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Título original: Sing

Copyright © 2016 by Alloy Entertainment and Vivi Greene

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Greene, Vivi Sing : uma canção sobre o amor / Vivi Greene ; tradução Joana Faro. - 1. ed. - Rio de Janeiro : HarperCollins, 2016.

256 p. ; 23 cm.

Tradução de: Sing ISBN 978.85.9508.017-1

1. Romance americano. I. Faro, Joana. II. Título.

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3


Para os fĂŁs


1 92 dias para a turnê mundial Lily Ross Para Sempre 12 de junho

NA NOITE DA MINHA última decepção amorosa, estou diante de uma tigela de sopa. O restaurante, um lugar da moda em Nolita que Jed escolheu (eu teria ficado feliz em pedir para viagem) está cheio, e a garçonete nos instala em um canto aconchegante sob um pôster gigantesco da Audrey Hepburn sentada na garupa de uma lambreta na frente do Coliseu. Jed está estranhamente quieto, mas ele viaja de manhã rumo a três semanas de shows com ingressos esgotados, então culpo o estresse pelo seu jeito. Até ele pedir a sopa. Não sopa como entrada, não sopa-e-mais-alguma-coisa, nem sequer uma sopa substanciosa, como uma bouillabaisse ou uma bisque. Só uma tigela de minestrone do tamanho de uma caneca que, quando chega, não passa de suco de tomate enfeitado com algumas cenouras confusas. É do Jed Monroe que estamos falando. O mesmo Jed Monroe que come a pilha inteira de panquecas que eu preparo no café da manhã quando ele está na cidade. O mesmo Jed Monroe cuja lista de exigências para a turnê inclui “duas dúzias de donuts da Krispy Kreme (ou similar)” e que devora um pacote inteiro de cookies de hortelã da Milano na mesma hora. Na primeira vez em que fomos fotografados juntos, a legenda da foto dizia algo como “A Bela e o Bom Gigante Amigo”. Tudo no Jed é grande, sobretudo seu apetite, o que torna a sopa definitivamente alarmante. E é por isso que passo o resto da refeição tentando descobrir se ele não está comendo porque está ansioso ou porque quer acelerar o jantar. Ao sairmos, sinto sua energia tensa e nervosa quando ele segura a minha mão,


dando sorrisos audaciosos para os fãs entre flashes de iPhones do lado de fora do restaurante, e durante todo o percurso de carro implacavelmente silencioso até em casa. — Acho que a gente precisa conversar — diz ele quando paramos em uma vaga diante do meu prédio. Como se seguisse a deixa, a divisória do banco da frente começa a subir devagar. Antes de sumir atrás do vidro fumê, os olhos azuis do motorista parecem desapontados. — Conversar? — Tento disfarçar a mágoa na minha voz. Minha vontade é frisar que eu passei a noite inteira conversando. Foi ele quem ficou olhando emburrado para uma tigela de sopa. Mas não digo nada. Respiro fundo e sorrio. — Claro. Vamos conversar. Jed olha seu reflexo na janela, abrindo um sorrisinho de lado com os lábios perfeitamente desenhados. Eu me lembro da noite em que nos conhecemos, há um ano, em uma festa no loft do meu empresário, no Brooklyn. Terry jurou que não estava armando para nos juntar, mas até hoje não sei por que Jed estava lá. Nem eu queria estar. Sammy me arrastou em uma missão de piedade menos de uma semana depois de nos mudarmos de L.A. para Nova York, quando o Caleb e eu finalmente terminamos. Eu estava perto da bancada de sashimi, jurando para todo mundo que quisesse ouvir que nunca mais namoraria um famoso. Mas aí eu o vi. Jed estava sozinho na sacada, olhando as luzes da cidade como se elas piscassem em código e ele tentasse decifrá-lo. Suas costas largas estavam curvadas sobre o parapeito, escuras contra a ponte cintilante. Logo de cara algo nele pareceu diferente, como se estivesse acima da festa e de seu caos insignificante, da conversa fiada, das pressões da indústria para estar sempre atrás do Próximo Grande Projeto. Claro, ele aparecera na capa da Rolling Stone poucas semanas antes, mas algo nele parecia quase… normal. Eu sabia que não deveria me aproximar. Que deveria ficar ali dentro, onde era quente e seguro. Onde eu ficaria imune ao seu cabelo roçando na testa. Ao seu sorriso tímido e enviesado. Mas não fiquei. Fui lá para fora e me apaixonei. De novo. Grande erro. — Acho que não está mais dando certo — diz o Jed do presente. Ele também diz outras coisas que já ouvi antes, sobre “momento certo”, “prioridades”, “carreira”. Encaro seus olhos cor de âmbar. Sei que ele está ali em algum lugar, a única pessoa que achei que me entendia de verdade. Entendia essa vida, e o que faríamos para


enfrentá-la juntos. Jed é o primeiro homem que namorei. Caleb e Sebastian... eram meninos. Jed é mais velho que eles, mais velho que eu, porém é mais que isso. Estar com ele é muito fácil, porque não existem joguinhos. Ele sabe o que quer e sabe como conseguir. Simplesmente nunca achei que ele fosse parar de me querer. — É... é muita pressão — diz ele, com o olhar subitamente sério e focado. — Os meus fãs são loucos. Os seus fãs são completamente loucos. Uma sensação de aflição e vazio me percorre. — Meus fãs? Jed e eu sempre concordamos em apenas um ponto: os fãs vêm em primeiro lugar. É por causa deles que podemos fazer o que fazemos, e se isso torna mais difícil atividades como ir ao supermercado, passear calmamente pelo parque ou sair para um jantar tranquilo em um restaurante, é o preço a ser pago. Fica mais complicado ter um relacionamento, mas encontramos um equilíbrio entre sair e ficar em casa, ser acessíveis e ao mesmo tempo viver nossa vida. Nem sempre é fácil, mas funcionou. Pelo menos para mim. Jed esfrega as têmporas, um sinal característico de que está exausto. Tento me convencer de que é só cansaço, de que ele só precisa de uma boa-noite de sono. Mas conheço o Jed. Quando ele toma uma decisão, não tem volta. — Achei que eu fosse conseguir, mas não consigo — diz ele. Há um nó em minha garganta, e tenho vontade de gritar: Por que você está desistindo? Nós podemos ter tudo! Mas parte de mim, a parte que tento manter escondida, sabe que ele está certo. Afinal, nós escolhemos isto. Temos a oportunidade de fazer música, cantar nossas canções e passar nossa vida diante de milhões de pessoas. Não podemos ser normais. Eu sou só a idiota que continua tentando. Jed me encara por um instante, e vejo algo reluzir em seus olhos: arrependimento, talvez, ou decepção. Mas ele desvia o olhar rapidamente, enfiando a mão no bolso da calça jeans propositalmente surrada e colocando as chaves do meu apartamento na palma da minha mão. São três chaves: uma magnética grossa, da porta da frente; uma do elevador; e uma da escada privada que leva ao deque do telhado. Elas estão em um chaveiro com os dizeres I ♥ NY (um presente que a Tess me deu quando me mudei), e, quando penso em quantas vezes fiz isso, entreguei para alguém meu coração e as chaves da minha casa, do meu mundo, fico tonta. Muitas e muitas vezes; e não é suficiente. Eu não sou suficiente. As chaves voltam, quentes do bolso de outra pessoa, e eu as guardo na gaveta da mesinha de canto, junto com grampos perdidos, pilhas sem uso e outros objetos órfãos, até conseguir esquecer o quanto isso dói. Até a festa seguinte, quando


consigo me convencer de que vale a pena continuar tentando. Sair em direção a outra sacada, onde o próximo cara está esperando, e começar tudo de novo. Saio do carro do Jed em um silêncio triste, bato a porta e observo as luzes vermelhas dos freios dele se misturarem ao mar de táxis e limusines da Hudson Street. Eu me recosto no prédio, ainda com os olhos vidrados na rua. Por um instante, sinto que estou sonhando, como se na verdade eu ainda estivesse no carro ao lado dele. Estamos a caminho do seu apartamento. Jogamos pingue-pongue e repassamos sua lista de músicas para a turnê. Analisamos nossas agendas e vemos quando estaremos outra vez na mesma cidade, rindo do caos dessa vida, da dificuldade insana de coincidir noites de folga. Nós nos aninhamos na sua cama king-size, debatendo o reality show ruim a que vamos assistir enquanto — finalmente — adormecemos. Subo os degraus até a porta da frente, esperando as lágrimas se derramarem. Mas isso não acontece. É como se algo dentro de mim tivesse mudado, e eu só sinto torpor. Em geral, eu correria para o andar de cima, pronta para tocar violão e escrever no meu diário. As músicas mais barulhentas sairiam primeiro, em espasmos e ímpetos furiosos, depois viriam as baladas melancólicas e, finalmente, eu fecharia o círculo com hinos de empoderamento feminino. Em menos de uma semana, existiria o equivalente a um disco anotado em guardanapos e blocos, a crônica nua e crua do meu mais recente caso fracassado, começando pelo primeiro encontro, passando pelo término desastroso, até terminar com o estou-melhor-sem-você. E repete. Já até consigo ouvir Sammy e Tess insistindo que o problema não sou eu, é ele. Mas desta vez não tenho tanta certeza. Todos os meus relacionamentos — dos grandes romances que se estenderam por muitos anos e diferentes estados aos pequenos flertes mais curtos embora não menos intensos — tiveram duas coisas em comum: 1. Foram eles que terminaram, e 2. Eu. Tudo tem limite: depois de escrever tantas músicas sobre estar melhor sozinha, uma garota pode começar a acreditar que não tem escolha. Viro a chave extra na fechadura e abro a porta pesada. Ela se fecha com um clique atrás de mim, e atravesso o saguão, indo até o duto de lixo e jogando as chaves lá dentro. Elas batem nas laterais de metal e espero o som agradável de um baque final. Mas só ouço silêncio. Silêncio e o murmúrio entediado e constante da cidade que não se importa com quantas vezes você desmorona.


2 92 dias para a turnê 12 de junho

— ELE É UM bundão. Tess chega trazendo sanduíches de sorvete da Jeni’s e uma caixa de fósforos fina da bodega da esquina. Estamos no deque do telhado, olhando de cima os paralelepípedos do West Village iluminados pelos postes e o brilho escuro e espelhado do rio Hudson. — Ele é um bundão gigante e cabeludo — concorda a Sammy. Ela está jogada em uma das espreguiçadeiras, com o longo cabelo louroavermelhado espalhado para trás. Minha mãe escolheu a mobília do pátio em uma de suas visitas no outono passado, antes da minha mudança oficial. Nenhuma de nós duas tinha a menor ideia de que “pátio” significava coisas diferentes em Nova York e Los Angeles. Ou até mesmo em Wisconsin, nossa terra natal. É quase impossível passar sem tropeçar entre as mesas de vidro idênticas, as lanternas rústicas e as grandes samambaias em vasos. — Quer dizer, não que a bunda dele seja cabeluda — esclarece a Sammy. — Se bem que deve ser. Eu só quis dizer que o cabelo dele é cheio. — Entre os joelhos dela há uma caixa de sapatos cheia de cartões, fotos e outras lembranças do Jed. Ela folheia um pequeno álbum de fotos que imprimi para o Dia dos Namorados. — Cheio, não. Gigante. Sentada em um dos bancos estofados que contornam o deque, Tess chuta a Sammy. — O que foi? — reclama a Sammy, esfregando o tornozelo. — Não é segredo que o


cabelo dele é enorme. Pode existir uma colônia inteira de bichinhos se reproduzindo ali e a gente nunca saberia. Eu solto uma risada, mesmo sem vontade, e é por isso que a Sammy é minha melhor amiga desde o jardim de infância. Ela faz ou diz qualquer coisa para me fazer sorrir, mesmo que queime seu filme, algo que, com suas pernas absurdamente longas, sua pele de porcelana e seu cabelo de um brilho excepcional, é quase impossível. — Só não sei se já está na hora de falar mal dele — diz Tess em um tom monótono. Ela mexe no piercing em sua orelha, um minúsculo barbell de prata. — A gente ainda nem sabe o que aconteceu. — Eu já contei o que aconteceu — resmungo, puxando meu suéter de caxemira cinza preferido por cima dos joelhos. Foi a primeira coisa cara que comprei para mim depois de assinar com a gravadora em L.A. A Sammy me ajudou a escolhê-lo em uma loja em Santa Monica, e embora as mangas estejam esgarçadas, e a gola, puída, nunca me desfiz dele. — Eu me recuso a acreditar que você terminou com o Jed Monroe porque ele pediu sopa — diz Sam. — Mas, mesmo que seja o caso, tenho certeza de que ele mereceu. Quer dizer, olha isso. — Ela pega uma tira de fotos de cabine que tiramos em um encontro com os fãs há alguns meses. Eu fiz várias expressões malucas e o Jed estava com um biquinho, arranjando os traços fortes e bonitos em uma expressão estoica e idêntica em todas as fotos. — Ele morreria se sorrisse? Suspiro. — Eu não terminei com ele. Parem de tentar fazer com que eu me sinta melhor. A Tess e a Sammy trocam o que deveria ser um olhar furtivo de preocupação. — Desculpe. A Sam dá de ombros. Ela guarda as fotos de volta na caixa de sapatos e deixa os fósforos ali do lado. — Não se desculpe! — vocifera a Tess. Ela se levanta de repente, prendendo o cabelo castanho em um nó no topo da cabeça e expondo a nuca recém-raspada, o que a deixa com uma aparência meio punk, meio andrógina. A Tess é muito intensa quando se trata de términos. Não que ela tenha vivido muitos. Quando nos contou que era gay no verão seguinte ao ensino médio, fiquei aliviada, imaginando que ela finalmente começaria a se abrir sobre as garotas com quem saía. Mas isso não aconteceu. Até onde eu sei, nenhum de seus relacionamentos durou mais que alguns meses. A independência é a sua principal característica, mais ou menos como estar apaixonada é a minha. Balanço a cabeça com teimosia. — Chega disso.


— Então vamos sair! — declara a Sammy, levantando-se com um salto. Vamos sair é basicamente o mantra da Sammy. Se existisse um diploma para o ofício de esquecer os problemas na gandaia, ela teria um Ph.D. — Não — digo. — Estou falando disso. — Indico distraidamente a caixa de sapatos. — Chega de fazer isso comigo mesma. Tomar um pé na bunda e fingir que estou melhor assim. Escrever músicas sobre o quanto sou mais forte sozinha. Porque e se na verdade houver algo errado comigo? E se eu estiver destinada a ficar sozinha? — Mordo a ponta da unha do polegar, meu hábito mais antigo e nojento. — Isso é ridículo — retruca a Tess. — Seu único problema é ter um gosto péssimo para homens. Eu reviro os olhos. — Você amava o Jed — lembro a ela. — Dizia que ele era muito melhor que os, abre aspas, babacas da indústria por quem eu normalmente me apaixono. A Tess bufa de desdém. — Não é exatamente um grande elogio — brinca ela, antes de ficar séria. — Não, você está certa. O Jed é um cara legal e um músico foda. Vocês, a carreira de vocês... tudo fazia sentido. Mas você merece mais que um sócio. Merece alguém que entenda sua verdadeira essência: louca, boba e palhaça. É isso o que está procurando. Não é? Balanço a cabeça. — Não sei — digo, esticando as pernas e olhando o céu sem estrelas. — Só sei que estou cansada do meu grito de guerra. É um saco. — Seu grito de guerra é disco de platina na Billboard. — Sammy ri, deixando-se cair na espreguiçadeira. — Você não pode desistir dele agora. A Tess a chuta outra vez e revira os olhos. — Não é disso que ela está falando, Samantha. — Eu não sei do que estou falando — digo, com um suspiro frustrado. — Tenho uma ideia. — A Tess se aproxima de mim no banco. — Vamos sair daqui. A Sammy se abaixa para colocar as sandálias. — Não, não, agora não. — A Tess ergue as sobrancelhas escuras e grossas. — No verão. — No verão? — pergunta Sam, em um tom confuso. — Tipo, o verão inteiro? Balanço a cabeça desafiadoramente. — Não quero voltar para L.A. Aquele lugar parece um cemitério de ex-namorados zumbis toda vez que eu saio de casa. — Eu não falei nada sobre L.A. — A Tess abre um sorriso malicioso. — Vocês se lembram da casa que meu pai alugava, no Maine? Faço que sim. Sammy e eu conhecemos a Tess quando tínhamos doze anos, em um


acampamento de verão no lago Michigan. Todo ano, depois do acampamento, o pai da Tess a levava de volta para o leste, para uma cabana caindo aos pedaços em uma minúscula ilha da Penobscot Bay. — O que tem ela? — Ah, nada de mais. — A Tess dá de ombros de um jeito brincalhão. — Tirando o fato de que acabei de comprá-la. — Você fez o quê? — grita a Sammy. — Você comprou a casa? — pergunto. — Você não me disse que estava pensando em comprar um imóvel! A Tess sorri. — Não é só porque eu ganho uma quantidade obscena de dinheiro para andar com você que preciso te consultar sobre todas as decisões financeiras que tomo — diz ela. Minhas bochechas queimam. Tecnicamente, a Tess e a Sammy são minhas assistentes; foi essa a justificativa que arranjamos para elas colocarem suas vidas em um hiato e acompanharem a minha. A Sammy fez alguns semestres em Madison antes de largar a faculdade para me seguir, primeiro até L.A., depois até o outro lado do país, em Nova York. A Tess já estudava na NYU quando chegamos aqui, mas não demorou muito para decidir fazer uma pausa. As duas juram que não querem outra vida, e eu sei que não conseguiria aguentar tudo isso sem elas. Mas detesto quando falam de dinheiro (meu ou delas), mesmo quando sei que estão brincando. — Não é nada sofisticado — continua a Tess. — Só uma casinha em uma vila de pescadores de verdade. Acho que talvez fosse bom pra gente ver um pouco de realidade para variar. — Tess olha para mim, e me pergunto pela bilionésima vez quando ela se aperfeiçoou tanto em ler a minha mente. — O que você acha, Passarinho? Topa? Passarinho, originalmente Pássaro Canoro, é o apelido que a Tess me deu no acampamento quando éramos crianças. Ao longo dos anos, se transformou em um apelido fácil entre família e amigos, para me diferenciar da outra Lily Ross, a Lily Ross que encabeça turnês, lança discos, está sempre no centro de um ciclone midiático e que, cada vez mais, não tem nada a ver comigo. Eu me levanto e me recosto no parapeito, olhando a cidade de cima. Uma sirene de polícia ressoa e sinto meu corpo inteiro ficar tenso. Não há nada que eu queira mais do que ir embora, me esconder em algum canto aconchegante do mundo, longe de fotógrafos, entrevistas e compromissos em estúdio. Tudo isso. — É uma boa ideia — digo, em tom melancólico. Mas conheço essa sensação, e sei que não vai durar. Amanhã a vida volta aos negócios. Há um disco para terminar, os primeiros singles a lançar, publicidade


interminável e, no outono, a minha próxima turnê. Não dá tempo de sentir pena de mim mesma. — Mas... — estimula a Sammy. Sorrio. — Vocês sabem que não posso ficar tanto tempo longe do trabalho. A Tess me encara de braços cruzados. A Sammy finge inspecionar as unhas recémpintadas de rosa pastel. — O que foi? — insisto. Ambas parecem querer falar mais, no entanto, ficam caladas. — Nada de mais — diz Tess, enfim, bufando e balançando a mão. — A gente pode ficar. — Ela abre a embalagem de um sanduíche de sorvete e lambe vagarosamente os pingos nas bordas. — O verão em Nova York é uma delícia. Olho para o quebra-cabeça de carros engarrafados e pedestres em movimento. Eu me mudei para Nova York porque achei que seria um recomeço. Depois do Caleb, L.A. passou a me deixar claustrofóbica, como se a cidade já me conhecesse bem demais. Eu amava o desequilíbrio que Nova York me causava. Queria que a cidade me engolisse, me consumisse. E isso aconteceu, por mais ou menos uma semana. Então conheci o Jed. Eu não queria outro relacionamento tão cedo, mas foi quase inevitável. Nossas vidas se encaixavam perfeitamente. Éramos muito parecidos. E tudo o que ele era, eu queria ser. Bem-sucedido, estabelecido, respeitado, adulto. Logo de cara, as pessoas nos adoraram juntos. Deveria ter dado certo. Eu não deveria estar nessa posição, de novo. De repente, sinto uma agitação sufocante no peito. Dou meia-volta e ando até a espreguiçadeira da Sammy, parando diante da caixa de sapatos. Estendo uma das mãos e, sem dizer nem uma palavra, a Tess aparece com os fósforos. Acendo um, e a Sam me passa as fotos de cabine. Inclino a chama até queimar a ponta brilhante da foto. — Foi bom, sim, mas chegou ao fim — digo a rima boba que roubei da Sammy, a que ela entoava para superar os términos do ensino médio, antes de eu sequer ter meus próprios namorados. Enquanto a foto queima, eu a seguro, observando o rosto do Jed se contorcer, derretendo junto ao meu até tudo se tornar uma labareda laranja.


