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CIDADE DOM BOSCO

educando com amor


Expediente MISSÃO SALESIANA DE MS/MT Padre Lauro Takaki Shinohara, inspetor CIDADE DOM BOSCO – CORUMBÁ/MS COMUNIDADE SALESIANA EM 2010 Padre Ernesto Sassida, fundador da obra, diretor de 1961 a 1988 Padre Osvaldo Scotti, diretor Padre Pascoal Forin, pároco Irmão Lauri Dorneles, ecônomo e coordenador do Centro Profissional Dom Bosco Vanderson de Souza Gomes, coordenador de Equipe de Animação Pastoral (EAP) EREÇÃO CANÔNICA A Ereção Canônica da CIDADE DOM BOSCO ocorreu em 5 de janeiro de 1988, desde quando passaram pela instituição os seguintes diretores: 1º Diretor – Padre João Zerbini (1988 – 1993) 2º Diretor – Padre André Santidrian (1994 – 1997) 3º Diretor – Padre Augusto Kian (1998) 4º Diretor – Padre Carlos Rey (1999 – 2001) 5º Diretor – Padre Osvaldo Scotti (2002 – 2010) REALIZAÇÃO JORNALÍSTICA Reportagem, redação, edição e fotografia: Gesiel Rocha (DRT/MS 084/2002) Arquivo fotográfico: Padre Ernesto Sassida e Cidade Dom Bosco Colaboração: Lindivalda Gonçalves dos Santos Supervisão editorial, projeto gráfico, diagramação e revisão: Midianova Estratégia em Comunicação Tiragem: 8.000 Impressão: Gráfica Regente Ltda - CNPJ. SOB Nº 79.147.047/0001-32

Logotipo do Cinquentenário da CIDADE DOM BOSCO Autoria: Maria Vilani, ex-aluna da instituição e vencedora do concurso realizado em março de 2009


Escola? Só a da rua... prenunciando um futuro sombrio, indesejado, pouquíssimo sendo feito para a mudança desta triste realidade. São milhares de crianças que não apenas imploram o pão físico, mas também o alimento da atenção que conforta, do conselho que educa, da orientação que equilibra e do altruísmo que anima e edifica. A Revista do Cinquentenário da Cidade Dom Bosco, idealizada por professores, benfeitores, alunos e ex-alunos da instituição e executada pelo versado jornalista Gesiel Rocha, é um intento de resgatar, ainda que superficialmente, a história desta maravilhosa obra.

“Sim, meu Senhor, Teus filhos merecem ter um pouco mais de dignidade humana...”, e então surgiu a Cidade Dom Bosco. Tijolo por tijolo, inúmeras obras sociais que a compõem e todas elas, em coro, orquestrando uma bonita história de amor.

Estas poucas lembranças pretendem ser um marco de reconhecimento, de justa gratidão a Deus, à Missão Salesiana de Mato Grosso e a tantas pessoas, principalmente ao padre Ernesto Sassida e às madrinhas/padrinhos da adoção à distância, com o intuito de perpetuar o reconhecimento e o afeto cristão, já que só no céu saberemos quantos sacrifícios e gestos de amor foram feitos ao longo destes 50 anos.

Ao longo de vários anos, ao lado do padre Ernesto e de tantas pessoas que nos admiram e nos querem bem, tenho sido testemunha ocular da eficiência dos mais expressivos projetos, tal como o pequeno e valente Davi, capaz de enfrentar tamanhas dificuldades – o gigante Golias – que queriam interceptar o objetivo de levantar o caído e valorizá-lo como pessoa.

A opção de Dom Bosco pelas crianças e adolescentes excluídos, sem vez nem voz, é a imagem de Cristo, o sacramento fundamental dos cristãos, pois eles não podem ser escandalizados nem tomar o mau caminho, cair no vício ou serem explorados. Pelo contrário, devem ter a alternativa de serem cristãos e cidadãos honestos. A origem de tudo está na experiência de Deus do padre Ernesto: “Ernesto, você será um pescador de homens. Levante-se, peça a bênção de seus pais, despeça-se de seus amigos, dê adeus a sua pátria querida e vá. Você amparará pessoas desassistidas e, sobretudo, crianças desamparadas...”

Neste cenário, a Cidade Dom Bosco não só aglutinou milhares de pessoas e inúmeras entidades, como também inspirou políticas públicas, como uma semente dando 100% de frutos: Clube Feminino, Sino da Caridade, Escoteiros, Guardas-mirins, Clube dos Amigos da Criança, CENPER, Clube dos Amigos do Padre Ernesto, União dos Ex-alunos da Cidade Dom Bosco, Governo Estadual do Mato Grosso do Sul e Prefeitura Municipal de Corumbá. E tantas outras instituições modelares de integração social. A Cidade Dom Bosco é uma versão moderna da Parábola do Bom Samaritano, um convite a sonhar e realizar. Guarde e divulgue esta revista que encerra um tesouro precioso e que retrata tanto a vida do padre Ernesto como a história da Cidade Dom Bosco, que se confunde com a história bem sucedida de milhares de crianças e adolescentes. Uma história que teve começo, mas não deve ter fim. Padre Osvaldo Scotti Diretor da Cidade Dom Bosco

Editorial

Este convite de Deus identificou-se com o grito de isolamento, de penúria e rejeição social das crianças e famílias de Corumbá. Aquelas que não conhecem o sorriso de um pai e os cuidados de uma mãe, a vida lhes é dura e até cruel. Vivendo na fronteira física de dois países, vivem também na fronteira do vício e da delinquência.


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anos educando e modelando corações Há pessoas que nascem predestinadas: umas para a santidade; outras para a política; esses para os esportes; aqueles, para ciência; ess’outros, para a música; muitos, para o trabalho humilde, escondido e silencioso; esses levantando paredes; aqueles, construindo escolas; aqui, os que participam de obras de orientação e educação de crianças carentes que, se não acudidas a tempo, poderão se perder pelo longo caminho! Todos têm seu mérito perante Deus, se seu trabalho é nobre, sincero e revestido da caridade cristã. Perante os homens, às vezes não. Alguns trombeteiam feitos vazios que, às vezes, mal conseguem empolgar multidões.

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com letras de ouro, pela humildade e simplicidade do jovem padre Ernesto Sassida, que idealizou e tornou realidade tantas obras sociais em Mato Grosso do Sul. Outrossim, pela importância de sua dedicação; pelo alto senso de responsabilidade que sempre demonstrou; pela eloquência de seu gesto cristão e cívico; ao dar enfoque ao trabalho profícuo que realizou; pelas lajes de pedra que empilhou a fim de tornar realidade o tão formidável complexo de obras.

Perante Deus, ninguém é esquecido, depois de um trabalho silencioso, longe dos holofotes, que, por sua pureza, consiga proclamar que Deus fala através dos humildes e puros de coração.

A Cidade Dom Bosco inequivocamente é uma obra que, educando milhares e milhares de crianças ao longo de seus 50 anos, não forma campeões, mas modela corações, recordando à humanidade não só que a alma é feita à imagem e semelhança de Deus, mas também que o mundo poderá ser melhor se houver mais compreensão e amor entre as pessoas de boa vontade!

A eloquente revista que o insigne jornalista Gesiel Rocha editou, tornando-se parte da história da Cidade Dom Bosco, mereceria ser escrita

Tão dedicado às crianças carentes, Dom Bosco abriu-lhes casas de hospedagem, escolas profissionais e oratórios que “pescavam” necessitados

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e os devolviam assistidos à sociedade. Com isso, jovens sob a forma de “lobos” revoltados transmudavam-se em “cordeiros” aptos e prontos a servir a Deus e a conviver entre irmãos. Em 1868, o Santo fundou a Congregação dos Salesianos, tendo por lema os princípios adotados por São Francisco de Sales. Seu objetivo? Era a educação humana, sobretudo a de moços e adolescentes. Anos depois, idealizou e fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, com a função específica de cuidar das jovens, e, mais adiante, a Pia União dos Cooperadores Salesianos, que cuidaria de lhes propiciar sadia orientação.


Certamente, com esse tripé, revolucionaria o mundo, levando longe o Evangelho e ensinando jovens adolescentes e adultos, nas cidades, nas selvas, onde quer que se encontrassem, podendo mutatis mutandis, dizer como o cientista: “Dê-me uma alavanca e movimentarei o mundo”... Seu intento? Era a educação humana, sobretudo a de moços e adolescentes, ao adotar o Sistema Preventivo de Educação. Já não sendo mais suficiente o dia inteiro para o trabalho de executar tudo quanto planejava para os pauci operarii frente a u’a messis quidem multa, era na noite, reservada para descanso, que São João Bosco tinha seus sonhos em que

“via, planejava e executava” mais e mais atividades para a Missão que idealizara e criara. Tinha ciência e consciência de que “...é preferível gastar, hoje, com escolas que previnem do que, no futuro, com cadeias que reprimem (sem, contudo, ressocializar o infrator). Exemplar aluno de Dom Bosco, o jovem Ernesto Saksida, aos 15 anos, ao refletir se aceitaria ou não ser missionário, perguntava a Deus, em suas orações: “Quo vado, Domine? Para onde vou, Senhor?” E Deus lhe adiantou que seu destino seria o Brasil, e a missão, a de acolher, compreender e orientar a criança carente.

“Mas como realizar uma obra dessa envergadura e com que recursos, se nada tenho? Senhor, sabido que num mundo assim tão consumista, as pessoas alimentam cada vez mais o egocentrismo, com quem contarei?” Ao sussurrar algo em seu coração, compreendeu o jovem Ernesto que contaria com Ele, Deus. Se Ele indicou a missão, certamente indicaria também a Ernesto os meios com que atingir os objetivos colimados. Um dia, tocado por Deus, no íntimo de meu ser – satisfeito por estar colaborando, há tempo, com padre Ernesto, não só na construção, mas em sua manutenção como árvore frondosa e frutífera – apanhei um papel e uma caneta e escrevi:

A ESTREL A que ta rdava a i nda . . . Das estrelas por Deus atiradas ao espaço, descendo aladas, uma havia que tardava ainda....... E ela caiu bem perto da barranca, como presente pr’a Cidade Branca, sonho de Dom Bosco, visão linda! Pousou.... Luzes tremeluzindo, bênção do céu sobre nós caindo, nau celeste, em forma de estrela! Com seu brilho radiante de luz em intensidade que tanto seduz cintilando pr’a que pudessem vê-la. Dia a dia em seu roteiro, sem descanso, o ano inteiro, trazendo o bem, paz e esperanças. Ela não tem prata nem tem ouro mas carrega sempre um tesouro, qual celeste nave, cheia de crianças! Há 40 anos, uma idéia, apenas benvinda com muitos obstáculos, um sonho ainda, semente que breve a terra germinou.

E ela se tornou uma árvore frondosa, copada, florida e tão majestosa, do chão, a Cidade Dom Bosco brotou! A obra? Ah! Linda, frutífera Um remédio contra a maldade, mas sonho distante da realidade os vindouros dela se lembrarão... Lar da acolhida e bondade, ao menor fazendo caridade mil vozes seu nome cantarão, ....em louvor e gratidão! Amor: base forte em suas raízes distribuindo bens de vários matizes, espargindo frutos e luz infinda. Mãe para muitas crianças e instrumento cheio de esperanças, uma ESTRELA QUE TARDAVA AINDA... José Ferreira de Freitas Membro da Academia Mato-grossense de Letras – Cadeira 32

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Dos vinhedos da GorĂ­zia ao Pantanal corumbaense 6

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Futebol a caminho da igreja de Dornberk Era uma manhã de fim de verão em 1930 no município de Dornberk – na região agrícola dominada por vinhedos da Gorízia, província a oeste da então república iugoslava da Eslovênia, no Leste Europeu – quando Ernesto Saksida, então com 11 anos, caminhava sozinho em direção à Casa Paroquial local para encontrar dois padres franciscanos de Padova (Itália), com quem teria uma audiência. O encontro havia sido arranjado pelo monsenhor Cigoj, vigário da cidade, que apontava a vocação sacerdotal do menino. “Eu passava as férias do pré-seminário em casa e, já naquela idade, mantinha as portas abertas para toda e qualquer oportunidade, qualquer chamado. Como meu pai havia me informado de que os padres franciscanos queriam falar comigo e, quem sabe, levar-me para estudar em seu seminário, fiquei ansioso pelo encontro e fui imediatamente”, conta. No caminho para a igreja, um grupo de meninos chutava desajeitadamente a bola em todas as direções possíveis, em um campo improvisado de futebol. Apaixonado pelo esporte desde os primeiros passos, em grande parte por influência de um dos irmãos mais velhos, não resistiu e correu para o jogo, em que um dos times carecia de um jogador. Correu, suou a camisa e, somente mais de meia hora depois, lembrou-se do compromisso, deixou o campo e rumou ao encontro dos padres.

Na página oposta, Ernesto Saksida aos 17 anos, no seminário da Arquidiocese em Cuiabá; no topo, ainda menino em Dornberk; abaixo, os vinhedos da Gorízia, na Eslovênia

“Eu era muito fã e torcedor do meu irmão Viktor, ciclista profissional e organizador de campeonatos de futebol na região. Adorava vê-lo jogar e, inspirado por ele, o meu amor pelo esporte era tanto que eu chegava a dormir abraçado à bola”, lembra. Ao chegar, o pároco Cigoj lamentava o atraso do menino cujo gosto pelo esporte ainda falava mais alto que a nascente vocação religiosa – natural para tal idade: “Ernestinho, por que você demorou? Eles queriam convidá-lo para ir ao seminário deles, pretendiam levá-lo. Mas não puderam esperar tanto e já foram embora, não adianta mais...” Frustrado, voltou para casa lamentando o que parecia ser uma grande oportunidade perdida de realizar tão precoce sonho, o de lançar-se em definitivo no caminho para se tornar padre. Franciscano, porém, convenceu-se de que não seria mais, pelo menos não daquela vez. Tal episódio nada mais parecia do que um fato qualquer na diversa infância de Ernesto Saksida, o caçula de uma família eslovena de 11 irmãos, filhos de Josef e Katerina Jozefa Saksida. No entanto, viria determinar os 80 anos seguintes de história e tantas histórias. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Acima, Josef e Katerina Saksida, pais de Ernesto; abaixo ruas de Dornberk, que ele costumava percorrer com a família para ir à igreja, onde Josef era maestro

Tendo iniciado, como era de praxe, o curso primário aos sete anos, em Gorízia, não custou a chamar a atenção pela dedicação aos estudos e pelos primeiros lampejos de solidariedade. Certa simpatia além do comum por assuntos religiosos também não tardou a aflorar, já revelando um precoce interesse pelo seminário e pela ideia de se tornar padre. As leituras faziam despertar o entusiasmo com ações de Dom Bosco e numerosos missionários salesianos em todos os continentes, principalmente na América do Sul.

Vocação que aflora já nos primeiros anos Ernesto Saksida nasceu em 15 de outubro de 1919, em Dornberk, província de Gorízia – então território italiano. A data insere-se no hiato entre as duas grandes guerras que abalaram a Europa na primeira metade do século XX. Como resultado, enfrentou inúmeras adversidades envolvendo seu país, a Eslovênia – primeiramente integrante do Império Austro-Húngaro, depois da Itália (em parte) e, em seguida, da República da Iugoslávia, que por sua vez integrava a Confederação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 8

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“Tinha eu oito anos quando meu pai me chamou e disse: ‘Ernesto, você já é um homenzinho. Amanhã, acorde cedo e acompanhe os empregados na lavoura para aprender a trabalhar e a dar ordens’. Fiquei feliz com a afirmação de meu pai. Na manhã seguinte, no entanto, minha mãe acordou-me muito cedo e eu tinha ainda muito sono. Aquele senso de obrigação fez-me resmungar: ‘Mamãe, eu não quero ser homenzinho, quero ser sempre criança’”, recorda-se. Quando Ernesto tinha ainda seis anos, ao ver um padre, teve o primeiro encantamento com a batina. Depois, aos nove anos, recebeu a visita do pároco Cigoj, também professor do

Pré-seminário Diocesano, e impressionou-se com a amabilidade, inteligência e respeitabilidade daquele homem. O pai Josef confessou-lhe depois que o vigário havia perguntado se ele queria mesmo ser padre. Sem pestanejar, respondeu “sim” e, meses depois, estava fazendo o curso de admissão no mesmo Pré-seminário. No fim daquele mesmo ano em que quase fora convidado a acompanhar os padres franciscanos, e uma semana antes de voltar para o pré-seminário, o menino foi passar férias com a irmã Benedikta na praia, no Porto de Ancona, na Itália, no Mar Adriático. Andando entre as barracas de comércio, ao longo da praia, avistou em uma delas “um homem preto, mas preto mesmo, que vendia tudo por uma lira – como se fosse tudo por um real”. “Foi o primeiro contato da minha vida com gente de outro mundo, pois ainda não tinha conhecido ninguém de outro país, de outra cor, nem mesmo por fotos. Aquele jeito de falar, com sotaque tão estranho, a cor da pele e a diferença para o povo esloveno, tudo era muito exótico e despertou em mim o interesse de conhecer mais do mundo e dos diferentes povos, representando a primeira semente do chamado para as missões”, descreve.


Herança familiar e a base para o sacerdócio Funcionário público, agricultor e produtor de vinho, Josef Saksida já era, com pouco mais de 30 anos, a segunda autoridade da província. Para tanto, era também estudioso, honrado, disciplinado e nacionalista, mostrando-se sempre apaixonado pelo país. Com tal autoridade, criava os filhos com princípios de respeito, disciplina e religiosidade, fazendo-os cantores do coral da Igreja Paroquial, criado e dirigido por ele mesmo – bem como o de outras três igrejas –, também compositor e maestro. Tal postura tinha o contraponto cândido e dócil da mãe Katerina. “Nasci sob o domínio da Itália e assim fui educado, já sob o regime fascista de (Benito) Mussolini. Éramos obrigados a falar italiano e proibidos de falar nossa língua. Meu pai, patriota ao extremo, nunca me viu vestido de ‘pequeno fascista’, o que era obrigado a fazer em muitas ocasiões. Nós tínhamos muitas propriedades, muitos produtos e mais de 60 mil litros de vinho por ano que produzíamos. Mas havia uma repressão muito grande sobre quem não era italiano e, assim, não tínhamos para quem vender nossos produtos”, conta.

ÁUSTRIA

ESLOVÊNIA

ITÁLIA A

Ljubljana Gorízia

Se fora o cenário político mostrava-se hostil, foi o ambiente familiar que permitiu a Ernesto dar os passos firmes que o levariam à vida sacerdotal, em parte por vocação própria e em outra pela vontade de deixar o meio rural e escapar da ‘lida no campo’. E foi ainda aos 11 anos, passando férias do pré-seminário em Dornberk, que recebeu uma carta dos salesianos da Itália. Sabendo que o menino queria ser padre, estes o ofereciam uma vaga no Aspirantado Missionário Salesiano de Bagnolo, em Turim, na Itália. Incentivado pelos próprios pais, rumou para a cidade italiana para fazer o curso ginasial em regime de internato, lá permanecendo por quatro anos, alimentando de todas as fontes o desejo intrínseco pela obra missionária. Além das orações em grupo, rezava todas as noites a oração de Santa Terezinha, padroeira das Missões e cujo “santinho” lhe fora dada pela mãe ainda aos nove anos, fato que moldou sua vocação missionária. No seminário, as matérias variavam entre liturgia e física, matemática e música, passando por italiano, latim e francês. Com esforço significativo, superava o obstáculo do estudo das línguas latinas, tão diferentes das raízes idiomáticas do esloveno. A música e o teatro eram atividades presentes, por meio da banda musical e do coral da instituição, chegando a estudar piano no último ano. Assim, passaram-se quatro anos, chegando o momento em que uma dura decisão era necessária: ir ou não para as missões?

Nova Gorica

CROÁCIA

Monfalcone

Trieste

ITÁLIA

ESLOVÊNIA

Gorízia

Nova Gorica

Monfalcone

Trieste

No topo, Ernesto com os colegas de vocação no Aspirantado Missionário Salesiano; acima, mapa da Eslovênia, com destaque para a região onde ele nasceu e cresceu

“Quando me foi oferecida a vaga, não pensei e aceitei de pronto. Só depois descobri o que significava Aspirantado Missionário Salesiano, e que a maioria daquelas crianças lá internadas, mais de 300, partia para as missões tão logo terminava o ginásio. Elas mesmas pediam para ir para as missões, e eu não fiz diferente”, recorda-se. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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À esquerda, vista de Nova Gorica, lado esloveno da Gorízia, capital da província onde Ernesto cresceu; à direita, vista noturna de Turim, onde estudou até os 15 anos

O pão que prenuncia entrega e solidariedade Em mais um típico dia do agradável verão no Leste Europeu, no saguão de uma das inúmeras estações de trem entre Dornberk e Turim – onde se juntaria a outros 40 colegas que também partiriam para as missões na América do Sul – Ernesto Saksida, ainda com 15 anos, avistou um homem humilde, de aparência cansada, ao fim de uma longa jornada de trabalho. Candidamente, aproximou-se e entregou-lhe um pequeno embrulho, dentro do qual havia um macio pão doce caseiro. Aceitando o pacote com gosto e alegria, o homem proferiu um faceiro “Deus lhe pague”.

O pão doce fora preparado pela mãe Katerina, com uma mistura de carinho e tristeza profunda, horas antes de Ernesto se despedir definitivamente da família na estação ferroviária de Dornberk. Era talvez o último presente e a lembrança derradeira da mãe ao filho que partia rumo ao desconhecido. Entregara-o no momento do embarque para que não amassasse. Apesar da longa viagem, que já durava mais de um dia até o encontro com o trabalhador na estação, não teve coragem de consumi-lo, conservando-o como relíquia materna. No entanto, após certo tempo, era preciso comêlo ou dá-lo a alguém. “Quando dei o pão feito por minha mãe, fiquei aliviado, pois minha consolação era tê-lo dado a uma pessoa sofrida, cansada, que agradeceu como uma criança. A partir de então, viajei feliz por ter encontrado alguém que precisava de alimento mais do que eu e por ter sido capaz de entregar algo sagrado para mim”, diz. O episódio da entrega do ‘pão sagrado’ ao trabalhador foi, no entanto, apenas a primeira e pequena sensação de alívio em uma caminhada longa, penosa, dolorosa e angustiante despedida e separação da família, desde quando Ernesto decidira pedir aos pais a autorização para partir nas missões. Ainda no seminário em

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Bagnolo, pensava: “Para onde vou, Senhor? Será para a China, a Índia, a Indonésia ou a Austrália? Ou quem sabe para um dos países africanos...”. Sabia apenas que todos aqueles lugares careciam de missionários, mas nenhum deles estava à sua frente, e sim um distante e desconhecido estado de Mato Grosso, no coração profundo de um tão gigantesco quanto ‘selvagem’ Brasil, país maior do que toda a Europa e mais de 20 dias mar adentro e além do Estreito de Gibraltar, Oceano Atlântico abaixo. Antes de tudo, porém, era preciso obter a autorização dos pais, tarefa para a qual incumbiu a irmã mais velha, Benedikta. Dias depois, esta retornou a Turim com a permissão que o pai Josef aceitara assinar, após muito refletir e com o peito contorcido pelo medo de que o filho deixasse a Itália sem previsão de retorno. Embora o quisesse sacerdote, a mãe assinou o pedido com o “coração sangrando”, como se assinasse a pena de morte do próprio filho. “Minha irmã levou ao seminário um papel assinado por meus pais e me disse: ‘Mamãe mandou a sua aprovação, mas disse que sabe ter assinado a morte do menino’. Isso foi um grande choque para mim, pois eu amava a minha mãe, a minha família”, recorda-se.


