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MEMÓRIAS DUM SERTANEJO Crónicas de Gustavo Pinto Lopes publicadas na revista O Mundo Português, de 1938 a 1943


FICHA TÉCNICA Autoria dos textos Gustavo Pinto Lopes Transcrição dos textos Vitória Brites Texto de abertura Ana Maria Marques Revisão Ana Maria Marques Coord. editorial Ana Maria Marques e Margarida Moleiro (GEPE/CMTN) Colaboração Armanda Teixeira (Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes) Capa Ornamento de cachimbo Kuvale. Coleção de etnografia africana do Museu Municipal Carlos Reis/MMTN nº 95. Doador: Joaquim Silva Pessoa Fotografias revista O Mundo Português e Arquivo Histórico Municipal de Torres Novas Edição Município de Torres Novas Torres Novas, 20 de junho de 2014 Textos recolhidos na revista O Mundo Português, editada em Lisboa, pela Agência Geral das Colónias e do Secretariado da Propaganda Nacional [crónicas de Gustavo Pinto Lopes, publicadas entre 1938 e 1943; excertos de uma das palestras que proferiu sobre o território de Manica e Sofala, datada de 1928 e editada postumamente pela revista, em 1945] A revista O Mundo Português está disponível para consulta pública na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes de Torres Novas.


Gustavo Pinto Lopes, 1864-1944 [Pormenor do retrato do fundador da biblioteca-museu, pintado e oferecido por Carlos Reis a Gustavo Pinto Lopes, no dia 20 de junho de 1937, data da inauguração da biblioteca e do museu municipais de Torres Novas. Esta obra faz parte do acervo do Museu Municipal Carlos Reis, de Torres Novas, e está patente ao público na sala de pintura dedicada ao mestre-pintor, patrono do museu.]


PRELÚDIO PARA VIOLONCELO Gustavo de Bivar Pinto Lopes foi o primeiro diretor da biblioteca e do museu municipais de Torres Novas, simbolicamente inaugurados em 20 de junho de 1937, mas fundados uns anos antes, por deliberação da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, presidida pelo próprio Pinto Lopes e por proposta do mesmo, no dia 11 de maio de 1933.

Nascido em Torres Novas, a Torres Novas dedicaria o resto da sua vida. Da outra vida, da anterior, a longa aventura africana, deixou-nos os mais belos textos, as histórias mais divertidas, as marcas inelutáveis da sua imensa erudição. Nelas se assume como herói, jovem rebelde e atrevido, homem de paixões várias, incluindo a da política. Foi cientista, etnógrafo, caçador feérico e aficionado, possuidor de vastos conhecimentos de zoologia, e, em particular, das espécies africanas. Dotado de um espírito artístico, de um temperamento sarcástico e viva inteligência, era irreverente, mas leal, embora crítico e inconformista.

Já conhecíamos as Respostas ao questionário Etnográfico, trabalho ordenado pelo GovernoGeral da Província, ao qual adicionou um vocabulário das línguas nativas, que dedicou ao território de Manica e Sofala e foi publicado em volume pela Companhia de Moçambique. Sendo uma produção de cariz mais propriamente científico revela do seu autor uma capacidade de observação assinalável e um respeito inteligente pela cultura indígena, apesar de tudo notável, se tivermos em conta que Pinto Lopes representava o governo e os interesses coloniais e que a sua posição e formação intelectual dificilmente o conduziria a questionar o pensamento dominante português (e europeu) sobre os povos nativos da chamada África negra, visão profundamente racista e etnocêntrica. Gustavo Pinto Lopes era, para além de todas as suas qualidades e capacidades, um homem do seu tempo.

As crónicas que publicou na revista O mundo português revelam a sua faceta de herói, que foi, durante a ocupação africana. Muitas são quase exclusivamente dedicadas às façanhas da caça e da guerra (boa matéria de pesquisa para os antropólogos que se dedicam aos estudos de género). Mas é através das referências indiretas que os textos deixam transparecer, que nos vamos apercebendo de outras características do seu autor: que era leitor incansável, e dominava diversas línguas, que era melómano e tocava violoncelo, ou ainda que se relacionava com personagens cujos nomes hoje conhecemos a partir dos livros de História.


Dos 40 longos anos que viveu em Moçambique e na Zambézia, anos de força e juventude, não esqueçamos, restou-lhe uma infinita e confessa saudade. As crónicas que aqui compilámos, a partir dos originais publicados pela revista, materializam essa saudade. São muitas vezes acompanhadas de fotografias, as poucas que se salvaram de um desastre ocorrido em África, em que o nosso herói perdeu quase tudo, à exceção do bom humor e da esperança, como o próprio regista ao relatar o trágico acontecimento. Sobre as fotografias, em concreto, chega mesmo a dizer que lhe «fazem reviver aqueles tempos tão saudosos em que (…) tinha energia e campo para a exercer».

Neste ano de 2014, em que se celebram os 150 anos do nascimento de Gustavo Pinto Lopes, neste dia 20 do mês de junho, em que o museu comemora mais um aniversário, disponibilizamos este conjunto de textos para que deles desfrutem os nossos leitores e que, como não podia deixar de se dizer, seguem em forma de tributo à memória do seu ilustre autor.

Torres Novas, 20 de junho de 2014


1 Durante a minha longa permanência em terras africanas não foram certamente as sensações fortes que me faltaram; sem dúvida não tiveram conta as ocasiões em que me senti desgostoso, desanimado, sobressaltado, ou receoso, e também as houve, menos frequentes porventura, em que exultei de júbilo, de satisfação, de felicidade. Entre todas essas sensações duas houve porém que por tal forma e tão intensamente me abalaram, que ainda hoje (e já lá vão tantos anos) as não recordo que me não sinta invadido por comoções semelhantes às que então me fizeram vibrar. Em novembro de 1889, na ocasião em que o nosso Governo multiplicava as expedições, destinadas a provar o nosso domínio efetivo em territórios de que a Inglaterra pretendia assenhorar-se com o argumento de que Portugal os abandonava; e quando já por lá andavam ou tinham andado António Maria Cardoso no lago Nhassa, Paiva de Andrada e Vítor Cordon no Zumbo e Sanhati, Serpa Pinto e João Coutinho no Chire, foi encarregado Henrique Carlos Lima, oficial-maior da Secretaria Geral de Moçambique, de organizar uma expedição para ir avassalar o célebre Luanhica, régulo do Barótze. Henrique Lima, com quem eu já trabalhara numa comissão de inspeção e sindicância aos Prazos da Coroa de Quelimane e Sena, convidoume para o acompanhar. Apesar de fortemente impaludado, e padecendo de anemia geral profunda, conforme dizia o atestado médico com o qual devia apresentar-me à Junta de Saúde de Moçambique, não hesitei em aceitar o convite, e marchei logo Zambeze acima.


Poucas semanas depois, já no Zumbo, recebi de Henrique Lima, que tinha ficado em Tete em trabalhos de organização, a notícia do ultimatum. Para não interromper os seus trabalhos, que aliás não podíamos prever se viriam a ser necessários, fui encarregado por ele de ir a Moçambique conferenciar com o governador-geral, que era então o prestigioso oficial da Marinha Neves Ferreira. Deste soube que Barjona de Freitas estava em Londres negociando um tratado – o célebre tratado de 20 de Agosto, que viria a ser pateado no Parlamento em 15 de Setembro; e do mesmo recebi a ordem de seguir de novo a caminho do Barotze. Cumprindo esta ordem, já íamos no Cafúcuê (Cafuê nas cartas), quando nos chegou telegrama emanado do Ministério da Marinha mandando-nos seguir a marchas-forçadas para a Lunda a socorrer a expedição Sarmento. O direito à Lunda, continuava o telegrama, era-nos garantido pelo tratado com a Inglaterra, mas contestado pelo Congo Belga. Basta olhar para a carta de África para ver imediatamente o absurdo de tal ordem; a distância a percorrer a marchas-forçadas seria de 2000 a 3000 quilómetros. Soubemos ao mesmo tempo que vinha de Quelimane, em nosso reforço, um destacamento que não passou de Sena. Era então Ministro da Marinha e Ultramar Júlio de Vilhena; mas ninguém fará à memória daquele notável estadista a injúria de lhe atribuir qualquer responsabilidade naquela estúpida determinação. Assim como ninguém se lembrou, poucos anos antes, de culpar o Ministro Pinheiro Chagas doutra calinada: – a nomeação dum pároco para Tete com a obrigação de ir dizer missa ao Zumbo pelo menos uma vez por semana. Nesse tempo ainda não havia aeroplanos nem automóveis, e a distância em linha reta entre as duas povoações anda por 300 quilómetros… Tomado conhecimento da inexequível ordem, resolveu Henrique Lima ir a Moçambique, ficando eu no Zumbo à espera dos acontecimentos. Por esse tempo o tenente Alberto Carlos, comandante militar do Cafúcuê, adoeceu gravemente, tendo de retirar com urgência; e não havia no Zumbo, além do governador, tenente-almoxarife Luís Inácio da Assunção, senão um oficial que fazia serviço como secretário do distrito, e não podia por isso ser deslocado. Por outro lado não parecia conveniente abandonar aquele posto até à vinda doutro oficial, que só daí a muito tempo poderia chegar, por causa da dificuldade de comunicações; nesse tempo ainda ali não havia telégrafo nem telefone, e o serviço postal era moroso. Lembrou-se então o governador de me convidar para exercer aquele cargo, justificando a nomeação com a informação de que o nomeando tinha a ilustração precisa para o bom desempenho do serviço. Eu objetei que me faltava a qualidade que me parecia indispensável para comandante militar, visto ser paisano: contudo, apesar de não ter na minha ilustração a confiança que o sr. governador benevolamente manifestava, mas supondo que seria essa a qualidade a que menos necessária me seria no Cafúcuê, aceitei e partir para o meu novo posto. O comando militar do Cafúcuê estava provisoriamente instalado numa ilha situada justamente na confluência do rio daquele nome com o Zambeze. Compunha-se de meia dúzia de palhotas, cercadas por uma paliçada de pouco mais de metro, e o pessoal limitava-se a 4 velhos


soldados pretos de Angola, que havia bastantes anos tinham direito à sua baixa; 1 deportado branco que, sendo corneta em Lourenço Marques, tinha tomado parte numa insubordinação no tempo do governador Azeredo de Vasconcelos, e uns 12 cipais fornecidos pelos capitãesmores do Panhame e Inhacoê. O material de guerra reduzia-se a uma peça Krupp que tinha já servido, segundo diziam, na guerra franco-prussiana de 1870, 4 espingardas Snider (ou antes Enfield transformadas), e várias espingardas de carregar pela boca, algumas das quais de pederneira. O pouco tempo que ali estive aproveitei-o o melhor que pude para tomar conhecimento da região que me fora confiada. Visitei o Sanhati, onde pouco antes tinha estado Vítor Cordon que ali construíra duas ou três palhotas a que deu o nome pomposo de Vila Amélia, cercadas por uma paliçada, então já em ruínas como as palhotas, que batizou com o nome não menos pomposo de Forte Luciano Cordeiro; subi o Cafúcuê até onde a sua navegabilidade mo permitiu; e preparava uma excursão às cataratas de Moziatúnia (Vitória Falls) que não estavam ainda banalizadas como objeto de turismo pela agência Cook e congéneres. Este projeto não chegou a ser executado porque, quando mal me precatava, recebi comunicação de que um modus-vivendi, acordado entre o nosso Governo e o de Inglaterra, nos obrigava a abandonar os terrenos em litígio, enquanto se negociava o segundo tratado com aquele país. Ao receber a triste notícia senti apenas uma espécie de atordoamento, e nesse estado de depressão e apatia fiquei durante os poucos dias que demorou a embarcação que devia transportar o material e parte do pessoal para o zumbo. Chegada esta, despertei um pouco do abatimento em que estava, pela necessidade de dirigir o embarque. E quando tudo estava pronto, lembrei-me de que era necessário proceder à solenidade de arrear a bandeira. Formados os soldados com o branco e os cipais, e quando fiz descer lentamente o simbólico pedaço de filelo, parece que só então tive plena consciência do que se passava, e as lágrimas, até então represadas, correram-me pelas faces com abundância. Saiba pois o leitor que a sentinela perdida que, há 45 anos, no posto mais internado da província, teve o triste privilégio de saudar pela última vez as cores nacionais, foi este seu criado, – um paisano…

Ao recordar este episódio doloroso, acode-me sempre à memória, por natural associação de ideias, outra comoção igualmente intensa, embora de natureza inteiramente diferente. Na qualidade de melómano, tenho devido à música momentos de inefável prazer, de alegria, de ternura, de entusiasmo, de arroubamento. Eclético quanto a escolas e géneros, sem quaisquer pretensões a crítico nem a entendido, ouvi sempre com maior ou menor delícia obras de Bellini, Verdi, Beethoven, Wagner ou Tschaikowski. Mas devo confessar que, em toda a minha dilatada existência, nenhuma melodia me causou impressão semelhante à que experimentei uma tarde ao ouvir estes singelos compassos, em que entram apenas as três notas do acorde perfeito em dó maior:


Eu conto como foi. Em 1887, estando eu em Tambara, no Zambeze, como chefe daquela circunscrição, a rebelião indígena que havia já bastante tempo estava latente, estalou na Gorongoza. O chefe de Sena, Fernando de Oliveira, mandou-me chamar a toda a pressa, porque constava estar cercado em Gouveia o dr. Mateus Sampaio pelas gentes de Luís Santiago e do Cambuemba, e que o governador Joaquim Machado lhe ordenara por telegrama que fosse em seu socorro. Pedia-me que fosse a Sena para dali seguirmos, com os recursos que pudéssemos arranjar, a cumprir aquela ordem. Realmente daí a dias saíamos os dois, com um voluntário americano ou inglês, Smith, que se ofereceu como guia, umas dezenas, poucas, de cipais improvisados, e alguns carregadores. Eu, que já conhecia a gente com quem íamos contender, e melhor ainda aquela que nos acompanhava, bem via que se tratava de uma aventura sem probabilidades de êxito, e não o escondi a Fernando de Oliveira. Este porém respondeu aos meus reparos mostrando-me a ordem que recebera, e dizendo que, embora paisano como eu, entendia que aos subordinados cumpre obedecer e não discutir. Contava além disso com o seu prestígio entre os pretos da Gorongoza, onde fora chefe pouco tempo antes, e onde era bastante estimado. Logo na primeira noite, na pequena povoação onde contávamos dormir, com o motivo ou o pretexto de exigências violentamente manifestadas por Fernando de Oliveira, toda a gente da povoação fugiu, indo naturalmente avisar os rebeldes da nossa aproximação. Desistimos por isso do descanso, de que aliás bem precisávamos, principalmente os carregadores, e continuámos a marcha. Quando amanheceu já tínhamos atravessado várias aldeias igualmente abandonadas, encontrando numerosas pegadas de fugitivos. Nesta tarde, caminhando com dificuldade debaixo de chuva, depois duma refeição engolida à pressa, vimos de repente Smith voltar para trás muito pálido, e fazendo-nos sinais para nos tranquilizar. Quase logo apareceram alguns pretos armados, à frente dos quais conheci o Vicente, filho do Luís Santiago, que assim que me viu, perguntou: – Quem vem com o senhor? – Fernando, respondi eu. Esse nome teve o condão de tranquilizar aparentemente a horda, e quando Fernando de Oliveira, que por ser mais idoso e um tanto obeso, vinha sempre bastante atrasado, chegou ao pé de nós, já o Vicente conversava amenamente comigo. Entretanto eu já notara que toda a nossa gente desertara, com exceção apenas dos meus moleques e cozinheiro, e estávamos portanto à mercê dos rebeldes. Tive pois que inventar qualquer história para nos livrarmos do apuro, e o que me ocorreu foi dizer-lhes que, tendo constado ao Macahado (nome que os indígenas do território de Manica e Sofala ficaram dando a todos os governadores da Companhia de Moçambique) que eles não estavam contentes com o Champanha (corruptela de Sampaio), mandara o Fernando para o substituir. Esta peta foi muito facilmente acreditada e muito festejada, resolvendo o Vicente, de acordo com os outros capitães presentes, escoltarnos até Gouveia, e mandando aos numerosos pretos que traziam consigo, a maior parte dos


quais tinham até ali permanecido ocultos por trás das árvores, que tomassem conta das cargas abandonadas pelos nossos. E lá continuámos a viagem, menos receosos agora de qualquer ataque, mas não completamente tranquilos. O Vicente dissera-nos que tinham vindo da Beira 40 soldados brancos da Polícia Militar, mas que já haviam regressado. Ora, a ser verdadeira esta informação, continuaríamos à mercê das gentes do Luís e do Cambuemba, sobretudo quando percebessem que lhes tínhamos mentido. Pernoitámos numa aldeia também abandonada dos seus habituais povoadores, noite inquieta por vários alarmes causados pela chegada doutros bandos que discutiam com a nossa escolta, e andámos todo o dia seguinte por maus caminhos, tornados ainda piores pela chuva que caiu quase constantemente. Próximo do pôr do sol, chegado ao alto dum morro que dominava o rio Nhanúê, pareceu-me ver num cerro fronteiro qualquer coisa que se agitava. A luz era escassa pois já não era cedo, e o céu estava encoberto. Chamei uns pretos, que costumam ter melhor vista do que nós, e perguntei-lhes o que era aquilo que se movia, e que eu ainda não queria acreditar que fosse realmente o que me parecia. Um deles respondeu logo: - Parece bandeira, senhor. Eu duvidava ainda. Mas quando procurava certificar-me, eis que vibram no ar tranquilo, tornado melhor condutor pela humidade, aquelas notas abençoadas. Era o terno de corneteiros da Polícia Militar que tocava a retreta. O que então senti desisto de o descrever. Procuro nos dicionários que tenho à mão, e neles não encontro palavra que me satisfaça. Recorro por último à terminologia médica, e creio que o vocábulo euforia dará ideia aproximada da beatitude que me envolveu. O que é facto é que nunca a mais enternecedora página do mais genial dos compositores me causou impressão mais deleitosa. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 3, (1936), pp. 425-430]


2 Morreu não há muito tempo em Paris onde residia, com 81 anos, quase cego, e injustamente esquecido, o grande africanista que em vida se chamou Joaquim Carlos Paiva de Andrada Injustamente esquecido, porque se houve coloniais, e alguns há ainda, que bem mereceram da Pátria, nenhum se lhes avantajou, embora alguns o tivessem igualado, em patriotismo, em coragem, em inteligência e em atividade. Paiva de Andrada foi o primeiro português que, nos princípios do último quartel do século passado, conseguiu chamar a atenção dos governos, dos capitalistas e do público em geral, para a desprezada, ou talvez antes desconhecida, Província de Moçambique. Pela sua prodigiosa atividade conquistou aos indígenas o cognome de Mafambice (do verbo cufamba, andar) que se pode traduzir por Sempre-a-andar. O nome de Paiva da Andrada gozou em África, mas sobretudo na Zambézia, duma popularidade e dum prestígio, que só mais tarde foram igualados, senão excedidos, pelos de João Azevedo Coutinho. Foi em 1886, a bordo do Nothern Castle que eu conheci Paiva de Andrada. Era ele então capitão de Artilharia e adido militar à nossa legação em Londres. Tinha 40 anos, e era já vantajosamente conhecido nos meios militares, diplomáticos e coloniais. Com a sua alta e desempenada estatura, a sua apresentação distinta, o seu hábito da grande sociedade, era verdadeiramente um companheiro encantador, e um brilhante exemplar da nossa raça. A


bordo era altamente considerado pelos ingleses – ocupava à mesa o lugar de honra ao lado do comandante do navio, – e respeitadíssimo por nós, os poucos passageiros portugueses. Eu era um garoto de 22 anos, cuja vivacidade e comunicativa alegria conquistaram rapidamente a simpatia dos meus companheiros, principalmente a do ilustre colonial, que pela vida fora me conservou inalterável amizade e interesse, muitas vezes manifestados. Tornei a encontra-lo em Moçambique, em 1887, quando ele regressava da Zambézia, onde tinha batido o bonga Chatara, em Pindiriri e Massangano; e em Lisboa em 1892, quando se organizou a Companhia de Moçambique, de que foi um dos fundadores. Em 1893, sendo eu secretário da Circunscrição de Sena, apareceu ali Paiva de Andrada, em serviço da Companhia da Zambézia, outra criação sua, de que era administrador delegado. Destinava-se a Tete, e pensava ir castigar o Chissinga da Macanga, que tinha feito assassinar anos antes o alferes Macieira, e que era um obstáculo importante à expansão da nossa influência e autoridade. Ofereci-me imediatamente para o acompanhar, oferecimento que ele aceitou com visível satisfação; e, como o meu chefe, o tenente-almoxarife Luís Inácio, estava ansioso por se ver livre de mim, a minha passagem para o serviço da nova Companhia não sofreu obstáculos. Os meses que se seguiram foram dos mais movimentados e dos mais interessantes de toda a minha vida em África. Não tenciono contar todos os acontecimentos, de ordem pública ou privada, que os preencheram. Não tenho apontamentos que me possam guiar na narração, nem a minha memória poderia hoje reconstituí-los com exatidão e minúcia. Recordo apenas um ou outro episódio, a que um pouco de benevolência poderá atribuir certo interesse histórico ou de simples curiosidade. Quando saímos de Sena, sabíamos que as duas margens do rio se encontravam em estado de desassossego. A esquerda, abertamente revoltada sob a influência do bonga Mutontora que, tendo sido batido em 1888 por Augusto de Castilho em Massangano, se refugiará em terras de Güengüe e, ainda pouco tempo antes, tinha arrasado e incendiado uma aringa que o tenente Câmara Lomelino fizera construir no prazo Mugôvo, de que era arrendatário. A direita onde dominava o célebre Cambuemba e outros antigos capitães de Manuel António de Sousa, conservava certa submissão aparente, que vários fatos de quando em quando desmentiam. Paiva de Andrada que tinha tido o Cambuemba às suas ordens durante a campanha contra o Chatara, e que o considerava de bravura excepcional (no que aliás se não iludia), não admitia, na sua eterna boa-fé, que tão dedicado e destemido auxiliar fosse rebelde. Eu combatia esta mal colocada confiança, contando-lhe o que sabia do famoso e irrequieto negro. Contei-lhe, por exemplo, que no ano anterior ele se tinha revoltado abertamente, chegando a ter cercado a povoação de Sena, e incendiado a residência de meu irmão Rafael de Bivar, no prazo que então administrava, e que fora obrigado a abandonar por falta absoluta de meios de defesa. Por sinal que se deu nessa ocasião um facto que, por curioso e característico da hostilidade que a Companhia de Moçambique encontrou ao princípio da parte das autoridades do Governo, não quero deixar de relatar. Quando estávamos em Sena, cercados pelas gentes do Cambuemba, contando apenas com as armas dos poucos brancos que ali havia, e com a


escassa guarnição preta do desmantelado forte de S. Marçal, telegrafámos ao governador de Quelimane, um tal de major Amaral, pedindo auxílio. Esperávamos nós que o senhor governador desse ordens imediatas para que o comandante militar de Muturara, com sede no local desse nome, situado mesmo em frente de Sena, nos prestasse todo o auxílio que lhe fosse possível, e que aliás não podia ser enorme. Pois a resposta telegráfica foi que «estando Sena sob uma administração diferente, nada tinha o Governo de Quelimane com o que ali se passava…» Para seguir rio acima, com as margens no bonito estado que já referi, partiu Paiva de Andrada numa lancha em que levava toda a bagagem da expedição, incluindo uma peça Gruson de tiro rápido. Num pequeno escaler ia eu com um rapaz, sobrinho de Serpa Pinto, chamado, se bem me lembro, Mário de Andrade. A lancha-canhoeira «Granada», do comando do tenente Teixeira de Barros, escoltava-nos; mas o rio tinha tão pouca água que a lancha encalhava frequentemente, tendo as tripulações dos nossos barcos de a ir ajudar a desencalhar. Nisto se passavam horas e, às vezes, dias inteiros. De forma que a canhoeira servir-nos-ia mais de embaraço que de defesa, se não fosse o efeito moral produzido pela presença de alguns marinheiros brancos e pelo canhão revólver Hotchkiss que se mostrava à proa. Tinha ficado combinado que o Intendente Câmara Lomelino se iria juntar a nós ni Sinjal, com alguns soldados da guarnição do forte de S. Marçal, e com os cipais que pudesse juntar com auxílio de Anselmo Ferrão. Entretanto fomos subindo o rio através das dificuldades habituais nessa época do ano, agravadas com as que nos trazia a canhoeira. Sempre que atracávamos à margem, para cozinhar ou pernoitar, Paiva de Andrada enviava emissários ao seu amigo Cambuemba, chamando-o, atos que eu desaprovava sempre, por inúteis e porventura perigosos. Cambuemba esquivava-se sempre, ora porque esperava informações de importância; e assim ia ganhando tempo. Mas Paiva de Andrada continuava fiando-se naquele maroto. Lembro-me que uma noite, dormia eu sossegadamente, quando Paiva de Andrada me despertou. - Veja você o que o Cambuemba, de quem você teimosamente desconfia me mandou agora dizer, e o grande serviço que ele nos vai prestar. - Imagino, respondi eu muito mal-humorado. - Lá está você com as suas coisas. - Diga sempre. - Diz ele que não vamos muito depressa, enquanto não chegarem os homens que ele mandou a saber onde está Mutontora, e em que disposições está. - Que horas são, senhor tenente-coronel? Preguntei eu cada vez de pior humor. Paiva de Andrada puxou pelo seu grande relógio, rica e excelente peça que lhe tinha custado algumas dezenas de libras, e que trazia preso por uma guia, e informou-me que eram quase três horas.


