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GRUPO ENERGIA E SUSTENTABILIDADE - GENS ENTREVISTA COM ANDRÉ TRIGUEIRO


André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ onde hoje leciona a disciplina “Geopolítica Ambiental”, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor dos livros “Mundo Sustentável 2 – Novos Rumos para um Planeta em Crise” (Ed.Globo, 2012); “Mundo Sustentável - Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Ed.Globo, 2005) e “Espiritismo e Ecologia”(Ed.FEB, 2009); Coordenador editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no século XXI” (Ed.Sextante, 2003). Durante 16 anos foi âncora e repórter do Jornal das Dez da Globo News. Desde abril de 2012, vem atuando como repórter do Jornal Nacional e colunista do Jornal da Globo onde apresenta o quadro “Sustentável”, especialmente criado para ele na Rede Globo. É editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News, comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro.

Em 2012 a nossa atual Constituinte completou 24 anos de vigência. Entre outros direitos, consagrou como humano fundamental o direito ao meio ambiente equilibrado. Sediamos importantes conferências da Organização das Nações Unidas, a exemplo da Rio-92 e da Rio+20. Diante desses acontecimentos, nós brasileiros, temos algo de concreto a comemorar?

Sim. Em primeiro lugar, o fato de termos conseguido colocar na Carta Magna marcos regulatórios que ajudaram a nortear boa parte das políticas públicas que, sob o ponto de vista jurídico, são muito bem consolidadas e amarradas. E nesse contexto, ressalto a importância do ex-deputado Fábio Feldman, constitucionalista que atuou de forma relevante nesse processo. O Brasil tem uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo, tal fato tem por justificativa a de termos sediado duas das maiores Conferências da ONU. A Rio- 92 foi ponto de chegada de vários processos de negociação que resultaram: na certidão de nascimento do Protocolo de Quioto (acordo do clima) e na certidão de nascimento do tratado da Biodiversidade que, apesar de ter sido assinado na Goya há um ano, só foi discutida para valer aqui no Brasil. Nós projetamos para o mundo uma expressão que, até então, não era utilizada - o desenvolvimento sustentável. Por mais que cada um se aproprie e tente explicar a seu modo o que isso significa, passou a ser consensual que o mundo precisa pensar o que seria esse desenvolvimento mais sustentável.

A gente começou a ter, de forma quase compulsória, a necessidade de um Ministro, de um Secretário Estadual e de um Secretário Municipal específico para o Meio Ambiente que, até então, era Secretário Especial de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca. Políticos, hoje, não conseguem se eleger, no Brasil, se não falar nesse assunto. Se não por convicção por conveniência, ele tem que ter algum projeto para isso.

No meio empresarial passou, igualmente, a ser uma norma que deverá ser respeitada compulsoriamente. Quanto maior a empresa mais importante é ela ter um relatório de sustentabilidade, procurar certificações, selos, se qualificar, principalmente se for uma player do mercado globalizado, para atender não aquilo que acha que deve ser o certo ou que o país de origem acha que deva ser o legalmente correto.Atualmente, você não vende aço brasileiro para japonês ou europeu; você não vende soja brasileira para fora se não tiver, realmente, comprovado que se utilizou de meio de produção ético e sustentável. Temos, portanto, do ponto de vista cultural esse processo que é complexo e dinâmico. Mas está em andamento uma mudança que, em última instância, é cultural. É uma visão de mundo diferente, que não entende mais meio ambiente como sinônimo de “bichinho” e floresta, de flora e de fauna. A questão ambiental poderia ser descrita como eixo matricial de todas as políticas públicas e de todos os cuidados de um empresário que se pretenda ser bem sucedido.


A venda de carros novos, no Brasil, teve um aumento assustador em 2012. Tudo isso, reflexo da redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) que nesse caso, estimula o consumismo, principalmente, pelas classes “c”, “d” e “e”. Enquanto isso, o atual paradigma sustentável de desenvolvimento preconiza o consumo necessário, ou seja, ter o suficiente. Como conciliar dois (2) contextos paradoxos: o crescimento das classes “c”,”d” e “e”, que almejam o conforto das classes privilegiadas, com a busca de práticas sustentáveis?

