato de que tudo melhoraria tão logo voltasse à Inglaterra, depois de pagar, enfim, a dívida com a família Papadimos. Londres era seu verdadeiro mundo, refletiu. O apartamento que dividia com Molly, enquanto o noivo desta continuava no além-mar, a firme empresa que construíam juntas e agora, claro, Neil. De olhos fechados, pensou com prazer em Neil. Haviam-se conhecido um mês e meio antes, no lançamento de um livro. Neil, relações públicas dos editores, alto, atraente e charmoso, pedira-lhe um cartão de visitas e sugerira que podiam jantar juntos, qualquer dia. Esse dia revelara-se a noite seguinte, lembrava, sorrindo na escuridão, e viam-se com regularidade desde então. – Então, é esse? – interrogara Molly, provocando-a, apenas poucas noites atrás, quando Neil trouxera-a do teatro para casa. – Vai dar, afinal, o salto rumo ao grande desconhecido que é o sexo? Ela corara. – Você me acha louca a ponto de mantê-lo esperando tanto tempo? – Não totalmente. Parece que o ditado “dê-lhe desprezo, mantenha-o preso” funcionaria neste caso. Mas você tem o coração muito mais duro que eu com Craig. – Culpe minha criação conservadora – respondeu Natasha, sorrindo. – Segundo Thia Theodosia, sexo antes do casamento não existe. Pois qualquer escorregadela no caminho da virtude só levaria à infelicidade, à vergonha e ao desespero. – E também à má sorte da noiva se descobrisse, tarde demais, que o marido é péssimo de cama – retrucou cinicamente a amiga. – Como iria eu saber? Além disso, dizem que os gregos são fabulosos amantes. – Bem, já é um conforto – declarou Molly. – E nunca se sentiu tentada a testar essa interessante teoria? – Não – respondeu Natasha com desnecessária ênfase. – Nem sequer uma vez. A colcha de repente pareceu enrolar-se no pescoço dela, que a empurrou com um suspiro irritado e deixou a cama. Deixara a janela entreaberta para pegar algum ar fresco, correu-a toda, abriu as venezianas e saiu à sacada. Não soprava vento algum, entretanto. O calor da noite jazia como uma coberta sobre a cidade, e mesmo o incessante barulho do tráfego ateniense parecia emudecido na luta contra o estridor dos grilos no jardim. A lua cheia pendia do céu como um grande globo de prata cintilando na piscina. Ela olhou para baixo com um súbito anseio, sentiu-se acalorada e pegajosa. Todos os quartos tinham lance de escada próprio até a área da piscina, contudo ninguém fora atraído para o ar livre. Haviam fechado as persianas em cada janela, e não se via um vislumbre de luz, o que indicava o sono pacífico de todos os ocupantes. Stelios, o segurança, passara 15 minutos antes, pois ela ouvira-lhe os passos e o ganido abafado do cachorro. Já se recolhera para tomar um café atrás do outro e manter meio olho nas telas mostrando filmes das câmeras postas nas entradas e, a intervalos, ao redor externo do muro. Apesar disso, nenhuma câmera cobria a área da piscina. Assim, se ela quisesse relaxar com uma nadada, nada a impedia.


Decidida, pegou a toalha no banheiro, desceu a escada de mármore em silêncio e atravessou os densos arbustos em volta da piscina. Deixou a toalha cair nos ladrilhos, depois a camisola, e ficou nua em um instante, mergulhando um pé hesitante na água. Depois, com um suspiro de prazer, deslizou para as frias profundezas e percorreu devagar duas vezes a piscina, antes de virar-se de costas e flutuar durante algum tempo, deixando a tensão da noite ondular para longe no luar. O paraíso, pensou, e nadou de volta para o lado, erguendo-se para sair num esguio movimento. Torceu o cabelo, espremeu a água e sacudiu-o outra vez antes de pegar a toalha e enxugar-se. Ocorreu-lhe, então, que nenhum barulho da cidade tornara-se visivelmente mais alto, e talvez por isso os grilos se houvessem calado repentinamente. Minha culpa, por certo, concluiu sorrindo. Devo tê-los feito perder o ritmo. No mesmo momento, uma primeira brisa leve sussurrou entre os arbustos altos e amontoados, causando o farfalhar das folhas e fazendo-as tremer quando ela tornou a vestir a camisola. Pegou a toalha molhada e voltou rápido e em silêncio para o quarto. Deitou-se, e em poucos minutos dormia um sono profundo e sem sonhos. – DESCULPE-ME – MENCIONOU Neil. Achei que um fim de semana fora juntos seria o nosso próximo passo, mas é claro que entendi errado. – Não. – Natasha segurou-lhe a mão. – Não se trata de você, mas de mim. – Essa desculpa, não. Por favor. – Olhou-a pensativo. – Tasha, você não tem sido a mesma desde que voltou da Grécia há três semanas. Anda calada, até mesmo evasiva. Não pude aproximar-me. Pensei que um tempo fora a sós talvez nos pusesse de volta nos trilhos. – Talvez. Vai pôr. – Ela inspirou fundo. – Mas sabe que tenho sérios problemas de família. – Os armadores milionários não têm problemas. Apenas compram mais uma frota de petroleiros. – Infelizmente – respondeu Natasha em voz baixa –, neste caso, a frota a ser comprada, por acaso, lhes pertence. Leio insinuações no noticiário de negócios há dias, e rezo para que não sejam verdadeiras. Mas hoje de manhã chegou uma notícia de Atenas segundo a qual a proposta de refinanciamento dos irmãos Papadimos malogrou, e tanto a linha Arianna quanto os cargueiros foram adquiridos pela empresa Bucephalus Holdings a preço de banana. – Gemeu. – Santo Deus, meus irmãos acharam-se tão espertos, mas agora se veem numa bagunça total, em queda livre rumo a lugar nenhum. O pai deve estar se revirando na cova. E por que não me contaram o que acontecia em vez de deixar-me ler nos jornais? – Bucephalus? Não era aquele cavalo famoso? – Sim – confirmou ela. Pegou a taça e tomou um substancial gole de vinho. – De Alexandre, o Grande. – Que já morreu há milhares de anos. O cavalo também. Logo, não chegam a ser uma ameaça. – A menos que seja uma contraparte contemporânea – pronunciou Natasha com ar sombrio. – Mesmo assim. Por que isso iria afetá-la? Quero dizer, sinto por sua família, mas você nunca pretendeu envolver-se muito nos negócios dela. – Não queria. E agora não o farei, a não ser, claro, por outra viagem a Atenas em busca de outras malditas papeladas. Embora não possa dar as costas e ir embora, pois me preocupo com Thia Theodosia, que vai sofrer absoluta devastação. Tentei ligar para casa hoje, mas ninguém responde.


– Desligado – sugeriu Neil. – Mantendo o mundo a distância, não se pode culpá-los. – Não acredite nisso – comentou Natasha, amargurada. – Bem, nada se pode fazer agora. Acabou. – Não se você precisa retornar a Atenas. – Após uma pausa, acrescentou com delicadeza: – Mas quando voltar, talvez a gente tenha algum tempo a sós. – Pode contar com isso – respondeu Natasha baixinho, e sorriu. O E-MAIL convocando-a chegou uma semana depois. Vinha de uma firma de advogados da qual jamais ouvira falar, e dizia que se exigia a presença dela em Atenas para concluir a transação com a Bucephalus Holdings. Acrescentava que, após receber os detalhes do voo, iriam recebê-la no aeroporto. Curto e objetivo, pensou Natasha com ironia, ao contrário dos outros e-mails que vinha recebendo de Stavros e Andonis, barragens de recriminação, acusação e autojustificação. Punham a culpa em todos os demais, como sempre, pensou exausta, apagando a mais recente enxurrada. Tampouco deixou de notar que ignoravam por completo as ansiosas perguntas sobre a mãe deles. Mas quando eu chegar, pensou, verei como ela está. – Sinto muito por deixá-la em apuros quando estamos tão ocupadas – desculpou-se com Molly enquanto fazia a mala. – Mas isso não se repetirá. Qualquer visita futura será apenas para ver Thia Theodosia, e posso programá-la durante as férias normais. Por isso reservei voos noturnos, assim me ausentarei por apenas um dia. – Tudo bem, pare de afobar-se – ordenou Molly, severamente. – Podemos dispensá-la por 24 horas, sem preocupações, para fazer o que precisa. – Calou-se. – Só espero que não seja horrível demais. – Tem de ser – afirmou Natasha. – Só não acredito que tudo tenha desmoronado tão depressa. Famílias inteiras envolvidas. – Baixou a voz de repente. – Thio Basilis sempre se orgulhou disso. – Certamente, os novos donos os manterão – sugeriu Molly. – Afinal, os navios precisam continuar navegando. – Mas não necessariamente com tripulações dos Papadimos. Oh, Deus, por que aqueles idiotas não podiam fazer paz e não guerra uma vez na vida com Alex Mandrakis. Se aceitassem a oferta original, pelo menos lhes restaria alguma coisa. Tinham de tentar levar a melhor. – Saiu uma foto dele no jornal outro dia, na estreia de um filme, com a última paixonite. Homem deslumbrante, mas não alguém com quem me envolveria. – Você tem uma sabedoria superior à idade – disse Natasha, amargurada. – Mas ele fez o pior e só nos restaram os cacos. – Pegou o blazer cinza combinando com a saia e enfiou-o por cima da camisa branca. Traje profissional para uma reunião profissional, pensou, acrescentando. – Quase sinto pena de Maria e Christina, que jamais imaginaram isso naqueles pródigos casamentos alguns anos atrás. Mas aposto que não tratam os maridos com tão apaixonada dedicação hoje. Tomara que agora lhes deem o inferno. Numa atitude otimista, pegou a bolsa e partiu para o aeroporto. NEIL PROPUSERA levá-la, mas ela recusara, alegando que o estacionamento seria um pesadelo. – Volto num piscar de olhos – prometera. – Ficarei contando as horas – respondera ele, abraçando-a e mostrando no beijo de despedida uma fome incomum.


Na verdade, pensou Natasha no voo, fora uma franca lembrança de que, quando voltasse, ele esperava elevarem o relacionamento ao nível de amantes. Mas isso não aconteceria, garantiu-se. – Oh, céus! – exclamou gemendo baixinho. – Não se acovarde mais uma vez. Desta vez, não. O problema é que falara a sério com Molly da severidade de sua criação. E era difícil livrar-se desse condicionamento, mesmo julgando haver encontrado o homem certo. Para Thia Theodosia, o homem certo vinha com um anel no bolso, e tratava a noiva com total respeito por saber que a virgindade fazia parte do dote, até pôr o anel no dedo e o sacerdote os declarar marido e mulher. Mas só a tradição em que fora educada continha-a desde que deixara a Grécia para viver uma vida independente? Ou seria mais porque nunca se vira tentada seriamente a romper essa lei sexual tácita? Até agora, Neil parecia satisfeito em jogar pelas regras dela, mas isso não duraria muito. Natasha lia os sinais. Ele queria que fossem como os outros casais que conheciam. E quando Molly e Craig se cassassem, esperava que ela fosse morar com ele. Não fazia ideia, claro, da inexperiência dela. Talvez um fator importante, percebeu. Talvez estivesse apenas assustada diante do desconhecido. Simplesmente não tinha coragem de descobrir se era ou não “boa de cama”. Afinal, não se julgavam todos, hoje, segundo esse critério? Ele faz amor em quatro idiomas... Empertigou-se quando as palavras de Lin voltaram-lhe à mente. E o que causara isso, por Deus? Além do fato de Alex Mandrakis ter planejado a ruína da família, claro, Natasha lembrou-se daquilo com ironia, por isso ela se encontrava naquele avião. Assim, ia ser impossível afastá-lo do pensamento, por mais que tentasse. Mas pelo menos ele não daria o golpe de misericórdia em pessoa. Algum pau-mandado faria isso. Tratava-se de negócios, nada pessoal. Ela não desejava vê-lo novamente. E agora relegaria o dilacerante exame de consciência sobre a vida amorosa com Neil até uma ocasião mais adequada, declarou com firmeza a si mesma quando acenderam a luz do aviso de pouso, em Atenas. Porque as próximas 24 horas iam exigir um tipo bastante diferente de coragem, e não devia deixar que nada nem ninguém a desviasse disso.


CAPÍTULO 3

A CHEGADA a Atenas ocorreu em meio a uma tempestade, mas isso fora indolor. Não tinha bagagem a pegar, e um cartaz com seu nome foi a primeira coisa que avistou ao sair da alfândega. Carregava-o um homem corpulento, de terno branco, que a cumprimentou com séria cortesia, pegou a mala e levou-a até a limusine, que a esperava com tudo que tinha direito, incluindo chofer uniformizado. O ar quente e úmido deixou-a feliz por decidir-se pela opção mais fresca de amarrar o cabelo num nó frouxo no alto da cabeça, em vez de deixá-lo solto. Acomodada na parte de trás do carro, ocupou o luxuoso assento em solitário esplendor, enquanto o calado acompanhante sentava-se ao lado do motorista. Recostou-se, ouvindo o distante trovão, viu a chuva despencar pelas janelas, e desfrutou o intenso cheiro do caro couro. O tempo era escuro demais para ver alguma coisa, por isso fechou os olhos e deixou os pensamentos vagarem. Já quase cochilava quando percebeu que o carro reduziu a marcha e depois parou. Agora, enfrentar a família, pensou sem prazer. Empertigou-se às pressas, puxou a saia para cima dos joelhos e a porta do passageiro abriu-se. Outro homem surgiu, com um grande guarda-chuva, e por um instante ela supôs que fosse o mordomo dos Papadimos, e já ia cumprimentá-lo quando percebeu tratar-se de um total estranho. E também que a entrada com luzes fortes para onde a conduziam eralhe completamente desconhecida. Tentou resistir. – Não – falou ao grego. – Houve algum engano. Eu devia ir à Vila Demeter. – Não há engano, thespinis. Este é o lugar certo. Ambos a ladeavam agora, com mãos implacáveis sob seus cotovelos, e tocavam-na para dentro da vasta expansão de uma imponente escada de mármore. Natasha mal lançou um olhar ao ambiente em volta. Estava muito irada para isso, tentando desesperadamente lembrar o nome do advogado que os mandara, pois seria a pessoa a quem iria queixar-se quando aquela confusão estivesse resolvida.


Enquanto isso, apesar dos esforços para se ver livre, levaram-na pelas escadas curvas acima, até um patamar de galerias. – Que significa isto? – indagou ela, enrouquecida. – Onde estou? Digam-me logo. Calados, impassíveis, eles pararam diante de portas duplas e bateram. O homem do aeroporto girou as maçanetas e abriu-as sem fazer barulho. Não a empurraram. Nada tão brutal assim, mas de algum modo a impeliram adiante, enquanto recuavam, e as portas tornaram a fechar-se. Deixando-a ali, parada, sozinha. Só que não tão sozinha. Era um quarto imenso, mas Natasha viu apenas a cama, que era bem destacada por abajures altos, como um palco. Iluminavam o homem sentado ali, recostado num monte de travesseiros branquíssimos, e nu até a discreta colcha que lhe envolvia o quadril, e sem dúvida além, enquanto ele trabalhava num laptop no colo. Alex Mandrakis terminou sem pressa a tarefa que o ocupava, fechou a tampa, pôs o computador na mesa vizinha e olhou-a. – Ah – proferiu em voz baixa. – A beldade que me prometeram, por fim aqui. Tinha a voz calma. Falava inglês apenas com um leve sotaque. Ele faz amor em quatro idiomas... Ela sentiu a garganta fechar-se quando, pela segunda vez na vida, o olhar dele varreu-a do sedoso cabelo louro até os elegantes sapatos pretos. Dessa vez, porém, a expressão de franca avaliação nos olhos misturava-se com algo muito mais perturbador. Sem querer, Natasha recuou um passo e viu-o sorrir. Questionou: – O que está acontecendo? Por que me trouxeram aqui? – Você se ofereceu a mim – respondeu ele. – Por escrito. – Encolheu os ombros nus e musculosos. – Portanto, estou aceitando sua oferta. Perfeitamente simples. – Não. – Dessa vez Natasha manteve-se firme e fuzilou-o com os olhos. – É uma bobagem total, sabe tão bem quanto eu. Por isso não se finja de enganado, nem por um momento, pelo meu acordo para desposá-lo. – Voltou-se e dirigiu-se à porta, com a suposição de uma calma que estava longe de sentir. – No entanto, a piada desgastou-se e vou sair. Pegou as maçanetas, torceu-as para um lado e para outro, mas os pesados painéis não se mexeram. – Está perdendo tempo. – O riso tingia-lhe a voz. – Trancaram a porta, e assim ficará até amanhã. Ela se virou. – Mas você não pode fazer isto – argumentou com a voz engrolada. – Não pode impedir-me de sair. Eu não sei que jogo está fazendo, Kyrios Mandrakis, mas acredite que não tenho intenção de tornar-me sua esposa. Nem agora nem nunca. – Então pelo menos concordamos nisso – respondeu ele com a voz arrastada. – Pois, na verdade, não há questão de casamento entre nós, Natasha mou. E é você quem faz jogos, não eu. – Pausa. – Deve entender que sua segunda carta, expressa em termos muito diferentes da primeira, promete prazeres íntimos cujo conhecimento nenhuma solteira ousaria admitir, quanto mais sugerir a qualquer marido em potencial. Ela abriu os lábios, chocada. – Segunda carta? – repetiu, impotente. – Não houve segunda carta. Só assinei a primeira sob coação. Você deve ser louco varrido.


– E você, hipócrita, o que acho uma decepção. Eu esperava que uma garota de tão fascinante franqueza sobre desejos e fantasias sexuais pelo menos teria coragem quanto às suas convicções, quando por fim diante do foco desses... anseios. – Você não é foco de nada, Kyrios Mandrakis, a não ser de minha antipatia e meu nojo – respondeu Natasha. – Achei que meus irmãos dominavam o mercado em termos de arrogância e presunção, mas você os vence... de longe. – E assim vou continuar, Kyrios Mandrakis, portanto sua ridícula avaliação de meu caráter não me interessa. Você bem pode arrepender-se da franqueza com que me escreveu, agapi mou – acrescentou, curvando a boca. – Mas eu, não. E, embora jamais tenha acreditado em você como futura esposa, anseio com avidez desfrutar de sua versatilidade como amante. Motivo pelo qual se encontra aqui esta noite, como já deve saber. Para iniciar a nova carreira em meu leito. O traje formal de noite que ele usara na embaixada ocultara ombros largos e um peito esculpido sombreado por pelos corporais, que afunilavam até a barriga chata e o quadril estreito. A pele bronzeada fazia chocante contraste com a roupa de cama branca. Ela não queria imaginar a aparência do resto. Ouviu a própria voz como se viesse de uma grande distância. – Prefiro morrer! Ele ergueu as sobrancelhas com uma expressão cínica. – Quando foi sua própria ideia – contestou. – Acho que não. – Mas continuo tentando dizer – protestou ela, odiando o fio de crescente desespero que escutava na voz. – Jamais houve uma segunda carta. Oh, por que não acredita? – Porque tenho a prova que a torna uma mentirosa. – O tom quase beirava o casual. – No que, claro, não a difere dos demais do clã Papadimos. Mentirosos e trapaceiros todos, e, como a maioria dos de sua fé, arrepende-se apenas quando apanhada. Mas seus irmãos adotivos têm ainda mais a lamentar. Ainda precisarão suportar a vergonha de saber que você me pertence como eromeni, amiga de travesseiro, e quando me cansar de você, a devolverei, usada e descartada. Talvez... até grávida. Um último golpe à honra da família, da qual jamais poderá recuperar-se – acrescentou brutalmente, ao vê-la readquirir o fôlego. – Não pode fazer isso – respondeu ela com a voz trêmula. – Ninguém pode. É bárbaro, vil. E imagina que vai safar-se com isso? Que não mandarei prendê-lo por sequestro e... estupro, independentemente de quanto se julgue poderoso? – Sequestro? – repetiu ele, sorrindo, e balançou a cabeça. – Quando você respondeu de bom grado ao meu convite e permitiu que meu chofer a trouxesse? Ele não falou de cena alguma no aeroporto. Nem gritos ou lutas. Quanto ao sequestro, duvido que tal acusação tenha êxito. Não quando sua carta tornar-se pública. Nenhum tribunal me condenaria por aproveitar-me dos serviços que você ofereceu por livre e espontânea vontade. Ela jogou a cabeça para trás. – Digo que quem mente é você. Não creio que essa carta sequer exista. Ele deu um suspiro e curvou-se para abrir uma gaveta na mesinha de cabeceira. Quando tornou a endireitar-se, ela viu, com um peso no coração, que segurava uma pasta, da qual extraiu duas folhas de papel. – A primeira – informou ele, estendendo-a. – O acordo para tornar-se minha esposa como parte de um mítico negócio entre nossas famílias. Aceita que essa existe?


– Sim, admito. Alex fez uma pausa e sorriu com sarcasmo. – E a segunda, que esboça suas propostas alternativas à nossa futura união. Como vê, as assinaturas nos dois documentos são idênticas. Sim, pensou Natasha, entorpecida, ao olhá-las. Via. Pronunciou numa voz que mal reconhecia. – Não entendo. – Devo refrescar-lhe a memória? Começou a ler em voz alta, num tom quase impessoal, mas, antes de prosseguir além das duas primeiras frases, Natasha já murmurava: – Oh, Deus, pare, por favor... – suplicou com todo o corpo a arder de vergonha, as mãos apertadas nas orelhas. – Ah – mencionou ele. – Então lembra. Repôs os papéis na pasta e devolveu-os à gaveta, fechando-a. Ela o olhava, abraçando-se. Quando conseguiu falar, interrogou: – Acha que eu podia pensar essas coisas, quanto mais escrevê-las? Degradar-me desse jeito? – Por que não? Quando você nada nua à noite, sem ligar para quem pode ver. Natasha começou: – Mas eu não... – E parou, o rubor intensificando-se ao lembrar a única ocasião em que sucumbira à tentação da água fria em toda a superfície da pele. E concluiu arquejando: – Quer dizer que... mesmo então... mandava vigiar-me? – Não. Fui ver eu mesmo. – Mas por quê? – Para o caso, por alguma remota chance, de seus irmãos falarem a sério sobre o casamento. Queria refrescar a memória do que ofereciam, por isso arranjei uma visita ao seu quarto enquanto você dormia. – Ele viu a expressão de horror no rosto dela e ergueu uma das mãos, rindo. – Não, agapi mou, não foi necessário. Porque de repente a vi ali, e fiquei na sombra para olhá-la ao luar. – Não é possível – protestou Natasha num tom áspero. – Não podia entrar no jardim. Temos câmeras, patrulha de segurança. – Podem-se desligar as câmeras. E subornar homens mal pagos. – Alex deu um sorriso, lembrando. – E fui... infinitamente recompensado. Seguiu-se um silêncio, enquanto ela lutava para recompor-se. Dizia a si mesma que aquilo não estava acontecendo. Rezava para estar dormindo e tendo o pior pesadelo da vida. Há apenas algumas horas se achava sentada naquele avião, numa discussão interior sobre a moralidade de uma ida para a cama com Neil. E agora se via diante daquele... Ouviu o rosnar do trovão acima, e viu-se numa ridícula reza para que a casa fosse atingida por um raio, se nada a pudesse salvar daquele... horror. Acabou por dizer, sem olhá-lo: – Qualquer coisa que tenha visto nessa missão de espionagem, kyrie, não lhe escrevi aquelas coisas. Eu não podia. E na verdade você não me quer – prosseguiu baixinho. – Se fizer o que ameaçou, será mais uma forma de vingança contra minha família. Mas eu tenho uma vida em Londres. Um homem a quem posso amar. E você também namora alguém. Não precisa disso. Logo, peço-lhe que destranque a


porta e deixe-me sair. – Inspirou fundo. – Vou dizer aos meus irmãos que o avião atrasou e não contarei nada sobre o que aconteceu aqui esta noite. Juro. Ninguém jamais saberá, com exceção de nós. – Acrescentou: – E lhe serei grata todos os dias da minha vida. – Seus irmãos a esperam amanhã, bem a tempo para a reunião – comunicou Alex. – E quero que saibam sobre nós, Natasha mou. E também que imaginem o que não sabem. – Não sou sua Natasha. – Mas será. E sua vida me pertencerá... até eu decidir que não. Fui claro? – Sorriu-lhe. – Todavia, você suplica com ardor, agapi mou. Espero a mesma intensidade no prazer que logo dividiremos, quando eu provar, sem deixar dúvidas, que realmente a quero, e não apenas por vingança. Minhas atenções podem até consolá-la pelo amante inglês que perdeu. – Pegou dois travesseiros atrás e os pôs ao lado na cama. – Mas chega de conversa. Agora, minha querida, é hora de vir para mim. Logo, tire a roupa. Ela recuou um passo. – Não – respondeu, ferozmente. – Não vou fazer isso. Ele ergueu as sobrancelhas. – Prefere que meus homens ajudem-na? – perguntou, sorrindo. – Oh, Deus – gemeu Natasha. – Você não tem sequer um fiapo de decência? – Quando necessário – respondeu Alex, encolhendo os ombros. – A julgar por sua carta, nenhuma é necessária neste caso. Ver-se despida por estranhos talvez até a atraia. Agora, não me deixe mais à espera. Fingir timidez não é adequado. Fingir? Quando me despi na frente de alguém? Na verdade, nunca vi um homem nu tampouco, a não ser em quadros e estátuas, pensou ela. Haviam fechado a porta, mas as janelas talvez não, pensou consigo mesma, em desespero. Se houvesse uma sacada, poderia saltar... E logo desistiu, pois quebrar um braço ou uma perna talvez fosse o menor dano que podia causar a si mesma. Tocou os lábios secos com a ponta da língua. – Quer pelo menos... apagar as luzes? – Não. E estou ficando impaciente. – Tornou a varrê-la devagar com os olhos escuros. – Talvez você deva começar por soltar o cabelo. Prefiro assim. O instinto avisou-a que não tinha saída. As lágrimas... última opção que lhe restava... não o comoveriam mais do que as súplicas anteriores. Rebaixara-se por nada, e não o faria outra vez, decidiu com fria determinação. De agora em diante, ia concentrar-se apenas na sua sobrevivência. Jamais entendera ou fizera parte daquela briga entre as duas famílias, e sempre achara um absurdo homens adultos buscarem de forma tão implacável a queda uns dos outros. Mas tudo mudara para sempre quando entrara no quarto e encontrara-o à espera. Porque Alex Mandrakis era agora seu inimigo também, e de algum modo ia pagar por isso essa noite. Vou fazê-lo arrepender-se de ter nascido, jurou em silêncio ao tirar os grampos do cabelo e sacudir as longas e sedosas mechas nos ombros. Ele comentou baixinho: – Parece uma nuvem de ouro. Vá, continue. Natasha tirou o blazer e deixou-o cair. Descalçou os sapatos.


Ia apenas aguentar até acabar e ver-se livre. Pois, embora parecesse uma eternidade, era improvável que seu tempo com aquele homem durasse muito. Começou a desabotoar a blusa, forçando os dedos a lhe obedecerem. Nem uma vez ele desconfiou que ela jamais satisfaria a sofisticação das exigências dele? Que não tinha experiência sexual, como devia demonstrar o atual desempenho? Meu Deus, pensou, deslizando a blusa dos ombros. Nem sequer sei ser mulher, e decerto não aprenderei com ele. Quando, por fim, tivesse acabado, ela conseguiria de algum modo esquecer toda a vergonha, traição, e reconstruiria a vida na Inglaterra. Não seria a mesma, claro. Nem Neil quereria fazer parte daquilo tão logo descobrisse o que acontecera. E se Alex Mandrakis cumprisse a promessa de obrigá-la a desfilar em público como amante, e, claro, não fazia promessas levianas, Neil descobriria e ficaria magoado. Um dia, ela iria se arrepender de tudo que poderia ter acontecido com o namorado ser destruído pelo inimigo que, em silêncio, olhava-a despir-se. E a maneira de lidar com aquilo, afirmou para si mesma enquanto abria o zíper da blusa, era fingir que ele não existia. Que estava sozinha no quarto do apartamento londrino e preparava-se para ir para a cama. Uma noite igual às outras. Se eu não o olhar, pensou enquanto a saia juntava-se às roupas no chão, não saberei se ele me olha. Estabeleço a primeira linha de defesa. E haveria outras. Não podia repeli-lo pela força física, pois perderia. O corpo dele dizia-lhe isso. Além disso, Alex, na certa, era decadente o suficiente para sentir prazer em subjugá-la, e o jeito era não fazer nada para dar-lhe qualquer tipo de prazer. Seria mais fácil irritá-lo, pensou. Adotar uma política de resistência passiva. Obediente, mas sem reação, sem um único beijo ou toque de livre vontade. O exato oposto da reação esperada. Apesar dessa decisão, precisou de todo fiapo de resolução para tirar a roupa íntima e desnudar-se completamente àquele olhar. Tentou convencer-se, ao fazê-lo, de que ele já a vira nua antes, embora ela não soubesse, portanto, dessa vez, não tinha importância. Só que tinha... E era terrível. Precisou lutar, também, para não se cobrir com as mãos, mas mantê-las ao lado, numa demonstração de indiferença ao escrutínio, à espera de ouvir alguma coisa. Mas quando ouviu, reagiu como se a mão dele lhe houvesse tocado a carne trêmula. – O luar não mentiu, Natasha mou – disse Alex, baixinho. – Você tem um corpo, de fato, perfeito. Afastou o lençol com um gesto imperativo para obrigá-la a deitar-se. Ela se dirigiu devagar até a cama, ciente de que ele estendia-se de lado, apoiado no cotovelo. Alimentava a esperança de que ele decidisse já ter humilhado-a bastante e parasse. Mas o sujeito não cederia, pensou, com o coração martelando de pânico diante da perspectiva que a aguardava. O único consolo é que seriam os seus termos, não o contrário. E que um dia o veria com a vida arruinada. Entretanto, Alex mencionara que perdia a paciência, portanto, talvez tudo acabasse rápido. Na verdade, se ela já o decepcionara o suficiente com a ausência de reação, aquele podia não ser apenas um encontro inicial, mas o último.


Ficar deitada ali ao lado, de olhos grudados no teto, não tornava mais fácil prever o futuro imediato, contudo. Não devia ser assim, pensou Natasha, sentindo a pressão avolumar-se por dentro. Não na primeira vez. Devia estar com alguém que a tratasse com carinho e consideração. Em vez disso, ia ser possuída pelo inimigo da família, um homem que a desprezava e não abriria espaço para uma inocência que julgava inexistir. Enterrou os dentes na parte macia de dentro dos lábios ao lembrar as coisas que ele lera naquela carta vil. Seria aquilo que desejava dela, e, se era, como poderia ela suportar? Então, quando Natasha já sentia os nervos à beira de se romperem, ele finalmente a tocou, os dedos quase não passando de um suspiro na pele ao empurrar-lhe o cabelo da testa, antes de enrolar uma sedosa mecha na mão e trazê-la até o rosto para inalar a fragrância. Fora a última coisa que ela previra, e, apesar de si mesma, virou-se assustada, olhou-o e viu-o dar um sorriso quase pesaroso. Depois se curvou e pôs a boca com precisão sobre a dela, acariciou-a com suavidade e estimulou-a em silêncio, com insidiosa delicadeza, abrindo os lábios e permitindo-lhe a intimidade mais profunda que buscava. E, por um instante, ao sentir aqueles lábios nos seus, teve consciência de um estranho e vibrante calor abaixo da barriga, e percebeu simplesmente o quanto precisaria ficar vigilante. Ao mesmo tempo, não conseguiu impedi-lo de chegar cada vez mais perto, de modo que seu calor parecia impregnar o frio da carne dela, invadindo-lhe a consciência com aquele cheiro almiscarado, como uma substância inebriante. A insistente pressão na boca parou e ele ergueu a cabeça, dizendo: – Olhe-me. – Relutante, ela ergueu as pálpebras e fitou o rosto moreno com frio antagonismo. – Você não inclui beijos em seu repertório? – Talvez eu apenas não deseje beijá-lo, Kyrios Mandrakis. – Essa possibilidade me ocorreu – sussurrou ele. – Também não se dispõe a me chamar pelo primeiro nome. – Pressionou-lhe o seio, provocando o mamilo com a ponta do dedo, e excitou-o a uma vida altiva e dolorida, que ela percebeu horrorizada não poder controlar. – Embora tal formalidade, nas circunstâncias, tenha um estranho erotismo – acrescentou, sorrindo. – Não sou responsável pelas circunstâncias – pesarosa, Natasha sentiu a própria voz meio esbaforida. – E tenta ignorar isto. – O sorriso dele tornara-se franco, a mão ainda se movia com um propósito devastador. – Talvez você tenha decidido não mais alimentar o antigo desejo esmagador por mim, mas seu corpo parece ter outras ideias. – Acrescentou, baixinho. – Em lugar de uma certeza, você se tornou um intrigante desafio. Natasha desviou a cabeça e indagou: – Você não tem vergonha? – Eu podia fazer-lhe a mesma pergunta, minha trapaceirinha. Afinal, era minha esposa em perspectiva, a que fez todas as promessas que iam cegar-me para os verdadeiros objetivos de sua família. Com certeza, eles assegurariam que você jamais os cumprisse – acrescentou, desdenhoso. – Bem, agora você errou, e vão saber disso. Mudou de posição, significativamente, tornando-a consciente, de forma repentina e chocante, da rígida potência da excitação masculina contra sua coxa, depois curvou a cabeça e pôs a boca no cheiroso volume dos seios, alisando com a língua o bico rijo e róseo com demorada apreciação. Uma sensação súbita e indesejada tomou-a por inteiro, e a fez empurrar-lhe os ombros.


– Não... Ele ergueu a cabeça e olhou-a, com um olhar esquisito. – Não é fácil agradar-lhe, agapi mou. – Então não tente – disparou ela, tempestuosa. – Só... deixe-me ir embora. – Depois de todo esse trabalho para consegui-la? Acho que não. Ainda não. – Quanto tempo? – questionou ela, com a voz abafada. – Tem de dizer-me. Alex calou-se por um momento. – Talvez... até não desejar mais partir, Natasha mou. Mas por enquanto... Deslizou a mão pelo corpo dela, com lento e insolente domínio, acariciou a barriga chata e o côncavo delicado do quadril, antes de passar ao sedoso triângulo na junção das coxas. Ela cerrou os dentes, com a pele ardendo de constrangimento ao ter as pernas afastadas, e sentiu o deslizar dos dedos explorando-lhe o calor mais íntimo, o que disparou mais uma cadeia da indesejada reação que beirava a excitação. Teve uma amarga e furiosa consciência de que respirava ainda mais rápido, malgrado seu, e sentia uma dor desconhecida em algum ponto no fundo de si. Mas não ia permitir-se pensar nisso, nem nas inevitáveis implicações. Ia concentrar-se, ao contrário, na repugnância. Em odiar a escaldante e escorregadia reação do corpo àquela nova intimidade quase tanto quanto odiava o homem que a criava com tão despreocupada habilidade. Então, como se reconhecesse as lutas mentais dela, Alex murmurou: – Por que não para de lutar comigo, agapi mou? A batalha já está perdida. – Não para mim – conseguiu dizer ela, com a voz embargada. – Jamais vou perdoá-lo por isto. Enquanto viver. Ou enquanto você viver… Ele encolheu os ombros. – Então nada tenho a perder – declarou, meio para si mesmo, e ergueu-se acima dela. – Mas tudo a ganhar – acrescentou em embargado triunfo. E penetrou-a com um golpe suave e certeiro.


CAPÍTULO 4

ATÉ AQUELE instante Natasha apenas pensara na indignação aos seus sentimentos, e o efeito de pesadelo daquela ofensa insuportável e vergonhosa que lhe infligiam. Não lhe ocorrera que a primeira experiência sexual poderia causar-lhe dor física concreta. Com os músculos retesados pela resistência ao choque, queria gritar que a estava machucando e pedir-lhe que parasse. Que desse ao corpo desacostumado algum tempo para ajustar-se à crua realidade da penetração. Mas nada fez, nada pronunciou, decidida a não lhe dar a satisfação de saber que ele podia afetá-la de qualquer forma... prazer ou dor. Por um momento, sentiu-o parar, ouviu-o dizer o seu nome em tom áspero, quase inquisitivo, e depois, quando ela continuou sem oferecer qualquer tipo de reação, enterrar-se no surto final da conquista, embainhando-se completamente. Natasha permaneceu em total e rígida imobilidade, apenas movia as mãos cerradas em punhos ao lado. Logo acabará, pensava, enquanto minúsculas faíscas dançavam-lhe atrás das pálpebras abaixadas, e repetia como um mantra as palavras... logo acabará, logo acabará... Prendeu o lábio inferior entre os dentes, esvaziando de propósito a mente e expulsando pensamentos e emoções, quando Alex Mandrakis começou a mexer-se, a penetrá-la em movimentos lentos e ritmados, e a promover a posse com delicada precisão sensual que, em si, parecia uma espécie de insulto. Embora de olhos fechados, sabia instintivamente que ele observava-a, esperava talvez algum tipo de reação. Mas de nada saberia, pensou, no rosto que cuidava para manter sem expressão, como uma máscara. Não era fácil, porém. Consternada, e apesar do leve desconforto que ainda sentia, logo descobriu que não tinha total imunidade às sensações estranhas e intrigantes provocadas pelos movimentos do corpo dele dentro do seu. Esperava combatê-lo, pensou assustada, mas não previra ter de combater também a si mesma. Não podia permitir-se tal fraqueza quando precisava ser forte.


No entanto, como poderia ter sabido o que ele podia fazê-la sentir? Como o corpo reagia contra sua própria vontade... a raiva... tentando-a a se entregar. Então, ao se descobrir recomeçando a lutar e manter o autocontrole, ouviu-o respirar diferente e percebeu o aumento no ritmo, até de repente ouvi-lo gritar, quase em agonia, e sentiu o pulsar lá no fundo, antes de vê-lo desabar, o rosto úmido em seus seios. Natasha esperou alguns instantes, mas ele não se mexeu, e por isso ela começou a sair devagar e com cuidado. Logo se sentiu abraçada. – Então a estátua ganha vida, afinal. Agora, quando acabou. Acabou, pensou agradecida, exatamente como queria, sem dar-lhe nada. Portanto, era ridículo sentir-se tão... desolada. Mortificava-a, também, saber que pelo mais breve momento sentira-se, na verdade, tentada a tomar-lhe a cabeça nas mãos e alisar o cabelo. Disse com voz dura: – Você é pesado. – Perdão – respondeu ele, irônico. – Considere como mais uma inconveniência entre tantas outras. Saiu de cima dela e recostou-se nos travesseiros, olhando em frente e estabilizando a respiração. – Por favor, posso usar o banheiro? Eu gostaria de um banho de chuveiro – pediu ela. – Mais tarde. Depois de conversarmos um pouco. – Não creio que reste nada a dizer. – Enquanto tentava virar-se, sentiu-o estender a mão e pegar-lhe o queixo, fazendo-a voltar-se. – Então se enganou. Para começar, fale-me de seu amante inglês. – Simpático, bondoso e decente – resumiu Natasha. – Seu exato oposto. O que mais deseja saber? – Quando vai para a cama com ele, você goza? Enrubescida, ela arquejou. – Sim – respondeu com voz trêmula, e empurrou-lhe a mão. – Claro. – E antes – continuou a voz baixa. – Quantos outros homens? – Dezenas – foi a desafiante resposta. Alex suspirou. – Vou ensinar-lhe uma coisa, Natasha. Falar a verdade. Até eu a possuir há pouco, você era virgem, por isso não tente negar. Ou pensou que eu não saberia? – Eu... não... tinha certeza – gaguejou ela, ciente que corara mais. – Não pensou em me dizer. Por quê? – Porque você já tinha decidido quem eu era. Graças àquela carta revoltante, não teria acreditado se eu falasse. Além disso, se soubesse, teria feito alguma diferença no que planejava para mim? – Não. Só que eu faria questão de tornar seu corpo mais receptivo à iniciação. Machuquei-a, mas quando percebi a verdade, já era tarde, e lamento. A única desculpa é que a desejava muitíssimo. – Bem, não deixe isto pesar na sua consciência – respondeu ela, tensa. – No plano maior das coisas, dificilmente será o pior insulto que me fará. Alex respondeu, devagar: – Não precisa ser assim. – Quer dizer que vai me deixar sair, afinal? – Não, não vou, nem pense nisso.


– Mas por quê? – Ela engoliu em seco. – Você conseguiu o que queria, logo, não faz mais sentido manter-me aqui. – O prazer de sua companhia. – Como pode dizer isso sabendo que o odeio? Quando deve compreender que eu não ficaria um minuto com você por vontade própria? – Talvez você descubra que será melhor quando me conhecer – respondeu Alex com voz solene e um sorriso nos olhos. – E para provar que também posso ser bondoso de vez em quando, tomaremos aquele banho de chuveiro que pediu. – Nós? – Alarmes dispararam-lhe na cabeça quando ele saltou da cama. Natasha agarrou o lençol. – Eu... posso esperar – informou, tentando não olhá-lo. – Por quê? Não há necessidade – argumentou Alex, agora rindo escancaradamente. – Acredite, meu amor, não precisa temer nada. Jamais estará tão a salvo de minhas atenções quanto agora. – Estendeu a mão. – Venha. Esperou e, vendo-a hesitar, deu um breve suspiro impaciente, arrancou-lhe o lençol, tomou-a nos braços e atravessou o quarto até o banheiro. Natasha vislumbrou mosaicos de mármore azul e dourado, e espelhos por toda parte, quando entraram no boxe do tamanho do banheiro de seu apartamento londrino. Ele a largou em pé embaixo da ducha e juntou-se a ela após abrir toda a água. Quando a força do jato atingiu-a, ela arquejou, e Alex abraçou-a para firmá-la. Depois ajustou o fluxo e pegou o gel. Despejou um pouco na mão, virando-a de costas, e começou a passar-lhe na pele a espuma perfumada, começando pelos ombros e descendo em pequenos instantes circulares, as pontas dos dedos firmes. Natasha queria mandá-lo parar... podia virar-se sozinha... mas a voz parecia embargar, e era importante ele não saber. Quando baixou os dedos para as curvas das nádegas e as coxas esguias, ela sentiu a resistência esvairse, substituída por um inquietante tremor interno. Cada extremidade nervosa pareceu vibrar quando o corpo, de uma forma relutante e inesperada, ganhou vida sob o ocioso caminho daquelas mãos. Ele ensaboou cada centímetro de suas pernas, depois a virou e recomeçou do tornozelo para o joelho, subindo devagar. Demorou com as mãos nas coxas, esfregou-as com delicadeza pelo ápice do monte macio, fazendo-a prender a respiração a cada esfregada enquanto ela esperava, dilacerada entre pânico e excitação, que ele a tocasse mais uma vez... ali. Só que não o fez. Mas subiu sem pressa os dedos pelo abdome até os seios, onde parou e tocou cada pico inchado com tanto cuidado quanto se alisasse as pétalas de uma flor. E ela, impotente, tremia, cada carícia sugerindo possibilidades... perigos nos quais se recusava até a pensar. Alex recuou, pegou mais um punhado de gel, aplicou-o com movimentos bruscos e completos no próprio corpo, antes de pôr a água de volta em pleno fluxo e enxaguar os dois. Ao fechar o chuveiro, ergueu-a e envolveu-a numa toalha felpuda, depois pegou outra e começou a secar-lhe o cabelo, penteando as mechas com os dedos. Finda essa tarefa, e aparentemente satisfeito, puxou-a e beijou-lhe com delicadeza a boca, mal movendo os lábios. Quando, enfim, ergueu a cabeça, proferiu baixinho:


– Da próxima vez que fizermos amor, será melhor para você, prometo. Mas acho que devemos retornar à cama e descansar um pouco. Ela o olhou, corpo e mente em total confusão. Pensou: não me atrevo a voltar para aquela cama... sentindo-me assim... querendo, não. Afastou o pensamento. Encontrou afinal a voz e deixou o desdém mascarar a insegurança do tom: – Nada do que faça tornará as coisas melhores entre nós, kyrie. Só quero ir embora. E tampouco pretendo dormir com você. – A maioria das pessoas que divide uma cama dorme em algum momento, pedhi mou. – Não sou sua pequena. – Então não aja como criança. – E prefiro dormir sozinha. Ele encolheu os ombros. – No futuro, vai dar atenção às minhas preferências. Não deixei isso claro também? Agora, quer vir comigo de boa vontade ou vou precisar carregá-la de novo? – O sorriso não lhe chegou aos olhos. – Não faço objeção, só que talvez me leve a testar meus poderes de recuperação antes do que você desejaria. Ela não duvidou do sentido das palavras. Curvou a cabeça, derrotada. – Eu... caminho. – Está aprendendo. Natasha hesitou. – Mas se... eu pudesse usar alguma coisa. Não me habituei a ficar nua... diante de alguém. – Pudor louvável, mas desnecessário. Não sou alguém. Sou seu amante, e seu corpo me dá prazer, por isso espero impaciente o instante em que ficará tão alegre e feliz comigo quanto antes, sozinha ao luar. E não partilho suas inibições, agapi mou – acrescentou, sorridente. – Portanto, deve acostumar-se a me ver sem roupas. Todavia, para você, preparei-me para fazer uma concessão. Levou-a de volta ao quarto, antes de abrir outra porta vizinha ao banheiro e entrar no que para ela devia ser o quarto de vestir. Voltou logo com um pedaço de cetim prateado dobrado no braço e entregou-o a ela. Era um penhoar, entretanto melhor que nada. – Confeccionado para todos os tamanhos, suponho – comentou ela friamente, ao prender na cintura a comprida faixa. – Comprado ontem só para você – veio a imediata correção. – Quer ver a nota? Ela mordeu o lábio, acrescentando, hesitante: – É... bonito, Efharisto. – Parakalo – respondeu ele, bem-educado. Dirigiu-se à cama, endireitou os lençóis e pôs os travesseiros de volta no lugar com despreocupada eficiência. – Junte-se a mim tão logo deseje – disse, com um bocejo, enfiando-se sob as cobertas. – Amanhã será um longo dia. Natasha sentiu o cetim sussurrar quando obedeceu. Parecia que tinha mesmo a intenção de descansar, pois já se virava de lado e dava-lhe as costas. Mas, muito depois de Alex haver adormecido, ela continuava acordada, incapaz de encontrar o esquecimento. Tentou dizer a si mesma que a raiva e a repugnância mantinham-na insone. Era impossível relaxar ao lado de um homem que a usara com tanto desprezo por causa de uma mesquinha vingança.


Ao mesmo tempo, sabia que, se fosse honesta, isso representava apenas parte da verdade. A maior luta seria contra a nervosa inquietação no corpo, que parecia decidida a não deixá-la em paz. Não podia culpar aquele tempo longo e lânguido com ele no chuveiro por, pela primeira vez na vida, tê-la excitado de uma forma que jamais sonhara. Fosse qual fosse a motivação, contudo, não sabia explicar nem desculpar a maneira como Alex a fizera sentir-se. Envergonhava-a até a alma o efeito que ele exercia sobre ela... e com tão pouco esforço. Mas fora assim, claro, que ele conquistara fama. E a pequena tragédia de Natasha era que sua primeira experiência de desejo verdadeiro tivesse sido desencadeada por alguém tão indigno. Neil, pensou, tristonha, jamais a deixara com o corpo ardendo de desejo a ponto de impedi-la de dormir. Algo, reconheceu amargurada, que jamais poderia dizer de Alex, odioso e desprezível, no mínimo. Não que Stavros e Andonis também tivessem um pingo de honra. Supunha que haviam enfiado a segunda carta entre outros documentos que exigiam sua assinatura. Oh, Deus, pensou, combatendo as súbitas lágrimas cujo gosto sentia na boca. Por que não obedeci ao instinto e recusei a envolver-me em tão estúpido logro? Isso era passado. Agora iria concentrar-se no presente e no futuro imediato. E escapar do controle inimigo que dormia ao lado era a prioridade imediata. Não havia, porém, mais motivo para ele continuar fazendo isso, pensou. A briga de família acabara, e ele havia tomado tudo. O fato de que ela passara uma noite ali já basta para desonrar a família. Nada mais seria necessário. Alex deve ver isso, falou para si mesma com ardor. Preciso fazê-lo ver. Porque meu lugar é em Londres. Não aqui. E não tenho de pensar apenas em Molly... há o resto da equipe da Helping Out... o aluguel a pagar. Ele é um homem de negócios. Compreenderá pelo menos isso. Mesmo que fizesse planos adiantados, e até já mandara uma secretária comprar-lhe um penhoar, pensou nervosa, sentindo o roçar do cetim na pele. Perturbava-a mais, no entanto, a admissão dele da secreta visita noturna à Vila Demeter. A ideia do homem ali parado, olhando-a, fazia-a encolher-se toda de vergonha. Interrogava-se se Stelios, o segurança, continuava na folha de pagamento dos Papadimos, pois faria com que o demitissem até o fim do dia, admitindo que a houvessem apanhado nadando nua. Thia Theodosia ficaria chocada, claro, mas isso pouco importava. Natasha apenas imaginava o horror dela quando... se... soubesse o que acontecera naquele quarto, naquela noite, à garota a quem sempre protegera com tanto cuidado. E se ele pretendia mesmo exibi-la em público como amante, segundo ameaçara, não havia como proteger a mãe adotiva. Ele a lembrara com uma pontada dizendo que a faria ficar ali até não mais desejar partir. Isso jamais aconteceria, mencionou para si mesma com renovada veemência. Independentemente do que ele fizesse. Sufocando um bocejo pequeno e amargurado, Natasha virou o rosto para o travesseiro e fechou os olhos esperando adormecer. ACABOU DORMINDO profundamente, e despertou com alguém tocando-lhe o ombro.


Empertigou-se rápido com um grito abafado e deu com o olhar assustado de uma mulher de meiaidade parada ao lado da cama, com vestido escuro e um avental branquinho. – Algum problema, thespinis? Eu compilaria uma longa lista, pensou Natasha, com um profundo suspiro. Em voz alta, respondeu: – Desculpe. Devo ter sonhado. Um sonho continuado, em que a mão me tocando pertencia a Alex Mandrakis... Que sumira, percebeu ela com o coração agradecido, pois viu vazia a cama ao lado. Ocorreu-lhe que não o ouvira partir, mas por certo era uma das habilidades dele livrar-se de uma situação que já servira ao propósito. Assim, talvez os difíceis exames de consciência da noite anterior fossem desnecessários afinal, pensou, sentindo um tremular de esperança no íntimo. Talvez o descanso noturno o houvesse feito pensar melhor e chegar à mesma conclusão que ela... não havia necessidade de prolongar mais o encontro... e ele lhe permitiria partir sem discussão. A mulher informou, com uma voz plácida: – Sou Baraskevi, para servi-la, thespinis. Se desejar um banho, eu preparo. E já trouxe suas roupas – acrescentou. Mesmo coberta pelo penhoar, Natasha sentiu-se desesperadamente encabulada ao compreender que as pessoas na casa deviam saber de sua presença... e por que a trouxeram. O positivo, todavia, é que viu com um salto do coração que a bolsa e a maleta também haviam reaparecido. Só podia ser permissão tácita para partir, pensou, poupando ambos de outro confronto. – Obrigada – agradeceu sem jeito. – Um banho cairia bem. Talvez até a fizesse voltar a sentir-se limpa, pensou, com um aperto na garganta. Ainda tinha consciência de uma leve dor, mas os verdadeiros feridos foram o orgulho e o senso de independência que tanto lutara para conseguir. Empurrou as cobertas e levantou-se. As cortinas e janelas já abertas deixavam entrar de forma desimpedida a luz do sol no quarto, junto com o bem-vindo frescor do ar. A tempestade pode ter passado, afirmou para si mesma, irônica. Mas a próxima vai começar. É inevitável. Só que talvez não deixe tanta devastação. Abriu a valise, pegou os objetos de toalete, depois conferiu às pressas o conteúdo da bolsa para assegurar-se do passaporte, da carteira, e que poderia apenas... sair. Incólume. Algumas lembranças a perseguiriam por muito tempo. Mas não para sempre. Pois um dia voltaria a pertencer-se, e aquilo iria parecer apenas um pesadelo. Eu juro, prometeu, e foi tomar banho. A ÁGUA morna, perfumada com sândalo, revelou-se exatamente o que precisava. Vestida, cabelo amarrado para trás num nó, foi pegar suas coisas, e parou. Talvez pudesse levar e queimar outra recordação dali. A carta. Abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, mas a pasta desaparecera, juntamente com o laptop. Suspirou de frustração, tornou a atravessar o quarto, abrindo a porta. No momento exato de esbarrar no equivalente a uma muralha de tijolos. Ao recuar, reconheceu o homem que a recebera no aeroporto.


– Thespinis. O desjejum espera-a na varanda. Eu a acompanho. – Obrigada, não tenho fome – respondeu Natasha, friamente, embora faminta. – E preferia partir logo. – Terá de discutir isso com Kyrios Mandrakis – comunicou, tomando-lhe a bagagem com implacável firmeza. – Ele a espera. Acompanhe-me, por favor. Ela quase retrucou a condição de não o acompanhar, mas decidiu que não queria ouvir a resposta. Se iam obrigá-la a reencontrar-se com o inimigo, raciocinou, melhor andar que ser carregada numa atitude vergonhosa. A varanda ficava nos fundos da casa, e podia-se ver uma mesa na outra ponta, numa pérgula de buganvílias. Mandrakis lia o jornal, o botão de cima da imaculada camisa branca estava aberto e a gravata de seda, frouxa. Ao vê-la se aproximar, levantou-se e indicou-lhe o assento oposto. Quando ficaram a sós, ela perguntou friamente: – Precisa mesmo do guarda-costas? Ele pegou uma jarra de suco de laranja e a serviu. – Até eu poder confiar em você, Natasha mou. Não parecia um adeus, e isso a abalou, fazendo desaparecer rapidamente o otimismo anterior. Febril, pegou um dos pãezinhos quentes da cesta oferecida e espalhou geleia de morango. – Tem café. Mas pode ser chá, se preferir. – Por favor, não dê mais trabalho aos empregados por minha causa. Com a boca seca, ela apreciava melhor o frescor das laranjas recém-espremidas. – Mesmo assim, deve informá-los do que precisa. Desejo que se sinta confortável. – Nesse caso, mande seu chofer me levar para casa. É só o que preciso. – Então se decepcionará – respondeu Alex. – Pois sua casa agora é comigo, até eu decidir o contrário. E quanto mais cedo aceitar, agapi mou, melhor será para você. Por favor, acredite, e desfrutemos o desjejum. O primeiro de muitos, espero – acrescentou, sorrindo-lhe.


CAPÍTULO 5

NATASHA OLHOU-O por um longo instante, estreitando os olhos verdes perigosamente. – Não encontra palavras, agapi mou? – indagou ele em tom de brincadeira. – Talvez um chá quente, afinal. – Santo Deus. Você destrói minha vida e fica aí batendo papo sobre que bebida escolher. – Creio que seja bom em caso de choque. – Não fiquei chocada. – Manteve a negação fria e seca, apesar do tumulto interior. – Ontem à noite você mostrou como é imprestável. Fui uma tola ao imaginar que sentisse algum remorso tardio por este comportamento nojento, ou tentasse corrigi-lo. – Mas tenho toda intenção de fazer correções – respondeu ele. – Mas no meu próprio tempo e jeito. Natasha sentiu a garganta fechar. – Então saiba que não me submeterei como um cordeiro a nenhuma das degradações a que me sujeitou. – Espero que não. Não me atrai a mansidão dos cordeiros. Quero-a quente e ávida nos braços, não submissa. – Então terá uma grande decepção. Gritei e esperneei ontem à noite... embora me arrependa de não lhe ter causado danos permanentes... mas isso não significa que aceitei a situação que me impôs, nem que a aceitarei. Afinal, não pode me manter trancada para sempre, nem sendo seguida por um gorila. Hoje, vão precisar de minha assinatura para assumir os bens dos Papadimos. E dificilmente poderá levar-me amarrada ao seu pulso. Por isso, termina aqui. Satisfaça-se com suas novas linhas de navegação, porque não vou junto. Este é nosso primeiro desjejum, e também o último. Tão logo assinemos os documentos, parto, e não poderá me deter. – Não? – Ele se recostou na cadeira. – Eu não teria tanta certeza. – Então pense melhor. Parece ter esquecido dos advogados dos Papadimos, além dos seus, presentes na conclusão do acordo. E vou deixar perfeitamente claro que você me tapeou no aeroporto para vir aqui, depois me obrigou a ir para a cama. Também farei Stavros e Andonis admitirem ser os autores da falsa carta, sobre a qual eu ignorava. Portanto, acho que qualquer acusação de sequestro pode pegar, afinal. E acredite, será só o início. Alex respondeu com um sorriso:


– Aonde planeja ir? – questionou. – Após essa dramática saída? Para a Vila Demeter, como uma família feliz? – De jeito nenhum. Para a Inglaterra. Voltar à vida que você tentou arruinar. Ele curvou a boca. – E para o amante inexistente? – Não. Tenho uma empresa, kyrie. Pequena e insignificante no seu esquema de coisas, claro, mas útil... Bem-sucedida... da qual me orgulho. Pessoas confiam em mim, e não posso abandonar tudo isso por um capricho vingativo seu. – Ah, sim. Chama-se Helping Out, não? Ela engoliu em seco. – Como soube? – Andei interrogando. Mas sua ausência não será problema. Posso arranjar-lhe um substituto até você voltar. Natasha declarou, desafiadora: – Não deixarei um estranho tomar meu lugar para você me manter aqui... Acabei de explicar. – Ergueu o queixo. – Jamais vou perdoá-lo pela noite passada, mas, com o tempo, esquecerei. – Você parece muito decidida, agapi mou. – Alex tomou mais café, observando-a por cima da xícara. – Fale-me da casa em Londres. É grande, quantos quartos? – Não. Por que pergunta? – Porque precisará de uma residência maior quando tiver de abrigar os irmãos e suas famílias. Afinal, não terão outro lugar para ir. Isso a imobilizou e deixou-a cautelosa. – De que está falando? – Da Vila Demeter, que eles também usaram insensatamente como garantia na busca por dinheiro. E agora me pertence, como tudo mais dentro do palácio. As lembranças também – acrescentou ele com voz sedosa, e viu-a corar. – Mas quem sabe quanto tempo serei tolerante? – Viu-a dilatar os olhos e balançou a cabeça. – Contaram-me que você gosta muito de sua mãe adotiva. Quer mesmo vê-la naquela idade, saúde delicada, obrigada a sair da casa à qual chegou como recém-casada e onde teve os filhos? Acha que ela resistiria a tal choque? Natasha protestou, insegura: – Santo Deus, você não... não faria... – Falo sério. Como você sabe, às suas custas. Mas pode convencer-me a poupá-la desse terrível golpe... talvez eu até negocie termos pelos quais todos continuem a desfrutar o abrigo de meu teto sem interferência. Sorriu, passando os olhos dos lábios trêmulos e abertos para a curva do seio sob a blusa dela. – Mas isso depende inteiramente de você. Talvez prefira voltar a Londres após tornar públicos os seus erros e receber o castigo merecido. Ou, como já expliquei, pode ficar comigo até eu satisfazer todo o meu desejo e deixá-la partir. Esta é a opção que lhe ofereço sem negociação. Que isso também fique entendido entre nós. Mas não precisa responder já. Apenas quando nos encontrarmos depois, no escritório dos advogados. A resposta a uma indagação tão importante também exige testemunhas, não acha? E tão logo saiba sua decisão final, tomarei a minha. – Seco, empurrou para trás a cadeira e levantou-se. – Seja qual for. Ao passar por ela, pôs-lhe a mão no ombro e Natasha sentiu a pressão.