- Pois então deixe-me dormir, por favor, até às seis; se nessa ocasião as nossas cabeças ainda se encontrarem pegadas aos respetivos pescoços, então discutiremos o auxílio do Cambuemba. E voltei-me para o outro lado. O perigo era real, sendo difícil de perceber porque não fomos vítimas de algum ataque, que os pretos podiam ter executado sem quase perigo para eles e com resultado fatalmente desastroso para nós. Mas enfim, lá chegámos a uma ilha deserta mesmo em frente do Sinjal onde Câmara Lomelino devia ir ter connosco. Acampámos em barracas de campanha, com as nossas embarcações e a canhoeira atracadas junto de nós, e ali permanecemos bastantes dias. Um desses dias os pretos da margem esquerda vieram fazer uma ruidosa e inofensiva manifestação, gritando-nos insultos e ameaças, a que se respondeu com algumas lanternetas da «Gruson». Outro dia passou uma lancha em que iam dois padres estrangeiros que se dirigiam à Missão de Borôma. Foi-lhes dito que o caminho não estava seguro, e que seria preferível esperarem alguns dias, para que pudessem ir na nossa companhia. Não quiseram esperar, alegando muita pressa e o atraso que já traziam. Soubemos depois que os imprudentes missionários tinham sido aprisionados, maltratados e roubados por gente do Cambuemba numa ilha um pouco a montante daquela em que estávamos. Quando finalmente chegou Câmara Lomelino com a gente que conseguiu arranjar e com uma metralhadora Maxim-Nordenfeldt (salvo erro), passámos à terra firme, onde começámos imediatamente a construir uma aringa, destinada a substituir a que o Mutontora tinha destruído naquele mesmo sítio. No dia seguinte, à hora do almoço, chegou o tenente Castro e Solla que se destinava ao Zumbo, também ao serviço da Companhia da Zambézia. Depois do almoço, pediu autorização ao tenente-coronel para seguir viagem, pois se achava em grande atraso. Paiva de Andrada não se opôs, embora estranhasse tanta pressa. Poucas horas passadas, Solla sofria a mesma sorte que os missionários. Na madrugada do terceiro dia, estando ainda bastante atrasada a construção da aringa, fomos impetuosamente atacados, sendo de notar que a investida se realizou do lado mais fraco, e que os assaltantes para nos fazerem supor que eram as nossas rondas que regressavam, gritavam a senha Mafambice, cognome cafrial, como já disse, de Paiva de Andrade. O ataque foi repelido depois de hora e meia de fogo nutrido duma e doutra parte, deixando eles dois mortos, um dos quais a menos de 30 metros da aringa, e sinais de numerosos feridos. Do nosso lado só o nosso comandante sofreu uma arranhadura na testa, produzida provavelmente por alguma lasca de madeira, arrancada à aringa por uma bala. Acabada a construção da aringa, ficou ali o Intendente Lomelino com a guarnição que se julgou suficiente, seguindo nós para Tete, sempre escoltados pela «Granada». Em vista da dificuldade sempre crescente da navegação, Paiva de Andrada tinha dispensado a sua colaboração, mas Teixeira de Barros teimou em continuar a viagem, de forma que quando estávamos no Güengüe vimos, com justificada alegria, chegar a canhoeira.


Nesse sítio vieram ter connosco os missionários e o tenente Solla, que o Cambuemba tinha mandado em paz, quando soube dos acontecimentos do Sinjal, mas aos quais não restituiu o que lhes tinha roubado, incluindo as vestes sacerdotais com que ele e os seus mais categorizados camaradas se pavoneavam. Mais adiante fomos surpreendidos à vista duma pequena embarcação que descia o rio. Quem seria o imprudente que empreendia viagem tão arriscada? Era Mariano Machado, o bem conhecido africanista, então Diretor da Companhia da Zambézia que, sabendo que corríamos perigo, vinha ter connosco a participar do mesmo perigo, trazendo na sua companhia um engenheiro francês, Gaston Angelvy, que andava estudando as minas de carvão de Tete. Eram assim os coloniais dos fins do século passado, e certamente se não extinguiu a raça. Demorámo-nos bastantes dias em Tete, onde Paiva de Andrada e Mariano Machado tinham muito que fazer, antes de o primeiro regressar à Europa. Terminados esses trabalhos, descemos de novo o Zambeze, Paiva de Andrada e eu, escoltados pelo nosso excelente companheiro Teixeira de Barros. De Tete levávamos alguns soldados, pois tínhamos de limpar a margem direita, onde Cambuemba, em cuja fidelidade já Paiva não acreditava, continuava fazendo das suas. Depois de bater a aringa que o cazembe ChacupaDêza ocupava na margem direita num sítio cujo nome não me ocorre, devíamos construir um posto no prazo Güengüe, onde ia ser o meu lugar de permanência. Ao nosso encontro devia vir a lancha-canhoeira Obus, do comando do tenente Portugal Durão que tão conhecido se tornou depois. Passados poucos dias acampámos numa ilha, de que também não recordo o nome, a pouca distância do ponto da margem onde Chacupa-Dêza tinha a sua aringa. Por fim chegou Portugal Durão, cujo navio teve de ficar bastante a jusante por falta de água. Reunidos assim os poucos elementos de que dispúnhamos, transportámo-nos a outra pequena ilha mais próxima da margem, da qual a separava apenas um estreito braço do rio. Resolvido o ataque para esse mesmo dia, ficou assente que ele se realizaria logo depois do almoço. Assistiram a este Paiva de Andrada, Teixeira de Barros, Portugal Durão, eu, e um Rafael Rodrigues, empregado também da C.Z. que tinha vindo connosco de Tete. Ao almoço conversou-se animadamente como de costume, tendo eu contado a velha anedota seguinte: – Durante a guerra do Brasil com o Paraguai estava um dia certa força brasileira sobre uma elevação, quando se avistou a tropa inimiga avançando rapidamente contra o sítio ocupado pelos brasileiros. O comandante punha as mãos na cabeça e, não sabendo que fazer, reuniu os seus oficiais a quem pediu alvitres. Então um jovem alferes chamado Soares opinou: - Mi parece que disparando a artilharia naquela direção… - Boa ideia, seu Sôares! Aprovou o comandante brasileiro. Terminado o almoço, os comandantes retiraram para os seus navios, e nós fomos ocupar um ponto, previamente determinado, donde se avistava a aringa. Logo que nos viram, os rebeldes abriram um fogo intenso mas mal dirigido, que nenhum mal nos fez. Nós íamos respondendo


com a «Gruson» e com as espingardas. Em certa altura, Paiva pediu-me que espoletasse algumas granadas, o que eu fiz. E terminado esse serviço, aproximei-me mais da praia, para ter uma ideia quanto possível exata da situação. Notei então que os rebeldes iam à aringa remuniciar-se, e vinham depois abrigar-se por trás duns morros de muchém donde nos faziam fogo. Voltando ao campo, observei que era para esse lado que a «Gruson» ia disparando as suas granadas. Eu então disse ao chefe: - Ó sr. Paiva, e se V. Exª mandasse umas para dentro da aringa? E este, rememorando a anedota do almoço, respondeu, imitando o sotaque brasileiro: - Boa ideia, seu Soares: E pouco tardou que se vissem os rebeldes abandonando desordenadamente a aringa em chamas.

[[O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 3, (1936), pp. 113-117]


3 Com um dia apenas de intervalo, trouxeram-nos as gazetas notícia de dois desastres de caça em África – um com um elefante em Moçambique, outro com um búfalo em Angola. E não há ainda muitos meses que, também em Moçambique, nos comunicaram que o Delegado da Beira tinha sido morto por um leão. Estes casos tão lamentáveis, mas felizmente tão raros, fizeram-me lembrar que também eu, Nemrod em miniatura, fui em África pequeno caçador perante o Eterno, e que também eu ia sendo vítima dessa paixão. Nos primeiros 14 anos da minha estada em África, Zambeze acima, Zambeze abaixo, com demoras geralmente curtas num ou noutro sítio, e as mais das vezes em locais pouco abundantes em caça, as minhas aventuras cinegéticas limitavam-se a atirar aos cavalosmarinhos e aos crocodilos, aos patos e rolas, francolins e pintadas, e a uma ou outra alimária de maior categoria desportiva que por acaso me passava ao alcance. Os acasos porém da minha vida fixaram-me um dia na Gorongoza, onde me conservei durante 17 anos, e onde pude dedicar-me com persistência e com paixão, ao mais viril, mais excitante e, a muitos respeitos, mais interessante de todos os desportos. Naquele país que, como toda a região compreendida entre o baixo Zambeze e o Púngüè, é o que se pode chamar o verdadeiro paraíso dos caçadores, pois nele se encontram representadas todas as espécies zoológicas do Sueste africano (com exceção da girafa que só aparece ao sul do Save), eu não só me entreguei à prática da caça, como também ao estudo dos animais, dos seus carateres, costumes, habitat, etc. Para isso, sem desprezar as lições dos indígenas com os quais muito aprendi (e só com eles e com o uso se pode aprender a complexa ciência das pistas, sem a qual não há caçador digno desse nome) li muitas dezenas de livros da especialidade, a maior parte dos quais ingleses, alguns franceses, mas nem um único português. Realmente as poucas linhas que os nossos exploradores consagram ao assunto, e o livro do Diocleciano das Neves publicou há muitos anos e que, apesar de se intitular Itinerário duma caçada aos elefantes, fala de tudo menos de caça, estavam longe de preencher a lacuna que me impressionou tão desagradavelmente, e que aliás se acha hoje brilhantemente cheia pelas Memórias dum caçador de elefantes de João Teixeira de Vasconcelos, e sobretudo pela Vida e morte dos bichos de Henrique Galvão, Teodósio Cabral e Abel Pratas, embora ainda por completar. Para remediar um pouco esta deprimente ausência de livros portugueses, indicativa duma indiferença inexplicável e indesculpável por assunto tão interessante, resolvi escrever uma série de artigos para a revista A Caça, artigos que deviam depois ser reproduzidos em volume. O trabalho devia constar de diversos capítulos sobre as várias espécies, além duma Introdução e da descrição, em forma de Diário, dum mês de caça na Gorongoza. A insuficiência da parte literária seria compensada por numerosas fotografias, de que possuía uma coleção muito abundante e que ia constantemente ampliando. A Caça chegou a publicar a introdução e os capítulos referentes aos grandes mamíferos e aos carnívoros; mas quando se ia entrar na descrição dos bovídeos, rebentou a Grande Guerra, e a revista teve que suspender a publicação. E quando, bastantes anos mais tarde, pensei em continuar o trabalho, não consegui reaver o original e as fotografias, que tinham sido entregues na tipografia onde a revista se imprimia, a qual tinha mudado várias vezes de dono.


Não foi decerto grande perda, mas para mim sempre constituiu certo desgosto irremediável, pois me não seria fácil agora reconstituir o que há tanto tempo escrevera, nem sobretudo possível substituir as fotografias perdidas. Lembro-me que num dos artigos publicados, tratando de avaliar o perigo relativo que oferece a perseguição de vários animais, dizia que há principalmente três bichos perigosos, o leão, o búfalo e o elefante, sem todavia negar totalmente importância ao rinoceronte, ao leopardo e até a certos antílopes. Se um daqueles animais é mais perigoso do que qualquer um dos outros, é caso de dúvida que cada qual pode resolver a seu modo; isto é, o caçador que sofreu o ataque dum búfalo, tem a tendência de considerar este animal o mais perigoso de todos, e assim para cada tipo particular. Nesse mesmo passo do meu artigo dizia eu que nunca tinha tido aventura desse género com animal nenhum, e não tinha por isso esse elemento de apreciação para me pronunciar. Em todo o caso, escudado com opiniões de caçadores autorizados, parecia-me que ao leão, devido às suas especiais condições, se devia talvez conceder a primazia nesse sentido; e que, entre o elefante e o búfalo, que se poderiam considerar iguais, havia a considerar que, em número igual de búfalos e elefantes feridos, haverá maior número dos últimos a carregar sobre o caçador. Poucos anos depois de escrever isto, sucedeu-me numa caçada aos elefantes a primeira e última aventura, em que me vi a dois passos de ser esmagado por um desses formidáveis animais. Para aumentar o risco em que estive davam-se as circunstâncias, de que aliás só tive conhecimento depois de passado o perigo, de se tratar de uma fêmea sem dentes (uma marire como lhe chamavam os pretos, que lhe atribuem uma ferocidade especial) e com cria. Eu caminhava dentro dum matagal cerrado, onde abundavam as plantas espinhosas, quando foi chamada a minha atenção para os ruídos característicos da proximidade de elefantes: ramos quebrados, pancadas surdas produzidas pelas largas orelhas batendo nas árvores, etc.; não tardando que por entre a vegetação começassem a divisar-se os vultos de numerosos animais pastando. Verificada a direção do vento, que nos era favorável, aproximei-me pouco a pouco e, quando tive a bom alcance um corpulento macho que ostentava um bonito par de dentes, atirei cuidadosamente ao bom sítio, dada a posição do animal, isto é, a um ponto entre o olho e o ouvido, mais próximo deste do que daquele. Este tiro, se fosse exatamente dirigido, devia produzir a morte instantânea; mas por qualquer circunstância difícil de averiguar, o elefante não caiu imediatamente, indo morrer a uns 30 quilómetros de distância, como no dia seguinte se soube. Assim que o tiro soou, a manada deslocou-se desordenadamente, vindo alguns animais para o nosso lado, o que me obrigou a dar outros tiros, que não sustiveram a carga. Eu e os meus pretos fugimos dificilmente através da mata ínvia que nos tolhia os movimentos. Entretanto, pensando que a carabina devia estar descarregada, abri a culatra móvel, vendo que no depósito ainda se encontrava um cartucho, e ia introduzir novo carregador quando me gritaram que era perseguido de perto. Voltando-me para trás e abandonando o carregador, ao mesmo tempo que metia na câmara o cartucho que restava e que felizmente não tinha ainda deitado fora, vi, a muitos poucos metros, urrando e agitando as grandes orelhas, quase a boa distância de me atingir com a tromba, um elefante que era aliás pequeno, mas que na ocasião me pareceu do tamanho de uma grande torre. Atirei-lhe um tiro, e durante aquela mínima


fração de segundo em que eu esperava o resultado, isto é, saber se tinha matado ou se ia ser morto, ouvi outro tiro, dado pelo meu caçador Nsunza com a minha Paradox de dois canos calibre 12, carregada com balas de ponta de aço, e o elefante caiu a menos de 5 metros de distância. Devi a salvação ao meu sangue frio e destreza, auxiliados pela imprescindível sorte, ou à dedicação e perícia do meu caçador? Não é fácil afirmar uma ou outra hipótese. Em todo o caso, quando no ano seguinte se deu a revolta do Báruè, e que se soube que o Nzumga andava com os revoltosos, eu pedi logo ao Comandante da coluna que lhe perdoasse, caso fosse apanhado com as armas na mão – motivo para fuzilamento sumário. …………………….. Para apreciar o perigo das caçadas em África – elemento que constitui um dos principais encantos daquele desporto – é necessário tê-lo conhecido de perto, e desconfiar de juízos formados a priori, ou por simples informações. Assim o grande Joaquim Mousinho, que não caçou feras – mesmo porque nunca para tal lhe chegou o tempo – escreveu o seguinte no seu memorável livro Moçambique: «Desde que se põe os pés em África, a vida passa-se a lutar, a batalhar contra os inimigos de toda a espécie. Tudo ali é hostil ao recém-chegado – a natureza e o homem… Tudo é hostil, salvo talvez as feras, reduzidas hoje a alimento de um sport muito afamado na Europa, mas de facto pouco perigoso.» Eu poderia citar numerosos nomes de pessoas, embora nenhuma da categoria de Mousinho, que se atreveriam a discordar dessa opinião; e uma dessas pessoas sou eu. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 4, (1937), pp. 515-518]


4 Por tendência natural do meu espírito, acodem-me à memória com mais frequência os episódios risonhos da minha vida do que os sucessos tristes. E também agora me apetece mais contar aqueles do que estes. É que, por natureza alegre e despreocupado, até mesmo nos acontecimentos sérios ou dramáticos em que me vi envolvido, eu conseguia sempre descobrir uma ou outra faceta cómica ou burlesca, que me provocava o sorriso ou a gargalhada, abafando assim tudo que pudesse ferir desagradavelmente a minha sensibilidade. Epicurista por índole e reflexão, tive sempre presentes, em todas as circunstâncias da vida, os preceitos do meu mestre Epicuro: – Quando uma desgraça ou simples contrariedade me assaltava, em vez de chorar, com o que nada lucraria, consolava-me com a ideia de que poderia ter sido muito pior, com a lembrança de momentos felizes que já gozara, e com a esperança de que melhores tempos viriam. A sã, a consoladora filosofia da recordação e da esperança!... Eu sei que não há raciocínios que valham quando o temperamento do indivíduo, ou a sua disposição de momento, o predispõem mais à tristeza e ao desânimo do que ao otimismo. E que a minha boa disposição habitual é menos devida às filosofices herdadas dos gregos, do que à excelente saúde de que sempre gozei e ainda gozo (o diabo seja surdo…). Seja como for, o bom humor ainda hoje, guardadas as devidas proporções, continua sendo o aspeto dominante do meu caráter. Por exemplo, até hoje nunca consegui assumir aquele ar de


gravidade e circunspeção que a minha idade e a seriedade de certas funções por vezes me aconselhavam. É claro (est modus in rebus) que já me não seria possível repetir a cena picaresca que assinalou a minha chegada a Moçambique há pouco mais de 50 anos. Depois de jantar, e a conselho do dono da pensão onde me albergara, fui passear para a praça defronte do palácio do governador, onde naquela noite, como em todos os domingos e quintas-feiras, tocava a banda do batalhão de caçadores. Por ali andei, aborrecidíssimo naturalmente por não conhecer ninguém, até que o concerto foi encerrado com a execução do hino do governador-geral, Augusto de Castilho. Sua Exª, com várias personalidades do alto funcionalismo provincial e algumas senhoras da melhor sociedade local, ocupava as janelas do palácio chamado de S. Paulo, si rite recordor. Vai eu então, excitado pela marcialidade do hino, ou apenas impelido pela minha garotice inata, escarranchei-me em direção ao palácio, recuei, tornei a avançar, ladeei, fiz as cortesias enfim, terminando-as à maneira antiga com um galope em volta da praça, desaparecendo depois da vista dos circunstantes estarrecidos. Ignoro os comentários que este inesperado e inédito espetáculo inspirou aos assistentes, mas soube depois que no dia seguinte, à porta do Jumá, foi decretado que o escrivão recém-chegado era doido, e que nada sério se deveria esperar dele. E, como estavam no poder os progressistas, aproveitaram os regeneradores o ensejo para censurar o governo por não saber escolher os seus funcionários… Esta lisonjeira reputação, tão fácil e rapidamente conquistada, foi dias depois confirmada, e até piorada com agravante de irreverência, numa reunião para que fui convidado, e em que se devia discutir a forma de patentear ao Juíz da Comarca, que fora transferido para a Índia, o apreço em que era tido em Moçambique. Ora, logo à minha chegada àquela cidade, fora informado pelos colegas de que o juiz, aliás íntegro, probo, sabedor, etc., era um mandrião incorrigível, ao qual era difícil arrancar uma sentença ou um simples despacho. Estas informações foram-me confirmadas anos depois pelo juiz que lhe sucedeu em Moçambique, o qual me contou que, entre os numerosos processos que encontrara parados, havia um em que o dito magistrado tinha começado a lavrar a sentença, que deixou por concluir. Na tal reunião e quando estava quase decidido que se lhe oferecesse um banquete ou um baile, levantou-se um major de quem não recordo o nome, mas que era conhecido na Zambézia, onde fizera quase toda a sua carreira, por Chagundacoro (fruto selvagem que significa que nem os macacos o querem comer) e propôs que, em vez de uma festa, coisa efémera, se lhe desse uma joia que lhe recordaria toda a vida o afeto, etc, etc. Calorosos e unânimes aplausos, aos quais me associei não menos calorosamente. Quanto à escolha do objeto a oferecer estava quase a ser aprovado (como aliás o foi depois) que fosse uma pena de oiro, quando eu me levantei e pedi a palavra. Como poucos me conheciam, e esses mesmos só através da aventura das cortesias, houve certo espanto, e talvez até, Deus me perdoe, susto. O presidente da assembleia, o dr. Roseiro, que tinha sido poeta nos tempos de estudante, e agora exercia o cargo (ou a sinecura?) de Curador dos serviços e colonos, deu-me a palavra com ar desconfiado. E eu comecei então, aproximadamente nestes termos, o discurso que me não deixaram concluir: – «Concordo plenamente que se ofereça ao sr. Dr. F. um objeto de arte; não concordo porém que seja uma pena. Pelas informações que tenho, o que Sua Exª menos fez enquanto esteve em Moçambique, foi escrever; de forma que a oferta duma pena pode parecer menos uma homenagem do que um remoque…» Mas já ninguém me ouvia. Era


divertido ver como todos falavam ao mesmo tempo em altos gritos para abafarem a minha voz, e a pressa com que se deu a proposta por aprovada e se levantou a sessão. Disse eu que até nos acontecimentos graves em que me vi envolvido, consegui sempre descobrir a nota alegre que me provocava a alacridade e apagava a tristeza que me ameaçava. Assim aconteceu por exemplo por ocasião da revolta do Bárué em 1917, que me podia ter custado a vida, e em que perdi tudo quanto acumulara durante muitos anos, como sertanejo endurecido que não contava voltar à Europa. No dia em que cheguei a Vila Paiva de Andrada, acompanhando a pequena força que da Beira tinham enviado em socorro, tive um momento de atordoamento, embora o espetáculo que se nos deparou não fosse diferente do que eu esperava encontrar. A casa onde vivera durante alguns anos e que tinha sido construída sob a minha direção, ainda fumegava, e dentro e em volta das ruínas viam-se destroços de mobília, pedaços de instrumentos científicos destruídos a machado, malas arrombadas, o braço dum violoncelo com duas cordas ainda pendentes das cravelhas e na parede de um dos compartimentos um retângulo negro, marcando o lugar que ocupara o retrato de meu pai pintado por Mestre Carlos Reis. O chão do que fora o meu gabinete estava atapetado com espessa camada de cinzas, tudo o que restava dos 2500 volumes da minha livraria. Enfim, a ruína completa, a perda total de valores de certa importância, e, mais dolorosa ainda por insubstituível, de tudo quanto representava recordações de família e da minha aventurosa vida anterior. Esse espetáculo de desolação e ruína, que impressionou fortemente os meus companheiros, deixou-me, como disse, um momento atordoado. Mas apenas um momento. Não tardou que um episódio hilariante viesse desanuviar-me o espírito. Foi o caso que o capitão que comandava a força, querendo segurar um alojamento que lhe não fosse cobiçado, e talvez usurpado, por algum oficial da coluna que se esperava daí a poucos dias, escolheu uma pequena casota de madeira que servia de canil. Como se lhe observasse que a casa era curta, explicou que dormiria encolhido e que quando a fadiga o obrigasse a estender as pernas cobriria estas com a capa de borracha. Afinal a coluna demorou-se uns 20 dias; ninguém se lembrou de disputar o canil ao primeiro ocupante, pois traziam barracas suficientes; mas o meu capitão, apesar das comodidades a que tinha direito, conservou-se fiel ao modesto abrigo que o tinha livrado do frio e da chuva em tempos menos favorecidos. Um dia resolveu mandar limpar o seu palácio, e foi maravilha ver a quantidade de coisas que de lá saíram; por fim, quando se julgava esgotada aquela nova boceta de Pandora, ainda de lá tiraram, inteiriçada pelo frio, uma pequena serpente… Esse capitão, aliás muito inteligente e honesto, e que não sei se ainda vive, era um original bastante pitoresco. Como a coluna tivesse que sair, e lhe distribuíssem um jerico com uma albarda, fez todo o caminho sentado como as mulheres e com um guarda-sol aberto. A uma observação que lhe fizeram de que o guarda-sol não era artigo do uniforme, e que aquela posição não era regulamentar, respondeu que, se queriam que se apresentasse como devia ser, lhe fornecessem um cavalo convenientemente aparelhado. Durante os longos 20 dias em que esperámos a chegada da coluna, a nossa vida foi bastante monótona. À nossa chegada os rebeldes fugiram; mas, pouco a pouco, começaram a chegar diversos grupos que iam ocupando as elevações que nos rodeavam, formando assim um cerco


que nos cortava completamente as comunicações. Não se atreviam a assaltar a nossa posição, mas indígena que tentasse romper o cerco era trucidado sem piedade. De dia e de noite saudavam-nos com contínuos tiros de espingarda, mais ruidosos que perigosos, embora algumas balas viessem às vezes bater nas paredes desmanteladas que nos abrigavam. Não menos continuamente as descomposturas, ameaças e convites à deserção irritavam-nos e perturbavam-nos o sono. A nós chamavam-nos toda a espécie de nomes feios, e incitavam-nos a que fugíssemos: «Fujam, fujam quanto antes; chegou a guerra do Macombe, que traz muita gente e muita pólvora». Aos pretos gritavam: «Deixem os brancos, venham para nós; vocês são nossos irmãos; se não deixam esses malandros cortamos as cabeças a todos.». Nós eramos uns 15 ou 16 brancos, e talvez 400 pretos, quase todos carregadores. No fim de duas semanas de inação, os víveres começavam a escassear, e acabariam por faltar de todo. O pior era que a água também ameaçava faltar; ao princípio mandava-se buscar ao riacho Matucudule que corria a 400 metros de distância com 50 de desnível; mas um dia mataramnos ali um homem, e como não era fácil proteger o caminho, passámos a abastecer-nos dum poço de péssima água que havia mais perto da casa. Uma noite porém gritaram-nos que tinham deitado nesse poço o cadáver do carregador assassinado, e daí por diante, mesmo depois de averiguada a falsidade da notícia, não houve meio de convencer os pretos a beberem daquela água. Era pois indispensável e urgente abandonar a posição e tentar ir ao encontro da coluna, que sabíamos estar havia muitos dias na margem direita do Púngüè. Na manhã do dia marcado para a retirada, ouviram-se tiros para os lados por onde devia chegar a coluna, e o som desses tiros era sem dúvida nenhuma produzido por armas aperfeiçoadas. Era a nossa gente que chegava. Não tardou que se visse, ao alto da avenida que conduzia ao posto, e que tinha uns 1200 metros de comprimento, um cavaleiro seguido de pequeno número de pretos. Mas quando o grupo desapareceu numa das numerosas depressões que o caminho fazia, ouviram-se tiros, e logo apareceu o mesmo cavalo, mas sem cavaleiro. A ansiedade produzida por este incidente durou porém pouco tempo, pois breve se viram assomar os pretos e o branco. Correndo ao encontro dos recém-vindos, reconheci com alegria o meu velho amigo e companheiro doutras campanhas José de Magalhães, barão de Vilalva, que é hoje administrador do Concelho de Amarante. Soubemos por ele que a coluna vinha perto, e realmente tinha daí a pouco o prazer de abraçar, entre outros, o meu amigo Dr. Vilar, que ainda exerce clínica na Beira. A vida daí por diante mudou bastante. O acampamento ganhou em animação e também, digase, em segurança. Os sitiantes, depois duma frouxa tentativa de resistência, fugiram e não tornaram a incomodar-nos. Nós, para dizer a verdade, também não parecíamos muito dispostos a ser-lhes molestos; o tempo ia-se passando a expedir comboios e a receber comboios, e só bastante mais tarde foi resolvido que se executasse um reconhecimento nas proximidades do nosso campo, havendo pequeno tiroteio que custou um morto aos rebeldes e um ferido a nós. Neste longo intervalo o meu espírito, sossegado com respeito à família de quem já agora recebia e a quem podia enviar notícias regularmente, entretinha-se com o belo cavaco, com os vários episódios cómicos que a veia satírica dos meus companheiros, e a minha também,


avolumava em grotesco, e com algumas partidinhas inocentes que armávamos aos mais ingénuos. Mas tudo acaba. Um dia o comandante resolve um raid (é assim que se diz?) para os lados do Púngüè e, na manhã marcada, encontrava-me eu a cavalo numa pachorrenta mula branca, ao pé do comandante escarranchado num cavalicoque, do agente de ligação que era um soldado branco montado noutro cavalicoque, o qual tinha sobre as demais montadas da coluna a vantagem de poder fornecer um quási meio-galope, muito útil para as funções que o seu cavaleiro tinha a cumprir, com o dr. Vilar, que preferia ir a pé, e os dois ou três moleques que transportavam a minha carabina e o estojo de urgência da ambulância. Já partira adiante a guarda avançada, e nós aguardávamos não me lembra quê, quando chega ao pé de nós, radiante, o capitão F., que se dispunha, ao que parecia, a acompanhar o Quartel-General e a gozar a bela cavaqueira, livre das preocupações do seu pelotão (ou como quer que se deva chamar ao grupo de soldados cujo comando lhe competia). O grito com que foi recebido pelo comandante fez-lhe perder de tal modo o sangue frio, que ficou uns momentos sem saber responder. ― Que faz o senhor aqui? Que é feito do seu pelotão? (Parece que sempre era pelotão). ― O meu pelotão? Esta atrapalhação, esta pergunta, fizeram-nos inventar que o capitão F. tinha perdido o seu pelotão, e, enquanto durou o raid, que felizmente não foi muitos dias, não se ouvia senão falar no pelotão que F. tinha perdido. Logo de manhã cada oficial que encontrava o pobre F. cumprimentava-o com a fórmula já consagrada: ― «Bom dia, camarada; já encontrou o seu pelotão?» Mas ele, excelente rapaz, já hoje falecido como muitos dos que tomaram parte naquela campanha, não dava “sorte”, ou fingia muito bem que a não dava. À volta para Paiva de Andrada, no último dia de marcha, ficara assente que almoçaríamos em determinado sítio de que não recordo o nome, e que depois do almoço venceríamos numa só etapa os poucos quilómetros que faltavam. Almoçámos pois com todo o vagar e, acabado o almoço, estendeu-se cada qual à melhor sombra que encontrou, tendo ficado a coluna bastante dispersa, naquele abandono que a certeza da segurança traz aos mais prudentes. Formando pequeno grupo isolado fiquei eu com o comandante, o médico, o tenente que comandava a guarda avançada, e o agente de ligação. Fui eu, se bem me lembro, quem primeiro acordou; e vendo que a tarde avançava rapidamente, chamei o comandante observando-lhe que são horas de retomar a marcha. Ele concordou e, por sua ordem, a guarda avançada seguiu imediatamente. Pouco depois abalámos nós. Alguns quilómetros andados, e, chegados a uma pequena elevação já muito perto de Vila Paiva de Andrada, lembrei ao comandante a conveniência de esperarmos pelo resto da coluna, para entrarmos todos juntos no acampamento. ― Já não deve estar longe, disse ele; em todo o caso vou mandar fazer alto à guarda avançada.


