Issuu on Google+

ID: 34758830

30-03-2011

Fukushima perto de cataclismo nuclear histórico

Tiragem: 20102

Pág: 21

País: Portugal

Cores: Preto e Branco

Period.: Diária

Área: 27,09 x 30,94 cm²

Âmbito: Economia, Negócios e.

Corte: 1 de 2

JAPÃO APROVA ORÇAMENTO RECORDE

O primeiro-ministro japonês admitiu no Parlamento que a situação é imprevisível. Sarkozy visita amanhã o Japão. António Sarmento antonio.sarmento@economico.pt

Se há país onde a lei de Murphy se aplica na perfeição (“Tudo o que poder correr mal, correrá mesmo mal”), é no Japão. Pelo menos deve ser este o pensamento dos 128 milhões de japoneses, em particular dos que habitam na zona da central nuclear de Fukushima. Desta vez, registou-se a detecção de plutónio no solo e no exterior da central, uma descoberta extremamente preocupante. “A presença de plutónio fora do núcleo do reactor confirma que se verificou pelo menos uma fusão parcial”, explica o professor de física da Universidade da Califórnia Kenneth N. Barish. A Agência de Segurança Nuclear a Industrial do Japão sublinha no entanto que embora a quantidade de plutónio seja semelhante àquela que resultaria de um teste nuclear, esta não é prejudicial à população. Só que numa área onde todos os alimentos agrícolas já estão contaminados, bem como as reservas de água subterrâneas, torna-se difícil acreditar nas palavras suaves da Agência Nuclear. Antes disto, tinha sido a chuva radioactiva no solo e a notícia das consequências económicas do terramoto no país do “Sol Nascente”, que ascendem a prejuízos de 213 mil milhões de euros. E, como um mal nunca vem só, além dos efeitos na saúde, o plutónio pode permanecer no ambiente durante 24 mil anos. “O plutónio é uma substância que é emitida quando a temperatura é alta. Também é pesado, por isso não é libertado facilmente”, disse à agência Reuters o vice-director da Agência de Segurança Industrial e Nuclear do Japão, Hidehiko Nishiyama. Mesmo assim, este acidente é já considerado o pior da história desde Chernobyl, em 1986. Situação imprevisível

Desde que o tsunami de 11 de Março atingiu Fukushima, com ondas de 14 metros de altura, a central nuclear ficou com os sistemas de arrefecimento inutilizados. As autoridades intensifica-

Naoto Kan, primeiro-ministro do Japão, afirmou que o país está em “alerta máximo” contra o perigo nuclear, face a uma situação vista como “imprevisível”

Açores sem alterações radioactivas As partículas de gás ‘Xenon 133’. resultantes da central nuclear de Fukushima foram detectadas esta semana no Açores. No entanto, não se registaram alterações dos valores de radioactividade no arquipélago. A garantia foi dada por Álamo Meneses, secretário regional do Ambiente e do Mar. “Não há alterações nem é expectável que venha a haver dada a distância a que os Açores se encontram do Japão”, afirmou Álamo Meneses. O secretário regional sublinhou ainda que estão a ser feitas medições nas duas estações da ilha de São Miguel, uma no aeroporto e outra na estação meteorológica de Ponta Delgada.

ram a rega dos reactores com a ajuda de camiões cisterna, equipados com canhões de água, para evitar que o combustível usado entrasse em fusão e libertasse importantes emissões radioactivas na atmosfera. No entanto, o esforço parece ter sido em vão. No Parlamento, o primeiroministro japonês, Naoto Kan, disse que a situação “requer vigilância” e que é “imprevisível”, garantindo que o governo irá adoptar todas as medidas para controlar a fuga de plutónio. A companhia nuclear francesa, a Areva, que fabrica o combustível nuclear Mox, usado em Fukushima, vai enviar dois especialistas para analisar o material radioactivo. O próprio Presidente francês, Nicolas Sarkozy, estará no Japão na quinta-feira, reunindo-se com o primeiro-ministro Naoto Kan Além do plutónio, foi também detectada água fortemente radioactiva no subsolo de edifícios anexos aos dos reactores. No exterior da central, em túneis para a passagem de canalizações e cabos eléctricos, registou-se o mesmo problema. Nos túneis junto ao reactor dois, a radioactividade na água chega a um sievert (unidade que mede os efeitos da radiação) por hora – suficiente para um risco de morte ao fim de quatro horas de exposição.

OPINIÃO

O nuclear e as gerações futuras

Filas gigantes para abastecer

A escassa informação fornecida pelo governo e os problemas de interpretação da situação por grande parte da população, tem colocado os habitantes num estado de nervos. Em Tóquio, as pessoas tentam regressar à vida normal, mas o comércio ainda fecha bastante cedo e continuam as filas intensas nos postos de gasolina. Na parte mais afectada do país, o nordeste, 250 mil pessoas afectadas pelo terramoto, seguido de tsunami, continuam a viver em escolas e nos edifícios governamentais que resistiram à catástrofe. Neste momento, são poucos os que andam descansados na rua ou em casa. O medo continua a ser o sentimento dominante e, a hipótese de novas réplicas, tira o sono a todos os japoneses. ■

