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68% da população acha que a educação é responsabilidade dos governantes. PORÉM....

Texto por Gerson Doval Raugust Foto por Stephanie do Nascimento


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N

o início de cada ano letivo, uma cena é bastante comum. O rosto ansioso das crianças na expectativa do seu primeiro dia de aula, enquanto seguem de mãos dadas com os pais até chegar à frente da professora. A partir dali, ela irá conduzi-los à sala de aula. Essa sequência clássica que se repete ao longo da história simboliza, em muitos casos, a ideia de que nesse momento a responsabilidade da formação dos pequenos passa a ser da escola. É como se a família assinasse uma procuração, transferindo o trabalho de educar seu filho à instituição de ensino. Ela espera que depois de um pouco mais de uma década, aquele pequeno ser seja agraciado com o certificado de

Escola Dr. José Carlos Ferreira convive com a pouca verba pública e a ausência dos pais

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conclusão do Ensino Médio, e pronto para enfrentar o mundo. Durante todo esse período, ouve-se com frequência reclamações quanto à qualidade do ensino e, principalmente, aos baixos investimentos públicos. Isso fica evidente quando 68% da população credita aos governantes a responsabilidade da educação. Esse é o resultado de uma pesquisa realizada em 2008 pelo projeto Educar para Crescer, do Grupo Abril, e o IBOPE em nove regiões metropolitanas, incluindo Porto Alegre. Acontece que o processo de formação não começa com o primeiro toque do sinal do colégio, ele se inicia bem antes, dentro de casa. O incentivo deve partir dos pais, entretanto, o último Censo realizado pelo IBGE, em 2010, aponta que 705 crianças da Capital, entre 10


preciso reorganizar os horários para que tudo se mantivesse funcionando e a criança não fosse prejudicada. Assim, Grace passou a fazer sozinhas, as tarefas escolares e as mostrava para a mãe à noite. As dúvidas que surgiam e as ajudas necessárias eram resolvidas nesse momento. “Eu entendia que ela não tinha tempo suficiente para fazer mais, então tive que ter autonomia desde cedo”, explica Grace. Ela faz questão de frisar que com o pai não era diferente: “Sempre soube da preocupação do meu pai, mesmo que de longe”. A separação não impediu que os pais conversassem sobre a filha, o que se mostrou positivo para o desenvolvimento dela na escola. A mãe sempre fez questão de acompanhar todas as reuniões que aconteciam. “Era uma forma de manter contato com a vida letiva da Grace, que para mim era muito tranquila. Sempre recebi elogios dos professores que comentavam o bom desempenho dela na aula”, lembra Meriângela. Juntos, os pais trataram de um problema de Grace: ela possuía alguma dificuldade em matemática. O pai custeou aulas de reforço, que aconteciam perto da casa dele. Assim, apesar de ficar em recuperação terapêutica, ela conseguiu sua aprovação. Jurema Potrich explica que possuir dificuldades em um ou outro conteúdo é normal. A partir delas que, muitas vezes, é possível definir o rumo da vida. A maior facilidade em disciplinas da área de humanas ou exatas ajuda a escolher qual o caminho seguir. Mas para isso acontecer, é preciso duas coisas, acompanhamento e autonomia. Torna-se necessário conferir se o desempenho anda baixo no todo ou em uma matéria específica. Sendo apenas em uma, aulas extras podem resolver. Jurema ressalta que não se deve impor metas em relação às notas e ameaçar com punições caso elas

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crianças entre 10 e 14 anos de Porto Alegre nunca frequentaram a escola Fonte

