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#


EDITORIAL

O

interesse pela Tipografia têm se expandido pelo Brasil, tanto no meio acadêmico quanto no mercado. Anúncios e embalagens Alltype, uso de letterings e fontes proprietárias (criadas exclusivamente para uma empresa) tem gerado demanda por profissionais qualificados. É também crescente a pesquisa e os projetos de extensão sobre o tema nas universidades. A revista Tipos&textos foi criada no intuito de promover o tema tipografia na Grande Florianópolis. O conteúdo aqui é uma adaptação do existente blog da Tipos&textos, projeto desenvolvido pela professora Mary Meürer que conta com o apoio do Programa Bolsa Cultura. Este é um espaço para divulgar trabalhos tanto acadêmicos quanto profissionais, trazer conteúdos interessantes para os estudantes, que possam envolvê-los mais com a Tipografia, indo além da sala de aula.

CRÉDITOS PROFESSORES ORIENTADORES Mary Meürer Carlos Righi DIAGRAMAÇÃO Ana Luiza Schlickmann Muenz “Com ou Sem Serifa?”, “Ferramentas Web sobre Tipografia” e “Tipografia em Tudo” Lucas Freitas Lopes “Entrevista Corrupiola”, “Imprensa UFSC” e “Tipografia em Tudo” Rogério Jr. “Tipografia Social?”, “Música para Ver” e “Tipografia em Tudo” CONTEÚDO Betina Bugnotto João Gabriel Oliveira Mary Meürer


SUMĂ RIO 12

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Tipografia Social

Com ou sem serifa?

50

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A imprensa na UFSC

Ferramentas web


22

MĂşsica para ver

Tipografia em Tudo

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Entrevista: Corrupiola

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TIPOGRAFIA

SOCIAL?

09


H

oje, mais do que nunca, fala-se em Design Social, a importância de inserir o processo do design em ações do dia a dia de modo a mudar hábitos, situações e comunidades. Nas palavras de Bonsiepe (2011), O designer que trabalha profissionalmente, aplicando as ferramentas disponíveis, acha-se frente ao desafio de traduzir sua postura contra o status quo em uma proposta projetual viável. Em outras palavras, cabe ao designer intervir na realidade com atos projetuais, superando as dificuldades e não se contentando apenas com uma postura crítica frente à realidade e persistindo nessa posição. Afinal, projetar, introduzindo as mudanças necessárias, significa ter a predisposição para mudar a realidade sem se distanciar dela. Dentro da tipografia já se falava há muito tempo em mudar a realidade. “Me dê 26 soldados de chumbo e eu conquistarei o mundo” disse Gutenberg sobre sua invenção, e desde então ninguém pôde negar que ele estava certo. As tentativas e casos de censura de imprensa e o seu uso na defesa da liberdade são provas de que as palavras tem realmente o poder de mudar o mundo. Se temos duas ferramentas capazes de mudar o mundo em nossas mãos, o que pode surgir da combinação das duas? Neste artigo trazemos uma coleção de projetos que respondem justamente a essa pergunta. 11


DYSLEXIE A fonte Dyslexie surgiu com o intuito de facilitar a vida das pessoas que sofrem de dislexia, potencializando o poder de leitura dessas pessoas por meio da tipografia. A fonte se baseia em uma grotesque comum, com pequenas alterações que impediriam os leitores de confundir as letras e juntar frases. O projeto também acabou atingindo um objetivo maior, e serve para conscientizar e evitar a disseminação de preconceitos sobre a dislexia.

HOMELESS FONTS O projeto Homeless Fonts (Fontes sem teto) foi criado pela fundação Arrels, cujo lema se traduz como “Ninguém dormindo nas ruas” e que busca auxiliar moradores de rua. A ideia do projeto foi de juntar designers e tipógrafos para transformar a caligrafia dos moradores de rua em fontes que pudessem ser comercializadas. O projeto conta com cinco fontes já feitas, que são vendidas com licenças pessoais e comerciais. O valor da venda das fontes volta para a fundação Arrels.

