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Sumario Eva Zooks Prólogo CAPÍTULO I CAPÍTULO II CAPÍTULO III CAPÍTULO IV CAPÍTULO V CAPÍTULO VI CAPÍTULO VIII CAPÍTULO IX CAPÍTULO X Próximo Lançamento Encontro das Águas


Eva Zooks

CAMINHO DAS ÁGUAS

1ª EDIÇÃO


SĂŁo Paulo Tribo das Letras 2013


Caminho das Águas© Copyright 2013 - Acacia Gomes Todos os direitos reservados Proibida e reprodução total ou parcial desta obra sem a prévia autorização do autor. Capa: Eykler Simone

Esta é uma obra de ficção qualquer semelhança com nomes, pessoas, locais ou fato, terá sido mera coincidência.

Direitos de Distribuição e Comercialização TDL http://www.tribodasletras.com


“No caminho dessas águas, alguns navegantes foram de extrema importância. Eykler que o tirou da gaveta dando-lhe a chance de nascer. Patrícia (Fidalga) que durante uma forte tormenta foi o farol, mostrando o caminho. Nam que possibilitou que a viagem por essas águas fossem tranquilas e prazerosas. Enfim, obrigada a todos que de forma direta ou indireta, trilharam comigo o Caminho das Águas.”


"Já esperávamos ficar tristes no outono. Uma parte de nós morre a cada ano, quando as folhas caem das árvores e seus galhos ficam nus, batidos pelo vento e a luz torna-se fria, invernal. Mas sabíamos que haveria sempre outra primavera..." Ernest Hemingway


Prólogo

Antietam, Maryland Setembro de 1862. Parada na varanda em frente à casa, observava o vento que varria a floresta, as árvores muito encorpadas se misturavam em uma dança sensual entrelaçando seus galhos como amantes que recém descobriram o prazer de amar. O perfume que emanava da terra revolvida do jardim inebriava sua mente, trazendo aquela costumeira sensação de paz, de conforto, de lar. Olhando além dali, ela apenas sacudiu a cabeça, absorvida na irritante sensação de solidão, um desconforto que a torturava desde o momento em que acordara. No alto, as colinas surgiam, grama verde contra pedras prateadas. Ao longe, as montanhas mais altas pareciam sombras arroxeadas contra um céu enevoado. Campos altos com pés verdes de milho e corpulentos grãos de verão, recuavam ondulando a estrada. Em uma íngreme encosta, o gado preto e branco sobressaía-se, tão imóvel quanto em um cartão postal. Seu lar, essa visão familiar sempre trazia-lhe conforto, tranquilidade, no entanto sentia no leve toque da brisa que algo estava para chegar. Mas o que? Caminhando pela varanda, recostou-se no batente da escada e contemplou sua casa; para alguns não passava de um pequeno chalé perdido em meio à floresta, cercado por toda a natureza, tendo como vizinhos mais próximos cervos, lobos, coelhos e pássaros com suas belas serenatas sempre ao entardecer. O jardim era uma sensação de cores e perfumes, canteiros de azaléas, frésias, amores-perfeitos mesclados em uma variedade de arbustos, um caminho de pedras acompanhado por roseiras que já exalavam suas doces fragrâncias, lilases robustos estavam plantados junto às janelas, permitindo que o vento da primavera introduzisse seu aroma pelo interior. No jardim dos fundos, preferiu dar lugar a erva aromática, é tão gratificante colhê-las e preparar algo saboroso com elas. Ao anoitecer as ervilhas, que cresciam em um canteiro na janela da cozinha, emanavam seu perfume adocicado misturando-se ao alecrim. O céu era outro espetáculo a ser contemplado, um tapete repleto de luzes e mistérios. Cada estrela parecia mais próxima ao ser observada. A lua refletida nas águas calmas do riacho transformava-se em uma encantadora imagem que faria qualquer coração sobressaltar apenas por observar.


Desde a morte de seu pai que não se sentia tão sozinha, foram meses tentando controlar a doença, e a cada dia ela se mostrava resistente, tomando pouco a pouco suas forças, sugando sua vitalidade como uma erva daninha. O trabalho foi colocado de lado, e só a vida de seu pai importava. Olhando para a plantação percebia que agora já era hora de recomeçar, buscar suas forças e lavrar com suas mãos a terra que seu pai tanto amou e que agora era dela. Ainda absorta em seus pensamentos não ouviu o leve farfalhar de passos que se misturavam ao canto dos pássaros e o balançar das árvores, sentiu apenas o tremor que percorreu seu corpo, fazendo com que seu coração se sobressaltasse. Percorreu com os olhos a floresta, procurando o que havia causado tamanho pânico. Ali estava ele, caído em meio a folhas e galhos, gemia baixinho, um sussurro que parecia um choro da alma. Sem pensar correu para ele, estava sujo de sangue e muito ferido, viu um rosto esbelto e anguloso que se via escurecido pela barba. Tinha uma boca que poderia acelerar os batimentos do coração de uma mulher. Entretanto, se esticasse podia fazer um homem tremer de medo. Seus olhos... seus olhos eram uma maravilha. Cinza e emoldurados por largas e escuras pestanas, um pouco enrugados no ângulo externo, mas ainda assim, eram lindos. Mas o que ele fazia ali? Mesmo meio tonto e fraco devido às feridas, conseguiu visualizar o rosto que encontrava a poucos centímetros do seu, era uma bela imagem, uma bela mulher. Os olhos de um verde inigualável. A pele muito alva nascera para ser tocada com toda a gentileza. Os cabelos cor de mel caíam fartos até os ombros. Gestos calmos e comedidos, a voz era suave e feminina quando ela lhe perguntou: – Qual o seu nome? Com a cabeça sobre os joelhos da deusa, reuniu todas as forças que ainda restavam e disse entre uma tomada de fôlego e outra suas únicas palavras: – Ethan... Ethan Brown. Agora... Corra! Ao ser envolvido pela escuridão, ouviu um último estrondo. O estourar de um tiro. Então seu coração encheu-se de dor e preocupação por ela.


CAPÍTULO I

Nova York Setembro de 2011 Com um arsenal de livros em volta e uma vasta pilha de jornais antigos, Anne Garrison se viu perdida em meio à batalha mais sangrenta da guerra da secessão. As florestas de Maryland se viam apinhadas por soldados que faziam parte da União e dos Confederados. O ano de 1862 deixou um rastro sangrento, não só na história do Maryland, mas também na história do país. Famílias perdendo seus entes queridos, vendo suas plantações serem saqueadas, seu rebanho reduzido, suas terras invadidas e, principalmente, sua liberdade sendo usurpada. Quase sempre se podia ouvir – algumas vezes longe outras perto – o som dos tambores, os chamados para a guerra. O vento que soprava tinha o cheiro metálico do sangue que banhava a terra, que a deixara marcada pelo resto de sua existência. Não importa quanto tempo passar, todas as vezes que alguém pisar neste solo, poderá sentir as marcas cravadas no lugar e o odor pungente que emana de cada pedra solta que rola por ali. O cheiro de luta, sangue e morte. O suor ácido derramado por cada homem que lutou, defendeu seu ideal e morreu como um herói. – Ei, menina! Preciso ir embora, já passam das cinco e não posso ficar aqui a noite toda. E hoje promete nevar bastante. – Tudo bem, senhora Holts, já terminei por aqui. –Por enquanto, pensou Anne. Anne levantou os olhos para ver a senhora Heloise Hester Holts, os cabelos totalmente brancos emolduravam o rosto levemente enrugado e bem maquiado. Há mais de 20 anos cuidava da biblioteca do Instituto de História de Nova York e fazia isso com pulso firme, ninguém conseguia ficar com um livro que fosse, nem ao menos devolvê-lo com defeito sem passar por uma reprimenda sobre responsabilidade e zelo pelo patrimônio. Seus conhecimentos iam além de história e geografia. Gostava de se ocupar como casamenteira, até havia ficado conhecida como o cupido do Instituto. Sempre que podia Anne era obrigada a escapulir de suas investidas em arrumar um pretendente para ela. O que de fato estava acontecendo neste momento. – Menina. Estou falando com você. – Desculpe, senhora Holts, estava perdida em minhas anotações. O que foi que a senhora disse? Com uma expressão não muito amigável, repetiu o que havia acabado de dizer.


– O frio deve estar congelando seus miolos. Estava dizendo que você não vai conseguir um casamento sentada aqui nesta sala, misturada com esse monte de poeira e jornal velho. Você é uma moça muito bonita Anne, esses cabelos avermelhados chamariam a atenção de qualquer homem. Você merece viver um amor real, precisa deixar um pouco de lado essas leituras, não que eu condene quem goste de ler. Claro que não. Mas você faz disso sua vida, e com isso a vida real passa e você nem se dá conta. Olha por exemplo o jovem Carlson, é um excelente partido. Qualquer mãe ficaria encantada em tê-lo como genro. Realmente, pensou Anne, o jovem e imaturo Robert Carlson, Deus que a livrasse de ter que suportar outro encontro maçante e autocontemplativo, onde seu ego atuara como personagem central a noite toda. Fingindo um tremor, Anne esboçou seu melhor sorriso e completou: – Sou muito feliz assim senhora Holts, e me sinto lisonjeada por sua preocupação, mas não tem nenhum motivo para isso, como pode ver, encontro-me loucamente apaixonada por esse belo rapaz. Anne indicou uma foto em um jornal antigo onde mostrava um altivo soldado da União, cabelos negros como a noite caindo por sobre o colarinho, olhar penetrante; a força que emanava deles deixava qualquer um fascinado. Um fascínio que não se sabia se apresentava por medo ou paixão. Encontrava-se emoldurado naquela foto um valioso exemplar de homem. A senhora Holts contemplou a foto, e com um sorriso adulador não pode deixar de observar Anne. Não seria interessante a pequena Anne Garrison apaixonada por Ethan Brown? – Bem, querida, vejo que você tem um gosto e tanto, mas pena que nasceu alguns anos atrasada. Se estivesse vivo, nosso encantador rapaz estaria com mais ou menos – fez um gesto pensativo, como se estivesse calculando sua idade aproximada – cento e cinquenta anos. Anne, que ainda contemplava a foto e se lembrava do último sonho, não pode deixar de sentir uma amargura, ela deveria realmente estar precisando sair com pessoas de verdade, pois a cada noite não sabia o que chegava primeiro, o sono ou o sonho. – Senhora Holts, o que sabe sobre ele? – Ora, isso sim é que é uma pergunta! Pouco se sabe sobre ele, mas pelo que já li era um homem fascinante, um grande soldado. Dizem que teria subido de patente rápido, caso seu destino tivesse sido outro. – Dizem que ele foi um desertor, outros comentam que morreu em batalha, mas na verdade não se sabe o que de fato aconteceu. Esse é um dos grandes mistérios que envolvem as florestas de Maryland. Os olhos de Anne brilharam frente à afirmação, uma raiva que era totalmente incomum a ela fez com que seu sangue explodisse nas veias. – Ele não foi um desertor! – Gritou Anne, sem se dar conta. A ira estava presente em cada


palavra dita, em cada respiração encurtada. Intrigada com sua reação, a senhora Holts levantou um sobrancelha em sinal de indagação, mas não disse nada. Apenas esperou. – Desculpe. – diante daquele olhar questionador, a onda de raiva foi substituída por vergonha e pesar, quem era ela para falar assim com alguém, ainda mais com a senhoraHolts. Confusa e preocupada, Anne mal conseguiu completar o raciocínio. – Não sei o que me deu. Tenho lido muito, estudado muito, e acabo dando vida a esses personagens. Acho que a senhora está certa. Preciso me descontrair um pouco, quem sabe eu dê uma passada pelo Ninho do corvo hoje à noite. – Mas nunca para me encontrar com aquele enfadonho do Carlson, completou silenciosamente. – Muito bem garota, mas agora caia foradaqui, tenho um encontro hoje e você está atrapalhando meus planos. Anne recolheu suas pesquisas, vestiu a jaqueta que estava pendurada no encosto da cadeira e saiu da biblioteca absorta em seus pensamentos. Não era interessante? Até a senhora Holts, com seus quase setenta anos tinha um encontro, enquanto ela, Anne Garrison, não tinha nem um gato vira-lata à sua espera em uma noite fria como esta. Com um suspiro desanimado voltou a pensar no soldado que há dias a perturbava. Como alguém pode acreditar que ele era um desertor? Isso é impossível. Ethan Brown não era um traidor de sua pátria. Tudo bem, não há uma só linha que afirme o contrário, mas ela sabia. No fundo de seu coração. Ele nunca fora um desertor. Ele honrara seu país e derramara seu sangue por ele. Sentindo a fadiga de horas de estudo se aproximando e o sopro do vento frio percorrendo seus ossos, desejou um banho quente, uma taça de vinho e uma boa noite de sono. Assim poderia descansar. Colocar a cabeça em ordem. No outro dia, logo pela manhã, teria que voltar ao Instituto a fim de tentar conseguir algum aluno-orientando. Suas reservas já estavam no fim e não tardaria muito a ter que se alimentar apenas com iogurte. Uma ideia não muito agradável, diga-se de passagem. Mesmo estando com o orçamento no vermelho, Anne não podia deixar de lado suas pesquisas. O mistério de Ethan Brown a perseguia, não só quando estava acordada, mas também em seus sonhos. E por mais que tentasse não conseguia empurrar para o fundo de sua mente. O tema sempre estava rondando, batendo como uma violenta martelada dentro de sua cabeça. Desceu do táxi em frente ao prédio de quatro andares onde se localizava seu apartamento, uma olhada pela fachada a fez recordar o quanto era feliz neste lugar. A tinta externa já havia perdido o brilho. Em alguns lugares rachaduras se faziam presentes, as sacadas, cada morador ornamentou ao seu gosto, algumas com flores coloridas e alegres, outras com bicicletas e brinquedos de crianças. Porém, em cada uma via-se um pouco de cada morador. Em sua sacada, os canteiros que costumavam sempre estar repletos de margaridas com pétalas brilhantes, agora estavam cobertos, protegidos do


frio e da neve. Sempre tivera uma pretensão por elas, talvez por sua simplicidade e discrição que sempre deixavam o ar alegre e charmoso. A calçada estava escorregadia devido à neve que caíra. No pátio ao lado, algumas crianças corriam fazendo algazarra tentando espantar o frio. Subiu o lance de escadas, seu apartamento ficava no quarto andar, sua mãe sempre reclamava: – Já que você faz questão de morar em um lugar onde não tenha elevador, podia ao menos escolher um apartamento no primeiro andar. Realmente, para Madelayne Garrison andar quatro lances de escadas era o equivalente a escalar o monte Everest. Recordou Anne com uma pontada de saudade, há muito não via a mãe, com suas maneiras fúteis que mais se assemelhavam à uma adolescente. – Como a amo, mamãe. – Murmurou Anne. Seu apartamento era claro, com paredes em tons pastéis exalando tranquilidade e aconchego. Em um canto próximo à janela havia um sofá já bem gasto, com almofadas coloridas. Mesas cobertas por seu primeiro e permanente amor, os livros. Via-os não apenas como fonte de conhecimento, entretenimento, conforto, até mesmo sanidade, mas também como uma espécie de decoração artística de bom gosto. Encaminhou–se para o refrigerador de onde tirou umpote de sorvete de chocolate, começou a comer direto do pote, sentia–se nervosa e agitada. Nada como uma boa dose de glicose para poder reavivar os ânimos. Caso o sorvete não resolvesse, um pedaço de torta de chocolate ou uma taça de mousse de maracujá dariam conta do recado. Encostada no balcão da cozinha, enumerando os vários tipos de doces que poderia ingerir até disseminar toda aquela frustação, correu os olhos pelas paredes da sala. Livros, bibelôs que há anos colecionavam. Caminhou até o aparelho de som e os acordes de Beethoven soaram pelos autofalantes, entre os livros, protelava entre Yeats e Poe, enquanto continuava a devorar o pote de sorvete. Música, leitura e uma vasta variedade de doces, era com certeza uma combinação que sempre a acalmava. Um pouco mais relaxada, caminhou para o quarto. Trocou o jeans e o casaco por um robe de seda, que mais parecia uma carícia ao tocar sua pele. Ainda se lembrava quando Mirna deu-lhe de presente em seu aniversário. Mirna era uma mulher suave e adorável, bonita, loura, olhos dourados, gostava de usar elegantes calças sob medida e sapatos italianos. Nunca se apresentava sem estar devidamente maquiada e os cabelos impecavelmente arrumados. Sempre se irritava com Anne por sua total falta de senso de moda, dado que uma mulher deveria ter o mínimo que fosse. – Quando uma mulher completa vinte e cinco anos, precisa começar a se preocupar com suas roupas íntimas. – Falou Mirna ao entregar o presente.


– Mirna, eu me preocupo com minhas peças íntimas. Só não são tão espalhafatosas como as que você gosta. Prefiro a discrição. – Certo. Mas até as freiras que frequentam a igreja perto da casa da minha mãe concordariam comigo, Anne. Vá lá, vista o robe, não estou pedindo para fazer um desfile em plena Medson Street. – Tudo bem. Realmente, o tecido caía sobre a pele branca como um bálsamo, macio e confortável, e a cor, um verde oliva, realçava ainda mais seus olhos. Olhando-se no espelho, ficou encabulada com o que via. Sou obrigada a confessar, mesmo que em pensamento – Anne sorriu –, Mirna sabe como escolher coisas bonitas. Preciso fazer uma visita a esta casa de Aladim, que é como Mirna apelidara a loja, quem sabe encontro mais alguns tesouros que combinem comigo. Seria interessante ver a reação de minha melhor amiga me vendo em meio a um monte de calcinhas, sutiãs e robes de todas as cores e modelos. Com uma careta afastou a imagem de sua cabeça quando o telefone tocou. – Alô. – Srta. Garrison. Anne Garrison? – Sim, é ela. Quem fala? – Meu nome é HenryStarre, temos uma amiga em comum e estivemos falando sobre você. – E quem seria essa amiga, sr. Starre? – A senhora Holts, da biblioteca do Instituto. Ela me informou que a senhoritavem fazendo algumas pesquisas sobre a batalha que ocorreu em Maryland durante a Guerra da Secessão em 1862. – Sim, é verdade, mas... – Tenho um interesse especial pela região de Antietam, gostaria de conhecê-la, srta. Garrison. – Interpôs antes que Anne tomasse fôlego para dispensá-lo. – Senhor Starre – confusa e interessada Anne continuou –, não tenho costume de falar sobreminhas pesquisas pelo telefone, principalmente com estranhos. – Perdoe-me, srta. Garrison. Eloise fala tanto em você que até me esqueci que não fomos apresentados formalmente. Façamos assim. Em breve irá chegar à sua porta uma caixa contendo tudo de que precisa para viajar e se instalar o mais rápido possível em Antietam. Quando chegar aqui poderemos nos conhecer melhor e assim me colocar a par de suas pesquisas. – Desculpe, senhor Starre, mas não tenho intenção nenhuma de viajar agora. – Tudo bem que seria uma oportunidade de ouro, pensou Anne, caminhar por entre a floresta, sentir o vento que em outra época acalentou a vitória de uns e a derrota de outros. Absorver a calor que emanava daquela terra. Mas como simplesmente deixar tudo pra trás? “Mas o que eu deixaria? Nada. Não há nada a deixar.” Refletiu Anne com amargura. Viajar para outro lugar, para encontrar com um homem que não conhecia. Homem este que ora


a voz mostrava-se agradável e natural, ora irrequieta e profunda, demonstrando alguém que não gostava de ter seus pedidos negados. Não. Não me parece uma ideia muito inteligente. – Srta. Garrison, ainda está aí? Chamou a voz ao telefone com uma pontada de irritação. Tirando-a de seus devaneios. – Abra a porta, senhorita. E pense melhor na minha oferta. Quando precisar entrar em contato comigo, dentro da caixa terá tudo o que necessita. Tenha uma boa noite. Essa é boa, pensou Anne, ouvindo o sinal de que o telefone já havia sido desligado. Só pode ser um maluco. Que tipo de amigos tem a senhora Holts. Amanhã mesmo voltarei à biblioteca para saber mais a respeito deste tal senhor Starre. Bem, mas posso adiantar as pesquisas.Dirigiu-se para a mesinha no canto da salaque usava como escritório, nos tempos atuais a internet facilita e muito a vida do ser humano. Vejamos o que temos aqui. Abriu a página de pesquisa procurando por HenryStarre. Quem é você, senhor Starre? E o que faz na vida. Quando a pesquisa completou e na tela surgiu as informações que Anne havia solicitado, seu espanto foi ainda maior. – Ora, ora, ora. Mas isso sim, que é muito interessante. Neste momento a campainha tocou irritando-a, não esperava visitas e não queria falar com ninguém. Fosse quem fosse, daria um jeito de despachar o mais rápido possível. Queria muito saber mais sobre o misterioso senhor Starre. Olhou pelo olho mágico e não conseguiu ver ninguém. O corredor estava vazio, nem um sinal de que alguém estivera ali. Abriu a porta, mas não tirou a corrente de segurança. Foi quando viu a caixa. Destrancou-a com toda a rapidez e ficou parada contemplando o objeto, sem saber ao certo o que fazer. Ouviu o elevador parar, agarrou-a e fechou a porta com a mesma força que a abriu. Confusa, colocou a caixa sobre a mesa e ficou a observar, olhou para o computador portátil que estava ligado sobre a mesa e fitou a foto que ali aparecia. O que você pretende, senhor Henry Starre? A curiosidade prevaleceu sobre a prudência, então abriu a caixa. Dentro havia uma passagem, endereço e telefones anotados em papel cartão, chaves de um carro e ao que parece de uma casa. Tudo muito estranho, pois as únicas palavras dirigidas a ela encontravam-se em um bilhete preso ao fundo da caixa.

Srta. Garrison Esperamos que aprecie a estadia em nossa comunidade. Aguardamos com entusiasmo sua chegada. H.S e J.S


Já passava das onze horas quando Anne entrou no Ninho do Corvo. Um lugar com clientela de alto poder aquisitivo, com mais dinheiro para gastar do que tempo para fazê-lo. O bar tinha um comprido e reluzente balcão que se curvava em um aconchegante semicírculo, junto ao qual uma tropa poderia se acomodar em banquetas cromadas com assento estofado de couro preto. Painéis espelhados em preto e prata cobriam a parede do fundo, retornando reflexos e formas. Garrafas de bebidas reluziam das prateleiras anexadas atrás do balcão. Com certeza um lugar e tanto. Não havia cruzado a porta completamente quando avistou Mirna sentada junto ao balcão conversando com o barman, bebia um Martini, o qual sempre dizia ter sido produzido por um deus apaixonado que resolveu pagar por seu adultério ingerindo algo que pudesse queimar o amor que existia em seu coração. Era um elixir para corações sofredores. Sempre se esquecia de mencionar a inconstância do amor entre os deuses e a ressaca do outro dia, pensou Anne, já sorrindo para ela. – Ei! – Mirna acenou ao vê-la atravessando o bar em sua direção. – Olá. Oi para você, Phil. – Cumprimentou, encantando ainda mais o sorriso direcionado ao barman. – Olá, Anne. O que vai ser hoje? O de sempre? – Pode ser. Veja-me aquele Chardonnay. Estou precisando relaxar. – Então garota, qual de suas guerras está prestes a explodir novamente? – Comentou Mirna com ar divertido. – Sinceramente – disse Anne já bebendo o vinho que o barman acabara de servir –, a que está mais próxima de alguma nova explosão fica em Maryland. Especificamente em Antietam. – Por favor, Anne, não posso acreditar que você ainda vem alimentando essa paixão platônica por um soldado morto. Pior ainda, um soldado com mais de cento e cinquenta anos, e morto. Tão morto que ninguém sabe nada sobre isso. Nem seu corpo foi encontrado. – Mas... – Mas nada! Gritou Mirna. Fiquei tão feliz quando você me ligou! Sabe quanto tempo fazia que você se recusa a sair? Duas semanas, isso mesmo, quase duas semanas. Essa fase de hibernação precisa passar. Não suporto mais isso. O que você... – Chega! Todos que estavam próximos a elas pararam o que estavam fazendo para observá-las. O barman completou a taça de Anne que já estava no fim e voltou a lavar os copos que estavam sobre balcão. Com a cabeça rodando, os nervos aflorados e o sangue batendo a toda velocidade contra suas


veias, Anne se levantou furiosa. Torcia as mãos como se fosse arrancá-las. – O que você pensa que está fazendo? Estou sim, passando por uma fase difícil. Por que não me pergunta como tenho dormido? Eu te conto como tem sido minhas noites. Praticamente em claro, se durmo uma hora que seja, os sonhos vem me aterrorizando. Acordo aos prantos – Anne passou as costas das mãos para enxugar uma teimosa lágrima que teimou em cair –, depois não consigo dormir. Fico sentada junto à janela vendo a noite passar e o dia nascer. E quando venho falar com a minha amiga, ela não me ouve e grita comigo. Desculpe Mirna, mas preciso ir embora. Não estou tendo uma boa noite e com certeza não quero me indispor com você, as noites mal dormidas estão me tornando uma chata, perdoe-me, não quero estragar sua noite. – Os olhos cansados de Anne procuraram a amiga, e com um olhar esgotado encaminhou-se para a porta. Sem esperar por uma resposta e tremendo até a alma, Anne se afastava quando Mirna a segurou pelo braço e a abraçou. – Desculpe. Perdoe-me, criança. Sempre me esqueço do quanto você é sensível. Ainda nervosa, Anne se afastou de Mirna. – Não é questão de sensibilidade, não sou uma demente que não consegue lidar com seus problemas. Eu apenas queria conversar sobre algumas coisas, mas vejo que será impossível. Colocando a bolsa sobre os ombros, Anne encaminhou-se para a porta.Mas antes volta e dá um abraço bem apertado em Mirna. Quando se afastaram, ambas estavam emocionadas. – Bem, então é isso. Vou viajar, não sei quando volto. E pague minha bebida, uma vez que vamos ficar afastadas durante algum tempo. Mereço um mimo e amiga é pra essas coisas. – com um sorriso cansado, saiu do bar.


