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Escrito em:17/11/2008 TIETA: A FORÇA DE UMA NOVELA Por enquanto vai só este vídeo de TIETA. Quem a viu mate as saudades, quem não viu morra de inveja. Amanhã conto a verdadeira história dessa novela: como eu fui escolhido para escrevê-la, e porque, apesar de todas as ousadias, ela pôde ir ao ar sem cortes ou traumas. Escrito em:18/11/2008 'TIETA" POR TRÁS DAS CÂMERAS Quarto de hotel, São Paulo, junho de 1989, dia do meu aniversário. O telefone toca, eu atendo, e é Daniel Filho que - diretamente da sala de Boni lá na TV Globo - me informa: “A próxima novela das oito será TIETA, e quem vai escrever é você”. E antes que eu dissesse qualquer coisa acrescenta uma pergunta: “Topas”? Pensei: “Barriga de Aluguel” já está em produção e estréia em agosto, e assim eu terei pelo menos seis meses antes de começar a trabalhar pra valer, portanto... “Topo”, respondo. Ao que Daniel, melifluamente, pergunta do outro lado: “Dá pra apresentar uma sinopse daqui a vinte dias”?


Reajo horrorizado e lhe pergunto: se eu ia entrar depois de “Barriga de Aluguel”, que ainda ia estrear, pra que tanta pressa? E então Daniel explica: “Barriga de Aluguel” não ia entrar mais e, portanto, quando eu topei escrever “a próxima novela das oito” tinha me comprometido a estrear no lugar dela dali a três meses, ou seja: em agosto. Fazer o quê? Eu tinha acabado de escrever duas novelas e meia – “Partido Alto”, “Roque Santeiro” e “O Outro” – e era ainda um autor em busca de uma carreira. Ainda não tinha cacife pra voltar atrás e dizer “não” à TV Globo. Por isso aceitei o desafio: “Daqui a vinte dias entrego a sinopse”. TIETA, meu Deus! Foi o que pensei depois de desligar o telefone: qual era mesmo a história? E saí correndo até a Livraria Brasiliense ali na Rua Barão de Itapetininga e comprei um exemplar do livro. De volta ao hotel, tratei de folheá-lo durante algumas horas até saber, assim por alto, do que se tratava. Então peguei o telefone, liguei pra Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, contei pra eles sobre o telefonema de Daniel e os convidei para escrever a novela comigo. Tão assustados quanto eu por conta do prazo exíguo, mesmo assim eles também toparam. E começou aí a se fazer a História. Resolvi que daria a Ana e Ricardo não o “status” de colaboradores, que eu odiava, mas o de “autores”. Quando isso foi divulgado houve um certo ranger de dentes entre os novelistas já consagrados, e pelo menos um deles me ligou pra dizer que eu não devia ter promovido os dois dessa maneira arbitrária: “Que eles se tornem autores quando forem escrever suas próprias novelas”. Mas eu passei batido sobre esse comentário e nunca me arrependi. Embora eu fosse sempre o chamado “cabeça” das novelas, o responsável por elas perante a TV Globo, o fato é que minha parceria com Ana e Ricardo durante muitos anos rendeu incríveis, fantásticos frutos. Eu ensinei a eles tudo o que sabia, e nós também aprendemos muita coisa juntos. Mas, voltando aquele dia em São Paulo: na manhã seguinte embarquei de volta ao Rio (de ônibus!) já trabalhando vorazmente numa idéia de sinopse. Na verdade eu não gostava de TIETA, o romance. Tinha ganas de cortar pelo menos metade de suas páginas para livrá-lo do excesso de gorduras e assim transformá-lo num grande livro. Mas aquele estilo “gorduroso” é que fizera de Jorge Amado um best-seller, e na adaptação eu teria que respeitá-lo. Assim, fui pinçar personagens que mal eram citados no livro (por exemplo: Carol, a teúda e manteúda de Modesto Pires, magnificamente vivida na novela por Luiza Thomé), ao mesmo tempo em que reduzi a participação de outros e, sempre baseado em algum trecho por mais sumário que fosse do próprio livro, criei novos. A mesma coisa eu faria nas outras adaptações que fiz de Jorge, em TENDA DOS MILAGRES e “Mar Morto”, que virou PORTO DOS MILAGRES. TIETA seria a segunda novela das oito a ir ao ar após o fim da censura (que fora extinta no dia 10 de outubro de 1987 pra voltar só no governo Lula, ainda que com outro nome), e por isso eu pensei: “Vou transformar TIETA numa metáfora sobre a volta da liberdade de expressão à televisão brasileira após vinte anos de ditadura”.


