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MEMÓRIAS

Meu caso de amor com Q

uando conheci Caio Fernando Abreu, em 1976, eu tinha 24 anos, pensava em derrubar a ditadura militar pelas armas e fazia parte de um grupo de jovens candidatos a escritores, músicos e artistas plásticos que imaginavam provocar uma revolução na arte brasileira e mundial, com seus textos críticos, contos, romances, poemas, canções, ilustrações e manifestos. Em 1984, nós nos reencontramos em Gramado, no Festival de Cinema. Os gaúchos Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil tinham filmado um conto meu, Verdes Anos. Outro gaúcho, Sérgio Amon, filmara um conto de Caio, Aqueles Dois. Verdes Anos falava de jovens alienados vivendo na ditadura sangrenta do general Médici. Aqueles Dois falava da amizade entre dois homens. O socialismo ainda era uma idéia na qual se podia acreditar; usávamos drogas alucinógenas para ficar cara a cara com o Deus no qual não acreditávamos; defendíamos e praticávamos o amor livre; tínhamos toda a coragem do mundo, mas também todas as inseguranças, incertezas e paranóias. Foi neste mundo imperfeito, em que militares ainda matavam jornalistas e operários, a imprensa e as artes estavam censuradas e o Brasil descobria ter sido falso o “milagre econômico” do general Médici e do economista Delfim Neto que comecei uma relação muito intensa, criativa e comovente, mas também decepcionante e amarga, com o escritor Caio Fernando Abreu. Começou por meio de cartas, com a descoberta de pontos comuns em nossas idéias e anseios, cresceu com a relação pessoal e a consolidação de uma grande amizade e só não virou um caso de amor porque, heterossexual convicto, não pude amá-lo como queria, esfriou com a maturidade e se deteriorou completamente quando, assumidamente homossexual e caminhando para a morte pela Aids, o sombrio e amargurado Caio passou a ver nos heterossexuais e nas pessoas razoavelmente equilibradas e felizes seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Ao longo de cinco anos, num tempo em que não havia e-mails, trocamos uma vasta correspondência, interrompida

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quando ele deixou o país e nunca mais retomada depois que ele voltou, principalmente, claro, depois que passou a viver em São Paulo e pudemos conviver pessoalmente, numa relação conflituada e quase sempre absurda. Paranóico, emocionalmente instável, hiper-sensível, comoventemente frágil e absolutamente infeliz, Caio parecia sofrer todos os dias. Quase nunca sorria. Odiava quem não gostasse de seus amigos e ídolos, como, já nos anos 80, Cazuza, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Miguel Falabella, Rita Lee, Antonio Bivar. Quatro anos depois, em 1988, Caio vivia extremas dificuldades financeiras. Chamei-o então para trabalhar comigo no Caderno 2 de O Estado de S. Paulo, que eu dirigia na época. Foi um desastre. Desaparelhado para o exercício do estafante jornalismo diário, vivia às custas de pílulas e cada texto a ser editado parecia pesar uma tonelada para seus ombros frágeis e magros. Convidei-o para escrever uma crônica todas as quartas-feiras e fez grande sucesso: era, segundo as pesquisas, um dos autores mais lidos no Caderno 2. Mas, chocado com minha agitação, meus gritos diários para editar o jornal no prazo determinado, minha falta de sensibilidade para entender melhor as pessoas de sua condição, passou a ver-me como o chefe careta que usava gravata, enquanto ele usava brinco. Olhava-me todos os dias com olhos de mágoa e desalento. Eu já tinha fundado a Geração Editorial, no início dos anos 90, quando ele, que convivia dramaticamente com a doença que haveria de matá-lo, pediu-me ajuda. Quis traduzir um romance de Will Self cujos direitos tínhamos comprado e dei-lhe o trabalho e um adiantamento, mas um ano e meio depois devolveu o livro sem uma só página traduzida. Justificou estar estafado por causa da doença, mas continuou escrevendo sua crônica semanal e textos para revistas. Queria devolver o adiantamento, em parcelas. Disse que não era necessário. Nossa editora publicou um texto dele, reminiscências de sua vida em Londres, no livro Viagem Inteligente, cujos direitos pertencem à Editora Abril, que autorizara a publicação do texto, ao lado dos de Antonio Callado,

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O editor da Geração revela osdecomoventes bastidores O editor da Geração revela os comoventes bastidores uma relação secreta, dede uma secreta, de amor ódio, queAbreu. durou de amor e ódio, que durou mais 20 relação anos, com o escritor Caioe Fernando mais de 20 anos, com o escritor Caio Fernando Abreu.

om Caio Fernando Abreu Ilustração Jô Fevereiro

por Luiz Fernando Emediato

Luiz Fernando Emediato, Julio Cesar Monteiro Martins, Caio Fernando Abreu, Jeferson Ribeiro de Andrade e Domingos Pellegrini: criando histórias para um novo tempo

João Ubaldo Ribeiro, Lygia Fagundes Telles, Luiz Fernando Veríssimo, Gianfrancesco Guarnieri e Nélida Piñon. Reclamou da edição em termos duros e amargos, chamandome cerimoniosamente de “senhor editor”. Respondi com uma carta dura, dizendo-lhe que o fato de estar perto da morte não lhe autorizava ser tão duro e injusto com as pessoas. Acho que a carta foi dura demais – ele nunca respondeu. Morreu sem que pudéssemos nos ver e falar de novo. Sempre quis procurá-lo, abraçá-lo, dizer que o amava do meu jeito e jamais poderia amá-lo do jeito dele. Sem coragem para dizer-lhe frente a frente o que pensava,

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uma vez escrevi uma crônica, publicada num domingo, em que lembrava as cartas que um jovem escritor me en-viava, nos anos 70. Caio não foi trabalhar na segunda, e na terça chegou com sua crônica das quartas-feiras falando do cinismo e da mentira. Era a resposta que queria dar. Hoje, mais de 25 anos depois da primeira carta que nos aproximou, descobri parte daqueles velhos papéis. A maior parte das cartas se perdeu. As nove que restaram, e que publicamos a seguir, revelam a beleza e a tragédia da vida deste grande escritor brasileiro tão precocemente falecido. Era o meu amigo Caio. E eu gostava dele.