3 91 Dias Para a Turnê 13 de Junho

RAY ESPERA AO LADO de um dos dois Escalades pretos estacionados nos fundos da Equinox. Apesar de querer desesperadamente passar semanas enrolada na cama, eu me arrastei para a aula particular com o Leon hoje de manhã, tão cedo que deveria ser ilegal, um treino intervalado de alta intensidade que sempre liquefaz a parte inferior do meu corpo. Foi brutal como sempre, mas a distração ajudou, e ao chegar perto do carro, até dou algo parecido com um sorriso. — Belos muques — implica Ray. Levanto a manga da minha blusa retrô de seda para flexionar os músculos finos, nossa brincadeira habitual pós-academia. De toda a equipe de segurança, Ray é o funcionário mais antigo, e meu preferido. É meio que um irmão mais velho, se seu irmão mais velho fosse um ex-fuzileiro naval com bíceps do tamanho de melancias. Ele abre a porta e eu entro, jogando a bolsa no banco. — Oi, K2. Assinto para o Kevin, o mesmo motorista que tenho desde que me mudei para Nova York. Ray tem outro Kevin na equipe de segurança, então agora chamamos este de K2. — Milady. — Ele imita uma mesura. Embora seja do Bronx, tem mania de falar com um sotaque britânico falso e chamar meu apartamento de “A Mansão”. Meu telefone vibra e vejo um e-mail do Terry. A sessão no estúdio foi oficialmente marcada para esta tarde. Estremeço. Eu deveria dar os últimos retoques no meu disco novo. Mas isso foi antes de ontem, antes do término. Agora, a ideia de conviver com


essas músicas, músicas nas quais tenho trabalhado durante os últimos seis meses, parece impossível. Doze músicas, todas sobre o Jed, a peça que faltava no meu quebra-cabeça, a realização de todos os meus sonhos. Por incrível que pareça, o título do disco é Para sempre. — Preciso de uma dose — digo ao K2, um código para Se não me arranjarem logo um copo de café, vamos ter um alerta vermelho. O K2 assente e navega suavemente pelo caos da rua. Observo seus olhos cintilarem no espelho, procurando pelo Starbucks mais próximo. Vejo um relance do meu próprio reflexo. Não está tão ruim quanto eu imaginei, mas há olheiras leves e minha pele está seca e opaca, apesar da maquiagem completa que fiz depois de sair do chuveiro da academia. Pareço alguém que não dormiu, o que sou mesmo, com exceção das poucas horas agitadas cheias de sonhos dolorosos; sonhos sobre o Jed, sobre nós dois juntos como se nada tivesse acontecido. Guardo o telefone de volta na bolsa quando o K2 para em uma vaga ilegal na 33rd Street. Ray sai do carro e, por um instante, considero passar meu pedido para ele. Não sei se consigo me recompor para os fãs. Mas comprar meu próprio café é algo que eu faço, um acordo que fiz comigo mesma quando meu mundo começou a mudar de verdade, quando comecei a ouvir minha própria voz em todas as estações de rádio: Não pare de fazer coisas normais. Sei muito bem que estar acompanhada por guarda-costas e ser cercada de gente a cada parada está bem longe de normal, mas é melhor que nada. Por mais surreal que todo o resto fique, é importante acreditar que ainda posso fazer as coisas por conta própria, mesmo que leve absurdamente muito tempo. Saio depois do Ray e entramos juntos no café. Atrás de nós, o restante da equipe se reúne, um monte de caras musculosos de óculos escuros tentando se misturar às hordas de pedestres que lotam a calçada de Midtown. Ray segura a porta para que eu entre. Como sempre, há uns poucos instantes de tranquilidade antes que os flashes dos telefones comecem a disparar e a multidão apareça. Às vezes, gosto de imaginar que posso viver nesses instantes. Congelá-los e estendê-los. Hoje, eu os aproveito para respirar um pouco e me acalmar. Certificar-me de que enterrei todos os traços de tristeza bem fundo, sob uma fachada tranquila e despreocupada. Quando me direciono para o final da fila, um trio de garotas histéricas vem da janela. As mães as seguem, com iPhones a postos, e eu sorrio e pergunto o nome delas. Uma das meninas usa uma camiseta que diz GREELEY GYMNASTICS, e digo a ela que sonhava em ir para as Olimpíadas. — Agora não consigo nem fazer uma estrela — admito, e elas riem.


As mães as afastam delicadamente depois de tirarmos selfies em várias posições, e dou mais um passo em direção ao balcão. Vinte minutos, doze fotos e meio café gelado depois, faço o sinal para o Ray (um puxão em um dos brincos) e um caminho é aberto em direção à porta. Estou quase saindo do ar-condicionado gélido para o calor pegajoso da cidade quando uma garota, talvez em idade universitária, talvez mais velha, aparece no balcão e grita meu nome. Eu me viro com um sorriso simpático, pronta para autografar o que quer que ela me entregue, então vejo a câmera cara em suas mãos. Ela poderia muito bem ser uma estudante de fotografia na faculdade, mas reconheço seu olhar focado e perspicaz. Paparazzi. — Cadê o Jed? — grita ela uma vez, depois repete. — Cadê o Jed? A esta altura, ela está praticamente agarrada ao cotovelo do Ray para não me perder de vista. Minha pele começa a pinicar e corro para a porta, mas a garota contorna o Ray com a câmera a postos. — Soube que vocês terminaram! É verdade? O que aconteceu com Para sempre? Meu coração bate forte e meu sorriso fica amarelo. Sussurros confusos percorrem a multidão, e há uma mudança sutil na energia ao meu redor, como se o ar estivesse carregado antes de uma tempestade. Estendo a mão em direção à porta, mas, de alguma maneira, calculo mal a distância e me inclino para o nada, com as pernas ainda fracas por causa do treino. Tropeço no canto de uma lixeira e, antes que eu me dê conta, Ray está no meu cotovelo. Mas é tarde demais: estou caindo. Os sussurros se transformam em um pânico agitado quando me estatelo no piso de linóleo e sinto a multidão se aproximar. Fecho os olhos, respiro fundo e ouço o inconfundível clique de um obturador. Sei que deveria me levantar. Sei que deveria rir, fazer uma piada sobre ser a pessoa mais desajeitada do mundo, mas não consigo. Eu me apoio no ombro do Ray quando ele me ajuda a levantar e mantenho a cabeça baixa ao finalmente passar pela porta e sair para a calçada, entrando no carro aos tropeços. K2 arranca para longe da calçada. Faz uma série de curvas rápidas e logo estamos na West Side Highway. Olho para o rio de um lado e para o aglomerado de arranhacéus do outro. Minha respiração começa a voltar ao normal, mas ainda me sinto aprisionada. Não deveria ser assim. Em geral, depois de um término, tudo o que quero é ter contato com o mundo exterior. Ficar perto dos fãs, conversar com eles, sentir sua energia... É o que me ajuda a superar. É o que me inspira a voltar a compor, a extrair


algo do sofrimento. A combatê-lo e esgotá-lo: uma nova música, um novo disco, uma nova experiência. Mas agora parece que quem está esgotada sou eu. Preciso de uma mudança de cenário. Preciso ficar sozinha. Preciso ouvir meus próprios pensamentos. Pego o telefone e passo pelas mensagens, procurando uma recente do grupo. Mudei de ideia, digito furiosamente para a Tess e a Sammy. Preciso de férias. Quem topa?


4 90 dias para a turnê 14 de junho

— ONDE ESTAMOS? Abro os olhos e lanço um olhar desfocado pela janela do banco de trás. Eu dormi em algum ponto de Portland, no Maine, quando Ray e os caras do carro da frente cismaram em parar e comprar comida. Agora a Tess está entrando em um estacionamento longo e estreito e nos virando para o mar. Dá a impressão de que poderíamos continuar dirigindo sobre a doca instável e sobre a água, em direção ao horizonte azul-claro. Espere até eu contar isso para o Jed, penso, e na mesma hora volto a sentir a dor de perdê-lo. Queria poder apagá-lo da minha memória: seu nome, seu rosto, sua existência. — Chegamos! — anuncia a Tess, desligando o motor de seu adorado Prius (ou “o Pri” como ela carinhosamente o chama). Ela é a única de nós que dirige com frequência, o que é irônico, pois também é a única que morou a vida inteira em uma cidade grande. O Pri foi a sua primeira grande compra, e tenho certeza de que ela nunca será tão apegada a um ser humano quanto é a ele. — É? Sammy tira os olhos do telefone sem prestar muita atenção, olhando a doca letárgica e o estacionamento deserto em volta. A porta de um carro bate, e vejo Ray atravessar depressa o estacionamento, parecendo um peixe fora d’água com seus RayBans espelhados, camisa polo preta e calça cáqui pregueada. Ele segura a parte interna da janela do carona, olha para dentro do carro e me vê esticada no banco de


trás. — Você está bem? — Acabei de acordar. — Bocejo. Depois de anos indo de quartos de hotel para ônibus, e de ônibus para aviões, consigo dormir praticamente em qualquer lugar. No começo era difícil, mas peguei o jeito: basta contorcer o corpo em posições compactas, jogar um moletom ou boné sobre o rosto e apagar em segundos. Eu me espreguiço e sento, notando uma mancha de pó laranja na gola da camisa do Ray. — Salgadinho de queijo? — Droga. — Ele suspira, espanando as migalhas com o enorme polegar. Sorrio. — Vou contar para a Lori. — A esposa do Ray é nutricionista e bastante rígida. Salgadinhos de queijo não fazem parte do cardápio. Ray revira os olhos antes de estreitá-los contra o sol. — Onde está o barco? A ilha fica a quarenta e cinto minutos de balsa da costa, o que a princípio me deixou ansiosa. Como vai ser ficar presa no meio do mar sem uma equipe de estilistas, sem horários, sem eventos? Agora não parece longe o bastante. — Acho que está atrasado — responde a Tess, mexendo no rádio. Ela deixa o carro ligado, mas empurra a porta com o pé, abrindo-a. — Isso nos dá tempo para almoçar — diz, saindo do carro. — Este lugar tem a melhor salada de frango do mundo. Sammy guarda o telefone no bolso e sai do carro, prendendo o cabelo em um coque bagunçado no alto da cabeça. A Tess indica um café tranquilo no alto de uma pequena colina. — O que você acha, Ray? Pãozinho sem glúten? Pouca maionese? Ele cruza os braços sobre o peito largo e se apoia no para-choque, que afunda perceptivelmente sob seu peso. — Café — resmunga ele. — Puro. Pressiono a testa na janela e olho para a água. Um bando de gaivotas paira sobre o mar, grasnando e mergulhando em uma espécie de dança. Não consigo me lembrar da última vez em que estive tão perto do mar. A praia ficava a uma curta distância de carro da minha casa em L.A., mas só a frequentei por uma semana, quando filmamos o especial “Natal na Califórnia” para a MTV. Durante o resto do tempo, era apenas um borrão pitoresco no caminho que eu percorria diariamente indo e voltando para casa. A fala rápida do DJ sai pelos alto-falantes do carro e de repente “Você está aqui” começa a tocar. É uma música que escrevi sobre me perder enquanto dirigia por L.A.


com o Caleb. Ainda sinto um leve sobressalto toda vez que ouço as primeiras notas de alguma música minha no rádio. Em geral, é uma sensação feliz que faz o meu coração palpitar. Mas hoje parece mais uma pontada de culpa, como se eu tivesse sido pega fazendo algo que não devia. Com exceção dos meus pais, não contei para ninguém que ia sair da cidade. Pensei em mandar uma mensagem para o Terry, mas sabia que ele ia tentar me convencer a desistir. Decidi ligar para ele quando chegasse à ilha, explicando que me afastar era a única opção no momento. Faltam três meses para a turnê, e preciso relaxar antes. Não posso arriscar outra cena como a de ontem. Ele não vai ficar contente quando souber que me mudei temporariamente para uma ilha isolada que fica a horas e a uma viagem de barco de todas as armadilhas da civilização, mas vai se conformar... em algum momento. Por hábito, tiro o telefone do bolso da frente da bolsa e passo os olhos pelas mensagens antigas que troquei com o Jed. Vejo meus habituais textos animados e longos, cheios de emojis de beijinhos e pontos de exclamação, e as respostas rápidas dele: Aham; Eu também; Boa noite. Acho que se eu estivesse prestando bastante atenção, teria percebido que ele andava distraído e seco. Mas por que prestaria atenção? Bem na semana anterior, tínhamos participado de um evento que durou o dia inteiro no Central Park. Ele passou o tempo todo ao meu lado, com o braço calmamente em volta da minha cintura. Eu nunca tinha me sentido tão apoiada. Olho para a água tranquila, desejando que o barco apareça e me transporte magicamente para algum lugar onde eu possa fingir ser outra pessoa.

***

— Bem-vindas ao lar! Tess tira a nossa bagagem do porta-malas e as joga na grama. Eu desgrudo as pernas do banco pegajoso e saio do carro enquanto Sammy saltita até a porta de tela como um golden retriever drogado. A casa é pequena e quadrada, com telhas faltando e uma varanda telada com remendos de fita isolante. Mas a pintura é nova, e uma alegre fileira de peônias ladeia o caminho até os degraus. — O que vocês acham? — pergunta Tess. Acompanho o olhar dela até o horizonte. A casa pode ser simples, mas o lugar parece ter saído de um conto de fadas. Uma neblina densa serpeia entre aglomerados


de coníferas gigantescas. Um pântano baixo e coberto de grama se abre em uma teia de piscinas formadas pela maré. E depois de tudo isso está o mar, plano e parado, tão azul que é quase preto. — É deslumbrante — digo. O ar tem um cheiro ao mesmo tempo doce e salgado, madressilva misturada com rajadas de uma brisa fresca do mar. Meus avós moram em um lugar como esse. A casa deles fica perto do lago, em Wisconsin, mas a sensação de estar perdido em meio à natureza é a mesma. — Não é nenhum Four Seasons. — Tess ri, colocando sua sacola no ombro e dirigindo-se para a casa. Ray se aproxima para pegar a minha bagagem, mas eu balanço a mão, dispensando-o. — Pode deixar — digo. — Vão se acomodar. A gente liga se planejar alguma coisa. Parte do acordo que fiz com os meus pais era que os garotos teriam que ficar em uma pousada na cidade. Eu aguento ser seguida quando estamos na rua, mas nem morta vou passar o verão com uma equipe de segurança atrás de mim o dia inteiro. O objetivo desta viagem é fazer com que eu me sinta normal de novo, e não há nada de normal em ter três guarda-costas grandalhões monitorando todos os meus movimentos. Depois de uma inspeção completa da casa, Ray faz questão de levar as minhas malas até os degraus antes de voltar para seu SUV e sair de ré pela estrada de terra. Abro a porta de tela e sou imediatamente transportada para os verões da minha infância. As janelas são cobertas com cortinas xadrez empoeiradas, e há um aquecedor a lenha no canto da sala de estar. Tem até o mesmo cheiro da casa dos meus avós, uma combinação de naftalina e cinzas antigas do aquecedor. É perfeito. Sam e Tess estão se acomodando no andar de cima, onde as velhas tábuas do piso rangem sob seus pés. Deixo as malas perto do primeiro degrau e ando pela cozinha, um espaço claro e estreito com ladrilhos de linóleo e um bandô de papel de parede. Entre a cozinha e a sala de estar há uma porta de vidro de correr que se abre para uma varandinha. Deixo as sandálias nos degraus e começo a percorrer a trilha até a água. Ecos da risada da Sammy flutuam na brisa. Respiro fundo e sinto uma pontada forte de saudades da minha casa, em Madison, dos meus avós, da minha mãe e do meu pai. Falo sempre com eles, mas não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa que acordar ao som da mamãe na cozinha, fazendo massa de panqueca, com música clássica tocando suavemente no rádio relógio ao lado do fogão. À minha frente, a água se estende em todas as direções. A trilha sob meus pés


passa de pedra a grama alta, abrindo-se para uma praia de seixos. Eu me abaixo para dobrar a barra da calça jeans e enfio os dedos dos pés na areia fria e escura. Ondas batem nas rochas, levantando uma impressionante espuma branca. O telefone vibra no bolso, me dando um susto. Pego o aparelho e olho com culpa para a tela: Terry. Suspiro e atendo, encostando o telefone na orelha. — Oi — cumprimento, despreocupada e alegre. — Lil, que droga, o que aconteceu? — vocifera ele. — Passei a manhã inteira mandando mensagens de texto para você. — Eu sei. — Suspiro, afastando-me das ondas. — Desculpe. — O que foi aquilo ontem? Você está bem? Já consegui tirar um monte de coisas do ar, mas algumas fotos vazaram. Você caiu? O que aconteceu? — Estou bem, Terry. É só que... Eu e o Jed terminamos. Ele terminou comigo. Acabou. Há um curto momento de silêncio. Imagino o Terry andando de um lado para o outro pelo carpete diante da mesa, olhando pela janela de seu escritório de canto e puxando as raízes do cabelo penteado para trás. — Sinto muito por isso — diz ele, com a voz comedida. — Achei que vocês eram... Deixe para lá, não importa. O que importa agora é você manter a calma. Trabalhe, ok? Ninguém processa essas coisas melhor que você, Lil. Você é a rainha da volta por cima. Eu caio na areia e pego um punhado de seixos, deixando-os deslizar pelos meus dedos. — Esse é o problema — digo, suavemente. — Não sei se vou conseguir desta vez. — Como assim? Claro que consegue. Você vai estar em todas. Rádio. Eventos. Qualquer coisa que seja necessária para manter você ocupada e nos preparar para o outono. Respiro fundo. — Terry. Eu fui embora — digo. — Vou tirar um tempo de folga. Terry ri. — Do que está falando? Foi embora para onde? — pergunta ele, com a voz cada vez mais apavorada. — E a turnê? — A turnê continua de pé — asseguro. — Mas preciso ficar longe por um tempo. Não consigo... Eu preciso... preciso de músicas novas. Outro momento de silêncio, este mais longo. — Terry? — pergunto. — Lily — diz ele, com cuidado, como se eu fosse um cavalo que ele temesse assustar. — Eu entendo o quanto isto é difícil. Sério, entendo mesmo. Mas acho que


você ainda está em choque. Para sempre está praticamente pronto. É perfeito. O primeiro single deve ser lançando em poucas semanas. Além do mais, não há tempo. Você não tem como compor, gravar e promover um disco novo em três meses. Sinto os braços e as pernas formigando com a mesma energia agitada que eu sentia sempre que alguém me dizia que eu não podia fazer algo que queria. — Não tenho escolha — digo, com firmeza. — Não posso mais subir ao palco e cantar aquelas músicas. Elas são uma mentira, e não vou mentir para os meus fãs. Se Jed e eu acabamos, Para sempre também acabou. — Lily... — implora Terry. — Preciso ir — interrompo. — Prometo não decepcionar você. Eu só... preciso fazer isso. Preciso fazer isso por mim. Tchau, Terry. — Lily! Termino a ligação rapidamente e me levanto, limpando a areia da parte de trás do jeans. Respiro fundo e olho para o mar. O ar é fresco, e a água, imensa e indiferente, pulsa em um ritmo teimoso em minhas veias. Ela não se importa com quem eu sou. Fecho os olhos e sinto imediatamente: vir para cá foi, sem sombra de dúvida, a coisa certa. O telefone vibra outra vez dentro do meu punho fechado. Buzz buzz buzzzzzzzzz. Antes que eu mude de ideia, dou impulso e o jogo longe. Ele gira em um arco alto e suave antes de sumir sob a superfície imóvel, engolido pela baía escura e turva. Com um medo desolado, espero entrar em pânico. Mas tudo o que sinto é liberdade.