E é isso que ela foi, no final de contas: a volta daquela mulher livre e subversiva à cidade de Santana do Agreste dominada por coronéis arbitrários e de mentalidade tacanha, e sua capacidade de mudar com a força do seu comportamento a cabeça das pessoas era uma visível alusão à realidade que a gente então vivia. Não por acaso, quando Tieta jovem é expulsa da cidade, e seu pai arranca a data do calendário, ele diz: ”Faz de conta que esse dia nunca aconteceu!” E a data que lá está é a da promulgação do Ato Institucional no. 5, que oficializou a ditadura. Detalhe: é nesta mesma data que Maria do Carmo chega ao Rio de Janeiro com seus filhos em SENHORA DO DESTINO... E tudo lhe dá errado. Era evidente a alusão política. Mas como eu nunca fui membro do Partido Comunista, em TIETA como em SENHORA DO DESTINO todos os críticos fizeram questão de não notar isso. Uma vez no Rio, eu tratei de aprontar a sinopse antes mesmo do prazo previsto. “O tempo urge!” – eu me dizia a todo instante. Ela tinha apenas vinte e cinco páginas e, mal a entreguei à TV Globo foi aprovada sem ressalvas. Paulo Ubiratan, a pessoa mais importante da minha assim chamada vida artística (já dirigira ROQUE SANTEIRO) era o mais entusiasmado pelo projeto, quase tanto quanto eu, que via nele a possibilidade de responder de uma vez por todas à pergunta que alguns ainda se faziam: “Fora ou não eu quem escrevera ROQUE SANTEIRO”? TIETA não só respondeu positivamente a essa pergunta como me transformou, durante muitos anos, no “rei” das novelas nordestinas, às quais tenho cada vez mais ganas de voltar agora. Lembram do final de Altiva Pedreira em A INDOMADA, quando ela morre, mas antes ameaça: “I will be back!”? Pois se eu voltar às novelas nordestinas vou recomeçar exatamente dali... Mas já me estendi demais, não acham? E, como estou falando de novela, vou encerrar agora este capítulo. Aguardem o próximo, no qual eu contarei como foi a escalação dos atores, a luta para botar a novela no ar em prazo tão exíguo (a Cidade Cenográfica só ficou pronta duas semanas após a estréia!) e como, com a ajuda da cultura cinematográfica de Daniel Filho, eu consegui chegar à estrutura perfeita para o primeiro capítulo de TIETA. Comentários(173) Link deste post Indique este Post Escrito em:21/11/2008 UM RELÂMPAGO: É A LUZ DE TIETA! A sinopse de TIETA, que só tinha vinte e cinco páginas e era bem pobrezinha, foi aprovada sem ressalvas... Pois não havia tempo pra maiores exigências. O tempo urgia! E eu parti pra escrever capítulos. Ficou decidido que eu escreveria os doze primeiros sozinho, como me desse na telha, e assim daria o meu tom à novela. O primeiro capítulo começava com um prólogo, e este culminava com o quase linchamento e a expulsão de Tieta de Santana do Agreste. Era pesado, e contrastava negativamente com o que vinha a seguir – o tom leve, farsesco, irônico da mesma história vinte anos depois. Criou-se por causa disso um impasse. Eu não gostava do prólogo, mas sabia que ele era necessário. Paulo Ubiratan e Daniel Filho também tinham dúvidas a respeito. O que fazer?