ECOFONT Além de cara, a produção de tintas para impressora causa grande um impacto ambiental. O ecofont é um software que oferece uma solução simples para esse problema ecológico e econômico: Durante a impressão, o software faz pequenos buracos na letra; esses microfuros não são perceptíveis e não comprometem a legibilidade, mas podem levar a uma economia de até 50% de tinta em uma impressão. O software é pago, mas promete se pagar em economia de tinta. 12


ANNA Anna é uma tipografia desenhada por Anna Vives, uma estudante de 27 anos com Síndrome de Down, junto de um grupo de colaboradores. A ideia da fonte inicialmente era replicar a maneira de escrever da Anna, que mistura letras maiúsculas e minúsculas, mas acabou se tornando o símbolo de um trabalho em equipe que pôde superar barreiras do capacitismo. A fonte está disponível para download gratuito no site http://www.annavives. com/tipografia/.

FONTYOU Com a chamada “Vamos imaginar tipografia social” e “Espíritos criativos criam coisas boas” o FONTYOU convida você a criar e co-criar fontes. O site é a primeira ferramenta de criação colaborativa de typefaces, e surge na tentativa de unir aqueles que têm interesse e habilidade para desenhar tipos, mas não têm a técnica para transformá-las em fontes, e aqueles que tem o conhecimento, a técnica e o interesse para ajudar. O grupo já conta com mais de 50 famílias tipográficas feitas e 70 países envolvidos no processo.

Incrível, não? Parte do trabalho de qualquer designer é se reconhecer como alguém participante desse processo de melhoria social constante, e não alheio a ele; mas às vezes nos esquecemos que pensar um design responsável, com funcionamento voltado para a sociedade, possa estar em ideias tão simples.

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COM ou

SEM SERIFA?


A

escolha das fontes tipográficas para compor um projeto é uma das discussões mais frequentes na área de Design Gráfico. Preferências pessoais, popularidade da fonte, legibilidade, conteúdo que será apresentado… que critérios devem ser usados para selecionar as fontes mais adequadas? O primeiro passo é entender o briefing do projeto. Os autores Fontoura e Fukushima sugerem os seguintes questionamentos: 17


O QUE VAI SER LIDO? São informações breves em um cartaz ou o texto de um jornal?

POR QUE VAI SER LIDO? Para se informar, para se divertir, apenas por curiosidade ou para executar uma tarefa?

QUEM VAI LER? Quantos anos, qual a escolaridade, os hábitos de leitura, o repertório deste leitor? O que ele está acostumado a ler?

ONDE E EM QUE SERÁ LIDO? No meio impresso? Digital? Que tipo de publicação é?

QUANDO SERÁ LIDO? Qual o ambiente? As circunstâncias? Boa iluminação? Em movimento?


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Entendendo bem o contexto do projeto será muito mais fácil tomar as decisões durante o processo de escolha da fonte. A segunda etapa consiste em selecionar as fontes de acordo com alguns critérios como legibilidade, qualidade da fonte, família, expressão e direito de uso.

A licença de uma fonte digital para um computador não representa um custo elevado, porém se for preciso adquirir várias fontes para serem instaladas em muitos computadores o valor total pode interferir no orçamento de um projeto. Ao selecionar as fontes para um projeto é importante definir junto ao cliente se haverá verba para a compra de fontes ou se você deve usar apenas fontes de sistema ou outras fontes gratuitas. A importância destes critérios varia de acordo com cada projeto, a legibilidade, a família e o direito de uso podem ser fundamentais quando se escolhe as fontes para uma grande editora e pouco relevantes quando o projeto consiste em um cartaz sobre uma exposição de artes plásticas.