– Lembre-se – proferiu Alex. – E lembre-se bem. Saiu e deixou-a imóvel na cadeira, fitando o espaço sem nada ver. – ENTÃO DECIDIU se juntar a nós, afinal, irmã – Stavros cumprimentou-a mal-humorado nesse dia quando Natasha entrou relutante nos escritórios dos advogados da Bucephalus Holdings. – Já começávamos a imaginar coisas. – Que coisa mais estranha – respondeu ela, séria. – Passei as últimas horas fazendo exatamente a mesma coisa. – Olhou em volta. – Onde estão os demais? – Ofereceram-nos uma sala particular para esperar. Levarei você. – Ele suspirou forte quando saíram ao corredor. – Minha pobre Christina não para de chorar. Vai recuperar-se da vergonha do que aconteceu. – É mesmo? – Natasha ergueu as sobrancelhas com fria ironia. – Ora, eu diria que ela saiu muito alegre. – Como pode dizer uma coisa dessas? – O irmão parou diante de uma porta fechada, com a voz rouca de reprovação. – Quando esse Mandrakis tirou-nos tudo. E agora ameaça até o teto sobre nossas cabeças? – Lançou as mãos para o céu. – Minha infeliz mãe, por Deus, como podemos Andonis e eu algum dia enfrentá-la após essa desgraça? Natasha respondeu, ressentida: – Como puderam você e Andonis algum dia pensar que enfrentariam Mandrakis e venceriam? – Era um plano bom. A sugestão de que poderia haver um casamento interessou-o. Deu-nos tempo. – Tempo para o quê? Piorar tudo mil vezes? Por isso você escreveu a outra carta? Por achar que o interessaria mais ainda? Ele a olhou boquiaberto. Em outras circunstâncias, Natasha quase acharia divertida a combinação de culpa e pasmo naquela expressão. Na verdade, só a fez sentir-se nauseada. – Que outra carta? – conseguiu dizer ele, afinal. – Não entendo. – Claro que entende, pare de fazer jogos – respondeu ela, cansada. – Cheguei até a descobrir como conseguiu minha outra assinatura. – Mas como soube? Exijo saber. – Não está em posição de fazer exigências – respondeu Natasha. – Além disso, que importa? Já é tarde demais para preocupar-se com isso. Virando-se, abriu a porta e entrou na sala. Logo viu Andonis, que parecia a imagem da infelicidade, cabisbaixo sob um imenso dilúvio de sons que lhe dirigiam a esposa, a cunhada e Irini. Desviou o olhar para madame Papadimos em discreta compostura numa cadeira ao lado da janela, olhando a rua embaixo como alheia ao barulho da sala. Ela se dirigiu a Stavros. – Trouxe sua mãe? – questionou, incrédula. – Aqui... para isto? Ele encolheu os ombros. – Ideia dela, não nossa. Juro, Natasha, tentamos protegê-la, mas Hara mostrou-lhe os jornais, e assim, quando mamãe inquiriu-nos, tivemos de falar a verdade. – Tornou a encolher os ombros. – Ela sabe de tudo, exceto que Mandrakis pode roubar a casa, se quiser. Poupamos isso, caso, por algum milagre, ele decida mostrar-se misericordioso, afinal.


– Não creio que a misericórdia ocupe grande parte nos planos dele – respondeu ela baixinho, e largou a bagagem. Christina adiantou-se e pegou-a pelo braço. – Irmã, nós a esperávamos, Christina e eu. Nossos maridos dizem que será a ruína de todos nós. Mas não pode ser. Diga o que devemos fazer. – Eu achava que já tinha dito – respondeu Natasha, e imaginou quantos quilos de joias as duas usavam juntas. – Há poucas semanas. Mas ninguém quis ouvir. Agora, parece que os rapazes vão precisar procurar emprego para mantê-las na manicure. – Que coisa mais cruel – pronunciou Maria, sufocando um soluço. – Qualquer um pensaria que a culpa é nossa, não daquele porco... Mandrakis. – Oh, acho que tenho a noção exata de quem é a culpa – respondeu Natasha, e deu as costas. Ao fazê-lo, encontrou um olhar tão venenoso de Irini que quase recuou um passo. Santo Deus, pensou. Uma só vingança não basta para a família? Ela precisa continuar na campanha de ódio quando devíamos permanecer unidos? Mas recuperou-se, dirigiu-se à cadeira da mãe adotiva e tomou nas suas a minúscula mão da senhora. – Sinto muitíssimo, querida – comentou em voz baixa. – Graças a Deus, Thio Basilis não pode saber o que se passa. – As sementes dessa colheita foram plantadas há muito tempo, pedhi mou, e eu sempre soube que o fruto seria amargo. – Madame Papadimos parecia calma, mas cansada. – Basilis podia ter impedido isso muitas vezes, mas não quis, mesmo no fim. – Suspirou. – Você só viu o lado bom dele, minha criança, mas ele sabia ser duro, também, implacável. Em consequência, nossa vida e segurança foram destruídas. Natasha ergueu-lhe o olhar meio chocado. Jamais a ouvira fazer uma crítica contra o falecido marido. Mas tampouco a lembrava fazendo referência à briga. Na verdade, sempre sentira que a mãe adotiva achava o assunto doloroso demais para discutir. Enquanto eu, pensou, decidi que era apenas um monte de rivalidade machista entre dois homens poderosos. Jamais percebi que poderia tornar-se sério... ou ver-me encurralada e fazerem-me sofrer assim, em consequência. Após a partida de Alex, naquela manhã, apenas ficara onde estava, sentada na sacada, entorpecida demais para poder mover-se, a mente circulando na mesma trilha batida e gasta, em busca de um meio de fuga e sem encontrar algum. Revendo o passado, percebia que sempre houvera um elemento de tristeza em madame Papadimos, que, numa visão retroativa, sugeria que o casamento dela não era um relacionamento muito fácil. Mas como ambos me amavam, pensou, infeliz, tomei esse amor como algo natural. Entretanto, talvez exista uma situação mais complexa do que jamais sonhei. Agora levava ao rosto, carinhosamente, a mão da senhora. Jamais tivera uma chance verdadeira, pensou, como sabia muitíssimo bem Alex Mandrakis. Fossem quais fossem suas opiniões pessoais sobre o resto da família, ela jamais deixaria Thia Theodosia sofrer a ignomínia de um despejo, ainda por cima. Agora, concluía, restava-lhe apenas endurecer-se para o inevitável... e sobreviver. – Nem tudo será perdido – declarou em voz baixa. – Prometo.


Viu Irini aproximar-se e apressou-se em levantar-se. Já se sentia quebradiça o suficiente para despedaçar-se, e decidiu que mais hostilidades petulantes da outra talvez a empurrassem para a borda. Não podia se permitir isso, não naquelas circunstâncias. Precisava de calma e controle sobre si mesma e sobre suas emoções o tempo todo, principalmente se ia fazer Alex Mandrakis sentir-se totalmente arrependido pela barganha unilateral a que a forçara. Isso significava retirar-se para dentro de uma concha de entediada indiferença a fim de resistir aos avanços dele. Sou uma vitória que ele não terá, decidiu com uma firmeza pétrea, passando para o outro lado da sala. Vou me assegurar como o diabo de que ele ficará feliz por encerrar o dia... ou a noite... e me mandará para casa. Mas quando, um momento depois, alguém lhe tocou o braço, ela se voltou com um gritinho sufocado, e viu-se diante de um completo estranho... um sujeito magro e grisalho, de óculos. – Kyria Kirby? – Ele inclinou a cabeça com formal cortesia. – Lamento se a assustei. Meu cliente, Kyrios Mandrakis, deseja saber se você já chegou a uma conclusão na questão que discutiram antes. Devo levar a resposta. Natasha engoliu em seco, e conteve a agitada respiração. – Então pode dizer-lhe – respondeu, com a voz rouca – que aceito os termos. – Vou transmitir-lhe isso, thespinis – disse ele, e afastou-se. Ao vê-lo partir, ela imaginou quase histérica se tinha ideia da natureza exata da discussão matinal. Soubesse ou não, acabara de pôr uma garota relutante na cama do cliente. Caia na real, mencionou para si mesma com desdém. Não será a primeira transação dúbia desse tipo em que ele se envolve se trabalha para um homem como Alex Mandrakis. Mas seria a última. A INTIMAÇÃO à sala de conferência chegou alguns minutos depois. Dando tempo suficiente para transmitirem o recado, pensou Natasha sombriamente, enquanto seguia pelo corredor. Só a mãe adotiva e as noras ficavam atrás como não membros do conselho. Com um suspiro profundo, ela se sentou no outro extremo da longa mesa envernizada, com Stavros e Andonis como um sólido baluarte contra Irini. Os advogados do outro lado alinhavam-se de cada lado da mesa, as estufadas pastas de documentos à frente, e mantinham uma aparência de conversa profissional civilizada, enquanto as secretárias corriam com garrafas d’água e bandejas de café. Mas nada reduzia a inquietante tensão na sala. A opressiva sugestão de que começara uma contagem regressiva. Pois, à cabeceira da mesa, uma cadeira vazia aguardava. Um trono para o conquistador, pensou ela, amargurada. Para quando ele quisesse reclamar o novo império. E ela própria... Ocorreu-lhe com inquietação que na certa já devia ter comunicado aos irmãos sua relutante concordância com Alex Mandrakis. Advertira-os sobre o que esperar. Mas talvez, também, esperasse como uma tola... rezasse... para que, mesmo agora, ele tivesse uma mudança de opinião de última hora. Decidisse que ela não valia o esforço, afinal, e simplesmente aceitasse a tácita obediência em vez da fria capitulação física, que seria o máximo a esperar.


Se assim fosse, não haveria necessidade de dizer coisa alguma. E assim deixar para trás a noite anterior como se jamais houvesse acontecido. A menos... Embora não estivesse olhando para a porta no outro lado da sala, soube o exato instante em que ele finalmente entrou. Não precisou erguer o olhar do fixo escrutínio à mesa, pois lhe percorreu um leve tremor, como se um arrepio gelado lhe corresse toda a espinha, mesmo antes do arrastar de cadeiras anunciar que a fraternidade legal levantara-se respeitosamente para cumprimentá-lo. Viu, ao lado, Andonis cerrar as mãos sobre a mesa até ficar com os nós dos dedos brancos, e pôs a sua com delicadeza no punho tenso. – Não o deixe ver – murmurou baixinho. – Jamais o deixe ver. Alex Mandrakis falou calmo e baixo numa língua própria, desejou a todos boa-tarde e deu-lhes boasvindas à reunião. Como se fosse apenas mais outro dia, com apenas mais outro negócio a fazer, pensou Natasha. Para ele. Mas não para eles, nem para as angustiadas mulheres à espera. E não para mim... Quando todos retomaram os assentos, ela arriscou um rápido olhar por baixo dos cílios. Alex não a olhava, contudo, como esperara. Fixava a atenção, a expressão distante e meio severa, na resma de papel à frente, que distribuíam aos demais à mesa, incluindo ela. Quando o advogado, que se apresentara como Ari Stanopoulos, levantou-se para esboçar as linhas principais da compra, Stavros e Andonis folheavam as pastas de documentos em estado quase febril, os rostos tensos e abatidos à medida que se confirmava por fim cada ponto da má notícia. Ao chegar ao fim, Andonis arquejou. – A casa, não – sussurrou. – Talvez esse demônio tenha algum átomo de humanidade, afinal. Mas, óbvio, não falara baixo o bastante, pois todas as cabeças voltaram-se para ele, e o próprio Mandrakis olhou-o, sorrindo com cínica altivez. – Ou talvez eu tenha decidido trocar por alguma coisa que prefiro, Kyrios Papadimos – informou com voz sedosa. Ninguém talvez tenha notado, mas Natasha percebeu a passageira carícia dos olhos dele, exatamente como pretendia, e sentiu o corpo arder de repente sob as roupas. Bebeu um pouco d’água, obrigando o frio líquido a passar pelos músculos contraídos da garganta, ao aceitar o fato de que não haveria salvação. Que ele pretendia aplicar o profano acordo. Seguiu-se uma pausa. Então Stanopoulos, com um pigarro, retomou o resumo dos termos, enquanto os irmãos, perplexos, trocavam um encolher de ombros. Natasha deixou as palavras cobrirem-na, sem sequer tentar segui-las. A mente já alcançava o fim da reunião, o “acordo” e todas as suas implicações. Faça o que for preciso, afirmou para si mesma, firme, como e quando ele exigir. Não proteste, não suplique. Fale apenas quando solicitada. Nada peça. Não o olhe, a menos que seja preciso, não ria, e jamais chore. Isso acima de tudo. Stanopoulos terminara e sentara-se, deixando os advogados dos Papadimos lançarem objeções, mas era claro que não o fariam. Sabiam que haviam sido derrotados muito antes da reunião. Acabou tudo, pensou ela ao pegar a caneta que lhe ofereceram e assinar em silêncio onde indicavam. E a gritaria por certo ia começar.


Viu os sorrisos largos nos rostos da equipe de Mandrakis ao apertarem-se as mãos e aplaudirem com exuberância o empresário calado e composto à cabeceira. – Vamos – rosnou Stavros, levantando-se. – Desejo sair daqui antes que eu sufoque. Alex também se levantou, silenciando de imediato os comentários em volta. – Natasha – chamou em voz baixa, estendendo-lhe a mão. Então era assim que se fazia, pensou ela, com o estômago revirado. Público e irrevogável, como ele a avisara. Andonis fuzilava-o com os olhos. – Você ousa chamar nossa irmã pelo primeiro nome – desafiou, beligerante. Ela lhe pôs a mão no braço. Tinha as pernas trêmulas, mas manteve a voz clara e firme. – Irmão, Alex Mandrakis me convidou para ser sua companheira por algum tempo... e aceitei. Portanto, nada há a dizer. E, com a cabeça erguida, percorreu toda a extensão da sala até onde Alex a esperava com um leve sorriso.


CAPÍTULO 6

QUANDO NATASHA o alcançou, Alex tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios, apenas para virá-la e beijarlhe o pulso, fazendo-a saltar e estremecer ao leve roçar de sua boca. Coisa de que certamente não tinha consciência, pensou ela, xingando-o baixinho e com o rosto em chamas. – Vagabunda! Prostituta! As palavras de Irini, que saltou de pé, com o rosto contorcido, interromperam de repente o silêncio da sala. – Eu não falei sempre, irmãos, que não devíamos confiar nessa megera inglesa que papai trouxe para casa? Vejam como ela trai a memória dele, com tal desejo pelo inimigo! Natasha movimentou-se rápido... A pele não apenas quente... mas ardente, e sentiu Alex apertar-lhe os dedos, quase num aviso. – Controlem-na. – Ele deu a ordem curta, ao lançar um frio olhar aos irmãos na outra ponta da mesa. – Expliquem-lhe a completa falta de necessidade desses insultos. Esta moça ao meu lado, uma irmã para vocês até agora, é a verdadeira e única vítima de traição. E só graças a ela conservaram a casa. Ou ainda não entenderam isso? Passou o olhar condenatório a Irini, parada entre os dois Papadimos de crista caída, e acrescentou, friamente: – Talvez, thespinis, deva treinar a gratidão em vez de chamá-la de nomes tão feios quanto mentirosos. – Pausa. – Já concluímos nosso negócio, e todos podem partir. – Soltou a mão de Natasha e envolveu-a num abraço, puxando-a para si. – A não ser, claro, por você, delícia do meu coração. Temos uma viagem a trilhar juntos. Calada, ela fitava o chão enquanto a sala se esvaziava, com uma penetrante consciência do esguio calor do corpo dele no seu. Furiosa por ver-se parecendo incapaz de se controlar. Quando ficaram a sós, interrogou, amargurada: – Por que defender-me contra Irini? Não era isso que desejava... que ela e todos... pensassem? – A princípio, sim. Agora todos saberão, assim como eu, que você era virgem quando a possuí, e isso será uma ferida muito mais profunda para o orgulho deles, acredite.


Uma dor pareceu contorcer-se dentro dela, mas logo foi afastada. Afinal, pensou, que mais esperava ouvir dele? Importava-lhe apenas a briga, e ela era apenas parte daquela vitória. Alex jamais esqueceria isso. Nem ela. Sentiu-o erguer a mão, retirar-lhe os grampos do cabelo, deixando-o cair solto sobre os ombros, e dizer-lhe em voz baixa: – Eu comentei que gosto de vê-los soltos. Natasha esperava que a puxasse contra o corpo e a beijasse para estabelecer seu domínio, e surpreendeu-se ao se ver libertada quando ele se afastou e encostou-se na borda da mesa. Ela engoliu em seco. – Posso perguntar que viagem planeja? Deve ter notado que não trouxe muita bagagem. – Não será problema – sorriu ele. – Já foram tomadas providências para seu novo guarda-roupa. – Comprou roupas para mim? É impossível. Nem sabe meu número certo... – Eu teria calculado – respondeu ele, percorrendo-lhe o corpo com os olhos –, mas não precisei. Uma criada demitida há pouco por Kyria Irini teve o prazer de contar-me tudo que sabia. Natasha enrijeceu-se. – Havia alguém na Vila Demeter a quem você não pagava? – A cozinheira e os jardineiros. Descobri sozinho a comida e as flores que você prefere. – Mas quando se trata de roupas, claro, jamais lhe ocorreria que eu talvez preferisse escolher minhas coisas. – Coisas é o termo certo – respondeu ele, pensativo – se esse conjunto constitui um exemplo de seu gosto, matia mou, cujo único encanto é mostrar-me como fica bela sem ele. – E se eu recusar as coisas que você comprou? – desafiou-o. Alex encolheu os ombros. – Então fique nua. – Parecia quase entediado. – Use o que decidir, não será empecilho para mim, garanto. Ela conteve a ferina observação que ansiava por lançar-lhe. Precisava parar de puxar brigas que não podia vencer, pensou, ressentida, e lembrar-se apenas de manter o acordo consigo mesma para suportar o que ele pronunciasse. Não deixaria que o modo de olhá-la e tocá-la a perturbasse. – Muito bem – concordou. – Uso o que me der, se for obrigada. – Você é graciosa mesmo – declarou Alex. – E como recompensa pela relutante cooperação, vou darlhe um presentinho. Joias, pensou Natasha, mordendo o lábio. Ficarei iluminada como uma árvore de Natal. Mas a mão que ele retirou de dentro do paletó não segurava o estojo esperado, mas um envelope. Natasha tomou-o e guardou-o no bolso. – Não tem curiosidade em saber o que contém? – Não, a não ser que seja uma passagem de avião para Londres. Ele estalou a língua em reprovação. – Seu desejo de se ver livre de mim quase me fere, Natasha mou. – Mas os cortes dificilmente seriam profundos, e tenho certeza de que iriam sarar fácil, Kyrios Mandrakis – respondeu ela, tensa. – Além disso, a consolação virá logo. – Se preferir não procurá-la, não. Mas por enquanto desejo que só satisfaça meus desejos. Pois nos dias vindouros a viagem comigo será ao prazer. E você não achará tão difícil quanto imagina. – Alex permitiu-lhe assimilar isso, e acrescentou: – Mas por enquanto se livrou de mim por algumas horas, pois


preciso trabalhar aqui no escritório. Encontro-me com você no jantar. Irá com Iorgos, depois de conversar com Ari Stanopoulos. Era difícil para Natasha manter a voz firme, com aquelas palavras sobre prazer ecoando na cabeça. – Achei que ele já tinha me entrevistado. – Mas também há arranjos a fazer em Londres durante sua ausência, ou esqueceu seu apartamento no prazer de minha companhia? – Sorriu. – Tem aluguel a pagar, ne? – Oh, não – respondeu ela, ressentida. – A vida é a proverbial caixa de surpresas. E creio que o sr. Stanopoulos inventará uma discreta mentira sobre meu atual paradeiro. Ou devo dizer que fui raptada por alienígenas? – Então terei grande prazer em demonstrar a você que sou muito humano... e viril – respondeu ele, delicadamente. – Se não tivesse compromissos, eu o faria aqui e agora. Natasha recuou um passo involuntário, e ele alargou o sorriso. – Não tão raivosa de repente, agape mou? – provocou-a. – Então fique assim, mas, por favor, não afie a língua com Ari. É fácil chocá-lo. E não me venha com truques, tampouco – acrescentou ao virar-se. – Ao contrário do pessoal da Vila Demeter, meu pessoal é leal. Ninguém vai ajudá-la numa fuga ousada. Além disso, você sabe quais as consequências para sua família. – Sei – respondeu Natasha. – Você já deixou claro. – Fez uma pausa. – Já partiram? Porque gostaria de me despedir. – Depois do que lhe fizeram... disseram? – O tom saiu cético. – Você é muito indulgente. – Não, não sou – respondeu ela, firme. – Só quero falar com... Thia Theodosia. Quero dizer, se ela ainda se dispõe a me receber. – Não deve se humilhar. Por favor, não tem motivo para isso. – Na porta, parou, olhou-a por trás, tensa, as mãos com punhos cerrados, ao lado. – Nem precisa me temer – acrescentou, e saiu. ELA NÃO precisou indagar por madame Papadimos, pois esta já a chamara, e a esperava. – Está em meu escritório – informou Stanopoulos. No imenso sofá de couro na única parede da sala não coberta por livros, a senhora, parecendo cansada, sentava-se num canto. Não sorriu, e desprendia-se dor de seus olhos quando Natasha se sentou ao seu lado. – É verdade, minha pequena? – questionou ela. – Você se entregou a Alex Mandrakis? Concordou em morar com ele como amante para a Vila Demeter continuar nossa? Seguiu-se um silêncio, então Natasha assentiu, trêmula, e falou, com visível sofrimento na voz: – Eu não me permitiria deixá-la sem teto. Mas percebo o que deve estar pensando, e... sinto muito. – Sente? – interrogou Thia Theodosia genuinamente espantada. – Mas como, querida, quando não tem culpa de nada? – Suspirou forte. – Não, pedhi mou, esta tragédia é só culpa minha. Devia ter impedido tudo há muito tempo, mas faltou-me coragem. Agora é triste constatar, a roda completou o círculo, e, como tantos outros inocentes, é você quem vai sofrer. Mas mesmo assim não é tarde demais. Que a casa vá para Mandrakis, e deixe meus filhos tão espertos tramarem um novo futuro... Natasha curvou a cabeça e pronunciou baixinho: – Dei minha palavra a Kyrios Mandrakis, e não volto atrás... não posso. Irini acusou-me de trair a memória do pai dela, e é exatamente isso que eu faria se deixasse esta casa que ele tanto amou, e onde


morou com a senhora, ser tomada pelos inimigos, com tudo mais. Devo demais a Thio Basilis para permitir isso. Madame Papadimos exclamou: – Ah, amado Deus! – E fechou os olhos um momento. Quando tornou a falar, tinha a voz baixa e triste. – Você devia ter se casado há três anos, Natasha. Ter se tornado uma esposa amada e prezada, e para minha eterna vergonha, eu não insisti. Natasha olhou-a, espantada. – Mas foi decisão minha continuar solteira – protestou com delicadeza. – Thio Basilis tentou convencer-me ao máximo, em geral aos gritos – acrescentou com um sorriso forçado. – Mas eu tinha meus próprios planos. E apesar de tudo que se passou, ainda acredito que acertei ao manter a posição e fazer minha própria vida. Thia Theodosia tornou a suspirar. – Mas se existisse um homem a quem você poderia ter amado e que lhe oferecesse o coração, além da proteção do nome... e aí, minha pequena? – Espalmou as mãos. – Afinal, onde fica essa vida da qual você fala? – Lá, à minha espera. – Natasha tentou parecer otimista. – Esse... esse arranjo é estritamente temporário. Ao vencedor, os despojos. – Ergueu o queixo. – Mas ele logo buscará novos mundos a conquistar, como o grande xará, e então serei livre. – Será, minha filha? Será que ainda desejará isso... quando chegar a hora? Quando o conhecer melhor que agora? Natasha arquejou. – Não acredito no que acabei de ouvir. – Tinha a voz trêmula. – Logo a senhora. Imagina que algum dia eu o perdoaria pelo modo como me tratou? Ou que passarei por vontade própria uma hora a mais com ele do que o necessário? Thia Theodosia balançou a cabeça. – Não endosso o que ele fez. Nunca pense isso, querida. – Pausa. – Apenas sugiro que, talvez, não deva julgá-lo tão duramente. Esse problema entre nossas famílias não foi culpa dele. Era uma criança quando tudo começou, obrigado a tomar partido. E talvez chegue a hora em que o ache... mais bondoso do que julga. – Não acredito – respondeu Natasha. Nem precisa me temer... Mas não é verdade, pois tenho o que temer, pensou com uma pontada, combatendo a lembrança da resposta de seu corpo à breve e involuntária reação à posse dele. Via-se verdadeiro choque na mãe adotiva. – Minha filha... Ele foi brutal? Quando devia ter sabido que você jamais tivera um homem antes? – Não – respondeu Natasha em voz baixa. – Não sabia. Na verdade, tinha bom motivo para julgarme... disposta, e muito mais. Porém, não foi brutal. O conteúdo daquela alegre carta forjada era algo que preferia não partilhar com madame Papadimos. Forçando um sorriso, apressou-se: – Mas... nada dura para sempre. Ele logo vai cansar-se e seguir em frente. E não terei sofrido qualquer dano permanente, a não ser talvez ao orgulho. Um dia conhecerei um homem a quem possa amar, e ser feliz com ele, como a senhora sempre desejou. Seguiu-se outro longo silêncio, e Thia Theodosia falou, delicadamente:


– Então é para isso, pedhi mou, que devemos trabalhar, e rezar, tão logo passe essa tristeza. – Curvando-se, beijou as faces de Natasha. QUE CONVERSA estranha, pensou Natasha mais tarde, quando dava relutantes respostas às perguntas educadas, mas completas, do advogado, que pareciam cobrir todo o possível sobre sua vida na Inglaterra. Uma área demasiadamente vasta e numa escala de tempo demasiadamente extensa, inquietou-se em silêncio, talvez reveladora de que a temporada com o novo amigo de travesseiro duraria mais meses que as horas e os dias que ela imaginara. Visto em retrospecto, Thia Theodosia quase parecia ter insinuado a mesma coisa. Não, mencionou para si mesma. Isso é ridículo. Os acontecimentos das últimas 24 horas lançaram-na em total desequilíbrio, e ela deixou a imaginação correr solta. Mas sabia que não imaginara o estranho diálogo entre Stanopoulos e madame Papadimos quando se cruzaram diante do escritório. O grego de Natasha podia estar meio enferrujado, mas ela ouvira a mãe adotiva dizer: – Então chegamos a isso. Quem julgaria possível? E captara a grave e reservada resposta do advogado: – É, kyria, sinto muito. Mas talvez agora acabe. Só que não ia acabar bem – pelo menos em um futuro previsível –, reconheceu ela, pesarosa, quando lhe tiraram das mãos, com frieza e eficiência, o controle da sua vida. Indagou, de repente: – Kyrios Stanopoulos, pode me dizer uma coisa? Instantaneamente, ele assumiu uma expressão cautelosa. – Se puder. – Essa briga entre seus clientes e minha família. Como começou? Sempre me deram a impressão de que se tratava apenas de rivalidade comercial durante gerações, e só foi piorando. Mas agora entendo que é muito mais recente. Seguiu-se uma pausa e ele respondeu: – Quem sabe como surgem essas situações aflitivas? Lamento, mas não posso esclarecê-la, thespinis. – E se eu questionasse a Kyrios Mandrakis, ele me diria? – Dependeria inteiramente dele, thespinis. – O advogado folheou os papéis. – Acho que é tudo. – Tenho certeza – declarou ela, e levantou-se. – Toda a minha vida entregue numa assinatura. – Suas transações particulares e comerciais foram feitas como deviam enquanto você esteve ausente – corrigiu-a. – Por favor, acredite, eu desejaria que pudesse ter sido diferente. – Uma opinião, pelo menos, que partilhamos – argumentou Natasha, impassível, e virou-se para a porta. – Ne – respondeu Stanopoulos secamente –, mas por motivos diferentes. Boa sorte, thespinis. ELA PODERIA ter voltado a pé à Vila Demeter, com antolhos para qualquer outro ponto da cidade, mas a rota até a casa de Mandrakis continuava desconhecida. E na certa assim permaneceria, pensou, obrigada a viajar no carro com chofer, o rottweiler Iorgos novamente de escopeta ao lado do motorista. Claro que Alex não correria risco com sua última aquisição. Mexeu-se inquieta e ouviu estalar o envelope que lhe dera, esquecido no bolso do blazer.


Pegou-o e revirou-o um instante na mão. Supunha que devia ser dinheiro... um adiantamento pelos serviços que seria obrigada a prestar-lhe na cama, à noite. E, como tal, sentiu uma dolorosa tentação de rasgá-lo e jogá-lo pela janela do carro. Só que estava fechada por causa do ar-condicionado. Não havia cheque, no entanto. Encontrou apenas uma única folha de papel e, quando a desdobrou e viu as linhas datilografadas e sua assinatura no pé da página, percebeu a exata natureza do que recebera. Por um momento, ficou olhando, páginas e frases que saltavam, secavam-lhe a boca e reviravam-lhe o estômago. Depois, com dedos inseguros, pôs-se a rasgar a carta forjada e reduzir cada pedaço a fragmentos menores, antes de socá-los de volta no envelope e enfiá-los no fundo da bolsa para jogá-los fora. Não percebera que o carro não se dirigia ao exclusivo bairro residencial onde morava Alex Mandrakis, mas saía de Atenas. Sentada atrás do motorista, olhava quase inerte pela janela, até um sinal de estrada introduzir-se trepidantemente em seus pensamentos. Ergueu-se rápido, a atenção despertada, e bateu no vidro. – Thespinis. Iorgos virou-se com cautela. – Está na direção errada – comentou ela, aflita. – Esta é a estrada do Piraeus. – Motorista bom, thespinis. – Ele pareceu quase tranquilizador. – Sabe o caminho. Fechou a divisória de vidro e deu as costas, com um comentário em voz baixa ao chofer, e os dois riram. Piraeus, pensou Natasha, febril. Dirigiam-se ao porto. Ela se empertigou, com as mãos fechadas no colo, ao sentir-se tomada por uma desesperada desconfiança. Tornou a bater no vidro. – Pago o dobro do salário a vocês – afirmou com voz tensa. – O triplo, se virarem o carro e levaremme ao aeroporto. Digam que os distraí e fugi. Que procuraram, mas não conseguiram encontrar-me. Confiem em mim, mandarei o dinheiro tão logo chegue à Inglaterra. – Mas Kyrios Mandrakis também confia em nós, thespinis – informou Iorgos, brusco. – Obedecemos apenas às ordens dele, e essas são para levá-la ao Piraeus e à Pala Marina. É o que faremos. Ela sentiu os músculos da garganta se apertarem. Santo Deus, pensou, com o coração martelando. A Pala Marina era onde ancoravam muitos dos maiores e mais luxuosos iates, e, claro, incluiria o Selene de Mandrakis. O Harém Flutuante, lembrou. Como humilhação final, levavam para lá a concubina do mês, pensou amargurada. Só vira o barco em fotos de jornal, mas reconhecera na hora o brilhante esplendor, ancorado solitário a curta distância da margem. No cais, uma lancha aerodinâmica e potente aguardava para transportá-la a bordo, junto com o conjunto de bagagem combinada em marrom-claro que, de repente, aparecera na mala do carro. Ao subir a escada de metal para o convés principal, um rapaz louro, atarracado, elegante de bermuda branca e camisa engomada, adiantou-se para recebê-la. – Srta. Kirby? Bem-vinda ao Selene. Sou o comandante, Mac Whitaker. – Apontou um homenzinho de olhos tristonhos e basto bigode preto. – Este é Kostas. Vai mostrar-lhe a suíte principal, e a sobrinha dele, Josefina, espera-a para desfazer as malas. Assim que Alex chegar, partiremos.


Por um instante, o estômago de Natasha revirou de pânico, mas ela tentou manter o autocontrole e apenas assentiu com a cabeça antes de seguir Kostas ao convés da ponte. Ele abriu a porta e indicou-lhe, bem-educado, que entrasse antes na sala. Quase tão grande, pensou ela, como a sala da Vila Demeter. Paredes cobertas de prateleiras, com livros, um sofisticado sistema de som e jarras com flores frescas por toda parte. Num lado, uma alcova continha uma mesa circular e cadeiras para jantar. Um tapete branco cobria o piso, poltronas confortáveis e sofás com grossas almofadas forradas de azul-escuro agrupavam-se em torno de outras mesas. As janelas tinham cortinas da mesma cor, como também a colcha e os reposteiros no espaçoso quarto, vislumbrado pelas portas duplas no outro lado da sala. Onde, parecia, ela dormiria com Alex, pensou, mordendo o lábio de forma quase feroz. – Gostou, thespinis? – interrogou o comandante. – Está tudo do seu agrado? Se eu confessar que detesto, vai me levar de volta ao cais? Inquiriu-se Natasha, sombria. Duvido. De qualquer modo, de que adianta irritá-lo? Não tem culpa por nada que aconteceu. Apenas obedece às ordens do patrão, como os demais. Forçou um sorriso. – É... bonito – respondeu. A chegada da bagagem proporcionou uma bem-vinda diversão, logo seguida por Josefina, jovem gorducha e bonita, as brilhantes tranças enroladas numa coroa no alto da cabeça, um sorriso oscilando entre tímido e simpático. Por insistência da criada, Natasha acompanhou-a ao quarto, mas não partilhou a admiração da outra por aquele esplendor. Emitiu ruídos bem-educados sobre os armários embutidos, com cabides de sapatos, prateleiras e gavetas, tudo da mesma cara madeira clara, e notou que muito do espaço já fora ocupado pelas roupas de Alex. Ele estabelecera, além de todas as questões envolvidas, a intenção de forçar a intimidade do relacionamento, e expulsar qualquer falsa esperança de privacidade que ela ainda alimentasse. Natasha podia ter fingido que se tratava apenas de mais uma convidada. Deu-lhe um quarto pomposo... uma linha de fuga para quando tudo isso superasse o suportável. Sequer quis olhar a imensa cama que ele partilhara com as antecessoras, segundo as libidinosas matérias publicadas, lembrava, tornando a morder o lábio. E parou, pois lhe ocorreu, com uma rapidez vertiginosa, como odiava a ideia de ser mais uma numa longa lista de garotas. Mas por que, em vista de tudo mais que acontecera, deveria isso perturbá-la, em particular? perguntou-se, nervosa. Quando Alex Mandrakis me diz em alto e bom som que não importo, pensou, na defensiva. Percebeu que Josefina acabara de louvar as maravilhas do quarto e agora se dirigia orgulhosa para o banheiro. Suspirando, Natasha a seguiu. Mas o entusiasmo da garota era justificável, admitiu, ao olhar os ladrilhos dourados, além de lavabos, toalete e bidê, todos com equipamentos dourados, dentro de boxes de vidro também dourados. Sem dúvida, grandes o suficiente para uma múltipla ocupação, disse a si mesma, tentando mostrar-se indiferente, sem conseguir, pois as indesejadas lembranças do banho que tomaram juntos... o toque daquelas mãos em seu corpo... retornavam para atormentá-la. Virando-se logo, ocorreu-lhe que, como o resto da suíte, cada luxuoso centímetro quadrado do banheiro parecia original, dando a impressão de que ninguém pusera o pé ali antes.


Alex parecia negar a fama de negligente, reconheceu com relutância, e a criadagem devia labutar para manter tudo em ordem. Deliciou Josefina ao concordar que tudo era maravilhoso, depois fugiu de volta ao salão. Talvez devesse concentrar-se em coisas práticas e descansar um pouco enquanto podia. E não pensar em Alex Mandrakis, nem como o sorriso dele iluminava o escuro dos olhos, ou como as traidoras extremidades da pele dela reagiam ao simples contato daquela boca. Uma viagem a trilhar juntos... Só a lembrança das palavras já bastava para deixar-lhe o corpo trêmulo, e afundar mais na maciez das almofadas. Oh, por que ele não era menos atraente, como o amigo de Stavros, Yannis, homem de lábios grossos, mãos carnudas e cabelo que parecia de aço? Não podia Alex Mandrakis satisfazer-se com a conquista num nível comercial?, pensou, ressentida. E não como se tivesse uma conta pessoal a acertar? Comigo? A essa altura, ela já devia estar a caminho de Londres. Naquela noite, retornaria para casa da forma habitual, conversaria com Molly e decerto prepararia uns ovos mexidos antes de tomar um demorado banho, cair na cama e em um sono sem sonhos. Não existe nada mais rotineiro para mim, pensou entristecida. Minha vida jamais voltará a ser a mesma. E sentiu um arrepio percorrê-la.


CAPÍTULO 7

NATASHA EXAMINOU-SE no longo espelho e afastou-se, mordendo o lábio. A seda creme que formava o vestido, com a saia rodada na altura dos joelhos e alças estreitas nos ombros, era com certeza atraente, o estilo era lindo, mas o modelo excluía o uso de sutiã e o caimento do fino tecido sobre os seios deixavaa muito envergonhada. Na verdade, não pretendera trocar-se para o jantar, nem fazer qualquer esforço, mas Josefina tinha outras ideias. Ou, com mais precisão, obedecia a ordens. E o duas-peças carvão fora o primeiro alvo deles. – Kyrios Alexandros não gostou – anunciara, estendendo as mãos em desculpa. – Assim, levo-o, por favor, thespinis. – Apontou a série de vestidos e roupas informais no guarda-roupa. – Tantas peças lindas a escolher – acrescentou. Natasha ia proferir uma tempestuosa rejeição de todos os desejos, passados, presentes e futuros de Alex Mandrakis, mas reprimiu-os. – Ótimo. – Forçou-se a sorrir e encolheu os ombros. – Escolha o conjunto enquanto tomo uma ducha. Josefina enfiou a mão no guarda-roupa e, quase com um floreio, retirou o penhoar prateado, que para espanto de Natasha parecia ter sido passado e lavado por alguma alma anônima desde que o tirara, naquela manhã. Deixada a sós, descobriu que as gavetas do guarda-roupa eram um tesouro de refinada lingerie, tudo artesanal em seda, renda e, surpreendendo-a, mais bonito do que excessivamente erótico. No banheiro, ficou intimidada ao encontrar uma série artigos de toalete… perfumes, cremes e loções… todos do aroma preferido. Pensou, ressentida: não suporto que ele tenha conseguido descobrir tanto sobre mim quando, até a noite anterior, era um total estranho, que eu vira de longe apenas uma vez, antes. Mas que nunca de fato esqueci... As palavras penetraram-lhe a consciência e ali permaneceram, apesar dos esforços para descartá-las. Como o próprio Alex, três anos antes. Mas não a surpreendia, considerando-se sua notoriedade de playboy.


A última vez ele aparecera nas manchetes em seguida à festa do trigésimo aniversário, cercado por seis belas garotas na piscina do Selene, todas nuas, para “uma folia sexual comemorativa”, segundo os tabloides descreveram. E uma delas, Sharmayne Eliot, uma atraente ruiva que se descrevia como atriz e modelo, confidenciara depois, ofegante, ao mundo: “Ele é sensacional. Agora sei por que o chamam de Alexandre, o Grande.” Quando retornou do banho, refrescada e perfumada, com o cabelo seco numa brilhante curva nos ombros, Josefina esperava-a para pintar-lhes as unhas dos pés e das mãos. Kyrios Alexandros devia preferir ser tocado por mulheres com mãos macias, pensou, furiosa. Mortificava-a ver-se transformada numa espécie de clone das garotas amáveis, paparicadas, que constituíam as habituais companhias dele. Declarara achá-la linda, mas Natasha sabia que atraente seria uma descrição mais precisa, e que a aparência física mal lhe compensaria a total inexperiência. Mas o que importava isso quando era apenas o desejo de vingança que ele precisava satisfazer? Ela era seu troféu... só isso... um símbolo da vitória numa guerra demasiado longa, da qual se tornara uma vítima civil. Mas apostava que ele, por certo, não ia querer dela a ressentida passividade que o aguardava. Quando Alex embarcasse nessa jornada ao prazer, viajaria sozinho, pois ela faria absoluta questão disso. O SOL se punha quando ele subiu, afinal, a bordo do Selene. Natasha esperava-o no salão, inquieta e nervosa, ouvindo sacolejos, pancadas e ordens aos gritos... O prelúdio para a partida do iate. Embora não decifrasse o que acontecia, percebia a chegada e a saída de lanchas o tempo todo, e supôs que deixassem mais passageiros. Kostas aparecia de vez em quando para indagar com crescente ansiedade se podia fazer algo por ela, mas também, a certa altura, transmitir uma mensagem do capitão Whitaker de que o barco trazendo Kyrios Alexandros chegaria logo à marina. Notícia, certamente, destinada a impeli-la para correr ao convés e recebê-lo. Não há a menor chance, pensou. E retornou à revista que lia, fitando as palavras impressas até ficarem indistintas. Ouviu passos próximos, vozes masculinas rindo e conversando bem ali fora, e levantou-se rápido, enxugando as palmas das mãos, de repente úmidas, na saia, consciente do tremor interno. Então a porta se abriu e Alex entrou. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi que ele parecia cansado. Trazia o paletó e a gravata já no braço, tinha a camisa semidesabotoada e precisava fazer a barba. Ele a olhou intensamente. Adiantou-se, e ela ficou imóvel, retesada, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. Parou de repente, sorrindo em sarcástico reconhecimento. Falou num tom friamente educado. – Kalispera. Desculpe-me por fazê-la esperar, mas uma simples reunião acabou se complicando. Ela manteve a voz estável. – Se está disposto a dar explicações, talvez possa me dizer o que faço neste barco? – Achei-a pálida, pedhi mou, até meio estressada. Decidi que um pouco de sol e ar marítimo talvez lhe restaurem a cor e o ânimo. E que você poderia achar menos opressivo um cruzeiro entre as ilhas do


que permanecer em Atenas. – Você decidiu, estalou os dedos e... isto aconteceu? – Quase – concordou ele, encolhendo os ombros. – Mas passei grande parte da vida a bordo do Selene. Em muitos aspectos, tornou-se meu verdadeiro lar, portanto fica sempre pronto para navegar quando exijo. – Interrompeu-se. – Espero que meu pessoal a tenha deixado confortável. – Claro. Como prisão, esta deve ser o máximo do luxo. – Pretende encarar-me como seu carcereiro? – Até isso – disse ela, com as palavras ferinas – seria demasiado lisonjeiro. Após um silêncio, ele murmurou: – Natasha mou, foi um dia longo e difícil. Dispenso outra briga, por isso tenha consideração. Partiremos em 15 minutos. Assim que tomar uma ducha, eu a levarei ao redor do Selene para mostrarlhe as oportunidades de relaxamento que o iate oferece. – Não – pronunciou ela, empedernida. – Obrigada. Já vi o quarto, que imagino seja a única área que me diz respeito. E não espero achá-lo muito relaxante. Mas, por favor, não se prive dos outros convidados por mim. Devem morrer de vontade de inspecionar as instalações. Afinal, têm fama mundial. Ele suavizou a boca num leve sorriso. – Refere-se aos convidados ou às instalações? Se aos primeiros, engana-se. Fora tripulação e empregados, ficaremos a sós. – Mas... achei que sempre convidava multidões. – O barco acomoda 15 para dormir. – Jogou o paletó e a gravata sobre o braço de um sofá e começou a desabotoar o resto da camisa. – Dificilmente uma multidão. Decepcionou-se? – Que diferença faz para mim? O Selene é seu iate. Tem direito a fazer o que quiser. – Sim. Por isso pretendo dedicar-lhe toda minha atenção, agapi mou. – Interrompeu-se para deixá-la assimilar as palavras. – Embora não vá ser tão simples quanto eu esperava. Graças aos seus irmãos, os negócios de minhas novas empresas emaranharam-se além do imaginado; portanto, talvez eu seja obrigado a deixá-la por breves momentos, de vez em quando. – Acrescentou com simulado escárnio – Creio que não será um problema para você. Ou deseja que eu envie convites... Providencie companhia enquanto me ausentar, para praticar suas habilidades como anfitriã? Ela o olhou horrorizada. – Oh, não... Por favor. É a última coisa que quero. – Foi o que imaginei – sussurrou ele. – Estimula-me. Pensei em nosso itinerário. Você tem um destino favorito entre as Cyclades? Paros, talvez, ou Santorini? – Sorriu-lhe. – Se há algum lugar que gostaria de rever, basta dizer. Após um instante calada, respondeu relutante: – Nunca estive em nenhuma das ilhas. Thio Basilis não gostava de deixar Atenas, mas no alto verão mandava instalar-nos perto de Nauplia. Acho que Thia Theodosia tinha uma casa em Alyssos. Conhece? – Sim, conheço. – Lembro que Stavros e Andonis falavam das férias lá quando meninos, mesmo antes do nascimento de Irini. Mas Thio Basilis preferia o Peloponeso, e ela nunca discordava dele. – Uma joia entre as mulheres – mencionou ele com estranha aspereza.


– É, sim – concordou Natasha com petulância. – E pense bem se vai falar algo desagradável sobre ela, pois a amo afetuosamente. Também porque ela tem uma opinião melhor de você do que merece… – Não precisa lembrar-me de sua afeição por ela. Trata-se, afinal, do único motivo de matia mou estar comigo aqui, agora, por isso tenho de ser-lhe grato, embora você não. Agora vou tomar minha ducha. Convidei Mac para jantar conosco – acrescentou. – Espero que não se oponha. – Oh, não. É... ótimo. – Ou pelo menos mais agradável que só minha companhia. Até logo, então. – E dirigiu-se ao quarto. Ela percebeu que prendera a respiração, apavorada com a ideia de ele insistir que o acompanhasse. Mas ficou temporariamente livre de perigo, grata às pequenas misericórdias que Alex se dispunha a lhe oferecer. TORNARAM A reunir-se no salão meia hora depois. Ele reaparecera de calça cáqui e uma camisa preta, aberta no pescoço, mangas enroladas até o cotovelo, e o leve, mas delicioso, perfume que ela notara antes. E recém-barbeado. – Então zarparemos – informou ele. – Rumo a Mykonos, para começar. Depois, quem sabe? – Entendo. – Natasha lançou-lhe um olhar rápido, nervoso. – Vamos jantar no convés? – Faz uma linda noite. Tem alguma objeção a comer ao ar livre? – Não, nenhuma. – Questionei – continuou – porque Mac contou-me que você não se aventurou a sair da suíte desde que subiu a bordo. – Talvez esteja encabulada – argumentou ela, tensa. – Afinal, todos no barco devem saber exatamente por que me trouxe. Percebe como me sinto… exibida assim? – Se ficássemos em Atenas, você estaria sob o escrutínio de um público muito maior – respondeu ele. – Vai habituar-se, como fui obrigado a fazê-lo. Aceita um drinque? Vou tomar ouzo – acrescentou, aproximando-se de uma mesa lateral com garrafas e copos. – Quer o mesmo, ou prefere outra coisa? – Água, por favor. Sem gás. – Um símbolo, talvez, da noite à nossa frente? – interrogou ele, com o tom sarcástico, destampando uma das garrafas e enchendo um copo longo. – Talvez – rebateu Natasha, friamente. – Mas álcool tende a adormecer-me, e sei que você não gostaria disso. – Quanta consideração, agapi mou. Embora a ideia de vê-la afetuosa e sonolenta com a cabeça em meu ombro tenha seu apelo. – Para você. Mas não para mim. – Digamos... Não agora... Talvez, mas em alguma noite futura. Pelo menos, é minha esperança. – Alex serviu-se do licor de aniz e ergueu a taça. – A você, matia mou… é tão linda. – Você deve achá-lo. Ou eu não estaria aqui. Alex ergueu as sobrancelhas. – Não me permite fazer-lhe um elogio? Outro tabu? Ela deu de ombros. – Você já me tem. Portanto, não precisa perder tempo com lisonjas vazias. Tomou um gole d’água, ciente de que ele a observava, curvando a boca meio divertida.


– Permite-me dizer que o vestido cai-lhe muito bem, e perguntar se gosta dele? – Sim, claro. É lindíssimo. E todas as outras coisas também. – Acrescentou, rijamente – Você é... muito generoso. – Era a pura verdade, pensou de má vontade, já que usava o traje mais fascinante e caro que já possuíra. – Mas, de fato, não estou habituada a roupas assim. – Surpreende-me saber que a família Papadimos vestia-a em trapos, pedhi mou. – Não, oh, não – logo ela protestou. – Mas Thia Theodosia era muito rigorosa, por isso eu quase não saía à noite, não precisava de vestidos assim. – Mas compareceu a um evento social, pelo menos. – Ele tomou um gole de ouzo. – Estivemos uma vez na mesma recepção. Ela virou a cabeça, de repente. – Lembra-se disso? – Como não? Você, não? – Você me foi… apontado – admitiu Natasha, tensa. – Por causa de sua companheira – apressou-se a acrescentar. – Uma modelo chamada Gabriella, famosíssima, então. E linda. – Também magra demais – declarou ele, impassível. – Espero que você tenha mais apetite. É cansativo comer com uma mulher que encara até uma folha de alface com desconfiança. Natasha tomou outro gole, consciente de que apenas duas horas antes tivera a louca ideia de fazer greve de fome para obrigá-lo a libertá-la, e abandonara-a por sentir-se tão voraz após pular o desjejum e apenas beliscar o almoço, que comeria o sapato. – Acho que alguém deve ter dito a Thio Basilis que você estava lá, porque no dia seguinte ocorreu uma altercação e proibiram-me de aceitar mais convites de Lindsay. – Minha pobre Natasha – proferiu ele, baixinho. – Por quanto sou responsável. – Calou-se, observando-a. – Mas talvez o vestido precise de algo mais. Um colar – acrescentou, demorando o olhar na cavidade exposta do pescoço dela, descendo-o depois com indisfarçável admiração até a projeção desimpedida dos seios sob a seda. – Nunca uso colares – rebateu ela imediatamente, insincera. – Não gosto. – Ah – comentou Alex, nada ludibriado. – Então aceita roupas porque não tem alternativa, mas outros presentes são proibidos. É isso? – Nem sempre. Porque você me deu outro presente esta manhã, aquela carta. E sou-lhe grata. – O que fez com ela? – indagou, mostrando leve desagrado. – Rasguei-a. – E jogou fora? – Ainda não. Continua na bolsa. Quando tiver chance, vou queimá-la. – Pegue-a, então – ordenou, baixinho –, que a descartaremos agora. Quando retornou com o envelope, Alex pegava um prato de metal e fósforos num armário. Ela jogou os fragmentos no prato e viu-o atear fogo. – Pronto, pedhi mou, desfez-se. Tire-a agora da mente. Não existe mais entre nós. Natasha atirou a cabeça para trás, com a voz trêmula. – Como pode dizer tal coisa? E eu posso esquecer como me tratou por causa disso? Acha mesmo que riscar um fósforo e queimar pedacinhos de papel seriam suficiente recompensa pelo que você me fez? – Não. Mas eu esperava que pudesse ser ao menos o início de um novo entendimento. – Então se enganou, pois isso sempre existirá entre nós. Sempre. É lamentável seu erro em pensar o contrário.


– Assim parece. Mas um erro que não precisa estragar nosso jantar. – Deu um sorriso que não chegou aos olhos. – Vamos? PARA SURPRESA de Natasha, o jantar não foi a provação que previra. O ambiente, admitiu relutante, era perfeito. A mesa, posta no principal convés sob um toldo, brilhava com prata e cristal. A poucos metros, o inquieto Egeu ondulava e cintilava na própria faixa larga de luar. A magnífica comida começou com um prato de carne condimentada em massa folhada, recheada de folhas de uva, anchovas frescas, minúsculas salsichas com alho, empadinhas de queijo, tortinhas de tomate e orégano e cubos de queijo feta picante. Seguiram-se galetos cozidos em vinho, servidos com ervilha e batata dourada com azeite, acompanhados por um refrescante vinho branco seco, a refeição finalizada por uma cremosa sobremesa aromatizada com gengibre e mel. Sem dúvida, a animada presença de Mac Whitaker contribuiu para aliviar parte da tensão da situação, embora Natasha exibisse franca surpresa ao ver os dois se tratarem por nomes cristãos. Não imaginava Basilis Papadimos jamais permitindo tal intimidade dos próprios capitães, nem dos mais antigos. Quase toda a conversa pareceu relacionar-se a uma extensa reforma do Selene, ainda longe de ser concluída, portanto não lhe exigira muita participação, o que para ela foi excelente. Por outro lado, questionou-se, perplexa, seria o iate velho o bastante para justificar tais despesas? Parecia improvável. Não admirava que Alex pudesse adquirir a linha Arianna, junto com tudo mais. A Bucephalus Holdings, concluiu, deve ter dinheiro para queimar. – Então, srta. Kirby. – interpelou-a Whitaker ao café, interrompendo-lhe o devaneio. – O que acha da deusa do luar de Alex? Ela o encarou, de repente enrubescida. – Não… entendo. – Nossa, ouvi mal? – Olhou para Alex, as mãos abertas em simulado desânimo. – Não me disse que o Selene era a Divindade da Lua nos mitos antigos, ao escolher esse nome? – Sim – respondeu ele, com os olhos escuros inquisitivos ao observar o rubor de Natasha. – Correto. Acho que fiz a escolha certa. – Cobriu-lhe a mão com a dele. – Não acha, pedhi mou? Em seu íntimo, a raiva guerreava com o encabulamento, e venceu. – Na verdade, não – proferiu ela, com a voz gélida, e retirou os dedos de sob a mão dele. – Acho que Circe seria um nome muito mais adequado. Afinal, não era a deusa que transformava homens em porcos? Viu o olhar chocado no rosto bronzeado de Whitaker, mas Alex permaneceu inabalável. – Assim conta a lenda – respondeu, baixinho. – Mas bastou apenas um mortal para sobrepujá-la e amansá-la. Algo de que talvez deva lembrar-se, Natasha. – E que parece a dica para retirar-me – observou o capitão a ninguém específico, afastando a cadeira. – Boa noite a ambos. Já a sós, Natasha desafiou-o: – Bem, diga o que tem a dizer. – Não acha que talvez considerasse sua situação mais fácil se concentrasse as energias tentando me agradar e não irritando-me?


– Mais fácil para você, decerto. – Ergueu o queixo com petulância. – Talvez o surpreenda, mas meus planos não incluem degradar-me para começar a “agradar-lhe”, nem a qualquer outro homem, aliás, porque pertenço e sempre pertencerei a mim mesma, por mais tempo que seja obrigada a passar naquele seu colchão gasto. Assim, terá de tirar o que quiser de mim, pois nada pretendo dar-lhe. Ele encolheu os ombros. – Então essa é sua escolha. Não afeta, todavia, nenhuma das minhas, feitas há muito tempo. Mas a descrição de minha cama é obsoleta. Se prestasse atenção durante o jantar, em vez de inventar modos de irritar-me, saberia que toda a suíte principal submeteu-se a uma completa reforma, concluída apenas uma semana atrás. E tudo... cada ornamento, equipamento e peça de mobiliário... é novinho em folha. – Acrescentou, tranquilamente. – Inclusive, claro, a cama. – Deu-lhe um sorriso frio, até impessoal. – Vamos entrar e descobrir? Ela tentara fazer a refeição durar o máximo possível, comendo devagar e pedindo outro bule de café. Qualquer coisa para adiar o momento em que ficariam a sós. Mas agora esse instante chegava, pensou ao levantar-se, forçando-se a acompanhá-lo, sem protestos, à suíte. Ouviu a porta fechar-se, isolá-los, e esperou rigidamente o que aconteceria em seguida. – Vou tomar um conhaque. Aceita? – interrogou ele convidando-a. Deliberadamente, ela quase não bebera no jantar, daí a sobriedade total, além do frio de medo, e fez que não com a cabeça, muda. – Então sugiro que se retire. – O tom dele nada traiu. – Irei logo. Dentro do quarto, Natasha fechou a porta e recostou-se ali, exalando a respiração num longo suspiro. Viam-se abajures acesos em cada lado da cama, e sobre as cobertas abaixadas um montinho branco. Uma camisola, percebeu ela incredulamente ao erguê-la, branca, simples, com alças estreitas, e uma fileira de minúsculos botões de cetim no corpete, e nada transparente. Josefina, imaginou com ironia, deixando alguma mensagem? No banheiro, despiu-se, lavou-se e escovou os dentes, antes de enfiá-la pela cabeça. Saiu e encaminhou-se relutante para a cama, perguntando-se se era ali onde ele esperava encontrála. Ainda hesitante, ouviu a porta abrir-se atrás e virou-se. Alex parara no vão, com a camisa desabotoada e descalço. Sem dar uma palavra, nem um passo, ali permaneceu olhando-a do outro lado. Na certa, ele não acreditava no que via, pensou, com a garganta apertada. O recatado tecido da camisola devia ocultar-lhe tudo do olhar... Mas, de algum estranho modo... Sentia-se mais encabulada diante dele nesse momento do que quando estivera nua, na noite anterior. Por quê? indagou-se, perplexa. E por que ele nada dizia, nem fazia? Esperava algum sinal dela? Inspirou fundo e ergueu o queixo, tornando a olhá-lo na tentativa de disfarçar a repentina e inexplicável timidez. E a voz na cabeça murmurou-lhe: Não devia ser assim... Mas Alex continuava imóvel, encarando-a, com os olhos escuros velados e inescrutáveis. Quando enfim falou, a voz saiu brusca, quase severa. – Quer casar-se comigo? As palavras golpearam-na como um soco no estômago, e fizeram-na arquejar e recuar, emudecida pelo choque. Quando conseguiu falar, a voz saiu rouca:


– Trata-se de alguma piada? – Peço-lhe que seja minha esposa. Aceita? – Não! – inspirou ela, trêmula. – Meu Deus... não. Nem se o mundo fosse acabar amanhã. E você deve estar louco... ou bêbado... só por imaginá-lo. – Posso saber o que me torna tão inaceitável? – Eu julgava que fosse óbvio... até para você. – Se fosse, eu não questionaria. Diga-me, então. Afinal, afirmou uma vez que me queria, e também por escrito. – Mas isso na verdade foi uma piada – respondeu, vacilante. – Embora não muito boa, como bem sabe. Porque, se eu pudesse, não passaria outra hora com você. Portanto, que diabo faria unir-me a você para sempre? – Inspirou fundo. – Ou acha que comprar um armário cheio de roupas novas mudaria minha atitude? Iria fazer-me vê-lo sob uma nova e agradável luz e apreciar sua companhia? Nesse caso, reflita melhor. Você é rico e mimado, e o mais distante de um bom partido que se pode obter. Não o aceitaria, nem embrulhado para presente. – E acrescentou: – Além disso, deve ser o último homem vivo a querer ser casado, então qual é o objetivo dessa absurda proposição? Ele respondeu, devagar: – Creio que a palavra correta é “proposta”. E talvez o objetivo seja oferecer a reparação de que falou antes. E garantir – continuou nivelado – que se fizemos um filho ontem à noite, ele tenha direito legal ao meu nome. – Por favor, não se preocupe – rebateu Natasha com desdém, ciente de sua pulsação acelerada. – Se por alguma remota chance estiver grávida, garanto que não o ficarei por muito tempo. Um filho meu nascerá de um homem que eu ame e respeite, kyrie, roteiro que sequer o inclui. – E a única reparação que poderia fazer pelo seu comportamento é pôr-me no próximo voo para Londres, para eu nunca mais ter de vê-lo. Mas essa oferta provavelmente não existe. – Não – declarou ele, muito baixo. – Então esqueçamos tudo sobre esse casamento absurdo, sim? E voltemos ao que vim fazer aqui. Preciso refrescar-lhe a memória? Natasha desabotoou os botõezinhos do corpete. Retirou as alças da camisola dos ombros, deixando-a deslizar até o chão. Então pousou, com deliberada e petulante provocação, uma das mãos no quadril, a outra afastando o cabelo louro do rosto. – O que vê é o que tem, e tudo que terá de mim, kyrie. Como ofereceu uma deliciosa refeição à noite, com certeza espera em troca seu próprio banquete privado. Tentarei não decepcioná-lo... desta vez. Após um silêncio, Alex respondeu, gélido: – Sou grato, claro, mas perdi o apetite. Assim, desejo-lhe boa noite. Saiu, fechando a porta, e um instante depois Natasha ouviu a do salão também fechar-se, dizendolhe com clareza que ele não voltaria.


CAPÍTULO 8

ERA ISSO mesmo que ela queria. Não? De repente, percebeu que, apesar do calor da noite, tremia violentamente. Pegara a camisola, vestira-a, deitara-se e cobrira-se. Não esperara dormir. Imaginara-se passando a noite à mercê de Alex. Isso, pensou, era um alívio, e iria aproveitá-lo ao máximo. Mas o sono não vinha. Os acontecimentos e o surpreendente desfecho da noite continuavam passando-lhe pela mente como um videoclipe com demasiadas repetições. Tive minha primeira proposta de casamento, pensou, e não sabia se ria ou chorava. Ao mesmo tempo, a violência das próprias reações deixava-a perturbada e perplexa. Podia ter dito um simples “não”, refletiu, sem insultá-lo aos gritos como uma desbocada. Mas ele merecia, e mais. Fora magoada e insultada, portanto, também precisava ser magoado e insultado. E ela conseguira além do que esperava. A desolação no rosto dele ao sair confirmara isso. Então por que não dava cambalhotas mentais? Acertava o alvo com um golpe certeiro? E a resposta era... não sabia. Não negava que acabara de suportar as mais terríveis 24 horas da vida. Mas também começara a descobrir complexidades na situação que, francamente, a assustavam. Pois, às vezes, quase esquecia por que estava lá. Pois, às vezes, ele a tratava como um ser humano e não como um mero objeto sexual. E, embora muitas vezes a olhasse sem deixar-lhe dúvida de que a queria, não tentara fazer nenhum avanço. Nem quando retornaram do salão juntos e ela esperou que a tomasse nos braços, não que a mandasse para a cama sozinha. Despertava-lhe no íntimo algo perigosamente semelhante à decepção. E não fora por isso que acabara de passar-lhe aquela descompostura? Que se exibira de propósito nua com uma vulgaridade cuja lembrança repugnava-a? Por que temera a própria fraqueza em potencial? Pela vívida lembrança daquele corpo no... dentro... do dela... E o que isso fizera-a sentir. Pelo reconhecimento de que fora excitada por ele, embora brevemente. E aquele estranho, fugitivo desejo que Alex despertara-lhe ainda perdurava.


