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G.S.K. Silva Araujo

1ª Edição 2018


© 2018 Todos os direitos reservados.

Revisão por Morgana Brunner Capa por Géssika da Silva Araujo

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-Prólogo-

ERA UM DIA CHUVOSO, COMO NORMALMENTE ERA TODO DIA DE Finados. O cemitério Campo da Esperança fica muito movimentado nesta data, independente se chove ou não. Provavelmente isso acontece em todo Brasil, ou em todo mundo, talvez seja com um ânimo diferente no México, afinal lá, esse é um dia de festa. Mas para Lúcia... Para ela, assim como para a maioria dos brasileiros. Esse era um dia de luto. Pessoas entravam e saiam do cemitério. Floristas vendendo coroas, buquês e diversos outros ornamentos floridos, estavam por todo canto. Mas Lúcia estava parada, na frente do cemitério. Ela odiava entrar em cemitérios. Nunca se sentiu bem lá dentro e desde que passou a ter autonomia sobre seus atos, ela deixou de ir aos funerais que sua mãe tanto insistia que comparecesse. Mas dessa vez, o funeral era de sua própria mãe. Michele dos Anjos sempre foi uma mulher muito devota a sua crença. Não era uma católica fervorosa, muito menos uma evangélica praticante ou pertencente a qualquer outra vertente religiosa polarizada. Ela simplesmente acreditava no amor de Deus, e esse amor, para ela, já bastava. Teve uma vida dura, casou-se muito nova, pois temiam que ela nunca arrumasse um marido por ser infértil. Mas sua bondade e delicadeza, em tratar todos com o mesmo amor que o Criador tinha pela criação, foi recompensada com uma filha. Engravidando quando tudo indicava que aquilo era impossível. Aquela criança foi a luz que a manteve firme e na trilha certa, mesmo após a morte de seu marido. Lúcia foi o seu pequeno milagre.


Mas agora, Michele estava morta. E sua filha, só. Lúcia era uma moça com já seus vinte e sete anos, apesar de aparentar ter uns cinco anos a menos. Era bonita e atraente, mesmo com as curvas de seu corpo sendo modestas e recatadas. A pele clara por conta da pouca exposição ao sol, ressaltava o tom negro de seus longos e volumosos cabelos cheios de ondas, que ela fazia questão de deixar solto, como sua mãe gostava. Mas apesar de possuir a beleza de uma modelo, Lúcia não gostava de chamar atenção para sua aparência, sempre preferindo vestir roupas folgadas e sem decotes, como a camisa cinza com estampa de gatinho que vestia na ocasião, junto de uma calça jeans básica. A única coisa que realmente chamava atenção para a moça que estava parada na entrada do cemitério, eram seus olhos, extremamente azuis e radiantes, como duas gemas de safira. A família de Lúcia era muito pequena, e infelizmente, o câncer havia ceifado a vida de sua mãe, pai e avós. É bem verdade que ainda tinha outros parentes vivos, e muito bem de saúde, mas eram todos muito distantes. Exceto Suelen, a única prima com quem ainda mantinha contato, mesmo após ela ter se casado com um embaixador da ONU e se mudado para a grande São Paulo. Ela gostava muito da prima e aparentemente, Suelen também gostava muito de Lúcia, a ponto de chamá-la para ser madrinha de seu filho, Heliot, o afilhado-sobrinho que ela também gostava muito. Na verdade, Lúcia os amava, assim como amou seus pais. Começou a chover. E Lúcia continuava na entrada do cemitério, sem entrar ou sair. Eis que então, um grupo de pessoas com guarda-chuvas começou a sair do local. Uma mulher se destacou desse grupo e foi em direção à Lúcia. Era uma mulher de porte mediano, vestida com um sobretudo fino e elegante. Sua pele também clara e os cabelos negros, como os de Lúcia, porém os da mulher estavam curtos, em um corte Chanel. A diferença mais marcante entre as duas eram os olhos. Pois além de Lúcia possuir olhos unicamente intensos, a mulher que se aproximava tinha olhos amarelos como âmbar. Além de possuir seios claramente mais volumosos, porém não exagerados, apenas indicando uma mulher que já teve de amamentar uma criança. — Lúcia! — gritou a mulher de olhos cor de âmbar, correndo na direção da outra que estava parada na chuva. — Menina sai dessa chuva, vai acabar se resfriando. — Ela também falava isso. — murmurou Lúcia. — Oi? Não consegui ouvir o que disse. — Foi nada, Suelen. — disse a mulher de olhos azuis para outra, que lhe entregava um guarda-chuva. — O funeral acabou? — Sim. — respondeu Suelen um pouco sem jeito. — Acho que ela diria que foi lindo. — Que bom. — O rosto de Lúcia parecia seco e sem sentimento, mas por dentro, ela era um turbilhão de emoções. — Obrigada por ter vindo, sem você eu não sei se teria conseguido cuidar disso.


— Não fique assim Lúcia. É claro que eu teria vindo, você me pedindo ou não. — Elas começaram a se mover para sair da frente do cemitério, que agora tinha um grande volume de pessoas saindo por conta da chuva. — Sabe que eu gostava muito da tia Michele. Só lamento não ter conseguido vir antes que ela falecesse. As duas seguiram em silêncio até o carro, que não estava estacionado muito longe. Seguiram para a residência de Lúcia, uma casinha simples na Asa Sul de Brasília. Haviam poucas casas simples como a dela nessa região, pois a maioria das pessoas pareciam gostar de ostentar e construir casas enormes. Mas a família de Lúcia sempre foi muito humilde e bem simples. A casa não era das maiores, mas sem sua mãe, para Lúcia, a casa agora parecia gigante. E assim que entraram na casa, ela começou a chorar. — O que foi querida? — perguntou Suelen colocando a mão sobre o ombro da prima. — Eu não sei cozinhar... — falava Lúcia sem parar de chorar. — Era ela que cozinhava para as visitas... Ela arrumava o quarto de hóspedes... Mudava a decoração de acordo com a visita... Ela adorava receber visitas, principalmente, a sua... — Vem cá, Luci. — disse a prima abrindo os braços para abraçá-la. — Vai. Chora. Você precisa desabafar. — Eu não consegui Suelen, eu tentei, mas não consegui me despedir. — A cada palavra, Lúcia parecia chorar cada vez mais. — Não fica assim, meu anjo. Talvez tenha sido melhor assim. — Suelen alisava o cabelo comprido e ondulado da prima que chorava em seu ombro. — Ao menos a última memória que você terá, é a dela bem. Eu não tive essa sorte quando meus pais se foram. — Me desculpe. Lúcia se afastou do ombro da prima e secava as lágrimas com a manga do casaco, que ainda estava úmido por ter ficado alguns minutos embaixo da chuva. — Estou sendo egoísta. — Que nada. — afirmou Suelen dando tapinhas nas costas da prima. — Você só está passando pelas etapas do luto. Isso vai passar. Como havia semanas que ninguém cozinhava em casa, a geladeira e a dispensa estavam vazias. Como solução, Suelen levou a prima para almoçar no shopping que ficava perto de onde Lúcia morava. Comeram e passearam pelo shopping, tendo parado a chuva, foram dar uma volta no Parque da Cidade. Suelen sabia como era doloroso perder os pais, e estava fazendo o máximo para confortar a prima, tentando fazê-la esquecer a tristeza. Ficaram a tarde inteira no parque, andando e vendo a vida que se seguia naquele dia de feriado. Ao entardecer, voltaram ao shopping para comprar comida para o jantar, escolheram um yakisoba para viagem e voltaram para a casa de Lúcia. Chegando em casa, Suelen teve a brilhante ideia de fazer uma mini festa do pijama, algo que não faziam desde a adolescência. Lúcia se animou com a ideia e após


alguns minutos de organização, empurra e empurra de móveis, o chão da sala havia se tornado uma grande cama. De pijamas, meias, comendo yakisoba e assistindo desenhos da Disney, as duas relembraram a própria infância e adolescência. Relembrando histórias e situações engraçadas, onde Suelen se metia em problemas e Lúcia tentava salvá-la de alguma forma. Era mais hilário relembrar tais histórias, quando se observava o fato de que Suelen é quem era a mais velha. Podiam ser primas, mas eram na realidade como irmãs, não é à toa que Lúcia havia sido a primeira opção de madrinha para o filho de Su (antigo apelido de infância que relembraram com as histórias), mesmo que ainda fosse muito nova na época. — Então, pensou no meu convite? — Su dava a última garfada em sua comida. — Sobre me mudar para São Paulo? — Lúcia já preferia comer o macarrão oriental usando hashis. — Sim, pensei. — E então, já tem uma resposta? — Não tenho certeza. — Aí mulher. — resmungou a morena ajustando a franja com os dedos. — Porque você é tão indecisa pra tudo? — Não sou indecisa pra tudo. — respondeu a prima emburrada. — Só pra maioria das coisas, né!? Principalmente, quando dizem respeito a sua vida. — Mas é que não tenho certeza se é a melhor coisa a se fazer. — respondeu Lúcia acanhada. — Mas é ÓBVIO que é a melhor escolha. — Suelen era pura energia agora. — Uma boa casa, um bom emprego, e olha só, vai ficar mais perto de mim e do Heliot! — Mas e seu marido? Ele não vai ficar incomodado... — Que besteira menina. — interrompeu a prima. — A ideia foi dele. Por passar maior parte dos meses fora do país, por conta do trabalho, ele achou que faria bem para mim e para o nosso filho, ter mais alguém da família próximo. — parou para beber um pouco de refresco de caju. — E se você ficar aqui sozinha, vai ser muito badvibe. — Talvez você tenha razão. — ponderou Lúcia pegando as tigelas de yakisoba vazias e levando-as para a cozinha. — Mas acha que consegue me colocar no corpo docente da escola? — Menina, eu sou a diretora. — Suelen estufa o peito ao falar com orgulho de seu trabalho. — É claro que consigo. Mas não vou se quer precisar mover pauzinhos pra isso. Você é uma boa professora de artes, e tem carisma. Os alunos vão te adorar! — Acha mesmo? — A moça voltava para a sala com um pote cheio de guloseimas. — Mas é claro! Nossa prima, como você tem pouca fé em si mesma.


