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Era até estranho ver aquele menino tão feliz. Dona Mariana, beata fervorosa, tinha dado um pirulito a ele. Ela, que o tratava de forma tão estúpida, ficou toda envergonhada ao ter recebido do menino a bolsinha de moedas que tinha perdido na missa anterior. A velha conferiu, contou, recontou, olhou desconfiada para o guri, contou de novo. Todo seu dinheiro estava lá, sem baixas. E não é que o moleque era direito? Mas, Padre Gregório tinha que insistir nas pretensões religiosas de Frei Sebastião. “Educar é 2ª meta. A 1ª é guiar o garoto para o caminho da salvação. Com um pai daqueles, esse menino não vai muito longe...”, dizia o velho mineiro. “Tão esperto, o bichinho... E a mãe o ensinou direitinho. Mas, aquele pai... Vai estragar a vida dele, escute o que eu estou dizendo Gregório.” Gregório riu para si, deu um suspiro e se sentou no batente da escada lateral da igreja, bem ao lado do garoto. Rindo, continuando o sermão: -Ah, então você não tem débitos com Deus? -Claro que não. Eu sou um menino bom, não sou? -É, meu filho. Nunca disse que não era. -Então?! O que é pra mim dizer agora que eu não disse?! -“Para EU DIZER”, Quinzinho... -Paaaaara eeeeeeeeeeeu dizeeeeeeeeeeer, padre?

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– Falando devagar, de cara amarrada. Quinzinho odiava ser corrigido. -Agradeça a Deus pelo doce que ganhou de Dona Mariana. -Não. Eu agradeci À DONA MARIANA! Foi ela quem me deu o doce, não foi Deus não. -Que criança mais presepeira!!! Mas tem que agradecer de todo jeito! -Eu já agradeço todo dia por tudo que ele me dá. – disse docemente. -Oxe, e pelo doce, então? -Não. Quem me deu foi Dona Mariana. Deus não tem nada haver com isso, Padre Gregório. O padre se controlou. Se risse, ia acabar com o tom de punição que deveria manter. -Olha, Joaquim, que Deus te cobra o que pertence a Ele, viu?! -Eu sei. “Dai a César o que é de César. Dái a Deus o que é de Deus...” -Isso, por isso... -“Dai a Joaquim o que é de Joaquim.” – Disse o menino solenemente. Gregório tentou, mas, não conseguiu controlar a gargalhada. Joaquim não riu. O que era um detalhe fundamental. Ele falava sério. -O Senhor cobra. E com juros altos...

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O padre parou, encarou o moleque (que não dividiu sua atenção à outra coisa que não fosse o pirulito). Apoiou a cabeça sobre os braços cruzados, encolhidos sobre os joelhos. Estava desolado. Queria sair daquela cidadezinha mixuruca logo. Mas, deixar o Quinzinho ali era um crime. O pai do menino já tinha dito, sem piscar, um simpático “filho meu não vai virar padre nem que chova canivete”. Claro, ele não queria fazer os gostos da falecida esposa. Olhou o menino novamente. -Sabia que eu, na sua idade, não sabia ler nem contar, Quinzinho? -Verdade? – O menino finalmente focou no padre. -Sim, verdade. Eu também só vim aprender alguma coisa de latim já mais velho. -Eu gosto de latim. Dá para entender algumas coisas que tem na missa... -Joaquim... Era uma facada dizer que ia embora. Gregório pensou muito, no último instante se acovardou: -Você gosta de matemática, né? Eu disse ao Seu Otávio que você sabe fazer conta, e muito bem. Ele deixaria você trabalhar na venda dele, se você quisesse, é claro... Desde que continuasse na escola. Nisso ele bateu o pé: “o Quinzinho tem que continuar no grupo

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escolar...” (O padre imitou a mania do português de pentear o bigode com as unhas). Mentira deslavada do jovem padre. Seu Otávio da Vendinha estava pouco se lixando para o moleque. O que ele não queria é ver o pai do menino arrumando encrenca por lá... -Quero não... Odeio a escola... Seu Otávio só me deixa trabalhar lá se for assim mesmo, é? Aquele menino era mais alto que os outros garotos, até mais velhos que ele e seus 9 anos. Sabia ler divinamente, calcular bem e tinha interesse por conhecimentos gerais, principalmente biologia. Era louco por bichos. Não caçava passarinho ou praticava o “atirei o pau no gato”. Não sabia usar um estilingue direito, nem tinha interesse nisso. Queria aprender outros idiomas (mesmo tropeçando no português), saber o porquê das coisas, resolver os quebra-cabeças que o davam. Ter sua inteligência desafiada. Mas Joaquim dava dó só de olhar. Era um poço de carência. Todo tamanho não servia para defendê-lo das chacotas dos coleguinhas e da estupidez do pai. Aquele tamanhão não impunha respeito. Claro que não. Ele era um garoto de aspecto tão bobo e quieto, falava quando lhe falavam e não sabia ser ríspido com ninguém. Tentava, mas falhava sempre. Se defender de agressões físicas ou verbais não era fácil, não com