Também saber que por um momento dilacerante, impossível, quisera vê-lo atravessar o quarto, e levá-la... fosse para o céu ou o inferno. Precisava encontrar uma defesa contra ele, e rápido. E aquela inesperada, incrível, proposta de casamento fornecera essa defesa. Cada instinto dizia-lhe que ele não recebera bem a rejeição. E funcionara. Só que agora ela precisava encontrar um meio de transformar esse alívio temporário em separação permanente. Enfurecera-o uma vez. Por certo, poderia fazê-lo outra vez... deixá-lo assim. – Não o quero amável comigo – sussurrou veemente na escuridão. – Quero julgá-lo severamente. Preciso intensificar a antipatia e o ressentimento... mantê-los sempre fervendo... para impedir-me de imaginar possibilidades que sequer devia contemplar. Deus sabe que tenho demasiados motivos para detestá-lo, e o mais importante é o estado de confusão em que me encontro agora, que não quero... nem consigo... entender. Porque esta não sou eu, pensou. A verdadeira Natasha Kirby conduzia a vida profissional e pessoal com lúcida eficiência. Usava sua razão para resolver problemas, e sabia que apenas amizade, interesses compartilhados e respeito mútuo formavam o alicerce para um relacionamento entre homem e mulher. Não devia ter tomado vinho com ele ao luar, moça. E se também aceitasse tomar conhaque, na certa imaginaria que estava apaixonada por ele agora. – Além disso, você é curiosa... claro... a respeito de um homem que faz amor em quatro idiomas – acrescentou, com escárnio. Mas por que essa informação vulgar alojou-se em minha mente nos últimos três anos? inquiriu-se. Sem falar da clara lembrança que conservara do jeito como ele a olhou naquela distante noite, na embaixada. Natasha suspirou, virou-se de lado e tentou relaxar, precisava dormir para enfrentar o que a aguardava no dia seguinte. Mas só depois de uma agitada hora adormeceu, e sonhou que corria por um labirinto de ruas, de camisola, apenas para descobrir que cada desvio e volta levava-a a mesma praça com a mesma igreja, onde Alex esperava-a à luz do sol, com as mãos cheias de rosas brancas para o buquê nupcial. ACORDOU MUITO cedo, e continuou deitada por um instante, totalmente desorientada, sem saber o que a perturbara e por que o quarto se movia. Então lembrou o rumo que tomara sua vida no pesadelo e, gemendo, enterrou o rosto no travesseiro. Comparecera a muitos casamentos gregos, e sempre a comovera o simbolismo da troca de coroas e a lenta caminhada do casal ao redor do altar. Mas jamais se imaginou em tal ritual, embora na infância tivesse sido batizada na Igreja Ortodoxa Grega, para satisfazer aos pais adotivos. Muito menos com Alex Mandrakis, pois era inacreditável, sobretudo porque seria por todos os motivos errados. Certo, ele se sentia culpado, mas não pensava a sério que ela aceitaria casar-se para salvar-lhe a consciência... pensava? Nem para proteger a legitimidade de um bebê que quase certamente inexistia. Apesar da intimidade que lhe impusera, ambos continuavam totais estranhos.


E assim deveriam permanecer. Precisava resistir a toda tentação de relaxar... a permitir-se desfrutar a companhia dele. A menos, claro, se a perda de apetite que lhe instigara à noite persistisse, e ele decidisse reduzir as perdas e mandá-la embora. Bem, pensou, haveria sempre essa esperança. Enquanto, se ela ficasse… Olhou o travesseiro intocado ao lado. Reconsiderando, percebeu que ficar nua não fora a melhor ideia. Que sorte ele não aceitar aquele absurdo desafio, do contrário, poderia acordar em circunstâncias muito diferentes. Pegou na mesinha de cabeceira o relógio e fez uma careta ao ver as horas. Mal amanhecera, e era cedo demais para alguém movimentar-se quando desejava parecer ter passado uma noite tranquila. Então o que a despertara? interrogou-se, ajeitando-se para dormir mais uma vez. E notou uma das gavetas no armário de Alex ligeiramente aberta, quando à noite estava fechada. Teria ele ido pegar roupas limpas para o dia seguinte? E algum sexto sentido sobre a presença dele no quarto a despertara? Improvável, quando ele tinha empregados para fazê-lo. Exceto que ela não imaginava os meticulosos Josefina e Kostas deixando uma gaveta aberta, nem, ao saírem, a porta do quarto escancarada, como estava agora. E se fora Alex, a hora da visita parecia indicar que ele também não dormira bem, o que não devia ter-lhe melhorado nada o humor. Bem, tinha um aeroporto em Mykonos, portanto ele poderia livrar-se facilmente dela se quisesse, pensou, tornando a deitar-se. E ela apenas poderia rezar para que ele quisesse, imaginou, silenciosa, e fechou os olhos. QUANDO OS reabriu, encontrou Josefina com uma bandeja do desjejum e uma expressão desaprovadora. Mas também todos deviam saber, a essa altura, que Alex não passara a noite na própria cama, e seus leais auxiliares sem dúvida ficaram chocados. A condenada comia um substancioso desjejum, pensou Natasha ao pegar o garfo: suco de laranja, café, ovos mexidos com tomates grelhados e dedos de torrada. Mas pelo menos sozinha. Ao mesmo tempo, percebeu o Selene parado. – Chegamos a Mykonos? – perguntou, esperançosa. – Ne, thespinis. Há duas horas. Terminada a refeição, ela tomou banho e, ao sair do banheiro de penhoar, viu Josefina pondo na cama um biquíni jade com uma túnica de voal em jade, turquesa e dourado. Disse, incisiva: – Isso, não. O que aconteceu com meu conjunto e valise? E quando Josefina, com os olhos arregalados, negou saber o paradeiro dos dois, Natasha foi ao guarda-roupa e examinou-o. Esperava partir como chegara, sem levar nada pago por Alex, contudo, ficou claro que não tinha opção. Escolheu a roupa mais simples que encontrou: um vestido de linho azul; simples, mas bem cortado. Josefina protestou que fazia calor demais para aquele vestido. Aqui, talvez, respondeu Natasha calada. Mas não na Inglaterra, e planejo adiante. Em voz alta, pronunciou:


– Não se preocupe. Este serve. Josefina acalmou-se, mas continuou resmungando baixinho, e Natasha reconheceu as palavras que Alex repetia várias vezes. Coitada, pensou com relutante diversão aplicando protetor solar nas pequenas áreas de pele exposta. Aposto que nenhuma das outras amigas de travesseiro dele deu-lhe tanto trabalho. Inspirando fundo, saiu para o convés. Alex esperava-a sério, encostado na amurada, de short surrado, com os olhos ocultos sob óculos escuros. Indagou, lacônico: – Kalimera. Dormiu bem? – Graças a você, sim. – Ela ergueu o queixo. – Sobre ontem à noite… Ele ergueu a mão, interrompendo-a. – Seria melhor a esquecermos. Se concordarmos que não aconteceu. – Mas é impossível. Eu falei coisas muito desagradáveis. – Não é o pior que podia ter acontecido. – Acha mesmo? – questionou ela, nervosamente ciente de que a conversa fugia ao planejado. – Eu sei. Afinal, Natasha mou, você poderia ter aceitado casar-se comigo e tornar-nos infelizes pelo resto da vida. – Se acredita nisso, por que me pediu? – Loucura de lua. Um impulso sentimental, tão logo lamentado quanto inesperado. Pois, como você bem me lembrou, sou o último homem no mundo que precisa sobrecarregar-se com uma esposa. – Mas... decerto vai querer que eu parta. – Por que desejaria uma coisa tão tola? – Porque... zangou-se comigo.. – Perdi um pouco a calma, verdade. Mas já a recuperei... junto com o apetite. Portanto, não vai a lugar algum. E esta noite me compensará por todas as suas palavras duras e aprenderá a tratar-me mais amorosamente. Natasha desesperou-se: – Reflita melhor... por favor. Porque não se trata apenas de mim. Você namorava alguém... nega? – Não. Por que deveria? – Porque talvez deva pensar nela. – Natasha engoliu em seco. – Pensar em como se sentirá quando descobrir que… estive com você. – Isso dificilmente lhe diz respeito. – Ela entenderá que você me escolheu apenas por vingança? É sua namorada... talvez esteja apaixonada por você... e fique muito magoada. Não se importa com isso? – Nunca incentivei mulher alguma a apaixonar-se por mim. Seria perda de tempo delas e meu. E Domenica não é exceção. Sabia desde o início que nada seria sério entre nós. Com a voz trêmula, Natasha declarou. – Espero e rezo, kyrie, que um dia uma mulher magoe-o para valer... faça-o saber o que é sofrer. – Tarde demais, kyria – mencionou ele, rouco. – Porque há vários anos já aprendi toda a dor causada por um coração dilacerado. E isso acaba dando-nos imunidade. – Apontou a vista de estonteantes casas e torres de igreja brancas encimadas por telhados azuis e terracota atrás. – Mykonos. Desembarcaremos à noite, quando refrescar, e jantaremos no meu restaurante preferido. Espero que o aprove.


– Acho que não tenho opção. – Afinal, está agindo com um pouco de sabedoria. Mas agora tenho trabalho a fazer. Por que não põe algo mais fresco, desce para a piscina e me junto a você depois? Ela respondeu com petulância: – Porque prefiro ficar onde e como estou. – Inspirou fundo. – Além disso, não vai entediá-lo partilhar a piscina só com uma garota em vez da turma habitual? – E todas nuas – insinuou Alex. – Esqueceu de mencioná-lo, embora eu saiba que pensou. Mas não me farão falta – acrescentou, rindo. – Desde que nos conhecemos, você parece ser tantas mulheres que já se assemelha uma turma. E afastou-se, deixando-a boquiaberta e com as mãos cerradas em impotentes punhos ao lado do corpo. MYKONOS À noite parecia uma enorme festa resplandecente, ruidosa. As ruas estreitas, labirínticas, da cidade antiga eram tão apinhadas, que Natasha achou que mal havia espaço para respirar. A informação de que consistia na mais cara ilha no Egeu confirmava-se. Para onde ela olhava, via o brilho das joalherias, ou a elegância de butiques de grife. E todos à sua volta eram ricos e belos. Com certeza, sentia-se o peixe fora da água ali, mas admitia com relutância que Alex Mandrakis era o acompanhante ideal naquela multidão. De calça creme e uma camiseta listrada cinza e creme, parecia apenas outro turista. Em todo lugar, entretanto, aonde o levavam os passos largos, parecia abrir-se um caminho, e Natasha, com a mão firme na dele, esforçava-se para acompanhá-lo. Por culpa das sandálias de salto alto que Josefina insistira que ela usasse com o vestido preto curto tomara que caia, em vez dos sapatos mais práticos que calçara. A presença atrás do rottweiler Iorgos também lhes ajudava o avanço desimpedido. Natasha, boquiaberta quando viu a forma corpulenta já no barco que os levou à praia, comentou com Alex. – Achei que ele tivesse ficado em Atenas. – Apenas enquanto eu fiquei. Subimos a bordo juntos. – Segue-o a toda parte? – Quase, desde que meu pai empregou-o como meu guarda-costas, alguns anos atrás. Ela lhe deu um olhar desdenhoso. – Para impedi-lo de ser apunhalado, por certo, por alguma amante descartada. – Se existisse tal problema, eu mesmo resolveria. Mas não tenho o hábito de descartar mulheres, Natasha mou. Quando algo acaba, acabou. Não é melhor assim, separar-se como amigos? – Amigos? Sua lista de cartões natalinos deve ser igual a um catálogo de telefone. – Mas felizmente tenho quem lamba e cole os selos. Sem resposta, ela decidiu calar-se. Estranho, mas conversar com ele a deixava menos nervosa sobre a noite por vir. Fácil ser valente de dia. Mas a aproximação do pôr do sol começara a intensificar-lhe o medo no íntimo, e piorar-lhe o desconforto físico. Pois logo se arrependera de ser inflexível quanto a permanecer naquele vestido, de manhã. Quando a temperatura subiu, o calor escaldante acabara impelindo-a, empapada de suor, de volta ao salão, sua


desgraça aumentada pelos esguichos do convés, onde Alex refrescava-se na piscina. E enfurecera-se consigo mesma por ter mencionado o escândalo ligado à festa de aniversário, porque parecia que acompanhava, ávida, a sua carreira erótica pela imprensa marrom. E aquela surpreendente revelação de que sofrera uma desilusão amorosa não justificava a forma de tratá-la, nem à moça recém-descrita pelos tabloides como “companheira constante”. Quando ele acabou surgindo no quarto, encontrou-a vestida e escovando o cabelo. E ela se enrijeceu sem querer até ouvi-lo dizer: – Você está muito linda, Natasha. – E entrou no banheiro. Ali sentada, imóvel, fitando seu reflexo, percebeu que toda vez que o visse entrar ali, no futuro, iria perguntar-se se ele iria tomá-la nos braços. E como ela suportaria quando isso afinal acontecesse. O RESTAURANTE Leda ficava na ponta de outra ruela. Foram recebidos com grave prazer pelo maître, e conduzidos por uma área de bar intimamente escurecida, onde Iorgos separou-se para sentar-se a uma mesa de canto, até um salão muito iluminado, alvoroçado por conversas e risos das mesas repletas. Depois saíram para o pátio, onde se viam ambientes muito mais reservados, sob pérgulas de treliça. Quando Alex retirou a estola de tafetá dos ombros, ela notou dois lugares postos lado a lado, obrigando-a a juntar-se a ele no comprido banco estofado. – Gostaria de um drinque? – Obrigada – disse ela, acrescentando desafiadoramente – Ouzo. Ele riu. – Prefere esquecimento e ressaca a mim, matia mou? – Como é inteligente, kyrie. – Não me exigiu nenhuma inteligência – pronunciou Alex, seco, e fez o pedido. Quando chegou, ele acrescentou água à bebida em cada taça, e entregou-lhe uma, brindando. – Ao prazer, minha linda menina. Ela tomou um gole da mistura turva, e dominou-a um ataque de tosse quando o sabor de anis impediu-lhe a respiração. Alex logo pegou a taça e deu-lhe um lenço de linho imaculadamente dobrado do bolso para enxugar-lhe os olhos marejados. Um garçom preocupado chegou correndo com um copo de água mineral. – Beba – ordenou Alex. – Mas devagar. Ela obedeceu, mortificada ao perceber que a mesa deles tornara-se o foco de interesse de todos ao redor do pátio. – Obrigada – proferiu, quando pôde falar. – Tinha esquecido como detesto ouzo. – Então pediu para escapar de minhas atenções mais tarde, morrendo engasgada? – Achei que se ficasse muito embriagada rápido, você não gostaria. – E se me irritasse, eu tornaria a deixá-la sozinha? Não, Natasha mou. Só a deixarei de novo quando tudo terminar entre nós. E agora, se já se recuperou, pediremos a comida. Gosta de frutos do mar? A souvlaki com lagostim é muito boa. E recomendo galinha em molho de nozes ou filé com alcaparras para acompanhar.


Como podia ela manter a fachada de indiferença quando quase lambeu os lábios sob a perspectiva das maravilhas culinárias por vir? O garçom trouxe os aperitivos e uma garrafa de vinho branco. Depois os pratos seguiram-se, em ordem. Natasha comeu cada naco servido, e tomou sua parte do vinho tinto que sucedera ao branco, embora protestasse quando o garçom ia completar a taça. – Quer embriagar-me, afinal? – interrogou a Alex, erguendo o queixo. – Não. – Sorriu-lhe. – Só a quero mais relaxada do que estava quando a noite começou. Já relaxara, percebeu ela. Embora se sentasse tão perto, ele não tentara sequer um movimento amoroso. De fato, em alguns momentos quase se sentira segura em sua companhia. E, na verdade, fizera-a rir. Mas, claro, pensou meio zonza, é assim que ele age... o segredo do sucesso com as mulheres. E eu, como a maior idiota do mundo, facilito-lhe pateticamente tudo. – Algum problema? – Como poderia haver? – Ela lhe sorriu, fria. – Vou lembrar-me desta fabulosa comida quando voltar a Londres e comer um sanduíche. – Junto com muitas outras lembranças agradáveis, espero – declarou ele, sarcástico, e pediu a conta. Era o sinal de que as brincadeiras terminaram, pensou Natasha ao se levantar, pegando a estola e a bolsa. Tremia no íntimo novamente ao atravessar o restaurante, parando enquanto ele respondia a saudações de outros comensais e apertava a mão do chef, que surgira da cozinha para cumprimentá-lo. Um desfile régio, pensou, reunindo as frágeis defesas para enfrentar Alexandre, o Grande, exibir a última conquista. Caminhavam de volta ao barco atracado, ele a enlaçando, quando um flash pareceu vir do nada. Natasha hesitou, mas Alex sequer vacilou ao proferir uma áspera praga. Minutos depois, sentavam-se na proa, vendo o Selene cada vez mais perto, e ele mencionou baixinho: – Desculpe-me, agapi mou. O Leda tem uma lista negra de repórteres e fotógrafos para proteger os clientes. Mas acho que alguém próximo de nós usou o celular para informar à imprensa. Se foi isso, acabei de dar-lhes a foto do ano. – Por que desculpar-se? Servirá para estabelecer meu lugar exato na sua vida, exatamente o que você afirmou que pretendia que acontecesse. – Verdade. Mas quis dizer em meu próprio tempo e maneira. É, pensou ela, tristonha. Assim seria sempre, do primeiro ao último instante, quando a banisse de sua vida para sempre. De repente, chocada, sentiu o gosto de lágrimas, grossas e amargas, na garganta. E o medo a oprimia. Isso é loucura…


CAPÍTULO 9

MAS NÃO a única loucura da noite, refletiu Natasha, em pé na janela do salão, fitando, entorpecida, as luzes de Mykonos ao longe. Porque, por um breve momento, enquanto caminhava enlaçada ao lado de Alex, sentira um impulso quase esmagador de abraçá-lo e enterrar o rosto na curva do ombro dele. E, não fosse a intervenção do fotógrafo desconhecido, talvez o tivesse feito. O que seria um desastre de terríveis proporções. O que está acontecendo comigo? Parece que não me conheço mais. Ao subirem a bordo, Alex parara para uma breve conversa com Mac Whitaker. Talvez fosse a última oportunidade fugaz de Natasha ter alguma privacidade, emocional ou física. Entrou no salão, largou as coisas no sofá e retirou as sandálias, antes de dirigir-se descalça ao quarto. O mesmo cenário da noite anterior, notou, com o coração martelando, a colcha virada para baixo, os abajures acesos e mais uma bonita camisola estendida. Tudo informando que devia esperá-lo submissa na cama. Viu-se, contudo, recuando assustada para o salão, e logo ficar ali como enraizada, a mente rodopiando numa espiral de conflito, incapaz de controlá-la, nem entendê-la. Temia mais ele ou a si mesma? Era a pergunta que a afligia, e ainda lutava para encontrar a resposta quando viu o reflexo de Alex na janela, aproximando-se silencioso, e parar atrás dela. Circundou-lhe a cintura com os braços, puxando-a contra si. Por um segundo, ela sentiu o corpo rígido em resistência, então começou a relaxar enquanto aquele calor e proximidade invadiam-lhe a consciência, desfazendo a tensão que parecia sua única armadura. Mas era tão difícil reforçar as enfraquecidas defesas contra ele quando a virava sem pressa, de frente, tomando-lhe o queixo a fim de erguer-lhe a boca trêmula para o beijo. Encarava-a, examinando-lhe os olhos, como se entendesse sua luta interna. – Agapi mou, desta vez não quero nada forçado. Natasha encarou-o de volta, com os olhos arregalados, e compreendeu que a rendição não lhe seria imposta. Cabia a ela aceitar ou negar.


E soube que seu corpo já tomara a decisão. Durante as últimas 48 horas, ela não podia mais negar a necessidade que ele despertara nela. Estendeu as palmas das mãos no peito dele, absorvendo-lhe a batida forte do coração, sentindo-a nos pulsos, então, devagar, subiu as mãos e apoiou-as nos ombros, segurando-se, pois tinhas as pernas trêmulas. Rouco, ele murmurou: – Ai, Deus. – Puxou-a para perto, aprofundou o beijo com franco desejo, separando-lhe os lábios para a doçura molhada da boca receber-lhe o ardor da língua. Natasha cedeu. Alex acariciava-lhe com os lábios a testa, os olhos e as faces afogueadas, afastando o cabelo para alcançar a sensível cavidade abaixo da orelha, com a língua. Emoldurou-lhe então o rosto na mão, tomou-lhe outra vez a boca, num longo e sensual beijo, desceu os lábios devagar pelo pescoço e moveu-os devagar pelas suaves curvas dos ombros nus. Natasha sentiu-o soltar o gancho do vestido, baixar o zíper e deslizá-lo o suficiente para expor os seios aos seus olhos famintos. Com olhos fechados, recostou-se no braço dele, a respiração irregular, sentindo-o acariciar-lhe os seios, enquanto a língua circulava e excitava-lhe os intumescidos mamilos, gerando um prazer tão agudo que quase doía. Jamais imaginara ser possível sentir-se assim, ter o corpo dissolvido sob a força do próprio desejo. Bocas ainda travadas, Alex ergueu-a nos braços e levou-a para o quarto, estendendo-a na cama numa confusão de tafetá preto, e deitou-se ao lado. Beijou-a, a língua movendo-se sedutora contra a dela, suspendeu-lhe a saia com a mão, acariciou-lhe o joelho e subiu-a, as pontas dos dedos deslizando pela suave, vulnerável, carne dentro das coxas, incitando-a a separá-las para ele. Natasha encaminhava-se devagar e inexoravelmente para o limite. Sabia e temia, de repente consciente que desta vez seria muito diferente. Ele não lhe pedia a simples rendição do corpo, mas o total abandono da vontade e sentidos. Tentou dizer “não”, mas apenas arquejou e suspirou quando Alex afastou-lhe a barreira da calcinha, para descobrir, com um baixo murmúrio de satisfação, a realidade de sua derretida, escaldante excitação. O prazer a que ele se referira se achava ali e então, no movimento voluptuoso, prolongado, de seus dedos na carne secreta dela, explorando-a, acariciando-a, tentando-a, em busca de uma resposta que Natasha viu-se impotente para negar. Alex beijava-lhe os seios mais uma vez, tomando cada bico entre os lábios e sugando-os com deliberado erotismo, cada toque da língua perfurando-a com renovado deleite, provocando-lhe pequenos espasmos trêmulos. Ao mesmo tempo, tornava-se mais aventureiro, explorando-a mais profundamente, e enfiou-lhe os dedos no molhado calor, com deliberada intenção sensual. Ela gemeu baixinho, e ele lhe retomou os lábios com os seus, carentes. Exigentes. Os últimos vestígios de controle abandonavam-na; frenética, contorcia o corpo em busca do desconhecido, consciente apenas da boca possuindo a sua e do sutil impulso daqueles dedos impelindoa ao extremo. E quando ergueu o corpo num arco de puro abandono, ouviu-se arquejar, rouca: – Alex... ai, Deus... Alex…


Atingiu então o ápice, e todo o corpo fragmentou-se em seguidos espasmos de ingovernável prazer. Depois, recuperada alguma sanidade, percebeu que chorava... algo que não previra... e Alex abraçoua, apertado, proferindo murmúrios calmantes. Em seguida, ele baixou o zíper, retirou-lhe o vestido e também se despiu, jogando as roupas no chão. Retornou a ela, agora pele contra pele, e recomeçou a beijá-la e acariciá-la, explorando-lhe cada detalhe do corpo nu com as pontas dos dedos. Desejava-o, compreendeu ela, chocada, ao sentir de repente a dureza da ereção pressionando-lhe o ápice das coxas, e o corpo enrijeceu-se, feroz, quase desesperado, com a necessidade de tê-lo de novo dentro de si. Colou-se ao corpo dele, buscando-lhe com as mãos a essencial virilidade. Então, dominada pelo instinto, tomou-lhe o membro, acariciando a urgente reação com dedos que se tornaram cada vez mais confiantes, encorajados pelos baixos gemidos de prazer do amante. – Espere – sussurrou ele, trêmulo, afastando-se para pegar na gaveta ao lado o preservativo e envolvendo-o com destreza. Ao retornar, abraçou-a, beijou-a novamente, com visível desejo, antes de murmurar, com a voz rouca: – Receba-me, minha adorada. Deslizou-lhe as mãos sob as coxas flexíveis, ergueu-a um pouco, e ela gemeu quando a fez guiá-lo dentro das profundidades famintas e sentiu-lhe a força vital preenchê-la... tornando-os apenas um. Alex parou e comentou, com a voz instável: – Ai, Christos, você é tão deliciosa, como sempre sonhei e imaginei… – Pôs-se a mover devagar dentro dela, como se controlasse as próprias necessidades em favor das dela. – Se doer outra vez, diga. – E você vai parar? Ela tentava convencer-se de que era impossível sentir-se mais uma vez e tão rápido dissolvida nele – Vou. Se você quiser. Quer? Natasha respondeu agarrando-lhe o pescoço e puxando-o para beijá-la, e ergueu as pernas, enroscou-as no quadril dele, pedindo-lhe uma penetração mais profunda. A reação foi instantânea, quase explosiva, quando ele adentrou-a, sem se conter. Num novo e excitante ritmo, arrebatou-a consigo numa onda crescente de ardente prazer, obrigando-a a entregar-se totalmente, e possuindo-a de forma feroz. E quando levou-a à beira da última agonia, e logo às primeiras convulsões do clímax, ela gritou exultante e receosa, e ouviu-o balbuciar-lhe o nome quando estremeceu o corpo saciado dentro do dela. Depois, o silêncio. Apesar da palpitação e da euforia que persistiam em seu corpo, depois do prazer dado e recebido, Natasha começou a indagar-se. Era essa a perfeita fusão de alma e corpo que todos esperavam e sentiam durante o sexo? Quando tudo deixava de existir na terra ou no céu, exceto essa irresistível glória? O chamado “ato de amor”? Mas com Alex, a expressão muito mais correta seria “ato de luxúria”. Era o desempenho que a transformara irrevogavelmente na desejosa amante dele. Nada mais. Nada menos. Ainda assim, abalava-a a lembrança de seu próprio abandono. Ai, Deus, questionou-se. O que fiz? Enlouqueci. Mas preciso recuperar a sanidade. Não posso tornarme objeto de prazer dele. Se quiser sobreviver e partir quando ele terminar comigo, não. – Então – sussurrou ele, afastando-lhe o cabelo molhado do rosto. – Gosta mais de mim agora?


Ela se enrijeceu. – Não. Por que deveria? – Eu esperava... por causa da alegria que acabamos de partilhar – respondeu Alex. – Ah, quer congratulações pela técnica, talvez? Ora, parabéns! Você é a prova viva, kyrie, da perfeição sexual. É o que deseja ouvir? Alex encarou-a, incrédulo. – Não – respondeu, devagar. – Pelo contrário... pensei que nosso ato de amor criaria uma nova compreensão mútua. – Sorriu, entristecido. – No mínimo, sei agora como persuadi-la a chamar-me pelo meu primeiro nome. Ela corou, encabulada, à lembrança dessa específica circunstância. – Então pense melhor – aconselhou, friamente. – O que acabou de acontecer nada tem a ver com amor. E a única mudança entre nós é que agora o menosprezo quase tanto quanto o detesto. E jamais o perdoarei. – Pelo quê? Por mostrar-lhe como ser mulher com seu homem? – Você não é nem nunca será meu homem. É apenas um infortúnio temporário de que espero livrarme logo. Com isso, ele se levantou, entrou no banheiro e bateu a porta atrás de si. Natasha virou-se de lado e ficou imóvel. A tática dera certo. Depois pegou a camisola, vestiu-a, cobriu-se e apagou o abajur para tentar dormir, embora a mente continuasse desperta com perguntas que ela não entendia, e desconhecia as respostas. Porque, cada dia, cada hora que passava com Alex, sua confusão mental e emocional pareciam aumentar. Fugia do controle de maneira estranha e inquietante. Dissera as palavras certas. Não podia permitir-se a mínima tentação a enfraquecer, embora a assombrasse a desolação no rosto dele quando a deixara. Mas eu tinha de proteger-me, pensou. E ficou tensa quando o ouviu retornar ao quarto. Sentiu-o deitar-se ao lado, apagar o abajur, e esperou, com o coração martelando, que a tocasse. Mas não o fez. E Natasha percebeu que não haveria mais contato entre eles naquela noite... nem físico nem verbal. Quando arriscou um olhar, viu-o deitado de costas para ela, bem afastado e já adormecido. Também fechou os olhos, tentando ignorar a profunda dor sensual no íntimo, informando-a com indesejável ternura que, se Alex tornasse a tomá-la nos braços, ela o aceitaria mais que desejosa. Isso lhe tirou o sono e a fez cair em prantos. QUANDO ABRIU os olhos, de manhã, fez duas descobertas. O Selene movia-se e Alex partira, deixando-a sozinha na cama e sem saber dele. Sentou-se, imaginando quando navegaram... e onde ele estava. Pois não planejara assim o início do dia, fitando a escuridão com olhos doloridos. Claro que ela não poderia desculpar-se pelo que lhe dissera, porque teria de confessar que o atacara por pura autodefesa, caso ele indagasse por que fora tão agressiva. Mas nada a impediria… De aproximar-se dele na cama e oferecer uma silenciosa tentativa de desanuviar a situação com alguma reconciliação.


Só que Alex não se encontrava ali para ser persuadido a fazer amor. O fato de ter dormido sem uma palavra indicava o contínuo desgosto com ela, pensou, e saiu da cama. Ao entrar no banheiro, sentiu o leve perfume de sabonete e loção após a barba ainda perdurando no ar. Por um instante, viu-se de novo nos braços dele, e fechou os olhos, com o corpo aquecendo-se com a lembrança… Não, pensou tremendo. Isso não é verdade. Não está acontecendo comigo. Sentia-se… oprimida, derrubada pela incrível reação física a Alex quando a iniciara nos mistérios do sexo. Nada mais. Pois não podia querer um homem que lhe virara a vida do avesso com tão cruel cinismo. Que apenas três dias antes era um completo estranho. Mas seria verdade? Teria conseguido tirá-lo da mente desde aquela recepção na embaixada, três anos antes? Fora uma paixonite, afirmou desesperada. Eu mal passava de uma criança então, por Deus. E ele, mais velho, encantou-me, a atração totalmente sedutora do fruto proibido, pela inimizade das famílias. Mas a mantive viva de algum modo, alentei-a acompanhando todas as matérias com ele nos jornais, em páginas de negócios ou colunas de mexericos. De fato, se queria ser honesta, procurava-as, devorava tudo escrito sobre ele. Tentara terminar essa perigosa obsessão com o inimigo da família, porque ele não passava de um mulherengo, desprezível. Mas tivera de enfrentar a extraordinária sensação de que uma porta de repente se abrira para um mundo novo e diferente, e Alex ali a esperava, como de algum modo sempre soubera que a esperaria. Então, ao ver-me presa com ele naquele quarto, descobrindo o que significava pertencer-lhe na cama, percebi que precisava odiá-lo. Nossa, tentei odiá-lo. Mas descobri que nada mudara. Embora eu tivesse enterrado aqueles antigos sentimentos por ele, continuavam vivos, à espera apenas de ressurreição. Eu ainda o queria. E, pior, amava-o. Afundou no chão, ajoelhada, com os braços enlaçados defensivamente no corpo. Nunca incentivei mulher alguma a apaixonar-se por mim. Seria perda de tempo delas e meu. Palavras dele, portanto não poderia dizer que não fora avisada, pensou, atingida por uma dor tão feroz que ela quase chorou. Assim continuaria até o dia que ele lhe declarasse livre para partir. – Levando consigo o segredo de seus verdadeiros sentimentos – murmurou – escondido então... e para o resto da vida sem ele.


CAPÍTULO 10

O MEDO de ser descoberta chorando acabou por incentivá-la a se mover. Levantar-se e começar as preparações essenciais para tornar a enfrentá-lo. Tomou um banho rápido, pegou o biquíni jade, a bonita túnica que rejeitara na véspera e vestiu-os. Aprontando-se para… o prazer dele... pensou ironicamente. Aceitando o papel imposto, pois precisava acreditar que era melhor que nada. Escovou o cabelo solto, passou rímel nos cílios e um toque de batom coral nos lábios. Fortalecendose, subiu para o convés. Logo viu Mykonos tornando-se uma lembrança no horizonte. Nenhum sinal de Alex, tampouco. Ao parar hesitante, Kostas veio recebê-la. – Tomará o desjejum, thespinis? – Por favor. – Forçou-se a sorrir, quando viu a mesa sob o toldo posta apenas para um. – O senhor já comeu? – Horas atrás. Antes de desembarcar para ir a Atenas. – Então... não está a bordo? – Ela estabilizou a voz. – Foi embora? – Ne, thespinis. Tomou o primeiro avião de Mykonos. – Interrompeu-se, visivelmente envergonhado. – Não sabia? Ela conseguiu encolher os ombros. Até sorrir. – Sabia que retornaria a Atenas. Não entendi que seria tão logo. Nem que seria sem uma palavra de despedida… Lembrou as palavras dele na noite anterior: “Só a deixarei novamente quando tudo terminar entre nós.” E pensou, angustiada, que talvez nunca mais o visse. – Deseja café? – questionou Kostas. – Sim, por favor. – Natasha ergueu o queixo, resoluta. – Mais uma omelete com queijo e presunto, pãezinhos quentes, iogurte e frutas. Então dessa vez a agressão dela fora duradoura, pensou, sofrendo. Mas por que ele não a levara para o aeroporto e despachara-a? Afinal, muitos voos diretos deviam sair de Mykonos para a Inglaterra, dando a Alex a oportunidade de livrar-se dela.


A menos, claro, que quisesse puni-la mantendo-a ali, com o futuro em questão. Nesse caso, ele se superara... mas por outros motivos. Quando... se... retornasse, o verdadeiro castigo dela seria a necessidade de esconder-lhe os verdadeiros sentimentos. Recuperou o autocontrole, desintegrando-se, ao perceber Mac atravessar o convés na direção dela. – Bom dia, srta. Kirby – cumprimentou-a, mais cortês que cordial. Olhou o céu límpido. – Parece que teremos outro dia glorioso. – É. Vão trazer-me café. Aceita um pouco? – Ele hesitou, depois agradeceu e sentou-se. – Então, adeus a Mykonos – continuou Natasha. – Que pena. Queria tanto ver os famosos pelicanos. – Não faltarão oportunidades – afirmou ele quando Kostas surgiu com o café e um jarro de suco de laranja. – Assim que Alex tiver uma folga. – Sim. Talvez. – Ela hesitou. – Suponho que o rottweiler acompanhou-o. – Acompanhou-o, mas porque o velho preocupa-se com o filho. Natasha serviu-lhe uma xícara de café. – Tem motivo para fazê-lo? – Houve ameaças – respondeu laconicamente –, no passado. Ela interrogou com deliberada leveza: – Fora as vindas de maridos furiosos? – Com Alex? Moças casadas sempre foram proibidas para ele. – Posso saber aonde vamos? – Alex não lhe contou? A Alyssos. – Alyssos? – repetiu Natasha, com a mente dizendo-lhe que a escolha do destino talvez sugerisse que Alex não desapareceria. – Imagino que tenha ouvido falar. – Já – declarou ela, ainda perplexa. – Alguém que conheço passava temporadas lá. – Então deve ser riquíssimo. A ilha é um miniparaíso para milionários, o turismo estritamente desencorajado. Apenas duas agradáveis aldeias, bosques de oliveiras e poucas casas de pessoas abastadas, o pai de Alex entre elas. De fato, Alex nasceu lá. Tampouco lhe revelou isso? – Não. – Mas ela entendeu por que a ilha de repente tornara-se proibida para Thia Theodosia. – Achei que Alex era ateniense. – Talvez Alyssos não seja tão importante. Ele e o pai não passaram muito tempo lá nos últimos anos, embora Alex tenha feito um grande trabalho no lugar, como se planejasse usá-lo em algum momento da vida. – Ele sorriu. – Talvez pretenda fazer-lhe uma surpresa. – É. Ele é bom em surpresas. Deu-lhe outras instruções... sobre mim? – Não. – Refletindo, tomou um gole do café. – Espera que todos lhe proporcionem conforto, e ouso dizer que pretendo impedi-la de cair no mar, vendo que não sabe nadar… – Não sei nadar? O que lhe deu tal ideia? – Imaginei. Afinal, não a vi perto da piscina desde que embarcou. – Ao contrário de outras companhias de Alex? – perguntou friamente, e viu-o corar. – Trata-se de uma referência à famosa festa de aniversário? Significa que não é a única a quem preciso desfazer o equívoco, srta. Kirby. Natasha ergueu o queixo. – Alex não estava na piscina naquela noite com seis garotas nuas?


– Por alguns instantes, sim... depois que o empurraram todo vestido. Mas ele adivinhou que era uma armação antes de elas se desnudarem e mergulharem. Alex tirou apenas o paletó do smoking e saiu da água antes de se aproximarem dele. As garotas foram retiradas, as roupas entregues, e elas desembarcadas em Rodes. Tudo acabou em minutos. Muitos convidados sequer souberam do ocorrido, até a líder do grupo decidir promover-se na imprensa marrom. – Mas por que ele não divulgou um desmentido? Contou o que realmente aconteceu? – Talvez tenha orgulho e julgou abaixo de sua dignidade tomar conhecimento daquele lixo – retorquiu o capitão. – Logo, você devia perceber que ele simplesmente não tolera coisas assim. – Ou não tão públicas. – De modo algum. – O tom foi incisivo. – Acha mesmo que ele insultaria os amigos, as esposas e companheiras... Linda, minha noiva entre elas... com esse comportamento? Em hipótese alguma, sobretudo na piscina do Selene – acrescentou secamente. – Por quê? – É uma piscina de água do mar, salgada. Nada propícia para esse tipo de traquinagens. – Oh. – Natasha corou. – Não me ocorreu. – Foi o que deduzi. Perdoe-me a indiscrição, mas não consigo entendê-la. Vive aqui com Alex, mas parece não ter um pensamento bom sobre ele. Quer a verdade? pensou Natasha, em muda angústia. Que nos últimos três anos houve ocasiões em que ele foi meu único pensamento, bom ou ruim? Que acabei de compreender que o amo? Amo-o contra minha vontade, princípios, e ficar sem ele agora parece uma amputação? Em voz alta, comentou: – Apesar da festa, a reputação de playboy dele dificilmente é um segredo. – Sim, Alex gosta de relaxar em companhia feminina. É solteiro, tem o direito de divertir-se. Mas é lamentável não mencionar-se com tanta frequência o fato de ele trabalhar como um mouro. – É muito leal ao seu empregador, capitão. – Alex não é só chefe, mas um bom amigo de tempos atrás, e ajudou muito minha família. – Como vocês se conheceram? – A Mandrakis Corporation tem grandes participações no comércio vinicultor de Oz. Meu pai administra um dos vinhedos, e Alex hospedava-se conosco quando ele era muito mais jovem, para entender do assunto. Sorriu, saudoso. – Tenho três irmãs e um irmão caçula, portanto foi o primeiro contato dele com a vida familiar desse porte. A mãe morreu quando Alex tinha 6 anos e o pai continuou viúvo. E ele, filho único e muito retraído. Mas mamãe é um gênio com crianças tímidas e logo lhe tirou da concha. Natasha comoveu-se com a ideia de um menino retraído e solitário encontrando aconchego com estranhos no outro lado do mundo. – Quando regressou à Grécia não esperávamos tornar a vê-lo. Mas nos enganamos. Ele se tornou um visitante assíduo. Acho que o alegrava ter um lugar para onde escapar das tensões em casa. Ela hesitou. – Então sabe da rixa entre as famílias? – Em parte. Certamente compreendia o quanto Alex odiava-a e queria desesperadamente que acabasse. – Ele ergueu as sobrancelhas. – Como você descobriu isso?


– Morei em Atenas por algum tempo. – Aliviou-a o capitão desconhecer a ligação real entre eles e como ela viera ficar com Alex. – Onde, claro, todos sabiam. Menos o que desencadeou a briga. Alex já falou disso? – Não a mim. Concluí que se tratava de um assunto tabu. Mas, se o confiasse a alguém, imagino que teria sido à minha mãe. E ela é totalmente discreta, além de adorá-lo pelo que fez por Eddie, meu irmão caçula, o cérebro da família. Foi para a universidade, ia formar-se com louvor, quando pôs tudo a perder. – Como? – indagou ela. – É uma longa história, mas Eddie juntou-se a uma turma pesada em Londres, terminou envolvido com drogas e em dívida com pessoas sórdidas. Alex percebeu o que acontecia e resgatou-o. Pagou as dívidas, internou-o para reabilitação e passou-lhe o sermão do século. Em consequência, ele agora está limpo e formou-se com respeitável resultado. Também ajudou a Alex, que se achava péssimo na época após o fim desastroso de um namoro, correndo riscos estúpidos com carros e lanchas velozes, como se não se importasse em viver ou morrer. Ed deu-lhe outra coisa para se preocupar, em vez de uma garota idiota que não soube valorizar o que tinha. Mas isso é passado. Tudo esquecido agora. Olhou além dela. – Aí vem seu desjejum, e a deixarei para comê-lo em paz. Paz, pensou Natasha, forçando-se a comer a deliciosa omelete como se ainda lhe restasse apetite após saber que Alex quase se destruíra pelo fracassado caso de amor. Isso explicava por que, talvez, se dispusesse a aceitar o casamento arranjado por Stavros e Andonis. Refrescara-lhe a lembrança de uma garota que vira por alguns minutos no outro lado de uma sala, e que poderia revelar-se uma parceira adequada num casamento de conveniência, pensou ela, pesarosa. Encarara-o como um cínico contrato comercial, sem amor a dar, nem receber, a única vantagem sendo um meio de terminar aquela prejudicial e perigosa inimizade. A ideia incentivou-o a rever a noiva em potencial, raciocinou ela, apenas para certificar-se de que tinha um rosto que suportaria ver no travesseiro contíguo naquelas raras noites que passava em casa, para não onerar demais o ocasional desempenho dos deveres conjugais. A conivência do venal Stelios levara-o à velada visita noturna. Ainda assim, afirmou para si mesma, ele correra um enorme risco. Precisava concentrar-se, pensou ela meio desesperada. E talvez fosse a hora de uma excursão tardia ao Selene... uma opção melhor do que ficar ruminando na suíte. “Meu verdadeiro lar”, pronunciara Alex, e talvez isso a fizesse conhecer mais a outra identidade dele que lhe revelavam aos poucos. Um homem considerado “bom amigo”, que fizera um grande esforço em nome da amizade, ao contrário do playboy indiferente das matérias impressas. Amante cuja indubitável habilidade harmonizara-se com comovente ternura. E um homem que amara a ponto do desespero, sem ser correspondido. “Talvez você o ache mais bondoso do que pensa.” Palavras de Thia Theodosia, descartadas então, mas que agora lhe aguilhoavam a memória. Quando terminou o desjejum, procurou Mac na ponte. – Será? – questionou timidamente – que poderia dispensar alguém para mostrar-me o barco? Ele se levantou da cadeira. – Não precisa, srta. Kirby. – Sorria-lhe mais afetuoso. – É um prazer acompanhá-la.


Partiram do principal convés para o imenso salão, usado, explicou o capitão, sobretudo para entretenimento, com as graciosas colunas estriadas suportando o teto com cornijas e a formal sala de jantar anexa, onde se via uma comprida mesa polida sob o elaborado candelabro. Passaram para a sala de conferência, ao lado do escritório particular de Alex, único lugar ao qual não lhe era permitido entrar. – É trancado, de qualquer maneira – informou ele. Natasha arquejou ao ver o cinema pequeno, mas confortável, e pasmou-se quando percebeu que outra sala fora equipada como uma área de recreação infantil. – Muitos amigos de Alex têm filhos – explicou Mac ao vê-la arregalar os olhos, incrédula. – Ele é padrinho de vários. E às vezes convida as famílias dos contatos comerciais também. Acredita que isso cria uma atmosfera mais relaxada fora das horas de trabalho, ao final das reuniões. As cabines e os banheiros foram projetados individualmente e as acomodações da tripulação eram primorosas, enquanto as cozinhas, onde a saudou Yannis, o sorridente chef, tinha um imaculado e eficiente deslumbre de aço inoxidável. Uma hora depois, sentados à piscina, tomando limonada gelada que Kostas trouxera, Mac interrogou: – Então, que acha? Natasha inspirou fundo. – Impressionante. E também surpreendentemente lindo. Um palácio flutuante. – Mas não bem um lar, pensou. Hesitou. – É estranho que o pai dele continue viúvo. Era de imaginar que se casasse outra vez e proporcionasse ao filho uma família mais estável, irmãos e irmãs. – Bem, Kyrios Petros não goza de excelente saúde. Anos atrás se envolveu num terrível acidente de carro e saiu muito machucado. Submeteu-se a algumas operações desde então, sobretudo na coluna, mas ainda anda com bengala. – Oh. Eu não sabia. Era a pura verdade. Na Vila Demeter, sempre se representara Petros Mandrakis, o odiado rival de Basilis, como o diabo encarnado, o inimigo forte e onipotente. – Alex não fala muito a respeito – informou Mac. – Mas foi por isso que convenceu o pai a deixá-lo assumir as empresas antes do que desejava, para dar-lhe uma chance de descansar e tratar-se. – Deve ser preocupante para Alex. – Claro. Ele e o pai tornaram-se muito unidos nos últimos anos. Se o bando de Papadimos quiser continuar a briga, enfrentará uma verdadeira luta. – É. Sem dúvida. – Ela inspirou fundo e sorriu-lhe. – Você mencionou antes que era noivo. Fale-me dela. Alegrou-o visivelmente fazê-lo, mostrando a foto de uma bonita morena sorridente, de olhos francos. – Pretendemos nos casar ano que vem e nos estabelecermos em Oz. – Vai abandonar o mar? – Ora, não. Planejamos abrir nosso próprio serviço de aluguel de barco. Sentirei falta do Selene, mas nada garante que circulará por muito tempo... se Alex decidir satisfazer o pai e também assentar-se, assim que aparecer uma herdeira adequada. – Isso é provável? – Inevitável, eu diria. Kyrios Petros quer perpetuar a dinastia, e agora que Alex comanda o império, terá menos tempo para...


– Diversões como eu? – sugeriu Natasha. – Tudo bem – acrescentou, quando ele enrubesceu. – Não tenho ilusões sobre meu lugar temporário na vida dele. Então, quando chegaremos a Alyssos? – No meio da tarde. – Aproveitou, aliviado, a mudança de assunto. – Josefina já começou a fazer as malas. E também desembarcará com você. Assim terá um rosto conhecido ao lado desde o primeiro dia. – Ela não se importa? – Longe disso. É uma volta ao lar, pois o pai, Zeno, trabalha como mordomo na vila, e a mãe, Toula, como governanta. Alex cuidou para que cuidem bem da senhorita. Mac desculpou-se, então, e retornou à ponte. Natasha sentou-se, perdida em pensamentos, ideias, perguntas, impressões e trechos de conversa colidindo uns com os outros na mente. Todos dominados... assombrados... pela perspectiva de Alex, o filho obediente, o marido e o pai. E só esperava que quando... o inevitável, o insuportável... acontecesse, alguma misericordiosa providência garantisse que ela já houvesse partido e estivesse bem longe.


CAPÍTULO 11

A PEQUENA praia embaixo da casa em Alyssos era apenas uma meia-lua de areia clara inclinada suavemente para o Egeu, reduzida ainda mais por um grande hangar de barcos e um cais de madeira num dos lados, que se tornara o refúgio escolhido por Natasha nos longos dias passados à espera de Alex. Não era a única, pensou. Toda a família parecia agitar-se na expectativa da chegada do amo. Na ausência dele, sentira-se encurralada entre inquietação e solidão, durante um dia escaldante após o outro. E as noites eram piores ao deitar-se na escuridão, tensa e trêmula da necessidade que só Alex podia satisfazer. Zeno, pai de Josefina, homem alto, grisalho, cuja atitude em tudo era correta, mas reservada, e reproduzida pela rechonchuda e irrequieta esposa. Além disso, quase não falavam inglês, mas a animação descomplicada da filha alegrava-a. E Natasha reconhecia que a comida e o serviço na vila eram impecáveis. Ainda assim... E quando Natasha, intrigada, indagou a Josefina se não a esperavam ali, a jovem grega admitiu, meio encabulada, que os pais sempre acreditaram que a primeira moça que Kyrios Alexandros trouxesse àquele lar seria sua noiva. E entendeu por que Thia Theodosia amava a placidez de Alyssos, pois sempre desconfiara que a mãe adotiva achasse opressivo o ruído e o tumulto de Atenas. Teve a breve ideia de perguntar a Zeno onde ficava a casa de madame Papadimos, mas logo desistiu. Era um homem de Mandrakis, qualquer menção ao nome Papadimos seria brandir um pano vermelho diante de um touro. Decidiu, então, entrar em contato com Molly para saber como iam os negócios e assegurar-lhe que logo voltaria. Tentar retomar algo próximo da normalidade, pensou, preparando-se para o retorno a Londres e ao mundo real. Mas o acesso ao telefone ou ao computador fora-lhe educadamente negado, pois cabia apenas a Kyrios Alexandros satisfazê-lo. A recusa deixou-a sentindo-se uma prisioneira, mas ela não podia fingir que era uma total infeliz naquele ambiente.


Deitava-se à beira do Egeu, as marolas deslizando-se delicadas pelo corpo, com peixinhos precipitando-se destemidos pelas folhagens ao redor. Podia, pensou, ser o paraíso. Se apenas… A Vila Elena, batizada, segundo Josefina, com o nome da falecida mãe de Kyrios Alexandros, consistia em uma grande mansão branca de um único andar, com telhado verde. Suavizavam-lhe as linhas de buganvílias fúcsias e roxas espalhadas pelas paredes. Duas maciças alas projetavam-se como braços fortes estendidos para o mar, uma contendo a opulenta acomodação residencial e a outra, as cozinhas, despensas e alojamentos dos empregados. Os pisos de mármores, a decoração, o mobiliário elegante e moderno, fora os sofás acolchoados e confortáveis, as poltronas no saloni, tudo fora projetado pelo próprio Kyrios Alexandros, segundo Josefina. Nos gramados dos jardins, destacava-se uma piscina de água doce, circundada por um terraço para banho de sol com cabines para trocar-se, e isoladas por altas cercas de hibisco. Natasha julgou-a meio suntuosa para uso solitário e preferia a simples privacidade da praia, a 200 metros. Estabelecido isso, mãos invisíveis instalavam-lhe uma espreguiçadeira e guarda-sol toda manhã, com uma geladeira contendo água engarrafada. Via-se um barquinho atracado no cais e além, na baía, um velho caiaque marrom balançava ancorado com as velas recolhidas. O Selene, porém, partira assim que Natasha desembarcara, levando Mac, a única pessoa sabedora dos planos de Alex. Agora, após aplicar protetor solar na pele exposta e estender-se na espreguiçadeira para outro dia solitário, questionava-se mais uma vez por que e onde fora o iate. Não buscar Alex, pois, segundo a útil Josefina, ele chegava ali de helicóptero. De que lhe adiantava fingir que não vivia para o momento em que tornasse a vê-lo? Alex não parecia partilhar-lhe os sentimentos, pois ela já passara dez dias sem uma palavra dele. E o orgulho impedia-lhe de perguntar se alguém sabia quando chegaria. Se e quando retornasse, decerto a encontraria à beira de um colapso nervoso, pensou ironicamente, e parou ao ouvir ao longe o inconfundível barulho de helicóptero aproximar-se. Sentou-se, de repente, com um livro no colo, retirado da caixa que Mac desembarcara com ela, protegendo os olhos ao erguê-los, tentando ver de onde vinha. Talvez não fosse Alex, lembrou-se. Outros milionários em Alyssos usavam helicópteros. Mas apesar do calor, ela tremia de emoção, desejo e... medo. O helicóptero surgiu, sobrevoando baixo acima do promontório anexo, depois virando para o interior. Natasha fitou o livro sem lê-lo, dizendo-se que não ergueria os olhos. Nem se levantaria para ir até a casa. Esperaria que ele mandasse chamá-la. Acabou sendo uma longa espera, grande parte passada no mar, tentando aliviar a tensão e frustração nadando sem parar. No fim, a chamada veio apenas da distante batida do gongo com o qual Zeno anunciava as refeições. Ela amarrou o sarongue sobre o biquíni molhado, depois correu os dedos pelo cabelo emaranhado, salgado, para desprendê-lo. Tomou então a trilha para a vila. No terraço, viu que a mesa fora posta como sempre sob o toldo fora do saloni, mas apenas para um. Zeno cruzou as portas de vidro com uma garrafa d’água e um prato de salada. Natasha não aguentou mais, dizendo:


– Achei que Kyrios Mandrakis estaria aqui. – Ele tem uma reunião de negócios e almoça na sala de jantar com os convidados. Almoçou sozinha e alegrou-se por Alex não querer mais exibir a amante troféu aos visitantes. Quando trouxe o café, Zeno pôs um envelope na mesa ao lado da xícara e retirou-se. Chocada, interrogou-se o que era aquilo, uma bolha de histeria avolumando-se. Demissão? Aviso-prévio? Mas constatou ser um envelope com seu nome na nítida caligrafia de Molly. Abriu-o e começou a ler a carta. Nat, querida Lamento informá-la disso, quando sei de todos os seus problemas, mas não me resta opção, pois minha vida vai mudar imensamente. Craig recebeu uma oferta maravilhosa de trabalho em Seattle e quer antecipar o casamento para eu me mudar como sua esposa. Claro que também quero, embora não o esperasse. Achei que ficaríamos na Inglaterra e a vida continuaria como sempre. Mas preciso saber quais são seus planos. Pois, do nada, fizeram-nos uma excelente oferta da Home Service para comprar a Helping Out, que nas circunstâncias... você na Grécia, eu nos EUA... devíamos considerar. O número mencionado fez Natasha arquejar antes de continuar. Planejei escrever-lhe para Atenas, mas seu adorável advogado grego, sr. Stanopoulos, comunicoume que você está viajando e fará a carta ser-lhe entregue. Ele também acha que a oferta da Home Service é irrecusável. Espero que isso tudo não lhe cause um choque horrível, quando você já teve de enfrentar a liquidação das empresas marítimas. Diga-me o que acha e também se está tudo bem com você. Apesar das garantias do sr. Stanopoulos, começo a preocupar-me. E logo vou precisar de uma dama de honra também. De Molly, com amor. Natasha releu tudo, sentindo-se confusa, depois veio uma desconfiança próxima à raiva. Não da amiga. Ela e Craig foram feitos um para o outro, portanto desejava-lhes apenas felicidade eterna. Mas a oferta de compra da Home Service era outra questão. Toda minha vida... simplesmente transferida para outra empresa. Porque propusera ao advogado, pensou furiosa, que agisse em seu nome. Permitira que isso acontecesse, e agora voltaria para casa sem trabalho, um apartamento vazio e um futuro incerto para acrescentar à inevitável desolação de ser a amante descartada de Alex. Bem, isso não iria acontecer. Precisava ter algo para compensar o desespero de amor e perda. Minha empresa, pensou ela, descontrolada, empurrando a cadeira e levantando-se, a carta na mão. Meu sustento e futuro… Avançou casa adentro, direto para a sala de jantar. Iorgos, parado na porta como fiel sentinela, olhou-a, alarmado.


– Kyrios Mandrakis não quer ser incomodado, thespinis. – Bruto – falou Natasha, e mergulhou sob o braço destinado a barrar-lhe a passagem. Abriu a porta e entrou, fazendo seis cabeças girarem para olhá-la em muda perplexidade. Então, ao notarem o corpo de biquíni sob o fino sarongue, ela viu os sorrisos e os divertidos murmúrios de “Po, po, po” de todos, menos de Ari Stanopoulos, o semblante angustiado, e de Alex, sem expressão alguma. Ele se levantou e os outros fizeram o mesmo. – Natasha. Estou em uma reunião de negócios. – E eu também tenho negócios a discutir. – Encarou-o, com o queixo empinado, olhos faiscantes, quando atirou a carta na mesa diante dele. – Quero que você e seu advogado entendam que não vou vender minha empresa. Fui clara? – Isso é algo que precisamos conversar em particular – argumentou Alex, calmamente. – Queiram desculpar-me por alguns minutos, senhores. Pegou a carta antes de contornar a mesa até Natasha. Segurou-lhe o ombro e impeliu-a para fora da sala. Atravessou o corredor e entrou no escritório com ela, batendo a porta atrás. – Então – disse com severidade –, vejo que continua tentando testar minha paciência. Que há de tão urgente nessa carta para perturbar uma reunião importante? Invadi-la seminua como uma louca? Ela o desafiou. – Você nunca pareceu irritar-se com a roupa sumária que uso. Quanto menos, melhor, de fato. – Sim... quando sozinhos, mas não numa conferência com homens. Percebe o que imaginam que estamos fazendo agora? Não percamos mais tempo. – Leu por alto a carta, enrijecendo a boca. – Pedem-lhe que pense numa generosa oferta para comprar sua empresa. Qual é o problema? – Nenhum – respondeu ela –, porque não vou vendê-la. – Talvez não seja simples assim. – Não me diga que seu advogado concordou com isso em minha ausência. – Não, não concordou. – Ele fez uma pausa. – Kyria Blake é apenas uma amiga que trabalha para você e divide seu apartamento? – Claro que não. Molly é sócia igualitária na empresa. – Natasha deu um soco na mesa. – Ah, se eu estivesse em Londres, nada disso teria acontecido. – Está sendo irracional. Conseguiria impedir o noivo de aceitar um emprego no outro lado do mundo, convencê-la a não o acompanhar? Acho que não. O que acontecerá quando a sociedade terminar? – Comecei a empresa sozinha – afirmou Natasha. – Posso dirigi-la sozinha no futuro. – Pode? E os desejos de Kyria Blake? Ela logo respondeu: – Molly tampouco quer vendê-la. – Tem tanta certeza? – Alex examinou a carta, sorrindo. – Sejamos práticos. Se você recusar essa oferta, Natasha, pode comprar a parte dela? São cinquenta por cento do valor de mercado da empresa. – Molly não faria isso. – Então é louca ou santa – rebateu Alex, sarcasticamente. – E o futuro marido talvez tenha outra opinião, ache que o trabalho dela merece justa recompensa. – Claro, e cuidarei disso. Pegarei um empréstimo no banco para pagar-lhe a metade.


– Como seus irmãos tentaram com muito melhor garantia? Duvido – acrescentou, seco. – A menos que pretenda oferecer de novo seu encantador corpo como parte do contrato. Mas a maioria dos bancos prefere pagamento em dinheiro. Um rubor angustiado inundou-lhe o rosto. Ela protestou, com a voz rouca: – Que coisa... tão injusta. – Você, não eu, insistiu nesta conversa – declarou Alex. – Talvez não esteja disposto a ser justo. – Devolveu-lhe a carta. – Quando acalmar-se, pense melhor, e deixe a cabeça dominar o coração quando tomar a decisão. Agora preciso retornar à reunião. Ao passar por ela, parou de repente, virou-se e tomou-lhe os ombros. Abraçou-a e baixou a boca com força em direção à dela, num beijo parecendo conter mais raiva que ternura ou paixão. Por um infindável instante, Natasha não conseguiu pensar... respirar. Depois, com igual brusquidão, ele a soltou e afastou-se. Então era por esse momento que ansiara, pensou, tremendo. Estar nos braços de Alex novamente. Sentir-lhe a boca na sua. Mas não fora como sonhara... planejara. E cometera realmente um erro tão grave ao interromper-lhe a reunião vestida assim? Alex não compreendia o fato de que a melhor amiga ia embora, deixando-a sozinha quando mais precisava de ajuda e apoio? A ele interessava apenas seu corpo, não os sentimentos. E ficou claro que não perdoara nem esquecera a separação anterior dos dois. Bem, à noite, quando ficassem a sós, ela poderia reparar o mal nos braços dele, oferecendo-lhe, sem reserva, a reação física que Alex exigia-lhe. Ao mesmo tempo, sem o deixar perceber, sequer um instante, seus verdadeiros sentimentos por ele. E soube que essa seria a maior dificuldade a enfrentar. Amar... dar-se... e calar-se.