— Não é isso Su. É que nunca lecionei para turmas do colegial, só fundamental. — Não se preocupe com isso, vai dar certo. — A prima colocou um marshmallow na boca. — Ah! Eu ainda pesquisei sobre a Pós que você tinha dito que queria fazer. Encaixa direitinho com seus horário de professora, além de caber no orçamento. Apesar de que você sabe que se quiser, podemos pagar sua Pós, não nos seria um problema. — Não. — disse Lúcia balançando a cabeça. — Não quero parecer um parasita. Pago minhas coisas com meu salário, não se preocupe. — Não tô preocupada. Só acho teimosia da sua parte. Suelen pegou um travesseiro e bateu na cabeça da prima, que deixou a tigela de guloseimas cair. Soltando rapidamente o travesseiro, a morena se moveu o mais rápido possível para pegar vários dos doces para colocar tudo de uma vez na boca. — Nossa, quanta maturidade... — resmungou Lúcia catando os doces caídos no colchão em que estavam. — Soum mummitom maamdura. — respondeu Su de boca ainda cheia. — Tô vendo. Terminando de mastigar os doces, Suelen sorriu para a prima, pois ela queria apenas animar Lúcia, de qualquer forma que fosse preciso. — Então, vai aceitar vir morar conosco? — disse Suelen ainda sorridente. — Casa, emprego, estudos e quem sabe um namorado? — Aí, não Suelen, não começa. — Lúcia pegou o travesseiro ao seu lado e envolveu a cabeça para tentar abafar o que a prima falaria a seguir. — Mas você precisa de um, minha prima! Você vai fazer vinte e oito anos e nunca teve um namorado sequer. Isso é preocupante! — O tom de Su era de fato de preocupação. — Você não é feia. Na verdade daria uma bela modelo, apesar de só ter um metro e sessenta e nove. — E o que beleza tem a ver? — Tem muito a ver! Devia tá chovendo homens (ou mulheres) na sua vida. Beleza como a sua chama atenção, sabe!? Principalmente, esses seus “Olhos de Safira”. Lúcia ficava corada quando a prima usava esse velho apelido. A moça entendia a preocupação da prima, mas ela tinha de entender que nem todos viam relacionamentos amorosos da mesma forma. Lúcia era do tipo que levava a sério esse tipo de coisa. Por isso já havia rejeitado muito pretendentes, pois nenhum realmente havia lhe tocado o coração como ela esperava e da forma que ela queria, talvez isso nunca ocorresse. — Tem “chovido” sim. Mas nenhum era o certo. — respondeu Lúcia tímida. — Então. Quem sabe numa cidade diferente, você não encontra a pessoa certa? — disse Su com entusiasmo. — É possível... — disse Luci pensativa. — Então? — A ansiedade pela resposta da prima corroía Suelen por dentro.


Olhando para a prima, Lúcia podia ver o quanto ela se preocupava. A mulher havia pensado em tudo, para justificar a mudança. Mas ela sabia que o principal motivo era retirá-la do local onde todos os dias choraria com saudades da mãe. No entanto, Lúcia não queria deixar para trás a casa que seus pais se dedicaram para conquistar. Se mudando, estaria abandonando o legado que haviam deixado para ela. — Não se preocupe. Não vamos nos livrar dessa casa. Lúcia se assustou ao ver que a prima sabia exatamente o que estava pensando. — Como? — Você não para de olhar para os móveis. — respondeu Su com um sorriso tenro. — Podemos levar alguns deles, se isso lhe fizer bem. Alugamos a casa para que não fique vazia, e ainda sim ela estará disponível para você quando quiser voltar. Temos um amigo advogado que mora aqui em Brasília, ele pode cuidar da casa. — Você realmente pensou em tudo, né? — disse Lúcia começando a ficar com a voz chorosa. — Só não queremos que fique sozinha, quando pode ficar com o que ainda lhe resta da família que te ama. Lúcia abraçou a prima e começou a chorar novamente, em parte pela felicidade de ter uma prima que a amava tanto a ponto de se preocupar com ela, e em outra por ter que se despedir do lugar que tanto lembrava sua mãe. — Eu vou. — falou em meio às lágrimas. — Vou morar com vocês em São Paulo. — Fantástico! Ainda bem que vim com a Grand Cherokee, daí já posso voltar com você e suas coisas. — Realmente você já estava planejando tudo isso, né? — Lúcia secava as lágrimas. — Mas é CLARO! Que tipo de profissional eu seria se não tivesse todos meus planos já pré-definidos? — Novamente a prima estufou o peito orgulhosa de si. — Já tenho até sua festa de aniversário planejada. — Mas é só em janeiro. — E daí? Nunca é cedo para um bom planejamento. — Suelen sorria divertida com o espanto da prima. Apesar de ter começado o dia com a maior tristeza do mundo, Lúcia dormiu feliz naquela noite, pois sabia que não estava sozinha e poderia sempre contar com a prima. Ficaram ainda mais uma semana em Brasília, arrumando a mudança e regularizando a transferência profissional de Lúcia para São Paulo. Como faltavam poucas semanas para o fim do ano letivo, não foi muito complicado, e bastou apenas instruir o novo professor sobre a avaliação final dos alunos, que seria em conjunto com a avaliação de História, então o novo professor não estaria sozinho para resolver essa pendência.


A viagem para a capital paulista foi tranquila, apesar das estradas mal cuidadas de Goiás. Haviam alguns pedágios em algumas rotas, que garantiam uma estrada de melhor qualidade, mas não eram muitos, a maior parte da viagem foi em estradas geridas pelo estado, que infelizmente não eram todas que estavam bem conservadas. Durante a viagem, Lúcia pensava em como poderia ser seu futuro na cidade grande. Traçava metas, expectativas, mas nada muito diferente do que já havia planejado para si na vida em Brasília, dessa vez, ela apenas teria mais opções.


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AO CHEGAR EM SÃO PAULO, AINDA TINHA UM BOM BOCADO DE estrada para andar. A capital paulista é enorme, talvez até maior que todo o Distrito Federal. Logo, entrar em seu território não significava que se estava mais perto de seu destino. Pelo menos, não pelas próximas quatro horas. O trânsito estava lento e congestionado, como de costume. E para onde tinham que ir, a marginal Pinheiros e suas paralelas, eram o caminho mais curto, porém, por conta do trânsito, não eram exatamente os mais rápidos. A casa de Suelen era na Zona Oeste da capital. Numa pequena região no distrito de Pinheiros, chamada pelos locais de Jardins, provavelmente chamada dessa forma por naquelas imediações terem várias regiões com a palavra jardim no nome. Era o caso da região onde moravam Suelen e sua família, o local se chama Jardim Europa, a casa fica na Rua Itália, próximo a intersecção com a Rua Inglaterra, ao lado da Praça das Nações Unidas. Lúcia achava esses nomes hilários, tinha sua lógica, afinal, em Jardim Europa, todas as ruas seriam países europeus, e os parques e praças fariam também referência à Europa, mas se você não soubesse a sequência das ruas, ou não achasse um local para lhe informar, provavelmente circularia pela região até achar a rua que deseja ou se perder. O que na opinião da brasiliense, não acontecia em sua cidade. Pois com as sequências numéricas, era possível identificar e prever onde teria de virar para chegar no endereço pretendido. Mas, aparentemente, para quem já está acostumado a perguntar nome de ruas, o sistema de quadras numéricas parecia ser nem um pouco intuitivo, como era para os locais. No caminho Lúcia olhava para a cidade. Já havia visitado São Paulo várias vezes, afinal, era madrinha de Heliot, no mínimo em cada um dos dezessete aniversários do menino ela teve de comparecer, fora Natais, Réveillons, Páscoa, férias de verão e Dia das