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aquela meiguice toda. Sua timidez refletia na postura, na forma de lidar com todos. Entre os irmãos leigos (e uns franciscanos que passaram uns tempos por lá, sondando o local) ele se soltou. Tagarelava, perguntava sobre os passeios (para o menino, toda viagem era um passeio...) que eles fizeram até aquele momento. -Só deixa assim. Isso ele fez questão. Sei que escola está chata, mas não pode largar os estudos não... -Eu aprendo mais fora da escola com vocês! E minha mãe gostava de me deixar aqui... -Certo, certo. Faça como achar melhor. Mas, nas escolas de medicina, eles dão preferência aos que terminam o estudo básico. Quem tem os estudos incompletos, vai para o final da fila. E, sendo pobre então... -É? – Os olhos castanhos, miudinhos e pestanudos do guri ficaram redondos. -Claro, meu filho! Está pensando que uma escola de medicina é coisa para a-ven-tu-rei-ros dos pés descalços, é? – Gregório forçou uma fala de entendido. Aquela era a hora certa. Não era bom simulando ares ferinos, mas, ou fazia logo medo ao pivete, ou ele se acomodaria e não seria ninguém na vida. Entre as piores escolhas, se tornaria um padre fodido, que nem ele... Joaquim fez aquela carinha. AQUELA EXPRESSÃO

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que o padre adorava ver no moleque. A expressão de quem foi menosprezado. De quem levou uma tapa de luvas com cascalhos dentro. De quem foi desafiado e não ia amarelar. -Outra coisa, Joaquim: Minha estada aqui na cidade terminou. Eu ia contar assim que... -Eu já sabia. – Disse o menino, sem encarar o jovem padre, desenhando na terra com o palito do pirulito, que já tinha sumido. -Sabia? Então fica mais fácil... -Não, fica não. O “não, fica não” era neutro, como uma leitura bíblica de um bispo preguiçoso. Não vinha carregado de nenhum sentimento, ironia que fosse. Nem um pingo de tristeza. Soava como um “todo corpo mergulhado em um líquido recebe um empuxo de baixo para cima...”, “põe mercúrio nisso” ou “a resposta é cinco”. Era uma conclusão científica. Gregório sabia da decepção que estava causando ao menino. A morte da mãe, por incrível que possa parecer, não foi traumatizante: A mãe vivia adoecendo, com tudo. Ela fazia questão de preparar o menino para sua partida todos os dias. E viver numa mortuária também contribuiu para que não se abalasse com a Morte. Um baque forte na vida de Joaquim foi, sem

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dúvida, a partida de Luiz, um dos irmãos mais novos de sua mãe. Com a morte da irmã, de quem era mais próxima, foi expulso de casa pelo cunhado. Todos na cidade sabiam que a confusão era antiga. Os santos dos dois não se batiam. O jovem (que, estando vivo, provavelmente teria uns 16 anos) estaria no Rio de Janeiro, morando com outros parentes. Conviver com aquele pai grosseiro e amargurado não era sinônimo de segurança para ninguém. Gregório deixaria o menino só, novamente. “Se tem uma coisa que eu sei fazer nessa vida é isso: Abandonar quem precisa de mim.” Silêncio. O padre, ainda absorto no rabiscar de Quinzinho e no “não, fica não”. Quando menos percebeu, estava chorando, enxugando o rosto na manga da sua batina diária. Joaquim ficou imóvel com a cena. Seria cômica em outro contexto: Gregório estava ridículo chorando daquele jeito, contraído naquela roupa longa (que, pelo visto, não garantia proteção divina contra tristeza). O garoto se levantou. Ficou olhando um tempinho para aquele moço, sempre tão seguro de si, parecendo ali uma criança desamparada. Deu alguns passos, jogou o palito no chão, limpou as mãos nas costas da camisa e catucou o ombro

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de Gregรณrio: - Quando eu vou lรก falar com Seu Otรกvio da Vendinha? ~~*~~

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Dr. dos Anjos ~ Capítulo 4 Escrito por Alceu Pantaleone Ilustrado por Edgar Guimarães Diagramação por Alceu Pantaleone Revisão por Alceu Pantaleone

Pernambuco, Brasil 2013 Visite: sircatseries.tumblr.com


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