Abaixo, casa da família Saksida, onde Ernesto viveu a infância; mais abaixo, a Paróquia de Dornberk, onde ele deveria ter encontrado os padres franciscanos

E assim chegou o momento: 3 horas da tarde, um feriado timidamente ensolarado de verão, quando o trem chegou à pequena estação a poucos minutos da casa de Dornberk. A mãe esforçava-se pra sorrir, como a sufocar a imensa vontade de chorar, enquanto que o pai optara por não ir à derradeira despedida. “Abracei a todos, entrei no vagão, saudei com a mão através da janela, o coração acelerado e a respiração ofegante, apertando os lábios para sufocar o pranto que estava por explodir na garganta. Partia, naquele momento, para muito longe de meus entes queridos, que eu não veria tão cedo e, muitos dos quais, nunca mais”, descreve.

Os mais dolorosos dias, ainda aos 15 anos O curso ginasial ficara para trás e a autorização encontrava-se entregue quando, já usando batina, Ernesto retornou a Dornberk para conviver com a família pelos últimos dias antes da partida. Seria a despedida para uma viagem cuja duração, na época, poderia chegar a 30 dias, entre trem e navio. “Mesmo sem admitir, minha mãe sentia que a permissão que assinara com meu pai Josef dava-lhe o pressentimento de que morreria antes que eu pudesse visitá-los. Acreditava que seria chamada por Deus antes de rever o filho”, lembra. Enquanto isso, em Dornberk antes de partir, Ernesto esforçava-se para não sucumbir ao aperto no peito ao despedir-se “dos amigos, dos colegas, das plantas, das flores, da casa, da rua, de tudo o se prendia a ele desde os primeiros anos de vida”. Mas o inevitável e inadiável dia chegou: 16 de junho de 1935, uma data marcada por lágrimas e soluços espalhados por toda a casa. Ainda de manhã e da janela de seu quarto, observa as árvores, revivendo os momentos em que jogava bola com os companheiros entre elas. Sucede-se o almoço mudo em família, no qual quase nada se come. No intuito de demonstrar força e coragem perante aquele momento de dor mútua, o pai esforçava-se para manter-se firme diante do choro inevitável. Não conseguiu dizer quaisquer palavras, apenas entregando ao filho uma carta que seria aberta somente três meses depois, já no Brasil. “Era um verdadeiro velório. Ao abraçar-me em seu quarto, para onde se recolhera logo após o almoço, meu pai não mais se conteve. Em vez de falar, explodiu em choro convulsivo, mais parecendo o urro de um leão ao se separar do filhote. Suas lágrimas umedeceram o ombro de minha batina. Nem é preciso dizer se também chorei”, conta.


Abaixo, navio Neptunia, no qual Ernesto embarcou rumo ao Brasil em 1935; mais abaixo, o Pantanal, pelo qual se apaixonou ao avistar os primeiros cenários

“No início da viagem, a visão de outros navios, grandes peixes e até algumas baleias era uma boa distração, mas durou pouco. E apesar de ser enorme, a embarcação balançava demais e muitos de nós, não acostumados ao mar, tínhamos enjoo. De qualquer forma, era uma oportunidade para compartilhar com os companheiros de vocação as expectativas sobre as missões e o novo mundo”, relata. Recife, em Pernambuco, foi o porto que primeiro permitiu a Ernesto e seus colegas de viagem pisar em solo brasileiro. Nada mais do que uma rápida despedida daqueles que por lá ficariam. Mais alguns dias no mar e após nova despedida no Rio de Janeiro, o Neptunia aportou em Santos, porto final para ele e três novos companheiros que também atuariam na Missão de Mato Grosso: Egídio Turchi, Franz Gufler e Ângelo Alpi.

Gênova, Oceano Atlântico, Santos, Cuiabá... Em todas as direções, apenas o azul pesado do denso, mas jovial Oceano Atlântico circundava o transatlântico Neptunia. A calmaria era total e nem mesmo havia nuvens no horizonte para tirar o sossego da voyage. De repente, soou o alarme e um grito estrondou: “Vamos naufragar”. A correria se instalou pelos conveses e Ernesto Saksida, agora com 16 anos, era mais um na multidão a enfiar-se em um colete salva-vidas e posicionar-se para ocupar um dos botes que permitiria o salvamento de passageiros e tripulação. Botes na água, todos salvos, era então o momento de retornar ao navio e comemorar a bem sucedida operação: a simulação de um naufrágio, ápice da inédita aventura de 20 dias. O Neptunia partira do Porto de Gênova, na Itália, ganhando o Mar Mediterrâneo, superando o lendário Estreito de Gibraltar e dando ao jovem a experiência do último olhar nostálgico sobre os continentes europeu (à direita) e africano (à esquerda). Em busca de bálsamo para tal sensação, pintava mentalmente o quadro do que o aguardava nos recantos de Mato Grosso. 12

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De Santos, o trem subiu a serra e chegou a São Paulo, já uma das maiores metrópoles do mundo, onde a permanência foi de 15 dias, quase todos ocupados com visitas às obras salesianas. Estancando à ansiedade, tomou a locomotiva à lenha em direção a Cuiabá e, à frente de seus olhos, começou a brotar o Brasil profundo, com regiões quase desertas, muito pobres, e que escancaravam o contrate entre a metrópole rica e industrial e a periferia pontuada por uma pobreza em dimensões que jamais havia imaginado. “O trajeto me fazia suar como nunca, a uma temperatura bem superior a 30º C. Às vezes, nos tornávamos bombeiros, tentando apagar o fogo das brasas que a locomotiva despejava sobre os passageiros. E o visual intercalava-se entre regiões quase desertas, com populações muito humildes, e paisagens naturais belíssimas, com cânions, quedas d’água e, finalmente, o Pantanal”, recorda-se. Percorrendo os trilhos já surrados da então Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, adentrou o Mato Grosso, cuja paisagem exibia-se tranquilamente nas mais diversificadas cores, formas e surpresas. Chegando a Porto Esperança, seguiu em viagem de 10 horas Rio Paraguai acima em um lento vapor. Finalmente, desponta Corumbá, então a segunda cidade mais importante do imenso Mato Grosso, superada apenas por Campo Grande e à frente da capital Cuiabá. “Naquele momento, a decisão já estava tomada: seria no Pantanal que eu desenvolveria meu apostolado”, lembra.


Enfim padre. Que caminhos teria Deus em mente? O primeiro Natal longe de casa e da família, ainda em 1935, foi algo assim como um fel descendo lentamente pela garganta, misturado à saudade e à nostalgia, mesmo com a proximidade dos novos amigos, já em Cuiabá. A dor era ainda mais pontiaguda por saber que a mãe Katerina caíra doente, por vários dias, abatida e à beira da depressão, preocupada com o filho tão distante. Durante os quatro anos que passou no seminário da Arquidiocese, na capital mato-grossense, Ernesto Saksida concluiu um ano de noviciado, sendo admitido oficialmente na Congregação Salesiana. Iniciou então o curso de filosofia, tempo em que empregava as

férias viajando a cavalo com os padres missionários e colegas para a Missão Salesiana em Sangradouro. Nessas ocasiões, entrou em contato com os índios bororos, como a realizar o sonho missionário de menino ainda no Aspirantado em Bagnolo, na Itália. Ainda aos 19 anos incompletos, criativo e de fácil relacionamento, foi escolhido em 1938 para se tornar orientador pedagógico no Colégio Santa Teresa, em Corumbá. Na cidade pantaneira, não custou a pôr em prática os ensaios das primeiras atividades e grupos de alunos, organizando auxiliares nos campos educativo e recreativo, por meio dos quais foi colhendo grandes responsabilidades. “Depois de quatro anos, foi doloroso deixar Corumbá, de tantos colegas de congregação e tantos alunos aos quais eu ministrava ‘estudos práticos’ e com os quais exercia a prática esportiva. Mas à frente estava o momento de cursar teologia, matéria que antecede o sacerdócio. Então, tive que partir para mais uma jornada de quatro anos no Instituto Teológico Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo, até concluir o curso superior”, relata. Pouco mais de 26 anos tinha o diácono Ernesto quando, em 6 de abril

de 1960, recebeu em São Paulo a ordem do Presbiterado, ao término dos quatro anos de teologia. Por ser demais penosa a viagem de navio, os pais e irmãos não puderam vir ao Brasil, mas escreveram o marcante conforto: “No exato momento de sua ordenação, creia-nos filho, estaremos de joelhos, na Eslovênia, rezando por você”. A resposta não foi menos profunda: “Nossos pensamentos, como sempre, se cruzarão”. Portanto, 12 anos após a melancólica despedida na casa de Dornberk, era então padre no Brasil.

À direita, o já padre Ernesto em contato com a população carente de Corumbá, com especial atenção às crianças pobres da cidade e da região ribeirinha

A ordenação, no entanto, estava longe de representar realização imediata, indagando-se constantemente se estava mesmo trilhando o caminho que Deus lhe traçara. Foi então que seus superiores o enviaram para exercer o ministério e o magistério, por três anos, em Silvânia, Goiás, e logo em Goiânia. Terminado o período, teve a oportunidade de escolher entre continuar em Goiás ou rumar para a Inspetoria Salesiana de Mato Grosso. Acreditando que Deus lhe indicava a segunda alternativa e recobrando o desejo ainda de 1935, obedientemente retornou a Corumbá. Foi de volta ao Pantanal em 1950, com o paraíso de um lado e a realidade nua de outro, que o jovem padre Ernesto sentiu correr sob a pele a certeza barulhenta de que, entre os pobres e principalmente crianças rejeitadas da cidade, exerceria sua vocação sacerdotal. Mais ainda, sua missão percebida ainda no tempo dos vinhedos da Gorízia. E assim, aqueles minutos no campo de futebol a caminho da Paróquia de Dornberk naquele momento pareciam apenas mais um fato irrelevante, mas a importância deles para os próximos 60 anos na história de Corumbá seria simplesmente indizível. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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De capelão de periferia ao reconhecimento internacional

longa trajetória entre os pobres e vivenciado sua face mais desamparada: as crianças carentes, desnutridas e sem acesso à educação. “Precisam de diálogo e de orientação para que não se percam nos intrincados atalhos da vida”, pensava.

Ao lado, padre Ernesto Sassida com engraxate, um dos vários grupos de meninos de rua que organizou já em seus primeiros anos em Corumbá

GESIEL ROCHA

A guerra dos meninos e o olhar para os pobres Apenas mais um dia quente em meados de 1962 e padre Ernesto Saksida caminhava pelo centro de Corumbá, cumprindo sua rotina em busca de doações de alimentos e outros itens que aliviassem o sofrimento de inúmeras famílias que, miseráveis, escondiam-se nos barracos da periferia. Passava pela Rua Frei Mariano quando apressou os passos para entender um pequeno alvoroço que envolvia garotos de todos os tamanhos e idades. No meio deles, três engraxates de sete, nove e 12 anos trocavam socos e pontapés, sobrando o pior para o menor deles. Inconformado com a crueldade da cena, afastou os inertes espectadores, separou o menino menor e 14

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tomou os outros dois pela gola. “Assim não, vocês têm que aprender a se respeitar”, disse rigidamente. Passados alguns instantes, ponderou: “Domingo, vou fazer uma reunião com vocês, de todos os engraxates. Avisem toda a turma, vocês vão gostar”. A partir do episódio e de alguns ligeiros arranjos, em poucos dias estava criado o Clube dos Engraxates. Mais alguns dias e também o Clube dos Jornaleiros estava em atividade.

Decidido e autorizado a aprofundar raízes na sociedade corumbaense, foi incumbido de cuidar de uma capela na periferia, cujo público era a síntese da mais plana base da pirâmide social. Após as missas dominicais, começou a projetar pequenos filmes na parede externa do prédio humilde e desbotado, que eram devorados avidamente pelos fiéis que, no improviso da situação, esparramavam-se mesmo pelo chão. A relação entre as projeções e a ampliação do número deles na igreja logo se tornou visível.

Era assim que o menino de Dornberk, já vivido e experiente padre Ernesto, em Corumbá desde 1950, transformava episódios banais em sementes para a imensa lavoura que almejava plantar. Se, por um lado, lecionava para a classe abastada – no respeitado Colégio Santa Teresa, palco da elite intelectual da cidade em seus anos áureos – por outro, já havia trilhado

Em contrate com o cotidiano como professor, a experiência como sacerdote e a inserção entre os pobres davam a Ernesto Saksida a certeza de que havia encontrado o sentido de sua vida, na direção de realizar a missão que, acreditava, Deus havia traçado à sua frente. Era preciso, portanto, pôr em prática o plano de ação que desenhava silenciosa e mentalmente.


que o nomeou de Muro das Lamentações, que utilizava como instrumento de coletas: alimentos, remédios, roupas e tudo o que pudesse distribuir entre os mais necessitados. “’Fique Conosco’. Naquele momento, Deus havia se apresentado e materializado a minha vocação. Eu deveria consagrar minha vida aos pobres. E como isto era evidente no plano Dele, reforcei a ideia que já vinha alimentando: fundar uma grande obra missionária à qual eu me dedicaria integralmente a serviço dos pobres e das crianças carentes, abandonadas, entregues aos vícios e crimes. E essa ideia clareou-se à minha frente: ‘Vou criar a Cidade Dom Bosco e muitas entidades satélites’”, revela.

À esquerda, padre Ernesto cercado dos meninos que o acompanhavam pelos bairros pobres de Corumbá; abaixo, famílias visitadas por ele nos ‘barracos’ da periferia

“Padre Ernesto, não nos deixe. Fique conosco” A ideia surgiu naturalmente, como resultado de um contexto que clamava por atenção: sem qualquer planejamento, começou a visitar, em 1960, as casas nos inúmeros bairros da periferia, verdadeiros barracos esparramados desajeitadamente por uma imensa região, totalmente à margem de qualquer noção de urbanização e presença do poder público. Nas mãos, apenas a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora. Em volta, aos poucos crescia um contingente de adultos e ainda mais de crianças que o seguiam e ensaiavam uma informal procissão. Rezando o terço e benzendo as casas, fazia-o sempre após suas obrigações pedagógicas, entrando em 10 ou 12 casas por noite e ouvindo as histórias de vida e de privações de seus moradores. “Com esta devoção, eu procurava despertar algo que daria mais fé àquele povo tão carente e sofredor. Assim, conhecia cada vez mais profundamente a situação daquela gente incrivelmente pobre, que inspirava muita pena. A situação de miséria e abandono que eu encontrava entre as famílias remetia-me às histórias horrendas vividas de perto e contadas por meu pai acerca da Primeira Guerra Mundial (19141918), em que tantos morreram de fome ou por falta de remédios”, conta. Ao longo de quase um ano, foram incontáveis horas dedicadas aos pobres da periferia, onde visitou em torno de 1 mil barracos. Da pobreza observada, além da falta de higiene, das doenças e das brigas entre gangues, o que mais dolorosamente saltava aos olhos eram os “os meninos crescendo sem religião, sem lei, abandonados até pelos próprios pais, atraídos pelas luzes traiçoeiras das drogas e da prostituição infantil”. “Padre Ernesto, não nos deixe, fique conosco”, ouviu certo dia em um dos tantos lares em que entrou, clamor que desceria ao recanto mais profundo de seu coração, para nunca mais sair. Entendeu que, por mais produtivas que eram as visitas, estavam longe do resultado que pretendia obter. Era preciso avançar e, nesse intuito, viabilizou na Rádio Difusora um espaço diário, de 60 minutos, Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Ao lado, o professor José Ferreira de Freitas em evento da Comissão Pró-construção da Escola Profissional Alexandre de Castro; abaixo, lançamento da pedra fundamental da instituição

Plantada a primeira semente, ao trabalho O escritor, jurista e ex-político José Ferreira de Freitas – mineiro de nascimento e mato-grossense por opção – vivenciou e contou como ninguém a história religiosa e a obra missionária de padre Ernesto Sassida em Corumbá (o nome mudou com a naturalização em 1972). Companheiro, colaborador desde o primeiro encontro em 1961 e autor de quatro livros sobre a trajetória do sacerdote esloveno que se fez corumbaense, ele descreve o que seria o momento em que foi plantada a primeira semente da obra que mudaria definitivamente a história da cidade pantaneira. “A União dos Ex-alunos de Dom Bosco situava-se quase na esquina das ruas Cuiabá e Frei Mariano, em frente ao Colégio Santa Teresa, e foi para lá que padre Ernesto convidou quase 200 pessoas, entre ex-alunos salesianos e personalidades expressivas da sociedade local, em fins de março daquele ano. Apareceram cerca de 25, sendo eu um deles, para ouvir o que seria assunto sério e urgente: ‘A situação da pobreza na periferia é dolorosa, mais ainda em relação às crianças abandonadas. Recebi de Deus a missão de ajudá-las e, para isso, preciso da ajuda de vocês’”, conta. 16

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Não eram pequenos os planos do padre: pensava em trabalhar para encurtar a distância brutal entre pobres e ricos ou, no mínimo, oferecer alguma luz à caminhada daqueles situados à margem, aos quais chamava “órfãos de pais vivos”, que pouca ou nenhuma perspectiva tinham de alcançar a cidadania. Planejava construir, em um bairro da periferia, uma escola inteiramente gratuita e que fosse muito além do bê-á-bá. Uma instituição que acolhesse meninos carentes e oferecesse-lhes suporte religioso, serviços de saúde, ensino de alto nível e profissionalizante, além de incentivo e espaço para a prática esportiva. Em seu mais recente livro, Se outros fossem iguais a você... (2009, KMC Editora), José Ferreira transcreve trechos dos argumentos apontados por padre Ernesto àqueles mais de 20 ouvintes na sede da União dos Ex-alunos: “O País que para em função do Carnaval e da

Copa do Mundo não tem tempo e disposição para assistir ao filme nada apoteótico da guerra dos meninos, que há muito tempo tomou conta de nossas ruas e avenidas. (...) A guerrilha urbana já começou, e os guerrilheiros são meninos de 9, 11, 16, 25 anos, filhos de pais omissos ou sem pai nem mãe”. “Diante das preocupações e justificativas dos presentes àquela reunião, de que eram muito ocupados e pouco poderiam se dedicar à proposta e a tão audacioso trabalho, padre Ernesto lançou um argumento incontestável: ‘Ótimo, procuro exatamente pessoas ocupadas. Quem está desocupado não tem aptidão para fazer coisa alguma’. Ali nasceu, portanto, a Comissão pró-construção da imaginada instituição e aqueles vinte e poucos ocupados tornaram-se fundadores da Escola Profissional Alexandre de Castro. E os recursos, de onde viriam? ‘Deus os providenciará’, tranquilizou-nos”, relata.


O arco de satélites e o suporte para a obra “Já em 1961, impressionava-nos a preocupação de padre Ernesto ao ver meninos e meninas, jovens e adolescentes extraviados – alguns quase, outros completamente na estrada tortuosa dos vícios, em sua maioria abandonados pelos pais. E ele enfatizava que sua missão era recuperá-los, preventivamente, tudo fazendo para que outras crianças não lhes seguissem o caminho vida afora”, conta José Ferreira. Foi exatamente com tal preocupação que o sacerdote, para chegar à reunião em março de 1961, construiu desde os primeiros anos no retorno a Corumbá, um arco de estruturas que, direta ou indiretamente, dariam suporte e viabilidade ao seu projeto maior. A primeira delas veio ainda no findar de 1950, como resultado da ampliação de sua ocupação com os antigos alunos. Assim nasceu a União dos Ex-alunos de Dom Bosco (UEDB), com o envolvimento de notáveis personalidades da sociedade corumbaense e tendo como primeiro presidente o professor e vereador Renato Báez.

Abaixo, meninos da Associação dos Pequenos Engraxates; mais abaixo, padre Ernesto com os membros da Associação dos Jornaleiros de Dom Bosco

“Funcionando inicialmente na despensa do Colégio Santa Teresa e, depois, em sua secretaria, a entidade correspondia aos anseios de jovens e adolescentes de retornar à casa de origem, em sinal de amizade e gratidão a Dom Bosco e à família salesiana. Logo no início, instituiu bolsas de estudo para crianças e jovens pobres nos cursos de 1º e 2º graus. Anos depois, adquiriu sede própria, sendo a primeira no mundo a servir exclusivamente para reuniões e atividades culturais dos ex-alunos”, relata o escritor. Passados apenas dois anos, a seleção das Faculdades Campineiras visitava Corumbá quando enfrentou o estreante time de futebol do Dom Bosco Esporte Clube, mais uma obra do padre que, quando criança, dormia abraçado à bola, e que sempre vira no esporte o caminho mais seguro para a cidadania. Quando a UEDB fundou o jornal Folha da Tarde, em 1955, criou a Associação dos Jornaleiros de Dom Bosco, cujos membros – meninos carentes de toda a cidade – faziam a distribuição do periódico. No mesmo ano, instituiu a Associação dos Pequenos Engraxates, para ocupar e educar para o trabalho centenas de menores que perambulavam pelo centro de Corumbá.

Embora independentes, tais iniciativas prepararam o terreno para as sementes da obra idealizada. E foi a residência do comerciante João Gonçalves Miguéis que recebeu, em maio e junho de 1958, as reuniões entre o padre e alguns ex-alunos. Delas nasceu a Legião Mato-grossense dos Amigos da Criança (Lemac). Mais do que atuar diretamente na assistência social, tratava-se de uma entidade para apoiar e despertar nas demais estruturas sociais a preocupação e a ação direta em favor das crianças carentes. Começava a ser pavimentado, definitivamente, o caminho que levaria à futura Cidade Dom Bosco. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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A educação que não recebera quando menina Passados dois dias da emblemática reunião na sede da UEDB, o presidente da Câmara Municipal, o médico Salomão Baruki, procurou padre Ernesto para entregar-lhe uma notícia inusitada. Uma senhora do bairro Cidade Jardim, quase um distrito rural de Corumbá, procurara-o oferecendo-se para ajudar no projeto de constituição da escola, cedendo parte de sua própria casa como sala de aula. Era Catarina Anastácio Cruz, mulher simples que “desejava para seus filhos e da vizinhança a educação que não pudera receber quando menina”. Acima, dona Catarina Anastácio Cruz, mulher simples que procurou as autoridades e ofereceu a própria casa, o ‘barraco’, para implantação da Escola Alexandre de Castro

“O boato havia corrido a cidade: ‘O padre Ernesto vai fazer uma escola para os pobres’. Então, dona Catarina pediu ao Dr. Salomão: ‘Começa logo, na minha casa mesmo, que fica em um bairro tão pobre e carente de escola’. Para mim, aquele gesto simples era o dedo de Deus indicando que o caminho percorrido até ali estava certo”, relembra o sacerdote. “Sem prolongado planejamento e apenas algumas primeiras e necessárias providências, padre Ernesto deu o sinal de partida e a escolinha começou a funcionar na sala do humilde casebre. Era manhã de 3 de abril de 1961 e lá se encontravam ele, Dr. Salomão, capitão Aloysio Madeira Évora e eu, na companhia dos primeiros oito alunos matriculados”, completa José Ferreira. Embora o período entre a primeira reunião e a primeira aula fora incrivelmente curto, não havia sido fácil

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o caminho percorrido por padre Ernesto. Sua maior expectativa de apoio estava na compreensão e participação dos ex-alunos, muitos dos quais oriundos da classe abastada. Parte significativa desse grupo, no entanto, mostrou-se não só insensível, mas mesmo disposta a fazer “naufragar a iniciativa”. “Quando souberam que eu queria fazer uma escola para os pobres, disseram-me: ‘Padre, não faça isso, pois essa gente não merece. São preguiçosos, beberrões’. Por fim, questionaram-me com que dinheiro seria feita a obra. Minha resposta foi pronta: ‘Com o dinheiro de vocês, que são ricos, fazendeiros’. A réplica foi desoladora: ‘Não conte conosco’”, relata. Mesmo enfrentando resistências ferrenhas e após árduo trabalho, convenceu cerca de 20 membros da elite local a apadrinhar crianças pobres. Em contrapartida, pediu para que os apadrinhados cultivassem hortas nos quintais de seus barracos e, colhidas as verduras, visitou cada um dos padrinhos acompanhado das crianças e levando um exemplar como mostra de carinho e retribuição. O resultado era quase sempre o mesmo: “Mulher, pega aqui e põe lá na cozinha”. E não se falava mais no assunto. Profundamente decepcionado com o descaso em relação ao trabalho das crianças, concluiu que jamais concretizaria sua obra enquanto contasse com a boa vontade da elite econômica corumbaense. Foi quando decidiu viajar pelo Brasil, em busca de ambientes cuja evolução social fosse mais compatível com a intenção de sua missão.


do na década anterior. Na longínqua terra natal, quase não encontrou família, parentes ou algo que se assemelhasse àquele tempo alegre das partidas de futebol em Dornberk. A missão continuava e ele deveria, então, direcionar sua energia em favor das crianças corumbaenses.