Não é fácil, mas é necessário! Em primeiro lugar, me parece equivocada a maneira como o Governo Federal vem estimulando facilidades crescentes para que o brasileiro possa ter um carro. É controversa a tese de que o setor automotivo é absolutamente estratégico para a economia e que quanto mais se incentiva a fabricação e venda de carro, no Brasil, melhor será para a sociedade. Já há economistas questionando essa relação custo x benefício que penderia em favor do setor automotivo, por exemplo, quando se faz a conta da perda da mobilidade urbana e devo informar que esta conta já foi feita! O Secretário de Planejamento de São Paulo estima que o déficit anual seja superior a R$20 bilhões de reais. Esse prejuízo incide de forma direta na impossibilidade de fazer com que as artérias da cidade sejam fluidas. Nesse contexto, questionamos: quanto custa não poder ter socorro imediato no caso de uma urgência médica? Quanto custa os motores andando a marcha lenta, emitindo mais poluentes, gerando um maior efeito colateral sob a saúde de quem está inalando as toxinas e os venenos presentes na fumaça? O Dr. Paulo Saldiva, pneumologista da USP, diz que o paulistano em média vive dois (2) anos menos do que poderia por estar imerso nessa cultura de fumaça com todos esses venenos. A gente está falando de pelo menos 4 mil óbitos precoces por ano. Quanto custa a exposição à violência que aumenta em área engarrafada em algumas cidades nos tornando prezas fáceis e vulneráveis? Portanto, não me parece feliz a declaração do nosso Ex-Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que entendia que todo brasileiro deveria ter o seu “carrinho”.

Se isso acontecer a qualidade de vida de cada brasileiro vai cair drasticamente. Enfim, precisamos rever, mensurar, mapear melhor aquilo que significa reduzir o IPI de um setor da economia, cujos efeitos colaterais já são visíveis e mensuráveis. Temos que prestar atenção nas notícias de que as classes “c”, “d” e “e”, especialmente a classe “c”, vêm alcançando melhores condições financeiras, inserção na economia e na sociedade de consumo. Essa notícia é ótima, ela não é ruim! O desafio que está colocado para nós é o seguinte: a pegada ecológica da humanidade, hoje, já ultrapassou com sobras a capacidade de suporte do planeta. Os relatórios produzidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), entre outros relatórios, convergem na mesma direção: ou corrigimos o mundo, ou vamos sucumbir diante do colapso dos ecossistemas que provém à humanidade naquilo que demandamos crescentemente - água, matéria-prima, energia. “Os meios de produção e de consumo são os grandes vilões ambientais do século XXI. Portanto, sabendo usar não vai faltar!” Essa não é uma questão política, não é uma questão filosófica e nem religiosa, é científica. Isto posto, precisamos buscar um ponto de equilíbrio na nossa relação com o consumo. Esse, por sua vez, favorece e é fundamental à vida. Nenhum de nós devemos nos sentir culpados por consumir. “O problema é o consumismo, pois o sufixo “ismo” alude a desperdício ou excesso”. E aí, o ponto de equilíbrio sob a ótica teórica é desacelerar o consumo das classes “a” e “b”. Isso não aconteceria por imposição ou censura, mas por educação. É não ser mais fashion você ostentar marcas para a promoção social. Isso passa a ser entendido como algo pernóstico e infeliz de uma pessoa que não está antenada, mas sim alienada da realidade que é certa. Esse é o processo que está em curso: o do constrangimento das classes “a” e “b” que ostentam, de forma avassaladora, poder de consumo. O Ministério do Meio Ambiente em parceria com Ministério da Educação publicou uma cartilha, em meados de novembro de 2012, onde procuram disseminar valores do consumo consciente para crianças. Ou seja, todos nós devemos ter plenos direitos de consumir o que desejamos desde que, a gente entenda que o consumo é um ato político.

Todo objeto, todo bem que você adquire, produto ou serviço, tem uma história. Essa história precisa ser conhecida, ou seja, quem fabricou? De que maneira fabricou? Que pegada ecológica deixou? Respeitou as leis trabalhistas? Tem mão de obra escrava ou mão de obra infantil? Desmatou ilegalmente? Que meio de energia usou? A partir daí, podemos decidir se vamos ou não ser um colecionador de bens. Ficou claro, para mim, que colecionar qualquer sapato, relógio, óculos, ipad, ipod, “ai ai”, o que for, estou colecionando pedaços da natureza, de um planeta que é um só e que os recursos são finitos.