CAPÍTULO 12

ESCREVER A Molly não foi nada fácil. Mas após inúmeros inícios, durante uma tarde infindável, conseguiu uma versão que parecia positiva, até animada, sobre a venda à Home Service e isso, às escondidas, com todo seu futuro incerto, ficou apavorada. “Então nossa vida terá um novo recomeço”, terminou. “Com minha parte, poderei ir aonde quiser e fazer algo completamente diferente, se me agradar. Não é uma grande emoção?” Acrescentou: “E farei questão de voltar com tempo de sobra para seu grande dia.” Assinou-a “com amor”, dobrou-a e enfioua no envelope, deixado aberto. A certa altura, ouvira o helicóptero decolar, com certeza para transportar os visitantes de Alex de volta ao lugar de onde vieram, e perguntou-se, de repente desanimada, se ele também partira. Não havia mais certezas, pensou, levando um lamentável dedo aos lábios e imaginando se naquele breve e veemente contato, duas horas antes, ele lhe dera o beijo de despedida. À tardinha, Josefina entrou pela porta, animada com a volta do amo, e louca para ajudá-la a escolher algo glamouroso para recebê-lo, provando que ele não partira, afinal. Natasha decepcionou a jovem, no entanto, dispensando-a gentilmente, mas firme. Ia aprontar-se sozinha, para ser despida depois, pensou, estremecendo de expectativa e receio. Já escolhera um vestido simples verde-escuro, sem mangas, cuja leve saia curta colava-se nas curvas, realçando-as. Após aquela reunião arruinada, precisava caprichar; secou o cabelo numa nuvem sedosa derramada sobre os ombros, como Alex gostava. Perfumou-se, maquiou-se, acentuando a boca com batom coralclaro. Então, inspirando fundo, foi procurá-lo. Encontrou-o no saloni com Stanopoulos, conversando e tomando ouzo. Sério, olhou-a aproximar-se, examinando-lhe o corpo com uma franqueza que não tentou ocultar. Se não fosse a presença do outro, ela talvez cometesse um grave erro de autotraição... Como sussurrar irrefletidamente “S’agapo... eu o amo”, nos lábios de Alex. Mas conseguiu dizer sorrindo: – Ficará aliviado, kyrie, o bom senso enfim prevaleceu – e entregou-lhe o envelope aberto. Ele ergueu as sobrancelhas com leve ironia.


– Quer mesmo que eu leia? – Aceitei seu conselho. Nada tem de secreto. Alex leu-a inteira, impassível. – Deseja que Ari represente-a na transação? – Seria melhor. – Prepararei a procuração necessária. – Stanopoulos olhou-a, amável. – Que decisão difícil você tomou, Kyria Kirby. Natasha enrubesceu, lembrando da invasão tempestuosa na reunião. – Não. Fiquei abalada a princípio. Mas também recebi uma oferta irrecusável. Fez-se silêncio. Ela viu Alex comprimir um momento os lábios, mas pronunciou com fria gentileza: – Aceita uma bebida? – Obrigada. Suco de laranja seria bom. Natasha pegou o copo, sentou-se num dos sofás, pegou uma revista e fingiu lê-la, examinando Alex sob as pestanas. De calça de algodão acentuando-lhe as pernas compridas e o quadril estreito, expunha o bronzeado na camisa de mangas curtas. Ela sentiu o coração acelerar só de olhá-lo. Talvez à noite, pensou extasiada, mudasse tudo o despindo, antes de realizar todas as fantasias que a mantiveram acordada na ausência dele. Minha vez, falou para si mesma, de desculpar-me... Quando serviram o jantar, Natasha, nervosíssima, atrapalhara-se com os talheres, quase derrubara a taça de vinho, forçara-se a comer apesar da comida deliciosa, e pouco contribuíra para a conversa. Ao café, Stanopoulos indagava-lhe o que achara da ilha. – O que vi é lindo. – Conseguiu sorrir. – Mas passo quase o tempo todo na praia. – Agora tudo mudará. Alex conhece Alyssos desde a infância. Melhor guia, impossível. – Dirigiu-se a Alex. – Precisa levar Kyria Kirby às montanhas, meu amigo. – Claro. Voltei para isso. Após um silêncio constrangedor, Natasha levantou-se, com o café na mão, e comentou. – Sei que precisam conversar, por isso tomarei o café no saloni. Os dois deixaram a sala de jantar apenas para continuar a reunião e fecharam a porta. Outra vez sozinha, ela tentou ler, ouvir música, ver televisão, mas não conseguiu concentrar-se em nada. Passada mais de uma hora e meia, cansou-se e foi para o quarto. Ali, encontrou como sempre os abajures acesos e a camisola na cama. Tornou a guardá-la na gaveta, despiu-se e deitou-se, cobrindo com o lençol o corpo nu até os ombros. Apagou as luzes e esperou. Pouco depois, sentiu a mente começar a vagar e as pálpebras pesadas, e precisou forçar-se a não adormecer. Esse não era, de modo algum, o plano, pensou com leve atordoamento. A conversa dos dois não podia durar muito mais. QUANDO TORNOU a abrir os olhos, o quarto banhava-se em luz solar. Josefina entrara antes para acordá-la, pois havia uma bandeja de café frio na mesinha de cabeceira. E também o agitado barulho de um helicóptero partindo trouxe-a de volta à dura realidade.


Sentou-se de repente, com o coração martelando, uma voz dentro de si murmurando: ai, não. Por favor... não. Então se levantou da cama, vestiu-se e saiu. Encontrou Zeno no terraço, retirando xícaras e pratos usados de uma mesa. – Aceita o desjejum, thespinis? – Não tenho fome, obrigada. – Empertigou os ombros. – Ouvi o helicóptero. Kyrios Mandrakis voltou para Atenas? Ele a olhou, estupefato. – Não, thespinis. Trabalhando. É Kyrios Stanopoulos quem parte. – Ah... entendo. Exigiu-lhe supremo esforço manter a voz natural, disfarçar a absoluta alegria e alívio da notícia. Preciso vê-lo, proferiu para si mesma. Foi direto ao gabinete, bateu na porta e entrou após o tranquilo chamado de Alex. – Kalimera. – Ele fez uma anotação na margem do documento que lia. – Queria falar com Ari? Lamento, mas ele já partiu. – Por que ia querer isso? Alex encolheu os ombros. – Achei que tivesse outras mensagens mais pessoais para ele enviar a Londres, além da carta. Mas parece que não. – Uma pausa. – Dormiu bem? – Não, demorei a adormecer. – Ela inspirou fundo. – Sabe, fiquei acordada, à sua espera. – Sinto-me lisonjeado. – Mas agora não sei por que ainda estou aqui – continuou ela, corajosa. – Por que não me despachou com o advogado... se não me quer mais. – Eu não disse isso. – Então o que foi? Continua furioso por eu ter interrompido a reunião ontem? – Não. – Alex largou a caneta e recostou-se. – Talvez eu exija, Natasha mou, alguma prova de que você me quer. – Não entendo... – Você sabia onde encontrar-me ontem à noite. Apesar de achar difícil adormecer, preferiu permanecer sozinha. – Você esperava... queria... que o procurasse? Suplicasse? Eu não podia – acrescentou, mordendo o lábio. – Então dormirmos sozinhos se tornará um hábito para ambos. Apesar do tom dele, Natasha reconheceu um ultimato. E pareceu-lhe que nada, senão a total capitulação, resolveria. – Estou… aqui, agora. – Sei disso. Lamentavelmente, preciso partir logo para um almoço no outro lado da ilha. Perdoe-me. – Entendo. – Ela ficou imóvel por um instante, absorvendo a rejeição e sofrendo. Forçou um sorriso. – Então, mais uma vez, não me levará? – O anfitrião é amigo de meu pai. Um bom homem, mas de opiniões estritamente convencionais, como a esposa. Não aprovariam sua presença na ilha, muito menos nesta casa. – Entendo. – Curvou a cabeça. – Mas, se sabia o que as pessoas pensavam, por que me trouxe?


– Pela paz e privacidade. São rigorosos os controles no porto. Proíbe-se a entrada de fotógrafos e colunistas de mexericos à espreita em Alyssos. Enquanto o Selene é um ímã para esses vermes sempre que atraca. – Entendo por que você não gosta de jornais. Mac... capitão Whitaker... contou-me o que de fato aconteceu na festa de aniversário. – Foi… Bondade dele. – Assim, perdoe-me pelas coisas que pensei... e falei... – acrescentou ela em desesperada pressa. – Não é importante. Agora, queira desculpar-me, preciso terminar meu trabalho. – Sim, claro. – Pausa. – Então, até logo. Ela não tinha de fazer como Alex pediu. Podia ficar em seu quarto e ele no dele, até encher-se desse impasse e decidir mandá-la de volta para a Inglaterra. Seria o curso de ação seguro... sensato. Só que não tinha garantia alguma de que ele também pensaria assim. Talvez a exigência de rendição inequívoca dela fosse apenas o próximo movimento naquele seu intricado jogo de vingança, que estava determinado a ganhar, apesar de quaisquer remorsos tardios que pudesse sentir. Rendição incondicional, após a qual, vitória alcançada, ficaria livre para a próxima conquista, profissional ou pessoal, pensou ela, afastando-se da porta. Outro curso de ação, todavia, que não lhe exigiria nem fingir, disse a si mesma, infeliz, seria grudarse em Alex dia e noite como se ele fosse toda esperança celestial que já tivera. E esperá-lo entediar-se, o que não deveria demorar muito... assim que compreendesse o que aconteceu e eu me tornasse um sério incômodo. Mas antes disso, pensou, ao menos terei essa noite. FOI UMA tarde muito longa, que acabou com entorpecente lentidão e transformou-se em noite. Mas Alex ainda não retornara. Quando Zeno veio informá-la de que ele jantaria no porto com amigos e transmitia-lhe desculpas, Natasha já se preparara para a decepção e ouviu a notícia com uma sorridente calma que a surpreendeu. Não era uma derrota, mas um teste de sua determinação, afirmou para si mesma. Aconteceria mais tarde. Após jantar, assistiu a um filme no saloni sem absorver nada do diálogo e trama, depois foi tranquilamente para o quarto. Tomou um longo banho quente perfumado, vestiu o penhoar prateado e deitou-se para esperar. Não dormir. Essa noite, não. Tampouco reconsiderar. Deixou passar a meia-noite antes de atravessar descalça o comprido corredor até o quarto principal, questionando-se se o encontraria vazio, e se assim fosse, o que faria em seguida. Abriu a porta em silêncio e entrou. Iluminava o quarto o luar entrando pelas portas abertas do terraço, onde se encontrava Alex, de roupão fitando a noite, de costas para ela. Natasha pronunciou-lhe o nome timidamente: – Alex... mou. Ele se virou devagar e olhou-a, unindo as sobrancelhas como se não acreditasse no que via.


– Estou aqui, agora – repetiu ela deliberadamente as palavras que mencionara no gabinete horas antes, desatou a faixa do penhoar e deixou-o cair dos ombros. Rezando para que desta vez ele não se afastasse. Alex aproximou-se, arrebatou-a do chão no abraço, colando a boca na dela com um desejo quase selvagem, e Natasha enlaçou-lhe o pescoço, emaranhou os dedos no cabelo dele, prendendo-o junto a si. Levou-a para a cama, despiu o roupão e penetrou-a no que pareceu um agonizante movimento. Ela chegou ao clímax imediatamente, tomada sem querer pela força da própria necessidade, contorcendo o corpo ao redor dele em espasmo após espasmo de insuportável prazer, gritando-lhe com abalado êxtase no ombro, e ele permaneceu imóvel, deitado com ela... dentro dela... sussurrando rouco em grego, acariciando-lhe o cabelo revolto enquanto esperava que ela se recuperasse. Mas, quando a realidade retornou, trouxe consigo a vergonha de seu próprio desejo violento e Natasha fechou os olhos, protegendo o rosto encabulado na quente musculosidade daquele peito. Alex queria que o desejasse, pensou. E ela lhe dera incontestável prova disso. O que mais, entretanto, traíra pela desesperada resposta a ele? – Matia mou, minha doçura. Não tente esconder-se de mim. Sua alegria é minha – pediu ele. Começou a beijá-la devagar, a boca prestando-lhe sensual homenagem aos olhos, às faces ardentes e aos lábios separados, antes de descer aos seios, circulando a língua nos excitados picos róseos numa carícia indolente, devastadora, fazendo-a gemer baixinho... impotente... com a cabeça atirada no travesseiro. E, como não havia mais motivo para fingir indiferença nem se conter, ela começou, por sua vez, a apalpá-lo inteiro, explorando-lhe o corpo... desfrutando-o com um prazer que superava qualquer fantasia. E, descobrindo-se de novo excitada, não apenas pelos errantes toques em Alex e o paraíso das mãos e boca do amante no próprio corpo, mas também pela esmagadora sensação criada pelo membro aquecido dele, à espera dentro dela. Pelo conhecimento de que seu desejo por ele fora apenas temporariamente aliviado naquela posse inicial, e por certo não saciado. Porque já se contorcia embaixo, devagar, impaciente, cada nervo na carne uma chama minúscula, separada. Arqueava para ele ao oferecer-se por sua satisfação. E, novamente, para a dela… Alex murmurou algo rouco e começou também a mover-se, penetrando-lhe fundo o úmido e trêmulo calor, estabelecendo o vigoroso e irresistível ritmo que tão bem lembrava Natasha da última vez que haviam feito amor. Movimentavam-se juntos, mais rápido agora, e cada vez mais intensamente, cegos e surdos a tudo, menos à violenta espiral da consumação aproximando-se. Ambos, de repente, tomados de assalto quando o selvagem e vibrante êxtase dominou-os, lançandoos em algum inigualável vácuo, as vozes entrecortaram-se quando eles gritaram. Depois ficaram ali unidos, os corpos suados, num profundo e agitado silêncio. Não me deixe, ela pensou, sem perceber que falara as palavras em voz alta, até Alex responder numa risada ofegante: – Não vou a lugar algum, minha linda. – Muito tempo depois, acrescentou: – Ouso interrogar-lhe se sentiu falta de mim, pelo menos um pouco? Ela ergueu a cabeça do peito dele.


– Acho que já sabe a resposta. – Sei. Mas talvez precise ouvir você dizê-la. – Então... Sim, kyrie. Senti sua falta. Alex suspirou baixinho, satisfeito, e rolou por cima dela, aprisionando-a embaixo. – Afinal – sussurrou. – Agora diga-me outra vez, mas sem palavras, agapi mou.


CAPÍTULO 13

NÃO VOU a lugar algum… Natasha ouviu as palavras de Alex tinindo na mente assim que abriu os olhos pela manhã. Era muito cedo, o pálido céu mal tingido de rosa do sol, e ela assimilava o ambiente e a gostosa dor prolongada de deleite físico. Lembrando… E ao fazê-lo, sentiu o corpo aquecido, a boca curvar-se suavemente em absoluto contentamento. Um fragmento de pura felicidade a valorizar-se e desfrutar-se na inevitável solidão à frente. Mas não queria pensar nisso agora. Nem se permitir pensamentos tristes quando tinha o enlevo do amor da noite anterior para saborear... Haviam afinal adormecido, ainda entrelaçados, em pura exaustão, embora houvesse percebido, sonolenta, Alex puxar o lençol amassado e cobri-los, antes de tornar a abraçá-la. Ainda assim, pensou, era dia... e hora de sair dali. Desprendera-se do abraço com infinito cuidado para não incomodá-lo, sabendo que se ele acordasse e a quisesse mais uma vez, ela não protestaria. Não notara o espaço na véspera: era um quarto imenso, mas dominado pela cama enorme, pensou, a maciça cabeceira esculpida dando-lhe grandiosa dignidade. Na parede oposta, uma grande pintura sem moldura do Egeu enfurecido numa tempestade precipitando-se sobre pedras, e ela tiritou de repente como se sentisse a rebentação na pele quente. Uma imponente penteadeira espelhada na mesma madeira escura da cama, e, perto da janela, um sofá e uma mesa. Duas portas levavam, imaginou, ao banheiro e ao quarto de vestir. Nada mais. Depois se retirou, silenciosa. TOMAVA O desjejum no terraço quando Alex se juntou a ela, com o cabelo ainda molhado do chuveiro e uma fina camisa aberta sobre o calção de banho escuro. – Kalimera. – Curvou-se e beijou-a, esfregando-lhe a face recém-barbeada no rosto. – Acordei sem você. Por quê? – Achei melhor voltar para meu quarto – confessou, repentinamente tímida quando o corpo agitouse em resposta àquelas breves carícias.


– Para mim, não. – Ele se sentou, puxando a cafeteira. – E de agora em diante, vai partilhar meu quarto. Vou mandar transferir já suas coisas. – Não. Por favor... Alex, não faça isso. Ele a encarou, unindo as escuras sobrancelhas. – Por que não? – Talvez – imaginou ela com altivez – pelo mesmo motivo que não almocei com os amigos de seu pai. Pelas aparências. – Forçou um sorriso. – Sei que a casa não está habituada a receber… suas hóspedes. – Não está – concordou Alex, após uma pausa. Pensaram que a primeira seria a noiva... Josefina contou-me. E ainda acham que só a esposa devia ter direito a partilhar o quarto principal com você. E tinham razão, pensou ela. Eu não devia dormir naquela impressionante cama matrimonial, não é lugar para um caso amoroso transitório, e rejeitei-o quando me propôs casamento. Mesmo então, no inconsciente, devia saber que o amava. Mas não suportava casar apenas porque sua honra exigia-o... porque você tirara minha virgindade e maculou-me para outro casamento. Ela tornou depressa a falar. – Assim, talvez facilite tudo aqui se formos… discretos. Alex proferiu secamente: – Também esperava discrição, pedhi mou. Mas acho que sua entrada intempestiva na reunião outro dia desfez qualquer esperança. A essa altura, o mundo saberá que não estou sozinho aqui. Mas que seja como você deseja. – Disparou-lhe um sorriso perverso. – Então... – murmurou –, meu quarto ou o seu... depois do jantar? Ela tentou não sorrir de volta, mas malogrou. – Falo sério – protestou. – Eu sei. E acredite que me extasia esse esforço tardio para estabelecer minha inabalável moralidade. – Alex encheu a xícara de café. – E no futuro irei procurá-la à noite, sem esperar que todos nas casas estejam dormindo. Pensarei ainda em todos os meios para ficarmos a sós, de dia também, Natasha mou – continuou. – E acho que hoje vamos velejar. Ela perguntou meio desejosa: – Seria adorável. Mas tem tempo de folga? Sei como anda sempre ocupado. – Tenho. E ultimamente trabalho demais para desafogar-me a fim de ficar com você, minha linda, e dar-lhe toda a atenção que merece, e não momentos roubados. Assim, por algum tempo pelo menos, podemos pôr o mundo a certa distância – acrescentou, tranquilo. Por algum tempo pelo menos… É, pensou Natasha, tomando-lhe a mão no outro lado da mesa. E por esse tempo longo ou breve, ele seria dela. Era um dia caído do céu. A bordo do caíque Mariam, contornaram toda a ilha velejando, ancorando afinal ao largo de uma praia deserta, onde desembarcaram no barquinho e Alex grelhou o peixe, que fisgara pouco antes, numa fogueira de madeira largada na areia. – Você é cheio de surpresas, kyrie – comentou ela da manta que ele estendera à sombra de uma antiga oliveira à beira d’água, vendo-o preparar a comida com destreza. Alex olhou-a do outro lado da fogueira, com os olhos enlevados pelas esbeltas curvas reveladas pelo biquíni.


– E finda a refeição, kyria, pretendo surpreendê-la de outra forma – prometeu baixinho, e ela jogou a cabeça para trás rindo, em meio ao sol, comida e vinho, e a expectativa dos abraços e beijos nos lábios do amado. UM GLORIOSO dia cheio de sol emendou-se no outro. Tornou-se uma semana que deslizou para uma segunda, depois uma terceira. Não vou a lugar algum… Ele prometera, e parecia cumprir. Quando não estavam velejando, ficavam muitas vezes na piscina. Alex aproveitava-se do isolamento para nadar e banhar-se nu ao sol, e encorajá-la a fazer o mesmo. Haviam mergulhado juntos pela primeira vez quando a despiu rapidamente do biquíni antes retirar o calção, e jogá-los na borda. – Alex... não – protestara ela, desesperada, tentando sem sucesso mantê-lo longe. – Alguém poderia nos ver. – Não, agapi mou. Prometo que não seremos incomodados. E puxou-a para perto. Muito depois, Natasha, ofegante, declarou: – Achei que não aprovava garotas nuas em piscinas. Ele riu, beijando-a carinhosamente. – Aprovo você nua em qualquer lugar e hora. Alex exibia um comportamento na praia abaixo da vila muito mais decoroso, contudo, surpreendida, Natasha viu-se logo iniciada nas emoções e tombos de esqui aquático e windsurfing, nos quais ele era um talentoso expert, e, mais espantoso, um professor de admirável paciência, e quando desenvolveu e melhorou as incipientes habilidades sob aquela cuidadosa instrução, ela se sentiu quase triunfante. Também percebeu que aprendia outras lições. Fazendo descobertas constantes sobre o homem a quem amava, vendo um lado mais juvenil e despreocupado no poderoso controlador daquele império. Era alguém que cantarolava baixinho e segurava-lhe a mão ao caminhar ao seu lado; que parecia saber intuitivamente as ocasiões em que estava cansada demais e desejava apenas dormir nos braços dele. Que a incentivava a recuperar o domínio da língua grega do tempo de meninice. Que a desafiava às noites para jogar a rapidíssima forma grega de gamão ensinada por Thio Basilis, e às vezes deixava-a ganhar. Que lhe ensinava xadrez. E satisfazia-lhe todos os sonhos que tivera, exceto o mais importante… Ele nunca falava de amor. Às vezes, após a deliciosa euforia do clímax, Natasha imaginava-o sussurrando: “M’agapas? Você me ama?” E agradecia por não ser forçada a mentir... negar os sentimentos mais secretos, preciosos, e ter de sofrer a dor posterior. Como Alyssos era uma ilha pequena, mal usavam o jipe, assim passavam longo tempo caminhando e muitas vezes visitavam os lugares preferidos dele na infância. Alex não falava muito nessas ocasiões, apenas examinava ao redor com olhos velados e meditativos. Lembrou que Mac insinuara que ele e o pai haviam abandonado a ilha, como fizera Thia Theodosia, e indagava-se por quê, pois claramente significava muito para Alex.


Mas quando lhe questionou, ele apenas encolheu os ombros e arrastou as palavras: – As coisas mudam, matia mou. O que a deixava relutante em fazer a verdadeira pergunta que a atormentava... como começara a briga entre as famílias. Porque nunca parecia o instante certo. E agora talvez houvesse perdido a oportunidade. “O MUNDO a certa distância.” Na época isso parecera promissor, mas de repente começava a aproximarse de novo, retornando insidiosamente à vida deles como uma moderna serpente no Paraíso, e Natasha pressentia que as palavras de Alex haviam sido mais que uma advertência. Muito como... “as coisas mudam”... Pois já haviam mudado antes de ela o perceber. E a principal mudança era nele próprio. O amante alegre tornava-se sisudo e introspectivo, os movimentos e atitudes quase bruscos. Às vezes, ela acordava à noite, encontrava-o em pé na janela, com a expressão taciturna, fitando a escuridão. Natasha desejava interrogar o que acontecia... se podia ajudá-lo... então lembrava que estava ali apenas para partilhar a cama temporariamente, não os pensamentos. Tornara a passar parte dos dias no gabinete, e as refeições de ambos juntos eram muitas vezes interrompidas para telefonemas privados. Acabou-se a relaxada e sensual nudez na piscina, no caso de um membro da equipe trazer-lhe uma mensagem, enquanto as prolongadas sonecas depois do almoço no quarto dela também se tornavam coisa do passado. Ocorreu-lhe que também ela se tornasse. E quando, pela primeira vez, ele não apareceu à noite no quarto, Natasha soube com dolorosa certeza de que era o início do fim, e precisava preparar-se. O coração martelava-lhe quando Alex sentou-se para o desjejum na manhã seguinte. Esperava, percebeu, a descida do machado. Disse, sem preâmbulo: – Natasha, Preciso partir ainda hoje. Tenho questões a resolver que são inadiáveis. – Ergueu carrancudo os olhos para o céu nebuloso. – Gostaria de velejar esta manhã... antes de o tempo fechar? Ela estabilizou a voz. – Seria adorável, mas eu preferiria ver onde Thia Theodosia morava. Ele hesitou, fechando mais a carranca. – Muito bem. Se é isso que deseja. Desta vez, foram de jipe, Natasha logo percebendo que se dirigiam a uma parte da ilha ainda não visitada antes. Seguiram pela estrada principal, e então Alex desviou-se bruscamente para outra muito mais estreita, a superfície esburacada mostrando pouco uso. Os novos donos não se importavam de ser incomodados, pensou ela quando o jipe fez outra curva numa trilha íngreme e rochosa, descendo para a prometida sombra das oliveiras com as folhas prateadas, e, ao surgirem na clareira, via-se bem em frente o sombrio brilho do mar. Mas era tudo. Ela olhou em volta, dizendo meio a si mesma: – Mas o lugar não é este. Não tem nada. Havia uma casa. – Apontou. – Veja, alguns dos alicerces continuam ali… – Saltou e aproximou-se para examinar os vestígios da plataforma de concreto. – Então,


o que aconteceu? – Alex seguira-a, e ela se virou para ele, com as mãos estendidas em perplexidade. – Um terremoto? Deve ter sido muito seletivo. – Não. A casa foi demolida de outra forma. – Como? – perguntou ela, com a garganta apertada. – Com explosivos, primeiro. Depois se retiraram os escombros. – Ele deu de ombros, a boca rija. – Até tudo desaparecer. Como você vê. – É. Vejo bem demais. – Balançou a cabeça. – Como puderam fazer isso? – Buscou nos olhos dele, sem encontrar, traços do afeto e ternura das últimas semanas. – Thia Theodosia sabe disso? – Sim. Sempre soube. – Que horror – murmurou ela. – Porque é tão bondosa. Jamais machucaria deliberadamente uma alma viva. Como puderam destruir o lar de uma inocente... que tanto significava para ela? Que espécie de pessoas são vocês? – Seres humanos – argumentou Alex, com a voz áspera. – Com todos os defeitos e imperfeições dessa condição. Capazes de ódio, ciúme e vingança. Algum dia eu fingi não sê-lo? – Mas por quê? Não faz sentido. – Não posso responder a isso. Nem acendi o pavio ou retirei as pedras. Era um menino. Agora, vamos? Se já viu o bastante? Lágrimas queimavam-lhe a garganta. Ela apenas assentiu com a cabeça, depois se sentou, sem nada mais olhar durante o retorno à vila, em silêncio. Quando ia descer do jipe, Alex lhe disse: – Natasha... era um prédio vazio. Coisas piores aconteceram desde que começou essa briga, acredite. – Jamais me convencerá disso – declarou ela, trêmula. Não eram apenas dois homens orgulhosos e arrogantes medindo forças de inimizade em suas transações comerciais. Ia muito além de crueldade e rancor, ou o desejo de vencer... Derrubar o rival, pensou. Aquele ato de destruição fora verdadeiro ódio. Virou-se para encará-lo. – Oh, Deus, por quanto tempo ainda permitirão que essa vileza continue envenenando a vida das pessoas? Por que não faz algo para fazê-la parar? Ele falou, devagar: – Talvez eu faça. Mas poderia ser algo que você odiasse ainda mais. – Não. Nunca neste mundo. – Olhou além dele. – Eu não posso ficar mais aqui. – Na casa? Ou em qualquer lugar da ilha? – Qualquer lugar. – Natasha estremeceu. – Achei que era tão pacífica, tão linda. – Você a tornou linda, e agora parece mais feia que qualquer pesadelo. – Mas... saber dessa insensível violência... nunca mais pensarei nela da mesma forma. – Nem em você... filho do pai… – E quero partir. Você tem de deixar-me ir. – Ir aonde? – indagou ele, com a voz rude. – Londres. Voltar para a violência ao volante, assaltos e hooligans. Tudo parece um passeio no parque comparado a Alyssos. – Engoliu em seco. – Virá um helicóptero buscá-lo, não? Deixe-me ir com você para Atenas. Minha passagem de avião talvez continue válida. – Lamento, mas não vou para Atenas – informou Alex. – Não logo. Mas mandarei o Selene buscá-la, e instruirei Mac a levá-la aonde desejar. – Obrigada. Quanto tempo levará para chegar aqui?


– Direi que é uma questão de urgência. Falavam como estranhos agora, pensou Natasha. Como se não houvessem passado as últimas noites em intimidade total, cheios de prazer nos braços um do outro. – Urgência. Sim. Quando ela entrou na casa, ele se aproximou. – Natasha mou. – E pôs-lhe a mão no braço, logo repelida. – Não me toque. – Ouvindo o pânico na voz, ela se acalmou. – Você afirmou que gostava de se separar de suas… mulheres… como amigos. Mas isso não pode acontecer conosco agora. Provavelmente nunca. – Acho que tem razão. – Pausa. – Foi assim tão ruim, matia mou, ficar comigo? – Ruim, não. Insuportável – respondeu ela, com a voz embargada. E afastou-se dele para o quarto sem olhar para trás. O RUÍDO do helicóptero acordou-a. Sentou-se ereta, com as roupas grudadas no corpo e os cílios colados pelo choro. Tarde demais, compreendeu, para procurar Alex e dizer que o amava. Apenas isso importa… então, por favor... leve-me com você. A humilhação de que fora poupada, pensou, vendo-se no espelho defronte, com o rosto manchado, os olhos inchados e o cabelo colado nas faces molhadas. Homem algum, em perfeito juízo, a levaria ao fim da rua assim. Nem um que ainda a desejasse... Como não mais Alex. Eu sabia que ficaria pouco tempo com ele, pensou. Mas caí na armadilha de ser feliz. Mas mesmo se a breve aventura não terminasse, ela teria desejado partir. Porque, embora como menino Alex não houvesse sido responsável pela destruição da adorada casa de Thia Theodosia, como homem continuara a briga implacavelmente até alcançar um diferente tipo de ruína para o clã Papadimos, com ela incluída. E agora Natasha precisava, no mínimo, recuperar-se... e sobreviver. A começar com um banho e mudança de roupas. Mas ao sair da cama, notou seu passaporte na mesa de cabeceira e soube que Alex pusera-o ali, e vira-a adormecida, dilacerada pelo sofrimento. Não fora poupada de nada, afinal, pensou amargurada, abraçando o corpo e curvando a cabeça em total derrota: não tinha mais segredos a esconder. As 48 horas seguintes foram um pesadelo vivo, piorado infinitamente pela atitude do resto da casa, que lhe exibia hedionda bondade. Zeno de repente não se afastava dela, vigiando-a como um falcão benevolente. A esposa mandava vir guloseimas da cozinha para tentar-lhe o inexistente apetite. E Josefina entrava e saía do quarto, ansiosamente arrumando todas as coisas adoráveis penduradas nos guarda-roupas e dobradas nas gavetas, perdendo tempo, pois Natasha ainda não lhe contara que nada levaria além da roupa do corpo e uma muda de roupa íntima. Oh, Deus, a espera do Selene tornava-se insuportável, pensou. Passava as horas despertas na praia, com os olhos fixos dolorosamente no horizonte, em busca da primeira visão do iate.


Mas no terceiro dia ouviu o ruído de helicóptero aproximar-se, achando por um momento que era outro pesadelo como os que lhe haviam deixado olheiras insones, infelizes. Levantou-se da espreguiçadeira, enfiou pela cabeça o cafetã transparente azul e dourado que combinava com o biquíni, com o coração martelando. Na metade do caminho de volta para a casa Zeno vinha chamá-la. – Kyrios Mandrakis está aqui, thespinis. Espera-a no saloni. Ela quase deslizava pelo terraço e através das altas portas de vidro ao saloni, quando parou e viu o homem à sua espera, com o sorriso desfazendo-se e a garganta se fechando. Alto, cabelo branco, com as feições fortemente acentuadas, sobretudo o bico do nariz que passara ao filho único, apoiava-se de leve numa bengala ébano de ponta prateada. Pela primeira vez, Natasha viu-se diante de Petros Mandrakis.


CAPÍTULO 14

– ENTÃO – PROFERIU ele, com os olhos escuros examinando-a, como se ela fosse um espécime interessante exibido numa caixa de vidro. – Você é a garota que virou a cabeça de meu inteligente filho e o fez esquecer tudo que deve ao nome de família. Estou… surpreso. Natasha foi incisiva: – Não mais que eu, kyrie, e acredite tratar-se de um episódio que anseio por esquecer. Ele inclinou a cabeça, sisudo. – Então somos dois. E ao menos ele teve a sensatez de conduzir a ligação com você em relativa privacidade – acrescentou, carrancudo. – Então é de se esperar que se evite um escândalo aberto. Mas você não pode, claro, permanecer aqui. – Eu sei. Achei que já teria partido a essa altura. – Ela sentiu a boca seca. – Alex comunicou que mandaria o barco buscar-me. Fiquei esperando… – Houve uma mudança de planos, exigindo o Selene para outro propósito. – Fez outra pausa, como se ponderasse cuidadosamente as palavras. – Vai trazer alguns convidados especiais a Alyssos, thespinis. Precisa entender que Alexandros convenceu-me, afinal, a terminar a briga com um casamento corretamente contratado entre nossas famílias. Natasha de repente ficou completamente imóvel. Teve a curiosa impressão de que o homem alto diante dela retrocedeu a uma longínqua distância. Mas a voz alcançou-a com total clareza. – Convidei, portanto, Madame Papadimos a visitar-me aqui em Alyssos, e trazer a filha. Esperamos convencer Kyria Irini a aceitar esse novo relacionamento, e talvez acolhê-lo, tão logo se recupere do choque inicial. Natasha tremia de frio, ardia de calor, e sentia-se nauseada ao mesmo tempo, enquanto uma voz na cabeça gemia: não... oh, Deus... não. Encarou-o, com a mente fugindo ao controle. Pensava, tremendo. Alex e Irini, trancados juntos num dinástico casamento de conveniência, a aversão dela unida à indiferença dele. Como seria possível acontecer? Soubera por Mac que Alex se casaria um dia, com “uma herdeira adequada”, que lhe desse um filho, e pensara então que o tempo teria passado e ela encontrado alguma forma de fortalecer-se para o


inevitável. Mas jamais o concebera tomando Irini como esposa... nem nos piores pesadelos. Quando o atacara, no entanto, para que terminasse aquela briga, ele advertira-a que talvez achasse a solução pior que o problema. Mas nunca lhe ocorrera que Alex pretendesse esse cínico expediente. E como podia Thia Theodosia sequer considerá-lo? Ela queria que eu fosse uma esposa amada e uma mãe feliz, pensou. Certamente devia ter a mesma ambição para Irini. E viu-se estremecendo de uma rápida visão interna de Irini com o bebê de Alex nos braços. Endireitou os ombros, estabilizou a voz. – Madame Papadimos retornar aqui, kyrie, afinal isso aconteceu? Admira-me. – O que aconteceu naquela casa foi... desafortunado. Mas nem todas as lembranças dela de Alyssos são tão dolorosas. – E tenho permissão de vê-la... apenas por alguns instantes? – Isso não será possível. – Ele balançou a cabeça. – Sua presença aqui, nessas circunstâncias, seria inadequada, como Alexandros foi o primeiro a salientar. As negociações ainda se encontram num estágio delicadíssimo, mas espero e acredito que as finalizaremos durante essa visita. Natasha declarou, entorpecida: – Sim, claro. – Portanto, cuidei para você hospedar-se algum tempo com meu amigo Dimitris Phillipos e a esposa no outro lado do porto – continuou ele. – Alexandros garantiu-me que eles desconhecem as… transações irregulares que ambos mantêm, assim, eu espero que tenha a bondade de fazer passar-se apenas por uma amiga da família que a recebem como um favor para mim. – Acrescentou, brandamente. – Talvez leve algum tempo até meu filho poder visitá-la. Ele precisa ajudar a reconciliar Kyria Irini às novas circunstâncias, e não pode permitir-se distrações, embora encantadoras. O que ele dizia? questionou-se Natasha, descrente. Achava que continuava envolvida com Alex, e aceitaria de bom grado continuar sendo a amante durante o namoro e casamento dele? Sentiu uma pontada de compaixão por Irini, que jamais tivera a afeição desejada do pai e seria igualmente desafortunada com o marido. Mas não lhe causarei um minuto de pesar, jurou em silêncio. Quando Alex começar a pular a cerca, há muito estarei longe. Disse com tranquilidade: – Baseia-se num mal-entendido, kyrie. Quaisquer transações que tive com seu filho acabaram, e não planejo tornar a vê-lo. Ele torceu a boca com ceticismo. Enfiou a mão no bolso interno do paletó e retirou um envelope. – Acho que Alexandros tem uma opinião diferente – comentou. – Pediu-me para entregar-lhe esta carta. Talvez deva lê-la antes de chegar a tão definitiva conclusão. Natasha pegou-a sem discutir. Suas dificuldades haviam começado com uma carta, pensou. Terminariam com outra. Depois disso, tudo avançou rápido. Quase antes de sabê-lo, empilhavam-lhe a bagagem no jipe, ela trocara de roupa para Zeno levá-la à casa de Phillipos. Quando o jipe afastou-se, Natasha viu Mandrakis olhando-a, severo, da entrada. Para ter certeza de que eu estarei longe da propriedade antes da chegada das convidadas, pensou, mordendo o lábio.


E o fato de Thia Theodosia não querer vê-la agravava-lhe a sensação de absoluta desolação. Acabavam de entrar na cidadezinha quando ouviu três constantes sirenes soarem e identificou-as como o aviso de que a balsa ia partir. Segundo Josefina, navegava entre as ilhas, parando primeiro em Naxos, onde os mitos diziam que Ariadne fora abandonada por Teseu. Na pré-história, era possível. Hoje, Ariadne encolheria os ombros e tomaria um voo do aeroporto para Atenas e Inglaterra em busca de um homem mais confiável. E Natasha faria exatamente o mesmo. Tinha a carteira, o passaporte e a passagem de volta. Só precisava chegar ao cais antes de a balsa partir. Olhou Zeno de esguelha, que resmungava porque um burro e uma carroça cheia de flores bloqueavam a passagem na rua estreita. Ela mencionou: – O sol causou-me enxaqueca. Vejo uma farmácia ali adiante. Vou comprar analgésicos. Descera do jipe antes que ele pudesse protestar e apressou-se para a farmácia. Entrou, perdeu um momento examinando cosméticos, depois espiou a rua. O dono do burro retornara e envolvia-se numa acalorada altercação com Zeno. Ninguém a olhava, então Natasha baixou a cabeça e correu como uma lebre por uma sinuosa ruela que levava ao ancoradouro. Dois homens iam retirar a prancha de embarque, mas ela gritou: – Esperem – em ofegante grego, e eles pararam, sorrindo radiosos quando passou voando, virou-se para trás e gritou “Efharisto”. Subiu até a proa e sentou-se num dos bancos, recuperando o fôlego. E quando a balsa embicou para o mar aberto em direção a Naxos, pegou a carta não lida de Alex na bolsa, rasgou-a e lançou os pedaços ao mar. – Feito – sussurrou baixinho. – Acabado. Terminado. E agora minha vida recomeça... sem ele. – ENTÃO – INQUIRIU Neil com sinistra calma. – Exatamente como se tornou “A misteriosa garota de Mandrakis”? Natasha olhou a extravagante revista que ele acabara de jogar na mesa diante dela. Desde a chegada a Londres, uma semana antes, esperara-o aparecer, e também algum tipo de confronto, mas não dessa forma. Nem que simplesmente apareceria sem avisar e exibindo clara fúria, surpreendendo-a no velho roupão, com o cabelo molhado enrolado numa toalha, e Molly ausente. E tampouco imaginara que se veria fitando a retumbante manchete acima da foto de capa... a inconfundível eu em uma confusão de tafetá preto nos braços de Alex, em Mykonos. A última revelação. Bem, poderiam, pensou, ter desenhado um balão saindo-lhe da boca dizendo: “Eu o amo. Leve-me, sou sua.” – Isso – respondeu Natasha firme – faz bastante tempo. – Nem tanto. – Apunhalou a data com um dedo acusador. – Melanie, uma das secretárias, trouxe-a do cabeleireiro para o escritório semana passada, senti-me um idiota total. Você devia estar em Atenas


assinando documentos – continuou Neil irado. – Não... saracoteando em Mykonos com um notório playboy como Alexander Mandrakis. O que diabos aconteceu, Natasha? Ela ia dizer: “Você é adulto. Conclua sozinho.” Mas interrompeu-se a tempo de não o magoar. Desviou o olhar. – Não tenho nada a dizer-lhe – respondeu, desanimada. – Exceto que lamento. Lamento mais do que julgava que fosse possível, e causasse tanta dor. – Mas ia ser você e eu juntos… – insistiu Neil. – Não ia? – As coisas mudam. – Dissera ela realmente isto? – Eu... eu não tenho outra desculpa a dar. Ele a xingou de várias palavras ofensivas, e Natasha deixou-o extravasar porque merecia. – E agora que o playboy descartou-a, você volta sozinha. – Neil parou na porta, com o rosto afogueado. – Não voltou exatamente carregada de diamantes, voltou? Talvez ele a julgasse indigna deles. Quando ele foi embora, ela afundou no sofá, pois tinha as pernas trêmulas. Neil achou que fora para a Grécia e tivera uma aventura. E ninguém jamais poderia saber a verdade. Mesmo Molly, que a recebera bem, sem ocultar o desânimo diante do rosto contrito, com os olhos entristecidos da amiga, Natasha dera apenas uma versão estritamente editada. – Eu me apaixonei – confessara-lhe. – E tive uma aventura breve, louca. Mas acabou, e recuperei a sanidade. – Você está um lixo – declarou Molly, com a preocupação tornando-a brutal. Arregalou os olhos e arquejou – Oh, Deus, Nat. Você não… – Não engravidei – respondeu Natasha, tranquila. Passara duas noites em Naxos, comprara uma básica muda de roupa, uma bolsa de lona, depois alugara um quarto acima de uma taberna pequena, barata, enquanto esperava o voo. Na primeira noite, chegara a prova irrefutável de que não engravidara, e soube que devia ficar agradecida. Em vez disso, curvara-se em posição fetal na cama dura e chorara até adormecer, lágrimas de perda e solidão empapando o travesseiro. E Molly lera-lhe aquela desolação nos olhos e afirmou com mais delicadeza: – Você devia ter seguido as regras de Thia Theodosia, meu amor. Não a considero o tipo para aventuras fugazes. Ela forçara um sorriso e respondera: – Não se preocupe comigo. Eu me recuperarei antes que você perceba. – E tentou mostrar-se alegre pela amiga que saía sem parar tomando providências para o casamento, e não tinha a mínima ideia de como Natasha rendia-se ao desespero íntimo ao ficar sozinha. Quando tocou a campainha da porta, ela se retraiu. Neil, pensou. Retornou para desculpar-se ou vociferar, tanto fazia, não queria saber. Ficou tentada a não atender, mas a campainha tocou novamente, insistente, e ele talvez se dispusesse a esperar até ela o deixar entrar. Suspirou, apertou a faixa do roupão e dirigiu-se à porta. – Kalispera – proferiu Alex, e entrou no apartamento. Arquejando, ela o seguiu para a sala. – O que acha que está fazendo? O que quer aqui? – Você – respondeu ele. – E atravessei a Europa para encontrá-la... – acrescentou com dura ênfase. – Uma grande inconveniência.


– Então podia ter-se poupado o trabalho – retorquiu Natasha. – Porque voltei para afastar-me de você. Assim, queira retirar-se, por favor? – Por quê? Espera que o visitante anterior retorne? – Desprendeu-se com um tom áspero da voz, e Alex percorreu-a com os olhos escuros, como se lhe houvesse arrancado o roupão do corpo. – Acho que se decepcionará, agapi mou. Ele não parecia disposto a fazê-lo quando saiu. – Pode culpá-lo? – interrogou-o nervosa. Ergueu a revista. – Após descobrir que rotularam a namorada como sua amante misteriosa? – Mas você nunca foi dele – lembrou-lhe Alex, baixinho. – Apenas minha. – Não mais. – Natasha inspirou fundo. – Como ambos sabemos. Então por que está aqui? – Para conversar. – Ele tirou o paletó do terno escuro, jogou-o no braço do sofá, afrouxou a gravata e abriu dois botões da camisa. – Posso me sentar? – Se não tem a decência de partir, como impedi-lo? – Sente-se comigo? – Bateu na almofada do sofá, e ela estremeceu internamente com muda angústia ao lembrar-se das noites no saloni enroscada no colo dele, com a cabeça em seu ombro. – Não. – A negação saiu mais feroz do que pretendera, arrancando-lhe um sorriso torto. – Mesmo se eu assegurar que não tem nada a temer? – perguntou Alex. – E der minha palavra de honra não… molestá-la? Ela respondeu silenciosa, sentando-se na cadeira com braços de madeira o mais distante do sofá. O silêncio prolongou-se até ele quebrá-lo: – Por que fugiu, matia mou? Os amigos de meu pai são boas pessoas. Iam recebê-la bem, como escrevi na carta. Natasha mordeu o lábio. – Não se soubessem o que eu era. Preferi retornar aos meus próprios amigos. – Deixando o coitado do Zeno desesperado. Quando não a encontrou na farmácia, entrou em cada loja da cidade à sua procura. Chegou a ir ao hospital temendo que sua enxaqueca houvesse se tornado insolação. Só então se lembrou da balsa. Eu acabara de desembarcar do Selene com nossas visitantes quando ele regressou e contou-me que você partira. Comprimiu a boca. – E não pude fazer nada... imediatamente. Após aplacar meu pai sobre nosso caso e prometer-lhe apoio aos planos futuros dele, não podia abandoná-lo quando mais precisava de mim. Consegui apenas mexer alguns pauzinhos e arranjar alguém no aeroporto de Naxos para avisar-me se você tentasse tomar um avião – acrescentou. – As 48 horas seguintes de silêncio foram as piores da minha vida. Comecei a pensar que você partira para sempre. – Pensou certo – declarou Natasha, empedernida. – Atenha-se ao pensamento. – Porque você não tem o direito de falar comigo assim. – Mas não pretendi afligir Zeno. Por favor, peça-lhe minhas desculpas quando o vir. – Por que não esperou até eu poder buscá-la? Sabia das dificuldades. – É – concordou ela. – Aquelas negociações ardilosas. Espero que as tenham finalizado com sucesso. E o dar de ombros e sorriso dele foram pesarosos. – Até certo ponto, pelo menos. E esse é um dos motivos de eu estar aqui... convidá-la a um casamento. Por um instante, o choque calou Natasha, que depois declarou com a voz rouca: – Que... crueldade insuportável.


– Ah – proferiu Alex, baixinho. – Mas já devia ter-se habituado a isso, segundo nosso último encontro. Então, pode responder-me, por favor? – Já tenho um casamento para ir – argumentou ela. – Acho que basta por enquanto. A resposta é... não. Ele deu-lhe um olhar pensativo. – Kyria Theodosia sofrerá muito se você se ausentar. – Duvido. Ela me queria fora do caminho enquanto se armava o casamento. – Fuzilou-o com o olhar, alegre por poder combater a dor com raiva. – Ela e todos os demais. Claro, tinham de levar em conta os sentimentos de Irini – acrescentou, despedaçada. – Mas se você pensa que terá perdoado e esquecido tudo que aconteceu se eu comparecer ao casamento, reflita melhor. Porque garanto que não. – Ergueu o queixo. – E ao lado de quem me sentarei? Ou eles têm um canto especial na igreja para amantes descartadas do noivo? Alex protestou severamente: – Está sendo injusta, Natasha. Meu pai amou duas mulheres na vida. Minha mãe e Theodosia Papadimos, com quem pretende casar-se em Alyssos mês que vem. Como você bem sabe. Ele lhe viu a expressão estupefata e estreitou os olhos. – O que houve? Meu pai deu-lhe a carta, não? – Sim. – A voz dela saiu quase inaudível. – Mas não a li. Joguei-a fora. – Santo Deus, por quê? – Veio o tom incrédulo. – Porque você ia se casar com Irini. Seu pai me contou, mas... Não suportei vê-lo escrito em preto e branco. – Natasha levantou-se de repente, com a voz sofrida. – Eu precisei de algum modo fingir que isso não estava acontecendo. É o que você queria ouvir? Está satisfeito agora? – Natasha mou – chamara delicadamente Alex. – Mesmo você deve saber que casamento entre irmão e irmã é ilegal. – Irmão e irmã. – Ela pronunciou as palavras devagar e cuidadosamente como se nunca as ouvira antes. – Do que está falando? Ele estendeu a mão. – Sente-se comigo – pediu, com tranquilidade – enquanto lhe conto o que tinha na carta... como começou a briga. Natasha sentou-se ao lado dele, mantendo distância. Os olhos escuros de Alex fixaram-se nos dela. – Pense num homem e uma mulher. Já amigos. Ele, viúvo, ela, esposa abandonada e solitária. Apaixonam-se num lugar que se tornou um santuário para ambos, onde desejam passar o resto da vida juntos, se o marido, com quem ela pouco partilha além de um teto, der-lhe o divórcio. “Mas ele se recusa, dizendo-lhe, entre outras ameaças, que ela nunca mais verá os dois filhos pequenos se humilhá-lo deixando-o. Em vez disso, exige que volte para ele, embora grávida do filho do amante.” Natasha murmurou: – Oh, Deus, isso não pode ser verdade. Não pode... – Acredite – continuou Alex. – Ela se nega, afirmando que o amante lutará ao seu lado pela custódia dos primeiros filhos. Mas a caminho de sua casa, o carro do amado envolve-se numa séria colisão com um motorista que o abalroou e fugiu, e ele sofre graves ferimentos. Ao mesmo tempo, destroem


totalmente a casa onde ela conheceu a felicidade, como se nunca houvesse existido. Deixando-a sem opção, senão retornar ao que passava por um lar. Ela comentara em voz abafada: – Quer dizer... que foi Thio Basilis quem fez… aquelas coisas terríveis? Oh, não. Por favor... não. É... horrível demais. Alex falou calmamente: – Se duvida de mim, Madame Papadimos confirmará tudo. Natasha calou-se, fitando os punhos cerrados no colo. Por fim, suspirou. – Não preciso. Tudo que você contou explica muitas coisas que não entendia. Que eu julgava erradas, mas não examinava demasiado a fundo porque Thio Basilis era tão bom para mim. – Você ocupou o lugar de uma filha que ele não podia amar. Ela concluiu, amargurada: – Não admira que Irini me odeie. – Não a odiará sempre. – Alex tomou-lhe as mãos, acariciando-lhe delicadamente os dedos. – Embora a verdade tenha sido um grande choque para ela, cuja imediata reação foi tudo que mais temíamos. E por isso, após testemunhar-lhe a atitude no passado com você, precisei afastá-la, Natasha. Informei ao meu pai que não permitiria que a subjugassem outra vez àquele tipo de maus-tratos ou pior. Acrescentou secamente: – Papai agora entende minha precaução. A certa altura ela virou uma selvagem, ameaçando violência... contra si e todos ao redor. Até a mãe. Mas está se tornando mais calma, pois começa a perceber que tem agora um pai que a ama e a quer. Baixinho, Natasha complementou: – E um irmão que será amável com ela. E seu pai e Thia Theodosia também tornaram a encontrar-se. O que é... maravilhoso. – Engoliu em seco. – Stavros e Andonis sabem da verdade... sobre a briga? – Kyria Theodosia mencionou que o marido poupou-a dessa humilhação final, e eles ainda acreditam tratar-se de uma rixa empresarial, como eu até poucos anos atrás. Irini manterá o sobrenome, e, para o mundo, papai será apenas um atencioso e afetuoso padrasto. – Alex sorriu. – Quando Irini aprender a controlar o mau humor e a língua, ele encontrará um bom homem para aquecer-lhe a cama e o coração. Natasha retirou a mão da dele. – Então já selou o destino dela. – Natasha tentou parecer despreocupada. – E, ao contrário de mim, não tem como escapar. – É o que você quer, pedhi mou? Escapar? – Claro. Por isso voltei à minha própria vida e ao mundo real. – Não se sentirá solitária? Não tanto, ela queria gritar, como amá-lo sem esperança de ser correspondida. – A independência tem outras vantagens. – Se Iorgos a tivesse conduzido – disse ele baixinho –, você não acharia tão fácil fugir. – Ele o espera lá fora? – Não, está em Atenas. Convenci afinal meu pai de que não preciso mais de um cão de guarda. – Mac revelou que você havia recebido ameaças.


– É. Há três anos, logo depois de vê-la naquela festa e desafiar a raiva dele escrevendo a Kyrios Papadimos solicitando-lhe permissão para visitá-la e pedir sua mão. Ela o encarou arregalando os olhos. – Você... pediu-me a Thio Basilis? Mas por quê? – Porque a olhei, agapi mou, e apaixonei-me. Foi incrível... simples assim... e perdi-me para sempre. Fascinado em casa após a festa, contei a Papa que tinha encontrado a única moça no mundo com quem gostaria de casar-me, e ele sorriu. Informei-lhe quem era você, ele parou de sorrir e proibiu-me de pensar mais nisso. Discutimos, mas escrevi a carta assim mesmo, e a resposta voltou no dia seguinte. Ainda a tenho. Kyrios Papadimos advertiu-me que se eu... o lixo mulherengo que meu pai desovara... tornasse a dirigir os olhos depravados à sua inocente filha, ele garantiria que me desacordassem a pancadas e depois me mutilassem tanto que eu jamais poderia satisfazer uma mulher na cama ou ter filhos. – Ele afirmou isso? Oh, Deus, como pôde? Alex fez uma careta. – E pior. Acrescentou que o que aconteceu ao meu pai não seria nada em comparação, revelando que o desastre de Papa não fora acidente, que o empurraram deliberadamente da estrada. Natasha apertou a mão na boca trêmula. Repetiu: – Oh, Deus… – Ficou claro haver mais nisso que apenas rivalidade de negócios – continuou Alex. – Então quando mostrei a Papa a carta, ele confessou o caso com Theodosia Papadimos e contou-me da filha que ele nunca vira. E com isso esclareceu-me que eu perdera você para sempre, pois garota alguma valia tal risco, que eu precisava esquecê-la. Ele balançou a cabeça. – Acho que fiquei meio enlouquecido. Pensava apenas que ele me roubara a única chance de felicidade com a garota a quem eu amava. Declarei que o odiava... e jamais o perdoaria. Ele me olhou com lágrimas nos olhos, e declarou: “Você acha que eu algum dia me perdoarei, Alexandros mou?” Fez uma pausa. – Desde então, Iorgos foi minha sombra. Só depois da morte de Kyrios Papadimos permiti-me pensar de novo em você. Indagar-me. Sabia que voltara para a Inglaterra, mas ocupava um lugar no conselho. Como seus irmãos já sofriam dificuldades comerciais e financeiras, achei possível tornar a vê-la. Quando se sugeriu que qualquer acordo entre nossas organizações fosse selado por casamento, senti-me como se houvesse conquistado o mundo. Desejava-a tanto que esqueci de ser cauteloso. Ordenei uma imediata reforma do Selene para nossa lua de mel e ampliei a obra já sendo feita na casa de Alyssos. Comunicaram-me que poderíamos passar os fins de semana lá, a princípio, e estender as visitas quando tivéssemos filhos. Só pensava no sonho de meu coração, que afinal se tornava realidade. Meu sonho com você, minha deusa do luar. Interrompeu-se e acrescentou, categoricamente: – Aí recebi a segunda carta, e todo o sonho se desfez. Fiquei destruído... nauseado. Foi como perdêla uma segunda vez, e dessa seria para sempre. Também soube, então, que seus irmãos pretendiam quebrar os acordos feitos entre nós, e fiquei furioso, além de magoado. Pensei em você nua junto à piscina e decidi aceitar os favores sexuais que me eram oferecidos, desfrutá-los enquanto me conviesse. – Encontrei, ao contrário, inocência, e, embora me odiasse pelo que tinha feito, não pude deixá-la partir. E quando a procurei naquela primeira noite no Selene e a vi à minha espera, toda de branco,


pensei apenas na adorável noiva em nossa noite nupcial pela qual ansiava. Foi como voltar ao lar. Como se um espaço vazio em minha vida houvesse sido afinal preenchido. Então, que podia fazer, senão pedila em casamento? – Mas você não mencionou isso. – A voz dela tremeu. – Falou apenas em correções, e a possibilidade de eu estar grávida. E disse-me depois que não queria que nenhuma mulher se apaixonasse por você. Ele sorriu irônico. – Autoproteção. Achei que você me odiasse. Toda vez que tentava me aproximar, repelia-me. Mesmo quando ficamos tão felizes na ilha, achei que só queria sexo, não meu amor. E quando afirmou que estar comigo fora insuportável, quase abandonei todas as esperanças. Natasha respondeu, com a voz rouca: – Durante três anos lembrei o jeito como você havia me olhado. Pensava em você, e também sonhava, mas nunca soube por quê. Temia ser apenas mais um corpo disposto entre tantos. Era isso que considerava insuportável. – Não sou nenhum santo, matia mou – assegurou Alex, delicadamente. – Mas sou mais seletivo do que imagina. – Levantou-se do sofá e ajoelhou-se ao lado de Natasha, declarando: – Fui seu desde aquela primeira noite, e você sempre foi minha... mulher, esposa e único amor de meu coração. Agora, e para sempre. – As mãos tremiam quando se fecharam nas dela. Os olhos suplicavam. – Então, me aceita como marido, minha amada, e curamos o dano do passado? – Alex – sussurrou ela. – Oh, querido, sentia-me tão infeliz sem você. E o amo muito mais do que você acreditaria. Ele se levantou, erguendo-a consigo, por um infindável momento. Declarou baixinho: – Tenho infinita fé, minha querida. Beijou-a, com a boca cálida e inefavelmente tenra acariciando a dela. Por fim afastou-a, relutante. – E agora vá vestir-se, agapi mou. Prometi a madame Papadimos que a levaria comigo. Ela arquejou. – Thia Theodosia está aqui em Londres? – Para comprar o vestido de noiva, e, se Deus quiser, ajudá-la a também escolher o seu. Ela e meu pai dispõem-se a perdoar-me o comportamento passado com você, desde que agora me comporte com adequada restrição até nossa noite nupcial. Para que tenha enfim o namoro formal, agapi mou. Natasha ficou nas pontas dos pés e beijou-o nos lábios, com o ar travesso. – Formal, e muito breve, espero. Ele riu. – Vergonhosamente breve, dou-lhe minha palavra. E assim que a tiver – acrescentou com repentina ferocidade – a manterei segura para sempre. – Eu sei. Meu amado... eu sei.


Day Leclaire

SOMENTE A NEGÓCIOS

Tradução Celina Romeu


Sobre a autora Autora best-seller do USA TODAY, Day Leclaire mora em uma ilha remota na Carolina do Norte, o cenário ideal para criar histórias apaixonantes com uma combinação única de humor, emoção e personagens inesquecíveis. A enorme popularidade de Day em todo o mundo a colocou entre as autoras mais prestigiadas da Harlequin. Seus livros já venderam mais de cinco milhões de exemplares. Três vezes vencedoras do Colorado Award of Excellence e do Golden Quill Award, Day também ganhou diversos outros prêmios, como o Career Achievement da revista Romantic Times, o Love and Laughter, o Holt Medallion e o Booksellers’ Best Award, além de diversas indicações para o prestigiado Romance Writers of America RITA®. As histórias de Day tocam o coração e fazem com que os leitores se importem com os personagens tanto quanto a criadora. Em suas palavras, “adoro escrever romances e não consigo pensar em nada melhor para fazer durante o dia”. Para saber mais, visite o site dayleclaire.com.


CAPÍTULO 1

– PRECISO DE sua ajuda. Gabe Piretti lutou para esconder a intensa onda de satisfação que estas quatro simples palavras, ditas pela única mulher que já amara, lhe deram. Depois de 23 meses, pensou que poderia ver Catherine Haile sem experimentar nenhuma emoção. Tolice achar que uma coisa dessas seria mesmo remotamente possível. Afinal, tinham trabalhado juntos, vivido juntos. Corações e mentes e corpos enlaçados no que uma vez acreditou serem nós impossíveis de desfazer. A paixão que surgiu entre eles foi um inferno que não arrefeceu, nem mesmo depois de 18 meses de convivência. Se houve mudança, foi para aumentar a cada dia o que partilhavam. E então ela foi embora. Sabia as desculpas que deu, o que disse e... o que era ainda pior, o que não disse. Pela primeira vez na vida, Gabe Piretti, o Pirata, foi incapaz de resolver um problema. Nem por bem, nem por mal. Nem por exigência, nem esperteza, nem astúcia. Quando Catherine o deixou, ele perdeu sua âncora. E, por mais que detestasse admitir, estava à deriva desde então. Se ela não tivesse vindo até ele naquele dia, tomaria providências para que seus caminhos se cruzassem num futuro bem próximo. Durante os meses infindáveis em que ficaram separados, deu-lhe o espaço que ela pediu. E observou-a à distância enquanto ela construía sua empresa e sua vida profissional nos próprios termos. Manter-se afastado foi a coisa mais difícil que Gabe já fizera, mais difícil até do que tomar de sua mãe as rédeas da Piretti’s para impedir a falência da empresa. Bem, Catherine estava de volta e ele encontraria um meio de mantê-la junto para sempre. Queria sua ajuda? Tudo bem, ele a daria, mas o preço seria alto. A questão era: estaria ela disposta a pagá-lo ou fugiria de novo? Consciente de que a deixara em pé, Gabe fez um gesto com a mão, convidando-a a se dirigir à área de estar, que ocupava um grande espaço em um dos cantos do escritório. Raios de sol, ainda fracos depois da chuva recente, atravessavam os vidros coloridos das vidraças das janelas, que se abriam para uma grande parte do centro de Seattle e do Puget Sound. Os raios brilhantes iluminavam os cabelos de Catherine, penteados para o alto, destacando as mechas douradas escondidas no tom de mel. – Café? – ofereceu ele. Depois de se sentar, Catherine colocou a pasta junto aos pés e balançou a cabeça.