O missionário e sua obra correm o Brasil e o mundo A pedra fundamental da Escola Profissional Alexandre de Castro, que viria a ser da Cidade Dom Bosco, foi lançada no mesmo bairro Cidade Jardim em 5 de novembro de 1961, sob os olhos de respeitadas autoridades religiosas e políticas. A essa altura, o trabalho social e missionário de padre Ernesto já gozava de tamanha relevância e credibilidade que, ainda em 1958, o Governo de Mato Grosso havia instituído a Escola Rural Mista Alexandre de Castro, por meio do Decreto Legislativo de autoria do deputado estadual Fauze Scaff Gattass. Ainda assim, custou-lhe pelo menos dois anos para que alguns recursos começassem a chegar. Com pouco mais do que a fé e contando com a bondade alheia por onde passava, já havia visitado 14 cidades brasileiras, fundando comissões para arrecadação de donativos em algumas delas. Converteu, portanto, os primeiros resultados em ânimo para intensificar ainda mais sua peregrinação.

De volta ao Brasil, contou com inestimável apoio dos Diários Associados, veículos de largo alcance nacional que ofereceram cobertura espontânea. O fato encorajou-o a levar a já Cidade Dom Bosco a outros jornais do Estado e do País, que publicaram artigos sobre sua dimensão missionária. A exposição na mídia de tanta credibilidade legitimou o lançamento, em 1967, do Programa Adoção à Distância, por meio do qual madrinhas no Brasil e na Europa dedicavam afeto e recursos financeiros a afilhados escolhidos pela instituição. O sucesso da campanha Adote uma Criança à Distância foi mais do que animador. Convidado a participar de programas televisivos sob o comando de personalidades como Hebe Camargo e Ibrahim Sued, por exemplo, padre Ernesto formou corais de crianças para cantar nos auditórios. Em outros casos, para chamar a atenção do pú-

blico para o Pantanal, levou para São Paulo e Rio de Janeiro alguns animais típicos: mico, arara, tuiuiú e até filhote de onça. Assim, o reflexo da Cidade Dom Bosco logo extrapolou as fronteiras do Estado e mesmo do País, com a ajuda de inúmeras viagens à Europa e América do Norte, em cujos países proferiu produtivas conferências sobre a situação da criança carente no Brasil. Por meio das revistas Educativa (Alemanha), Anna Bella, Primavera, Gente e Boletim Salesiano (Itália), Misjonska Nedelja (Iugoslávia), Juventud Missionaria e Boletim Salesiano (Espanha) – países que visitou em missão –, a imprensa internacional representou grande alavanca para a obtenção de recursos em favor da obra missionária em Corumbá. Por onde passava, deixava correspondentes encarregados de coletá-los e enviá-los à instituição. E dessa forma – primeiramente com as viagens pelo Brasil, quando conseguiu chamar a atenção e viabilizar recursos para a obra, e em seguida com as 17 viagens ao exterior – lançou, consolidou e fez do Programa de Adoção à Distância o pilar central da Cidade Dom Bosco ao longo de todos esses anos.

No topo, padre Ernesto é recebido com festa popular ao retornar de uma de suas viagens à Europa; abaixo, ele é homenageado por seus 80 anos na Eslovênia

Donativos já chegavam até mesmo do exterior quando, somente em 1965, padre Ernesto foi autorizado a viajar à Eslovênia para rever os familiares e conversar com os pais, ajoelhando-se diante de seus túmulos em Dornberk. Ambos haviam parti-

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Uma legião decidida a educar e ocupar os meninos de rua Um grupo de amigos com as crianças no coração Era ainda início da noite de 29 de maio de 1958 quando o comerciante João Gonçalves Miguéis abriu a porta de sua casa na esquina das ruas 13 de Maio e Antônio João, no centro de Corumbá, para receber um grupo de amigos que pretendiam discutir o problema dos meninos e meninas de rua. Na época, tinha apenas 28 anos, mas não é com menos entusiasmo 20

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que, aos 85 e ao lado da esposa Marília Gomes Miguéis, conta a história da fundação da Legião Mato-grossense dos Amigos da Criança (Lemac). “Sempre gostei de lidar com crianças e queria ajudar aquelas que viviam pelas ruas de Corumbá. Foi então que um compadre amigo meu, na época prefeito, cedeu o colégio da Rua Major Gama. Aí juntamos uma turma de amigos que tinham em comum a vontade de cuidar das crianças, começando na minha casa em 1958”, conta.

À frente da iniciativa, mais uma vez o padre Ernesto Sassida que, havia oito anos na cidade, empreendia iniciativas em favor dos pobres. “Por toda parte eu observava crianças vivendo de forma precária, desnutridas e anêmicas, sem roupas, higiene, recreação e, principalmente, sem cuidado, afeto e educação dos pais. Incomodava-me muito ver meninos com suas carrocinhas recolhendo coisas nos lixões para vender ou os que carregavam uma flanela para limpar os vidros dos carros pelas ruas. Alguma coisa precisava ser feita”, con-


à frente, a entidade não tardou a realizar um trabalho de vanguarda na região, sulcando e adubando o solo para a futura Cidade Dom Bosco. “Foi uma revolução. Já no começo, eram 350 crianças atendidas e, quando uma delas ficava doente, nós mesmos a levávamos ao médico”, diz.

ta o sacerdote, na época capelão da Capela do Sagrado Coração de Jesus.

Remédio para os enfermos e livros para todos

Sempre presente onde se levantava qualquer ideia para a construção de uma sociedade corumbaense menos desigual, João Miguéis conta que acolheu com grande satisfação e esperança as reuniões que culminaram, em 26 de junho daquele mesmo ano, na aprovação definitiva do Estatuto da Lemac. Ele mesmo tornou-se o primeiro presidente da entidade, ao lado do padre Ernesto como presidente honorário, entre os 15 legionários fundadores e outros 15 participantes.

Autor do primeiro livro sobre o padre esloveno que dedicou a vida aos pobres de Corumbá, o professor Renato Báez detalha em O Profeta do Pantanal (1988, Editora das Escolas Profissionais Salesianas) os objetivos da entidade: angariar roupas, remédios, brinquedos e materiais escolares para as crianças carentes; cooperar com hospitais e instituições de apoio ao menor; zelar pela moralidade da criança, em cooperação com as autoridades; promover palestras sobre o problema do menor; manter escolas, creches e bibliotecas que oferecessem leitura digna às crianças, entre outros.

“A intenção daquelas pessoas era bem simples, mas também uma tarefa muito dura: orientar as tantas crianças de rua e dar-lhes uma ocupação. Mais difícil ainda, e não menos necessário, era o propósito de suprir a ausência dos pais, tanto de cuidados quanto de afeto”, acrescenta Marília Miguéis, parceira do esposo em todo o trabalho.

Na página oposta, João Gonçalves e Marília Gomes Miguéis; à esquerda, membros da Lemac e as irmãs do Clube Feminino; abaixo, os meninos por elas atendidos

“O trabalho marcante do padre Ernesto em meu favor impediu-me de desviar do bom caminho e de me tornar um ‘marginal’, despertando o desejo de ajudar outros meninos para que tivessem um futuro melhor. Ao criar diversas obras sociais, culminando na Escola Alexandre de Castro, ele proporcionou isso a muitos outros como eu. Hoje sou aposentado e desfruto da obra idealizada por ele, que permitiu que muitos meninos pobres tivessem uma vida melhor”, diz o ex-aluno do Colégio Santa Teresa, Carlos Deodalto Salles, um dos que receberam bolsas de estudo graças ao sacerdote, já no caminho das ações que culminariam na fundação da Lemac. Mesmo assim, padre Ernesto sentia carecer de mais “mãos à obra”. Acionou então uma nova frente, criando o Departamento Feminino da entidade, que entrou em ação em julho daquele ano. Este grupo prenunciou o primeiro Clube Feminino de Corumbá, cuja atuação foi fundamental para a fundação, em 1961, da Escola Profissional Alexandre de Castro. Composto pelas

Com linhas ousadas, mas claras, o estatuto da Lemac previa, como lembra João Miguéis, que tais objetivos seriam alcançados por meio dos departamentos médico, de assistência social, feminino, de divulgação e de cultura. A despeito das dificuldades Cidade Dom Bosco – 50 anos

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integrantes da União das Ex-alunas das Filhas de Maria Auxiliadora e presidido por Magali de Souza Baruki, o grupo reunia também personalidades e expoentes da sociedade que demonstravam interesse e disposição para ajudar crianças, divididas em sócias fundadoras, contribuintes, colaboradoras, cooperadoras, beneméritas e honorárias. Ainda em O Profeta do Pantanal, Renato Báez – que viria a ser o próximo presidente da Lemac – descreve as atribuições do departamento: prestar assistência social à criança; contribuir em campanhas e doação de roupas; realizar campanhas de valorização e prestígio da Lemac entre as famílias; desenvolver o espírito da moral cristã e os cuidados com o pudor da criança; e ainda prestar assistência física e moral às gestantes e atividades como cursos, conferências, reuniões e campanhas de preparação pré-nupcial para noivas.

Para o bem das famílias e mesmo dos pássaros Apenas dois meses depois do Departamento Feminino, também estava em ação o Departamento dos Legionários-Mirins de Dom Bosco, formado por estudantes, entre oito e 14 anos, da Escola Municipal Cyríaco Félix de Toledo. “Lá os meninos recebiam educação física com os sargentos da Aeronáutica, educação religiosa com o padre Ernesto, e educação moral e cívica”, relata Renato Báez, completando: “A escola servia de direção e comando da corporação, onde os meninos praticavam esporte, utilizavam-se da barbearia, da engraxataria e da farmácia da entidade”. Fora da instituição de ensino, os legionários-mirins ajudavam a fiscalizar outros menores em locais públicos e suas brincadeiras como soltura de pipa e uso de estilingue contra pássaros. Uniformizados com uma farda de brim cáqui, doada pelo Comando da 4ª Zona Aérea de Campo Grande, trabalhavam em escritórios, redações de jornais e emissoras de rádio. “A Lemac arrumava emprego para eles e repassava o dinheiro diretamente aos pais. E eles trabalhavam felizes, não reclamavam. Todos queriam fazer parte da entidade, e as vagas não eram suficientes”, relata Marília Miguéis. “Praticamente tiramos todas as crianças das ruas e conseguimos bolsas de estudo para muitas delas, que construíram carreira a partir de então, como o filho de uma lavadeira que conseguiu se formar médico. Para isso, não tínhamos vergonha de pedir ajuda. Dois nomes que merecem ser citados pela grande contribuição que deram são Belmiro Maciel de Barros e José de Barros Neto, ambos fazendeiros ricos”, acrescenta João Miguéis.

No topo, meninos reunidos pela Lemac, estudantes de 8 a 14 anos organizados no Departamento dos Legionários Mirins de Dom Bosco (logo acima)

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Após atuação histórica e marcante, mas diante de significativa dificuldade financeira, o presidente Renato Báez decidiu e os membros aprovaram, em fevereiro de 1961, a fusão da Lemac à obra maior que padre Ernesto já havia iniciado e que se tornaria a Cidade Dom Bosco, tornando-se um departamento dela. Assim, perpetuaria o seu legado pelas próximas cinco décadas, cujo reflexo seria visto e sentido na vida de dezenas de milhares de crianças. Por fim, João Miguéis relata que, quando um grupo de italianos veio a Corumbá, muitos anos depois, para inspecionar o emprego de donativos pela Cidade Dom Bosco, um deles perguntou-lhe se havia algo que o fizesse lembrar-se das crianças. “Mandei buscar a minha tesoura de barbeiro. ‘Mas o que tem essa tesoura a ver com as crianças?’, questionou-me. Então, respondi: ‘Com ela eu cortava o cabelo das crianças do padre Ernesto. Eu era barbeiro e cozinheiro delas’. Então vi que seus olhos marejaram de lágrimas, quando ele me disse: ‘Nós italianos só sabemos doar dinheiro, mas o mais importante é doar tempo e dedicação’”.


Nasce a Escola Profissional Alexandre de Castro Em uma sala de 30 m², com carteiras emprestadas

No primeiro aniversário da escola, ainda no ‘barraco’, a população do então bairro Cidade Jardim compareceu em massa para ver a aplaudir o sucesso da iniciativa

Luiz Carlos da Mata, Darci Ferreira da Costa, Jayme Pereira da Mata, Carlindo Antunes da Mata, Lucinda Ferreira da Costa, Irenice da Guia Hibraim, Anadir Gomes Monteiro, Neiva Gomes Monteiro. Mais do que oito nomes, oito pequenas histórias de vida cuja trajetória se cruzaria, na manhã de 3 de abril de 1961, com a de homens determinados a construir um novo caminho por onde milhares de

crianças e jovens pobres pudessem seguir em busca de perspectivas. Oito meninos e meninas entre oito e 15 anos que, naquela manhã, tornaram-se os primeiros matriculados na nascente Escola Profissional Alexandre de Castro. Se o cenário em nada lembrava o ambiente típico a uma escola, o local era a representação viva da necessidade de uma. Saltava aos olhos a pobreza predominante do bairro Cidade Jardim, o mais próximo da fronteira com a Bolívia e então fora do perímetro urbano de Corumbá, com cerca de 500 casas de tábua, lata ou barro. O rótulo de mais perigoso bairro era conhecido por toda a cidade, bem como o vasto número de suas crianças preenchendo todos os cantos das ruas entre o barro e a poeira que, na falta de escolas, igrejas ou qualquer outra ocupação, iam crescendo no caminho da “vadiagem e malandragem”. E era nele que se localizava a casa de Catarina Anastácio e João Pedro Cruz.

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Embora tão humilde quanto os demais, a casa onde dona Catarina morava com o esposo e seis filhos, na Rua Marechal Deodoro, era uma das maiores do bairro, com três cômodos e um estreito corredor lateral, sustentados por um esteio de aroeira e um travessão horizontal. Para ceder espaço aos alunos, ela precisou recuar os móveis e liberar a peça da frente, com cerca de 30 metros quadrados, onde instalou o material escolar: um quadro-negro médio, pregado na parede divisória; uma cadeira; uma pequena e velha mesa emprestada e 22 carteiras escolares usadas, de tamanhos diferentes. “Dona Catarina não tinha qualquer conhecimento de letras, era completamente analfabeta, mas tinha uma visão muito ampla, uma formação muito grande e educava muito bem os seus filhos, sentindo a necessidade de uma escola, chegando a abrir da própria casa, da privacidade do lar para supri-la. E deu tão certo que, com menos de um mês de funcionamento, já eram 70 alunos e várias divididos em três turnos, aprendendo ABC, contas, história e geografia. E as professoras, que logo se tornaram várias, eram pagos pela própria comissão”, conta José Ferreira.

A realidade bate cedo à porta dos entusiasmados “Na presença de autoridades locais e do Secretário de Educação do Estado, Edimir Moreira Rodrigues, foi naquela humilde comunidade que a semente brotou. A primeira professora, Norma Tereza Gomes, e a primeira servente, Leonarda Cruz – filha do casal que cedia a casa – tiveram o mérito ímpar de regar a plantinha que germinava, ainda tenra, mas muito promissora, como fruto do trabalho da Comissão Pró-construção da Escola Alexandre de Castro, sob a regência do maestro Ernesto Sassida”, relata o escritor José Ferreira de Freitas, em Se outros fossem iguais a você...

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Passada a euforia dos primeiros dias da nova instituição de ensino, mas não a alegria dos que com ela estavam envolvidos, as dificuldades e problemas logo afloraram. A distância em relação ao centro da cidade tornava o acesso um exercício de muita paciência para professoras e serventes, que careciam de transporte diário. Em dias de chuva, a situação agravava-se drasticamente, demandando a colocação de tábuas no trecho enlameado da rua em frente. Recursos ainda não havia para a compra de materiais didáticos, e livros e cadernos deviam ser recebidos como doação. “Com muito sacrifício, a comissão providenciou um uniforme muito simples para os 20 alunos menores. Para cobrir as principais despesas, padre Ernesto alugava filmes de 16 mm e os exibia onde podia pelos diversos bairros, no interior de casas ou a céu aberto, quando encontrava público suficiente e a possibilidade de fazer funcionar o aparelho”, relata o professor Renato Báez, em O Profeta do Pantanal, segundo quem o ‘barraco’ era também ponto de chegada de muita gente pobre do bairro em busca de auxílio, transformando


a escola em referência comunitária onde se misturavam alunos, pais e a própria família de dona Catarina, ainda moradora do local. “Os 70 alunos matriculados já no primeiro mês se acotovelavam, literalmente exprimidos na pequena sala, alguns se sentando mesmo a céu aberto, à frente da casa e no corredor lateral, pois era proibido dizer não às novas matrículas. Depois, à medida que elas se ampliaram, mais professoras foram admitidas, com os salários pagos ainda pela minguada caixa de donativos”, acrescenta José Ferreira. Embora os primeiros matriculados só se sentariam nas carteiras da Escola Alexandre de Castro em abril de 1961, a busca por um local onde construir a sede definitiva da instituição começara ainda no ano anterior, conforme revela Renato Báez. “Uma comissão se reuniu e percorreu os bairros Cidade Jardim e Generoso, procurando um lugar ideal. A comissão era composta do então presidente da União dos Ex-Alunos, Dr. Ubirajara de Castro; bispo diocesano Ladislau Paz; diretor do Colégio de Santa Teresa, padre Miguel Alagna; capitão Aloísio Madeira Évora; professor José Ferreira de Freitas; e do próprio Padre Ernesto Sassida”, diz. Ainda conforme o autor, após avaliar os terrenos doados pelo comerciante Cid Wanderley, no bairro Generoso, que se mostraram inviáveis devido ao difícil acesso, a comissão escolheu lotes localizados na atual Rua Dom Aquino Corrêa, mesmo com diversos barracos e pequenas construções. Eles receberiam, em 5 de novembro daquele mesmo ano, a pedra fundamental da primeira construção do que viria a ser o complexo da Cidade Dom Bosco.

Paralelamente, as entidades e pessoas envolvidas com a concretização da escola, sob a condução do padre Ernesto, promoviam campanhas de toda natureza tanto para a manutenção da instituição em atividade, quanto para a construção de sua sede própria, sendo possível adquirir os terrenos e coletar o material. “Para evitar que as pessoas nos olhassem com desconfiança, não pedíamos dinheiro, e sim terrenos e material de construção reutilizável. Então começamos a receber doações, até mesmo de carroceiros que faziam o transporte do material, que era amontoado em um dos terrenos recebidos”, lembra José Ferreira. Foram dois anos de penúria e intenso trabalho em diversas frentes para manter e sustentar o crescimento vertiginoso da escola até que, em 1963, o Governo de Mato Grosso reconhece a dimensão da obra e autoriza a Secretaria de Educação e Cultura do Estado a celebrar um convênio com a instituição. “Como deputado estadual empossado naquele ano, mostrei a importância da obra ao Governo, tornando possível a assinatura do convênio, pelo qual o Estado assumiu alguns encargos, como a remuneração das professoras”, relembra o escritor.

Professor Alexandre Aurélio de Castro Mas afinal, quem fora o personagem que entrou para a história ao nomear a primeira árvore do futuro pomar Cidade Dom Bosco? O próprio padre Ernesto explica: “Escolhemos o nome do professor Alexandre Aurélio de Castro, que tanto fez em favor de jovens corumbaenses, dedicado que

Na página oposta, crianças em aula na varanda do ‘barraco’ de dona Catarina, e o cenário de pobreza e abandono do então bairro Cidade Jardim; à procura de todo tipo de assistência e apoio, a população transformava a escola em centro comunitário informal; abaixo, o primeiro regimento interno da instituição

foi ao ensino e formação de nossa mocidade, num desprendimento e amor dignos de imitação”. Da primeira geração dos alunos do Colégio Santa Teresa, de 1899, fora ele quem propôs, na elaboração do estatuto da União dos Ex-alunos de Dom Bosco, em 1950, a inclusão do item que previa a criação de uma escola para crianças pobres em Corumbá. A proposta resultou no item que dizia: “A União, através do seu Departamento de Assistência Social, criará uma escola para crianças pobres, proporcionando às mesmas instrução, educação e assistência necessárias para sua integração socioeconômica e moral na comunidade”.

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Da seara de esforços, ergue-se a Cidade Dom Bosco Inspiração, ideia de visionário e a grande decepção “‘Padre Ernesto, fique conosco, more conosco’. Esses apelos que eu ouvia durante as visitas aos barracos de Corumbá, e que pareciam orações, inspiraram-me a pronunciar: ‘Vou ficar com vocês’. Naquele instante, surgiu em minha mente uma obra enorme, uma escola para 2 mil crianças. Então chamei um arquiteto, que havia sido meu aluno, dei papel a ele e comecei a ditar o que estava imaginando”, lembra padre Ernesto Sassida. A Escola Profissional Alexandre de Castro já funcionava a vapor máximo em três períodos quando o padre se reuniu com o arquiteto José Sebastião Cândia e descreveu as características e dimensões da obra que pretendia concretizar: “Um prédio frontal de 80 metros para recepção, administração e salas de reunião; do lado esquerdo, a capela e, do direito, um teatro para umas 500 pessoas. Então ele disse: ‘O senhor deve está brincando’. Depois, um pátio com quadras de esporte e, logo adiante, um prédio para 2 mil alunos. Ele parou, olhou-me e disse: ‘Não fale mais, tenha dó...’ Ao fundo à direita, uma grande quadra coberta e, à esquerda, as oficinas”. 26

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Acima e ao lado, vista lateral e da parte interior do primeiro pavilhão; abaixo, o projeto original desenhado pelo arquiteto José Sebastião Cândia em 1961

O padre conta que, inda naquele primeiro ano da escola, com grande esforço para angariar todos os recursos e donativos possíveis, enviou para uma empresa em São Paulo-SP uma quantia entre 30 e 40 mil dólares angariados em viagens ao exterior, referente ao pagamento adiantado de toda a ferragem para a primeira etapa da obra. “Mas o tempo passava e esse ferro não vinha. Então decidi ir àquela cidade para ver o que tinha ocorrido. Lá chegando, um gerente da empresa me disse: ‘Reverendo, não se aflija, mas esse dinheiro não existe mais. Está no Banco do Brasil, pois a empresa foi à falência’. Naquele momento, eu não tinha dinheiro nem mesmo para voltar, e tive que telefonar para que me mandassem dinheiro”.