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CONTINUA

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MEMÓRIAS

Os paladinos do oeste e seus sonhos mirabolantes

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inha memória não consegue recuperar os termos de minha primeira carta para Caio Fernando Abreu, no início de 1976. Sei que ele guardou algumas elas, que se encontram hoje na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Naquele tempo – os anos de chumbo da ditadura militar, da censura e da repressão – os jovens escritores brasileiros publicavam seus textos em revistas, jornais e suplementos, e se correspondiam intensamente. Eu era estudante de Jornalismo e estagiário na sucursal do Jornal do Brasil em Belo Horizonte desde 1973 e editava duas revistas culturais, Silêncio, que a polícia fechou, e Inéditos, que escapou do fechamento, mas ficou, enquanto existiu, sob censura prévia. Havia lido um livro de Caio, O Ovo Apunhalado e acompanhava seus textos pelos suplementos literários. Pedi a ele um conto para ser publicado na Inéditos. Começou aí nossa amizade. Os jornais diziam que havia um boom na literatura brasileira. Ignácio de Loyola Brandão publicara Zero na Itália, e a edição brasileira acabou censurada. Logo depois Rubem Fonseca teve proibido seu violentíssimo Feliz Ano Novo. Murilo Rubião, um velho escritor mineiro dos anos 40, tinha sido redescoberto e um

livro dele, O Ex-Mágico, era adotado em centenas de escolas. Roberto Drummond, com A Morte de D. J. em Paris, também. Roberto tinha sido revelado em 1971 pelo famoso Concurso Nacional de Contos do Paraná. Naquele mesmo ano eu, então com 19, ganhei o prêmio Revelação de Autor. Desde então, para minha alegria e tristeza, passei a ser considerado – mais pela idade e menos pela obra, creio – uma espécie de garoto-prodígio da nova

Literatura e jornalismo se encontravam nas páginas de resvistas especializadas, editadas sob o cerco da ditadura

literatura brasileira. Em 1977, quando publiquei meu primeiro livro, aos 25 anos, o crítico Flávio Moreira da Costa escreveria na IstoÉ que eu não passava de uma Shirley Temple da literatura brasileira: surpreendente enquanto jovem, ruim à medida em que fosse envelhecendo. Acho que tinha razão. Jornais e revistas literárias, todas em confronto com a ditadura militar, surgiam e desapareciam em quase todo o país: Paralelo no Sul, Anima no Rio, Silêncio, Circus e Inéditos em Minas, Escrita em São Paulo, O Saco no Nordeste... Era incrível a agitação, a revolta contra a opressão, a criatividade e a diversidade de estilos: do underground hippie à literatura de resistência democrática, mistura de arte e jornalismo, e entre os dois extremos todo o tipo de experiências. José Agripino de Paula, Sebastião Nunes, Deonísio da Silva, João Silvério Trevisan, Ivan Ângelo, Sérgio Sant’Anna, Márcia Denser, João Antonio, Antonio Torres, Oswaldo França Júnior, Adélia Prado, Márcio Souza e outros mais surpreendiam os leitores e os críticos com obras contundentes. Publiquei meu primeiro livro, Não Passarás o Jordão, em 1977, e a história principal tinha como personagem o jor-

Status, a Playboy da época, dirigida por Gilberto Mansur, publicava edições especiais exclusivamente com literatura

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Revista – Inéditos

Caio na capa da Inéditos, 1977, respondendo a provocação de Julio Cesar Monteiro Martins e despontando cada vez mais na literatura

nalista Wladimir Herzog, assassinado sob tortura no Doi-Codi em São Paulo, em 1975. O livro ganhara vários prêmios, mas ninguém se animava a publicá-lo, por causa do tema. Até que Fernando Mangarielo, da Alfa Omega, de São Paulo, teve a coragem de fazê-lo. Queria contratar todos os meus livros e fazer de mim “um novo Jorge Amado”. O Partido Comunista deu o maior apoio. Mas todas as críticas que elogiavam o livro (exageradamente, percebe-se hoje), não podiam dizer do que ele tratava. A imprensa estava sob censura. Brigamos com a censura – fizemos em Minas um manifesto que 1.046 intelectuais brasileiros assinaram – até que o ministro da Justiça do general Geisel, Armando Falcão, foi à TV dizer que nosso pedido não contava com o apoio da “sociedade brasileira”, que, pelo contrário, pedia era mais censura, para preservar “a moral e os bons costumes”. R E V I S TA G E R A Ç Ã O – 2 0 0 1