Nisto passou-me pela cabeça uma ideia que me pareceu absurda, mas que sempre exprimi: ― O comandante deu ordem de avançar à coluna? ― Hein?! Se dei ordem? Qual ordem? Não tinha que dar ordem nenhuma; a coluna é que devia seguir logo que me viu avançar. ― Mas se ninguém o viu? Pois não estavam todos a dormir? E se eles ainda agora estão ferrados no sono? Fulo, não querendo confessar que se tinha esquecido, mandou para trás o agente de ligação com ordem para apressar a marcha, marcha que eu supunha nem sequer ter começado ainda. Mas exagerava. Não passou muito mais de hora e meia que se viram aparecer os retardatários. Fora o caso que o capitão, hoje coronel da reserva, Vicente Bandeira de Lima, que comandava o comboio, e que acampara bastante longe do grosso da coluna, estranhando as demora, veio à descoberta, tendo encontrado toda a gente deitada, uns dormindo ainda, outros à espera que a corneta tocasse; e dirigindo-se ao sítio onde o informaram que devia estar o comandante, achou o lugar deserto… Feita finalmente a junção dos dois troços da coluna, e depois de ter deixado o comandante expandir o seu mau humor, disse-lhe: ― O comandante já se não pode rir do capitão F. ― Porquê?! – Gritou-me ele de má catadura. ― Porque o F. perdeu só um pelotão, e o comandante perdeu a coluna inteira!

[O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 4, nº ? (1937), pp. 99-105]


5 Avivaram-se-me as recordações e as saudades da minha vida de caçador com a chegada a Lisboa, vindo de Berlim aonde foi representar o nosso país no Congresso e exposição Mundial de Caça, do Sr. Teodósio Cabral, grande caçador de Angola, e co-autor da excelente obra «Da vida e da morte dos bichos» a que já tive ocasião de me referir. Embora reformado como caçador ativo, não abandonei ainda o interesse por tudo quanto à caça diga respeito, e foi por isso que ouvi e li com agrado as entrevista que aquele senhor concedeu à Emissora Nacional e ao Notícias Agrícola. Infelizmente para mim, quem as orientou e dirigiu adotou um critério, sem dúvida muito acertado sob certos aspetos, mas pouco em harmonia com a minha expetativa. Apesar de ter visto, matado, fotografado, estudado e descrito todas as espécies que têm o seu habitat entre os rios Zambeze e Púngüè, o que é o mesmo que dizer todas as espécies que vivem no centro e sul da província de Moçambique (com exceção da girafa que nunca vi senão no Jardim Zoológico de Lisboa), eu esperava aprender ainda alguma coisa sobre animais que desconhecesse, sobre processos de caçar que devem naturalmente ser diferentes nas duas províncias, etc.


Não foi de todo iludida a minha esperança, pois falou o Sr. Cabral em 32 espécies de antílopes, ao passo que eu apenas conheço cerca de metade. Que espécies são essas? Eu bem sei que só da sub-família cephalopinas se conhecem nada menos de 38 espécies; mas quantas dessas espécies se encontram em Angola? Das 14 espécies de gazelas existentes, e das quais nem um único representante vive na Gorongoza, apesar de os portugueses terem o hábito de chamar gazelas a todos os antílopes de pequeno ou médio porte, há em Angola pelo menos uma, conhecida pelo nome, que leio em português em livro ingleses, de cabra-de-leque. Esperemos que no 2º volume já anunciado da citada obra venham os nomes, e a descrição desses animais de que não tenho conhecimento direto. Falando-se de caça em África, as primeiras perguntas que fazem os curiosos é se há lá muitos leões e se se matou algum. Muita gente ignora que a caça mais vulgar e mais abundante, e aquela que mais frequentemente se procura e se encontra, é a dos antílopes. Esta família, cuja distribuição é vastíssima, é muito numerosa e variada, quer em tamanho, quer em formas, cor, costumes, etc. Desde cephalophus montícola, que mal excede em tamanho o duma lebre, até o taurotragus oryx que chega a atingir a altura de 2 metros na agulha, que variedade de alturas! E quanto a formas, basta citar o grotesco gnú e a elegantíssima e magestosa strepsiceros strepsiceros, de armação helicoidal. Há espécies em que só o macho tem cornos, outras em que os têm os dois sexos. Geralmente inofensivos, há todavia entre eles alguns que quando feridos, podem tornar-se perigosos: – a hippotragus niger, por exemplo, grande e belo animal de grandes armas recurvadas para trás, agudísimas, e a tragelaphus scritus que, a despeito da sua pequenez relativa, é capaz de, em desespero de causa, a produzir uma carga que ponha em sério risco o caçador. Quanto a costumes, não é menor a diversidade: umas vivem de preferência nas florestas, outras nas planícies, outras nas regiões montanhosas; umas são essencialmente gregárias, outras vivem em pequenos bandos, outras são solidárias, vivendo quando muito em casais. Quase todos aceitam facilmente a domesticidade. Fornecem quase todas excelente carne, principalmente nas épocas em que os pastos abundam. O conhecido africanista, já falecido, o Dr. Mateus Sampaio, pensava abastecer a Beira de carne de gnú (então abundantíssimos na Gorongoza e Cheringoma; hoje, depois da intervenção do automóvel, não sei se ainda resta algum); para o que propunha que se promovesse e protegesse a sua criação, e se pastoreassem, como se faz no Ribatejo ao gado bravo. Com tal variedade, parece que se não deviam incluir tais animais numa só família; é em todo o caso difícil concretizar numa definição os carateres comuns. Aceitemos entretanto esta, à falta de melhor: Antílopes são todos os ruminantes de cornos ocos que não possam classificar-se entre os bois, os carneiros e as cabras. Com respeito a processos de caçar, há uma diferença importante nas duas províncias: em Angola os caçadores podem fazer-se transportar em carros puxados a bois; na maior parte de Moçambique não é isso possível por causa da mosca tsé-tsé. Consta-me que tanto numa como noutra província se emprega já o automóvel, não só como meio de transporte, o que seria bem, mas como meio de perseguição, o que se não devia permitir. É uma atrocidade sem nome, contra a qual não podem deixar de se insurgir os verdadeiros caçadores, e o Sr. Cabral verbera os assassinos que a praticam com o labéu de covardia.


Na 2ª entrevista da Emissora Nacional, O Sr. Teodósio Cabral deu-me uma novidade que, apesar da reconhecida autoridade do entrevistado, não posso aceitar de mão beijada. Referese o notável caçador, (se bem ouvi, pois que a entrevista não foi ainda publicada no Rádio Nacional), a serpentes venenosas que têm os dentes do veneno no maxilar inferior. Conheço de visu várias serpentes, e conheço pelos livros bastantes outras. Nunca vi, nunca li, nem nunca ouvi falar de serpentes venenosas que não tenham os dentes condutores da peçonha no maxilar superior. Nem, francamente, concebo como isso possa suceder. A serpente venenosa não morde, a bem dizer, se por morder se entende apertar entre os dentes. A serpente levanta a cabeça e bate com força com os dentes na vítima, enterrandolhos na carne. Isto verifica-se quando a serpente erra o alvo, pois nesse caso não retrai o corpo, mas bate pesadamente com a cabeça no chão. As glândulas secretoras do veneno estão colocadas junto a base dos dentes, os quais são providos dum tubo ou duma meia cânula, segundo as espécies, pelas quais escorre o veneno para dentro das feridas produzidas pela dentada. Como poderia isto acontecer se os dentes estivessem situados no maxilar inferior? Quanto à forma de as atacar, se se trata apenas de as matar, o mais prático e menos arriscado é um bom tiro de chumbo. Mas, se se quer apanhar a serpente viva para a mandar para qualquer laboratório onde se fabrique soro anti-veneno, o sistema é sujeitá-la com um pau terminado em forquilha, e pegar-lhe depois pela cauda e pelo pescoço, o mais perto possível da cabeça. Se a serpente que se deseja capturar pertence às viperídeas, geralmente pouco ágeis, o melhor é empregar um pau a cuja extremidade se atou um cordel, passando-se a outra ponta do cordel por um orifício praticado não longe daquela extremidade; logo que se consiga passar a cabeça da serpente pelo laço formado pelo cordel, puxa-se este, e tem-se assim a serpente segura. Querendo simplesmente matar, e não tendo à mão uma espingarda, não se deve empregar um cacete rígido, mas antes um cavalo-marinho flexível. Em todo caso é útil atender a que todas as grandes serpentes são dotadas de grande resistência, e que não devem ser atacadas senão quando haja a certeza de lhas quebrar a espinha ao primeiro golpe; se este falha, arrisca-se ingloriamente e inutilmente a vida. Um dos maiores sustos que apanhei na minha vida foi quando quis capturar uma cuspideira viva. Eu tinha lido poucos dias antes numa revista francesa que o Dr. Calmette tinha descoberto o soro anti-venenoso, e pedia que lhe mandassem veneno de serpentes ou, de preferência, exemplares vivos. Quando nesse dia me vieram avisar de que uma cuspideira tinha sido vista na palhota que me servia de despensa, meteu-se-me na cabeça apanhá-la viva e, sem perder tempo a pensar nos meios apropriados a tal empresa, muni-me duma azagaia e dirigi-me à palhota indicada. Logo que cheguei à porta vi a cobra junto dum caixote, contra o qual a fixei solidamente com a azagaia. O golpe porém acertou bastante distante da cabeça, e a cobra começou a agitar a parte anterior do corpo. Devia ter pensado nessa ocasião que a captura com tais meios não seria possível; mas, com o entusiasmo deste novo desporto, peço outra azagaia e com ela tratei de imobilizar os movimentos da serpente. Assim fiz, mas a cabeça ficou em posição invertida, e imediatamente eu vi jorrar dois jatos de veneno que, apesar de ter recuado rapidamente largando as azagaias, me atingiram as mãos e a cara. Se o


veneno me chegasse aos olhos teria sofrido cruelmente, e o caso poderia mesmo ter consequências sérias para a minha vista se não fosse socorrido a tempo. O remédio a aplicar em casos semelhantes é uma solução muito fraca de permanganato de potássio, ou leite fresco com abundância, duas coisas que nem sempre se tem à mão. Posso porém afirmar, por ter testemunhado vários casos em pretos, que os curandeiros indígenas conhecem certa planta cuja aplicação é de resultados seguros. Sem me querer alongar numa dissertação pormenorizada das serpentes que conheço – o que excederia os limites da hospitalidade desta revista, e ainda mais os da minha competência no assunto – parece-me interessante dizer mais alguma coisa a respeito dos temíveis répteis, que são sem dúvida os mais perigosos inimigos que têm os caçadores. O elefante, o cão, o búfalo são inimigos que raramente nos atacam por surpresa, e que a maior parte das vezes são provocados por nós. Quando um caçador defronta um daqueles animais sabe que do tiro que vai disparar deve resultar a morte da fera ou a sua própria morte. Mas a chipiri que se oculta nas ervas e que inadvertidamente pisamos, ou a mbôbo que nos espreita de cima das árvores, podem ser causa duma morte horrorosa que não procurávamos e com que não contávamos. As serpentes venenosas pertencem às famílias das colubrinas (sub-família das elapinas), e das viperídeas. Entre as primeiras distinguem-se, pela violência e rapidez de efeitos das suas peçonhas, várias espécies dos géneros naia, sepedon e dendraspis. Todas as serpentes dos dois primeiros géneros possuem a propriedade de, quando irritadas e prontas para o ataque, alargarem consideravelmente as costelas do pescoço, formando assim o que chamamos capelo. O tipo destes ofídeos é a cobra-capelo da Índia, e é certamente desta designação portuguesa que provém o nome de cobra que os ingleses e franceses dão a todas essas serpentes. Ao género dendraspis pertence a serpente mais agressiva e mais venenosa de todas. Chamam-lhe os indígenas da Gorongoza mbôbo, e é conhecida pelos ingleses pelo nome, que julgo ser zulu, de mamba. Vivem sobre as árvores, e atingem grandes proporções. As viperídeas distinguem-se à primeira vista das colubrinas pela sua forma. São mais grossas e redondas, mais lentas de movimentos, e têm a cabeça chata e mais ou menos triangular, e a cauda muito curta. São extremamente venenosas, ainda que não tanto como as dos três géneros citados das elapinas. O único tratamento eficaz contra o veneno das serpentes é o soro anti-venenoso, se aplicado a tempo. O caçador prudente e até o simples viajante, não deve ir para o mato sem ir munido de soro, seringa e o mais que é necessário. Vendem-se já pequenos estojos completos com instruções minuciosas. Entretanto não julgo ser inútil dar um rápido resumo dessas instruções. A primeira coisa a fazer logo que a serpente mordeu, é fazer com um canivete bem afiado alguns golpes em volta das feridas, e alargar com os dedos as incisões assim obtidas, e enchelas com cristais de permanganato. Um bom sistema a empregar será deitar um pouco de saliva na palma da mão e na saliva em pouco de permanganato, fazer com o todo uma pasta, aplicar esta dentro da ferida, e esfregar fortemente. Aplicar no membro ferido uma ligadura bem apertada a montante da ferida, para dificultar a circulação de retorno. É sabido que o permanganato destrói completamente o veneno, quando em contacto com ele. Mas por mais depressa que o socorro seja aplicado, já nunca será possível evitar que algum veneno tenha entrado na circulação, e por isso se deve sempre empregar o soro em injeções hipodérmicas.


Nos primeiros tempos depois da descoberta do soro, como os venenos das diversas serpentes não são idênticos, fabricavam-se duas espécies de soros, um para as elapinas, outro para as viperídeas. Hoje já se fabrica um soro polivalente, que dá resultado contra o veneno de qualquer espécie de serpentes.

«Elefante sem marfim», Gorongoza, 1916 No precedente capítulo destas Memórias contei um episódio passado comigo e com um elefante sem dentes, que esteve por um tris a caçar o caçador. Eu sempre tinha ouvido atribuir a estes animais uma agressividade extraordinária que, pensava eu, podia ser causada pela idade avançada, visto que, privados de marfim e não provocando por isso a ganância dos caçadores, era natural que vivessem mais tempo do que os seus congéneres. Consultado o grande caçador Selous, com quem tinha travado relações numa viagem por mar, este não se mostrou contrário à minha hipótese. Mas o marire a que me referi era um animal bastante novo. É verdade que tinha cria, como se verificou pela quantidade de leite que tinha nas tetas, e isso é bastante para explicar a sua combatividade. Também tive sempre dúvidas sobre se a falta de dentes seria congénita ou acidental. O exame do exemplar abatido tirou-me as dúvidas. A falta era incontestavelmente congénita, pois que não existiam alvéolos, embora o sítio próprio apresentasse uma ligeira depressão perfeitamente coberta pela carne das gengivas. Na gravura, com um bocado de boa vontade, podem-se ver as pregas da mucosa seguindo aquela depressão.

Quando disse mais acima que a caça mais abundante e aquela que mais frequentemente se procura e se encontra, é a dos antílopes, não quis dizer que geralmente se despreze ou que eu próprio desprezei a caça às feras e aos mamíferos. No meu ativo conto um único leão, um


rinoceronte (que tive de ir matar ao Barué por serem muito raros na Gorongoza), dois leopardos, vários elefantes, (poucos por causa das restrições impostas pelo Regulamento de Caça da Companhia de Moçambique), bastantes búfalos mortos na Gorongoza e em Mussorize; não contando com os hipopótamos, habitualmente inofensivos para o homem mas destruidores das plantações indígenas, nem as inocentíssimas zebras, cuja carne é apreciadíssima pelos pretos a quem é necessário fornecer comida, e outros variadíssimos animais que se matam, uns por curiosidade como o ratel, outros para evitar as suas depredações como os macacos, outros enfim para variar a ementa como os patos, as rolas, os francolins, as pintadas, etc, etc. Passada rápida revista à bicharada de todos os feitios e tamanhos com a qual travei conhecimento direto, demorando-me naturalmente mais nos antílopes por serem mais numerosos, proponho-me dedicar algumas palavras a certos animais, que embora não sejam alguns deles objeto normal de caça, não deixam por isso ser muito interessantes. O mistério zimba, o corajoso binzi, e vários animais curiosos, pouco ou nada conhecidos na Europa em cujos parques zoológicos raros exemplares existem (se existem), figurarão nesta galeria à proporção que os seus nomes, formas e costumes me forem acudindo à memória. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 5, Ano 5º (1938), pp. 157-165]


6 Depois que a prática da fotografia se vulgarizou, a ponto de ser raro encontrar um viajante sem o competente aparelho, tem sido costume dos caçadores africanos o fotografarem-se junto das peças mortas, sobretudo se se trata do primeiro exemplar de qualquer espécie, ou de animal cuja morte represente para o caçador episódio memorável. Não fugi a essa usança e, se não fosse o desastre de 1917 que me privou da minha preciosa coleção de fotografias, aplaudir-me-ia hoje de ter obtido e conservado tantos documentos tão gratos à minha memória. Não deixo ainda assim de me aplaudir e felicitar, e felicito-me principalmente por ter minha mulher tido a boa ideia de mandar à família na Europa algumas dessas fotografias, cuja contemplação me traz hoje à mente a lembrança de belos momentos de comoção intensa: – a alegria do triunfo, o alívio depois de evitado o perigo, ou a simples satisfação de amor-próprio do atirador que acertou no alvo. Além das fotografias salvas por minha mulher, outras foram reproduzidas então n’ A caça, ilustrando artigos meus, cuja leitura agora me delicio, não por descabido narcisismo (tão pobres são de estilo e de interesse!), mas porque me fazem reviver aqueles tempos tão saudosos em que eu tinha energia e campo para a exercer. Folheando neste momento um velho número daquela revista, encontro a descrição dum episódio pouco vulgar que me aconteceu há 32 anos na Gorongoza. Andava eu procedendo ao recenseamento anual da população, e achava-me deitado dentro duma pequena barraca de lona armada no meio de uma aldeia indígena, a ler não sei que livro, e ainda não tinha mandado calar os carregadores e machileiros que tagarelavam como de costume em volta das fogueiras, quando de repente ouvi perto da barraca o tropel de alimária a galope e ao mesmo tempo um latido aflitivo que acabou em estertor. Imediatamente um grande silêncio sucedeu ao falatório dos pretos. Saí logo da barraca perguntando que tinha sido aquele barulho, sendo-me respondido que devia ter sido um leopardo que apanhara algum cão. Pedi que me trouxessem lume e à luz de archotes improvisados com palha, verificou-se que se não tratava de leopardo mas sim de dois leões, e ouvia-se perto das palhotas o mastigar das feras que se não tinham incomodado a ir para muito longe banquetear-se. Pensando que um cãozito seria ceia insuficiente para dois leões, pedi uma palhota para os pretos e outra para mim, e nesta me instalei, depois de abrigados os meus companheiros na outra. Não tinham passado dez minutos que se não ouvisse o rasgar da lona da barraca, onde provavelmente os esfomeados felídeos supunham que ainda estivesse gente. O estridente babaré, que os pretos fizeram de dentro das palhotas, afugentou as feras, que tiveram que ir alhures procurar o resto da ceia. Com ser das mais arriscadas, a caça ao leão é também a mais aleatória. Caçando principalmente de noite, o chamado rei das selvas (título, quanto a mim usurpado, ao elefante) acoita-se de dia em matagais impenetráveis, quer seja para se esconder do homem, seu único inimigo, quer seja para se defender do ardor do sol; de forma que só por acaso se pode encontrar de dia alguns desses bichos. O método mais seguro (e que todavia também falha muitas vezes) para conseguir o apreciado troféu que é uma pele de leão, para não falar no


veneno e na armadilha, processos muitas vezes eficazes mas nada desportivos, é a espera. Numa região abundante em caça e que é naturalmente frequentada por numerosos leões, o caçador dotado de paciência só tem que matar uma peça de caça, armar perto dela um palanque, subir para cima deste, e esperar… É claro que pode esperar muitas horas antes que apareça algum leão; e acontecerá muitas vezes que chegue o dia sem aparecer nenhum. Eu confesso que nunca me senti com disposição para passar uma noite naquelas condições; mas meu irmão, de passagem pela Gorongoza, resolveu uma noite tentar a sorte; em vez de palanque (difícil de construir em região quase desprovida de árvores) limitou-se a armar uma pequena palissada, cercada de espinhos, e meteu-se dentro dela com um caçador preto. Depois de algumas horas de enervante expetativa, ouviu um ruído e entreviu um vulto. (É inacreditável o pouco que se vê de noite, mesmo com luar de lua cheia!) Disparou a carabina na direção do vulto, que tombou imediatamente. Segundo ele me contou depois, o aborrecimento da espera não valeu nada em comparação com a maçada de deixar passar a noite. Sair do seu esconderijo, nem pensar nisso; o acompanhamento estava distante, e atravessar a planície, sós os dois, seria por demais arriscado. Além disso, não era impossível que outro ou outros gulosos viessem colocar-se ao alcance da sua arma. Enfim, com um vagar desesperante, a noite foi passando e a luz crescendo. De maneira que, mesmo antes de sair da palissada, a luz do alvorecer mostrou-lhe que a sua vítima era apenas uma pelada e nauseabunda hiena… Durante 20 anos procurei com pertinácia encontrar qualquer leão sem o conseguir. Devo dizer que o primeiro aparelho fotográfico que comprei foi com a ideia de não estar desprevenido quando um dia matasse um leão. Por mais de uma vez estive a poucos passos de leões cuja presença me tinha sido assinalada, mas nunca chegava a tempo de os ver. Um dia cheguei a ver um na estrada a pouca distância de mim, mas não tive tempo de lhe atirar; vinha eu da minha residência provisória em Tambarra para Vila Paiva de Andrada onde andava construindo a nova sede, quando os machileiros estacaram, desceram rapidamente a machila dos ombros, e gritaram: - Ncalâmo! Saltei da machila abaixo e vi a cerca duns dez metros um pequeno leão que nos olhava com um ar mais de assustado que de agressivo; mas enquanto eu tirava do respetivo estojo a pistola-carabina Mauser, única arma que nas pequenas viagens costumava levar comigo, o leãozito saltou para dentro do mato onde desapareceu.