Crianças. Olhando por esse lado, até que Lúcia ia com frequência para a capital paulista. Ainda assim, toda vez, a cidade a deixava admirada, tanto de forma positiva como negativa. A primeira coisa que a brasiliense sempre sentia falta, era das zonas verdes com árvores e aves, de diversos tipos passando por ela. Para encontrar isso em São Paulo, você teria que ir diretamente para um parque. Já em Brasília, você encontraria isso em qualquer canteiro, balão, ou mesmo em quadras especificas para preservação do verde na cidade. — Você tem estado quieta nas últimas horas. — começou Suelen puxando assunto. — O que houve? — Sempre me entristeço quando passamos por aqui. — respondeu Lúcia sem parar de olhar para a janela. A cena do lado de fora era o Rio Pinheiros. — Às vezes me pergunto se não seria possível recuperá-lo. — Fala do rio? — Su olhava de instante em instante para o lado da prima, para identificar o que ela estava olhando pela janela. — Já ouvi dizer que existem projetos, mas aparentemente, todos muito caros. Talvez por isso não tenham feito nada ainda. — É triste. Continuaram o trajeto, seguindo para casa. Não estavam muito longe, mas com o trânsito, demoraram bem uns cinquenta minutos para chegar definitivamente. O Jardim Europa já era um pouco mais parecido com Brasília. Era tudo junto e amontoado como maioria das coisas em São Paulo, mas era bem mais arborizado que o resto. Ao chegar em casa, Suelen acionou o interfone para chamar o segurança. Não era sempre o mesmo segurança que ficava na casa, pois esse serviço era oferecido por uma empresa de segurança que o marido de Suelen contratou para si, já que era um embaixador. O segurança da vez se chamava Anderson, um rapaz robusto e alto, uma figura clássica dos brucutus de cinema dos anos oitenta, mas apesar de toda a pose severa de segurança, como pessoa ele era um cara bacana. Entraram no terreno, do estacionamento já era possível ver a fachada da casa, o carro do esposo de Su e a casa conjugada onde moravam Heitor, o mordomo que estava na família do esposo de Suelen há décadas, e dona Guilhermina, esposa de Heitor e governanta. A garagem tinha espaço para alojar uns cinco carros, mas atualmente, só haviam três carros na casa, o carro que Suelen estava usando, o Mercedes-Benz do marido de Su e o Voyage que Heitor usava quando era necessário. E mesmo com os três carros estacionados, ainda ficava um bom espaço vago no quintal na frente da casa. Já aguardando as duas mulheres, Heitor estava na porta da casa. Assim que o carro estacionou, ele se aproximou para cumprimentar a senhora, mas Suelen se adiantou e saltou abraçando o pescoço do senhor alto de mais de sessenta e seis anos, que ainda assim mantinha uma boa forma apesar dos cabelos brancos e cara de avô.


— Olá, tio Heitor! E aí, sentiu saudades? — Dona Su... — respondeu o senhor desconcertado com o abraço da mulher. “Dona Su” era como Suelen havia insistido de o velho Heitor a chamasse. Ela não gostava de ser tratada com formalidades dentro da própria casa, já bastava no trabalho e no círculo social do marido. — Querida Su! — gritou uma senhora aparecendo na porta da casa. — Que saudades minha querida, como foi a viagem? Foi tudo tranquilo? Essa era Dona Guilhermina, uma senhora baixinha e cheinha de cabelos grisalhos. Um amor de pessoa e muito atenciosa, era como uma avó para o filho de Suelen e uma mãe para ela. — Foi tudo perfeito, tia Gui. — respondeu Suelen cumprimentando com abraços e beijos a senhora. — Oi, tia Gui. — disse Lúcia acanhada. — Oh! Lúcia! Meu anjo. — A senhora se dirigiu para abraçar a moça. — Eu fiquei tão feliz quando Su disse que viria morar conosco. Lamento que tenha sido por um motivo tão trágico, mas estou muito contente que tenha vindo. — Eu também tia Guilhermina. — A garota abriu um doce sorriso. — Olá seo Heitor. — Olá querida. Fico feliz que tenha vindo. — cumprimentou o senhor formalmente. Lúcia era mais formal com Heitor, pois ela entendia os motivos dele exigir a formalidade e etiqueta, mas Su e Guilhermina eram muito animadas e passionais para seguirem condutas tão severas dentro do ambiente doméstico. Em seguida, correndo pelo quintal, surgiram dois marmanjos se batendo, em disputa para ver quem chegava primeiro. O único alerta que Lúcia teve da aproximação dos garotos, foi um sonoro “Tia Luci!” que ela ouviu antes dos garotos caírem ao seu lado. — Credo Heliot! Realmente é preciso tanto estardalhaço? — perguntou Suelen ao filho que agora estava estirado no chão. — And começou... — gemeu o garoto ainda caído. — Sabe como são esses dois tia Su. Incorrigíveis. — disse uma garota que se aproximava pelo mesmo caminho que os meninos surgiram feito foguetes. — Olá, tia Luci. — Mya! Oi querida. — respondeu Lúcia enquanto ajudava Heliot a se levantar e a garota ajudava And. Heliot, And e Mya eram amigos há muitos anos, desde a primeira série pelo que se lembram. Moram relativamente próximos, estudam na mesma escola, tinham basicamente a mesma idade, apesar de serem bem distintos em vários outros aspectos.


Heliot tinha os olhos amarelos, cabelo negro e curto como a mãe. Era o de maior sensibilidade artística entre os três amigos. Gostava de música clássica e de pintar quadros. Algo até atípico para um garoto com o porte físico dele, que por sinal, era até bem atlético para um rapaz que só se exercitava nas aulas de educação física. Provavelmente isso era o resultado de uma boa alimentação, ou genética boa, não dava para saber. Já And era quem de fato parecia se preocupar com a questão “atributos físicos”. Perto dele, Heliot parecia um nanico franzino, pois além de mais alto, André (que é seu verdadeiro nome) tinha a musculatura bem melhor desenvolvida que o amigo. Era difícil não comparar o rapaz, de pele parda que denunciava sua ascendência indígena, com um aprendiz de Conan O Bárbaro. Mas, mesmo com todos aquele corpão, And tinha uma inteligência formidável e se dedicava bastante aos estudos. Era o rapaz da tecnologia que estava sempre atrás das novidade do mundo geek e dos games. Sua dedicação ao corpo e aos esportes, era mais um meio de alcançar uma boa faculdade no exterior, onde a carreira atlética poderia lhe garantir uma ótima bolsa de estudos. No entanto, o garoto ainda conseguia ser infantil e brincalhão, quando estava com os amigos. Mya era a mais simples entre os três. Um amor de pessoa. Sempre gentil e educada. Tão enérgica e animada como os amigos, porém ao seu modo, já que ela mais parecia uma bonequinha de pano do lado dos dois marmanjos. Baixinha e sem muitas curvas, Mya vinha de uma família de esotéricos, que ela insistia em corrigir ao dizer que sua família descendia de uma antiga linhagem de druidas. Mas para facilitar sua vida, com o tempo, ela passou a apenas dizer que eram Wicca, já que ninguém entendia o lance de druidas. Os cabelos rebeldes estavam sempre tingidos, naturalmente ela era ruiva, mas ela tinha o hábito de mudar a cor do cabelo a cada estação, para se conectar as cores da natureza. E como era primavera, seu cabelo estava colorido com as várias tonalidades do arco-íris. O que lhe rendera o apelido de “coloridinha” entre as meninas da escola. Terminando a recepção calorosa, Suelen botou os garotos para ajudarem com a bagagem. Os meninos levavam as malas pesadas e Mya uma sacola com fotos e portaretratos. — Querida, esse pode deixar no meu escritório, certinho? Vamos deixar junto das outras fotos de família. — instruiu Su à Mya. — Ok! — respondeu a garota de cachos multicoloridos, saltitando pela porta da casa. — André, meu querido. Voltando, leve essa comodazinha pro quarto também. — falou a mulher analisando o pequeno móvel. — Acredito que consegue levá-lo sozinho. — Certo tia! — O rapaz levava duas malas, ao invés de uma só como fazia Heliot. — Exibido... — resmungou o amigo, ao ver o garoto com as duas malas passar mais rápido à sua frente. A casa de Suelen era bem grande e espaçosa. A porta pela qual entraram dava em um corredor que tinha como destino a sala de estar. De um lado da sala estavam um