DIREITO DE USO

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EXPRESSÃO

O conceito de Cálice de Cristal, definido por Beatrice Warde na década de 1930 norteou a Tipografia por muito tempo. Acreditava-se que as fontes deveriam ser neutras, transparentes, não interferindo na interpretação do texto. Porém esta não é mais uma verdade absoluta. Para alguns projetos é muito importante que a tipografia tenha expressão, ou seja, que expresse a mensagem por meio do seu desenho, da sua textura e do contexto histórico. É preciso saber equilibrar o uso de fontes mais ou menos expressivas, buscando tornar o projeto interessante para despertar a atenção do leitor e oportunizar uma leitura agradável.


Uma família tipográfica é composta por várias fontes que seguem o mesmo estilo porém com variações de peso, espessura e inclinação. Por exemplo a família Arial, composta pela Arial Black, Arial Narrow, entre outras. Se você estiver selecionando fontes para um projeto editorial, por exemplo, é fundamental que estas fontes pertençam a famílias completas, que ofereçam as variações necessárias para garantir uma hierarquia harmônica no projeto.

FAMÍLIA

A legibilidade está relacionada com o design de tipos, com a clareza dos caracteres e a velocidade com que podem ser reconhecidos. É claro que existe uma relação com o uso da fonte, ou seja, onde será aplicada, a diagramação da página, a organização do texto, que implica em sua leiturabilidade. É importante considerar também o público e o volume de informação. É possível usar uma fonte de pouca legibilidade em um parágrafo de revista voltada ao público jovem, mas a mesma fonte seria complemente ilegível se aplicada a uma página toda de uma publicação voltada a um público conservador.

QUALIDADE DA FONTE

Atualmente é possível ter acesso a grande número de fontes digitais, pagas ou gratuitas, desenvolvidas por profissionais ou amadores. Portanto é cada vez mais importante testar a fonte antes de optar por ela. Verificar se a fonte possui todos os acentos e caracteres especiais, se o kerning (ajuste entre pares de letras) é adequado e se as curvas são bem desenhadas é fundamental principalmente se você pretende usar esta fonte em textos mais extensos.

LEGIBILIDADE

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Voltando ao título deste artigo: com ou sem serifa? Depende, não só da serifa mas de muitos outros fatores. Bringhurst (se você ainda não leu Elementos do Estilo Tipográfico está perdendo uma grande oportunidade de entender a essência da tipografia) define muito bem a dificuldade de escolher as fontes para um projeto. Em um mundo repleto de mensagens que ninguém pediu para receber, a tipografia precisa freqüentemente chamar a atenção para si própria para ser lida. Para que ela seja lida, precisa contudo abdicar da mesma atenção que despertou. Pense nisso sempre que for fazer suas escolhas! O site Fonts In Use traz ótimos exemplos de tipografia aplicada a projetos gráficos reais. Você pode fazer a busca pelo tipo de projeto ou pela fonte tipográfica. Explore o site, analise as fontes no contexto dos projetos e descubra novas possibilidades. Prepare-se para ser bem mais criterioso ao definir as fontes para seus projetos.

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“Em um mundo repleto de mensagens que ninguém pediu para receber, a tipografia precisa frequentemente chamar a atenção para si própria para ser lida. Para que ela seja lida, precisa contudo abdicar da mesma atenção que despertou.” Robert Bringhurst


MÚSICA PARA VER


C

ompor uma música requer criatividade, harmonia, ritmo…E para compor uma página, um cartaz ou outro material gráfico? Da mesma forma é preciso buscar a harmonia entre os elementos, dar ritmo a composição. Partindo desta combinação foi proposto aos alunos diagramar uma letra de música, buscando na tipografia uma forma de expressar a melodia e os significados da canção. Veja alguns dos resultados e experimente fazer este exercício com as suas músicas preferidas. 27