CAPÍTULO II

O vento soprava seus cabelos, o casaco fechado e as luvas conseguiam drenar um pouco o frio que imperava fortemente. Aeroportos eram sempre os mesmos, pessoas de todos os tipos, de todos os lugares, todos apinhados com bagagens, andando apressados para enfrentar o caos e sair dali em busca do seu destino. Não havia dúvidas, aeroportos sempre a amedrontavam. Ainda bem que quase não os utilizava. Saindo e indo de encontro ao estacionamento, tentou imaginar como seria Henry Starre. Foi neste momento que o viu. Aquele com certeza não era o mesmo Henry Starre da fotografia. Estava vestido com uma camisa de flanela aberta no colarinho. Calça jeans surrada, botas gastas, mãos grandes e cheias de calos. Cabelos pretos escorridos em um boné puído encimando o rosto magro e bronzeado, possivelmente um metro e noventa sem exagero. Não mais que trinta anos. Os olhos, esses ela não podia precisar a cor exata, pois estavam cobertos pelos óculos de sol, mas seria capaz de apostar que eram azuis. Ficou parada próxima a ele sem saber o que fazer, ele a contemplava como um lobo faminto contempla um bom pedaço de carne. Apertando bem a alça da mala que carregava, cumprimentou-o. – Senhor Starre? Ela estava impecável com o seu casaco elegante e os cabelos esticados para trás, tão perdida com os olhos grandes a analisá-lo. Parecia de fato intelectual ou uma raposa pronta para fugir. Essa sim era a comparação perfeita. Contemplando-a com uma expressão impassível, respondeu: – Sim, sou James Starre. Meu pai, Henry Starre, espera por você na fazenda e sente muito não poder vir ele mesmo buscá-la, mas encontra-se um tanto debilitado e este frio não lhe faria bem. – Oh! Ele está doente. Caso prefira posso ir para o hotel me acomodar, e quando ele se sentir melhor conversaremos. – Não. Senhorita, você está sendo esperada na fazenda, e seria uma falta de cortesia deixá-lo esperando ainda mais. Atordoada com aquele tom de voz e a forma com a qual ele a tratara, Anne seguiu para o carro com ele. Com certeza esse deus disfarçado de camponês não queria se misturar com a plebeia. Pois bem, ela facilitaria as coisas para ele. Também não faria questão nenhuma de se misturar com a realeza. Sorriu diante do pensamento infantil. Sentada no banco do carona com o rosto voltado para fora, contemplava a paisagem, sentia-se


livre e satisfeita por ter aceitado o convite, mesmo que tivesse algum bônus ruim, como conviver com o Senhor Sisudo. James estava fascinado com Anne. Ela possuía um invejável autocontrole, ele tentara enfurecêla questionando sua falta de cortesia, chegou a ver o brilho da ira em seus olhos. Mas não deixou transparecer em nenhum momento. Como ele ligara o som do veículo educadamente baixo, mas ainda podia-se ouvir Philip Phillips cantando Home com sua voz rouca, ela não ousara fazer nenhuma pergunta ou manter uma conversa informal. Mantinha os olhos contemplando a estrada desde o momento em que saíram do aeroporto. O que você está pensando, srta. Garrison? Cansado do silêncio que se instaurara, James resolveu conversar sobre alguma banalidade. – Então, srta. Garrison, meu pai disse que você gosta de ler sobre nossos mortos. Anne arqueou uma sobrancelha em sinal de ironia para depois responder. – Digamos que gosto de me manter informada sobre a história de meu país. – Mas para isso você não precisaria sair de Nova York. Poderia ter ficado por lá. – Afirmou com um ar irritado. Droga! Não era para ser uma conversa amena, sobre banalidades? Questionou-se James. Intrigada, Anne o instigou. – E era o que eu estaria fazendo se certo magnata colecionador de obras de arte não tivesse colocado na porta da minha casa uma caixa com uma passagem para cá. Sendo assim, já que não sou uma pessoa descortês, resolvi aceitar o presente. – Satisfeita com sua resposta, Anne virou-se novamente para a janela do carro. James apertou o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Fulminoua com aqueles faróis azuis, e antes que pudesse se conter, pegou-a pelo braço. Raiva e desaprovação emanavam dele. Um silêncio mortal pairou dentro do carro. – Aceitou o convite, passagem e hospedagem de um completo desconhecido. Para mim você não passa de uma interesseira. – Droga! O que estava acontecendo com ele? James indagou-se, acabara de conhecer esta mulher. Enfurecida com tamanha injustiça Anne se defendeu: – Opa! Espere aí, desconhecido não senhor, fui muito bem recomendada pela senhora Holts que, diga-se de passagem, é amiga de seu pai há muito tempo. Venho para conhecer o lugar onde passou a guerra que deu origem à minha pesquisa, investigar a história por trás da história, e assim poder dar maior autenticidade a ela. Agora você vir me chamar de interesseira?!! Não quero a prataria de sua casa e nem muito menos as obras de arte da sua família, apenas uma coisa me interessa aqui, senhor Starre, e foi atrás dela que vim. Exausta, tanto pela viagem quanto pela situação, Anne o fitou e puxou o braço, libertando-se do


seu aperto. Resignada, bateu com as mãos no painel do carro. – Pare! Pare o carro. Não esperou que seu pedido fosse atendido e automaticamente abriu a porta. Quando estava prestes a saltar, uma mão forte e cheia de calos segurou-a. – Qual é o seu problema? É maluca ou quer se matar? Desculpe, eu não quis dizer da forma que pareceu. Ainda sem se deixar convencer Anne voltou a afirmar: – Leve-me de volta ao aeroporto! Não. Não precisa se dar ao trabalho, eu consigo uma carona. Agora, se puder me soltar para eu pegar minhas malas, ficaria muito agradecida. – Malas. Aeroporto. Do que você está falando, sua maluca? Estamos indo para a fazenda. Meu pai está esperando sua chegada. É assim que retribui o interesse dele por você? – soltando um suspiro desanimado, James soltou-a e falou da forma mais tranquila que conseguiu. – Eu não sabia de sua relação com a senhora Holts, na verdade pouco sei sobre você e sua vinda. Peço desculpas e espero que aceite, vamos colocar uma pedra sobre esse assunto. Meu pai a trouxe aqui e deve ter seus motivos, peço que releve esse meu comportamento e aceite o que meu pai te ofereceu com tamanha boa vontade. Cansada e mal humorada, com os nervos à flor da pele por estar tentando conter um mau gênio que ansiava por despertar, Anne desabafou: – Olha, sr. Starre, está claro que não compartilha os mesmos pensamentos que seu pai a meu respeito. Isso pouco me importa. Eu também estou descobrindo que não me interesso nem um pouco por você. Mas esta situação de animosidade está me desgastando. Não consigo viver assim, sob pressão, como se estivesse sendo avaliada, observada o tempo todo. Não fiz nada para merecer seu desafeto. Porém, não pretendo perder meu tempo tentando entender ou pensando em como mudar sua opinião. Sendo assim, vou aceitar sua proposta e colocar uma pedra sobre este assunto, tipo política de boa vizinhança, ou seria obrigado a me levar novamente ao aeroporto. Embora comece a acreditar que talvez tenha sido uma idiotice ter aceitado este convite. James não conseguia pensar em nada, queria apenas observá-la. Esta mulher era uma caixinha de surpresas. Confuso e encantado com tamanha força que brotara nela de um momento para o outro, mal conseguiu organizar as ideias para fazer com que as palavras saíssem ordenadas. – Você, srta. Garrison, é uma tremenda propaganda enganosa. Percebendo o olhar inquisidor de Anne, deu a volta na chave ligando o carro e encaminhou-se para a fazenda. Anne usou seu direito de permanecer em silêncio, não entraria em atrito com o Senhor Sisudo, estava certa que quando chegasse à fazenda e não fosse preciso compartilhar todos os segundos de seus dias com ele, as coisas voltariam ao normal.


Não podia esquecer, estava ali por sua pesquisa. Por Ethan, por ele valeria a pena ser atirada aos lobos. Pensando nisso, contemplou James com um breve olhar. A casa não era nem de longe o que imaginara. Não se tratava de uma construção suntuosa, cheia de pilares e torres. Pelo contrário, era literalmente uma casa de fazenda, com dois andares, paredes de madeira e imensa. Com certeza abrigaria várias famílias. Encantada, começou a fazer o inventário de tudo que estava vendo enquanto James manobrava o carro pelo gramado que contornava a residência, levando diretamente para o bosque que emoldurava a parte de trás. Uma cerca de madeira ainda sem pintar protegia-a contra possíveis invasores que viessem a sair do bosque e se atrevessem em se aventurar pelas proximidades da casa. As imensas janelas davam um ar nostálgico. De repente, uma sensação de déjà vu a invadiu quando desceu do carro. Como se ela já estivesse vivido aquele momento. Não. Não este momento, e sim em outra época. Ela pode ouvir as vozes, no início era apenas um sussurro, mas cada vez ficavam mais claras. Então os viu, caminhando de mãos dadas em direção ao bosque. Pareciam tão apaixonados. Felizes. Presa naquela visão, não conseguiu deixar de contemplá-los. Fitando-os com toda intensidade, ele a viu. Uma mistura de sensações atravessou seu corpo. Já não era mais senhora de suas ações. Sentiase compelida a ele, queria tocá-lo. Virou-se em sua direção. Precisava tocá-lo. Com aqueles olhos cinza como os dias enevoados, ele a fitou e sorriu. O som da sua voz veio dançando com o vento, até chegar a ela. Siga seu coração. Ele é o caminho. Trêmula e confusa ouviu ao longe uma voz resmungando baixinho. Seu nome. Podia ouvir seu nome, alguém chorava. Ainda com os olhos fechados não compreendia o que se passava. Algo frio pousou em sua testa, uma mão carinhosa massageava suas têmporas e uma onda de calor e alívio percorreu seu corpo. Quando abriu os olhos, o espanto que teve só não foi maior que a dor na cabeça. Descobriu que o choro era seu. Tinha o rosto coberto por lágrimas, seu corpo tremia tanto que se tornava humanamente impossível sustenta-lo em pé. E para seu maior espanto estava apoiada em um peito forte, largo e aconchegante. Levantando a cabeça para que seus olhos pudessem ficar na altura dos olhos daquela montanha de músculos, deparou-se com uma expressão que era uma mistura de terror, raiva e impaciência. Com as sobrancelhas ligeiramente erguidas, James a contemplava. Ela parecia confusa e absorta em seus pensamentos. Ele podia perceber a angústia estampada em seus olhos ainda enevoados. – Você desmaiou, pequena.


A voz dele era tão gentil que Anne teve que se esforçar para reconhecer o homem mal humorado com quem se encontrara no aeroporto. – Ethan! Ela viu a mudança nos olhos dele e tentou consertar. Ele parecia preocupado. – Foi mesmo? Não sei o que aconteceu. – Quando foi que você comeu alguma coisa? – James perguntou abruptamente, o tom de sua voz era fria ecortante. Agora sim! O Senhor Sisudo estava de volta. Alarmada e constrangida por perceber que ainda se encontrava apoiada em seu peito, Anne tentou se afastar, uma tentativa frustrante, pois era o mesmo que empurrar um trem. – Por favor, solte-me. Preciso me levantar. – James! Traga-a para dentro, Rosalyn está preparando um chá pra você. Ainda abalada, Anne seguiu em direção à voz e seu olhar se encontrou com o de Henry. Que a recebeu com um sorriso alegre e conquistador. Tentando ao máximo, conseguiu expressar um sorriso amarelo, que mais transmitia exaustão do que felicidade. Acomodada em um sofá super estofado, Anne observava os detalhes da sala. Havia antiguidades por toda parte em um canto uma escrivaninha com cadeira muito bem talhada. No outro extremo um piano, que dava indícios de ser bastante usado; as partituras estavam espalhadas, como se alguém tivesse acabado de manuseá-las. Tudo era muito acolhedor. Embora mostrasse ser um ambiente extremamente masculino. Não se via nenhuma cortina com rendas, velas aromáticas ou alguns vasos com flores. Engraçado. Não havia uma rosa sequer. Nada, nem dentro, nem fora da casa. Ainda percorria as paredes da sala observando cada detalhe quando os viu. A famosa galeria de arte de HenryStarre. Uma mistura interessante. Barroco, impressionismo e pós-impressionismo muito bem representados por Rembrandt, Rubens, Monet e Van Gogh. De repente, foi como se estivesse a passear por um dos longos corredores do Louvre. Ao tentar levantar-se, o mundo rodou e o chão moveu-se novamente sob seus pés. Bolas! O que estava acontecendo com ela? Recostou-se no sofá e esperou que o universo voltasse para o lugar. – Você ainda não se recuperou. Precisa de um pouco mais de tempo. Envergonhada, Anne concordou acenando a cabeça. – Preciso vê-los de perto. – Afirmou apontando para os quadros. – Ah! Claro. Você poderá vê-los o quanto quiser – disse Henry sorrindo –, mas antes precisa se recuperar. Está muito pálida. Pedirei a James que a leve até o quarto de hóspedes. Esta noite ficará conosco, mas amanhã mostrarei a você outro lugar. Então poderá escolher se deseja continuar aqui na fazenda nos brindando com sua companhia ou se prefere um lugar só seu.


– Não precisa se preocupar, senhor Starre, posso muito bem ficar em um hotel. Não quero trazer problemas. Mas por agora aceitaria o quarto, estou exausta e gostaria de descansar um pouco. Minha cabeça parece que vai despregar do pescoço. – O jantar será servido às sete. Pedirei a Rosalyn que leve o chá para você no quarto. Descanse até lá. James irá ajudá-la com as malas. – Não se preocupe, eu mesma cuidarei delas. – Disse levantando ainda tonta e caminhando em direção às malas. – Não seja tola. Mal está se aguentando sobre as pernas. – Vociferou James já com as malas nas mãos e caminhando em direção às escadas. – Desculpe, meu filho. Às vezes ele esquece as boas maneiras. Mas no fundo é um bom homem. Com um ar conspirador, Henry observou-os subirem as escadas. Por que será que seu filho, sempre amável e gentil, mostrava-se irrequieto e desconfiado perante a presença da bela Anne Garrison? Interessante. Complementou Henry com um leve sorriso nos lábios. – Bom Homem. Deve ser bem no lá fundo mesmo. – Murmurou Anne seguindo pela escada por onde James havia subido. O quarto era bastante agradável, uma cama imensa estava coberta por uma manta de cetim que chegava ao chão e era tão azul que a fazia se lembrar do mar. Várias almofadas estavam cuidadosamente organizadas sobre ela. A janela tinha uma vista que era de tirar o fôlego. Por ela avistava-se o Potomac com suas abundantes águas. Como era lindo! Assim que se instalasse daria uma olhada de perto. Caminharia próxima a água. Sentaria embaixo de uma daquelas antigas árvores. Quantos soldados fizeram a mesma coisa. Será que Ethan fizera? Teria ele caminhado próximo àquelas águas? – Se você pretende ficar o restante do dia de pé olhando pela janela, eu não me oponho. Mas não pretendo ficar aqui observando-a fazer isso. Se precisar de alguma coisa é só digitar zero no telefone que alguém virá te atender. – Dizendo isso, James caminhou para a porta. Não suportava mais ter que ficar olhando para ela e para sua fragilidade. Tinha roubado dez anos de vida dele ao vê-la desmaiar à sua frente, não queria presenciar aquilo outra vez. Por isso manteria distância dessa dona confusão. – É lindo. – Murmurou Anne, de volta à realidade. – Sim, é. – Disse ele ainda parado na porta. – Obrigada. Não te agradeci. Você foi muito gentil em me amparar. – Não fiz nada que pudesse merecer seu agradecimento, o que fiz faria por qualquer um. Comprimiu os olhos para impedir que as lágrimas rolassem por eles, não conseguia entender o


porquê dele tratá-la tão mal. Contemplou novamente o rio e disse, torcendo para que a voz soasse normal. – Mesmo assim, obrigada por perder seu precioso tempo comigo. Agora gostaria de ficar sozinha. James odiou a si mesmo, a tristeza que viu estampada em seus olhos e a voz embargada que ouvia deixou-o desolado. – Anne... Ao ouvi-lo pronunciando seu nome com tanto carinho e angústia, sentiu que as lágrimas que ansiavam por cair não seriam muito tempo contidas. – Não! Por favor, deixe-me sozinha. Quando ele já estava fechando a porta ela o chamou. – Sr. Starre. – Sim. – Pra você, é Srta. Garrison. – Disse contraindo de leve os lábios ao perceber a mudança em seus olhos. – Como quiser, senhorita. – Disse saindo do quarto e fechando a porta atrás de si.


CAPÍTULO III

Quando Anne desceu, estavam todos na sala de estar, porém todos se resumiam a Henry e James. Que agora se vestia de uma forma bem diferente. Calçade sarja feita sob medida e um suéter de cor pastel deixaram-no com um ar conservador. Os cabelos escuros com as ondas meio desalinhadas. Aqueles olhos cor de névoa eram capazes de esconder o pior segredo, os piores sentimentos e capazes de gelar a alma de qualquer um que ousasse contemplá-lo por um longo período. Henry, no entanto, era um homem fascinante. Alto, corpulento, cabelos escuros – iguais aos do filho – que já mostravam algumas tonalidades de branco, davam a impressão de que havia acabado de cair uma nevasca sobre ele. Fato este que ressaltava seu charme. Era dono de um sorriso iluminado e sincero, daqueles que dizem pode confiar em mim. – Desculpem-me pelo atraso. Ainda estou meio confusa. Deve ter sido a viagem. – Não se preocupe querida. James estava começando agora mesmo a nos preparar alguma bebida. O que prefere? – Ah! Um chardonnay seria bom. Sem olhar para ela, James começou a preparar as bebidas. Cada minuto que passava junto dela estava se tornando um suplício, até quando conseguiria evitar tocá-la? Seria mesmo interessante ver a reação dela. E mais ainda, saber qual era a textura de sua pele, o perfume de seus cabelos e o gosto de sua boca. Levantou a cabeça e seus olhos se encontraram, por um momento ele relembrou os sonhos que há muito pertubavam seus sonos. Tentara exaustivamente livrar-se deles, e agora ele estava ali. Sentada à sua frente, com aparência de quem acabava de ver um fantasma. Reluzia dela uma fragilidade que o comovia. Como gostaria de acalentá-la entre seus braços. Protegê-la. Fazer com que aquele pânico desaparecesse de seus olhos. Mas não podia. Quanto mais próximo ficasse dela, pior seria. Seu pai havia complicado e muito sua vida. Procurando afastar o turbilhão de pensamentos que assolava sua mente, James caminhou lentamente até Anne e serviu o vinho dela. – Amanhã, srta. Garrison... – Anne. Por favor, chame-me de Anne. Com um sorriso acolhedor Henry anuiu com a cabeça concordando. – Então deve me chamar de Henry, minha querida. Como estava dizendo, James a levará até a


cabana. Assim poderá escolher onde prefere ficar. – Não quero causar problemas. Tenho certeza que o sr. Starre tem muito trabalho a fazer. Se você, Henry, puder me indicar o local, eu mesma posso encontrá-lo. James contemplou-a, mas não disse nada. Então seria assim, Sr. Starre para ele e Henry para seu pai. Ótimo! Precisava de espaço para organizar melhor o que estava sentindo e um certo grau de formalidade em nada atrapalharia. Henry arqueou a sombrancelha e pigarreou, tirando James do transe. – Claro que não será problema algum acompanhá-la até a cabana. Acho que vai gostar do lugar, é bastante acolhedor e tem uma vista linda do Potomac. Ela fica próxima à ponte Burns. – Informou James de forma lacônica. – Esta ponte teve um papel fundamental durante a guerra. Quero muito conhecê-la. Talvez caminhe até lá amanhã. – Comentou Anne quase que para si mesma. – É verdade. Aquela ponte guarda vários segredos. – Disse Henry trocando um olhar significativo com seu filho. O que não passou despercebido por Anne. Já em seu quarto, Anne repassava seu dia. Henry conduzira o jantar de forma amigável e descontraída. Deixar de pensar em James era impossível. O homem havia se comportado como se estivesse a caminho da morte. A tensão era perceptível. Poucos foram os momentos em que demonstrou-se relaxado. Não. Relaxado não era uma palavra que se poderia empregar. Mas sim, menos tenso. Quando o pai contara uma das peraltices que ele e o irmão cometeram quando crianças e ele soltou uma gargalhada, aquilo afetou-a; ficou chocada com tamanha beleza. Travou-se uma batalha em seu interior para não deixar que seus sentimentos transparecessem. Ele devia fazer aquilo mais vezes. Sorrir. Olhando para as águas calmas do Potomac, Anne percebia que mais uma séria batalha iria decorrer próxima àquelas águas. Mas ela estava determinda a não se render. E a não se deixar intimidar por James Starre. Quando acordou, o sol já brilhava com toda força no céu, podia ouvir o bruxulear dos pássaros que brincavam próximos à janela. Como era bom despertar em meio a tamanha tranquilidade. E o mais interessante, não havia sonhado. Há quanto tempo não dormia tão bem. Um sono profundo e sereno. Em momentos assim, nada poderia estragar seu humor. Anne mal havia finalizado o pensamento quando a porta do quarto se abriu e James entrou. Com um ar atrevido e olheiras profundas que davam indícios de que não havia dormido, ele ordenou. – Levante-se e vista-se. Não tenho o dia todo para bancar a babápra você. Se quiser visitar a cabana, apresse-se. Anne fitou-o por um longo minuto.


– Bom dia pra você também. Dormi muito bem, espero que você tenha tido uma noite péssima, assim poderia me sentir vingada por derramar todo seu mau humor em mim, estragando a minha manhã. E não se preocupe, sou bastante crescidinha para conseguir encontrar uma cabana e uma ponte. Sendo assim, saia! Vá cuidar de sua vida e deixe-me em paz. Resmungou, virando-se de costas para ele. Afundando-se ainda mais nos traveseiros. Enlouquecido pela visão daquelas costas nuas, aproximou-se da cama, e roçando as mãos sobre a pele macia de Anne, murmurou: – Se pensa que vou ficar aqui implorando para que venha comigo está muito enganada. Você tem dez minutos, se não aparecer partirei para cuidar dos meus afazeres. Estarei esperando na cozinha. Sem esperar por uma resposta partiu, deixando-a tonta e trêmula com o leve toque de suas mãos. Resignada e tentando se acalmar, Anne encaminhou-se para o banheiro. – Quem foi que disse que nada poderia atrapalhar seu humor? – Comentou Anne irritada. Quinze minutos depois descia as escadas a caminho da cozinha. Acreditava que ele não estaria esperando por ela. Mas não custava nada verificar. Parado ao pé da escada estava um homem muito atraente, cabelo bonito, castanho, com algumas mechas mais claras causadas pelo sol. Olhos de um azul profundo, diferentes dos de James. Mas a semelhança estava clara. A boca carnuda, a forma de olhar utilizando aqueles faróis safiras com toda intensidade. E podia-se encontrar Henry facilmente em seu porte altivo e no sorriso fácil. Este deve ser Ronald Starre, irmão de James. – Bom dia! Que belo milagre dos deuses. O que uma mulher linda assim faz perdida neste museu abandonado? – Cumprimentou-a Ronald esboçando seu melhor sorriso. – Digamos que ainda não sei ao certo o que estou fazendo aqui. Mas esta casa não se parece com um museu. Já visitei alguns e em nada se assemelha a está-a magnífica construção. – Rebateu Anne retribuindo o sorriso. – Querida, fale isso depois de passar um mês aqui. Pegando a mão de Anne e beijando-a, ele se apresentou: – Ronald Starre, seu criado. Sorrindo com o tom galanteador do nobre rapaz, Anne respondeu: – Anne Garrison. Historiadora. Anne viu a transformação ocorrer lentamente. De um simples flerte sem importância a um olhar duro e conturbado. Bem, parece que os filhos de Henry Starre não conseguiam disfarçar sua animosidade relacionada a ela.


Ele observou-a atentamente, percebia que ela havia notado sua mudança. Estava bastante desconcertada, a (moça) alegre e desinibida dera lugar a uma cautelosa e amedrontada. Então era este o problema que seu irmão teria que enfrentar. Nada mal. Esbanjando seu melhor sorriso, caminhou com ela até a cozinha. Sentado à mesa com uma xícara de café na sua frente, James parecia um ator de seriado de televisão; tranquilo e despojado com suas calças surradas. Botas surradase sujas de barro. Uma camisa de flanela com os botoes superiores abertos deixando à mostra a camiseta branca que usava por baixo. Mas bastava fitá-lo com um pouco mais de cuidado para perceber a intensidade de seus pensamentos, a fúria expressa em seu silêncio. O maxilar travado, como se estivesse pronto para nocautear um campeão peso pesado. Ronald sentindo-a tensa, ficou a observar a luta que estava sendo travada ali; de um lado seu irmão, que geralmente era alegre e bem humorado, mostrava-se pronto para matar alguém e ele acreditava que esse alguém era a bela Anne, que por outro ladoparecia uma estátua petrificada no lugar; desde que se depararam com James seus pés travaram e seus olhos não o deixaram nem por um segundo. Percebendo-os parados à sua frente, James fitou-os. Ao ver seu irmão abraçado Anne, não pode conter a violência que subitamente surgiu em seus olhos, tornando-os densos e profundos como o mar em dias de tormenta. Procurando se acalmar, manteve-se acupado com a xícara que tinha nas mãos. Calmamente levantou e encarou-o. – Não sabia que havia chegado, Ron. Angustiado por ver a dor estampada no rosto do seu irmão, Ronald afastou-se de Anne e pousou a mão no ombro de James. – Cheguei ainda há pouco, quando estava subindo ao seu quarto, encontrei Anne que vinha procurá-lo. Então resolvi fazer-lhe companhia até encontrarmos você. – Bem, parece que já encontraram. – Murmurou James sem fitar o irmão. Anne estava paralisada, não conseguia entender o que acontecia ali. Mas algo se passava. Havia um vínculo muito forte entre os irmãos. Era como se um se ferisse, o outro sangraria. Parecia de repente que ela estava invadindo a privacidade da família, não tinha direito nenhum de estar ali. Assistir ao conflito de James estava matando-a. – James, há algo que eu possa fazer por você? Vejo que está muito cansado, com uma aparência terrível. Talvez devesse dormir um pouco. Os olhos dele se cravaram em Anne, que sentiu seu corpo ficar rígido. O que faria com ela? Eles sempre souberam, tanto ele quanto Ronald, que não haveria opção. Mas ele pensava que poderia escolher. Ter mais tempo. Quanto mais esperava, piores os sonhos


ficavam, estavam deixando-o louco. Anne não sabia o que esperar mediante aquela longa análise. Uma coisa era ser vítima da sua fúria, discutirem, brigarem. Mas aquela dor em seu olhar, não saberia como lidar com ela. Mais tarde pensaria que o que fizera foi devido a compaixão que sentiu ao vê-lo tão desolado. – James. – Anne contornou a mesa e o abraçou. Sentiu cada músculo daquele corpo másculo contra o seu. Um calor que parecia queimá-la por dentro fazia com que sua respiração saísse entrecortada. Fechando os olhos, apertou-se ainda mais contra ele. O coração de James batia descompassado. Ergueu os braços e enlaçou a cintura de Anne, afundando o rosto em seus cabelos perfumados. Parecia tudo tão certo. Tão normal. Era como se sempre tivesse se recostado contra aquele corpo. Ela era tão pequena e magra. Mas suas curvas pareciam se avolumar sob suas mãos. Sua fragilidade o assustava. E a sexualidade que emanava daquele corpo deixava-o tonto. Ainda confuso com a intensa demonstração de carinho, não percebeu que suas mãos subiam e desciam pelas costas de Anne, acalentando-a. Estava tão absorto em seu perfume, que ao ouvir a voz que atormentara seus sonhos teve um sobressalto. Ouça seu coração. Ele é o caminho. Ela é para você. Anne sentiu quando James ia começar a se afastar, então segurou-o com mais força. Não estava pronta para se distanciar. Seus ossos se transformaram em gelatina. Não sabia se conseguiria se manter de pé sem estar se apoiando nos braços de James. Toda sua força não foi o bastante, ele a empurrou e saiu apressado da cozinha. Ronald que ainda continuava parado contemplando a cena foi ao encontro de Anne. – Anne... – Não diga nada – lutando para conter as lágrimas, levantou as mãos em sinal para que ele não prosseguisse –, não sei porque me preocupo com ele. Essa fúria gratuita que ele sente por mim está me arrasando. Não poderei ficar aqui. Vou arrumar minhas malas, talvez procure um hotel ou talvez – emanando um ar melancolico completou – volte a Nova York. Confortando-a, Ronald a abraçou novamente e intercedeu por seu irmão. – Pequena... Anne olhou para ele com os olhos marejados. Já não conseguia controlar a onda de tristeza que rodeava seu coração. – O que foi? Não chore, dizem que isso deixa as mulheres mais velhas e com rugas. – Brincou Ronald, limpando com as costas das mãos as lágrimas que escorriam em silêncio pelo rosto de Anne. – Ele também me chamou de pequena – disse entre um soluço e outro –, foi o único momento em que demonstrou algum carinho. Foi logo depois de eu ter visto...