conjunto de sofás e puffs, de onde era possível ver a porta do escritório, do outro, uma enorme mesa de jantar que fazia confins com a cozinha estilo americano. Dividindo o ambiente no meio tinha a escada, que servia como acesso para o andar superior da casa. No segundo andar havia um longo corredor, a esquerda ficavam os quartos de Suelen e o de Heliot, e a direita ficava o ateliê de pintura de Heliot, um quarto de visitas, e o quarto que agora seria permanentemente de Lúcia. Todos os quartos do segundo andar eram suítes, logo, a escolha do quarto para Lúcia era o fato de que a porta à frente era o acesso para a sacada. Um de seus locais prediletos na casa, pois de lá, ela podia ver todo o quintal dos fundos, que era verde e tinha uma linda piscina azul no meio. O segundo local predileto de Lúcia naquela casa, era o ateliê de Heliot, onde as criações do afilhado ficavam expostas e ela adorava as pinturas do afilhado. O terceiro local predileto seria o escritório de Suelen, pois lá ficavam todos os retratos de família. E o quarto lugar era a cozinha, pois afinal, Lúcia é do tipo de pessoa que sempre aprecia uma boa comida, e dona Guilhermina tinha mãos de fada na hora de cozinhar. Finalmente com toda bagagem no quarto, era hora de arrumar os pertences, mas por conta da viagem demorada, já estava tão tarde que Lúcia decidiu deixar para o dia seguinte a organização. Em comemoração à chegada de Lúcia, o marido de Suelen, o senhor Morris, teve a ideia de levar todos para jantar no restaurante predileto do filho, um modesto restaurante de comida japonesa que ficava em frente à Estação Liberdade. Morris era um homem não muito alto, de feições sérias. Ele era atlético como o filho, apesar de ter sido em sua própria juventude, mas não mostrava sinais de uma vida sedentária por conta de seu constante trabalho dentro de um escritório, ou em salas de reuniões. Seus olhos eram castanhos, com cabelo e uma volumosa barba grisalha. Morris infelizmente era um pai bastante ausente por conta do trabalho, por isso, todas as vezes que tinha oportunidade, ele tentava agradar o filho dando coisas a ele, ou o levando para os lugares que ele gostava. Isso nem sempre parecia ser o suficiente para Heliot, que se não fosse pela presença do senhor Heitor em casa, careceria ainda mais de uma figura paterna. Foram todos ao restaurante no carro de Suelen e no Voyage de Heitor. Não usaram o carro de Morris, pois como era um carro oficial, chamaria muita atenção, e não queriam precisar sair para o jantar em família com um guarda-costas. And e Mya foram junto, pois já haviam combinado com os próprios pais de que ficariam para jantar com a família do amigo. Já o senhor Heitor e dona Guilhermina ficaram em casa, pois não apreciavam a culinária oriental. No restaurante, Lúcia, Heliot e And bombardearam o garçom de pedidos, pareciam esfomeados. Já os outros três, que também estavam sentados à mesa, ficaram quietos esperando a vez deles. Comida vai, comida vem, o ritmo do trio faminto foi amenizando, e finalmente foi possível conversar sem que arroz voasse pela mesa.


— Tia Luci. É verdade que você vai ser a nova professora de História da Arte no colégio? — perguntou Mya entusiasmada com a ideia. — Sim. — respondeu Lúcia após um gole de misoshiru. — Mas começo só no ano que vem. — Que legal! — disse And animado. — Mas o que se aprende em História da Arte? Não dá no mesmo que a matéria de História? — Quase isso And. Mas vocês nunca tiveram matéria de História da Arte? — perguntou Lúcia meio confusa olhando para sua prima. — Eles não têm História da Arte antes do terceiro ano? — Infelizmente não. A grade dos dois primeiros anos atualmente é dividida só entre Artes Plásticas e Cênicas. — respondeu Suelen. — História da Arte mesmo, como matéria única, fica só para o último ano do ensino médio. — Mas porquê? — A moça parecia incrédula. — Ideias do MEC. — respondeu a prima dando de ombros. — Mas a matéria de História da Arte tem que ser passada em simultâneo a matéria de História. Se passado separadamente, os alunos não aprendem direito. Suelen nada respondeu, parecia pensativa. — Mas, como assim tia? — perguntava Heliot. — Porque essas matérias tem que ser em conjunto? Fora o óbvio. Que é elas falarem do passado. — Se a matéria de História diz os fatos e as circunstâncias dos eventos históricos, a Arte diz como estava os ânimos da população no período. Em várias ocasiões, a Arte foi usada como divulgação e expressão do período em que os artistas viveram. Além daquelas obras e movimentos artísticos, que foram criados em forma de protesto. — Lúcia fez uma pausa para recuperar o fôlego. — Uma coisa tá ligada a outra, basicamente. Os garotos e Mya pareciam impressionados com as palavras da professora. — De fato... — começou Morris. — Um de meus colegas do consulado italiano, vivia me dizendo isso. De que a Arte era o termômetro da população no decorrer dos séculos. — Sim. Ele está certo. — finalizou Lúcia. — Bom, creio que se falar com o professor de História vocês podem desenvolver um novo plano educacional para a matéria. — disse Suelen após um momento reflexivo. — Legal, você vai gostar do professor Ward. — disse Mya com carinho na voz — Ele é um dos professores mais legais. — Apesar da matéria não ser lá das melhores. — comentou And. Heliot puxou a orelha do amigo. — Qual é? — resmungou o garoto. — E eu tenho culpa se não sou fã de História?


— Não And. — respondeu Lúcia. — Mas espero que mude de ideia no ano que vem. — O professor Ward terá horário livre amanhã à tarde. Você pode ir conosco à escola, para falar com ele sobre o novo plano educacional. — Su parecia pensativa novamente. — Sim, essa é uma boa ideia. Quanto antes tivermos o novo plano pronto, mais tempo teremos para aprovação com o MEC. — Lúcia voltou a tomar o misoshiru. — Ah! Aí eu vou poder te apresentar o Antonino, o professor de Educação Física. — despertou Suelen de seu transe pensativo. — Aquele que eu falei que é um “gato ao quadrado”. E novamente a prima começou o diálogo de empurrar potenciais namorados para Lúcia. Chegava a ser desconfortável em alguns momentos, mas ela sabia que a prima fazia aquilo para que não ficasse só. Pois desde que havia se casado, Suelen falava das maravilhas de ter alguém ao lado, os prós da vida à dois, os contras também. Mas para a mulher apaixonada, todos os pontos a favor do casamento pareciam muito mais válidos. E ela parecia querer o mesmo para a prima, por isso, vinha se focando em achar o par perfeito para Lúcia.

...

No dia seguinte. Lúcia acordou bem cedo para que, com a ajuda de dona Guilhermina, arrumassem suas roupas e pertences em seu novo quarto. Tinha que arrumar tudo antes das duas da tarde, horário em que Suelen a buscaria para ir para a escola conversar com o senhor Ector Ward, o professor de História. Não houve muito desafio na organização das roupas, tia Gui tinha um sistema infalível, onde todas as roupas ficavam facilmente organizáveis e encontradas com facilidade. O fato da quantidade de roupas que Lúcia tinha ser pequena, no caso menos da metade de roupas que Suelen, fazia o sistema ficar muito mais prático. O mais complicado era organizar os livros, materiais de desenho e artigos literários, que ela fazia questão de que ficassem no quarto para que ela pudesse consultá-los quando precisasse. A pequena cômoda servia de suporte para um notebook, que Lúcia usava para trabalhar e fazer suas pesquisas. E em cima de uma penteadeira, do outro lado do quarto, ficavam os itens para arrumar o cabelo e um pequeno porta-retrato de Lúcia quando tinha cinco anos e sua mãe, ela havia feito questão que, apenas aquela foto, ficasse com ela. Quando Suelen chegou para buscar Lúcia, o quarto já estava completamente arrumado e a moça já tinha almoçado, esperava apenas a chegada da prima. A escola onde ia trabalhar não era muito longe de casa. Com trânsito bom, era possível chegar em vinte minutos. Era uma escola bem grande e bem velha, os prédios estavam reformados, mas a fundação da instituição era bem antiga.