Foi nesta época fervilhante que O Pasquim – o jornal mais influente da esquerda, apesar de já existirem o Opinião e o Movimento, onde também quase todos nós escrevíamos – resolveu criar uma editora, a Codecri, e chamou Jéferson Ribeiro de Andrade para dirigila. A primeira idéia de Jéferson foi publicar um livro policial de Otávio Ribeiro, seu primeiro best seller. O segundo livro da Codecri seria uma antologia de 12 contos da “novíssima” literatura brasileira. Os escolhidos foram seis jovens contistas que estavam então se notabilizando por seu talento precoce: o próprio Jéferson, um jornalista combativo e escritor sem grande brilho; o poeta mineiro Antonio Barreto, 22 anos, que começava a escrever ficção; o paranaense Domingos Pellegrini, 28 anos; o carioca Julio César Monteiro Martins, de apenas 21 anos; o gaúcho Caio Fernando Abreu, 27 anos, e eu, 25 anos. Quando publiquei meu www.geracaobooks.com.br

segundo livro de contos, Os Lábios Úmidos de Marilyn Monroe, pela Ática, dediquei-o aos seis, a quem chamava de “os paladinos do Oeste”. Era uma turma legal que nada tinha em comum além do amor pela literatura e a revolta contra alguma coisa: Jéferson era naturalmente revoltado, por causa do mau-humor; Barreto, Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo, ainda que derramando sangue; Caio, infeliz, revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana; e Julio César, um burguês liberal, cujo talento tinha o mesmo tamanho, enorme, da vaidade juvenil, revoltava-se contra o fato de, aos 21 anos, ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos. O livro saiu com o título de Histórias de um Novo Tempo, ilustrado por Marcos Coelho Benjamin, hoje renomado artista plástico. Na época, imitava Crumb e já era genial. Avaliamos as ilustrações, no final de 1976, na casa de Ziraldo, sócio da Codecri, no Rio. Uma filha de Ziraldo, não me lembro se Daniela, tinha acabado de chegar do morro, onde comprara um tijolo de maconha na casa do músico Sérgio Ricardo. Chegara com o namorado, que se parecia muito com Gerald Thomas (ou era ele mesmo). Histórias de um Novo Tempo saiu com 20.000 exemplares e vendeu tudo em 15 dias. A segunda edição, mais 10.000, também acabou logo. Antes de sair a terceira edição quase todo mundo já tinha brigado por algum motivo. O que terá acontecido conosco? Primeiro, quatro dos “paladinos” foram ao Rio para dar uma entrevista ao Pasquim: eu, Caio, Julio e Jéferson. Barreto e Domingos não puderam ir. A entrevista saiu com trechos naturalmente cortados (para caber nas duas páginas do jornal) e Caio odiou. Escreveu uma carta ao

Pasquim, que respondeu, como de hábito, mandando-o lamber sabão ou algo parecido. A partir daí ninguém se entendeu mais. Tinha sido bom até ali. Nós, os seis “paladinos”, às vésperas da glória – sair numa antologia com as bênçãos do Pasquim – imaginávamos lançar um manifesto literário e até tentar 21


Emediato foi celebrado já aos 19 anos como prodígio na literatura brasileira. Seus livros falavam da esperança e do desencanto nos anos de chumbo

repetir, em algum lugar (Rio, Belo Horizonte, São Paulo), a Semana da Arte Moderna de 1922! Acho que a idéia foi de Julio César Monteiro Martins, nosso maior megalômano. Trocávamos cartas febrilmente. Ansiávamos por nos conhecer pessoalmente, o que se deu com o lançamento da antologia. Caio teve um livro – Pedras de Calcutá – lançado pela Alfa Omega. Posteriormente se desentenderia com o editor Fernando Mangarielo, que na mesma época lançou o best seller A Ilha, de Fernando Morais. As más línguas (ou seriam boas?) insinuavam que Mangarielo recebia uma subvenção de Moscou. Julio César e Jeferson saíram pela Codecri, que imediatamente publicou meu terceiro livro em dois anos, A Rebelião dos Mortos, que a Polícia Federal quis apreender e depois desistiu. Domingos foi publicado pela Civilização Brasileira. Fazíamos palestras e debates nas Universidades. As estudantes mais belas ajoelhavam-se a nossos pés. Éramos os grandes heróis da resistência. No final de 1977, pouco antes de me mudar para São Paulo, ganhei um prêmio literário da revista Status, com Ricardo Ramos, Rubem Fonseca e Gilberto Mansur na comissão julgadora. Era um bom dinheiro. Deixei meu filho Alexandre, com oito meses de idade, com a avó e, com minha mulher Sylvia (um casamento já em 22

crise), fui visitar Caio em Porto Alegre e Eduardo Gudiño Kieffer e Jorge Luis Borges em Buenos Aires. Em Porto Alegre, hospedado na casa de Caio, Sylvia na cozinha, Caio disse que me amava. Foi um choque. Eu tinha tido uma primeira, única e última relação homossexual (ativa) aos 16 anos, com um jovem artista que se transformou depois num astro da jovem guarda. Foi o bastante para decidir, definitivamente, que eu gostava era

mesmo de mulheres e ponto final. Como dizer a Caio que eu gostava dele, mas não para fazer sexo? Eu havia escrito, com minha completa ausência de censura, alguns contos com temática homossexual. Tinha dito a Caio que alguns eram autobiográficos e era verdade: contavam histórias do início da adolescência, quando um menino a caminho de tornar-se adulto ainda procura sua verdadeira identidade. Acho que Caio viu naquilo uma

Domingos Pellegrini voltou à cena, após publicar livros que pretendiam mudar o mundo, herdar uma seita religiosa e sumir de circulação