A notícia era desastrosa, mas não podia abalar o propósito e a determinação de levar a obra adiante. Mesmo após a perda e com a pedra fundamental já lançada, a terra foi finalmente rasgada às 15 horas do dia 9 de janeiro de 1962 com o início da construção dos alicerces do primeiro pavilhão da escola, nos terrenos agrupados da Rua Dom Aquino Corrêa, entre as ruas José Fragelli e Cyríaco de Toledo. Embora simples e marcada mais por fé e esperança, a cerimônia contou com diversas autoridades, como o secretário estadual de Educação e Cultura, Hermes Rodrigues de Alcântara, e o deputado estadual Fauze Scaff Gattass. Juntamente com padre Ernesto, encontravam-se José Ferreira de Freitas, Claudio Gabriel dos Santos, Paulino Lopes da Costa, Francisco Patricio de Barros, Walmir Coelho, Alexandrindo dos Santos Mauro e o padre Miguel Alagna, que benzeu a pedra.

A voz das professoras e o barulho dos martelos “Depois de iniciada a obra, as contribuições em material, transporte e mão-de-obra de pedreiros, carpinteiros, encanadores, serventes e eletricistas foram tão generosas que, em um ano e oito meses, já estava quase pronto o primeiro pavilhão. No decorrer das obras deste e dos pavilhões subsequentes, foi de muito valia a atuação capaz e desprendida dos mestres de obra Eduardo Celestino e José de Faria (Zé Paraguai)”, relata o escritor José Ferreira de Freitas, presidente da diretoria da escola. Na abrangente obra O Profeta do Pantanal, o professor Renato Báez relata que, em ambiente festivo, mas de extrema simplicidade, alunos, mestres, diretores, benfeitores e au-

toridades municipais reuniram no ‘barraco’ de dona Catarina, às 9 horas do dia 1º de abril de 1962, para celebrar o primeiro aniversário de fundação da Escola Alexandre de Castro. “Após a Santa Missa, a vela acesa pelo primeiro aluno matriculado, Luiz Carlos da Mata, foi apagada pela aluna que mais havia se destacado – Arinê Maria Viégas de Pinho”, acrescenta. Embora pronta para a inauguração em menos de dois anos, a obra do primeiro pavilhão chegou ao fim após árduo trabalho e esforços quase sobre-humanos daqueles à sua frente, somados à enorme necessidade de apoio para que o trabalho no ‘barraco’ não fosse interrompido. Desde o início, precisou da ajuda de muitas pessoas. “Com grande frequência, eu e minha esposa fazíamos almoço beneficente com o propósito de arrecadar dinheiro para a obra. Dessa forma, muita gente contribuiu para a concretização do sonho do padre Ernesto”, conta João Gonçalves Miguéis, primeiro presidente da Legião Mato-grossense dos Amigos da Criança (Lemac).

1963 foi dominado pela cerimônia e festa de inauguração do primeiro pavilhão da futura Cidade Dom Bosco, com Missa Campal, bênção do prédio, discursos de autoridades e churrasco. Na ocasião, o prefeito de Corumbá, Edimir Moreira Rodrigues, expressou o reconhecimento e gratidão do povo corumbaense aos personagens que haviam tornado aquele momento possível. Em seguida, Alceste de Castro, filho do professor Alexandre de Castro, destacou, em nome da família, o trabalho do pai pela educação na cidade.

Abaixo, alunos em aula na varanda do primeiro pavilhão, ainda em construção, onde as crianças se misturavam aos operários, e depois de pronto o prédio, mas que ainda não atendia à demanda

Renato Báez conta que, ainda em meados de 1963, a demanda por vagas era tamanha que a solução encontrada pela direção foi transferir as aulas para a nova sede, ainda em construção. “O prédio estava sem reboque, sem portas e sem ladrilho. Isso foi se fazendo progressivamente, misturando-se crianças com operários, a voz das professoras com o barulho dos martelos e do material de construção. Na maior parte, as aulas eram dadas na varanda, e as crianças ficavam expostas ao sol, chuva e vento, contra os quais eram defendidas por lonas dependuradas entre as colunas”, descreve. E ainda com os contornos desse cenário, o dia 15 de dezembro de Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Em 1964, a escola crescia largamente com a nova sede em pleno uso, o ‘barraco’ de dona Catarina como ponto de apoio – que já havia sido comprado – e a integração de outras casas no bairro Cidade Jardim. Contribuía para isto o fato de que a diretoria não se recusava a efetuar matrículas e a atender as crianças carentes que batiam à porta. “Ao redor da instituição-núcleo, padre Ernesto foi criando entidades encarregadas de dar-lhe apoio. E foi então que a instituição mais abrangente passou a ser conhecida no Brasil e no exterior como Cidade Dom Bosco, governada por meninos, sob a supervisão dele”, conta José Ferreira.

Posto Médico, Cine-Teatro e a nova identidade

Acima, o CineTeatro Dom Bosco, utilizado durante a semana como sala de aula e nos fins de semana como área de lazer; à direita, mais aulas na varanda do pavilhão principal

Enquanto padre Ernesto e seus inúmeros colaboradores preparavam a inauguração do novo prédio, com o firme propósito de atuar em todas as frentes, ele viabilizou um convênio com o Município que resultou, em 15 de outubro de 1963, a inauguração do Posto Médico Municipal, que funcionaria como anexo à Escola Alexandre de Castro. Apenas um mês depois, deu início à construção do Cine-Teatro, exatamente como planejara e dissera ao arquiteto José Sebastião Cândia dois anos antes. Depois de parcialmente concluído em 1965, o espaço serviria, durante quatro anos, para o oferecimento de aulas a cerca de 350 alunos, divididos em suas respectivas séries pelo palco e pelo salão, a despeito do ligeiro declive. A grande expectativa das crianças, no entanto, era pelos fins de semana, quando o local se transformava em área de lazer e onde vários artistas do bairro se apresentavam, com destaque para o Palhaço Pituca. “Em 1969, por meio do ex-aluno salesiano e amigo de padre Ernesto, Armando Anache, a empresa cinematográfica Farjalla Anache propôs terminar o Cine-Teatro e, como compensação, usá-lo por cinco anos – o que se cumpriu ao pé da letra, com excelentes resultados”, diz José Ferreira.

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Mas por que Cidade Dom Bosco? Renato Báez explica que, logo no início da obra, o advogado, jornalista, escritor, político, pecuarista e benfeitor da obra Gabriel Vandoni de Barros sugeriu ao padre Ernesto o nome de “Escola Profissional” por definir melhor a finalidade da instituição e canalizar verbas e auxílios mais facilmente. Este foi o nome extra-oficial que predominou, embora o decreto do deputado estadual Fauze Gattass já tivera, ainda em 1957, resultado na criação da Escola Rural Mista Alexandre de Castro. “Como a ideia da obra ia muito além da estrutura formal de uma escola, padre Ernesto foi dando-lhe diversas denominações, tais como ‘Lar da Criança Pobre’, ‘Cidade da Criança Pobre’ e ‘Grupo Escolar Alexandre de Castro’. O nome que depois prevaleceu foi o de ‘cidade’, por abranger todas as atividades educativas e promocionais e por aproximar-se mais do modelo comunitário americano, tão divulgado no mundo: ‘A cidade dos Meninos’ (Boy’s Town), fundada pelo padre Flanaghian”, relata o professor. O crescimento da Cidade Dom Bosco prosseguia a tal ritmo que, já em 1967, contava com mais de 600 alunos matriculados, sendo que pelo menos 350 deles já cursavam a 4ª série do ensino fundamental. “Por conta do meu pedido como deputado estadual ao Governo do Estado, foi criado o curso ginasial, por meio do Decreto nº. 718, de 1968, iniciando naquele mesmo ano e trazendo de volta inúmeros alunos que já haviam terminado o curso fundamental”, acrescenta José Ferreira.


Italianos aportam no Brasil para continuar a obra Ainda em 1966, quando a instituição já abrigava várias centenas de alunos e ganhava cada vez mais relevância na sociedade corumbaense, e incentivado pelo então inspetor salesiano padre Pedro Cometti, padre Ernesto cogitou a possibilidade da vinda da Operação Mato Grosso a Corumbá. Como fruto de uma de suas viagens à Itália, a organização formada de jovens universitários italianos, a serviço de entidades de promoção social, chegou à cidade em 14 de julho de 1969 com a missão de construir um pavilhão escolar inteiro, suficiente para atender o crescente número de matrículas de crianças carentes. “Dos 60 integrantes do grupo, 20 vieram para Corumbá, dispondo-se a realizar a erguer o prédio principal da escola proposta, onde estudariam 2 mil alunos. Ao chegar, ficaram alojados no antigo ‘barraco’ de dona Catarina. Eles não conheciam fronteiras, nem regateavam sacrifícios com o objetivo de elevar e enobrecer os irmãos pobres e humilhados pela privação”, descreve o próprio padre Ernesto, cujo contato pessoal encontrou respaldo no padre Hugo de Censi, coordenador dos grupos. “Lançada a pedra fundamental no dia 23, as demarcações já feitas, no dia seguinte os integrantes da entidade se entregaram ao mutirão. Enquanto os jovens, sob o sol causticante, dedicavam-se aos trabalhos pesados da construção, as moças prestavam assistência social e sanitária às crianças, nos intervalos dos trabalhos da cozinha e do tanque de lavar roupas. Quatro meses depois, regressaram à Itália, deixando dois deles para que a obra não fosse paralisada: Álfio Pozzi e Eurico Mário”, relata José Ferreira. No ano seguinte, voltaram para inaugurar, em 21 de setembro, a parte central do pavilhão e deixar as duas alas restantes, na altura para receber o segundo andar. Na terceira vinda, em 1971, o grupo composto apenas de 12 membros vem acompanhado do padre Remo Prandim e, depois de mais quatro meses, “consegue terminar a construção que ficou como um templo, simbolizando o amor e a generosidade de jovens que souberam dar uma resposta aos desafios sociais que se apresentavam”, como completa Renato Báez.

Neste ponto, com dois pavilhões prontos, teatro e centro de saúde, poder-se-ia dizer que um longo caminho já havia sido trilhado, muito além da expectativa e ainda mais do ceticismo de tantos. Sobre isso, ele assim se manifesta: “A aceitação do povo, o sacrifício dos educadores e mestres e a ajuda constante de benfeitores próximos ou no exterior – todos esses componentes, aureolados pela benção de Deus, fizeram crescer e tornar frondosa a árvore. Esses fatores transformaram o ‘barraco’ em majestosos edifícios, em Cidade Dom Bosco”.

No topo, vista aérea da Cidade Dom Bosco logo após a conclusão, no início dos anos 1980; acima, momentos da construção do segundo pavilhão pela Operação Mato Grosso

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Pelo portão da 13 de Junho, 2 mil alunos avançam Embora vermelho e estalado à meia altura ao leste do céu, o sol mostra-se ainda tímido pouco antes das 7 horas quando os primeiros alunos, em seus uniformes azuis e leves agasalhos para o friozinho de agosto, começam a apontar na Rua 13 de Junho, em direção ao portão da Escola Estadual Dom Bosco. Entre dois quebra-molas, carros e motos liberam os estudantes, mas a maioria vai chegando mesmo após uma preguiçosa caminhada matinal. Aos poucos, crianças e jovens de todas as idades, tamanhos e cores se aglomeram em frente à única entrada, onde são alegremente recebidos pela recepcionista de portaria Maria José Nascimento Ramos da Silva, 53 anos, ela mesma ex-aluna da escola. É mais um dia de aula que começa na instituição-mãe do imenso complexo missionário e educacional iniciado há 50 anos pelo padre Ernesto Sassida, a Cidade Dom Bosco. Enquanto as centenas de alunos percorrem o longo corredor que leva ao prédio principal, Jocimar Valentim Magalhães, 17 anos, permanece estático em frente ao portão. “Para mim, é um privilégio estudar aqui, pela qualidade do ensino, pela aplicação e preocupação dos professores com o nosso futuro”, diz o estudante do 3º ano, há três na instituição. Já no corredor, Renaíza Oliveira de Souza Cunha, 15 anos e aluna do 1º ano, completa: “Há um ano e meio, minha mãe fez questão de me colocar aqui, dizendo que seria melhor até mesmo do que uma escola particular, pois os professores têm amor e prazer em ensinar. Agora nem penso em sair”. As duas observações retratam algumas das motivações do fundador da obra quando iniciou, em 1961, a Escola Profissional Alexandre de Castro: preocupação com o futuro, qualidade do ensino e amor ao ensinar. Foi perpetuando esses princípios que a Escola Dom Bosco abriga aproximadamente 2.100 alunos assíduos, conforme o último censo escolar, nos três turnos e nos ensinos fundamental e médio. Logo, eles se juntarão aos mais de 25 mil que já passaram pela instituição ao longo de seus 50 anos.

Na página oposta, chegada dos alunos do período matutino em um dia comum na Escola Dom Bosco; nesta página, cenas do cotidiano da instituição, com destaque para as atividades recreativas

“É uma instituição diferente por trabalhar no sistema educativo de Dom Bosco, e ainda mais por ter alunos que disputam e exercem a Prefeitura da Cidade Dom Bosco. Ou seja, cada período tem seu prefeito, líderes de classe e grupos de legionários”, explica a professora Maria Angélica de Jesus Timóteo Amorim, diretora da escola. Hoje aos 51 anos, ela passou a maior parte deles na instituição, tendo sido aluna por oito anos, desde a 1ª série, e funcionária por quase todo o restante. “Aqui são alunos educando alunos, filosofia de Dom Bosco que foi implantada pelo padre Ernesto há mais de 40 anos. Hoje, apesar da idade, a cada ano ele inova e inventa novos meios de obter melhores resultados”, acrescenta. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Ao lado, uma das inúmeras salas de aula, com a professora Arinê Maria Viégas de Pinho ao fundo; abaixo, a diretora Maria Angélica de Jesus Timóteo Amorim e alunos

Conforme explica o padre Osvaldo Scotti, diretor da Cidade Dom Bosco desde 2001, em nome da Missão Salesiana de Mato Grosso – que assumiu a obra em 1988 –, o fato de o Governo do Estado custear a escola dá à instituição uma tranquilidade financeira essencial à sua existência, enquanto deixa aos salesianos o direito de aplicar a pedagogia de Dom Bosco. “Isso cria originalidade, autonomia, personalidade e, ao mesmo tempo, a despreocupação com o lado econômico, que exigiria muito esforço. Ou seja, o Estado garante a manutenção e zela pelo conteúdo das disciplinas, e deixa-nos a orientação das formações humanas, cívicas, morais e cristãs”, explica. “O ensino é gratuito, mas a educação é salesiana, com ensino religioso e formações mensais, para não deixar morrer essa vivacidade da obra”, descreve Maria Angélica, enfatizando que os professores buscam transmitir o amor recebido ao longo dos anos. No entanto, padre Osvaldo ressalta o respeito ao ecumenismo. “Procuramos transmitir valores religiosos comuns a todas as religiões e mesmo para as pessoas sem religião, insistindo no respeito, na justiça, na fraternidade, no amor e demais valores que ajudam na convivência humana”, reforça.

“Trabalhar aqui é uma dádiva de Deus”, diz a diretora adjunta Rosa Francisca Moraes Almiron, 51 anos, segundo quem a escola surgiu para atender alunos carentes, mas que atualmente comporta todas as classes sociais, pela disciplina, qualidade do ensino e preocupação com todos os aspectos da vida dos alunos. “Estamos sempre atendos à situação social e emocional deles. Quando eles faltam, ligamos, chamamos os pais e, se preciso, vamos até as casas para saber o que ocorre”, completa. Na opinião do professor coordenador Paulo Roberto Rodrigues, 58 anos, 37 dos quais dedicados à Cidade Dom Bosco, o que mais lhe chama a atenção é a importância da instituição para a comunidade no entorno. “Ela deu outra vida, outro ânimo ao então bairro Cidade Jardim, hoje bairro Dom Bosco, transformando-o em um dos melhores e mais populosos de nossa cidade, graças à obra do padre Ernesto”. Parte disso é resultado do ambiente de “alegria, harmonia, amizade e união entre professores e alunos, entre os salesianos e a comunidade”, conforme a professora de história Arinê Maria Viégas de Pinho, 52 anos, ex-aluna e professora há 26 anos. “Lembro-me com ternura das falas diárias do padre Ernesto, quando nos prevenia sobre os males do mundo já naqueles tempos, já nos anos 1960, alertando sobre a inversão de valores tão visível nos dias de hoje”, afirma

o advogado Luís José da Silva, 56 anos, aluno da Cidade Dom Bosco entre 1961 e 1968. Para ele, mais do que a alfabetização, a instituição ensinou a todos que por ela passaram “os verdadeiros valores, como o perdão e a fé em Deus, no próximo e em nós mesmos”. “Não posso falar da minha vida sem falar de todos os anos que passei na Cidade Dom Bosco, o alicerce do que sou hoje, graças ao que recebi e ao fruto plantado naqueles anos”, diz a professora Neide Leones Pereira, 48 anos, técnica pedagógica do Município de Corumbá. Quando criança muito pobre, iniciou os estudos ainda na pré-escola, em 1968, e cresceu na instituição, aprendendo a importância de doar ao outro. “Por isso, é com muita gratidão que falo da dedicação do padre Ernesto aos alunos, da sua relação de carinho e cuidado pelos seus”, diz. Quando olha o resultado do passado e a dimensão do presente de sua obra, já passados os 90 anos de vida e 65 anos de missão no Brasil, padre Ernesto se expressa serenamente: “Sou feliz porque me realizei com o que fiz pelas crianças. Não foi um trabalho em vão”. Para ele, mais do que um trabalho frutífero, a única explicação é o que chama de ação direta de Deus em sua vida, tornando-o um instrumento incansável em favor da educação, da solidariedade e, sobretudo, do amor ao próximo.


Trata-se de um dos quatro cursos oferecidos pelo Centro Profissional Dom Bosco, peça essencial da Cidade Dom Bosco e versão moderna da Escola Profissional Alexandre de Castro, cujo propósito sempre fora criar perspectivas a crianças e jovens de baixa renda. Ao lado do galpão, mais 95 jovens aprendem a produzir pães, bolos e outros quitutes que vão alimentar parte dos alunos da própria instituição e da Escola Dom Bosco: é o curso de panificação e confeitaria, que se soma à computação (76 alunos) e ao corte e costura (20 alunas, algumas adultas), totalizando 291 aprendizes.

Do zunido do eletrodo ao tilintar das agulhas Atrás de luvas e macacões de couro rústico, máscaras e óculos de proteção, garotos de 16 a 18 anos conduzem os eletrodos sobre uma espessa chapa de ferro, produzindo um zunido estridente e uma incandescente mistura de fogo, fumaça e fagulhas. Em um imenso barracão, 100 jovens, divididos em várias turmas práticas e teóricas, aprendem os primeiros passos de uma profissão que chama a atenção tanto pela dificuldade quanto pelas oportunidades de emprego e ótimo retorno financeiro: solda e montagem.

“É uma profissão que admiro, com amplo mercado de trabalho para quem se qualifica”, afirma Kelvin Silva de Camargo, 18 anos e iniciante em solda e montagem, que enfatiza: “É apenas o ponto de partida, mas sou grato pela oportunidade de adquirir esse conhecimento, a partir do qual vou continuar evoluindo”. Atraído pelo exemplo do tio, soldador profissional, Jonny Marques Ramirez Corrêa, 16 anos e aluno do 9º ano da Escola Dom Bosco, mostra-se determinado: “É um trabalho difícil e pesado, que poucas pessoas têm coragem de encarar, por isso mesmo quero seguir carreira, pois as chances de dar certo são grandes”. Enquanto no galpão tomado pelo cheiro de ferro queimado é total a presença de meninos, nos demais ambientes as meninas formam número bem maior, como na cozinha industrial onde o que toma conta é o aroma de polvilho dos biscoitos recém-saídos do forno. “Além de ser uma boa formação para o trabalho, o que aprendemos aqui vai servir para nossos lares no futuro”, ressalta Daniele Ariane da Silva Valdez, 17 anos, referindo-se ao curso de panificação e confeitaria. “Com o certificado daqui, será fácil conseguir um emprego”, completa Liane Estela Ribas Bobadilha, 15 anos e aluna do 9º ano da Escola Dom Bosco.

À esquerda, aluno do curso profissionalizante de solda e montagem; abaixo, o diretor do Centro Profissional Dom Bosco, mestre Lauri Dorneles, e alunos do curso

Ex-aluno do centro e da escola, Alex Ramão Maldonado, 22 anos, tornou-se instrutor e se diz bastante realizado por ajudar a formar pessoas na área de panificação, que inclui ainda salgados, bolos e sorvetes. Ele explica que, além dos ingredientes, os alunos aprendem sobre manipulação dos alimentos e higiene, ponto de partida para o trabalho na área. Já Adenilson Fernandes, 21 anos e também ex-aluno da instituição, diz seguir os fundamentos de Dom Bosco para ensinar a prática da solda, acrescentando princípios para a vida à formação profissional. “Aqui instruímos os alunos com metrologia, corte e solda propriamente dita, além de manutenção de equipamentos. É uma área na qual não há desempregados”, diz. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Dirigindo a instituição desde o início de 2010, mestre Lauri Dorneles, 44 anos, explica que os cursos variam em carga horária, mas todos têm duração anual, com aulas teóricas e práticas de meio período duas vezes por semana, com exceção de informática. As vagas são divulgadas na imprensa local em janeiro de cada ano e, conforme ele, ocupadas por ordem de chegada e critério socioeconômico, já que a prioridade é dada a jovens carentes. “Logo em seguida, marcamos a data de matrícula e, no início de fevereiro, as turmas já estão formadas e prontas para começar a aprender”, completa. “Além de educar para o trabalho, o Centro Profissional ensina disciplina e administração pessoal”, frisa o padre Osvaldo Scotti, prosseguindo: “Dentro da Cidade Dom Bosco, é a única obra que não recebe ajuda do Poder Público, sendo mantida exclusivamente com doações de padrinhos e madrinhas. Mesmo assim, conseguimos oferecer cursos para os quais existe demanda no mercado”. Mestre Lauri complementa que os recursos vêm principalmente da Itália, Eslovênia e Espanha, onde fiéis católicos ajudam a manter a obra salesiana iniciada pelo padre Ernesto Sassida. “Assim custeamos as despesas correntes, salários, alimentação, matéria-prima e equipamentos de segurança”, acrescenta. Responsável por estreitar a relação entre funcionários, pais e alunos, e ainda pelo acompanhamento social aos jovens, a bióloga Silvana Coelho Vital Lopo traz, aos 32 anos, uma longa história dentro da Cidade Dom Bosco. Foi aluna da escola, aprendiz e funcionária do centro, tornando-se orientadora pedagógica. Assim, ela expressa o que chama de imensa gratidão ao padre Ernesto pela importância dele em sua formação: “Com base no exemplo dele, tentamos fazer o melhor por esses jovens carentes de afeto e de educação, que estão aqui aprendendo mais do que uma profissão, uma lição de vida”, complementa. E não é difícil encontrar manifestações sobre o resultado desse trabalho, como observa o comerciante aposentado e colaborador da obra Balbino Gonçalves de Oliveira, 70 anos: “Recentemente, visitei a Feira de Amostra do Centro Profissional Dom Bosco, confirmando que a Cidade Dom Bosco está estruturada, organizada e tem todos os elementos básicos necessários para a vida de uma comunidade trabalhadora, fraterna e geradora de cidadãos profissionais para continuar servindo e impulsionando Corumbá para o progresso”.