— Eu avisei que você viria. — disse Su à prima, enquanto caminhava pelos corredores da escola. — Ele pediu que o encontrasse na Biblioteca. — A Biblioteca é aquele prédio perto dos laboratórios, né? — perguntou Lúcia tentando puxar na memória a localização das coisas ali. — Isso! Não tem mistério, é só seguir em frente. — Suelen parou de caminhar e apontou o caminho com a mão. — Preciso voltar à Diretoria. Tenho que avaliar com a contabilidade a matrícula dos novos alunos para o ano que vem. — Ok! Eu consigo me virar. Então a prima seguiu o caminho oposto ao que Lúcia seguiria. A escola estava quieta. Era período de provas finais. E enquanto as provas rolavam, todos na instituição, até os faxineiros, faziam silêncio para não atrapalhar os alunos. Chegando à Biblioteca, o local estava deserto. Haviam apenas duas pessoas ali. A bibliotecária, uma senhora de óculos fundo de garrafa, que estava conferindo uma pilha de livros e etiquetando uma outra, provavelmente eram livros recém entregues. A outra pessoa no local era um homem de cabelo castanho que estava sentando em uma das mesas lendo um livro. Ele devia ter quase a mesma idade de Lúcia, mais a barba curta, porém cheia, o fazia parecer alguns anos mais velho. Ao ver Lúcia se aproximando, o homem se levantou para cumprimentá-la. — Olá! Você deve ser a Lúcia dos Anjos? — perguntou o homem estendendo a mão. — Eu sou Ector Ward, o professor de História do ensino médio. O homem era bem apessoado, bonito até, um pouco diferente do que os estereótipos da categoria sugeriam. Seu aperto de mão era forte, o que significaria algum hobby relacionado à esportes ou luta marcial. Ele tinha uma certa pinta de britânico, falava português e não tinha sotaque, mas era possível notar que ele não era dali, e isso era algo que lhe dava um certo charme. O que explicava, porque Mya falava dele com tanto carinho e doçura. Certamente, ele era o professor preferido das alunas. Além do tal professor de Educação Física, de quem Suelen tanto falava e Lúcia conseguiu fazer com que a prima não o empurrasse para namorar com ela. — Sim. Sou Lúcia. Serei a nova professora de História da Arte. — Bacana! — respondeu Ector com um certo tom de entusiasmo. — Sente-se. Ou prefere conversar na cafeteria tomando um chá? — Pode ser na cafeteria. — respondeu aceitando o convite. — Por acaso você é inglês? — O chá me denunciou? — respondeu o homem com um sorriso simpático. — De certa forma. — Lúcia ria junto com ele. — Na verdade, prefiro me classificar como britânico. Sabe... Parte da família escocesa, parte inglesa. Se duvidar, devo ter até ascendência irlandesa. Uma pequena confusão. — Imagino...


— E você, Lúcia, não me parece ser de São Paulo. Muito menos tem sotaque do interior. — O homem forçou um sotaque interiorano ao terminar a frase. — Sou de Brasília. — Lúcia ria da imitação de sotaque do professor. — Ah! Da capital. E o choque de lá pra cá é muito grande? — Não muito. Só em termos de extensão da cidade e quantidade de prédios. Aqui parece que o espaço te sufoca de tanta coisa que tem em todos os lado. — A moça gesticulava com as mão, simulando o sufocamento. — Lá era mais tranquilo nesse ponto, mais espaço vazio, verde, menos poluição. — Nossa. Parece um lugar legal. — É sim. Seguiram até a cafeteria conversando sobre os prós e contras de se mudar para a capital paulista. Chegando no destino pediram o chá, que por exigência do professor, a cafeteria da escola tinha à disposição uma pequena seleção de chás ingleses. Servindo-se da bebida quente, os dois se sentaram em uma das mesinhas próxima e começaram a conversar sobre o projeto de Lúcia de integrar as matérias, para fornecer um conhecimento mais vasto de cada período histórico aos alunos. Ector gostava das ideias de Lúcia, na verdade, ele estava bem impressionado com o conhecimento que ela possuía, pois a primeira vista, ela também não se encaixava no estereótipo de professora de História da Arte. Ela era bonita demais para isso, pensava ele. Deixando de lado os estereótipos, começaram a discutir como implementar o sistema, pois a ideia de Lúcia abrangia todos os três anos de ensino médio, e até então, História da Arte era lecionada só no último ano. — Então, é isso que teremos de mudar. — falava Lúcia com seriedade. — A Diretora sugeriu criarmos uma novo plano de ensino para apresentar ao MEC, pra ver se mudamos essa divisão da matéria de Arte. — Nossa! Criar um plano de ensino novo? Isso vai dar trabalho. — Ector parecia surpreso com a proposta da colega de serviço. — Eu sei, mas se fizermos isso durante as festividades, acredito que conseguiremos terminar a tempo dele ser aprovado para o ano que vem. — Durante as festividades? — O homem parecia desapontado agora. — Xi, não vai rolar. — Por que não? — perguntou Lúcia contendo o desânimo na voz. — Não estarei no Brasil nesse período. — justificou o professor de História. — Esse ano estou indo passar as festividades com minha família, na Inglaterra. Minha irmã decidiu se casar pouco depois das festas de fim de ano. Sabe... Pra aproveitar a família toda junta. — Hmmm. Entendo. — respondeu a moça um pouco desapontada. — Mas estarei de volta no início de fevereiro, o ano letivo começa em março. Teremos aí uns dias para nos organizar. — disse Ector tentando reanimar a colega. — Posso lhe passar o programa de estudo de História e você pode ir alinhando sua


matéria com o meu programa, o que tiver que ser mudado conversamos quando eu voltar. Lúcia agora estava pensativa. — Sem falar que da forma que quer reestruturar a matéria, creio que terá de falar também com a professora Dias de Artes Plásticas e com o professor Martins de Artes Cênicas, pois terá de intercalar a matéria com a deles também. — Verdade... — murmurou a moça ainda pensativa. — Te passo meu programa de estudo, você alinha a matéria e o número de aulas que precisa, conversa com os outros professores sobre intercalar as matérias. Posso tirar algumas de suas dúvidas por mensagens de celular, enquanto eu estiver fora. Dessa forma, quando eu voltar em fevereiro, basta revisarmos juntos. Que creio que, com duas semanas, terminamos o novo plano de ensino. — É, parece uma boa. — Lúcia parecia mais animada — Acho que consigo me organizar tendo acesso ao seu programa de estudo do ensino médio inteiro. A sirene do intervalo tocou. — Combinado então. — concluiu Ector se levantando da mesa. — Agora se não se incomoda, tenho que ir. Vou avaliar a apresentação de algumas turmas. — Ah! Claro que não. Se tem que ir. — respondeu Lúcia, um pouco ruborizada pela forma cortês com que o colega a tratava. — Passarei o programa de estudo para que a Diretora De Oliveira lhe entregue. Ok? — gritou o homem ao passo que se distanciava e sumia no meio dos alunos que acabavam de sair das provas. — Ok! — gritava Lúcia em resposta.


-2-

AS ÚLTIMAS SEMANAS TEM SIDO CORRIDAS PARA LÚCIA. PREPArar o novo plano de ensino estava se demonstrando bem mais trabalhoso para uma única pessoa organizar. Ao menos já havia pego com os outros dois professores os cronogramas de suas matérias, agora seria apenas equipará-las e redistribuí-las, mas estava complicado. À cada momento que a professora acreditava que estava indo pelo caminho certo, ela se lembrava de algo que estava deixando para trás. Talvez por isso o MEC só propunha as matérias divididas por ano, e não todas integradas. O tempo passou. Agora já estavam todos de férias, exceto os repetentes e os professores designados a orientá-los, e é claro, a Diretora, que só sairia para o recesso das datas festivas e depois já voltava para a orientação dos repetentes. Mas, Suelen estava tranquila quanto a isso esse ano. Como não pretendia viajar, estava apenas se dedicando ao trabalho e a organização da ceia de Natal, além da festa de aniversário de Lúcia, que coincidia com a festa de Réveillon, já que ela havia nascido no dia primeiro de janeiro. — Lúcia, hoje você vai desgrudar desses papéis! — disse Su de forma severa para a prima que não largava o trabalho nas últimas semanas. — Hoje vamos passar o dia fora. Temos que comprar a decoração da ceia, os potes para as lembranças do seu aniversário... — Ou seja. Hoje você tirou o dia para “Fazer Compras”. — Lúcia fechava a tampa do notebook que estava apoiado na mesa. — Quem sou eu para impedi-la? Definitivamente, Lúcia jamais se colocaria como um obstáculo para o “Fazer Compras” da prima. Suelen ficava uma fera quando alguém se opunha ao seu tão precioso ritual de sair pela cidade comprando coisas.


— De fato você não é nada, reles mortal. — Suelen falava simulando a voz de um ser magnânimo. — Agora coloque-se em seu lugar e vamos logo para o shopping, você definitivamente precisa de roupas novas. — Tá bom. Ó grande “Diva das Compras”. — respondeu Luci continuando a brincadeira. — Esse título é novo. Tenho que me lembrar dele. — Ela fez uma anotação no bloquinho de notas que tinha na mão. — Você ainda usa esse bloquinho? — perguntou Lúcia surpresa ao reconhecer o bloquinho que ela mesma havia feito para a prima quando ela tinha dezesseis anos. — Mas, é claro. — O rosto de Suelen parecia corar. — Foi um presente seu. E você o fez tão bem planejado, que todo ano eu só preciso renovar o miolo que está tudo certo. — Nossa... Tô impressionada. — Heliot, meu filho! Quer vir com a gente? — A mãe gritava para o filho ouvila do quarto. — Vou sim mãe! — O rapaz gritou em resposta. — Então apronte-se! Saímos em dez minutos. — gritou a mulher novamente para o filho. Pôde-se ouvir um “Ok” de fundo. Suelen já estava arrumada e Lúcia foi colocar uma calça mais adequada, além de um tênis. — Morris não vem? — perguntou Lúcia descendo as escadas. — Não, ele vai ficar fora o dia todo. — respondeu Su na ponta da escada esperando os dois que iriam com ela. — Tem algumas reuniões e encontros com cônsules e embaixadores. — falava ela sem dar muita importância. — Sabe como é. Teve até que sair com guarda-costas. — Que coisa. — Pena pra ele. — falou a mulher em tom mais alto. —Vai perder um mega dia legal. Suelen queria parecer não se importar, mas sentia falta de sair de forma descontraída com o marido. Porém, desde que ele foi indicado e aceitou o cargo de embaixador da ONU, Morris não teve mais tempo e oportunidades para sair com a família, sem que precisasse de um guarda-costas. Salvo exceções, onde seu anonimato era preservado, como era o caso de ir ao pequeno restaurante japonês na liberdade. Mas daí à passear em um shopping ou mesmo nas lojas de rua, era basicamente impossível. Tudo isso entristecia Su, pois o tempo que tinham juntos também eram poucos. Isso ocorria porque ele precisava viajar bastante por conta do trabalho. O ideal era que a família fosse junto, mas ao fazer isso, a esposa teria dificuldades em manter sua própria carreira profissional, e o filho dificilmente faria amigos por ter que estar sempre se mudando. Como ele não queria submeter a esse tipo de vida, Morris optou por manter a família fixa, apenas sendo ele quem ficaria transitando sozinho. Para Heliot, isso tudo era