Parada e confusa, Anne se afastou de Ronald e começou a andar de um lado para o outro pela cozinha. Aquela mudança repentina despertou sua curiosidade. Em um momento a mulher se desmanchava em fragilidade, em outro se tornava uma fortaleza. – Visto o que, Anne querida? – Não sei ao certo. Pois só me lembro o que aconteceudepois de acordar nos braços de James. Ele disse que eu desmaiei. Mas...não sei. Estou confusa. – Ouça-me Anne. Você não pode ir embora agora. Ele vai precisar muito de você. Diga-me, você é uma mulher compreensiva? – Vendo a excitação nos olhos dela, Ronald resolveu mudar de assunto. – Talvez seja melhor você descansar um pouco. Parece bastante cansada. – Não. Gostaria de ir até a cabana. Você poderia me indicar a direção? Mesmo tendo trabalhado sem parar desde o momento em que abondanara Anne na cozinha, ela não o deixara sozinho. Seu perfume impregnou em seus pensamentos, a sensação do toque de suas mãos em sua pele. Não poderia suportar muito tempo. Mas gostaria de tomar suas próprias decisões. Não queria ser empurrado contra um destino que poderia não ser o seu. James já havia ordenhado as vacas, limpado o celeiro e agora estava alimentando o gado. Gostava ele mesmo de cuidar de tudo quando precisava refletir sobre os conflitos que o assolavam. Às vezes se sentia sozinho em seu mundo. Mas havia Ronald, este sempre esteve ao seu lado. Quando os primeiros sonhos surgiram e ele debatia-se durante toda a noite sem conseguir despertar, era Ron quem ficava ao seu lado velando-o em seu martírio. Lembrava-se muito bem da primeira vez. Ele e Ron brincaram o dia todo no feno que foi recolhido. Quando chegou a hora de se deitarem estavam exaustos, mal fechara os olhos e o sonho começou. A lua brilhava alta no céu, a ponte Burns estava deserta, a noite era acolhedora, ruídos de alguns animais noturnos que saíam em busca de suas refeições. O vento trazia no ar o perfume das flores que cresciam na margem do rio. As águas do Potomac corriam tranquilas, a cantiga de uma mãe acalentando seu filho adormecido. Tudo transbordava calma e quietude. Foi neste momento que ele apareceu. Estava sujo, a farda toda ensanguentada. Sentou-se ao lado de James e fitou-o com um olhar sofrido. – Achei que você nunca viria ao meu encontro. Passei anos esperando por você. Assustado e também curioso, James retrucou. – Esperando por mim? Por que esperaria por mim se não o conheço? – Quando chegar o momento entenderá tudo. E terá que escolher. O estrondo de um canhão e o clarão da explosão bem próxima a eles despertou o pânico no


homem que estava ao seu lado. Seu olhar cravou-se em James, e segurando-o pelo braço gritou: – Lembre-se bem, James Starre, uma vida está em suas mãos. Agora corra! Volte para casa. Estarei velando por você. Dizendo isso, desapareceu e James voltou a ter um sono traquilo sem sonhos. Quando acordou na manhã seguinte, perturbado pelas últimas palavras do homem, percebeu que Ron estava dormindo nos pés da sua cama segurando sua mão.


CAPÍTULO IV

Há quase um mês que Anne optara por viver na cabana da ponte e desde então não voltou a vêla, porém ela estava sempre ali, nos lugares mais recônditos de sua mente. Sua presença era uma lembrança constante em seus pensamentos, a sensação do toque de suas mãos em sua pele. Essa situação não iria se prolongar por muito mais tempo. Mas gostaria de tomar suas próprias decisões. Não queria ser empurrado contra um destino que poderia não ser o seu, e muito menos envolvê-la em algo que não poderia explicar. Seguir os desígnios de um sonho. Atender aos pedidos de um fantasma desesperado. Crescera sabendo que em algum momento teria que se submeter a ele. Devia a vida de seu pai a essa escolha. Mas como envolver Anne nisso? Ela era mais do que poderia esperar. Sentia que poderia se apaixonar verdadeiramente por ela. Como privá-la de uma escolha, como impor suas vontades acima das dela? Sua pesquisa a trouxera aqui sem que ela soubesse que tem um papel fundamental para o desfecho desta história. E seu pai, ainda não havia encontrado coragem para questioná-lo sobre os motivos de tê-la trazido para a fazenda. Ele andava bastante estranho nos últimos dias, nem sequer irritou-se quando Ron voltou para Baltimore. Talvez se falasse com ela, contasse a verdade... Afinal, ela era uma pesquisadora. Não. Com certeza acharia que ele estava maluco. Quem acreditaria que um fantasma salvara a vida do seu pai em troca de um favor? Enquanto James remoía seus pensamentos, Anne por outro lado não se via mais feliz. Enquanto caminhava tranquilamente pela ponte Barns olhando os raios de sol refletidos na água e cantarolando Big Girls Don’t Cry sentindo o vento batendo em seus cabelos, era invadida por uma onda de ternura e paz que sempre a encantava. Sentou e encostou-se em uma árvore que ficava próxima à ponte. Contemplar toda aquela beleza compensava as noites mal dormidas, os sonhos que haviam voltado e a falta de James. Era estranho afirmar isso, mesmo que somente pra si mesma, mas sentia muita falta do Senhor Sisudo. Enquanto Ronald ainda estava na fazenda e vinha vê-la todos os dias, conseguia saber algo sobre ele. Agora com ele em Baltimore, não sabia nada que ocorria na casa grande há vários dias. Talvez devesse fazer uma visita a Henry. Quando resolveu se instalar na cabana, ele dissera que tomasse o tempo que necessitasse para se organizar, só depois falariam em trabalho. Isso foi há várias semanas, já estava na hora de Henry


Starre dizer o que queria saber sobre suas pesquisas. Levantou-se e caminhou em direção à casa grande. James não conseguia mais se manter afastado dela. Os sonhos se intensificaram desde que ela se mudara para a cabana. Há várias semanas não sabia o que era dormir. Na segunda noite que Anne deixara a casa tivera o pior pesadelo de todos. O cansaço já se sobrepunha ao medo, sabia que assim que dormisse o sono chegaria a ausência dela na casa só aumentava sua tortura. Contemplando o teto, perdeu-se em meio à batalha... Os galhos das árvores batiam em seu rosto, as pernas não estavam sustentando seu peso. O corpo todo parecia estar em pedaços. O sangue que esvaía das feridas ensopava as roupas, e a cada gota que escorria, sua força ia embora com ela. Encostou-se a um tronco largo, a respiração estava sôfrega, levou a mão ao corte do peito e pode sentir que aquele era o que o levaria de encontro à morte. O som de passos trouxe-o de volta, precisava correr. Sair daquele lugar, encontrar um esconderijo para passar a noite. Deu mais alguns passos, olhou a perna que doía e pode ver o motivo, uma bala havia acertado sua coxa, a ferida estava aberta e perdia muito sangue. Forçou-se a andar um pouco mais, alguns passos, nada mais que isso, precisava se esconder. Arrastou-se até outro tronco e recostou-se, a dor era agonizante, sua visão estava turva e um grito de lamento, dor e medo levou-o de encontro ao abismo. Sabia que a morte estava à sua espera. James não conseguia se livrar do sonho, corria pela floresta sentindo suas forças serem drenadas pelas feridas, precisava encontrá-lo, precisava ajudá-lo, pois só assim poderia ter paz, voltar a ter sua vida. Arrastando-se por entre as árvores ouviu um gemido, um animal ferido dando seu último suspiro. Contornou a árvore frondosa, e lá caído e quase sem vida estava ele, aquele que roubara sua vida desde que era uma criança, que amaldiçoara sua existência, aquele cujas vidas em todos os sonhos que tivera durante toda sua vida eram a mesma. O sangue cobria seu corpo todo, a respiração difícil impulsionava-o a fluir ainda mais pelo ferimento no peito. A perna estava mutilada, a carne dilacerada deixava à mostra o branco do osso. Pânico tomava conta de James, como ele poderia lidar com isso, até quando enfrentaria essa dilaceração? As dores eram tamanhas e o peso do corpo já não estava sendo sustentado pela perna destruída, caiu ao lado do soldado. Dois corpos mutilados, duas vidas entrelaçadas, duas safiras se olhando e a noite envolvendo-os. Fora salvo por Ron chamando-o, sua voz era de um desepero tal que cousou pânico em James quando este acordou. – O que foi? Papai! Aconteceu algo com papai? Trêmulo e apavorado, Ronald abraçou o irmão que tanto amava até conseguir se recuperar. Quando sentiu que seu coração já batia mais calmo, falou:


– Graças a Deus! Nunca mais faça isso, você me deve dez anos de vida. Vendo o olhar confuso de James, explicou: – Aconteceu outra vez. Ainda zonzo, James passou a mão pelos cabelos desalinhados. – O que eu fiz desta vez? –Perguntou com a voz embargada. – Gritava, Jae. Gritava muito, como se estivesse sentindo dores violentas. E eu... eu não conseguia te acordar. Não foi como das outras vezes. Quando os gritos pararam era como se estivesse morto. Fiquei apavorado, quase chamei o papai. Não sabia o que fazer. Quando estava prestes a chamar alguém você se mexeu e começou a despertar. – Desculpe Jae. – continuou. Não consigo mais lidar com isso. Não sei como você suporta. Tenho que retornar para Baltimore. Vou ficar mais dois dias, depois volto. Sinto muito irmão, mas preciso organizar minha cabeça para ajudá-lo. Ficarei fora o restante do mês por lá, e neste tempo procure não se afastar de Anne. Ela é a única que poderá te ajudar de verdade. Eu não consigo mais te ver quase morto todas as noites. Comovido com as palavras do irmão James abraçou-o novamente. – Sinto muito mano, você tem sofrido a vida toda com isso, se precisa ir, vá. Não se preocupe comigo. Ficarei bem. – com uma expressão sofrida completou. – Eu sempre fico. Despertou de suas lembranças quando chegou à cabana. Ao ver que Anne não estava uma onda de preocupação o assolou. Onde ela teria ido, a cabana ficava escondida pelas árvores, o Potomac a cercava pelos fundos. E se algum animal saiu do bosque, atacou-a e estava caída no meio da mata ferida, e se ela caiu no rio? Apavorado, caminhou até a margem que cercava os fundos da cabana, vasculhou cada centímentro da encosta na esperança de encontrá-la. Então a viu caminhando tranquilamente em direção à casa grande. Sorrindo passou as mãos pelos cabelos, desalinhando-os. Meu Deus, como um homem apaixonado era capaz de pensar tanta besteira. O choque o fez parar. A verdade sobressaltou-o. Era isso, estava apaixonado por Anne. Como lidaria com a situação? Como lidaria com ela tendo tantas coisas a enfrentar? Com o coração aos saltos, deu a volta e se emcaminhou para a fazenda. Anne havia encontrado Henry sentado em uma elegante poltrona Luís XV em seu escritório. Durante sua estadia na casa grande poucas vezes tivera oportunidade de entrar ali. Com certeza era o cômodo mais acolhedor da casa. Na parede atrás da poltrona havia uma tela enorme, onde um pintor bastante talentoso capturara as expressões dos três homens daquela família. No meio estava Henry com um terno azul marinho, cabelos escuros muito bem arrumados, o sorriso acolhedor e um brilho nos olhos azuis que encantavam. Um rei. Do lado direito estava Ronald com os cabelos claros em ondas desalinhadas.


Uma roupa informal que mostrava bem quem ele era. Nada de ternos e gravatas apertadas, preferia as calças jeans e as camisetas confortáveis. À esqueda estava ele, o príncipe. Os cabelos negros como a noite contrastando com a pele branca reforçava ainda mais o azul dos olhos, um leve sorriso surgia de seus lábios com um breve arquear de sombrancelhas. – Meu Deus! Como são lindos. – Murmurou Anne, concentrada em seus pensamentos. Com um ar divertido, Henry resolveu interromper a análise de Anne. – Com certeza, de todas as minhas obras de arte, esta é a que mais gosto. Estou muito feliz que você tenha voltado para me visitar. Pensei que perdi você para o Potomac. Encabulada, Anne sorriu. – Jamais, Henry. Mas em uma coisa você estava certo, o lugar é maravilhoso. Não me sentia tão bem assim desde... bem, acho que desde nunca. – disse com um ar sonhador. – Fico feliz, querida, que tenha gostado. Suponho que esteja aqui para tratarmos de negócios, estou certo? Rápido no gatilho. – Já se passaram vários dias desde que cheguei em Antietam. Visitei alguns lugares onde ocorreram as batalhas, mas confesso que o que mais me envolve é a ponte Burns. O lugar tem uma magia no ar. – Sorriu para Henry. – Deve estar me achando uma romântica sonhadora. Não consigo explicar ao certo o que sinto. Há algo de diferente, como um encanto. Aproveitando o comentário, Henry se preparou para revelar a ela o segredo de sua família. Desde o momento em que ficara sabendo a seu respeito, intuiu que Anne era a mulher designada a seu filho. – Se eu disser a você que está aqui justamente por causa deste encanto, você acreditaria? – Perguntou com um olhar profundo, como se esperasse ver a resposta estampada no rosto de Anne. Um calafrio percorreu a nuca de Anne. De repente os sonhos voltaram um a um à sua mente. Cada medo, cada dor. A sensação de solidão. A mulher sentada sozinha na ponte. Ethan caído gritando para que alguém corresse.Tudo impregnado pela sensação de impotência. – Não saberia o que dizer. Talvez se você me contasse do que se trata, poderia chegar a alguma conclusão. – Pois bem, é uma história de família e muito antiga, terei que voltar a setembro de 1862. Quando a guerra chegou em nossas terras. Após a independência, as diferenças entre o norte e o sul ficaram cada vez mais claras. Era difícil manter os interesses entre as duas sociedades que se estabeleceram – o norte, industrializado, e o sul, agrário –, o primeiro detinha o poder econômico, já o segundo o poder político. Com a eleição de Lincoln, as coisas não ficaram tão boas para o sul, que perceberam que estavam perdendo seu poder político. Anne ouvia o relato de Henry como uma aluna absorvia as informações obtidas através de seu


melhor professor. Até aquele momento nada que ele relatava era desconhecido para ela. Os motivos da guerra, as famílias que viam seus filhos partindo sem saber se voltariam. Lavouras queimadas. A aproximação cada vez maior da guerra em suas portas. – Está acompanhando, querida? O povo sofreu muito com a guerra e para os saldados não podia ser diferente. Mais de seiscentos mil homens perderam suas vidas, Lincoln recusava-se a aceitar que sua política fosse chamada de uma cruzada a favor da libertação dos escravos, tanto que afirmava, “meu objetivo principal nesta luta é salvar a União, não salvar ou destruir a escravidão”. A seu ver os sulistas estavam agindo contra a união, a quem devia obediência acima de tudo. – Sim, exatamente, ele dizia que se pudesse libertar a União sem libertar nenhum escravo, ele o faria, ou se pudesse salvá-la libertando todos os escravos também o faria. Na verdade, ele foi bem oportunista, pois no primeiro momento não se decidiu, nem contra e nem a favor, dos senhores de escravos, porém, em um determinado momento foi impondo sua política, o que fez com que vários escravos procurassem refúgio junto ao exército da União – completou Anne totalmente absorta na conversa –, o que reforçou este, em relação ao exército Confederado. – E pensar que mesmo com a vitória da União sobre os Confederados, a divisão que levou a essa guerra sangrenta só viria a desaparecer um século depois. – completou o homem mais velho. – Então Anne, o que eu quero de você, o motivo pelo qual eu a trouxe até aqui, é que preciso que conheça a história por trás da história. Você já deve ter ouvido falar de um soldado da União, um soldado chamado... – Pare! James entrou no escritório, seus olhos tinham aquela expressão que Anne nunca conseguia esquecer. O cinza novamente profundo, o maxilar travado, mas podia-se perceber o leve tremor. As mãos estavam fechadas em punhos. Era com certeza a imagem de um homem preparado para a luta. – Você não pode fazer isso. É minha vida. Não te dou esse direito.– Esbravejou olhando para seu pai. – Filho. Não suporto mais vê-lo sofrer. Não suporto saber que sou a causa do seu sofrimento. Aquela afirmação desarmou James. Desde quando seu pai sabia o que ele havia feito? – Isso é problema meu. Não tem nada a ver com você. Eu tomo minhas decisões. Anne se via em meio a uma tempestade de sentimentos. Podia classificá-los com tanta facilidade, como se ela mesma os estivesse sentindo. Compaixão, ódio, ira, tolerância e o maior, amor. – Senhores, talvez seja melhor que eu prepare algumas bebidas. Sente-se James, você está muito alterado e com certeza se não parar agora irá se arrepender do que disser mais tarde. Calmamente caminhou até ele e pegou seu braço, conduzindo-o até a poltrona mais próxima e


foi preparar as bebidas. – Desculpe, pai. Não tinha o direito de falar com o senhor dessa forma. Só não quero vê-lo se sentindo culpado por nada. Há anos tive uma escolha e a fiz. Agora tenho que arcar com as consequências sozinho. – Não sei se poderei ajudá-lo quanto a isso. Há anos que venho lutando contra o que você fez consigo mesmo, seu irmão não suporta mais ficar nesta casa. Sofre cada vez que tem que partir. Meu coração fica despedaçado sempre que o vejo indo embora, sabendo que gostaria de ficar. Ele te ama, Jae, e sofre com você. Eu sofro com você. – Não sabia que o senhor tinha conhecimento da história. Nunca a mencionou. – Enquanto Ronald estava em casa, realmente não percebi nada. Vocês são tão unidos que se tornava impossível invadir a redoma que criaram em volta de vocês. Mas fui percebendo as mudanças em seu irmão. O mais moço protegia e defendia o mais velho com toda sua força. Quando ele se foi, as coisas ficaram claras pra mim. Uma noite não estava conseguindo dormir e saí para caminhar um pouco – Henry olhava além do filho, como se estivesse revivendo a cena –, então ouvi seus gritos. Corri até seu quarto e ouvi o que dizia. Você estava conversando com alguém que não estava ali. Percebi que sonhava, demorou horas para se acalmar. Quando isso aconteceu, deixei-o e voltei para meu quarto. Naquela noite descobri o que você havia feito e pior, não confiou em mim para dividir seu sofrimento. Sendo assim, filho, respeitei sua vontade e fiquei vendo seu irmão protegê-loa vida toda, fazendo o que eu deveria fazer. – Sua amargura podia ser notada acada palavra proferida. Anne entregou as bebidas a eles e sentou em um sofá afastado, precisava saber o que se passava com James, o que o torturava tanto. – E continuarei protegendo-o enquanto tiver vida.– Disse Ronald entrando no escritório. Ele chegou no final do relato do pai e não pode deixar de ouvir a tristeza em sua voz e o desespero estampado no rosto do seu irmão. De repente, os três contemplaram um ao outro, e um longo e torturante silêncio pairou sobre eles. – Jae, você está um caco – disse quebrando a onda de silêncio –, deve dormir um pouco. Há quantas noites não dorme? Não minta pra mim.–disse em um tom exasperado. – Não sabia que havia chegado. – Murmurou James. – De uns tempos pra cá você nunca sabe. – rebateu Ronald. – Não fuja do assunto, há quanto tempo está sem dormir? Com a cabeça entre as mãos, James respondeu quase como um sussurro. – Desde que você partiu de volta a Baltimore. – Meu Deus do céu, Jae. Você quer se matar? – Não consigo suportar mais. Tem se tornado pior a cada noite. Ele está se mutilando, Ron.


Sempre que vem a meu encontro está faltando um pedaço do seu corpo. O terror que emanava das palavras de James assolou todos os que estavam na sala. Anne instantaneamente compreendeu o que se passava com James. Era ele quem esperava por ela. Era ele que a mulher do sonho sempre avisava que estava para chegar. Era ele que precisava dela com toda força de seu ser. Com todo seu amor e com toda sua compaixão. Sobressaltada, levantou-se e caminhou estendendo as mãos para ele. – Venha comigo. Você precisa dormir um pouco. Sem dizer uma só palavra, ele segurou suas mãos e seguiu-a para a porta. Momentos antes de saírem do escritório, Anne virou-se para Ronald. – Ronald, respondendo a uma pergunta que me fez em uma certa manhã. Sim. Sou uma mulher muito compreensiva. – E com um sorriso que não chegou aos olhos ela conduziu James ao quarto. A sós no escritório, Ronald contemplou seu pai. Com um arquear de sobrancelhas, manifestouse. – Agora, papai, o senhor vai me contar direitinho o que está pretendendo. O quarto de James não era muito diferente do quarto que usara quando se hospedou na casa. A mesma cama muito bem arrumada, diga-se de passagem, só que esta tinha uma colcha de retalhos em vários tons de morrom e não possuía tantas almofadas. Em um canto, uma escrivaninha com uma cadeira confortável, próxima à janela uma poltrona reclinável estava voltada para a paisagem, que era a mesma do outro quarto. Lá fora o Potomac corria tranquilamente seu curso. Como seria bom se a vida fosse tão simples assim. Percebendo que James continuava parado atrás dela, voltou-se para encaminhá-lo ao banheiro. Mal havia se virado braços fortes a aprisionaram. Sentiu o calor do corpo dele grudado ao seu, a força das mãos a firmar suas costas. Seu cabelo tinha cheiro de suor e feno. Podia sentir a velocidade com que seu coração batia, ele estava trêmulo. Na verdade, ela não sabia quem tremia mais, se ele ou ela. De repente seus corações batiam em um só compasso. E ela teve a boca tomada pela dele. Profundo e inebriante era o gosto dela, era tão minúscula que teve medo de quebrá-la, sua fragilidade despertava nele um sentimento de proteção, de preservação. Corria as mãos pelo seu corpo rígido, seios pequenos e duros correspondiam a cada estímulo. Seu perfume fazia com que seu sangue corresse com toda força. Deixando-o tonto. O profundo suspiro que ela emitiu mostrando-se totalmente entregue a ele foi o suficiente para que a afastasse. Amaldiçoando-se por isso, James a fitou. Confusa e com os olhos ainda nublados, Anne correu a língua pelos lábios molhados, queria continuar a sentir seu gosto. Quando seus olhos encontraram com os dele, percebeu que sua


expressão não era a que tanto desejava. O Senhor Sisudo estava de volta. Droga! Será que ele nunca se livraria dessa máscara? Tentando não demosntrar sua decepção, Anne sorriu. – Acho melhor você tomar um banho antes de dormir. Assim ficara mais relaxado. Enquanto faz isso, pedirei para Rosalyn um chá pra você. Confuso e irritado pela sua falta de controle, James a pegou pelo braço quando ela se encaminhava para o telefone. – Ei! Calma. Já disse, acho melhor você tomar um banho pois querendo ou não, agora você vai dormir. – Eu não vou dormir. Não durmo durante o dia. – E pelo visto nem a noite. Olhe James. Você pode escolher entre fazer as coisas da forma mais simples ou da forma complicada. O resultado será o mesmo. Nós iremos nos deitar nesta cama e você irá dormir. Arqueando a sombrancelha e esboçando um sorriso irônico ele perguntou. – Nós vamos nos deitar? Percebendo o caminho dos pensamentos dele, Anne sorriu em resposta. – Isso mesmo, preciso testar uma teoria. E caso eu estiver certa, teremos um sério problema. – Afirmou ela com um ar sério e pensativo. Horas depois, Anne acordou envolvida pelos braços de James. Pela janela aberta entrava uma brisa fria que demonstrava que a noite já se aproximava, precisava ir para a cabana antes que a noite caísse. A sensação de felicidade envolvia seu coração, nunca dormiu com um homem. Nunca foi abraçada e protegida daquela forma. Dormiu durante horas e não sonhou. Embora não tivesse certeza sobre James, começava a achar que sua teoria estava certa. E isso com certeza seria um problema para ambos. Virando-se e firmando o corpo sobre os cotovelos, olhou-o. James estava absorto em seus pensamentos e contemplava o teto do quarto. As olheiras quase desapareceram de todo, sua expressão era tranquila e relaxada. Aquilo deixou Anne esperançosa e um pouco preocupada. – Então, quer me contar o que tanto vê neste teto? – Espero de verdade que ele tenha conseguido dormir, pensou Anne. Ele percebeu o momento em que ela acordou. Ficou quieto desfrutando o prazer de tê-la em seus braços. Sorrindo, virou-se para ela, apertando ainda mais o braço à sua volta. – Estava pensando que talvez esse quarto precise ser pintado, há anos não o reformo. – levantou a mão e afastou uma mecha dos cabelos dela que havia caído sobre seus olhos, prendendoos atrás da orelha. – A última vez que papai resolveu mudar a casa não permiti que mexessem em meu quarto. Acho que uma mudança agora cairia bem.


Quarto? Essa era boa. –Se eu fosse uma idiota completa até poderia cair nessa. Mas como a minha inteligência é acima da média, esforce-se mais, querido. Essa foi terrível. Um olhar irônico iluminou sua face. Realmente Anne Garrison era uma mulher e tanto, e pelo que parecia, dependeria dela para dormir pelo resto de sua vida. Como ele não respondeu, Anne preparou-se para levantar e foi agarrada por mãos fortes e ágeis. Em poucos segundos seu corpo estava sob o de James com sua boca mordiscando seu queixo. Enquanto ele murmurava coisas que ela não conseguia entender. Sentia seu corpo inerte, seus ossos transformando-se em água. Esse homem tinha o dom de deixá-la trêmula e desorientada. Ele cheirava ao sabonete de limão que usara para tomar banho, seu cabelo desalinhado caía sobre o colarinho da camisa. Enfiando os dedos em um emaranhado de fios, conduziu-o até que suas bocas se encontrassem. O beijo desta vez foi lento e calmo. Sua língua passeava pela boca de Anne, conhecendo-a, explorando-a. Queria certificar-se que cada pedacinho dela pertenceria a ele. Não havia outra escolha. Há anos ele prometera, mas não pensava em se apaixonar tão violentamente. Anne mudaria sua vida. Ou melhor, ela traria sua vida de volta. A camisa dele que Anne havia vestido antes de dormir grudava em seu corpo mostrando cada curvaluxuriosa, cada centímentro de pele que ele queria provar. Incapaz de se conter, puxou a camisa para cima e abaixou a boca sobre os seios já duros que esperavam por ele. Anne grunhiu ao sentir o calor do corpo dele. A língua de James dançava sobre seu corpo, elevando ao máximo a luxúria que a impulsionava. Ela o queria, não tinha dúvidas quanto a isso. Queria senti-lo. Queria ser tomada por ele. As mãos de James passeavam por todo seu corpo em uma onda torturante de prazer, brigava com sua camisa, louco para vê-la longe de seu corpo, queria senti-la. Pele com pele. Calor com calor. Sexo com sexo. Ele estremeceu quando a boca de Anne seguiu descendo por seu pescoço, mordiscando seu queixo. Suas mãos dançavam em seu peito forte, carinhosamente percorriam seus ombros. Deus, como ele é maravilhoso! Suas mãos começaram a brincar com o fecho da calça dele. Queria vê-lo livre. Queria senti-lo dentro dela. Já estava na hora de se entregar. Não haveria ninguém além de James. Enlouquecida, arrancou suas calças e implorou. – James. Por favor. – Ainda não, pequena. Quero você totalmente entregue a mim. Dizendo isso, percorreu com os lábios o corpo dela enquanto suas mãos encontravam seu calor. Com os dedos ele a penetrou – Anne gritou e elevou seu corpo de encontro ao dele – primeiro


com um dedo, depois com outro. Ela cavalgava em sua mão, enlouquecida. – James. Sem forças para gritar, murmurou seu nome. Sem mais esperar, ele a penetrou mais fundo com a mão. Então o choque. Ele estava enganado. Só podia estar enganado. Ela era virgem. Não poderia continuar, não poderia roubar sua inocência. Confuso, tenso. Com seu corpo em chamas devido ao prazer reprimido, afastou-se dela e voltou a fitar o teto. – O que você está fazendo? O que pensa estar fazendo? – Não posso roubar sua inocência. Não posso fazer isso. – Quando olhou-a, viusomente certeza e decisão em seus olhos. Aquilo o assustou, ele havia se preparado para a raiva e não para a determinação. Dizendo isso levantou, vestiu suas calças e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. – Covarde! – Anne gritou, sentia-se rejeitada, um misto de frustração e ódio a enchia. Até quando ele a afastaria desta forma? Até quando?


CAPÍTULO V

Anne havia passado a noite em claro, não conseguira dormir um instante sequer, confusa diante de tamanha animosidade por parte de James. Em um momento estavam envolvidos, uma nuvem de paixão consumindo-os, no momento seguinte, ele já a repudiava, tratava-a como se fosse uma peste, como se possuísse uma doença contagiosa. Um mês se passara e ele ainda a tratava como uma estranha, procurando sempre manter uma boa distância entre eles. Pois bem, que seja feita tua vontade, Senhor Sisudo, ficarei o mais distante que puder de você. Henry estava esperando por ela ao pé da escada quando desceu para tomar café. – Bom dia, teve uma boa noite? Com um olhar irônico, Anne fitou-o por alguns momentos. – Tive sim obrigada, agora preciso ir pra cabana, tenho algumas pesquisas para realizar. Quero fazer isso o quanto antes para que possa voltar pra casa o mais rápido que puder. – pegando-a pelo braço, conduziu-a até a mesa de café. – Casa. Voltar pra casa, mas tão rápido? Não está gostando de nossa cidade, de nossa hospitalidade? – De forma alguma! Aqui tudo é maravilhoso, existe algo no ar, no vento, no chão deste lugar, que me torna quase parte daqui. Creio que esta viagem será um divisor de águas em minha vida. – disse com o olhar pousado em James. James não precisava levantar os olhos para saber que Anne havia entrado na sala, seu perfume deslizava pelo ar, indo direto até ele. Esse perfume que lembrava chuva calma e fria, o perfume que lembrava a ela, Anne, sua Anne. – Ei baixinha, o que pretende fazer hoje? – a voz alegre de Ron trouxe-a de volta à realidade, despreendendo-a daquela visão magnífica que estava sentada à sua frente. Retribuindo o sorriso, voltou-se para o filho mais novo de Henry. – Estive pensando em fazer algumas visitas pela cidade, falar com o pessoal mais antigo, ver o parecer deles sobre a guerra, tentar compreender melhor as cicatrizes que esta deixou. – Posso acompanhá-la, o que acha? Conheço todos por aqui e tenho que acertar algumas coisas na cidade mesmo, não seria incômodo nenhum. Fitando James, Anne esperou, uma parte dela tinha esperanças de que ele se oferecesse para acompanhá-la, mas ele sequer a olhou. Continuou ali imerso em seus pensamentos, mexendo seu café, o que já deveria estar gelado. Soltando um gemido sofrido, ela concordou.