Ninguém precisa ditar regras para quem quer que seja, pois é dever do Estado mobilizar os recursos ao seu alcance para que professores e educadores instruam a nova geração de consumidores em relação ao mundo em que vivemos. Portanto, temos duas (2) opções: ou “abrimos os olhos” e respeitamos os diagnósticos que existem e prestam preciosos elementos de convicção de que vivemos em situação de risco iminente, de colapso e de escassez; ou vamos em direção àquilo que o Gerald Diomond ( autor americano do livro “Colapso: como as sociedades escolhem sucesso ou fracasso”) identificou: “a razão pela qual diferentes civilizações do passado, em diferentes momentos da história, em diferentes lugares do mundo simplesmente deixaram de existir. Maias, vikings, os ilhéus de páscoa deixaram de existir, sumiram do mapa quando deixaram de ser sustentáveis, ultrapassaram a barreira psicológica do limite da razoabilidade, do processo de obtenção de recursos naturais sem prejuízo na resiliência do ecossistema”. E ainda, Diomond aponta com muita clareza: “ o que aconteceu nessas civilizações do passado, numa microescala ,hoje, observa-se que ocorre globalmente num movimento “ecocida” de desenvolvimento”.

No Brasil, um dos maiores problemas é o tráfego e uma das saídas apresentadas em seus trabalhos é a mobilidade sustentável. Em contrapartida, passamos por um momento de grave insegurança pública e o uso das bicicletas nos deixaria mais vulneráveis. Diante disso, como disseminar essa ideia?

Transporte sustentável é transporte de massa, eficiente, barato e rápido. A bicicleta é uma boa ideia, pois uma pesquisa feita no Brasil constatou que um raio de 6km é uma distância muito facilmente percorrida de bicicleta. O desafio que está colocado é o seguinte: esquece a bicicleta, pense na relação motorista x pedestre e no respeito as leis de trânsito. O Brasil registra uma realidade de guerra de motoristas nas estradas e no ambiente urbano. É um massacre de pessoas. Ostentamos indicadores recordes no mundo. Até uma das vezes que acessei esses dados, liderávamos o ranking de mortalidade por acidentes de carro. Então, antes de falarmos de bicicleta, vamos estabelecer um pacto: é preciso desenvolver regras para salvaguardar os motoristas e pedestres.

O Código Nacional de Trânsito estabelece uma hierarquia quando garante a prevalência dos pedestres nas vias públicas. O motorista vem depois. Portanto, ciclofaixas e ciclovias são indispensáveis e devem ser respeitadas. Multas “draconianas” devem ser aplicadas para quem desrespeitar a ocupação desses espaços. Será o ponto de partida para adaptação desse modelo de gestão da mobilidade. Quando começaram a multar no Brasil o motorista sem cinto, todo mundo ‘bonitinho’ com a faixa no peito e uma redução drástica nas internações e emergências que saturavam os hospitais das redes públicas. O “jeitinho brasileiro” não pode ter vez nas leis no trânsito.


Em relação às políticas de incentivos relacionadas às práticas socioambientais, temos o IPTU “verde” que, representa um estímulo para uma transformação no comportamento das pessoas. Isso é uma prova de que a solução para a sustentabilidade é, sobretudo, a cooperação?

A solução econômica. Quem diz isso é o André Lara Resende (ex – diretor do Banco Central do Brasil e um dos integrantes da equipe econômica que elaborou o Plano Real); Sergio Besserman Viana (ganhador do Prêmio BNDES de Economia em 1987) quando afirma que “essa virada na direção de modelo sustentável de desenvolvimento passa a partir da precificação justa do que a gente faz circular na sociedade de consumo”; José Eli da Veiga e Ricardo Abramovay, ambos da USP; Ladislau Dowbor da PUC-SP, que afirma “crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa”. Isso tem a ver e tem link com o IPTU “verde”, pois esse reconhece que quem cultiva seu espaço “verde” ajuda a climatizar e melhorar a cidade. Logo, não tem que pagar por isso, merece ser estimulado a manter. Besserman coloca com propriedade gastando o “economês”: “a gente precisa precificar o que, hoje, é considerado uma externalidade”.

Por exemplo, quanto custa o litro da gasolina? O método utilizado pela economia vai do poço ao posto (extração, refino, transporte, margens de lucro dos diferentes núcleos da cadeia) e chega-se ao valor de R$ 2, 82. Mas, o que está faltando embutir? Os custos dos impactos gerados pelo veículo, a partir do momento em que ele transforma esse litro de gasolina em fumaça. Isso não é de graça. Ou melhor, o beneficio é privado e o dano é democratizado e socializado, ou seja, todo mundo paga.

É a mesma lógica do alemão que vai fazer uma compra no supermercado e paga pela sacola por ter esquecido a dele. De acordo com o raciocínio do Governo Alemão, vai pagar por ter esquecido a “sacolinha”, pois não termos certeza do destino dessa. Ou vai entupir bueiro, galeria de água pluvial ou vai ser engolido por algum bicho e o alemão não gostaria que ele morresse asfixiado. É uma perda do capital natural, sobraram poucos do que tem, então vamos manter.