De cima para baixo outros três cursos oferecidos pelo Centro Profissional: corte e costura, panificação e confeitaria e computação; ao todo são atualmente 291 aprendizes

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A prevenção antes que seja necessário remediar Com delicadeza e precisão, e as mãos ainda leves dos 14 anos, ela tira do surrado teclado Casio à sua frente as notas que expressam a segurança, a certeza do acolhimento, a convivência harmônica e a amizade. Há mais de quatro anos, Helen Tainara Massab da Silva deixa a Escola Dom Bosco ao meio-dia e segue imediatamente para as instalações do Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF), onde recebe reforço escolar, participa de oficinas de esporte e recreação e, principalmente, aprende a arte da música, com aulas teóricas e práticas de teclado. Ela é uma das cerca de 280 crianças e adolescentes atendidos pelo terceiro pilar da Cidade Dom Bosco, completando todas as áreas de atenção socioeducacional da obra criada pelo padre Ernesto Sassida. “Antes, eu chegava da escola e tinha que ficar na casa da minha avó sem nada para fazer, e ela tinha dificuldade para cuidar de todos nós. Então descobri este projeto e vim, a princípio para melhorar minhas notas, mas depois descobri que aqui eu poderia aprender muitas coisas, participar das oficinas, fazer amigos e ter companhia. O acompanhamento que recebemos aqui não se vê em lugar nenhum”, conta. Esta é, basicamente, a opinião de muitos outros que encontram no PCAF uma oportunidade de ocupar o tempo livre, em que estariam em casa ou nas ruas expostos a situações de risco, com atividades recreativas e educativas, cujo fim primordial é a formação do caráter dos cidadãos do futuro. “Eu

Acima, uma das aulas de reforço escolar oferecidas pelo PCAF; ao lado, a aluna Helen Tainara em sua aula de teclado; a música é apenas uma das oficinas e atividades de ocupação à disposição dos alunos

não tinha nada para fazer em casa e não tinha com quem ficar, então meu pai me trouxe para cá, onde jogo futsal e ajudo a cuidar da horta”, diz Elielson Soares da Silva, 12 anos. “Minhas notas estavam péssimas, mas, desde que cheguei aqui, começaram a melhorar e agora são muito boas”, acrescenta Iuriane Évelin, 17V anos, seguida por Patrícia Andrade de Oliveira, 13 anos: “E ainda jogo futebol, em um time só de meninas”. Conforme explica o padre Osvaldo Scotti, a pedagogia salesiana pauta-se pela prevenção antes que seja necessário remediar, e esta é a filosofia que caracteriza a instituição. “Devido ao trabalho dos pais ou mesmo às situações de desestrutura familiar, temos um grande número de crianças que ficam um período sozinhas em casa, sem a presença de adultos, prestando-se mais às coisas erradas do que às certas”, observa, salientando que essas crianças, após alguns anos em tais condições, podem se tornar meninos de rua, com tendência à violência. “Então, o projeto ajuda a prevenir que crianças carentes e sozinhas busquem cominhos tortuosos”, complementa.

Instalado ao lado do antigo Cine-Teatro e do pavilhão principal da Cidade Dom Bosco desde 1988, mas em funcionamento formal desde 1972, como resultado de iniciativas diversas lideradas pelo padre Ernesto e colaboradores em prol de crianças de rua, o PCAF atende crianças e adolescentes entre oito e 17 anos, do 2º ano ao ensino médio. “Hoje, o projeto atende 140 crianças no período matutino, do 2º ao 5º ano, com aulas de reforço, oficinas e prática de esportes, e 140 no vespertino, do 6º ano ao ensino médio. O requisito para participar é estar estudando”, afirma a professora Delair do Carmo Nunes Siqueira, 45 anos, coordenadora da instituição.

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Ainda conforme ela, as oficinas oferecidas incluem jogos de recreação, argila, violão, teclado e informática (em parceria com o Centro Profissional Dom Bosco), além do esporte, com tênis-de-mesa, futsal, basquete, handebol e natação (em parceria com a Prefeitura de Corumbá), nos dois períodos. Essas atividades são escolhidas pelos alunos, conforme interesse e aptidão, mas o reforço escolar é obrigatório para todos, em todas as idades. “Além disso, muitas dessas crianças têm uma boa refeição diária, que muitas vezes não têm em casa, e tomam um bom banho, que muitas vezes não o fazem em casa também”, acrescenta padre Osvaldo. Para isso, ele lembra que a obra é custeada por padrinhos e madrinhas da Itália, Eslovênia e Espanha, cujas doações se somam ao apoio da prefeitura – que cede seis professores ao projeto – e dos governos estadual e federal, todos ajudando na compra da alimentação e na manutenção dos recursos humanos. “Mas o que garante mesmo a continuidade do trabalho é o suporte vindo da Europa, como resultado da luta de mais de 40 anos do padre Ernesto e do trabalho dos salesianos, com o padre Osvaldo”, afirma Delair, observando que seria impossível saber quantas crianças já foram atendidas pelo projeto até hoje. 36

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Com a responsabilidade de fazer o PCAF produzir os resultados a que se propõe, instrutores e professores ocupam pelo menos oito horas diárias das crianças e adolescentes com atividades educativas e esportivas. É o caso da turismóloga Cássia de Brito, 25 anos, instrutora de violão e teclado. Ela é quem conduz Helen Tainara e outros vários alunos por entre as notas musicais, ajudando-os a adquirir uma habilidade para a vida e, quem sabe, uma profissão. “As crianças captam energias e ensinamentos muito facilmente e, por isso, trabalhamos a religiosidade delas para suprir a estrutura familiar que falta. Assim, elas se tornarão cidadãos mais preparados para ajudar a desenvolver esta cidade”, afirma. Já a professora Lucibene de Almeida Barros, 41 anos, ex-aluna e ex-professora da Escola Dom Bosco, é uma das responsáveis pelo reforço escolar. De manhã, ela alfabetiza crianças que ainda não sabem ler e escrever, e à tarde, ensina língua portuguesa, literatura, inglês e artes a adolescentes do 8º ano ao ensino médio. “Aqui reforçamos o conteúdo que eles estudam na escola regularmente, auxiliamos nas tarefas escolares, ampliando e complementando o que eles aprendem. Mais do que isso, no entanto, orientamo-los a serem cidadãos bons e honestos, por meio de um incessante trabalho de desenvolvimento do caráter e do incentivo à gentileza”, completa.

Acima, aulas de reforço escolar e de violão; abaixo, a professora Delair do Carmo Siqueira, coordenadora do projeto, em um dos momentos de instrução das crianças

Talvez por ser a obra que melhor represente a essência da trajetória de seu fundador em Corumbá – a educação preventiva e a ocupação às crianças carentes –, quem encontra envolvido com ela não faz qualquer esforço para esconder sua fonte de inspiração para o trabalho: “Tenho como um espelho o padre Ernesto, pelos valores, pelas conquistas, a afetividade, o carinho e a vontade de estar à frente das pessoas carentes”, diz Delair. “O caráter dele me fascina, e muito do que aprendi devo a ele”, acrescenta Lucibene, enquanto Cássia finaliza: “O amor que ele tem por essas crianças inspira o nosso trabalho e nos faz querer fazer sempre mais por elas”.


ção e que também foi assistida durante muitos anos pelo programa. “Essas crianças estão em diversas escolas e até mesmo em Ladário, e o nosso trabalho é acompanhar seu crescimento para enviar notícias às madrinhas na Europa”, acrescenta.

A coluna que sustenta a Cidade e suas estruturas Rosimare da Conceição é viúva e mãe de seis filhos. Até alguns anos atrás, morava na fazenda Nazaré, região do Paiaguás, onde trabalhava como cozinheira, mas ficou doente e precisou se mudar para a periferia de Corumbá para tratar das fortes dores de cabeça e nas costas. Depois de quase ter sido “internada como louca”, hoje toma remédios controlados e trabalha como diarista. Dos seis filhos (Renato, Rodrigo, Renata, Raí, Roseane e Gabriel), o último ela precisou dar para a irmã, e o mais velho, de 14 anos, é quem toma conta dela e dos irmãos. “A casa onde moro foi doada pela Cidade Dom Bosco, que também me ajuda com remédios, roupas, alimentos, gás e outras coisas que preciso”, diz Rosimare, continuando: “Por meio do Ernesto, consegui madrinha para cinco dos meus filhos, que é como conseguimos sobreviver hoje”. A história da diarista é apenas uma entre milhares de situações de pobreza e vulnerabilidade social que têm chegado ao longo dos anos ao setor de Assistência Social da Cidade Dom Bosco,

a ponte entre o trabalho de décadas do padre Ernesto Sassida – as doações vindas do exterior – e as pessoas mais necessitadas de Corumbá. Como salienta o padre Osvaldo Scotti, que coordena o setor, esta é a coluna que sustenta todas as estruturas da instituição, ao manter o relacionamento entre madrinhas e padrinhos na Europa, que integram o Programa de Adoção à Distância, e as crianças adotadas em Corumbá e Ladário. “A Assistência Social da Cidade Dom Bosco busca alcançar a camada mais empobrecida e necessitada da comunidade, em especial a população infantil, pois a maioria dessas crianças vive sem muitas perspectivas, geralmente como resultado da desestrutura familiar. Para isso, temos padrinhos e benfeitores na Itália, Eslovênia e Espanha”, explica.

Lindivalda explica ainda que o trabalho vai muito além de enviar fotos, boletins escolares e cartas dos afilhados, e de distribuir os recursos e presentes que chegam. “Se a criança precisa de remédio, de fazer uma cirurgia, de usar óculos ou aparelho ortodôntico, procuramos resolver todas essas situações”, ressalta, acrescentando a preocupação e o encaminhamento ao reforço escolar, por meio do Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF), e à qualificação profissional, por meio do Centro Profissional Dom Bosco.

À esquerda, veículo utilizado pela Assistência Social para atender famílias carentes de Corumbá; acima, atual equipe do setor e, abaixo, professora Lindivalda Gonçalves dos Santos

Parte do resultado desse trabalho pode ser visualizada na própria expressão de Rosimare, quando diz: “Não sei o que seria dos meus filhos se não fosse a Cidade Dom Bosco, a quem agradeço por acolhê-los, educá-los e ajudá-los a ter um futuro melhor”.

Atualmente, seis pessoas integram o setor responsável pelo suporte a mais de 1 mil crianças. “Acompanhamos a vida escolar e social delas e de suas famílias, pois o desempenho na escola está diretamente ligado à situação em casa”, explica a professora Lindivalda Gonçalves dos Santos, 47 anos, integrante da equipe, ex-aluna da instituiCidade Dom Bosco – 50 anos

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Um universo de iniciativas que se irradia pela região

O resgate da inocência na prática de boas ações “Um dia eu jogava bola em frente de casa quando ela caiu no quintal da vizinha. Eu pulei a cerca para apanhá-la e vi que a vizinha estava passando mal. Saí correndo para pedir ajuda e, depois que foi socorrida, fiquei sabendo que ela teve um enfarte. Então passei a cuidar dela por um tempo e hoje ela está bem, morando no Porto da Manga com uma filha”. A atitude que mistura simplicidade e notável senso de heroísmo foi contada por Vinícius da Silva Bogado, na época com 11 anos e estudante do 7º ano da Escola Municipal Clio Proença, em Corumbá, na solenidade que o escolheu como “Pequeno Herói 2008”. Como prêmio pela boa ação, ele recebeu das mãos do padre Ernesto Sassida um computador e a carteirinha que o identifica como “Pequeno Herói”, juntamente com outras 19 crianças e adolescentes também premiados com aparelhos MP3, telefones celulares, rádios, bicicletas e videogames, além da carteirinha. É o que ocorre todos os anos desde 1970, quando o fundador da Cidade Dom Bosco instituiu o projeto “A Procura de Pequenos Heróis”. Como explica o padre, a iniciativa surgiu com o propósito de conscientizar crianças e adolescentes a discernir atos bons dos ruins, resgatar os valores no contexto da família, prepará-los e persuadi-los para a prática de uma boa ação. 38

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Na página oposta, Padre Ernesto Sassida explica os propósitos do projeto “A Procura de Pequenos Heróis”; ao lado, à frente de alunos carentes da Cidade Dom Bosco; abaixo, momentos distintos de entrega dos prêmios do projeto

“Para incentivar as crianças de Corumbá e Ladário a praticar e a divulgar boas ações, vamos todos os anos em busca delas nas duas cidades, visitando todas as escolas, entidades, associações de bairros e igrejas. Onde tem uma, vamos lá convidá-la a participar”, afirma a professora Lindivalda Gonçalves dos Santos, coordenadora do projeto, que é realizado pelo Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER). Ela explica que, quando são abertas as inscrições, sempre em torno de quatro meses antes da data da premiação, as crianças são incentivadas tanto a relatar suas histórias de boas ações praticadas ao longo do ano, quando a praticar novas para se inscrever. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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“É um projeto interessante porque as crianças fazem questão de contar coisinhas que, muitas vezes, parecem sem importância. Mas é exatamente isso o que queremos, que elas criem o hábito de praticar boas ações, por menores que sejam”, afirma a professora, lembrando que algumas chegam a se inscrever relatando que deram o lugar no ônibus a uma senhora gestante, por exemplo. “Isso pode parecer tão singelo, mas para nós é muito importante, pois o objetivo é resgatar a prática da gentileza, da boa educação, o vínculo e o carinho entre pais e filhos e tantos exemplos que vão se perdendo com o tempo. E é muito satisfatório ver a alegria deles ao contar o que fizeram”, acrescenta. Ainda conforme a coordenadora da iniciativa, todos os anos cerca de 3 mil crianças e adolescentes se inscrevem e relatam suas histórias de heroísmo e boas ações, sendo que, desde 2009, o projeto se desdobrou e Ladário passou a ter sua própria versão. Desses inscritos, uma comissão técnica, formada por servidores públicos da Secretaria Executiva de Educação de Corumbá – parceira do CENPER na realização do projeto –, faz a primeira análise e seleciona 20 destaques, com notas entre 6 e 10. Os 20 relatos escolhidos são enviados a uma comissão de honra, formada

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pelo prefeito e pelas principais autoridades políticas, militares, eclesiásticas e judiciais da cidade. A comissão de honra elege os 10 vencedores de cada edição, que são premiados em solenidade no dia 6 de dezembro, o Dia Municipal do Pequeno Herói. Para escolher 20 e depois 10 vencedores, as duas comissões consideram um ato isolado ou continuado que apresente clara conotação de desprendimento, desinteresse, sacrifício e esforço incomum em benefício de outros ou como exemplo a ser imitado por outras crianças. A ação pode ser praticada em família, na escola, na rua, na hora do lazer, na viagem e em qualquer outro local e momento em que a criança tenha a oportunidade de fazer uma boa ação. “Premiamos 10 crianças, mas também damos uma lembrancinha e uma carteirinha a todas que participam, sem esquecer ninguém”, afirma Lindivalda. Para a professora Lígia Maria Baruki de Melo, 55 anos, presidente do CENPER, o “Pequeno Herói” valoriza sentimentos nobres do ser humano, como a compaixão, a solidariedade e o amor ao próximo. “Por isso, é preciso dar cada vez mais apoio às ações iniciadas pelo padre Ernesto, que visam fortalecer os valores éti-

À esquerda, alunos aguardam a premiação do projeto “A Procura de Pequenos Heróis”; abaixo, padre Ernesto transmite a crianças o espírito e o propósito de seu trabalho: a valorização da educação e a prática de boas ações

cos e morais das crianças e jovens corumbaenses”, afirma a filha do médico e político Salomão Baruki (1930 – 2001), uma das maiores personalidades públicas da história de Corumbá e parceiro do padre em todas as ações que culminaram na construção da Cidade Dom Bosco. “O ‘Pequeno Herói’ mostra às crianças que elas podem ter um futuro digno, pautado sempre pela realização de boas ações. Ao fazê-las conhecerem o bem, o projeto leva à prevenção, leva-as a pensar no presente e no futuro pelo bem que se faz”, resume padre Ernesto, certo de que uma ideia simples vem, há tantos anos, mobilizando a sociedade corumbaense em nome do bem, da solidariedade e do amor.


os alimentos são coletados durante três dias, organizados como sacolões e entregues a cerca de 800 ou até 1 mil famílias a cada ano, conforme a necessidade. “Isso é possível porque conhecemos todos os pontos críticos da periferia e as necessidades de cada família pobre desta cidade”, completa.

Comida a quem tem fome, agasalho a quem tem frio Na sala onde trabalha a professora Ana Maria Hellensberger dos Santos, 52 anos, no pavilhão principal da Cidade Dom Bosco, as prateleiras se abarrotam de materiais escolares, calçados, fardos de arroz e caixas de arquivos. Nelas estão as fichas com os dados de milhares de famílias carentes da periferia de Corumbá atendidas pelo Projeto Sino da Caridade, uma das principais iniciativas do setor de Assistência Social da instituição. É de lá que ela coordena uma equipe de 30 ex-alunos voluntários em duas grandes campanhas anuais de arrecadação e distribuição de alimentos e agasalhos aos pobres da cidade. Depois de ter sido aluna por todo o ensino fundamental e parte do ensino médio, os dois filhos também concluíram o ensino básico na Escola Estadual Dom Bosco e, desde 1992, ela trabalha na Assistência

Social, tendo assumido a coordenação do projeto há cerca de cinco anos, “uma das meninas dos olhos do padre Ernesto Sassida”. Além das campanhas de Inverno e de Natal, o grupo que ela lidera também realiza quinzenalmente a preparação e distribuição de ‘sopão’ em todos os bairros carentes. Nessas ocasiões, juntam-se a eles atuais alunos da instituição que se preocupam com as necessidades das famílias. “O Sino da Caridade é uma oportunidade para que os pobres também se preocupem com os pobres. Ou seja, para que não fiquem somente recebendo e se considerando vítimas, mas que possam ser construtores de uma sociedade mais justa, dividindo o que têm e ajudando o próximo”, define o padre Osvaldo Scotti, segundo quem a filosofia da iniciativa é que “ninguém é tão rico que não tenha nada a receber ou tão pobre que não tenha nada a partilhar”. Na opinião dele, o projeto busca difundir a ideia de que, ao mesmo tempo em que são vítimas, essas pessoas podem amar e se sentir amadas. Conforme Ana Maria, a Campanha de Inverno ocorre quando, após longa divulgação na mídia local, a equipe sai às ruas recolhendo roupas e agasalhos doados. “Em seguida, as famílias carentes escolhem as peças, de acordo com o número de filhos. Em 2010, o projeto beneficiou 260 famílias”, relata. Para a Campanha de Natal,

A ex-aluna e atual professora da Escola Dom Bosco, Roseane Limoeiro da Silva Pires, 42 anos, resume o que representa o Sino da Caridade para a maioria das famílias atendidas: “Desde os anos 70, acompanho de perto o projeto e sempre me impressionou muito a alegria nos olhos das crianças ao receberem brinquedos e roupas e a emoção dos pais ao receberem alimentos para a família na ceia natalina. Isso ficou guardado em minha memória e no meu coração desde criança”. Isso é resultado, conforme conclui Ana Maria, da determinação do padre Ernesto, que é: “Quem nos procura não pode sair de mãos abanando”.

No topo, ação de fim de ano do Projeto Sino da Caridade, com entrega de presentes a crianças da periferia de Corumbá; acima, antigo veículo utilizado pela equipe do projeto e, à esquerda, professora Ana Maria Hellensberger dos Santos

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Ao lado, fila de mães com seus filhos aguardando atendimento no Posto de Saúde Dom Bosco; à esquerda, inauguração da reforma e ampliação da unidade em 1980; abaixo, lançamento da construção do novo posto em abril de 2010

Décadas de luta pela saúde no bairro Dom Bosco Na manhã de 16 de abril de 2010, padre Ernesto Sassida juntou-se ao padre Osvaldo Scotti, ao prefeito de Corumbá, Ruiter Cunha de Oliveira e ao deputado estadual Paulo Duarte, sobre um palco montado no Ginásio Dom Bosco, para descerrar a placa da construção do novo Posto de Saúde Dom Bosco. Naquele momento, iniciava-se um novo capítulo de uma história de 40 anos, desde que, em 1970, a nascente Cidade Dom Bosco firmou uma parceria com a Prefeitura Municipal criando a unidade de saúde que atenderia toda a população do então bairro Cidade Jardim, funcionando no pavilhão principal da instituição.

A luta do padre para prover atendimento de saúde à população carente de Corumbá, no entanto, é ainda mais antiga. Conforme relata o professor Renato Báez na obra O Profeta do Pantanal (1988, Editora das Escolas Profissionais Salesianas), “aos 15/08/1963, logo após a transferência de parte dos alunos do ‘barraco’ para o primeiro pavilhão, foi instalado o Posto Médico Municipal”. Logo em seguida, ele complementa: “Em 13/03/1973, padre Ernesto viaja para Cuiabá e assina com a Secretaria de Saúde a instalação de um Posto-Médico-Dentário Estadual, que vem a se inaugurado e imediatamente ativado em 29/08/1973”. A partir de então e desde que o Governo do Estado inaugurou sua reforma e ampliação, em outubro de 1980, em solenidade com grande participação popular, o Posto Médico Dom Bosco atendeu a população de seu entorno por outros quase 30 anos. Ao longo desse tempo, como observa o padre Osvaldo Scotti, de 100 a 150 pessoas passavam todos os dias pela instituição, entre as quais muitas crianças, adolescentes e jovens. Além de serviços médicos e de pronto atendimento, um consultório odontológico também atendia gratuitamente à população, graças à parceria com a prefeitura, fazendo tratamento preventivo dos usuários da Cidade Dom Bosco. No início de 2010, instituição de saúde desativou temporariamente seus serviços porque, em 15 de janeiro, a prefeitura lançou a pedra fundamental da construção da Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF) Dom Bosco. O lançamento ocorreu, sugestivamente, no dia em que a comunidade salesiana corumbaense recepcionou a urna com a “relíquia insigne” de São João Bosco – como parte das comemorações dos 200 anos de seu nascimento. A obra vem sendo executada com recursos do Município e de uma emenda parlamentar do deputado Paulo Duarte. Localizada ao lado do pavilhão principal e, portanto, do antigo posto médico, a área de 400 metros foi cedida pela Cidade Dom Bosco para a construção. Quando inaugurada, a unidade vai oferecer atendimento médico, odontológico e vacinação aos moradores do próprio bairro e seu entorno. Na ocasião do lançamento da pedra fundamental, padre Ernesto abençoou o local e a obra: “É um presente para todos nós, assim como a vinda de Dom Bosco. Ele hoje está no coração de Corumbá, com grande força entre os jovens e em todo este trabalho missionário”.