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ponta de esperança: eu, com quem ele tinha tantos pontos em comum, principalmente a angústia existencial, poderia ser o companheiro eterno de sua triste e solitária vida até então. Com o casamento em crise, quem sabe? Ao longo dos anos eu perceberia que, apesar da amizade, algo se rompera. Eu era certinho demais, conservador demais, equilibrado demais – careta. Eu e Caio podíamos tomar chimarrão juntos, fumar maconha e beber chá de cogumelo alucinógeno, mas, na hora de compartilhar os corpos, lá ia eu para um canto, solitário e discreto. Não, aquilo não. Mas formávamos um grupo e durante alguns poucos meses tentamos levar as coisas. Logo a falta de talento de Jéferson e o excesso de ambição do juvenil e impetuoso Julio César lançaram Caio numa neurose descontrolada. A reação jocosa do Pasquim diante de suas críticas – o jornal mandara-o “se roçar nas ostras” – deixou Caio amargurado. Caio estava triste também por outros motivos. Julio César, o geniozinho simpático das cartas, na vida real era um mulherengo vaidoso que falava o tempo todo e não gostava de escovar os dentes e tomar banho. Domingos Pellegrini era marxista demais, um grandalhão saudável que a qualquer momento poderia pegar numa metralhadora e sair atirando em ditadores. Caio, tímido, sensível e frágil, via aquilo com horror. Jéferson era pequeno demais. Barreto sentia-se feliz com uma garrafa de cachaça ou um barril de chope: depois de certa hora, era impossível ouvir dele qualquer frase com sentido. Eu era, afinal, o único capaz de entendê-lo, de perdoá-lo por suas implosões depressivas. Eu jamais o mandaria se roçar nas ostras ou entubar um robalo, como fazia o Pasquim. Julio Cesar, sobre quem Caio escrevera uma página altamente elogiosa a seu livro Torpalium, publicado R E V I S TA G E R A Ç Ã O – 2 0 0 1

pela Atica, no jornal em que escrevia – passou a ser o demônio. Poucos meses antes Caio comparava-o a Glauber Rocha. Julio dizia que Caio era “o Ney Matogrosso da literatura brasileira”. Aproveitei a dica e pus Caio na capa da revista Inéditos, em pose bem feminina, com esse título. Mas Caio já não suportava o que considerava, em Julio César, uma certa propensão para a intriga e o jogo do poder. Julio era muito jovem e Caio foi injusto com ele: isso tudo passaria, um dia, mas Caio não queria esperar.

A coisa degringolou quando, diante do inusitado sucesso de Histórias de um Novo Tempo, os velhos senhores e senhoras do arraial literário começaram a caluniar os jovens contistas. Por que aqueles seis, e não outros? Por que não tinham sido 10, ou 20, os escolhidos? E por aí vai. Disgusting, diria Caio. Cada um, então, seguiu o seu caminho. A editora Codecri cresceu rapidamente e desinteressou-se do best seller de autores tão complicados. O livro parou na terceira edição.

Julio Cesar Monteiro Martins, o megalômano da turma, hoje é escritor renomado na Itália – um país mais à altura do seu talento

O que aconteceu conosco Que destino tiveram aquelas pessoas? Jéferson dirigiu a Codecri até seu apogeu. Foi mandado embora porque estava ganhando mais dinheiro do que os donos do Pasquim. Foi para a editora Record e a Codecri faliu. Hoje Jéferson mora em Belo Horizonte e escreve muito pouco. Antonio Barreto ganhou mais de 50 prêmios, publi-

cou vários livros de poemas, foi trabalhar numa rodovia no Iraque, transformou sua experiência em um romance e hoje continua em Belo Horizonte, escrevendo para crianças. Pellegrini publicou meia dúzia de livros, herdou do pai a direção de uma seita religiosa, a Perfect Liberty, desapareceu de circulação e acaba de retornar à cena

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Dedicatória do Ovo

Caio Fernando Abreu acabou por tornar-se o escritor mais conhecido dentre uma geração Caio Fernando Abreu

literária, com um prêmio Jabuti e novos livros no mercado. Deixou de ser comunista e vive tranqüilo em Londrina, no Paraná. Julio César Monteiro Martins decidiu finalmente que ou o Brasil era muito pequeno para ele ou ele era

muito grande para o Brasil. Aprendeu italiano, mudou para a Itália, onde é professor de literatura e lá já publicou dois livros. Em italiano. Parei de escrever – não escrevo ficção há 20 anos –, exerci o Jornalismo por 17 anos e acabei editor de livros.

Caio Fernando Abreu escreveu e publicou vários livros, passou a vida sofrendo e morreu de Aids falando abertamente da doença em suas crônicas. Tornou-se um autor cult da comunidade gay. De todos nós, foi o melhor. CONTINUA

Os paladinos do oeste em sua primeira aparição: no livro Histórias de um Novo Tempo. Emediato e Caio em 1988, na redação do Caderno 2 do Estadão. Um raro sorriso para a foto

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Nove cartas e um destino

MEMÓRIAS

Porto, 9.5.76 Luiz Fernando Emediato, Obrigado pelo interesse. Também estou secando você há muito tempo, contos e poemas publicados em jornais e suplementos. Boom ou bim, também não sei, falso populismo, undergrounds que tomam Chivas Regal (como diz Roberto Drummond). Como você , detesto discutir. Mas do seu trabalho fica sempre um gosto de coisa quente, viva, jovem. E eu gosto. Aí vai esse conto para a Inéditos. É das minhas últimas coisas. Ainda não vi a revista por aqui, mas Lucienne Samor – grande amiga, excelente escritora – mandou um número. Capa de primeiríssima, James Scliar – um Quixote no meio do lixo tecnológico? Andei lendo alguma coisa, gostei do seu conto – seco, com um final grilante; gostei da (peça) Cicatrizes, do Ratton, me deu vontade de dirigi-la; gostei de Wander Piroli. O resto ainda não li. (...) Gostaria de mandar um exemplo do Ovo Apunhalado pra você, mas esgotei minha quota de 50 exemplares e, na editora, me dizem que ta esgotado (não sei bem como, já que a distribuição foi uma merda). Segunda edição? Você sabe como são essas coisas... Forças! Mas vou ver se encontro algum, me dê algum tempo, ando meio ocupado demais. Não tenho – com a graça de Deus, nem terei – mulher & filhos pra sustentar, mas um psicanalista que me sai tão caro quanto. Ah! Não conheço a Silêncio. Será bem-vinda. Até outra, um grande abraço do seu Caio Fernando Abreu