5 87 dias para a turnê 17 de junho

OS PRIMEIROS DIAS NA ilha são um borrão alegre de manhãs preguiçosas, longos almoços e pores do sol épicos na praia. Uma das vantagens adicionais de atirar meu telefone no mar foi não ficar mais esperando obsessivamente mensagens do Jed... embora, claro, seja inevitável me perguntar se ele está tentando entrar em contato. Peguei o telefone da Tess emprestado para falar com os meus pais, e depois de alguns e-mails patéticos do Terry me implorando para acompanhar meus feeds nas redes sociais, até postei uma foto dos meus dedos dos pés na areia. Mas, no geral, consegui ficar totalmente fora do ar. Nosso ritmo já diminuiu para um passo ocioso de férias, embora a Tess tenha feito questão, durante nosso primeiro café da manhã de granola e iogurte na varanda, que cada uma de nós fizesse uma lista de objetivos para o verão: Tess quer aprender a surfar. Ontem de manhã, ela alugou uma prancha em uma loja de surfe na cidade e passou a tarde sendo fustigada por onda após onda. Sammy quer ler mais. Ela escolheu um romance da estante da sala de estar, mas até agora praticamente só o usou como travesseiro na praia. E eu quero cozinhar, como fazia com a minha mãe, antes de passar a só comer refeições de bufês ou delivery. Cozinhar tem algo de meditativo, por ser necessário seguir instruções com cuidado. É como se, ao preparar todas essas refeições, passo a passo, eu pudesse construir uma versão melhor de mim mesma, uma versão mais forte, que não desmorona toda vez que acaba ficando sozinha. Mas o que não me sai da cabeça, o que ainda não se fala entre nós, é meu


verdadeiro objetivo: escrever doze músicas novas até o final do verão, um disco novo para substituir Para sempre, que seja melhor que Para sempre; um álbum para a turnê do outono. Ver a mim mesma, a minha música, sob uma ótica diferente. Até agora tem sido lento. Hoje fiquei olhando as linhas em branco do meu diário, riscando coisas tão logo as escrevia. Ainda há uma energia inquieta vibrando dentro de mim, reverberações da vida na cidade. Eu me sinto feito um pião que não parou de girar, como se meu corpo não tivesse em sintonia com minha cabeça. Então volto à cozinha. Depois de termos uma overdose oficial de sanduíches de lagosta e caldo de marisco, decido tentar meu primeiro jantar caseiro. Sammy e Tess ficam rondando pela cozinha, esperando que eu perca a calma. Não perco. Faço frango com molho de mostarda e mel, arroz de coco e salada. Até faço algumas torradas com manteiga de alho. Há um incidente com uma panela cheia de óleo quente e um detector de fumaça cheio de frescuras, mas quando a comida enfim vai para os pratos e realmente se parece com uma refeição real e comestível, me sinto uma gourmand em pessoa. — Não está horrível — diz Tess quando comemos as primeiras garfadas na mesa redonda da cozinha. — Nossa, obrigada — brinco, mas devo admitir que estou surpresa. A última refeição de verdade que preparei deve ter sido antes de sair de casa, quando a minha mãe me obrigou a ajudá-la na cozinha no Dia de Ação de Graças. É bom ter terminado alguma coisa, mesmo que não seja uma composição. Meu estômago se agita de ansiedade. Faltam oitenta e sete dias para a turnê, o que parece muito, mas já sinto as horas escapando. — Quem quer sair? — pergunta Sammy, empilhando os pratos sujos depois de terminarmos. — Sair? — Tess ri. — Será que você não pegou um pouco de sol demais hoje? Estamos em uma ilha com três restaurantes, um dos quais também é a agência dos correios. Não existe sair. Sammy larga os pratos na pia com um estrépito, e percebo as linhas rosadas de uma queimadura de sol em seu pescoço. De repente, eu me sinto culpada por arrastála até aqui, onde sua pele branca e sardas estarão sob o risco constante de dano solar, e onde não existe um cardápio de drinques decente em um raio de oitenta quilômetros. — Tem que ter alguma coisa — insisto, pelo bem da Sammy. — O que as pessoas daqui fazem para se divertir? Tess se encosta à grande bay window. — Isto que estamos fazendo agora — diz ela. — Não acredito — retruca Sammy, fechando a torneira. — Vistam-se. Se houver


um jukebox nesta cidade, eu vou encontrá-lo. Energizada pela possibilidade de estímulo, pego Tess pela mão e a puxo do banco estofado, enxotando-a para o chuveiro. Estou quase no topo da escada quando me lembro do meu diário, que enfiei na bolsa da Sammy depois da praia. Desço correndo e vou para a sala de estar. A bolsa está jogada em um pufe puído, e quando a pego pelas alças de couro, uma revista escorrega lá de dentro para as minhas mãos. Meu coração fica pesado. Ali estou eu, em toda a minha glória desajeitada, esparramada no chão brilhante de um Starbucks em Midtown. Um braço cobre meus olhos, mas minha boca está travada em uma expressão aflita. Em letras brancas maiúsculas, a manchete diz: Que azar: Lily está sozinha outra vez. Entro em um transe tão intenso que levo alguns instantes para registrar os outros tabloides que caíram da bolsa aos meus pés. Olho para baixo e sou atacada pela mesma foto em diferentes ângulos. Mais letras enormes, pontos de exclamação: Machucada e magoada: Lily vai para a reabilitação e Onde Lily Ross se meteu? — Merda. Ouço uma voz às minhas costas. Meus olhos estão vidrados na compilação bagunçada do meu próprio rosto assustado. Tess entra correndo e joga a pilha para o lado com o pé. Sammy para de repente no corredor atrás dela. — Sinto muito — diz Sammy. — Eu estava tentando limpar as prateleiras da mercearia. Só havia uns poucos exemplares de cada... — Eu quero ver — digo, em tom sério. Sammy se abaixa para recolhê-los, mas Tess estende a mão, interrompendo-a. — Não — diz ela, com teimosia. — Você não quer. É tudo lixo. Nada disso é real. Eu mesma junto as revistas e subo a escada correndo. — Passarinho! — chamam as duas em uníssono. Balanço a cabeça. — Estou bem — digo, com a voz falhando. — Sério. Eu só... preciso de uns minutos. Depois de entrar, fecho a porta do meu quarto e me jogo na cama com a pulsação irregular latejando nos ouvidos. Tento contar minha respiração, fechar os olhos e estar presente, mas nenhum dos truques habituais funciona. Esta não é a primeira vez que meu rosto aparece na capa de tabloides de baixo nível. São ossos do ofício, principalmente depois de términos de namoro. Depois do meu primeiro namorado de L.A., Sebastian, foi um circo. Disseram que ele estava me traindo com uma das suas cantoras de apoio. E depois com todas as cantoras de apoio. Depois do Caleb, quem seguiu em frente rápido demais fui eu. Me chamaram de


“sem coração” e “obcecada pela carreira” por terminar tudo e me mudar para Nova York, onde o meu segundo disco deslanchou e o dele... bom, o dele, não. Eu poderia ter esclarecido as coisas, dado uma entrevista e insistido que ele havia terminado comigo, mas Terry me assegurou de que isso só pioraria as coisas. O melhor a fazer com esse tipo de matéria é ignorar. Dias depois, é sempre o sofrimento de outra pessoa, o erro de outra pessoa (real ou fabricado) que está exibido para o mundo nas prateleiras dos caixas do supermercado. Mas desta vez, por alguma razão, não estou preparada. Aqui, longe de tudo, é fácil esquecer que o mundo continua girando. Jed ainda está em turnê, respondendo a perguntas, sendo quem seus fãs querem que ele seja. Eu, não. Eu não estou em lugar algum. Então sou um alvo fácil. Abro a primeira revista da pilha e a folheio lentamente até a matéria central. Está tudo lá. Nosso último jantar. Aquela sopa idiota. Uma foto granulada minha, olhando o carro do Jed indo embora, segurando as chaves extras, olhando-o partir feito um cachorrinho abandonado. Passo os olhos rapidamente pela matéria mal-escrita, citando várias “fontes internas” que falaram do nosso relacionamento, dizendo que estava estagnado havia meses. “Lily estava pronta para se casar, e Jed, não. A pressão foi grande demais.” Bufo de desdém. Pressão? A única coisa que eu já o pressionei a fazer foi dormir até mais tarde aos domingos e comer menos carboidratos. Tess estava certa. Não havia um pingo de verdade em lugar algum. Mas, ao percorrem a página, meus olhos param em uma frase que faz meu estômago afundar. “Fontes dizem que o novo disco de Lily, Para sempre, era uma promessa para Jed. Uma promessa que ele não estava pronto para fazer. ‘Nunca foi o grande romance épico que todo mundo queria que fosse’, diz uma fonte interna. ‘Talvez Lily pensasse que eles iam durar para sempre, mas Jed nunca achou isso. No mês passado, ela queria que ele viajasse para conhecer sua família. Ele fingiu que estava ocupado com o trabalho, mas na verdade achava que as coisas estavam indo rápido demais.’” Parece que o meu coração está sendo espremido com um torno. Era o aniversário de cinquenta anos de casamento dos meus avós. Meus pais tinham planejado uma festa surpresa no restaurante italiano onde o vovô tinha pedido a mão da vovó. Jed prometeu que iria, mas no último minuto acrescentaram um monte de aparições à agenda dele. Eu não tinha falado a ninguém que ele ia comparecer, porque ele tinha o hábito de marcar vários compromissos ao mesmo tempo, e eu estava cansada de criar expectativas em todos. Alguém bate timidamente na porta. Sem esperar resposta, Tess e Sammy entram


devagar no quarto. — Você está bem? Sammy se deixa cair ao meu lado e apoia a cabeça no meu ombro. — Ele falou com a imprensa — digo, com uma voz que não passa de um sussurro trêmulo. — Só pode ter falado. Tem coisas aqui que... — A gente sabe — diz Tess, baixinho. — Sentimos muito. — Como ele pôde fazer isso? Estou genuinamente confusa. Vivo nesse meio há tempo suficiente para saber que não existe “fonte interna”. Ele falou com a imprensa sobre mim, sobre a minha família. E por quê? Para ter a última palavra? Para sair por cima? Se ele queria que eu parecesse patética, deu certo. Lágrimas ardem nos meus olhos, e luto para não deixá-las correr. Se eu senti choque e tristeza quando terminamos, isto é mil vezes pior. Agora me sinto uma idiota. — Você precisa esquecê-lo — pede Tess. — Sério. É exatamente por isso que estamos aqui. Sammy dá tapinhas nas minhas costas e diz: — Tess está certa. Não vale a pena. Este verão é para você. Para nós, ok? Lembra como era divertido nós três no acampamento? — Sem insetos nem comida ruim — interrompe Tess. — Mas, fora isso, este verão deveria ser uma versão adulta daquela época. Sem responsabilidades. Sem estresse. Combinado? Enxugo os olhos e sorrio. — Combinado. — Ótimo — diz Sammy. — Então... — Vamos sair, a gente sabe — cantarola Tess, completando o pensamento dela. — Calma aí, animadinha. Eu ainda nem tomei banho. Tess recolhe as revistas debaixo do braço ao sair. Sammy para por um momento à porta. — Vejo você lá embaixo? Balanço a cabeça, dou um sorriso e digo: — Vão na frente. Acho que vou escrever um pouco. — Nada de fossa! — grita Tess do corredor. — Nada de fossa — prometo. Sammy faz uma expressão cética, mas me manda um beijo da porta. Pego meu diário no criado-mudo, meu violão no estojo que está no chão, e me acomodo no canto da cama, arrumando travesseiros às minhas costas. Tem tanta coisa que quero dizer. Eu poderia escrever uma dúzia de músicas nas


próximas três horas sobre tudo o que Jed fez para me magoar, mas mesmo assim seriam sobre ele. Toda vez que componho uma música, é como se abrisse mão de pequenos pedaços de mim mesma, e não quero dar ao Jed, nem a qualquer outro dos caras que namorei, mais nenhuma parte de mim. Uma brisa fria faz cócegas na minha nuca. Pela janela, olho lá para fora, onde o sol acaba de se pôr, lançando uma luz rosa-alaranjada nas copas das árvores. A água cintila além dos quebra-mares, e o mar se estende em todas as direções até onde consigo enxergar. É por isso que estou aqui. Silêncio real. Vida real. Tempo real com gente real que me ama, que se importa comigo o suficiente para comprar todos os dez exemplares das piores revistas da banca só para que eu não as visse. Esse novo disco precisa ser diferente. Não é possível que eu seja apenas uma namorada, uma solitária deixada para trás. Antes do Sebastian, antes de L.A., eu nunca tinha estado em um relacionamento. Passei dezenove anos por conta própria, dezenove anos fazendo maratonas de The O.C. com a Sammy, sonhando acordada em me mudar para a Califórnia, despejando segredos no meu diário em uma noite de sexta, falando do quanto era solitário ser diferente e nunca saber como dizer ou vestir a coisa certa. Aqueles segredos se transformaram em músicas, minhas primeiras músicas, aquelas que resultaram em um empresário, um contrato de gravação, uma vida que superava meus sonhos mais loucos. Fecho os olhos e imagino o verão no qual descubro quem eu era e quem ainda posso ser, sem ninguém me observando. O verão em que componho as músicas que devo compor, músicas que são mais que sagas sonhadoras ou baladas tristes recicladas. O verão em que afasto todo o barulho e ouço a voz no silêncio, a voz que ouvia quando era pequena, me mandando parar de me preocupar tanto com o que todos os outros pensavam. Feche os olhos, dizia a voz. Feche os olhos e cante.


6 86 dias para a turnê 18 de junho

O CARRO PISCA E apita, e olho para o painel como se fosse o sistema operacional de uma nave espacial. O último carro que dirigi foi uma picape velha que meu avô me deu quando me mudei de Wisconsin para L.A. Não havia truques para ligá-la, fora girar a chave e rezar muito até pegar. O Prius tem um botão Liga/Desliga que deveria ser autoexplicativo, mas por algum motivo não é. Finalmente, com o pé no freio, a chave na ignição, o botão apertado e uma oração sussurrada, o Pri ronrona e desperta. Dou uma olhada rápida para as janelas do segundo andar da casa enquanto saio de ré lentamente. Deixei um bilhete para a Tess e a Sam na geladeira, mas elas ficaram na rua até tarde, então duvido que vão acordar tão cedo. Acordei com desejo de comer ovos com bacon. E panquecas. Até agora, Sammy e Tess compraram todos os mantimentos no mercado da cidade, e espero conseguir encontrá-lo sozinha. O carro chacoalha e balança na estrada de terra sinuosa enquanto ramos finos roçam a janela. Eu esperava me sentir pior hoje de manhã. Ontem à noite, depois que as meninas saíram, fiquei sentada no deque dos fundos por horas, observando as estrelas piscando e pensando mais no meu disco. Lá pela meia-noite, eu não tinha chegado a lugar nenhum e desisti, cambaleando escada acima até meu quarto e me jogando na cama de solteiro rangente. Dormi profundamente e acordei sete horas depois, na mesma posição, disposta, descansada e pronta para tudo. Até meu corpo estava diferente, como se meus ossos tivessem sido deslocados, meus músculos alongados e


realinhados, até que todas as habituais dores e desconfortos de turnês e viagens tivessem desaparecido. A estrada de terra se bifurca, e viro em direção ao asfalto. As árvores são mais grossas aqui, e as casas ficam mais próximas umas das outras e da estrada. Há uma escola pequena, uma igreja e uma loja de conveniência com uma única bomba de gasolina vermelha nos fundos. Do outro lado do porto há uma construção longa e baixa com uma placa pendurada: SUPRIMENTOS E UTENSÍLIOS MCCONNELL’S. Estaciono e pego minhas sacolas no banco da frente. Havia um monte de sacolas de lona no armário do corredor, marcadas com logos de fazendas, da biblioteca, de um banco. Peguei um punhado delas além de um boné, que encontrei pendurado em um gancho, azul desbotado com a silhueta vermelha de uma lagosta. Passo o cabelo pela lingueta do boné e o puxo por cima da testa. Procuro meu óculos escuros comicamente grandes preferidos e os coloco. O hábito de usar boné e óculos escuros quase nunca dá certo hoje em dia, mas ainda tento. Decido fazer uma lista e enfio a mão no bolso para pegar o telefone, então me lembro de que o joguei no mar. Mais cedo, em um pânico frenético, eu entrei de fininho no quarto da Tess e mandei uma mensagem rápida para o Terry pedindo para me mandar um novo por FedEx. Agora que vi os tabloides, eu me sinto desconectada, mas de uma maneira vulnerável. Foi um lembrete cruel de que, embora a pessoa Lily Ross esteja de férias, o negócio Lily Ross continua ativo. Em um dia típico, uma hora depois de acordar, já estou insensível aos bipes intermináveis de alertas, mensagens e e-mails. Também já falei dez vezes com o Terry, e duas com os meus pais. Não é de estranhar que a minha mente esteja clara, percebo. Não passo tanto tempo sozinha há anos. No mercado, faço uma rápida lista de ingredientes e começo as compras. No balcão de frios há duas garotas de short jeans, talvez com nove ou dez anos. Elas estão se desafiando a fazer alguma coisa, olhando furtivamente para o freezer dos sorvetes. Paro atrás delas, sabendo o que vai acontecer quando elas se virarem. Eu me preparo para gritos, iPhones, talvez até perguntas sobre as revistas e o Jed. No entanto, uma coisa muito estranha acontece. As garotas me olham e eu sorrio. Elas congelam. Antes que eu consiga dizer oi, já foram embora, rindo e avançando pelos corredores até fazer o sininho da porta da frente tocar ao saírem. Fico sem saber se me reconheceram ou só se assustaram por pensar que foram pegas. No caixa, espero atrás de um pai jovem bonito com três crianças penduradas para fora do carrinho, exigindo mais doces. Ele está tão ocupado que não olha na minha direção. Depois, a mulher de meia-idade atrás do balcão passa meu cartão sem notar o meu nome. Saio da loja rindo, com as sacolas nos ombros, e quando meus óculos


escuros escorregam do meu nariz, nem os ajeito de volta.

— O que deu em você? O som de pneus cantando ainda ressoa nos meus ouvidos quando desço cautelosamente do carro. Há uma nuvem de vapor saindo de debaixo do capô do Prius e meus dedos tremem. Em um minuto, eu estava atravessando um cruzamento, quase em casa, com as janelas abertas e o cheiro do mar enchendo o carro. No seguinte, eu ia em alta velocidade em direção à porta do carona de uma caminhonete, enfiando o pé no freio tarde demais e batendo de cara no volante. Tess vai me matar. Seu precioso Pri, praticamente seu terceiro melhor amigo, está esmagado sob a caçamba de uma caminhonete velha e enferrujada. O motorista abre a porta com raiva e também parece pronto para me matar. Então pelo menos quando a Tess me encontrar eu já vou estar morta. — Desculpe — digo. — Desculpe mesmo. — Eu vou até a frente do carro, estreitando os olhos para ver e não ver ao mesmo tempo. O carro e a caminhonete estão encaixados como peças de um quebra-cabeça em tamanho real, e algum fluido horrível se acumula em uma poça entre eles no chão. — Eu não vi você. — Nossa, que alívio. — O motorista, um cara mais ou menos da minha idade com um short sujo e uma camiseta azul-clara, volta para a caminhonete, avaliando o dano. — Se você tivesse me visto naquele cruzamento que acabou de atravessar, eu diria que não precisa só de um grau mais alto. Levo um tempão para perceber que ele está falando dos meus óculos, que eu tinha apoiado em cima do boné. — Ah. — Eu tiro os óculos e os sacudo. — Não são de grau. Estamos no meio do cruzamento, que só agora percebo que é uma rotatória. Outro carro, um Subaru antigo, se aproxima por trás de nós, e o cara manda o motorista seguir em frente e então se agacha entre os carros, olhando a parte de baixo da sua caminhonete antes de encarar a poça. — Na verdade, são só óculos escuros — explico, limpando as lentes no bolso da frente da minha jardineira, como se isso fosse ajudar. — Por causa do sol, sabe? Eu os comprei em um camelô em Roma. Não consigo parar de falar e tenho vontade de me enfiar embaixo do capô enfumaçado e ficar ali até ele ir embora ou eu derreter, o que quer que aconteça antes.