– Estou bem, obrigada. Ele se sentou numa poltrona em frente a ela e virou a cabeça para o lado enquanto a observava. Catherine vestia um terninho de seda cor de chocolate que lhe abraçava as curvas suaves, mostrando que perdera peso recentemente, peso que não podia perder. O blazer justo destacava a cintura muito fina e terminava pouco antes das pernas bem-torneadas. Escolhera sandálias que eram pouco mais do que um conjunto de tiras finas, que davam um ar sexy aos seus pés, e tinham saltos de seis centímetros, o que ela sempre usava para dar a ilusão de altura. Os saltos tinham o objetivo de destacar um par de pernas maravilhosas. Era evidente que se vestira para impressionar… ou seduzir. – Faz algum tempo – comentou ele. – Você mudou. – Pare com isto. Ele ergueu uma das sobrancelhas e lhe deu um sorriso inocente. – Parar o quê? – Você está me despindo mentalmente. Era verdade, mas não da maneira que ela pensava. Não podia deixar de se perguntar o que causara a recente perda de peso, mas teve o cuidado de disfarçar a preocupação com a ligeira troca de palavras. – Só porque pensei que você faria objeções se a despisse de qualquer outra maneira. Um sorriso relutante surgiu e desapareceu. – O que aconteceu à sua máxima de somente negócios? – Quando se trata de trabalho, só penso em negócios. – Fez uma pausa deliberada. – Mas você não trabalha para mim, trabalha? – Não trabalho para você há três anos e meio. O humor dele desapareceu. – Você se arrepende de suas escolhas, Catherine? Viu um lampejo de tristeza antes que ela transformasse sua expressão numa máscara de indiferença casual. – De algumas, mas não é isto que está perguntando, é? Quer saber se, caso eu tivesse a oportunidade de fazer tudo de novo, escolheria de modo diferente? – Pensou um pouco, com o rosto sério. – Duvido. Algumas coisas você simplesmente tem de arriscar para aprender como viver sua vida… ou como não viver. – Algumas coisas ou algumas pessoas? Ela lhe encontrou o olhar com firmeza. – Os dois, é claro. Mas não estou aqui para discutir nosso passado. – Somente negócios, então. Ela continuou a estudá-lo. Gabe se lembrou de como achou desconcertantes aqueles olhos únicos, de um âmbar dourado, na primeira vez que se viram. Nada havia mudado. Ainda eram tão intensos quanto incomuns, por verem mais do que ele achava confortável revelar. – Não é como você prefere, os negócios em primeiro lugar? – perguntou ela. – Eu lembro que é uma regra fundamental na Piretti’s. Todas as vezes que você compra ou vende empresas, junta-as ou as desmonta, jamais é pessoal, apenas negócios. – Normalmente, seria verdade, mas você… – Ele deu de ombros, rendendo-se ao incompreensível. – Sempre foi a exceção. – Engraçado, diria que foi exatamente o oposto.


A boca de Catherine se fechou com firmeza, um gesto habitual quando a parte espontânea de sua natureza colidia com a grande bondade que mantinha os pensamentos mais desagradáveis sob controle. No passado, deliciou-se beijando aqueles lábios cheios, que extraíam dela a verdade. De alguma forma, achava que ela não reagiria bem a essa tática em particular. Ainda não. Por enquanto, não. – Desculpe – murmurou ela. – São águas passadas. – Um bocado de água, mas não o bastante para romper a barreira. Preciso descobrir o que posso fazer sobre isso. Um indício de confusão percorreu o rosto dela, mas ele continuou antes que ela pudesse perguntar o que queria dizer. Com o tempo, descobriria por que ela o havia deixado. Com o tempo, romperia aquela fachada calma e educada e forçaria a paixão e a fúria a se manifestar. Ele a interrogaria e observaria até a represa cair e a verdade jorrar. – Como tem passado? – perguntou ele, esperando que a pergunta banal a ajudasse a relaxar. Gabe percebeu um pouco de tensão em suas feições aristocráticas. Quando a conheceu e logo a contratou, achou que ela fosse delicada. E, embora sua aparência de ossos finos desse essa impressão, rapidamente descobriu que tinha uma espinha de aço. Mas, naquele momento, parecia mais do que delicada, parecia etérea. – Estou um pouco estressada – confessou ela. – E é por isso que estou aqui. – Conte-me – convidou ele. Ela hesitou, reunindo o autocontrole e se envolvendo em serenidade, como se fosse uma capa protetora. – Cerca de 18 meses atrás, eu fundei minha empresa. – Elegant Events. Ele a surpreendeu. – Como… – interrompeu a pergunta. – Não importa. Você se daria o trabalho de descobrir o que fiz depois que nos separamos. – Você quer dizer… depois que me abandonou. A correção lhe escapou sem pensar, sem intenção, as palavras sussurradas e com uma leve aspereza. Uma aspereza que Catherine percebeu. A tensão que ela tentou tanto esconder aprofundou-se e se transformou numa raiva antiga e numa mágoa ainda mais antiga. As mãos se curvaram com força, os nós dos dedos embranqueceram. Dessa vez, quando ela comprimiu os lábios, ele suspeitou que fosse para controlar um tremor traidor; o momento se prolongou, tenso. – Você quer mesmo falar sobre isso? – perguntou ela por fim, com o olhar preso ao dele. – Precisamos falar sobre o passado? É só assim que está disposto a me ajudar? – Não é só assim. – Apenas é o jeito que você prefere. – Não esperou pela confirmação. – Certo, vou manter tudo da maneira mais direta possível. Você, com sua necessidade absoluta de manter em compartimentos separados o pessoal e os negócios, me deu uma escolha. Podia trabalhar para você ou amar você, mas não os dois. E eu, tola, escolhi amar. O que não sabia era que você já estava apaixonado e que esse amor sempre viria em primeiro lugar. – Você foi a única mulher da minha vida – respondeu ele, áspero. Ela ergueu o ombro e sorriu de uma forma que fez o coração dele se encolher.


– Talvez a única mulher, mas não a única coisa. Piretti’s foi sempre seu primeiro amor. E, por causa disso, será sempre o amor que vem primeiro. – Você me deixou porque eu trabalhava até tarde de vez em quando? – perguntou, incrédulo. – Porque às vezes fui obrigado a colocar o trabalho à frente de você e de nossa vida social? Ela não se deu o trabalho de discutir, embora ele visse que parte dela ansiava por isso. A raiva e a desilusão eram evidentes na expressão dela, e as palavras amargas estavam na ponta da língua. Esperou até as duas emoções estarem sob controle antes de falar. – Sim – disse ela, com dolorosa simplicidade. – Sim, eu o deixei por todas essas razões. – E muitas outras mais? – perguntou ele, sagaz. Ela inclinou a cabeça. – E muitas outras mais. – Antes que ele exigisse mais informações, ela ergueu a mão numa súplica. – Por favor, Gabe, foi há quase dois anos. Não há motivo para discutir este assunto depois de todo este tempo. Não podemos apenas seguir em frente? – Ela fez uma pausa, e uma insinuação de humor seco o tomou de surpresa. – Ou estou perdendo meu tempo ao vir aqui hoje? Ele não tinha a menor intenção de seguir em frente, mas podia ser paciente. Talvez. Se tentasse com afinco. – Você não está perdendo seu tempo. Se estiver em meu poder ajudar, o farei. Por que não começa me explicando o problema? Ela respirou fundo, estabilizando a respiração. – Certo, vamos ver se consigo ser curta e direta, como você gosta. Em resumo, a Elegant Events é uma empresa de realização de eventos que visa a ter como clientes as corporações mais importantes e a clientela mais rica. – Das quais há muitas em Seattle. Ela assentiu. – Exatamente. Meu objetivo foi, e é, planejar e realizar cada detalhe de um evento, para poupar os clientes de todas e quaisquer preocupações e dores de cabeça. Eles me dizem o que querem, e eu forneço. Se estiverem dispostos a pagar, encontrarei um jeito de realizar cada desejo e, se possível, ultrapassar suas expectativas. – E você faz isso com graça, elegância e coragem. O prazer deu-lhe ao rosto um rubor de que precisava muito. – Você devia escrever meus folhetos de propaganda. É precisamente nosso objetivo. Nós nos esforçamos para dar a cada evento alguma coisa única, preparar o ambiente perfeito. Seja destacar o lançamento de um novo produto, seja criar a lembrança perfeita de uma ocasião especial, que acontece apenas uma vez na vida. – Como o evento dos Marconi desta noite. Ela balançou a cabeça em divertida descrença. – Você está sempre por dentro de tudo, não é? Sim, como o evento dos Marconi desta noite. Só se faz 90 anos uma vez e Natalie está sob enorme pressão para tornar a celebração de aniversário do sogro uma ocasião inesquecível. Gabe não se lembrava da última vez que viu Catherine tão feliz e isso o encheu de remorso. Ela sofreu nas mãos dele. Não foi deliberado, mas não alterava os fatos. – Não duvido que você realize a festa em grande estilo – declarou ele, com absoluta convicção.


– Durante o tempo em que trabalhei na Piretti’s, e durante o tempo em que vivemos juntos, aprendi muito sobre o que funciona e, mais importante, o que não funciona. E, embora não esperasse que a empresa tivesse sucesso de imediato, para minha surpresa e alegria, ela teve. – A energia e o entusiasmo lhe enchiam a voz. – Conquistamos alguns clientes impressionantes e que pareceram satisfeitos com os diversos eventos que realizamos para eles. Pelo menos pensei que estivessem. Sua excitação diminuiu, e ele franziu a testa, preocupado. – Obviamente, alguma coisa saiu errada. O que aconteceu? O que sobrava de vivacidade em Catherine desapareceu, sendo substituído por tensão. – Duas coisas: primeiro, estamos perdendo clientes. Não é nada aparente, apenas contratos já assinados que de repente foram cancelados sem qualquer explicação. Todos são muito educados e encorajadores, mas, no fim, escolhem outra empresa. – E o segundo problema? – É o mais sério. – A preocupação escureceu os olhos dela e lhe tornou a voz rouca com o medo. – Estamos à beira da falência, Gabe, e não sei o motivo. Pensei que tivéssemos sido cuidadosas com a margem de lucro, mas talvez tenha havido mais desperdício do que percebi. Não consigo encontrar a falha, é fora da minha área de especialização. Sei que alguma coisa não está certa, mas não sei o que é. Minha esperança é que você consiga descobri-la e sugira mudanças para corrigir o problema antes de a empresa falir. Ele se agarrou a uma palavra-chave que não havia percebido até então. – Nós? – repetiu ele. Ela hesitou. – Tenho uma sócia, uma pessoa que prefere continuar anônima – apressou-se em explicar. Ele não gostou daquilo. – Por quê? Catherine apenas ergueu um dos ombros. – Ela prefere assim. Como metade do dinheiro necessário para abrir a empresa foi dela, respeito seu desejo de privacidade. Ela. Gabe não se permitiu demonstrar o alívio que sentiu ao perceber que a sócia era uma mulher, e não um homem. Era mesquinho da parte dele, mas parecia não se controlar, não quando se referia a Catherine. Mesmo assim, parecia-lhe estranho que a sócia preferisse manter a identidade em segredo. Talvez ele mandasse fazer uma investigação para tentar descobrir o motivo do mistério. – Dependendo do que descobrir, posso precisar que isso mude – advertiu ele. – Há uma grande chance de que eu precise conhecê-la e conversar com ela. – Discutimos essa possibilidade e ela concordou que, se isso fizer diferença para salvar a Elegant Events, estará disposta a se encontrar com você. – Boa decisão – disse ele de um jeito seco. – De acordo. Um rápido sorriso surgiu. Não percebia o quanto sentia falta dela até estar lá, ao lado, despertando uma dor que havia sido abafada, mas jamais desaparecera. – Diga-me o que precisa para começar – pediu ela. Ele se obrigou a prestar atenção. – Todos os extratos bancários e contábeis desde que abriram as portas. – Examinou uma lista mental. – Dívidas, credores, custos de bens comprados, pagos ou a pagar. Suas perspectivas, contratos passados e atuais, uma lista dos serviços oferecidos e quanto cobra por eles.


– Em outras palavras, quer uma cópia de tudo. Ela estendeu a mão para a pasta, abriu-a, tirou um grosso arquivo e estendeu-o para ele. – Tenho a maior parte dessas informações aqui. Ele assentiu. – Excelente. Vou verificar e pedir a Roxanne para preparar uma lista de tudo o mais que eu possa precisar. Uma sombra passou pelo rosto de Catherine, desaparecendo tão depressa que ele não a teria percebido se não estivesse olhando diretamente para ela. – Esperava manter meu problema estritamente entre nós dois. Você se importaria se deixássemos sua assistente fora disso? – Possível, mas não provável. Roxanne sabe quase tudo o que acontece por aqui. – E o que ela não sabe, tenho certeza de que fará de tudo para descobrir – comentou Catherine em tom suave. – De que outra forma ela poderá lhe fornecer tudo de que você precisa? Certo, ele conhecia uma bomba quando a via. – Deixarei Roxanne fora disso. – E se ela perguntar? Os olhos dele se estreitaram. – Está criticando a forma como administro minha empresa? Considerando que está aqui… – Não, eu… – Não achei que estivesse. – Ele cedeu. – Mas se faz você se sentir melhor, caso o assunto surja, eu direi a ela que você e eu estamos juntos de novo. Chamas de preocupação surgiram nos olhos de Catherine. – O que disse? – Afinal, não será uma mentira completa. – Ele sorriu em antecipação. – Na verdade, não será mentira nenhuma. Ela ficou tensa, como um camundongo que enfim descobre a armadilha. Esteve tão ocupada mordendo o gostoso pedaço de queijo que se esqueceu dela. Até então. – Do que está falando? – Você não me perguntou quanto vou cobrar para ajudá-la. Ela inspirou com força antes de erguer o queixo. – Que tolice a minha. Tinha me esquecido do pirata que você é, Gabe. – Sou mesmo – concordou ele de um jeito preguiçoso. – Um pirata até a alma. – Então, qual é o preço? O que você quer? Ele foi duro e direto. – Você. Quero você, Catherine, de volta à minha vida. De volta ao meu apartamento. De volta à minha cama. Ela se ergueu depressa. – Você ficou louco. Não pode achar que eu concordaria com uma coisa dessas. Ele a observou em silêncio por um longo momento antes de responder. – Acho que depende do quanto quer salvar sua empresa. – Não tanto assim. Ele se levantou e diminuiu a distância entre eles.


– Mentirosa. – O que quer que tenha existido entre nós acabou, Gabe, morreu. Era tão pequena comparada a ele. Tão delicadamente construída. E, no entanto, vibrava com total indignação feminina, com uma força e um poder que ele considerava irresistíveis. Era uma das qualidades que sempre admirou nela. Enquanto a maioria das mulheres buscava meios de se tornarem atraentes e frágeis para ele, Catherine jamais fez esses jogos. Sempre sabia onde estava com ela. Aqueles olhos gloriosamente singulares podiam matá-lo com um olhar ou fazê-lo derreter-se com o fogo da paixão. No momento, ela estava ocupada imaginando as mais variadas formas de fazer picadinho dele. – Sei que gosta de pensar que o que partilhamos está morto e enterrado – concordou ele, permitindo que seu divertimento ficasse evidente. – Mas esqueceu um pequeno detalhe. – Que detalhe? – exigiu ela. – Este… Ele passou os braços em torno dela e a apertou com força. Lembrava-se de como era senti-la, a maneira perfeita como o corpo dela se encaixava no seu. Era pequena e delicada, com curvas deliciosas que o terninho social apenas sugeria. Mas estavam lá e jamais deixaram de excitá-lo. Incapaz de resistir, tomou-lhe o rosto nas mãos e puxou-o para um beijo. Ela não resistiu, como ele esperava, mas também não correspondeu. Mas ele não esperava rendição instantânea. Levaria tempo. Por enquanto, a boca de Catherine, cheia e generosa, nada mais fez do que aceitar a pressão provocadora da dele. Com delicadeza, ele provocou sua passagem através daquela doce barreira, sabendo exatamente como ela gostava de ser tocada, acariciada, tomada. Sentia tanta falta do gosto dela, da sensação de tê-la nos braços, de seu perfume sutil. Sentia tanta falta de sua mente aguçada e, sim, até mesmo da língua ferina, quando se sentia enganada ou magoada. Sentia falta das noites calmas, quando se sentavam juntos no terraço para tomar um copo do merlot local, enquanto o dia se transformava em noite e o Puget Sound se tornava vivo com as luzes dos barcos piscando e do tráfego das balsas. Como a suave, doce conversa se transformava num suave, doce emaranhado de braços e pernas e bocas. Como suas roupas faziam um caminho de seda do terraço até o quarto. E então, a noite se transformava, passando daquela suavidade, daquela doçura, para algo intenso e ardente. Algo que marcava a conexão entre eles em cada fibra de seu ser. Não importa o quanto tivesse tentado apagar aquela parte de si mesmo que o ligava indelevelmente a ela; teria sido mais fácil lhe arrancar o coração e a alma. Não podia viver sem ela. E não viveria. Fora um morto-vivo por tempo suficiente. Recusava-se a passar mais um minuto sem Catherine em sua vida. E, se para tê-la novamente, tivesse de fazer chantagem, então faria. Porque, uma vez que a tivesse de volta, faria tudo o que fosse necessário para mantê-la com ele. Com um suave gemido, ela abriu os lábios e ele entrou. Por uma fração de segundo, ela se submeteu, recebendo tudo o que ele tinha para dar. O corpo dela se amoldou ao dele e seus lábios se moveram com a certeza familiar, mordiscando os dele, esfomeados. Os dedos de Catherine mergulharam nos cabelos dele e os seguraram firmemente. Ela ergueu um dos pés, a perna se enroscando na dele numa manobra conhecida. Ele reconheceu os sinais e respondeu


sem pensar. Tomou-lhe as nádegas nas mãos e ergueu-a, para que ela pudesse enlaçar-lhe a cintura com aquelas pernas inacreditáveis. No instante em que o fez, ela começou a lutar para se libertar. – Não! – pediu, afastando-se dele e recuando diversos passos, com as pernas trêmulas. – Isto não está acontecendo. – Tarde demais, Catherine. Já aconteceu. Ele viu a compreensão lhe queimar os olhos. Viu também um reconhecimento furioso de que os sentimentos que tinham um pelo outro não estavam nem perto de morrer, como ela alegara, embora, se não estivesse enganado, aquela fúria fosse voltada muito mais contra si mesma do que contra ele. Catherine fechou os olhos, afastando-o. – Maldição – sussurrou ela. – Este beijo prova o que eu disse, ou acha necessária outra demonstração? Ela puxou a bainha do blazer e, com uma exclamação de aborrecimento, abotoou a blusa. Em seguida, ajeitou a saia, passou as mãos nos cabelos e o olhou com irritação evidente. – Você provou o que disse – respondeu. E Gabe imaginava quanto esforço lhe custara olhar para ele. – Você tem que acreditar que eu realmente achava que tudo havia acabado entre nós, ou jamais o teria procurado. – Foi bastante ingênuo de sua parte, já que não há a mínima chance de que o que há entre nós algum dia termine, meu amor. Ela ergueu o queixo. – Não devia ter sobrado nada. Não esperava encontrar nenhuma chama acesa. – Não duvido disso nem por um minuto. – Isto... – Ela fez um gesto com a mão que abrangia Gabe, ela mesma e o beijo que ainda lhes queimava os lábios. – Nada disto me faz mudar de ideia sobre nosso relacionamento. Não vou voltar para casa. Casa. O escorregão ficou no ar por um momento infinito. Ele não respondeu, simplesmente sorriu, atento à palavra. Praguejando baixinho, ela correu para o sofá, pegou o arquivo que dera a ele e guardou-o na pasta. Jogando a alça da bolsa sobre um dos ombros, virou-se para encará-lo. Ele ficou deliberadamente entre ela e a porta; mas não a fez parar. – Vou sair – advertiu ela. – E vou passar em torno de você, através de você ou por cima de seu cadáver, mas eu vou sair. – E garantirei que isso não aconteça. Ah, hoje, não – assegurou ele, ao ver o brilho claro de alarme nos olhos dela. – Mas em breve, estarei em torno de você, através de você e, confie em mim, seu corpo estará longe de morto quando eu estiver em cima de você, dentro de você. – Ele deu um passo para o lado. – Quando mudar de ideia sobre precisar da minha ajuda com a Elegant Events, sabe onde me encontrar. Ela atravessou a sala, ficando fora do alcance dele enquanto se dirigia à porta. A mão se fechou na maçaneta, então ela hesitou. – Por que, Gabe? – perguntou em tom suave, jogando a pergunta sobre o ombro. – Por que as condições? – A verdade? – Se não se importa. As palavras saíram baixas e ásperas, a honestidade brutal tornando-as ainda mais devastadoras.


– Não se passa uma só noite em que não a deseje ardentemente, Cate. Nem uma só manhã surge sem que eu estenda a mão procurando por você. Quero pôr um fim à dor. Da próxima vez que estender a mão, quero que você esteja lá.


CAPÍTULO 2

FOI NECESSÁRIO usar cada grama de autocontrole para Catherine sair do escritório de Gabe sem parecer que estava tentando escapar das chamas do inferno. Pior, esquecera-se de Roxanne Bodine, também conhecida como criada de Satã, cujos olhos sagazes perceberam a angústia que Catherine não foi rápida a ponto de disfarçar. Um sorriso zombeteiro iluminou-lhe as feições vistosas. – A reunião não correu como esperava? – perguntou Roxanne, numa voz melosa que tinha um leve traço de sotaque sulino. – Se tivesse se dado o trabalho de perguntar, eu teria lhe dito que estava perdendo seu tempo. Você deixou esse peixe escapar do anzol há quase dois anos, e ele não está nem um pouco ansioso para ser apanhado de novo. – Talvez você devesse dizer isso a ele – respondeu Catherine, e desejou bater em si mesma por revelar tanto. Roxanne era capaz de lançar insultos com precisão absoluta, mas não era do tipo que gostava de recebê-los. Nem gostava da sugestão de que Gabe pudesse estar interessado em voltar para a rival, de quem tivera tanto trabalho para se livrar. – Algumas mulheres não compreendem o conceito de fazer uma retirada graciosa. Roxanne se levantou e estendeu uma silhueta tão completa e luxuriante como a de Catherine era pequena, delicada e de ossos finos. Ela se recostou no canto da escrivaninha com toda a graça indolente de um verdadeiro felino. Então afiou as garras para atacar o alvo mais próximo, que era Catherine. – Pensei que fosse mais orgulhosa e não tivesse coragem de vir rastejando de volta. Você está apenas pedindo para ser chutada para a sarjeta de novo. Por toda a sua vida, Catherine sempre escolheu a discrição, em vez de um confronto aberto. Sempre foi a boa garota, bem-educada, dando a outra face. Mas já bastava, não tinha mais nada a perder. – Não sei como sobreviveria sem você cuidando do meu bem-estar, Roxanne – disse Catherine, com um sorriso caloroso. – Talvez este seja seu problema. Talvez devesse cuidar de você mesma, em vez de cuidar de mim. – Ah, não se preocupe comigo, sou como um gato – retrucou ela, informando o óbvio. – Fui abençoada com sete vidas e tenho o dom de cair de pé. Catherine colocou uma das mãos no quadril.


– E, no entanto, aqui está você, ainda sentada atrás desta escrivaninha, como uma gata de rua, miando na porta de trás, pedindo para entrar. Pensei que, assim que conseguisse me afastar, você encontraria uma forma de entrar. Acho que essa é uma porta pela qual não consegue passar. A fúria transformou o rosto de Roxanne numa máscara branca com dois pontos de vermelho-vivo nas faces. – Acha que transformei sua vida num inferno antes? Espere para ver! Este é o meu território e farei o que for preciso para defendê-lo. Catherine fez um gesto amplo. – Vá em frente. Mas, enquanto está ocupada cuidando de seu território, talvez deva considerar um pequeno detalhe que parece ter esquecido. Isso a fez parar para pensar. – Não esqueci nada – insistiu Roxanne, um pouco tarde demais. – Não? Então pense. Você conhece seu chefe. Quando ele quer alguma coisa, não deixa nada ficar no caminho. O que Gabe quer, ele consegue. – Catherine esperou alguns segundos para Roxanne compreender bem. – Você trabalha para ele há… o quê, dois anos e meio, três anos? E, no entanto, jamais foi escolhida. Estou disposta a apostar que não consegue nem fazê-lo experimentar a mercadoria. Se não se sentiu tentado em todo este tempo, o que a faz pensar que ele um dia se sentirá? Não esperou a resposta. Se havia uma coisa que aprendeu desde que abriu a Elegant Events, era quando arrumar as malas e sair. Sem outra palavra, virou-se e se dirigiu para os elevadores. No instante em que entrou num deles, verificou as costas. Para seu alívio, não havia nenhuma faca ali. Ainda. – ENTÃO, CONTE-ME com todos os detalhes como foi – pediu Dina Piretti, ansiosa. – Não contou a ele sobre mim, contou? Catherine descansou a pasta no console ao lado da porta de entrada e lançou um olhar inquieto à mãe de Gabe. – Não, ele ainda não descobriu que você é minha sócia – garantiu. Dina deixou escapar um suspiro de alívio. – Estou ouvindo um “mas”. – Mas não deu certo – confessou Catherine. – Acho que estamos sozinhas. Teremos de descobrir, nós mesmas, onde está o problema ou contratar um consultor para nos aconselhar. Um consultor que não seja seu filho. Dina olhou-a em total descrença. – Não – gaguejou. – Você deve ter compreendido mal. Não acredito que Gabriel tenha se recusado a ajudá-la, justo a você. Catherine hesitou; tinha duas escolhas. Podia mentir, uma coisa que odiava e que não fazia bem. Ou podia contar à mãe de Gabe o que seu precioso primogênito exigia como pagamento pela ajuda. Nenhuma das opções lhe agradava. – Preciso de uma bebida – anunciou. Talvez, enquanto fizessem o café, tivesse uma inspiração brilhante e súbita e encontrasse uma terceira opção. – E depois acho melhor voltarmos ao trabalho. A festa de aniversário de Marconi é esta noite e tenho de dar uma dúzia de telefonemas enquanto sigo para lá, para supervisionar o ambiente.


Dina a liderou no caminho em direção à cozinha, embora não fosse necessário, já que as duas passavam muito tempo trabalhando juntas naquele confortável recinto. A ideia de criarem a Elegant Events nasceu bem ali, na casa estilo Queen Anne de Dina, enquanto estavam sentadas à grande mesa de carvalho da cozinha. Desde então, preencheram o vazio da grande casa transformando diversos dos quartos em escritórios, o que até então Gabe não percebera. A divisão de trabalho funcionava de acordo com as habilidades de cada uma. Catherine cuidava da parte externa e Dina, dos trabalhos burocráticos da empresa. No momento, a mais velha das duas estava com a expressão mais astuta, mais de mulher de negócios. – Está me escondendo alguma coisa, Catherine. Você não é assim. Conte-me o que deu errado. Ah, espere. Acho que posso adivinhar. – Um amplo sorriso, idêntico ao de Gabe, iluminou-lhe o rosto. Quando começaram a trabalhar juntas, aquele sorriso causava a Catherine uma dor enorme. Mesmo naquele momento, ainda sentia uma fisgada que não podia ignorar. – Gabriel fez aquelas jogadas patenteadas da Piretti contra você, não fez? Catherine virou as costas deliberadamente para a sócia. – Uma ou duas – admitiu. Colocou grãos frescos de café torrado no moedor e ligou-o, aliviada porque o barulho da máquina tornava impossível continuar a conversa. No momento em que o moedor parou, Dina começou. – O pai dele também era assim, e jamais consegui resistir. Uma leve sombra de dor apareceu em seus olhos e aprofundou as rugas ao lado da boca. Não que isso lhe diminuísse a impressionante beleza, uma beleza que passou para o filho numa forma bem mais masculina. – Engraçado o quanto ainda sinto falta dele depois de todo esse tempo. Catherine deixou de lado o café e abraçou Dina. – Por tudo o que você e Gabe me contaram sobre ele, sei que foi um homem incrível. Gostaria de têlo conhecido. – Ele teria adorado você. – Dina se afastou e forçou um sorriso. – Está demorando demais para me contar o que aconteceu. Por que Gabriel se recusou a ajudar? – Ele não se recusou – disse Catherine –, apenas exigiu um preço que não estou disposta a pagar. – Ah. – Enfim ela compreendeu. – Ele quer que você volte para ele, não quer? – Como você…? – Os olhos de Catherine semicerraram. – Conversou com ele antes de eu chegar? – Há meses que não falo sobre você com Gabriel e não conversei com ele sobre nada nos últimos três dias – insistiu Dina. Foi até a máquina de café e ligou-a, antes de se voltar e olhar para Catherine. – Entretanto, sou mulher e conheço meu filho. Sei que ele ainda ama você. Não, amor, não, Catherine quase disse. Luxúria, talvez, mas ele jamais a amou de verdade. Mas não podia explicar nada disso a Dina. – Ele disse que só ajudaria se eu voltasse para ele. – Você recusou, naturalmente. – Naturalmente. – Porque você não sente nada mais por ele. Catherine não ousou responder e olhou para Dina com olhos preocupados. – Sei que você sempre esperou que superássemos nossas diferenças, mas isso não vai acontecer, entende? Foi a vez de Dina parecer preocupada.


– Jamais exigi respostas que você não estava pronta para falar. Acho que alguma coisa deu horrivelmente errado. Você estava tão mal naquelas primeiras semanas, depois de se separarem, que não tive coragem de perguntar. Mas sempre pensei que você e Gabriel consertariam tudo. Eram tão perfeitos juntos, estavam tão apaixonados. – Fez um gesto com a mão, deixando o assunto de lado. – Não faz mal, você teve toda a razão de recusar a proposta dele. Foi muito grosseiro da parte de Gabriel impor condições para ajudar. Catherine sorriu, aliviada. – Não está aborrecida? – Estou desapontada. – Serviu uma caneca do café fresco para cada uma, pondo um ponto-final no assunto. – Por que não esquecemos tudo isso por enquanto e cuidamos de negócios? Que tal verificarmos mais duas ou três vezes para ver se está tudo em ordem para o evento desta noite? Não podemos nos dar o luxo de errar. Não havia dúvida sobre isso. Com as dificuldades financeiras e os contratos que tinham perdido, havia uma urgência maior para que tudo saísse perfeito. As horas seguintes voaram enquanto trabalhavam. Para alívio de Catherine, a intensidade do trabalho não lhe permitiu pensar em Gabe. Dedicou toda a concentração e esforço para finalizar os últimos toques do evento dos Marconi. Mais do que nunca, precisava que a noite fosse um sucesso total, para que Natalie Marconi falasse com admiração sobre a Elegant Events a todos os seus amigos mais próximos e, melhor ainda, aos contatos profissionais de seu marido. Às nove horas daquela noite, a festa estava em pleno andamento e Catherine trabalhava nos bastidores para manter tudo correndo com eficiência, enquanto fazia todo o possível para não aparecer. Com meia dúzia de walkie-talkies, mantinha todos os setores interligados e coordenava o progresso da festa. Mas sempre havia emergências de última hora, e aquela noite não foi exceção. A banda chegou tarde, e os fornecedores subestimaram a quantidade de champanhe necessária para manter sempre cheias as taças das centenas de convidados que apareceram para brindar o patriarca dos Marconi. Os dois problemas foram corrigidos antes que alguém percebesse, mas Catherine foi obrigada a realizar algumas rápidas manobras e dar alguns telefonemas, combinando ameaças e apelos. Catherine parou à porta que levava à área da festa e, pelo que parecia a centésima vez aquela noite, examinou a lista que pregara ali. Cada aspecto da festa fora listado e cuidadosamente rubricado pelo responsável, depois de cuidar de tudo. Catherine descobrira que a lista era uma excelente salvaguarda, já que mantinha todos atualizados com o progresso do evento e garantia que cada um fizesse sua parte. Apenas alguns itens continuavam em branco: o bolo de aniversário, algumas tarefas de fornecimento de alimentos e bebidas e, é claro, a limpeza depois da festa. Satisfeita, virou-se para ir à cozinha a fim de falar com os fornecedores sobre o bolo, quando sentiu um arrepio conhecido na espinha. Voltou-se e não se surpreendeu ao encontrar Gabe encostado no portal atrás dela. Por uma fração de segundo, tudo o que Catherine fez foi ficar parada lá, olhando. Foi assim também quando o viu pela primeira vez. Um olhar lhe roubou os últimos gramas de razão e sensatez. Com 1,90m, Gabe tinha ombros largos num corpo poderoso e bem-torneado. Vestia toda aquela potente masculinidade num terno formal, que lhe transformava o corpo numa arma letal, à qual mulher nenhuma tinha a chance de resistir. Mas era muito pior do que isso. Gabe Piretti também possuía as feições impressionantes de um anjo e os olhos azul-cobalto de um demônio. No momento, aqueles olhos predadores estavam fixos nela.


Não era apenas o impacto físico, bruto de Gabe, Catherine foi obrigada a admitir. Talvez para algumas mulheres isso fosse suficiente. Talvez sua aparência e a constrangedora quantidade de algarismos que lhe enfeitavam a conta bancária fossem suficientes. Mas ela sempre quis mais do homem que escolhesse. Queria um coração e uma mente que trabalhassem em sincronia com os dela. Por um tempo curto, encontrara isso com Gabe, ou, pelo menos, até ele deixar claro que o dinheiro era seu deus e o que ela oferecia era apenas o glacê que preenchia as muitas camadas de seu bolo. Talvez Gabe não tivesse percebido sua reação impotente a ele, embora não soubesse por que se dava o trabalho de fazer essa especulação tão sem sentido. Mas até essa esperança morreu, quando viu o brilho de diversão no olhar dele. Como poderia ter esquecido? Gabe era capaz de entender o que uma pessoa sentia e pensava através de um simples olhar. Era parte do que fazia dele um negociador tão bom. Ninguém o enganava. Exceto Roxanne. – Posso perguntar o que está fazendo aqui? – indagou Catherine. Um meio-sorriso iluminou o rosto de Gabe. – Fui convidado. – É claro. – Não duvidou disso por um segundo. – Você se esqueceu de mencionar isso quando o vi esta manhã. Ele deu de ombros, num gesto descuidado. – Sim, devo ter me esquecido. – A atenção dele se voltou para a boca de Catherine. – Acho que estava preocupado com assuntos mais importantes naquele momento. – Por falar em assuntos mais importantes, tenho trabalho a fazer no momento. Assim, se me der licença… – Ela começou a passar por ele, mas Gabe se virou apenas o bastante para tornar o movimento difícil. – Gabe, por favor – sussurrou. – Que péssima ideia. – Lamento ter de discordar. Quando ela fez outro movimento para passar, Gabe a apertou contra a parede, prendendo-a. Estendeu a mão e passou um cacho solto do cabelo de Catherine para trás da orelha, então desceu os dedos pela curva do rosto até a boca. E lá parou. – Dê-me apenas mais um minuto. – Esqueça, Gabe. Não posso ser vista conversando com os convidados. – Quero apenas falar com você. Pode me dar um minuto, não pode? Um minuto. Sessenta segundos de puro paraíso. Ela não resistiu à tentação, não quando aqueles olhos demoníacos prometiam tanto prazer. – Posso lhe dar 30 segundos. Mas sem beijar a empregada – advertiu ela. O sorriso dele foi lento e poderoso. – Você está sensacional esta noite. Esse tom de bronze transforma seus olhos em puro ouro. Ela levou alguns segundos preciosos para encontrar a voz e responder de forma quase normal. – Eu estou discretamente elegante – corrigiu ela, numa voz bastante rouca. – Tenho muito trabalho para ficar discretamente elegante e combinar com o ambiente sem me destacar. Ele lhe lançou um olhar divertido. – Então devo concluir que seria inadequado você se destacar. – Seria – garantiu ela. Apenas mais alguns segundos e ela se afastaria dele. Então obrigaria sua mente a se concentrar no trabalho. Apenas mais um momento para sentir a poderosa pressão do corpo dele conta o dela. Para


encher os pulmões com seu cheiro único. Para baixar a guarda só essa vez e se entregar às lembranças do que acontecera e do que poderia ter acontecido, se ao menos… Ela respirou fundo, obrigando-se a pensar em coisas triviais e irreverentes. Com sorte, isso a ajudaria a recuperar a sanidade, algo que evidentemente perdera. – Não quero usar coisas berrantes demais, nem casuais demais para a ocasião. Quero que a atenção fique voltada para o evento e para os convidados, não para mim. – Compreendo seu dilema. – Ele continuava perto demais, tão perto que ela sentia a suavidade do hálito dele na pele. – Há apenas um probleminha com a situação. – O que é? – perguntou ela. – Você pode estar vestida com um saco de estopa e mesmo assim estará mais linda do que qualquer mulher aqui. Não permitiria que os elogios a afetassem. E talvez não o tivessem, se não visse o brilho de paixão nos olhos dele e ouvisse sinceridade em sua voz. Ela enfraqueceu, apenas por um instante, com o corpo e o coração suavizando, se entregando. Era o convite de que ele precisava. Debruçou-se sobre ela, pressionando-a à parede. Em seguida, ele a consumiu. Pensava que o beijo que haviam partilhado mais cedo ameaçara dominá-la, mas não era nada comparado a este. Ele sabia exatamente como tocá-la para eliminar cada grama de controle que tinha. Derrubou-lhe as defesas e a penetrou com uma facilidade que a abalou profundamente. E, naquele momento, ele virou seu mundo de pernas para o ar. Catherine ouviu um gemido áspero e não soube se havia saído de sua garganta ou da dele. Tudo o que sabia era que soava primitivo e desesperado. Ficou tempo demais sem isto, foi obrigada a reconhecer. Foi privada de alguma coisa da qual nem mesmo sabia que precisava. Ele era seu ar, seu coração, seu sustento e sua razão de ser. Como sobrevivera todo aquele tempo sem ele? Incapaz de evitar, ela se enroscou em torno dele e se rendeu. E então se entregou mais, colocando todo anseio, esperança e desespero naquele único beijo. Catherine não tinha ideia de quanto tempo ficaram lá, a respiração dos dois saindo em haustos intensos, as mãos apalpando, os corpos se pressionando. Talvez ela jamais voltasse a si, se não tivesse sentido subitamente que estavam sendo observados. Segurando-lhe os ombros, ela o empurrou, mas nada aconteceu. Era tão impossível movê-lo quanto a um carvalho e, por causa de sua altura, ele lhe bloqueava a visão de quem quer que estivesse observando-os. Tudo o que viu foi uma pequena mancha vermelha. – Acabou a hora do recreio – disse ela por fim. Ele levou um minuto para libertá-la, e ela precisou de outro para recuperar o equilíbrio e tentar andar pelo corredor. Felizmente usava sapatos sem salto. Se tentasse andar com os saltos habituais, suas pernas trêmulas a teriam feito cair de costas. Ele devia ter percebido o resultado do que fizera, porque o som da risada dele a seguiu pelo corredor, juntamente com ele. – Estou falando sério, preciso trabalhar, Gabe – disse ela, tentando se livrar dele. Olhou por um instante para o walkie-talkie, para ter certeza de que não tinha acidentalmente acionado o som. Para seu alívio, viu que estava tudo em ordem. – Não vou atrapalhar. Tenho um motivo legítimo para segui-la. – O que é? – Preciso observar como você dirige sua empresa. Só para saber.


– Só para saber… o quê? – perguntou, desconcertada. – No caso de você mudar de ideia e me pedir ajuda. Ela parou de repente e se virou para ele. – Isso não vai acontecer. Não posso pagar o preço que cobrou. – Balançou a cabeça. – Correção, não quero pagar o preço. Ele só precisou erguer uma das sobrancelhas para ela se lembrar do que havia acabado de acontecer entre eles e compreender como era vazia sua afirmação. – O tempo dirá – declarou ele, apenas. Catherine fez um gesto impaciente com a mão e olhou ao redor, sem saber onde estava ou como chegara lá. Que diabos iria fazer quando ele a interrompesse? Estava perdida. Com um suspiro de irritação, virou-se e voltou pelo caminho que percorrera. Olhou a lista mais uma vez e saiu. Faria uma inspeção rápida de todos os pontos e então chamaria os fornecedores... Estalou os dedos. Os fornecedores. Era o que iria fazer, pois precisava coordenar a apresentação do bolo. Lançou um olhar rápido a Gabe. Se ela se virasse de novo, confirmaria que ele a havia deixado fora de si; ela não podia fazer isto. Não lhe daria essa vantagem. Assim, continuou andando para fazer o círculo completo e voltar para onde ele a fizera parar. Cruzou o gramado maravilhoso em direção ao lago Washington, parando na demarcação entre a grama e a areia branca importada. Ficou em pé lá por um momento, para olhar a água escura. E, durante todo o tempo, estava dolorosamente consciente da presença dele. – Você fez um trabalho incrível, Catherine – comentou Gabe em tom suave. – As gôndolas são um toque particularmente especial. Tenho certeza de que lembram Alessandro de sua casa na Itália. Catherine sorriu ao ver as gôndolas e os gondoleiros que as dirigiam, todos usando trajes tradicionais de calça preta, camisa de listras brancas e pretas e chapéu de palha adornado com fitas. Alguns estavam até cantando enquanto remavam, manobrando o remo único com impressionante habilidade, enquanto levavam passageiros em torno da parte do lago separada por um cordão de isolamento. Marcadores de canais elaborados para parecerem luzes flutuantes transformavam a cena numa romântica terra encantada. – Foi um comentário de Natalie que me fez pensar nisso – explicou Catherine. – Estava um pouco preocupada com o trânsito no lago, mas conseguimos permissão para usar esta pequena parte por algumas horas esta noite. Eu até consegui que o pessoal de segurança ficasse nos limites, para desviar barcos da área exclusiva. – Inteligente, mas não há uma zona proibida aqui, há? – Deve haver – explicou ela –, mas você sabe como é. Contente por ver que os convidados estavam desfrutando plenamente de sua pequena amostra de Veneza, ela voltou a atenção para o local do bufê instalado em um dos lados do grande gramado. Escolhera fornecedores especializados na cozinha italiana autêntica, e eles tinham feito um trabalho maravilhoso, erigindo tendas graciosas de seda e tule, com mesas carregadas de alimentos. Com a brisa forte que vinha do lago, as tendas tinham a função dupla de proteger os alimentos e impedir que os pequenos fogareiros, acesos sob os pratos quentes, apagassem. Ao lado das tendas, mesas cobertas por toalhas de linho branco se espalhavam pela área, com a prataria e os cristais brilhando suavemente sob as luzes. Catherine verificou a área uma última vez e estava prestes a voltar para a cozinha quando viu Roxanne. Estava conversando com Natalie, enquanto seu olhar passava pela multidão, claramente


procurando por alguém. Catherine podia adivinhar com facilidade quem seria, o homem que estava bem ao lado dela. – Não sabia que trouxe sua assistente com você – disse a Gabe. Ele lhe seguiu o olhar e deu de ombros. – Não trouxe. Acho que ela é amiga da filha de Natalie. Como se percebesse os olhares deles, Roxanne virou-se para Catherine… e Gabe. Então seus lábios se curvaram num sorriso assassino, um sorriso horrivelmente familiar que, no passado, advertira Catherine de que haveria problemas. Jogando um beijo para a anfitriã, ela pediu licença e se dirigiu até eles, ondulando pela grama com seu passo claramente felino. Ela estava fabulosa, admitiu Catherine com relutância, vestida de vermelho, do tipo de parar o trânsito. O corpete muito justo do vestido deixava à mostra uma boa extensão de pele bronzeada, enquanto a saia mal cobria as coxas. Ela lançou um olhar de desafio a Catherine antes de se enroscar em Gabe. – Já que não estamos no trabalho… – Umedeceu os lábios antes de plantar-lhe um beijo demorado nos lábios, então recuou e riu, o rosto muito perto do dele. – Viu o que está perdendo? Eu lhe disse. Ele a observou com diversão indulgente. – Uma pena que sigo a regra de não misturar trabalho com prazer – disse ele em tom tranquilo. – Caso contrário, você estaria com sérios problemas. – Algumas regras foram feitas para serem violadas. E, caso você não tenha percebido, sou ótima com problemas. – Os olhos escuros brilhavam. – Não concorda? – Que você é ótima com problemas? – Ele inclinou a cabeça. – Com certeza. Infelizmente, minhas regras são escritas em concreto. Jamais as violo, não importa o quanto a oferta seja tentadora. Foi uma rejeição gentil e, talvez, se estivessem sozinhos, Roxanne a recebesse melhor. Infelizmente, a presença de Catherine adicionou humilhação ao constrangimento. Decidindo que era hora de fazer uma retirada estratégica, Catherine lançou aos dois seu sorriso mais profissional. – Se me derem licença – murmurou –, eu os deixarei para desfrutarem da festa enquanto volto ao trabalho. Se houver alguma coisa que possa fazer para tornar a noite mais agradável, por favor, não hesitem em me dizer. Com isso, ela se dirigiu para a cozinha. Maldição. Roxanne não gostou que ela houvesse testemunhado aquela pequena cena com Gabe. Apenas esperava que sua rápida retirada afastasse qualquer ataque de vingança. Não podia deixar que nada desse errado aquela noite. Se a preciosa assistente de Gabe decidisse retaliar, poderia causar sérios problemas para a Elegant Events. Catherine deu uma dúzia de passos antes de ser agarrada pelo braço e virada para trás. – Você não vai querer sair agora – informou Roxanne em voz baixa, obrigando-a a ficar parada. – A festa vai começar a ficar interessante. Os olhos de Catherine se estreitaram. – Do que está falando? Roxanne apenas sorriu. – Espere… Ah, na hora exata. O som alto de motores ecoou pelo lago e dois barcos a motor, em forma de foguete, entraram na área reservada para as gôndolas.


CAPÍTULO 3

CATHERINE OLHOU, horrorizada. – Ah, não. Não, não, não. – Agora sim, isso é legal – observou Roxanne, com um sorriso muito satisfeito. – Talvez esta parte do lago não fosse o melhor lugar para pôr seus barquinhos. No último instante possível, os barcos invasores desligaram os motores, causando enormes ondas entre as gôndolas, fazendo três delas virarem e enchendo as demais de água. Gritos de pânico ecoaram pelo lago enquanto os convidados, vestidos em suas melhores roupas, caíam na água, que ainda guardava o frio da primavera. Enquanto Roxanne voltava calmamente para a casa, Catherine arrancou o walkie-talkie do cinto e ligou o som. – Preciso de todo mundo no lago. Agora. Correu em direção à margem enquanto dava ordens. À esquerda, viu Gabe correndo pelo gramado em direção à água, assim como diversos dos outros homens presentes. – Houve um acidente com as gôndolas. Há convidados na água. Todos, deixem tudo o que estiverem fazendo e venham ajudar. Davis, chame a patrulha marítima e peça que enviem imediatamente barcos de emergência. Em minutos, convidados e funcionários estavam tirando pessoas da água. – Quero que os gondoleiros localizem os convidados que estavam nos barcos – gritou Catherine. A compreensão foi instantânea e, de imediato, os gondoleiros começaram a cercar e organizar seus passageiros, para confirmar que todos os que haviam caído no lago haviam saído em segurança. – Tenham a certeza de que todos foram retirados. Assim que terminarem, falem comigo. Natalie surgiu ao lado dela, uma combinação de lágrimas e fúria queimando nos olhos. – Como pôde deixar que isto acontecesse? – exigiu. – Meu sogro está lá, meus netos estão lá. – Tente ficar calma, Natalie. Em poucos minutos, todos estarão seguros – disse Catherine, tentando tranquilizá-la. – Calma! Não me diga para ficar calma. – Ela ficou à beira do gramado, tentando desesperadamente encontrar sua família em meio aos convidados ensopados. Lágrimas caíram quando os viu. – Se alguma coisa acontecer com minha família ou meus amigos por causa disto, vou processá-la!


– Lamento, Natalie, lamento de verdade. Chamamos a King County Marine Unit, e eles já estão vindo. A área está cercada, tenho barcos ancorados bem diante das boias de advertência, para ajudar a desviar o trânsito do lago desta parte, mas eles simplesmente entraram. – Ela fez um gesto em direção aos barcos a motor responsáveis pelo desastre. – Se a unidade da Marinha apanhar esses sujeitos antes que desapareçam, tomará as medidas necessárias. Enquanto isso, todo o meu pessoal está lá ajudando as pessoas a voltarem para a margem. Vamos precisar de tolhas, se tiver. – É claro que tenho toalhas – respondeu Natalie, áspera. – Mas isso não muda o que aconteceu. É um desastre total. Avisaram-me para não contratar você, Catherine. Mas gostava de você e me disse que faria o trabalho com perfeição. Sabia o quanto era importante para mim... Catherine não ouviu o resto do comentário de Natalie, talvez porque ele tivesse terminado em um grito, enquanto a água parecia explodir em torno delas. Os sprinklers espalhados pelo gramado começaram a funcionar, jogando água nos convidados, nas mesas e na comida. Em segundos, aqueles que não haviam sido jogados no lago estavam tão ensopados como os que haviam caído. Pessoas corriam em todas as direções. A filha de Natalie tropeçou numa das pequenas estacas que prendiam uma das tendas e causou a queda de uma parte dos fogareiros que mantinham os pratos quentes. As chamas dos fogareiros se espalharam para o material leve da tenda e devoraram a seda e o tule. Se os sprinklers não estivessem funcionando, toda a área teria se transformado num inferno. Catherine correu para a tenda e arrancou a parte incendiada, na tentativa de apagar as chamas que não eram alcançadas pela água dos sprinklers. Sentiu o calor ardente percorrer-lhe as mãos. Mal tinha derrubado o tecido no chão, onde as chamas morreram, quando um braço se fechou em sua cintura e a tirou da área. No momento seguinte, foi jogada na grama e rolada diversas vezes. Ela lutou contra o agressor, dando até um soco num queixo duro como ferro, antes que o braço afrouxasse. Tirando os cabelos molhados do rosto, ela se viu presa no chão, com o nariz encostado no de Gabe. Tentou respirar enquanto lágrimas de raiva lhe enchiam os olhos. – Que diabos pensa que está fazendo? Por que me agarrou? – Ela não parecia compreender o que estava acontecendo. – Estava tentando apagar o fogo. – Eu também. Você estava em chamas, Catherine. Ele agarrou a manga do vestido e lhe mostrou as marcas de queimadura. Então rasgou a costura da manga, do pulso até o ombro e procurou marcas de queimadura na pele. Não encontrou nenhuma, e uma expressão de alívio intenso lhe tomou o rosto. – Parece que a peguei a tempo. Mais um minuto e você estaria a caminho do hospital. – Eu… eu pensei que estava sendo atacada. – Percebi. – Ele mexeu o queixo de um lado para outro. – Você tem um gancho de direita impressionante, por falar nisso. Ela enterrou a cabeça no ombro dele e lutou para se controlar. Tudo acontecera tão depressa, não conseguia compreender o que ocorrera. – Não consigo entender, Gabe. O fogo… Deus do céu, a tenda pegou fogo tão depressa. Se alguém estivesse por perto… Ele a abraçou com força. – Calma, querida, todos estão bem, e os que estavam na água saíram sem se machucar. O melhor de tudo é que a unidade da Marinha cercou os barcos invasores. Ela sentia as emoções crescendo e lutou para controlá-las. A histeria não ajudaria. Não ali, não naquele momento. Precisava manter a cabeça fria até chegar em casa e se arrastar para dentro de um


buraco escuro. – Quem são eles? Obrigou-se a se afastar do abraço protetor de Gabe, embora fosse muito mais fácil ficar agarrada a ele, e depois se ajoelhou. – E como os sprinklers começaram a funcionar? Eu mesma os verifiquei. Estavam programados para abrir só amanhã de manhã. – Não sei. – Ele a acalmava com a voz e com o toque. – Vamos dar um passo de cada vez, querida. Sei que foi horrível, mas vamos descobrir o que aconteceu. Ela ficou ajoelhada lá, molhada e tremendo, enquanto olhava a cena. Mesas e cadeiras estavam caídas, cacos de cristal e louça brilhavam sob as luzes do jardim. As outras tendas também tinham sido derrubadas por convidados que corriam em fuga, e, por milagre, não haviam se incendiado. Mas as mesas do bufê tinham sido todas derrubadas e a comida se espalhava pelo gramado, em pilhas ensopadas. Ao longo das extremidades da propriedade, pessoas se juntavam, parecendo chocadas e fora de si. Deus do céu. Catherine baixou a cabeça, o fracasso pesando. – Acho que não vou precisar de sua ajuda para salvar minha empresa, considerando que minha carreira agora está oficialmente acabada. – Não necessariamente. – Havia compaixão na voz dele. – Salvei empresas em situações piores. Por um milésimo de segundo, ela sentiu o renascimento da esperança. Ergueu a cabeça para olhá-lo. – Acha mesmo que a Elegant Events pode se recuperar disto? – Jamais saberemos se não tentarmos. Catherine respirou fundo. – Neste caso… – Parecia que ela só tinha uma escolha. – Sua oferta desta manhã ainda está valendo? Não havia um traço de triunfo na voz ou na expressão dele. – Jamais deixou de valer. BEM CEDO, na manhã seguinte, o sol enchia a cozinha de Dina e transformava os vidros das portas dos gabinetes em espelhos. – Você não tem de fazer isto, Catherine – protestou Dina. – Não tem de concordar com os termos que Gabriel exigiu durante um momento crítico. Dadas as circunstâncias… – Dadas as circunstâncias, sim, tenho – insistiu Catherine. – Sempre fui uma mulher de palavra e não vou mudar só porque estava sob pressão na noite passada. Se alguém pode salvar alguma coisa do desastre Marconi, é Gabe. Confie em mim, precisamos de alguém do calibre dele se queremos impedir que a Elegant Events passe a ser conhecida como um desastre. Catherine recostou o quadril na bancada e tentou não pensar sobre a noite anterior. Já tinha sido ruim o bastante passar a noite inteira com manchetes negativas atormentando sua mente. Era hora de se concentrar nas soluções para o futuro, e não de remoer os acontecimentos passados e inalteráveis. Mas parecia não evitar; já nas primeiras horas da manhã, havia chegado a algumas conclusões muito desagradáveis. Embora se recusasse a aceitar a responsabilidade pela invasão dos barcos, que tinha certeza de que fora de Roxanne, eram os outros incidentes que mais a perturbavam. As iniciais dela estavam na lista, ao lado do item “mudar a hora dos sprinklers automáticos”. Lembrava-se claramente de ter feito isto. Na verdade, conferira o aparelho digital uma segunda vez


antes de a festa começar, apenas para garantir. Bateu os dedos na bancada. Talvez tivesse cometido um erro. Talvez tivesse programado para a noite, em vez de para a manhã seguinte, embora na ocasião tivesse tomado todo o cuidado para evitar um erro desses. E havia, ainda, a estaca da tenda. Não podia atribuir a culpa disso a Roxanne também. Vira a filha de Natalie tropeçar na corda que amarrava a tenda à estaca. É verdade que a terra molhada poderia tê-la soltado, mas era responsabilidade dela garantir que tais incidentes não acontecessem. Ponto. Era a premissa fundamental de sua empresa. – Sei o que está fazendo e tem de parar com isto, Catherine. – Dina se aproximou e lhe deu um abraço rápido. – Você vai ficar exausta por uma coisa que não é sua culpa, e isso não ajudará. Vamos lidar com uma coisa de cada vez, começando com… – Ela fez uma pausa. – O que, exatamente, você prometeu a Gabriel, se não se importa que eu pergunte? – Que eu voltaria a morar com ele. – Dizer as palavras, por si só, era difícil. Não sabia como seria capaz de lidar com a realidade de viver com ele de novo. – Prometi que ficaria com Gabe até ele descobrir uma forma de recuperar a Elegant Events. Mas depois da noite passada... – Como você mesma disse, se alguém pode fazer isso, é Gabriel. – Não duvido de que ele seja capaz de descobrir por que a empresa está perdendo dinheiro. – É a especialidade dele – admitiu a mãe. – Quando assumiu o controle da Piretti’s, descobriu quais eram os problemas financeiros e tapou os buracos no prazo de um mês. Desde então, ele só melhorou. Consegue desmanchar uma empresa e reconstruí-la melhor do que ninguém que eu conheça. É melhor até do que o pai. – É com isso que estou contando. Mas os outros problemas são mais difíceis. Se não descobrirmos por que somos incapazes de manter alguns dos contratos-chave, como ele conseguirá? E agora, depois do incidente Marconi, isso talvez nem importe mais. De alguma forma, vamos ter de descobrir um esquema sensacional para reconstruir nossa reputação. – Dirigiu um olhar severo a Dina. – Estou esperando uma inundação de cancelamentos assim que todos ficarem sabendo. E duvido que nossos contratos sejam capazes de impedir que eles nos dispensem. – Gabriel será capaz de convencê-los a honrar os contratos. – É melhor que alguém seja. – Então, qual é o próximo passo? – perguntou Dina. – O que faremos de agora em diante? Catherine passou os dedos nas têmporas para tentar diminuir a dor de cabeça. – Tenho uma reunião com Gabe em menos de uma hora. Devemos discutir uma estratégia. Gostaria que você continuasse a cuidar do escritório, se não se importa. Você sempre foi incrivelmente convincente com os clientes quando eles ligam. O sorriso de Dina brilhou. – Sou ótima com telefonemas. Pela primeira vez no que parecia muito tempo, Catherine riu. Foi maravilhoso, quase uma catarse. – Sim, você é – concordou. – E, se puder dar alguns daqueles telefonemas inacreditáveis hoje, ficaria grata. – Qualquer coisa para ajudar, você sabe. – Sim, sei. – Segurou a mão de Dina. – Como posso lhe agradecer por tudo o que fez? Não apenas hoje, mas todos os dias dos últimos dois anos. Dina balançou a cabeça.