MIGUEL BARRETO CEO Gesto Energia

O acidente de Fukushima vem, na minha perspectiva, colocar um ponto final no futuro do debate nuclear. Nos próximos anos provavelmente haverá uma geração antiga que continuará a defender o debate, mas julgo que Fukushima foi o ponto de viragem para as novas gerações. O acidente de Chernobyl não aconteceu nos tempos da internet, do YouTube e da CNN. O acidente de Chernobyl não aconteceu a

poucos quilómetros de uma das cidades mais populadas do mundo. O acidente de Chernobyl não foi fruto de um acidente natural, um enorme e devastador terramoto e tsunami, que no espaço de poucos anos vimos acontecer duas vezes. A força da natureza é avassaladora. As imagens que assistimos, primeiro na Tailândia, e agora no Japão demonstram a nossa fragilidade. A velocidade torna a percepção do problema muito mais dramática. É curioso pensar que o impacto das alterações climáticas é muito mais devastador do que os Tsunamis que observámos, mas como acontece ao longo de centenas de anos, não conseguimos entender a sua dimensão. Desde Chernobyl muito aconteceu no sector da energia. As tecnologias renováveis progrediram de forma muito signifi-


ID: 34758830

30-03-2011

Tiragem: 20102

Pág: 21

País: Portugal

Cores: Cor

Period.: Diária

Área: 15,85 x 31,70 cm²

Âmbito: Economia, Negócios e.

Corte: 2 de 2

Tokyo Electric Power Co./Handout/Reuters

O parlamento de Tóquio aprovou ontem um orçamento recorde de 796 mil milhões de euros para o exercício fiscal de 20112012. O documento, que foi elaborado ainda antes do terramoto e tsunami, terem atingido o país no passado dia 11 de Março, não leva no entanto em conta as despesas de reconstrução do nordeste do país. Vários deputados do governo e da oposição já pediram um orçamento adicional de emergência entre os 17 e os 26 mil milhões de euros para ajudar à recuperação da área mais afectada pela catástrofe natural. Os parlamentares nipónicos também não chegaram a acordo sobre as leis de financiamento necessárias para conseguir os montantes previstos, sendo necessário que o primeiro-ministro Naoto Kan obtenha o apoio da oposição para emitir as obrigações necessárias para financiar 42% da despesa.

cativa. Hoje a energia eólica é tão competitiva como o gás natural para cenários de petróleo acima dos 100 dólares e, nos próximos 10 anos, será certamente mais competitiva que o nuclear ou o carvão. Hoje a energia solar já está abaixo dos custos da energia eólica há 20 anos atrás e perspectiva-se que até 2020 possa ser economicamente competitiva. A eficiência dos ciclos combinados a gás natural hoje aproxima-se dos 60%, algo impensável nessa altura. O gás natural sofreu uma revolução tecnológica recente com o aparecimento de novas tecnologias para extrair o “shale gas” que aumentou de forma dramática as reservas e baixou significativamente os custos. Sempre defendi que o nuclear não fazia sentido em Portugal. Não por ter algo contra o

nuclear. A forte aposta realizada no gás e nas renováveis em Portugal já não deixava espaço e retirava o sentido económico à introdução do nuclear. Fukushima mudou de forma definitiva a minha perspectiva relativamente ao nuclear, como deve ter mudado em milhões de pessoas das novas gerações. O custo de um acidente é brutal, a probabilidade afinal não é assim tão baixa, as alternativas tecnológicas são quase competitivas e, se considerarmos o risco, são já economicamente muito mais competitivas. A partir de hoje sou anti-nuclear. Fukushima já alterou drasticamente o futuro energético do planeta e das novas gerações. Espero sinceramente que esta lição da natureza tenha o menor impacto possível no povo do Japão e das regiões em redor. ■

Convocada conferência de segurança nuclear A crise em Fukushima vai servir de lição para as regras usadas nas centrais de todo o mundo. Pedro Duarte pedro.duarte@economico.pt

Os problemas dos reactores nucleares da central de Fukushima vão alterar o modo como as nações encaram a segurança atómica. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), anunciou ontem ter convocado uma conferência sobre os procedimentos de segurança que deverão ser tomados nas centrais de todo o mundo. Segundo o director da Agência, Yukia Amano, o objectivo principal do encontro será o de analisar a situação no Japão, determinar o que foi aprendido com o acidente, e tomar medidas para evitar que a mesma situação se venha a repetir noutro ponto do globo. Este responsável precisou que os participantes da reunião não irão ser só técnicos, mas também políticos, uma vez que a situação é extremamente séria, exigindo o empenho dos governos nacionais em apoio das entidades reguladoras. A dar o exemplo, o governo japonês anunciou ontem que irá rever unilateralmente os padrões de segurança nuclear de todas as centrais do país, assim que a situação nos reactores de Fukushima I esteja sob controlo. Em declarações à imprensa, o secretário-chefe do governo nipónico, Yukio Edano, admitiu que “o nosso nível de preparação [nuclear] não era suficiente. Quando a crise actual acabar, vamos examinar o acidente de perto, e rever de modo compreensivo” os procedimentos de segurança nas centrais nucleares. A urgência desta medida é aumentada pelas notícias publicadas nos media de que os altos responsáveis da Tokyo Electric Power Co. (TEPCO), empresa que possui a central de Fukushima I, ignoraram de modo deliberado todas as provas científicas e geológicas que indicavam que o terramoto massivo na região era muito mais provável do que o esperado. ■

A Agência Internacional de Energia Atómica quer evitar que a situação no Japão se repita noutros países.


Artigo Energia Nuclear e Gerações Futuras