Porto, 3.6.76 Luiz Fernando Emediato, Olha, vou dar uma de Roberto Drummond – no número 1 de Inéditos – e te escrever explicando porque não consigo escrever uma carta. Tenho andado muito ruim, moço. O corpo, a saúde propriamente dita, tudo bem. O que vai mal é a cuca. Depressões, confusões, pirações. Então – te escrevi duas vezes: a primeira saiu uma coisa sincera, mas lamentativa demais, um saco. A segunda saiu “madura e controlada”, mas extremamente falsa. Resolvi não mandar nenhuma delas, mas esta – contando porque não mandei. Não vale a pena falar sobre meus problemas – são muito meus, você não poderia me ajudar. Também não vale a pena fingir um equilíbrio que não tenho. Mas queria dizer que fiquei contente que você tivesse lembrado de mim. Recebi os exemplares de Silêncio e estou distribuindo por aqui. Muitíssimo obrigado, chegaram ontem, ainda não deu para ler – mas achei da pesadísima, com ilustrações ótimas. Eu queria também te mandar alguma coisa das nossas publicações daqui, mas tô dum jeito que me afastei muito de tudo e ir até a esquina às vezes é uma aventura. Me dê um tempo. Também gosto de você – conheço alguns contos e poemas seus, me parecem ótimos, sérios, fundos (aquele da última Ficção é o que gosto mais). Acho que tá na hora de você batalhar uma editora e soltar livro. Meus parabéns pelo nascimento de Alexandre. Fique contente, não analise e fique contente. A gente tem o vício (eu, pelo menos) de matar a alegria com mil análises críticas que geralmente não têm nada a ver. Toque o barco sem medo. Gente como você é sempre uma força. Muito obrigado por tudo que você diz sobre meu trabalho.Olha, eu tô fazendo um baita esforço pra melhorar. Quando estiver legal e puder dar outras coisas que não apenas queixas-e-lamentações, te escrevo longamente. Tô a fim de chegar em Minas lá por julho, daí a gente se vê. Um grande abraço do teu amigo, Caio

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Porto, 6.10.76 Emediato, amigo, Cheguei em casa do jornal e tinha uma coincidência curiosa e agradável – uma carta do Julio César, outra do Pellegrini, outra sua. Julio César tinha mandado um telegrama sobre a transação com o Pasquim: eu não acreditei e continuo não acreditando muito. Sou meio cético com essas coisas, talvez os deuses pasquinianos tenham dito que sim, com a intenção de enrolar-enrolar ad infinitum, como de costume. Mas como sou também paranóico e inseguro até as raias da demência (gosto muito desta palavra), espero que seja verdade. Principalmente porque merecemos, não é mesmo? Falando sério: seria muito bom (eu acho é que não estou querendo me entusiasmar muito, como tenho vontade, com medo de um desmentido). Deixa andar. Forças! (...) Trabalho: hoje fiz – SOZINHO – DUAS páginas do jornal. (...) Ufa. Mas sabe que eu gosto? Acho ambiente de redação deliciosamente neurótico. E, sei lá, o contato obrigatório com a palavra, todo santo dia, tá me fazendo escrever muito: saio de lá e venho pra casa escrever minhas próprias coisas. (...) Também fico cansado, vampirizado. (...) Meu irmão, a gente tem que descobrir maneiras – sejam quais forem – de ficarmos fortes. Paranóias de lado, é como um complô para que a gente mergulhe num fazer neurótico de coisas, ansiosamente, sem tempo para nós mesmos e as nossas ficções. Para que a gente desista, todos os dias. Você sabe que não devemos, que não podemos e, principalmente, que não queremos. Eu não sei se um dia as coisas realmente mudarão mas procuro, em tudo que escrevo (que é o meu jeito de agir sobre o mundo) colaborar de alguma maneira para que essa mudança venha. Você sabe, estou saindo de um momento muito escuro, então tenho procurado não deixar que as minhas dores pessoais – do meu ponto de vista: enormes – interfiram no meu viver objetivo. (...) Fiquei curioso com a sua auto-biografia-reveladora-e-bandeirosa, amanhã mesmo vou comprar. O título do conto é lindo. Tenho um pôster velhíssimo de Marilyn Monroe aqui na porta do meu quarto, e agora mesmo olhei para a esquerda e vi os lábios úmidos abertos num sorriso infantil, drogado e sensual. Uma coisa: dos últimos contos que escrevi tem um que acho publicável – você sabe com ou quem eu poderia transar na Status? Gilberto Mansur? (...) Se nossa antologia sair mesmo provavelmente vai ter rebus no Rio, aí certamente nos conheceremos. Vai ser bom. Dê notícias também. Não se preocupa demais. Relaxe. Navegue. Qualquer coisa, prende o grito, che. Estamos por aqui. Um abraço do seu, Caio