a winter THE

she hear

BEHIN

MELODY makes her for days PLAY CONTEMPLATE GA

DOWN

SHE

been

HUNDER

a pretty soon she s FL O WER THE STAIRS DOWN

SE

morning elegance

she wears

a slipper by the THE SOUND OF FIRE

PLACE

makes her dream awoken by a cloud of STEAM

IN CE O lying A a

SHE POURS A

DAYDREAM

a spoon of sugar

in its case sweetens up

as she puts on

COAT

HER

V

I N A HER

and she

for her life SHE L on the

at

TRAIN RA as it


perhaps a perhaps a ND THE STRANGER LETTER with a dove

she

MĂşsica: Her morning elegance - Oren Lavie

ATE

Aluna: Rafaela de Conto

rs a noise

could

as she goes in a with a thought

LOOKS

the

where the people are

she has S

PLEASANTLY caught by a TRA GE

N and counting the

SHE PAYS FOR HER

CHANGE

AND as

GOES... Apours IN SHE NOBODY NOWS

Her morning elegance - Oren Lavie (por Rafaela de Conto)

STORE

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Música: Dead In The Water - Ellie Goulding

Aluno:Thiago Janning

in the water

I scream Man it to oh the nothingness Man you're my best friend There ain't nothing that I need

AHH HOME let me come home

I'll follow you into the park thROuGH the JUNGLE Home is wherever I'm with you through the dark Girl I’ve never loved one like you

chocolate well hot and candy heavy pumpkin pie jesus christ Ain't nothing please me more than you

Ahh home let me come

ho - oh - ome

Moats and Boats and

Waterfalls Alley-ways and pay phone calls I've been everywhere with you that

’s tr

ue

We laugh until we think we'l l Barefoot on a summer nii diiie ght Nothin' new is sweeter than with you

HEY

Home is wherever

HEY

I'm with you

La, la, la, la take meee hooome

Mother, I’m coming

And in the streets you run afree Like it's only you and me

Ge e eze you're something

to see

hoooome

HEY

Aluna: Thaís Sprada

Arkansas I do love my ma and pa Not the way that I do love you

Música: Home - Edward Sharpe And The Magnetic Zeros

Holy Moley me Oh my You're the apple of my eye Girl I've never loved one like you

HEY Alabama


MĂşsica: The Sound of silence - Simon & Garfunkel

Aluna: Cristiane Wartha


Ru num

have

Is that you gotta

Som

But baby when you're

done run

You gotta be the first to

This is how to be

heartbreake

Wear your heart

they

Boys

like

a little danger the loo

Rule 3 number on

How to be a Marina & the heartbreaker diamonds

1fun

Rule number

your cheek

We'll get him falling

for

a strange

A player, singing lo-lo-lo

love yo

At least I think I do

But never run your sleeve unless you wanna taste defeat

a

th

An


er

ou

at

he

lose

So

Gotta be

kissing goodbye

looking pure

nd leave him wanting

more, more.

door

Mariana popper

Música: How to be a heartbreaker - Marina and the Diamonds

Aluna: Mariana Pöpper

Can't risk losing in love again babe.

In two, so it's better to be fake

break

get

Cause we don’t want our

Rule 4 number girls don’t want

le-let

hearts

e

me tell ok of danger you er a

don’t attached to

Girls,

omebody you could

2

Just

we whatever do it will take

ule mber

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TU D

Tipografia em


DO 35


36


N

os últimos anos houve um grande interesse por parte do mercado na Tipografia e suas aplicações, o que resultou numa exploração maior da área e suas possibilidades na cultura popular. O causador dessa febre por tipografia é desconhecido; alguns responsabilizam a produção de mídias sobre o assunto, como o filme Helvetica de 2007, ou até as publicações online anti Comic Sans; mas o fato é que tanto entre os profissionais de design quanto leigos, a tipografia ganhou espaço, basta observar a presença constante de trabalhos em plataformas como Tumblr, Pinterest e Facebook. 37


38

Exemplos bons disso são as novas campanhas do canal GNT e da marca Hering, que usaram textos feitos à mão em toda a comunicação do verão de 2015. A Batavo chamou atenção ao produzir uma campanha que contava com um lindo lettering em que a tinta era feita da própria fruta dos sabores do iogurte. O estúdio Maquinário, de São Paulo, é famoso por seus trabalhos com letterings para clientes famosos, como a emissora Globo. Outro recurso que caiu no gosto popular foi o chamado Lyric Video, um tipo de vídeo produzido pelo artista que quer divulgar a música e a letra antes de lançar um clipe oficial. Se no começo esses vídeos eram simples, hoje chegam a ser mais elaborados que os clipes em si; tanto que a premiação da MTV americana, o VMA, agora conta com um prêmio para melhor Lyric Video.