IBGE

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e 14 anos, nunca frequentaram uma escola. Para a psicopedagoga Jurema Potrich, professora da Faculdade de Educação da PUCRS (Faced) e que também atua no Centro de Assistência Psicossocial (CAP ) da universidade, a família tem um papel importante por ser o primeiro núcleo social da criança. É nela que se formam todas as questões de construção subjetiva do sujeito, entre elas a educação. A escola é o segundo sistema no qual ela fará parte e começará a expandir suas relações. “Na família, a criança ocupa sempre o mesmo papel, ela é o filho, o irmão menor ou irmão mais velho. Na escola ela tem oportunidade de exercer diferentes papéis. Ela pode fazer parte de um grupo hoje e outro amanhã. Pode ser melhor em matemática ou em português”, explica a psicopedagoga. Grace Perillo completou o Ensino Médio com 16 anos. Frequentou instituições públicas durante a maior parte da Educação Básica. O Ensino Fundamental foi em quase toda a sua totalidade na escola estadual Venezuela e depois transferiu-se para a, também estadual, Presidente Costa e Silva, onde concluiu os estudos, ambas no bairro Medianeira. Atualmente divide seu tempo entre o curso de Magistério no Instituto de Educação General Flores da Cunha e um pré-vestibular, para pleitear uma vaga em Letras na UFRGS. Dito dessa forma parece que a vida escolar dela foi sempre tranquila, porém não foi bem assim. Quando tinha seis anos, enfrentou a separação dos pais. Isso não significou apenas que eles morariam em diferentes casas, mas também que sua mãe, Meriângela, ficaria mais tempo afastada em função do trabalho, que passou a ser em turno integral. Até então ela era bastante participativa, inclusive acompanhando passeios que a turma de Grace realizava durante a pré-escola. Com o fim do casamento, foi

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Se tu sempre deres autonomia, não precisa ficar cobrando.Auxiliar não é cobrar. Jurema Potrich psicopedagoga

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não sejam atingidas. Uma situação tradicional é falar para a criança que, se ela for reprovada, não irá ganhar presente no Natal. “Uma coisa não se relaciona com outra. Quando chegar o Natal, ele não irá lembrar porque não está ganhando presente, e o que é pior, ninguém vai deixar de dar o presente”, critica a psicopedagoga. É preciso passar para o jovem a importância das coisas e que ele é responsável por elas. O que não pode ser confundido com uma exigência de que tudo tem que ser em excelência, pois pode se tornar uma cobrança pesada demais. “Por que é preciso 10 em tudo? É ótimo que tire, mas é uma coisa que o próprio jovem tem que saber. Bem, eu sou bom em uma coisa, não tão bom em outra e esta aí é a minha área, minha definição profissional”. A psicopedagoga explica que sem a pressão, com diálogo e autonomia, o próprio jovem identificará suas dificuldades e irá informar que precisa ajuda. A postura da Meriângela em relação aos estudos da filha vem da sua visão de que é necessário garantir desde cedo a independência dos filhos, mas sem que eles se sintam abandonados. “É importante acompanhar nas tarefas para incentivar, mas não fazê-las no lugar do aluno. Deve ser ensinada a autonomia, que no futuro será cobrada. Nem sempre estaremos ao lado para solucionar. O papel da família na forma de incentivo, também é fundamental, pois fatores externos podem desmotivar o estudante”, comenta. Apesar de não se conhecerem, Meriângela parece seguir uma cartilha escrita por Jurema. Para a psicopedagoga, a base da participação está no acompanhamento da aprendizagem da criança. Desde o início é preciso estar presente, auxiliando-a a ter autonomia. Não se deve fazer nada por ela, caso não consiga dar conta de uma tarefa ou pesquisa, os pais devem participar, mas é o aluno quem deve sempre executá-