– Tudo bem Ron, acho que será bom passar o dia com você. A região era mesmo linda, não me cansava de olhar para os prados verdes, os carvalhos antigos com suas copas frondosas, o vento que vinha calmo e tranquilo, trazendo com ele o perfume de terra molhada, de renascimento, de vida. Como é bom sentir o dedilhar desta brisa em seu rosto. Como é bom sentir-se viva. Ronald parou o carro em frente ao Memorial onde ficavam o campo de batalha, a igreja Dunker e todos os monumentos relacionados à guerra. Anne ficou maravilhada com o que via; mesmo estando há um mês na região, ainda não havia visitado o memorial. Estava esperando uma boa oportunidade para pedir a James que viesse com ela, o que depois da noite anterior estava certa de que não aconteceria. Mas tudo bem, ela não fora até ali para se apaixonar, mas sim para conhecer o lugar que tanto a interessara, e não poderia ter esperado presente e companhia melhor do que Ronald Starre. – Ronald, você me deu o melhor presente, estava há dias querendo visitar este lugar, estava apenas esperando... – calou-se quando percebeu o que estava prestes a dizer. – Estava esperando por mim, é claro, esperando que eu a trouxesse. Compreenda algo, baixinha, uma coisa é você conhecer este campo com outro qualquer, outra coisa é conhecê-lo comigo. Hoje você viverá o dia mais emocionante da sua vida. – abraçando-a, dirigiram-se para a entrada do Memorial. A igreja Dunker foi o primeiro lugar que Anne quis conhecer, a construção era simples, nada de altares suntuosos, bancos adornados, vidrais elegantes. Porém existia uma aura de paz, uma calma que arrebatava-lhe o coração, sentiu uma vontade enorme de chorar, tamanha a emoção que a envolvia. Quantas famílias visitaram este lugar e pediram por seus entes queridos durante a guerra, mães rogando por seus filhos, esposas por seus maridos, filhos por seus pais. Quase podia ouvir o clamor de cada um, este lugar estava repleto de amor, de dor, e principalmente esperanças. – Então, baixinha, pronta para a maior aventura de sua vida? – Ronald que a havia deixado na igreja e desaparecido em seguida, estava de volta com um sorriso matreiro no rosto. Isso não parecia nada bom, homens lindos com esse sorriso no rosto era com certeza sinal de que alguma coisa estava sendo idealizada. Com um olhar entrecerrado, Anne devolveu. – Se você tiver em mente algo do tipo escalar muros, pular barricadas e nadar nas águas frias do Potomac pode desistir, não farei isso nunca. – com uma gargalhada que chamou a atenção de todos em volta, Ronald tranquilizou-a. – Acalme-se, não vamos fazer nenhuma destas coisas radicais, venha, deixe-me mostrar o que tenho em mente. De mãos dadas, saíram da igreja e contornaram de forma a chegarem aos fundos da construção, ali haviam várias pessoas conversando, alguns sentados em bancos, outros no gramado desfrutando


de um belo piquenique. Crianças corriam de um lado para o outro em uma verdadeira algazarra. Observava, contemplava cada cena catalogando tudo em sua mente, seria interessante retratar essa dinâmica em seu livro, mostrar que mesmo com o horror da guerra, mesmo com todo o pânico causado, a vida seguiu seu curso, como um barco que segue o caminho das águas. – Ali está. Venha, vamos nos divertir. – Ronald a puxou pelo braço em diração ao que parecia... – Bicicletas! Ronald, vamos andar? – Ronald parou e contemplou a expressão de Anne, e confuso não conseguia distinguir o que via, se era medo ou emoção. – Sim, baixinha, vamos. – soltando a mão dele, correu até elas. Ronald a observava encantado, há muito tempo não via alguém expressar tamanha felicidade ao ver algo tão simples. Quem era você, Senhorita Anne Garrison? – Imagino que você saiba pedalar. – disse pegando uma que estava presa em uma corrente com cadeados. – Claro que sei. Tive uma quando pequena antes de perdermos papai, íamos ao parque todos os domingos para que eu pudesse andar, moravámos em um apartamento e não havia espaço, então papai combinou com mamãe que me levaria todos os domingos e eu nunca andaria com ela dentro de casa. Eu me sentia tão livre, tão feliz. – Anne se via perdida nas lebranças de sua infância, como foram felizes enquanto seu pai estivera com elas. – Ótimo. Vamos visitar o parque e o faremos nelas – disse batendo com a mão no selim –, mas caso você não se sinta confortável, posso carregá-la. O que acha? Vai sozinha ou quer que a leve? – Anne contemplou toda aquela imensidão de pradaria, seria maravilhoso correr por elas sobre uma bicicleta. – De jeito nenhum, eu vou sozinha, quero poder me sentir livre mais uma vez. O sol fazia-se presente, embora a brisa que passava estivesse fria tornando ainda mais agradável a sensação quando tocava seu rosto. Levantando a cabeça para o céu, sentia-a acariciandoa, despenteando seus cabelos. Como era boa essa sensação, esta liberdade. Henry observava seu filho mais velho caminhando de um lado para outro como um touro enfurecido. Havia muito tempo que não via seu calmo e tranquilo filho totalmente fora dos trilhos, como era interessante ver o amor nascer, a luta contra sua força, sua perpetuação, contra a rendição. Sorrindo consigo mesmo, resolveu tirar seu filho do martírio que ele havia se metido. – James, preciso que você me faça um favor. – assustado com a repentina chegada de seu pai, James parou e o fitou. – Claro pai, do que se trata? – Ronald foi à cidade com Anne e estava planejando deixar os documentos para o contador, só que quando ele saiu eu ainda não havia terminado de separar toda papelada e acabou ficando alguns


para trás. Você pode, por favor, levá-los para mim? Creio que Ron já deve ter deixado os documentos com o Frank, então pode ir direto ao escritório, mas caso queira se certificar que ainda não foram entregues, seu irmão havia planejado levar Anne ao Memorial. Imagino que ainda estejam por lá. – Vou me encontrar com Frank. Caso Ron não tenha deixado, em algum momento ele o fará. Não preciso procurá-los. – irritado, pegou o envelope e saiu, enquanto seu pai o observava com um sorriso no rosto. James torturava-se entre o desejo de ver Anne e a resistência em manter distância entre eles. Cada noite sozinho em seu quarto, ela era seu último pensamento. De manhã quando o sol se erguia, era ela quem estava ali, povoando os lugares mais escondidos de sua mente; e agora quem desfrutava de sua companhia era seu irmão. Isso por que? Porque ele não conseguia viver com o que fizera, com sua escolha. Agora entendia o que é sofrer por algo que nunca terá, por alguém que está tão perto e mesmo assim tão distante. Tocá-la foi um erro, sentir seu cheiro, outro ainda bem pior, e provar seu sabor foi sua sentença de morte. Lembraria daqueles lábios enquanto vivesse. Dirigindo perdido em seus pensamentos, James só percebeu o caminho que sua mente traidora havia tomado quando freiou em frente ao portão do Memorial. – Droga! Eu não devia estar aqui, isso é errado. Porra! – quando estava prestes a engatar macha-ré, viu-os. Anne saía correndo montada em uma bicicleta e Ronald em seu encalço. Ela sorria, podia ver o brilho de felicidade estampado em sua face. O vento soprava seus cabelos avermelhados, fazendo-os brilhar. Meu Deus, como ela é linda. Sem pensar, desceu da picape enquanto a observava, todo o resto desapareceu. Só havia eles, ele e Anne. Enquanto observava tudo pareceu acontecer muito rápido. Enquanto Anne levantava o rosto em direção ao céu parecendo sentir o vento bater em sua face, um cãozinho entrou na sua frente. Ronald que estava logo atrás e James que estava a metros de distância, gritaram em uníssono. – Anneee! Anne sentia o vento bater em seu rosto, a felicidade que este momento lhe proporcionava era algo indescritível. Como havia se esquecido dos pequenos prazeres da vida. – Anne! – Ela foi arrancada de seus pensamentos ao ouvir o som desesperado de uma voz que gritava seu nome. Olhando em volta, não teve tempo de desviar do cãozinho que entrou na sua frente, colidindo com o pobre animal, fazendo com que caísse da bicicleta. Os granidos do filhote, o choro do dono do animal e um gemido sofrido eram ouvidos sob os gritos desesperados de Ronald e James, que chegaram segundos depois de Anne ter chegado ao chão. – Anne, pequena, como está? Machucou-se? – As vozes se misturavam, mãos fortes tocavam-na como se procurassem algo, uma dor aguda se espalhava por sua perna direita, era como um fogo que


queimava de dentro para fora. – Minha perna dói. – a dor era tanta que sua visão começou a ficar embaçada, seu estômago dava voltas, algo queria sair. O suor escorria por sua face, a boca estava seca, suas mãos trêmulas. – Não estou bem, preciso me levantar, estou tonta, enjoada. Preciso me levantar. – Acalme-se, fique quietinha, deite-se que irá melhorar logo. Eu prometo. Estou aqui cuidando de você. – A ternura que vinha daquela voz fez com que seu coração se acalmasse, só uma pessoa tinha esse poder. – James? – Sim, pequena, sou seu. Fique quietinha, logo, logo tudo estará terminado. – enquanto James a acalmava, observava Ronald ir correndo em direção ao pronto socorro do parque e falar com alguns paramédicos que estavam por ali. Anne gemeu, o que trouxe a atenção de James de volta para ela. Olhando a lesão, não sabia como ela ainda não havia desmaiado, a dor com certeza deveria estar corroendo-a. Na queda, de alguma forma a roda da bicicleta virou e a perna de Anne entrou em meio aos raios, um destes havia se partido, perfurando-a.Precisaria de muita habilidade para retirá-lo dali sem causar um dano ainda maior. – James, o filhote. Como está o cãozinho? – Desviando o olhar do ferimento feio, James procurou o vira-lata que havia causado tudo aquilo. E lá estava ele protegido nos braços de seu dono, que chorava copiosamente no colo de sua mãe. – Ele está bem querida, nos braços de seu dono. E você não deve falar. Fique quietinha, acalme-se. Ron já deve estar voltando. – James só esperava que estivesse certo e que Ron não demorasse tanto. Anne estava gelada e sua perna não parava de sangrar. Observava a ferida, tentando encontrar uma forma de fazer com que o sangue diminuísse, mas não conseguia ver nenhuma possibilidade que não lhe causasse tanta dor. Tudo parecia feri-la ainda mais. Deus, Ron onde você se meteu? – Por que você me odeia? – James não estava certo do que ouvia, olhou para ela pensando ter imaginado. – James, porque me odeia? – Que maluquice é essa? Eu não a odeio. Nunca mais diga isso. E por favor, fique quietinha, você não pode se esforçar. – Observando-a, James pode ver que ela estava ficando cada vez mais fraca. – Dói, dói muito James. – Anne mal pode reconhecer sua voz, parecia tão fraca, o mundo estava prestes a sumir e ela estava caminhando em direção à escuridão. Somente a voz de James a mantinha ali, longe da escuridão que a cercava. – Graças a Deus! – James soltou a respiração que nem sabia que segurava quando viu seu irmão correndo de volta com os paramédicos.


Anne podia ver no rosto de James que ele não responderia sua pergunta, a dor não estava deixando com que ela se mantivesse concentrada no assunto. Voltaria a perguntar por que ele não gostava dela, mas agora queria apenas uma coisa, que a dor parasse. Que a escuridão se afastasse. – Baixinha, seja forte, viu? Vai doer um pouquinho, mas será rápido. Tudo bem, podemos começar? – A voz de Ronald parecia embargada e distante, Anne já estava navengando em águas bem profundas e não sabia se conseguiria responder. Usando toda a força que ainda lhe restava movimentou a cabeça em concordância. James e Ronald fitaram o paramédico que estava cortando o raio. James podia ver o suor escorrendo no rosto de Anne, ela estava muito pálida e chorava baixinho. O estado em que se encontrava não condizia com o ferimento. Tudo bem, o ferimento era mesmo feio, sangrava, mas não era assim tão grave para que causasse tanto dano. Quando o paramédico cortou o raio e começou a levantar Anne para colocá-la na maca, ela gritou. Anne chorava, o suor escorria ensopando suas roupas. Desta vez a escuridão ganharia, desta vez nem mesmo a voz de James seria capaz de mantê-la afastada. A dor estava drenando suas forças, sentia-a esvaindo de suas veias. – Oh meu Deus, olhem isso. – o paramédico mostrou apreensivo a outra ferida que estava escondida na perna dela. Ao cair da bicicleta, um galho de árvore que estava caído por ali penetrou na parte inferior da coxa de Anne, machucando-a ainda mais. – O sangue que está saindo dessa ferida está me deixando muito preocupado. Acho que alguma veia importante foi atingida, precisamos imobilizá–la e levá–la imediatamente ao hospital. James estava aflito andando de um lado para o outro no corredor do hospital. Ele devia ter ido com Anne, estar com ela, e não Ronald. Olhando para seu irmão, odiou-se por estar pensando isso sobre ele, o coitado estava acabado sentado ali, preocupado com o estado de Anne. Seu pai, este era uma fortaleza, amparava os filhos e impulsionava-os a superar e enfrentar qualquer adversidade que a vida proporcionasse. – James. – o médico que vinha em sua direção tirando a máscara era conhecido da família há muito tempo, o que dispensava qualquer formalidade. – Frederick, diga-me como ela está, não me esconda nada. Sei que perdeu muito sangue pois não vimos o segundo ferimento imediatamente. – James estava muito cansado e preocupado com sua pequena, queria logo vê-la, certificar-se que ela estava realmente bem. – James, está tudo bem. Sim, ela perdeu muito sangue, mas isso não causou nenhum dano permanente. Ela é forte, jovem e saudável, logo, logo estará em casa. Agora espero que você vá descansar pois ela precisará de vocês, de toda ajuda que puder obter, já que não poderá andar durante um bom tempo.


– Quando ela terá alta, quando poderei levá-la para casa? – Eu a manterei aqui por três dias, preciso monitorar a recuperação, a cicatrização dos ferimentos e controlar a hidratação venosa. Por isso volto a pedir, vá para casa e descanse. Logo, logo, ela estará com você. – Filho, vamos para casa, Anne precisa descansar. Você está cansado e por enquanto existe outra pessoa que precisa mais de você do que Anne. – ao ouvir isso James acompanhou o olhar do seu pai, e este estava pousado em seu irmão.

– Sim papai, vamos pra casa. – Caminhando em direção a Ronald, James o puxou para um abraço e os dois foram embora juntos do hospital. Henry observava seus filhos saírem do hospital. Até quando esse sofrimento iria continuar? Sua família precisava de paz, voltar a ser completa; sem nenhuma sombra, nenhum fantasma ou um passado. – Perdoem-me meus filhos, mas tudo que faço é para o bem de vocês. – encaminhou-se para a saída do hospital. Seus filhos precisavam dele.


CAPÍTULO VI

A recuperação de Anne deixou todos surpresos, há cinco dias havia saído do hospital e estava sendo paparicada por todos na fazenda. Henry não quis saber dela ficar no chalé, então não lhe coube nada mais do que vir para a fazenda. E claro, não diria isso nem em sonhos nem em voz alta, mas estava achando maravilhoso ser tão paparicada. Rosalyn não a deixava em paz, sempre aparecia com algo para comer, trazia os remédios nas horas certas, auxiliava-a na hora do banho; estava sendo mesmo uma verdadeira mãe. Por falar em mãe, falara com sua mãe uma vez depois do acidente. Sentia falta dela; mesmo sendo meio doidinha, ela era maravilhosa. Precisava voltar para casa, voltar para sua rotina. Agora que seu retorno foi adiado com a impossibilidade de andar, não haveria nenhuma forma de terminar suas pesquisas; elas teriam que esperar. E esse tempo ocioso estava matando-a. James vinha todas as manhãs e tardes para levá-la para tomar sol, ver o Potomac e conversar. Ele se tornara uma boa companhia, o Senhor Sisudo havia desaparecido e agora um James que nunca pensara existir fazia-se presente. Isso a deixava muito feliz. Havia esperança para ela, para eles, havia um futuro em seu paraíso. – Posso entrar? – a voz de Henry soou através da porta, era sempre assim, ele nunca batia, apenas perguntava se podia entrar. Sorrindo Anne respondeu. – Claro senhor, sinta-se em casa. – era um homem bem bonito, mesmo estando na casa dos cinquenta, tratava-se de um homem encantador. Sorrindo, Anne estendeu-lhe as mãos. – Então veio me tirar desta prisão, veio me resgatar do claustro? Não suporto mais viver assim, nesta solidão, nesta agonia. Preciso sair, preciso partir, veio me levar com você, meu nobre cavalheiro? – Oh, minha donzela, quem dera eu pudesse resgatá-la de sua prisão, libertá-la de seu martírio, mas existe um dragão guardando sua porta e por ela não podemos sair, sabes de alguma passagem secreta? Quem sabe assim poderei te salvar. – Ah! Não me diga isso, este dragão ainda está aqui. Então não temos nenhuma chance, precisamos de algo que prenda sua atenção, assim poderemos fugir sem que nos note. – com uma gargalhada Henry contemplava a figura altiva e imponente que ocupou a porta naquele instante. E podia apostar que seu filho tinha ouvido a brincadeira entre ele e Anne, pois estava com um olhar um tanto perigoso.


– Dragão, é? Então vocês estão planejando fugir juntos... humm, sei. E estão arquitetando um plano bem embaixo do meu nariz. Que coisa bonita, hein papai? Sabe que essa mocinha não tem um pingo de juizo, e se começar a contar com sua ajuda, terei um trabalho infernal para mantê-la quieta em casa. – soltando um bufo, Anne recostou-se novamente na cama. – Está vendo senhor? Precisamos de algo que prenda a atenção deste dragão, assim ele me esquecerá e poderemos fugir juntos. – contornando a cama, James sentou-se ao seu lado. – Minha pequena rebelde, nunca, mas nunca mesmo pense que algo tiraria minha atenção de você. Você e só você a tem por completo. – antes que Anne podesse perceber suas intenções, James a beijou. – Então papai, deu a nossa pequena rebelde a notícia que veio dar? – Ainda sorrindo pela demosntração de carinho de seu filho, Henry respondeu. – Ainda não, meu filho, quer você mesmo contar a ela? Não tem nenhum problema. – Não sei se ela merece, anda muito malcriada. Acha que devo contar? – a gargalhada de Henry encheu o quarto. – Não seja malvado, meu filho, nossa pequena precisa de um mimo. Conte a ela. – fazendo um ar de desgosto, James soltou. – Embora acredite que você não esteja merecendo, vou te contar. – Ai! James diga logo, estou quase tendo uma ataque com tamanha curiosidade. Isso não se faz, estou doente, você tem que ser bom comigo. – o ar de abandono que ela adotou foi tão perfeito que todos caíram na risada. – Meu Deus, papai, ela é terrível. – ainda sorrindo, abraçou-a. – Olha, esta noite fomos convidados para uma festa na cidade, trata-se de uma família muito tradicional e lá você terá a oportunidade de conhecer todos que fazem parte da encenação da guerra. Então, o que acha? Sente-se bem o bastante para irmos? – Sério, você está dizendo a verdade? Vou poder ir, sair deste quarto, ver gente, conversar? Jura que poderei? – Sim, poderá, mas com uma condição. – Anne soltou um gemido doloroso. – Está vendo, eu sabia! Nada é fácil com você. Qual será a condição, Senhor dragão? – Quando eu disser que devemos vir embora, você me obedecerá sem pestanejar. Quero sua palavra que não discordará em nada. Tenho-a? – Sim papai, você a tem. – Henry observava Anne contemplar seu filho com um olhar mortal, quase podia ver entre eles as faíscas que estavam perto de explodir, será que os dois idiotas não percebiam o quanto era latente o que sentiam? Jovens, se soubessem quanto sofrimento poderia ser evitado, se pulassem a parte das ofensas e se entregassem logo ao amor...


– Certo, então estamos combinados, deixarei vocês agora para que possam retomar os planos para uma suposta fuga. Fique bem, pequena. Papai, até mais tarde. – Anne observava James sair do quarto, parecia outro homem, estava mais leve, tranquilo, as olheiras haviam desaparecido, estava ainda mais lindo, se é que isso era possível. – Vou deixá-la sozinha para que descanse, seria bom se dormisse um pouquinho, assim não se desgastará tanto. E não se esqueça de colocar uma roupa bem quente, as noites são muito frias nesta época do ano e não quero saber de você ficando refriada. – dando-lhe um beijo no rosto, saiu. A noite estava mesmo fria, a lua brilhava alta no céu, a imagem era algo inigualável. A casa dos Bedford era bem suntuosa, uma construção de dois andares pintada em um cinza clarinho; as janelas, cercas e o telhado em branco, árvores bem altas e antigas cercavam-na, pelas janelas podiase ver as pessoas conversando, outras bebendo. Uma imagem bem tranquila e familiar. Todos conversavam descontraidamente. Aquilo era a vida na cidade pequena, em Nova York nunca se via uma cena assim. Lá cada um vivia sua vida, ninguém se preocupava em reunir os amigos e jogar conversa fora no final do dia. E Anne estava amando essa informalidade. James a carregou nos braços até encontrar uma poltrona que fosse confortável para ela, quando encontrou depositou-a com todo cuidado. – Quer algo para beber? Posso ir buscar. – James corria os olhos pela sala enquanto esperava pela resposta de Anne, havia muito tempo que não via tanta gente reunida assim, mas também pudera! Há muito que não frequentava esse tipo de reunião. – Acho que um suco me cairia bem, estou com a boca seca, estes remédios não colaboram. – Anne acompanhava o olhar de James, havia algo o incomodando. – O que houve, está se sentindo bem? Você parece distante, está procurando algo ou alguém? – quando terminou de fazer a pergunta, Anne se deu conta de que isso era algo que não sabia, que nunca havia passado pela sua cabeça. Será que James tinha alguém, será que seu coração já havia elegido alguma dona? Esse pensamento trouxe-lhe uma tristeza avassaladora que deve ter transparecido em seu rosto, pois James levantou seu queixo até que seus olhos estivessem na mesma altura. – Não existe ninguém, está me ouvindo? Eu não tenho ninguém. Só estou meio perdido, pois faz bastante tempo que não venho a esse tipo de reunião, mas não se preocupe, está tudo bem. Vou procurar um suco para você, não saia daí. – disse sorrindo do olhar gélido que ela devolveu-lhe. – Você faz bem a ele. Eu gostaria muito que vocês se acertassem, não sei bem o porquê disso, mas sinto que vocês foram feitos um para o outro. – Anne encostou sua cabeça no ombro de Ronald, essa viagem estava proporcionando-lhe coisas que nem remotamente pensava em ter. Um pai, um irmão, uma paixão; enfim, uma família. Como queria poder ficar por aqui e reconstruir sua vida às margens do Potomac!


– Ron, eu te amo, nunca se esqueça disso. Mesmo que o tempo passe e algo venha a nos separar. Eu te amo. – James que estava voltando com o suco, ouviu Anne dizendo que amava seu irmão. Como podia isso? Ele a amava e pensava que ela o amava; enquanto na verdade quem ela amava era seu irmão. Deus, como podia fazer isso com seu próprio irmão, querer, desejar, beijar a mulher que seu irmão amava. Transtornado com a revelação, saiu da festa. – Quando eu me for Ron, diga a ele que o amo, diga que foi o único homem a quem amei. – Não baixinha, eu não direi pois é você quem o fará. Você precisa libertar meu irmão desta prisão na qual ele se colocou. É muito importante para nós que vocês se acertem. Na vida tudo tem um motivo, às vezes no momento não entendemos, mas os motivos estão aí. – Qual será nosso motivo, Ron? Nossa razão? Nosso destino? São tantas perguntas sem respostas. Dois desconhecidos, duas vidas, um amor. Isso até parece refrão de música melosa. – enquanto conversava com Ronald Anne procurava por James. Fazia já um bom tempo que ele havia saído para buscar o suco e ainda não havia retornado. – Procurando algo? – Ron indagou, vendo-a correr os olhos pela sala. – James saiu para buscar um suco pra mim, mas ainda não retornou. Isso já faz algum tempo. – Eu o vi saindo pela porta dos fundos ainda há pouco. – respondeu Henry que vinha se reunir com eles. – Como saiu? Para onde foi? – Não faço a menor ideia, vim até aqui para saber o que havia acontecido pois ele parecia um tanto transtornado. Vocês discutiram ou algo assim? – Não. Estávamos conversando e ele foi buscar um suco para mim. Não houve nada de mais. – Anne sentia como se estive com borboletas em seu estômago, tudo parecia meio irreal. O que será que ocorreu para que James saísse transtornado da festa? – Preciso achá-lo. – começou a se levantar, porém foi impedida pelos braços fortes de Ronald. – Está maluca? Você não pode firmar a perna ainda, está aqui só por que prometeu se comportar. Caso mude de ideia quanto a isso, serei obrigado a levá-la para casa. – Ronald, preciso encontrá-lo. Por favor, ajude-me a chegar até a poltrona que está perto da janela, quem sabe eu consiga vê-lo daqui, talvez ele possa estar lá fora. Por favor, Ron, ajude-me. – o olhar triste de Anne fez com que o coração de Ronald apertasse. O que o idiota do seu irmão estava fazendo agora? Justamente agora que pensava que as coisas estavam se ajustando entre eles, o maldito começava a agir como um idiota novamente. Até quando seu irmão continuaria a agir desta forma? – Vamos pequena, deixe-me carregá-la. A lua estava linda. De dentro da casa podia-se ouvir o som das risadas, John Mayer cantando,


tudo transpirava alegria, vivacidade; então porque para ele tudo parecia falso, enegrecido, o precipício sem fim? Ouvir Anne se declarando para seu irmão roubou todas as suas esperanças de viver uma vida feliz, de construir uma família. Como pudera ser tão idiota e não perceber que o homem a quem ela amava era seu irmão e não ele? Um arrepio passou por seu corpo, seu sangue gelou nas veias. Conhecia muito bem aquela sensação. Não estava mais sozinho. – Está fazendo besteira. – olhando para dentro da casa o homem contemplava a mulher que estava sentada próxima à janela. – De todos, pensei que você fosse quem menos me daria trabalho, você sempre se pareceu muito comigo, e no entanto está sendo um idiota em recusar o que a vida lhe deu. Deixe de sandices e volte para lá. Tem alguém te esperando. – O que você sabe? Está morto. Não sabe nada da vida, nada do que está acontecendo. Nem sei por que estou falando com você, devo estar ficando maluco também. – sorrindo, Ethan tocou o braço de James. – Sinta filho, acha mesmo que estou morto, que não existo? Deixe de idiotice e volte para sua mulher. Nunca se esqueça, ela é o caminho, ela é pra você. – Como odeio essas frases. – James resmungou. – Falando sozinho, irmão? – disse Ronald que o observava a uma certa distância. – Tem alguém que está esperando um suco que um certo cavalheiro foi buscar. Posso saber o que está fazendo, por que ainda não levou o suco para ela? – Leve você o suco ou ela mesma que pegue seu próprio suco, não sou garçom de ninguém. – a ira irradiava de suas palavras, um veneno letal. – E você, porque não me disse que estava apaixonado por ela, que ela era sua? Você me deixou pensar que... – Dizer o que? – Ronald o agarrou pela camisa, sacudindo-o. – Dizer o que, irmão? – Solte-me. – James o empurrou, livrando-se de seu aperto. – Isso mesmo que você ouviu. Eu escutei ela dizer que te ama, ouvi ela dizendo, ninguém me contou. – dói repetir aquilo, saber que não era ele o homem a quem ela amava. – Você é mesmo um imbecil, pensa que Anne me ama, pensa que é a mim que ela quer. Olhe, seu idiota, olhe para aquela janela. – Ronald ardia de vontade de esmurrar seu irmão mais velho, quem sabe o juízo voltasse para o lugar. – Ela está sentada lá preocupada com você, esperando por você. Ela ama é a você. Mas sabe, talvez esteja certo. Quem sabe eu não faça com que ela se apaixone por mim? Tenho certeza de que poderei fazê-la bem mais feliz do que você. – Ronald voltou para casa, precisava se acalmar. Se ficasse junto do seu irmão mais um segundo, seria capaz de esganá-lo. Voltando pra sala, James encontrou Anne conversando com Robert Bedford, o senhor responsável pela organização da encenação da guerra durante as festividades em comemoração ao aniversário do final desta. Ele com certeza poderia contribuir e muito com as pesquisas de Anne.