Enquanto isso eu ia escrevendo os capítulos. Mas a dúvida sobre o prólogo continuava, até que, em mais uma das reuniões para discuti-lo, Daniel Filho, com sua enorme, vastíssima, magnífica cultura cinematográfica, me perguntou: “Lembra de Depois do Vendaval”? Ele estava falando do filme de John Ford, aliás, um dos meus preferidos; e eu entendi o que ele queria dizer na hora: John Wayne, um ex-boxeador, volta à sua cidade natal e fica sabendo do que aconteceu de horrível por lá durante a sua ausência. Depois que lhe contam tudo sobre o passado, a história continua a partir de sua chegada. Pronto: foi o que eu fiz: Ascânio, o personagem de Reginaldo FariFaria, volta a Santana do Agreste, de onde partiu antes de Tieta, reencontra os amigos e, em meio à festa que eles lhe fazem, pergunta: “E Tieta, cadê”? Os amigos reagem espantados: “Então você não soube?” E lhe contam. É aqui que entra o que seria o prólogo, ou seja: a novela começa no presente e assim continua, e o tom farsesco é instaurado desde o começo através do reencontro entre os amigos. Houve outra mudança radical: em sua primeira versão, Tieta tinha um núcleo em São Paulo! Mas quando eu cheguei no sexto capítulo vi que era um erro – a novela não podia sair de Santana do Agreste, que era o seu único território. A escolha de Ascânio e seus amigos – Reginaldo Feria, Paulo Betti, Roberto Bonfim e José Meyer – foi rápida. E a interatividade entre eles mais rápida ainda. E quanto a Tieta? Não havia o que escolher, pois Betty Faria era a dona dos direitos sobre o livro! Então vocês não sabiam disso? Pois então eu conto como foi: Um ano antes, num encontro com Jorge Amado em Paris, Betty lhe falara do seu desejo de fazer Tieta no cinema, e ele então lhe cedera os direitos. Assim a TV Globo teve que negociar não com Jorge, mas com ela, e a condição que Betty colocou foi a óbvia: “tudo bem, desde que ela fosse Tieta”. Foi o que aconteceu... E não sei de ninguém que pudesse fazer melhor do que ela. Assim como não sei de nenhum ator que pudesse fazer melhor os outros personagens. Ou Perpétua seria a mesma sem Joana Fomm? Carmosina sem Arlete Salles? Cardo sem Cásssio Gabus Mendes? O Coronel da Tapitanga sem Ary Fontoura? Anunciada sem Luciana Braga? Modesto Pires sem Armado Bogus? Carol sem Luiza Thomé? Paulo Ubiratan era o melhor escalador de elencos da TV Globo e, uma vez fechado o último contrato, todos perceberam que em TIETA ele se excedera. A essa altura já estávamos em julho. A novela estrearia no dia 14 de agosto, e tudo indicava que até lá nada estaria pronto. Começaram as gravações... E as chuvas. A cidade cenográfica era apenas um canteiro de obras enlameado, isso numa novela em que 40% das cenas eram externas. Mas, apesar da exigüidade do tempo, e dos problemas paralelos, havia em relação a TIETA um elemento que a fazia progredir rapidamente: a extrema boa vontade de todos os envolvidos no projeto, e a certeza de que, ao participar dele, tinham ganho uma oportunidade única em suas vidas.