Alltype artwork por Felipe Krust | freakazoid © Warner Bros

Mas esse espaço não se limita a redes sociais, ilustrações e trabalhos pessoais... No começo de 2014 O site The Dieline, especialista em design de embalagens, havia elegido três tendências para o design de embalagens e a primeira delas era o uso de fontes feitas à mão livre (a segunda, “hipsterismo”, também incentivava o uso de múltiplas fontes para criar um efeito vintage e sofisticado). No fim do ano, o site elegeu os 100 melhores artigos sobre a área do ano e, em conformação com o que haviam previsto, mostrou diversas embalagens com uso forte de tipografia e até mesmo alltype (peças constituídas apenas por texto, sem ilustrações). Também se tornou comum ver a tipografia marcando espaço nas campanhas publicitárias, principalmente na forma de letterings.


O mais interessante dos Lyric Videos é que a plataforma não é tão pé-no-chão ou séria quanto os clipes, a única exigência é tenha relação com a música, dando mais liberdade ao artista gráfico de criar algo interessante; como é o caso do vídeo de Want it Back, da cantora Amanda Palmer, em que a letra da música foi escrita em seu corpo, em lençóis, móveis pisos e paredes e animada por meio de stop-motion; já Katy Perry usou doces e coberturas de bolos para animar a letra da música Birthday. Mesmo quando são muito complexos, os vídeos acabam saindo bem mais baratos do que os clipes convencionais, uma das razões de sua crescente popularidade. 39


Identidades assim se tornaram comuns agora principalmente em canais de televisão e mídias com forte atuação no meio digital, pela possibilidade desses meios de trabalhar com animações e marcas cambiantes, quando comparados com meios impressos. Em empresas do campo da moda, porém, a presença da tipografia não é nem sequer recente; é só observar como a maior parte das marcas de grifes e maisons são all-type. Isso está relacionado à necessidade de imprimir a marca em diversas texturas de tecidos e etiquetas, mantendo-as simples e minimalistas, e ao mesmo tempo com estilo sofisticado. Com a valorização dessas empresas e o reconhecimento dessas marcas gráficas veio também a oportunidade de imprimí-las nas próprias peças como ponto chave da estampa, uma prática que permanece comum até hoje. 41


O que é um pouco mais recente é o emprego de textos complexos nas estampas de camiseta. O uso de frases em camisetas tem origem no início do século XX, em que se tornou comum o uso de peças e adereços políticos fosse para defender candidatos ou causas, como o sufrágio feminino. Hoje é muito comum encontrar peças com frases estampadas, do fast-fashion ao high-fashion, com humor sutil ou irônico, letras de músicas e, assim como foi lá no começo, máximas políticas. 42


“Palavras bem escolhidas merecem letras bem escolhidas”. Robert Bringhurst

É importante notar que apesar de alguns já serem muito comuns, vários desses cenários são novos e às vezes até raros. No Brasil a situação é ainda mais recente, e tanto a tipografia quanto o design gráfico (e o design de modo geral), ainda precisa de uma visibilidade maior e melhor; ainda assim está claro que a tipografia vem se inserindo e mostrando sua importância em espaços mais diversos e, por que não, inusitados. Ainda há um bom caminho a ser trilhado, mas parece que o grande mercado e o grande público estão começando a entender a mensagem de Bringhurst, escrita a mais de uma década, ao dizer que “palavras bem escolhidas merecem letras bem escolhidas”.