la. Ela descreve um péssimo hábito: ao prever alguma dificuldade dos filhos, os responsáveis se antecipam e fazem por ele. O procedimento correto seria questioná-lo, saber se ele se sente apto a cumprir a tarefa e acompanhá-lo. “Se tu sempre deres autonomia não precisa ficar cobrando, e auxiliar não é cobrar”, completa. Mesmo com responsabilidades diferentes, cada envolvido precisa exercer sua parte plenamente, com o risco de sobrecarregar o outro lado e afetar o desenvolvimento da criança. “Se eu não tratar educação com o binômio família-escola, eu não estou tratando de forma integral”, ressalta Jurema. Ela explica que ambos precisam atuar em harmonia, não em oposição. Os eventuais conflitos que podem surgir devem ser solucionados através do trabalho mútuo. Se um atrito é resolvido, gerará situações positivas com as quais todos crescem, no caso inverso, quem perde é a criança. Assim, a escola também é responsável pela educação e formação do cidadão, porém, a família não pode deixar de cumprir com o seu dever e delegar para a instituição de ensino uma responsabilidade que não é dela. Essa meta parece bastante distante para a escola Dr. José Carlos Ferreira, no bairro Partenon em Porto Alegre Próxima da Vila Maria Conceição, possui cerca de 300 alunos, a sua maioria de famílias de classe média baixa. A região é uma área conhecida pelo domínio do tráfico, não sendo raro estudantes possuírem alguma relação com o crime. Ela ocupa uma das mais baixas posições entre as escolas públicas estaduais de Porto Alegre na avaliação do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), com 3,2 para as séries iniciais (1º ao 5º ano) e 2,1 nas séries finais (6º ao 9º). O indicador foi criado pelo Governo Federal, em 2007, para medir a qualidade do ensino. Sua


maior presença. Mas os problemas não se restringem apenas às reuniões. Durante o ano letivo, conseguir que tarefas sejam executadas fora do horário de aula é um desafio. Os alunos dos primeiro ano, por exemplo, têm um livro onde existem atividades diárias para serem feitas em casa, com a ajuda dos pais. Porém, Simone

Grace Perillo dedica tempo aos estudos para realizir o sonho de ser professora

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composição é feita por meio das notas obtidas em provas específicas, mais índices de aprovação e evasão. Elas vão de zero a 10 e o objetivo é que a média nacional seja seis, a mesma de países desenvolvidos, em 2022, quando se comemora o bicentenário da República. Não bastando essas dificuldades, os professores deparam com outro problema: a pouca participação da família no acompanhamento dos alunos ou dentro da comunidade escolar. A professora Simone Mossmann, cita como exemplo, a ausência na primeira reunião com os pais, ocorrida em 2013. Responsável por uma turma de primeiro ano e outra do terceiro, tem um total de 43 alunos. No encontro, ela contou com a presença de oito responsáveis, todos do primeiro ano. Da sua outra turma, não havia ninguém. Conforme Simone, o evento desse ano foi o melhor desde que ela começou a lecionar na escola, em 2010. A situação fica ainda pior para as turmas mais avançadas. A professora de Geografia e História Viviane Dapper explica que a reunião é feita em dois blocos, o primeiro é geral, depois o grupo é dividido entre as séries iniciais e finais, “Como a maioria dos pais tem muitos filhos, quando vem o deslocamento, esvazia a sala porque os responsáveis são os mesmos e a gente (professores das séries finais) fica a ver navios”, explica. A atividade serve para a apresentação da escola, dos professores e a explicação das normas e diretrizes que serão aplicadas durante o ano. O número total de participantes ficou entre 25 a 30 familiares e responsáveis. Inicialmente, os encontros eram marcados para os sábados pela manhã, mas a baixa participação fez com que passassem a acontecer no final da tarde, sempre com o objetivo de não prejudicar os pais em seu horário de trabalho e garantir uma

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conta que nem todos fazem e existem muitos casos nos quais os próprios pais preenchem o livro. Na sua outra turma, do terceiro ano, ela costuma passar atividades de pesquisa, mas são poucos os que as realizam e são sempre os mesmos. Viviane explica que a forma encontrada para que as tarefas das turmas mais velhas sejam executadas foi fazer com que elas componham a avaliação. Assim, além de provas e trabalhos, a nota conta com um percentual para a participação em aula, assiduidade e realização de exercícios propostos. Cristiane Cardoso, orientadora da escola fala que para esse quadro ser alterado é preciso primeiro mudar a forma com que a escola é vista. Muitos alunos só comparecem às aulas porque as famílias recebem o Bolsa-Família e o pagamento está vinculado à presença em aula. “Eles não vêm pelo estudo, vêm pelo benefício. Eles não estão aqui para aprender, para ser alguém na vida, estão pelo interesse”, critica a orientadora. Viviane relata que muitos chamam a escola de presídio