só uma desculpa para justificar sua incompetência em ser um bom pai, talvez fosse um bom esposo, mas o garoto não interpretava o sacrifício do pai, de ter que viajar ao invés de se mudar com frequência, como algo válido. Estando todos prontos, Suelen pegou o Voyage de Heitor para irem ao shopping. O motivo da escolha era o rodízio de veículos que tinha naquele dia na cidade, além de claro, querer ser mais discreta. Como estava nos planos de Su, ficaram fora basicamente o dia inteiro. Passaram em várias lojas de rua, pesquisando e orçando os materiais que precisavam para as festanças. Por sorte, maioria dos fornecedores podiam entregar os pedidos diretamente à empresa que iria preparar a decoração, isso evitou com que o carro ficasse entupido de caixas, permitindo que fossem ao shopping, tranquilamente, comprar roupas novas para Lúcia. No shopping, a missão de Suelen era bem mais complexa, pois a prima parecia não ter muito gosto para roupa. Lúcia escolhia sempre as mais simples e apagadas, ao invés das que lhe beneficiavam a aparência. Ela tinha um corpo perfeito e qualquer peça de roupa combinaria com ela, mas a prima insistia em dizer que aqueles estilos não combinavam com ela, que eram desconfortáveis ou vulgares. Quando Su estava para jogar a toalha e desistir, encontraram uma loja que chamou a atenção de Lúcia. Provavelmente por conta da coleção com trajes inspirados em design japonês, que dava as vestes um ar sofisticado e elegante, sem precisar ficar mostrando o útero ou os peitos com decotes absurdos. Aquilo foi uma luz para Suelen, pois com isso, ela passou a entender o estilo de roupa que a prima gostava. Permitindo com que ela, finalmente, conseguisse montar uma seleção de roupas que agradava o gosto de Lúcia e o senso de “você tem que ficar gata” dela mesma. No fim, compraram seis conjuntos diferentes, onde uma das roupas, Suelen insistiu para que Lúcia vestisse para ela ver. Era um vestido no tom bordo, que ia até a altura do joelho, ele definia a cintura com uma faixa branca e tinha uma gola gargantilha que deixava os ombros quase a mostra, pois as mangas compridas e largas, eram feitas de uma renda bem fina e delicada. — Olha aqui Lúcia. Você vai ter que se acostumar a usar vestidos, ficam lindos em você. — argumentava a prima. — Mas... — Sem mas! Tá decidido. Vai sair com esse pra começar a se acostumar. — Ela arrancou a etiqueta do vestido e entregou a atendente. — Ela vai vestida com esse aqui, querida. Pode passar no caixa. Discutir com Suelen era quase sempre uma batalha perdida para Lúcia, principalmente, quando o assunto era sua aparência. De fato, ela não se preocupava em se produzir. E para a prima, isso era essencial para que Lúcia conseguisse um namorado. Saindo da loja de roupas, passaram numa loja de maquiagem, onde a atendente fez uma make simples em Lúcia e levaram alguns produtos, para que a moça pudesse reproduzir a maquiagem em casa.


Terminado o tour da beleza, se reencontraram com Heliot, que havia preferido ficar na livraria à discutir o gosto da mãe na hora de escolher roupas para a tia. O garoto, porém, ficou impressionado ao ver a nova produção de Lúcia. — Tia Luci? É você mesmo? O que essa bruxa fez com você? — O espanto era notável na voz do garoto. — Me chamou de quê, moleque? — vociferou a mãe. — Está ruim? — perguntou Lúcia, acanhada e com medo de estar ridícula. — Não! Definitivamente não! — Heliot gesticulava tentando desfazer o malentendido. — Você está maravilhosa! É sério, tia! — complementou, vendo o olhar de dúvida da tia. — Não disse, querida. — começou Suelen. — Até ele tá babando por você, quem dirá os rapazes da sua idade. — Ela apontou discretamente para uma mesa de uma cervejaria artesanal, com três homens que não paravam de olhar para elas. — Eu não quero chamar esse tipo de atenção. — disse Lúcia virando de costas para os rapazes da cervejaria, seu rosto estava vermelhinho. — Talvez não no dia a dia, mas Natal e aniversário, eu exijo que se produza direito! — finalizou a prima. — Vamos que ainda temos que ir no ateliê da cerimonial para conferir a produção dos materiais das festas. — A essa hora mãe? — questionou Heliot achando estranho. — Combinei com Vanessa às seis e meia. Dá tempo de pegar o ateliê ainda aberto. — respondeu Suelen despreocupada. Até daria, se não fosse pelo trânsito. Chegaram no destino com quinze minutos de atraso, por sorte, a cerimonial decidiu esperar. Ficaram cerca de uma hora no local. Suelen e Vanessa não paravam de discutir sobre a cor, qualidade e tempo de produção das coisas. Pareciam até que estavam falando em outra língua, que Lúcia e Heliot não conseguiam entender. Para passar o tempo, os dois ficaram jogando joguinhos no celular do garoto, mas passaram tanto tempo ali, que a bateria do celular acabou pouco antes de Suelen aparecer dizendo que já estavam indo. Finalmente indo para casa, tiveram um pequeno imprevisto. Um acidente em uma das vias de retorno estava provocando um enorme congestionamento. E para não precisar ficar ali a noite inteira, esperando o fluxo de veículos voltar a andar, tiveram de contornar por um labirinto de ruas numa zona cheia de indústrias e galpões de armazenamento. — Tem certeza que é uma boa vir por aqui? — perguntou Lúcia. — Já passei por aqui antes. — respondeu Suelen despreocupada. — É uma rota bastante usada quando tem congestionamento. Lúcia não conseguia ficar tão tranquila quanto a prima, tinha algo a incomodando, uma sensação estranha que ela só havia sentido pouco antes do médico informar que sua mãe havia falecido. — É impressão minha ou aquele carro ali está nos seguindo? — mencionou Heliot olhando pelo vidro traseiro.


— Possivelmente, filho. Como eu disse essa rota é bastante usada. — Suelen conferia o espelho retrovisor. — Não, mãe. Esse carro tá atrás da gente desde o Shopping. — A voz do garoto transmitia preocupação. — Não é possível ser só um carro parecido? — A mulher tentava manter a condução veloz ao mesmo tempo que olhava várias vezes no vidro retrovisor. Lúcia sentia o coração apertar. Algo estava errado. — Não mãe, é a mesma placa. — Heliot parecia alarmado — Estão nos seguindo! Suelen acelerou o carro o máximo que pôde. As ruas não eram muito largas e as curvas bem fechadas, se corresse demais, poderia acabar batendo em algo, se corresse de menos, sabe-se lá o que aconteceria. Estavam realmente sendo seguidos, era um Golf preto que se mantinha sempre na cola deles. Nervosa em ter que dirigir sob pressão, Suelen se esforçava ao máximo para sair daquelas ruas e voltar para a estrada principal, onde sabia que conseguiria despistar os perseguidores. Mas ela foi pega de surpresa ao avistar adiante um contêiner de lixo tombado. Ele não obstruía toda a rua, mas o espaço que tinha era muito estreito, pois o lixo também estava ajudando a obstruir a passagem. Se estivesse com sua Grad Cherokee, isso não seria um problema, mas o carro de Heitor não conseguiria passar por cima do obstáculo de lixo, teria de arriscar, passando pela pequena brecha. Parar não era uma opção. Lúcia e Heliot estavam tensos com toda aquela situação. A moça com medo do que poderia ocorrer a sua família, Heliot com raiva por saber que talvez não pudesse fazer muito para proteger a mãe e a tia. Acelerando um pouco mais o carro, Suelen passou pela brecha raspando no lixo. Olhou no espelho retrovisor e pode ver que o outro carro estava reduzindo para passar pelo obstáculo. Su teria se aliviado com isso, se não fosse pelo par de motos que surgiram a sua frente. No susto, desviou entrando em um beco a esquerda, mas ao ver que este não tinha saída, foi obrigada a frear. O beco não dava espaço para que ela desse a volta e ao tentar manobrar de ré com o carro, Suelen pode ver que a saída estava sendo obstruída, pelo Golf preto de antes e pelas duas motos. Do carro preto saíram três homens armados e encapuzados, que correram para render os passageiro do Voyage, os pilotos das motos chegariam em seguida. Os cinco marginais apontavam as armas para os passageiros do veículo encurralado. Lúcia e Suelen estavam com as mãos levantadas, rendidas sem muita opção de reação. Mas Heliot era teimoso e pensou em reagir, porém, ver as armas que estavam apontadas para a cabeça de sua mãe e tia, o fez ficar quieto. — Galera! São eles mesmo. — gritou um homem com capuz de motoqueiro. — Então... cês sabem quem é essa mina aqui? — perguntou o cara de camisa vermelha que apontava a arma para a cabeça de Lúcia.