Óculos escuros? Por causa do sol? É constrangedor admitir, mas às vezes é mais fácil ser reconhecida. Em momentos como este, por exemplo, isso me daria uma desculpa para calar a boca ou pelo menos mudar de assunto. — Não me diga — resmunga o cara do outro lado do capô. Ele se levanta e coça a parte de cima do braço, revelando o tríceps bronzeado. Sinto meu rosto ficar vermelho, o que é irritante. Não estou no clima para músculos e bochechas coradas. Desvio o olhar para a caçamba da caminhonete. Está cheia de longas gaiolas de arame, emaranhados de redes de pesca e uma pilha de boias compridas. Enfiada entre duas armadilhas vazias encontra-se uma longa prancha de surfe amarela, com a ponta arredondada para fora da caçamba. — Você surfa? — pergunto quando ele se levanta, abanando o vapor e pressionando de leve o para-choque. — Quer dizer, é obvio. Eu fiz uma aula uma vez. A minha amiga quer aprender a surfar neste verão. Está na sua lista de coisas a fazer antes de morrer. Não que ela esteja morrendo. Ela só... quer fazer isso. O cara continua inspecionando cuidadosamente o capô do meu carro, que enfim parou de soltar fumaça. O para-choque tem um amassado irregular e a frente está toda arranhada, e isso me faz lembrar de todo o cenário da Tess me matando, o que, pelo andar desta conversa, agora parece uma boa alternativa. Ele estende a mão, e eu levo um instante para entender que quer a minha chave. — Você é mecânico? — pergunto. Percebo que existe pouca chance de ele fugir com o carro da Tess, e, se o fizesse, não chegaria muito longe, considerando que estamos em uma ilha. Mas, mesmo assim, me parece importante estabelecer sua credibilidade antes de entregar as chaves dela para um completo desconhecido. Ele me encara por um bom tempo, e me convenço de que vai acontecer. Ele finalmente vai me reconhecer. Mas posso notar pelos seus olhos, que infelizmente são de um azul intenso de tirar o fôlego, que ele não faz ideia de quem eu sou. — Não, não sou mecânico — diz ele, passando a mão com impaciência pelo cabelo curto e claro. — Você é? Largo as chaves na palma da mão dele e o observo se sentar no banco do motorista. — Esse carro não é meu — digo. — Quer dizer, eu não o roubei nem nada. É da minha amiga. Um híbrido. É meio complicado ligá-lo. Tem uma coisa com um botão, sabe? Em segundos o carro é ligado. Ele olha por cima do ombro antes de dar ré lentamente. Ouço estalos horríveis à medida que o carro se desprende da caçamba da caminhonete, mas ele não hesita. Volta até a placa que diz “pare”, sai do carro e vem correndo até mim.


— Então, qual é a má notícia? — pergunto quando ele abre a porta da caminhonete. — Quanto eu te devo? — Para mim? — O cara sorri pela primeira vez, e minhas entranhas se transformam em uma piscina familiar de gosma trêmula. Segundo Tess, a população fixa da ilha é de cerca de duas mil pessoas. Quais eram as minhas chances de literalmente esbarrar na pessoa mais bonita daqui no primeiro dia? — Bom, este é um veículo de trabalho — explica, pensativo, tamborilando com os dedos no volante. — Sem contar que é o meu único meio de transporte, então... — Claro — concordo solenemente. — Eu diria em torno de quinze mil? — arrisca ele. — Quer dizer, como eu falei, não sou mecânico, mas acho que é um chute razoável. Meu coração se aperta. Quem tenta embolsar quinze mil dólares em danos dirigindo por uma ilha com quatro estradas principais e nenhum sinal de trânsito? Um Jeep quadradão passa pelo cruzamento ao nosso lado, e o motorista e o cara acenam um para o outro. Escondo o rosto com a mão, imaginando a próxima grande manchete: Lily Ross bate por tristeza. Não são bem as “férias tranquilas” que eu tinha em mente. — Tudo bem — bufo em um sussurro constrangido. — Não estou com meu telefone, então você vai ter que me dar o seu número ou algo assim... O cara me encara por um bom tempo. — Eu estava brincando — diz ele, em tom monótono. — Você está falando sério? Quinze mil? Essa caminhonete é mais velha que eu. Provavelmente vou ter que pagar para alguém se livrar dela em algum momento. Olho para ele, perplexa, corando. Claro que ele não esperaria que eu pagasse milhares de dólares por uma caminhonete que parece colada com fita adesiva. Pela maneira como ele ergue as sobrancelhas douradas com um ar presunçoso, dá para ver que me considera uma idiota completa. — Tudo bem — consigo dizer, enfim, pigarreando. — Claro. Então... está tudo bem? Ele abre um sorriso malicioso. — É, está tudo bem — diz, fechando a porta entre nós. A caminhonete engasga dramaticamente quando ele vira a chave na ignição. Verifica o espelho retrovisor e sai devagar, parando após alguns metros para olhar rapidamente por cima do ombro. — Só não escreva uma música sobre mim nem nada do tipo. Ele liga a seta e levanta os dedos em um meio aceno para o espelho. Eu fico paralisada no cruzamento, com um sorriso surpreso se abrindo nos lábios, e o observo entrar em outra estrada de terra, com as armadilhas, as boias e a prancha amarela


chacoalhando na caรงamba.


7 84 dias para a turnê 20 de junho

A AULA DE IOGA no sábado de manhã foi ideia da Sammy. Ela viu um panfleto no quadro de avisos do supermercado e nos arrancou da cama para ir. Tess queria ficar em casa; é mais chegada a controlar sua agressividade com pancadas no kickboxing do que com respiração na ioga, mas depois do meu pequeno incidente com o Pri, ela está se recusando a deixar qualquer outra pessoa dirigir. Aposto vinte dólares com a Sammy que a Tess não aguenta nem até a primeira saudação ao sol. — Vamos começar com as mãos sobre o coração. A professora, Maya, é mais ou menos da nossa idade. Ela tem um sorriso tranquilo e parece sincera, não pretenciosa como vários professores que tive em Nova York e L.A. A sala, um espaço aconchegante em um sótão acima da única loja de ferragens da ilha, está lotada. De vez em quando, ouço o toque eletrônico da porta lá de baixo sendo aberta, ou o baque da caixa registradora sendo fechada. Escolhi um lugar perto da parede, com a Sammy de um dos lados e uma mulher mais velha de legging de tie dye do outro. Tess está o mais perto possível da saída. — Deixem a respiração ser sua guia — diz Maya. Ela está sentada diante da turma com os olhos fechados, e um raio de sol largo e empoeirado ilumina sua longa trança. Ela é alta e musculosa, e se veste de forma confortável, com uma camisa termal cinza e uma calça larga e velha. De vez em quando, dou uma olhada para a Tess, que gradualmente para de fazer cara feia e em certo ponto até parece estar curtindo. A aula é ótima, relaxante e lenta, e


tento me lembrar de pegar os horários na saída. Na savasana, deitamos de barriga para cima. Maya espalha uma névoa de lavanda em torno da nossa cabeça, e meu corpo afunda no colchonete. Ela nos pede para estabelecer uma intenção para o resto do dia. Fecho os olhos e penso nas pessoas que observei pelo espelho, as mulheres de meia-idade de cabelo bagunçado e camiseta larga, alguns homens calejados grunhindo com bom humor ao tentar tocar os dedos dos pés. Eu me pergunto como é a vida deles, se essa é sua rotina das manhãs de sábado. Café da manhã. Ioga. Uma visita ao andar de baixo para comprar o material de um projeto doméstico inacabado. Sinto uma agitação desagradável no peito. Estou com inveja. Há uma parte de mim que daria qualquer coisa para que todas as manhãs de sábado fossem como esta. Sei que parece absurdo, e se um dia eu dissesse isso em voz alta, seria imediatamente taxada de ingrata. Muita gente, como a minha família inteira, o Terry, até os meus amigos, se sacrificou ao longo dos anos para que eu pudesse chegar aonde estou. E “onde estou”, na maior parte dos dias, parece ser o topo do mundo. Que tipo de pessoa abriria mão de tudo isso por tie dye e uma lista de tarefas? Respiro fundo, tentando recuperar a paz temporária que encontrara, mas acho que já a perdi. Há um movimento ao meu lado, e vejo a Sammy enrolando seu colchonete. Ela leva o dedo aos lábios e inclina a cabeça em direção à Tess, do outro lado da sala. Ela ainda está esparramada no chão, e, pelo subir e descer constante de seu peito e pelos pés pesados e virados para fora, nota-se que está dormindo.

— Bom, foi uma droga — resmunga a Tess, com o colchonete de ioga dobrado de qualquer jeito sob o braço. Do outro lado da rua, em frente ao estúdio de ioga, fica o Fresh, um café vegano. Estamos olhando o cardápio no quadro-negro, decidindo entre doses de suco de clorofila e kombucha da casa. — É, parecia mesmo que você estava sofrendo — brinca Sammy, fechando os olhos e deixando a cabeça pender para o lado antes de soltar um ronco falso. — Exatamente. Se eu quisesse pagar quinze dólares para tirar um cochilo, poderia ter ido ao cinema. Não preciso de um guru para isso. Tess apoia o colchonete no balcão e se enfia na nossa frente para olhar o cardápio de perto. Enquanto isso, a fila anda e eu vejo que Maya, nossa instrutora serenamente


sorridente, chegou atrás de nós. Ela cumprimenta alguns rostos familiares e entra na fila. — Sidra quente? — pergunta Tess, fazendo uma careta. — Kombucha? É obrigatório existir pelo menos um lugar insuportavelmente hippie a trinta metros de todos os estúdios de ioga do planeta? Eu pigarreio, e Sammy lança um olhar penetrante por cima do ombro da Tess. — O que foi? — pergunta Tess. Ela se vira, e Maya balança os dedos em um aceno provocador. O rosto da Tess, ainda rosado do calor do estúdio, ganha um tom de vermelho ainda mais escuro. — Ah — diz ela. — Ei. Eu não quis dizer... — Não, é uma ótima pergunta. — Maya assente com um brilho espirituoso em seus grandes olhos verdes. — Vou ter que discutir isso com o meu guru. Sammy e eu rimos enquanto Tess se remexe, desconfortável. É raro ela ser o alvo desse tipo de ironia, e é divertido assistir. — Só estou brincando — diz Maya, tocando de leve o ombro da Tess. — Mas você deveria experimentar a sidra quente daqui. Vai mudar sua vida. Como uma oferta de paz, faço questão de pagar uma dose de sidra para a Maya, e ela sugere que eu peça uma rodada para nós também. — O que tem nisso? — pergunta Sammy quando o barista entrega os copos baixos. Ela se aproxima e torce o nariz para o cheiro forte. — É vinagre infundido com raiz-forte e várias outras coisas — explica Maya. — É como limpar seu organismo com uma mangueira de alta pressão. — E isso é bom? — pergunta Tess, baixinho, claramente ainda se recuperando da gafe. Maya sorri. — Nunca é uma má ideia recomeçar — diz ela, erguendo seu copo. Pode ser algo em seu olho, mas juro que ela pisca para mim quando brindamos. Por um segundo paranoico, eu me pergunto se ela estava realmente lendo a minha mente durante a aula. Viramos nossas sidras, que parecem uma mistura de enxaguante bucal com Bloody Mary em um sentido não totalmente desagradável, e nos despedimos da Maya, prometendo voltar para a aula do final de semana que vem. Há uma pequena mesa de canto nos fundos do café, e vou até lá. Uma garota sardenta de marias-chiquinhas me para no caminho e pede uma foto, que tiramos juntas. Isso aconteceu poucas vezes desde que chegamos, e todo mundo foi tão educado que nem me incomodei, mas hoje fico meio chocada. Foi muito fácil esquecer


que sou famosa. Acho que espero que todas as outras pessoas também tenham esquecido. — O que foi? — pergunta Tess, aparentemente notando uma expressão no meu rosto. — Não sei mais qual é o objetivo. — Com um suspiro, mordo a tampa do meu muffin de sementes de girassol. — O objetivo de quê? — pergunta Sam. — Por que sequer estou fingindo que posso fugir? — pergunto. — Todo mundo aqui sabe que acabei de tomar um fora. Se não estão falando disso, estão pensando. E esta é uma ilha sem cadeias de restaurantes e que tem uma locadora de vídeos que ainda aluga fitas VHS de verdade. Vocês imaginam como isso é estranho para mim? Sammy abre a boca, e sei que ela vai dizer alguma coisa para me alegrar, como sempre faz, mas continuo falando. Sinto que, se não botar tudo o que tenho sentido para fora, a inquietude no meu peito pode se tornar permanente, inchando e se espalhando até me esmagar por completo. — Não aguento mais esse drama. E odeio o fato de todo mundo esperar que eu me recupere e transforme todas as merdas que acontecem comigo em música. E se eu não quiser escrever sobre meu décimo quinto pé na bunda? E se eu não quiser escrever uma música romântica? Todas ficamos quietas por alguns instantes, até Sammy pigarrear. — Você está dizendo que quer parar de cantar? — Não — respondo, bufando. — Só queria encontrar um jeito de escrever sobre algum assunto que não seja o Jed. — Então escreva — diz Tess, objetiva. Ela tem essa mania, de fazer parecer que complico demais as coisas, que, se eu não passasse tanto tempo me analisando, se não me sabotasse, tudo seria muito mais fácil. Eu a vejo colocar açúcar no café. Observo a Sammy quebrar seu scone em minúsculos pedaços iguais. Sinto uma tristeza repentina e vazia. Essas são minhas melhores amigas, as pessoas que me conhecem melhor que ninguém. Se elas não entendem o quanto isso é difícil, como posso esperar que alguém mais entenda? Meu telefone vibra na mesa, e eu me inclino para olhar quem está ligando. Tess e Sammy fazem o mesmo. É o Jed. Meu estômago afunda, e pego o celular com pressa. — Não atenda — dispara Sammy. É a primeira vez que ele liga desde que fui embora. Que eu saiba, pelo menos. Eu recebi o telefone que o Terry mandou por FedEx quase imediatamente, mas esperei um dia antes de ativá-lo, e agora não consigo parar de olhar para ele, desejando que


cada alerta vibratório seja uma mensagem do Jed. Consulto às pressas o que me lembro do seu cronograma, me perguntando onde ele está. Londres? Espanha? Que horas são lá? Será que ele está sozinho? — Ela está certa — diz Tess. — O que ele pode dizer que iria melhorar seu ânimo? Penso nisso enquanto seguro com força as laterais lisas do telefone. Mesmo que ele diga que errou, que fez uma besteira, que me quer de volta, o fato de ele ter falado com a imprensa e me feito parecer uma garotinha chorona, carente e apaixonada não vai mudar. Largo o telefone e o observo vibrar na mesa. Finalmente, o zumbido tortuoso para e esperamos para ver se ele deixa uma mensagem. A tela fica preta. Não. Engulo em seco com o maxilar trincado e uma pressão latejante atrás dos olhos. Cada pedaço de mim deseja ouvir a voz dele, perguntar dos shows, contar sobre a ilha e dizer o quanto ele adoraria este lugar. É como se o meu cérebro tivesse sido reprogramado, mas o meu corpo e o meu coração ainda estivessem presos. Mesmo depois que as coisas terminaram daquele jeito, só consigo pensar em como éramos em um tempo (não tão distante assim) em que os meus dias não ficavam completos até que fossem compartilhados com ele. Uma partezinha de mim sente que, na verdade, estou apenas de férias, e que quando retornar a Nova York, vou voltar para a minha antiga vida, minha antiga rotina. E para o Jed. Sinto os olhos da Sammy e da Tess em mim enquanto encaro o telefone. Tess tira o celular do bolso e checa a hora. — Estamos atrasadas — diz ela, rapidamente, saindo enquanto faz uma ligação. Eu olho para a Sammy. — Atrasadas? — pergunto. — Atrasadas para quê? Sammy se levanta, reunindo nossos pratos. — Ela não contou? — fala, olhando pela vitrine de vidro. Do lado de fora, Tess anda de um lado para outro na calçada, sorrindo ao telefone. — Ela encontrou um monte de caras com quem andava. Eles se ofereceram para nos levar para pescar. — Caras? — pergunto, desconfiada. — Que caras? Quando? Sammy dá de ombros. — Naquela noite no bar. Uns caras com quem ela brincava quando era pequena. Eles pareceram legais. Achei que ela tinha contado. Ela vai depressa até a lixeira. — Não, ela não contou — digo, correndo para alcançá-la. — Tenho certeza de que me lembraria de ouvir sobre uma pescaria pós-ioga. Bela tentativa. Sammy abre um sorriso tímido. — A Tess achou que você só iria se a subornássemos com comida — diz ela,


jogando o resto do meu muffin na lata de compostagem. Não consigo conter uma risada. Elas podem não entender todos os aspectos do que faço, o equilíbrio impossível entre vida e carreira, mas me conhecem. Nós saímos, e eu paro de repente diante da grande vitrine. — Eu não tomei banho — digo ao ver meu reflexo. Meu cabelo está escorrido e suado, e as alças do meu top estão torcidas nas costas. — Vou ficar assim? — É você que quer ser normal — diz Tess, me dando o braço enquanto me arrasta para o carro. — Entre — ordena ela. — Eu dirijo.


8 84 dias para a turnê 20 de junho

O PORTO ESTÁ MOVIMENTADO, cheio de pescadores de calças laranja e suspensórios carregando e descarregando equipamentos e armadilhas de uma fileira de barcos. Paramos em um estacionamento meio vazio, e, quando saímos do carro, uma fria brisa do mar sopra meu cabelo. Estremeço. — Gostaria de ter sido avisada de que vocês tinham planos — murmuro, esfregando os braços descobertos. — Eu teria trazido um casaco. Tess olha para o posto de gasolina/loja de conveniência/loja de suprimentos para pesca do outro lado da rua. — Deve ter alguma coisa lá. Entro e analiso rapidamente a seleção limitada, decidindo enfim por um enorme moletom cinza com capuz, com as palavras EU ME DEI BEM NA LOJA DE ISCAS DO LUCKY impressas nas costas. Um velho de óculos grossos e dentes tortos pega meu cartão sem olhar, empurrando uma tigela de vidro com balas por cima do balcão para mim. Escolho um caramelo por educação e saio às pressas. Tess e Sammy estão na extremidade do píer, ao lado de um pequeno barco pesqueiro de lagosta. A proa se ergue em uma ponta alta, e há uma cabine ampla e coberta, escondida por janelas sujas. Dois homens estão ocupados passando armadilhas vazias para a popa rebaixada. — Cadê o Noel? — pergunta Tess quando me junto a elas. Um dos caras, um grandalhão de barba ruiva desgrenhada, responde sem olhar.


— Ainda deve estar dormindo. — Ele ri. — Juro, se este não fosse o barco do pai dele... — Ele ergue o rosto rapidamente e fica de queixo caído quando me vê. — Puta merda, você é a Lily Ross! — Um sorriso perplexo toma seu rosto. — Latham, você não vai... — Ele é interrompido por um tapa na nuca. — Nossa, pra que isso? O estapeador, um cara menor com covinhas e cabelo louro-claro bagunçado, sai do barco enxugando as mãos na bermuda cargo. Ele sorri para mim, estendendo a mão. — Desculpe por ele. Eu sou o Latham. O Capitão Óbvio aqui é o J.T. É uma honra conhecê-la. Somos todos grandes fãs. Eu adoro aquela música, qual é, sobre o verão...? — Isso diminui mesmo as opções — diz uma voz atrás de mim, fazendo a Tess abrir um sorriso. — Noel! — Tess corre pelo píer, e eu me viro. Primeiro vejo a caminhonete, velha e maltratada, com um amassado familiar em um dos lados. Quando a Tess o abraça, meus olhos encontram os dele, a minha nuca fica suada e começa a formigar. É o cara do cruzamento. — Sammy, Passarinho, esse é o Noel — diz Tess, com o rosto iluminado. — Ele é o único motivo para eu ter sobrevivido aos meus verões aqui. Noel sorri, apertando a mão estendida da Sammy. — Não sei, não. — Ele se vira para mim, e seu sorriso desaparece lentamente. — Oi — diz, em tom áspero. O sangue ferve nas minhas bochechas. — Oi — digo, alto demais. Tess olha de um jeito desconfiado do Noel para mim. — Vocês dois se conhecem? — Não exatamente — diz Noel, abrindo a caçamba da sua caminhonete. — Não tivemos muito tempo para conversa fiada enquanto ela destruía a minha caminhonete. Tess franze as sobrancelhas escuras, olhando o amassado ao lado da porta. — Foi você que fez isso? — pergunta ela. — Não falou que tinha sido uma batidinha de leve? Antes que eu consiga arranjar uma desculpa, o J.T. me interrompe, rindo: — Espere aí. Você levou uma batida da Lily Ross e só ficamos sabendo agora? Noel balança a cabeça, tirando algumas caixas da caçamba. Ele as empurra para o peito do J.T. — Segura a onda, tiete — implica ele. — Nós estamos atrasados. Tess e Sammy riem enquanto o Latham nos ajuda a subir na popa do barco. — Nós estamos atrasados? — J.T continua provocando o Noel. — Foi você quem não teve a menor pressa para chegar aqui hoje. O que aconteceu? A Madonna bateu na sua