O Sistema Interligado Nacional é caracterizado por grandes falhas, susceptíveis à perdas elétricas, pois a energia perfaz um longo caminho até os locais de consumo. Será que a microgeração, regulamentada em abril/2012 pela resolução 482 proferida pela Aneel, é a solução para garantir maior segurança na rede e uma grande aliada para comercializar as renováveis?

Respeito os especialistas no assunto que apontam o lado bom do sistema interligado. Ao mesmo tempo em que apresenta fragilidade traz, também, benesses. Apresenta predicados e vulnerabilidades. A microgeração é inevitável, ou seja, apontada por especialistas que fazem prospecção de cenários sobre como a matriz energética se resolve em médio e longo prazo. Falam de uma realidade a qual o Brasil avança. Já temos a transformação de relógios analógicos pelos digitais, a possibilidade de mapear os desperdícios, monitoramento online, tarifa diferenciada que estimula o consumidor a não tomar banho de chuveiro elétrico, ou seja, concretiza o direito à informação do consumidor, pois ele saberá como ganhar e saberá quanto ganha. Sob o ponto de vista macro, estimula o consumidor a ser produtor e isso é inteligente, é justo, mas o Brasil chega atrasado nessa história.

Na Alemanha, em 2006, conheci um mestre de obra plantador de canola, cheio de placas fotovoltaicas em seu quintal. Aqui, já temos uma política que a distribuidora remunera o excedente produzido pelo consumidor com uma tarifa média acima daquela que ela cobra para as pessoas. Como funciona? Estou conversando com você em um dia ensolarado, se possuísse uma casa na região dos lagos (Rio de Janeiro) com um gerador do tamanho de um ventilador de teto, eventualmente, minha conta chegaria à zero ou perto disso.

O petróleo é uma matéria - prima que exerce forte influência no cenário econômico. Mudanças significativas aconteceram nos últimos anos, a descoberta da camada pré-sal é um exemplo. O Brasil investe milhões em tecnologias para sua extração visando integrar a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Estamos diante de um retrocesso em tempos de sustentabilidade? Não seria a hora de alavancar outras fontes?

No Brasil, as queimadas é a principal fonte de emissão de gases causadores do efeito estufa. Temos um cenário de desaceleração do desmatamento e um incremento de combustíveis fósseis na matriz. É intrigante imaginar que enquanto o mundo se encontra em um processo de “botar o pé no freio”, reconfigurando os processos para não emitir CO2, a gente passa ser da OPEP. Complicado isso! O Brasil descobriu a fonte de energia certa no século errado. Mas, não há como não explorar o pré-sal. Marina Silva, ambientalista, quando era Ministra comungava desse mesmo raciocínio. O mundo ainda é muito dependente de combustíveis fósseis. Abre-se uma oportunidade para o Brasil, a partir da exploração desse recurso. Porém, destaco alguns problemas, vejamos: 1. Os novos talentos estão sendo atraídos para trabalhar na Petrobrás promovendo inovação tecnológica do “velho”. Vamos ter a expertise de uma fonte de energia que até o final do século não terá o mesmo valor e prestígio. Tem um ditado que diz o seguinte: “a idade da pedra não acabou por falta de pedra”. A idade do petróleo não acabará por falta de petróleo, acabará antes. O mundo aposta uma corrida tecnológica. Países da Europa, China, Estados Unidos estão atraindo a garotada, jovens talentos, com investimentos estratégicos para que se descubra, a partir de fontes não fosseis, energia firme e em escala; 2. O marco regulatório do pré-sal é “esquisito”. Ainda está sendo feito de forma atabalhoada, açodada e houve um grande apelo político em relação às benesses, não só do pré-sal, mas de todo o nosso sistema de resposta a desastres.

Eu fiz uma série no início de 2012 - “Risco e riqueza” para o jornal das dez. Nós mapeamos, ouvimos as pessoas certas, inclusive o engenheiro Segen Stefen, da UFRJ. A Petrobrás acionou o departamento dele para fazer pesquisas e ver a forma mais segura de explorar o petróleo nessa profundidade. Stefen, sem preocupação alguma em causar constrangimento a quem está lhe pagando, afirma que: “Não basta o Brasil ser uma potência no setor de petróleo, precisamos ser reconhecidos internacionalmente por um nível de excelência na área de segurança e nós não temos isso”.