— Olha... — disse um homem de casaco escuro — Ela está com eles desde o Shopping, mas na lista só fala de dois reféns. Não tem nada falando de um terceiro. — O homem olhava e revirava um papel amassado que acabara de tirar do bolso. — Ah! Então não vai ter problemas se ficarmos com ela, né? — voltou a falar o cara de camisa vermelha. — Ela é mó gostosa. — O homem olhava com desejo para as coxas de Lúcia. — Não se atre... Gritou o menino no banco de trás, mas antes que ele pudesse terminar sua frase, a porta ao seu lado se abriu e um dos sequestradores lhe deu uma coronhada. O garoto desmaiou. — Heliot! — A mãe gritava ao ver o filho ser ferido. Lúcia estava paralisada. Olhando para o sequestrador que apontava arma para si, ela reconheceu a camisa vermelha do homem e o casaco preto do outro. Eram os caras que estavam na cervejaria do shopping. A moça se arrependeu de não ter notado que o olhar do homem não era apenas luxúria, já deviam estar planejando sequestrá-los desde aquele momento. Mas agora ela não tinha mais o que fazer, e certamente seu destino seria o pior possível. Porém, o desejo de proteger as pessoas que mais amava naquele mundo, e que ainda estavam vivas, a fez se pronunciar. — Se eu for com ele. — indicou com a cabeça o cara ao seu lado que mantinha a arma apontada para ela. — Vão parar de machucá-los? Era muita inocência dela pretender que marginais, drogados, ou seja lá o que fossem aquele bando, tivessem a decência de serem verdadeiros em suas promessas. — Aaaa! Alguém aqui parece querer cooperar. — falou o homem que apontava a arma para Suelen, ele tinha jeito de ser um pouco mais esperto, e Lúcia o reconheceu como sendo o terceiro cara na cervejaria do shopping. — Finalmente! — O que está fazendo Lúcia? — murmurou a mulher ao volante para a prima. — Nah, nah, não! — O homem ao lado de Suelen aproximou ainda mais a arma da mulher. — Você, quietinha. Zica, leva a moça. O resto vem no carro, menos tu Zé Ruela, você volta de moto. — Mas eu não sou bom com a moto. — disse o cara de casaco escuro. — Então te vira! Ou fica aí pra se divertir junto do Zica. — disse o suposto líder com irritação na voz. — Ou vai a pé. Só não torra a paciência! Agora todas as portas dos carros estavam abertas. O cara de camisa vermelha, a quem se referenciavam por Zica, tirou Lúcia do carro puxando-a pelos cabelos, logo depois bateu a porta para fechá-la. O suposto líder, ordenou a Suelen que fosse para o banco passageiro e ele ficou no do motorista. No banco de trás, os outros dois marginais entraram um de cada lado de Heliot, que ainda estava desmaiado. O Golf preto parecia ainda ter mais um membro lá dentro, que ao ver os parceiros dominando os reféns, saiu da entrada do beco e foi embora. Deixando apenas as motos que estavam paradas, uma de cada lado da saída do beco, com os faróis ligados para iluminá-lo.


— Vê se não enrola tá! — gritou o líder dando partida no veículo sequestrado e saindo do beco abandonado, em que haviam encurralado Suelen e sua família. Agora eram apenas Lúcia e os dois caras, o de casaco escuro e o de camisa vermelha, que não parava de olhar com desejo para ela, e isso desde o shopping. — E aí, quem vai primeiro? — perguntou o cara de casaco escuro. — Por favor... — começou a falar Lúcia com voz chorosa. — Me digam que eles vão ficar bem. — Acredito que vão. — disse o cara do casaco escuro. — Só vamos pedir um resgate ao embaixador. Depois soltamos eles. — Soltamos? — Agora era Zica que falava, ele não parava de gargalhar e tentava continuar a frase com um tom de ironia. — Acho que te explicaram mal Zé Ruela. Se soltarmos, eles vão nos achar e nos prender. Quando formos pagos, vamos matá-los e entregar só os corpos. — Não! — O terror e desespero começaram a transbordar do âmago de Lúcia. Novamente o cara que a ameaçava com uma arma puxou seus cabelos, dessa vez para jogá-la no chão. — Fica quieta vadia! — gritou o homem de camisa vermelha. — Por favor... — insistiu a garota em prantos. — Não deixem que os mate. Eu prometo fazer o que quiserem. Eu prometo não reagir... — Aaaa... Mas é quando elas reagem que as coisas ficam mais interessante. — disse o Zica sem tirar o olhar faminto e lascivo de Lúcia. — Ei! O que é que tá pegando aí? — disse uma terceira voz masculina totalmente nova. Era difícil ver a entrada do beco com a luz dos faróis das motos ligadas e voltadas para dentro dele. Mas o dono da voz se aproximava e pode-se notar que era um homem bem diferente dos outros membros do grupo de sequestradores. Ele era bem alto e usava roupas pretas, a jaqueta em específico era peculiar, pois parecia ser de couro negro fosco e tinha uma gola felpuda. — Não é da tua conta rapah! — gritou o tal de Zé Ruela. — Olha só, parece ser uma festinha. — disse o homem de jaqueta, que continuava se aproximando. A medida que ele chegava mais perto, Lúcia conseguia ver mais detalhes da aparência do homem misterioso. Ele tinha cabelos negros, mal penteados e um pouco compridos, quase formando um mullet. — Eita, eles têm uma garota... O homem agora se aproximava de Lúcia. — Mano! Fica onde tu tá ou te meto chumbo. — disse Zica apontando a arma para o homem misterioso.


— Cara, vocês estão no meu território e querem me dar ordens? — disse o homem de forma prepotente, sem conter o avanço até Lúcia. Ele agora estava bem próximo dela, se agachando um pouco, para olhar o rosto da moça. Lúcia então pode ver o rosto dele. E um estranho arrepio lhe percorreu o corpo ao fazer aquilo. Era um homem muito bonito, uma beleza estranhamente atraente para Lúcia. Sem nenhum sinal de barba no rosto, apesar de parecer maduro, mas seus olhos eram assustadores. A íris era vermelha, como um rubi incandescente. Era assustador encarar aqueles olhos, mas de alguma forma eram tão hipnotizantes, que Lúcia não conseguia se desviar daquele olhar. O homem inspirou o ar demoradamente. — Ah! Era esse o cheiro que eu tava sentindo. — disse o homem com um estranho sorriso felino. Os caninos desse homem pareciam mais afiados que o normal. Não eram muito maiores que os de um adulto comum, mas se destacavam naquele estranho sorriso cheio de malícia. — O desespero de uma imaculada... — comentou o homem encarando Lúcia nos olhos. — Imaculadas são raras hoje em dia. — Ele se levantou. — O quê? — Zica, que não parou de apontar a arma para o homem misterioso, parecia não entender o que ele dizia. — Acho que ele quis dizer que a moça é virgem. — disse o cara de casaco escuro, querendo parecer mais esperto que o parceiro, apesar de não ter certeza do que dizia. — Cala boca, Zé Ruela! — gritou o homem de camisa vermelha enfurecido. — Eu sei o que ele quis dizer. — mentiu. — É incrível como conseguem ser burros e ignorantes... — murmurou o homem dos olhos vermelhos. — Como é?! — reclamou o sequestrador de camisa vermelha. — Vaza daqui cara! Ou vai morrer também. — Vão matá-la? — O homem misterioso agora parecia incrédulo. — Mas que desperdício! Vocês humanos realmente não tem noção de quando possuem algo valioso nas mãos. — Ele balançava a cabeça em negação. — Que tal um acordo? A vida da moça aqui pela de vocês? — Como é que é? — O homem chamado de Zica parecia se enfurecer. — E olha que estou sendo generoso. — O homem misterioso tinha um grande sorriso sarcástico no rosto. — A vida dela vale dez vezes mais que a dos dois juntos. — Tá maluco, rapah! — Agora o homem enfurecido tinha a arma bem próxima a cabeça do outro que negociava.