traseira? Noel lança o sorriso tranquilo de quem poderia ter a última palavra, mas prefere não falar nada, e desce a armadilha que faltava para a parte de trás do barco. — Todo mundo pronto? — pergunta Noel. Ele liga o motor sem esperar uma resposta e saímos engasgando do píer, deixando o porto e a cidade para trás. Sammy e eu nos apertamos em um pequeno banco na popa, sentindo os respingos salgados do mar no rosto. J.T. e Latham se agacham diante de dois coolers enormes, enfiando grossas fatias de isca no que parecem espetos gigantes de churrasco. Tess está parada do lado do Noel, conversando. O urro do motor e o barulho do vento tornam impossível ouvir qualquer coisa, então me limito a observar a água. O sol bate em feixes cintilantes, mas o ar esfria conforme aceleramos, e fico grata por meu moletom gigante, ainda que não caia nada bem. Eu não andava em um barco como esse desde pequena. Meu avô me levava para pescar todo verão, quando estávamos na sua casa no lago. Ficar cercada pela água sob um céu tão amplo traz uma sensação especial. Eu tinha me esquecido de quanto sentia falta disso. Depois de um tempo, Noel desliga o motor e paramos ao lado de uma boia laranja com duas listras brancas. Os rapazes começam a trabalhar com movimentos cuidadosamente coreografados. Eles puxam a boia e a prendem a uma roldana que pende de um dos lados do barco. Uma gigantesca armadilha de metal ergue-se da água. Eles a puxam para a popa do barco enquanto Sammy, Tess e eu os rondamos, com água batendo nos pés. — Nada mau. — Latham sorri, erguendo a escotilha. A armadilha está cheia de lagostas azul-escuras de vários tamanhos que abrem e fecham lentamente as garras de aparência pré-histórica. Os garotos jogam as lagostas em coolers gigantescos guardados sob os bancos. Quando paramos na boia seguinte, Noel gesticula impacientemente pedindo mais iscas. Ele tira as luvas de borracha e vai até a parte de trás do barco, roçando em mim ao passar sem nem mesmo lançar um olhar. Algo em seu desinteresse ativo me deixa irritada. — O que vocês estão fazendo aí atrás? — grita ele, espiando o cooler de iscas. — Sonhando acordados? J.T. começa a preparar as armadilhas enquanto Noel se apressa para enfiar mais pedaços de carne pegajosa nos espetos. Eu o observo por um momento, com aquele mesmo instinto teimoso borbulhando dentro de mim. Desde criança, eu tenho essa necessidade de que os outros gostem de mim. Agora soa ridículo, mas nunca vai


passar. Talvez seja em parte por isso que sou tão bem-sucedida: meus fãs percebem que eu preciso deles tanto quanto eles precisam de mim. Vou até a popa e me ajoelho ao lado do Noel, arregaçando as mangas. O contêiner de plástico transborda com entranhas fedorentas de peixe e pedaços de casca de caranguejo. Eu o observo em silêncio por um instante, depois pego uma das longas agulhas e enfio as mãos na gosma pegajosa. — Cavala? — pergunto, erguendo um peixe pequeno e prateado. Noel olha para mim por cima do ombro. Seus olhos são ainda mais claros do que me lembro, de um azul quase transparente, e sua pele é lisa e sardenta. Ele pisca, surpreso. — É. Você pesca? — Pescava — digo, enfiando a ponta da enorme agulha no peixe e colocando-a na armadilha atrás de nós. — Com o meu avô. Pescava no gelo também. Sinto Noel me olhar enquanto espeto mais alguns pedaços. — Lily é cheia de surpresas — intromete-se Tess. — Você deveria vê-la durante a temporada de caça. Ela é uma fera com uma espingarda. Reviro os olhos quando o J.T. para de prestar atenção nas armadilhas. — Sério? — pergunta ele, sorrindo. — Não, não é — digo, espetando mais peixes. — Era só o que me faltava. Já até imagino as manchetes, Lily Ross: Armada e Perigosa. Noel ri, uma risada genuína, e sinto a empolgação rápida do sucesso. — Tudo bem — diz ele, levantando-se. — Jogue isso aí dentro e vamos em frente. Latham e J.T. enchem o contêiner, agora vazio, com iscas frescas, e o recolocam dentro d’água enquanto Noel liga o motor e nos leva para a boia seguinte, a centenas de metros de distância. Continuamos durante quase toda a tarde. Os caras brincam de assustar a Sammy com lagostas vivas, e o J.T. ensina a Tess a erguer as armadilhas. Sempre que as iscas acabam, eu ajudo o Noel. Ele não fala muito, mas no final das contas parece relaxar. Eu me pergunto se ele é como o meu avô, que só se sentia em casa na água. Depois da sexta parada, Noel nos direciona de volta para a terra. Nosso olhar se cruza enquanto estou no banco, e ele me chama com a cabeça. — Quer pilotar? — pergunta, sem olhar para mim. — Eu? — Claro. — Ele se aproxima um pouco e solta o leme reluzente. — Desde que me prometa não bater em nada. Acha que consegue? — Posso tentar — digo, rindo. Ele engata o motor e o barco dá um solavanco para a frente, espirrando um rastro


de ĂĄgua de cada lado. Chacoalhamos sobre o mar agitado, e estreito os olhos por causa do sol. Estamos cercados de mar por todos os lados, uma tela infinita espelhada, e de repente tenho nove anos em uma tarde de verĂŁo sem nada para fazer e ninguĂŠm para agradar.


9 81 dias para a turnê 23 de junho

ESTOU QUASE PEGANDO NO sono quando meu telefone vibra no criado-mudo. Deve ser o Terry, penso, com mais notícias de publicidade ruim, ou um acréscimo ao calendário da turnê de outono que vai me deixar nervosa. Talvez um cara da gravadora querendo saber quando esperar a música nova. Ou minha mãe, que ainda gosta de ligar para dar boa-noite. Seja o que for, pode esperar até de manhã. Trinta segundos depois, outra vibração. Suspiro e viro a tela para mim, iluminando a escuridão do quarto pequeno com o brilho azul. Duas mensagens de texto do Jed: Oi, e depois, Taí? Uma onda rápida de adrenalina percorre as minhas veias. Finalmente eu conseguira parar de me obcecar com a última ligação do Jed. Como ele não tinha deixado mensagem, eu me convenci de que fora um acidente. Uma discagem de bolso ou o escorregão de um polegar desajeitado. Mas agora existe uma prova. Ele finalmente quer conversar. Faz onze dias. Onze dias desde que a minha vida desmoronou, meu mundo virou totalmente de cabeça para baixo. Parece que foi ontem, e, ao mesmo tempo, há uma eternidade. Passo o dedo na tela, que se acende. Meus polegares pairam sobre o teclado. Será que eu respondo? Logo depois do término, seria fácil. Tudo o que o Jed precisaria dizer era que tinha cometido um erro. Que estava com saudades e queria que as coisas voltassem ao que eram. Podíamos recomeçar, fingir que nada aconteceu.


Mas agora é diferente. As coisas que ele disse — as coisas que foram impressas — vão continuar existindo muito depois que as revistas tiverem sido jogadas no lixo. Sempre que alguém pesquisar o meu nome, isso vai voltar à tona. Éramos um time, e não somos mais. Acabou. Jogo o telefone de volta no criado-mudo e me recosto pesadamente nos travesseiros. Estou quase enjoada. Como alguém pode ser duas pessoas ao mesmo tempo? Existe o Jed, o cara da sacada que eu mal podia esperar para conhecer, a pessoa que imaginei que seria minha alma gêmea para sempre. Jed, o cara que sabia exatamente como eu estava me sentindo, exatamente pelo que eu estava passando, o tempo todo. E existe esse outro Jed, no restaurante, brincando com a sopa. O Jed da revista, contando os nossos segredos, traindo a minha confiança, me fazendo parecer uma idiota. Solto um grunhido e jogo as cobertas para longe. Dormir está totalmente fora de questão. Do outro lado da janela, a lua está grande e cercada de uma névoa branca. Visto um cardigã longo por cima do pijama e enfio o diário e uma caneta no bolso da frente. Talvez consiga me distrair escrevendo. Desço cautelosamente e encontro meus chinelos e uma toalha. Do lado de fora, o ar está com cheiro de chuva. Os temporais da tarde nos prenderam em casa durante a maior parte do dia. Peguei o meu violão pela primeira vez desde que chegamos e brinquei um pouco enquanto a Sammy lia e a Tess tentava tirar um cochilo. Eu não tocava por diversão havia um tempo. Sem o estresse de tentar compor uma melodia, tudo começou a parecer natural outra vez. Sigo o caminho enluarado até a faixa de praia atrás da casa. É silencioso e meio assustador, e por um instante penso em voltar, mas algo no mar me atrai. Preciso sentir algo grande, maior que as dúvidas e ansiedades que vivem na minha cabeça. Algo poderoso e seguro. Eu me dispo, deixando as roupas e toalha em uma pilha na praia rochosa, depois entro no mar antes que possa mudar de ideia. A água é brutal e emocionante. Dá um choque no meu corpo e o deixa dormente na hora. Meu coração parece que parou de bater. Que bom, penso. Talvez, se congelar, ele pare de doer de uma vez por todas. Instantes ou minutos depois, quando me sinto à beira da hipotermia, saio tropeçando sobre as pedras em direção à praia. De volta à terra firme, me enrolo na grande toalha quente e admiro o luar. À frente, a costa se estende por quilômetros. Encontro um trecho de areia, me visto com certa dificuldade e me aninho no chão. Deito de barriga para cima e fecho os olhos. Passei a tarde inteira com um pedaço


de melodia na cabeça. Às vezes, parece que as músicas entram e saem da minha consciência feito borboletas provocadoras, desafiando-me a capturá-las. Quase tenho a letra, algo sobre amnésia matinal, sobre acordar em uma cama estranha e se lembrar, toda vez, de que está sozinho. Quando abro os olhos a cada dia, esqueço onde estou e por quê. É como conhecer a si mesmo pela primeira vez, só por um instante, antes que tudo volte. Não é só por estar em uma casa estranha. Pela primeira vez em anos, estou total e completamente solteira. Da última vez em que passei uma semana inteira sozinha foi quando acabara de me mudar para L.A. Arranjei um emprego de garçonete e só trabalhei um turno antes de pedir demissão, o que agora é conhecido por todos. Sebastian foi a minha primeira mesa. Ele pediu meu telefone com a conta e saímos na noite seguinte. Três semanas depois, fomos morar juntos. Não estou exatamente acostumada a ir com calma. A melodia, simples e meio melancólica, corre pelo meu corpo todo, mas assim que a encontro, ela some de novo. Abro os olhos para o céu estrelado, esperando que alguma coisa, qualquer coisa, me encontre.

Ouço um som de algo se movendo rapidamente. Meus olhos se abrem de repente; um sol fraco mancha o horizonte. Que horas são? Será que passei a noite aqui? Ouço um ofegar irregular e sinto uma língua molhada na bochecha. Eu me sento, assustada, mas logo tenho uma agradável surpresa: um cachorro preto e branco de pelo longo investiga a minha toalha. — Oi, bonitão. Acaricio o focinho do cachorro, que me lambe de novo, desta vez com mais agressividade, até me prender no chão, me sufocando com o pelo salgado e úmido. — Murphy! — chama uma voz na praia. Na fraca luz da manhã, vejo a sombra de uma pessoa correndo, uma cabeça subindo e descendo na beira da água. — Murphy, aqui! Estou rindo e protegendo o rosto com os braços para evitar mais avanços quando alguém aparece ao meu lado. — Murphy, chega — diz o cara: com firmeza, puxando o cachorro pela coleira e o empurrando para trás de suas pernas. Seu rosto está virado, mas reconheço o sorriso sutil na voz. Noel. — Desculpe. Em geral ele não é tão abusado.


Limpo a baba da minha bochecha e sorrio. — Sem problemas. O cachorro pega um dos meus chinelos com a boca e sai correndo para a água. — Murphy! — grunhe Noel. — Não acredito! — Deixa ele. — Eu dou uma risada. — Ele está se divertindo tanto. — Tem certeza? — pergunta Noel. — Ele vai acabar vendendo o chinelo no eBay ou coisa do tipo. A moral dele é muito questionável. — É — digo, observando o cachorro correr de um lado para outro na praia sinuosa, balançando o meu chinelo de um lado para outro feito um brinquedo de borracha. — Ele parece uma verdadeira ameaça. Noel ri, ainda sem fôlego depois de correr pela praia. — Quer sentar? — pergunto. — Parece que você disparou até aqui. — Não foi nada. Você deveria me ver quando ele rouba uma carteira. Ele se senta na areia ao meu lado. Eu brinco com a barra gasta da toalha e puxo as mangas do suéter para baixo. Noel observa a calma do mar, e eu dou uma espiada no seu perfil. Ainda me parece insano, quase cruel, que possa existir alguém tão incrivelmente lindo em uma ilha tão remota, e que eu acabe sentada ao lado dele, sozinha, em uma praia ao nascer do sol. Tento me distrair imaginando quantos anos ele tem. Seus olhos azuis são intensos e não entregam a idade, mas ele também tem um jeito de menino. Mesmo quando não está sorrindo, há uma leveza, como se estivesse relembrando uma piada que ainda não quer compartilhar. — Você mora por aqui? — pergunto, tentando alcançar o equilíbrio perfeito entre casual e educada. Noel aponta para um lado da praia, em direção a um aglomerado de casas em uma colina. — Logo depois daquele ponto — diz ele. — Tem uma trilha um pouco íngreme a partir da água. É onde as pessoas de verdade moram. — Pessoas de verdade? — Gente daqui — explica ele. — Não a Tess — esclareço. — Não a Tess. Nem você. Vocês são de outro lugar. — Sem dúvida — digo, ouvindo a autopiedade melancólica na minha voz e desejando poder apagá-la. Pigarreio. — E você? Sei que cresceu aqui. Mas ainda mora aqui o tempo todo? — Todo dia. Fui embora para fazer faculdade, mas durou pouco. Não é perfeito, ainda mais no inverno, mas depois de crescer aqui é difícil morar em outro lugar.


— Dá para imaginar. — Olho as nuvens bem definidas esgueirando-se ao redor do sol nascente. — Não consigo me lembrar da última vez em que passei tanto tempo ao ar livre. É maravilhoso ver como todo o resto parece distante. De um jeito bom. — É como se tudo tivesse uma proporção diferente — diz ele. — Simplificado ou coisa assim. Eu assinto. É exatamente como tenho me sentido. Desimpedida. Crua. Exposta. Ficamos quietos de novo por um instante, sentados em um silêncio tranquilo e confortável. É difícil acreditar que esse é o mesmo cara do acidente de carro, o mesmo cara do barco. Não sinto mais a necessidade insana de fazê-lo gostar de mim porque, percebo com um sobressalto, ele meio que está agindo como se gostasse. — Me desculpe por antes — diz ele, de repente, como se lesse minha mente. — Como assim? — pergunto, em um tom inocente. Ele suspira, reclinando-se para me olhar nos olhos. — Eu não fui exatamente o melhor anfitrião do mundo. Eu o observo com atenção, esperando para ver se ele vai dizer mais alguma coisa. — Dia ruim? — pergunto ao perceber que não vai. — Alguns — diz ele, com um sorriso hesitante. É um sorriso que reconheço de imediato: aquele usado quando seu rosto quer estar feliz, mas o resto do corpo não acompanha. Nos últimos tempos, tem sido uma peça constante do meu guarda-roupa. — E quando você... quando eu vi você... — Achou que eu era uma celebridade privilegiada que estava aqui para invadir sua ilha e estragar seu verão? Noel passa a mão pelo cabelo timidamente. Lindamente. — Não com tantas palavras, mas... algo assim. — Tudo bem — digo. — Eu entendo. Olho para o mar e vejo o Murphy brincando na espuma das ondas. Uma brisa sopra da água, e aperto o suéter ao redor do corpo. — Você dormiu aqui? — pergunta ele, como se notasse pela primeira vez que meu cabelo está cheio de areia. — Acho que sim. — Solto uma risada. — Eu saí ontem à noite para dar um mergulho e quando me dei conta... Os olhos dele se arregalam de surpresa. — Você entrou na água? Você é louca! — Sou? — Eu não nado nessa água até meados de agosto. — Noel balança a cabeça. — Ninguém nada. — Foi revigorante — insisto. — Você deveria experimentar.


Noel inclina a cabeça como se estivesse tentando descobrir se alguma dessas coisas é verdade. — Essas férias devem ser bem diferentes das que você costuma tirar, não é? Iates particulares. Piscinas de borda infinita. É mais a sua cara, aposto. — Você me sacou completamente — digo. — Ibiza ou morte. Ele ri, uma risada genuína que deixa minhas bochechas quentes de orgulho. Faz muito tempo que não preciso me esforçar tanto para arrancar uma gargalhada verdadeira de alguém. Percebo, surpresa, que gosto disso. — Minha irmã vai surtar — diz ele. — Prometi que, da próxima vez que eu sair com vocês, vou levá-la também. Ela é meio obcecada. — Sério? — Eu sorrio. — Sério — diz ele. — É estranho. Bom, ela tem catorze anos, mas é superinteligente. — E gente inteligente não gosta da minha música? — Não, eu não quis dizer... — Noel baixa a cabeça para os antebraços cruzados. — É por isso que tento não falar. Quase sempre acaba me causando problemas. — Eu gostaria de conhecê-la — digo. — Sua irmã. — Você vai conhecê-la. — Noel ergue a cabeça outra vez. — Ela deve estar escondida nos arbustos agora mesmo. Ou estaria, se não tivesse passado a noite inteira acordada fazendo dever de casa. — Dever de casa? Ela não está em férias de verão? — Ela faz aulas extras — diz ele. — Por diversão. Ela não é normal. — Ela parece incrível. — É, sim. — Noel olha para o céu azul e estica as pernas em direção ao mar. — Foi por causa dela que eu voltei. Fica claro que a história não termina aí, e tenho uma estranha sensação de que ele quer falar sobre o assunto, mas acho que já me intrometi demais por uma manhã só. — Bom, espero que você não tenha contado a ela que eu dirijo muito mal — digo, delicadamente. — Claro que contei. Também contei que você foi um ótimo imediato. Lanço outro olhar para ele, tentando reprimir um sorriso. — Eu posso viver com isso. Noel me olha por outro longo instante, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas em vez disso se levanta, enfia dois dedos na boca e assobia alto. — Vamos, seu lunático — grita ele para o Murphy, que corre até nós, ainda mordendo meu chinelo. — Devolva o sapato para a moça — ordena Noel e, incrivelmente, o cachorro obedece, deixando-o cair na areia entre meus pés. — Uau. Você o treinou muito bem.


— Você não acreditaria no dinheiro que gasto com petiscos — afirma. — Ele tem um paladar sofisticado. Só orgânicos. Coço as orelhas do Murphy. — Foi um prazer conhecer você — digo, e o cachorro me lambe uma última vez. — O prazer é todo dele — diz Noel, em um tom galante. — Fico feliz em ver que você está se mantendo longe da estrada. Aperto ainda mais o suéter ao meu redor. — Estritamente pedestre — prometo. Ele espana a areia da calça jeans escura e começa a andar, com Murphy saltando atrás para acompanhar. Ele está quase na água quando se vira e coloca as mãos em concha em volta da boca. — Ei! Posso perguntar uma coisa? — grita ele. — Claro! — respondo. — Quer sair uma hora dessas? Antes que eu consiga me controlar, começo a rir como não ria em muito tempo. Em parte porque é muito inesperado e não sei bem de que outro jeito reagir, mas também porque acabei de passar a noite na areia e um cara que mal conheço está gritando para mim em uma praia. E por algum motivo idiota, imprudente e familiar demais, não quero que ele pare. O Murphy volta correndo e cheira meus tornozelos, e Noel o segue. — Desculpe — diz ele. — Achei que ia ser mais fácil assim, caso você dissesse não. — Ok — digo, recuperando a compostura e finalmente me levantando. — Ok, você quer sair? — Claro — digo, embora tudo o que existe de racional em mim saiba que é o oposto do que eu deveria estar dizendo. O oposto da razão para estar aqui. A última coisa que preciso fazer. — Por que não? — Que bom. — Ele sorri, enrugando os cantos dos olhos azuis cristalinos. — Tipo, em um horário razoável, talvez? — Ele aponta para o meu pijama. — Você poderia usar roupas de verdade. — Seria bom. Noel assente, como se ainda estivesse convencendo a si mesmo de que eu aceitei. — Tudo bem. Ok. Então vamos sair. — Vamos sair. Ficamos ali, meio sem graça, assentindo um para o outro por um segundo até eu me lembrar de que o meu diário está no bolso do suéter. — Aqui — digo, entregando uma caneta a ele. — Escreva o seu telefone. Ele o anota de lado na margem de uma página em branco. — Mas, sabe, não saia passando para todo mundo — diz ele, em um sussurro falso.


— Estou tentando manter um low profile. — Palavra de escoteira — prometo. Ele ergue a mão naquele mesmo aceno preguiçoso e chama o Murphy de novo. Eles correm ao longo da água em direção ao distante aglomerado de casas. Eu os observo se afastar, oscilando pela costa, fazendo a curva e desaparecendo ao contornar uma península. Recolho as minhas coisas e volto pela trilha, balançando a cabeça. Lá vamos nós de novo.