Caminhando em direção a eles, parou apenas para pegar um copo de suco. Haviam vários sabores, então se deu conta de que não conhecia nada os gostos de Anne. Olhando-a absorta em sua conversa, tentou imaginar do que ela gostava. Voltando sua atenção para a variedade de sucos, optou por um de maçã, parecia bom. Anne estava se divertindo muito com as histórias do capitão Robert, ele era mesmo uma figura e tanto. Ver a batalha de Antietam ser contada de forma tão clara, deixava-a ainda mais interessada e determinada a escrever um livro sobre este período. O povo precisava saber como eram os bastidores da guerra, como funcionava a dinâmica operacional. Como as famílias lidavam com a ausência de seus homens. Droga, podia ter trazido seu caderninho de anotações, assim anotaria os pontos que achasse importante. Um movimento à sua esqueda chamou-lhe a atenção. James havia retornado e estava parado junto à mesa de sucos. Estava tão concentrado em sua escolha, parecia algo de imensa importancia. Ela o observou enquanto escolhia o suco até que decidiu-se por um. Pegando-o, começou a se dirigir para ela. Seus olhos se encontraram e neles ela pode ler muitas coisas, pesar, odio, ternura e amor. Este último deu-lhe toda esperança que pensava nunca ter tido. – Ei! Você apareceu, achei que houvesse me esquecido aqui. – disse tentando parecer descontraída. – Desculpe a demora, precisei sair um pouco. Aqui está seu suco. Como não sabia do que gostava trouxe maçã. Você parece gostar de maçã. – Sim, gosto. Na verdade gosto de quase todos os sucos. Não sou muito chata em relação a isso. E obrigada por trazê-lo. James procurou seu irmão pela sala e não o avistou em lugar nenhum. Por onde andaria ele? Precisava falar com Ronald, devia-lhe isso. Já havia causado muitas dores em seu irmão, não precisava de mais esta. Ele não se perdoaria caso se interpusesse entre Ron e a mulher que amava. Fitando Anne, ele conseguia entender seu irmão. Ela era linda, uma flor delicada com pétalas suaves e um perfume doce. James desistiria de seu amor por seu irmão. Só não saberia como conviver com eles, caso resolvessem morar na fazenda. Anne observava James, ele a fitava com tanta intensidade, seus olhos mostravam que estava passando por um conflito muito intenso. O que se passa com você James? O que eu posso fazer para tirá-lo desta angústi?. Mata-me vê-lo assim. Como posso resgatá-lo deste mar bravio em que se meteu? – James, venha, sente-se aqui comigo. Venha ouvir o que o senhor Robert está me contando. Eu não sabia que você participava das encenações, por que nunca me contou. – Anne precisava afastar aquele olhar perdido de James, estendendo as mãos chamou-o. – Venha, ouça comigo e depois quero que me conte como foi que se sentiu sendo um soldado da Confederação. – rendendo a seu apelo,


James sentou ao seu lado. Passava um pouco da meia-noite quando chegaram à fazenda. Anne havia adormecido com a cabeça encostada no ombro de James, aquela sensação de segurança, o calor de seu corpo parecia algo tão familiar, tão certo que aqueceu seu coração. Tê-la contra ele era uma sensação que gostaria de sentir para sempre. James a carregou até o quarto e colocou-a na cama com todo cuidado. Como faria para trocar suas roupas não sabia, mas não poderia deixá-la dormir com essa roupa desconfortável. Foi até o guarda-roupa, pegou uma camisola que estava pendurada e voltou para começar seu trabalho. Um trabalho maravilhoso, diga-se de passagem. Com todo cuidado James a despiu, deixando-a somente de lingerie. Ela estava usando um conjunto rosa bebê muito lindo, nada sensual, passava a ideia de romantismo, luz de velas, rosas espalhadas pela cama, um bom vinho e uma boa música. Fazia-o pensar em um amor lento, carinhoso, nada selvagem. As mãos de James estavam trêmulas, como podia sentir tanto desejo assim por uma mulher? Era olhar para ela,que sentia seu sangue ferver em suas veias. Precisava tê-la, queria tê-la, iria tê-la. Mas não agora, não hoje. Mas em breve. – Em breve pequena, prometo. Em breve. – deu-lhe um último beijo e saiu do quarto. Precisava falar com seu irmão.


CAPÍTULO VII

Ronald estava sentado em uma das cadeiras de balanço na varanda dos fundos, a vista era de tirar o fôlego, a lua em toda sua beleza via-se refletida nas águas profundas do rio. O vento soprava uma brisa fria, que gelava a alma. O olhar de seu irmão vagava pela noite, de longe parecia tão perdido, um barco à deriva. O que se passava com ele? O que Ronald trazia em seu coração? Qual amargura corroía sua alma? – Posso me sentar com você? – James se aproximou de Ronald, seu irmão o olhou e então estendeu a cerveja que trazia consigo. – Acho que estamos precisando de algo para relaxar. – empurrando a outra cadeira com o pé, Ronald convidou seu irmão a se juntar a ele. – Sim, estamos mesmo, muitas coisas vem acontecendo James, algumas por culpa do destino, outras por nossa própria culpa. Estamos caminhando um caminho sem volta e você não vê. Não consegue perceber o quão afortunado está sendo. – Ronald bebeu um gole da cerveja e voltou a contemplar o rio. – Essas águas, se elas pudessem falar, quantas coisas, quantos segredos estariam ameaçados de serem revelados? Não estrague tudo irmão, não se amedronte diante de seu destino. Enfrente-o, encare-o. Se for preciso lute por ele, mas não seja fraco. – Você está bem, Ron? Está falando de mim ou de você? O que está havendo com você? Conteme, deixe-me ajudá-lo. Você sempre esteve ali pra mim, firme como uma rocha. Deixe-me fazer algo por você. – James observava seu irmão, uma luta estava sendo travada dentro dele. – Ronald, deixeme fazer meu papel de irmão mais velho, confie em mim. – Eu não sou o problema James, você é. Será que não vê, não percebe como as coisas estão acontecendo? Enfrente seus medos Jae, liberte-nos desta prisão, desta angústia que nossa família vem vivendo há tempos. Tudo neste momento depende de você. – Ron, eu não posso obrigar uma inocente a pagar pelo que fiz, por algo que cerca nossa família a vida toda. Sempre vou me culpar por ter roubado o direito de escolha dela. Irmão, preciso de tempo, preciso pensar em uma saída. Não me empurre neste momento, não seria uma ideia sábia. Dê-me sua amizade, sua confiança, mas não me empurre. Peço somente isso. – Tudo bem, Jae. Só não demore muito, pois não quero vê-lo sofrendo por mais tempo. Acho melhor entrar para dormir, amanhã voltarei a Baltimore. – Ronald fitava seu irmão, podia ver o olhar angustiante que James tentou esconder. – Tenho um projeto em vias de ser finalizado, preciso voltar para conferir. Não se preocupe Jae, voltarei no final do mês.


– Final do mês? Ronald, já falou com papai sobre isso? Ele não vai gostar nada disso, e eu menos ainda. – Falei sim, e como sempre tivemos uma bela discussão. – tocando o ombro de seu irmão Ronald o confortou. – Mas ouça-me, não tarda o dia em que não terei que retornar, estou pensando em abrir um escritório aqui, meus clientes são todos de outros estados, então não faria nenhuma diferença. Tenha paciência. – com um suspiro cansado, James concordou. – Tudo bem, só espero que este momento esteja realmente perto. Sentimos sua falta. – Eu também sinto falta de casa. Anne despertou com o sol batendo em seu rosto, seu corpo estava quente, uma sensação de conforto, segurança, paz. Nunca havia sentido isso antes. Um gemido trouxe-a de volta à realidade, despertando-a de vez. Deitado ali, ao seu lado, estava uma espécie maravilhosa. Contemplá-lo assim dormindo, com a fisiononomia serena e tranquila, parecia mesmo outro homem. Mas o que esse monumento em forma de homem estava fazendo aqui na sua cama, e ela estava de camisola! Como de camisola? Quem a vestiu com aquela camisola? – James, acorde. – empurrando-o sem nenhum cuidado, Anne tentou despertar seu belo adormecido. – James, o que está fazendo aqui? Anda logo, acorde. – Oh Deus, parecia que nem uma avalanche seria capaz de acordá-lo. Usando toda sua força, Anne o empurrou, derrubando-o da cama. – Ei! Sua maluca, isso é forma de acordar alguém? – Pra começo de conversa, o senhor nem deveria estar aqui. Em segundo lugar, eu o chamei uma, duas, várias vezes e você não acordou, então não me sobrou muitas alternativas. – Anne disse sorrindo da expressão zangada dele. – Você pode me explicar o que estava fazendo deitado aqui, nesta cama? – Bem, boa pergunta, lembro-me que coloquei-a na cama e troquei sua roupa. – O quê??? Você trocou minha roupa, não pediu a Rosalyn que o fizesse? Como pode? – Ei, fale baixo, minha cabeça está doendo. – James estava confuso, olhando para ela com aquele olhar irritado, com certeza estava mais linda do que nunca. Sorrindo, continuou a provocá-la. – Chamar Rosalyn? Claro que não, chegamos já bem tarde, não faria isso com a pobre senhora, e claro, como o cavalheiro que sou, não poderia deixar uma bela donzela dormir com aquelas roupas apertadas. – a cada palavra proferida James podia ver os olhos dela mudando de cor, o verde estava cada vez mais escuro, e ele estava adorando. – Sendo assim, eu as troquei, e por falar nisso, adorei sua calcinha. – Ahh!!! Seu... seu... – sem encontrar uma palavra que estivesse à altura da raiva que ela estava


sentindo por ele neste momento, Anne soltou um grito que fez com que a cabeça de um James com ressaca doesse ainda mais – como você pôde? Isso não está certo. – Anne, acalme-se, está tudo bem, ela era linda, não precisa se envergonhar. – James não estava conseguindo conter a gargalhada que lutava para sair. – confesso que esperava mais da sua camisola, esta com certeza não colaboraria para que eu tivesse sonhos eróticos com você. – Ahhh! Como eu o odeio, James. Saia! Saia agora, não quero vê-lo. – quando James começou a se dirigir para a porta ela mudou de ideia – Espere! – com um olhar insolente ele a olhou. – Antes me diga uma coisa, o que aconteceu aqui? O que houve entre nós? – Como? – Quando James percebeu o caminho que os pensamentos de Anne estavam tomando, a gargalhada que tanto lutou para segurar acabou saindo. – Você quer saber o que houve aqui? Entre nós? – sorrindo como nunca, olhou dentro dos olhos dela. – Oh, Anne querida, como você pode dizer que não se lembra de nada, como pode dizer que essa noite nada significou para você? Isso fere meus sentimentos. – Você está mentindo, sei que está. Está apenas usando de minha inocência. Diga, James, diga a verdade e eu o perdoo. – Ronald que vinha pelo corredor parou na frente da porta do quarto, assustado com os gritos enraivecidos de Anne e as gargalhadas de seu irmão. Batendo na porta, não esperou por resposta e entrou. – É impressão minha ou acaba de estourar a terceira guerra mundial? – O cenário era um tanto peculiar, Anne com seus longos cabelos avermelhados soltos vestia uma camisola que com certeza herdou de alguma avó. Seu irmão vestido apenas com a calça da noite anterior, cabelo e rosto amassados, travesseiros caídos por todos os lados, lençóis remexidos. Bem, parece que a noite não foi assim tão agradável. – Esse mentiroso! Entra como um gatuno no meu quarto, remove minhas roupas, dorme na minha cama e ainda quer insinuar que fizemos algo. – Ronald levantou o sobrancelha e olhou para seu irmão. – Se você removeu todas as roupas dela, o que ela faz com essa camisola horrorosa? Irmão, você já foi melhor nisso. – caindo na gargalhada novamente, James teve que se desviar de um travesseiro que veio voando em sua direção. Anne estava realmente uma fera com ele. – Irmão, não piore ainda mais as coisas. Está bem Anne, vou contar o que realmente houve e Ron está aqui para validar minha confissão. Certo irmão? – com um olhar zombeteiro, Ronald concordou. – Não sei se posso confiar em vocês. Os dois juntos não merecem um mínimo da minha confiança. – Ronald se aproximou dela, erguendo a alça da feia camisola que havia caído. – Baixinha, você não tem outra opção, quer que Rosalyn entre no quarto e encontre James só com as calças da noite anterior? Embora quando ela ver o que você veste, saberá que nada pode ter


acontecido. – Ronald também teve que desviar de um travesseiro que voou em sua direção. – Deixe de criticar minha camisola, ela é confortável e cumpre muito bem seu papel. – olhando para James com um olhar de uma águia que seguia sua presa. – Claro, está explicado porque ainda é virgem. – murmurou James de forma que só ela pudesse ouvir. E foi recompensado com outro ataque de travesseiros. – Tudo bem, diga, conte-me o que aconteceu. – Quando chegamos você havia dormido, trouxe-a para o quarto, troquei sua roupa, colocando – apontou de modo depreciativo para o que ela vestia – isso aí. Depois desci, ficamos eu e Ron conversando, acho que bebemos mais cervejas do que deveríamos, pois quando subi resolvi ver como você estava e parece que fiquei por aqui. – olhando para o irmão continuou. – E esse daí deveria estar em Baltimore. – levantando os ombros com sinal de desânimo Ron concordou. – Fato. Perdi a hora, mas já estou saindo, na verdade estava saindo quando ouvi os gritos vindo daqui, então resolvi ver se estava tudo bem. Como estão todos vivos e nenhum ferido gravemente, estou indo; e crianças, não se matem enquanto tio Ron estiver fora. – Fechando a porta o mais rápido que pode, só ouviu o baque do travesseiro que foi arremessado contra ele, e Ron saiu sorrindo. Iria gostar de ter Anne como irmã, mas com certeza teria que mudar o gosto dela por camisola. Não conseguindo mais se conter, soltou uma sonora gargalhada. Anne olhava para James como se ele fosse o inimigo. Ela um soldado da União e ele um Confederado. Sua perna já estava formigando pelo tempo que estava de pé, precisava se sentar, mas com a cama neste estado não havia a menor possibilidade. E o pior é que teria que pedir ajuda a ele, pois não conseguiria fazer isso sozinha e nunca, nem remotamente dizendo, deixaria que Rosalyn visse o estado em que se encontrava o quarto. Soltando um suspiro desanimado, começou a se arrastar para a cama. – O que você está fazendo, pequena? Você está forçando muito a perna, já está sentindo dor, não é? – James caminhou para o outro lado da cama e começou a organizar a bagunça. – Olha, fique quietinha, vou arrumar a cama e você se deita, depois organizo essa bagunça toda. – Não quero que Rosalyn entre no quarto e pense que estávamos fazendo uma guerra aqui, ou – James podia ver o rosto de Anne mudar de cor, de um branco pálido para um rosa lindo, e sabia muito bem o porquê – outra coisa qualquer. – Venha cá. – Terminando de arrumar a cama James caminhou até ela, pegando-a no colo. Ela era tão pequena e se encaixava muito bem, era como se tivesse sido feita sob medida para ele. – Como está a perna? Ainda dói muito? – Anne sentia o coração dele bater, sua cabeça repousava em seu ombro, era tão bom ficar assim protegida em seus braços.


– Não, não é uma dor, parece mais um formigamento, uma sensação estranha, não sei explicar direito. – Eu entendo. Que dia temos que ir ao hospital para tirarmos os pontos? – James a colocou na cama e arrumou os travesseiros nas suas costas. – Hoje, mas você não precisa ir. Caso tenha alguma coisa para fazer, posso ligar pra cidade e pedir um táxi. Já estou dando muito trabalho. – Sentando ao seu lado, James arrumou os cabelos que caíam em seu rosto atrás da orelha. – Ouça, você não me deu, não me dá e não me dará nenhum trabalho, faço tudo isso porque quero, e por nada mais. Então deixe disso, a que horas devemos estar lá? Diga-me apenas isso. – Está marcado para as quatro da tarde. – Anne o olhava como se sua vida dependesse daquele olhar. – O que foi pequena, por que está me olhando assim? – Preciso que você me diga, preciso saber. James, diga por que você me afasta. – O silêncio tomou conta do quarto, podia-se ouvir até o menor ruído. James a olhava sem entender o motivo daquela pergunta. – Eu não o faço. De onde tirou essa ideia? Você está entendendo tudo errado. Eu só não posso deixar que esse sentimento tome conta de mim. Tenho muitas coisas guardadas aqui dentro – disse batendo em seu peito –, tenho segredos Anne, e não quero e não vou falar sobre isso. E muito menos envolver você em algo que nem eu consigo explicar ou entender. – Venho pensando muito sobre seu comportamento, e por mais que queira, não consigo entender o que o leva a agir assim. Conte-me James, diga-me, deixe-me ajudá-lo. – Não, não posso. Não quero falar sobre isso. Vamos, deixe-me ajudá-la a chegar ao banheiro ou você prefere esperar por Rosalyn? – antes que ela pudesse respoder, uma batida na porta chamou a atenção de ambos. – Estou entrando garota, como passou a noite? – uma Rosalyn bem humorada e sorridente entrou no quarto, porém todo o ar alegre desapareceu ao se deparar com um James seminu. – Senhor James Starre, posso saber o que está fazendo aqui quase sem roupa no quarto de uma moça a esta hora da manhã? – segurando o sorriso, James simulou um ar de tristeza ao responder. – Vim somente combinar com Anne o horário em que devo levá-la ao médico para extrair os pontos. Nada de mais, Rose. – Com um olhar de escárnio, Rosalyn o confrontou. – Ah, agora sei ao certo que estava fazendo alguma diabrura, só me chama de Rose quando está muito encrencado. Vamos sair daqui e veja se toma um banho, seu cheiro não está muito agradável. Vamos, saia, saia. – sorrindo James soprou um beijo para Anne e saiu do quarto. – E a senhorita, o que tem a me dizer quanto a presença desse moço em seu quarto tão cedo


assim? – Anne viu o sorriso nos olhos de Rosalyn e percebeu que a boa senhora estava apenas querendo assustá-la. Resolveu entrar no jogo. – Bem, não é todo dia que encontramos um belo homem disponível em nossa porta. Sendo assim, não resisti e aproveitei para fazer uso deste aí. – disse sorrindo e apontando para o porta, por onde James havia saído. – Caindo na gargalhada, Rosalyn foi preparar seu banho. – Rosalyn, posso te fazer uma pergunta? – apreensiva, Anne esperou pela resposta. – Claro querida, em que posso ajudá-la? – Anne soltou o fôlego que estava prendendo. – Rosalyn, conte-me sobre a mãe de James, como era ela? Não vi sequer uma foto dela nesta casa, o que houve com ela? – Anne podia ver o ar sonhador que tomou conta de Rosalyn, podia ver como a velha senhora voltava a um passado longínquo. – Ah, a senhora Isabel era uma mulher linda, meiga, um verdadeiro anjo. Casaram-se muito cedo, ela tinha apenas 17 anos e o senhor Henry pouco mais de 20. Logo após se casarem vieram morar aqui nesta casa, que foi construída pelo avó do Henry, este lugar está na família há muitos anos. E ficou para ele com a morte de sua mãe. Isabel sempre amou seu lar, nunca cogitou viver em outro lugar. Porém, embora amasse muito este lugar, fez de sua cabana, menina Anne, seu refúgio. Eles viviam muito felizes, então ela ficou grávida de James. A grávidez correu bem e nosso menino nasceu forte e muito saudável, mas depois disso a Isabel nunca mais foi a mesma. Perdia noites e noites caminhando às margens do rio, às vezes ficava ali parada por horas, somente olhando, observando, agia como se esperasse por alguém. Tudo foi se modificando, o pequeno James ficava mais comigo do que com ela, Henry não sabia mais o que fazer para trazer a alegria que um dia existiu em sua amada esposa. Engraçado que mesmo com todos os problemas, com todas as mudanças, ele nunca deixou de amá-la. Ela era parte dele, sua continuação, seu ar, seu chão, seu começo, meio e fim. – a voz melancólica de Rosalyn fazia com que o coração de Anne sangrasse ao pensar em um marido deseperado e um filho necessitado dos carinhos da mãe. – Quando já não suportava mais vê-la vagar pela casa, Henry me pediu para ajeitar a cabana, queria fazer uma surpresa para ela. Sei que ele a levou para passarem a noite juntos e no outro dia voltaram logo de manhã. O olhar cansado havia desaparecido e Henry estava novamente com o sorriso familiar no rosto. Todos nós torcemos para que tudo se ajeitasse desta vez. Passaram-se alguns meses e ficamos sabendo que mais um bebê estava a caminho. E era nosso pequeno Ron. Ronald não teve a mesma sorte de James, a doença da mãe já estava bem adiantada e ela sofreu muito durante a gestação. Quando nasceu era um bebê bem pequeno, lindo, mas muito pequeno. Nós o amamos de imediato, ele era cativante, nem sei ao certo como dizer isso, mas Ron trazia consigo uma força, uma vitalidade que todos que o viam pareciam perceber. James já estava com dois aninhos quando Ronald nasceu, e desde o primeiro momento nunca se separaram. James dormia em um berço


ao lado do bebê e não saía de perto dele por nada. Quando íamos dar banho ou amamentá-lo, sempre tínhamos que contar com mais um por ali, pois ele sempre estava por perto do irmão. Era como se um imã, uma corda os ligasse. – Anne estava ansiosa, queria saber o que aconteceu com Isabel. – E Isabel, o que houve com ela? – olhando para a janela, Anne podia ver que os olhos de Rosalyn estavam pousados no Potomac. – Esta é uma história muito triste, senhorita. Mesmo com toda devoção que Henry professava à esposa, todos os cuidados que ele tinha com ela, nada parecia ser suficiente. A tristeza que crescia nos olhos de Isabel era dolorosa de se ver. Um dia pedi a ela para que me contasse o que havia acontecido, onde estava a menina alegre e radiante que havia chegado àquela casa. – ao olhar para a senhora, Anne podia ver as lágrimas rolando pela face já marcada pelo tempo. – O que ela disse Rosy? O que havia acontecido? – Menina Anne, nunca vou me esquecer daquele olhar, a angústia e o desespero que vi neles, um pedido de socorro que ninguém seria capaz de dar. Em meio a tanta dor, ela disse o que não tinha, e o que nunca teria era o amor de Henry. – confusa Anne pensou ter ouvido errado. – Como? Mas você acabou de me dizer que ele a amava, venerava-a. entendi errado? – Não menina, todos aqueles que os viam juntos podiam ver o quanto ele a amava, mas para ela esse amor não existia. Um dia em meio a arrumações ela encontrou um diário e dentro dele várias cartas que Henry havia recebido de uma mulher. Essa mulher, Anne, fora o grande amor dele, então Isabele entendeu que o que ele sentira por ela foi uma grande e avassaladora paixão e depois tornouse carinho, mas o amor verdadeiro ele sentia por essa outra mulher. – Meu Deus, deve ter sido muito duro para ela descobrir que seu grande amor na verdade amava outra. Quem era essa mulher, Rosy? Você a conheceu? – E esta família ainda é assombrada por muitos fantasmas menina. Seria melhor... – Deixá-los descansar, não é Rosalyn? – tanto Anne quando Rosalyn se assustaram ao ouvir aquela voz imperiosa repleta de tristeza e angústia. – Sim, senhor Henry, é o melhor a fazer. Anne, sua água está preparada. Peço que me deem licença. – Rosalyn saiu do quarto sem olhar para nenhum dos dois. – Desculpe-me por entrar sem bater, mas a porta estava entreaberta e ouvi que estavam conversando. Olha Anne, não quero que pense que escondo o que houve com minha esposa, apenas não acho que ainda seja o momento de contar toda esta tragédia. Você ainda está se recuperando de um trauma, não quero que fique pior. Quero vê-la bem. – Anne o contemplava sem poder acreditar no que ouvia. Agora sabia muito bem de quem James havia herdado seu instinto protetor. – Tudo bem, a história é sua para contar. Não quis ser intrometida, quero apenas entender um pouco desse mistério que nos cerca. E quando falo nós, é porque me sinto de alguma forma envolvida


nesta situação toda. Sinto-me ligada, conectada com tudo isso. Antes eu pensava que eram apenas sonhos aleatórios, fruto da minha imaginação fértil, fragmentos de memória devido a minha compulsão por essa guerra. Mas agora sinto que existe algo mais. Que tenho, de alguma forma, uma ligação com tudo isso e preciso que vocês me digam, preciso que me ajudem a entender esse mistério que me assombra durante boa parte da minha vida. – Anne nem percebeu que chorava enquanto falava, Henry a contemplava, conseguia ver a dor que ela sentia. Seu filho teria que agir muito rápido, era desumano deixar que ela sofresse assim por mais tempo. Comovido com sua angústia, Henry sentou-se na cama ao seu lado. – Entenda, Anne, existem coisas que nem eu, nem Rosalyn, nem Ronald podemos te dizer. O que você precisa saber, deverá ser dito por James, ele é quem irá te contar tudo o que precisa saber na hora certa, no momento em que ele julgar necessário. Compreende? – Anne não podia acreditar naquilo, logo James que mal falava com ela, que a odiava, então isso era o fim. Ela nunca saberia qual seu papel neste enredo. – Como? Se ele vive me repelindo. – Santo Deus, isso já virou obsessão, eu não a afasto, nunca mais repita isso. Papai, isso aqui já está ficando chato, eu viro as costas e o senhor vem armar um complô com essa rebelde sem causa, e o que é pior, contra mim. Explique a ela que eu não a odeio. Por que eu já desisti. – Uma Anne atônita fitava um enfurecido James que acabava de entrar no quarto. – Eu? Mas eu não sei de nada, meu filho. Isso é entre vocês, jovens, deixem os velhos de fora desta. – Henry que percebia o olhar atônito de Anne para seu irritado filho, levantou-se da cama e encaminhou-se para a porta. – Só tenho uma coisa a dizer para vocês. Deixem de perder tempo, ele é implacável e passa, e o que é pior, não tem como se arrepender e voltar atrás. Sejam práticos e deixem de brigas bobas. – James que já havia perdido um pouco da raiva, fitava seu pai como se aquele homem parado ali à sua frente fosse um desconhecido. – O que deu nele? Nunca o vi assim antes. – Se você que é filho dele não sabe, imagine eu. Agora você poderia sair? Preciso tomar banho. Hoje esse quarto está parecendo igreja em dia de procissão, sempre tem alguém entrando. – Anne pôde ver a mudança nos olhos de James, de um olhar zangado para algo que parecia muito bem desejo, mas claro, ela preferiu ignorar. Não estava disposta a ser rejeitada mais uma vez. – Anda, saia. Preciso tomar banho. – Quer que eu a leve até o banheiro? Não tem problema algum, posso muito bem fazer esse sacríficio. – os olhos dele brilhavam, o azul acinzentado estava parecendo o mar profundo em dias de tempestade, o que o deixava ainda mais lindo. – James, penso não ser uma boa ideia. Prefiro eu mesma ir até o banheiro sozinha, não se preocupe, logo terminarei e o chamarei para que me ajude a descer as escadas. Agora, por favor,


pode me deixar sozinha. – Anne pode ver a batalha sendo travada, mas ele aquiesceu e saiu do quarto. Ela não perdeu tempo. Assim que a porta se fechou, arrastou-se até o banheiro, já estava na hora de se livrar daquela camisola horrorosa. James encontrou seu pai sentado em seu escritório, estava totalmente perdido em seus pensamentos contemplando o quadro que ficava logo atrás dele. Lembrava-se como se fosse hoje do dia em que tiraram essa foto, seu pai havia dito a eles que seria para que ele pudesse ter o mais valioso de todos os quadros, e então ali estava, a obra mais valiosa da coleção de Henry Starre. – Vai ficar aí calado por muito tempo ou pretende entrar e beber algo com seu velho pai? – balançando a cabeça James se sentou, seu pai nunca se deixava surpreender. – Acho que está um pouco cedo para beber alguma coisa. – o olhar carrancudo de seu velho, deu-lhe indícios de que algo não ia bem. – Acabei de pedir a Rosalyn que me trouxesse um suco, mas se para você está muito cedo para tomar um suco, tudo bem, bebo sozinho. – James soltou uma gargalhada. – Papai, o senhor não existe. E é claro que tomarei o suco com o senhor. Mas agora deixe de conversa e diga o que estava conversando com Anne que deixou ambos tensos. Quando entrei no quarto a tensão era palpável. E ela ainda afirmava aquela sandice de que vivo repelindo-a. Papai, diga-me o que está havendo. – Sandices, será mesmo, meu filho? Vamos ver a situação toda por outro prisma. Primeiro você a evita a todo custo, depois continua a evitando e terceiro, ainda continua a evitando. Bem, olhando por esse lado, não parece que você a ama. O que você me diz? – Henry fitava seu filho, observava a manifestação de cada sentimento passar por seu rosto. Confusão, raiva, mágoa e amor, os olhos estavam carregados de amor. Como seria bom se ele se rendesse a este sentimento e deixasse todos os outros para trás. – Eu não a afasto papai, não sei o que sinto. Vou pedir o mesmo que pedi a Ron. Não me pressione, preciso muito do apoio de minha família, mas não quero ser empurrado contra uma avalanche de sentimentos que ainda nem consegui identificar quais são. Assim que souber o que fazer, prometo que tomarei alguma decisão, mas agora só preciso tentar me encontrar. Como posso ser responsável por alguém quando sequer sei lidar comigo? – Fitando seu filho, não soube o que dizer, mas acreditava que essa duvida não demoraria a passar. – Tudo bem, só não espere muito. O tempo está passando. – James foi salvo do próximo comentário por Rosalyn, que viera avisar que Anne havia interfonado dizendo que já havia terminado o banho. – Vai levá-la ao hospital ou quer que eu a leve? Posso fazer isso. – Olhando para seu abatido pai ficou a pensar, sua força, sua imponência, às vezes o fazia esquecer de que era ele quem


estava doente, que era ele quem precisava de cuidados. – Papai, o senhor deve se cuidar, não deve se esforçar. Eu sei o que o médico disse e por isso deve tomar muito cuidado. Seus pulmões ainda não estão totalmente recuperados do trauma. – Filho, você tem tantos problemas sobre seus ombros, por favor não crie mais onde não tem. Estou bem, sabe disso. – olhando-o desconfiado, James retrucou. – O que sei é que o senhor passou por um momento bem difícil, então por favor, colabore conosco e faça sua parte. Cuide-se, por favor. – abraçando seu filho e conduzindo-o até a porta, despediu-se. – Está certo, prometo me cuidar se você me prometer cuidar muito bem do tesouro que estamos guardando lá em cima. Tenho sua palavra? – sorrindo do ar de conspiração que seu pai adotara, concordou. – Agora vá cuidar dela e me deixe em paz.