– Não precisa me agradecer. – Por favor, me deixe dizer isto. – Lágrimas encheram os olhos de Catherine, inesperadas, indesejáveis e, sem dúvida, resultantes da exaustão. – Você me acolheu numa época em que precisava desesperadamente de alguém. E me recebeu, apesar de eu ter abandonado seu filho. Você me deixou viver aqui e cuidou de mim durante aqueles dois primeiros meses, até eu me sentir bem o bastante para encontrar meu próprio apartamento. Você não foi só uma amiga, foi a mãe que nunca tive. – Ah, querida, agora você está me fazendo chorar. Ninguém devia perder a mãe, especialmente numa idade tão tenra, tão impressionável. Se pude substituí-la para você, pelo menos um pouquinho, fico imensamente feliz. Eu apenas queria… – Ela mordeu o lábio inferior, com uma expressão de grande culpa. – Tenho uma confissão a fazer. – Deixe-me adivinhar, você não estava sendo altruísta quando me recebeu tantos meses atrás? Fez isso porque esperava que Gabe e eu um dia nos entenderíamos? – Você sabia? – Vamos dizer que suspeitei. – Espero que não tenha ficado ofendida. Catherine balançou a cabeça. – Nem um pouco. – Com uma pequena exclamação, tomou nos braços a mulher que uma vez tivera a esperança que fosse sua sogra e lhe deu um forte abraço. – Obrigada por tudo. No entanto, não tenha esperanças em relação a mim e Gabe. É apenas temporário, depois de alguns meses ele compreenderá que nossa separação, dois anos atrás, foi inevitável. Simplesmente não fomos feitos um para o outro. – Tenho certeza de que é exatamente isso que vocês descobrirão. E lamento que tenha sido forçada a aceitar essa situação tão constrangedora. – Dina? – Sim, querida? – Você sabe que seus armários de cozinha têm portas de vidro, não sabe? – Sim, eu mesma os escolhi. – E você também sabe que, nesta luz, o vidro tem a mesma função de um espelho? – Tem? – Lamento dizer que sim. Eu até acreditaria que você se sente infeliz por eu voltar a morar com Gabriel, se não pudesse ver você levantando o braço em comemoração. – Não estou comemorando – negou Dina de pronto. – Estou lhe dando um tapinha de consolo no ar, totalmente solidário, embora entusiástico. – Ainda consigo ver você, e agora está rindo como uma doida. – Estou apenas tentando mostrar uma expressão feliz. Por dentro, estou chorando. Catherine se afastou dela. – É apenas temporário, Dina, não vamos ficar juntos de novo. O sorriso de Dina era malicioso. – Tente dizer isso a Gabriel e descubra até onde você vai. QUARENTA E cinco minutos depois, Catherine saiu do elevador na Piretti’s e se dirigiu ao escritório de Gabe. Vestira-se com cuidado, num terninho de seda verde-floresta e um par de sapatos com saltos


muito altos. Era um de seus conjuntos favoritos, principalmente porque realçavam seus olhos e cabelos. Além disso, o estilo justo acentuava suas curvas suaves. Enquanto dirigia para a cidade, Catherine planejou a melhor forma de lidar com Roxanne, na esperança de que isso desviaria seus pensamentos de uma questão muito mais séria: sua reunião com Gabe. Embora tivesse concordado em voltar para a casa dele, não aceitara mais nada. Antes de fazer uma só mala, pretendia estabelecer um conjunto de regras básicas, o que a deixava em desvantagem desde o começo. Gabe, admitia com relutância, era um dos melhores negociadores que conhecia e, se tivesse qualquer esperança de ter alguma vantagem, precisava de uma base muito boa. Para sua surpresa, Roxanne não estava à vista. Considerando-se como tinha trabalhado duro para transformar a festa Marconi num desastre classe A, talvez tivesse tirado o dia de folga para um descanso muito necessário e para reabastecer seu estoque bastante gasto de inveja e veneno. Bem, Catherine garantiria que tivessem sua pequena conversa em breve. Não tinha importância se atrasasse um ou dois dias. A porta do escritório de Gabe estava aberta, e Catherine parou na entrada. Ele estava em pé, de perfil para ela, diante de uma grande janela aberta para o Puget Sound, e Catherine aproveitou o momento para observá-lo, enquanto o calor explodia em seu ventre e se espalhava para lugares mais inconvenientes. Por um décimo de segundo, sua visão embaçou e ela viu não um capitão de altas finanças e indústria, mas o capitão de um navio pirata. Em algum momento, ele tirara o paletó do terno e enrolara as mangas da camisa muito branca, expondo a pele bronzeada dos braços. Sem gravata e com a camisa desabotoada, revelava-se o peito poderoso e largo, onde ela tão frequentemente descansara a cabeça. Com os pés plantados no chão, as pernas ligeiramente abertas e as mãos nos quadris, tudo de que ele precisava era uma espada na cintura para completar a imagem. De onde estava, dava ordens com toda a arrogância de um pirata. Mas, em vez de uma tripulação de vagabundos, tinha um telefone sem fio preso à orelha. – Diga a Felder que a oferta é válida por precisamente 24 horas. – Gabe olhou as horas, o que mostrou a ela que aquele período de tempo seria verificado até o último minuto. – Depois disso, não estarei mais interessado na reestruturação, não importa o quanto ele adoce a oferta. – Desligou o telefone e se virou, sem se mostrar surpreendido ao vê-la ali, em pé. – Bem na hora. Sempre gostei disso em você, Catherine. Ela entrou no escritório. – Tenho muito a fazer hoje, assim não vi motivo para perder meu tempo ou o seu. – Nós temos muito a fazer – corrigiu ele. – Limpei minha agenda de hoje para formularmos um plano inicial para a Elegant Events. Ela pensou rapidamente, reformulando os próprios compromissos. – Obrigada. Agradeço por nos dedicar seu tempo. – Este é o acordo que fizemos, não é? Gabe inclinou a cabeça para o lado, e a luz do sol fez seus olhos cintilarem num azul tão brilhante e intenso que todos os pensamentos desapareceram da mente de Catherine, menos um. Estava voltando a morar com aquele homem e logo partilharia de sua vida das maneiras mais pessoais e particulares possíveis. Partilharia a casa, o espaço que marcara como dele. E, embora ele não tivesse dito, não tinha a menor dúvida de que esperava que compartilhassem também a cama.


Tinha parecido tão natural antes. Desjejuns apressados, que combinavam alimento, café e rápidos beijos apaixonados, que mal os ajudavam a passar o dia, até que caíssem nos braços um do outro à noite. Jantares longos e românticos, embora tenham rareado à medida que o trabalho interferia com frequência cada vez maior. O sexo intenso, desesperado, que apagava tudo o mais de suas mentes, a simples intimidade de viver com alguém diariamente. Ela experimentou tudo aquilo com ele, quis tudo aquilo e quis, ainda mais, aprofundar o relacionamento. Mas, em vez disso, foram incapazes de sustentar até mesmo aquele nível de conexão. Como poderia voltar para o que não funcionara antes? Como poderia fingir que o relacionamento teria uma chance, quando sabia que não teria? O que acontecera no passado influenciava demais o presente para que lhes fosse possível recomeçar. Ela mordeu o lábio. Não podiam nem mesmo construir uma nova e diferente forma de ligação. Simplesmente não tinham futuro, apenas um muito breve, muito finito. – Catherine? – Ele se aproximou mais. – Foi com isso que concordamos, não foi, minha ajuda em troca de você voltar para mim? – Gabe… – começou ela. A expressão dele endureceu. – Já está mudando de ideia? – Não. Fiz uma promessa e a cumprirei. – Ela lhe encontrou o olhar, desejando em silêncio que ele mudasse de ideia, visse a impossibilidade de seu plano funcionar. – Mas você precisa compreender uma coisa antes de levarmos isto adiante. O que quer que tenha planejado, o que quer que espere conseguir nos obrigando a ficar juntos de novo, não vai acontecer. Você não pode forçar um relacionamento. Ele sorriu, com aquele sorriso de anjo, enquanto o demônio brilhava nos olhos. – E você também precisa compreender uma coisa. Não será necessário forçar. Tudo o que preciso fazer é tocá-la, assim como tudo o que você precisa fazer é me tocar. É tudo o que é necessário, Cate. Um toque, e nenhum de nós será capaz de parar. Ela estremeceu. – Então terei de garantir que esse único toque não acontecerá. – Já aconteceu. Aconteceu no minuto em que você entrou no meu escritório ontem. Aconteceu de novo, ontem à noite, durante a festa. Você apenas não está disposta a admitir. Ele estendeu a mão e passou um cacho dos cabelos dela para trás da orelha, antes de deslizar o polegar pela curva do rosto. Fizera aquilo na noite anterior. E, exatamente como na noite anterior, uma trilha de fogo seguiu sua carícia, forçando-a a apertar os joelhos para continuar em pé. – Pelo menos, não está disposta a admitir… ainda. O toque de Gabe entorpeceu-lhe o cérebro, tornando o pensamento lógico uma impossibilidade. Sempre fora assim. Mas ela lutou para se lembrar do que planejara dizer. – Não estabelecemos as regras básicas – protestou ela. – Precisamos negociar os termos. – Os termos já estão estabelecidos. Viveremos juntos, total e completamente, com tudo o que isso sugere e implica – afirmou ele. – Agora, pare de tentar atrasar o inevitável e vamos trabalhar. Ela ergueu uma das sobrancelhas e se afastou do alcance dele. Era como sair do deque de um navio navegando em águas turbulentas e pisar na calma e segurança da terra firme. Precisou de apenas um momento para recuperar o equilíbrio. – Somente negócios? Ele a olhou, divertido.


– Aqui e agora, sim. – Debruçou-se em direção a ela. – Mas o que vai acontecer esta noite não terá nada a ver com negócios. O ar ficou parado nos pulmões de Catherine quando uma imagem surgiu na mente. Pernas e braços nus misturados. Macho e fêmea se unindo no mais íntimo dos laços. Como ele esperava que ela trabalhasse com aquilo preso em sua mente? Ele devia ter percebido no que ela estava pensando, porque riu. – Não se sinta mal, você não é a única. – Não sou a única… o quê? – Que vai achar difícil se concentrar em negócios hoje. – É a primeira vez que isso acontece – resmungou ela. A diversão dele desapareceu. – Na verdade, não, apenas não aconteceu por algum tempo. Não aconteceu em 23 meses. Ele respirou fundo e mergulhou os dedos nos cabelos. – Se a situação de sua empresa não fosse tão grave, eu mandaria tudo para o inferno e nós dois deixaríamos de trabalhar hoje. Interessante. – E o que conseguiríamos com isso? – A oportunidade de estabelecer nossas prioridades – explicou ele. – Porque, desta vez, pretendo consertar o que deu errado. Sentiu um anseio profundo ao compreender o que ele disse, um anseio que a chocou por sua intensidade e, logo depois, surgiu a dor. Gabe esperara demais para se comprometer. E, naquele momento, quando não importava mais, quando recuperar o que haviam perdido se tornara uma impossibilidade, estava disposto a mudar. – Não podemos deixar de trabalhar hoje e você sabe disso. – Infelizmente não podemos. Pelo menos, não hoje. E, já que não podemos… – E, exatamente assim, ele desligou o amante e ligou o homem de negócios. – Vamos ver o que podemos fazer para salvar a Elegant Events. Ela precisou de um pouco mais de tempo para mudar de marcha. – Depois do fiasco da noite passada, espero muitos cancelamentos – advertiu ela. – Muitos mesmo. – Você tem contratos com seus clientes? – É claro, não sou idiota, Gabe. – Ela fechou os olhos. – Desculpe, foi desnecessário. Ponha a culpa na exaustão. Ele deixou passar sem comentário. – Marque reuniões com aqueles que querem cancelar. Diga a eles que, se aceitarem se encontrar com você e lhe derem trinta minutos, e se mesmo assim não chegarem a um acordo amigável, então você lhes devolverá o depósito inicial sem reclamar. Catherine ficou pálida. – Compreende o que isso significa? Vamos falir se não pudermos recuperar mais de 75% dos nossos contratos atuais. – Ela passou a mão pela testa. – E mesmo esse percentual pode ser apenas um sonho, deve ficar mais perto de 90%. – Posso lhe dar números mais precisos depois de examinar sua contabilidade. Quem cuida dessa parte? – Minha sócia.


Os olhos se estreitaram. – Ah, a misteriosa sócia. Você compreende que não pode manter a identidade dela secreta depois da noite passada. Marque uma reunião com ela. Se vamos avaliar sua empresa, preciso saber tudo a partir da base. E isso inclui o que quer que possa me contar sobre sua sócia. Catherine assentiu, relutante. – Vou arranjar a reunião. E depois? – Depois, liguei para Natalie Marconi e ela concordou em nos encontrar em… – Olhou as horas. – Uma hora e 15 minutos. Você deve pedir desculpas da forma mais humilde. – Ergueu uma das mãos antes que ela interrompesse. – Sei que você fez isso a noite passada, mas precisa fazer de novo, à luz do dia. Duvido que alguma coisa que digamos ou façamos ajude, mas… – Precisamos tentar. Ele pegou a gravata, jogada nas costas de uma cadeira. – Exatamente. Ela lançou um olhar sagaz a Gabe. – De alguma forma, suspeito que ela teria se recusado a me receber se você não tivesse dado o telefonema. – Não esperou que ele confirmasse o que já sabia. – Para sua informação, pretendo devolver todo o pagamento feito. Gabe pegou o paletó e vestiu-o. – Quanto isto vai afetar suas reservas? Ela não queria pensar nisto. – Muito – admitiu ela. – Não que isto tenha importância. Precisa ser feito. – De acordo. – Havia um tom de empatia na voz. Ele a levou para fora do escritório e fez uma pausa ao lado da escrivaninha vazia de Roxanne. – Vamos ver se a reunião com ela ajuda a manter um pouco de sua boa vontade. – Onde está sua assistente? – perguntou Catherine, com falsa indiferença, enquanto ele escrevia rapidamente um bilhete para Roxanne. Considerando o que gostaria de fazer com a preciosa assistente, teve sorte de suas palavras não soarem como uma declaração de guerra. – Em campo. Passei os últimos seis meses negociando a compra de uma fábrica de motores de barcos. Vai complementar muito bem outra empresa que tenho especializada em designs de iates. No momento, estamos comprando diversos componentes e gostaria de mudar isso. – Então está ocupado comprando empresas que fabricam esses componentes. – Exatamente. – Deixou o bilhete no teclado do computador de Roxanne e seguiu com Catherine para os elevadores. – Roxanne está trabalhando na agenda de uma reunião para bater o martelo nos detalhes finais. Por alguma razão, o proprietário, Jack LaRue, tem se mostrado relutante e preciso descobrir o motivo e resolver os últimos impedimentos. Roxanne tem um jeito para… – Ele deu de ombros. – Vamos dizer apenas que ela motiva as pessoas a deixar as relutâncias de lado. – Compreendo. As portas dos elevadores se abriram, e eles entraram. – Você jamais gostou dela, não é? Que importância tinha depois de todo aquele tempo? – Não. – Porque ela é sua substituta? Ou é uma dessas coisas de mulheres?


Catherine olhou para a frente e contou até dez antes de responder. – Chame de choque de personalidades. – Desculpe, mas não acredito. Qual é o motivo real? Ela o encarou. – A verdade? – Não, quero que você minta para mim. Catherine soltou a respiração num suspiro frustrado. – Eu não gostava de ter de passar por ela para falar com você. Eu me ressentia por ela ter o poder de decidir quais mensagens lhe transmitiria, ou quando. Também não gostava do fato de que ela não queria apenas meu trabalho, queria também meu lugar em sua vida. São razões suficientes?


CAPÍTULO 4

ANTES QUE Gabe respondesse, as portas do elevador se abriram e Catherine saiu depressa. Seus saltos batiam com força no piso da garagem, num ritmo que ecoava a raiva que explodia dentro dela. Não tinha percebido até então o quanto aquelas palavras estavam engasgadas na garganta e o quanto queria dizê-las. Mas, uma vez que as tinha dito, percebeu que não fariam a menor diferença. Ele não acreditaria nela, como não acreditou dois anos antes. No que se referia a Roxanne, era tão cego à verdadeira natureza dela como qualquer outro homem. Catherine parou ao lado do Jaguar de Gabe e lutou para recuperar o controle. Como Roxanne fazia aquilo? Não era apenas sua aparência. Muitas mulheres tinham corpos espetaculares e rostos que adornariam uma deusa. Talvez fosse a combinação do corpo com um cérebro tão maquiavélico, de dar orgulho a Lucrécia Bórgia, que dava a Roxanne tanta superioridade. Gabe abriu a porta do carro e esperou que Catherine se acomodasse, antes de rodear o carro e entrar atrás do volante. Em vez de ligar o motor poderoso, ele se virou para ela. – Lamento, não tinha ideia que ela era um problema tão grande para você. – Ela não é um problema, não mais. – E eu me certificarei de que continue assim. Deixarei ordens estritas para que ela passe todos os seus telefonemas diretamente para mim, mesmo se eu estiver em reunião. – Não precisa. – Sim, preciso. Foi necessário um momento para Catherine regularizar a respiração. – Por que, Gabe? – sussurrou. – Por que não fez isto antes, quando reclamei da primeira vez? Por que agora, quando é tarde demais? O queixo dele enrijeceu, adotando aquela postura teimosa tão familiar. – Não é tarde demais. – Ele ligou o motor. – Você me deixou por bons motivos. Admito que havia problemas, problemas graves. Desta vez, pretendo consertar tudo. Levaram pouco menos de uma hora para chegar à propriedade Marconi. Uma criada de uniforme engomado e formal escoltou-os até um salão igualmente engomado e formal, com janelas abertas para a cena do desastre da noite anterior. Catherine não duvidou nem por um momento que aquela escolha desconfortável de lugar fosse deliberada.


– Não sei muito bem por que vocês estão aqui – disse Natalie, depois que eles se sentaram. Propositalmente, não lhes ofereceu nada enquanto se servia de uma xícara de café do brilhante serviço de prata, que estava na mesa ao lado dela, e tomava um gole lento e deliberado. Seu olhar friamente furioso se moveu de Catherine para Gabe. – Sua presença é ainda mais misteriosa para mim, Gabe, é a srta. Haile quem me deve uma explicação e um pedido de desculpas. – Está absolutamente certa, sra. Marconi – disse Catherine, antes que Gabe respondesse. – De fato, eu lhe devo um pedido de desculpas e não consigo nem começar a expressar quanto lamento que sua festa tenha sido arruinada. – Abriu a bolsa, tirou um cheque e colocou-o na delicada mesa de café que separava sua cadeira da de Natalie. – Isto é uma devolução integral do que me pagou. Duas manchas de cor surgiram nas maçãs do rosto de Natalie. – Acha que me devolver o dinheiro vai consertar as coisas? – De modo algum, acho que devolver seu dinheiro é o mínimo que posso fazer para compensar minha responsabilidade no que aconteceu. Lamento que o pessoal de segurança que contratei tenha sido incapaz de interceptar os intrusos. Entrei em contato com as autoridades esta manhã, e me informaram que os rapazes nos barcos receberam um convite de uma mulher não identificada. Continuarão investigando, na esperança de descobrir precisamente quem fez o convite, no caso de você querer levar a questão adiante. Os rapazes envolvidos se ofereceram para indenizar seus convidados e a empresa de gôndolas pelos danos que sofreram. – Isso certamente ajudará – admitiu Natalie, com relutância. – E os sprinklers? Esse erro é cem por cento sua culpa. Catherine inclinou a cabeça. – Aceito total responsabilidade por eles e garanto-lhe que verifiquei duas vezes se estavam desligados. Não posso explicar como o mecanismo foi revertido. – Eu posso, você é incompetente. – Natalie – disse Gabe, com a voz suave. – Bem, que outra explicação pode haver? – indagou ela, na defensiva. – Consigo encontrar três. Um, houve uma interrupção de energia e o aparelho voltou à marcação anterior. Dois, alguém mudou o horário por acidente. Ou três, alguém fez isso de propósito, como uma brincadeira sem graça. – Gabe fez uma pausa para deixar que suas palavras fossem bem-compreendidas. – Havia muitos adolescentes aqui na noite passada que poderiam ter considerado uma boa ideia ligar os sprinklers no meio da festa e observar a confusão a uma distância segura. Natalie enrijeceu a espinha, com os olhos brilhando. – Está acusando alguém da minha família? – Não estou fazendo acusações. – Esperou um instante antes de continuar. – Estou simplesmente mostrando que há três explicações alternativas. – As iniciais de Catherine estavam na lista como a pessoa responsável por mudar o horário de funcionamento dos sprinklers. Eu mesma as vi. – O que significa que ela mudou o horário. Por que mais teria posto as iniciais na lista? E, devo acrescentar, ela checou duas vezes. Natalie ficou em silêncio diante da explicação absolutamente lógica. Gabe resolveu acentuar sua vantagem.


– Você teria mais motivos para acusar Catherine se ela não tivesse posto as iniciais na lista, porque então saberia que ela se esquecera deles. Natalie deixou o assunto de lado com um movimento da mão. – E o incêndio na tenda? Poderíamos ter perdido nossa casa, pessoas poderiam ter ficado gravemente feridas, ou pior. – Sua filha tropeçou na corda que segurava aquele canto da tenda, eu vi quando aconteceu. Tenho a certeza de que, se perguntar, ela admitirá, especialmente porque, como resultado, torceu o tornozelo e seu genro precisou carregá-la até ficar segura. Não houve negligência nenhuma, Natalie, foi um acidente imprevisível – explicou Gabe. – Por outro lado – completou Catherine –, a vantagem de contratar um planejador de eventos significa ter a capacidade de prever o imprevisível e tomar precauções. Gabe voltou-se para ela. – Avaliando o que aconteceu, o que você poderia ter feito de diferente para impedir a ocorrência dos acidentes? Você checou duas vezes o sistema de sprinkler. Aquela região do lago foi cercada e patrulhada. E a tenda estava seguramente presa. Natalie liberou a respiração num suspiro. – Está bem, está bem, você tem razão, Gabe. Não vejo como Catherine poderia ter previsto nenhuma dessas eventualidades. Gostaria que pudesse ter previsto, mas gosto de me considerar uma mulher honesta e justa. E a honestidade e a justiça me obrigam a admitir que ninguém poderia ter antecipado uma sucessão tão estranha de acontecimentos. – Olhou para Catherine, dessa vez sem a raiva que até então lhe coloria a expressão. – Obrigada por devolver o pagamento e por seu pedido de desculpas. Antes de o inferno acontecer, o evento foi brilhantemente planejado e executado. Catherine se levantou. – Agradeço sua compreensão e diria que aguardo com ansiedade fazer negócios com você no futuro… – Deu um sorriso de autocensura. – Mas tenho a sensação de que uma xícara desse café adorável seria derramada na minha cabeça. Natalie também sorriu. – Boa tentativa, minha cara, mas há pouca chance de eu perdoar com tanta facilidade. Catherine encolheu os ombros. – Valeu a pena tentar. – Estendeu a mão. – Obrigada por me dedicar um pouco de seu tempo. – Agradeça a Gabe por isto, não tenho certeza de que teria concordado em vê-la se não fosse por ele. – O olhar dela passou por ele, cheio da mais completa apreciação feminina. – Por alguma estranha razão, é impossível dizer não a ele. Catherine deixou escapar um suspiro de exasperação. – Foi o que descobri – murmurou. DEPOIS DE saírem da residência Marconi, Gabe entregou a Catherine o cartão comercial de uma empresa de transporte, junto com a chave de seu apartamento. – Tomei providências para esta empresa fazer a mudança de suas coisas para o meu apartamento. Ligue para eles quando estiver pronta. – Não tenho tanta coisa para levar – protestou ela, enquanto voltavam para a cidade. – Apenas duas malas.


Gabe entrou na ponte flutuante que atravessava o lago Washington e manobrou com habilidade em meio ao trânsito pesado. – Quero que você se sinta morando lá e não como se fosse uma hóspede temporária. – Eu sou uma hóspede temporária – replicou ela. – Só você não compreende isso. Ele não se deu o trabalho de discutir. Mas, quando parou diante do prédio dela, estacionou o carro e os dois saíram ao mesmo tempo. Seguiu-a pela calçada e subiu com ela as escadas que levavam ao vestíbulo. – Não precisa entrar – informou Catherine, olhando por cima do ombro. – Chamarei a empresa de mudanças, se é o que você quer. Um olhar à expressão determinada de Gabe informou-lhe que não se livraria dele com tanta facilidade. – Prefere ter esta discussão aqui, na rua? – perguntou ele, com extrema e dolorosa educação. – Com toda a franqueza, prefiro não ter esta discussão de jeito nenhum. – Lamento dizer que esta opção não está disponível para você. Ela odiava quando ele usava sua personalidade de homem de negócios. Não havia como se opor a ele. – Concordei com seus termos, o que mais você quer? – Ele simplesmente ficou lá parado, olhando-a, e ela soltou a respiração, irritada. – Certo, vamos entrar. Ela foi à frente, preferindo subir a escadaria para o segundo pavimento a usar o elevador. Parou diante da porta do apartamento e destrancou-a. – Antes de ir embora, gostaria de tomar o café que Natalie não nos ofereceu? Ele ergueu uma das sobrancelhas. – Por que a pressa? A boca de Catherine se mexeu, divertida. – Depende do que você quer. – Eu só quero esclarecer algumas coisas. – Ele andou pela pequena sala de estar, estudando primeiro a vista, depois a mobília. – Aconchegante. – Não preciso de muito espaço. – Colocou as chaves num vaso de vidro verde numa mesa ao lado da porta. – Provavelmente porque não ocupo tanto espaço como você. Ele se virou. – Às vezes me esqueço de como você é pequena. Deve ser por causa dessa sua personalidade forte e apaixonada. O elogio a desestruturou, e ela não gostava de se sentir assim. Cruzou os braços. – Acha mesmo que vai fazer a menor diferença para nosso relacionamento se eu levar duas malas ou dois caminhões de objetos para sua casa? Objetos não me manterão lá, não quando nosso relacionamento acabar de novo. Ele ignorou a última observação amarga. – Ter seus objetos pessoais perto de você a fará se sentir mais confortável. E talvez, se estiver mais confortável, se sinta mais inclinada a trabalhar nossas dificuldades, em vez de fugir delas. – Eu não fugi da primeira vez, Gabe. O queixo dele endureceu. – Não? Pareceu uma fuga, achei que fosse uma fuga. Um minuto você estava lá e, no seguinte, tinha ido embora. Sem aviso, nem mesmo um telefonema.


– Deixei um bilhete – replicou ela, abalada. – Eu me lembro. – Ele se aproximou dela. – Cheguei em casa depois de 48 horas seguidas de uma brutal crise no trabalho, que poderia ter significado o fim da Piretti’s, e o encontrei. – O que quer dizer… que poderia ter significado o fim da Piretti’s? – perguntou, alarmada. – Pensei que fosse uma daquelas compras hostis de uma empresa à beira de explodir. – Não, foi uma tentativa de golpe dada pelos antigos membros da diretoria da Piretti’s, aqueles que demiti depois de dar meu próprio golpe. Não que isso tenha importância. – Ele voltou ao ponto anterior com determinação inegável – O que você fez foi frio, Catherine. – Tem razão, foi mesmo – admitiu ela. – E lamento por isso. Algum dia me pergunte sobre as brutais 48 horas que experimentei e que me levaram a tomar aquela decisão. Foi frio porque eu estava fria. Fria e vazia e... – Ela se interrompeu, antes que falasse demais. Não falaria disso com ele. Não tinha a força emocional, mesmo naquele momento. Mesmo depois de dois anos, não podia enfrentar as lembranças com tranquilidade. – E o quê? Você estava fria e vazia e… o quê? – pressionou ele. – Destruída. Mal e destruída. Ela forçou as palavras, então se ocupou abrindo a bolsa e removendo o arquivo da Elegant Events que oferecera a Gabe no dia anterior. A mão dele caiu sobre a dela, forçando-a a deixar os papéis de lado. – Foi por isso que ficou com minha mãe? Por que estava mal e destruída? – Eu não tinha mais ninguém, nenhuma família – sussurrou ela. – Não tinha outro lugar para... Segurou as mãos dela com delicadeza. – Você não precisa se justificar. Estou aliviado por ter se sentido confortável em procurá-la. – Verdade? – Ela estudou a expressão dele, procurando ter certeza. – Estou surpresa por você não ter brigado com ela por me receber. A cabeça dele virou para trás, num movimento súbito, como se ela o tivesse esbofeteado. – Sou tão canalha para achar que eu faria uma coisa dessas com você? Fiquei aliviado ao saber que tinha para onde ir, que estava em segurança. – Então ele fez a pergunta que ela mais temia. – Você disse que estava mal. O que havia de errado com você? – Nada que um pouco de cuidado amoroso e terno não pudesse curar. – Cuidado que não lhe ofereci. Ela lhe sustentou o olhar. – Não, não ofereceu. – Isso vai mudar. – Ele ergueu a mão para impedir que o interrompesse. – Sei que não acredita em mim. Só o tempo a convencerá da minha determinação, e espero que os próximos meses façam exatamente isso. Não havia motivo para discutir, não quando ele estava certo. Apenas o tempo poderia lhes dar a prova de que precisavam… prova de que não pertenciam um ao outro. – É justo. – Ligue para o número no cartão, Catherine – apressou ele. – Já foram pagos independentemente da quantidade de coisas que vai levar. E tudo o que precisa fazer é mostrar o que quer que seja transportado. Eles vão embalar, carregar e transportar, então o processo contrário será feito quando chegarem ao meu apartamento. – Obrigada – disse ela, com a voz tensa. – É muito generoso da sua parte.


Ele franziu a testa. – Não, por favor, não. Ela fechou os olhos por um instante. – Desculpe, estamos separados há tanto tempo e... – Ela balançou a cabeça, desconcertada. – Não sei como lidar com isso. – Então vou lhe mostrar. É fácil. – Ele lhe segurou o rosto e roçou os lábios na boca de Catherine. Foi suave e gentil e lhe roubou cada vestígio de bom senso. – Vê como é fácil? – Eu ainda não… Ela jamais completou a frase. Não completou nem o pensamento. Tudo desapareceu, perdido para sempre. A boca de Gabe voltou à dela e o estilo do beijo mudou, tornou-se poderoso. Aquele abraço exigia algo dela, e ela se sentia fraca demais para resistir. Então, não resistiu. E, depois, passou depressa da resposta relutante para a participação ativa. Atender a exigência dele e fazer a própria. Dar, tomar, aumentar o calor só mais um pouco. Ela sentiu a mudança, a passagem de submissão para a agressão. Escorregou os braços pelo peito dele e lhe abaixou o paletó. Ouviu o suave sussurro da seda, quando o paletó caiu. Segurou-lhe a gravata, arrancou-a do colarinho e a atirou também para o chão. Desabotoando-lhe a camisa, ela finalmente, finalmente tinha carne, firme e quente, sob as mãos. Que os céus a ajudassem; ele era maravilhoso. A boca de Catherine deixou a dele e traçou um caminho de beijos ao longo do pescoço de Gabe e desceu. Ela sentiu o gemido vibrar sob os lábios e sorriu. Lembrava-se daquele som, do prazer que sentia ao saber que era ela que o causava. A excitação à percepção de que seu toque podia levar um homem com a força de Gabe a perder o controle. Mesmo então ela o sentiu à beira do abismo e se viu lá também. Tinha consciência suficiente para perceber que tinha uma escolha. Podia terminar o que começara ou recuar. Parte dela, a que ansiava por sentir as mãos de Gabe nela de novo e experimentar mais uma vez a sensação inacreditável que a união de seus corpos despertava, a incentivava a continuar. Mas havia muitas questões não resolvidas entre eles para que ela se entregasse tão depressa, tão facilmente. Como se sentisse a hesitação dela, Gabe assumiu o controle. – Senti tanto sua falta, Catherine – murmurou ele com a voz áspera. Suas mãos percorreram-lhe as curvas, reconhecendo e acariciando o território familiar. O fogo seguiu seu toque. – E senti tanta falta disto. Ela não seria capaz de suportar muito mais. Era agora ou nunca. Com um suspiro relutante, recuou e sentiu o primeiro tremor da volta do bom senso. – Você não joga limpo – reclamou ela. Beijou-lhe o peito uma última vez e saiu dos braços dele. – Acho que pensa que isto confirmou sua opinião. – Se pudesse lembrar qual era minha opinião, concordaria com você. Mas, desde que todo o meu sangue fugiu do cérebro para outras partes do corpo que não têm neurônios, acho que isso não vai acontecer. – Gabe ergueu uma das sobrancelhas. – Suponho que você também não lembra qual era minha opinião. – Não posso dizer que me lembro. Ele sorriu. – Mentirosa. Ela limpou a garganta.


– Pode ser que viver juntos de novo seja como andar de bicicleta. Uma vez que se começa a pedalar, lembraremos facilmente quais são os movimentos. – Tenho de admitir que não me lembro desta parte da nossa conversa, mas faz sentido para mim. – Os olhos dele se tornaram sagazes, o azul mais intenso. – O cartão comercial. Os transportadores. Suas dúvidas. Ela sorriu, de maneira quase afetuosa. – Ah, aí está, de volta aos negócios, como sempre. A boca de Gabe respondeu com um sorriso. Não que o impedisse de se focar dessa vez. – Faça os transportadores levarem menos do que estou pedindo e mais do que você quer. Que tal? É um acordo razoável? – Sim. – Então você fará isso? Ela assentiu. – Devo estar lá bem antes da hora do jantar. Uma onda de satisfação tomou o corpo de Gabe. – Perfeito, providenciei algo especial para esta noite. – Tocou-lhe a ponta do nariz com o dedo indicador. – E não, não é nada sexual, portanto não fique tão furiosa. – Hum. – Ela virou a cabeça para o lado e observou-o com olhos semicerrados. – Apesar de suas garantias, suspeito que chegará lá mais tarde, se não mais cedo. – Pode contar com isso. – A promessa brilhava como safira no olhar dele, e o queixo firme adotou uma posição firme. – Mas, neste caso, estava realmente me referindo ao jantar. – Não precisa fazer nada especial – protestou Catherine. Ele lhe ergueu o queixo com os dedos, e os olhos dela encontraram os dele. – Sim – afirmou ele –, preciso. Verei você por volta das seis da tarde. O resto do dia voou. Aceitando o inevitável, ela chamou os transportadores. Mal tinha desligado o telefone, dois homens fortes chegaram à sua porta. Era quase tão fácil como fazer compras pela internet. Os homens eram amigáveis, e tudo o que ela precisou fazer foi apontar e pronto. Em pouco tempo, muitos de seus objetos haviam sido embalados e levados para o caminhão de entrega. Exatamente como Gabe previra, a outra parte do processo também ocorreu sem nenhum problema. O único momento desconfortável foi quando eles perguntaram onde deveriam deixar as roupas. Pensou durante alguns instantes se devia mandá-los para um dos quartos de hóspedes ou para a suíte master de Gabe. Considerando que ela e Gabe quase haviam feito amor no apartamento mais cedo, parecia sem sentido tomar uma posição que, ela sabia, não duraria mais do que algumas horas. Embora soubesse que nada resultaria do relacionamento, que nada poderia resultar, pensou em ao menos desfrutar da fantasia enquanto durasse. Assim que os transportadores saíram, ela terminou de desfazer as malas com suas roupas pessoais. Então andou devagar pelo apartamento de Gabe, que ficava na cobertura. Era estranho estar de volta. Parte dela se sentia em casa, como se nunca tivesse ido embora. Lá estava a mesa onde cuidava de sua agenda social e planejar as festas que haviam se tornado sua especialidade. E lá, no banco sob a janela, ela e Gabe se sentavam juntos numa calma manhã de domingo, tomando café enquanto observavam a chuva cair na cidade. E ali… Quantas vezes receberam convidados na sala de estar? Gabe se sentaria naquela poltrona enorme que ele mesmo mandara desenhar e ela se apertaria num canto ao lado dele.


É claro, havia algumas mudanças: um novo conjunto de almofadas jogadas no sofá. Encontrou uma linda escultura de madeira que não estava lá antes. Era de uma mulher em repouso, e seus dedos coçaram de vontade de deslizar ao longo das linhas graciosas e curvas. As cortinas eram novas, assim como dois vasos de plantas de cada lado da porta da frente. Depois de atrasar o inevitável pelo tempo mais longo possível, ela reuniu suas forças e entrou no quarto, apenas para descobrir que ali tinham sido feitas as maiores mudanças. A cama e a mobília antigas, peças escuras e masculinas, haviam sido trocadas por peças de madeira dourada, que lembravam antigos navios a vela. Catherine não evitou um sorriso. Nada poderia combinar mais com ele, embora se perguntasse por que substituiu a antiga mobília. Para sua surpresa, as mudanças lhe deram uma sensação de alívio, como se toda a negativa energia tivesse sido eliminada. Olhando as horas, percebeu que Gabe estaria em casa em menos de uma hora e, se planejara alguma coisa especial para o jantar, talvez fosse melhor ela se vestir para a ocasião. Demorou a se decidir pela roupa, escolhendo, por fim, um vestido longo casual azul-turquesa. Pela primeira vez em anos, deixou os cabelos soltos, uma cascata de cachos que lhe descia pelas costas em total abandono. Usou pouca maquiagem, enfatizando os olhos e a boca. Acabara de se aprontar quando a campainha da porta tocou e foi atender, certa de que era o jantar surpresa que Gabe encomendara. De fato, era uma pequena empresa de fornecedores que ela costumava usar para alguns eventos. Cumprimentou a chef pelo nome e mostrou a cozinha a ela e a sua acompanhante. – Gabe disse que devíamos chegar aqui às 18h e servir o jantar, no máximo, às 18h30 – explicou Sylvia. – Precisaremos apenas de alguns minutos para tirar os aperitivos da embalagem e aquecê-los. Por hora, abrirei o vinho e o deixarei respirar, enquanto Casey põe a mesa na sala de jantar. Ela os servirá esta noite. – Obrigada – disse Catherine, com um sorriso caloroso. – Estarei na sala de estar. Gabe deve chegar a qualquer minuto. Ou assim ela pensou. Às 18h30, beliscou alguns aperitivos que deviam ter gosto de ambrosia, mas que, por algum motivo, tinham o sabor e a consistência de serragem. Às 18h45, Sylvia surgiu na porta da sala. – Devo esperar mais um pouco? Se esperar muito, o jantar ficará cozido demais. – Espere mais 15 minutos. Se ele não tiver chegado, pode embalar tudo e guardar na geladeira. – Ah, claro, podemos fazer isto. Catherine se encolheu diante do tom inegável de pena na voz da chef. – Obrigada, Sylvia. Estarei no quarto se precisar de mim. Com a cabeça erguida, foi para a suíte master e fechou a porta. Então começou a transferir seus objetos para um dos quartos de hóspedes. Por que, ah, por que permitiu a si mesma acreditar por um só segundo que ele mudara? Nada mudara, os negócios sempre vinham primeiro com Gabe e sempre viriam. Em algum lugar do apartamento, o telefone tocou. Mais do que qualquer coisa, ela queria ignorá-lo. Mas as coisas apenas piorariam se permitisse que a secretária eletrônica atendesse e Sylvia e Casey ouvissem as desculpas que Gabe daria pelo atraso. Ela pegou a extensão do quarto. – Alô?


– Desculpe. – A voz de Gabe era um som rouco na linha. – Não foi assim que planejei nossa primeira noite juntos. Por pouco, ela manteve o autocontrole. – Tenho certeza de que não foi. – Você está furiosa e não a culpo, mas aquela negociação sobre a qual lhe contei antes será recomeçada. Roxanne conseguiu levar LaRue para a mesa de negociações, mas agora era a única hora de que ele dispunha. – Aposto que sim. – Vou me demorar um pouco, mas estarei em casa assim que puder. Ela ouviu a pergunta não feita e a respondeu. – Prometi que estaria aí e estarei; o resto negociaremos pela manhã – prometeu ele em tom suave. – Será a última vez. Ela balançou a cabeça, incrédula. Ele ainda não havia percebido. – Você acha que será, Gabe. Esse é o problema. Você sempre acha que a próxima vez será diferente, mas nunca é. Não esperou pela resposta e desligou o telefone. Tinha que informar às fornecedoras que os serviços não seriam mais necessários. Mas, antes, precisava de um momento para si mesma. Para chorar a morte de um pequeno botão de esperança que, de alguma forma, em algum momento, enquanto estava distraída, se introduzira em seu coração.


CAPÍTULO 5

ERAM DUAS horas da madrugada quando Gabe abriu a porta do apartamento. Catherine deixara uma luz acesa para ele, o abajur ao lado da escultura da mulher adormecida, uma escultura cujas curvas gentis e linhas suaves o lembravam dela vividamente. Por isso comprara a maldita coisa, mesmo sabendo que o atormentaria cada vez que olhasse para ela. E atormentava. Gabe apagou a luz e foi para o quarto, mas parou de repente quando percebeu que Catherine não estava lá. Por um único e terrível momento, lembrou-se da noite em que ela o deixara. Seu olhar se dirigiu para a cômoda, na dolorosa expectativa de encontrar lá outro envelope branco com seu nome escrito. Naturalmente, não estava lá. Nem a cômoda. Uma semana depois que ela partiu, lembranças dolorosas demais o levaram a substituir cada móvel do quarto. Tirou o paletó e a gravata e saiu à procura de Catherine. Encontrou-a no quarto de hóspedes mais distante da suíte master. Estava sentada a uma pequena escrivaninha antiga, perto da janela, com a cabeça apoiada nos braços, profundamente adormecida. Usava uma camisola longa de seda, num suave tom creme, com um roupão combinando. Gabe se aproximou em silêncio e olhou os papéis espalhados pela escrivaninha, debaixo e em torno dos braços dela. Percebeu que eram registros contábeis, pegou algumas das folhas e passou os olhos pelas colunas de números, com a testa franzida. Droga, ela estava indo perigosamente em direção ao desastre. A primeira coisa que faria na manhã seguinte seria estudar com mais cuidado aqueles papéis, descobrir o quanto a empresa estava perto da falência e pensar no que seria necessário para mudar a situação, presumindo que ainda fosse possível. Deixando os papéis de lado, rodeou a escrivaninha e gentilmente a levantou da cadeira e a tomou nos braços. Ela se mexeu, mas não acordou até ele chegar ao quarto deles e deitá-la na cama. Catherine olhou-o, confusa, com os olhos dourados pesados de exaustão e brilhando de vulnerabilidade. – O que…? – Você dormiu na escrivaninha. Ele viu o momento em que a lembrança surgiu, observando com grande tristeza suas defesas se erguerem. Ela se sentou. – O que estou fazendo na sua cama? Como cheguei aqui?


– Você está na minha cama porque este é o seu lugar – explicou ele em tom calmo. – E chegou aqui porque eu a carreguei. – Bem, pode me carregar de volta, porque não vou ficar. Ele tirou os sapatos sem dizer uma palavra e começou a se despir. Faltava tirar apenas uma peça de roupa quando ela pulou da cama. – Você não está ouvindo, Gabe, não vou dormir com você. – Então não durma – disse ele, a voz mansa. – Mas, quando formos para a cama, faremos isso juntos. Ela balançou a cabeça, e os cabelos embaraçados pelo sono dançavam, agitados. – Você me deixou sozinha. Prometeu que seria diferente e então me deixou sozinha. – A vulnerabilidade que vira antes ultrapassou as defesas dela, quase o matando. – Não pode fazer isso e esperar que eu… – Ela fez um movimento com a mão, indicando a cama. – Apenas para que eu saiba, é assim que devo reagir quando a situação se reverter? Isso a fez parar, mas apenas por um momento. – O que quer dizer? – Quero dizer que sua empresa é tão exigente quanto a minha. A maior parte dos eventos que promove ocorre à noite ou nos fins de semana, quando não trabalho. Tendo passado os últimos dois anos construindo sua empresa, você sabe que há ocasiões em que o inesperado acontece e não tem alternativa, a não ser lidar com ele. – Maldito! – Olhou-o cheia de frustração. – Não estou com disposição para seu tipo de raciocínio e não pode voltar isso contra mim. – Não é o que estou tentando fazer. Só quero que compreenda que, de vez em quando, acontece alguma coisa como o que aconteceu esta noite. É melhor aprendermos a lidar com isso, começando bem aqui e agora. Esta noite fui eu, e lamento, Cate, lamento mais do que possa imaginar. Queria que sua volta para casa fosse especial e, ao contrário, foi um pesadelo. Mas me diga o que fazer da próxima vez, ou como devo reagir quando for você a me ligar com uma emergência. Ele viu que ela não tinha argumentos. O fogo morreu, deixando apenas dor e confusão. – Estava esperando tanto por esta noite – confessou ela. A admissão o atingiu com força. – Eu também. – Ele tirou a cueca e dobrou a colcha. Então estendeu a mão. – O roupão. Como ela não o atendeu de imediato, ele tomou a iniciativa. Passou os botões pelas casas com total eficiência antes de puxar o roupão dos ombros dela. – Não – sussurrou ela. – Por favor, não. Se tivesse usado a raiva contra ele ou aquela muralha gelada de desafio, ele poderia ter ignorado o apelo. Mas não resistia a Catherine quando cada pedaço da armadura defensiva estava caído em torno dela, e a infelicidade a cobria como um manto palpável. – Está tudo bem, querida – disse ele, em voz rouca. – Está tudo bem, vamos apenas dormir. Ele a abraçou com força, prendendo-a contra o corpo, e fechou os olhos ao sentir o corpo dela se encaixando no dele. Dessa vez, ela não protestou quando a levou para a cama. Havia quanto tempo não sentia a cabeça dela recostada em seu ombro e aqueles cachos soltos lhe tocando o queixo? Por quanto tempo esperara para ter aquela pele sedosa junto à dele, os pequenos e perfeitos seios pressionados contra ele? Ansiara por isso, apenas isso, por infinitos e torturantes meses. Uma vez que a tinha de volta em seus braços, podia se dar o luxo de ser paciente. Por mais que quisesse fazer amor com ela, dormir


teria de ser suficiente, até o momento certo. Podia lhe dar algum espaço enquanto resolviam as questões pendentes entre eles. – Está dormindo? – perguntou ela. – Ainda não. – Fechou o negócio? Ele sorriu; era um começo. Podia se satisfazer com isto. GABE ACORDOU à primeira luz da manhã e percebeu que não estava sonhando; dessa vez era real. Catherine estava segura em seus braços, os quadris tocando-lhe o corpo, o ritmo de seu coração e de sua respiração e os movimentos feitos durante o sono perfeitamente sincronizados com os dele. Sempre a considerou uma mulher elegante, pequena e delicada, mas não ali, naquele momento agora. Não quando ela se entregava ao sono e com a guarda baixa. Então a via através de todas as suas defesas e escudos, via a essência de Catherine. Misteriosa. Poderosa. Gloriosamente feminina. Ela enroscara o corpo no dele, com os braços e pernas esguios e belos. Mesmo no sono, ela o segurava num toque delicioso, possessivo, que o reivindicava como dela e superava todos os conflitos e dificuldades que os separavam. No mundo real, vestia-se com estilo, apresentava-se com uma calma autoconfiança. Sempre o impressionou com o comportamento tranquilo, profissional. Mas ali, na cama deles, mostrava uma paixão que jamais deixou de excitá-lo. Ele traçou de leve as formas do rosto dela, adorando a sensação da pele quente, sedosa, uma pele que cobria uma estrutura óssea de tanta pureza que lhe fazia a respiração acelerar e lhe aniquilava a razão. Pensara que poderia esquecer, que, ao longo daqueles meses em que ficaram separados, o tempo lhe roubaria as lembranças preciosas. Mas não esquecera, conhecia cada curva, lembrava-se de todas elas, teria reconhecido a sensação de tocá-la mesmo se estivesse cego. Estava de volta. Verdade, não teve escolha. Mas, com o tempo, isso mudaria, ele se esforçaria para tanto. Seus dedos fizeram uma trilha para baixo, passaram por um ombro pálido, esculpiram a curva feminina e o monte da cintura e do quadril. A barra da camisola subira até as coxas esguias, oferecendo-lhe uma vista tentadora da curva bem-feita das nádegas. Sentira falta de acordar com aquela visão. Ela ainda gemeria se ele acariciasse aquelas linhas suaves com as pontas dos dedos? Transformou o pensamento em ação e foi recompensado pelo mais leve dos suspiros, um suspiro de inegável prazer. Ela se moveu contra ele, tornando-se ainda mais macia, mais aberta. A cabeça virou para trás, espalhando os cachos dourados no travesseiro, oferecendo-lhe a longa curva do pescoço. Ele mergulhou a boca na pequena cova na base do pescoço e, ao mesmo tempo, tomou um dos seios na mão através da camada fina da seda que o cobria. Era quente, e o mamilo, um botão perfeito e pronto para ser colhido. Acariciou-o uma vez, duas. Na terceira, ela se mexeu, o nome dele nos lábios, o som escapando num clamor estrangulado de puro desejo. Catherine nunca acordava confusa. Passava do sono profundo à excitação num piscar de olhos. Os braços dela lhe circularam o pescoço, e ela o puxou para um beijo quente, faminto. Gabe não precisou de mais nada. Rolou para cima dela, mergulhando em seu calor. Planejara lhe dar um momento para que ela se ajustasse a seu peso e seu abraço. Mas ela tomou a iniciativa e cercou-lhe a cintura com uma das pernas, puxando-o para mais perto e aprofundando o


beijo. Sempre estiveram de pleno acordo nesse sentido; eram o companheiro perfeito um do outro. Os lábios dela se abriram e ele mergulhou, alimentando o fogo. Sentiu-a estremecer em reação ao seu toque, o coração disparado junto à palma de sua mão e seu próprio pulso acompanhou o ritmo rápido, ecoando-o. O desejo cresceu entre eles, escalando com rapidez estonteante. Como se o sentisse, ela terminou o beijo com uma pequena mordida no lábio inferior de Gabe. – Não tão depressa. – Era meio pedido, meio exigência. – Dê-me tempo para pensar. – Esqueça, Catherine, nada de esperar mais. Isto é tudo o que importa – disse ele, ardente. Mais uma vez, saqueou-lhe a boca com beijos curtos, mordidos, enquanto as mãos viajavam docemente pelos caminhos familiares que haviam ficado inexplorados por tempo demais. – Isto é que é importante. O que sentimos aqui e agora. – Queria que fosse verdade. – A respiração dela parou quando ele reencontrou uma curva particularmente vulnerável de pele, ao longo da parte externa do seio. – Não podemos esquecer o que houve antes, meus motivos para abandoná-lo. E todo o espaço vazio, durante o tempo em que ficamos separados? Por mais prazer que nos dê, embolar os lençóis da cama não fará nossos problemas desaparecerem. – Mas nos dará um alicerce – garantiu ele. – Nos dará uma base comum a partir da qual trabalhar. – Ele lhe acariciou a carne quente entre as pernas, observando os olhos ficarem nublados e a respiração explodir. – Fomos feitos um para o outro. Ela deu um jeito de balançar a cabeça, mas ele viu o esforço que precisou fazer. Se pressionasse, ela cederia. E, embora partes dele a quisessem de qualquer maneira, a parte racional de seu cérebro a queria disposta, sem remorsos. Debruçou-se e deu-lhe um beijo maldosamente lento e completo antes de recuar. Ela o olhou com suspeita, enquanto passava a ponta da língua nos lábios inchados. – Está saindo fumaça? Parece que está saindo fumaça. Ele riu, sem saber como ela fazia isso. Como o tirava de uma fome total e o divertia com uma simples pergunta? – Não está saindo fumaça dos seus lábios, mas da sua língua, sim. Só um pouco, em torno das beiradas. – Ele se debruçou. – Posso lhe mostrar onde, tornar ainda melhor. Então foi a vez de Catherine rir. – Aposto que sim. – Ela fechou os olhos. – Você torna impossível pensar. – Então não pense. – Não conseguia tirar as mãos dela. – Apenas sinta. – Isso não é inteligente nem seguro. – Não magoarei você, Cate. Ele sentiu o tremor que a sacudiu, o estremecimento da dor relembrada. – Já magoou – sussurrou ela. – Deixe-me curar um pouco desta mágoa. A oferta provocou lágrimas que brilharam nos olhos dela como pó de ouro. Ele não sabia se tinha dito a coisa certa ou a errada. Apenas sabia que era honesta, nascida do próprio coração. Em reação, os braços dela deslizaram por seu peito e ela lhe segurou o rosto nas mãos. Dessa vez, Catherine deu início ao abraço. Foram os lábios dela que buscaram os dele e escorregaram como um


bálsamo sobre a boca de Gabe. Ela a explorou com uma delicadeza que lhe era própria, dançando leve e docemente. Com ternura. Assim como ele se familiarizou de novo com as reentrâncias e as elevações, a textura e o perfume marcantes do corpo de Catherine, ela então fazia o mesmo. Suas mãos viajaram pelas costas de Gabe, experimentando planos e ângulos bem mais rijos do que aqueles que ele examinara. – É aqui que você o carrega – disse ela, entre beijos, acariciando-lhe os ombros. – O peso de suas responsabilidades. Gabe trilhou os ombros dela com os dedos, segurando as tiras finas da camisola e fazendo-as descer pelos braços. – Sou forte, posso carregar muito peso. – Agora, não. Agora quero você bem aqui, comigo. Sem responsabilidades, sem interrupções, apenas nós dois. Ela não compreendia? – Não há outro lugar no mundo onde queira estar. – E encontraria um meio de provar-lhe. Gabe deu-lhe uma série de beijos ao longo da borda rendada da camisola, onde se aprofundava sobre os seios, e tirou com os dentes a barreira leve. Quase gemeu com a textura de cetim da pele em sua boca e rosto. Os seios eram gloriosos, firmes e lindamente formados, mas ela também era. Segurou um dos mamilos entre os dentes e, com muita delicadeza, sugou-o, observando a onda de cor que lhe cobriu a pele e lhe deu ao rosto um delicado tom de rosa. – Seus olhos escureceram – disse ele. – Estão como ouro antigo. – Eles não escureceram. – A respiração dela saiu num leve gemido. – Ficaram cegos. – Você não precisa ver, apenas sentir. Mais do que qualquer coisa, queria que fosse perfeito para ela, para amenizar um pouco o que acontecera antes. Por mais que quisesse tomá-la, mergulhar no calor dela e criar aquela união final, aquela primeira vez seria para ela. Gabe lhe daria gentileza e lhe daria a cura pela qual ela tanto ansiava. Dançou com ela, dançou com a boca e as mãos e as suaves carícias, erguendo-a cada vez mais e mais alto, em direção ao paraíso intangível. O ar se tornou denso e pesado com a necessidade, fechando em torno deles até que tudo o que existia eram um homem e uma mulher e o desejo que transformava os dois em um. Ele a levou sempre para cima, sabendo exatamente como tocá-la, onde acariciá-la, até que os músculos de Catherine flexionaram e ela pairou à beira do abismo. Então ele a penetrou e uniu os corpos, limpando com beijos as lágrimas impotentes que se penduravam nos cílios dela, como pó de diamantes. Lenta e delicadamente, ele se moveu, elevando-a, para cima e para cima e para cima, até fazê-la desmoronar, e a acompanhou. Por um bom tempo depois, se mantiveram abraçados numa suada mistura de braços e pernas. – Não consigo lembrar como se respira – disse ele por fim. – Engraçado, não consigo me lembrar de como me mexer. – Ela abriu apenas um olho. – Se eu respirar por você, pode se mexer por mim? – Vou tentar – gemeu ele. – Talvez amanhã. – Está bem. – Ela ficou em silêncio por tanto tempo que ele pensou que dormira de novo. Então perguntou: – Por quê, Gabe? – Por que o quê? – perguntou ele em tom preguiçoso.


Ela abriu os olhos, claros e brilhantes como o sol. – Você sempre foi um amante generoso. Mas esta manhã… esta manhã foi um presente. Ele sorriu. – Então o aceite e diga obrigada. – Obrigada. – Não há de quê. – No entanto, fico pensando… – Uma fina ruga se formou na testa dela, como uma nuvem de tempestade surgindo no horizonte. – Para onde vamos agora? O que você quer de mim? Ele foi sincero na resposta. – O que estiver disposta a me dar. Ela absorveu aquilo, ponderou em sua mente e então assentiu. – É fácil. Não posso lhe dar algo permanente, mas posso lhe dar algo temporário. Podemos desfrutar um do outro pelos próximos meses. Não tenho problemas com isso. O maxilar dele se contraiu. – E depois? Alguma coisa no sorriso dela pareceu falsa. – Depois seguimos nossos caminhos, é claro. Tentamos viver juntos uma vez e não deu certo, lembrase? Como ela podia mentir deitada debaixo dele e agir como se o que sentiam um pelo outro fosse passageiro? Será que não sentia a conexão, a forma como seus corpos se fundiam? A forma como suas mentes e suas almas eram totalmente ligadas? – E se alguns meses não forem suficientes? – argumentou ele. – Não foram da última vez. Gabe observou-a procurar e escolher as palavras, e suas suspeitas aumentaram. Ela estava escondendo alguma coisa, mantendo uma parte de si mesma cuidadosamente distante. – Éramos pessoas diferentes na ocasião. Tínhamos objetivos diferentes. Você queria uma mulher que tomasse conta de sua vida social. Alguém que cuidasse de você e do seu lar. Na ocasião, achei que seria suficiente para mim também. – Você está falando da sua carreira? – O alívio foi tão grande que ele quase riu. – Acha que faço objeções a que você tenha sua própria empresa? – Não… pelo menos, ainda não. Mas tenho a impressão de que chegará um momento em que você esperará que a deixe de lado para atender a obrigações mais prementes. – Obrigações mais prementes... – repetiu ele e seus olhos entrefecharam. – Está falando de filhos? Ela se recusou a encontrar seus olhos. – Não quero filhos, Gabe, quero uma carreira. Você deixou muito claro antes de eu ir embora que estava planejando uma grande família, como a que teve na infância. Ele se sentou e passou a mão pelos cabelos. – Foi por isso que me deixou? – perguntou ele, sem acreditar. – Porque não queria ter um bebê? – Você estava me pressionando para que tivéssemos. – Droga, eu lhe pedi para se casar comigo. – Eu me lembro – retorquiu ela. – Foi uma linda proposta… até o momento em que o trabalho ergueu sua cabeça monstruosa. O telefonema de Roxanne me interrompeu quando eu estava começando a responder, lembra-se?


Ele tentou se lembrar. Ela estava chorando, lágrimas de alegria, tinha certeza. Estava tremendo e rindo enquanto aquelas lágrimas lhe desciam pelo rosto. E ela disse alguma coisa… O que foi? – Havia algo que queria me dizer. – Ele deu de ombros. – Presumo que fosse alguma coisa como “sim, querido, aceito me casar com você”. Ou até nisso eu me enganei? – Não tem mais importância, porque você saiu – falou ela com cuidado, como se mantivesse aquelas emoções antigas a uma distância cautelosa. – Você me deixou lá, com aquelas lindas flores e o jantar que não comemos esfriando nos pratos. Você me deixou com seu belo anel e promessas vazias ecoando em meus ouvidos, porque, quando se trata de prioridade, a sua sempre foi e sempre será a Piretti’s. Então você saiu, explicando sem palavras a posição de nosso relacionamento no grande esquema das coisas em sua vida e não voltou. Não no dia seguinte, nem no outro. – Que inferno, Catherine. Você não sabia da tentativa de tomarem a empresa naquela época, mas expliquei tudo isso a você ontem, em seu apartamento. O que eu devia fazer? Deixar que me tomassem a Piretti’s? Deixar que aqueles idiotas roubassem minha empresa? – Ele se levantou e vestiu apressadamente as roupas. – E eu voltei para casa, sim. Voltei para casa e encontrei um pequeno e frio bilhete seu e o anel sobre o qual chorou tão lindas lágrimas em cima da minha maldita cômoda. Ao fazerem amor, grande parte das defesas dela ruiu, permitindo a Gabe ver tudo o que ela havia enterrado. E ele viu dor, medo e vulnerabilidade. – Por que deveria esperar qualquer outra coisa, Gabe? Acha que sou algum brinquedinho que pode pegar e guardar quando bem entender? Algum dia se perguntou o que fiz enquanto estava administrando seu império? Ou apenas me deixou numa prateleira e se esqueceu de mim até voltar para casa e me pegar de novo? Não fico em hibernação como um de seus malditos computadores. – Jamais disse… – Ele passou a mão nos cabelos e soltou a respiração com força, enquanto tentava manter a calma. – Há algum motivo para você repetir tudo isto de novo? Sei o que aconteceu e sei que queria mais do nosso relacionamento do que pude lhe dar. Estou disposto a fazer isso agora, mas não vejo sentido em falar sobre o passado. – Se não agora, então quando? – Ela virou a cabeça de lado. – Ou você espera que não tenha mais importância e apenas continuemos a partir daqui? – Você é boa em acusar, Catherine. E estou sendo o mais franco que posso. Estraguei tudo, cometi erros. Mas, se vamos voltar ao passado e desenterrar toda aquela lama, então você terá de ser franca comigo também. Os olhos dela se abriram. – Como assim? – Estou disposto a continuar esta conversa quando parar de mentir para mim e me dizer o que de fato aconteceu e me contar por que, de verdade, você me deixou. Ela balançou a cabeça em negativa instantânea. – Não sei o que você está... – Besteira! Apenas deixe as bobagens de lado, está bem? Ele respirou fundo e lutou para se controlar. Por algum motivo, seu olhar caiu na mesinha de cabeceira ao lado dela. Havia um celular lá, e não era o dele. Olhou-o por um longo minuto, enquanto considerava como e quando Catherine o deixara lá. Então percebeu. Ela não se instalou no quarto no fim do corredor quando chegou ao apartamento no dia anterior. Levou as coisas dela para a suíte dele,


pelo menos no começo. Podia adivinhar precisamente quando ela se mudou para o outro quarto e por quê. Levantou-se, atravessou o quarto, pegou o celular e jogou-o para ela. – Ligue para sua sócia – exigiu. – Diga a ela que nos encontre na Piretti’s dentro de uma hora. – Como assim? Estamos no meio de uma... – Discussão? – quase gritou ele. – Uma conversa. – Certo. Bem, é uma conversa que deixaremos de lado até que você me conte tudo. Até lá, está suspensa. A indignação tomou o rosto de Catherine e reverberou em sua voz. – Deste jeito? Ele inclinou a cabeça. – Deste jeito. – Deliberadamente, ele mudou de assunto. – Vi alguns de seus registros financeiros na noite passada. E fiz uma leitura rápida dos documentos que você me deu quando voltei ao escritório ontem. Você não me disse que sua sócia cuida dos livros? – Sim, mas… – Então quero me encontrar com ela. Agora. – Ela abriu a boca para discutir, mas ele a interrompeu, sem cerimônia. – Você veio a mim para ajudá-la – lembrou. – E é assim que ajudo. – Está bem, certo. Vou ligar para ela. – Vou tomar um banho. Quer se juntar a mim? – Outra hora, talvez. Gabe conseguiu sorrir. – Vou cobrar. – Ele começou a andar em direção ao banheiro, então parou. – O fim do nosso relacionamento não foi por causa de filhos ou carreira, Catherine. Há alguma coisa acontecendo, e eu ainda não sei o que é. E, quando souber, faremos mais do que apenas conversar sobre o assunto. Vamos resolver isso de uma vez por todas.