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ou Carandirú (em alusão à casa de detenção paulista palco de um massacre durante uma rebelião em 1992), e que está sendo feito um trabalho para que isso mude. “A gente vem trabalhando para mudar essa mentalidade, de que a escola não é isso, de que não é um lugar onde eles devem se sentir presos e sim um lugar onde devem se sentir bem, um lugar que abre as portas para que cresçam como cidadãos, pessoas de bem, como um bom trabalhador. Para que depois daqui eles tenham uma outra realidade”, explica. Além disso, existe mais um agravante, que está nas próprias famílias. As professoras relatam que muitos pais reclamam quando acontecem reuniões internas na escola e os filhos vão para casa mais cedo. Vários deles já se manifestaram em favor do turno integral ou pela volta do sistema de internato, com o filho indo para casa somente nos finais de semana, apontando as crianças como um problema em casa. Outra dificuldade está na compreensão do

Hoje em dia existe uma inversão tão grande de valores na questão de responsabilidades, que os pais acham que a gente tem que educar e a gente tem que ensinar. Viviane Dapper, professora


65%

dos presos em penitenciárias masculinas não possuem Ensino Fundamental completo Fonte

Ministério da Justiça

que é a responsabilidade da escola e a da família. “Hoje em dia existe uma inversão tão grande de valores na questão de responsabilidades, que os pais acham que a gente tem que educar e a gente tem que ensinar. Os pais precisam entender que somos uma extensão da casa deles. Nós vamos dar a educação intelectual do aluno. A parte da responsabilidade e respeito tem que vir de casa”, conclui Viviane. Apesar de não gostar de generalizações quando fala em indivíduos, Jurema afirma que existem algumas questões do mundo contemporâneo que pesam na relação entre família e escola. Uma delas é a dos limites. É responsabilidade do núcleo familiar começar a impô-los, depois ele passa para o ambiente escolar. Ambos precisam pensar “nós

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Cristiane mostra ata de reunião com poucas assinaturas

dois estamos educando esse aluno, nós dois precisamos ensiná-lo a viver e a respeitar limites”, sentencia. Ela explica que toda a criança é egocêntrica e passa por um processo de maturação que se inicia em casa e continua em sala de aula. Quando um aluno faz algo errado no colégio e os pais são chamados, eles não podem passar a mão por cima ou tentar diminuir a importância do fato, pois isso fará com que aquela atitude seja reforçada e a criança pense que não precisa respeitar o que lhe foi imposto. A efetiva participação dos pais no acompanhamento escolar está diretamente ligada ao futuro da criança. A comprensão pelo aluno de que o estudo é importante para sua formação depende desse envolvimento. Um exemplo é o último levantamento realizado pelo Ministério da Justiça em 2012, que indica que 65% dos presos em penitenciárias masculinas não havia concluído o Ensino Fundamental. Quando a parceria escola-família estiver consolidada, ela só trará vantagens ao estudante. “Todos esses papeis são para a constituição de um cidadão que no final terá conhecimento dos seus direitos e de seus deveres. É aquele que, depois, não dirige alcoolizado ou a mais de 200 quilômetros por hora porque tem o pardal ou o azulzinho, mas porque sabe que não deve fazer isso e colocar em risco sua vida ou a do outro”, explica Jurema. Grace Perillo deverá ter participação efetiva nesse processo. Ao concretizar seus planos, em alguns anos, estará em sala de aula novamente, porém exercendo um novo papel. Como professora, ensinará as crianças com a expectativa de ter o apoio e participação dos pais para que o desenvolvimento de seus alunos aconteça de forma plena. Entretanto, para isso, ela precisará que cenários atuais, como a da Dr. José Carlos Ferreira, mudem radicalmente. p

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Os professores estão sozinhos  

Reportagem publicada na revista Contra Senso (Pórem) da disciplina de Projeto Experimental Livre do curso de Jornalismo da Famecos/PUCRS. Or...

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