Porto, 28.12.76 Emediato, companheiro, Recebi tua carta – gracias. Olha, tô em dívida com você e com uma porção de gente, já faz tempo. Acontece que mudei – saí da casa de meus pais (enfim!) para um apartamento – e, além de toda a agitação natural, perdi minha caderneta de endereços. Com essa, perdi o contato com o Julio César – e a respeito de nossa antologia só sei o que você me diz agora. Olha, a Inéditos tá excelente. (...) Gracias pelo anúncio da Paralelo. A gente precisa. Talvez você já saiba, mas, se não sabe, talvez pudesse publicar uma notinha na próxima Inéditos: foi instituída a censura prévia a partir do número 3 de Paralelo. Não se sabe por quê. Simplesmente chamaram o editor - Delmar – no Dops e comunicaram. Mas a gente continua. Forças. Eu acho que estou bem. A saída de casa foi ótima. (...) Eu precisava desmamar. (...) Moro com um companheiro, um amigo velho, de mais de 10 anos. (...) Andei amando loucamente, como há muito tempo não acontecia. De repente a coisa começou a desacontecer. Bebi, chorei, ouvi Maria Bethânia, fumei demais, tive insônia e excesso de sono, falta de apetite e apetite em excesso, vaguei pelas madrugadas, escrevi poemas (juro). Agora está passando: um band-aid no coração, um sorriso nos lábios – e tudo bem. Ou: que se há de fazer. Seria muito bom se o lançamento de nossa antologia fosse logo e a gente pudesse se encontrar no Rio. Acho que a gente teria muito pra conversar. Sinto uma ligação telepática (?) com você. Não se angustie demais com trabalhos e esses baratos: deixe rolar. As previsões pra 77 são negras, fica difícil ter ilusões ou esperar, simples e candidamente que as coisas melhorem. Objetivamente, só vão piorar. Subjetivamente, a barra é de cada um. Segura daqui, segura dali – meu caro amigo. Estou te falando lugares comuns, não é? Me deu um branco agora – o cão começou a uivar no Pink Floyd. CONTINUA 26

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Objetivamente, só vão piorar. Subjetivamente, a barra é de cada um. Segura daqui, segura dali – meu caro amigo. Estou te falando lugares comuns, não é? Me deu um branco agora – o cão começou a uivar no Pink Floyd. Releio Alice no País das Maravilhas e descubro que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda não conseguiu entender tudo (jamais saberei). A gente olha em volta, o olho arregala, o coração bate. O ano tá terminando, meu amigo. Menos um. Os votos de feliz-ano-novo foram proibidos. Uma das coisas boas desse ano que passou foi conhecer você – pelo menos por carta. Fique contente, dentro do possível, fique contente. Curta o seu filho e o seu amor. Até outra, um abraço amigo, muito grande, do seu Caio

Porto, 8.3.77 Emediato, companheiro: Outro dia Julio César ligou pro jornal e batemos um bom papo, fiquei sabendo de todas as novas – desde o lançamento da antologia, programado para o fim de abril, até a remessa das Edições Marginais, pelo Jeferson (que não chegou mesmo). Você me dá belas notícias – livros, editoras (Ática e Alfa-Ômega são ótimas). O livro que aprontei, em princípio, tem editora. Deve ser mesmo a Globo, que tem uma distribuição péssima – mas eu tenho uma preguiça enorme de batalhar outra. (...) Trabalho, trabalho, trabalho. Resolvi “endurecer” um pouco minhas críticas (que usavam muitos “panos quentes”, em função da minha insegurança, principalmente) tenho tido problemas e mais problemas. Desde crises de consciência (sempre me culpo por possíveis injustiças) até situações desagradáveis com pessoas da “classe”. (...) Completei um ano de terapia e, com a loucura mais ou menos sob controle, talvez até o fim deste ano me sinta em condições de partir (N. da R - do Rio Grande do Sul). Coisa que, objetivamente, fica cada vez mais difícil... Forças! Tô mandando procê o número 3 da Paralelo – o primeiro pós Censura Prévia. Não houve grandes problemas para este número, cortaram pouca coisa. Mas a barra de grana da revista é que tá pesada. E pessoas desanimando, caindo fora do barco. Não acredito que vá além do número 5. Uma pena. Parece que os nanicos entraram quase todos em crise. (...) Sobre o “Manifesto Neo-Realista”, vou ser bem franco: eu realmente não sei. Sou cético, pessimista – acho que somos todos bons escritores, mas acho também meio megalômano nos supormos a nata das natas, saca? Acho inclusive uma atitude elitista. Somos bons, mas somos jovens e só o tempo é que pode dizer se a gente vai conseguir, pelo menos, continuar escrevendo. E às vezes, confesso, até mesmo isso me parece muito difícil. Então não sei, companheiro. Também tenho uma dificuldade incrível para me definir. A primeira frase, “contra o individualismo”, de cara já me grila. Eu não sei MESMO se sou contra o individualismo. Em processo terapêutico, e com uma formação literária onde as influências maiores creio que foram Lispector, Virginia Woolf, Proust, Drummond, Pessoa, por aí – não sei se posso afirmar isso, me entende? Pelo menos agora, eu não me sinto seguro. Por outro lado, há itens inteligentíssimos: “... literatura nacional, mas não xenófoba, populista ou demagógica. Assimilar e deglutir de forma crítica o que, não sendo nacional, for universalmente necessário” – por exemplo, acho perfeito. Quem sabe uma reformulação, não sei. Se vocês acharem que não é possível reformular, vamos supor, e que discorde de muitas outras coisas, vai sem o meu nome, por mim tudo bem. Em abril, irei até o Rio, seja como for. Eu tinha inclusive direito a uma semana de férias que aproveitaria agora em fevereiro. Julio César inclusive já falou que posso ficar lá (na casa dele). Uma vontade INCRÍVEL de conhecer vocês. Curioso o que você diz do Pellegrini, é de se conferir pessoalmente. “Seguro e saudável” – acho que sobre mim você poderia dizer “inseguro e doentio”... Mas tenho, também, meus bons momentos. Só não suporto cara machão (também não suporto mulher fêmea demais), gente barulhenta, agitada e neurótica. Um mínimo de silêncio, um pouco de ambigüidade (ai, a formação européia...) Recebi uma Edições Marginais (um exemplar). Não cheguei a ler todo e uma amiga carregou, Mary, fascinado pelo seu conto – que eu nem tinha lido ainda. Achei excelente o Raízes, do Domingos (Pellegrini). Poesia, simplicidade, síntese, limpeza: lindo. Um abraço do seu companheiro, Caio