Finalmente, no dia em que se completavam 20 anos que tinha chegado pela primeira vez a Moçambique, vi realizado o meu sonho; sucesso que se não repetiu nos 20 anos seguintes. Eu tinha chegado na véspera à noite a uma povoação nas faldas do monte Inhatete que pretendia subir, e realmente subi no dia seguinte. Dormia eu ainda quando ouvi alguém que chegava a correr e gritava que não abrissem as portas das palhotas, porque estava um leão ali perto a comer um porco-bravo. Levantei-me logo, enfiei à pressa as calças e as botas, e dirigi-me imediatamente para o lugar donde vinha o barulho, seguido pelos meus serviçais e carregadores. Levava a minha carabina Mauser, que tinha por sinal um bocado da mira partida, e dera a um dos pretos a pistola Mauser, devidamente carregada e pronta a fazer fogo. Ao passo que me ia aproximando, seguindo as indicações dos muitos indígenas que estavam empoleirados nas rochas e nas árvores, ia distinguindo melhor os rugidos da fera irritada e enfurecida. Chegado a uma clareira coberta de mato baixo e espesso, vi, ou antes entrevi, qualquer coisa que se agitava acima da vegetação, e que a custo consegui perceber que era a cauda de um leão projetada para cima em ângulo reto com o corpo, sinal certo, segundo Selous de que o animal ia carregar. Era pois urgente atirar, mas era essencial saber para onde. Um tiro dado ao acaso, a tão curta distancia, a tão terrível bicho, e em tal estado de furor, não era de aconselhar. Subi a um pequeno morro de muchém, e dali pude enfim


descobrir, ao pálido clarear da madrugada, parte da cabeça do leão. Atirei, e ao estampido do tiro sucedeu o silêncio solene das grandes ocasiões. Os rugidos cessaram e também a falácia dos espetadores da cena, até que um dos meus pretos, subindo a uma árvore, anunciou que o leão estava a dormir. Seguiram-se as manifestações de toda a gente das raras povoações circunvizinhas, cujo entusiasmo se traduziu ruidosa e coreograficamente… Fotografei-me primeiramente no próprio sítio, e fiz depois transportar o corpo do leão para local mais descoberto, onde me fotografei de novo com o corpo de baile… A bala que tinha entrado um pouco acima do olho esquerdo, saindo por detrás da orelha do mesmo lado, e esmigalhando a parte correspondente do crânio. Distância a que atirei: 33 passos. A pele desse leão, mercê de circunstâncias que não interessam, figurou muito tempo no salão de música do palácio de Patudos em Alpiarça. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 5, Ano 5º (1938), pp. 295-300]


7 Conquanto nestas páginas soltas de recordações não deseje ater-me a qualquer espécie de método, não quero abandonar o vasto grupo dos carnívoros sem falar dalguns animais que me parecerem extremamente interessantes, tanto mais que alguns deles são pouco conhecidos e outros talvez completamente ignorados pelo grande público. Começarei pelo leopardo que, apesar de ser felídeo mais largamente distribuído por toda a África e grande parte da Índia, é talvez de todos os grandes carnívoros, senão de todos os animais, aquele que mais raramente é visto. Bastará dizer que o grande caçador Selous, depois de quase uma vida inteira passada a caçar, só tinha visto um. Quanto a mim, alguns vi mortos e apanhados em armadilhas, mas vivo e em liberdade também só vi um que matei. De hábitos quase exclusivamente noturnos, cauteloso, de marcha silenciosa, hábil em agacharse com o ventre unido ao solo, trepando às árvores com facilidade, e saltando com incrível agilidade e rapidez, ele tem, mais do que por exemplo o leão, os meios de se aproximar sem ruído da presa e sem ruído se afastar do perigo, o que o tornaria o mais temível inimigo do homem se com mais persistência se dedicasse à sua caça. Felizmente porém nenhum caso conheço em que o homem, sem provocação, tenha sido vitima do leopardo. Entretanto, digase, posto por assim dizer de entre a espada e a parede, é adversário muito para temer. Pessoalmente nunca me sucedeu qualquer aventura perigosa com bichos desta família, mas meu irmão cuja carreira de caçador foi mais acidentada do que a minha nesse particular, esteve um dia em sério risco com um leopardo mal ferido por ele. Tendo-se-lhe acabado os cartuchos no depósito da carabina, quando o animal o carregou, viu-se forçado a defender-se do ataque à coronhada; mas um dos golpes falhou e a coronha partiu-se, ao mesmo tempo que o leopardo o apanhava com uma patada no joelho que o fez cair; de costas no chão e desarmado, tinha o único recurso de repelir a fera a pontapés o que tentou fazer, mas recebeu logo uma dentada no calcanhar, que sem dúvida se repetiria, se entretanto os pretos não tivessem acabado de matar o bicho com azagaiadas. Contando o episódio, escrevia-se o herói desta aventura: – «Como vês, mano, fui vencido, mas por onde o fui, até Aquiles o seria»… Agarrada uma presa, se percebe que foi pressentido, foge, mas não deixa de içar primeiro essa presa para cima de uma árvore, aonde sossegados os arredores, voltará a buscá-la. Vi vários cães e cabras agarrados nessas condições; o golpe era sempre o mesmo: – uma unhada certeira na jugular. Quando se pode refastelar em sossego, começa por extrair cuidadosamente e com incrível destreza (tal qual como faz o leão) os intestinos da presa, e enterra-os, ou, se a terra é demasiado dura, cobre-os com ervas a certa distância do sítio do repasto. Só depois começa por comer o coração, os pulmões, o fígado, a língua, e às vezes as orelhas, e por fim a carne do peito e dos membros. Também como o leão, despreza os ossos, com exceção das pontas das costelas. Se lhe sobejou alguma carne, por estar saciado, ou por não lhe darem tempo a acabar com ela, guarda o resto em cima duma árvore, para a defender provavelmente dos chacais e das hienas. É notável a facilidade com que trepa a árvores altas e quase verticais carregando pesos relativamente grandes.


Quando um desses felídeos se habitua a visitar a povoação, não há remédio, vista a dificuldade de o caçar por meio de espera, desconfiado e dotado como é de sentidos de finura extraordinária, senão empregar o veneno ou apanhá-lo em armadilhas. Escolhido o primeiro sistema, deve-se matar um cabrito e introduzir-lhe no coração uma pequena dose, digamos meia grama de estricnina. Maior porção podia causar vómitos, e ficar assim sem efeito o veneno. Quanto a armadilhas há-as de vários feitios. A mais simples consiste numa grossa viga colocada num caminho estreito por onde se espera que o leopardo haja de passar, com uma das extremidades suspensa de forma que à sua passagem o animal a faça desabar sobre si esmagando-o. Usa-se também uma espingarda carregada, tendo na boca um pedaço de carne presa por um cordel ao gatilho, de maneira que o leopardo (e quem diz leopardo diz hiena ou qualquer outro carnívoro) puxando a carne, faça o mesmo ao gatilho, disparando-se a arma dentro da boca do guloso. De construção menos simples mas com a vantagem de durar mais tempo, podendo mesmo fazer-se uma armadilha de caráter permanente, é uma espécie de pequeno curral feito de paus a pique e composto de dois compartimentos, um destinado a abrigar um animal vivo para chamariz, o outro em forma de corredor por onde o carnívoro terá de passar para tentar apanhar o isco. Esse corredor, sem comunicação, é claro, com o outro compartimento, tem uma porta corrediça presa a um dispositivo nada complicado mas engenhoso, destinado a deixá-la cair no momento oportuno. Toda a construção é guarnecida de espinhos por cima e em toda a volta, de sorte que o leopardo se quiser tentar apanhar o isco tem forçosamente que entrar pelo corredor; e quando está completamente dentro deste, tropeça no tal dispositivo e a porta cai encurralando-o. Há ainda a armadilha em forma de ratoeira, que se deve ocultar com ervas e colocar-se em carreiro estreito; o animal pisando o prato fica com a pata presa. Deve porém tomar-se uma precaução importante. Se a ratoeira estiver solta, o animal fugirá com ela; se estiver presa a qualquer objeto fixo, o leopardo roerá os dedos para se libertar; deve-se pois prender a armadilha a um tronco cortado, bastante pesado para dificultar a fuga sem todavia a impossibilitar. Ainda assim não há segurança absoluta. Um leopardo apanhado numa destas ratoeiras perto da minha residência na Gorongoza, tendo-se-lhe prendido o tronco numa das raízes, começou a roer os dedos: cheguei a tempo de o matar, mas já lhe faltava pouco para se livrar da ratoeira. A bem dizer, os dedos foram antes cortados do que roídos, pois no estômago se encontraram as garras e as falanges quase inteiras. Já uma vez escrevi que não é fácil decretar regras infalíveis quanto aos costumes dos animais bravios, porque estes naturalmente não se julgam obrigados a segui-las à risca. Assim diz-se geralmente que o leopardo só caça de noite como aliás a maior parte dos carnívoros; mas seria erro supor que, obrigado pela fome ou aproveitando as circunstâncias fortuitas, ele não possa uma vez por outra transgredir a regra. O leopardo que se vê na figura junta, por exemplo, foi morto na Gorongoza perto da minha residência, às 10 horas da manhã, por um moleque meu; o rapaz espreitava um macaco sobre uma árvore quando viu que o leopardo trepava à mesma árvore. Ia caçar e foi caçado. Proximamente no mesmo sítio veio uma tarde dizer-me o pastor das cabras que um leopardo tinha matado uma, e que, assustado com os gritos, fugira abandonando a presa. Certo de que


não tardaria a vi-la buscar, mandei afastar toda a gente, e escondi-me ali perto. Como esperava, não tardou que o visse aproximar-se sorrateiramente, e justamente quando ele se dispunha a apropriar-se do que julgava seu, deitei-o abaixo com uma bala certeira. Percebendo pela maneira como se arrastava sem conseguir levantar-se, que tinha a espinha partida, mandei chamar minha mulher e minha filha para o verem ainda vivo, façanha de que poucos caçadores se podiam gabar. Satisfeita essa legítima curiosidade, liquidei-o imediatamente, por causa das dúvidas, com um tiro de zagalotes na cabeça. Outro felídeo, talvez menos abundante, mas também largamente distribuído pela África e por grande parte da Índia, é o guepardo, que os ingleses conhecem com o nome de chita. É, à primeira vista, tão semelhante ao leopardo que nem a maior parte dos pretos os distingue. Observado porém com atenção, tem diferenças importantes daquele seu próximo parente. A cabeça é mais pequena, as pernas mais finas e compridas, a cauda mais comprida e talvez mais abundante em pelo, as malhas na pelagem são cheias e não em forma de anéis, os dentes menores e os queixos menos fortes, tem sobre os pescoço um rudimento de juba (o que lhe valeu a designação específica de jubatus), e, principalmente, as garras não são completamente retráteis. Em hábitos também difere bastante do leopardo e doutros felídeos. Menos noturno que a maior parte destes, o guepardo caça geralmente ao cair da tarde e nas primeiras horas da manhã, aproveitando contudo as noites de luar e os dias de nevoeiro. Muito mais tímido e muito menos forte que o leopardo, só ataca ordinariamente pequenos antílopes ou os maiores quando muito novos. Também lhes extrai as entranhas, mas muito menos habilmente do que o fazem os leões e leopardos; os intestinos são atirados para o lado mas não enterrados nem cobertos com ervas. O fígado, os rins e o coração são muitas vezes deixados nos seus lugares. O guepardo começa às vezes por comer os dois últimos, depois passa à cabeça e pescoço, devorando as cartilagens do nariz e as orelhas, e algumas vezes arrancando a língua; come depois a carne da face e pescoço, e a seguir as extremidades tenras das costelas e os quartos traseiros. O fígado e os quartos dianteiros são em regra destinados para o fim. Dizem que o guepardo aceita facilmente a domesticidade, e parece que príncipes indianos o utilizam para a caça de pequenos animais. O célebre tigre que Sara Bernard trazia consigo e levou para a América, – o que grandemente contribuiu para a fama e excentricidade que a bem conhecida atriz conquistou, – era um simples guepardo domesticado. Como não pretendo fazer um tratado de história natural, passo em silêncio meia dúzia de gatos selvagens, com os quais não tive ocasião de travar relações pessoais. Passando dos felídeos para os canídeos, e deixando em silêncio o aliás interessante chacal, ficaria mal com a minha consciência se não falasse no lycaon pictus com o pretexto de que também não tive relações com esse notabilíssimo animal. O lycaon pictus, que os ingleses chamam de hunting dog, os indígenas da Gorongoza binzi e os do Sul mpumpi,e que nós podemos apelidar de lobo africano, à falta de melhor designação, é dos mais curiosos bichos existentes, pelos seus costumes e pela sua extraordinária coragem. A vinheta junta poderia dispensar descrição, mas não me parecem descabidas algumas indicações. Ei-las segundo Stevenson-Hamilton, Diretor das Reservas de caça do Transvaal.


O lobo africano mede cerca de 0.60m a 0.75m de altura na agulha, e pesa, quando plenamente desenvolvido, uns 30 quilos; o focinho é curto e largo, e as orelhas redondas e eretas são das suas mais frisantes características. O corpo e as pernas são marcadas por malhas pretas, brancas e amareladas; a cauda é felpuda com a ponta branca. Apesar de ter as pernas longas e possantes, o corpo descai bastante para trás, circunstância que, junta ao hábito de marchar habitualmente de cabeça e cauda baixa, lhe dá certa aparência de hiena, embora nada no seu físico, inclinações ou hábitos lhe dê a menor semelhança com aquele animal. O lobo africano exala um cheiro muito forte e característico, e, sob certas condições atmosféricas, a proximidade duma alcateia é facilmente percetível ao olfato humano. Quanto a hábitos e costumes, o lycaon vive em alcateias mais ou menos numerosas, havendo escritores que falam em dezenas e até centenas de indivíduos num só bando. É verdade que esses números se referem a tempos antigos, em que havia mais caça e menos destruição. Por mim, o único bando que vi não teria muito mais que uma dúzia de animais, e tenho notícias doutros ainda menos numerosos. A caça que mais persegue é a dos antílopes de pequeno ou médio porte, não sendo raro que a fome ou a ocasião o leve a acometer animais mais corpulentos, grandes antílopes e talvez até búfalos. É pelo menos certo que estes também sentem por ele o mesmo terror que todos os herbívoros. Conta Selous que um dia viu uma grande manada de búfalos fugindo em carreira desordenada, supondo ele que algum bando de leões os perseguia; mas não tardou que ouvisse os latidos característicos do Lycaon e visse meia dúzia destes atrevidos caçadores no encalce de búfalos. O Lobo africano caça habitualmente durante as primeiras e as últimas horas do dia e algumas vezes em noites de luar. A forma de caçar é típica e eficaz ao último ponto, sendo bem justificado o pavor que inspira. O bando, logo que a aurora se aproxima, começa a percorrer o campo a passo lento, cabeça e cauda baixas, levantando de quando em quando as orelhas e dirigindo-as para um e outro lado à escuta, até que ouve qualquer coisa que possa interessálo. Confirmadas as suas suspeitas, se se trata por exemplo de um grupo de ímpalas, trata logo de as caçar rapidamente; quando os antílopes dão pelo perigo, aterrorizados, fogem em todas as direções, embaraçando-se naturalmente uns nos outros. Escolhida a primeira vítima é seguida pelo bando inteiro, cujos componentes a vão mordendo nas pernas e nas ilhargas, reversando-se à proporção que se vão cansando, se é que tais animais são suscetíveis de cansaço. Se a vítima é macho, não deixam de a morder no sítio mais sensível. Esvaindo-se em sangue e exausta de cansaço, não tarda que a vítima caia e seja rapidamente devorada. Pela sua muita coragem ou pela circunstância de não ser habitualmente perseguido pelo homem, a verdade é que este estranho animal parece não dar grande importância àquele que todos os outros temem. À aproximação do homem o Lycaon afasta-se sem pressa, mas se o homem corre para ele, acelera o passo mas logo para, para de novo se afastar e parar, à proporção que a distância a que vê o seu perseguidor aumenta ou diminui. Um dia uns cipais da Gorongoza regressavam a Vila de Paiva de Andrada de qualquer serviço, quando encontraram alguns lobos a devorarem um antílope; enxotaram-nos com alarido e pedradas,


batendo com paus nos que mais se demoravam em ceder o lugar, e matando um deles que chegou a morder um dos cipais. Com este bicho sucedeu um episódio que não deixa de ter a sua graça. Os cipais trouxeram-me o seu troféu que eu fotografei, mandando uma prova a um Sr. Guilhaume Vasse que andava fazendo coleções por conta do Museu da História Natural de Paris. O Sr. Vasse agradeceu a oferta, tanto mais apreciável por não ter ainda tido ocasião de encontrar qualquer espécime de lycaon pictus, e pediu-me autorização para publicar a fotografia no livro que contava escrever, declarando é claro qual a proveniência da mesma. O meu espanto confesso, não foi grande quando meses depois vi na revista francesa Le Tour du Monde a fotografia que eu lhe tinha dado, com a indicação de ter sido tirada por ele dum animal por ele morto… Quando mais tarde publiquei a mesma fotografia em A Caça, contei este caso, não fosse alguém supor que se tratava dum plágio praticado por mim. Disse que me tinha admirado o facto, pois que na mesma revista li que o Sr. Vasse tinha matado a tiro durante um mês na Gorongoza mais de vinte leões, que eu sabia muito bem que tinham sido todos eles envenenados pelo mesmo senhor com estricnina… Os artigos publicados em Le tour du Monde foram depois reunidos em volume com o mesmo título: – Trois ans de chasse au Mozambique.

Se a respeito do guepardo e do lycaon, pude dar novidades à maior parte, se não à totalidade, dos que porventura me leram, o mesmo não poderei fazer acerca da hiena – antipático e repelente bicho de que tudo já está dito, e de que há numerosos exemplares em todos os jardins zoológicos. Se nela falo é apenas para contar um caso que desmente um pouco a acusação de cobardia que se lhe assaca habitualmente, e para pedir para ela aquela justiça que se não deve negar nem mesmo às entidades que nos não são simpáticas. Vivendo principalmente dos restos deixados por outros carnívoros, especialmente ossos, que por maiores e mais duros que sejam não resistem aos seus fortes dentes e à poderosa musculatura dos seus queixos; não escrupulizando sobre o estado de podridão mais ou menos adiantada de qualquer carcaça que se lhe depare e da qual nem os intestinos poupa; compreende-se que só à falta destes mimos se dedique à caça de animais vivos. Não desdenha todavia as capoeiras e até os currais, e há mesmo exemplos de comer crianças e também adultos que apanhe a dormir. Daqui provém, suponho eu, a sua fama de cobardia. A indígenas ouvi dizer que, quando encontra um animal vivo, só ataca se a altura deste não excede a sua, para o que não é preciso muito; o que explica, segundo estes informadores fantasistas, que se atreva com homens deitados. Assim será em regra. Mas o caso que quero contar é o seguinte: – Eu tinha na Gorongoza um burro que às noites, por falta de estábulo apropriado, ficava à solta numa grande palhota. Uma manhã vieram-me dizer que havia um buraco numa das paredes dessa palhota, e se viam pegadas de hiena e manchas de sangue nas proximidades. Entrando na palhota encontrámos o burro, ainda aparentando cansaço mas indemne, e o chão todo


revolvido. Era claro que uma hiena que tinha entrado com a intenção evidente de se cevar no burro, mas este se tinha defendido valentemente a coice e à dentada. Provavelmente a hiena ao ver aproximar-se o dia, ou mesmo antes disso, desanimara e desistira do seu intento. Fosse como fosse, foi vencida mas não foi cobarde. Conheço porém outro caso mais difícil de explicar. Um cipaio que estava de guarda a um posto deixou-se adormecer deitado sobre uma pele de antílope. Quando estava no melhor do seu sono, sentiu que puxavam a pele que lhe servia de colchão; supondo que era algum camarada que se queria divertir com ele, resmungou, acomodou-se melhor e continuou a dormir; mas o puxão repetiu-se uma e mais vezes, até que, irritado, se sentou, vendo ali perto uma hiena que fugiu não lhe dando tempo a preparar a arma que tinha ao lado. Quanto à justiça que reclamo, é apenas isto: – Chamem à pobre hiena os nomes feios que merece; digam que é feia, nojenta, repelente, nauseabunda, até cobarde, se quiserem; mas reconheçam que é dos animais mais úteis que a África possui, e que, se não existisse a hiena, assim como outros animais como o abutre, igualmente antipático, repelente e nauseabundo, seria inabitável o interior do continente, pelo menos enquanto a civilização não levasse a toda a parte os serviços de limpeza e higiene. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 6, Ano 6º (1939), pp. 93-100]


8 Antes de voltar a ocupar-me da caça propriamente dita não me parece descabido aumentar a galeria de animais curiosos com mais alguns exemplares que se me afiguram notáveis. O primeiro que me ocorre é o Ratel, a que os ingleses chamam de texugo do mel (honeybadger) por causa da sua extrema semelhança com o verdadeiro texugo, e da sua predileção pelo mel. As suas formas e o tamanho pouco diferem dos daquele plantígrado, mas dele se distingue bem por outras características exteriores assim como pelos seus hábitos e maneiras de ser. Os membros e toda a parte inferior do corpo são completamente negros, mas por cima, desde a testa até à base da curta cauda, a cor é pardacenta, separada do preto por uma lista lateral branca. As garras que armam as patas anteriores são compridas e fortíssimas, e a pele é tão rija e tão solta que resiste aos dentes dos maiores carnívoros como aos das mais venenosas serpentes. Têm-se encontrado cadáveres de rateis, com os ossos esmigalhados por dentadas de outros animais, mas com a pele intacta. Outra característica notável deste estranho bicho é a coragem indomável de que é dotado, e que não é certamente igualada pela de nenhum outro animal, ainda de que maior porte e maiores forças. Parece insensível ao medo e, se não ameaça nem ataca quem com ele se não meta, também não foge nem se desvia do seu caminho, qualquer que seja o obstáculo que tente opor-se-lhe. Homem ou animal que pretenda impedir-lhe a passagem, pode contar com inimigo determinado e perigoso, que só abandonará a luta quando for morto. Na reserva de caça do Transvaal encontraram-se vestígios iniludíveis de lutas de rateis com matilhas inteiras de cães, e até com leões, lutas em que venceram naturalmente os mais fortes, mas em que os vencedores deixaram sinais evidentes de terem sido duramente maltratados. Parece que não é propriamente carnívoro, ainda que se tenham encontrado uma ou outra vez rateis caídos em armadilhas iscadas com carne. Também se conta terem-se encontrado antílopes mortos em luta com rateis, mas não se notou que estes tenham aproveitado a carne dos inimigos vencidos; não sendo porém impossível que lhes tenham sugado o sangue. Muito curiosa é a observação feita nessas ocasiões, de que o escroto do antílope é sempre arrancado. Já tive um pequeno ratel mas durou pouco tempo, vitimado pela brutalidade dum preto; mas sei que em domesticidade se torna um simpático e alegre companheiro, devendo apenas terse muito cuidado com o açúcar, pois para o apanhar, bem como as outras gulodices, desenvolve astúcia e atividades assombrosas. O seu recreio predileto consiste em subir a mesas e cadeiras e atirar-se abaixo desses móveis em perfeitos saltos mortais. A habitual alimentação do ratel consiste principalmente em gafanhotos e outros insetos; mas o seu petisco preferido é o mel, e talvez as larvas das abelhas. A faceta mais curiosa dos seus costumes em liberdade é a verdadeira aliança que existe entre ele e um pássaro do género indicator, que tem por hábito de, quando descobre um ninho de


abelhas, vir ao caminho chamar os homens que porventura passem, encaminhando-os para o sítio onde está a colmeia. Incapaz de destruir e tirar fora do ninho, metido em cova no chão ou na toca de alguma árvore, pede auxílio a quem possa aproveitar o mel, deixando-lhe a ele as larvas e as abelhas mortas. É curiosa de ver a insistência com que o inteligente passarito solta os seus pios característicos, voando na direção desejada, voltando atrás a ver se o seguem, tornando a tomar a boa direção, até que os indígenas chegam ao sítio próprio, e começam a afugentar as abelhas com fumo para lhes roubarem o fruto da sua indústria. Sic vos non vobis… Já ao famoso Fr. João dos Santos não passara despercebida esta avezinha à qual consagrara as seguintes linhas na sua conhecida Ethiopia Oriental: – «Nas terras de Sofala se cria um género de pássaro, cujo mantimento é cera. Estes andam pelos matos em busca de enxames de abelhas, dos quais há muitos pelo chão em buracos, e pelos troncos das árvores, e quando acham algum que tenha mel, veem-se aos caminhos em busca de gente para lhe mostrar, o que fazem indo diante dela gritando, e batendo as asas de ramo em ramo, até chegarem ao enxame. E os naturais da terra, que já conhecem os pássaros, tanto que os veem, logo os vão seguindo para comerem o mel; e o interesse que daqui colhem os pássaros é comerem as migalhas da cera, e dos favos, e das abelhas mortas, que ficam no mesmo lugar da colmeia. A estes pássaros chamam os cafres de sazu; são do tamanho de verdilhões, e quase da mesma cor e têm um rabo comprido…» Há aqui um erro manifesto de observação no que respeita ao aproveitamento da cera como alimento daqueles pássaros; erro aliás desculpável em quem não possuindo cultura científica superior à vulgar no seu tempo, não podia nem procurava defender-se de certa ingenuidade.1 Ora como no interior de África nem sempre passam ao alcance do nosso pássaro indígenas a quem ele possa pedir auxílio, feliz se deve considerar quando se lhe depara o seu natural aliado. E então ao passo que um convida e guia, e o outro o segue, o primeiro indo e vindo com manifesta impaciência, e o outro caminhando no seu passo, aliás nada vagaroso, mas inalterável, parece estabelecer-se entre os dois o seguinte diálogo: – anda depressa, diz um; lá vai, lá vai, diz o outro. Por fim lá chegam ao seu destino, começando logo o Ratel, com a imunidade absoluta que lhe confere a impenetrabilidade da sua privilegiada pele, a desenterrar e destruir colmeia, cevando-se com volúpia no mel abandonando ao seu guia o seu banquete predileto.

1

Não são raros os erros de observação nesta aliás valiosa e interessante obra do missionário africano. Assim, falando de uma variedade de insetos muito vulgares em África, que constroem ninhos de terra formados por várias células, em cada uma das quais introduzem um ovo e ao mesmo tempo uma lagarta para o sustento da larva que há de nascer do ovo, diz: - «Em toda esta cafraria se criam muitos zangões, da maneira seguinte. Fazem um pelouro de barro pegado nas paredes, ou telhados, com muitos buracos, ao modo dum favo de abelhas ou vespas, e em cada buraco metem um bichinho, como aqueles que se soem criar nas couves, uns verdes, outros pretos, outros brancos e pardos, de maneira que não são todos da mesma casta, senão quaisquer que chamam, os que levam entre os pés, e voam até o seu favo, que têm feito de barro, e em cada buraco metem um bicho, e tapam-lhe a porta com barro fresco, ficando os bichos todos entaipados. E ali dentro se geram deles outros zangões com pernas e asas, e tanto que são gerados, eles mesmos furam o barro, e saem para fora, e voam. E estes depois de grandes fazem a mesma criação, de maneira que os filhos alheios de diversas castas, fazem filhos próprios, coisa que muito me espantou…»


Dizem, mas a minha experiência não o confirma, que os indígenas quando seguem estes pássaros costumam imitar a voz do ratel. Fui muitas vezes abandonado pelos carregadores (que sempre se esqueciam de pedir licença, pois perdem de todo a cabeça quando ouvem o apelo bem conhecido) mas nunca notei que respondessem qualquer coisa ao pássaro; estou mesmo convencido de que este não tem qualquer necessidade de qualquer estímulo.

Entre os animais africanos menos conhecidos na Europa, devem figurar em primeiro plano os desdentados, pois nem mesmo nos parques zoológicos mais ricos costumam existir. Os desdentados africanos estão representados por duas espécies – o pangolim e uma sorte de tamanduá. O primeiro (manis temmincki) é coberto de rijas escamas córneas em todo o corpo, exceto na parte inferior dos membros; a cauda é comprida e larga, e igualmente coberta de escamas; os membros curtos e fortes, e os pés anteriores providos de longas e poderosas garras. É solitário e de hábitos noturnos, vivendo todo o dia escondido em covas que ele próprio escava. Alimenta-se exclusivamente de formigas e de térmitas que apanha metendo a longa e viscosa língua em buracos dos formigueiros e termiteiros. Se é perturbado enrola-se sobre si mesmo em bola à maneira de um ouriço, ficando inteiramente coberto pelas escamas, seu único meio de defesa.