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Ao lado, construção do Centro Esportivo Dom Bosco, retratada pelo pintor italiano Giovanni Giulianni; abaixo, um dos times de futebol da Escola Dom Bosco; mais abaixo, aulas de educação física em uma das quadras da instituição

Um padre em campo, o esporte pela educação “Desde criança, ouço meu avô contar que se orgulha de ter uma recordação do padre Ernesto, que é um chute na canela, quando ambos jogavam bola juntos”, conta Alex Ramão Maldonado, 22 anos, ex-aluno da Escola Dom Bosco e hoje instrutor de panificação do Centro Profissional Dom Bosco. “O meu pai aprendeu a jogar bola com ele, que juntava turmas de alunos, erguia a saia da batina e jogava como um deles”, conta a professora Lígia Baruki, referindo-se ao professor e político Salomão Baruki. Já em setembro de 2008, quando a cidade comemorava seus 230 anos, a equipe mirim do Projeto Criança e

Adolescente Feliz (PCAF) sagrou-se campeã da primeira Copa PETI de Futsal, que envolveu alunos de diversas instituições de ensino locais. Somado a inúmeros outros casos de sucesso, o resultado exemplifica a profunda relação do padre Ernesto Sassida e da Cidade Dom Bosco com o esporte. Já as demais histórias ilustram a paixão de quem, quando criança, dormia abraçado à bola e tinha o irmão Viktor Saksida, jogador de futebol, como um ídolo. Como missionário em Corumbá, o padre fez do esporte um instrumento inseparável no propósito de educar, integrar, incluir e ocupar crianças, adolescentes e jovens carentes. “Ao longo de sua trajetória, ele criou grupos, agremiações e tantos movimentos associativos que promoviam e praticavam atividades esportivas de todos os tipos, sempre unindo o esporte, a educação e a construção da cidadania”, afirma o professor e ex-político José Ferreira de Freitas. O militar da reserva e professor aposentado José Gonçalo de Barros, 64 anos, por muitos anos fez parte dessa tarefa atribuída pelo padre. Ele conta que, em 1975, foi convidado a ser professor de educação física na Cidade Dom Bosco, função com a qual veio também a de coordenar inúmeros eventos sociais da instituição. “Por meio da organização dos estudantes para o esporte, trabalhávamos os valores morais com as crianças e jovens, e mostrávamos a

imagem da instituição para toda a cidade, em ocasiões como os desfiles cívicos, por exemplo”, conta. Ensinando crianças oriundas da mais precária condição social, que iam para a escola de chinelos de dedo, José Gonçalo ajudou a tornar realidade um dos maiores sonhos do padre. Foi ele quem coordenou a construção do ginásio coberto, o Centro Esportivo Dom Bosco, iniciada em 20 de outubro de 1980 e a inaugurada em 21 de maio de 1982, com arquibancadas para 2.800 pessoas, graças a recursos da antiga Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), por meio do Governo do Estado. “E foi grande a satisfação de ver concluído o projeto que ele tinha idealizado muitos anos antes”, diz. O resultado dessas e outras histórias pode ser resumido na declaração do professor João Luís Alencar Rondon, 41 anos, na época, dirigente das equipes de futsal do PCAF: “Os próprios alunos demonstram que, por meio do esporte, podem dar outro sentido ao seu dia-a-dia. A melhora em seu comportamento cotidiano é visível, e eles servem de espelho para os outros, que também estão ansiosos para representar o PCAF”.

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Uma experiência profissional de forma educativa A essência profissionalizante da Cidade Dom Bosco vem de sua origem mais remota, como prova o nome como ficou conhecida: Escola Profissional Alexandre de Castro, embora se chamasse, desde 1958, Escola Rural Mista Alexandre de Castro. Desde os primeiros anos, como relata o professor e político aposentado José Ferreira de Freitas, já oferecia cursos profissionalizantes a adolescentes, os mais comuns e úteis para aquela época. Sugestivamente no dia 1º de maio de 1971, no prédio de uma antiga delegacia de polícia na Rua Delamare, centro de Corumbá, doado pelo Governo do Estado, uma solenidade marcou a abertura oficial da Casa do Pequeno Trabalhador. Naquele momento, a recém-criada entidade assumia a responsabilidades pelos Clubes dos Menores Engraxates e Jornaleiros, organizados pelo padre Ernesto Sassida havia anos. Entre os inúmeros propósitos relacionados à formação profissional, moral e cidadã dos “menores de rua”, estava o de melhorar o relacionamento deles com a comunidade, a confiança no futuro e a consciência da honestidade. Mais de duas décadas depois, com a criação do Centro Profissional Dom Bosco, a Casa do Pequeno Trabalhador foi a ele integrada, transformando-se no projeto Adolescente Aprendiz, que atualmente oferece vagas para a inserção de até 50 jovens no mercado de trabalho local. “O Adolescente Aprendiz dá aos jovens a oportunidade de uma experiência profissional de forma educativa, de acordo com as leis trabalhistas vigentes no País, que permitem a todas as empresas contratar adolescentes de 16 e 17 anos, por meio período”, explica o padre Osvaldo Scotti, lembrando que o requisito primordial para a participação no projeto é estar estudando no outro período.

No topo, aluno aprende marcenaria por meio do Projeto Adolescente Aprendiz; ao lado, inauguração da sede da Casa do Pequeno Trabalhador; à direita, o repórter cinematográfico Elias Bithencourt Fernandes de Almeida

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De acordo com o mestre Lauri Dorneles, diretor do Centro Profissional, a iniciativa conta com autorização do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e do Juizado do Menor. É realizada em parceria com várias empresas que acolhem em seus quadros adolescentes para o aprendizado profissional, com carteira assinada e todos os direitos previstos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “Nós os contratamos e, portanto, eles são funcionários da Cidade Dom Bosco, mas o financiamento é feito pelas empresas onde prestam serviços, geralmente na área administrativa. Aos 18 anos, eles saem com uma experiência de trabalho e são substituídos por outros”, ressalta. O repórter cinemático Elias Bithencourt Fernandes de Almeida, 21 anos, começou no projeto antes de completar 16 anos e, após trabalhar por um ano como auxiliar de almoxarifado na fábrica de cimento Itaú, foi recontratado e lá permaneceu por três anos e oito meses. Neste caso, além de organizar estoque e distribuir correspondências, ele passou a atuar como instrutor dos adolescentes recém-chegados à empresa. “Foi uma experiência maravilhosa, os melhores anos da minha vida, tanto pelo aprendizado profissional quanto pelas atividades educativas e recreativas no Centro Profissional. Para mim e para vários colegas, foi fundamental para a iniciação no mercado de trabalho”, conta.


Para transmitir valores morais, humanos e religiosos É mais um intervalo vespertino para as centenas de alunos da Escola Estadual Dom Bosco quando dezenas de filas se formam no corredor térreo do pavilhão das salas de aula. Em pé e de frente para o busto de Dom Bosco, eles entoam hinos e ouvem uma mensagem que mistura elementos de motivação pessoal, dedicação aos estudos e prática da solidariedade. Quem conduz a rápida cerimônia, que se repete cotidianamente e várias vezes ao dia, é a professora Flávia Regina Leonor Freitas da Silva, 35 anos, membro da Equipe de Animação Pastoral (EAP) da Cidade Dom Bosco. Ex-aluna da instituição, ela diz ter sempre participado de grupos de jovens e das atividades pastorais. Quando se formou em História e se tornou professora da mesma escola, o caminho não poderia ser outro que não a equipe de animação. “Como o próprio nome diz, a EAP tem a função de animar a casa salesiana, trabalhando a formação dos jovens, promovendo reuniões de grupos, missas e encontros de discussão de temas diversos. Além disso, realizamos um trabalho diário de animação dos alunos durante o recreio, com o propósito de motivá-los e envolvê-los com as orações e a preocupação com o próximo”, descreve. “A Pastoral é um departamento da Escola Dom Bosco com a missão de transmitir os valores morais, humanos e religiosos, assim como os professores transmitem os conteúdos pedagógicos. É o elemento que completa e dá a dimensão típica à nossa insti-

tuição, atuando de forma paralela e integrada com todos os demais departamentos”, explica o padre Osvaldo Scotti. A professora Maria Angélica de Jesus Timóteo Amorim, diretora da escola, acrescenta que este avivamento espiritual é realizado por uma equipe de quatro pessoas, sendo três leigos e um salesiano (coordenador), e que também alcança o Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF) e o Centro Profissional Dom Bosco. Conforme Flávia Regina, no início de cada semana e em todos os períodos, os alunos recebem um livreto com conteúdo motivacional, a partir do qual o líder religioso de cada sala faz a oração antes de começarem as aulas. “Essa prática é completada durante os intervalos, quando colocamos músicas de fundo religioso para levá-los à reflexão sobre o sentido da vida e os valores que devem alicerçar o exercício da cidadania”, afirma, acrescentando que todas as turmas também se reúnem uma vez por mês para discutir e refletir com mais profundidade temas diversos e princípios morais.

“Vivemos hoje em uma sociedade muito individualista, então temos que contribuir para que crianças e jovens tenham valores, pois o ser humano também é espírito e precisa, além da educação formal, de princípios para se tornar um cidadão completo”, ressalta a professora, enfatizando ainda que essa preocupação é uma característica marcante da Cidade Dom Bosco. Ela salienta, no entanto, que o trabalho é realizado de forma ecumênica, respeitando todas as escolhas religiosas, mesmo se tratando de uma escola confessional, que assume a fé católica.

No topo, padre Ernesto transmite aos alunos os valores e princípios salesianos que permeiam a Cidade Dom Bosco; acima, a professora Flávia Regina Leonor Freitas da Silva conduz cerimônia de Animação Pastoral no intervalo das aulas

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Amor e solidariedade cruzando o Oceano Atlântico 46

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Uma manhã repleta de emoção, 40 anos depois Naquela manhã em outubro de 2009, era grande a correria na Casa Salesiana para aprontar os festejos do aniversário de 90 anos do padre Ernesto Sassida, quando o telefone tocou. Como de costume, a professora Lindivalda Gonçalves dos Santos, 47 anos, atendeu e logo percebeu que do outro lado se falava italiano. Quando a pessoa se identificou como Mário Panchera, ela ficou muda, o coração disparou e as pernas bambearam. Alguns segundos depois, ambos se encontravam aos prantos, profundamente emocionados. Presenciando a cena em seu próprio escritório, o padre tomou o aparelho e logo chorava também.

Na página Oposta, a aluna Suellen Moreno de Lima, adotada à distância; no topo, recorte de jornal italiano com foto de Lindivalda Gonçalves dos Santos, adotada aos três anos; à direita, foto de criança pobre corumbaense mostrada pelo padre Ernesto às madrinhas na Europa

A razão de tamanha comoção é que Mário Panchera era um jornalista italiano que, havia cerca de 40 anos, escrevera a primeira reportagem sobre a Cidade Dom Bosco – que publicou na revista Anna Bella, incluindo a foto de uma garotinha carente de apenas três anos e ainda de chupeta na boca. Ao saber da existência do Programa de Adoção à Distância, que desde o início visava angariar recursos na Europa para custear o estudo de crianças pobres, ele decidida que sua filha, Filometa Panchera, quase da mesma idade, adotaria a menina. Naquela manhã de 2010, portanto, ao ligar para pedir notícias da criança adotada havia quatro décadas, fora ela mesma quem atendera ao telefone, deixando todos aos prantos. “Ele queria saber como eu estava, como era a minha vida, e que resultados tiveram as doações. Então, conversamos muito, trocamos e-mails e, até hoje, mando notícias minhas, e ele sempre expressa a alegria em saber que o esforço dele e da filha não foi em vão, que valeu a pena”, conta Lindivalda. O episódio, descrito com emoção tanto pelo padre quanto pela professora que cresceu dentro da instituição e a ela dedica a vida integralmente, é uma ligeira amostra da abrangência e do significado do programa iniciado por ele há mais de 40 anos, em uma de suas primeiras viagens à Europa desde que deixara a Eslovênia. A esta história se somam milhares de outras que permitiram a crianças carentes ter acesso à educação e se tornar cidadãos plenos.

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Desde o início, conforme explica Lindivalda, hoje integrante da Assistência Social, setor que coordena a execução do programa em Corumbá, padre Ernesto tirava fotos das crianças necessitadas e mostrava-as às pessoas que encontrava nos países europeus, a quem pedia ajuda financeira. “Eles nos escolhiam pelas fotos e passavam a mandar recursos regularmente. E nós, quando ganhávamos madrinhas, passávamos a escrever cartinhas contanto sobre nossa vida. Os recursos enviados nos eram repassados como alimento, roupas, material escolar e presentes no aniversário e no natal”, conta, destacando que tudo o que era pedido em troca era a dedicação aos estudos.

O alívio certo, na dose e na hora exatas

No topo, campanha do Programa de Adoção à Distância na Itália, com o nome de La Cidade Bambini di Padre Ernesto Sassida (A Cidade dos Meninos); abaixo, alunos de Dornberk, na Eslovênia, ajudam a divulgar o programa

Ainda hoje, tantos anos passados, as adoções por madrinhas e padrinhos continuam sendo a base do trabalho da Cidade Dom Bosco, da qual mais de 1 mil crianças e adolescentes pobres tiram a condição de estudar e têm alegrias que não teriam de outra forma. Uma delas é Suellen Moreno de Lima, 17 anos e aluna do 9º ano na Escola Dom Bosco, onde sempre estudou. “Desde a primeira vez que vim para a escola a cavalo, juntamente com meus três irmãos, o padre Ernesto tirou foto de nós quatro e arrumou madrinhas para todos nós na Itália. Elas nos ajudam com material escolar, alimentação,

vale-transporte, remédios e consultas médicas. Graças a essa ajuda, também consegui estudar no Centro Profissional”, conta a estudante. Para muitos que já deixaram o programa, os reflexos perduram e a expressão de gratidão muitas vezes não encontra parâmetros, como é o caso da lavadeira e ex-afilhada Cassiana Ferreira Mendes, 45 anos. Ela conta que tudo começou quando o padre um dia visitou sua casa, quando tinha ainda dois anos, e a encontrou juntamente com a mãe, viúva e epiléptica, a irmã mais velha e a avó, alcoólatra. “Ele levou a única foto minha que minha mãe tinha, por meio da qual a minha madrinha me escolheu assim que a viu. Ela me ajudou muito financeiramente, e ainda mais com amor e carinho. Por isso, amo-a como à minha própria mãe, um amor tão grande que chega a doer o meu coração de saudade”, emociona-se. Do outro lado do Oceano Atlântico, as histórias de amor e dedicação são igualmente carregadas de significado, como descreve a madrinha Jolanda Ruggeri, (de Gênova-Itália), em carta ao padre: “Hoje recebi a agradável cartinha do Silas (Conceição Rodrigues, hoje com 15 anos), com lindas e carinhosas palavras. Lendo-as, revivi em parte a sua vida tão empenhada e cheia de amor e coragem por essas crianças e suas famílias. Agradeço por ter-me dado a oportunidade de ajudá-lo e o faço de todo o coração”, diz, enquanto a madrinha Anna Sorentino, de Veneza, na Itália, acrescenta: “Acabo de receber uma carta do Antonio (Santana de Oliveira, hoje com 20 anos), que precisa de mim. Ele será agora o meu afilhado e receberá todo o meu empenho e compromisso de amor”. Enquanto de lá as madrinhas expressam todo amor e satisfação em contribuir com o futuro das crianças, em Corumbá predomina o reconhe-

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cimento das mães ao valor da ajuda financeira e afetiva aos filhos. “Não tínhamos condições de tratar da nossa filha, Roseane do Nascimento Maciel, que sofre de anemia falciforme. Foi então que apareceu a Cidade Dom Bosco e deu a ela uma madrinha”, conta a dona de casa Rosa do Nascimento, 44 anos. “A Cidade Dom Bosco nos ajudou muito na luta contra o câncer, buscando recursos para que fizéssemos o tratamento de nossa filha”, acrescenta a também dona de casa Luzinete Benedita da Silva, 50 anos, mãe de Valdilene Maria da Silva, portadora de leucemia.


Do coração da Toscana para o Pantanal Enquanto em Corumbá uma equipe de seis pessoas da Assistência Social atua para fazer chegar aos afilhados toda a ajuda necessária em recursos e carinho, é em Florença, capital da bucólica e verdíssima Toscana, na Itália, que trabalha quem faz tais recursos chegarem ao Brasil. A publicitária Laura Anselmi, 53 anos e sobrinha do padre Ernesto, é a coordenadora na Europa do Programa de Adoção à Distância, e sua tarefa é manter e ampliar a relação entre a Cidade Dom Bosco e as madrinhas e padrinhos na Itália, Espanha e Eslovênia. Para isso, deixou de lado a profissão original e passou a se dedicar exclusivamente à obra do tio, no escritório na própria casa. Na Itália, a iniciativa é conduzida com o nome de La Cidade Bambini di Padre Ernesto Sassida (A Cidade dos Meninos), uma associação que reúne colaboradores de todas as regiões daquele país, e que realiza e organiza a coleta dos fundos a serem enviados a Corumbá. É a entidade que se incumbe de fazer chegar às madrinhas as cartas, fotos e informações escolares de todos os afilhados, além de administrar a entrada de novas crianças no programa, quando surgem novos associados. “Quando é o caso, pedimos à Assistência Social a indicação das situações mais necessitadas para dar destino às ofertas”, diz Laura. A coordenadora conta que, embora a relação e a comunicação entre madrinhas e afilhados existam há mais de 40 anos, como fruto das viagens do padre – havendo pessoas que participam desde o início –, a adoção formalizada começou há cerca de 10 anos, quando ela assumiu a função. Atualmente, são cerca de 900 crianças na Itália, mais de 200 na Eslovênia e em torno de 50 na Espanha, chegando a aproximadamente 1.200 afilhados. “No entanto, há muitos outros benfeitores, que não adotam formalmente, mas ajudam de forma genérica, porém frequente”, acrescenta. Atualmente, conforme salienta Laura, a adoção à distância já é bastante conhecida e muitas pessoas praticam-na mesmo sem conhecer o padre Ernesto. Por isso, seu trabalho consiste em entrar em contato com grupos de madrinhas já existentes, divulgando a Cidade Dom Bosco e fornecendo toda informação necessária para garantir a idoneidade da instituição. “Muitos colaboradores

salesianos também chegam até nós após pedir à sede em Roma a indicação de um missionário mais familiarizado com as adoções. Nesse ponto, o padre Ernesto é o mais organizado da América Latina, e é copiado na Índia e na África”, enfatiza. Ao contrário do que se pode imaginar, Laura revela que não são as pessoas mais abastadas que integram o programa, e sim as mais pobres, muitas das quais sobrevivem apenas da aposentadoria e que, às vezes, pedem dinheiro aos filhos para ajudar os afilhados. “Em geral, são pessoas que nasceram pobres, conhecem muito bem a pobreza e sabem o que é precisar de ajuda, ou seja, que melhoraram um pouquinho porque e um dia encontraram alguém que as ajudasse”, observa, afirmando que esta foi a cultura que se instalou na Europa como consequência das guerras do século XX.

Acima, a publicitária Laura Anselmi, coordenadora do Programa de Adoção à Distância na Europa; abaixo, vista de Florença, na Itália, onde está sediado o programa que reúne madrinhas e padrinhos também da Eslovênia e da Espanha

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A fé e o amor em prática na Paróquia São João Bosco Poucos minutos haviam se passado das 7 horas, em uma agravável manhã de inverno, quando centenas de alunos em seus uniformes azuis tomavam conta de uma das calçadas da Rua Dom Aquino, no bairro Dom Bosco, em Corumbá. Era 16 de agosto, dia do nascimento de São João Bosco e, acompanhados de vários professores, eles percorriam os cerca de 400 metros entre a escola e a paróquia que levam o nome do Santo. Dentro da igreja, quem os recebia era o responsável pela existência das duas instituições, padre Ernesto Sassida, ao lado do atual diretor da Cidade Dom Bosco, padre Osvaldo Scotti. Eles se preparavam para ministrar a missa em homenagem ao fundador da Congregação Salesiana e maior inspiração do menino esloveno que veio ser padre em Corumbá. No topo, alunos da Cidade Dom Bosco chegam de manhã à Paróquia São João Bosco para missa em homenagem ao santo; à direita, padres Osvaldo Scotti e Ernesto Sassida conduzem a cerimônia; acima, a paróquia em construção

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Hoje a Paróquia São João Bosco destaca-se imponente entre árvores ornamentais, entre ruas limpas, espaçosas e bem urbanizadas, com uma vizinhança tranquila e organizada, mas não fora sempre assim. Quando começou a ser construída, em 27 de maio de 1979, sob o comando do padre Mário Gosso, seu primeiro pároco, o cenário ao redor era muito diferente. Naquela época, o bairro ainda lembrava em muito aquele que fora considerado um dia o mais pobre e perigoso da cidade, embora a presença da Cidade Dom Bosco havia 18 anos já tivesse provocado profunda transformação social.


Enquanto o padre Mário liderava os fiéis e a busca por recursos, quem conduzia os trabalhos era o então professor de educação física da Escola Dom Bosco, José Gonçalo de Barros, 64 anos, hoje militar da reserva. Como presidente da Comissão Pró-construção da Igreja, ele conta que idealizou e coordenou o projeto até vê-la inaugurada. “Para isso, fizemos muitas promoções para angariar fundos, nas quais contávamos com a imensa liderança e prestígio do padre Ernesto, em nome de quem alcançávamos os objetivos”, diz, lembrando de iniciativas como os Festivais da Vaca Preta, os Arraiais do Pimpão e as Festas de São João, além das rifas em datas sugestivas, como o Dia das Mães e dos Pais. Conforme relata o professor Renato Báez no livro O Profeta do Pantanal (1988, Editora das Escolas Profissionais Salesianas), ainda assim os recursos eram escassos. Foi então que, “coordenado por dona Mireta Costa de Barros, um grupo de senhoras abriu um ‘livro de ouro’, tornando-se madrinhas da construção. (...) Finalmente, em 8 de novembro de 1981, com a doação dos sinos pela família de Alfredo Zamlutti, benzidos pelo bispo diocesano Dom Miguel Alagna, foi inaugurado solenemente o templo e aberto ao culto popular”. Padre Ernesto conta que o sonho de construir uma grande igreja dentro do território da Cidade Dom Bosco vinha desde quando pediu, em 1961, ao arquiteto José Sebastião Cândia que desenhasse o projeto da futura obra. “Por que então ela foi construída fora?”, questiona ele retoricamente, respondendo; “Alguns anos antes, um casal de velhos tinha dois lotes vizinhos ao ‘barraco’ (de dona Catarina Anastácio Cruz), e eles imploraram para que nós os comprássemos, pois precisavam de dinheiro. Não tí-

nhamos recursos, mas disseram que qualquer quantia serviria, e nos vimos obrigados a ajudar. Anos depois, foi lá que se ergueu o templo”. Em 1987, chegou a Corumbá o padre italiano Pascoal Forin, hoje com 74 anos, salesiano missionário que havia chegado ao Brasil em 1959. Ex-pároco em Campo Grande e Lins-SP, com longos anos de experiência entre os índios bororo e xavante, no âmbito da Missão Salesiana de Mato Grosso, e na periferia de São Paulo-SP, veio assumir a igreja e contribuir com o padre Ernesto no trabalho em favor da imensa comunidade pobre local. Logo organizou a Pastoral da Terra, hoje intitulada Pastoral Social da Diocese de Corumbá, inserida nos assentamentos rurais, onde também instituiu um programa de microcrédito para ajudar as comunidades a desenvolver atividades de auto-sustentabilidade familiar. “À frente da Paróquia São João Bosco, encontrei o ambiente favorável para minhas ideias e meu jeito de ser, pois tudo o que fazemos está permeado de uma dimensão social muito forte, implantada pelo padre Ernesto”, comenta o pároco, reconhecendo que todos os bairros localizados ao redor da Cidade Dom Bosco devem muito à instituição por todo o desenvolvimento social que ela proporcionou. “Todos esses terrenos recebidos ou adquiridos pelo padre Ernesto ajudaram a formar, por meio da escola e depois da paróquia, bons cidadãos e bons cristãos. Portanto, a Cidade Dom Bosco é um conjunto, onde tudo se completa”, diz. Com essa filosofia e proposta de trabalho, padre Pascoal fundou, como extensão do Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF), no qual atuou por vários anos, um complexo social de atenção às crianças carentes da

periferia corumbaense. Implantado no bairro Cristo Redentor, um dos mais pobres e o maior da parte alta cidade, o conjunto é composto pela Casa de Recuperação Infantil Padre Antônio Muller (Cripam), um pequeno hospital para crianças desnutridas; a Casa Abrigo Irmã Marisa Pagge para Crianças Vítimas de Abandono ou Violência; e a Casa de Acolhida Infantojuvenil (CAIJ), para adolescentes de até 17 anos. As três instituições coordenadas por ele reúnem 610 crianças e jovens.