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Porto Muito Frio, 19.5.1977 Emediato, meu irmão: Cheguei ontem – ainda não aterrisei bem. Um frio horrendo. Sei que um cartão é meio formal, mas no momento é o jeito – duas da matina, pilhas de trabalho, paranóia à solta pela cidade. Objetivamente: fui em três livrarias do centro e pedi que colocassem teu livro na vitrine. Tô distribuindo ele. Ainda não deu pra fazer a matéria sobre. São Paulo foi ótimo, se o Julinho não te escrever contando, eu escrevo logo. Olha: foi bom demais te conhecer . Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Ainda não consegui aterrisar bem da viagem e tô sofrendo um pouco, mas tudo bem. Te escrevo mais, logo. Cuide bem de você. PS – Assinei contrato com o Mangarielo. Te elogiou muito, escreve. Caio

Porto, 25.5.1977 Emediato, brother/hermano: (...) Emediato, ontem recebi uma carta do Jeferson que me grilou. Ele fala uma porção de coisas desagradáveis sobre o Julio, parece que ficou muito grilado pro termos – eu, você e Julio – nos isolado um pouco dele, então veio com historinhas meio sujas, que me fizeram tomar três quartos de uma garrafa de conhaque – “pedras” – caetano – no fundo do azul” – e escrever uma carta violentíssima. Que – claro, – acabei não mandando. Não fale disso a ele, tô sõ desafogando com você: eu não gosto de tramas, fofocas, não gosto da sensação de que querem me envolver num negócio meio baixo. Vade Retro. (...) Ô , minino, eu já tô com uma sôdade enorme, você e Julio TÊM que vir em junho, senão terão que me mandar maçãs e fotonovelas, pelo reembolso postal, para a clínica psiquiátrica onde serei internado – de pura carência. (...) Emediato, cê já tem fãs aqui em PA – em breve ficarão conhecidas como as “Emediatetes”, tua foto fez sucesso, tuas declarações idem. Prevejo você descendo no aeroporto escoltado por mil policiais e raparigas frenéticas se espatifando por um cacho dos teus cabelos. Me ajude a convencer o Jeferson a fazer o lançamento (N. da R. – lançamento do livro Histórias de um Novo Tempo, editora Codecri) aqui. Cê pode ficar na minha casa nova, que é p’q’nina e formosa, cheia de plantas e cores, com duas pessoas bonitas, Sandra e Gui, com quem enfrentei barras & barras em London, London. Tarde, tarde. Uma e meia. Quero ainda escrever prô Julio. Me escreve logo. Guto e Luiz Artur também mandam abraços. Até . Seu Caio Sylvia e Alexandre, 1976

Porto, 1.7.77 Emediato, irmão:

Nêgo, foi muito bom receber a tua carta. MUITO BOM MESMO. Eu estava cheio de suspeitas, pintaram muitas estórias paranóicas na minha cabeça – com base no real, infelizmente (se fosse demência seria mais fácil). As estorinhas around as Histórias de um Novo Tempo foram tantas & tantas, e tão exaustivas, e tão idiotas que – enfim, deixa pra lá. Bastidores literários: aaaaarrrrrrrg! Mon coéur vomite. (...) Vou hoje à tarde pra Caxias do Sul, lançamento do Ovo (tão antigo) & papos (que cansaço) com estudantes.Eu todo doído. Minha vida tá toda errada. Bodes em vários níveis, às vezes me sinto bombardeado de – sei lá o quê: em casa, no trabalho, afetivamente, financeiramente. Poucas vezes a barra esteve tão pesada. No país, é isso que você vê. Cada vez pior. Ai, Emediato, pra onde a gente tá indo? Prenderam gente, a paranóia tá à solta por aqui. Y otras – muchas – cositas más. Em compensação, tenho trabalhado – escrito – muito. Talvez por fuga? Não sei, acho que não – porque a realidade dos meus textos é tão ou mais (?) terrível do que o real dia-a-dia. Sobre você vir em julho: MARAVILHOSO. Dificilmente poderei ir a Buenos Aires – só tenho direito a férias em setembro. Mas mesmo que você fique cinco minutos aqui, seria ótimo. Se você quiser, pode ficar lá em casa (mudei praquela casinha, anote lá: rua Chile, 661) com ou sem Sylvia. Eu espero que o relacionamento de vocês se resolva de maneira que te doer menos. Não quero me atrever a dizer coisas sobre – mas, olha, evite arrastar um relacionamento moribundo. Sempre é melhor reagir, partir pra outro CONTINUA do que arrastar, arrastar. 28