O outro desdentado (oryteropus afer) tem absolutamente o mesmo regime alimentício que o pangolim, e os mesmos costumes. É porém muito diferente no seu aspeto exterior. Tem tamanho dum porco não muito grande, e assemelha-se-lhe um pouco na pele, dura e quase nua, (só nos quartos traseiros apresenta uns cabelos castanho-avermelhados) e no focinho em forma de tromba. A língua, como a do seu parente pangolim, é comprida e viscosa, e os membros são fortes e armados, principalmente os anteriores, com garras tão fortes que, quando ouvem qualquer ruido suspeito, em poucos minutos abrem, na terra mais dura, cova suficiente para ocultarem o seu volumoso corpo. Essas covas são tão numerosas em certos sítios que tornam bastante perigosos caminhar de noite, sobretudo a cavalo. Por causa da sua semelhança com o porco chamam-lhe os boers aard-vark, que em holandês significa porco da terra, enquanto os ingleses, devido a outra semelhança aliás menos flagrante, o conhecem por urso-formigueiro (ant-bear). A designação de desdentados, bem apropriada ao pangolim, devia neste caso ser substituída por mal dentados, visto que alguns dentes tem o aard-vark; poucos e provavelmente inúteis, e tendo de notável não terem raízes nem esmalte. A carne tanto dum como doutro formigueiro é muito apreciada pelos pretos, que aliás apreciam mais ou menos todas as carnes; mas até a brancos tenho ouvido gabar a excelência deste petisco, e leio neste momento num livro inglês que as formigas, que fornecem exclusivamente a alimentação destes animais, comunicam à sua carne, especialmente aos presuntos, um delicado sabor. Confesso que nunca provei, como nunca provei a carne de pitão, nem ovos de crocodilo, apesar de Livingstone dizer que sabem aos de galinha…


Sem me despedir por enquanto da bicharada extravagante, pois a fauna africana sempre reserva surpresas aos menos versados em zoologia, apetece-me agora voltar às minhas reminiscências de caçador. De todas as caças africanas aquela que sempre mais apreciei foi a do búfalo. Geralmente menos fatigante que a do elefante, embora não isenta do excitante fator perigo, era a que mais me entusiasmava e a que me entregava com mais paixão. Infelizmente na Gorongoza, quando ali estive, era das que mais escasseavam. Não sei se houve tempo em que o búfalo tivesse sido abundante na Gorongoza ou países vizinhos; depois porém que a peste bovina em 1897 ali grassou, foram dizimados em maior ou menor número todos os animais de unha rachada, sendo o búfalo a principal vitima. Quando ali cheguei em 1900 e quando ali saí em 1917, só havia notícia de duas relativamente pouco numerosas manadas, uma que se podia encontrar com certa facilidade entre os rios Mucoza e Nhandúê, a outra, mais difícil de procurar, na atormentada região, densamente coberta de mato e de pequenas árvores espinhosas, escondida entre as faldas da serra a sudoeste e os tandos.2 Quando, depois de várias tentativas infrutíferas, consegui pela primeira vez encontrar vestígios recentes de búfalos, tão recentes que adquiri logo quase certeza de que os ia em breve ter ao alcance da minha fiel Mauser, senti aquela alegria feroz que não deve ser diferente no caçador da que deve comover a fera em circunstâncias análogas. As pegadas mostravam que os animais tinham bebido de madrugada; seguindo-as, era quase infalível encontrá-los, pois era ainda bastante cedo e o búfalo só corre quando alarmado; habitualmente vai pastando lentamente e frequentes vezes se deita. Como esperava, não tardou que se ouvissem os ruídos tão característicos da sua marcha, como por exemplo ligeiros mugidos e estalidos de ramos secos que os grandes corpos vão quebrando à passagem. Verificada a direção do vento que era favorável, fomo-nos aproximando, até que numa planície bastante descoberta vimos umas trinta ou quarenta cabeças pastando descuidadamente. Escolhido um dos maiores que estava mais a jeito mandei uma bala que o fulminou. Recebido a tiro, o animal soltou o conhecido mugido que, uma vez ouvido, nunca mais se esquece, e que é sinal certo de que o pobre bicho foi atingido mortalmente. Como era o meu primeiro búfalo na Gorongoza (já os tinha matado na Zambézia, no Prazo Güengüe) não fugi à regra de me fotografar sobre ele, fotografia que agora se reproduz de «A Caça». Daí por diante poucos mais búfalos matei na Gorongoza, todos pertencentes à mesma manada, pois da outra de que tinha notícia nunca vi um único exemplar. Ao contrário, anos depois, durante dez meses que estive em Mussorize, vi e matei mais búfalos do que nos 17 anos que vivi na Gorongoza. Note-se ainda que, ao passo que na Gorongoza tinha que os procurar se os queria matar, em Mussorize vinham-me os pretos chamar a casa, pois perto dela passavam com frequência. Uma manhã vieram-me chamar quando fazia a barba e lá fui com a cara meio rapada, meio ensaboada, matar um solitário a poucos metros da horta.

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Vastas planícies de vegetação rasteira, a que se poderá aplicar o nome russo de estepes.


«Como era o meu primeiro búfalo… não fugi à regra de me fotografar sobre ele.» Gorongoza, 1900-1917. [fotografia AHMTN]

Quando em manada, a caça ao búfalo oferece pequeno perigo; perturbada pela presença do homem, ou alarmada pelo barulho dos tiros, a manada foge desordenadamente, atropelandose mutuamente os animais, e sendo de notar o ruído dos cornos que se entrechocam, e o tropel dos numerosos cascos. Se porém um dos animais foi gravemente ferido, o perigo começa: ou o ferido se volta imediatamente contra o agressor e o duelo vai travar-se; ou o ferido abandona a manada e foge. Neste caso, o caçador inexperiente ou imprudente que o segue sem precaução, pode ser vítima da sua imperícia. O búfalo esconde-se geralmente, e logo que vê o caçador que julga segui-lo, cai sobre ele inesperadamente e infalivelmente o ataca antes que possa defender-se. Ao mesmo risco está sujeito quem passe descuidadamente por um caminho onde esteja um búfalo isolado, quer tenha sido ferido anteriormente por outro caçador, que se trate de velho macho expulso da manada pelos touros mais novos. Os búfalos que matei não tiveram tempo de se revoltar; atingidos em bom sítio, não me fizeram correr risco nenhum. Menos feliz do que eu, meu irmão esteve duas vezes em sério perigo de vida; da primeira vez o búfalo mal ferido correu sobre ele, apenas lhe dando tempo a meter-lhe uma bala na cabeça; da segunda vez, o animal atacou-o quando já não tinha cartuchos na arma; e tão perto estava que já não podia fugir. Segundo ele me contou depois (usando a tecnologia tauromáquica que era de circunstância) ainda tentou um quite com o chapéu, mas o búfalo não cedeu ao engano, e volteou-o deixando-o com um golpe profundo perto de uma das virilhas.


O rinoceronte é animal ainda mais raro na Gorongoza. Refiro-me ao rinoceronte vulgar, pois o branco (rinoceros simus), que aliás é tão branco como o outro, é hoje raro em toda a parte. A diferença entre os dois está na maior corpulência do chamado branco, e principalmente em o lábio superior do preto ser preensil e o do branco não. Tendo passado anos sem conseguir encontrar sequer vestígios de rinocerontes na Gorongoza, fui procurá-los no vizinho Cheringoma, onde fui mais afortunado, indo depois ao Báruè onde finalmente consegui encontrar e matar um belo exemplar. Encontrada a pista, seguíamos com toda a cautela, na esperança de o encontrar a dormir, como é seu costume àquela hora. Efetivamente o rinoceronte pasta sempre de noite, bebe água e, quando farto, vai, ainda de noite, em busca de sítio escondido e sossegado onde possa dormir todo o santo dia. Incrivelmente surdo e quase completamente cego, estaria de todo sem defesa, se não tivesse um amigo dedicado e vigilante que o acorda à aproximação de perigo: uma ave do género de buphaga. Foi provavelmente uma destas sentinelas que avisou o nosso rinoceronte, visto que inesperadamente ouvimos o seu tropel através do matagal que nos cercava. Subindo a um pequeno morro, conseguimos vê-lo correndo a carta distância, e imediatamente lhe atiramos sem grande esperança de lhe acertar, em razão da lonjura e más condições do tiro. Os pretos porém que estavam empoleirados pelas árvores gritaram que o animal tinha caído, avisandonos ao mesmo tempo de que se levantara e voltava na nossa direção. Com efeito não tardou que o visse e que o deitasse outra vez abaixo com segundo tiro. Aproximando-me e apesar de o supor bem morto, mandei-lhe terceiro tiro, que afinal já não era necessário. Meses depois, desta vez na Gorongoza, tive ocasião de atirar a outro rinoceronte que deixou abundante sangue e que segui durante bastante tempo, mas cuja perseguição tive de abandonar com grande pesar meu e dos pretos que me acompanhavam. Estávamos em Outubro, época em que o sol já queima e em que as árvores ainda estão despidas, e os cursos de água escasseiam ou faltam por completo. A água que levávamos, incluindo a do meu cantil, já acabara havia muito tempo. Continuar a marcha era de todo impossível e por isso retirámos para o acampamento que felizmente não distava muitos quilómetros. A natureza africana na época a que me refiro, e que aliás já ia avançada, inspirou a um viajante inglês as seguintes notas de viagem: «Em África as árvores não têm folhas, as flores não têm aroma, os rios não têm água, as aves não cantam e os cães chamam-se todos futsec, mas fogem, em vez de acudirem ao chamamento, quando se lhes grita o nome.» Devo explicar que futsec (salva a ortografia que deve estar errada) é interjeição holandesa com que os sulafricanos costumam enxotar os cães… [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 6, Ano 6º (1939), pp. 261-267]


9 Costumam alguns escritores falar dos seus três ou quatro leitores, dando assim a entender modestamente que poucos mais lhe darão a honra de os ler. Mais modesto ainda, e com maior razão, eu não sei se chegarei a ter dois ou três, mas tenho ao menos a certeza de ter um, e esse não é um leitor qualquer, mas uma pessoa amável que não só me lê como me tece elogios, que são tanto mais de agradecer quanto mais imerecidos os reconheço. Refiro-me ao Sr. Jaime Picardo Sousa que, no número de março último do Mundo Português, a propósito do leopardo de Moribane, cujos costumes conhece bem e bem descreve, fala com simpatia e benevolência do velho caçador aposentado, que há muito abandonou a carabina e a vida intensa da selva mas aproveita de vez em quando o repouso a que o forçam a idade e as condições da sua vida, para recordar com saudade nestas páginas acolhedoras os tempos distantes em que era devoto de Santo Humberto. Bons tempos! Mas a memória vai falhando, pois, como dizia Fr. Luiz de Sousa ao escrever os «Anais de D. João III», «estou no inverno da vida» e «faço já número de anos sobre setenta». Não poderia portanto satisfazer os votos amavelmente expressos pelo mais amável dos meus antigos colegas, – colega na vida administrativa e na vida do mato – escrevendo uma obra em que «os caçadores praticantes, em boas horas de leitura, se pudessem ir penetrando nos costumes, nos hábitos, na vida, no modo em suma que caracteriza a caça de cada uma das espécies». Já em artigo anterior contei que o original e as fotografias que tinham enviado para a revista A Caça da qual se faria separata em volume, se extraviaram ou jazem ocultas em qualquer recanto ignorado. O original ainda não seria impossível substituí-lo por prosa mais ou menos idêntica; mas as fotografias, que constituíam uma coleção preciosa, pois não havia animal descrito nos meus artigos que não tivesse neles a sua imagem, é que não há possibilidade de as substituir. Em 1924, tendo-me sido pedido um capítulo sobre a fauna de Moçambique para um livro que se pensava publicar acerca daquela Província, mandei para Lourenço Marques o artigo pedido e bastantes fotografias que me foram emprestadas pelo meu amigo já falecido Carlos Sobral – o homem de desporto mais completo que jamais conheci, e que morreu vitimado por um leão – artigo e fotografias de que nunca mais tive notícia. Só sei que o livro não foi publicado. Nestas circunstâncias, sem poder documentar as minhas descrições de animais com gravuras que compensassem a insuficiência da minha prosa, ou ter que recorrer a decalques, parece-me preferível continuar a contentar-me com um ou outro artigo que o Mundo Português costuma acolher com generosa hospitalidade. Para estes artigos têm-me servido algumas fotografias minhas, escapadas à destruição de 1917 mas cuja provisão se encontra esgotada ou perto disso, e daqui por diante aproveitarei as que me forem amavelmente cedidas pela Ex.ma viúva de um outrora amigo meu, leal companheiro de trabalho e caçador infatigável, Leal Peixoto. Continuarão estes artigos a ser simples registos de reminiscências, sem a menor pretensão de ensinar ninguém. Como poderei eu ensinar os novatos a caçar, se os métodos usados no meu tempo devem ter sido abandonados há muitos anos? Hoje persegue-se a caça em automóvel,


meio em condução realmente admirável e cómodo extremo, mas… suponho que deve ser pouco prático para estudar, reconhecer e seguir a pista dum animal ou de um bando… Como creio já ter dito, conheço uns 16 antílopes que tantos são os que vivem na Gorongoza e, segundo penso, no resto da Província. Há sem dúvida muitos outros de que tenho conhecimento pelos livros da especialidade, mas desses não conto ocupar-me. Os antílopes constituem uma numerosa família, de ruminantes cavicórneos dividida em sete subfamílias, caracterizadas cada uma delas por aspetos, grandezas e costumes que muitas vezes diferem tão completamente entre si, que se chega a ser tentado a considerá-las de famílias distintas. Comecemos pela subfamília dos hipotraginos, composta de dois géneros, um dos quais, o género Oryx, não existe em Moçambique, parecendo porém que se vê na parte sul da Província de Angola. O outro género, Hippotragus, é representado por duas espécies, h.niger e h.equinus, a que os ingleses chamam respetivamente de sable e roan-antilope, e os indígenas da Gorongoza indistintamente mpalapala. Infelizmente nenhum dos antílopes, tão numerosos naquela nossa Província ultramarina, são conhecidos por nomes portuguese, havendo apenas o recurso de usar os nomes cafriais ou os ingleses, que aliás não são muitas vezes mais do que adaptações dos nomes boers ou zulus. Não seria talvez difícil estabelecer para muitos, se não para todos os antílopes, denominações portuguesas ou aportuguesadas; mas seria com certeza menos fácil impor o seu uso, e conseguir que este se generalizasse. Assim, para os dois animais que estamos tratando, os nomes de antílope negro e antílope cavalino não deixaria, de ter propriedade. A propósito lembra-me um episódio burocrático que me pôs um dia em embaraço. Estava eu em Mussorize (1921 ou 22) quando as autoridades da Rodésia pediram ao Governo da Companhia de Moçambique que proibisse a caça ao elefante e ao sable numa certa área ao longo da fronteira. O Governo da Companhia resolveu aceder ao pedido e mandou lavrar a Ordem respetiva no seu Boletim, sem consultar qualquer pessoa autorizada, e limitando-se o amanuense encarregado da sua redação a recorrer ao primeiro dicionário inglês-Português que se lhe deparou, para traduzir a palavra sable. O dicionário consultado indicou o termo marta, e dai a dias vi com espanto que era expressamente proibido caçar em Mussorize, dentro do trópico de Capricórnio, um animal que só existe nas regiões boriais. Mas o pior foi que não tardou que uma senhora rodesiana, deputada, creio eu, ao Parlamento da União, me escrevesse a preguntar se realmente naquela parte de África havia aquele animal de tão preciosa pelagem… Não me recordo como descalcei a bota, nem isso interessa. Ora este fiasco ter-se-ia evitado se se consultasse alguns dos numerosos caçadores que havia no território, dando-se a circunstância de estar na região interessada um dos mais conhecidos, e – revele-seme a imodéstia – dos não menos conhecedores. Provavelmente o dicionário consultado foi um dos publicados por alguma casa de edições baratas; pois se se tivesse recorrido a um bom dicionário, como o do Padre Júlio Albino Ferreira, ter-se-ia visto que sable é também adjetivo, e que neste caso significa justamente negro… Os hipotraginos são grandes e belos antílopes, caracterizados pela presença de cornos nos dois sexos, pela ausência de glândulas orbitárias, e por ser relativamente pequeno o espaço glabro no focinho.


O antílope negro é dos mais formosos animais que povoam as florestas africanas, preferindo as menos densas, com vastas clareiras onde possam encontrar em abundância as ervas que constituem a sua alimentação predileta. Com exceção dos velhos machos que se encontram muitas vezes isolados, anda geralmente em bandos mais ou menos numerosos, e sempre em sítios não muito distantes da água. É notável pela sua coragem, auxiliada pelas poderosas e longas armas com que a Natureza o dotou. Ferido e caído por terra, defende-se de qualquer inimigo que tente aproximar-se com rápidos golpes dos seus longos cornos. Da sua beleza e porte nenhuma descrição poderia dar melhor ideia do que a excelente fotografia junta, que devo à amabilidade do meu amigo Miguel Dias Pessoa de Amorim, meu patrício, meu colega na Companhia de Moçambique, hábil fotógrafo, e também intrépido caçador. É do mesmo autor a não menos excelente fotografia que representa o antílope cavalino, que se distingue bem do seu parente negro, não só pela cor mais clara, como pelos cornos mais curtos, maior corpulência, e grandes orelhas felpudas. Os bubalinos são também grandes antílopes, de altas espáduas e quartos traseiros descaídos, com cornos nos dois sexos, pequenas glândulas orbitárias, e longa e bem fornida cauda. Compreendem três géneros, os verdadeiros budalis, os damaliscus e os connochaetes, sendo os segundos pouco abundantes na Gorongoza, os primeiros bastante mais, e os terceiros abundantíssimos nas planícies da Gorongoza e Cheringona. Os bubalis que os ingleses chamam de hartebeest e os indígenas da Gorongoza gondonga, são animais facilmente reconhecíveis pela forma caprichosa dos seus cornos, primeiro recurvados para dentro a cerca dum terço do seu comprimento, e a cerca de outro terço prolongados para trás, aproximadamente paralelos; pela longa face de aparência tristonha; e pela forma do seu galope, dando a impressão de que se levantam os quatro pés ao mesmo tempo. Conhecem-se oito espécies de bubalis, mas só uma B. lichtensteini, existe na província.


Na fotografia junta, tirada por Leal Peixoto, vê-se o quarto traseiro do animal com os nervos a descoberto, o que deve ter sido obra de algum carnívoro. Quanto ao género damaliscus, de que se conhecem cinco espécies, também só uma, d. albifrons, se encontra, e em pequeno número, na Gorongoza. Distingue-se à primeira vista da gondonga, com a qual aliás apresenta bastante semelhança na forma dos cornos que são em lira, sem as curvas características dos da gondonga. Não possuo nenhuma fotografia deste antílope. O género connochaetes, só com duas espécies, é representado apenas por uma, c. taurinus, em toda a África portuguesa e vizinhanças. Este conhecido antílope conhecido pelos ingleses pelo nome boer de wildbeest, e pelos indígenas da Gorongoza, Cheringoma e Sena por nhumbo, é o mais abundante de todos os antílopes, podendo contar-se aos milhares os que em certas épocas do ano se viam nas planícies da Gorongoza e Cheromgoma. No chamado tando do Súngüe, isto é na enorme região desértica entre o Púngüè e as terras altas da Gorongoza donde as águas desaparecem durante os meses de inverno, com exceção duma grande lagoa que o rio Súngüe conserva, viam-se ainda há poucos anos grandes manadas de gnus (como também se lhes chama), em boa camaradagem com bandos um tanto menos numerosos de zebras, e alguns antílopes do género cobus. O gnú é um grande e grotesco animal com cabeça e cornos como bois, crina e cauda como os cavalos, pera como os bodes, e membros como os dos antílopes. É risível também na forma de correr, quando perturbado pela aproximação de qualquer perigo; depois de galopar algum tempo, dá geralmente uma volta sobre si mesmo e para, para logo recomeçar o seu galope deselegante e intermitente. Alguns escritores atribuem-lhe combatividade em determinadas circunstâncias, e contam mesmo episódios de experiência própria ou alheia. Por mim, apesar de me ter encontrado inúmeras vezes pero de gnus feridos, nunca lhes vi manifestar a menor veleidade de me agredir. O rabo do gnú é muito apreciado; privado da parte óssea e cosida a pele em volta de um pedaço de pau, serve de enxota-moscas e também de hissope (chamemos-lhe assim) em certas cerimónias gentílicas. Os antilopinos são dos mais belos e graciosos animais que se podem ver no mato africano. O nsuara, como lhe chamam os indígenas da Gorongoza, ou impala, nome zulu que os ingleses adotaram, isto é o aepyceros melampus dos naturalistas, é um lindo antílope de porte médio com um comprido pescoço e longos cornos em forma de lira. A cor é castanho brilhante na parte superior tornando-se mais clara nos lados, e completamente branca no ventre. De cada lado da cauda tem uma estreita lista escura elipsoidal. Os cornos pertencem apenas aos machos. É um espetáculo interessante ver fugir um bando numeroso de nsuaras. Da massa confusa destacam-se com frequência indivíduos saltando muito alto, dando a impressão de que os saltos são verticais.


Pertence também a esta subfamília o género gazella, compostos de catorze espécies, nenhuma das quais existe na nossa África Oriental. Em Angola há uma espécie chamada cabra de leque, cujo nome tenho visto em livros ingleses escrito em português. Dos cefalofinos conhecem-se nada menos de trinta e oito espécies; mas como diz StevensonHamilton, vivendo estes animais em densos bosques, não é impossível que outras espécies existam ainda desconhecidas dos caçadores e naturalistas. Duas conheço eu que vivem na Gorongoza: – o cephalophus natalensis e o c. monticola. Ambos têm um tufo de pelos no alto da testa, no meio dos agudos corninhos no macho, pois a fêmea não tem armas. O primeiro representado na fotografia junta de Leal Peixoto, é um pequeno e gracioso animal que aceita facilmente a domesticidade quando apanhado novo bastante. O segundo é o mais pequeno dos antílopes, pouco excedendo o tamanho de uma lebre.

Em novo artigo tratarei do resto dos antílopes. E depois de vários outros animais de interesse cinegético, se a benevolência da Revista ou a dos leitores se não se cansar. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 8, Ano 8º (1941), pp. 7-13]


10 Para completar a descrição dos antílopes que vivem na Província de Moçambique, e dos quais tenho conhecimento direto, resta-me tratar das três sub famílias Tragelafinos, Neotraginos e Cervicaprinos. A primeira contém três géneros: – Taurotragus (com uma única espécie- T.oryx); Tragelaphus (com duas espécies existentes na Província – T. scriptus e T. angasi), e Strepsiceros (com uma única espécie nas mesmas condições – S. strepsiceros). O Taurotragus oryx é o maior de todos os antílopes, chegando a medir, quando velho, a altura de quase 2 metros na agulha. É também o mais inofensivo de todos, sendo de lamentar que, em vez da destruição que os caçadores lhe infligem desapiedadamente, não se tenha tentado a sua domesticação. O major Hamilton, que sendo diretor muitos anos da Reserva de caça do Governo do Transvaal, tem incontestável autoridade para falar do assunto, diz que este antílope, igual em tamanho e em peso, e naturalmente em força, ao boi, lhe é consideravelmente superior em inteligência. É facilmente domesticável, mesmo quando já adulto, e a fêmea produz grande quantidade de leite. Outra qualidade bastante de apreciar em África: é muito resistente à sede. Vê-se pois o partido que se poderia tirar de animal tão bem dotado. O nome porque é conhecido pelos indígenas da Gorongoza é tuca e chêfo, e pelos ingleses eland. Este antílope, ainda bastante abundante na Gorongoza e noutras regiões da Província, vive habitualmente em manadas mais ou menos numerosos, preferindo florestas pouco densas. Os dois sexos são armados de chifres, sendo os da fêmea mais finos e mais direitos. Os chifres apresentam uma forma característica, bem visível na gravura, dispensando por isso descrição. Outra excelente qualidade que recomendaria a domesticação e utilização deste animal, está na sua resistência às epizootias que às vezes dizimam as reses bravias africanas, como foi a peste bovina (rinder-pest) de 1896, da qual esta espécie saiu indemne. Dizem-na também refratária à tripanossomíase, como aliás sucede a vários outros géneros de caça grossa, o búfalo por exemplo. O género Tragelaphus tem na Província dois representantes. O primeiro – T. scriptus – que os indígenas chamam bauara e os ingleses bushbuck, é muito abundante em toda a Província. O macho, único que tem cornos, pode fazer uso perigoso de suas armas, pois é, apesar da sua relativa pequenez, extremamente combativo e resoluto. Vive habitualmente só, ou quando muito, aos pares, e os seus hábitos são principalmente noturnos. Quando alarmado, ou nas épocas de cio, solta por vezes uma espécie de latido, que ouvidos inexperientes podem tomar pelo dum cão. Uma noite que eu trabalhava no escritório da Companhia da Gorongoza de que era então diretor, ouvi um barulho que atribuí a luta entre dois animais armados de cornos, pois de entre o tropel de patas distinguia-se bem o choque repetido das armas. Saindo à rua e nada vendo, pois a noite era escura, disparei um tiro na direção aproximada dos lutadores, seguindo-se ao estampido um grande silêncio. Na manhã seguinte uma cadela que eu tinha começou


correndo repetidas vezes da caserna aos cipais para o lado do escritório, e deste para a caserna, até que estes, estranhando a insistência, foram encontrar a poucos passos da porta do escritório, o cadáver dum grande macho bauara. A outra espécie do mesmo género – T. angasi – é bastante mais raro, a ponto de ter passado por certo durante muito tempo que não existia ao norte do rio Save. O próprio R. Maugham, que foi cônsul de Inglaterra em vários pontos da Província, grande viajante e caçador, se fez eco desta falsa informação num dos livros que escreveu sobre a Zambézia e Território de Manica e Sofala. O buinde, como lhe chamavam os indígenas da Gorongoza, ou inyala, como dizem os ingleses, é por assim dizer um bauara um pouco maior, mais belo e mais aparatoso. Distingue-se facilmente do seu congénere, por essa aparência mais distinta, para assim digamos, pela ponta dos cornos mais clara, e pela longa crina nas costas e na garganta. Refiro-me, é claro, ao macho, pois a fêmea não tem cornos nem crina, e é bastante mais pequena. À mesma sub-familia pertence o género Strepsiceros, do qual uma só espécie – S. strepsiceroshabita a Província. O kudu, nome inglês do antílope que os indígenas da Gorongoza chamam de g’ôma, só é inferior ao tuca no tamanho, mas é superior a todos os antílopes, e até a muitos outros animais em beleza e em imponência. Diz Hamilton que o «senhoril g’ôma, com o seu corpo maciço, lindamente estriado a branco, a sua altiva cabeça, e os seus gloriosos cornos em espiral, deve parecer o apogeu dos esforços da natureza para atingir a perfeição tipo.»