Anne estava de pé em frente à janela, nada era mais lindo do que aquela visão. Como sentia falta de poder caminhar, desfrutar das belezas do rio. Nem acreditava que já estava perto de deixar seu claustro, poderia sentir novamente o cheiro da terra molhada, a sensação da água batendo em suas pernas. Queria muito fazer algo que ainda não fizera, tomar banho de rio, jogar-se, mergulhar, sentir-se completamente imersa, fazer parte deste rio, desta terra, desta história. É só disso que ela precisava. Pertencer a algo, a alguém. Um barulho na porta trouxe-a de volta à realidade. Virando para trás deparou-se com James a observar. – Estava há muito tempo parado aí? – Não, acabei de entrar, mas você parecia tão entretida que não quis te incomodar. Quer descer, andar um pouco pelo pátio? Ou prefere somente sentar na varanda dos fundos e contemplar o rio? – Acho que prefiro ficar na varanda. O dia está quente, mas a brisa que sopra parece bem fresca, creio que me fará bem. E também daqui a pouco teremos que ir à cidade, nem acredito que hoje fico livre destes pontos incômodos. Quando voltarmos da cidade você já pode me deixar na cabana, creio que já conseguirei me virar sozinha por lá. – Anne, acha mesmo que está na hora de ficar por lá sem nenhuma ajuda? Aqui você pode contar com Rosalyn, com papai e comigo. Creio que ainda é cedo para declarar independência. Talvez seja melhor esperar um pouco mais. – vendo a recusa em seu rosto, James se antecipou. – Façamos assim, vamos ao médico, ouvimos o que ele diz e somente depois resolveremos o que fazer. Certo? – sorrindo, ela concordou. Ao retornarem do médico, Anne não estava com a melhor das expressões. O dr. Frederick não


deu alta a ela, ou seja, não permitiu que voltasse para a cabana imediatamente. Recomendou que ficasse na fazenda ainda esta noite e depois, caso se sentisse melhor e visse que conseguiria fazer as coisas sozinha, poderia retornar. James, é claro, parecia o mais feliz dos homens, quase deu um abraço em agradecimento ao médico, este homem a confundia, em um momento parecia me amar, querer sempre estar perto de mim. Em outro me odeia, quer que eu fique o mais distante possível. Nossa, como seria bom saber o que ele realmente quer! Com a expressão emburrada, Anne não ousou olhar para um feliz James. – Prometo que amanhã vou levá-la para a cabana e ficaremos por lá um tempo. Caso você veja que consegue se virar bem sozinha, deixarei que fique. Está bem assim? – fitando os campos repletos de gado pelos quais passavam, Anne sequer o olhou para responder. – Tudo bem, que outra alternativa tenho senão concordar com você? Mas quero dizer que me sinto muito bem. Não preciso mais de babá. O que estava encomodando eram os pontos, agora está tudo bem, posso muito bem ficar sozinha na minha cabana. – Certo, amanhã testaremos essa sua teoria.


CAPÍTULO VIII

O dia amanheceu ensolarado e Anne sentia-se renovada, estava ansiosa por estar em sua cabana, retomar suas pesquisas. Agora que faltava tão pouco, logo poderia voltar para casa e retomar sua vida. E os sonhos? Desde que chegou à fazenda não os teve. Suas noites eram tranquilas, sem maiores emoções. Queria muito estar livre daquela torturante sensação, a agonia que sentia sempre que acordava. Queria muito sua vidinha tranquila e quase enfadonha novamente. Era melhor levantar e se arrumar antes que alguém chegasse e quisesse ajudá-la. Hoje voltaria a ser independente. Todos estavam à mesa do café quando ela desceu. James a olhou, parecia ainda mais linda a cada manhã. Uma força, uma resolução brotava dentro dele. Nunca, nunca a deixaria ir embora, ela era dele, para ele, fazia parte daquele lugar. Não a perderia por nada. Sorrindo, levantou os olhos para ela. – Ei, pequena, pensei que não fosse descer para se juntar a nós no café. Como está? Conseguiu fazer tudo sozinha, não sente-se cansada? – enquanto a bombardeava com perguntas, levantou-se para puxar-lhe a cadeira. – Obrigada, James. Foi um pouco difícil, pois como fiquei muitos dias sem movimentar a perna, ela se mostra frágil, mas com o tempo e exercitando-a um pouco mais a cada dia, penso que logo voltará ao normal. Mas confesso que estou muito ansiosa, preciso voltar à cabana. Minha cabeça está cheia de ideias, informações, quero voltar a escrever. – Henry podia ver a alegria que emanava daquela pequena e o conflito que consumia seu filho. Balançando a cabeça teve que intervir para que Jae não atrapalhasse aquela animação. – James, uma vez que Anne sente-se bem, por que não a leva para caminhar um pouco às margens do rio? Quem sabe de lá ela consiga tirar mais alguma informação ou até mesmo renovar sua inspiração. – James o olhou desconfiado. – Pode ser papai, o que acha disso Anne? Está pronta para uma aventura assim. – afirmou com o olhar cheio de ternura e desafio. – Claro, caso você não consiga, podemos apenas nos sentar e ficar lá contemplando as águas. – Não sei dizer ao certo quanto aguentarei, mas podemos tentar e quando me cansar nos sentamos, pode ser? – o olhar apaixonado que podia se ver nos olhos da pequena Anne fez com que o velho e cansado coração de Henry batesse um pouco mais forte. Ainda se lembrava da primeira vez que ele vira Isabele, parecia uma rosa ao vento, os cabelos negros caindo até a cintura, o vestido


verde claro que realçava ainda mais suas curvas... nossa como era linda sua mulher, e como foram felizes antes que a enfermidade aparecesse. – Ei, Henry, porque não vem conosco? Acho que te faria muito bem esta brisa que bate, o sol maravilhoso que nos convida a caminhar. Venha conosco, não é, James? – Anne o olhou, forçando-o a concordar com ela. – Claro papai, podemos mudar o roteiro, caminharmos pela pradaria, não precisamos ir para o rio, seria ótimo tê-lo conosco. – Anne percebeu a sutil mudança em James quando mencionou a mudança de destino. O que esse rio escondia? – Não, meus filhos, obrigado por ser preocuparem com esse homem velho, mas prefiro ficar aqui lendo um bom livro. Além do mais, estou esperando uma ligação de seu irmão James, consegui que o cabeça dura voltasse antes do final do mês e logo teremos boas notícias. Creio que quando vier, será em defintivo. – Isso sim é uma ótima notícia, ter Ron aqui consoco novamente será muito bom. Sinto falta do meu irmãozinho. – soltando uma gargalhada Henry completou. – O que acha, Anne, de um homem que mede 1,96m ser chamado de irmãozinho? – todos gargalharam imaginando a cena. – Vão, já estão perdendo o que o sol da manhã tem de melhor a oferecer, aproveitem pois como bem sabem, as noites são frias. O rio estava lindo, suas águas tranquilas e serenas remetiam a ideia de paz, aconchego, lar. A perna estava se mantendo firme, andava meio claudicando, mas estava conseguindo bem. James estava sendo um verdadeiro cavalheiro, acompanhando-a em seu caminhar lento. Mas para que ter pressa quando se tinha tanto para contemplar. No alto das árvores pássaros brincavam em uma verdadeira algazarra, estava tão imersa em sua divagação que levou algum tempo para perceber que estava sendo observada. Do outro lado da margem do largo rio uma corsa os observava, os olhos pareciam duas esmeraldas e a força daquele olhar a fazia pensar que não se tratava de uma animal selvagem, irracional. Sentia-se observada, contemplada; era como se estivesse ali esperando por alguém. A corsa retribuiu o olhar durante alguns segundos, depois deu a volta e entrou novamente na floresta. Anne sentiu um calafrio. Calada, sem proferir um mínimo som, procurou pela mão de James. – Ele é lindo. – Sim, é. Cresci correndo por aqui. – observando-o, Anne parou pensativa. – James, posso ver você e Ron correndo pelas margens do rio. – Sorrindo voltou seu olhar para as águas. – Imagino o quanto devem ter tido uma infância maravilhosa. Um dia desses quero mergulhar, você viria comigo? – A força com que James a agarrou foi tamanha que a assustou,


fazendo-a recuar. – Nunca! Prometa-me Anne, jamais entrará nessas águas, o mais próximo que chegará será até as margens.. – Mas James, não vejo razão para isso. Sou uma boa nadadora, consigo muito bem mergulhar nessas águas. – Anne, não me faça trancá-la dentro de casa. Prometa pra mim que não voltará sozinha ao rio. – sacudindo-a pelo braço, ela pode ver a intensidade daquele pedido, ou melhor, ordem. Alguma coisa muito séria teria acontecido para que agisse desta forma. Livrando-se novamente de seu aperto, caminhou até a margem. – Tudo bem, James, eu prometo. Nunca entrarei nessas águas sem você. – Errado! Nunca entrará nessas águas e ponto final! – Anne observava a paisagem. Quantos segredos aquele lugar guardava; seu coração estava triste, pois pelo que podia perceber não eram apenas lembranças de uma guerra, eram fantasmas de uma família, os quais viviam atormentando James. Caminhou um pouco à frente procurando um lugar que pudesse recostar, a perna já começava a incomodar. James que não a perdia de vista percebeu a expressão de cansaço. Olhando à sua volta, encontrou o lugar adequado para descansarem. – Consegue caminhar até aquele tronco caído ou quer que eu a carregue? – olhando a distância que deveria percorrer, Anne ponderou. – Creio que consigo chegar, não está doendo tanto, só senti uma leve fisgada. – Certo, então vamos. O tronco não estava distante, caminharam um pouco mais e logo chegaram. Anne deixou-se cair, acomodando-se da melhor forma possível. James sentou-se ao seu lado, de forma que seus braços e pernas se tocavam. Cansada e atraída por seu calor, Anne não resistiu e aconchegou-se a ele, de forma que os grandes braços de James a rodearam. Sentada com as costas contra seu peito, Anne sentia todo seu calor, seu coração batia em um ritmo descompassado, sua respiração entrecortada. Até quando conseguiria evitar que ele soubesse de seus sentimentos, de seu amor? Como poderia um homem ser tão cego? Ai, que confusão. Uma parte dela queria que ele percebesse o quanto o amava, pegasse em seus braços e a cobrisse de beijos, outro desejava que ele nunca percebesse, que continuasse assim, repudiando-a. – Eu não a afasto – Anne teve um sobressalto, será que havia falado –, você me perguntou isso várias vezes e eu nunca respondi, estou fazendo agora. – devagar Anne relaxou novamente contra ele. – Eu não sei ao certo o que sinto, cheguei a pensar que estava me apaixonando por você, mas paixão parece ser pouco pelo que sinto. Na verdade Anne, acho que a amo. – o silêncio caiu entre eles, apenas se ouvia a algazarra dos pássaros e o choro das águas.


– James. – colocando o dedo sobre os lábios dela, ele a impediu de falar. – Não, pequena, apenas me ouça. – contemplando-o, ela concordou. – Eu venho com uma bagagem muito grande e pesada, não sou um homem como outro qualquer, tudo que se refere a mim é difícil, complicado. Queria poder ser diferente, queria que nossa relação fosse possível, mas não posso fazer com você, não posso impor algo que não está preparada para enfrentar. Eu que convivo com isso a vida toda não me sinto preparado. – o coração de Anne se apertou diante daquele olhar desolado. – James, preciso te dizer algo. – o desejo que o corroía se tornou impossível de ser guardado por mais tempo. James não queria ouvir o que ela tinha a dizer, queria apenas sentir seu gosto mais uma vez. Abaixando a cabeça, tomou sua boca em um beijo deseperado e apaixonado. O calor que os envolvia ameaçava explodir, desta vez Anne não deixaria que ele fugisse. Descendo do tronco, arrastou-se com ele, fariam amor ali, em frente ao rio que sempre estivera presente em seus sonhos. O rio que guardava tantos segredos. Ela se entregaria a James tendo somente aquelas águas como testemunha. James podia perceber por onde andavam os pensamentos de Anne, suas mãos caminhavam por suas costas, por seu peito, o fogo se alastrava, seguindo-as. Desta vez ele não conseguiria se libertar, desta vez não pararia, agora, e somente agora, ela seria dele. Deitando-a com todo carinho sobre a relva, James tirou sua camisa e a estendeu. Depois retirou a blusa de Anne, explorando com os lábios cada pedacinho de pele nua. Sem proferir uma palavra, liberou-a da blusa e estendeu-a sobre a relva. Aquela pele era linda e muito alva, merecia todo seu cuidado. Depositando-a sobre a cama improvisada, voltou ao que estivera fazendo ainda há pouco. Seus lábios dançavam pelo corpo de Anne, que soltava gemidos timidos e deliciosos. Seu corpo era um parque onde ele pretendia se divertir. Descendo as mãos por entre suas pernas, sondou por cima da calcinha o lugar que ansiava estar. Anne gemia e acompanhava os dedos de James. Olhando para ela subiu as mãos por suas pernas passeando calmamente, deslizou os dedos por sobre a barriga, desenhando, brincando, fazendo-a gemer, até que suas mãos encontraram os dois montes que ainda estavam cobertos pelo sutiã. Afastou o bojo de um deles e com a boca começou a brincar com um mamilo, enquanto o outro era sondado e envolvido pela mão que estava disponível. Os sons que ela emitia eram um paraíso para ele, queria-a totalmente entregue, rendida a seus desejos, queria que gritasse quando estivesse dentro dela. Anne estava perdida em meio a uma nuvem de sensações, seu corpo estava trêmulo, fraco, totalmente a mercê das mãos e boca de James. Ele era seu carrasco e ela sua algoz. Ele a acusava, julgava e condenava, mas não se importava; pagaria com muito prazer por essa sentença. Queria muito tê-lo dentro dela, e desta vez não deixaria que ele se afastasse. Não suportaria mais uma


rejeição. Quando ia pedir, implorar por mais, sentiu os dedos dele brincando com o zíper de sua calça. – Erga-se pequena, deixe-me tirar isso, deixe-me fazê-la minha. – Anne mal ouviu as palavras e já estava se movendo, ajudando-o a tirar sua calça. Ainda bem que vestiu uma bem larga, de forma que saiu rapidamente. Quando estava apenas de calcinha ali deitada na sua frente, sentiu que estava fazendo o certo. Que não importava o amanhã, mas o agora, o hoje, ele era o que queria e ela o teria, mesmo que por poucas horas eles seriam apenas um. Ainda perdida em seus pensamentos, Anne foi arrancada de seu mundo particular por uma língua que brincava em seu lugar escondido. Não conseguindo mais se conter, abriu-se ainda mais para ele, segurando firme em seus cabelos como se quisesse mantê-lo ali. Se James pudesse medir o desejo de Anne por seus gemidos e pela força com ela agarrava seus cabelos, ele com certeza estava se saindo bem. O sabor dela era algo delicioso, passear com sua língua por sua flor estava deixando-o louco de desejo, não suportaria muito mais tempo e tinha que estar dentro dela. Enquanto sua língua brincava com ela, suas mãos passeavam por seus mamilos, instigando-os, apertando-os, queria-os também em sua boca. Outro dia, em outro momento, levaria uma vida toda para amá-la, mas hoje precisava senti-la por inteiro. – Pequena, vou me deitar ao seu lado, de forma que sua perna machucada fique por cima, assim ficará mais fácil para você. Penso que se eu a colocasse por cima você poderia comandar a intensidade das coisas, mas com sua perna ferida não seria nada recomendável. Estou louco por você, preciso tê-la por inteiro, mas não quero machucá-la. – dizendo isso deitou-se ao lado dela, suas mãos trabalhavam para tirar a calça, não queria nada entre eles, queria sentir a pele de Anne toda contra ele. Quando se livrou da calça, puxou-a para junto dele, corpo contra corpo, sexo contra sexo. Como era bom tê-la contra ele. – Sua perna, estou machucando sua perna. – confusa, Anne o fitou: – Perna. Que perna? – caindo na risada, James capturou mais uma vez sua boca. Movendo seu corpo contra o dela, atiçandoaa ainda mais. O vaivém, o seu pênis grosso pressionando contra a suave abertura dela deixava-os cada vez mais enlouquecidos. Mergulhados no calor do momento, Anne agiu tão rápido que ele não pode evitar. Ela passou a perna por cima da cintura dele forçando sua entrada e ambos gemeram em agonia. Em um movimento suave, James a penetrou tomando-a por inteiro. Seu grito foi uma mistura de dor e prazer. Envolvido por aquela onda ele não conseguiu evitar. Anne impulsionava-se contra ele freneticamente, enquanto ele se movia com a mesma intensidade. Suas bocas se encontraram em uma dança sensual, as mãos de James percorriam o corpo de Anne com tamanho desejo que via-se totalmente entregue a ela. Não só seu corpo, mas também seu coração. Tomados pelo prazer, com uma súbita explosão se lançaram juntos ao êxtase. Quando James voltou do céu, a primeira palavra que veio à sua mente foi, irresponsável.


– Isso foi uma loucura – com Anne aconchegada ao seu corpo, James não conseguia conter a felicidade que o envolvia, porém via-se confuso –, deveríamos ter conversado antes. Não podíamos ter feito amor assim. Isso só vai complicar ainda mais as coisas pra mim. E sua perna, machuquei? Você está bem? – Querido. – encostando sua testa na dele e soltando um suspiro de resignação, enfrentou seus medos. Ele poderia ir embora, ou melhor, mandá-la embora, porém antes falaria tudo que precisava ser dito. Precisavam encarar o fato de que um precisava do outro. Algo de muito estranho estava acontecendo e James tinha a resposta. E ela a queria. – Eu estou bem, minha perna está dolorida, mas nada grave. James, precisamos conversar. Precisamos rever algumas coisas, mas a primeria delas é, você tem dormido, digo, desde que estou na fazenda, desde que machuquei a perna, você tem dormido. – confuso pelo rumo que aquela conversa estava tomando, ele respondeu. – Como há tempos não dormia. E o mais interessante, ele não veio me encontrar. Não tive sonhos. – Preciso que você preste bastante atenção ao que vou falar. Talvez sejam as palavras mais importantes da minha vida. Inseguro quanto ao tema deste assunto e apavorado com a expressão séria de Anne, acovardou-se. Mesmo sabendo que fora um erro terem se amado, terem se entregado um ao outro de uma forma tão profunda, não suportaria que ela o deixasse. Não só pelos malditos sonhos. Mas por ele. Simplesmente por ele. – Não diga nada, fique aqui comigo,abrace-me. Há tanto tempo que não me sentia assim. Feliz. Com os olhos rasos d’água, enlaçou-o pelo pescoço e descançou a cabeça em seu peito. O som de seu coração era uma canção tranquilizante. Sentindo-se mais relaxada retomou o assunto, não deixaria o que pretendia dizer para depois. James podia ainda não estar preparado para ouvi-la, mas ela precisava dizer, tirar de dentro dela essa agonia, esse medo, essa tortura, a qual fora submetida durante anos. – Vamos voltar ao início. Deixando tudo claro entre nós. Certo? Aguardou a resposta dele. – Certo. Voltemos ao começo. – Quem fala primeiro? Eu ou você? Em minha opinião, dada as circunstâncias, você deveria começar. – Bem, a meu ver, devido às circunstâncias e a eduacação que meu pai me deu, as damas sempre vem primeiro. – Disse com um ar insolente. Revirando os olhos para cima e sorrindo resignada, Anne começou. – Tudo bem! Que seja. Mas não se acostume, não tenho por hábito ser muito submissa.


Revirando os olhos para cima imitando-a, James ouviu-a iniciar seu relato. – Eu devia ter mais ou menos quinze anos quando tive o primeiro sonho – vendo a expressão confusa de James completou –, não é só você que é perturbado à noite, querido. Balançando a cabeça, fez sinal para que ela prosseguisse. – Então, onde estava? Ah, sim. Eu havia acabado de completar quinze anos, minha mãe estava em uma das suas muitas viagens e eu estava apenas com a governanta. Mas isso era normal. Estranho seria se minha mãe estivesse em casa. – Lembrou com olhar ausente. – Tinha passado o dia todo envolvida com minhas atividades rotineiras, aula de piano, balé, essas coisas inúteis que minha mãe fazia questão que eu aprendesse. À noite, estava cansada. Não tive ânimo nem para jantar. Disse a Mary que me recolheria e que não se preocupasse. Ela ainda podia ver seu quarto, as prateleiras cheias de bonecas francesas que sua mãe gostava de presenteá-la. Mesmo sabendo que ela não se interessava por elas. Os livros de história que mantinha escondido em segredo em uma caixa embaixo da cama. Os fósseis que seu professor havia dado de presente e ficavam expostos sobre a escrivaninha. As imagens ainda eram tão vívidas como se tivessem ocorrido ontem. Concentrado-se, voltou à noite do sonho. – Não sei ao certo quanto tempo levei para adormecer. Mas o sonho logo veio. Eu estava perdida na floresta, corria desesperadamente e tremia de medo, algo estava me perseguindo, me caçando. Se eu não me apressasse seria capturada e isso de alguma forma não era bom. Corri com todas as minhas forças até minhas pernas não aguentarem mais, quando caí não conseguia mais me mover. Então ela apareceu. James, ela era linda, alta, uma pele branca como a neve, os cabelos caíam sobre os ombros e os olhos de um verde que fariam qualquer esmeralda sentir inveja. Ela falou comigo. Perguntou meu nome, e quando fui responder já não era eu quem estava caída aos seus pés e sim um homem, um soldado muito ferido. Lembro que fiquei chocada quando vi aquele rosto. Uma beleza selvagem, olhos cinzas, cabelos negros. Quando ele falou seu nome não fui capaz de ouvir. E fiquei desesperada por isso. Voltei a correr pela floresta escura em busca do soldado, gritando, chamando-o. Foi assim que Mary me despertou. Ele a encarava incrédulo, como se nunca a tivesse visto. Por um longo momento observou-a, esforçando-se para fazer passar a saliva por sua garganta. Suspirou fundo e apertou-a contra o peito com toda a força que seus braços suportavam. Meu Deus, ela havia sofrido o mesmo terror que ele. Será que o via mutilado? Oh céus, será que ela o vê todo coberto de sangue como ele tem visto? Não posso permitir isso. Não posso. Assustada com tamanha manifestação de horror e pânico, Anne escondeu seu rosto tentando se desvencilhar dos braços possessivos de James.