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Mangarielo (N. da R. – Fernando Mangarielo, editor da Alfa Ômega) esteve aqui – também gosto muito dele, descontado certo speed (típico de SP). Lá (e aqui de novo) ele já tinha feito altos elogios a você: sobre a sua elegância, a sua finura, a sua correção – mais ou menos o que disse a você de mim. O que me faz supor – quem sabe? – que essas sejam características do signo de Virgem. Meu livro – Pedras de Calcutá – deve sair em outubro. Li a crítica do Pólvora (N. da R. – Hélio Pólvora, crítico da revista Veja) sobre o Jordão (N. da R. –Não Passarás o Jordão, livro de estréia de Luiz Fernando Emediato, pela editora Alfa Ômega, de Fernando Mangarielo, em 1977). Fiquei contente, como divulgação é ótimo (como crítica, bem...), O prêmio da Status eu já sabia, pelo Julio – PARABÉNS. Tudo isso é muito bom, além de você merecer, é um puta impulso pra te lançar. Nêgo, eu não tô nada bem. Queria te escrever com mais carinho, mais entusiasmo, com mais vida. Mas olha, não tá saindo. Queria muito que a gente se visse em julho. Acordei com uma frase do Poema Sujo me massacrando a cabeça: “como uma coisa suja (uma culpa) dentro de uma pessoa” mas não consigo relacioná-la com nada objetivo. Talvez seja uma coisa que eu deva evitar: culpas, culpas, culpas, culpas. Emediato, gosto muito de você. Um abraço do seu irmão,

Fernando Mangarielo em 1977

Caio

Porto Molhado, 22 de agosto-mês-do-desgosto, 1977. Emediato, amigo: “Estou um tanto perturbado – recém cheguei do cinema, fui ver O Inquilino, do Polanski. Acho que poucas vezes, ou nunca, vi nada tão patológico: é assustador, sobretudo porque convincente – um processo de enlouquecimento visto de dentro, num crescendo que chega até o gran-guignol do final – brrrrr! Já estou elaborando em cima da minha perturbação e tentando entender – saí do cinema absolutamente tonto, trêmulo, me enfiei no boteco da frente e tomei um balde de café. Agora passou pouco. É que o filme, do meu enfoque, é justamente sobre a paranóia no relacionamento Jeferson Ribeiro de Andrade entre as pessoas (no caso específico do filme, agravada por uma série de outros fatores – a solidão e o homossexualismo contido da personagem). Essa paranóia, essa desconfiança, esse medo do outro tem sido meu leit-motiv nos últimos tempos. Vem de fora pra dentro – porque a cidade grande, o trabalho no jornal e o ninho de cobras da, aarrgh!, vida-literária só fazem aumentar isso; mas vem também – e isso é que me assusta – de dentro pra fora, de núcleos doentes, escuros e tristes existentes dentro de mim, e já vividos numa dimensão de terror semelhante à do Inquilino principalmentn sob efeito de ácido. E (até quando?) sob vigilância constante, sob controle, em tratamento (eficaz?).\ Mas tudo isso é pra prefaciar uma atitude que tomei na semana passada, e que me sinto – ia escrever obrigado ou no dever, mas não é nada disso: bem, quero te contar. Um amigo meu mandou-me o recorte de uma carta dele enviada e publicada em O Pasquim da semana passada, em que ele criticava a entrevista conosco. A resposta era uma grossura incrível (...). O sangue me ferveu: fiquei PUTO. Somei isso a um telefonema ambíguo (?) do Jeferson recebido um dia antes (...) e resolvi agir, por minha conta, sem consultar absolutamente ninguém. Escrevi duas cartas: uma à seção de cartas daquele jornaleco careta e reacionário, de três páginas, muito agressiva, dizendo absolutamente tudo o que penso sobre eles e sobre os cortes feitos na entrevista (estranho que praticamente não cortaram nada das palavras de vocês, só das minhas). Outra ao Jeferson, dizendo que absolutamente não permito que a Codecri ou seja quem for se dê tais direitos sobre um texto meu. Quero saber da possibilidade de retirar meus contos de uma possível terceira edição. Não sei que providências eles tomarão – talvez eu tenha comprado uma briga muito feia e preciso até de advogado. Não importa. Assumo plenamente o que fiz. Estou de saco absolutamente cheio da Codecri, do Pasquim, das intrigas do Jeferson e das atitudes doentias do nosso amigo Julio Cesar. Eu tenho uma psicologia muito frágil – simplesmente não quero me envolver em estorinhas sujas como essa. É doloroso ver o carreirismo, a falta de escrúpulos e o mau-caratismo de gente que eu, ingênuamente, supunha “amigos”. Estou ferido e cansado. (...) e escrevo a você explicando diretamente o que se passa, para que não venha um desses jefersons ou julios da vida armarem tramas escuras entre a gente. Eu te quero bem e gostaria de preservar o relacionamento da gente – que me parece sadio. É só nisso que estou interessado: um pouco de saúde, um pouco de honestidade, um pouco de decência. (...) No mais, arrasto minha solidão por dentro do cinza deste agosto interminável em direção não sem bem a quê, quem sabe? Ou outubro, ou novembro. Ou um Godot qualquer que não vem nunca. Sei lá. Estou enviando os recortes das entrevistas. Mais este conto para a Inéditos. É uma barra, mas é o que eu sou. Ou pelo menos um dos meus lados. Talvez o mais limpo. Do meu ponto de vista. Dê notícia, quando puder. Um abraço para Sylvia. Outro procê. Do Caio R E V I S TA G E R A Ç Ã O – 2 0 0 1

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