— Acho que isso é um não, né? — disse o homem misterioso que tentava negociar, olhando diretamente nos olhos do cara que lhe ameaçava estourar os miolos. O sorriso sumiu. Um tiro se ouviu. Lúcia levou um susto e cobriu a cabeça com as mãos, na tola ideia de que isso a protegeria. Ao perceber que nada havia acontecido com ela, voltou a olhar para os três homens que discutiam seu destino. E para sua surpresa, nenhum deles estava morto. Ainda. O homem dos olhos vermelhos, que tinha a arma na cabeça quando ela foi disparada, estava ileso. Já o homem que empunhava a arma, agora estava sufocando, com o pescoço nas mãos do cara misterioso, que o erguia do chão pelo pescoço, suspendendoo alguns centímetros do chão. — Cara. Eu até acho divertido quando vocês não me dão bola. — falava o homem que suspendia o outro no ar. — A surpresa e o medo que sentem, é no mínimo revigorante. Mas... — Ele virou a mão com força, torcendo o pescoço do cara que segurava. — Hoje não tô com saco. Lúcia estava aterrorizada com a facilidade e frieza com que o homem misterioso havia executado um dos sequestradores. Pode-se ouvir novamente sons de tiros. Era o tal Zé Ruela, o homem de casaco escuro, atirando como um desesperado nas costas do assassino de seu parceiro, mas ele parecia não sentir os tiros. O homem dos olhos vermelhos se voltou para o atirador e começou a rir de forma macabra. — Fala sério! Não confiavam em você para te dar uma arma de verdade? O atirador, assustado, jogou a arma no chão e saiu correndo para fugir do beco. A arma caiu próximo a Lúcia, que pode ver que a arma na verdade era de brinquedo. Quando olhou novamente para o cara que fugia, o homem misterioso já estava à frente dele. Com um rápido movimento, ele torceu o pescoço do fugitivo, dizendo algo que Lúcia não entendeu, pois ele havia falado em um tom tão baixo, que mais parecia um sussurro. Agora, o último homem que restava de pé, voltava para dentro do beco, arrastando pela perna o fugitivo morto. Empilhou o corpo junto ao outro e ateou fogo nos dois. Isso deixou Lúcia ainda mais apavorada, o medo que sentia era tão grande, que ela não conseguia forças para reagir. O mais estranho era que ela não viu o homem usar isqueiro ou fósforos para atear fogo nos corpos, além de que as chamas pareciam se alastrar e consumir os corpos tão facilmente, que pareciam estar embebidos em gasolina. O homem de olhos vermelhos, então voltou a concentrar sua atenção na moça, que estava paralisada no chão do beco. Lúcia se petrificou de medo, quando ele voltou a olhar diretamente para ela. — Então vamos ao que realmente interessa. — disse o homem se aproximando cada vez mais da garota.


Ela não conseguia se mover. Tanto menos pensar. Estava aterrorizada com tudo aquilo, mas acima de tudo, estava preocupada com a prima e o afilhado. — O que estaria disposta a pagar para salvá-los? — disse o homem misterioso novamente se agachando para olhá-la nos olhos. — Como? — Finalmente Lúcia conseguia falar algo. — Me venderia sua... — O homem passou a analisar o corpo da moça com os olhos. — Venderia seu corpo e sua alma pra mim, em troca da segurança de seus familiares? Sua prima e o filho dela? — Ele agora encarava Lúcia nos olhos. — Eles nunca mais ficariam em perigo como hoje. O que acha da oferta? Que tipo de acordo é esse? Aquele homem não poderia estar falando sério. Mas e se estivesse? Se houvesse uma possibilidade de proteger Heliot e Suelen, de evitar que passassem por algum perigo novamente. Não valeria a pena? Era uma proposta absurda, por um preço tão absurdo quanto. Quem garantiria que aquele homem seria capaz de cumprir tal promessa? Porém, Lúcia não tinha muitas opções, não sabia se sobreviveria a aquela noite. Se o homem a matasse, como fez com os outros dois caras, quem salvaria Suelen e Heliot? Até onde sabia, ela era a única que aparentemente tinha em mãos, um meio de resolver as coisas. Mas será que funcionaria? Valia o preço? — Ah... Esse olhar de dúvida. — O homem estendeu a mão para tirar uma mecha de cabelo do rosto de Lúcia. O homem parou ao segurar o cabelo dela. Ele havia mudado de expressão. De um sorriso malicioso, passou para um olhar curioso. Sua mão começou a deslizar do cabelo para o rosto da moça, contornando as bochechas cheia de sal, por conta das lágrimas que estavam secando. O toque da mão do homem dos olhos vermelhos era suave e fez com que Lúcia se arrepiasse, mas ela não soube dizer se aquilo era bom ou ruim. — Você é bem diferente mesmo. — murmurou o homem, distraído em deslizar os dedos no rosto de Lúcia. Percebendo a distração dele, Lúcia se concentrou em juntar forças para questionar a proposta do homem misterioso. — Quem me garante que será capaz de cumprir com esse acordo? O homem parecia despertar de seu devaneio. O sorriso de antes voltou ao seu rosto. — Sou um demônio, garota. Acordos para mim são levados à sério. — Ele olhou novamente para o corpo de Lúcia. — Bem à sério. Novamente, Lúcia estava congelada. A menção de ser um demônio foi estranha. Ela não acreditava nesse tipo de coisa, mas ele havia levantado um homem adulto com uma mão apenas. Quebrou o pescoço do mesmo facilmente, sem fazer nenhum esforço. E mesmo que ele realmente fosse o que dizia ser, não deveria confiar na palavra dele,


afinal, demônios eram seres mentirosos, que tentavam os humanos para o mal, ou algo do gênero. Como confiar nele? Foi então que a moça reparou em algo que não havia percebido antes. A luz das motos faziam sombra na parede do beco, e a sombra projetada pelo homem misterioso era enorme e assustadora. Não parecia humana. As mãos eram como garras e o cabelo uma enorme juba. Veias negras se moviam saindo da sombra, como se fossem sólidas. Das costas, um par de asas pareciam se abrir ameaçadoramente. Lúcia fechou os olhos de pavor. E ao abri-los novamente, a sombra parecia normal. — Olha só. Eu não tenho o dia todo. — disse o homem se levantando impaciente. — É a última vez que irei perguntar. Acredite quando digo que nunca mais terá essa oportunidade de salvar seus parentes, aceite esse pacto e eles estarão seguros, enquanto você viver. Enquanto falava, o homem estendia a mão para Lúcia, num gesto de fechar o acordo e ajudá-la a se levantar. Quando a moça fez menção de tocar a mão que lhe era estendida, chamas negras surgiram envolvendo a mão do rapaz, no entanto, ele parecia tranquilo mesmo estando com as mãos em chamas. Seria uma alucinação? A sombra assustadora que viu a pouco, também teria sido uma alucinação? Que fosse! Se existia uma chance de salvar Heliot e Suelen, para quem estava próxima da morte, valia a pena o sacrifício. Ao apertar a mão do homem. As chamas subiram pelo braço de ambos, e antes de chegassem a cabeça, elas se dissiparam no ar. Lúcia foi levantada pelo homem, mas a puxada foi tão brusca, que ela foi projetada para frente. Seu avanço foi parado pelo corpo do próprio homem, que estava a sua frente e a segurou nos braços. Assustada, Lúcia tentou se soltar dos braço do homem, mas ele a segurava com força. Ela então fechou os olhos, com medo do que iria acontecer em seguida. — Nos vemos em duas semanas. — Ele sussurrou bem próximo ao ouvido de Lúcia. Após ouvir o sussurro, que a fez se arrepiar novamente. Foi então que ela não sentiu mais a força da pegada do homem. Ao abrir os olhos, ela percebeu que ele havia sumido e as duas motos também. Os corpos que estavam em chamas, também não estavam mais lá. Era como se nada daquilo tivesse acontecido. Lúcia se sentia perdida. O que de fato havia ocorrido? Teria mesmo feito um pacto com um demônio? Vendido seu corpo e sua alma, em troca de uma vida segura para Suelen e Heliot?


A moça se sentia estranha com tudo aquilo. A confusão de não saber ou entender, o que havia sido real ou não a torturava. Ela não conseguia pensar em mais nada. Estava parada, em pé, sem se mover, tentando entender o que quer que fosse possível entender. Passados alguns minutos no escuro do beco, um farol o iluminou novamente. Era um carro, o Voyage do Heitor, que se aproximava dela. A porta do passageiro se abriu e de lá saiu Heliot, que correu em direção a tia. Nesse instante, a visão de Lúcia começava a escurecer e sua cabeça girava muito rápido. Antes que o garoto terminasse de se aproximar, a moça já estava desmaiada no chão.

Luz e Sombra: Livro 1 - Imaculada  

Lúcia é uma jovem e amável professora de História da Arte, que após o falecimento de sua mãe, é convencida por sua prima a se mudar para a g...

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