– Querido, você está me machucando. As palavras dela o despertaram. – Desculpe. Perdoe-me, pequena. Fiquei imaginando o horror que você teve que enfrentar. E estava sozinha. – De certa forma, eu sempre estive sozinha. Havia Mary, mas nem sempre ela percebia. Foram poucas vezes que pude contar com alguém do meu lado quando despertava apavorada. Então me acostumei. Sempre que sonhava, logo que despertava pegava um livro de história e ficava lendo sobre as guerras até ser vencida pelo cansaço. E os sonhos nunca se repetiam numa mesma noite. – Você lia sobre guerras? – Disse em um tom adulador. – Você deve ter sido uma criança e tanto. – Sim, eu lia. Fique sabendo, meu querido, que foi assim que descobri quem era o homem dos meus sonhos. Era nada mais nada menos que... – Não diga! Por favor, não agora, não depois do que vivemos. Por favor, eu te imploro. Anne ficou imóvel e olhou profundamente nos seus olhos. – Tudo bem. Não direi quem ele é. Mas me responda uma pergunta, apenas uma por hoje. – Tudo bem, apenas uma. Não sei se conseguiria lidar com mais nada. – Você sabe quem são eles? O soldado e a mulher? – Sim. Eu sei. A lua já estava alta no céu, os pássaros noturnos faziam suas rondas à procura de alimentos. Caminhar sempre a acalmava, sentir o vento bater em seus cabelos, o perfume da relva molhada pelo orvalho da noite. A luz da lua penetrava tão suavemente entre as copas das árvores; o ar era tão perfumado, uma riqueza de aromas. O som das águas do Potomac a correr tranquilamente. E na atmosfera podia-se sentir na pele a leve sensação do passado. A estranha sensação de estar sendo observada. Virando a curva entre as árvores, subindo pela margem do rio podia-se vê-la. A cabana era uma construção mediana antiga e bela. A varanda realmente a encantava, gostava de sentar no degrau da escada e ficar contemplando o bosque com suas árvores frondosas e o barulho da água a correr. O jardim a enternecera, em Nova york não podia cultivá-los, mas aqui estava se saindo muito bem com ele. Os arbustos, as rosas e principalmente os gerânios. Estes eram encantadores. Uma onda de cores e perfumes. Precisava apenas plantar algumas margaridas, comprara alguns vasos para dentro da cabana, gostava de tê-las por perto. O braço de James em volta da sua cintura apertou-a um pouco mais, trazendo-a de volta à realidade. Era tão bom e exstranho ao mesmo tempo, tê-lo junto dela. Como amante. Isso com certeza traria muitos problemas para ambos, mas agora não pensaria no assunto, ele precisava dela e pelo


jeito, ela precisava dele também. – É linda, verdade. – Muito, quando crianças, eu e Ron sempre vínhamos aqui. Gostávamos de ficar sentados na escadas contemplando o bosque. Recriávamos histórias da época da guerra, fomos muito felizes aqui na fazenda. – Nunca sentiu vontade de sair, morar em outro lugar? Anne sentiu a tensão percorrê-lo, era com certeza terreno delicado. – Desculpe. – ele precisa de tempo, pensou Anne. – Tudo bem, James. Não precisa me dizer, estava apenas curiosa. – Olha! – Exclamou Anne, a alegria trouxe brilho aos seus olhos. Virando na direção indicada, James também sorriu. – São corsas. Elas adoram andar perto do Potomac. Embora nunca as vi neste horário. Sempre vejo de manhã, como vimos hoje. Envolvidos com aquela visão e agarrados um ao outro, James teve a certeza de que Anne era dele. Só precisaria ter cuidado ao fazê-la entender e aceitá-lo. A cabana estava fria, o perfume das flores percorria cada centímetro dela. Era acolhedor, ali ela se sentia em casa. Percorrendo-a com o olhar, sorriu. Bem. Não que em seu apartamento em Nova York pudesse encontrar cadeiras chippendale, uma cômoda estilo barroco francês. E uma cristaleira repleta de porcelana Dresden. Com certeza a própria cristaleira valeria bem mais que toda sua mobília. – Vou acender a lareira. Está muito frio aqui dentro. – Disse James já espalhando a turfa. – Acho que preciso de um banho quente e trocar essa roupa. Poderia nos preparar um chá enquanto faço isso. Parada na porta do quarto sorrindo, continuou: – Alegro-me por estar aqui. Não pensei que um dia o veria assim tão relaxado perto de mim. – Anne... Não pode terminar a frase pois ela já havia fechado a porta do quarto. Sem outra opção, encaminhou-se para a cozinha. – Ora. Eu me torno o amante dela e em menos de vinte quatro horas me coloca na cozinha. – Murmurou sorrindo. De todo não foi tão mal assim, afinal estava habituado a preparar sua própria comida. Coisa que deixava Rosalyn furiosa. Quando Anne parou na porta da cozinha, o cheiro de café penetrou a toda velocidade em seu cérebro. – Mas o que é isso! Um verdadeiro banquete. – Nada disso, apenas algumas panquecas e torradas. Preparei o chá pra você, mas eu prefiro


café. E como está sua perna? Não sofreu nenhum dano devido à nossa irresponsabilidade? – soltando um bufo, Anne respondeu. – James, a perna está dolorida, mas nada que não possa suportar, deixe isso pra lá, logo estará curada. James caminhou até ela e envolveu-a com os braços, afundando o rosto em seus cabelos molhados. – Meu Deus. Como cheira bem. Deixa-me louco, Anne. Afastando-se dele, caminhou para a mesa. – Pode me mostrar mais tarde o quanto te enlouqueço, mas por enquanto vou por essas panquecas. Estão com uma aparência ótima – colocando um pedaço significativo na boca, virou–se para ele –, e o gosto melhor ainda. Ele não conseguiu desviar o olhar dela. Era incrível em tão pouco tempo ter se tornado dependente daquele sorriso. Não podia se imaginar sem Anne. O que faria com ela? O que faria consigo mesmo? Nervoso, caminhou até a janela e fitou o rio. Anne estava observando-o e pode perceber que algo o incomodava. Chegara a hora. Não tinha porque esperar mais. Precisavam conversar. Afastou a xícara de chá, levantou-se e encaminhou-se para ele. Levando a mão ao seu braço, chamou-o. – James. – Eu não deveria estar aqui, Anne. Isso é errado. Afastando-se dela, caminhou em direção à porta. Exaperada, agarrou-o pelo braço. – Se você sair agora, amanhã não me encontrará aqui. Aterrorizado com a força daquela afirmação, soltou a porta de tela e pegou-a nos braços. – Anne, você precisa entender, não posso envolvê-la em um problema que é só meu. Em uma escolha que fiz há anos. Você deve ter uma opção. Soltou-a e saiu para a varanda, não se virou para vê-la sair, mas sentiu-a. – Você diz que tenho escolha, mas não me deixa escolher. Precisa entender que nunca tive escolha em relação a isso. Com um olhar de dor e fúria, James caminhou em direção ao bosque. – Claro que tem. Meu pai te trouxe até aqui, envolveu-a nisso. Você não precisa estar aqui. Acaba de me dizer que vai voltar para Nova York. Eu te levo ao aeroporto. Será melhor que se afaste de mim, que se afaste dessa maldita situação. Enquanto falava a dor da separação corroía seu peito. Sentia-se como se estivessem


arrancando sua alma. O peso da dor fez com que suas pernas tremessem e seus joelhos dobraram, não suportando o peso de seu corpo. Sem forças, desabou no chão. Atormentada por vê-lo se contorcendo no chão, Anne correu até ele. – O que houve? James, fale comigo. Tentado entender o que se passava, apoiou sua cabeça nos joelhos de Anne, suas forças estavam sendo drenadas. Quase podia senti-las escoando por suas veias. – Anne, precisa entrar na casa. Ouça-me. Por favor, entre na casa. Não precisa ver isso. – Não vou deixá-lo sozinho caíido no bosque. Levante-se segure-se em mim. Tentando reunir suas forças, James apoiou-se em Anne. Seus olhos percorreram o bosque, então os viu. Pânico, horror, medo, terror e fúria misturaram-se dentro dele. Não deixaria que fizessem mal a Anne. Agarrando com força, segurou-a entre os braços. Anne assombrou-se com a expressão que via nos olhos de James, seguiu seu olhar e o choque foi maior do que poderia imaginar. Esqueceu o bosque, esqueceu os braços de James que apertavamna quase a esmagando. Só conseguia vê-los. Balbuciando, disse. – James. Você os vê? Antes que ele tivesse oportunidade de responder, outro o fez. – Claro que nos vê. Ele nos vê há anos. E que bom encontrá-la pessoalmente, pequena Anne. – disse com um sorriso apaixonante. – Deixe-a em paz – rosnou James –, seu problema é comigo. Ela não tem nada a ver com isso. O sorriso apaixonado do visitante transformou-se em fúria extrema. Caminhava em direção a James quando seu passo foi interrompido por sua companheira. Levando a mão ao peito do companheiro, disse com uma voz suave que mais parecia um sussurro: – Querido, ele está apenas defendendo sua amada. E quem melhor do que você para saber a importância deste ato? Anne não conseguia entender nada, não conseguia sequer respirar direito. Reconhecia-os de seus sonhos. Ele, ela sempre soubera quem era, mas quanto a ela, não fazia a menor ideia. Fitando-a nos olhos, disse ainda com a voz embargada: – Quem é você? Por que sempre aparece em meus sonhos? O sorriso encantandor surgiu em seus lábios e com um arquear de solbrancelhas, voltou-se para James. – Você deve contar a ela. Não há mais tempo, ela precisa saber. Sempre fostes sábio, querido. Porém agora não está pensando com clareza e equivoca-te. Ela sempre fez e sempre fará parte de seu destino. Lembre-se sempre, confie em teu coração, ele é o caminho. – dizendo isso segurou a mão de seu companheiro e desapareceu no bosque.


Deitado na cama de Anne, James ainda estava fraco e trêmulo. Teve que reunir todas as suas forças para conseguir entrar de volta na cabana. Sua cabeça corria a toda velocidade, pensamentos, lembranças, promessas. Não havia mais tempo, ela dissera. Mas seria ele quem faria seu destino e ninguém, nem nada mais. Anne o fitava calada, podia até ouvir o som das engrenagens movimentando cada pensamento. Não poderia dar mais tempo a ele. Desta vez teriam que falar. Sentando-se na cama ao seu lado, segurou sua mão. – James, quem era a mulher que estava com Ethan? A súbita pergunta fez com que seu estômago revirasse, não podia falar disso com ela, não poderia falar do que havia acontecido. Fechando os olhos, ignorou a pergunta. – James, se você não me falar chamarei Ronald, contarei o que aconteceu e tenho certeza que ele conversará comigo. Porém prefiro saber por você. Não tem o direito de me deixar à margem, faço parte disso. Você ouviu o que ela disse. Resignado e ainda com os olhos fechados, começou a contar a história de sua família.


CAPÍTULO IX

A lua brilhava no céu, o vento soprava calmo, porém gélido, as águas do rio cantavam sua canção calma e tranquila, um bálsamo para seu coração ferido e sua mente perturbada. Sentado à beira do rio, James observava o caminho das águas quando sentiu que já não estava mais sozinho. Virando o rosto, deparou-se com um par de olhos idênticos aos seus, era como olhar para sua própria imagem, seu reflexo, seu rosto em outra pessoa. Aquele que tanto aterrorizava seus sonhos, que tanto tirava seu prazer de viver, o causador de todos os seus problemas, o soldado Ethan Brown. – Você. – sussurrou. – Está chegando a hora, Jae, sua caminhada está chegando ao fim. – Ethan contemplava as águas, sua figura altiva exalava poder. – Não posso seguir, não conseguirei. Ela merece uma chance, deve fazer sua própria escolha. – resmungou distraidamente. – Ela já fez sua escolha, agora só falta você. Seja forte, seja firme, seja o guerreiro que sempre soube que você é. – levantando, Ethan começou a andar em direção à floresta. – Diga-me por que eu o vejo se mutilando, sinto suas dores, vejo-o em constante degradação? Por favor. – implorou. – Não sou eu quem está se mutilando, Jae, é você, são seus medos, sua fraqueza. Vá meu filho, siga seu coração, ele é o caminho, ela é seu caminho, ela é para você. – quando sua imagem já estava quase desaparecendo em meio às árvores, James pôde ouvir as palavras que vinham dançando com o vento. – E não se esqueça, uma vida depende de você. Papai, James pensou. A vida de seu pai dependia dele. O sol entrava pela fresta da janela, lá fora os pássaros cantavam, enchendo o ar de alegria. Anne fitava o teto, esta noite foi repleta de descobertas, explicações, sentia-se frustrada, insegura quanto a seu papel no desenrolar das coisas. Um mês já se passara desde sua chegada, e até momento não conseguia entender o real motivo de Henry trazê-la até ali. Pensara que ao conhecer o segredo da família conseguiria entender, reconhecer seu papel no esquema geral dos acontecimentos, mas nada. Continuava a vagar sem rumo, confusa, e agora apaixonada.


Anne contemplava o homem deitado ao seu lado, sua expressão não estava calma, mostrava-se sofrido, angustiado. Quais sonhos povoavam o sono de seu amado? Qual a grande batalha que James estava lutando? E desta vez sozinho. Passava das dez da manhã quando Ron apareceu no chalé, James havia saído para cuidar de seus compromissos e Anne estava sentada à beira do rio, repassando algumas anotações. – Ei, senhorita historiadora, como anda essa sua pesquisa sobre nossa guerra? – Levantando a cabeça, olhou-o nos olhos, e o que ele viu fez com que recuasse alguns passos. – Meu Deus, é você. Anne, completamente confusa diante da reação de Ron, levantou-se espalhando páginas de sua pesquisa por todo lado, o tão sorridente, alegre e sedutor Ronald Starre encontrava-se pálido, paralisado e trêmulo à sua frente. – Ron, o que foi, o que aconteceu? Sente-se bem? Quando chegou? Pensei que demoraria um pouco mais. – O quê? Ah, estou bem, tive a impressão... bem, está tudo certo. Cheguei ontem à noite e vim convidá-la para ir até a cidade comigo. Quem sabe em nosso museu você consiga averiguar algo de importante para sua pesquisa. – Eu iria adorar, mas tenho a sensação de que tudo que preciso saber está aqui, escondido neste lugar, quase posso sentir. – Vamos Anne, faça companhia para esse pobre rapaz abandonado, e por favor, está proibida de falar em fantasmas, eu os detesto. – Afirmou Ron com o olhar perdido nas águas do rio. O passeio com Ronald foi muito agradável, mas não podia ser diferente, o belo rapaz era o charme em pessoa. Caminharam pelas ruas da pequena cidade, fizeram compras, tomaram sorvete e conversaram durante muito tempo sentados à sombra de um frondoso carvalho. Sentia-se livre, feliz, sentia-se em casa. – Em casa. – O que disse? – Sinto-me em casa, sinto-me parte deste lugar. Mas preciso voltar, preciso retomar minha vida, retomar as aulas, terminar minha pesquisa e quem sabe, escrever um livro contando minha visão desta guerra. – Ir embora? Mas você não pode ir, deve ficar. James depende de você, o que existe entre vocês vai além do que posso explicar agora, mas não pode simplesmente ir embora. Não assim, Anne, não agora. – Ron, seu pai me trouxe para que eu terminasse minha pesquisa, para que contasse o que realmente aconteceu aqui nesta terra, tendo como base a visão dos moradores do lugar e não meras especulações. Mais uma semana e acredito ter material suficiente para terminar. Não vejo nenhum


outro motivo para ficar. – enquanto dizia isso, Anne tentava se convercer de que isso era o certo a fazer. Que era o melhor para sua vida. – James já sabe que pretende ir embora daqui a uma semana? Já falaram sobre isso? – Ronald não podia acreditar que ela estava realmente pensando em deixar seu irmão. – Na verdade não, comecei a perceber que meu tempo aqui já estava chegando ao fim quando estava sentada na beira do rio. Ronald, conte-me uma história sobre o Potomac, conte como você o vê. Estas águas são mágicas, guardam muitos segredos, o que elas falam para você? Qual é o seu segredo com elas? Ronald que brincava distraído com uma pedra, parou e ficou observando o movimento à sua volta, vivera ali toda sua infância, conhecia todos e cada um daquele lugar, sabia onde encontrar qualquer um a qualquer hora do dia ou da noite. Mas ninguém, ninguém o conhecia, ninguém conhecia seu segredo. Olhando para Anne, deu-lhe seu melhor e mais encantador sorriso. – Poxa, baixinha, tem certeza que você é realmente historiadora? Está mais para psicóloga, querendo conhecer o mundo obscuro que habita em cada um de nós. Tenha cuidado com o que deseja, pois seu desejo pode ser realizado. – olhando para o céu, pode observar as nuvens que se formavam. – Vamos para casa antes que esta chuva caia. O frio estava começando a aumentar e o vento dizia que a chuva não tardaria, podia sentir seu cheiro no ar. Olhando para o céu que mostrava-se enegrecido, uma tormenta estava se formando. No caminho de volta, nem uma conversa foi trocada, uma sensação de antecipação pairava entre eles, a única voz que se ouvia era Creedence Clearwater que cantava baixinho. Assim era a vida, cheia de sonhos, desejos, realizações. Ela viera a Antientam para terminar sua pesquisa, as informações colhidas em suas caminhadas foram de grande relevância. Ver, ouvir o que aconteceu aqui através dos herdeiros da guerra foi algo inigualável e fez com que se apaixonasse ainda mais por este período, por esta batalha, por este homem. Encontrar James não fazia parte de seus planos, acostumara-se a viver sozinha, a passar pela vida de forma imperceptível, viver em seu mundinho onde só havia seus livros, e agora havia James, sua outra metade, seu complemento, sua continuidade. Como viveria sem ele? Como voltaria a enfrentar seus dias sozinha? A ser somente ela, seus livros e sua solidão? Não fazia ideia, a única certeza era que só de pensar nesta hipótese já causava-lhe dor, uma tão grande e forte que parecia que seu coração estava sendo arrancado do peito, sua alma usurpada de seu corpo. Sentia-se vazia, perdida, sem rumo, sem lar. Ronald observava a mulher sentada a seu lado, tão pequena, tão frágil e totalmente perdida em seus pensamentos. Podia ver por sua expressão que o que a atormentava estava causando-lhe uma enorme agonia, os olhos marejados lutavam para que as lágrimas não caíssem. Como poderia ajudála, o que poderia fazer para que tanto a dor de Anne, quanto o desespero de seu irmão amenizassem?


Se ele soubesse que existiria a menor possibilidade de evitar o sofrimento deles, não mediria esforços para que isso acontecesse, para que ambos fossem felizes e não mais sofressem. Já estava anoitecendo quando Anne e Ronald chegaram ao chalé, tudo estava escuro, não havia se lembrado de deixar nenhuma lâmpada acesa, a chuva caía forte, atrapalhando a visão ainda mais. – Você não pode ficar aqui sozinha com toda essa chuva. Nem sabemos se terá eletricidade. Sei que há um gerador, mas também não posso afirmar que esteja em funcionamento. Anne, por favor, vamos comigo para a fazenda. James vai me matar caso aconteça alguma coisa com você. Anne não teve como contra-argumentar com Ronald e aceitou seguir com ele. A visão da casa era totalmente contrária ao que viu a pouco no chalé, as luzes estavam acesas transmitindo uma sensação de calor, acolhimento, família. De longe pôde avistar um vulto parado na janela contemplando a chuva, ela conhecia muito bem aquele porte altivo. Ele visto assim de longe, através da cortina, parecia um ser etéreo, exalando toda sua força. – Ele é lindo. – Quem é lindo, Anne? – Ronald perguntou, mas ao seguir o olhar apaixonado dela soube de quem se tratava. Como era bom ver que o amor que seu irmão parecia sentir por essa baixinha estava sendo retribuído. Agora só restava a ele descobrir uma forma de liberá-lo desta prisão auto-imposta. Algo deveria ser feito. Desceram do carro e correram para entrar na casa. James, parado na porta, puxou-a para seus braços e afundou o rosto em seus cabelos molhados. Era tão bom quando a abraçava assim, podia sentir cada centímentro de seu corpo entregue a ele. Perdidos nos braços um do outro, não perceberam a plateia que se formara a volta deles. Até que um pigarrear trouxe-os de volta à realidade. – Parece que estão todos bem, certo Ronald? – perguntou Henry, olhando para seu filho mais novo com um olhar conspirador. – Sim pai, está tudo bem. Achei melhor não deixar Anne sozinha no chalé com esse temporal. Melhor tê-la por perto. Assim poderemos cuidar de nossa pequena. – dizendo isso bagunçou os cabelos molhados de Anne, que o olhou com uma expressão de poucos amigos. – Ei! Não sou nenhuma criança, sei muito bem me cuidar sozinha. – Claro que sabe, meu bem, mas valorizo muito minha cabeça e quero que ela continue bem aqui. – disse tocando sua cabeça. – E se eu te deixasse sozinha no chalé, um certo irmão mais velho que tenho a arracaria do meu pescoço. Sendo assim, prefiro ter você sob meus olhos. Sorrindo com a fácil camaradagem que se estabeleceu entre seu irmão e Anne, James a conduziu para as escadas que levavam ao seu quarto. Estava na hora dele mesmo cuidar do que era seu.


– Obrigado, irmão, mas agora eu cuido da minha mulher. – abaixou a cabeça e tomou a boca de Anne em um beijo lento e apaixonado. – Vamos, você precisa de um banho, caso contrário, ficará doente. No quarto, James deixou Anne tirando as roupas molhadas e foi encher a banheira. Nunca imaginou que um dia faria isso, prepararia o banho para uma mulher. Sua mulher, era isso que Anne seria. Sua mulher. – Já está tudo preparado, venha, vou me juntar a você, quero me certificar de que não ficará nenhuma parte de seu corpo sem lavar. E preciso fazer isso bem de perto. – disse abraçando-a por trás e correndo a boca por sua nuca. Anne estava totalmente perdida nas sensações que as carícias de James despertavam nela. Um fogo começava a crescer por entre suas pernas, que estava tornando quase impossível se manter de pé. Ficar ali parada sob o ataque daqueles lábios e dedos maravilhosos estava deixando-a fraca e totalmente entregue a ele. – Diga-me como foi seu dia na cidade. – James sussurou em seu ouvido. Enquanto falava, mordiscava o lóbulo de sua orelha e suas mãos passeavam pelo seu corpo. Podia sentir os pequenos seios se avolumarem sob suas mãos, os gemidos baixos que ela soltava davam indícios de que ele estava no cominho certo. Com um sorriso sedutor, voltou a pedir. – Diga, pequena. – mal terminou de ouvir as palavras, Anne sentiu seus dedos sondando seu calor, testando sua entrada. Uma mão massageava seu seio, enquanto a outra sondava sua parte mais sensível. Como ele queria que respondesse se ela mal conseguiria dizer o próprio nome, muito menos contar como foi seu dia? Ela queria James dentro dela, forte e fundo. Podia sentir o calor queimando ainda mais seu corpo, já não era dona de seus desejos, seu corpo já não correspondia a seus domínios, estava toda entregue ao prazer que James despertava nela. Um vulcão que estava prestes a explodir. Um mar em pleno temporal. – James, por favor. – Por favor, o quê, pequena? – Pegue-me, possua-me, faça-me tua. Torne-me completa. James mal esperou que Anne terminasse de dizer as palavras e já estava com ela presa contra a parede. Anne, por sua vez, já se via com a pernas entrelaçadas em sua cintura, lutavam contra o cinto que prendia sua calça enquanto suas bocas dançavam um baile selvagem e sensual. Desta vez seria rápido, selvagem. Duro e forte. O romance viria depois, mas agora ele precisava preenchê-la com todo desejo que estava explodindo de seus poros. – Depois, eu prometo. – dizendo isso, arremeteu dentro dela, a força de sua penetração foi tamanha que Anne gritou. Embalada pela selvageria daquele momento, Anne enfiou os dedos nos


cabelos de James, pressionando sua testa contra a dele, podia sentir seu hálito forte e pesado, o calor que emanava deles, o cheiro forte de suor. A dança selvagem continuou por mais algum tempo, moviam-se juntos como se um conhecesse o desejo do outro, como se um fosse a continuação do outro. Um pensava e o outro agia. Quando já estava à beira do abismo e Anne já não suportava mais, ele a mordeu, fazendo-a perder todo e qualquer resto de sanidade. Mergulhou então no abismo. – Bem, acho que precisamos nos sentar. – James disse cambaleando em direção à cama com Anne ainda presa a ele. – Penso que não conseguirei caminhar até o banheiro. – disse Anne, despreendendo-se dele e caindo na cama. – Ai! O que é isso? – ao entrar no quarto Anne não havia percebido a caixa que estava sobre a cama, colocou-a entre ela e James. Comtemplando-a com um sorriso no lábios, tocou seu rosto. – Isso, pequena, é um presente para você. – puxando-a para perto dele, abriu a caixa. Os olhos de Anne brilharam com o que viam. – Uau, James, isso com certeza é a oitava maravilha do mundo. – soltando uma gargalhada, beijou-o de forma arrebatadora. – Sabonetes, óleos, sais, hidratantes – abriu o pequeno vidro de hidratante e sentiu seu aroma –, é a fragância que uso, como soube? – sorrindo e ainda abraçando-a, respondeu. – Pequena, sei tudo sobre você, nunca se esqueça disso. – Beijando-a, levantou da cama. – Vou preparar outra água, aquela já deve estar fria. – abaixando a cabeça em sua direção, beijou-a. – Da próxima vez, eu prometo, será lento e bem romântico. – disse olhando em seus olhos. A noite seguia chuvosa e fria, o vento batia nas janelas fazendo-as tremerem diante de sua fúria. Anne nunca teve medo de tempestades, mas esta parecia o presságio de algo ruim. Levantou-se e ficou a observar o homem que dormia ao seu lado. Desde o dia em que fizeram amor na beira do rio não mais dormiram separados, e Anne podia ver a mudança que isso havia causado em James. Era outro homem, era agora seu homem. Caminhou até a janela e ficou a contemplar o rio, as águas estavam revoltas, bravias. O vento soprava forte, derrubando galhos de árvores. O gado estava todo preso no curral, mas podia-se ouvir o mugido triste deles. Revendo suas anotações depois que voltou da cidade, percebeu que todas as informações que precisava estavam ali, não tinha mais nenhum motivo acadêmico para permanecer neste lugar, o único motivo que tinha era James, mas este se recusava a falar com ela, recusava-se a se abrir e deixá-la fazer parte de sua vida. E ela merecia mais do que sexo selvagem contra a parede, não que tivesse sido ruim, longe disso, mas merecia sua confiança, seu amor. Enquanto ele se mantivesse preso a esse medo inexplicável, nada do que ela dissesse valeria a pena. Nada faria com que ele se abrisse com ela. Sem nada mais o que esperar, sem nehuma esperança para eles. Estava resolvido, ela iria embora quando o dia chegasse.


James acordou e não sentiu o corpo quente de Anne pressionado contra o seu, uma sensação de vazio e solidão o invadiu. Virando-se para a janela, viu-a parada ali com o vento batendo em sua camisola, prendendo-a em seu corpo, contornando as curvas macias que ele tanto amava. – Ei pequena, venha se deitar, o vento está forte e a chuva muito fria. – levantando da cama, caminhou até ela enlaçando-a por trás, recostando-a contra seu peito. – É tão lindo, sinto como se falasse comigo, como se existisse um segredo que ele quisesse me contar, ou até mesmo contasse, mas eu em minha ignorância não consigo ouvir. – Deixe o rio quieto, ele está agitado por conta da chuva, mas logo que o dia amanhecer voltará a ser apenas nosso rio. Venha pra cama, deixe-me fazê-la dormir. – Anne virou-se para ele, e olhando em seus olhos e colocando todas as suas esperanças, fez a pergunta que há muito pairava entre eles. – Amor, quem é a mulher que está sempre com Ethan? – Anne pôde ver a mudança acontecendo, e com ela toda sua esperança se perdendo, escoando como a enxurrada que corria lá fora. – Tudo bem, não precisa dizer. Vou me deitar. – Deixando-o parado diante da janela, Anne voltou para a cama.