A espécie é muito rara na Gorongoza, onde nunca encontrei um único exemplar. Os poucos que vi e o único que matei foi no Güengüe, na margem esquerda do Zambeze. Os cornos do g’ôma, muito apreciados como troféu, são aproveitados pelos indígenas para, praticado um orifício perto da parte maciça da ponta, servirem de trompa. O som emitido é audível a grande distância, e as diversas modulações que conseguem dar-lhe os peritos têm significações que eles lá entendem. Os Neotraginos incluem numerosas espécies de pequenos antílopes, com carateres variadíssimos. A única espécie de que posso falar é o Neotragus livinstonianus, de que aliás só vi um exemplar, já morto, na mão dum indígena. É difícil ver estes animaizinhos, tão pequenos e tão tímidos eles são. Ao menor sinal de aproximação de perigo, somem-se rapidamente e fogem, não correndo e saltando como os outros animais, mas insinuando-se por baixo da densa vegetação que é o seu habitat preferido. É este realmente o mais pequeno de todos os antílopes, e não o Cephalophus montícola como erradamente se disse em artigo anterior. Para dar ideia da pequenez deste animal bastará dizer que os seus membros não excedem, na sua parte inferior, a grossura dum lápis vulgar… Passemos à última das sete subfamílias – os Cervicaprinos. O género Cobus tem umas sete espécies, mas só uma – C. ellipsiprymnus – nos interessa, por ser a única que habita na Província. É um grande e bonito antílope, muito abundante por toda a parte desde que a água não seja muito distante, donde lhe proveio o nome inglês de Waterbuck, que bem se poderia traduzir por antílope aquático, se nos resolvêssemos a dar nomes portugueses pelo menos aos antílopes mais vulgares e mais conhecidos. Os indígenas da Gorongoza chamam-lhe nhacôbze, sendo mais para o sul conhecido por piva. Vive ordinariamente em bandos mais ou menos numerosos, formados por um macho adulto, várias fêmeas, e indivíduos jovens de ambos os sexos em número variável. Extremamente sociável, associa-se frequentemente com bandos doutros géneros e famílias, sendo vulgar encontrá-los nos tandos da Gorongoza e Cheringoma com numerosas manadas de gnús e de zebras. As fêmeas não têm cornos, e isso, ao mesmo tempo que a cor pardacenta do pelo e o comprimento das orelhas, deu provavelmente origem a chamaram-lhe por vezes burros do mato. A proximidade de um bando de nhacôbzes descobre-se facilmente pelo cheiro intenso e não desagradável que exalam.

O género Cervicapra tem algumas semelhanças com o género Cobus, mas compõe-se de animais bastante mais pequenos, com diferenças características bem visíveis. O nhacôbze tem nos quartos traseiros uma marca elítica de pelos brancos, que falta no cervicapra; enquanto neste há manchas glandulares e glabras de cada lado da cabeça abaixo das orelhas, o que falta no nhacôbze. Há mais que uma espécie de Cervicapra, mas só uma – C. arundinum – nos interessa. É um elegante animal de médio porte que se encontra quase sempre perto dos rios e lagoas permanentes, de preferência onde haja canaviais, o que lhe valeu o seu nome específico. O seu sinal de alarme quando assustado é um silvo agudo e característico. Chamam-lhe os ingleses reedbuck e os nativos sengo.


Passámos em rápida revista a numerosa família de antílopes, que é o principal e mais usual género de caça que se persegue em África. Mas o caçador africano a que não falte vocação, tempo e meios para se dedicar a esse empolgante e apaixonante desporto, tem muito mais com que se entreter. O capítulo a que eu penava dar o título de Vária, no livro que projetava, conteria a descrição, documentada com fotografias (que já não existem ou não se sabe onde param), de numerosos animais caçáveis, desde a zebra às diversas aves passando pelos porcos-bravos, etc., etc. Valerá a pena recordar nestas páginas uma tal variedade de animais? [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 8, Ano 8º (1941), pp.233-236]


11 Para satisfação dos leitores que se considerarem saturados do assunto, declaro que será este o último dos meus artigos sobre caça. Mas julgo-me na obrigação de os não poupar a este último, por dever justificar a minha afirmação de que um dos principais encantos da caça de África depois da sensação permanente de perigo que para os espíritos aventurosos sobreleva a todos, é a variedade. Bem disse um escritor e caçador inglês (Maugham) que nunca um viajante na selva africana pode supor que surpresa lhe reserva o mato onde vai entrar. Já em artigos anteriores falei do elefante, no rinoceronte, em várias feras, no búfalo, e finalmente nos antílopes; isto é, descrevi ou apenas enumerei mais de 20 espécies dignas de atenção e da carabina dum caçador. Mas outras tantas pelo menos ficaram por mencionar, e são algumas dessas que vão fazer o assunto do presente artigo. Não falarei, senão pró memória, da girafa, não só porque não existe na Gorongoza nem nas outras regiões situadas entre o Zambeze e o Púngüè, mas porque, como já disse, só vi girafas em parques zoológicos, e é sempre perigoso falar de coisas que se não conhecem. Lembro-me que, há mais de 40 anos, sendo assinante duma monumental História Natural, editada por uma casa do Porto, e dirigida pelo conhecido cientista Dr. Júlio de Matos, li com espanto no capítulo dedicado aos primatas, que era frequente nas carreiras de vapores para a Índia, serem empregados orangotangos como criados de bordo. No fascículo seguinte o Dr. Júlio de Matos penitenciava-se do seu erro, e justificava-o com informações obtidas em fonte que considerava fidedigna… Em 1922, sendo então chefe da Circunscrição do Mossurize, fui ao posto de Massangena, na margem direita do rio Save, e projetava estender a visita a Chicualacuala, na margem esquerda do Limpopo, onde havia outro posto também sob a minha jurisdição. O meu fim era principalmente procurar girafas, que eu sabia existirem, sem aliás abundarem, nas planícies entre os dois rios. Não me lembro, nem isso interessa, do que impediu a realização desse projeto. O que sei é que perdi a única oportunidade que tive de travar conhecimento com esses curiosos animais. Hipopótamos há muitos na Gorongoza, mas vivem quase sempre em lagoas de difícil acesso, de sorte que em 17 anos apenas ali matei um que era o flagelo das povoações vizinhas cujas plantações destruía. Um dia que por ali passei, aproveitei o resultado de queimadas recentes, que tornaram mais acessível o largo e fundo charco onde o bicho se acoitava, e matei-o com grande alegria e proveito daquela gente. No Zambeze matei bastantes, principalmente enquanto chefe de Tambara.


Hipopótamo morto na Gorongoza 1916

Não sou apologista da destruição do hipopótamo, que raramente é perigoso; mas eu tinha um casal de leões, e sustentá-los somente a cabras e galinhas saía realmente dispendioso de mais. Mencionarei também a zebra, embora o interessante e inofensivo animal devesse ser poupado pelos caçadores; mas… a carne é tão apreciada pelos pretos, que não há remédio senão satisfazer-lhes de vez em quando o apetite. Vêm a seguir dois porcos: – o patamocheros cheropotamos, terrível destruidor de plantações, difícil de caçar por ter hábitos exclusivamente noturnos. Atacado de perto defende-se com energia. A carne não é para desprezar, se o individuo é jovem. E o hediondo phacocherus ethiopicus, que se sustenta principalmente de raízes. Passando às aves, longa lista se nos depara. Só em aves mais ou menos parecidas com a nossa perdiz, menciona o major Horsebrugh 15 espécies de francolins, não podendo eu afirmar que todas essas espécies existam no nosso território. De codornizes menciona e descreve o mesmo autor seis espécies, das quais posso dizer o mesmo que a respeito dos francolins. De pintadas, mais geralmente conhecidas por galinhas da Índia, conheço duas espécies bem distintas, embora a primeira espécie se considere ainda subdividida em duas outras. São a numida mitrata e a n. eduardi, que diferem entre si principalmente porque a primeira tem a cabeça coberta por uma sorte da capacete vermelho, e tem barbilhões com as pontas vermelhas e a segunda tem uma espécie de cabeleira de penas, e não tem barbilhões. A primeira é muito abundante, e vive em grandes bandos. Carne bastante apreciada. Conheço três espécies de rolas, e uma de pombos: - o pombo verde (vinago delalandi). Temos ainda nas proximidades dos rios e delicioso maçarico de longo bico ligeiramente recurvado.


E não devo esquecer o chamado peru do mato, que julgo ser um dos vários avejões Knorhaan, como lhe chamam os boers. São aves de voo pesado e de carne que já tenho ouvido classificar como a melhor de todas as carnes conhecidas… Passando aos répteis que aliás ninguém vai propositadamente caçar, mas a que ninguém deixa de atirar quando os tem à vista e ao alcance da sua arma, mencionarei os crocodilos, tão abundantes em quase todos os rios e lagoas de África. Atira-se-lhes, não só pelo prazer de destruir um animal antipático e perigoso, mas também para dar satisfação aos carregadores pretos que em geral lhes apreciam muito a carne. É curioso que há indígenas que a não comem, e chamam depreciativamente aos outros comedores de crocodilo. Mais curioso ainda é que os apreciadores de carne de crocodilo não o comem, se, ao abrir o animal, lhe encontram no estômago manilhas de latão – sinal de que comeu gente. Um dia, descendo o Zambeze, matei um grande crocodilo. Tendo-se reconhecido que não cabia todo dentro do escaler em que eu ia, mandei-lhe cortar o rabo, deixando bem à vista na praia o resto do corpo para que os outros os que tripulavam a almadia que trazia a bagagem o vissem, e segui para Chiramba onde pernoitamos e onde o rabo de crocodilo fez as delícias do jantar dos remadores e dos outros pretos que me acompanhavam. No dia seguinte de manhã chegou a almadia sem o crocodilo, não porque o não tivessem visto, mas porque tinha o estômago cheio de manilhas de latão. Não dei entretanto por que os na véspera se tinham banqueteado com a carne do mesmo animal tivessem ficado muito incomodados com o caso…

Varanus niloticus

Parentes mais ou menos próximos do crocodilo há dois répteis inofensivos mas curiosos, espécie de iguanas do género varanus, um aquático (v.niloticus) outro terrestre (albigularis) sendo o primeiro bastante mais corpulento, podendo atingir o comprimento de quase dois metros, enquanto o segundo raramente excede um metro. A pele destes animais parece revestida de missangas policromas. A carne é muito apreciada pelos indígenas, como aliás todas as carnes… Creio que não devo deixar de mencionar também os macacos, animais daninhos, de que conheço dois géneros – cercopithecus e papio. – Do primeiro há na província duas espécies – o c. moçambicensis, muito abundante e o c. albigularis, mais raro. Este último tem pelo abundante muito apreciado. Do género papio, que vive geralmente em grandes grupos, há


duas espécies pouco diferentes entre sí – o p. porcarius e o p. cynocephalus, notáveis pela fealdade e pela inteligência. E ainda mencionarei um falso macaco (lémur) de hábitos notívagos, e de pelagem espessa. Terminarei a longa lista de peças de caça com a indicação do rato gigante (thyonomys swinderianus) que, não sendo procurado por caçadores europeus, é muito perseguido pelos indígenas que o caçam à azagaiada com auxílio de cães adestrados, nas margens dos ribeiros que frequentam. É um grande roedor, bastante feio de aspeto, que se alimenta exclusivamente de raízes. Esta circunstância, que devia isentar a carne deste animal de qualquer repugnância, não consegue vencer a repulsa que os delicados estômagos europeus sentem por tão feio bicho. À força de ouvir gabar os pretos a excelência dessa carne, resolvi um dia prová-la, e assim fiz. Mandei assar um bocado e guisar outro bocado. Quando o primeiro prato veio à mesa, serviu-se minha mulher e servi-me eu, mas hesitamos um bom pedaço antes de encetar o pitéu. Não sei qual de nós teve mais coragem, enquanto o outro espreitava disfarçadamente o efeito; mas quando o menos animoso viu a cara radiante do seu comensal, e viu a pressa com que repetiu o bocado, logo acompanhou na degustação do acepipe, que é realmente ótimo. E aqui termino a série das minhas reminiscências de caçador reformado. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 8, Ano 8º (1941), pp.401-404]


12 O meu velho amigo e antigo colega na Companhia de Moçambique, Filipe Gastão de Moura Coutinho de Almeida de Eça – grande nome, na estatura e no talento – publicou recentemente um volume interessantíssimo intitulado «Mosaico Moçambicano» (Contos e Narrativas). Nas suas escassas 200 páginas, como para justificar o título, trata de grande variedade de assuntos, desde simples contos de imaginação até descrições de episódios realmente acontecidos (alguns já pertencentes à História, como o desastre da lancha-canhoeira «Tete» e a revolta do Báruè em 1917); tudo em linguagem fluente e elegante, pateteando excelentes dotes de observação, e até, quando o assunto a isso presta, com graça. Para mim, e para todos quantos vivemos naquelas paragens, o livro de Moura Coutinho, além de nos causar vivo prazer espiritual, vem-nos despertar saudosas recordações. A referência amável que nele se lê ao meu nome não influi de modo nenhum nesta minha apreciação, assim como me não impede de notar quaisquer pontos de desacordo. Assim, não posso deixar passar em julgado o erro cometido pelo autor quando chama espécie de onagro a um certo antílope (cobus ellipsiprymnus). Onagro, como todos sabem, é um parente selvagem do nosso bem conhecido burro. Ora a confusão de um equídeo com um ruminante não é perdoável a um homem culto como é incontestavelmente Moura Coutinho. É certo que a vários velhos colonos ouvi muitas vezes chamar a esses antílopes burros do mato. Também é certo que, vistas de longe, as fêmeas podem aparentar certa semelhança com aqueles animais; mas os machos, com o seu porte altivo e sobretudo com a presença de grandes e belos corpos, não têm parecença nenhuma com os humildes e modestos jericos. No capítulo intitulado «As origens e o início da revolta do Báruè em 1917», Moura Coutinho refuta de maneira irrespondível a acusação feita por «O Oriente Africano» à Companhia de Moçambique e aos seis empregados de serem culpados da revolta. Esse capítulo é deveras interessante pela narração de episódios, no maior número dos quais o autor tomou parte. Noutro capítulo «Singular episódio de uma rebelião» conta o que se deu com um empregado do Estado de nome Maldonado que, tendo sido preso pelos revoltosos, e esperando a todo o momento que o decapitassem, foi conduzido pelos mesmos, com todas as atenções e comodidades até ao limite do distrito de Tete, onde o aguardavam machileiros enviados da vila, a chamado dos próprios rebeldes! Esse capítulo termina com as seguintes interrogações e respetiva resposta interjetiva: «Rebelião contra a Soberania? Rebelião de descontentamento? Nunca!!!...» É pois opinião do autor que a revolta do Báruè não foi contra a nossa soberania? Nem foi causada por descontentamento? Que foi então? Tanto quanto posso lembrar-me do que então se passou, o que nesse tempo contava era que o Macombe tinha intenção de repelir os brancos até ao litoral e ali os aguardar até que os visse embarcar. Isso mesmo berravam, dia e noite, os rebeldes, durante os 21 dias que nos tiveram cercados em Vila Paiva de Andrada (Gorongoza) enquanto esperávamos a coluna de socorro


que se eternizava na margem direita do Púngüè. Não creio que, depois de nos expulsarem da Providência, os revoltosos tencionassem respeitar a nossa soberania… Quanto a descontentamento havia-o na verdade, e acho mesmo inconcebível que não existisse, embora não coubessem as verdadeiras culpas à Companhia ou aos seus funcionários. Pouco antes de a revolta explodir, o governador-geral da Província, Álvaro de Castro, requisitou à Companhia de Moçambique 1 000 homens que deviam seguir para o Norte. E pouco depois da satisfeita essa requisição, foram requisitados mais 1 000 carregadores para o mesmo destino. Não sei quantos homens foram pedidos ao Báruè e outros pontos do distrito de Tete. Sei que o recrutamento desses homens, e sobretudo os da segunda requisição; não pôde ser feita sem alguma violência. Quem conhece o meio não pode estranhar este procedimento inevitável, nem poderá conceber que tudo isto não causasse descontentamento. Não afirmo que esse descontentamento, no território da Companhia e no distrito de Tete, fosse a causa única, nem sequer a principal, da rebelião; mas foi sem dúvida um poderoso auxiliar para a propaganda do Macombe, que a aproveitou habilmente, bem como a circunstância de todos saberem qua a maior parte das nossas forças se encontrava no Norte combatendo os alemães. Parece-me a propósito abrir um parêntese para dizer que, para debelar aquela revolta, saíram da Beira e de Lourenço Marques várias colunas com destino à Zambézia, Gorongoza, Chimoio e Manica. Lembro-me de que o primeiro comandante da coluna da Zambézia foi o tenente de infantaria Sebastião da Nóbrega Pinto Pizarro (hoje coronel reformado e residente em VilaReal de Trás-os-Montes) e de que mais tarde, já então capitão, foi secretário de Chimoio, circunscrição de que eu então era chefe; de que o comandante da primeira coluna da Gorongoza foi o capitão Africano da Silva, e o da segunda o major de artilharia de fragata, hoje almirante da reserva, Alfredo Pedreira Caçador; e o da de Manica, o capitão, também já falecido, António de Serpa. No livro do tenente-coronel Belo de Almeida, editado pela Sociedade de Geografia em 1937, «Meio século de lutas no Ultramar», apenas se menciona a coluna de Chimoio e a de Tete, comandada esta por meu irmão Rafael de Bivar, civil como eu; mas essa não operou no território da Companhia. Das outras não se fala nesse livro, sem dúvida por falta de informações, que aliás podiam, e certamente podem obter-se por quem pelo assunto se interesse, nos arquivos da Companhia de Moçambique, ou em Lourenço Marques na Repartição competente, onde devem existir relatórios dos respetivos comandantes. Fechado o parêntese, resta-me felicitar vivamente o meu amigo e colega Moura Coutinho pelo seu belo livro, do qual pode bem dizer-se, como disse, em «Ocidente», Carlos Parreira a respeito do livro de outro colonial (Grito da selva, de Norberto Gonzaga): «Quase todas as suas páginas sabem, realmente, a África.» [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 10, Ano 10º (1943), pp.823-826]


13 A acompanhar algumas excelentes fotografias representando vários aspetos da cerimónia de consagração dos Heróis de África, realizada por iniciativa do Sr. Ministro das Colónias, e com admirável organização da Agência Geral das Colónias, em 28 de maio deste ano, publicou O Mundo Português, num dos seus últimos números, um brilhante artigo sobre aquela grandiosa cerimónia. Se, a respeito da mesma, venho pedir hospitalidade a esta acolhedora revista, não é que tenha a acrescentar ou opor qualquer coisa àquele belo artigo. É apenas para tentar desfazer qualquer equívoco que possa ter surgido a respeito da minha modesta e apagada pessoa. Como é sabido, em vista da impossibilidade de Sua Ex.a o Sr. Presidente da República impor a medalha comemorativa daquela homenagem a cada um dos homenageados presentes, resolveu-se que essa medalha fosse por Sua Exa entregue simbolicamente a um almirante e a um marinheiro, a um general e um soldado, e a um civil. Coube-me a mim a honra de representar a nossa reduzida classe, talvez por ser o mais velho, ou ainda por ser o mais antigo como colonial. Sei que algumas pessoas, vendo-me, desconhecido da maioria senão da totalidade da assistência, receber a medalha e o abraço do Sr. Presidente, pensaram que seria eu o único possuidor da Torre-e-Espada; outros pensariam que eu era o mais digno daquela suprema distinção. Uns e outros estão em erro. Não sou o único, nem sobretudo o mais digno. Eu não sei quantos civis existem hoje com direito a usar as honrosas insígnias. Conheço porém, mais dois, ambos os quais assistiram à cerimónia, e ambos podem ostentar mais títulos do que eu à admiração e reconhecimento da Nação. Um é o meu querido amigo José de Magalhães e Meneses, Barão de Vilalva, meu companheiro de guerra e de caçadas, cujo nome é bem conhecido em toda a Província de Moçambique como homem destemido e de inquebrável energia, tão bravo no meio dos perigos do sertão como distinto à mesa de uma secretária, manejando com igual galhardia a carabina do aventureiro e a pena do escritor, pois foi notável como administrador, guerrilheiro, caçador, poeta e jornalista. É também colaborador apreciado de «O Mundo Português». Estivemos juntos na Campanha da Maganja da Costa em 1898, e na revolta do Báruè em 1917. Nunca nessas campanhas eu pratiquei quaisquer feitos que me distinguissem dos companheiros, nem mesmo ao jogo do xadrez, de que em Maganja jogávamos intermináveis partidas, num tabuleiro riscado nas costas de um calendário de parede, e cujas peças eram pedaços de tampas de caixas de fósforos, com as indicações de rei, rainha, bispos, cavalos, torres, com exceção dos piões, que não tinham marca. Não sei se o famoso Alekine, perante peças tão iguais na forma como na chateza, combinaria, melhor do que nós fazíamos, os seus lances geniais… Quando havia mais parceiros, o João Robi, o bravo tenente Pimentel, também já falecido, o não menos bravo José Augusto da Cunha, que mais tarde tanto se havia de distinguir ao lado de Neutel em Moçambique, jogava-se então, às escondidas do comandante, o clássico monte, com cartas feitas de pequenos retângulos de papel almaço, onde a minha


apreciável caligrafia escrevera rei de copas, valete de ouros, etc. Tanto num como noutro jogo a minha inferioridade foi sempre evidente… O outro civil é o antigo oficial do Exército, brilhante e distinto oficial por sinal, que despiu a farda por motivos políticos em 1911, Júlio da Costa Pinto, agraciado com a Torre-e-Espada aos 22 anos, e que foi em Angola um autêntico herói, cujos feitos foram recentemente lembrados por Joaquim Leitão em dois artigos magistrais no «Jornal de Notícias» do Porto, dos dias 27 de junho e 4 de julho deste mesmo ano. Com este nosso confrade dá-se a circunstância que o meu bairrismo não quer deixar claro. É que Júlio da Costa Pinto é natural de Torres Novas, como eu, e como o meu irmão Rafael de Bivar, que era não só cavaleiro mas também oficial da Torre-e-Espada. Poucas terras haverá como a nossa, que possa orgulhar-se de ter tido tantos filhos laureados. O meu bairrismo não me consente também que passe em silêncio a circunstância de a Câmara Municipal da minha terra me ter acompanhado a Lisboa no dia da consagração oficial, associando-se assim à mesma, e enchendo-me o coração de reconhecimento. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 10, Ano 10º (1943), pp.857-859]


14 Não é de hoje nem de ontem que estrénuos defensores da pureza da linguagem se têm batido denodadamente pela sua dama. Na sua obra Paladinos da Linguagem dá-nos o Sr. Dr. Agostinho de Campos um rol de dezenas desses defensores, à cabeça do qual aparece D. Duarte, Rei de Portugal, logo seguido por Fernão de Oliveira, autor da mais antiga gramática portuguesa. Ultimamente a campanha tem-se intensificado, havendo um grupo de filólogos que redigem uma revista exclusivamente dedicada a esse assunto. Eu próprio, embora sem autoridade nem preparação, e sem que o assunto fizesse parte das minhas preocupações habituais, enfileirei acidentalmente na corte dos paladinos. Foi há uns trinta anos quando, visitando a região de Chimoio, no território de Manica e Sofala, ali encontrei vários portugueses que se dedicavam à agricultura, e chamavam farms às suas concessões e a si próprios se designavam por farmers. Verdade seja que os menos cultos desses operosos agricultores aportuguesavam os termos exóticos, pronunciando farmas e farmeiros. Escrevi então alguns artigos num jornal da Beira, insurgindo-me contra esse mau hábito, elemento inútil de desnacionalização, havendo tantas palavras portuguesas por onde escolher. Com humildade confesso que a minha pregação não teve o menor êxito, consolando-me a ideia de que não têm sido mais felizes os que continuam combatendo o bom combate.3 Solatio est miseris… Aos beneméritos filólogos que não desanimam perante a indiferença pública ofereço o seguinte episódio a que não falta pitoresco, e cuja autenticidade garanto. Aí por 1898 apareceu na Beira, como Secretário-Geral da Companhia de Moçambique, o então capitão do Estado Maior Tomás Garcia Rosado, que foi muito mais tarde comandante do C.E.P., e mais tarde ainda, nosso embaixador em Londres. Pouco tempo se demorou na Beira, sucedendo-lhe no cargo o major Eduardo Costa, um dos mais brilhantes cooperadores de Mousinho, o qual veio a morrer das consequências de uma intervenção cirúrgica quando era governador-geral de Angola. Garcia Rosado introduziu na linguagem burocrática da Secretaria-Geral o termo franciú «dossier», em substituição do vernáculo processo. Ed. Costa seguiu-lhe o exemplo, mau exemplo, e quando qualquer deles queria que se juntasse qualquer documento ao processo a que dizia respeito, despachava laconicamente dossier respetivo. Ora acontecia que o arquivista era o modesto amanuense Abreu, a quem se não tinham exigido, para sua nomeação, conhecimentos de língua francesa. Algum tempo depois houve a necessidade de certo papel, que não havia maneira de encontrar por mais que se procurasse. Até que depois de revolvidas todas as gavetas e escaninhos, o nosso Abreu teve um súbito lampejo e, depois de uma exclamação equivalente ao histórico eureka de Arquimedes, bradou: – Já sei: deve estar no dossier respetivo. E correndo ao 3

Esta minha fobia dos estrangeirismos vem de muito longe, desde que, aos 10 ou 11 anos, ouvi o padre João Ribeiro, meu professor de latim no liceu de Santarém, verberar o emprego, em documento quase oficial dizia ele, o horroroso galicismo constatar, que hoje se encontra frequentemente, assim como o não menos horroroso controlar e o horripilante feérico.


arquivo, de lá trouxe, triunfantemente, dois ou três cartões, em cujas lombadas se lia, em grossas letras: Dossier respetivo. Esses cartões estavam cheios da papelada que tinha recebido, durante dois anos ou mais, o fatídico despacho. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 10, Ano 10º (1943), pp.897-899]


15 A pátria honrai que a pátria vos contempla! Esta bela divisa que se vê gravada nas rodas dos lemes dos nossos navios de Guerra acudiu-me à memória quando há dias, no Museu Municipal Carlos Reis, em Torres Novas, contemplei mais uma vez a excelente fotografia, cuja redução ilustra este modesto artigo, a qual representa a velha canhoeira Rio Lima e as minúsculas lanchas Sabre e Carabina, em 1895, no porto da Beira. Esta fotografia foi oferecida ao mesmo Museu pelo Almirante Alfredo Pedreira Caçador, que foi, quando tenente, comandante de uma delas, a Carabina.