CAPÍTULO 6

FIZERAM O curto caminho até a Piretti’s em silêncio. Catherine parecia mais pálida do que Gabe gostaria, mas não tinha certeza de que era resultado da reunião em vista ou por causa da discussão que tiveram. Talvez um pouco de cada. Roxanne já estava à escrivaninha quando chegaram, e ele observou com interesse enquanto as duas trocavam um longo olhar. Outro problema à vista; ele precisava pensar bem antes de decidir a melhor maneira de resolvê-lo. Entraram no escritório no momento em que o celular de Catherine tocou. – Com licença um minuto – murmurou. Por vários instantes, ela apenas ouviu em silêncio, com uma expressão cada vez mais preocupada. – Obrigada, cuidarei disso. – Problemas? – perguntou quando ela desligou. – O casamento de Collington está marcado para daqui a oito dias e a noiva acabou de cancelar nossos serviços. – Tão perto assim? Catherine assentiu. – Certamente ela soube do que aconteceu no evento dos Marconi e entrou em pânico. Di… minha sócia a convenceu de me encontrar para o almoço. – Vou com você. Para a surpresa dele, Catherine não discutiu. – Normalmente, eu seria capaz de cuidar disso. É normal as noivas ficarem meio loucas nessa fase, estou acostumada. – Mas tentar acalmá-la depois que ela soube de tudo o que deu errado com a festa de Natalie… – Será um desafio. Felizmente, tenho um ás na manga. – Ela sorriu, o primeiro sorriso natural desde que haviam discutido. – Você. Sempre teve um jeito especial, uma grande habilidade para tranquilizar as pessoas. – Farei o melhor que puder. – Olhou as horas. – Sua sócia está atrasada. – Talvez tenha ficado presa no trânsito. – Tem certeza de que ela virá? – Estava no centro quando me ligou.


Naquele exato momento, vozes reverberaram através da grossa porta de painéis de madeira, uma delas irritada, claramente a de Roxanne. Gabe percebeu que sua assistente não estava de bom humor naquela manhã. A outra, uma voz que ouvira durante todos os seus 33 anos, respondia com autoridade impaciente. A porta do escritório se abriu com força e sua mãe parou, com a mão na maçaneta. – Sei o caminho para o escritório do meu próprio filho, Roxy – disse à assistente de Gabe. – É Roxanne. – Bem, talvez depois que tiver trabalhado aqui por algum tempo, eu me lembre do seu nome. Gabe viu que sua assistente lutava visivelmente para manter a compostura. E conseguiu, com enorme dificuldade. – Ele tem uma reunião agendada, sra. Piretti. E, apenas para deixar as coisas bem claras, trabalho aqui há três anos, como a senhora sabe muito bem. – É mesmo? Podia ter jurado que você era uma daquelas irritantes funcionárias temporárias. – Então, Dina bateu a porta no rosto de Roxanne e, virando-se, sorriu aberta e alegremente. – Gabriel, Catherine, é tão bom ver vocês dois juntos de novo. Quero apenas um minuto para ficar aqui e desfrutar a vista. Os lábios de Gabe se contraíram. – Lamento, mãe, mas Roxanne tem razão. Estamos esperando que a sócia de Catherine na empresa se junte a nós para… Parou quando a ficha caiu e ele percebeu a ligação, uma ligação que teria visto muito antes se não estivesse tão obcecado pela mulher apreensiva em pé ao lado dele. – Não, ah, droga. Você não é… você não pode ser… Dina estendeu a mão. – Dina Piretti, coproprietária da Elegant Events. Tão gentil da sua parte nos ajudar com nossa pequena crise financeira. A REUNIÃO não durou muito tempo. No minuto em que Dina saiu, Gabe se virou para Catherine. – Minha mãe? Você me deixou e montou uma empresa com a minha mãe? Catherine lutou para manter a calma. – Não vejo o que uma coisa tem a ver com a outra, Gabe. – Você não vê… – Ele passou os dedos pelos cabelos, transformando a ordem numa desordem muito atraente. – Você deve ter suspeitado que eu não gostaria da ideia, já que as duas tiveram muito cuidado para esconder isso de mim por quase dois anos. Por quê, Cate? Ela pôs as mãos nos quadris. – Você quer lógica? Certo, então escute. Eu não queria vê-lo. Se você soubesse que tinha uma empresa com sua mãe, não seria capaz de manter distância. Pior, podia tentar interferir ou… não sei… – Fez um gesto com a mão no ar. – Tentar protegê-la de mim e nos impedir de trabalhar juntas. – Está totalmente certa sobre eu tentar impedi-la de ter uma empresa com minha mãe – retorquiu ele. – Mas não pela razão que pensa. Não seria minha mãe que estaria protegendo, seria você. Isso a fez se calar. – Do que está falando? – Eu lhe contei que tive de dar um golpe para ficar com a Piretti’s – começou ele.


– Certo. – Ele jamais lhe contara os detalhes, a não ser que tinha sido uma das ocasiões mais difíceis de sua vida. Mas ela lera nas entrelinhas. – Depois que seu pai morreu. Ele balançou a cabeça. – Não exatamente. Depois que ele morreu, minha mãe assumiu a direção. Ela ficou surpresa, embora não muito preocupada. – E daí? Ela é brilhante. – Sim, é. O que nunca lhe disse é que ela estava dirigindo brilhantemente a Piretti’s rumo à falência. Foi quando eu tomei o controle. Ah, não. Não parecia nada bom. – Tomou. Quer dizer… – Ela lutou para encontrar uma palavra mais suave. – Encarregou-se. A boca de Gabe endureceu. – Não, quero dizer que invadi e instiguei uma tomada hostil. Você me provocou muitas vezes por causa do meu apelido, mas nunca me perguntou como o consegui. – Ele baixou a cabeça e coçou a nuca. – Bem, foi nessa ocasião. Ela se aproximou, segurou-lhe o braço e sentiu os músculos esticados, com a tensão palpável. – Não acredito que tenha feito uma coisa dessas, a menos que fosse absolutamente necessário. O que aconteceu, Gabe? Por que foi obrigado a ir a tais extremos? Ele ficou imóvel. – Catherine – disse apenas o nome dela, com tanta suavidade, com tantas emoções por trás. Ele ergueu a cabeça e olhou-a, e a intensidade do olhar a hipnotizou, o tom de azul tão brilhante que envergonhava o céu. – Você mostra tanta confiança, nem uma só palavra de hesitação. Como pode achar que o que há entre nós é temporário? – Eu o conheço. – A admissão foi feita num sussurro. – Sei que espécie de homem você é. – Sou duro e impiedoso. – Verdade. – Eu destruo empresas. – E as reconstrói. O mais leve indício de sorriso brincou na boca de Gabe, diminuindo um pouco a tensão. – Ou as transformo em parte da Piretti’s. – Bem, você é, acima de tudo, um homem de negócios. – A dor surgiu de novo dentro dela. – E é por isso que nosso relacionamento é temporário. Porque a Piretti’s não é apenas o lugar onde trabalha. É quem e o que você é. A tensão atacou mais uma vez. – Não houve escolha. Tive de tomar a empresa dela. Ela o puxou para o sofá e sentou-se ao lado dele. – Explique tudo – encorajou ela. – Você está certa sobre uma coisa. Minha mãe é uma brilhante mulher de negócios. Quando se trata de números e contabilidade e contratos, não há ninguém melhor. – Mas…? – Mas ela é bondosa demais. – Sim, também odeio isso nela – provocou Catherine. O sorriso estava de volta, idêntico ao da mãe. – Aquele coração mole significa que pessoas tiram vantagem dela.


– E elas tiraram. Ele assentiu. – Depois que meu pai morreu, ela começou a contratar amigos e familiares para trabalhar na Piretti’s. A palavra de ordem era nepotismo. Catherine tentou se colocar no lugar de Dina. – Provavelmente ela se sentiu confortada ao ter pessoas de quem gostava ao lado dela na ocasião. Ele começou a dizer alguma coisa, parou e franziu a testa. – Hum, nunca pensei nessa possibilidade, mas você pode estar certa. – Estou. Dina me contou. – Catherine enlaçou os dedos nos dele, precisava tocá-lo. Suspeitava de que ele também precisasse do contato físico. – Acho que foi no quinto aniversário da morte de seu pai. Ela estava tendo uma noite difícil e conversamos sobre todo o tipo de coisas. Foi uma das poucas vezes que ela mencionou a Piretti’s. – Tirar a empresa dela quase a matou. – A dor era evidente em sua voz. – Fiz isso com ela, com minha própria mãe. Catherine franziu a testa, preocupada. – Todos os amigos e familiares eram incompetentes? – Não todos, mas os que eram tiraram vantagens enormes. Ela lhes pagava salários ridiculamente altos por cargos que, na melhor das hipóteses, eles negligenciavam e, na pior, não executavam de jeito nenhum. Vinham algumas horas e saíam cedo. Isso obrigou mamãe a contratar mais pessoas para fazer o trabalho que não faziam. – O que explica por que você se recusa a misturar negócios e prazer. – Aquilo elucidava tanta coisa. – Você não podia participar da empresa e limpar a casa? – Se ela deixasse, sim. Mas tinha de considerar a diretoria. Catherine então compreendeu. – Deixe-me adivinhar, a diretoria era composta por aqueles indivíduos que estavam tirando vantagem dela e não permitiriam que você mexesse no status quo. – Adivinhou. Ela se encheu de compaixão. – Então a única solução era Gabe Piretti, o Pirata, tomar a empresa. – Eu limpei a casa. Começando no alto, com minha mãe, e descendo. – Como Dina lidou com isto? – Ela ficou furiosa, não queria nem falar comigo. Então, eu a sequestrei. Os olhos de Catherine se abriram. – Como? Você o quê? – Joguei-a no meu carro, em meio aos protestos dela. Levei-a para um resort e a obriguei a lidar com a situação. Naturalmente, as massagens diárias e os mai tais não prejudicaram. Também ajudou o fato de eu ter levado os livros de contabilidade e tê-la obrigado a estudá-los com cuidado. – Olhou-a friamente. – Pensei em usar a mesma abordagem com você para chegar ao fundo de algumas de nossas questões. Ela lhe soltou a mão e se levantou. – Não teria funcionado. Os olhos dele se estreitaram.


– E aí está o segredo de novo, bem entre nós. – Ele também se levantou. – Quantos mai tais seriam necessários para tirá-lo de você, Catherine? Ela balançou a cabeça. – Não há nada para tirar. Eu já disse, sua visão de casamento e do que quer dele é completamente o oposto do que quero. – Sabe qual é uma das características que fazem de mim um pirata tão bom? – Não esperou a resposta. – Sou excelente em compreender pessoas pela linguagem corporal. Ela recuou um passo. – Não todas as pessoas. – Você ficaria surpresa. – Ele a seguiu enquanto ela recuava. – Por exemplo, preciso apenas olhá-la para saber que está mentindo. Está escondendo alguma coisa de mim e todas as negativas do mundo não me convencerão do contrário. – Pior para você; terá de viver com isto. – Por exemplo… – Ele a prendeu junto a uma das enormes janelas que davam para o Sound, uma luz intensa iluminando-os, brilhando sobre eles e em torno deles. – Sei com certeza que sempre quis ter filhos. Você mesma me contou. Ela forçou o olhar a permanecer firme, capturado e sustentado pelo dele. – Há muito tempo, em outra vida. Mas mudei desde então. Minhas vontades e necessidades também mudaram. – Obrigou-se a rir. – Acho ridículo ter de explicar para você, entre todas as pessoas. Você, que põe os negócios à frente de tudo e de todos. Por que é aceitável para você e não é para mim? – Porque não é verdade. Ele se inclinou. Mesmo com camadas de roupas separando-os, ela sentiu o calor do corpo dele, os contornos pecaminosos e tão poderosamente masculinos. E então ele piorou tudo. Passou a mão de leve no ventre dela, os dedos abertos na superfície plana. Ela estremeceu sob o toque, com o ventre se arrepiando em reação. Um calor líquido empoçou no meio das pernas dela, roubando-lhe a razão e a sensatez. – Está me dizendo que não quer filhos? Nem mesmo um? Obrigou a si mesma a mentir. – Não, nem mesmo um. Um sorriso preguiçoso lhe surgiu no rosto, um sorriso que mostrou a ela que Gabe não acreditava em uma só palavra. Ele baixou a cabeça, a boca roçando a pele sensível do pescoço, bem abaixo da orelha, onde o pulso dela pulava e disparava. – Você não quer nunca dar à luz? – A pergunta a queimava como ácido. – Não quer sentir seu útero crescer com nosso bebê? Sentir as contrações da nova vida? Cantar e conversar com o bebê enquanto ele cresce e se transforma? Encorajar sua passagem desse ninho seguro para um mundo à espera de sua chegada? Deus do céu, faça-o parar, rezou ela, em silêncio. Catherine fixou o olhar num ponto acima do ombro dele e respirou profundamente para se acalmar. – É o que você quer, não é? – Mais do que imagina. Outra respiração lenta, e ela encontrou a coragem de voltar os olhos para os dele. Foi preciso usar tudo o que tinha para não reagir ao intenso calor daqueles impossíveis olhos azuis.


– Então sugiro que comece a procurar alguém que possa lhe dar isso, porque não serei eu. – Ela abriu as mãos sobre o peito dele e o empurrou alguns centímetros. – Olhe para mim, Gabe. Olhe para mim e me diga se estou mentindo para você. Nunca lhe darei um filho. Isso é claro o bastante para você? Ele afastou a mão do ventre dela e recuou. – Muito. – Seu rosto se transformou em linhas duras, tensas. – E muito honesto. – Obrigada por reconhecer. – Ela arrumou a roupa. – E obrigada por admitir. O telefone na escrivaninha tocou, e ele atendeu. Depois de ouvir por um momento, Gabe disse: – Ponha-o na linha. – Cobriu o bocal do telefone com a mão. – Desculpe, mas preciso atender a este telefonema. Ela adotou sua postura mais profissional. – É claro. Espero por você no hall. Ele a fez parar quando ela segurou a maçaneta da porta. – Catherine? Se acha que nossa discussão me fez mudar de ideia sobre nosso relacionamento, está enganada. Ela olhou-o por cima do ombro. – Por quê? Acha que, em algum momento no futuro, vou mudar de ideia? – Ela viu pela expressão que era exatamente isso que ele pensava e sorriu com imensa tristeza. – Deixe-me lhe dar um aviso e poupar a nós dois muito tempo e dor. Não mudarei. Então, ela saiu do escritório. FECHANDO A porta, Catherine respirou com força. As coisas estavam correndo tão bem que decidiu dar o próximo e inevitável passo. Chegara a hora de lidar com Roxanne. Ou se entendiam de uma vez por todas, ou Catherine adotaria as medidas necessárias. Mas nunca mais recuaria e se deixaria ser ferida. Nunca mais permitiria que aquela mulher prejudicasse sua empresa ou tornasse sua vida miserável, como fez no passado. Parou ao lado da escrivaninha de Roxanne, consciente de que ela a percebera e igualmente consciente de que não lhe daria nenhuma atenção. Era, sem dúvida, uma luta pelo poder, uma luta que Catherine tinha toda a intenção de vencer. – Esconder-se atrás da tela desse computador não fará com que eu desapareça. Tudo o que consegue com isso é me mostrar que tem medo de me olhar nos olhos. – Era a abertura perfeita, pensou Catherine com satisfação, fazendo a cabeça de Roxanne se dobrar para trás e a raiva brilhar nos olhos cor de ameixa. – Você e eu vamos acertar algumas coisas agora. – É você que precisa acertar algumas coisas, eu... – Não estou interessada no que tem a dizer – cortou Catherine em tom suave. – É sua vez de ouvir. Ou prefere ter esta conversa no escritório de Gabe? – E falar sobre o quê? – exigiu Roxanne, arrogante. – Suas queixas patéticas contra a assistente favorita dele? Gabe é racional demais para acreditar nelas. – Justamente porque ele é tão racional que acreditará. – Fez um gesto em direção à porta fechada de Gabe. – Vamos descobrir agora mesmo? – Não ficou nem um pouco surpresa por Roxanne não aceitar o desafio. – O que acha que vai conseguir me ameaçando? – perguntou Roxanne. – Você não tem ideia de quem ou o que está enfrentando.


Catherine plantou as palmas das mãos na escrivaninha de Roxanne e se debruçou. – Sei exatamente quem estou enfrentando e soube quem você era desde o primeiro dia, queridinha. Agora feche a boca e ouça com cuidado, porque vou dizer apenas uma vez. Se alguma vez se meter de novo com a minha empresa ou comigo, tomarei providências para pôr um fim na sua carreira. Será minha missão fazer de sua vida um inferno. – Você não tem esse poder – zombou Roxanne. – Ah, é? Me aguarde. A assistente de Gabe recostou-se na cadeira e cruzou os braços, com um sorriso satisfeito brincando na boca generosa. – Isso tem a ver com aquele seu pequeno desastre na festa dos Marconi? – Não, tem a ver com seu pequeno desastre na festa dos Marconi. Especificamente, com os rapazes nos barcos, cuja chegada você estava tão ansiosa que eu visse. O sorriso de Roxanne aumentou, lento e felino. – Você não pode provar que tive qualquer coisa a ver com aquilo. – Não? Catherine se endireitou, tirou o celular da bolsa e o abriu. Apertou um botão e tirou uma foto digital de Roxanne. Mais um botão, e a enviou por e-mail. Roxanne se endireitou na cadeira. – O que diabos você fez? – Mandei sua foto para meu e-mail. Quando chegar em casa, pretendo imprimi-la e entregá-la pessoalmente à Unidade Naval da polícia de King County. Eles detiveram alguns rapazes muito arrependidos e ansiosos para denunciar a pessoa que os convidou para a festa dos Marconi e os encorajou a fazer... como foi que eles disseram? Ah, sim, uma entrada espetacular. Roxanne ficou mortalmente pálida, e Catherine sorriu. – Não tem nada a dizer? Não é do seu feitio. Era demais esperar que o silêncio se prolongasse. Roxanne se recuperou em segundos. – E daí, se os convidei? É minha palavra contra a deles em relação ao que foi dito. – Tenha a certeza de que conseguirá explicar esse detalhe técnico a Natalie Marconi… depois de contar seu lado da história para Gabe. Duvido que qualquer um deles tenha muita simpatia por você, considerando o dano causado. – Eles não acreditarão em você. – Havia um tom de desespero na voz de Roxanne. – Ah, acho que acreditarão. E, depois que Natalie descobrir que você estava por trás do incidente com os barcos, não será muito difícil convencê-la a fazer algumas perguntas e descobrir se algum dos convidados viu uma convidada num vestido vermelho que chamava muito a atenção perto dos controles dos sprinklers. Garanto que alguém a viu. É o que acontece quando se esforça tanto para ser o centro das atenções. Algumas vezes você a consegue, quando preferia não a ter. Catherine esperou um instante para Roxanne entender a mensagem, antes de acrescentar. – Isto acaba agora. Mantenha suas garras fora da minha empresa. E, mais importante, mantenha sua boca, e qualquer outra parte do seu corpo, longe do meu homem. E pare de marcar encontros de negócios em horários que interfiram em nossa vida. Roxanne lutou para recuperar um pouco de sua audácia. – Estraguei sua primeira noite juntos, não foi? – Soltou um suspiro de desapontamento fingido. – Que pena!


– Gabe mais do que compensou esta manhã. – Isso lhe apagou o sorriso. – Vou lhe dar exatamente uma semana para convencer Natalie de que outra pessoa foi responsável pelos acontecimentos daquela noite, e não a Elegant Events. Tem sete dias para convencê-la de que outra pessoa, e não eu, sabotou aquela festa. Os olhos de Roxanne se abriram em pânico. – Você enlouqueceu? Como espera que eu faça isso? – Não sei e não me importo. Você sempre foi rápida e eficiente para inventar histórias. Descubra uma forma. – E se eu recusar seu… pedido? – Não foi um pedido e, dentro de uma semana, vou agir. Vou começar com o xerife e terminar com um advogado. E, em algum momento, uma noite na cama, talvez, eu me perguntarei em voz alta se você é o tipo de pessoa que Gabe quer representando a Piretti’s. Sementes como esta criam raízes de uma forma estranha. – Se eu fizer o que você quer… – As palavras saíam como vidro moído. – Então, o quê? – Então você tem duas opções: número um, você se comporta e para de interferir. Por exemplo, tenho um evento a realizar no próximo fim de semana. Se Gabe e eu conseguirmos salvar o contrato. Você não vai interferir nesse evento de forma nenhuma. Se qualquer coisa der errado, uma coisa mínima, vou responsabilizar você. Não ligo se chover no dia, será culpa sua. Se o vulcão Rainier se tornar ativo e jogar cinzas sobre o dia especial de Annie Collington, será culpa sua. Se qualquer coisa der errado, qualquer coisa mesmo, prometo a você, acabarei com a sua raça. Um olhar ao rosto de Roxanne mostrou tudo. Ela havia planejado alguma coisa. Catherine apenas imaginava o que seria. – Você disse que tenho duas opções – disse Roxanne. – Qual é a outra? – Pode fazer as malas e procurar outro chefe com quem consiga se dar bem. – Você não pode me demitir, só Gabe. Catherine sorriu com real prazer. – Esta é minha parte favorita do nosso pequeno dilema, porque você está certa. Não tenho essa capacidade. Então pensei na maneira perfeita de ultrapassar esse pequeno obstáculo. Sabe, homens sempre têm tanto problema em decidir qual seria o presente perfeito para suas noivas. – Não que ele a tivesse pedido em casamento, mas Roxanne não precisava saber. – Para a sorte de Gabe, sei exatamente o que quero. E garanto que ele atenderá ao meu pedido. – Sua vagabunda! A diversão de Catherine desapareceu. – Você está certa, cansei de bancar a boazinha. E, no caso de ainda ter dúvidas, deixe-me lhe garantir que os benefícios de ser vagabunda aumentam sempre. – Deu a ela o roteiro, capítulo e verso. – Se tentar criar problemas depois de ser demitida da Piretti’s, as pessoas vão concluir imediatamente que está com inveja. E, se tiverem a menor dúvida, explicarei primeiro a elas, e depois ao meu advogado, quem é você e o que fez. – Ela soltou a respiração num pequeno e feliz suspiro. – Viu como é tudo simples? – Isto ainda não acabou, sua… – Ela parou e, para surpresa de Catherine, grandes lágrimas lhe encheram os olhos. – Ah, Gabe, lamento que você nos encontre assim. Gabe estava em pé à porta, o olhar passando de uma para outra. – Problemas?


– Ainda não – disse Catherine, mantendo Roxanne presa ao olhar duro. Ergueu o celular, como se para lembrá-la do que disse, e o guardou com cuidado na bolsa. Foi uma advertência sutil, mas pareceu fazer um efeito profundo. Satisfeita por terem se entendido, Catherine se virou e dirigiu a Gabe um sorriso caloroso. – Problema nenhum – garantiu ela. – Roxanne e eu apenas chegamos a um entendimento, o que deveríamos ter feito há muito tempo. Ele cruzou os braços. – Isso explica as lágrimas. – Exatamente – disse ela em tom de voz sereno. – Lágrimas de alegria. Estamos ambas engasgadas de emoção. – É, estou vendo. – Ela desejou poder ler a expressão dele, mas Gabe colocara aquela máscara indecifrável que usava durante as mais intensas negociações empresariais. – Roxanne? Alguma coisa a acrescentar? A assistente cerrou os dentes em frustração, mas deu um sorriso frio e duro. – Nada. Pelo menos, ainda não. – Excelente. – Ele inclinou a cabeça em direção aos elevadores. – Pronta, Catherine? – Como sempre. – Então vamos, antes que você cause mais lágrimas de alegria.


CAPÍTULO 7

CATHERINE ENSINOU a Gabe o caminho até a pequena cafeteria na região norte da cidade, onde marcara o encontro com a noiva. Annie Collington, uma ruiva expansiva com algumas sardas no nariz arrebitado, parecia tensa e infeliz. Depois das apresentações, Annie sorriu para Gabe com apenas um leve indício de sua animação habitual. – Eu o reconheço, é claro. Acho que sua foto está em toda a parte, desde a coluna social até a seção econômica e as revistas de fofocas. – Eu não acreditaria em nada, a não ser nas revistas de fofocas. Os olhos dela brilharam, divertidos, por um breve momento, até encontrarem o olhar de Catherine e sua alegria desaparecer. – Temos mesmo de fazer isto? – perguntou ela, com expressão infeliz. – Eu a demiti e ponto-final. Nada do que você disser vai me fazer mudar de ideia. Antes que Catherine respondesse, Gabe se intrometeu, calmamente. – Por que não nos sentamos, tomamos uma xícara de café e comemos alguma coisa, enquanto tentamos descobrir um meio de resolver tudo? – Por favor, Annie – acrescentou Catherine, com pressão gentil. – Seu casamento é daqui a apenas oito dias. Você planejou um dia tão lindo. Não quero que tome decisões precipitadas e que possam causar problemas. – É exatamente o que estou tentando evitar – insistiu Annie. – Soube o que aconteceu na festa dos Marconi. Foi um desastre, e não posso deixar que aconteça no meu casamento. – E não acontecerá – garantiu Gabe. Guiou as duas até a mesa que a garçonete preparara para eles. Sem parecer que o fazia, esperou que se sentassem e então pediu café e uma travessa de sanduíches. – Posso fazer uma proposta que pode ajudá-la a tomar sua decisão? – perguntou a Annie. – Gabe… – começou Catherine. – Não, está tudo bem – interrompeu Annie. – Ele pode tentar. Catherine ficou em silêncio, lutando para reprimir um aborrecimento irracional. Afinal, Gabe estava apenas tentando ajudar, mesmo se tivesse tomado o controle da reunião. Mas não gostava que ele agisse como… bem, como um maldito pirata.


– O que acha, Annie? – disse Gabe. – Se concordar em continuar trabalhando com Catherine e a Elegant Events no planejamento de seu casamento, garanto pessoalmente que sua festa transcorrerá sem um único arranhão. – Não pode fazer isso – protestou Catherine, de pronto. – Você pode fazer isso? – perguntou Anne ao mesmo tempo. – Posso, com certeza. O café chegou em um bule esguio, de porcelana pintada com um intrincado padrão de morangos silvestres e folhas verdes. Depois de dirigir um sorriso caloroso à garçonete, Gabe assumiu a tarefa de servir o café aos três. Suas mãos grandes poderiam parecer desajeitadas segurando as delicadas xícaras de porcelana, mas ele usou o serviço de café com uma destreza impressionante, o que o fez parecer ainda mais poderoso e masculino. Serviu-as com rapidez e agilidade, e Catherine percebeu que ela não era a única maravilhada pela forma como sua intensa masculinidade dominava e controlava aquela pequena tarefa tão feminina. – Vamos ver se esta oferta lhe agrada – disse ele, enquanto entregava uma das xícaras a Annie. – Se você não ficar cem por cento satisfeita com sua festa de casamento, eu pessoalmente garanto que receberá de volta cada tostão que pagar. Ela aceitou o café com um sorriso. – Isso não garante exatamente que tudo ocorrerá sem problemas – mostrou ela, com racionalidade impressionante. – Verdade – concordou Gabe, enquanto Catherine se enfurecia em silêncio com a audácia dele. Não queria nem precisava que ninguém garantisse sua capacidade de executar a festa de casamento. Era capaz, competente. Conhecia seu trabalho por dentro e por fora. Mas, com aquela única oferta, ele reduzira a Elegant Events, aos olhos de sua cliente, a uma empresa que estava lutando para começar e precisava de um homem de negócios “verdadeiro” para legitimar sua capacidade de executar tudo com sucesso. Gabe relaxou na cadeira, no controle. – Posso não ser capaz de garantir que nada dará errado se você honrar seu contrato. Mas compreenda, Annie, há uma coisa que posso garantir. – Ele fez uma pausa para dar peso ao comentário. – Sua festa de casamento será um fracasso total se tentar administrá-la sozinha tão perto da data. Está pedindo para ter problemas ao tentar ser, ao mesmo tempo, noiva e coordenadora da festa. Annie mordeu o lábio inferior, mostrando claramente que já pensara nisso. – Posso ser capaz de realizar a festa – afirmou. – Acha mesmo? Então sugiro que considere isto… – Ele voltou contra ela todo o charme e a competência dos Piretti nos negócios, enquanto Catherine observava com divertida exasperação. Annie não tinha uma chance contra ele, pobre moça. Ouvia cada palavra, de olhos arregalados, enquanto se deixava enfeitiçar, como qualquer outra mulher que enfrentava aqueles demoníacos olhos azuis e sua personalidade persuasiva. – Depois do que aconteceu na festa dos Marconi, Catherine está comprometida a fazer de sua festa de casamento um evento perfeito sob todos os aspectos, no mínimo para provar que sua reputação por excelência é real. Catherine lançou a Gabe um olhar que visava a controlá-lo. Não que adiantasse; ele era incontrolável.


– Não posso entrar em detalhes sobre o que aconteceu – explicou Catherine a Annie, assumindo o controle da reunião com habilidade. – Mas quero lhe garantir que os problemas que tivemos não foram resultado de nada que eu tivesse feito de errado, mas causados por alguém que resolveu fazer uma brincadeira de mau gosto para se divertir, ao ligar os sprinklers. Além disso, alguns rapazes invadiram a festa de barco. Sei que é um momento estressante para você e não duvido que esteja sob grande pressão. – Minha mãe insiste para que eu a dispense – admitiu Annie. – E como é ela quem está pagando… – Se você quiser que eu converse com ela e discuta suas preocupações, o farei. Anne pensou um pouco antes de balançar a cabeça. – Não, não será necessário. Uma das coisas em que eu e mamãe concordamos foi que este é meu casamento e que eu tomo as decisões. – O sorriso dela foi genuíno. – Ela apenas paga por elas. Catherine sorriu de volta e pressionou mais um pouco, com gentileza. – Então, espero que você decida honrar nosso contrato. – Manteve o olhar preso ao de Annie, esperando que ela visse sua sinceridade e sua determinação. – Prometo fazer tudo o que sei de melhor por você. – Mas a garantia de Gabe permanece, certo? Catherine cerrou os dentes. – A garantia de Gabe permanece. – Nesse caso… – Annie sorriu. – Está bem. – Está combinado? Podemos continuar? – Combinado, você continua como minha planejadora. – Annie voltou a atenção para Gabe e lhe deu um olhar malicioso. – Embora deva admitir que esteja meio que esperando que alguma coisa dê errado e você pague a conta. Ele se debruçou sobre a mesa. – Vou ver o que posso fazer para sabotar alguma coisa – disse ele, num sussurro teatral. – Alguma coisa que não cause muitos danos, mas o suficiente para livrar você do pagamento. Annie riu. – Não, não faça isso. Apenas me faria sentir culpada depois. Tudo o que importa para mim é que garantir que não haverá erros. – Gabe não precisará se preocupar com isso – interrompeu Catherine, com a voz suave. – É o meu trabalho. – Lançou a Gabe um olhar. – E o faço muito bem. O almoço correu tranquilamente, embora depois Catherine não conseguisse lembrar sobre o que haviam conversado ou até mesmo o que tinham comido. Embora parte dela estivesse grata pela ajuda de Gabe, afinal, ele salvara o contrato, não salvara? Outra parte, a principal, estava furiosa. – Vamos – disse ele, assim que se separaram de Annie e se dirigiram para o Jaguar. – Diga logo, o que a está aborrecendo? Ela não se conteve. – Sei que você está acostumado a assumir o controle, mas gostaria que se lembrasse de que é a minha empresa. Ele parou ao lado da porta do passageiro, com a chave na mão. – Você se aborreceu por eu oferecer a garantia de que o evento seria bem-sucedido? – perguntou, surpreendido.


– Para ser franca, sim. Eu me senti como uma adolescente comprando seu primeiro carro e precisando do papai para avalizar o empréstimo. Ele pensou naquilo por um minuto. – Talvez ajude se você examinar a questão por um ângulo um pouquinho diferente. Ela cruzou os braços. Que outro ângulo haveria? – Que outro ângulo? – Sou um homem de negócios e não gosto de perder dinheiro. – Pensou mais um pouco e acrescentou: – É mais do que natural não gostar de perder dinheiro. – Então é melhor esperar que não haja nenhum problema porque, de outra forma, você terá de pagar uma conta de… Ela fez em silêncio algumas ginásticas matemáticas e deu um total que o deixou pálido. – Casamentos não são baratos – informou ela. – Especialmente os que planejo. – Por que eles não compram uma casa? – argumentou Gabe. – Vai durar muito mais e um dia se mostrará um excelente investimento. – Felizmente para a Elegant Events, isso não ocorre a muitos casais. Ele deixou o assunto de lado. – Meu argumento é… minha oferta para garantir seu sucesso mostra a extensão da minha confiança em você e na Elegant Events. Não apoio perdedores e não tenho a menor intenção de pagar a festa de casamento de Annie. Nem terei de pagar porque a conheço. Sei que fará um trabalho maravilhoso. Catherine abriu a boca para falar, mas fechou-a de novo. – Hum. Gabe diminuiu a distância entre eles, apertando-a contra o carro. – Tenho confiança em você, querida. Não há uma única dúvida em minha mente de que o casamento de sábado será um sonho que se tornou realidade para a jovem Annie e sei que tudo será graças a você. – Você acredita mesmo? – perguntou ela, comovida. – Sempre acreditei em você, e um dia me deixará provar isso. Ela mal teve tempo para absorver o que Gabe disse antes que ele baixasse a cabeça e lhe tomasse a boca num beijo tão terno que os olhos dela se encheram de lágrimas. Ele acreditava nela, fez o melhor que sabia para demonstrar naquele dia; e o que ela lhe deu em troca? Dúvidas, desconfiança, segredos. Por mais que temesse dar aquele primeiro e hesitante passo para restabelecer o relacionamento entre os dois, talvez fosse a hora de arriscar o primeiro salto de confiança. Gabe estava estendendo a mão. Talvez, apenas talvez, ela devesse fazer o mesmo. E, com esse pensamento, ela se entregou ao abraço e se abriu às possibilidades, abriu-se ao sonho. A SEMANA seguinte passou voando. Para sua diversão, Gabe compreendeu que Catherine estava fazendo exatamente o que ele previra. Ela dedicou cada energia, foco e determinação no planejamento e execução para fazer da festa de casamento de Annie o evento mais perfeito possível. Checou duas, três vezes cada detalhe. Depois checou de novo. Previu infinitos problemas que poderiam ocorrer, infinitas possibilidades que poderiam acontecer no último instante. Sabia que estava sob vigilância intensa, que qualquer falha, por menor que fosse, seria considerada uma catástrofe. A mãe de Annie, em particular, já estava se mostrando


uma amolação de grandes proporções, com infinitos telefonemas e exigências. Mas Gabe percebeu que, apesar de tudo, Catherine lidava calmamente com cada problema e exigência, sem permitir que seu comportamento deixasse de ser cortês e tranquilizador. – Você está à beira da exaustão – disse a ela, pouco antes do fim da semana. Mergulhou os dedos nos músculos rígidos dos ombros dela e fez uma massagem para tirar os nós. – Você não vai querer parecer exausta, e a melhor maneira de evitar isso é dormir um pouco. Catherine assentiu, distraída. – Tem razão, vou me juntar a você em um minuto. Só quero verificar o mapa das mesas uma última vez. Sem uma palavra, ele a ergueu nos braços e levou-a, sob protestos, ao quarto. – O mapa das mesas estará lá pela manhã, assim como o cardápio, o pedido das flores e a última contagem de convidados. Não há mais nada que você possa fazer esta noite a não ser se agitar. – Eu não fico agitada – argumentou ela. – Eu organizo. – Querida, conheço organização. Não é aquilo; aquilo é agitação. Ela se apertou a ele. – Está certo, está certo, estou agitada. Parece que não consigo parar. – É para isso que estou aqui. Ele deitou Catherine na cama e, em menos de trinta segundos, a despiu e lhe vestiu uma camisola fina. Deitou-se ao lado dela dez segundos mais tarde, mas ela já estava dormindo. Graças a Deus pelos pequenos milagres, pensou ele. Puxando-a para os braços, tirou as mechas de cabelo de sua testa e beijou-a. Satisfeito por ter alcançado seu objetivo com um mínimo de esforço, deitou-lhe a cabeça no ombro e dormiu também. Com a aproximação do fim de semana, Gabe manteve a vigilância sobre Catherine, garantindo que ela comesse direito e dormisse o máximo possível. Ela tolerou sua interferência, pareceu até se divertir; talvez compreendesse que era fruto de preocupação. E isso deu a ele a esperança de que, talvez dessa vez, os dois se acertariam. Na manhã de sexta-feira, o dia do ensaio geral, a calma de Catherine desapareceu, e seus nervos estavam à flor da pele. – Alguma coisa que eu possa fazer? – perguntou ele durante o café da manhã. Ela balançou a cabeça. – Tenho alguns trabalhos burocráticos para cuidar esta manhã… – Você e eu sabemos que está tudo em ordem. Ela lhe deu um sorriso breve, tenso. – Verdade, mas vou rever tudo do mesmo jeito. Mais tarde, ainda pela manhã, vou ao Milano’s finalizar os arranjos para a recepção de amanhã. Joe é sensacional em seu trabalho, assim não duvido de que tudo estará perfeito, mas... – Você se sentirá melhor tendo certeza. – Gabe acenou em total compreensão. – E o jantar de ensaio desta noite? – É responsabilidade da família de noivo, graças a Deus. Assim que terminar o ensaio, volto para casa. Ele percebeu que ela estava percorrendo mentalmente a lista do que precisava fazer e se perguntou se ela percebera que havia adquirido o hábito de se referir ao apartamento dele como “casa”.


– Vou tentar dormir cedo, o que não deve ser um problema. Há ainda alguns telefonemas de última hora antes de me deitar, apenas para confirmar que todos sabem a que horas devem chegar amanhã. Ele lhe cobriu a mão com a dele. – Ninguém ousará chegar atrasado. Ela relaxou o suficiente para lhe dar um sorriso genuíno. – Tem razão. Não é inteligente aborrecer uma mulher que está se segurando à beira de um penhasco com uma unha. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão de preocupação. – Está tão ruim assim? Ela hesitou, então balançou a cabeça. – Na verdade, não – confessou. – Tenho duas ou três unhas para segurar com firmeza. Talvez ele pudesse ajudar nisso. – Quero acompanhá-la ao casamento amanhã, Cate. Ela o olhou, com a expressão vazia. – Eu vou trabalhar. – Eu compreendo, mas gostaria de estar lá para lhe dar apoio moral e mais duas mãos, se houver alguma dificuldade. Ela franziu a testa. – As pessoas vão pensar que não consigo administrar minha empresa – argumentou ela. – Vou me manter bem discreto. – Certo – disse ela, exasperada. – Porque ninguém em Seattle reconhecerá Gabe Piretti, o Pirata. Ele tentou outra abordagem. – Minha presença pode ajudar a controlar a mãe de Annie. – Posso cuidar de Beth – resmungou Catherine. – Não duvido, mas minha presença talvez a obrigue a pensar duas vezes antes de causar aborrecimentos ou dar um ataque por causa de algum probleminha. Catherine ficou branca. – Não haverá probleminhas. Não haverá problema nenhum. Que inferno. – Foi o que eu quis dizer – apressou-se em tranquilizá-la. – Serei apenas seus músculos. Para alívio de Gabe, ela relaxou um pouco e sorriu de novo. – Ótimo, você pode ser meus músculos. Músculos ficam nos bastidores e se confundem com o papel de parede. – Entendi, posso ser papel de parede. Catherine apenas balançou a cabeça, em total diversão. – Boa tentativa, mas você não conseguiria ser papel de parede nem se sua vida dependesse disso. Ele lhe ergueu a mão e beijou-a. – Ora, obrigado, querida. Permita-me devolver o elogio. A expressão dela se suavizou visivelmente. – Você não precisa ir, Gabe. Não vou precisar de ajuda. – Está certa, não precisará. Mas quero estar lá para apoiá-la. Ela pensou por alguns segundos antes de assentir com a cabeça. – Certo, desta vez você pode ir.


Ele lutou para parecer humilde e grato. Se ela não estivesse tão aflita, não teria se deixado enganar por um minuto. – Eu agradeço. – Decidido isso, ele se levantou da mesa, debruçou-se, ergueu-lhe o queixo com os dedos e lhe deu um beijo lento e profundo. – Vou trabalhar. Se precisar de mim, ligue para o celular. Ela o fez parar antes que ele tivesse dado mais de meia dúzia de passos. – Gabe? – Quando ele se virou, ela lhe deu um sorriso que mexeu com ele até a alma. – Obrigada. O DIA do casamento de Annie foi perfeito em todos os sentidos. O clima não podia ser melhor. Todos os funcionários chegaram na hora. E, o melhor de tudo, o evento transcorreu exatamente como previsto. Para alívio de Catherine, seus nervos se acalmaram no minuto em que entrou na igreja. Ela entrou num ritmo confortável de trabalho, orquestrando o desenvolvimento do evento com uma facilidade e uma habilidade que impressionaram até a mãe de Annie. Houve as esperadas dificuldades de último minuto. Alguém deixou o buquê da noiva na sala errada, causando um pânico momentâneo. O pajem conseguiu manchar a calça com grama nos dez segundos em que ficou longe do olhar atento da mãe. E uma das damas de honra pisou na barra do vestido, exigindo uma costura de último minuto. Mas, além dessas pequenas dificuldades, o fluxo continuou em direção à sua conclusão inevitável, lenta, calma e dourada. Quando a cerimônia começou, Catherine teve um momento para recuperar o fôlego e ficou no vestíbulo da igreja ao lado de Gabe, observando a tradição antiga de palavras sagradas e novos começos. Nunca deixava de comovê-la, e dessa vez não foi diferente. – Nunca chegamos até aqui, chegamos? – perguntou Gabe, em voz baixa. Tinha sido um longo dia, uma semana exaustiva e talvez, por causa disso, a pergunta a atingiu com uma precisão devastadora. – Não – sussurrou. – Nunca chegamos. Veio o momento de o casal trocar os votos, as promessas de amar e cuidar, na riqueza e na pobreza. Quando ela e Gabe chegaram aos dias de dificuldades, ela não ficou, mas fugiu. – Nós nunca chegaremos lá – disse ele, numa voz tranquila. – Não da maneira como estamos. Para um homem e uma mulher se casarem, precisam confiar um no outro. E não confiamos. Ela lutou para suprimir o tremor de sua voz. – Eu sei. Ele se debruçou, e sua presença era uma força tangível. – Temos uma escolha, querida. Podemos nos separar agora, sem mágoa, sem raiva. – Deixou o pensamento ser absorvido. – Ou podemos fazer o que devíamos ter feito dois anos atrás e lutar por nosso relacionamento. Será que ele se sentiria da mesma maneira se soubesse de todos os fatos? Ela duvidava, e aquele não era o momento de descobrir. – Não confio com facilidade – admitiu ela. – Não mais. Passei dois anos construindo muralhas. – Muralhas podem ser derrubadas. Há fendas e rachaduras pelas quais podemos entrar. Se não funcionar entre nós, você sempre poderá fechar as rachaduras de novo. – Verdade.


– Está disposta a tentar, Cate? – As mãos dele lhe seguraram os ombros e a viraram para olhá-lo de frente. – Está disposta a fazer uma tentativa honesta? Ela queria. E ansiava por isso. – Eu gostaria, mas há coisas… A boca de Gabe se contraiu para um momento revelador. – Estou bem consciente de que há “coisas” e não estou pedindo que as explique até estar preparada. Um sorriso melancólico se desenhou nos lábios, e ela balançou a cabeça num misto de afeto e exasperação. – Conheço você, Gabe. O que quer mesmo dizer é que posso explicar quando estiver pronta, desde que esteja pronta quando você exigir. Acertei? Ele admitiu a observação com um dar de ombros. – Não podemos resolver nossas diferenças até eu saber qual é o problema. Ele tinha razão. – Pode me dar um pouco mais de tempo? – Tempo para descobrir se o relacionamento deles tinha uma chance de dar certo antes que ela se abrisse. – Preciso ser convencida de que podemos resolver todos os nossos problemas antes de surgirem outros. Preciso ter certeza de que é real. – É real, mas, se é de tempo que precisa, eu lhe darei. Por enquanto. – Gabe estendeu a mão. – Podemos tornar isto oficial? – Temos um acordo, sr. Piretti. Ela pegou a mão que Gabe estendera e não ficou nem um pouco surpresa quando ele a apertou. Permitiu-se afundar nele, então ergueu o rosto e selou o acordo num beijo longo e profundo. Um beijo que comunicava muito em todos os níveis. A gentileza do gesto o transformou numa promessa, uma promessa na qual ela ansiava acreditar, e sua força e confiança a fizeram relaxar no abraço dele. Continha uma garantia não verbalizada de que podia se apoiar nele, e ele estaria lá para recebê-la. Podia lhe dizer tudo e qualquer coisa, e ele compreenderia. Mas havia outra qualidade naquele beijo, a mais forte de todas: a paixão, que perpassava no calor dos lábios dele e era dificilmente controlada. – Cate… – O nome dela escapou num sussurro áspero, cheio de anseio. – Como pode negar isto? Como pode duvidar? – Não nego. – Seria ridículo até mesmo tentar, não quando ele podia sentir sua reação impotente ao toque dele. – Mas... – Não, Catherine, sem mais desculpas. – Ele lhe emoldurou o rosto com as mãos e a olhou com determinação – Faça uma escolha, aqui mesmo, imediatamente. Dê uma chance a nós dois. Ela passou dois longos e solitários anos tentando esquecer Gabe. Por simples proteção, fechara aquela porta e a trancara, e esteve determinada a jamais abri-la de novo. Mas, ali estava ela, obrigada a lidar com tudo o que deixara para trás. Gabe não queria que ela apenas abrisse aquela porta do passado, mas a queria escancarada. Catherine estremeceu. O que aconteceria quando ele descobrisse os segredos que ela escondera? Faria alguma diferença? Ou um milagre aconteceria? Seria possível para eles aceitar o passado? Reajustariam suas prioridades e escolheriam um ao outro acima de suas carreiras? Ou voltariam lenta e inexoravelmente aos padrões já vividos? Havia apenas uma forma de descobrir e, com o mais suave dos suspiros, Catherine fechou os olhos e se entregou ao sonho. – Está bem, darei uma chance a nós dois.


CAPÍTULO 8

HAVIA SE tornado quase um ritual, decidiu Catherine. A longa subida pelo elevador até o andar executivo do edifício da Piretti’s, a caminhada enérgica pelos tapetes macios em direção à escrivaninha de Roxanne, o breve choque de olhares entre elas e, então, a recepção calorosa que a esperava do outro lado da porta de Gabe. Diferentemente da semana anterior, dessa vez Roxanne a fez parar, introduzindo uma indesejada mudança no ritual. – Ela lhe telefonou? – Seu sotaque suave estava ausente, substituído por um tom áspero e abrupto. Catherine parou. – Se está falando de Natalie, sim, telefonou. Os olhos negros queimavam de ressentimento. – Então está tudo acabado? – Depende exclusivamente de você. Catherine não esperou uma resposta e deu uma batida leve na porta de Gabe antes de entrar. Ele estava em pé, em sua posição habitual junto às janelas, falando ao fone de ouvido, e ela viu que ele não ouvira sua batida. Achava que jamais se cansaria de vê-lo assim, um homem em sua essência, capitão de tudo o que observava. Sentiu um toque de melancolia. Ele merecia tão mais do que ela poderia lhe dar. Era errado se aproveitar dele. Era errado permitir que ele acreditasse, mesmo que por um breve período, que teriam um futuro juntos. Mesmo sabendo de tudo, não podia evitar. Ele lhe pedira para tentar, e era o que ela pretendia fazer, todo o tempo sabendo que jamais teria de revelar seu segredo, porque o relacionamento deles jamais chegaria tão longe. Os dois se deparariam com um obstáculo intransponível muito antes que viesse o momento das verdadeiras confissões. Os músculos das costas dele flexionaram no instante em que percebeu a presença dela, e a cabeça virou de lado como se ele estivesse cheirando o ar. Virou a cabeça, o foco fechando na direção dela, e sorriu. Apenas isso, apenas um simples sorriso e ela se desmanchou. O que havia nele? Por que Gabe e apenas Gabe? Sua personalidade era grande parte daquilo, aquela poderosa e dominadora personalidade que jamais via obstáculos, apenas desafios.


Mas não era só isso. Sua inteligência a atraía, aquelas brilhantes intuições e a compreensão imediata de fatos e números e pessoas e eventos. E havia a sexualidade intensa, sua habilidade de excitá-la às alturas com um simples toque, ou com um único olhar. Só de estar assim, tão perto dele, ficava tonta de desejo, a necessidade de mais um anseio que ela jamais superaria. – Ligo de novo amanhã – murmurou ele ao fone de ouvido, antes de desligá-lo. – O que foi, Catherine? O que há de errado? Ela se forçou a olhá-lo e aceitar o que não podia ser mudado. – Não há nada de errado – disse ela, com a voz calma. – Na verdade, há uma coisa muito certa. Ele ergueu uma sobrancelha e tirou o fone da cabeça, jogando-o para o lado. – Boas notícias? Estou ansioso para ouvi-las. O que aconteceu? – Recebi um telefonema de Natalie Marconi esta manhã. Parece que ela pensou melhor. Discutiu a situação com diversas amigas e decidiu, afinal, que a Elegant Events fez um trabalho maravilhoso e que a série de catástrofes que ocorreu não foi nossa culpa, nem poderia ter sido evitada. Em vez de parecer aliviado, Gabe franziu a testa. – É realmente uma grande mudança, considerando a atitude dela no dia seguinte à festa. Sabe o que a levou a fazer isso, além de um pouco de tempo e algumas conversas? Catherine atravessou o escritório até o bar bem provido ao lado da área de lazer. Gabe chegou lá antes dela e lhe serviu uma taça de merlot. – Obrigada. – Ela tomou um gole com prazer. – Pelo que entendi, alguém sugeriu que alguém deliberadamente causou os problemas na festa, para parecer que a Elegant Events é incompetente. – Interessante. E por que, de acordo com Natalie e suas amigas, alguém faria isto? – Natalie acha é um dos meus concorrentes. – O comentário fez surgir uma expressão de surpresa no rosto de Gabe. – Aparentemente, alguém a avisou antes da festa para não me contratar, mas ela preferiu não seguir o conselho. Acha que os incidentes foram uma vingança. Ele pensou nisso, de cabeça baixa, com os punhos nos quadris, antes de balançar a cabeça. – Não gosto disso, Catherine. Não me parece a explicação certa. Sem pensar muito, posso encontrar pelo menos seis métodos para tirar uma empresa do mundo dos negócios muito mais eficazes do que arruinar a festa de um cliente. Há riscos demais em provocar o tipo de problemas que você enfrentou. Chances demais de a pessoa ser apanhada, testemunhas demais que poderiam denunciá-la. É descuidado e nem um pouco tão eficaz, como oferecer preços menores do que os seus. – Ele balançou a cabeça de novo. – Não, esse tipo de vingança, presumindo que tenha sido vingança e não uma série de acidentes infelizes, parece pessoal, não relacionado aos negócios. Infelizmente, ele estava certo; tinha sido pessoal. Outra coisa a incomodava. Não gostara de Roxanne ter posto a culpa em outras empresas de planejamento de eventos. Eram inocentes em relação a tudo aquilo e, se o boato causasse problemas às empresas, ela teria de encontrar um meio de consertar. Pior, teria de assumir parte da culpa, já que ordenara que Roxanne corrigisse a situação sem estabelecer condições sobre como faria isso. Gabe pareceu chegar a uma decisão. – Deixe como está por enquanto, Catherine. Se Natalie está disposta a perdoar e esquecer e, melhor ainda, lhe dar uma excelente recomendação, só irá ajudar. Ela ficou imóvel, observando-o com suspeita evidente. – Conheço você, Gabe, e conheço esta expressão. Está planejando alguma coisa. O que é?


– Planejando, não – negou ele. – Mas pretendo investigar um pouco. Levantar algumas pedras para ver se algum inseto rasteja para fora. Se Natalie tiver razão e alguém estiver tentando destruir sua empresa, quero saber de tudo. E, se for pessoal, pretendo ir até o fim, descobrir quem é. – Uma expressão severa lhe tomou o rosto. Quem quer que visse aquela expressão, naquele momento, saberia por que e como ele adquirira o apelido de Pirata. – E, se descobrir que foi deliberado, alguém vai pagar muito caro. Catherine pensou no que ele disse e decidiu que seria vantajoso para ela. Não pedira a ajuda dele para descobrir o que havia por trás da sabotagem da festa, nem mesmo insinuara que Roxanne era a responsável. Também não antecipara sua oferta de ajuda e, se Gabe decidisse fazer investigações e chegasse a uma certa serpente que tinha um sorriso falso e usava um vestido vermelho justo, não se aborreceria nem se sentiria terrivelmente culpada pelo resultado inevitável. – Certo, vamos esquecer isso por enquanto e seguir em frente. – Olhou as horas e assentiu, satisfeita, ao ver que eram cinco em ponto. Deixou de lado a taça de vinho. – Hora de ir – anunciou ela, se aproximando dele. Ela apanhou Gabe desprevenido e conteve um sorriso ao perceber a confusão no rosto dele. – Ir? – Isso mesmo. Hora de assinar o ponto de saída ou o que quer que você faça quando desliga o poderoso conglomerado Piretti. Temos planos. – Droga, não percebi, desculpe. Ele estendeu a mão e pegou seu PDA, mas ela o tomou dele e o jogou de lado. – Não encontrará o compromisso aí. Isso chamou a atenção dele. – O que você está pretendendo? – perguntou, intrigado. – É uma surpresa. Está interessado? – Começou a caminhar em direção à porta, lançando-lhe um sorriso sedutor por sobre o ombro. – Ou prefere trabalhar? Ele chegou à porta antes dela. Abrindo-a, a fez sair e nem mesmo olhou para Roxanne. – Feche tudo – disse enquanto seguiam em direção aos elevadores. Foi uma noite mágica. Caminharam pelo litoral de Seattle, observando tudo com toda a alegria e o prazer de um casal de turistas. Perceberam muitas mudanças desde a última vez que passearam por lá. Lojas novas e interessantes, restaurantes reformados, uma pequena praça que não existia antes. Mais tarde, Catherine não conseguiu se lembrar dos assuntos de suas conversas. Nada de importante, apenas a conversa doce e romântica que um homem e uma mulher partilham enquanto aprofundam um relacionamento. Os toques rápidos e íntimos e a troca de olhares, que diziam muito mais do que meras palavras. O aroma do ar, combinado com a textura da estação do ano e misturado ao cheiro exclusivo do homem ao lado dela. Sabia que era um ritual de estreitamento de laços e que não devia promover essa ligação com Gabe, mas não conseguia evitar. Por fim, foram ao Milano’s, que ficava no Sound. Era o mais novo restaurante de Joe. Ele pedira a ela para passar por lá uma noite e avaliar se seria um ambiente adequado para algum de seus eventos futuros. Entraram no restaurante, um prédio antigo no final de um dos muitos píeres de Seattle, e Gabe ergueu uma sobrancelha. – Isto é trabalho ou prazer? – perguntou, com a voz neutra. – Não é trabalho de verdade – garantiu ela. – Voltarei aqui para verificar tudo mais a fundo, mas não esta noite. – Ela lhe tomou a mão. – Esta noite é nossa.


Um dos aspectos que ela adorava em relação aos restaurantes de Joe era que ele os planejava pensando em casais. Catherine jamais compreendera bem como ele conseguia, mas, através do uso inteligente do espaçamento entre as mesas, dos ângulos e da mobília elegante, criava pequenos espaços clandestinos que davam aos clientes uma impressão de completa privacidade. O maître se lembrava dela, graças aos muitos eventos que realizara no Milano’s do centro da cidade, e claramente reconheceu Gabe. Cumprimentou os dois pelos nomes e, com máxima discrição, levou-os a um setor exclusivo, reservado para clientes importantes. Um banco em formato de V, com almofadas macias, ficava diante de janelas que se abriam para o Puget Sound e lhes permitia sentar-se lado a lado. E, ao mesmo tempo, já que era angular, também podiam ficar um diante do outro. – Estou curiosa – disse ela, depois que se sentaram. – Você ficaria zangado se eu tivesse escolhido vir aqui para checar o restaurante e, ao mesmo tempo, ter um jantar romântico com você? – Não se tivesse me dito que era sua intenção. Ele aceitou a lista de vinhos do sommelier e, depois de uma discussão rápida, fez o pedido. No Sound, uma barca passava pelas águas mansas, dirigindo-se para Bainbridge Island, enquanto o Olympics se erguia, majestoso, no horizonte. – Acho que um dos problemas que tenho é decidir como, quando e onde separar os negócios do prazer. Ela concordou com um sorriso cansado. – Não se sinta mal, eu também sou assim. Ele a olhou com toda a seriedade. – Como devo lidar com isso, Catherine? Gostaria de lhe contar como foi meu dia de trabalho. É uma grande parte de quem eu sou e do que gosto de fazer. Quero partilhar este meu lado com você. E gostaria de contar os progressos que fiz em seus livros de contabilidade. – Ele olhou a barca que seguia seu caminho e um rebocador que voltava ao porto, antes de retornar a atenção para ela. – Mas estou com medo de cruzar aquela linha, especialmente porque ainda não sei onde você a traçou. – Não tracei – insistiu ela, voltando a olhar para ele. – Acho que é um assunto que devemos discutir. – Ótimo, está disposta a discuti-lo aqui e agora? Boa pergunta. Ela planejara ter uma noite romântica e não uma reunião de negócios. Mas com duas carreiras tão exigentes era essencial encontrar um equilíbrio. – Vamos falar sobre trabalho enquanto tomamos vinho e ver se conseguimos continuar depois. Ele fez um aceno rápido com a cabeça. – De acordo. Ela quase riu daquele jeito dele. Era tão típico de Gabe Piretti, o mestre da negociação. – Certo, então vamos começar. Você teve a oportunidade de avaliar a contabilidade da minha empresa? – Tive. Ele pareceu preocupado, assim ela lhe deu um leve empurrão. – Encontrou alguma coisa errada? Dina é sempre tão meticulosa, não acredito que tenha cometido erros. – Não, tudo parece em ordem. É que… – Ele hesitou. – Você lembra quando lhe disse que achava muito estranha a dedução de Natalie a respeito de um concorrente ser o responsável pelos problemas que você teve? – Ela assentiu, e ele continuou. – Seus livros parecem em ordem, mas, por alguma razão, sinto que há algo errado, fora de esquadro. Só não sei ainda o que é.


– Conversou com sua mãe sobre isso? Ele balançou a cabeça. – Ainda não. Antes preciso de tempo para investigar os livros mais profundamente. Estive um pouco ocupado com minha próxima aquisição de empresa, por isso não me dediquei totalmente a eles. – O vinho chegou, foi servido, testado e então, aceito. – Quando é seu próximo evento? Quero inclui-lo na minha agenda pessoal. Ela brincou com a haste da taça. – Em dois dias. É um evento pequeno e, em circunstâncias normais, não aceitaria o contrato, mas, com todos os problemas que tenho tido, não ousei recusar. – Inteligente. – Depois desse, há um evento de caridade mais no fim da semana. E Dina me disse que algumas pessoas que telefonaram para cancelar os contratos depois da festa dos Marconi mudaram de ideia. É evidente que a versão de que a Elegant Events não foi responsável pelos desastres naquela festa se espalhou, mas acho que muito se deve ao jeito que sua mãe tem com as pessoas. – Ela se aproximou mais dele. – Você é assim também. Gabe passou o braço em torno dela, que descansou a cabeça no ombro dele. – Papai, não. Era um pouco áspero, não gostava de perder tempo com bobagens. Ela brincou com a taça de vinho. – Vi esse lado em você também, particularmente quando se trata de negócios. – É uma característica da família Piretti. – Um lento sorriso se abriu no rosto de Gabe, e uma expressão distante surgiu nos olhos. – Será interessante descobrir qual dos nossos filhos ou filhas levará avante a tradição. Ou talvez sejam mais parecidos com você. Mais apaixonados, determinados a conquistar o mundo. – Ah, Gabe – sussurrou ela. Ele enrijeceu. – Maldição, maldição dos infernos. – Ele balançou a cabeça. – Desculpe, Catherine, isto não foi deliberado, apenas saiu, não estava pensando. – Não, não se desculpe. – Ela se afastou um pouco, libertando-se do braço dele. – Você não compreende, Gabe? É parte de quem você é, parte de onde veio. Você é um Piretti, sua família está nesta região desde que o primeiro colonizador derrubou a primeira árvore. Você mesmo me disse que a Piretti’s começou como uma serraria. – Os tempos mudam – disse ele, com um toque de arrogância. – Agora a Piretti’s é o que eu digo que é. – Seu império foi construído sobre a fundação daqueles que vieram antes de você – argumentou ela. – Pode ter mudado o objetivo e o contexto dos negócios de sua família, mas ainda é um negócio de família. – É meu negócio – corrigiu ele. – A Piretti irá para onde eu escolher levá-la. – E daqui a trinta anos? – pressionou ela. – E, daqui a quarenta anos, quem a dirigirá então, Gabe? – Daqui a trinta ou quarenta anos, terei uma resposta para você – replicou ele, com uma calma impressionante. – Ou talvez siga o exemplo de Jack LaRue e a venda. Então me aposento e vivo de renda. – Não acredito que possa abandonar tudo depois de trabalhar tanto para construí-la. – Espere e verá.