Betty Faria, que estava no elenco da novela anterior – “O Salvador da Pátria” -, teve o seu trabalho facilitado, pois, de acordo com o meu cronograma, Tieta só voltaria a Santana do Agreste, após muito suspense, no capítulo 18. Desta sua volta são as cenas daquele clipe que eu postei lá embaixo. Pra cantar a música tema da novela Boni escolheu Luís Caldas, um jovem cantor baiano então em voga, e fez pessoalmente a letra. Nos créditos, Hans Donner se excedeu: as cenas daquela mulher se desenrolando como uma cobra foram as mais sensuais já apresentadas na abertura de uma novela, e serviram para imortalizar a bela Isadora Ribeiro. TIETA estreou no dia marcado e arrebentou na audiência. A idéia de só trazer a personagemtítulo no capítulo 18 era um desafio – ela aparecia no primeiro capítulo, mas vinte anos mais nova e vivida por outra atriz, no caso Cláudia Ohana -, e havia alguns temores quanto a isso... Mas o público tirou de letra. Desde o primeiro instante ficou claro que TIETA tinha caído no gosto do povo e, a partir dali, seria uma de suas favoritas de sempre... Mesmo que parecesse muito pobrezinha no começo, pois nada estava pronto. Lembro da primeira grande cena de José Meyer, quando ele chegava a cavalo na praça de Santana do Agreste trazendo notícias de Tieta. Era a primeira vez que a praça aparecia... E não apareceu, pois não existia ainda. Assim, a cena teve que ser gravada em plano fechado, o que sacrificou o primeiro grande momento do personagem. Mas duas semanas após a estréia tudo afinal ficou pronto, a novela abriu a câmera e mostrou a praça, os becos e os desvãos de Santana do Agreste, um microcosmo fiel do Brasil de então e de agora. Durante a novela, alguns amigos de Jorge Amado, preocupados com as “liberdades” que eu tomava com seu texto, tentaram me intrigar com ele. Alguns pediram até que interditasse a novela. Jorge, um democrata autêntico e eterno inimigo de todas as formas de censura, fez ouvidos moucos a essas intrigas. E uma vez terminada a novela, me mandou uma carta na qual diz porque aprovou a minha adaptação. Essa carta, escrita do próprio punho por Jorge Amado, é um dos tesouros que venho guardando com a maior unção em toda a minha vida. Só uma vez eu permiti que ela fosse publicada, mas vou publicá-la de novo, aqui no blogão, quando voltar ao Brasil e retirá-la do cofre onde está guardada. Se houve fofocas, brigas, discussões, o eterno “quem comeu quem?” Houve, mas foi tudo tão pequeno diante da grandeza da novela que nem vale a pena relembrar isso agora. Vale a pena relembrar sim, que todos os envolvidos no projeto queriam continuar juntos... E então surgiu e ganhou força a idéia de transformar TIETA num seriado semanal, como já acontecera com O Bem Amado. No momento em que a TV Globo adotou oficialmente a idéia, Paulo Ubiratan me chamou na sala dele e me alertou: “é um risco”. E nós dois concluímos que não valia a pena corrê-lo. “Mas então como é que a gente faz pra evitar isso?” – Paulo me perguntou. E eu respondi: “Vamos destruir Santana do Agreste no último capítulo”. E foi o que aconteceu: depois que todas as tramas se resolvem uma tempestade de areia começa a soprar com fúria cada vez maior até matar todo mundo e cobrir a cidade inteira. E assim Santana do Agreste jaz até hoje sob as dunas do Mangue Seco... E foi esse final o que a tornou realmente mítica.


Sim, TIETA, assim como ROQUE SANTEIRO, foi muito mais que uma novela – foi um dos raros momentos em que a televisão se tornou maior, por promover um encontro do Brasil consigo mesmo. E eu sinto o maior orgulho por ter sido, junto com Ana e Ricardo, parte tão importante nela. Comentários(171) Link deste post Indique este Post

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TIETA (Bastidores, escrito por Aguinaldo Silva)  

Bastidores da novela Tieta, escrito por Aguinaldo Silva.

TIETA (Bastidores, escrito por Aguinaldo Silva)  

Bastidores da novela Tieta, escrito por Aguinaldo Silva.

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