No topo, o padre Pacoal Forin, que coordena diversos projetos sociais como extensão da Paróquia São João Bosco; acima, os professores José Gonçalo de Barros e Rita Maria Couto de Barros, atuantes na construção do templo

Na opinião do pároco, esse trabalho se explica pelo fato de que o maior mandamento cristão é “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”, sendo que não existe outra maneira de demonstrar esse amor a Deus senão despertando-se para o amor ao próximo. “Na prática, se eu amo, não posso ficar inerte. Eis a missão de todo cristão e de toda comunidade cristã, e é isso que busca fazer a Paróquia São João Bosco”, conclui. Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Qualidade de vida em harmonia com a natureza

Eu tinha de 13 para 14 anos quando minha mãe tirou de minhas mãos as 17 bonecas, que inspiravam a minha ideia de um dia ter 17 filhos, e as entregou aos voluntários do Sino da Caridade, dizendo: ‘Você já brincou muito com elas, agora é hora de fazer felizes crianças que precisam mais do que você’”. A história contada pela professora Lígia Maria Baruki de Melo, 55 anos, ocorreu há mais de quatro décadas e ilustra uma pequena faceta de uma das ações criadas e conduzidas pelo padre Ernesto Sassida, hoje realizada sob o amparo institucional do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER).

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Além deste, outras diversas iniciativas, como o Projeto “A Procura de Pequenos Heróis”, são capitaneadas pela organização não-governamental nascida em 2001 como “a manifestação da vontade do padre e de um grupo de pessoas de que essas causas sociais tivessem continuidade”, como define o seu primeiro presidente, Ruiter Cunha de Oliveira, prefeito de Corumbá. “A criação do CENPER representou o desejo de que sua obra fosse assumida pela sociedade corumbaense. Ou seja, de despertar no seio da comunidade a preocupação com as causas sociais, em especial com crianças e jovens”, salienta. Atual presidente, Lígia Maria enfatiza que a palavra “ambiental” está no nome da entidade não por acaso, mas com um foco muito claro, ousado e apropriado para a região: servir o ser humano e, principalmente, aquele que mais precisa, considerando-o no contexto do meio ambiente. “Desde o início, tínhamos em mente que tudo pode ser feito para que o homem sobreviva com dignidade e qualidade de vida, desde que a natureza seja preservada”. Este é o pano de fundo da ONG, sempre observado pelo padre Ernesto que, desde o início, procurou envolver pessoas preocupadas com as questões ambientais.

Ela explica que o CENPER atua principalmente como um grande guarda-chuva que resguarda os projetos já existentes desde muito antes de sua fundação e que foram incorporados e potencializados. “Embora tenha iniciado novas ações, curiosamente as mais duradouras são aquelas que já existiam e foram fortalecidas pela entidade”, comenta a professora, citando a realização do Projeto “A Procura de Pequenos Heróis”, que mobiliza todas as instituições de ensino de Corumbá, públicas e privadas, com o intuito de incentivar e divulgar a prática de boas ações por crianças e adolescentes. Ao contar que, quando começou a prestar atenção no mundo já ouvia falar de padre Ernesto, e já via a figura dele entrando em sua casa, Lígia Maria destaca ainda que um dos elementos que unem os membros da organização é a determinação de não deixá-lo só na condução e liderança das tantas iniciativas que se irradiam da Cidade Dom Bosco. Ou ainda de não deixá-las sobre as costas de pessoas que já têm uma escola


inteira para cuidar. “Com essas ações, a instituição extrapola em muito os muros da escola, e é nesse sentido que o CENPER procura contribuir, em conjunto com entidades coirmãs, que são a União dos Ex-alunos da Cidade Dom Bosco e o Clube dos Amigos do Padre Ernesto”, frisa. “Ao ser o primeiro presidente, abracei a causa do CENPER, juntamente com várias pessoas, justamente por ele representar a preocupação do padre Ernesto em dar respostas às causas sociais e em ir ao encontro das necessidades populares”, observa Ruiter, reforçando que a entidade precisava lembrar o trabalho, a dedicação e a história do sacerdote. Na opinião dele, o maior exemplo do padre é jamais ter esperado a iniciativa dos governos para trabalhar pelos necessitados. “Ele se doou primeiro, buscou resolver os problemas, mostrando que não se pode esperar apenas do Poder Público, mas que todos nós temos que fazer uma parte”, completa.

Na página oposta, Ruiter Cunha de Oliveira, primeiro presidente do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER) e atual prefeito de Corumbá, com o padre Pascual Chávez Villanueva, 9º sucessor de Dom Bosco; no topo, padre Ernesto Sassida desfila com crianças na comitiva do CENPER (também abaixo, à direita); abaixo, à esquerda, a professora Lígia Maria Baruki de Melo, atual presidente da entidade

Para o vereador Carlos Alberto Machado, ex-aluno do padre no Colégio Santa Teresa e também ex-presidente do CENPER, a dedicação à entidade é, para ele e muitos dos demais membros, uma humilde forma de demonstrar gratidão aos ensinamentos do mestre e ao trabalho incansável em favor do povo que ele adotou. “Sempre atuei nos movimentos católicos e o padre Ernesto esteve sempre ao meu lado. Por fim, tive a honra de ser convidado por ele para ficar à frente desta entidade tão importante no contexto social e ambiental de Corumbá, que foi uma experiência muito gratificante como oportunidade de retribuir um pouquinho do que recebi desde a minha infância”, comenta.

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A perpetuação da obra e de seu espírito missionário No topo, mulheres desfilam representando a União dos Ex-alunos da Cidade Dom Bosco (ECDB); à direita, inauguração da sede própria da entidade; abaixo, professora Maria Angélica de Jesus Timóteo Amorim, presidente do grupo

“Minha história é parecida com a de milhares de crianças carentes que passaram pela Cidade Dom Bosco. De família muito pobre, de oito filhos, sendo eu o terceiro deles, fiquei órfão de mãe aos 11 anos. Iniciei meus estudos e permaneci na Cidade Dom Bosco até a conclusão do primeiro grau, hoje ensino médio. Foi um período muito rico para mim... Além da grande amizade com vários professores, alunos e funcionários da instituição, tive a felicidade de conhecer o padre Ernesto Sassida. Mais do que um padre, encontrei nele um pai, que me ofereceu sua atenção, seu carinho e seu amor incondicional, e me orientou na vida espiritual, ensinando-me que, acima de todas as coisas, existe Deus”. O depoimento é do comerciante Roberto Marinho Soares, 45 anos, mas certamente poderia ser de cada um dos mais de 4 mil ex-alunos da instituição hoje inscritos na União dos Ex-alunos da Cidade Dom Bosco (UECDB), para não falar dos mais de 25 mil que por ela já passaram. À frente da entidade há cerca de dois anos, a professora Maria Angélica de Jesus Timóteo Amorim, 51 anos, diretora da Escola Estadual Dom Bosco, ressalta que ela foi criada sob orienta-

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ção do próprio padre com o propósito de dar continuidade à sua obra em Corumbá e preservar o seu legado quando não mais estiver presente. Definindo-a como uma das muitas estruturas criadas para garantir a perpetuação do espírito missionário que sempre caracterizou a Cidade Dom Bosco, a professora relata que os membros da UECDB se reúnem mensalmente. “Mais do que para reviver os momentos prazerosos passados dentro da instituição, nós nos organizamos em grupos para trabalhar pelas comunidades carentes da cidade, buscando assim a manutenção do trabalho do padre”, conta. Ela enfatiza ainda que os ex-alunos estão espalhados na escola, no Projeto Sino da Caridade e em vários setores da instituição, exercendo funções espirituais ou materiais em prol dos mais necessitados. Como reflexo da própria dimensão da obra iniciada em 3 de abril de 1961 pelo sacerdote salesiano, os objetivos da entidade não são modestos. Assim, por meio da constante e intensa mobilização de seus membros, propõe-se a dar absoluta prioridade à promoção integral das crianças

e adolescentes necessitados e ao apoio à família carente, no intuito de contribuir para a transformação da sociedade corumbaense, dentro de concepções e valores cristãos, de caridade, solidariedade e fraternidade. Conforme explica o próprio padre, a entidade existe também como um ponto de apoio à estrutura familiar e social dos ex-alunos. Como acrescenta Roberto Marinho, sua participação na UECDB é apenas uma modesta forma de retribuir o fato de que seu caráter e sucesso profissional devem-se muito às orientações recebidas na Cidade Dom Bosco. “Assim, posso mostrar um pouquinho do orgulho que tenho de ter vivido durante vários anos nesta instituição que, mais que uma escola, foi e será sempre a minha casa”, finaliza.


Amigos unidos na busca da paz e da generosidade “O meu pai, José Antunes da Costa Filho, não era um homem de muitas posses, mas fez questão de doar, por volta de 1960, um terreno onde depois foi construída a Cidade Dom Bosco. Então eu tenho o maior orgulho de saber que ali tem um pedacinho dele”, conta o cirurgião dentista e político Lamartine de Figueiredo Costa, 64 anos, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Corumbá. Ele lembra que foi ainda em 1959 que teve o primeiro contato com o padre Ernesto Sassida, como aluno de canto orfeônico e geografia no Colégio Santa Teresa, e desde então só cresceu a relação de respeito, admiração e amizade, resultando em uma frutífera parceria. Um desses frutos foi a fundação, em 2006, do Clube dos Amigos do Padre Ernesto (CAPE), que Lamartine preside desde então e cujo propósito é divulgar a obra do sacerdote, motivar, sensibilizar e conclamar as pessoas para continuar seu trabalho em favor daqueles sem vez e sem voz. “Por meio dessa entidade

e em continuação ao trabalho que ele começou, procuramos trabalhar a conscientização pela cultura da não violência, não às drogas, às gangues, à prostituição infantil e à violência sexual contra crianças. Ou seja, atuamos como motivadores da sociedade para que essas mazelas não ocorram” explica. Lamartine conta que o CAPE é composto por pessoas que conhecem a vida e a história do padre e estão interessadas em multiplicar os resultados de seu trabalho, hoje consolidado na sociedade corumbaense. Para isso, o grupo se reúne periodicamente, participa de eventos salesianos e organiza campanhas e passeatas, envolvendo a juventude nas causas sociais e tentando levar para além dos limites de Corumbá a busca pela paz, pela generosidade e solidariedade. “Temos claro que o objetivo maior, do clube e das demais entidades, é tomar as providências para garantir a continuidade da Cidade Dom Bosco no futuro”, completa.

Um desses amigos determinados a perpetuar a obra do padre Ernesto é o produtor de textos Ahmad Schabib Hany, 51 anos, colaborador há quase 20 anos e também um dos fundadores do clube. Para ele, é dever dos amigos e ex-alunos manter e divulgar a obra social que atravessou cinco décadas “sem perder a ousadia, o pioneirismo e a ideia-motriz de sua gênese: o amor como instrumento de integração social de expressiva parcela da população de uma das mais ricas regiões do planeta”. No entendimento de Ahmad Schabib, foi o amor sem limites que transformou e continua transformando o destino das crianças e adolescentes, que vêm para este salutar convívio, e que hoje atuam como agentes de transformação de Corumbá em uma cidade mais fraterna, solidária e acolhedora. “Sem lugar a dúvidas, o coração do Pantanal se transformou generosamente, com a indispensável participação desta obra social cujos frutos palpitantes e exemplares passaram a irradiar seus horizontes para um mundo mais cristão. Mas é preciso continuar o trabalho, e é o que os amigos buscam humildemente fazer”, conclui.

No topo, o cirurgião dentista Lamartine de Figueiredo Costa, presidente do Clube dos Amigos do Padre Ernesto (CAPE), com crianças participantes de iniciativas de valorização da educação; abaixo, o próprio padre cercado de crianças atendidas por sua obra

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A gratidão se estampa na face e se projeta nas palavras Por mais que se tente fazer projeções, é reconhecidamente impossível saber quantas pessoas a Cidade Dom Bosco, como extensão do padre Ernesto Sassida, ajudou e acolheu ao longo de seus 50 anos. Desde as senhoras italianas que retiram parte de suas aposentadorias para adotar à distância até as crianças pobres, sem qualquer perspectiva, que puderam assim estudar com dignidade, incluindo tantos funcionários, professores, colaboradores, voluntários...

Acima, cerimônia do primeiro aniversário da Escola Profissional Alexandre de Castro; abaixo, os irmãos Darcy e Paulo André Ferreira da Cruz, filhos de dona Catarina Anastácio Cruz, a mulher que cedeu o ‘barraco’ para o início da escola

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Tanto do lado de quem recebe quanto de quem doa, são incontáveis os que construíram e compõem esta corrente de amor e solidariedade em favor do presente e do futuro dos que quase nada têm. Mas o que teriam essas pessoas a dizer? Como gostariam de expressar o que receberam, o que deram e o amor que partilharam? Nada melhor do que deixar algumas delas, em nome de todos que, algum dia e de alguma forma, colocaram letras nessa história, expressar livremente o que sentem.

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“No fim da década de 1950, meus pais se mudaram para o bairro Cidade Jardim, que abrigava um número muito grande de moradores pobres e com muitos filhos. A escola mais próxima era o Colégio Santa Teresa, a quatro quilômetros de distância. Sensibilizada com a situação das crianças, minha mãe resolveu se engajar na luta pela educação. Procurou as autoridades e, junto com o padre Ernesto, a primeira sala de aula foi implantada em nossa própria casa. E aquela escola se transformou no fenômeno que é a Cidade Dom Bosco, hoje reconhecida mundialmente. Posso dizer com muito orgulho que o sonho da minha mãe foi realizado e com orgulho ainda maior por ter sido o aluno número um deste tão respeitado estabelecimento de ensino”. Darcy Ferreira da Cruz, gráfico, filho de dona Catarina “Fico feliz por minha mãe ter alcançado seu objetivo. Mesmo sendo analfabeta, deu ensinamento a vários doutores na época e, o que é melhor, a várias crianças carentes do bairro que, pela distância do colégio mais próximo, não frequentavam as salas de aulas, doando uma peça de sua casa para se transformar uma pequena escola. Orgulho-me ainda mais porque, no quarto onde nasci, formou-se o Grupo Escolar Alexandre de Castro, hoje não mais um grupo e sim uma cidade, a Cidade Dom Bosco, que considero a minha irmã mais nova. Rezo para que muitas Donas Catarinas possam nascer novamente”. Paulo André Ferreira da Cruz, empresário, filho de dona Catarina


Ao lado, padre Ernesto Sassida em momentos de intensa convivência com a realidade das crianças atendidas pela Cidade Dom Bosco; abaixo, a professora Rosangela Villa da Silva, que sugeriu a outorga do título de Doutor Honoris Causa ao padre, em 2004

“Sou mãe de dez filhos, cinco mulheres e cinco homens, e todos terminaram o ensino médio na Cidade Dom Bosco, onde eu mesma estudei entre 1963 e 1978. Ela é meu segundo lar, e o Padre Ernesto se tornou para mim um grande herói que, com sua humildade e dedicação, nos transmite uma valiosa lição de vida, fazendo-nos acreditar que com a fé tudo se pode. Na minha vivência como cidadã e cristã, procurei educar meus filhos com os princípios que lá recebi, através de Padre Ernesto e seus educadores”. Narcisa Rosália da Silva, comerciante

“Nascida em 1955, fui aluna da primeira turma da Escola Profissional Alexandre de Castro, que funcionou na humilde casa de tábua de dona Catarina, e foi graças a ela que depois me formei no Instituto Superior de Pedagogia, em Corumbá. O bairro era carente e perigoso, sem igreja, escola, centro comunitário, associação de bairro e campos de esporte, e hoje é muito tranquilo, depois que acolheu a Cidade Dom Bosco. Hoje, quando se fala em bairro Dom Bosco, lembramo-nos primeiramente da Escola Dom Bosco, que é um modelo para todas as pessoas que pensam em um trabalho honesto e responsável”. Maria José Nascimento Araújo, pedagoga

“Sou mãe de três filhos que estudaram na Cidade Dom Bosco, onde também estudei e onde atualmente estudam os meus netos. A Escola Dom Bosco tem importância valiosa, principalmente na minha infância, de quando guardo lembranças doces e inesquecíveis ligadas ao padre Ernesto Sassida, um ser humano admirável, que chegou ao nosso país com apenas 15 anos trazendo princípios sagrados de Dom Bosco, com o intuito de servir ao próximo e para cuidar de crianças carentes, sem escolas, algumas sem família, perambulando pelas ruas, sujas e desnutridas. Fazendo isso, ele sensibilizou, mobilizou e revolucionou”. Ana Maria Ferreira Espinóza, educadora “Sinto-me um cidadão honrado e realizado por ter feito parte da família salesiana da Cidade Dom Bosco, cujo nascimento e grandeza se devem ao seu fundador, padre Ernesto Sassida, um homem chamado pelo ‘secreto desígnio da Providência’. Como aluno e depois como professor, esta instituição exerceu sobre mim uma forte influência, determinando muitos aspectos da minha vida ao construir os traços mais decisivos para a minha formação profissional e espiritual. Os princípios, regras, normas, sejam morais e espirituais, são valores que aprendi a cultivar e que são hoje imprescindíveis para o pleno exercício da cidadania”. Wilson Alves Amorim, professor

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Acima, a professora Rita Maria Couto de Barros com o padre Ernesto; à direita, alunos e professora em aula na varanda de um dos pavilhões da Escola Dom Bosco, enquanto aguardavam as salas ficarem prontas

“Reconhecer a relevância da Cidade Dom Bosco na minha formação é descrever uma trajetória de vida moldada pela educação salesiana, tendo como princípios básicos valores como a generosidade, a lealdade, o amor e o perdão, dentre outros. Para além de professores excelentes que me revelaram o segredo das letras e dos números, a orientação moral e espiritual recebida, sob a qual tenho pautado toda a minha caminhada, constitui um divisor de águas em minha vida. Acredito que eu não seria quem sou e não chegaria aonde cheguei se não tivesse recebido a formação que me foi dada na Cidade Dom Bosco”. Rosangela Villa da Silva, professora universitária “Agradeço ao ‘Senhor’ por ter vivido a minha infância e adolescência, e por poder praticar a minha vocação com alegria e entusiasmo na Cidade Dom Bosco. Hoje, procuro vencer as dificuldades surgidas e acreditar nos meus educandos, assim como um dia o padre Ernesto acreditou e mostrou-me o caminho do bem, ensinando-me o amor de Deus e a ser uma pessoa honesta, cumpridora dos meus deveres, perseverante nos meus ideais e na minha fé. Agradeço todos os dias da minha vida por fazer parte dessa história de amor que é a Cidade Dom Bosco”. Sandra Márcia Gomes De Almeida, educadora

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“Agradeço a Deus por ter-me dado a oportunidade de conhecer o padre Ernesto, alma generosa e exemplo de dedicação e amor pelos mais necessitados. Como membro do CENPER e madrinha de uma criança da Cidade Dom Bosco, passei a conviver de perto com ele e com essa organização social de trabalho humanitário que ele idealizou. Desse convívio, tenho guardado boas recordações e gratificantes momentos aprendizado, de alegria, orientação e conforto para jovens e adolescentes de origem humilde. Obrigada, padre, por sua presença, por seu exemplo de amor e fraternidade”. Ângela Varela Brasil, professora universitária “Ser ex-aluna salesiana foi um aprendizado singular de vida, de princípios éticos, de fraternidade e de garantia de uma existência interpessoal harmoniosa. Como educadora salesiana, proponho-me a uma reflexão em torno de meu papel social em relação aos jovens e adolescentes e à prática de uma educação que realmente contribua de forma crítica e consciente para a constituição de uma sociedade justa e fraterna. Eu e minha família agradecemos ao padre Ernesto por partilhar conosco e com milhares de outras crianças sua coragem e generosidade na missão árdua, mas ousada, de construir uma Cidade feita de Amor, Fraternidade e Fé: A Cidade Dom Bosco”. Roseane Limoeiro da Silva Pires, educadora “Bem que poderíamos chamá-la de a verdadeira ‘Cidade de Deus’, pois a presença d’Ele é uma constante naquele espaço. Lá se respira a paz, a caridade, a esperança, o bem, a auto-estima e principalmente o amor. Foram 25 anos trabalhando junto e ao lado do grande padre Ernesto, um homem que representa tudo o que foi descrito acima e muito mais. Sou testemunha da luta, do apoio recebido dos europeus e do sucesso que dela surgiu. Como professora de História, sinto orgulho em também fazer parte da história dessa casa que tanto fez e faz pelas crianças e jovens carentes de nossa cidade”. Miriam Glória Victorio Nogueira, professora


“Trabalhadores do lixão, de onde tiram o sustento para suas famílias, cujos filhos estão incluídos no Programa de Adoção à Distância da Cidade Dom Bosco, recebem ajuda para reparos e ampliação em seus barracos. Os afilhados recebem alimentos, medicamentos, material escolar, agasalhos, etc. Estes são apenas alguns exemplos da dimensão do trabalho do padre Ernesto Sassida, que incansavelmente vem buscando detectar o foco gerador e combatendo a ‘miséria humana’ que assola a vida dos que são assistidos pela instituição”. Rosa das Graças Nunes Delgado, educadora “Na Cidade Dom Bosco, éramos mais do que professores, éramos missionários, ajudando o padre Ernesto a fazer um trabalho de formação com as crianças, e por isso não tínhamos problemas de disciplina, os alunos obedeciam mesmo, como resultado do trabalho que ele coordenava. Graças a isso, hoje temos tantos ex-alunos que se sobressaíram na vida pelo que aprenderam lá, temos pessoas desempenhando papéis importantes por toda a sociedade corumbaense, que foram estimulados na Cidade Dom Bosco. E toda a comunidade reconhece a influência positiva da instituição na história da cidade” Rita Maria Couto de Barros, pedagoga “Vivenciei um tempo na Cidade Dom Bosco em que as nossas carteiras escolares eram cavaletes com tábuas brutas em cima e os bancos eram caixotes de madeira, ambos feitos pelos próprios carpinteiros que construíram o prédio. Em 1985, com grande alegria retornei à instituição como professor e vi todos aqueles jovens indo e vindo com o sua peculiar agitação, conversando, rindo, gesticulando. Senti o quanto estava feliz de retornar àquele ambiente, como se voltasse a ser criança, adolescente. Muito obrigado Cidade Dom Bosco, muito obrigado Padre Ernesto por nos ter dado a chance de ser ‘alguém na vida’, a oportunidade de conquistar o nosso espaço na sociedade e orgulho de dizer: ‘Somos Ex-Alunos da Cidade Dom Bosco’. Joaquim Duarte Padilha, contador

“A história de vida do padre Ernesto Sassida é o triunfo da tenacidade e expressão maior do amor social aos menos favorecidos. E sua atuação é o exemplo vivo de que a Educação é o progresso moral da sociedade e o trabalhado com paciência é o mais eficiente educador, especialmente na infância. Hoje seus filhos ‘dombosquianos’ prestam relevantes serviços à sociedade brasileira, pois ele não desprezou o tempo, porque o tempo vem de Deus e está catalogado não somente no livro de sua vida, mas de uma vida que viveu intensamente os 50 anos da Cidade Dom Bosco. Para mim, a Cidade do Padre Ernesto Sassida”. Élio Marsiglia, advogado

No topo, alunos e professora da Escola Dom Bosco por ocasião das comemorações dos 40 anos da instituição; acima, uma das turmas de Patrulheiros Mirins; abaixo, o advogado Élio Marsiglia