44


A

IMPRESSテグ TIPOGRテ:ICA NA

UFSC


A

tipografia está presente na UFSC desde o início, pois após 03 anos de fundação da universidade foi criada a Imprensa Universitária com o objetivo de “executar todos os serviços de tipografia, impressão e encadernação, bem como editar livros didáticos, técnicos e científicos, teses, trabalhos de pesquisa, além de boletins informativos e publicações de divulgação da Universidade.” 47


L

INO

TYPE

Completando 100 anos e funcionando direitinho. O orgulho dos tipógrafos. Quase 50 anos depois as máquinas de impressão tipográfica continuam fazendo parte da imprensa, que agora conta também com impressoras offset e digitais. E o que essas “senhoras”, com bem mais de 50 anos (a Linotype mais velha já está com 100) fazem no meio dessas novas tecnologias? O Mauro César de Souza e o Carlos (Carlinhos) Antônio de Lima contam um pouco dessa história e de sua paixão pela tipografia. Os dois amigos começaram juntos a carreira de tipógrafo, fazendo um curso profissionalizante no antigo Educandário de Menores no início dos anos 80. Depois disso trabalharam alguns anos em diversas gráficas até ingressarem na UFSC. 48


“Só sente Falta da @, um caractere pouco presente nas fontes de antigamente”.

Sequência de montagem da chapa tipográfica.

1 2 3

Mauro e Carlinhos, os responsáveis pela Tipografia na Imprensa Universitária

O Carlinhos ainda lembra certinho a data da sua nomeação, 10 de março de 1987. Atualmente ele é coordenador da Imprensa Universitária – IU, mas sempre que pode está lá, no meio das caixas de tipos móveis. No dia-a-dia quem tem a honra de operar, e com maestria, as impressoras tipográficas é o Mauro. Com a maior agilidade e precisão ele separa rapidamente os tipos móveis, organiza no componedor, prepara a bandolera (forma) e voilà mais uma chapa tipográfica pronta. Claro que o número de fontes disponível é infinitamente menor do que se tem em qualquer computador hoje em dia. Algumas variações da Arial, Times New Roman, Bodoni, Impact, Universit e uma Script, em corpos que vão do 06 ao 72; além é claro de vários fios e alguns clichês. Mas o Mauro não reclama não e consegue fazer muita coisa com essas “poucas” opções. Só sente falta da @, um caractere pouco presente nas fontes de antigamente. A demanda atual da tipografia é a produção de material gráfico para o Hospital Universitário como fichas de cadastro, receituários, cartões de consulta, etc. E também materiais como pastas e crachás usados nos Departamentos de Ensino da UFSC. 49


Infelizmente não existe uma produção mais artística ou conceitual, como o trabalho feito, por exemplo, na Oficina Tipográfica em São Paulo ou pelo saudoso Cleber Teixeira da Editora Noa Noa aqui em Floripa. Mas quem sabe um dia… O Carlinhos defende a ideia e pretende futuramente oferecer cursos para os alunos e para a comunidade em geral, principalmente jovens aprendizes. Ele acredita que o conhecimento sobre Tipografia é fundamental para a formação de qualquer profissional ligado as Artes Gráficas. E tem toda razão. O contato com essa parte da história da indústria gráfica com certeza é fundamental para que futuros profissionais – designers, impressores ou tipógrafos – entendam melhor a trajetória deste mercado e as tecnologias atuais. Além é claro de aprender a valorizar pessoas como o Mauro e o Carlinhos, que tratam com muito respeito e dedicação a profissão que escolheram. 50


“O conhecimento sobre Tipografia é fundamental para a formação de qualquer profissional ligado as Artes Gráficas”.


