Page 1

Caixa-preta ENTREVISTA

Ivan Sant’Anna Autor de Perda Total fala sobre o acesso às fontes e avalia o sistema aéreo brasileiro Caixa-Preta: O que fez o senhor se interessar pelos acidentes relatados? Ivan Sant’Anna: Quando aconteceu o desastre da Gol no choque com o Legacy e, logo em seguida, o desastre da TAM JJ3054 a editora me pediu para escrever sobre esses dois acidentes. Eu acrescentei a história do voo 402 e escrevi Perda Total. Mas esse foi o último. Não o último livro meu, o último sobre acidentes de avião. Não quero mais escrever sobre isso. Cansa os leitores, cansa a gente. Também não quero ser conhecido como o escritor que só escreve sobre acidente de avião. Na verdade eu já publiquei 11 livros e só três sobre acidente de avião. CP: Como foi o acesso às fontes? IS: Olha, o difícil foi o Caixa-preta porque eu não era conhecido como desastre, como o escritor que escrevia sobre acidentes de avião. Perda Total foi fácil. Eu tenho 1.700 leitores que se correspondem comigo pela Internet e grande parte deles é gente ligada à aviação. É fácil para mim hoje em dia chegar às pessoas. Quanto aos parentes, depois que você descobre um, esse um apresenta outro, e outro. Não foi difícil achar as pessoas não. CP: O senhor obteve dados sigilosos? IS: Eu obtive dados que não são nada sigilosos. Como, por exemplo, alguns aspectos da pilotagem do Legacy que as pessoas não sabem. Mas não são sigilosos. São dados que tem nos inquéritos tanto da Polícia Federal quanto da Justiça, como o laudo do Ministério da Aeronáutica. Os dados estão lá. É que quando cai um avião a imprensa publica aquelas notícias todas. Ai depois quando você revela tudo que aconteceu quatro cinco anos depois, quando sai, sai numa “paginazinha” lá no meio do jornal, um resumo pequeno. Mas eu não, eu leio tudo, converso com promotores, com juízes, com delegados de polícia e levanto tudo que aconteceu. Mas não são dados sigilosos. CP: Mas o senhor tem fontes em off? IS: Tenho várias fontes em off. Vários pilotos que conversaram comigo sobre acidentes com a condição de que eu não publicasse o nome deles. Tenho várias

fontes que não são citadas nos agradecimentos. Gente que me ajudou e gente com a qual eu me correspondo e que, inclusive, me explica certas coisas sobre acidentes aéreos. Porque, afinal de contas, eu sou piloto de avião pequeno. Eu não tenho nenhuma experiência de pilotagem de avião grande. Tenho fontes que me contam sobre desgaste de pilotos, de excesso de horas voadas por pilotos brasileiros; recomendações de empresas aéreas que vão contra a segurança; entendeu? Recomendações que levam mais em conta o lucro das empresas do que a segurança dos passageiros.

Fontes me contam sobre empresas aéreas que levam mais em conta o lucro do que a segurança dos passageiros CP: Por que continua essa situação atual (estrutura dos aeroportos, preparação dos controladores), se o tema tem tanta visibilidade na imprensa e na sua obra? IS: A aviação está crescendo muito mais que a infraestrutura aeroportuária. Segundo porque demora muito tempo pra você formar um controlador de voo. Demora muito tempo para você ampliar um aeroporto. E depois porque tem muita corrupção, que atrasa essas obras. O Tribunal de Contas veta uma obra, veta outra porque está havendo corrupção, ta havendo superfaturamento. Os próprios diretores das empresas públicas que constroem e usam das empreiteiras, eles têm interesse no atraso por que uma vez que atrasa eles acabam conseguindo fazer sem licitação. É pura corrupção. Além disso, tem a falta de pilotos. Porque no Brasil é proibido importar pilotos, mas o país exporta muito. O Brasil exporta pilotos para a Ásia toda, para a Emirates, para a Cingapura Airlines, para empresas do Catar, para a Coreia do Sul. Então tá havendo uma falta enorme de pilotos. Tem gente da minha idade que tirou o Brevê (carteira de habilitação dos pilotos) junto comigo e que ainda está voando, com 70, 70 e poucos anos.

CP: E você acha que essa situação vai mudar até as Olimpíadas de 2016? IS: Eu não acho difícil resolver por alguns dias não. Não acho difícil fazer uma coisa funcionar por um tempo curto não. Acho difícil fazer ela funcionar por um tempo longo. Naquele tempo curto eles cortam as folgas de todo mundo, eles dão destaque naquele trabalho. E, enfim, a coisa vai sair. Muito pior que as Olimpíadas de Pequim, que eu não tenho nem termos de comparação, ou de Londres, que já tá tudo pronto, mas vai sair. CP: Onde está a raiz dos acidentes aéreos: omissão da agência reguladora, formação de pilotos e controladores? IS: Uma coisa é importante salientar: os desastres estão diminuindo. Aqui no Brasil geralmente acontece um desastre de aviação comercial por década, salvo os desastres da Gol e da TAM, que são uma exceção. No mundo acontece um grande desastre aéreo por ano, sendo que são 180 mil decolagens por dia. Então a segurança não tá, assim, ameaçada. Apenas poderia ser mais seguro se houvesse mais seriedade no trabalho de formação de controladores e no trabalho de manutenção dos aviões por parte das empresas. O problema de idioma é algo que acontece no mundo inteiro, os controladores não sabem falar o inglês rápido e os pilotos que são da língua inglesa não têm a menor preocupação de falar pausadamente. Vários acidentes foram causados por falha do inglês. Claro que aquele controlador que fala inglês como se fosse a própria língua vai querer ganhar sete, dez mil reais, e não dois, três mil, que é o que acredito que eles ganham. CP:Qual seria a explicação para o sucesso do livro? IS: As pessoas gostam de acidentes de avião, de ler sobre acidente de avião. Quando sai acidente de avião todo mundo compra jornal. A Veja tem uma tiragem nas bancas enorme. O Jornal Nacional estica o período, e a audiência é maior. Em geral, acidente de avião atrai muito a atenção das pessoas. Acho que sou o único que escreveu sobre acidentes de avião no Brasil, então quando lanço um livro ele tem tudo para se tornar Best Seller.


Entrevista Ivan Sant'Anna / Jornal Mural  

Entrevista encaixada dentro do "envelope" anexado ao Jornal Caixa Preta

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you