Page 1

De Floripa

Florianópolis, 13 de julho de 2018.

Conheça a benzedeira Ilda Martinha Vieira

Mulheres indígenas no centro da cidade

A centenária do Pântano do Sul Senhora de 105 anos preserva tradição de benzedeira em Florianópolis


“Eu que te benzo, Deus que te cura”

Em uma casinha simples à beira mar, no Pântano do Sul, vive dona Ilda, uma senhora simpática e de personalidade forte. Mesmo com 105 anos de idade, dona Ilda não nega atender quem precisa. Deitadinha embaixo das cobertas devido ao frio de Santa Catarina, ela nos conta sobre sua vida e as benzeduras que aprendeu com a mãe. Ela conta também que só aprendeu algumas, e que sua mãe sabia muitas outras.

Relembra seu tempo de juventude onde ela gostava de dançar muito e como era moça não queria se tornar benzedeira por achar que isso iria atrapalhar seus momentos de diversão. Segurando seu rosário e fazendo o sinal da cruz, dona Ilda faz a benzedura de mal olhado, reza um pai nosso e repete várias vezes “eu que te benzo, Deus que te cura”. Em algumas rezas ela utiliza a ajuda de ervas,


porém o principal instrumento é a fé da pessoa que recebe a sua cura. Cobreiro, zipa, feridas e mal olhado são alguns tipos de doenças físicas e espirituais que ela benze. A de mal olhado é como nomeiam a inveja, que às vezes pode afetar suas energias e deixar ela fraca. “Preciso me benzer também”, diz dona Ilda. Procurada diariamente por moradores da ilha e turistas, dona Ilda é uma das benzedeiras mais velhas do Brasil.

Dentro das “doenças espirituais” podemos encontrar o embruxamento, que é quando uma pessoa é amaldiçoada por uma bruxa. A benzedura é uma mistura de catolicismo e misticismo, passado de geração em geração. Foi trazida para a cidade pelos primeiros imigrantes açorianos e é bastante utilizada pelos pescadores para garantir sucesso na pesca.


Índios urbanos

Pelas ruas movimentadas do centro da cidade, nos deparamos com uma índia da tribo caingangue e sua sobrinha. Neiva Batista, de 49 anos, conta que veio do Rio Grande do Sul para morar em Florianópolis há 18 anos. Todas as manhãs, elas se levantam para vender seu artesanato na esquina da Felipe Schmidt. Trabalham inúmeras horas para garantir o sustento da família e do pai doente. Apesar do trabalho duro, há dias em que elas não vendem nada. Dentro de suas dificuldades, uma delas é a discriminação. Apesar do grande fluxo contínuo de pessoas circulando nos pontos onde essas mulheres costumam habi-

tar, eram poucos aqueles que de fato se aproximavam delas. Ainda que essas mulheres estejam presentes com seus filhos por todo o território do centro da cidade, elas são aparentemente invisíveis. Não são observadas pelas pessoas que na maioria das vezes acabam passando por cima dos panos nos quais seus artesanatos se encontram. Essa sensação de invisibilidade foi confirmada pelas mesmas. Elas dizem se sentir desrespeitadas e ignoradas pelos não indígenas e sentem ter sua inteligência subestimada, por conta da dificuldade na comunicação com a população e da série de comentários maldosos e


preconceituosos que ouvem. Foi possível observar também que das poucas pessoas que se aproximavam delas, eram quase sempre outras mulheres que conversavam um pouco, doavam moedas, alimentos e roupas, sendo que poucas pessoas de fato compravam seus artesanatos. Na maioria das vezes, há mais gente insultando essas moças que se sentem totalmente vulneráveis. É possível notar na fala das pessoas como elas julgam os indígenas sem ao menos tentar entender a situação dos mesmos, que por muitas vezes acabam sendo esquecidos pelo governo. Esse julgamento dá a impressão de que,

aconteça o que acontecer, essas mulheres nunca terão a oportunidade de sair dessas condições e nem de se encaixar na nossa sociedade. Existe também um estereótipo ligado à aparência do índio, onde índio “deixa de ser índio” quando vem para o território urbano, pois a natureza é quase sempre uma assossiação imediata no imaginário nacional. Segundo dados recentes do IBGE, mais da metade dos índios brasileiros vive atualmente em território urbano. No entanto, eles permanecem invisíveis ao poder público e lutam para ter acesso aos diretos básicos garantidos aos indígenas pela Constuição brasileira.


Jornal De Floripa  
Jornal De Floripa  
Advertisement