“Percorrendo, sem alarde, há mais de 60 anos, a caminhada iniciada por Dom Bosco, padre Ernesto continua a iluminar, como um facho de luz, com inflexível energia, a busca de soluções para os angustiantes problemas que afligem a criança e a juventude de Corumbá e região. Alicerçado na vasta e profunda cultura humanística dele, estão fincados em Corumbá, orgulhosamente, há muitos anos, a União dos Ex-alunos de Dom Bosco, a Cidade Dom Bosco, as Associações de Amigos e Moradores dos Bairros, os Patrulheiros Mirins, os Escoteiros, as Bandeirantes, entre outros, monumentais e significativas realizações que transpuseram fronteiras e ganharam merecido destaque, aqui e alhures”. Adelmo Lima, advogado Cidade Dom Bosco – 50 anos

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Um mestre na arte de despertar para as causas sociais A voz dócil e suave da primeira-dama de Corumbá, Beatriz Cavassa de Oliveira, com a candura e sensibilidade de mãe, remete à expressão imaginada da mãe daquele menino de 15 anos que, em 1935, olhou para o rosto do filho pela última vez na estação de trem de Dornberk (Gorízia, Eslovênia). Talvez por esse espírito materno comum, ao falar do que representa a existência do padre Ernesto Sassida para a vida e a história de Corumbá, a secretária especial de Integração de Políticas Sociais do Município faz-nos imaginar a profundidade do olhar de Katerina Saksida quando viu o filho partir para o Brasil, certa de que jamais o veria em vida. Diferentemente dos soluços e da tristeza típicos da partida, no entanto, Beatriz fala com entusiasmo, alegria e gratidão por sua terra ter sido a privilegiada em receber o sacerdote. Os olhos brilham ao dizer que hoje, 75 anos após a primeira passagem pelo Pantanal, ele é querido, admirado e respeitado por todos os corumbaenses, e morador do coração de milhares de famílias, pelo trabalho social, pelo carinho e pela doação incondicional aos mais necessitados. “Por meio da Cidade Dom Bosco, ele é o nosso grande parceiro na realização de programas que visam tirar crianças e famílias da situação de risco e vulnerabilidade social em quem se encontram. Mais do que isso, é um verdadeiro representante de Deus em nosso meio, um continuador da obra de Jesus Cristo”, diz. O tom emocionado não se restringe à primeira-dama, mas toma conta de outros corações cuja trajetória também se pautou pela preocupação com as causas sociais. É o caso do cirurgião dentista Lamartine de Figueiredo Costa, atual administrador do Hospital de Caridade de Corumbá e presidente do Clube dos Amigos do Padre Ernesto (CAPE). “Por meio desta obra, ele difundiu Corumbá para o Brasil e o mundo. Mais importante, porém, é que crianças de famílias pobres sobreviveram e sobrevivem graças à ajuda de pessoas que nem as conhecem, através da ponte que ele construiu”, comenta, complementando: “É por isso que a história deste homem se confunde com a própria história da cidade”. Lamartine enfatiza ainda que as pessoas vêem o padre como o enviado de Deus para inspirá-las ao trabalho de inclusão social, de busca pela paz e pelo amor, mostrando que é possível construir uma sociedade justa por meio da educação com amor. É o mesmo pensamento do vereador Carlos Alberto Machado, para quem não há parâmetros que permitam medir a importância dele para Corumbá e Ladário. “Esta região seria outra, e não sabemos como seria, não fosse a vinda deste missionário para cá. Por tudo o que fez pela população, pela educação dos jovens e pelas pessoas mais carentes, a presença dele foi determinante para o nosso desenvolvimento humano e social”, completa. 60

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Com a serenidade que lhe é peculiar, o professor Hélio de Lima, secretário executivo de Educação de Corumbá, destaca que a vinda do Padre Ernesto para o Pantanal é um símbolo, por se tratar de uma pessoa que deixou sua terra e embrenhou-se em outros confins para trabalhar pelos outros. “E tendo isso como referência, ele priorizou a educação, acreditando que por meio dela as pessoas podem melhorar suas condições de vida, entrar para o mercado de trabalho e respeitar mais sua história”, salienta, chamando a atenção para a ideia de que o trabalho dele sempre foi fundamental para o exercício pleno da cidadania, “pois as pessoas muitas vezes não tinham a atenção dos pais em casa, e com ele encontravam o carinho e o acolhimento de que precisavam”.


Na página oposta, a primeira-dama de Corumbá, Beatriz Cavassa de Oliveira, e o prefeito Ruiter Cunha de Oliveira cumprimentam o padre Ernesto Sassida; ao lado, a padre desfila defendendo a interação entre governo e sociedade

No mesmo sentido, o prefeito de Ladário, José Antônio de Assad e Faria, ressalta que o lançamento do projeto “Pequeno Herói Ladarense” em 2009 é um exemplo da parceria entre aquele município e a Cidade Dom Bosco, que muito tem incentivado ações solidárias e humanitárias entre crianças e jovens. Para ele, a iniciativa é motivadora da liberdade, da solidariedade e da oportunidade contra o descaminho e a pobreza. “O padre Ernesto é um herói escolhido por Deus e a Cidade Dom Bosco, erguida por ele com coragem e sacrifício, é uma fortaleza que ajuda nossa cidade a combater a miséria e a melhorar a vida das famílias em situação de vulnerabilidade”, afirma. Um dos notórios exemplos dos resultados dessa obra, que deu condição às pessoas de voar alto, é certamente o ex-aluno e deputado estadual Paulo Duarte, que saiu das carteiras da Cidade Dom Bosco para ocupar importantes cargos na administração pública de Mato Grosso do Sul. Com a bagagem de vários anos na instituição, ele afirma: “O que falta no mundo sobra na Cidade Dom Bosco: o amor. No tempo em que o egoísmo prevalece, o padre Ernesto pensa primeiro nos outros e depois em si mesmo”. Para o parlamentar, no entanto, mais do que as justas homenagens, é preciso atitude e envolvimento das pessoas para dar continuidade ao trabalho. É nisso que acredita o prefeito de Corumbá, Ruiter Cunha de Oliveira, para quem são motivos de orgulho incalculável a amizade e a parceria com o sacerdote. Na opinião dele, não bastasse a grandeza de sua obra por si só, ela tem motivado inúmeras pessoas a adotar o trabalho em favor dos que mais necessitavam de carinho e atenção, especialmente crianças e jovens. “O padre Ernesto é uma figura que nos ensina, é um mestre na arte de nos despertar para a questão humanitária. Não é por acaso que ele nasceu no dia 15 de outubro, o dia consagrado ao professor. Ele é um mestre desde o nascimento, e todos os ensinamentos que fez, as crianças que ajudou hoje são cidadãos de bem, que contribuem para o engrandecimento da sociedade corumbaense”, conclui.

Acima, em sequência, padre Ernesto com crianças pobres; deputado estadual Paulo Duarte; e o secretário executivo de Educação de Corumbá, professor Hélio de Lima

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Defensores da educação e guardiões da prática do bem

Quando Bianca de Campos Cunha, 16 anos, subiu ao palco montado no Ginásio Dom Bosco, na manhã de 16 de abril de 2010, para receber uma ‘medalha de condecoração’ das mãos do bispo de Corumbá, Dom Segismundo Martinez Alvarez, ela representava os mais de 150 Novos Legionários que integram o dia-a-dia da Escola Estadual Dom Bosco, da qual é aluna do 2º ano. Mais do que pelas camisetas brancas, com o símbolo dos 50 anos da instituição estampado, eles se destacam entre os mais de 2 mil estudantes por duas razões: “São os guardiões da prática do bem e o resgate das iniciativas de ‘educação pelo próprio educando’ ao longo das décadas”, como define o próprio fundador, padre Ernesto Sassida. Professor da escola há 37 anos, o coordenador Paulo Roberto Rodrigues, 58 anos, é o responsável por organizar e supervisionar o grupo dos Novos Legionários de Dom Bosco, formado por alunos, de todas as séries, que se destacam por aproveitamento, comportamento, postura e frequência, entre outras virtudes. Conforme ele, os legionários são aqueles que, acima de tudo, agem como exemplos a serem seguidos, com a tarefa de defender e propagar a dedicação aos estudos. “Além disso, eles têm a incumbência de ajudar os companheiros em situações de dificuldades como, por exemplo, nas filas do refeitório, na portaria, nas escadas. Ou seja, são as molas mestras da escola”, explica. 62

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Na definição do idealizador, os legionários representam uma proposta educativa que abrange todas as demais iniciativas no sentido de envolver o aluno com a coletividade da instituição. “O legionário aquele que aceita e defende a educação, tornando-se um educador ao mesmo tempo em que é educado. Da mesma forma, ele assume e difunde o hábito de fazer o bem, de ajudar o próximo, convidando-o a fazer parte do time. Em resumo, trata-se de um grande diálogo de aceitação da educação”, afirma o padre, acrescentando que eles são responsáveis por ‘olhar e guardar’ o ambiente escolar, contribuindo para a manutenção da qualidade e da estrutura da instituição.


instituição. Em 1963, ainda na Escola Profissional Alexandre de Castro, a criação da Associação dos Bons Colegas inspirou o surgimento, em seguida, dos Legionários Mirins, que depois se tornariam os Patrulheiros Mirins Dom Bosco. Em 1965, surgiram as Bandeirantes, grupo que oferecia às meninas a oportunidade associativa e promocional. Outra experiência bem sucedida, entre tantas, foi o Grupo Escoteiro de Dom Bosco, criado ainda em 1970 e patrocinado pela Capitania dos Portos de Corumbá, inspirado no grupo Escoteiros do Mar Almirante Tamandaré, de Cuiabá-MT. É o que afirma a legionária Bianca de Campos, mostrando-se orgulhosa em fazer parte do grupo. “É um prazer, um privilégio, pois representa o reconhecimento por ser boa aluna e ter bom comportamento”, diz, explicando que a função envolve ajudar os professores no aspecto disciplinar e a Equipe de Animação Pastoral (EAP) nas atividades culturais e religiosas. “No recreio, somos responsáveis por zelar pelo comportamento dos demais alunos e observar o respeito entre os colegas, sempre tentando evitar conflitos e resolver os problemas antes que cheguem à direção da escola. Enfim, acredito que ajudamos a manter e a fortalecer os valores e princípios cristãos da Cidade Dom Bosco”, completa.

Na página oposta, um dos muitos grupos de Patrulheiros Mirins; ao lado, os Novos Legionários de Dom Bosco, que atuam em 2010; abaixo, grupos de patrulheiros, escoteiros e os antigos legionários

“Orientados desde criança para a oração, os estudos, o trabalho consciente e honesto, os alunos que se ocuparam das experiências associativas sob a rigorosa orientação do padre Ernesto, tais como patrulheiros mirins e legionários, sempre fizeram por merecer o justo reconhecimento da comunidade pelas ocupações desempenhadas”, observa o escritor e ex-político José Ferreira de Freitas, que completa: “Não foram poucos, dentre eles, que se elegeram, ora como prefeitos-mirins, ora como vereadores-mirins da Cidade Dom Bosco, conhecendo desde cedo o peso da responsabilidade”.

Como lembra a própria estudante, os Novos Legionários são o resultado e o resgate de uma série de iniciativas que, ao longo das últimas décadas, permearam a essência da

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Muitas obras publicadas e outras tantas por serem escritas Se outros fossem iguais a você... (2009, KMC Editora), de autoria do escritor, professor e ex-político José Ferreira de Freitas, conta a “impressionante trajetória do fundador da Cidade Dom Bosco, na sua total doação à juventude mais carente e na fase da sua educação dentro do Sistema Preventivo Salesiano”, nas palavras do próprio autor. A obra traz de pormenores da infância do biografado na Eslovênia até a longa lista de títulos e honrarias por ele recebidas. Entre elas, a inauguração em sua homenagem do Centro de Atendimento Integral à Criança – CAIC Padre Ernesto Sassida, em 1996, e o título de Doutor Honoris Causa outorgado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em 2004.

O mais recente capítulo mostrou-se na noite de 9 de dezembro de 2009, na sede do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), enquanto que os demais foram sendo escritos desde os primeiros dos 50 anos da Cidade Dom Bosco. Naquela noite, em solenidade com a presença de inúmeras personalidades políticas e eclesiásticas, Corumbá recebeu o lançamento do último dos oito livros até hoje publicados sobre a vida do padre Ernesto Sassida e a instituição criada por ele, além de outros incontáveis trabalhos, como teses e dissertações, capítulos de livros, reportagens e cartilhas, entre outros. 64

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José Ferreira responde ainda pela autoria de outros três livros que, juntos, compõem um amplo cenário da Cidade Dom Bosco, revelando-a como obra missionária de características únicas no Brasil. Estrela que tardava ainda... (2001, edição do autor) enfoca, com forte apelo poético, o caráter salesiano da educação preventiva da instituição. Ao Padre Ernesto, com gratidão (2002, edição do autor) foca mais profundamente os então 56 anos de sacerdócio do biografado. Por que? (2004, edição do autor) busca responder, por meio de um relato cronológico, algumas das muitas questões que cercam a vinda do padre para o Brasil e a existência da Cidade Dom Bosco.


Enquanto José Ferreira concentra-se na instituição e seu fundador, o professor, escritor e historiador corumbaense Augusto César Proença insere-os, com Corumbá de Todas as Graças (2003, Editora Ruy Barbosa), no contexto histórico e socioeconômico da cidade. Nessa perspectiva, ele traça um panorama da região desde a colonização, com destaque para o período áureo de desenvolvimento e riqueza após a Guerra do Paraguai (1864-1870). Por fim, chega à constituição e crescimento da obra missionária que interferiu positivamente na vida de milhares de cidadãos e contribuiu para a transformação social de um bairro inteiro, o Cidade Jardim, hoje bairro Dom Bosco. Pode-se dizer, no entanto, que nenhuma obra mergulhou tão fundo na historiografia da presença da Comunidade Salesiana na região e, por conseguinte, da própria Cidade Dom Bosco, quanto O Profeta do Pantanal (1988, Editora das Escolas Profissionais Salesianas), do professor e colaborador Renato Báez. Foi a primeira grande obra a retratar, certamente com o nível mais profundo de detalhes, os fatos que culminaram na fundação da Escola Profissional Alexandre de Castro, bem como a construção da atual estrutura da instituição e a constituição de todos os instrumentos educativos que compunham o seu sistema de ensino e de assistência social até aquele ano.

Mesmo sabendo que, desde O Profeta do Pantanal até Se outros fossem iguais a você..., tantas publicações ajudaram a imortalizar os fatos, as histórias de luta e sucesso e as “providências divinas” mais marcantes de seus 90 anos e dos 50 anos de sua obra, padre Ernesto ainda acredita que muito mais há por ser contado e, não menos, por ser feito. Foi o que expressou durante o lançamento do último livro, escrito como um presente do autor por seu nonagésimo aniversário: “Ver tantos amigos reunidos e o resultado de 79 anos de trabalho me dá forças para continuar lutando pela obra de Deus em favor dos mais carentes”. Na página oposta, o escritor José Ferreira de Freitas entrega ao padre Ernesto Sassida um dos exemplares do livro Se outros fossem iguais a você (também no topo), e algumas das publicações que marcaram a história da Cidade Dom Bosco; abaixo, alguns dos títulos mais expressivos sobre a instituição

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Mãos que ajudaram a construir 50 anos de educação Em qualquer um dos momentos em que fala da Cidade Dom Bosco, na maioria das vezes com incontida emoção, padre Ernesto Sassida toma todo o cuidado para deixar claro ao interlocutor que, além de ter sido sempre guiado pela “providência divina”, jamais esteve sozinho. É comum ele dizer que, mais do que qualquer outro papel, foi acima de tudo um “instrumento de Deus” com a missão de despertar e mobilizar corações, mentes e mãos para o trabalho em prol dos mais necessitados de Corumbá.

À direita, alunos no pátio da Cidade Dom Bosco, ilustração do pintor italiano Giovanni Giulianni, que retratou os momentos mais marcantes da história da instituição em seus muros e paredes

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Tendo contado sempre com a ajuda, o apoio, a compreensão e o desprendimento de inumeráveis benfeitores e colaboradores, de todas as camadas e funções sociais, o padre resume: “Sem eles, a jornada não teria sido possível, e a história certamente seria outra”. Como ele mesmo admite, seria impossível lembrar ou nomear todos aqueles que, em algum momento, colocaram pedras e ajudaram a erguer as paredes desses 50 anos da instituição que mudou tantas vidas. Alguns, no entanto, merecem luz e vêm a seguir:

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Benfeitores históricos da Cidade Dom Bosco - Alfredo Zamlutti Junior, empresário, doou os primeiros materiais de construção e os sinos da Paróquia Dom Bosco; - Antar Mohamed, empresário, doou material escolar e esportivo e criou a logomarca da instituição, a tocha acesa; - Senador Paulino Lopes, fez as primeiras doações significativas aos alunos pobres, abrindo conta poupança no Banco do Brasil para os primeiros 20 pequenos heróis; - Lino Viegas, pecuarista, benfeitor vitalício; - Jorge Katurchi, comerciante/empresário, divulgador e colaborador assíduo; - José Ferreira de Freitas, escritor e ex-político, biógrafo do padre, historiador e primeiro presidente da Comissão Pró-construção Escola Profissional Alexandre de Castro; - Jose Antonio Marinho Neto, em-

presário, financiou as viagens do padre pelo Brasil e outras 17 viagens ao exterior em busca de ajuda para construção da Cidade Dom Bosco; - Elisio Curvo, empresário, também financiou as viagens do padre em busca de ajuda; - Catarina Anastácio da Cruz, dona de casa, colocou à disposição seu próprio ‘barraco’ para dar início à Escola Alexandre de Castro; - Acyr Pereira Lima, pecuarista (in memorian), construiu a primeira quadra de esportes da instituição; - Moisés dos Reis Amaral, médico/ escritor, contribuiu na construção da quadra de esportes coberta; - Nanthala Dib Yasbek, comerciante (in memorian), fornecedor de alimentos; - Claudio Dichoff, comerciante (in memorian), colaborador assíduo - Hugo Pereira, pecuarista (in memorian), doou um ônibus à instituição.

Colaboradores leigos da Cidade Dom Bosco - Airton Pereira - Alcebiades Santiago Franco (Chutas) - Aldolfo Rondon - Alfio Pozz - Ary Zanella - Assunção do Carmo Vieira - Astrogildo Ramos - Carlos Pereira - Flávia Leonor de Freitas da Silva - Francisco Ramão da Silva - Giuliana Tanzi Pereira - Honorino Ventura da Silva - Ivone Maria Caldas - Jalbina Gomes da Silva

- João Luna de Lima - João Theodoro do Nascimento - Joilson Silva da Cruz - Jonas de Lima - José Gonçalo de Barros - Juarina Bom Despacho Da Silva - Lourival Campos - Luciene Cunha Costa - Norma Tereza Gomes (1ª professora) - Paulo Roberto Rodrigues - Rita Maria Couto de Barros - Waldemar Baiaroski - Wilson Alves de Amorim - Wilson Cavalcante de Moraes


Reconhecimento do Brasil e do Mundo desde o princípio

No florescer de seus 50 anos e detentora de um legado que contribuiu para a educação de mais de 25 mil alunos e beneficiou outros incalculáveis milhares de pessoas, por meio das ações sociais que a completam, não é de admirar que a Cidade Dom Bosco tenha atraído a atenção de autoridades e personalidades do Brasil e do mundo. E essa atração começou muito antes de estar concluída a colossal obra missionária, educativa, social, caritativa e profissionalizante do padre Ernesto Sassida, composta pela Escola Estadual e Centro Profissional Dom Bosco e pelo Projeto Criança e Adolescente Feliz (PCAF), entre tantos outros departamentos e estruturas. Começou ainda no início dos anos 1960 com a Escola Profissional Alexandre de Castro, quando tudo o que existia era um conjunto de barracos no então bairro Cidade Jardim, cujas humildes salas já eram ocupadas por centenas de alunos. Desde então, é inumerável a lista de visitas feitas por autoridades religiosas, políticas e militares: arcebispos, bispos, reitor-mor da Congregação Salesiana, inspetores regionais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, governadores de vários Estados, secretários de Estado, ministros, senadores, deputados federais e estaduais, desembargadores, juízes, presidente da Fundação Nacional de Menores (FUNABEM), prefeitos, vereadores e comandantes militares, além de educadores nacionais e estrangeiros.

Acima, o padre Pascual Chávez Villanueva, reitor-mor da Missão Salesiana em Turim (Itália) e 9º sucessor de Dom Bosco, em visita a Corumbá; à esquerda, em sequência, os governadores Pedro Pedrossian, José Garcia Neto e Marcelo Miranda

Entre os nomes mais assíduos, estão o governador do então Mato Grosso Uno e de Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian (1928), que exerceu mandatos de 1966 a 1971, 1980 a 1982 e 1991 a 1995; o também governador de Mato Grosso, José Garcia Neto (1922 – 2009), no poder entre 1975 e 1978; e o governador de Mato Grosso do Sul, Marcelo Miranda (1938), que exerceu o cargo de 1979 a 1980 e de 1987 a 1991. No plano religioso, merece destaque a visita, em agosto de 2009, do reitor-mor da Missão Salesiana em Turim (Itália), padre Pascual Chávez Villanueva, 9º sucessor de Dom Bosco. Ao conhecer o fundador da obra, declarou: “...estou impressionado. Aos 90 anos, ele tem o coração ardente pelo Espírito Santo que o move”.

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Do jogo de bola em 1930 no campinho improvisado de Dornberk, na Eslovênia – que impediu o menino Ernesto Saksida, então com 11 anos, de se tornar padre franciscano – à correria de meninos e meninas que a chutam em todas as direções em uma das inúmeras quadras esportivas da Cidade Dom Bosco, nos intervalos das aulas, esta poderia ser uma revista sobre futebol. E de fato é. Mas principalmente é uma revista sobre amor, que busca entender para então contar por que um menino de 15 anos deixou a distante Eslovênia, no Leste Europeu, e veio se encontrar no coração do Pantanal. E ainda, o que o levou a idealizar e construir em Corumbá uma obra missionária, educacional e caritativa de dimensões e características únicas no Brasil e talvez no mundo.

Uma revista sobre amor, educação e... futebol A Revista do Cinquentenário da Cidade Dom Bosco – instituição forjada em 1961 como fruto do profundo e incontido anseio de um jovem padre de oferecer amor, esperança e perspectiva a uma multidão de crianças pobres e desprotegidas – tenta, humildemente, retratar alguns dos fatos e personagens mais marcantes dessa história de amor, educação e solidariedade. Como um trabalho jornalístico, não tem a pretensão de reconstituir a dimensão histórica da Cidade Dom Bosco e, ainda menos, a trajetória de seu fundador. Busca, no entanto, ilustrar como mais de 25 mil pessoas tiveram o curso de suas vidas alterado graças ao trabalho de um homem cuja existência só uma palavra, em qualquer idioma, é capaz de definir: amor. Tal é a grandeza de sua existência e de sua obra ao longo das décadas que, não fizesse ele sempre questão de dizer que toda força lhe é dada por Deus, como a alguns escolhidos para missões específicas na Terra, seria plausível acreditar que se trata de um homem diferente de sua espécie, desses que, de tempos em tempos, a natureza nos dá o privilégio de conhecer. Mergulhando em suas memórias, é possível entender por que, já no início dos anos 1960, as famílias pobres de Corumbá, em seus barracos humildes, diziam com tanta ênfase: “Padre Ernesto, fique conosco, more conosco...”. Conhecendo as histórias que envolvem a Cidade Dom Bosco, torna-se mais palpável a crença no amor, na solidariedade, na vontade das pessoas de construir um mundo mais justo. A crença de que um Brasil melhor é possível.

Cidade Dom Bosco - 50 Anos  

Revista do Cinquentenário da Cidade Dom Bosco – Instituição missionária, educacional e caritativa, que há 50 anos vem ajudando a construir a...

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