CAPÍTULO X

Sempre é preciso coragem para dar um grande passo, aquele que mudará para sempre sua vida. Uma característica que nunca teve foi ser medrosa, covarde, tentara de tudo para que James confiasse nela. Abriu seu coração, deu-lhe todo seu amor, tentou contar sobre seus sonhos, mas ele sempre se fechava, retraía-se. Não havia mais nada a fazer, agora é seguir, caminhar para frente, voltar à sua vida. Prometeu a si mesma que voltaria a encontrar a felicidade na simplicidade das coisas... Nada de solidão, nada de arrependimentos. Ela tentara, lutara, mas não deu certo. Agora estava partindo, voltando para sua vida, para seus livros. Mas nada nunca mais seria o mesmo. Ronald olhava para Anne sentada ao seu lado, as lágrimas não pararam de cair desde o momento em que deixaram a fazenda. Nenhuma palavra fora pronunciada, a dor dela era tão palpável que podia senti-la. – James irá me matar quando souber o que fiz. Você não tem nem um pouquinho de pena do que ele fará comigo? – ela olhou para ele, as lágrimas caíam em um choro silencioso e sofrido. Sorrindo, um sorriso triste, olhou para ele. – Você é maior e corre mais rápido, ou se isso não resolver, chame Rosalyn, ela defenderá você. – a tristeza em suas palavras feria seu coração. – Não sei se ela me defenderia, tanto ela quanto papai ficaram muito tristes com sua decisão repentina de ir embora. Será que você não está sendo precipitada? Você nem deu uma chance para ele se explicar. Nem disse que estava pensando em partir. – Ronald, eu não posso fazer isso, seria chantagem do tipo, ou você me conta ou vou embora. Não, de forma alguma farei isso. Amo seu irmão mesmo ele sendo cabeça dura, mesmo lutando contra o que há entre nós. Eu não posso forçá-lo a fazer algo que não quer. Nunca faria isso; mesmo que com isso eu estraçalhe meu coração, prefiro ir embora. – Tudo bem, baixinha, só espero que você fique bem. Prometa que vai me ligar se precisar de alguma coisa, se qualquer coisa não for bem entrará em contato comigo. – tocando-a de forma que a fizesse olhar para ele, voltou a perguntar. – Promete? Me dá sua palavra. – os olhos de Anne se encheram mais uma vez de lágrimas, pelo jeito nunca mais iria parar de chorar. – Tudo bem, eu prometo. Anne não sabia ao certo se o voo foi tranquilo ou se ela é quem estava em um estado de


sonambolismo e tudo parecia passar rápido e sem sentido. Chegou em casa, jogou as malas no quarto e caiu na cama. Que lugar era esse? Um lugar estranho que não parecia fazer parte dela ou ela não fazia mais parte dali. Reunindo todas as suas forças, caminhou até a cozinha, abriu a geladeira, lógico, para se deparar com nada além de prateleiras vazias. Porque todo mundo tinha essa mania; sempre que estava procurando algo que não sabia ao certo o que era, abria a geladeira. Fechando-a, caminhou até o telefone, precisava avisar Mirna que já estava de volta. Pelo menos teria alguém com quem conversar. Horas mais tarde, sua campainha soava escandalosamente. Ao abrir a porta deparou-se com uma sorridente e linda senhora que segurava uma imensa caixa de pizza e o que parecia ser sorvete. Um sorriso surgiu no rosto choroso de Anne. – Mamãe! E trouxe sorvete? – puxando-a para dentro e a abraçando, Anne deixou todas as lágrimas retidas, toda a dor que ainda sentia sair, não havia nada melhor do que o abraço carinhoso de sua mãe. – Você é a melhor mãe que alguém pode ter. – mal acabou de pronunciar as palavras, já estava chorando. Madelayne a amparou até que sentiu que ela estava melhor. – Tudo bem, meu amorzinho, tudo bem. Agora me conte o que está acontecendo. Mas antes preciso colocar essas coisas em algum lugar. – sorrindo, Anne a liberou. Horas mais tarde a caixa da pizza já estava vazia, o pote de sorvete pelo meio, e mãe e filha estavam sentadas no chão da sala. – Deixe-me ver se entendi; o tal Henry é o magnata colecionador de obras de arte e esse mesmo senhor tem dois filhos, ou melhor, dois deuses gregos como filhos e você está perdidamente apaixonada por um deles. Ah! Sem falar que este mesmo filho tem o mesmo sonho maluco que você. E que minha filha acabou descobrindo que tem alguma ligação com essa família maluca? É isso, compreendi certo? – Anne que estava deitada no chão sobre o carpete puído da sala ficou a observar sua cética mãe e amiga. – Sim, isso mesmo. Lembra-se que comecei a pesquisar sobre a guerra da secessão depois que descobri que o soldado dos meus sonhos era Ethan Brown? – Filha, você começou a sonhar com ele porque se tornou obcecada por essa guerra. – essa era uma antiga discussão entre elas. Madelayne era muito presa às coisas terrenas, nunca entenderia e nem aceitaria que algo sobrenatural pudesse de alguma forma interferir em nossas vidas. Ah, mamãe, se você soubesse! Mas como não queria entrar em atrito mais uma vez com ela, seguiu com o assunto. – Tudo bem, mas o que quero dizer é que eu estou apaixonada por James e tenho certeza de que ele está por mim, mas existem vários fatores que o impedem de se integrar à essa relação. Eu não podia mais ficar ali vivendo com ele essa paixão, sendo que não poderia esperar nada mais do que apenas pequenos momentos. Então, peguei o avião e voltei para casa. – casa, nem sequer conseguia


identificar este lugar como seu lar. Seu coração, sua alma, foram aprisionados pelo Potomac. – Certo. E ele mesmo estando apaixonado por você, deixou-a vir embora. – um sorriso gatuno surgiu nos lábios de Anne. – Ah, conheço esse sorriso. O que a senhorita andou aprontando por lá que teve que voltar? – Não aprontei nada, apenas não contei a ele que estava vindo pra casa. Ele saiu de manhã como sempre fazia para cuidar de seus afazeres e convenci Ronald a me levar ao aeroporto, e cá estou. – E ele não veio atrás de você? Nem ligou para saber como você chegou? – Anne já tinha pensando nisso, ele sequer ligou para saber como ela havia chegado. Bem, talvez seja melhor assim, com a distância ficaria bem mais fácil esquecê-lo. – Não. Não se manifestou. Deve estar com muita raiva por eu ter vindo sem me despedir, pelo menos deixei um bilhete. – Certo. E agora, o que pretende fazer? Vai retomar suas aulas? Penso que deve ter alguns alunos que ainda não escolheram seus orientadores, veja isso amanhã. – Sua mãe a fitava, observando o olhar cansado de sua mãe. – Bem, não sei ao certo. Acho que vou colocar em prática meu projeto sobre o livro, começar a esboçar as primeiras linhas e ver no que dá. Mas espere, você disse que talvez pudesse ver algo para mim. Como? O que uma designer de interiores está fazendo no departamento de história do Instituto? – soltando um sorriso, Madelayne respondeu. – Estava aqui pensando quando você ia se dar conta disso. Bem, fui contratada na última semana para redecorar todo o Instituto. Parece que receberam uma verba e como estou de férias em Nova York, entraram em contanto comigo, fizeram uma proposta, disseram que sou a pessoa certa para mudar a atmosfera do lugar, e então contrataram sua mamãezinha aqui. Sendo assim, tenho muito contato com os garotos que perambulam por lá. – Sei, imagino mesmo o tipo de contato que você deve ter com eles. Só tome cuidado para não se meter em confusão. Mas, diga-me por favor, quando voltou da Austrália? E o Jack, como está? – Ei, mente pecaminosa, não é nada disso. Só tenho contato com eles por que fico por ali o tempo todo e eles também, e não só com os meninos, com as meninas também, sua filha pervertida. E quanto ao Jack, ele está bem, mudou-se de Sidney no mês passado. Sendo assim, estou mais uma vez solteira. Quem sabe consiga um namorado nessas férias? – ambas caíram na gargalhada porque sabiam muito bem que das duas, Anne estava longe de ser a pervertida. – Puxa, olha as horas, já passa da meia noite, preciso ir. Amanhã tenho que estar de manhã no Instituto. Você vai passar por lá? – Não sei, quem sabe passe na biblioteca pra falar com a senhora Holts. Quero saber qual a


ligação dela com Henry. – beijando a mãe que já se dirigia para a porta, Anne a acompanhou. – se aparecer por lá, passo para te ver. E se cuide, não vá se engraçar com nenhum dos meninos, por favor. – A risada de Madelayne trouxe de volta um pouco de alegria para o coração de Anne. Abraçando-a, não conseguiu soltá-la e as lágrimas voltaram a correr pelo seu rosto. – Não vá, mamãe, fique aqui esta noite, por favor. Preciso do seu colo. – abraçando a filha, Madelayne deixou uma lágrima rolar. Era muito difícil ver que seu bebê havia crescido e estava sofrendo por amor.

A chuva estava fria, a roupa pesava, suas forças estavam sendo drenadas, precisava correr, precisava encontrar abrigo, eles estavam muito perto de encontrá-lo e isso não podia acontecer. Ele precisava se esconder, proteger-se. Quando suas forças não mais resistiram, ele caiu. Não existia mais esperança, morreria ali em terras inimigas. Cairia em mãos inimigas, sua família, sua mãe, seu pai, nunca saberiam o que aconteceu a ele. Porque seu fim teria que ser assim? Ele que lutou tanto, deu a eles bem mais que sua juventude, deu seu sangue, sua lealdade. E agora, no fim, dava sua vida. Um barulho chamou sua atenção. Sua visão estava embaçada, já não conseguia distinguir o que era real e o que era alucinação. Um anjo já estava indo de encontro a morte, pois ali ajoelhado ao seu lado estava um anjo. – Qual o seu nome? A voz do anjo era melodiosa, calma e tranquila, trazia paz para sua alma tão inquieta. Reunindo todas as forças que lhe restavam, respondeu. – Ethan! Ethan Brown. Seu mundo foi envolvido pela escuridão. Anne foi tirada do sonho pelas pancadas violentas que vinham de sua porta. Ainda envolvida pela névoa do sonho, seu coração palpitava, havia tanto tempo que não os tinha que havia se esquecido de como eram destrutíveis. Cambaleando caminhou até a porta e colidiu com sua mãe que estava parada próxima ao sofá. – Quem será a essa hora? Olhando pelo olho mágico, não consegui ver nada. – Não faço a menor ideia. Mamãe se afaste, deixe que eu abro. – olhou também pelo olho mágico e não viu nada. Droga, isso nunca funcionava, sempre que precisava dele não conseguia ver. Abrindo a porta sem tirar a corrente, levou um choque com o que viu do outro lado. Um James muito bravo, e um Ronald muito sorridente. – Ei baixinha, podemos entrar? – Dando um passo para trás, Anne abriu a porta deixando que


os dois homens entrassem. Ainda envolvida pela surpresa causada por suas visitas repentinas, esqueceu completamente de sua mãe. Quando se voltou para ela, o que viu a deixou apavorada. Parada como uma estátua com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto, Madelayne olhava fixamente para James. Era como se um fantasma estivesse parado à sua frente. – Mamãe! O que está havendo? – caminhando até ela, abraçou-a e pode perceber que estava trêmula e gelada. – Mamãe, o que houve? Está se sentindo bem? – com os olhos fixos em James, perguntou. – Quem é você? Qual o seu nome? – James Starre. Um suspiro sofrido saiu dos lábios trêmulos de Madelayne, abraçou forte sua filha e sussurrou em seu ouvido. – Ah, minha pequena, eu entendo você. Também conheci um Starre. – Anne olhou confusa sem saber o que sua mãe estava dizendo. Madelayne podia ver as perguntas sendo formuladas na cabeça de gênio de sua filha. – Agora não, bebê, esta é uma longa história. Fica para outro dia. Receba suas visitas. Vou voltar para o hotel, pegarei um táxi e não se preocupe comigo, estarei bem. – virando-se para os rapazes que as observavam sem entender muita coisa, ela disse: – Minha filha não nos apresentou, sou Madelayne, a mãe muito orgulhosa dessa mulher linda. – sorrindo, passou as mãos pelos cabelos de Anne. – James, desculpe por meu comportamento, mas olhar para você fez com que lembranças do passado voltassem. Você se parece muito com um conhecido de longa data. Espero que você possa me perdoar. – estendeu a mão para ele. James, que não havia entendido nada, pegou a mão estendida e beijou. – Senhora, é um prazer conhecê-la. Espero que possamos conversar com mais tempo em outro momento. – Claro, meu querido – Olhando para Ron, estendeu a mão –, e você quem é? – pegando a mão estendida e imitando seu irmão, beijou-a. – Sou o irmão mais bonito, Ronald Starre, a seu dispor. – completou piscando para ela. Madelayne soltou uma gargalhada. – Anne, esse menino é um perigo. – caminhando para o quarto, despediu-se. – Vou me trocar e estarei indo para o hotel, por favor, fiquem à vontade e espero que tudo se acerte entre vocês. – disse olhando para Anne e James. – Mamãe. – balançando a cabeça, Madelayne olhou para a filha. – Agora não, meu amor. O momento certo chegará. Agora você tem outro assunto para resolver. Boa noite, meninos. – disse fechando a porta do quarto.


Sua cozinha parecia ainda menor com esses dois gigantes amontoados nela. Anne passava um café, enquanto James sentado em sua mesa remexia nas folhas de uma margarida artificial que usava como enfeite. Ronald, por outro lado, parecia o dono da casa, abriu sua geladeira e ficou horrorizado ao não encontrar nada. – Você pretende viver de pizza pelo resto da vida? Veja isso, Jae, ela sequer fez compras. Como você pretende sobreviver assim? Olha, vou ser obrigado a ligar para Rosalyn e contar tudo isso a ela, quem sabe consiga colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça. – quando Anne virou-se para responder, James a interrompeu. – Ela não precisa comprar nada, ela não vai ficar aqui. Irá para casa conosco. – disse lançando um olhar desafiador para Anne. – Vou, é? Quem disse isso? Eu já estou em casa, caso não tenha percebido, e estava dormindo muito bem até vocês dois brutamontes aparecerem por aqui. – James a paralisou com seu olhar. – Dormindo muito bem? Isso é verdade? Você estava tendo um sono tranquilo? – James podia ver nas olheiras dela que não havia dormido nada bem e que estava cansada. – Estamos separados há duas noites, eu não consegui pregar os olhos, pois sempre que o faço ele vem, está ali, e isso é uma tortura. Diga-me Anne, com você está sendo diferente? – cansada pela noite mal dormida, Anne desistiu de enfrentá-lo. – Não James, não tem sido diferente. Eu me deito e nem sei quem chega primeiro, se o sono ou ele. Você precisa nos ajudar Jae, só você pode. Já falei com seu pai, com seu irmão, até Rosalyn, mas o assunto é seu para ser contado e eu sei que faço parte disso tudo. Então, por favor, liberte-me deste inferno. Ajude-me a ter uma vida tranquila como a que tive quando estávamos juntos. – lágrimas de desespero caíam pela face de Anne. James se levantou de onde estava e abraçou-a. – Eu vim aqui para isso, para buscá-la, vou te contar tudo o que precisa saber, mas tenho que fazer isso lá, em nossa cabana, perto do nosso rio. A noite já ia alta quando chegaram na fazenda. Ronald seguiu para a casa principal enquanto Anne e James ficaram na cabana. Sentada na cama, observava o Potomac. Sentia-se cansada, muito cansada, mas precisavam conversar, nem ao menos sabia porque voltara, muito menos porque não exigiu que ele dissesse tudo ali mesmo na sua casa. Ronald a olhara durante toda a viagem como se fizesse algum pedido em silêncio, como se implorasse a ela para que desse uma chance ao seu irmão, e suas palavras ao se despedirem não saíam de sua cabeça, martelavam, martelavam e martelavam. Podia ouvir tão nitidamente que era como se ele estivesse aqui do seu lado. – Baixinha, às vezes precisamos enfrentar medos que nem sonhamos ter para que possamos ser


felizes. Eu quero que vocês sejam felizes, preciso disso, você me entende? Eu preciso disso. O que mais a assustou foi a veemência desta última frase. Eu preciso disso, por que ele precisava que ela e James se acertassem? Isso com certeza a deixou intrigada. Ainda contemplava o rio quando sentiu James sentando próximo a ela, seus braços a enlaçaram puxando-a contra seu peito. Era tão bom ficar ali, sentia-se protegida, sentia-se em casa. – Nossa família é cheia de segredos. Segredos que caminham conosco há duas gerações. Eu tomei conhecimento deste quando ainda era um garoto e tive o primeiro sonho, ou sei lá, a primeria visita. – a voz de James ressoou pelo quarto silencioso. – Para que você entenda, tenho que te contar desde o princípio. Ethan era um soldado da União. Como você bem sabe, foi condecorado várias vezes, subiu de posto, estava próximo a se tornar capitão da enfantaria. Sabemos disso hoje devido aos depoimentos de outros oficiais que trabalharam com ele naquela época. Quando o regimento dele caminhou por essa região eles acabaram fazendo um cerco, pressionando os Confederados de um lado da ponte. Nossa ponte foi de suma importância para a vitória da União, pois era por ela que passavam todos os suprimentos que mantinham os confederados. Uma vez que esta foi tomada, tornou-se impossível o acesso destes suprimentos. James soltou um ar cansado, podia-se ver as olheiras que se formaram devido às noites mal dormidas e ao cansaço da viagem. – Em uma destas batalhas, o regimento de Ethan invadiu um dos regimentos Confederados, ou seja, cruzaram a ponte para o lado inimigo. Alguns dizem que o fizeram pelo rio, outros que acharam uma brecha na armada, mas ao certo nada sabemos, apenas rumores. Nesta invasão alguns foram feridos, outros mortos, e até presos, mas Ethan simplesmente desapareceu. A princípio pensaram que foi capturado, mas quando ninguém do campo inimigo pediu recompensa por ele ou manifestou que estivessem com um soldado de tal gabarito, presumiu-se que estivesse morto. Procuraram por vários dias e não o encontraram. – Anne podia ver o quanto estava sendo desgastante para James reviver aquela história, mas ela precisava saber. – O que ninguém imaginou era que Ethan, ferido como estava, fosse encontrar forças para se embrenhar na mata a procura de um abrigo. Dizem que ele andou várias noites, escondia-se durante os dias e voltava a caminhar durante as noites. Em uma dessas noites, percebeu que a guerra se aproximava ainda mais de seu esconderijo. Não teria muito tempo, logo eles o encontrariam. Então voltou a correr pela mata, sem rumo, sem esperanças. Seu único objetivo era se manter vivo. O que ele não imaginava era que naquela noite, a qual ele julgava ser a última de sua vida, ele encontraria um anjo que salvaria sua vida. Eles viveram nesta cabana; aqui mesmo neste lugar, Anne, durante muitos anos. Ele pode ver seu filho nascer, mas não pode vê-lo crescer. A guerra já estava no fim, a vitória da união era certa, a destruição da região era imensa, ele lutava para manter sua família distante deste massacre. Construiu a casa da fazenda, mas não viveu lá. Nunca quis abondonar este


lugar, dizia que ali seria onde seu filho contruiria sua família, criaria suas raízes e seria feliz, sem nenhuma guerra o perseguindo. Dizem que em uma manhã saiu para caçar, como costumava fazer, e não voltou. Sua esposa, aflita, deixou o bebê dormindo e caminhou pela margem do rio, procurandoo. Até que o encontrou. Ele ainda estava vivo, mas desta vez ela não seria capaz de curar suas feridas. Contam que estava apenas à sua espera, pois não queria deixá-la sem se despedir. Anne olhava para ele tentando entender onde ela entrava nesta história toda. Claro estava conhecendo outro lado da vida de Ethan, mas ainda continuava perdida quanto a seu papel nisso tudo. – O amor que nasceu entre eles, que os ligava, era algo que nem a morte podia separar. Ethan a fez prometer que seria feliz, que viveria sua vida como se ele ainda estivesse com ela, e que daria a seu filho a melhor vida que pudesse. Contou sobre os recursos que escondera no porão da casa grande, pediu que se mudasse, pois assim seria mais fácil se proteger e proteger seu filho. Ela via a vida de seu amado se esvaindo, foi tomada por um desespero tamanho. Não queria vê-lo ir, não queria se ver sozinha, vivera sozinha durante muito tempo, não queria voltar a viver assim. Então ele fez; deixou com ela o elo que os ligaria enquanto ela tivesse vida, e enquanto algum de seus descendentes tivesse vida. Prometeu que jamais a abandonaria, que sempre estaria com ela. Unindo o sangue dos dois no final de sua vida, uniu não só a vida, mas a alma e todo o amor que eles construíram juntos. Olhando para ela, James sorriu. – Parece coisa idiota de filme trash de quinta categoria, não é? Eu também pensei isso até completar dez anos, quando ele veio até mim. O pedido que ele fez à esposa não foi atendido. Ele a fez prometer que seu descendente seria feliz, construiria sua família e com ela viveria o amor que eles viveram. Mas não deu certo, pois seu descendente encontrou a felicidade, mas não viveu o amor, não viveu o amor em família como ele desejava viver. A mulher escolhida pelo rapaz era fraca, não suportou o peso de fazer parte desta família e se matou. Jogou-se nas águas profundas do Potomac. Nosso rio a levou, ela se foi deixando para trás dois filhos e um marido destruídos. Quando completei dez anos, sonhei com ele a primeira vez, e então me contou que para que nossa família fosse feliz ele iria intervir, pois nós não seríamos capazes de conseguir isso sozinhos. E eu sendo o mais velho, a vida de alguém que eu amava muito estava em jogo, estava em minhas mãos. Que eu deveria fazer minha parte e quando chegasse o momento, quando a mulher escolhida chegasse, eu saberia. Então você chegou e mais uma vez o sangue escorreu por essas terras, misturou-se à ela. E desta vez foi o seu sangue Anne, o sangue que selou sua vida, seu destino que nos uniu para sempre. Ele a trouxe para mim, ele a perturbou durante anos até que meu pai soubesse de você. Anne estava acompanhando toda a história, conseguindo fazer toda a relação entre sua vida e a de James, os sonhos, sua fixação pela guerra, mas ainda havia algo que ainda não estava claro. Quem


era ele? Quem era Ethan, que papel ele ocupava na vida desta família? – James, quem é ele? O que ele é para sua família? Por que este vínculo? – virando-se para o rio, James respondeu. – Ele é meu antepassado, pequena, fundador da minha família. E a mulher que se matou, que detonou toda essa confusão sobre nós, era Isabele, minha mãe. Levantando de onde estava, Anne o abraçou, sentia que ele precisava de seu calor, nenhuma palavra o reconfortaria neste momento, apenas seu corpo e seu toque teriam esse poder. Abraçando-a de volta, James a apertou fortemente contra ele. Ele estava ali, sentindo-a contra ele. Ali em seus braços sabia que segurava seu mundo, tudo que era importante pra ele. Dane-se se não foi o destino que a trouxe, dane-se se a fraqueza de sua mãe condenou-os a uma vida sem escolhas. Ele ainda tinha uma escolha sim, e escolhia Anne, escolhia ficar com ela, construir sua família com ela. Ali, às margens do rio onde tudo começou. – Pequena, você vai ficar, vai ficar aqui comigo. Eu sei que isso tudo aconteceu muito rápido, mas... – os lábios de Anne cobriram os dele, impedindo-o de continuar a falar. – Sou sua, James, não há nenhum outro lugar que eu queira estar. Não há nenhum outro a quem possa amar. Definitivamente. Sou sua e aqui quero estar. Sentando-a em seu colo, James a abraçou fortemente. Se todo o desejo de seu tataravô era que fosse feliz com a mulher que amava, isso não seria nada dificil. Pois viveria cada dia como se fosse o último e mostraria a ela o quanto foram afortunados em se encontrarem. James acordou com a conhecida sensação de que não estava mais sozinho, olhou a mulher que dormia tranquilamente ao seu lado, era muito afortunado por tê-la encontrado. Pegando a calça que estava dobrada em cima da mesinha de cabeceira, saiu para encontrar aquele que o esperava. Parado à margem do rio estava ele, seu tataravô. – Vovô. – com um sorriso que iluminava os olhos, Ethan tocou o rosto de seu tataraneto. – Esta foi a primeria vez que me chamaste de avô, Jae. Sabe há quanto tempo espero por isso? – Desculpe, mas não tinha motivos para achar que deveria chamá-lo assim. Só hoje, depois de ter Anne em meus braços e saber que ela é realmente minha, meu coração encontrou paz. – Sim, eu sei. Por isso vim. Hoje é a última vez que nos veremos. Sempre estarei velando por você, meu filho, mas de agora em diante você seguirá sozinho, não tenha medo, tem uma mulher forte ao teu lado, nunca esmorecerá frente as dificuldades que hão de vir. Agora vá, meu filho, volte para ela. – Virando-se, James começou a caminhar de volta para a cabana quando a voz de seu tataravô o interrompeu. – Ela está acordando e tem algo a te dizer, uma vida está para chegar e ela depende de você. – com um sorriso brincalhão, Ethan começou a caminhar de volta à floresta. – Pode dar meu nome a ele, filho, isto me deixaria muito contente e orgulhoso.


Confuso com as últimas palavras de seu tataravô, James retornou para sua mulher, para a mulher que amava. – Ei, onde você estava? Está frio lá fora, você deve estar gelado. – Deitando-se junto a ela, ele a abraçou. – Estava me despedindo, agora seremos somente eu e você, sem nenhuma interferência. Somente nós. Enfim sós. – Soltando-se do abraço de James, Anne se levantou e caminhou para a janela. – E se não estivermos a sós, e se nunca ficarmos a sós? Como você se sentiria? – Anne se abraçou e ficou fitando o Potomac enquanto esperava pela resposta de seu amado. James a agarrou, e firmando o queixo sobre sua cabeça, seguiu seu olhar. – Anne, por que me diz isso? Acha que os sonhos nunca vão parar? – Não Jae, não se trata disso, acredito que os sonhos não voltarão. Mas trata-se de outra presença, algo mais real, bem barulhenta. – Sinceramente, pequena, não estou conseguindo acompanhar o que está me dizendo. – virandose para ele, Anne desceu sua mão até a barriga plana, onde há pouco ele passeara com tanto desejo e paixão. – Trata-se disso, James, trata-se que logo, logo teremos um pequeno ou uma pequena correndo por aqui, causando muita algazarra. Trata-se, Jae, de que provavelmente iremos levar um bom tempo para dizermos enfim sós. Uma vida depende de você. Pode dar meu nome a ele. Confusa, Anne contemplava a expressão atônita de James. – Eu sei que não estava nos planos, que nem sabíamos como ficaríamos, mas só tive certeza ainda outro dia. Estava esperando um bom momento para te contar... – Anne foi silenciada por um beijo lento e apaixonado, James abraçou-a com tanta ternura. – Quando ele me dizia “uma vida depende de você”, eu pensava em papai. Em sua saúde, no que isso tudo estava causando a ele. Enquanto na verdade ele estava se referindo a essa vida – desceu a mão pela barriga dela –, a vida de meu filho, nosso filho – soltando uma gargalhada, abraçou-a ainda mais forte –, e o canalha ainda me disse para dar o nome dele ao bebê. Amor, teremos um menino. O amor enchia o coração de Anne, agora tinha tudo o que sempre sonhou. Um homem que a amava, um bebê, um pai e um irmão. Seu pensamento sequer havia terminado quando sua atenção foi desviada por algo que se movia à margem do rio. – James, você a vê? – Sim, eu a vejo, ainda a vejo. – parada na margem, refletindo as águas calmas que corriam,


estava ela. Linda com seus cabelos avermelhados, o vestido pálido que parecia flutuar à sua volta e se arrastava no chão. Seu olhar era distante, porém tranquilo. Ela observava, esperava. – James, por quem ela espera? – Anne não precisou esperar pela resposta dele, outro movimento chamou sua atenção. Ronald caminhava para ela vestido apenas com a calça do pijama, sua expressão, ao menos o que conseguia ver, era de angústia, tristeza, dor. Ele esteva sofrendo. Quem era aquela que causava tamanha dor em alguém como Ronald? Virando-se para James, ele a interrompeu antes que ela dissesse uma só palavra. – Não. Não o faça. Esta é a história dele. É a vida dele. Não é minha para contar. – carregando-a pra cama e beijando-a com todo amor e carinho que conseguia demonstrar. – Estaremos aqui para ele quando precisar. Abraçando-o, Anne deixou-se envolver pelos braços de Morfeu. Sabia que qualquer adversidade que viesse eles enfrentariam juntos, pois não eram apenas uma unidade, agora eram uma tríade, uma equipe, uma família. FIM


Prรณximo Lanรงamento


Encontro das Águas

Ron acordou sobressaltado, o coração acelerado, o suor escorria por seu rosto. Aqueles olhos, até quando seria perseguido por eles? Quando encontraria aquela que causou-lhe tamanho sofrimento? Foi arrancado de seu devaneio pelo toque do telefone. Pegou a calça de pijama que estava jogada no encosto da poltrona e desceu correndo as escadas. – Pelo amor de Deus, quem será a uma hora dessas? – com a respiração acelerada atendeu. – Alô. – a voz do outro lado estava distante e entrecortada. – Por favor, gostaria de falar com senhor Ronald Starre. – Ron que ainda estava meio confuso devido ao sonho e ao sono mal dormido, demorou alguns segundos para perceber que a pessoa no telefone procurava por ele. – Eu sou Ronald Starre, em que posso ajudá-lo? – o silêncio que seguiu só foi interrompido pela estática do outro lado da linha. – Quem gostaria de falar comigo? – Não interessa quem sou, o que tenho a dizer é o que importa. – irritado com o mistério, Ron esbravejou. – Olha, já é madrugada e tive uma noite infernal. Ou você diz logo o que quer de mim ou desligarei. – Ron pode ouvir um suspiro do outro lado. – Eu a encontrei. – o coração de Ron que havia voltado às batidas normais e compassadas voltou a acelerar, suas pernas fraquejaram, a mão que segurava o telefone estava pegajosa de suor, seu corpo todo parecia ter acabado de levar um choque, parecia não, era exatamente isso, ele acabava de ser eletrocutado. Sem saber muito o que dizer, perguntou apenas o que lhe interessava. – Onde? – a voz do outro lado desapareceu novamente, deixando a estática em seu lugar. O desespero de Ron aumentava a cada segundo. – Onde? – Brasil. Assim que pronunciou a palavra, a ligação foi interrompida. Ron caminhou para a porta, precisava sair, respirar, sentir a brisa fresca no rosto. Havia muitas coisas em que pensar. Muito que se fazer. Pegou o casaco que estava pendurado atrás da porta e saiu. Mal havia dado dois passos pra fora da casa percebeu que não estava sozinho. Do outro lado da cerca que rodeava a casa estava ela, aquela que o seguiu durante toda sua vida, que possuía os olhos iguais aos que atormentavam seus sonhos. Caminhando em direção à corsa, sabia que seu momento havia chegado. Era hora de encarar seu destino. Juntos, homem e corsa, entraram na floresta.


A Autora:

Eva Zooks, sempre brincou com as palavras. Caminho das águas surgiu por sua paixão pela literatura e a capacidade de viajar em cada estória lida. Dentre todas, a história norte americana, sempre chamou sua atenção, e dela surgiu sua inspiração para Anne e James.


Zooks eva caminho das aguas