A canhoeira «Rio Lima» e as lanchas «Sabra» e «Carabina», porto da Beira, 1895

Estas duas autênticas cascas de noz, ou antes os seus heroicos comandantes, o já citado Almirante e o seu camarada Guilherme Ivens Ferraz, praticaram um dos feitos mais notáveis da nossa marinha de guerra, tão cheia de páginas gloriosas. Era em 1895. O justamente Comissário Régio António Ennes, que então preparava a campanha contra o famigerado Gungunhanha, lutava com sérias dificuldades para abastecer regularmente as duas colunas que já se encontravam no interior. Dispunha então apenas «da lancha Xefina, velha e arruinada, e de um quase escaler a vapor, o Bacamarte»4 Sabia, porém, que havia no Zambeze «dois barcos, de navegação fluvial, sim, mas providos de condensadores e capazes pelo seu porte de se aventurar nas águas do oceano. Consultei um oficial da Armada, muito esclarecido e brioso, que comandara a esquadrilha do Zambeze5, e como ele me informasse que o empreendimento, sendo arriscado, não era impraticável, havendo o cuidado de vigiar bem o tempo, dei traça para que logo se expedissem ordens a fim 4 5

António Ennes. A guerra de Africa em 1895. Memórias. 1898 O comandante Eugénio Andréa, ao que suponho.


de que os dois barquitos fossem postos em estado de desempenhar uma comissão importante de serviço»6. A Sabre e a Carabina, diz o almirante Caçador7 «eram absolutamente iguais, diferençando-se apenas pelos mastros que na Sabre eram dois, ao passo que na Carabina havia apenas um. O seu comprimento era de 22,86 m, a boca 3,65 m, e demandavam à popa 1,21 m. Estes pequenos navios foram construídos para a navegação no lago Nhassa, onde nunca puseram as quilhas; destinavam-se portanto as suas caldeiras a trabalhar em água doce e os condensadores que possuíam eram absolutamente teóricos, para português ver. Houve que construir gaiútas para as escotilhas das máquinas, reforçar as pontes de comando, fazer as bordas falsas em lona, âncoras de tempo, sacos para espargir azeite e mil pequenos nadas para apetrechar as lanchas-canhoeiras para a viagem no canal de Moçambique, contra a autorizadíssima opinião do Comandante Azevedo de Vasconcelos, marinheiro ilustre, prestigioso oficial da nossa Armada, a cuja saudosa memória presto aqui a mais respeitosa e sentida homenagem»8

Por minha vontade transcreveria aqui toda a interessantíssima descrição feita por um dos realizadores da arriscada travessia. Prefiro aconselhar aos meus leitores, se os há, a lerem o livro «No Mar» – episódios da vida de marinheiro, editado em 1935 pela «Liga Naval Portuguesa». Entretanto resumirei as fases principais dessa acidentada aventura. As lanchas saíram de Quelimane de manhã de 27 de abril, com bom tempo e mar chão. À tarde porém começou a levantar-se vento, tornando-se a vaga alterosa sobretudo depois do pôr do sol, perdendo-se as lanchas de vista uma à outra, pois todos os faróis se apagaram, ficando apenas acesas as pequenas lâmpadas das bitáculas. A Rio Lima, que saíra depois das lanchas, contando encontrá-las no caminho por ter maior andamento, nunca mais as viu, tendo o seu comandante sentido sérias apreensões sobre o destino dos pequenos barcos. Por fim as lanchas entraram no porto da Beira e ali fundearam, mas não se aguentaram nessa situação dez minutos, porque as amarras não resistiriam, tal a força da corrente e o mar; suspenderam e seguiram para o abrigo da ilha Utanha, a montante do porto. Quando o tempo amainou voltaram a fundear na Beira, para despejar as caldeiras, lavá-las e guarnecê-las de novo, pois o grau de saturação era tal que os salinómetros saltavam fora das tinas. A canhoeira só pôde entrar na noite seguinte, e um paquete inglês que tinha resolvido não sair, mal viu entrar os minúsculos barquinhos, achou vergonhoso deixar-se ficar e saiu do porto; mas retrocedeu porque o estado da barra não lhe permitiu ir além. O comandante da canhoeira ao entrar no porto viu apenas um farol vermelho que era o da ponte de desembarque, mas que ele julgou ser de uma das lanchas, supondo logo que só uma delas se tivesse salvado do naufrágio, sossegando apenas quando o capitão do porto lhe afiançou estarem ambas salvas e em local seguro.

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António Ennes, Ibidem Contra- almirante Alfredo Pedreira Caçador G. R., in No mar, 1898 8 Contra- almirante Alfredo Pedreira Caçador G. R., in No mar, 1898. 7


Da Beira para o arquipélago do Bazaruto a viagem correu sem incidentes, mas no fundeadouro da ilha de Santa Carolina houve grandes dificuldades para encher as caldeiras. Quase tão difícil e mais demorada foi a mesma faina em Inhambane, onde os navios estiveram sete dias sem descanso de um só momento. A viagem de Inhambane para Lourenço Marques durou sessenta horas e ali a saturação das caldeiras atingiu o máximo. Às 11 da noite avistou-se o farol da Inhaca quando o vento começava a soprar com certa intensidade. Nessa ocasião as lanchas perderam-se mais uma vez de vista; de madrugada a Sabre fundeou à sombra da ilha Xefina, e a Carabina, avistando o farol da Ponta Vermelha, demandou o porto com a guarnição prostrada por uma noite em que ninguém pregou olho. Outra vez o comandante da Rio Lima, ao avistar a Sabre sozinha, suspeitou que a sua gémea tivesse soçobrado. Diz o Almirante Caçador, cuja narração tenho resumido, que foi o valoroso e íntegro oficial Azeredo de Vasconcelos quem mais sofreu com esta aventurada viagem.»9 Esta última asserção é talvez inexata. Houve quem não sofresse menos que o comandante da Rio Lima com a ansiedade causada pelas demoras das lanchas. Vejamos o que diz António Ennes: «Chegaram (as lanchas), afinal, na manhã de 14 de maio. Que alívio! Quanto tempo eu esperei ansioso, observando o estado da atmosfera, consultando barómetros, fazendo cálculos mentais de velocidade, alongando as vistas pela baía fora, numa preocupação constante, mais angustiada por certo que a dos intemeratos comandantes! Se houvesse um sinistro, o responsável era eu, e só eu; pois não me tinham faltado avisos, não! Foi esta uma das muitas vezes que me sucedeu ter energia moral para, sem hesitações, dar ordens de perigoso cumprimento, e não a ter para encarar os seus resultados possíveis; dá-las com firmeza e ficar a tremer de medo. Dava-as o homem o dever; tremia o homem de coração. Mas se os barcos se perderem com as suas tripulações – preguntava eu – a que expiação poderei condenar-me que resgate a minha culpa, já não direi perante o mundo, que me não importarei com ele em tão doloroso lance, mas perante o meu próprio sentimento, lancinante e implacável? Ah! Os prazeres do mando e da autoridade! Saboreei-os tanto, que lhes tomei aversão! Para quem tem sensibilidade melindrosa, dispor de vidas, ter de arriscar e até de sacrificar vidas, é uma tortura que chega a assemelhar-se à do remorso. Mormente no princípio das operações militares, quando morria algum soldado, desconhecido que fosse, em combate, no seu ofício, parecia-me que o tinha assassinado. Nem por isso fraquejei, é certo; mas sofri, sofri, sofri! Acabei de envelhecer por dentro. A Sabre e a Carabina, nomeadamente, causaram-me pesadelos, visões. Não estou a fazer elegias; muitas vezes vi em sonhos a mãe de Ivens Ferraz a exprobar-me com lágrimas a morte do filho»10 E continua: «Aos cais da cidade acudiu a população a admirar a pequenez dos barcos e a aquilatar por ele a intrepidez das suas guarnições; oficiais de marinhas estrangeiras encareceram-me o feito; narraram-no os jornais do Transvaal e das colónias britânicas como um cometimento digno das heroicas tradições marítimas de Portugal, e eu senti-me pago das minhas tribulações com a ufania destes louvores tributados a portugueses».

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A. Pedreira Caçador, Ibidem António Ennes, Ibidem

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Fui pródigo em citações? É possível e não tinha essa intenção. Mas não resisti ao prazer de reproduzir aqui, para conhecimento de quem as ignorasse, e rememoração dos que as tivessem esquecido, tão belas páginas… Em comunicação feita à Sociedade de Geografia de Lisboa, em 3 de fevereiro do ano seguinte, o distinto oficial da Marinha e conhecido escritor Vicente de Almeida de Eça, começava assim a sua palestra: «São frequentes vezes arrojados à nossa costa, encontram-se em abundância por todo o Atlântico, e não raro se veem no mar das Índias, uns zoófilos de pequenas dimensões, que os naturalistas classificam como physalias. Distinguem-se eles dos seus congéneres por uma membrana polpuda, irisada, a qual sobressai à superfície do mar quando o animal navega, e que tem até certo ponto a aparência do casco de um navio antigo. É certo por isso que os nossos marítimos lhes chamam caravelas, os franceses frégates, e os ingleses Portuguese menof-war. Por muito tempo julguei eu que esta última denominação, ampliando as outras com o nome da nossa nacionalidade, e saindo dos orgulhosos lábios bretões, poderia ter um a intenção depreciativa dos navios da Marinha Portuguesa; mas, pensando melhor cheguei a concluir que ela não devia ser tomada senão como o reconhecimento da audácia dos portugueses em cometer o mar com barcos de bem exíguas dimensões».11 Toda a comunicação do ilustre conferencista é um hino vibrante em louvor dos comandantes das pequenas lanchas. Como os efeitos destes bravos marinheiros estão geralmente esquecidos pela nossa descuidada gente, e não me seria lícito copiar para aqui a brilhante conferência de Almeida Eça, asseguro ao leitor que se não arrependeria se a lesse na íntegra. Tudo esquece ao público passados mais de 50 anos de qualquer feito, por mais notável que ele seja. Por isso vim agora aqui tributar aos dois heróis, felizmente ainda vivos, a homenagem da minha admiração. Não é fácil, se possível, que autores de memórias se livrem da acusação de egotismo. É inevitável que, descrevendo acontecimentos em que foram quando menos testemunhas, esses autores tenham que falar de si mesmos. Neste capítulo das minhas memórias podia supor-se que nada de pessoal viesse enxertar-se nesta comemoração de um feito ilustre. Mas mais ainda desta vez não consigo libertar-me do fatídico egotismo. É que uma das lanchas (a Carabina) liga-se uma aventura pessoal das que dificilmente se esquecem. Foi o caso que em 1902, depois da campanha do Báruè, estávamos no Chinde, esperando transporte, eu e vários oficiais que tinham tomado parte naquela campanha. A demora eternizava-se, e a impaciência tornava-se quase insuportável. Nisto soube-se que a lancha tivera ordem para seguir para Quelimane, e, apesar do temporal que estava castigando o canal de Moçambique, e ameaçava prolongar-se, eu e outros pedimos para embarcar também. Obtida a licença do respetivo comandante, o tenente Henrique Correia da Silva (Paço de Arcos), mandei para o bordo da minha mala, e esperei, com certa esperança de que o tempo melhorasse. Todas as noites adormecíamos com essa esperança, mas durante a noite não cessava de soprar o vento com violência. Uma madrugada, quase certo de que a viagem se não começaria ainda, pois toda a noite sentira assobiar a ventania, ouvi bater à porta do meu quarto, e um marinheiro a chamar-me para ir imediatamente para bordo. Confesso que me arrependi bastante de ter 11

Almeida de Eça. In Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. – 15ª Série – nº 6 – 1896


mandado a mala para bordo. Assim não havia remédio, e tratei de me levantar, mas fui para bordo apenas por honra da firma, e fui como cão por corda, como se costuma dizer. Acompanhou-me à praia o tenente João Barbosa Casqueiro, que se despediu de mim como de quem não esperava tornar a ver, e ficou na praia vendo afastar a lancha até desaparecer. A viagem foi tormentosa; o vento, pela amura de estibordo, era sempre violento, e as vagas alterosas. Felizmente a máquina trabalhou sempre sem um desfalecimento, e ao ver a segurança com que o valente barquinho subia até à crista das vagas e descia depois ao fundo do abismo, começamos a ter confiança. Houve um momento porém em que confesso ter sentido um doloroso aperto no coração; foi quando ouvi o prumador bradar «uma braça escassa». Compreendeu-se que seria um encalhe naquelas circunstâncias! O comandante tomara o rio Linde pelo dos Bons Sinais, e aproximara-se de terra. Dela nos afastámos imediatamente e não houve novidade. Encalhámos realmente mais tarde, mas já dentro do rio dos Bons Sinais, em fundo de lodo e com águas tranquilas. Aí jantámos, faltando pouco para sermos devorados pelos insaciáveis mosquitos – aqueles malditos mosquitos de Quelimane que eu já conhecia havia muitos anos. Só às 11 da noite fundeamos no porto, acabando só então a ansiedade do governador João Coutinho, que, avisado por um telegrama de Casqueiro, esperara todo o dia e parte da noite pela nossa chegada. A viagem de Chinde a Quelimane, em condições normais, poderia levar poucas horas, pelo que, atendendo ao mau tempo, era lícito acreditar na perda do barco e dos tripulantes e passageiros. Eram estes, além de mim, os oficiais da Marinha, todos, menos o último, já falecidos, João Belo, Boaventura Mendes de Almeida, Hugo Bivar de Sousa, Conde da Ponte. Estes saudosos companheiros e amigos, ao chegarmos a Quelimane, declararam-me, por brincadeira é claro, que iam propor a minha promoção a grumete… Mais de 20 anos mais tarde, indo eu à fronteira da Rodésia esperar o antigo comandante da Carabina, ultimamente nomeado governador do território de Manica e Sofala, e dando-me a conhecer, o novo governador recordou a minha frase a bordo, entusiasmado com a valentia do barquinho: «Mas isto não é um navio, é uma rolha!…»

P.S. – A bela divisa que hoje se vê novamente aos nossos navios de guerra foi substituída em 1894 pela do Infante, por ocasião do centenário de D. Henrique. Era do teor seguinte a portaria que ordenou aquela substituição: «Considerando do maior alcance moral que a Marinha de Guerra Portuguesa tenha sempre ante os olhos uma legenda breve e incisiva, que lhe estimule os brios e lhe avive as recordações de um passado glorioso, impondo-se pela sua alta significação histórica ao respeito de nacionais e estrangeiros; «Reconhecendo-se que nenhuma outra corresponde a esse caráter sugestivo e tradicional melhor do que a divisa adotada pelo Infante D. Henrique, iniciador da nossa brilhante epopeia marítima; «Sua Magestade El-Rei, desejando consagrar perenemente a recordação do quinto centenário do grande Infante, com tanto esplendor celebrado há pouco tempo pela cidade do Porto e pelo País inteiro, e aprazendo-lhe dar novo testemunho de consideração pela Marinha Portuguesa, representante e leal depositária das mais eminentes tradições da história pátria;


«Manda, pelo Conselho do Almirantado, que o lema até agora adotado nos nossos navios de Guerra seja substituído pelas palavras: Talant de bien faire, que ficaram de ora avante sendo a divisa da Marinha Portuguesa, devendo essa divisa ser inscrita em todos os navios em lugar de honra e bem visível sobre a tolda, e figurar, segundo a forma devidamente regulamentada, nos brasões, emblemas, monogramas e timbres da Marinha de Guerra. «Paço, em 5 de julho de 1894. (as) João de Brissac das Neves Ferreira.» Hoje voltou de novo a figurar nos nossos navios o velho lema. Quando e sob que pretexto, não consegui averiguar. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 10, Ano 10º (1943), pp.931-937]


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Bandar, Zambézia

Há mais de sessenta anos, na livraria Tavares Cardoso, à esquina da rua Príncipe e largo do Camões (hoje 1º de Dezembro e D. João da Câmara) ouvi contar um caso sucedido no Brasil, caso muito parecido, se não absolutamente igual, a outro que se passou na Zambézia. Este que me foi contado pelo comendador Pereira de Carvalho, importante comerciante daquela região e bom conhecedor da crónica local, passou-se assim: O alferes A. C., recentemente promovido, subia o rio com destino a Tete, e atracou uma tarde à praia de um dos numerosos prazos da Coroa que ocupavam as duas margens. Era um arrendatário desse prazo antigo soldado e marinheiro que, obtida a baixa de serviço, se dedicara com certo êxito ao comércio com os indígenas. Ativo e esperto, a sorte ajudando, juntou fartos cabedais e chegou a ser pessoa de importância na Zambézia. Na época a que me reporto, estava instalado, com certa comodidade e quase opulência, no seu luane à beira do


rio, luane composto de boa casa de habitação, vasto barracão que servia de armazém, várias palhotas para alojamento do pessoal, e grande horta, tudo construído em volta de amplo terreiro. Tanto a casa de habitação como o barracão eram feitos de pau a pique e cobertos de palha; mas as paredes eram maticadas, isto é, rebocadas com terra amassada, cuidadosamente alisada, e caiadas, de forma que tinham aspeto de construções de alvenaria. O nosso alferes foi acolhido pelo proprietário do luane com a galhardia que era proverbial no país, trocando nessa noite o frugal repasto preparado por cozinheiro improvisado com os singelos elementos que compunham o seu rancho de viajante pouco abonado, e a sua pouco cómoda cama dentro de uma casinha inconfortável do seu escaler, por jantar pantagruélico, como também era tradição zambeziana, e por boa cama em quarto espaçoso e bem mobilado. Durante esse jantar conheceu a filha do dono da casa, bela mulata de alentadas carnes e olhos prometedores, a quem fez namoro descarado, que lhe pareceu ser bem colhido tanto pela moça como pelo pai. Depois do jantar, seguido, sempre conforme às tradições, por abundantes libações, recolheu cada um aos seus aposentos, despedindo-se o viajante dos donos da casa, pois contava seguir viagem logo de manhã cedo. Mas o homem põe… Excitado pelo excesso das bebidas e talvez também pela impressão causada pelos encantos da moçoila, o nosso alferes não conseguiu adormecer tão depressa quanto desejaria; e, depois de voltas e mais voltas na cama, resolveu levantar-se e vaguear pelo quarto à espera que o sono finalmente chegasse. De quando em quando chegava à janela que dava para o terreiro, deliciando-se com o deslumbrante luar que iluminava o rio. De uma dessas vezes surpreendeuo a vista de um vulto que se esgueirava sorrateiramente ao longo da parede e por fim se sumia para dentro de uma das palhotas. Não lhe foi difícil identificar o vulto, e decidiu aproveitar a insónia para descobrir o mistério que se lhe deparava. E assim assistiu ao regresso do vulto alta madrugada, e mais tarde, já quase dia, viu sair da mesma palhota robusto negralhão que reconheceu como aquele que o dono da casa lhe mostrara como sendo o seu moleque de confiança, espécie de mordomo e fac-totum. Perplexo sobre o que devia fazer, se calar-se, se dar parte ao seu hospedeiro do que tinha visto, resolveu-se afinal pela segunda alternativa, convencendo-se de que era esse seu dever… não pensando talvez que um pouco de ciúme influenciava a sua resolução. Adiando pois a hora da partida, procurou o pai da rapariga e deu-lhe a sensacional notícia. Recebida por este a inesperada confidência, não tardou o viajante a arrepender-se amargamente de a ter feito. É que o pai, depois de inevitável cena de indignação, sossegou e, levando o alferes para sítio mais afastado, disse-lhe: – Eu sei que o amigo me vai jurar que nunca dirá a ninguém o que acaba de me contar. Mas deixe-me ser bastante incrédulo com respeito a tais promessas. O amigo não hesitou em contar esse escândalo ao próprio pai da rapariga desonrada. Certamente não terá mais escrúpulo em o contar a toda a gente. A única maneira de evitar que o caso transpire é o meu amigo casar com a minha filha, e sem demora.


E como o pobre alferes tivesse um sobressalto, e parecesse disposto a declinar tal honra, o pai ofendido continuou com toda a calma: – Bem sei que não deve ser-lhe agradável aceitar por mulher aquela que quase viu nos braços de outro homem, de mais a mais um preto. Mas deve ponderar as seguintes considerações: casando, apanha uma moça que, segundo notei no jantar, não lhe desagrada; depois, sempre na hipótese de casar, melhora as suas condições sobretudo para o futuro. Não casando, possolhe garantir que não chega a Tete. Acontece-lhe o mesmo que vai acontecer ao cúmplice, a quem me encarrego de fazer emudecer… Nessa tarde ou no dia seguinte de manhã o escaler do alferes era seguido por outro em que iam pai e filha, e por grande almadia carregada de bagagem. E dias depois na igreja de Tete, ou antes numa igreja improvisada, pois ainda não existia a atual igreja de Sant’Iago Maior, celebrava-se com tal ou qual pompa, o auspicioso enlace… Bastantes anos mais tarde, passando eu por Tete e ouvindo esta história que, como disse, já conhecia como passada no Brasil, objetei ao narrador como, com tais precauções, o caso fora conhecido. – Da maneira mais inesperada, respondeu o comendador Pereira de Carvalho. Os noivos, depois de uma lua de mel sem incidentes de vulto, começaram a dar-se mal, principalmente depois da morte do sogro, que parece não ter deixado os mundos e fundos com que o genro contava. E uma noite que se desavieram mais fortemente, o marido lançou em rosto à mulher a escandalosa causa do noivado, para edificação e gáudio dos vizinhos curiosos. Pereira Carvalho disse-me então que na viagem para o Zumbo encontraria certamente o herói da história, pois era arrendatário do prazo tal, cujo nome esqueci. Efetivamente, alguns dias depois, passando no tal prazo, pouco a montante das cachoeiras de Caurabassa, numa aringa meio arruinada, vivendo quase cafrealmente entre duas amásias quase velhas e desmazeladas e uma chusma de mulatos de todas as idades, encontrei o nosso homem, já major reformado, gotoso, obeso, apático e, ao que me pareceu, alcoólico inveterado. [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 11, Ano 11º (1944), pp.41-44]

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O território de Manica e Sofala

Há pouco mais de um ano que faleceu em Torres Novas, terra da sua naturalidade, o ilustre e saudoso colaborador do «Mundo Português» sr. Gustavo de Bivar Pinto Lopes, a quem esta revista prestou então a sua merecida homenagem.

Todos os nossos leitores puderam apreciar, no decurso de alguns anos, o invulgar interesse das «Memórias de um Sertanejo», onde, a par de uma sólida cultura, aquele venerando africanista demonstrou raras qualidades de prosador. Infelizmente, Gustavo de Bivar, modesto em excesso, não deixou quaisquer obras sobre assuntos coloniais, além das «Respostas ao questionário Etnográfico» ordenado pelo GovernoGeral da Província, que elaborou na parte respeitante ao território de Manica e Sofala, e que foram publicadas em volume pela Companhia de Moçambique. Fez, porém, algumas palestras sobre aquela região, que tão profundamente conhecia, e do texto original de uma delas «O Mundo Português» arquiva nas suas páginas os excertos seguintes, que embora se reportem a uma data já distante, têm por isso mesmo indiscutível interesse histórico.

De entre as pessoas que fazem a honra de me escutar, algumas haverá que tenham conhecimento de que, há exatamente 30 anos fui agraciado com aquela venera com que é costume galardoar atos de coragem. Ora, por mais que eu me queira conformar com o uso corrente, que prescreve a orientação de uma modéstia mais ou menos convencional, não poderei deixar de reconhecer que na minha longa e agitada vida de sertanejo, quer como viajante de terras quase inexploradas, nos tempos em que não havia estradas, nem caminhos de ferro, quer como grande caçador perante o Eterno, perseguindo e sendo às vezes (poucas) perseguido por animais menos inofensivos do que as perdizes e coelhos das nossas pacatas charnecas; quer mesmo como guerreiro, embora neste último caso, o perigo nem sempre corresponda à sua reputação, e a verdadeira coragem por conseguinte não seja tão necessária como poderia parecer a profanos; não poderei, dizia eu, deixar de admitir que alguns atos de valor teria praticado. Mas o que posso assegurar a V. Ex.as sem alarde nem preocupação de fazer efeito, é que a maior prova de coragem que tenho dado na minha vida é o que estou perpetrando neste momento: isto é, arrostar com a temível responsabilidade de falar, de prender, mal ou bem a atenção de um auditório tão seleto e tão ilustrado, com a obrigação de o aborrecer o menos possível. Isto não é uma simples fórmula de convenção, uma ostentação daquela modéstia convencional de que falei agora mesmo; é antes, creiam-no V. Ex.as, o enunciado de uma convicção profunda.


Convidado a falar de colónias, eu só podia escolher o único território que conheço, e onde vivi durante 36 dos 40 anos que estive em África. Esse território é o chamado de Manica e Sofala, e terei por isso de falar da Companhia de Moçambique. Sem querer ser desprimoroso para ninguém, eu não posso deixar de me lembrar da frase creio que de Emídio Navarro: «a opinião pública é a opinião que se publica». Ora, afastada já a ideia de desprimor, não é impossível nem improvável que a totalidade ou grande parte do meu auditório esteja influenciada pela insistente campanha jornalística que durou meses e que, como é pecha das campanhas portuguesas, não fugiu ao ataque pessoal. Pessoal? Difícil mesmo de qualificar, pelo menos para mim, quando li numa revista que aliás costuma manter-se num nível de rara elevação, um longo parágrafo dedicado às polainas de um administrador…

Não vem para aqui entretanto, nem a mim competiria, a discussão do contrato do Porto da Beira. É questão entregue ao Governo, que a terá estudado ou mandado estudar por pessoas competentes, e que resolverá quando julgar oportuno e como entender mais conveniente aos interesses nacionais. Apenas farei observar que há mais de um ano que a questão espera resolução, e essa demora faz-me supor que as acusações de traição, de venda aos ingleses de um rincão das nossas colónias, etc, não eram tão evidentes como diziam os acusadores. Sim, meus senhores, os administradores da Companhia de Moçambique foram acusados de traição. Ora, seria fastidioso passar em revista as entidades que compõem o Conselho de Administração dessa Companhia, e que são antigos ministros, oficiais, generais e oficiais superiores da Armada e do Exército, professores e banqueiros.