Ferramentas web

sobre tipografia


54


E

m 2006 Oliver Reichenstein, designer e fundador da iA (Information Architects) disse que “web design é 95% tipografia”. De 2006 até hoje muita coisa mudou; o uso de imagens em web design se tornou mais forte, bem como o uso de efeitos baseados em programação, ao contrário do Adobe Flash, que perdeu força. Mesmo com tantas mudanças, a tipografia ainda tem um grande valor (quem sabe até maior) em web design. Por um tempo, os web designers passaram a exigir mais opções, mais fontes para usarem em seus projetos, e chegaram a criar meios para burlar os procedimentos e usar fontes TTF (True Type Font) e OTF (Open Type Font) online, mas isso tornava os arquivos das fontes vulneráveis, fáceis de serem baixados como uma imagem qualquer. Por muito tempo soluções foram pensadas, mas a maioria não era aceita pelos criadores de fontes, principalmente por não serem seguras o suficiente. As webfonts vieram como uma solução viável e inovadora, o novo formato garantia segurança por conter a fonte e seus dados de uso e permissão comprimidos e codificados em um mesmo arquivo. Atualmente existem centenas de opções de fontes para usar online, mas a boa tipografia na web vai muito além de escolher uma boa fonte, ou usar muitas fontes no site. Com conhecimento de tipografia e web design aliados é possível criar uma hierarquia de informação equilibrada, harmoniosa e dinâmica, e a partir disso, fazer o design ganhar vida através da tipografia. Existem muitas ferramentas e sites que podem ajudar a entender mais e usar melhor a tipografia, dentro e fora da web. Experimente! 55


TYPEWONDER O typewonder te ajuda a testar fontes usando sites que já existem. Como? Criando uma cópia do layout do site que você escolher, você pode editar a fonte principal, escolhendo uma nova da lista que ele te oferece. Mais informações: http://typewonder.com/

TYPEWOLF O Typewolf faz um apanhado de uso de tipografia na web, ao mesmo tempo identificando quais as fontes usadas em cada site e servindo de recomendação e inspiração. Mais informações : http://www.typewolf.com/

TIFF Um site que te permite comparar duas fontes, sobrepondo as duas e evidenciando as diferenças de traço. O site te deixa escolher quais caracteres você deseja usar para compará-las. Mais informações : http://tiff.herokuapp.com/

FFFALLBACK Nem todos os browsers ou pessoas têm instaladas as fontes que você escolheu para o seu layout, por isso é bom sempre escolher uma boa fonte para substituir a original. Essa extensão é muito útil, de fácil instalação, e garante bons resultados para tornar seu design à prova de balas. Mais informações: http://ffffallback.com/ 56


COLOUR CONTRAST CHECK Esse site permite que você teste a legibilidade da cor da fonte junto da cor de fundo, escolhendo duas cores e comparando o contraste. Ele ainda te dá informações técnicas, como diferença de brilho e matiz, em números. Mais informações : http://bit.ly/1Eo5NVX

colour

CONTRAST

check

WHATFONT TOOL Uma extensão para o navegador Google Chrome que mostra, com um clique no texto de um site, qual é a sua fonte, a família, o tamanho, e o fornecedor. Esqueça aquela coisa de olhar o código fonte, esse é com certeza o jeito mais fácil de descobrir tudo o que você precisa. Mais informações: http://bit.ly/1NKDX8e

THE WEB FONT COMBINATOR Uma ferramenta que te permite testar o uso de diferentes fontes, para título, corpo, subtítulo, e visualizar como elas ficariam combinadas em um site. Te permite alterar a cor, tamanho, entrelinha e o fundo da página.