10 80 dias para a turnê 24 de junho

QUANDO CHEGO EM CASA, me enrosco na cama, e mesmo tendo certeza de que nunca vou conseguir, durmo um pouco mais. Acordo lentamente algumas horas depois, e conforme as lembranças enevoadas daquelas primeiras horas da manhã começam a voltar, sou dominada por um intenso cabo de guerra emocional. Parte de mim está adorando: a sensação familiar e confusa que surge depois de conhecer alguém novo. Parecia que eu estava inerte, com a bateria fraca, e agora, depois de um pequeno encontro, um relance de atenção e interesse, fui completamente recarregada, meu espírito voltou à vida com um choque. Por outro lado, eu me sinto patética. Nunca me considerei alguém predisposta ao vício. Mas agora sei a verdade. Sou viciada em amor, e tive uma recaída. Rolo na cama e estendo a mão para pegar meu diário, folheando-o até encontrar a página na qual Noel escreveu seu telefone. Olho o declive dos setes, os traços rápidos e confiantes entre as linhas. Que tipo de pessoa ridícula fica com frio na barriga só por olhar dez números rabiscados na margem do seu caderno? Uma viciada. Esse tipo de pessoa. Fecho o caderno com força e puxo os cobertores para cima da cabeça. Não é tarde demais, digo a mim mesma, respirando fundo e de forma controlada. Não é só porque ele me deu seu telefone que sou obrigada a usá-lo. Ainda dá tempo de ser forte. Acho que eu simplesmente deveria ficar na cama. — Senhoras e senhoras — grita Tess do andar de baixo. — Sua carruagem aguarda! Ela parece estar gostando do seu papel autoimposto de guia de turismo/diretora


de atividades nos últimos tempos. Eu saio da cama com um grunhido e me arrasto até a porta. — O que foi agora? — Dou uma olhada sonolenta lá para baixo. Tess está usando uma camisa preta de mangas compridas com um símbolo pirata impresso sobre o peito, calça cargo e botas de caminhada. Ela parece o cruzamento entre uma escoteira e a baterista de uma banda de heavy metal. — Vamos sair para caminhar. Tem carrapatos. Usem camadas. — Carrapatos? — diz Sammy do seu quarto. — Não, obrigada. — Não foi uma pergunta — grita Tess. — Este verão para criar laços foi ideia sua, Samantha. Agora desça aqui e crie laços. Fecho a porta e vou para o banheiro, torcendo para um banho me revigorar. Depois, fico olhando o meu telefone, pensando em deixá-lo em casa. Mas sei que não é uma opção; Terry está finalizando as datas da turnê, e preciso aprovar vários detalhes. Ele vai ter um ataque de pânico se eu passar o dia inteiro incomunicável. Sinto uma agitação ansiosa no estômago ao pensar na turnê. Estamos aqui há quase duas semanas e ainda não compus nem uma única música. Pego o meu diário também. Se eu puder tirar alguns minutos nesta manhã, talvez consiga escrever alguma letra. Não é um disco inteiro, mas seria alguma coisa. Terry ficaria muito aliviado. E, para ser sincera, eu também. A porta da Sam ainda está fechada quando saio do quarto. Bato de leve e ouço algo se mexendo e um baque baixo. — Entre! — grita ela finalmente. Encontro a Sammy esparramada na cama com um livro aberto, o mesmo que está lendo desde que chegamos aqui. — Você não vem mesmo? O quarto da Sam é minúsculo e fica virado para a frente da casa, o único que não tem vista para o mar. Quando chegamos, era de imaginar que Tess ficaria com o quarto aconchegante nos fundos no qual ela dormia quando era criança, e eu fiquei com a suíte master no final do corredor. Eu não passei muito tempo no quarto que restara para a Sammy, e agora percebo que é mais um depósito, com um guardaroupa portátil e uma cama de solteiro sem cabeceira em um canto. — Você se incomoda se eu ficar? — Sammy me lança um olhar de desculpas. — Estou muito interessada neste livro. Eu me inclino por cima do ombro dela. — O que é? Ela o fecha. — Só uma história de amor bobinha. — A capa mostra um homem musculoso com


cabelo comprido abraçando uma mulher vestida de melindrosa diante de um hangar de aviões. — Mas é muito bem escrita. Eu solto uma risada e apoio a mão na cabeça dela. — Que bom que está gostando. Sammy nunca foi muito fã de livros. No ensino médio, eu a ajudava a escrever seus trabalhos; em troca, ela me levava para comprar roupas e me ajudava a escolher o que vestir nas noites de microfone aberto das quais eu participava em Madison. — Quer que a gente traga alguma coisa para você almoçar? — Desde que não seja sanduíche de lagosta — diz Sammy, fazendo uma careta. — Depois da nossa pequena pescaria, acho que nunca mais vou conseguir comer um daqueles pobres bichinhos. Eu aponto para a janela aberta. — O sol voltou. Não passe o dia inteiro dentro de casa. Sammy promete ao menos ler no deque, e eu corro lá para baixo e saio. Tess e Ray estão esperando no carro.

— Acho que a Sammy tem um segredo. Tess está alguns metros a minha frente na trilha, esmagando raízes e pinhões com as botas. Ela olha por cima do ombro com uma expressão cética. — A nossa Sammy? — pergunta ela. — A Sammy nunca guardou um segredo na vida. Lembra do fiasco da festa surpresa? Há alguns anos, o Terry, a Tess, a Sam e os meus pais se juntaram para organizar uma festa surpresa épica para mim na Disney. Houve uma dissimulação elaborada envolvendo a filmagem de um clipe, e pensei que estávamos apenas indo trabalhar. Mas, na noite anterior, Sammy deixou escapar que o imenso pavê que ela tinha encomendado (meu preferido) teria que ser pego de manhã. — Lembra que ela tentou disfarçar? — Solto uma risadinha. — Como se fosse uma festa surpresa para alguém da equipe que por acaso também estava fazendo aniversário e amava parques temáticos e pavê? Tess ri e para no meio da trilha, cruzando os braços sobre a cintura como se estivesse com cãibra. — Ah, cara. — Ela suspira, recuperando o fôlego. — Então, qual é o segredo? — Como assim?


Meu diário e o telefone queimam no bolso do moletom, e passei a manhã inteira pensando em mandar discretamente uma mensagem de texto para o Noel. — Você disse que a Sam tem um segredo — relembra Tess, com as sobrancelhas arqueadas de desconfiança. — Alguém está nervosa. — Desculpe — digo, passando por uma abertura entre as árvores. — Só acho impossível ela estar tão interessada em um livro. Estava meio estranha hoje de manhã. — Bom, então são vocês duas — diz Tess, correndo para me alcançar. Forço um sorriso. — Aquilo ali é mirtilo? — pergunto, em uma tentativa não muito sutil de mudar de assunto. Por sorte, Tess é uma hippie disfarçada, o lado escondido de seu status de garota urbana, formado durante seus verões na ilha e no acampamento. — É. — Tess assente, abaixando-se para pegar as minúsculas frutinhas enrugadas. Joga algumas na boca e me entrega o resto. São doces e ácidas ao mesmo tempo, e não têm nada a ver com as frutas molengas e sem gosto do mercado. — Uau — digo. — São incríveis. — Os melhores perfumes vêm nos menores frascos. — Com pouco mais de um metro e cinquenta, Tess adora tudo o que é pequeno. — Vamos — apressa ela. — Estamos quase no topo. Com o canto do olho, vejo um banco de madeira entre dois pinheiros. — Tudo bem se eu encontrar você lá em cima? Quero escrever uma letra antes que a esqueça. — Música nova? Tess se vira depressa, e há um brilho de alívio em seus olhos que faz meu estômago se contrair. Ela e Sammy tinham feito de tudo por mim, encorajando-me a tirar uma folga, recarregar as energias, mas lá no fundo também devem estar com medo. Em muitos sentidos, a minha carreira é a carreira delas. — Talvez — digo, com cautela, temendo me comprometer demais. — Ainda não tenho certeza. Tess assente para me encorajar. — Você consegue, Passarinho. Dou um sorriso tenso e a observo voltar para a trilha. — Vejo você no topo! — grita ela por cima do ombro, sumindo ao fazer uma curva arborizada. Sigo o caminho arenoso até a pequena clareira e me sento no banco com vista para o mar. A distância há várias ilhas menores, conectadas por trechos estreitos de pântano. Saracuras disparam de um lado para outro na costa rochosa, perseguindo-se


para dentro e para fora de piscinas rasas. Pego meu diário e fecho os olhos, ouvindo o suave barulho das ondas, o vento balançando as árvores. A melodia continua lá, mas quando tento colocar palavras nas notas, não dá certo. No final das contas, a coisa toda me escapa. Meus olhos se abrem de repente. Sinto uma agitação frustrada no peito. Sempre foi tão fácil. Desde nova, consigo compor músicas inteiras durante o banho. Começava com uma rima boba, um jingle chiclete, e antes que eu percebesse, os versos, a ponte, a coisa toda praticamente se escrevia sozinha. Mas, mesmo naquela época, quando eu não tivera ainda nem o meu primeiro relacionamento, as músicas eram sobre garotos: querê-los, me sentir ignorada por eles, sonhar com aquele que eu nunca deixaria partir. Agora, quando tento escrever novas palavras, fico perdida. Literalmente perdida, como se houvesse uma estrada que eu tomava sempre e que agora não consigo encontrar. Como se ela tivesse sido coberta de mato, asfaltada ou eu estivesse na parte errada da cidade. Olho as árvores, sentindo um grunhido baixo preso no fundo da garganta. Como vim parar aqui? E como faço para voltar? Sem pensar, pego o telefone e o diário. Abro na página que tem o número do Noel e o digito. Meus polegares voam sobre a tela.

Oi. É a Lily.

Aperto Enviar e prendo a respiração, antes de expirar em um enorme suspiro calmante. Sinto-me estranhamente cansada para alguém que está de férias há três semanas. Enfio a cabeça entre as mãos, pressionando o telefone na testa. Por que sempre faço isso? Por que, quando preciso de inspiração, quando estou empacada ou bloqueada, presumo que a atenção de um homem vá ajudar? Será que a minha capacidade de compor é inexoravelmente ligada à minha incapacidade de parar de pensar em garotos? Essa ideia me faz estremecer e me sentir fraca. O telefone vibra entre as minhas mãos, e eu me sobressalto.

Noel: Que Lily?

Meu estômago faz uma pirueta enquanto olho a tela. Que Lily?


O telefone vibra outra vez.

Noel: Brincadeira.

Dou uma risada e volto a digitar rapidamente.

Eu: Engraçadinho. Noel: Eu tento. E aí? Eu: A Tess me arrastou para uma caminhada. Noel: Onde? Eu: Não sei. Tem um rio. E mirtilos. Noel: Você precisa ser mais específica. Eu: Tem umas ilhazinhas fofas. Noel: Pease’s Point? Eu: Isso! Noel: Legal. Procure a cabana flutuante. Eu: O quê? Noel: Onde você está agora? Eu: Em um banco. Eu deveria estar compondo. Noel: Ande até a próxima curva. Tem uma placa de trilha e uma árvore que parece um macaco.

Olho por cima do ombro, como se ele pudesse estar me observando, e me levanto. Seguindo suas orientações, subo uma colina e faço uma curva, então vejo uma placa branca perto do chão. Ao lado dela há uma pequena árvore cheia de nós, com galhos contorcidos em formas inconfundivelmente símias.

Eu: Parece mesmo um macaco! Noel: Eu sei. Eu: Ok. E agora? Noel: Agora vire-se.


Eu me viro e olho para baixo. Há uma pequena baía entre dois aglomerados de coníferas gigantescas. No meio da água, flutuante e solitária, está uma minúscula cabana com telhas vermelhas e uma porta amarelo vivo. Ela fica em um deque quadrado e oscila delicadamente com a corrente, como se pudesse descer pelo riacho e sumir no mar. Sorrio ao erguer o telefone. Tiro uma foto rápida e a envio para ele. Eu: Adorei. Noel: Achei que você fosse gostar. Eu: Quem mora lá? Noel: Hoje em dia, ninguém. A cidade cuida dela. Noel: Quando eu era pequeno, um velho morou lá sozinho depois que a esposa morreu. Eles velejavam juntos, e quando ele ficou velho demais para cuidar do barco, quis morar na água. Então construiu a cabana flutuante. Eu: O que aconteceu com ele? Noel: Morreu um ano depois da esposa. No mesmo dia. Eu: Eles não deviam conseguir ficar separados. Noel: Talvez. Noel: Ou talvez fosse alguma coisa na água.

Solto uma gargalhada curta e forte, e três pássaros fogem dos arbustos ali perto. — Está rindo de quê? Eu me viro e vejo Tess, com as bochechas rosadas por causa da subida. Culpada, enfio o telefone no bolso. — De nada. É só o Terry. Ele me mandou umas ideias novas para o guarda-roupa da turnê. — Tão ruins assim? Tess adora implicar com as coisas malucas que a minha equipe de estilistas cria. Na última turnê, ela me chamou de “Barbie Chiclete” durante dois meses. Engulo em seco. Detesto mentir, mas digo a mim mesma que é por uma boa causa. Tudo de que eu não preciso é um sermão da Tess sobre garotos. Se alguém sabe que o que estou fazendo é errado, esse alguém sou eu. Mas existe uma pequena parte de mim que se pergunta se preciso disso, se sou incapaz de compor sem isso. — Sim, é absurdo — digo. — Mostro depois. Volto para a trilha. — Vamos — grito para ela. — Quero ver essa vista famosa. — Sigo em frente com o


coração martelando no peito e o telefone vibrando no bolso, prendendo a respiração até ouvir o som familiar das botas da Tess correndo atrás de mim.


11 77 dias para a turnê 27 de junho

— VOCÊ VAI USAR esses sapatos? Está tarde, quase dez da noite, e o Noel me encontra atrás da casa, no alto da frágil escada para praia. Estou com as minhas ankle boots de amarrar preferidas, e um dos saltos fica preso entre as tábuas do deque de madeira. — Você disse que não seria uma caminhada longa — sussurro. Uma parede alta de arbustos nos protege da visão da casa, mas me lembro de como a brisa do mar carrega as vozes para longe. — Não é longa — diz Noel, sorrindo. — Mas é... sabe... na natureza. — Ele aponta para uma pequena abertura entre as árvores, o começo de uma trilha que eu não tinha visto antes. — Por ali. Foi ideia minha que nos encontrássemos à noite. Noel sugeriu um almoço ou outro passeio em seu barco, mas havia o potencial problema de ser fotografada com um cara novo tão pouco tempo depois do término. E, sobretudo, eu não queria ouvir o que a Tess e a Sammy achavam. Elas diriam tudo o que eu já sei: é cedo demais, eu sempre faço isso, preciso de mais tempo para mim mesma. Mas ainda que eu precise compor músicas novas, também estou aqui para relaxar. Para me divertir. E conviver com o Noel — mandar mensagens para ele, pensar nele — foi a primeira coisa que me relaxou desde que cheguei. — Estamos quase lá — encoraja Noel, alguns passos à frente. O telefone dele ilumina a trilha entre nós, e Noel olha para trás com frequência para ver se estou bem.


Ele disse que queria me mostrar uma coisa, mas agora, andando de salto alto no escuro pelas pedras, penso que deveria ao menos ter contado ao Ray aonde estava indo. Já até consigo imaginar uma nova onda de manchetes: Largada no bosque: Lily Ross morta por um desconhecido Busca pelo amor mata cantora sonhadora Estou prestes a perguntar se não seria melhor voltarmos, mas a trilha termina de repente e as árvores se abrem em uma clareira na beira do penhasco. — O que você acha? — pergunta ele, estendendo o braço em direção a uma enorme lagoa sinuosa. O lugar é cercado por formações compactas de árvores altas com folhas delicadas, e a lua cintila na superfície da água calma e escura. É de tirar o fôlego, de um jeito surrealista, como se tivéssemos caído dentro das páginas de um livro ilustrado. — Nada mau, né? — pergunta Noel, me ajudando a dar outro passo íngreme em direção a uma plataforma mais abaixo. — Que lugar é este? — É a pedreira — diz ele. — Meu lugar preferido na ilha para nadar. — Dou uma rápida olhada no meu chemisier de cintura alta: minha segunda gafe de moda. — Não precisamos entrar — completa ele para me tranquilizar. — Eu só queria que você visse. Ele espana terra e agulhas de pinheiro de uma saliência quadrada no granito e me convida a sentar. — Às vezes eu venho aqui olhar as estrelas — diz ele, apontando para o céu, que está totalmente limpo, as constelações, acesas como outdoors. — É lindo. Noel some atrás de um aglomerado de árvores, fazendo as agulhas de pinheiro farfalharem conforme pisa na vegetação rasteira. Após algum tempo, ele reaparece carregado de galhos retorcidos, que joga em um ponto mais profundo na margem do bosque. É um buraco de fogueira, escavado no chão e chamuscado por anos de uso. — Precisa de ajuda? — pergunto. Desamarro rapidamente os cadarços das botas e as deixo na plataforma atrás de mim. — Cuidado — diz ele, olhando com preocupação para meus pés descalços. — Eu posso fazer sozinho. — Eu sei que pode — digo, seguindo-o com passos deliberados para dentro da vegetação fechada. Deixo o Noel fazer o trabalho pesado, mas encontro alguns ramos e gravetos menores para jogar na pilha. Depois de termos reunido gravetos o suficiente, Noel tira


uma caixa de fósforos do bolso e acende um. Não demora para a fogueira começar a crepitar. Sentamos juntos em um tronco caído, olhando silenciosamente as chamas, perdidos no ritmo das faíscas e estalos. — Acho que eu poderia ficar assim durante horas e ser feliz — digo, sentindo minhas pernas e minhas bochechas se aquecerem lentamente. — É hipnótico. — Melhor que televisão — concorda Noel. — Minha família ia acampar todo verão. Minha mãe fazia as melhores fogueiras. Pareciam mais instalações de arte. Dava quase pena de vê-las queimar. — A minha mãe não consegue nem acender as velas do meu bolo de aniversário — comento. — Ela não é muito aventureira. Sinto uma forte pontada de saudades de casa. Não de Nova York, mas de Madison, onde meus pais estão. Eu daria qualquer coisa para estar fazendo um passeio de carro com o meu pai, cantando junto com suas bandas preferidas: os Beatles, os Rolling Stones. Ou enroscada em um dos abraços apertados da minha mãe, sentindo seu perfume de gardênia. — Este lugar parece uma bolha — digo, olhando a água parada. — Quero dizer, a ilha. É muito fácil esquecer que existe qualquer coisa fora daqui. — Acho que é disso que as pessoas gostam na ilha — diz Noel. — Nos anos 1970, este lugar era um refúgio de artistas famosos. Acho que gostavam que ninguém soubesse ou se importasse com quem eles eram. Sinto o mesmo, ainda que eu não esteja completamente incógnita aqui. Eu me lembro do jeito que Noel me olhou da primeira vez que nos vimos, parados entre os carros batidos: como se eu pudesse ser qualquer pessoa. — Você sabia quem eu era quando bati em você — implico. — Mesmo tendo fingido muito bem que não. Noel espanta uma nuvem de fumaça cinzenta. — Acho que eu estava em choque — diz ele. — Deve estar no meu DNA. Aqui, a nossa atitude é realmente viva-e-deixe-viver, ainda mais com as celebridades. Estremeço. — Detesto essa palavra. — Por quê? — pergunta Noel, com um sorriso. — Você é a melhor dos melhores. Isso é digno de celebração. — Pode ser. — Meus olhos ficam embaçados quando olho para o fogo. — Apesar de não parecer que sou a melhor em nada nos últimos tempos. — Bloqueio criativo? — pergunta Noel. — Como adivinhou? — Muita gente vem para cá em busca de inspiração — diz ele, cutucando a


fogueira com um galho. — Não desista tão cedo. Ele cuida do fogo com movimentos rápidos e confiantes. Tem alguma coisa na postura da cabeça e dos ombros dele, no seu jeito de selecionar com cuidado as palavras, que torna quase impossível não confiar nele. Ele atira o galho no fogo e se inclina para trás, esfregando as mãos uma na outra. Seus dedos são grandes e calejados, mas as unhas parecem limpas. Em seu pulso, há um bracelete grosso de corda que parece já ter sido branco, mas agora é cinza, com costuras soltas e puídas. Ele me flagra olhando. — Sidney — diz ele, girando o bracelete no pulso. — A minha irmã. Ela fez para a gente de presente de Natal há alguns anos. Todos nós temos um. — Você tem outros irmãos? — Só eu e a Sid — diz ele. — E o meu pai. — E a sua mãe? — pergunto, sem pensar. Há um silêncio pesado, e sinto minha pulsação acelerar. É a primeira vez em anos que converso desse jeito com alguém. Existe uma familiaridade estranha e falsa quando se conversa com outras pessoas do show business. Antes que Jed sequer abrisse a boca, eu sabia tudo sobre sua infância na Califórnia. Sabia que seus pais eram famosos músicos de estúdio e que ele tinha um irmão mais velho na reabilitação. Conhecer alguém através da conversa, do zero, é surpreendentemente íntimo. — Ela não está aqui — diz Noel, baixinho, antes de acrescentar às pressas: — Não morreu. Foi embora há alguns anos. É pintora. Era professora do ensino médio. Todo mundo a amava. Mas ela sempre sentiu que deveria estar fazendo alguma coisa mais. Vendo mais. Ela viajou muito antes de nós nascermos. Eu me viro para olhá-lo. O fogo alaranjado palpita em seus olhos azul-claros. — Então ela simplesmente... foi embora? Noel dá de ombros. — Basicamente, sim. Foi difícil para a Sid. Meu pai passa a maioria das noites fora, no barco. Não era bom para ela ficar tanto tempo sozinha. — E foi por isso que você voltou? Para ajudar? Noel cutuca a fogueira com um graveto. — Não fazia sentido ficar longe. Parece que ele quer falar mais, e tenho a sensação de que esse assunto vai render. Como se pouco abaixo da superfície de cada silêncio houvesse uma conversa inteira, lutando para ser libertada. — Você sente saudades? — pergunto. Noel joga o graveto na fogueira e mexe nas mangas da camisa.