Então, o Tribunal de Contas da União, dias atrás (li em uma reportagem do Estadão) rastreando informações oficiais da Agência Nacional do Petróleo (ANP), descobriu que funcionários da ANP só conseguiram estar presentes, in loco, em menos de 4% dos vazamentos em alto-mar, registrados no intervalo de um ano. Quer dizer, não temos infraestrutura, não temos logística, não estamos acionando todos os dispositivos que possam aferir credibilidade a protocolos seguros de exploração do petróleo na camada pré-sal. Isso não quer dizer que a Petrobrás seja uma empresa que não está investindo em segurança e meio ambiente. Mas quando você faz exploração em águas profundas (vide o que aconteceu aqui na Bacia de Campos em dois acidentes consecutivos) você vai ter a Petrobrás e duas ou três empresas terceirizadas assumindo diferentes etapas do processo exploratório. Portanto, somos vulneráveis quanto a desastres. Legalmente, a Petrobrás sempre vai ser responsável, independente do campo ser dela. Não importa se foi a BP ou outra empresa que estava associada. Porém, destaco que, são elos diferentes da cadeia, com salários diferentes e muitas vezes realizando as mesmas funções. Então, temos um problema enorme que expõe o Brasil ao risco do acidentes. É muito complexa a exploração em águas ultraprofundas. Toda a logística de exploração e transporte é complicada. Quem detectou o acidente causado pela empresa americana Chevron que foi conseqüência de imperícia? A Petrobrás. O Ministério Público Federal denunciou as empresas Chevron, Transocean e mais 17 pessoas por crime ambiental e dano ao patrimônio público por causa do vazamento de petróleo no Campo de Frade, da Bacia de Campos, em novembro de 2011.


Mesmo com políticas públicas voltadas à concretização do direito universal ao acesso a energia elétrica, a exemplo da Lei que criou o Programa “Luz para Todos”, percebemos que, em pleno século XXI ainda existem pessoas sem o acesso a esse recurso. Fora do alcance do sistema interligado, fator que dificulta a propagação de energia em lugares remotos e isolados, pode-se apontar as energias renováveis, em especial a solar, como solução para a pobreza energética, aliando acessibilidade e sustentabilidade?

Cada caso é um caso. O Brasil é um país de dimensões continentais. Eu já visitei uma aldeia de pescadores nos arredores de Parati (Rio de Janeiro) que não dá para chegar lá a não ser de helicóptero ou barco. Eles possuem uma “plaquinha” fotovoltaica que “quebra um galho” e ajuda. Na Amazônia foram realizados projetos de instalações de placas fotovoltaicas em comunidades ribeirinhas e afastadas, mas nem sempre funcionam bem e chega até ser uma imagem estranha, pois temos em casas humildes placas fotovoltaicas (sinônimo de arrojo tecnológico). Não é fácil pensar na inclusão de quem, hoje, não tem luz no Brasil que são, invariavelmente, pessoas que vivem afastadas das redes de transmissão. Essas, como são reféns do diesel, estão à luz de velas. De qualquer maneira, o Brasil avançou muito e eu acho que estamos na direção certa. Não sei se um dia chegaremos a 100%, pois é difícil, tendo em vista que somos “muito grande”. É um baita desafio logístico saber qual a fonte ideal a ser instalada em local remoto que supra a falta de energia. Pagamos um alto preço!

Combater o consumismo e agir com inteligência para alcançarmos a eficiência são as “pedras de toque” do desenvolvimento sustentável?

Primeiramente, quero lembrar o que disse o Roberto Scheffer: “a melhor energia é a que a gente não usa”. Comentase muito sobre transmissão, geração e pouquíssimo ou nada sobre eficiência. Eficiência é fundamental, pois desonera o estado de ficar nessa correria de licenciamento mal feito e açodado na procura de fontes geradoras. Precisamos de mais fontes, mas a gente usa “mal a energia”.

“O setor automotivo, não aceita etiquetagem compulsória. E isso é ausente no discurso dos gestores”.

Aprendemos a fazer uso do necessário no período do apagão. O que temos que aprender agora é racionar fora do período de crise. Primeiro, que nós consumidores ganhamos com isso. A tendência, em que pese toda a influência estatal, é o preço da energia “cair”. Portanto, o inteligente é não abusar e praticar a cultura do consumo consciente. Nesse contexto, a divulgação da eficiência energética faz parte do pacote. Ou seja, consumo racional é inteligente e eficiente. É isso!

GRUPO ENERGIA E SUSTENTABILIDADE - GENS


Entrevista