WEB FONT combinator

Mais informações: http://font-combinator.com/ 57


C

Corrupio, em português, significa brincadeira. “Corrupiola” é uma palavra inventada por Aleph Ozuas, que pode significar divertimento, fazer brincadeiras ou o que for relacionado. A partir dessa ideia foi criada a Corrupiola, empresa que trabalha confeccionando caderninhos exclusivos – chamados Corrupios – feitos sob encomenda, à mão, com o máximo de qualidade e personalização. 61


O Craft é também uma escolha de vida, pensamos o orgânico e a reciclagem na nossa maneira de viver, desde o que comemos, procurando sempre o produto feito em casa, até os fornecedores do nosso trabalho, que estão perto de nós. Pra quê comprar uma embalagem que acondiciona o nosso produto mais barato e proveniente da China se uma embalagem pode vir aqui de São José? Custa mais caro pra nós? Sim, mas e para o meio ambiente, quanto custa? 62

“Custa mais caro pra nós? Sim, mas e para o meio ambiente, quanto custa?”

Uma das máquinas de Tipografia adquiridas pela empresa.

Criada por dois alunos da UFSC, eles utilizam a tipografia em seus Corrupios, possuindo até máquina própria para a impressão. Conversamos com os donos da empresa sobre o craft, tipografia, design e a própria empresa. Criada em 2008 por Leila Lampe, mestranda em Literatura na UFSC e designer gráfica, e Aleph Ozuas, doutorando em Literatura e webdesigner, ambos com a vontade de ter uma empresa própria, com produtos legais e que os fizesse felizes, a Corrupiola surgiu na mesma época em que o craft veio com tudo dos EUA, divulgado em lojas online como a Etsy.com. Os sócios aproveitaram-se desse movimento de forma sustentável e handmade, como contam:


Tipos móveis utilizados para o Letterpress nos Corrupios.

Apesar dessa cultura sustentável e manual, em alta nos dias atuais, os produtos da Corrupiola ainda são mais bem aceitos no exterior do que no Brasil, mas aos poucos o brasileiro está modificando sua forma de comprar conscientemente. A empresa está sempre em contato com os clientes, que, pelo processo diferente, estão sempre interessados em aprender sobre as técnicas dos dois, autodidatas. Assim, a empresa já ofereceu algumas oficinas para os interessados. A Corrupiola possui máquinas próprias para a impressão, utilizando em seus produtos principalmente as técnicas de Tipografia e a Serigrafia. Perguntamos sobre a impressão em Letterpress e o que os levou a escolher esse processo e adquirir máquinas próprias. Foi bem difícil (conseguir as máquinas), desde a máquina e os tipos. Demoramos 5 anos para montar o que temos hoje. E ainda precisamos desempastelar muitos tipos! A motivação foi o Cleber, sem dúvida, e também a vontade de não terceirizar, de ter à mão todas as etapas do processo. Seria muito fácil mandar imprimir os trabalhos em gráfica, mas e qual seria a diversão? O processo é a parte legal do negócio. A mão na tinta, o cheiro, os acertos e os erros, os trabalhos ganhando forma na impressão. 63


“Vôos precisos e dentro de suas possibildades”.

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Com os Currupios como carro chefe, a Corrupiola busca trabalhar com ideias em papel. Assim, vendem também outros produtos e ferramentas autorais para a produção dos caderninhos em casa, buscando fazer as pessoas felizes com os seus próprios cadernos, inspirando e incentivando a criatividade de cada um, vendendo não apenas produtos, mas experiências, como o nome já diz. Como inspiração, Leila e Aleph citaram o estúdio Zoopress, do Rio de Janeiro, cuja relação é de admiração e afeto. Outra referência é o trabalho da ilustradora e designer brasileira/inglesa Thereza Rowe, que desenhou uma coleção exclusiva para a Corrupiola e trabalha com colagens. Ela também ilustrou o primeiro livro infantil da Fernanda Takai e recentemente publicou seu primeiro livro autoral por uma editora norte-americana. Definindo-se como uma empresa adepta aos trabalhos manuais, ao craft, contam que não pretendem virar uma grande empresa – gostam de como são hoje. Vôos precisos e dentro de suas possibildades.


Os corrupios em colaboração com Thereza Rowe, impressos em serigrafia

Mais sobre a Corrupiola www.corrupiola.com.br www.facebook.com/corrupios www.instagram.com/corrupiola 65



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