— Saudades de quê? — Da faculdade? Da vida fora da ilha? Ele olha para os pés, arrastando-os sobre uma camada de agulhas de pinheiro. — Desculpe — digo, de forma abrupta. — Eu faço perguntas demais. Ele gira o bracelete de corda de leve contra os ossinhos do pulso, ainda olhando para baixo. — Tudo bem. — Eu não era assim antes — confesso. — Precisei ser treinada. Se eu não fizesse perguntas, teria que respondê-las. Nos bastidores. Em eventos. Então aprendi a investigar. A maioria das pessoas gosta de falar de si mesma. Noel abre um sorriso tímido. — Acho que não sou como a maioria. — Ser quieto também é bom — digo. — Eu não sou sempre quieto. Só quando estou nervoso. Eu me lembro dele atrás do leme do barco, ou agachado diante dos destroços fumegantes de sua caminhonete. — Eu não imaginei que você seria uma pessoa nervosa. — Não sou — diz ele, espalmando as mãos no colo e soltando um suspiro exasperado, feito um menino pequeno frustrado com um quebra-cabeça pela metade. — Pelo menos não normalmente. Coloco a mão sobre a dele, entrelaçando meus dedos finos aos seus fortes. A pele dele é mais macia do que eu pensei, e está quente por causa do fogo. Ele me olha, quase tímido, como se pedisse permissão, seus olhos perscrutando os meus, e, antes que eu me dê conta, me aproximo e o beijo suavemente na boca. Nem mesmo paro para pensar — caso pensasse, com certeza perceberia que é um erro —, mas o instinto toma o controle. Noel não se afasta nem se aproxima, apenas retribui delicadamente o beijo. — Desculpe — digo, afastando-me de repente. — Tudo bem? Noel dá um sorriso malicioso. — Você faz mesmo muitas perguntas. Ele recoloca uma mecha de cabelo solta atrás da minha orelha e me beija de novo, desta vez com mais força, com vontade. Como se fosse isso o que ele estivesse tentando dizer a noite inteira.


12 76 dias para a turnê 28 de junho

DOMINGO, 2H35 DA MANHÃ Eu: Está acordado? Noel: Não. ... Noel: Haha. Eu: Não consigo dormir. Noel: Nem eu. ... ... Noel: Como está seu tornozelo? Aquele tombo foi feio. Eu: Eu não caí! Estava pulando. Noel: Parecia bem inchado. Eu: Meus tornozelos são assim mesmo. Noel: Lily Ross tem tornozelos gordos! Eu: Não conte para ninguém. Noel: Vai ser nosso segredo. ... Noel: Eu me diverti. Eu: Também.


... ... Noel: Tenho que sair de barco amanhã à noite. Eu: A noite toda? Noel: Quase toda. É a noite de folga do meu pai. Eu: Posso ir? Noel: É bem pesado. Eu: Eu aguento. Noel: Promete não julgar as músicas que eu escuto? Eu: Prometo. ... Eu: A não ser que você ouça aqueles rappers que se vestem como palhaços. Noel: Isso existe? Eu: Boa resposta.

O dia seguinte passa devagar, cada hora parece uma eternidade. Eu, Tess e Sammy ficamos sentadas à beira da praia e damos longas caminhadas. Sammy compra saladas sofisticadas no restaurante vegano e orgânico, mas mal consigo comer uma garfada. Só o que consigo fazer é pensar no Noel, no jeito que seus olhos brilhavam à luz do fogo, na sensação dos seus dedos entrelaçados aos meus. Minha música e a turnê nem passam pela minha cabeça. Viciada. Naquela noite, depois que a Tess adormece assistindo a um documentário sobre grafiteiros e a Sammy vai para o quarto, saio de fininho pela porta de trás outra vez. Noel e eu marcamos de nos encontrar em um deque mais afastado na praia. Quando chego lá, vejo seu barco oscilando no escuro. Noel está apoiado no mourão de madeira ao lado, com as mangas do suéter arregaçadas até os cotovelos. A água está parada e silenciosa, e o ar, frio. Desta vez me vesti de acordo com a ocasião, com um suéter largo de tricô, calça jeans e alpargatas Converse, mas o vento me descabela toda assim que chegamos em mar aberto. No mínimo, esta viagem me ensinou que não posso controlar minha aparência quando há elementos da natureza envolvidos. Ajudo o Noel a puxar armadilhas por algum tempo, mas, quando fico cansada, me sento no banco, observando-o trabalhar. Seus movimentos são lentos e quase graciosos, como se ele estivesse fazendo um tipo particular de ioga no escuro. Ele é tão


focado que tento não interrompê-lo. A princípio, o silencio é inquietante. É difícil ficar sozinha com meus pensamentos por tanto tempo sem ter ninguém com quem debatêlos. Mas me obrigo a escutar, a sentir os espirros de água salgada nas mãos e na testa, a observar o horizonte em busca de sinais da manhã. Depois de aproximadamente uma hora, eu desisto. — Posso perguntar uma coisa? Noel sorri de maneira sarcástica, fazendo o barco contornar uma passagem de pedras meio afundadas. — Não falar está te deixando louca, não é? — Como assim? Estou tão zen que quase atingi a iluminação. Daqui a pouco não vou passar de uma bola de luz cintilante. Noel desliga o motor quando paramos ao lado de mais uma boia. — Vá em frente — diz ele. — Mas já aviso que a minha vida é tão interessante quanto aquela pilha de rochas ali atrás. — Eu amo rochas. Noel solta uma risadinha. — Pode perguntar. Observo os músculos da parte de trás de seus braços se contraírem e relaxarem enquanto ele puxa a corda na água. — Você pensa em ir embora de novo? — pergunto. Noel estica o braço e prende a corda em uma roldana no alto. — Às vezes — responde, dando um puxão na corda para testá-la. — Eu gostava da faculdade. Penso em voltar. — Onde você estudava? — pergunto. — Boston — diz ele. — Massachusetts College of Art and Design. Eu queria fazer design gráfico. Tento imaginá-lo diante de um computador, fazendo qualquer coisa que requeira trabalhar entre quatro paredes. — Tá brincando — digo. — Faculdade de artes? — É. — Ele dá de ombros e se senta ao meu lado. — Por quê? Não pareço o tipo artístico para você? — Não, não é isso — digo, torcendo para não ter ofendido. — Eu só não fazia ideia. — Sempre gostei de desenhar — diz ele, em um tom constrangido. — Igual à sua mãe — digo, e me arrependo na hora. A postura dele muda, e ele se endireita, encolhendo os ombros como se escondesse alguma coisa de mim. — Não — diz ele, em um tom suave. — Na verdade, não. Ela era... Ela é uma


pintora. Eu só estava passando o tempo. Coisas idiotas. Enfim, eu não desenho mais. — Por que não? Ele coça com força a lateral do maxilar, olhando a lua. — Não tenho sentido vontade. Quase não tenho tempo. E, quando tenho, prefiro fazer outras coisas. Ele sorri para mim ao dizer isso, e sinto que está se abrindo outra vez. Eu me aninho a ele, com a cabeça apoiada à suave curva de seu ombro. — Ah, é? — provoco. — Tipo o quê? — Ah, não sei — diz ele, remexendo-se no banco e encostando a lateral da perna na minha. — Muitas coisas. Ele passa um dos braços por trás do meu pescoço e nos recostamos no barco, olhando a água. O céu está manchado de laranja e cor-de-rosa na linha do horizonte, e o sol força passagem por entre uma camada baixa de nuvens carregadas. — Tipo isso? — pergunto, indicando com o queixo o magnífico céu da alvorada. Estendo a mão e entrelaço meus dedos aos dele, puxando seu braço para que fique ainda mais apertado ao redor dos meus ombros. — Tipo isso. Ele sorri, e esperamos o show começar.

Noel me deixa no deque antes de ir descarregar no porto. Sei que deveria ir para casa dormir. Sammy e Tess vão acordar em breve, e não existe a menor chance de me deixarem passar o dia escondida no quarto sem fazer perguntas. Mas a minha pele está formigando e minha mente clareou de um jeito que não acontecia havia séculos. Em vez de voltar para a casa, vou até a pedreira. O céu ainda está naquele estado sonolento entre a escuridão e a luz do dia, e os pássaros acabaram de começar a acordar. Noto coisas acontecendo ao meu redor que nunca notei. Em geral, meu cérebro está sobrecarregado, lutando para acompanhar os compromissos, as sessões, planejando o que quer que esteja por vir. A semana que vem, o mês que vem, o ano que vem; o futuro é uma parte tão grande do meu cotidiano quanto o presente. Mas aqui eu me sinto exatamente onde deveria estar, como se tudo o que importa estivesse acontecendo agora. Eu me sento na borda da pedreira e estremeço ao frio do início da manhã, desejando que Noel estivesse aqui para me aquecer, para montar uma fogueira.


Sorrio, lembrando-me da solidez e da força do seu braço sobre meus ombros. Porém, é mais que isso. Ficar perto dele é muito fácil porque não preciso ser a Lily Ross profissional. Posso simplesmente ser eu mesma. Nunca tive isso nos meus outros relacionamentos, nem mesmo com o Sebastian, que conheci quando estava apenas começando. Noel é diferente dos outros. Provavelmente não sabe se vestir para um tapete vermelho, mas é um tipo diferente que faz com que eu me sinta eu mesma de um jeito que não sentia havia muito, muito tempo. As árvores farfalham suavemente ao se curvarem sob uma rajada de vento, e eu fecho os olhos. Este lugar é essencial; é tudo que preciso, nem mais nem menos. Manhãs tranquilas, café forte e um bom livro. É um trabalho honesto e um banho sob as estrelas. São estrelas, aos milhares, livres da competição da luz artificial. Eu poderia me acostumar a morar aqui, penso. Meus olhos se abrem de repente e, sem que eu precise me esforçar, a melodia volta, a que eu tinha perdido naquela manhã. Começo a cantarolar e sinto um eco vibrando no ar por toda a minha volta, feito um coro. De repente, as palavras também aparecem. É a música que comecei na praia, sobre acordar e não se lembrar de onde está nem por quê. Só que agora, há algo quase doce no esquecimento. Há algo em começar um novo dia, sem amarras nem nada para nos puxar de volta ao passado ou nos apressar em direção ao futuro. Uma luz amareloesbranquiçada surge entre as árvores, e penso no sol nascente: forte, esperançoso, pronto para tudo. A letra se derrama toda de uma vez só, exatamente como acontecia quando eu era criança, cantando para os ladrilhos azuis e brancos do banheiro dos meus pais.

O sol nasceu, um novo dia O mundo é diferente quando estou fugidia. Uma casinha no meio do mar Um pedaço de mim, uma paz a flutuar.

O sol se esquece, deixa passar Hoje, amanhã, construídos para durar. Um barco que nunca se afasta da costa A âncora que era minha resposta.

As armadilhas emaranhadas, no fundo do mar.


Faça uma fogueira, veja-a brilhar. As coisas que vou descobrir, as palavras que vamos falar. Baixar âncora, eu vim para ficar.


13 70 dias para a turnê 4 de julho

— SEU VIOLÃO AINDA vai estar aqui quando voltarmos. Tess estaciona o Pri diante de uma casa vitoriana no final da rua principal enquanto Sammy se estica até o banco de trás para pegar a cesta de piquenique. — Vamos — apressa ela. — Você adora paradas. Saio do carro e sigo as duas até a grande varanda da casa dos avós do Latham. O parapeito está coberto de estandartes patrióticos, e uma gigantesca bandeira pende sobre a porta de entrada. Sammy está certa: eu adoro paradas, e faz um bom tempo que não consigo assistir a uma com um rosto desconhecido na multidão. Mas quando a Tess anunciou que o Latham tinha nos convidado para assistir à comemoração do Quatro de Julho da ilha na privacidade da varanda da sua família, o que mais senti foi ansiedade. Ainda não contei para a Tess ou a Sammy que tenho saído com o Noel. Detesto fazer as coisas escondida, mas não estou pronta. As coisas com o Noel são tão fáceis, uma fuga sem estresse. E explorar a ilha com ele tem sido exatamente a faísca criativa de que eu estava precisando. Não quero me arriscar a perder isso ao divulgar o relacionamento, mesmo (ou talvez especialmente) entre minhas amigas mais íntimas. Faz uma semana desde aquela noite na pedreira, e as músicas têm vindo à toda. A primeira, “Âncora”, levou à segunda, “No mar”, uma balada narrativa sobre o casal da cabine flutuante. Imaginei a história de amor deles do começo ao fim: do cortejo de cidade pequena à rotina das manhãs de sábado. Então surgiu uma sobre um grupo de garotos e garotas que vi pescando no quebra-


mar atrás da nossa casa. Eles eram novos, deviam ter dez ou onze anos, e os observei por mais de uma hora. Fechei os olhos e ouvi a cadência de suas vozes enquanto procuravam tesouros nas pedras. A vida deles, sem as complicações do amor romântico, pareceu tão tranquila. Na hora do almoço, eu já havia transformado a cena em uma música chamada “Pulando pedras”. E, ontem à noite, depois que a Sammy e a Tess foram dormir, folheei um dos álbuns de fotos de família da Tess e rabisquei notas para uma canção chamada “Casa de veraneio”. É um relato meio ficcional de uma casa adorada que ajuda uma garotinha a atravessar o divórcio dos pais. É a primeira vez que escrevo diretamente sobre uma das minhas amigas, e sinto um nervosismo no peito quando penso em mostrá-la à Tess. Quando a Tess toca a campainha, noto a caminhonete do Noel estacionada no gramado. Sinto um frio na barriga. Planejamos fingir que nada está acontecendo, mas mesmo assim: mal posso esperar para vê-lo. J.T. abre a grande porta da frente e, com um gesto galante, nos convida a entrar no vestíbulo. — Senhoras. Sua barba desgrenhada foi domada e ele está vestindo uma bermuda cáqui e uma polo vermelha engomada que parece nova em folha. Eu presumo que é a primeira vez que se arruma este ano, e fico surpreendentemente tocada pelo esforço. Olho para a sala de estar atrás do J.T., formalmente mobiliada com poltronas estofadas e um candelabro de cristal. — Tem certeza de que podemos entrar? — pergunta Tess enquanto o seguimos até o segundo andar pela escadaria acarpetada. Portas francesas no topo da escada dão para uma sacada longa e estreita. Latham espera do lado de fora, usando uma camisa social listrada de vermelho, branco e azul. Quando chegamos, ele nos oferece cornetas. — Está brincando? — pergunta Latham. — A minha avó quase desmaiou quando eu contei que você vinha. Mas ela pediu uma foto. Quer exibi-la na igreja. Sorrio. — Vai ser uma honra. Onde ela está? — Eles moram na Flórida — explica Latham, pegando uma jarra na mesa da sacada e nos servindo chá gelado em copos de plástico. — Eles passavam os verões aqui, mas agora está ficando mais difícil viajar. Sinto uma rajada de ar atrás de mim e, ao virar, vejo Noel abrindo a porta. Dos três, é ele quem está vestido de forma mais casual, com uma camiseta branca lisa e uma bermuda verde-oliva. Quando ele passa, sinto o cheiro familiar do xampu dele e meu


coração dispara. Meu olhar recai sobre a curva entre seu pescoço e seus ombros bronzeados, onde descansei a cabeça na noite anterior. Abro um rápido sorriso para ele, que assente de um jeito conspiratório antes de cumprimentar a Tess com um abraço carinhoso. — Eu não sabia que você vinha. — Tess sorri, empurrando-o de brincadeira. — Você odiava esta parada. Dizia que era para turistas e crianças de dois anos. As bochechas do Noel ficam vermelhas, e ele dá de ombros. — Acho que estou tomando gosto — diz ele. — Ainda mais agora que não precisamos assistir com a ralé. Ele aponta para a rua, onde a multidão começa a se reunir, formando três fileiras de pessoas no meio-fio. Crianças em carrinhos lambem sorvetes de casquinha lambuzados enquanto seu pais desviam de buracos no asfalto, procurando o lugar perfeito para assistir à parada. Policiais fazem a patrulha, interrompendo o trânsito com simples barreiras. Ao longe, começo a ouvir o som dos tambores da banda marcial, o agudo dos trompetes e cornetas. Vamos para a extremidade da sacada que contorna a casa, nos esticando para ver a procissão se aproximar. As primeiras fileiras de músicos sincronizados aparecem marchando, ladeados por faixas coloridas e adolescentes com bastões. Atrás, um grupo de veteranos mais velhos sorri para a multidão, alguns empurrando outros em cadeiras de rodas, acenando para amigos e vizinhos nas laterais e jogando doces para as pessoas. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas. Meu avô e seus companheiros de exército sempre marcham na parada da minha cidade, e eu sempre o ajudava a se arrumar, torcendo para ele me dar um doce em segredo antes de entrar em forma. A independência sempre foi meu feriado preferido, embora nos últimos anos eu tenha adquirido tradições mais elaboradas. No ano passado, convenci Jed a dar uma festa épica na casa dele nos Hampton, com direito a tobogãs e fogos de artifício particulares sobre a água. Eram duzentas pessoas que eu mal conhecia, mas adorei cada segundo. É estranho o fato de eu conseguir ficar igualmente satisfeita estando toda arrumada como anfitriã de um evento sofisticado ou soprando alegremente uma língua de sogra de plástico enquanto aplaudo uma parada da cidade. Os garotos, que estavam ocupados se lembrando dos anos em que marcharam como escoteiros ou capitães de vários times esportivos, juntam-se ao nosso lado da sacada. Ao passar, Noel encontra a minha mão para apertá-la clandestinamente, e sinto uma onda de emoção. Ele assobia para duas senhoras que passam devagar em um carro vintage. Elas buzinam e acenam, e eu me flagro retribuindo com entusiasmo, como se estivesse na primeira fila do show de outra pessoa, animada por fazer parte


da plateia.

Anoitece. Os pássaros se aquietam, as cigarras cantam, o céu safira se torna roxo, depois preto. Estou sentada sozinha com meu diário na varanda telada, trabalhando em uma nova letra. Tive a ideia quando voltava da parada. A música se chama “Julho”, e fala das alegrias de abrir pacotes de doces, estrelinhas e fogos de artifício, e de como o feriado muda para uma garota conforme ela cresce. Fala de inocência e de encontrar o que foi perdido. Estou cantarolando a melodia distraidamente quando Tess bate na porta, com o cabelo escuro ondulado molhado do banho. — Tem certeza de que não quer vir? — pergunta ela, dobrando uma colcha fina e a enfiando em uma bolsa sobre o ombro. Sammy aparece atrás dela, linda em uma saia branca e uma blusa frente única listrada de vermelho e branco. Sua pele sardenta ganhou um leve bronzeado, e o cabelo arruivado está louro nas pontas. Os garotos nos falaram sobre um ponto na península para onde todo mundo vai assistir aos fogos. Achei que seria o lugar perfeito para mim e Noel escaparmos um pouco da atenção; poderíamos nos esconder atrás das dunas iluminadas e nos beijar em segredo ao som das explosões iluminadas e dos oohs e aahs da multidão na praia. Mas, depois que saímos, Noel me mandou uma mensagem dizendo que tinha outras ideias. Verifico a hora rapidamente no meu telefone, depois assinto para o violão, no banco estofado ao meu lado. — Temos trabalho a fazer — digo. — Mas vão vocês. Eu vou ficar bem. Sammy faz um sinal de ok e sai atrás da Tess. Quando os faróis do carro desaparecem, guardo o violão e fecho o diário. Meu coração está pesado. Por mais que eu tente evitar, eu e as minhas amigas estamos nos distanciando, e isso me deixa insegura, como se eu estivesse andando por uma corda bamba, sempre oscilando de um lado para outro, desesperada para me manter de pé. Porém, enquanto percorro às pressas a trilha iluminada pela lua, tentando enxergar o deque instável onde Noel e seu barco me esperam, a culpa e o desconforto desaparecem, sobrepujados por uma expectativa ávida e alegre. Noel acena, e começo a saltitar na direção dele, estendendo os braços como se estivesse voando. Quando o alcanço, envolvo sua cintura forte com os braços.