Ela não acreditou. – Eu o conheço, Gabe, você ainda quer filhos. Aquilo que deixou escapar me mostrou isso. E não é preciso ser um gênio para perceber o percurso que você estabeleceu. Pensa que pode me fazer mudar de ideia. – Cartas na mesa, Cate? Ela pegou a taça de vinho. – Ah, por favor. – Eu realmente quero filhos. Você mudará de ideia em relação a isso ou não. Mas compreenda… – Ele fez uma pausa, sem expressão no rosto. – Se eu tiver de escolher entre ter você ou ter filhos, escolho você. É um percurso bom o bastante para você? Ele não lhe deu tempo para pensar em nada mais. Tirou-lhe a taça da mão e a colocou na mesa, em seguida tomou-a nos braços e a beijou. Beijou-a de um jeito que fez os pensamentos desaparecerem da mente dela. Beijou-a tão intensamente que ela não conseguiu ver nele nada além da mais pura e absoluta paixão. Beijou-a até que o mundo de Catherine se resumisse àquele homem e àquele momento. – Chega de desculpas – rosnou ele, quando pararam por falta de ar. Ele lhe mordeu de leve o lábio e aliviou a dor com a língua. – Chega de barreiras. Eu a obriguei a voltar para mim e também a obriguei a assinar este contrato diabólico, mas você aceitou os termos e o honrará. Não aceitarei que se afaste de mim com uma desculpa sem sentido. Ela lutou para respirar. – Não é uma desculpa. Ele praguejou. – Qualquer coisa que você usar para nos separar é uma desculpa, e não aceitarei mais isso. Experimente, Catherine. Pode tentar o quanto quiser. Porque eu lhe juro, afastarei todo e qualquer obstáculo que possa existir antes de perdê-la de novo. Cometi o erro de deixá-la fugir uma vez, mas agora eu a seguirei até o fim do mundo. Se preciso for, eu a seguirei até o inferno. Ela enterrou a cabeça no ombro dele. – Está enganado, Gabe. Você ainda não sabe de nada. Da próxima vez, não só me deixará ir, como me expulsará. GABE NÃO pôde deixar de perceber que, depois disso, o teor do relacionamento mudou. Sempre houve barreiras entre eles, mas tornaram-se tão altas e evidentes que tropeçava nelas a todo instante. Apesar disso, duas coisas lhe davam esperança. Primeiro, Catherine continuou com aqueles encontros inesperados, surpreendendo-o o tempo todo com entradas para uma peça, ou jantares em restaurantes, ou um piquenique no quarto. Alguns encontros eram rápidos, de pouco mais de uma hora roubada de suas agendas. Outros eram longos, como quando fugiam do trabalho e passavam o resto do dia usufruindo da companhia um do outro, durante infinitas horas. Isso o fez perceber que podiam mudar, podiam encontrar tempo para seu relacionamento em agendas diferentes e exigentes. A outra coisa que lhe dava esperança eram as noites que partilhavam. Por algum motivo, quando mergulhavam na cama e um no outro, todas as suas diferenças, todos os seus conflitos desapareciam. Ali se uniam e se tornavam um; ali descobriam um verdadeiro encontro de mente, corpo e espírito.


No fim daquela semana, ele a surpreendeu aparecendo em um de seus eventos, um evento beneficente que arrecadaria fundos para tratamento de crianças com câncer. Ele esperava encontrá-la em sua posição habitual, discretamente nos bastidores, dirigindo e coordenando o desenvolvimento tranquilo do evento. Mas encontrou-a sentada no chão, lendo para um grupo grande de crianças uma história de um dos livros ilustrados da sra. Pennywrinkle. Mechas finas de cabelo haviam escapado do coque severo, e diversos cachos dançavam em torno de sua testa e face, bem como na nuca vulnerável. Enquanto lia, seus olhos eram de um dourado caloroso, suavizados por uma doce generosidade. Não havia barreiras ali; ele a viu em sua forma mais aberta e natural. Vira-a assim outras vezes, quase sempre em torno de crianças. Então balançou a cabeça, divertido. Como ela podia alegar que não queria um filho, quando quase podia sentir seu anseio e ver que a alegria que experimentava era tão pura que iluminava a sala? De alguma forma, Catherine devia ter percebido sua presença, pois sua cabeça se levantou de súbito, como uma gazela pressentindo o perigo. O olhar dela se dirigiu para ele sem erro e, por um breve segundo, partilhou com ele a mesma abertura que partilhava com as crianças; então as barreiras reapareceram. Ele ficou em pé ali por um longo momento, olhando-a. Quase o matou perceber que ela sentia a necessidade de se proteger dele, então uma feroz determinação lhe tomou a mente. De alguma forma, por algum meio, derrubaria aquelas defesas. Conquistaria de novo a confiança dela e, desta vez, faria tudo que pudesse para mantê-la. Debruçando-se, ele lhe deu um beijo leve, suave, que fez as crianças rirem. Catherine entregou o livro a uma de suas assistentes e pediu licença, mas as crianças não lhe deixaram sair. Foi sufocada por muitos abraços antes que elas, com relutância, lhe permitissem partir. Ele a ajudou a se levantar, puxando-a para junto do corpo por tempo suficiente para lhe sussurrar no ouvido. – Já lhe disse como você é linda? Rosas vivas lhe cobriram as faces. – Não exagere, Gabe. Ele dobrou a cabeça para o lado. – Você não acredita em mim, acredita? – A ideia o intrigava. – Sou atraente. Interessante, talvez. – Ela recuou um passo. – Mas não sou linda. – Para mim, você é – disse ele, apenas. Para seu divertimento, ela mudou de assunto. – Não esperava vê-lo aqui. Nunca mencionou que poderia vir. – Faço parte da diretoria desta organização de caridade há alguns anos, mas não tinha certeza de que poderia sair do escritório. – Ele respondeu à pergunta antes que ela a fizesse. – E não, não tive influência nenhuma na sua contratação. Isso é feito por um subcomitê. Mas descobri que você abriu mão de sua remuneração habitual e doou seus serviços. Ela encolheu os ombros. – É por uma boa causa. – Obrigado. – Podia vê-la adotando sua postura profissional e não quis distraí-la. – Vou deixar você continuar com suas tarefas, mas antes uma pergunta rápida. Como está sua agenda para amanhã? – Pensei que poderia precisar de um descanso depois deste evento, por isso mantive o dia livre.


Era exatamente o que ele queria. Depois de alguns dias permitindo que Catherine tomasse todas as iniciativas para os encontros românticos, Gabe estava decidido a fazer uma tentativa. – Mantenha-o assim, se puder. Ela sorriu. – Quer que eu planeje alguma coisa? – Vou cuidar de tudo, apenas apareça. Ele lhe deu outro beijo rápido e então a deixou cuidar do evento, embora muitas vezes, durante aquela tarde, a visse olhando-o com um olhar especulativo. Desde que haviam começado com os encontros, descobriu que ela preferia manter as saídas programadas, sem dúvida para não acontecer outro incidente como o que ocorrera no Milano’s. No dia seguinte, ele pretendia mudar tudo aquilo. TUDO O que Gabe disse a Catherine de antemão foi para usar uma roupa de banho debaixo do short e camiseta de algodão e se preparar para um dia ao sol. Quando ele estacionou na Sunset Marina na manhã seguinte, ela se voltou para ele, com os olhos brilhantes de prazer. – Vamos passear de barco? – Pensei em passarmos pelas eclusas de Chittenden e seguir até o lago Washington. Ou podemos ficar em torno do Sound, se você preferir. – Há séculos que não passo pelas eclusas. Vamos lá. O dia foi mágico. Naquelas horas preciosas, Gabe não se importava com os segredos que os separavam, nem com o passado ou com o futuro. O presente lhe tomava toda a atenção. Era um daqueles raros dias em Seattle em que o Olympics se erguia em relevo impetuoso a oeste, e as Cascades se elevavam a leste, com o monte Rainier dominando o horizonte entre eles. Mas, na opinião de Gabe, a melhor vista era a mulher pequena e delicada deitada preguiçosamente na proa do barco. Um sol quente brilhava, e Catherine ficou de biquíni, enquanto uma brisa de verão esvoaçava os cabelos em delicioso desarranjo. Mais tarde, ela se uniu a ele na ponte de comando. Entregou-lhe um refrigerante e se enroscou no banco ao lado do dele. Catherine observou as imediações com enorme prazer. – Acredito que este é um dos iates que sua empresa fabrica. – Sim, um dos menores. – Lançou-lhe um sorriso rápido. – O motor não é da Piretti, pelo menos ainda não. Estou com esperanças de acertar tudo com Jack LaRue em breve. Então, talvez eu tenha tempo para mergulhar nos seus livros de contabilidade e dar a eles a atenção que merecem. Ela deu de ombros. – Vou deixar isso para você, definitivamente não é minha área de especialização. Mas tenho certeza de que é a de Dina. – Mamãe tem talento para isso – concordou ele. – Acho que foi por isso que fiquei surpresa por ela não ter ficado com aquele… qual é o nome daquele homem que a pediu em casamento poucos meses depois da morte de seu pai? – Ela estalou os dedos. – Stanley qualquer coisa, não é? A pergunta o atingiu como um soco. – Está falando de Stanley Chinsky? Ela hesitou ao ouvir o tom da voz dele.


– Ele chegou a chefiar o departamento de contabilidade da Piretti’s? – Sim, e também era membro da diretoria. – A indignação tomou conta dele. – Aquele miserável teve a coragem de pedir mamãe em casamento? Catherine demorou deliberadamente a colocar sua lata de refrigerante num dos compartimentos para bebidas, com o olhar afastado do dele. – Pelo que vejo, ela nunca lhe contou. – Não, não contou. Catherine suspirou. – Desculpe, Gabe, não sabia, senão jamais teria dito. Ela me contou naquela noite em que tivemos uma conversa franca. – Ela também lhe contou que Stanley tentou roubar dela quando era diretor do departamento de contabilidade? – Na verdade, contou. Acho que, de certa forma, ela se culpou por isso – explicou Catherine. – Achou que sua recusa ao pedido de casamento tivesse provocado a vingança. – É claro que não. Ele começou a nos roubar no minuto em que meu pai morreu. Se a pediu em casamento, foi apenas com a esperança de encobrir seu pequeno esquema. Catherine sorriu, relutante. – Dina disse que era um esquema muito inteligente. – Era mesmo, levei um tempo enorme para descobrir… – Ele se interrompeu. – Filho da mãe! Por que diabos não percebi? – Percebeu o quê? Ele se virou para ela. – A culpa é sua, você sabe. Se não estivesse tão obcecado por você, teria percebido imediatamente. – Mas que droga, Gabe, percebido o quê? – O que minha mãe vem fazendo. – Ele virou o barco num amplo arco para voltar. – Você está falindo porque minha querida mãe está fraudando suas contas.


CAPÍTULO 9

GABE E Catherine levaram horas para voltar do lago Washington para Shilshole Bay e ancorar o barco com segurança na marina. Chegaram à porta da casa de Dina quando o crepúsculo caía sobre a cidade. Ela abriu a porta com um sorriso que desapareceu quando olhou bem para as expressões deles. Ela recuou a fim de dar passagem aos dois. – Fui desmascarada, não fui? – Ah, foi mesmo – confirmou Gabe. – Completamente desmascarada. O queixo dela se ergueu. – Na verdade, esperava este confronto antes. Estou um pouco decepcionada com você, Gabriel. – Você teria tido este confronto antes se Catherine não tivesse me distraído tanto. Dina assentiu. – Tenho de admitir que eu estava contando com isso. Eles ficaram em pé no foyer, os três tão constrangidos e desconfortáveis que pareciam estranhos. Gabe passou a mão nos cabelos. – Que diabos está acontecendo, mamãe? Como pôde fazer uma coisa dessas com Catherine? Ela acreditou em você e você traiu sua confiança. Em resposta, Catherine passou a mão sobre os músculos tensos do braço dele. – Há um bom motivo, Gabe, tem de haver. Dina sorriu, aprovando. – Vou fazer café enquanto conversamos. – Conversar. – Gabe olhou-a com descrença. – Isto não é um evento social. Fazer café não vai consertar nada. É sério, tão sério que pode mandá-la para a prisão. Uma expressão parecida com a de Gabe fechou o rosto dela, uma expressão de determinação impiedosa. – Se quer respostas, então conversaremos enquanto tomamos café. Ele se virou para Catherine. – Desculpe, juro que não tinha ideia. Ela simplesmente balançou a cabeça. – Vamos ouvi-la.


Dina passou o braço pelo de Catherine e conduziu-a até a cozinha. – Não se preocupe – sussurrou. – Não é tão ruim como parece. – Não, é pior – interrompeu Gabe, claramente escutando. – Você e Stanley podem ficar em celas vizinhas. – Catherine não me denunciará – replicou Dina, tranquilamente segura. – Não depois que eu explicar. – É melhor que seja uma explicação muito boa. Dina fez o café com rapidez e durante todo o tempo falou de tudo, menos do motivo por que estavam lá. Colocou o café em canecas e levou-as à mesa. – Vocês tomaram sol hoje – comentou ela, pondo açúcar na caneca. – É bom ver que estão passando tanto tempo juntos e esclarecendo as coisas entre vocês. – Mamãe. – Apenas aquela única palavra. Calmo. Lutando para manter a paciência. Mas com uma exigência subjacente que ela não podia ignorar. Irritada, Dina bateu com a colher na beira da caneca de porcelana e deixou escapar um suspiro. – Tudo bem, faça suas perguntas. Gabe estendeu a mão para a de Catherine e a apertou, tranquilizando-a. – Você desviou dinheiro das contas da Elegant Events. – Ele não fez uma pergunta, mas uma afirmação. – Sim, desviei. – Dina se recostou na cadeira e tomou um gole de café. – Desculpe, Catherine, mas você tornou tudo fácil demais. Recomendo que faça alguns cursos de contabilidade para que ninguém mais passe você para trás no futuro. Catherine ergueu uma sobrancelha, e Gabe, atônito, percebeu um traço de divertimento na ultrajante sugestão da mãe. Embora não tivesse a menor ideia do que ela pudesse achar divertido naquilo tudo. – Ora, obrigada pelo conselho, Dina. Farei isso o mais rápido possível. Gabe interveio novamente. – Você usou o método Chinsky, suponho. – Ah, sim, Stanley foi um excelente professor. Apenas segui o exemplo dele e fiz com Catherine exatamente o que ele fez comigo. – Ela deu de ombros. – E então esperei. Dessa vez, Gabe tomou a mão da mãe. – Você está sem dinheiro? Aconteceu alguma coisa que não teve coragem de me contar? O que quer que seja, farei tudo o que puder para ajudar, você sabe disso, não sabe? Os olhos de Dina se encheram de lágrimas. – Ah, Gabriel, você não tem ideia do quanto significa para mim o que está dizendo, sempre cuidou tão bem de mim. – Deu-lhe um sorriso lacrimejante. – Mas não se trata de dinheiro, querido. – Então, de que se trata? – perguntou Catherine, mordendo o lábio inferior. – Foi porque eu deixei Gabe? Como uma espécie de vingança? Dina inspirou profundamente. – Acha que fiz isto por vingança? Ah, não, querida, nunca. Amo você como se fosse minha filha. Como pode duvidar? – Seu olhar, muito brilhante, passou de Gabe para Catherine. – Não, fiz isso para ajudar vocês dois. – Para nos ajudar... – repetiu Catherine, com a confusão superando qualquer outra emoção. – Como levar nossa empresa à falência nos ajudaria?


– Pense, o que você fez quando percebeu que estávamos em dificuldades financeiras? – Tentei realizar mais eventos, economizei, reduzi nossas despesas e aumentei… – Ela parou e fechou os olhos. – É claro, procurei Gabe. – Aí está. – Dina lhe deu uma palmadinha na mão. – Eu sabia que uma hora descobriria. Assim como soube que, se nossas dificuldades financeiras ficassem muito graves e você não encontrasse mais nenhuma opção disponível, você recorreria a Gabe e lhe pediria ajuda. Tenho de lhe dizer, fiquei muito impressionada por sua determinação de não chegar a este ponto. Quase desisti de todo o plano. – Mas eu sucumbi antes que você desistisse. Dina sorriu, satisfeita. – Exatamente. – Está me dizendo – indagou Gabe, com os dentes cerrados – que você planejou e executou tudo isto, fez Catherine ir ao inferno e voltar, como um esquema para nos unir? Dina virou a cabeça para o lado, um maneirismo idêntico ao de Gabe. – Acho que isso engloba tudo, sim. E funcionou, não funcionou? Vocês dois estão juntos de novo e parecendo mais felizes do que nunca. Se eu não tivesse me intrometido, ainda estariam separados e infelizes. – Ela bateu a ponta do dedo indicador na toalha de mesa. – E, antes que tenha uma das terríveis crises de raiva típicas de um Piretti, deixe-me lhe dizer que eu teria feito quase qualquer coisa, me arriscado a sofrer qualquer consequência, para lhes dar uma oportunidade de superar suas diferenças. Você me ensinou isso quando me sequestrou, Gabriel. Não se importou com o que poderia lhe acontecer como resultado de suas ações, desde que ficássemos bem de novo. Gabe lutou para manter a raiva sob controle, mas teve um resultado ótimo. – Acho que a expressão é… fui preso em minha própria armadilha. – E isto o deixou ainda mais furioso. Então outro pensamento lhe ocorreu. – Você também estava por trás da sabotagem à reputação de Catherine? Dina bateu a caneca na mesa com força. – De jeito nenhum, como pode pensar uma coisa dessas? – Ah, mãe, não sei. Talvez porque tenha roubado o dinheiro dela? Dina torceu o nariz. – É diferente. O dinheiro não foi a lugar nenhum, está seguro. Depositei-o numa conta bancária que está em nome de Catherine. Portanto, tecnicamente, talvez nem seja desvio de recursos. – Tecnicamente, quando eu a matar, não será assassinato, porque não há um homem neste mundo que não o consideraria um homicídio justificável. Certo, então a raiva não estava totalmente sob controle. – Agora chega, Gabe – disse Catherine, intrometendo-se na discussão. – É hora de ir embora. Pela primeira vez, o sorriso de Dina quase desapareceu. – Você está muito zangada comigo? Eu estava mesmo tentando ajudar. Para a surpresa de Gabe, Catherine levantou-se da cadeira e se agachou ao lado de Dina. Envolveulhe o corpo com os braços e sussurrou alguma coisa em seu ouvido, algo que ele não ouviu. Tudo o que percebeu foi que fez a mãe chorar, embora um simples olhar lhe mostrasse que eram lágrimas de felicidade. Então Catherine endireitou o corpo e olhou para Gabe. – Pode me levar de volta para seu apartamento, por favor? Não para casa, observou ele. Mas para o apartamento dele. Podia sentir o tempo que tinham juntos diminuir, quase ouvia o relógio batendo os minutos finais, e seu queixo endureceu. Uma vez que


solucionara os problemas financeiros de Catherine e sua reputação fora restaurada, estava perdendo depressa as armas que a obrigavam a ficar com ele. Queria ir ao apartamento para fazer as malas e voltar para o apartamento dela? Se fosse assim, melhor pensar logo num novo plano para convencê-la a ficar… e logo. A TENSÃO de Gabe era palpável durante todo o percurso até o apartamento, e Catherine não ousou dizer uma palavra, com medo de que fosse a palavra errada, que liberasse o que quer que estivesse crescendo dentro dele. Esperou calmamente que ele destrancasse a porta e a abrisse, permitindo-lhe entrar primeiro. O interior do apartamento estava em completa escuridão e em total silêncio, rompido apenas pelo som áspero da respiração dos dois. Ela acendeu o abajur ao lado da escultura de madeira da mulher adormecida e passou os dedos de leve pelas linhas fluidas. Tornara-se um hábito acariciar a pequena estatueta sempre que entrava no apartamento. – Eu a comprei depois que você foi embora, porque ela me lembra você – disse Gabe. – Sério? – Ela olhou de novo, sem encontrar a semelhança, mas também não tinha ideia de como era quando dormia. Só esperava que fosse com tanta graciosidade. – Por que quis fazer isto quando nosso relacionamento estava terminado? – Porque não estava terminado. Ainda não terminou. Ela não pôde deixar de perceber o tom implacável, a declaração subjacente de que planejava fazer tudo o que pudesse para convencê-la a ficar, mesmo depois de todos os problemas da Elegant Events terem sido solucionados. E ele estava certo, ainda não acabara entre eles. Ainda não, não aquela noite. – E quando nossos negócios estiverem concluídos? – Ela lhe lançou um olhar por sobre o ombro. Ele estava na sombra, tornando impossível para ela ler sua expressão. Mas não havia dúvida sobre o brilho nos olhos dele. Um brilho de total impiedade. – Você não vai honrar sua promessa e me deixar partir, vai? – Não. Ela assentiu para si mesma. – Achei que não fosse. Num único e ágil movimento, ela segurou a bainha da camiseta e tirou-a pela cabeça. O pedaço de algodão flutuou até o chão, uma pálida bandeira de rendição no carpete cinza. – O que você está fazendo? – A pergunta escapou, áspera como lixa. Ela desabotoou o short e o deixou cair aos pés para em seguida se livrar dele. – O que acha que estou fazendo? – Parece muito com um striptease. – Estendeu-lhe a mão, mas ela o evitou. – Por que, Catherine? Virando as mãos para trás, ela abriu o sutiã do biquíni e o deixou escorregar para a escuridão. – Por que estou tirando a roupa? Por que não estou fazendo as malas para ir embora? Ou por que você nunca me procurou depois que o deixei? Por que sua mãe precisou ir a tais extremos para que ficássemos juntos de novo? Ele ignorou todas as perguntas, menos uma. – Você vai ficar?


Ela agarrou com os dedos as tiras de seda que lhe circundavam os quadris e desceu-as. Virou-se e começou a andar em direção ao quarto, voltando-se no último minuto para dizer: – Seria uma pena desperdiçar todo o trabalho de Dina, não seria? Ele a alcançou no corredor. Sem uma palavra, tomou-a nos braços e carregou-a para o quarto. O mundo girava vertiginosamente em torno dela, bem no momento em que alcançaram a cama e o colchão amorteceu a queda. Ele ainda estava em silêncio, mas ela descobriu que palavras não eram necessárias. Não quando ele lhe disse tudo num único beijo. A boca de Gabe se fechou na dela, primeiro em terna gratidão, em seguida, de um jeito mais ousado. Ela sentia que ele queria ser gentil, mas não era uma noite para gentileza. Uma coisa feroz, desesperada e primitiva surgiu entre os dois. Era como se tivessem sido reduzidos à essência mais elementar, todo o polimento e sofisticação desaparecidos, permanecendo apenas uma necessidade básica. – Não vou conseguir me controlar esta noite – disse ele, entre beijos. – Não quero que se controle. Ele a segurou e a deitou na colcha de seda, segurando-lhe os pulsos acima da cabeça com uma das mãos enquanto a outra lhe percorria as curvas suaves. E então ele se fartou de tudo o que o striptease deixara nu. A boca lhe capturou o seio. Enquanto as suaves mordidas e puxões a levavam ao céu, a mão desceu para os quadris e invadiu o centro da feminilidade dela. Com uma lenta e torturante carícia de seus dedos hábeis, a fez explodir de prazer. – Não – disse com um gemido. – Quero mais, quero você. – E você me terá – prometeu ele. – Tenha paciência, querida. – Você tenha paciência. Quero você agora. Ela libertou as mãos e lhe empurrou os ombros, fazendo-o rolar de costas. Ele não lutou, mas ela não esperava que lutasse. Era a vez dela de explorar, a vez de saboreá-lo e, em seguida, devorá-lo. A vez de Catherine de esculpir linhas tão graciosas como as da estatueta de madeira que ele comparava a ela. Mas as linhas dele fluíam com um tipo de graça diferente. O corpo dele era duro, rijo, anguloso e completamente, gloriosamente, másculo. Catherine começou pelo alto, com o rosto incrivelmente lindo. Sobrancelhas grossas, olhos de um azul-cobalto que penetravam pele e ossos e acertavam em cheio o coração e a alma dela. O nariz reto e orgulhoso, o bloco teimoso de granito que era o queixo e que, uma vez posicionado, raramente podia ser mudado; e a boca. Ela lhe tomou a boca, gemendo com o infinito duelo de línguas, que jamais deixava de fazer seu coração disparar. E, ainda assim, não era o bastante; queria mais, mais e mais, queria explorar cada centímetro dele e lhe dar o que ele tão frequentemente lhe dava. A garganta de Gabe se moveu convulsivamente enquanto ela lhe beijava o pescoço; podia sentir um gemido crescendo sob seus lábios. – Não está no controle agora, está, Piretti? – provocou ela. – Parece que um novo pirata está encarregado da pilhagem e da violação. – Viole meu corpo mais um pouco e eu começarei a cavar para encontrar seu tesouro enterrado. Ela engasgou com uma risada e desceu mais um pouco. – Ainda não, tenho planos para você, primeiro. Como o peito de Gabe era maravilhoso! Enlouquecera-a o dia inteiro enquanto o observava no leme do iate, com apenas uma bermuda baixa nos quadris estreitos. De fato, ele tinha um físico espetacular,


com braços poderosos e musculosos e um peito grande e forte, profundamente bronzeado e coberto por um pelo macio. E, quando ele se debruçava para ajustar alguma coisa ou segurar as cordas, a visão de suas coxas e nádegas firmes quase fazia com que ela caísse de joelhos. Tudo em que pensara durante aquelas horas intermináveis era dar a ele um pouco do próprio remédio. Naquele momento, tinha a oportunidade. Ela desceu mais, afrouxando a cintura da bermuda e mergulhando nele. Seguiu a linha do pelo escuro, macio, até chegar ao tesouro. Ele sentiu o calor do toque dela, aquela peculiar combinação de suavidade cobrindo o vigor, o que jamais deixava de fasciná-la, mesmo quando crescia cada vez mais. Ela queria presenteá-lo, dar-lhe alguma coisa especial. Portanto, primeiro, o tocou; em seguida, o saboreou. O gemido por fim escapou da garganta de Gabe, um som áspero e intenso, seguido por uma erupção de movimentos. Ele a agarrou e a puxou para cima, virou-a e, com um único e rápido movimento, penetrou-a, ligando-se a ela. A energia tomou todo o corpo de Catherine, uma expectativa tensa de alguma coisa que estava ainda fora de alcance. – Desculpe. – As palavras foram arrancadas dele. – Eu lamento muito. Ela lhe tomou o rosto nas mãos, obrigando aquele olhar azul e selvagem a se fixar no dela. – Lamenta por quê? Como pode lamentar quando estamos aqui, juntos, assim? – Minha mãe errou em forçar você a isto, eu errei em forçar você. Catherine mal podia se conter. – Não há nada de errado nisso. – Era perfeito, como se estivesse no paraíso. – Nunca houve e nunca pôde haver. A respiração queimava nos pulmões de Gabe. – Você não brigou com ela como tinha todo o direito de fazer. Não sei o que disse a ela, mas a fez tão feliz. Num fluxo suave de movimentos, Catherine abraçou-lhe a cintura com as pernas e puxou-o ainda mais para dentro. – Quer saber o que disse a ela? – Cate se entregou aos movimentos dele, alcançou o ritmo e se rendeu à tempestade da paixão. – Eu disse “obrigada”. Então eles explodiram e se desmancharam nos braços um do outro. Catherine olhou cegamente para ele, sabendo que jamais conseguiria reunir todas as peças de novo, exatamente como eram antes. Fizera o impensável naquele dia. Apaixonara-se por Gabe mais uma vez. – POR QUE você me deixou? Na exaustão que se seguira ao amor, a pergunta a pegou desprevenida e totalmente indefesa. Sem dúvida Gabe planejara isso. – Temos de fazer isto agora? Ele se virou para olhá-la e se ergueu sobre o cotovelo. Sua expressão era tão séria, tão determinada. – Alguma coisa aconteceu, não foi? – Sim – sussurrou ela. – Alguma coisa além de eu dar prioridade ao trabalho no pior momento possível. – Sim – sussurrou de novo.


– O que aconteceu? – Por favor, Gabe, esta noite foi tão especial. Não quero que nada a estrague. Devo-lhe a verdade, sei que devo. E a darei a você, prometo. Ele lhe tirou fios de cabelo do rosto, o olhar de infinita compaixão. – Você achou que este momento não chegaria, não achou? Que nosso relacionamento terminaria e pouparia você do que precisa confessar. – Sim. Ela se sentou e puxou o lençol, enrolando-o no corpo. Era um gesto denunciador. Pensou por um minuto em suas opções, consciente de que ele segurava sua impaciência para que ela tivesse aquela oportunidade. – Sabe o que o próximo fim de semana vai marcar? Podia ver que ele não gostara da mudança abrupta de assunto. – O que isto tem a ver conosco? – A data – continuou ela, teimosa. – Sabe o significado da data? Ele parou para pensar e assentiu. – Fará dois anos que você me deixou. – Quero que você tire quatro dias de folga, apenas quatro dias, e viaje comigo. Você escolhe o lugar, algum lugar especial. Ele saiu da cama, com movimentos abruptos, sem a graça habitual. – Está falando sério? – Muito sério. Se fizer isso, responderei a todas as perguntas que me fizer, e incondicionalmente. – Ela hesitou. – Mas acho que devo avisá-lo de que não gostará do que vai ouvir. Ele pegou um jeans e vestiu-o. Nunca parecera mais poderosamente másculo do que naquele momento. Os cabelos estavam embaraçados depois do amor, e ainda havia em seu rosto traços da paixão feroz que acabaram de partilhar. Até o corpo estava rígido e ainda exalava um cheiro selvagem. O predador se libertara do manto civilizado e estava à caça. – Por que todo este drama, Catherine? Por que não fala aqui e agora? Ela olhou ao redor, com dolorosa afeição. – Não quero que mais fantasmas, além dos que já existem, assombrem este quarto. E quero lidar com nossas dificuldades num território neutro. Ou seremos capazes de deixar tudo para trás e seguirmos em frente... – Ela engoliu. – Ou terminamos. – Put... – Ele passou os dedos pelos cabelos. – Você acha que o próximo fim de semana será o fim do nosso relacionamento, não acha? Alguma coisa apertou com força a garganta de Catherine e ela teve de se esforçar para responder. – Sim. Por favor, Gabe, eu quero, eu preciso deste fim de semana. – Está certo. Vou tomar providências para passarmos o fim de semana fora e dar a você o tempo que está pedindo. Caminhou em direção à cama. Talvez fosse sua nudez parcial; talvez fosse a abertura perturbadora no jeans. Talvez fosse o fato de que ele ainda caminhava como um predador. Qualquer que fosse a causa, ela jamais o vira tão aterrorizante. – Mas me ouça, Catherine, e me ouça bem: não a deixarei partir. Qualquer que seja o segredo, vamos resolvê-lo de uma vez por todas.


– Quero acreditar. Ele descansou um joelho na cama e lhe tomou o rosto nas mãos. – Tudo o que tem a fazer é me deixar entrar. É confiar em mim. Não vou me separar de você. Vamos resolver tudo e então vou pedi-la em casamento de novo. E, desta vez, não deixarei nada interferir. Sem telefonemas. Sem negócios. E sem segredos. As lágrimas correram com abandono impotente pelo rosto de Catherine. – Estou com medo. – Sei que está. – Roçou os lábios nos dela. – Mas não há nada que eu possa fazer sobre isso, não tenho como lhe dar garantias, não até que você seja franca comigo. OS DIAS seguintes passaram voando. Ao término de cada um, Catherine via a morte de seus sonhos se aproximando na velocidade da luz. Seus dias eram sobrecarregados de trabalho, mas era necessário para que pudesse tirar o fim de semana de folga com Gabe. Mas as noites… Sentada à pequena escrivaninha do quarto, Catherine deixou de lado a lista de tarefas do momento e parou para pensar. As noites eram cheias de uma paixão intensa, diferente de tudo o que experimentara antes. Era como se Gabe estivesse determinado a deixar nela uma marca inapagável, a provar que o que existia entre eles jamais poderia ser perdido, jamais terminaria. Mas tudo terminava. Ela estremeceu ao pensar nisso e se forçou a voltar ao trabalho, verificando a lista em busca dos mínimos detalhes que poderia ter esquecido. Então o telefone tocou, e ela atendeu. – Catherine Haile – disse ela, ainda mais atenta à lista do que à pessoa que ligara. – Posso falar com o sr. Gabe Piretti, por favor? – A voz era jovem, feminina e amigável. – Desculpe, ele não está disponível no momento – disse Catherine, distraída. – Quer deixar uma mensagem? – Hum. Talvez você possa me ajudar. Aqui é Theresa, do Très Romantique. Estou ligando para falar sobre as reservas que ele fez conosco. Catherine largou a lista e prestou atenção. – Na verdade, posso ajudá-la com isso. – Que ótimo. – O alívio era evidente na voz dela. – Quando o sr. Piretti fez a reserva, pediu uma suíte. – Pediu? – murmurou Catherine, feliz com a consideração dele. – Mas, quando ele mudou as datas, mudou também a reserva, de suíte para um apartamento padrão. Eu mesma atendi o telefonema do sr. Piretti e me lembro de que ele insistiu em ter essa suíte em particular. Assim, antes de mudar, quis checar mais uma vez se minha colega não se enganou com o pedido dele. – Theresa baixou a voz. – Ela é nova no trabalho e eu sou a encarregada de treiná-la, portanto é minha cabeça que está a prêmio se um erro for cometido. Além disso, seria uma pena ele perder a suíte, se é a que realmente quer. É maravilhosa. Catherine franziu a testa. – Desculpe, pode repetir. Ele trocou as datas? Não temos reserva para este fim de semana? – Não, senhora. Foi trocada para o fim de semana seguinte. Um momento, por favor.… – Uma conversa abafada se seguiu e então Theresa voltou a falar com Catherine. – Kaisy está dizendo que tem algo a ver com um conflito entre datas de trabalho. Felizmente, graças a um cancelamento recente, a


suíte que o sr. Piretti pediu está disponível para os dois fins de semana. Assim, se puder confirmar qual data e apartamento devemos reservar… Queria que o quarto fosse para o inferno. No momento, tudo o que importava era a data. – Theresa, posso ligar de volta? – pediu Catherine, lutando para manter a calma. – Preciso de algumas horas para verificar. – Só posso segurar a suíte até as cinco da tarde de hoje – explicou ela. – Acha que será tempo suficiente? – Está ótimo – replicou Catherine. – Obrigada por ter ligado. Ela colocou o telefone no gancho com enorme cuidado e fechou os olhos, enquanto o desespero a tomava. Como Gabe podia ter mudado a data sem conversar com ela antes? Ele sabia como aquele fim de semana era importante para ela, já que planejara conversar francamente sobre o que acontecera dois anos antes. Por que ele atrapalharia tudo? Tinham se aproximado tanto no último mês. Haviam enfim aprendido a confiar. Tinham lentamente, mas com precisão, lidado com suas diferenças, ela vira as mudanças nele. Compreendera por que a Piretti’s era tão importante para ele, da mesma forma como ele aceitara a importância da carreira dela. E tudo fora reduzido a nada. Quando tudo tivesse sido dito e feito, todas aquelas belas promessas de reorganizar suas prioridades eram apenas conversa fiada. Ele não mudara de verdade. Ela se esforçou para manter a calma enquanto considerava suas opções. Da última vez, ela fugiu. Da última vez, estava doente e seu único pensamento foi de se esconder em algum lugar seguro enquanto curava as feridas. Mas não era a mesma mulher de dois anos antes. Catherine empurrou a cadeira para trás e se levantou. Dessa vez ela lutaria.


CAPÍTULO 10

CATHERINE MAL se lembrava de dirigir pela cidade até a sede da Piretti’s. Mal se lembrava de estacionar na garagem subterrânea ou tomar o elevador que levava ao último andar, usando a chave especial que Gabe lhe dera e que lhe permitia ter acesso direto ao mais alto setor. Apenas se deu conta de onde estava quando corria pelo tapete em direção ao escritório de Gabe. Roxanne estava sentada à escrivaninha, com aquele sorriso satisfeito que sempre exibia, e Catherine precisou de cada grama de autocontrole para não fechar a mão em punho e arrancá-lo daquela boca vermelha. Será que ela sabia, perguntou-se Catherine. Isso explicaria a expressão de deleite nos olhos dela, uma expressão que mostrava que ela adoraria cada minuto da cena prestes a acontecer. Ela passou pela escrivaninha de Roxanne e abriu a porta do escritório de Gabe sem bater. Ele estava numa reunião, mas ela não se importava. Bateu a porta depois que entrou. – Você cancelou nossos planos para este fim de semana? Todos congelaram e olhavam para os dois. – Senhores… – Ele indicou a porta com um gesto de cabeça. – A reunião está suspensa. Houve uma pequena correria para a porta, como ratos abandonando um navio que afundava. O último homem a sair fechou a porta tão gentilmente como se ela fosse feita de cristal Waterford. Catherine sabia que estava lidando muito mal com tudo, mas se sentia tão furiosa que não se importava. Jogou a bolsa na cadeira em frente à escrivaninha de Gabe, pensou se devia se sentar e preferiu continuar de pé. Gabe se levantou para confrontá-la. Havia aborrecimento, quase raiva, brilhando nos olhos azuis. – O que está acontecendo, Catherine? Para seu horror, ela sentiu lágrimas lhe pressionando a garganta e as pálpebras. Planejara se manter calma, usar apenas um indício de indignação na difícil conversa que teria com Gabe. Em vez disso, sentia-se desmoronar. Fechou as mãos em punhos e se esforçou para se controlar. – Recebi um telefonema há menos de uma hora do Très Romantique, me informando de que você ligou e mudou nossa reserva deste fim de semana para o próximo, por causa de um conflito de datas de trabalho. – O controle fraquejou, mas ela lutou. – Sei que você provavelmente não acha que há alguma diferença entre uma semana e outra. Mas isso importava, ou melhor, importa para mim, e pensei que


você tivesse compreendido. – Ela o olhou nos olhos para que ele não se enganasse sobre os sentimentos dela. – O que interessa é que, quando digo que preciso de você, é porque preciso mesmo. Não pode ser sempre de acordo com sua conveniência. Às vezes a vida passa e acaba acontecendo durante uma reunião ou uma negociação ou… ou... – Para seu horror, sua voz desapareceu. – Catherine… Fez um gesto para que ele se calasse. – Não! – Ela respirou depressa, acalmando-se e se sentindo aliviada por sentir que a pressão das lágrimas diminuíra o suficiente para continuar a falar. – Não, Gabe, as coisas mudaram, eu mudei. Não estou lidando com nossa pequena crise da maneira como o faria dois anos atrás. Não vou mais ficar em silêncio. Não vou mais ficar sentada ao lado do telefone esperando que você me ligue. E não vou lhe deixar um bilhete, não vou fugir. Desta vez direi o que preciso dizer. Uma reação indefinível passou pelo rosto dele, uma reação que não tinha tempo para analisar, não se quisesse terminar a conversa. – Estou ouvindo. Mas por quanto tempo? E como isso afetaria o relacionamento deles? – Não me importo se este fim de semana interfere com questões de negócios. Preciso de você, não no último fim de semana, não no fim de semana depois deste. Preciso de você neste fim de semana. – Por quê? – perguntou ele, em tom de voz calmo. Ela parou e o encarou, com a dor e a mágoa jorrando como uma fonte inesgotável. – A data. – É o aniversário de dois anos do dia em que você me deixou. Até aí eu compreendi. – Ela percebeu um indício de emoção sob aquela sutil mudança de expressão, um mínimo de raiva num mar de dor. – O que não fui capaz de entender é por que você quer sair de casa para comemorar a ocasião. Ela sentiu o sangue lhe fugir do rosto. – Comemorar? Você pensou… – Ah, não, não. – Gabe, não é nada disto, lamento que tenha pensado assim. Não quero comemorar nossa separação. Gabe fechou os olhos por um instante e praguejou baixinho. – Ah, droga, você planejou mudar as lembranças, não foi? – Saindo de trás da escrivaninha, ele a puxou para seus braços e, com esse simples toque, toda a fúria e a tensão desapareceram dela. Gabe lhe segurou o rosto e voltou-o para o dele. – Você está tentando substituir o que aconteceu há dois anos por novas e felizes lembranças. Ela o olhou, com o queixo tremendo. – Como podia pensar de outra maneira? Ele deu de ombros, com um pouco de desdém, por si mesmo. – Acontece. E vai acontecer de novo, especialmente quando pularmos um pequeno passo, como o de você explicar seu plano antes. Ela era idiota. Presumira que ele compreenderia sem que precisasse explicar. – Às vezes esqueço que você não consegue ler mentes. – Deu um pequeno suspiro. – Foi por isso, Gabe? Foi por isso que você mudou a data da reserva? Achou que eu tinha planejado passar sal na ferida? Você acredita mesmo que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas? – Escute bem, Catherine.… – Ele baixou a cabeça e roçou-lhe a boca com os lábios. – Eu. Não. Mudei. A. Data. Ela levou um momento para processar as palavras.


– Mas… mas recebi um telefonema de Theresa, do Très Romantique. Ela disse que você mudou. – Ela está enganada. – Ele encostou o quadril na escrivaninha e pegou sua agenda. – Vamos ver o que aconteceu, certo? Apertou as teclas com a lapiseira, encontrou o número do hotel e ligou. Alguns minutos depois, estava falando com o setor de reservas. Ela jamais deixava de se impressionar como ele conseguia ir diretamente ao ponto, explicando o problema em poucas e curtas frases. Ouviu, por algum tempo, o que Catherine presumiu ser a narrativa de Theresa dos acontecimentos. – Entendi. Eu certamente direi ao gerente do hotel o quanto sou grato pela sua gentileza em ligar sobre a suíte, especialmente porque o erro foi cometido do meu lado. Também agradeceria se você confirmasse a reserva original. Enquanto isso, pode verificar com Kaisy quem mudou a data? De maneira nenhuma, eu espero. Seu olhar encontrou o de Catherine, que estremeceu. Só vira aquela expressão nos olhos dele quando descobrira que um funcionário o estava furtando. Jamais esquecera aquela expressão em particular, assim como desejara nunca mais vê-la. – Obrigado, Theresa. Era exatamente disso que precisava. – Ele desligou o telefone e apertou uma tecla do intercomunicador na escrivaninha. – Roxanne, pode vir ao meu escritório por um momento? Catherine soltou a respiração devagar. É claro. Como pude ter sido tão idiota e não ter suspeitado? Era possível pintar um leopardo de roxo, mas ainda haveria manchas aparecendo sob a tinta. Roxanne não poderia mudar seu caráter assim como um leopardo não podia assumir a natureza de um coelho, apesar de todas as ameaças e da pressão. Devia ter sido horrível para ela se controlar por um tempo. E, quando surgiu a oportunidade de fazer mais uma maldade, ela provavelmente não conseguiu resistir. Mais um tapa mesquinho, especialmente se soubesse o quanto iria feri-la. Outro pensamento lhe ocorreu. Talvez ela acreditasse que Catherine também não pudesse mudar. Talvez achasse que a história se repetiria e que Catherine fugiria de novo, em vez de enfrentar o problema. Ela e Gabe esperaram em silêncio até Roxanne entrar no escritório. Catherine estudou-a com cuidado e percebeu que hoje havia decidido passar uma imagem diferente. Usava um belo vestido cor de marfim, de gola alta, com pequenos botões de pérolas na frente do corpete justo. Um toque modesto de renda dava à roupa quase um aspecto de vestido de noiva. Todo o conjunto lembrava a moda da virada do século passado, com os cabelos presos no alto da cabeça. Tinha um bloco e uma caneta na mão. – O que posso fazer por você, Gabe? – perguntou, em tom doce. – Responda-me, Roxanne. Ela manteve o olhar fixo no chefe, ignorando Catherine. – É claro. – Ela sorriu, uma mistura perfeita de flerte e inocência. – O que você quiser. – Eu tinha uma reserva no Très Romantique e ela foi trocada. Sabe alguma coisa sobre isso? – Sei – respondeu ela, com a voz tranquila. – Eu ia lhe contar quando a reunião terminasse, mas… – Lançou a Catherine um olhar rápido, zangado. – Não contava que a srta. Haile fosse interrompê-lo. Ele a obrigou a voltar ao assunto. – Explique o que aconteceu com a reserva. – Recebi um telefonema do sr. LaRue. Ele disse que havia um conflito de agendas e que a quartafeira não seria mais conveniente para assinar os últimos contratos. Ele insistiu para que eu mudasse o


dia. – Insistiu? Ela suspirou. – Ah, Gabe, você sabe como ele é. Foi inflexível. Fiz o possível para ele mudar de ideia, mas não adiantou. Apenas outra data lhe serviria e, por coincidência, foi um dos dias que você me disse para deixar livres para viajar. Quando argumentei com ele, LaRue disse que era naquele dia ou nunca. – Ela balançou a cabeça, angustiada – O que eu podia fazer? Disse a ele que verificaria com você e então pensei que talvez pudesse ajudá-lo a evitar uma briga com Catherine ligando para o Très Romantique para ver se poderia reservar no fim de semana seguinte. Lamento por tê-lo decepcionado, é evidente que Catherine não está disposta a fazer concessões. – Você cancelou minha reserva sem verificar comigo? Ela hesitou por um décimo de segundo. – É claro que não. Expliquei o conflito de datas e pedi à funcionária do hotel que mantivesse a reserva para as duas datas. Ela concordou em mantê-la até eu falar com você. – Ela arregalou os olhos. – Ah, não. Não me diga que ela não fez o que pedi? – O nome da funcionária é Kaisy e não �� assim que ela se lembra da conversa de vocês. Catherine não pôde deixar de admirar Roxanne. Ela não reagiu ao comentário nem com um movimento de pálpebras. Nem se afastou de sua versão. Apenas deixou evidente que seu choque e indignação haviam aumentado. – Então essa Kaisy não entendeu direito. Ou está tentando encobrir o próprio erro. Gabe sorriu. – Bem, isso explica tudo – disse ele, em tom suave. Roxanne relaxou um pouco e até ousou lançar o mais rápido dos olhares pelo canto dos olhos, que brilhavam de triunfo. – Há mais alguma coisa? – Acho que pode haver, me dê apenas um minuto. – Ele pegou o telefone e discou um número. – Aqui é Gabe Piretti – respondeu a quem o atendeu. – O chefão está por aí? Gostaria, sim, obrigado. – Outra pausa. – Jack? Vou ligar o viva-voz, tudo bem? – Claro… – A voz dele ressoou na sala. – Espero que não seja outra mudança da nossa reunião. – Na verdade, é por isso que estou ligando. Gabe fixou o olhar na assistente, mantendo-a no lugar. Ela ficou pálida, uma cor que não combinava com o bonito vestido marfim, decidiu Catherine. Devia ter ficado com os tons quentes. Além disso, o marfim apenas realçaria o pontapé que estava prestes a levar em seu curvilíneo traseiro. – Estou vendo uma anotação que Roxanne me deixou sobre a mudança da data de nossa reunião – continuou Gabe. – Nossa data original era inconveniente? – Claro que não. Roxy disse que não era boa para você. Roxanne abriu a boca para interromper, e com um olhar furioso Gabe matou as palavras antes mesmo que fossem ditas. – Foi isso que ela lhe disse? Que eu queria trocar a data? – Sim, ouvi daqueles lábios doces e sensuais. Tenho de admitir que não gostei muito. Se ela não fosse tão gentil ao pedir desculpas, eu teria armado uma confusão. – E por quê, Jack?


– Porque estava planejando sair da cidade no minuto em que depositasse seu cheque. Tinha umas férias planejadas para começar bem minha aposentadoria. Minha mulher também não gostou nem um pouco. Não parou de me amolar desde que lhe dei a notícia da mudança da data. – Tenho uma proposta, Jack. Deixe-me fazer uns ajustes aqui para que você possa levar adiante seus planos. Não quero que Marie fique chateada. – Isso é muito honrado de sua parte, Gabe. Acho que vou dizer a ela que lhe dei um ultimato e você concordou em voltar atrás. Não se importa se eu bancar o herói desta história? – Vá em frente, Jack. Mande lembranças a Marie. Eu o verei na quarta-feira, como planejado originalmente. – Desligou o telefone. – Está demitida, Roxanne. Acabei de acionar a segurança. Eles a ajudarão a limpar sua escrivaninha. Em seguida a escoltarão ao setor de pagamento, onde um cheque de dois meses de salário a espera. – Por favor, Gabe – disse ela, numa voz baixa, suave e arrependida. – Não tenho a oportunidade de me explicar? Ele não hesitou. – Não. – Duro, frio, absoluto. – Você ficou aqui, bem na minha frente, me olhou nos olhos e mentiu. Trocou as datas por um único motivo, para atacar Catherine. Ninguém faz isso com minha mulher e sai ileso. – Se me deixasse ao menos explicar, veria que tudo isso foi um grande equívoco – implorou ela, com lágrimas enormes se formando nos olhos. – Está certa, e o equívoco foi meu. Sabia quem você era quando a contratei. Pensei que poderia usar seu mau caráter a meu favor. Mas me esqueci de uma regra fundamental. Se você alimenta uma serpente, um dia será mordido. As lágrimas secaram e a fúria substituiu o arrependimento. – Vou processar você. Se me demitir, vou processá-lo e lhe arrancar cada tostão. Gabe se levantou devagar. – Faça isso, Roxanne. Por favor, quero que faça, estou lhe pedindo para fazer. – Isto a fez parar e ele sorriu. – Você seria demitida hoje de qualquer maneira. – O quê? – exclamaram Catherine e Roxanne ao mesmo tempo. Ele lançou um olhar breve a Catherine. – Você devia ter me contado desde o começo e nos poupado dois anos de sofrimento. – Então voltou a atenção para Roxanne. – Fiz uma investigação sobre o que aconteceu na festa dos Marconi. E algo muito estranho aconteceu, seu nome aparecia o tempo todo. Portanto, vá em frente e ligue para um advogado. Mas garanta que seja muito bom, porque meu próximo telefonema será para a polícia. E para que saiba, ao contrário de Catherine, eu jogo duro. Vou tomar providências para recuperar o nome e a reputação dela e para que você seja obrigada a assumir a responsabilidade legal por seus atos. Sem uma palavra, Roxanne se virou nos saltos e começou a atravessar o escritório. Mal tinha chegado à porta quando Gabe a fez parar. – Depois de cuidar de suas questões legais, sugiro que pense num recomeço em outro lugar, Roxanne. Algum lugar bem distante do meu alcance. – Deixou que ela pensasse por um segundo, antes de acrescentar: – E, para que saiba, tenho um alcance muito, muito longo. Ela se virou ao ouvi-lo, mirando seu rancor em Catherine, onde sabia que causaria o pior dano possível.


– Você pode achar que venceu, mas está enganada. Não quando ele descobrir a verdade. E, quando souber que você é mercadoria estragada, vai acabar com esse relacionamento. – Então virou o olhar para Gabe. – Também fiz uma investigação, dei uns telefonemas. Talvez tenha fingido ser outra pessoa para conseguir as informações de que precisava. Sua adorável futura noiva lhe contou que não pode ter filhos? Se você se casar com ela, o sangue Piretti que corre em suas veias não será perpetuado. Espero que tenham uma vida maravilhosa juntos. E, em seguida, ela bateu a porta do escritório. O silêncio reinou por um momento infinito. Catherine ficou ali, em pé, imóvel. Tinha de dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas mal conseguia respirar. A capacidade de falar lhe parecia uma total impossibilidade. – Catherine? Ela balançou a cabeça e estendeu uma das mãos com a intenção de afastá-lo. Mas não adiantou. Ele andou até ela, pegando-a desprevenida, tomou-a nos braços e a carregou até a área de estar, junto às janelas. Deitou-a no sofá e se deitou ao lado dela, alinhando seus corpos unidos. Catherine não soube por quanto tempo a abraçou, murmurando palavras de consolo e partilhando seu calor com ela, até que os tremores que lhe sacudiam o corpo cessassem aos poucos. – Lamento, Gabe – disse ela, por fim. – Devia ter lhe contado desde o princípio. – Ela não estava mentindo, estava? Catherine balançou a cabeça. – Não posso falar neste assunto, não assim com você me tocando. – Tentou empurrá-lo e aumentar a distância entre eles, mas não funcionou. – Gabe, por favor, não posso fazer isto. Mas ele não a ouviu. Se houve mudança, foi no abraço mais apertado, com as mãos nela, aquecendoa e se recusando a deixá-la se afastar. – Shh, está tudo bem, querida. – Não! Não está tudo bem, jamais ficará bem. – O que aconteceu? Conte-me o que aconteceu. Ela cedeu, encolhendo-se dentro de si mesma. Não podia mais adiar. Não podia esconder-se da verdade, não importava o quanto queria. Chegara a hora de enfrentá-lo e acabar com tudo. Enfim, era hora de enfrentar o problema sozinha. Hora de arruinar o mundo dos dois. – Foi na noite em que me pediu em casamento – disse ela, sem emoção na voz. – Você me perguntou se eu queria me casar com você, e eu lhe disse que precisava lhe contar uma coisa, lembra? – Sim, lembro. – Ia lhe contar que estava grávida do nosso bebê. Estava guardando segredo fazia duas semanas, esperando a hora certa para lhe contar. Ele ficou rígido nos braços de Catherine. E ela viu aqueles olhos lindos se iluminarem com a maravilha e a alegria daquela notícia. Então a luz se apagou quando ele compreendeu. – Ah, meu Deus. Alguma coisa deu errado. O que foi, houve um acidente? A exaustão a tomou. – Não, não foi um acidente. Os médicos disseram que foi um aborto espontâneo. Havia algo de errado com o feto. Perdi o bebê. – A voz dela estava entrecortada. – Ah, Gabe, perdi nosso bebê. Gabe a aninhou e apenas a manteve nos braços, esperando pelas lágrimas. – O que Roxanne disse é verdade? Você não pode mais ter filhos?


– Não sei como ela descobriu. Quem sabe? Talvez ela tenha telefonado para meu médico e se passado por mim. Ela é capaz de qualquer coisa. – Catherine, por favor, o que aconteceu? Estava evitando responder a pergunta e ambos sabiam disso. Mas era hora de lhe dar uma resposta direta. – O como não interessa, não é? O fundamental é, sim, ela está certa; jamais poderei ter filhos. Fiquei louca depois que perdi o bebê, foi quando eu o deixei. Mas o sangramento não parava. – O rosto dela desmoronou. – Alguns dias depois, tive de fazer uma histerectomia parcial. Ele a abraçou com mais força. – Sinto muito, Cate. Foi isso que quis dizer quando me falou que estava destruída. – Eu disse isso? – Ela não se lembrava. Ele fechou os olhos e se debruçou sobre ela. – Ah, querida. Onde eu estava enquanto você passava por tudo isso? Foi aquela maldita ação legal, não foi? – Eu telefonei do hospital – contou ela, com a voz suave. – Acho que você não recebeu nenhuma das minhas mensagens. – Não. – Uma única palavra que, no entanto, dizia tudo. – Compreende por que só concordei com um relacionamento temporário? Ele ficou tenso. – Não me diga que acreditou em todas as bobagens que Roxanne falou. – Ela não disse nada que eu já não tivesse percebido por mim mesma. Ele se ergueu no cotovelo para lhe estudar a expressão. – Acha que eu terminaria nosso relacionamento porque não pode ter filhos? Acha que não me casaria com você amanhã por causa disso? Está brincando? Honestamente, pensa que sou tão mesquinho? – Você sempre quis uma família grande – disse ela, com a voz trêmula. – Tivemos muitas discussões sobre isso. A Piretti’s pertence à sua família há gerações, você quer filhos para perpetuar o nome. – Certo, e daí? – Daí que não podemos ter filhos! – Podemos, sim, Catherine. Já ouviu falar em adoção? – Mas eles não seriam sua carne e seu sangue. Isso o fez se afastar dos braços dela. – Que tipo de homem pensa que sou? Acha mesmo que sou tão leviano? Ela o olhou, muda, balançando a cabeça. Ele respirou profundamente e lutou para se controlar. – Diga-me uma coisa, querida. Você precisa que uma criança cresça em seu útero para amá-la e criála como se fosse sua? – Não, mas… – Eu também não, nem homem nenhum neste planeta, porque homens não ficam grávidos. – Conheço essa parte da biologia, Gabe. – Fico aliviado em ouvir isso. Pense, Cate. Homens não são capazes de experimentar o que uma mulher sente durante os nove meses em que carrega um filho. E, no entanto, nós nos ligamos ao bebê


depois que ele nasce, embora não tenha vindo diretamente dos nossos corpos. Qual é a diferença entre isso e o que acontecerá quando adotarmos filhos? Ela balançou a cabeça de novo, incapaz de responder. Com medo de acreditar. – E se tivesse acontecido depois de termos casado? Acha que sou a espécie de homem que se divorciaria de você por causa disso? Então ela começou a chorar. Como podia amar tanto aquele homem e não ter visto a verdade? Por que não viu o que havia no coração dele? Como permitira que Roxanne tivesse tanto poder? Gabe não tinha culpa por ela não ter acreditado nele. A culpa era dela. – Perdoe-me, Gabe. Devia ter confiado em você. – Não discordo, mas também não lhe dei muitos motivos para confiar em mim, não enquanto estava tão confuso sobre minhas prioridades. Pela primeira vez em dois longos anos, ela conseguia ver com clareza. – Se tivesse lhe contado sobre Roxanne há dois anos, você a teria demitido, não teria? – Sim. Não tinha ideia de que ela havia se tornado um problema tão grande para você. Eu a teria substituído na hora. Então sua maior preocupação: – O que faremos agora? – perguntou ela. – Boa pergunta. – Ele voltou para o sofá e a tomou nos braços, rolou para cima dela, que ficou deliciosamente apertada debaixo dele. – Primeiro, manteremos nossas reservas para o fim de semana no Très Romantique. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Catherine, e ela sentiu o começo de uma coisa preciosa crescendo dentro dela. Esperança. A esperança estava criando raízes profundas, irremovíveis. – E depois? – Depois, cuidaremos de acabar com todos os segredos, dúvidas e preocupações, enquanto eu lhe explico, lenta e claramente, o quanto eu a amo. Ela jogou os braços em torno dele e o abraçou com toda a força. – Amo você desesperadamente, Gabe. Ele fechou os olhos, e ela sentiu a tensão do corpo dele desaparecer. – Você não tem ideia de quanto tempo esperei para ouvir essas palavras de novo. E então a beijou. Foi uma carícia suave, inesperadamente gentil. Uma bênção. Uma promessa. Continuou beijando-a de forma inocente, a paixão subjugada. E, no entanto, foi um beijo que permaneceu na lembrança de Catherine pelo resto da vida. Um beijo que os uniu, coração e mente, corpo e alma. Com aquele único beijo, todas as dúvidas desapareceram e foram substituídas por certezas. Aquele era o homem dela, assim como ela era a mulher dele. O que quer que o futuro lhes trouxesse, enfrentariam juntos. Passou-se muito tempo antes que Gabe falasse de novo. – Depois de termos tudo resolvido entre nós, precisarei falar com alguém da Elegant Events. – Abriu um sorriso malicioso. – Soube por fonte segura que eles têm a melhor planejadora de eventos da cidade. Catherine sorriu devagar. – E têm mesmo. – Precisarei falar com a melhor especialista em eventos da empresa – advertiu ele.


– Ouvi dizer que ela tem uma agenda muito cheia. Mas talvez encontre espaço para Gabe Piretti, o Pirata, se ele pedir com gentileza. – Ela virou a cabeça para o lado. – Diga-me, por que precisa da melhor especialista em eventos? – Preciso que ela planeje o casamento do ano. – Ora, sr. Piretti – protestou ela, indignada –, parece que está me pedindo para misturar negócios com prazer. Pensei que tínhamos regras para esse tipo de coisa. – Quero que as regras se danem. Ela fingiu estar escandalizada. – Então chega de “somente negócios”? Ele balançou a cabeça. – A partir de agora, meu negócio é você. O que há de mais importante, e virá sempre em primeiro lugar. E ele provou isso de uma forma muito eficiente e nada profissional.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C93c Craven, Sara Cativa do inimigo + Somente a negócios [recurso eletrônico] / Sara Craven, Day Leclaire; tradução Alda Porto, Celina Romeu. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: The innocent’s surrender; Mr. strictly business Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2057-3 (recurso eletrônico) 1. Romance inglês. I. Leclaire, Day. II. Porto, Alda. III. Romeu, Celina. IV. Título. V. Título: Somente negócios 15-27346

CDD: 823 CDU: 821.111-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE INNOCENT’S SURRENDER Copyright © 2009 by Sara Craven Originalmente publicado em 2009 por Mills & Boon Modern Romance Título original: MR. STRICTLY BUSINESS Copyright © 2009 by Day Totton Smith Originalmente publicado em 2009 por Silhouette Desire Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235


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