A campanha esmoreceu e aparentemente morreu; os administradores da Companhia conservam as suas situações oficiais e a consideração geral; e entretanto as obras do Porto da Beira vão progredindo rapidamente com manifesta vantagem dos importantes interesses que lhe estão ligados. A base da campanha é o patriotismo. Pode-se dizer que é estranho este patriotismo que faz gritar, sem respeito pela opinião estrangeira que nos escuta, que os mais altos funcionários, civis e militares, deste país contam autênticos traidores nas suas fileiras. Em verdade não conheço sentimento mais respeitável do que o patriotismo. Mas não conheço nenhum outro que mais sujeito esteja a ser desnaturado e desvairado. Sobretudo numa nação pequena há sempre a desconfiança e o receio de que em nada mais pensem os estrangeiros do que em esbulhar-nos do que é nosso. Admito que em parte esse receio tenha fundamento; mas essa desconfiança se transforma facilmente numa preocupação doentia, que leva aos piores excessos e às mais flagrantes injustiças, como no caso presente. A primeira explosão de indignação patriótica de que tenho conhecimento foi por ocasião do célebre tratado de Lourenço-Marques. Por 1875, salvo erro, a Inglaterra entrou a mostrar pretensões à posse da baía de Lourenço-Marques, fundando-se na doutrina estabelecida no Congresso de Viena de 1815, segundo a qual os grandes rios e os mares eram considerados vias internacionais, não se respeitando como propriedade de nações determinadas, desde que não estivesse totalmente efetivado o domínio destas em seus cursos, margens e costas. Eu era então um rapaz muito novo e estava em Coimbra; e ali tive um dia a noção, que só com


dificuldade consigo afastar do espírito quando penso na opinião do povo, pelo menos de certas camadas do povo, a respeito de coisas coloniais. Foi quando a nossa servente entrou em casa, dizendo que ia o diabo em Lisboa por causa do Lourenço-Marques. «Que é isso de Lourenço-Marques?», preguntou a criada de dentro. «V. não sabe quem é o LourençoMarques? É a modos um pretalhão muito valente, que é muito nosso, e que os ingleses querem levar para a Inglaterra». Entregue a questão à arbitragem do Presidente da República Francesa, Mac-Mahon deu a sentença a nosso favor. Mas perdidas as esperanças na soberania direta, a Inglaterra tratou de obter privilégios e vantagens, impondo-nos um tratado em que havia realmente algumas cláusulas vexatórias para o nosso brio. A oposição aproveitou o ensejo para uma campanha enérgica contra o Governo, do qual fazia parte como Ministro da Marinha e Colónias o nosso conterrâneo Andrade Corvo. O partido republicano, que balbuciava então os seus primeiros vagidos como partido organizado, tomou posição ao lado dos protestantes e, seguindo as boas praxes de oposição nacional, o Governo foi acusado nada menos do que querer vender Lourenço-Marques aos ingleses. Apareceu mesmo um poemeto A traição que valeu ao seu autor, o quase genial poeta Gomes Leal, uma popularidade que as Claridades do Sul lhe não tinham conquistado. E vejam V. Ex.as em que ominosos tempos vivíamos então, quando a conquista da liberdade era apenas uma generosa aspiração de alguns idealistas: um poeta publicou um poema em que chamava traidor ao Rei, e esse poema nem sequer era proibido de circular. Ominosos tempos! O tratado não vingou e bom foi que não vingasse. Mas não será descabido observar que alguns anos depois, uma das cláusulas que mais celeuma levantara, a passagem de tropas em caso de guerra, foi efetivada na Beira, sem tratado especial, sem manifestações e sem perigo – antes pelo contrário – para a nossa soberania em Moçambique. Veio mais tarde o ultimatum. Dessa vez a indignação do país foi geral e foi colossal. Mas durante a primeira febre caiu-se no excesso de apupar e maltratar os súbditos ingleses, ou tomados por tais, que os manifestantes encontravam pelas ruas. Um desses atos de violência, praticado contra um sacerdote protestante, custou à pátria uma avultada indemnização. Pouco tardou que a política tomasse conta da oportunidade, e o episódio mais lamentável foi talvez a pateada que Hintze Ribeiro recebeu quando tentava ler o tratado que tinha sido negociado em Londres e de que os jornais já tinham dado notícia detalhada. Meses depois negociou-se e aprovou-se novo tratado, sem pateada, sem oposição, embora nos não oferecesse muito mais do que o primeiro. Mas… o dito por não dito. O episódio mais lamentável desse conflito foi a subscrição nacional, inaugurada com tanto entusiasmo, e que rendeu a ridícula quantia de 400 contos, sendo ainda de notar que desses 400 contos 100 tinham sido subscritos pelo Rei e outros 100 pela Câmara Municipal de Lisboa. Muito mais tarde veio a concessão feita por Teixeira de sousa ao inglês Williams para a construção do caminho de ferro do Lobito à Catanga. A oposição não deixou de gritar que era uma traição, e o «Jornal das colónias», dirigido por Aires de Ornelas, não foi dos menos violentos no ataque ao ministro. Algum tempo depois, o mesmo ilustre colonial, subindo aos Conselhos da Coroa como Ministro da Marinha, e tendo então elementos de apreciação mais seguros, fazia na Câmara amende honorable, declarando que o Sr. Teixeira de Sousa, assinando o contrato Williams, tinha prestado ao país altíssimo serviço.


Voltando ao Porto da Beira: muito seria para desejar que ele fosse construído com capitais portugueses. Mas onde estão os capitais portugueses disponíveis? Segundo disseram os jornais, não há menos de 50 milhões esterlinos de capitalistas portugueses em bancos estrangeiros. E já não é hoje que os capitais se retraem quando se trata das empresas coloniais ou mesmo metropolitanas. O Porto da Beira está sendo construído por uma companhia inglesa porque os capitalistas nacionais não arriscam o seu dinheiro em aventuras coloniais. Mas é só nas colónias que o capital estrageiro invadiu os serviços de fomento e o aproveitamento das riquezas nacionais? Então as companhias que exploram os caminhos de ferro, telefones, elétricos, elevadores, minas, são todas portuguesas? Ainda há pouco tempo li um artigo de um engenheiro de minas, em que se diz que as 11 (salvo erro de memória) minas em exploração em Portugal pertencem todas a companhias belgas e inglesas. Algumas das companhias têm nomes portugueses; outras porém, e são muitas, nem se deram ao trabalho de traduzir os títulos em vernáculo. E é então só na Beira que está o perigo? Ora já em 1895 dizia António Enes; «Em que doa ao luso património, é dos capitais estrangeiros que, principalmente, se pode esperar a exploração em larga escala de Moçambique, e digo esperar e não recear, porque nada se assustará a parceria dos direitos nacionais com interesses estrangeiros, desde que a nosso política e a nossa administração tenham o escasso bom senso necessário para não obrigarem esses interesses a desejarem, como meio de satisfação ou como meio de defesa, outra soberania que não seja a portuguesa…» Para mostrar o desnorteamento da opinião, apenas acrescentarei que li há dias um telegrama de qualquer grupo de protesto contra a absorção das colónias pelo capital estrangeiro, em que se pediam providências urgentes ao Governo para que a posse do porto da Beira voltasse para Portugal. Quem leu isto supôs naturalmente que o leopardo britânico se apossou da Beira e quiçá do resto do território. Posso assegurar a V. Ex.as que essa catástrofe não se deu; o território da Manica continua sendo administrado e governado por autoridades portuguesas, que é a bandeira nacional que tremula ainda nos mastros dos edifícios; e que das próprias obras do porto, cuja construção foi confiada a uma companhia estrangeira, é diretor um português, o comandante Nunes Frade, brioso oficial da nossa Armada e competentíssimo engenheiro hidrógrafo.

Depois de um marasmo criminoso que durou séculos – com pesar o digo, mas estou fazendo história e a história não admite disfarces – os nossos estadistas acordaram ao barulho feito pelas grandes potências e por algumas pequenas à sombra e com apoio daquelas, para rasgarem direitos históricos e arrancarem as colónias mais prometedoras que exploradores de várias procedências tinham revelado ao mundo culto. Dessa celeuma nasceu a Conferência de Berlim de 1885 – onde a exemplo da sua antecessora de Viena, se estabeleceu como principio fundamental que só a ocupação efetiva dava direito à posse de territórios. Organizaram-se então expedições destinadas a ocupar, à pressa, terras que estavam no célebre mapa cor-derosa mas onde não tínhamos nem nunca tínhamos tido realmente domínio efetivo. Dessas expedições nasceram conflitos, o mais grave dos quais, provocado pela ação enérgica mas


imprudente de Serpa Pinto no Chire, deu origem ou serviu de pretexto ao ultimatum de 1890. E passados meses de incertezas e ansiedade, conseguiu-se um tratado com Inglaterra que nos garantiu a posse de territórios, muito inferiores em área aos que no mapa cor-de-rosa nos eram atribuídos, mas ainda assim enormes em relação às colónias de outros países, e até, porque não o confessar aqui muito à puridade(?), em relação aos nossos recursos em gente e dinheiro. Foi então que o governo, seguindo os exemplos da Inglaterra, mestra incontestável em administração e exploração coloniais, concedeu vastas regiões a companhias privilegiadas, com direitos soberanos, cujo fim era o de auxiliar e aliviar o governo no cumprimento das pesadas obrigações que o tratado nos impunha. Criaram-se assim três companhias nessas condições: a de Nhassa (que toda a gente diz Niassa, por influência da grafia inglesa que emprega o grupo ny para o som nh), a qual ainda administra o território de Cabo Delgado; a de Inhambane, que não chegou a formar-se; e a de Moçambique, a quem coube o Território de Manica e Sofala que compreende as terras que compunham os antigos distritos daqueles nomes. Em que estado se encontrava o território no dia 1 de julho de 1902, data da chegada à Beira dos primeiros empregados da companhia de Moçambique, – e como se encontra agora? A comparação de alguns dados que passo a expor mostrará o que no curto prazo de 36 anos ali se tem feito. E se é certo que nem tudo é devido à ação direta da Companhia, não menos certo é, como já em 1900 o dizia o grande colonial Major Eduardo Costa: «que um governo sem iniciativa e sem poder nunca poderia ter aproveitado o favor das circunstâncias nem dado ao território o considerável impulso, que ele tem sofrido, e que é sem paralelo no moderno movimento colonial do nosso país». Efetivamente, como vou tentar mostrar, em parte nenhuma das nossas colónias, à exceção de Lourenço-Marques, se fez mais nem tanto em tão pouco tempo. À data da entrega da Companhia de Moçambique, a parte do território que fica ao Norte de Púngüè estava em plena revolta; a parte que fica ao Sul do mesmo rio estava em completa insubmissão. Hoje tudo está obediente, tudo paga imposto de palhota ou a capitação do mussoco, prova provada dessa obediência. Centros de ocupação oficial havia apenas Sena, na margem do Zambeze; a Beira no estuário do Púngüè; Sofala, num braço de mar pouco ao Sul da Beira; Chiloane, na ilha desse nome; e Macequece, em Manica. Hoje os centros de ocupação oficial, ocupados por autoridades portuguesas respeitadas pelo indígena, contam-se por dezenas, e vão desde Tambara no Zambeze até Mocoque próximo do paralelo 22º que é o limite SE do território, e até Chicuala-cuala no Limpopo, que é o limite SW do mesmo território. Desses cinco centros qual merecia o nome de povoação urbana? Com a melhor das vontades apenas as vetustas e arruinadas povoações de Sofala, Sena e Chiloane, a última das quais tinha ultimamente sido transferida para a Beira, e portanto piorando, podiam receber, e por muito favor esse nome. Hoje, para não falar senão das principais, temos em primeiro lugar a Beira, cuja população segundo censo de 1926, e incluindo os subúrbios, era de 2167 brancos europeus, 740 asiáticos, 372 mestiços e 12 307 indígenas, e que, embora lutando com as dificuldades da sua situação numa língua de areia, tem ainda assim progredido de uma forma quase prodigiosa, não só em população como em edifícios, em comércio, em indústria, em


melhoramentos de toda a ordem; Vila Pery, cujo nome representa uma justa homenagem dos agricultores de Chimoio ao governador João Pery de Lind; Macequece, cidadezinha encantadora no meio de uma paisagem que faz lembrar o nosso Minho e onde passei os últimos dois anos da minha longa estadia em África, e de que conservo profunda e incurável saudade; e Vila-Fontes no Zambeze, e Marromeu também no Zambeze, e Nova-Lusitânia no Buzi, e Mambone no Save, e tantas outras que seria fastidioso enumerar. População, não falando da indígena que em todo caso também aumentou consideravelmente, era representada em 1892 por números ridículos; hoje, segundo o censo de 1926, último que tenho à mão, é de 3444 brancos europeus, 1382 asiáticos, 1931 mestiços e 301 704 negros. O movimento comercial em 1926, incluindo a importação, a exportação, reexportação, baldeação, trânsito e cabotagem, foi de £ 11 16 025 esterlinas. Para a agricultura estão concedidos 882.880 hectares do terreno, números redondos. E já que tanto se fala de desnacionalização, direi que esses terrenos estão divididos por 1059 concessionários, e que destes 617 são portugueses e apenas 442 estrangeiros, e ainda que esses estrangeiros pertencem a 13 nacionalidades diferentes. Meios de comunicação, escusado será dizer, que eram apenas os naturais; hoje há caminho de ferro que vai da Beira à fronteira da Rodésia numa extensão aproximada de 318 quilómetros, e que põe o nosso porto em comunicação terrestre com o Cabo da Boa Esperança, com Lourenço-Marques, e num futuro relativamente próximo com a costa ocidental quando terminar o caminho de ferro do Lobito, e com o Mediterrâneo quando o grande sonho de Cecil Rhodes estiver completamente realizado; há o caminho de ferro trans-zambeziano, que vai do Dondo, a cerca de 30 quilómetros da Beira, até Sachombe no Zambeze, numa extensão aproximada de 280 quilómetros, e que vai ligar diretamente quando estiver construída a ponte sobre o Zambeze, ao caminho de ferro da África Central Inglesa – ligação que por enquanto se faz por transbordo em vapores e lanchas entre as duas margens; há, segundo o último relatório das Obras Públicas, que consultei há dias, mais de 2000 quilómetros de estradas carreteiras e, conquanto o mesmo relatório diga que todas elas precisam de reparações urgentes e importantes, não me parece que isso seja delito de que nós em Portugal possamos ser juízes muito severos; há numerosas comunicações, fluviais e marítimas, por meio de navios de cabotagem, lanchas à vela e a gasolina, vapores, etc., pondo em comunicação regular os vários portos do território entre si e com o resto da costa. Há numerosos automóveis e camiões; há tudo enfim quanto a moderna indústria tem inventado para o serviço e o regalo da humanidade; só não há aeroplanos… Em minas, que foi a esperança dos primeiros tempos, houve a curo prazo certa desilusão; não que falte em Manica e noutros pontos ouro e outros minerais de valor; mas as dificuldades de extração, juntas talvez à má administração de algumas das entidades exploradoras, entravaram durante muito tempo a exploração mineira. Ainda assim, as esperanças não desapareceram de todo, as realizações, embora em escala reduzida, também continuam, e, como tem sucedido em quase toda a parte do mundo, das ilusões mineiras, que serviram de chamariz, saiu a exploração agrícola, primeiro para as necessidades de abastecimento dos mineiros, depois como indústria própria e florescente. Em todo caso, em 1926 exportou-se ouro e prata no valor de £39 306 11,9. Estão-se fazendo trabalhos de pesquisa de petróleo no


Cheringoma, e tudo leva a crer que se não está longe do almejado êxito. Estão-se também explorando importantes jazigos de estanho no Inchope, lutando porém os trabalhos com a falta de água – falta que não será difícil, embora dispendioso de remediar. De indústrias, agricultura e criação de gado não havia quase vestígios em 1892, para não falar dos poucos e rudimentares artefactos indígenas, das culturas primitivas e da insignificante pesca dos mesmos indígenas. Hoje a indústria é representada por várias fábricas de açúcar, de descaroçamento e enfardamento de algodão, de desfibramento e enfardamento de sizal, de tijolo, de tabaco, de extração de tanino, de moagem; por uma agricultura feita em grande escala por processos modernos e aperfeiçoados; pela criação de gado de raças apuradas, mostrando a estatística de 1926 a existência de 41 924 cabeças de bovino: etc. E, deixando de lado, para me não alongar demasiadamente, outras manifestações de atividade e de progresso, cheguemos ao ponto mais importante, isto é, ao desenvolvimento progressivo e ao movimento atual do porto da Beira. Em 1927 (neste ramo tenho informações mais recentes) este movimento, não incluindo a baldeação, elevou-se à cifra realmente considerável de 682 600 toneladas de carga; e se incluirmos a baldeação, esse número atingiu 820 000 toneladas de carga. O número de passageiros, embarcados e desembarcados, durante o mesmo ano de 1927, foi de 12 000. A tonelagem bruta dos navios entrados e saídos no mesmo período foi de 2 568 000 toneladas. Falta nos meus apontamentos o número de navios entrados e saídos em 1927; mas em 1926, e o movimento aumenta dia a dia, foi de 527 navios de longo curso e grande cabotagem entrados, e 509 saídos. Desejo chamar a atenção de V. Ex.as para a circunstância de derivar a importância do porto da Beira do enorme e rico hinterland que ele serve e dele depende. Com efeito, ao passo que o de Lourenço-Marques, que é hoje dos primeiros da África do Sul como apetrechamento e facilidades de expediente, serve por assim dizer apenas o Transvaal, o da Beira serve, além do território da Companhia, que mede aproximadamente 136 000 quilómetros quadrados e exporta normalmente muitas toneladas de milho, de açúcar, de algodão, de sizal, de oleaginosas, para não falar senão dos produtos mais importantes, – toda a Rodésia do Sul e parte da do Norte, toda a Nhassalândia inglesa, toda a Zambézia portuguesa sobre a administração direta do estado, e parte do Congo Belga. Para dar vasão a este movimento colossal, os meios de que o porto dispunha tornavam-se cada vez mais insuficientes; o que dava origem a constantes reclamações, e – o que pior era – a ameaças, não impossíveis de efetivar, de se procurar outro porto fora da nossa costa. No dia em que embarquei para a Europa, há dois anos, 19 navios de longo curso e de cabotagem, grande e pequena, esperavam na Beira que lhes chegasse a vez de serem carregados ou descarregados; e por esse número é, não raro, igualado ou mesmo excedido. Compreende-se o transtorno que tais demoras causam aos importadores e exportadores dos países mencionados, e necessidade urgente e inadiável de se construir um porto que possa dar satisfação às reclamações justíssimas dos interessados. Dessa necessidade nasceu o contrato de que tanto se tem falado, nem sempre com justiça e quase sempre com imperfeito conhecimento das circunstâncias. Tinha ou tem ainda esse contrato perigos e defeitos? Possível. O capital defende-se exigindo às vezes garantias que doem. Mas alguns desses defeitos e perigos já foram modificados, e entretanto está em boas mãos a resolução das dificuldades, existentes ou imaginárias. Entretanto, os trabalhos vão progredindo, e, segundo a nota que me foi fornecida pelo engenheiro encarregado da


fiscalização dessas obras, o conhecido e competente engenheiro Lisboa de Lima, a situação dos trabalhos, começados em abril de 1927 é a seguinte: 130 metros de cais acostáveis a batelões, em seguimento aos 230 metros de cais comprados às companhias de caminho de ferro; realizando-se assim uma primeira extensão de 360 metros e cais acostáveis. Aqueles 130 metros de cais acostáveis, devidamente apetrechados, estão em plena exploração desde março último, conjuntamente com os 230 metros de cais que foram das companhias de caminho de ferro. A construção dos 180 metros de cais acostáveis a grandes navios está muito adiantada, devendo ficar concluída em fins do corrente ano para entrarem em plena exploração em princípios de 1929. Vai iniciar-se dentro em breve a construção de grandes armazéns de receção junto aos novos cais. As dragas em trabalhos no porto desde abril de 1927 já dragaram cerca de 600 000 metros cúbicos de lodos e areias nos fundeadouros e canais, devendo até abril de 1929 estar dragados cerca de 1 milhão de metros cúbicos. Isto é o que constitui as obras da primeira das 4 séries em que foi dividida a construção do porto, e com essas obras, que estavam orçadas em £ 800 000, já se gastaram até este momento, mais de £ 600 000. Quando ficarem concluídas as obras todas, a Beira ficará servida por um porto que será um dos melhores e mais bem apetrechados da África do Sul, pois o contrato obriga a companhia concessionária a construir um porto comercial moderno com cais acostáveis aos grandes navios, devidamente apetrechados com guindastes para facilitar o movimento dos vagões sobre as linhas férreas assentes naqueles cais, devidamente iluminados para permitirem o trabalho de noite; com disposição para fornecimento de água a navios e com todas as mais disposições dos modernos portos comerciais. Nesse porto haverá docas de abrigo e docas de reparação ou planos inclinados. Serão construídas as disposições especiais que certas qualidades de tráfego exigem, principalmente de exportação, como sejam o tráfego de cereais e o tráfego de frutas. As dragagens a realizar em canais fundeadouros atingiram cerca de 4 milhões de metros cúbicos. As obras projetadas, de que parte já foi construída como disse, incluem uma extensão em cais de 1980 metros a maioria dos quais em águas profundas, para serem acostáveis aos maiores navios que demandam o porto da Beira. Creio ter demonstrado o que pretendia; isto é, que a construção do porto, em condições de satisfazer as necessidades sempre crescentes da enorme região que o porto serve, não podia ser adiada. É possível que certos patriotas tenham saudades das colónias tais como as descreveu Oliveira Martins, com um fundo de verdade, embora com aquela ponta de exagero que caracterizava a sua maneira de escrever, bastas vezes mais artística do que rigorosa. Seriam talvez preferíveis as colónias naquele estado para espíritos sentimentais alheios a tudo que seja interesse e ganância; sobretudo se, em noites de luar os ecos da fortaleza repetissem as dolências do choradinho… Mas nesse caso é que haveria um grande, um inevitável e irremediável perigo: o de serem as nossas colónias, como sucede às propriedades que embaraçam o traçado de um caminho de ferro, de uma estrada, ou de qualquer outro melhoramento de interesse geral, expropriadas por utilidade pública.

Não sei se no decurso da minha desataviada e singela exposição eu dei a V. Exas a impressão de ser menos patriota. Seria uma impressão falsa e injusta. Prezo-me de ser tão patriota como qualquer outro, embora tenha noção de patriotismo talvez diferente da de muita gente. Divirjo


com certeza de muitos na forma de exteriorizar o patriotismo. Quando aqueles de V. Exas que já viviam em Torres Novas em 1890 andavam pelas ruas da Câmara Municipal à frente dando vivas a Portugal e morras à Inglaterra, eu não os pude acompanhar. Estava então numa ilha situada na confluência do Cafúcuè com o Zambeze, a muitos milhares de quilómetros de Torres Novas. Tinha eu 26 anos e era sub-chefe de uma expedição que tinha por objetivo avassalar o régulo Barotze, o célebre Luanhica. Era uma das tais exposições em que eram mandados ocupar à pressa terrenos virgens da nossa ocupação, para enganar aqueles tolos dos ingleses. Mas um dia chega um telegrama do Ministério da Marinha – telegrama que merece fazer parte de uma coletânia de anedotas emanadas do Terreiro do Paço daquele tempo – em que se dava ordem à nossa expedição de seguir a marchas forçadas em socorro da expedição Sarmento que saíra de Angola para a Lunda. O meu chefe foi a Moçambique conferenciar com o governador-geral; e, enquanto eu esperava os acontecimentos, retirou doente para o Zumbo o comandante militar de Cafúcuè. À falta de homens fiquei-o eu substituindo, à testa 4 soldados pretos com uma peça de Krupp de 7 cm, que já servira na guerra de 1870. E quando, semanas depois fui mandado retirar em virtude do modus vivendi, as lágrimas que chorei ao arriar pela última vez a bandeira azul e branca, se não foram devidas a esse nobre sentimento, não sei o que as causaria. Chegado a Tete, ofereci-me para ir para a fronteira da Macanga, em razão de um telegrama do ministro António Ennes, a recomendar que se guarnecessem as fronteiras na previsão de um ataque dos flibusteiros da África do Sul. Depois disso não houve rebelião no Zambeze ou proximidades em cuja repressão eu não tivesse tomado parte. E creio que é mais que o tempo para pôr ponto nesta fastidiosa exposição. Mas julgo que não devo despedir-me do meu auditório sem algumas palavras de justiça ao colonial insigne, ao patriota devotado, homem – na significação viril, plena de ação, dessa palavra – que orientou em terras de Manica e de Sofala os primeiros passos da vida política e administrativa da Companhia de Moçambique. Evocamos a sua memória com admiração e respeito: Joaquim José Machado. Alto e desempenado o tronco, o passo firme, um olhar que exprimia simultaneamente energia e bondade, ele foi na Beira, durante alguns anos, o homem providencial que tudo sabia, tudo previa e tudo remediava. Ninguém o igualava em faculdades de trabalho, como ninguém o excedia em honradez, firmeza da caráter, culto fervoroso da justiça. Durante a sua prolongada carreira colonial meio século de infatigáveis jornadas pelo oriente e ocidente – Joaquim José Machado prestou ao país inesquecíveis serviços. Não foi dos menores o sentido português que imprimiu à administração da Companhia de Moçambique, quer como governador do Território, quer como administrador delegado. Não pretendo, nem para isso tenho competência nem elementos bastantes, traçar a biografia dessa figura notável entre tantos colonialistas distintos, mas não resisto a contar dois factos que darão uma ideia da fibra patriótica e do aprumo deste homem excecional. Quando mais acesas estavam as dissidências entre os governos português e Inglês, era Joaquim Machado, Governado- Geral da Província. E, como desde que Paiva de Andrada descobrira o estuário do Púngüè, era este rio uma das portas por onde pretendiam entrar no interior os aventureiros, o governador vinha frequentemente à Beira vigiar os acontecimentos. Um dia chegou ao porto um navio inglês, cujos passageiros, um numeroso grupo, pediu licença para subir o Púngüè. Como a licença lhes fosse recusada, resolveram passar sem essa formalidade, e no dia seguinte largaram do navio vários escaleres, com bandeiras inglesas à popa e cheios de ingleses que


cantavam Home rule ou outras canções patrióticas. Joaquim Machado ordenou à canhoeira que estava no porto que mandasse um tiro de peça à frente dos barcos, e quando o projétil caiu a poucos metros à proa dos mesmos, estes retrocederam imediatamente, as bandeiras foram arreadas e os cantos cessaram. O cônsul inglês apressou-se a vir apresentar o seu protesto contra esta insólita violência, e na Câmara dos Comuns em Londres chegou-se a falar em pedir a cabeça do coronel Machado. Mais tarde, sendo novamente Joaquim Machado governador-geral, durante a guerra do Transvaal, o Presidente Kruger resolveu ir à Europa pedir auxílio, e teve para isso que vir embarcar a Lourenço-Marques onde foi hóspede do governo português. No dia do embarque o governador convidou o cônsul inglês e os comandantes dos navios daquela nacionalidade surtos no porto, a prestarem ao presidente honras de chefe de Estado. E Kruger embarcou ao som de salvas dos navios de guerra, incluindo os dos seus inimigos. Com homens assim, não admira que a Companhia de Moçambique tenha não só cumprido aquilo a que a obrigava o seu contrato, mas tenha conservado sempre nos seus atos e na sua legislação o carater nitidamente português que hoje ninguém lhe contesta. Com homens assim, disse eu, e se emprego o plural é que, se Joaquim Machado foi dos maiores, não foi todavia o único. Na verdade, desde o grande colonial Paiva de Andrada, um dos seus principais fundadores, atá ao glorioso e prestigiosos conselheiro João de Azevedo Coutinho, seu atual presidente do conselho de administração, quantos nomes ilustres, não brilham na longa lista dos governadores do Território dos seus administradores? E como estou dizendo palavras de justiça, seja-me permitido citar, ao lado de tantos valores conhecidos em todo o país um nome mais obscuro, mas não menos merecedor de apreço pelas suas qualidades de trabalho e rasgado espirito de iniciativa; refiro-me a João Pery de Lind, já falecido, que foi governador do Território durante 11 anos (um recorde), e foi criador, impulsionador e protetor da agricultura por pequenos agricultores. Resta-me agradecer a V. Exas a paciente atenção com que me escutaram, e lamentar não ter sabido escolher assunto de maior interesse, ou tratar com maior brilho o assunto que escolhi. Disse. (Esta palestra foi proferida em 1928) [O Mundo Português. Revista de Cultura e Propaganda/de Arte e Literatura Coloniais, Vol. 12, Ano 12º (1945), pp.245-255]


Gustavo de Bivar Pinto Lopes, capitรฃo Costa Santos e Gago Coutinho, no pico do Gougougo, 24 de marรงo de 1914. [fotografia AHMTN]


Gustavo Pinto Lopes - Memórias dum sertanejo