— Desculpe pelo atraso — digo, meio sem fôlego. — Saltitar é um trabalho pesado — implica ele, despenteando meu cabelo. Ele me ajuda a entrar no barco, e nos afastamos da costa. Há um aglomerado de barcos no porto, moradores do continente ancorados para ver os fogos. Noel navega entre eles até um ponto isolado e distante. Quando não há mais barco ou construção à vista, ele desliga o motor, e ficamos flutuando em silêncio nas águas calmas. — Meu pai nos trazia aqui — diz ele, abrindo uma garrafa térmica e passando-a para mim. Tomo um gole: sidra aquecida com toques de laranja e canela, perfeita para a noite fria. — Eu detestava. Todos os meus amigos iam para a praia ou para o porto. Mas ele dizia que fogos eram feitos para serem vistos a distância. Noel toma um gole da sidra e encaixa a garrafa térmica em um suporte. — E agora você concorda? — pergunto. Ele dá de ombros e responde: — Vamos descobrir. Não assisto aos fogos há anos. Eu bufo de brincadeira. — Nada de paradas, nem fogos de artifício? — pergunto. — Que tipo de americano você é? Noel abre um meio sorriso, mordendo o lábio inferior. — Acho que não levo muito jeito para isso. Não sei. Fiquei um período longe, e agora estou sempre ocupado trabalhando. Não tenho muito tempo livre. Uma inquietação incomoda meu estômago. Claro que ele anda ocupado. Está basicamente sustentando a família, criando a irmã mais nova. Nem todo mundo pode se dar ao luxo de planejar uma festa para cada ocasião. — Mas o principal é que eu não tinha ninguém com quem assistir — diz ele, dando uma cotovelada de brincadeira na minha cintura. — Acho difícil de acreditar. Tenho a sensação de que não faltam integrantes no fã clube do Noel Bradley. Ele esfrega a mão calejada na barba por fazer do queixo. — Já foi maior. — Não tenho medo de um pouco de competição — digo, inclinando o rosto para beijar a lateral de seu maxilar forte. — Desde que eu possa ser a presidente do conselho. Ele se vira para beijar minha boca, depois se afasta. Seus olhos estão cheios de alguma coisa, como se ele estivesse buscando palavras outra vez. Beijo rapidamente seu nariz. — Vamos entrar — digo, olhando a água escura e reluzente por cima do ombro dele.


— Entrar? — repete ele, com uma risadinha confusa. Mas já estou me despindo, tirando as camadas externas de roupa e sentindo o ar frio da noite na minha pele. Subo de sutiã e calcinha na borda do barco. Noel me olha, incrédulo, e sorrio para ele antes de erguer os braços e mergulhar. A água está gélida, um choque ártico entorpecente, mas, quando volto à tona, o ar está mais quente, e meu corpo formiga como se estivesse subitamente eletrizado. — Está incrível! — grito para o barco, mas Noel já está no ar, mergulhando por cima de mim. Ele desliza para a água às minhas costas, e, quando sobe para respirar, entrelaça as pernas às minhas. — Você perdeu a cabeça. Ele treme, me abraçando com força. Dou uma risada com a boca encostando em seu cabelo frio e molhado. — Provavelmente. — Obrigado — sussurra ele no meu ouvido. — Pelo quê? — Por isto. — Ele espirra água entre nós. — Por saltitar. Eu me afasto para olhá-lo. Seus dentes batem de leve, seus grandes olhos azuis investigam os meus. Um silvo agudo soa a distância, e um rastro de luz dispara da água. O primeiro estouro ecoa pela ilha, uma explosão branca cintilante no céu. Ficamos boiando e olhando de boca aberta, meio sorrindo, prontos para nosso show particular.


14 67 dias para a turnê 7 de julho

— ME CONTE ALGUMA coisa boa. A voz do Terry está comedida, como se ele estivesse se esforçando para não entrar em pânico. É cedo, e me pergunto quantos cafés ele já tomou, e se tem dormido no sofá de couro do escritório, como faz sempre que trabalha demais. — Bom, eu compus cinco músicas e acho que tenho nosso primeiro single — digo, em um tom indiferente, recostando-me à cadeira de praia no deque dos fundos. — Isso conta como bom? Tess e Sammy ainda não acordaram (ficaram até tarde na fogueira da praia ontem à noite), e estou tentando manter a voz baixa, mas os guinchos e berros animados do Terry provavelmente são altos o suficiente para acordá-las. — Eu sabia! — grita ele. — Sabia que você ia conseguir. Não me dou ao trabalho de lembrá-lo de que ele não parecia muito convencido da última vez que nos falamos. — Quando posso ouvi-las? Solto uma risada e apoio as pernas bronzeadas no parapeito do deque. — Eu gravei umas versões simples no telefone. Posso enviá-las agora. Terry grita de novo, e quase consigo ouvi-lo escrevendo e-mails para os caras da gravadora e a equipe de publicidade, planejando às pressas uma gravação. — Ótimo, ótimo — murmura ele, distraído. — E quando você volta? Meu sorriso se contrai, e eu pigarreio. — Esse é o problema — digo, com cautela. — Eu não volto.


Ouço as batidas dos dedos do Terry no teclado pararem e recomeçarem, um leve engasgo em sua respiração. — Como assim? — Quero ficar até o final do verão — digo. — As coisas estão indo muito bem, estou compondo loucamente e acho que seria... irresponsável voltar para a cidade agora. Prendo a respiração e espero. É tudo verdade; tenho me sentido mais inspirada para criar do que nunca. Ainda que às vezes pense no Jed, consegui encontrar um jeito de me manter focada, e as músicas novas têm nascido de um lugar completamente diferente. Um lugar ligado à minha vida, ao que me cerca, às minhas amigas, mas, sobretudo, à ilha, e não a um término de namoro ou a uma pessoa em particular. Mas, enquanto falo, ouço o tom instável da minha voz e me dou conta de que não estou sendo totalmente sincera. Há outro motivo para eu não querer ir embora tão cedo. Um motivo de um metro e oitenta, adoravelmente tímido e rusticamente lindo chamado Noel. E, mesmo que as músicas não sejam sobre ele, temo que esse novo poço de criatividade seque se o nosso relacionamento terminar de repente. — Eu estava pensando que poderíamos gravar aqui — continuo, ansiosamente. — Aí? — Terry solta uma risadinha. — Onde, na praia? — Por que não? — pergunto. — Este lugar... Espere só para ver, Terry. É muito especial. E eu tenho sentido... que estou pronta para fazer algo diferente. Pensei muito sobre o assunto. Terry suspira, o suspiro familiar da rendição. Ele sabe que já me decidi. — Você que manda — diz, enfim. — Vou cuidar de tudo. — Obrigada, Terry. — Sorrio. — Fico te devendo esta. — Que novidade — murmura ele, mas sei que ele também está sorrindo. Desligamos, e procuro a gravação mais recente de “Âncora” no celular. É perfeita para um single, animada o suficiente, mas diferente de tudo o que já fiz. Eu a envio para o Terry e corro para dentro de casa, já me sentindo melhor. Tess e Sam estão na cozinha quando chego, fazendo café e servindo colheradas de iogurte em tigelas de cerâmica. — Bom dia, flores do dia! Abro a geladeira para encher um copo do suco de laranja fresco que a Tess comprou na feira do último domingo. — Qual é o problema dela? — resmunga Tess para a Sammy, com os olhos inchados e ainda não totalmente abertos. — Eu tenho o oposto de problemas — digo, alegre. — Tenho ótimas notícias. — Encontrou um lugar com café de verdade nesta ilha? — pergunta Tess, estremecendo ao despejar o restante do saco que trouxe no filtro de papel.


— Acabei de falar com o Terry — digo. — E vamos gravar aqui! Sammy olha a cozinha ao redor. — Onde? — pergunta ela, como se eu fosse montar uma cabine de som na despensa. — Na ilha — digo. — Assim eu não preciso ir embora. Os caras vão trazer tudo de que a gente precisa. Eles só vão ficar uns dias... — Aqui? — pergunta Tess. — Nesta casa? Eu me viro rapidamente para ela. — Claro — digo. — Não tem problema, tem? Uma série de expressões que não consigo interpretar bem passa pelo rosto dela. — Ou na pousada da cidade — completo, recuando. — Onde você quiser. Só achei que vocês ficariam felizes por não precisarmos voltar correndo para a cidade. Sammy assente para a Tess de um jeito encorajador. — Nós estamos felizes. Noto os ombros da Tess se curvarem de um jeito quase imperceptível. — Claro que estamos felizes — diz ela, finalmente. — Vai ser divertido. — Ótimo — digo, analisando a varanda telada por cima delas. — Eu estava pensando que podíamos gravar ali. Preparar as coisas vai dar um pouco de trabalho... — Deixe com a gente — diz Sammy, engolindo o resto do seu iogurte. O telefone da Tess vibra na mesa, e ela o pega. Pela testa franzida, sei que é o Terry. As engrenagens estão em movimento, o trabalho vai começar.

***

Terry chega no primeiro barco na manhã de quinta-feira. Ray e K2 me levam ao porto para encontrá-lo, e me sinto como no dia de visitas do acampamento, olhando a vagarosa fila de carros em busca do Honda Civic azul-marinho dos meus pais: em parte alegre por ver um rosto familiar e em parte ansiosa, sem saber se estou pronta para a colisão de dois mundos. O barco encosta lentamente no ancoradouro. Terry está atrás da corrente do deque inferior, de calça jeans escura, camisa de linho branco e bolsa carteiro de couro em um dos ombros. Mesmo estando do outro lado do estacionamento vejo que seu cabelo, em geral penteado com gel, está meio comprido, e que ele está com olheiras escuras e cansadas. — Você não poderia ter ido se esconder nos Hampton? — vocifera Terry ao andar


depressa até o carro. Eu o abraço com força. Passei tanto do meu tempo aqui tentando evitar o Terry e suas perguntas que não percebi como senti saudades dele. Ele reclama mais que qualquer outra pessoa que eu conheço, mas acreditou em mim desde o começo. Desde o nosso primeiro encontro em uma noite de microfone aberto em Madison, até os primeiros e brutais dias de assinaturas de contratos que viravam a noite e encontros com os fãs em todos os estados. Ele me ajudou em todos os passos da minha carreira, todos os altos e baixos. Depois dos meus pais, ele é a pessoa na qual eu mais confio no planeta, e por mais estranho que seja ser empurrada de repente para o modo profissional, a presença dele me causa uma sensação boa. Terry aperta as mãos do Ray e do K2, e nos sentamos no banco de trás. Eu entrego a ele o café que compramos no caminho. Me sinto um pouco casamenteira, participando do primeiro encontro entre o Terry e a ilha. Abro a janela e respiro fundo, tentando ver a cidade peculiar e a costa sinuosa através dos olhos dele. — Você vai adorar de verdade este lugar — digo, radiante, enquanto o carro chacoalha ao passar por um buraco. — Lil, eu não me importo se você precisar morar em uma van embaixo da ponte do Brooklyn — diz ele, limpando uma gota de café do joelho da calça jeans. — Se é o lugar que faz você compor músicas como estas, é o paraíso. — Sério? É sempre estressante receber feedbacks, sobretudo do Terry. Quando começo a criar material novo, é tudo muito misterioso. Se não acerto de primeira, sempre tenho medo de não conseguir mais recuperar aquela inspiração. Terry assente com segurança. — Sério. — Ele esfrega os olhos e suspira. — Preciso admitir: você assustou todo mundo. Achei que estava dando uma de Britney Spears. Dou um empurrão no ombro do Terry enquanto saímos da cidade e começamos a subir a longa estrada de terra para a casa. — Não pensou, não. Terry aperta meus dedos. — Não — diz ele. — Não pensei. Mas também não sabia que você era capaz disso. Sorrio. — É tão bom assim? Sempre sinto arrepios quando ouço alguém falar da minha música como algo público. Coloco tanto de mim nas composições que às vezes me esqueço de que outras pessoas vão ouvi-las. — Aqui estamos — digo quando o K2 para devagar, levantando poeira ao nosso


redor. Terry se inclina sobre mim para ver melhor. — É aqui que você está hospedada? — pergunta ele, com um tom incrédulo quando saio do carro. Subo a escada irregular da frente com pulinhos animados. — Não é fantástica? — É alguma coisa... — resmunga Terry, entrando atrás de mim. Sam está na cozinha fazendo waffles e Tess está esparramada no sofá com seu telefone. Ambas se sobressaltam ao nos ver, correndo para a entrada cheia de gente. — Terry! — guincha Sam, abraçando o pescoço dele. Tess tira a bolsa do Terry de seu ombro. — Diga que você trouxe provisões. Terry vai diretamente para a pequena cozinha e para diante da pia, fazendo um gesto dramático ao jogar no ralo o conteúdo viscoso do copo que comprei para ele. — Nada temam, senhoritas — diz ele, enfiando a mão na bolsa e tirando um saco de papel de sofisticados grãos de café importados que ele encomenda no seu escritório toda semana. — O Terry chegou.


15 65 dias para a turnê 9 de julho

ASSIM QUE O PESSOAL da gravadora (um produtor e um engenheiro de som) chega naquela tarde, o mundo começa a girar em ritmo acelerado. Laptops são abertos, níveis são ajustados, microfones são montados em cabines improvisadas. Sinto uma nova energia me percorrer, aquela emoção gratificante de tudo se encaixando. O produtor, Nigel, é novo na gravadora, e nunca trabalhei com ele. Nigel é de Londres, e conversamos por um tempo sobre lugares onde eu me apresentei e onde comer o melhor peixe com batatas fritas. Gosto dele logo de cara; está cheio de ideias para a música. Mesmo que eu já tenha feito isso um bilhão de vezes, ainda é empolgante ver todo mundo animado com algo que eu compus. Na manhã seguinte, nós nos instalamos na varanda lateral telada. Nigel quer gravar um pouco do som ambiente autêntico, como o das gaivotas e das ondas. Ele me pede para tocar a música exatamente do jeito que a compus. Tess corre até o meu quarto para pegar meu violão enquanto Sammy abastece a varanda com petiscos e água. Ela coloca uma chaleira no forno para preparar meu chá de gengibre preferido e abre uma caixa de saquinhos de mel. Eu chupo um para proteger minha garganta e abro meu diário na página da letra. Quatro horas e mais de trinta takes depois, fazemos uma pausa para almoçar. É incrível como o tempo voa quando estou gravando. Gravar uma música é muito mais que apenas cantá-la no microfone. Há decisões a serem tomadas sobre tudo, da instrumentação aos vocais de apoio e ao “tom” geral. Sempre começo com uma ideia básica sobre o que quero. Para “Âncora”, sei que quero algo ousado e confiante. É uma


balada, mas não uma canção de amor triste. É sobre saber o que quero e como conseguir. Nigel entende perfeitamente. Olho pela janela e vejo Sammy na cozinha, correndo para preparar a mesa. Ela passou a manhã toda assando legumes e uma galinha inteira de uma fazenda no final da estrada. Eu a observo servir cuidadosamente a comida, esforçando-se para deixar tudo apresentável. Bato no vidro e aceno, mas ela nem olha. — Você está bem? — pergunta Tess quando os caras se levantam para se alongar. O engenheiro de som sai para fumar um cigarro enquanto Terry e Nigel retornam ligações e verificam e-mails na varanda. — Estou ótima. — Sorrio. — Como está o som? — Fantástico. — Tess assente com entusiasmo exagerado. — Realmente incrível. Eu a olho com desconfiança. — Seja honesta. Ela abre um sorrisinho. — Sinceramente? Não ouvi nem um único take. Estava ajudando a Sammy a coordenar restrições alimentares e acabei de voltar de uma busca pela ilha inteira atrás de água com gás. — Ela se aproxima e sussurra, em um sotaque falso: — Encontrei club soda, mas o Nigel acha Pellegrino mais palatável. Dou uma risada. Tess também, mas para de repente. Sigo o olhar dela até a mesinha de centro, onde um porta-retratos com uma foto do seu pai e seu irmão na rede do quintal foi derrubado. Ela se abaixa para pegá-lo, limpando o vidro e levandoo embora da sala. — O almoço está pronto — grita ela ao se afastar. — Não se esqueçam de beber água. Eu me levanto e estico os braços. Passei a manhã inteira sentada na mesma posição, e meus ombros estão cheios de nós. Quando Terry volta de fininho, estou no meio de uma série de alongamentos que me lembra da aula de ioga da Maya. — Então, quando vamos conhecer essa âncora? — pergunta ele, deixando-se cair na poltrona velha ao lado da grande janela. — Como assim? Eu me sento de costas para ele, me esticando para tocar os dedos dos pés. A sensação é boa, mas estou basicamente tentando esconder as manchas vermelhas que brotam no meu pescoço e rosto. — A letra — pressiona Terry. — “A âncora que era sua resposta...” — Ah. — Dou uma risada meio alta demais. — É só a ilha. Já disse, estou apaixonada por este lugar. Deito de barriga para cima com os joelhos dobrados, mexendo os dedos dos pés


descalços nas tábuas lisas do chão. Terry para diante de mim com os braços cruzados. — O que foi? — pergunto, talvez em um tom um pouco ríspido demais. — Nem toda música que eu componho precisa ser sobre mim. A verdade é que estou envergonhada. Eu queria compor um disco totalmente livre de influência masculina, e embora nenhuma das músicas novas seja explicitamente romântica... não é muito difícil perceber que Noel está nas entrelinhas, explodindo por entre os versos de cada canção. — Qual é — diz Terry, revirando os olhos. — Você não conseguiria escrever uma letra falsa nem que a sua vida dependesse disso. Ele cutuca a minha cintura com a ponta do mocassim de couro brilhante. — A ilha pode ser a sua âncora, mas alguém fisgou você. — Ele sorri para mim a caminho da cozinha. — Esteja você disposta a admitir ou não.

Nas primeiras duas noites de gravação, ficamos acordados até tarde, trabalhando e conversando com o Terry. É como nos velhos tempos — falamos da turnê e do que virá depois, novos produtos de divulgação e um disco de Natal —, mas no terceiro dia já estou com saudades do Noel. Antes da chegada deles, avisei que ia ser uma loucura, mas mal tenho conseguido fazer algo além de enviar uma mensagem de boa-noite. No sábado de manhã, acordo antes de todo mundo e saio de fininho pela entrada. K2 está sozinho no carro, e peço a ele para me levar até o porto. Noel passou a noite inteira no barco e deve estar chegando agora. Quando chego às docas, ele já começou a descarregar; está de costas para mim enquanto deposita as caixas lotadas no deque oscilante. — Surpresa! — anuncio, e ele se sobressalta. — Desculpe — digo. — Eu queria estar aqui quando você chegasse. Ele se apruma e enxuga a testa molhada com a mão. É cedo, mas o sol já está forte. Seus olhos estão cansados e vermelhos, mas ganham vida quando ele me vê. — Aí está ela — diz, inclinando-se para me dar um beijo salgado. — Eu devo estar cheirando a cocô de peixe. — Meu perfume preferido. — Pulo para dentro do barco e o sinto afundar sob meu peso. — Posso ajudar? Noel aponta para uma armadilha na extremidade do barco. — Empurre aquilo para cá — diz ele, e é o que faço. — Como estão as coisas?


— Ótimas — digo. — Muito trabalho, mas acho que vai valer a pena. Os caras estão adorando este lugar. Você precisava ter visto todos eles no mar. Ontem, entre as sessões, levamos Terry e os outros para uma prainha na extremidade da ilha, achando que estaria deserta. Na hora que fomos embora já havia uma multidão fazendo fila, e acabei autografando de tudo, de Frisbees a bermudas, e até a coleira de um golden retriever. — Parece que eu fui o único a não ver — brinca Noel. Ele sorri, mas há algo novo e inseguro na sua voz. — Ei. — Toco seu ombro quente de sol. — Sei que a chegada deles deixou tudo meio caótico. — Meio? — Noel joga a última armadilha na doca. — A ilha não tem tanto assunto desde que os Kennedy vieram passar um dia aqui nos anos 1960. — Ele balança a cabeça. — Seus produtores não são exatamente discretos. — Eu sei — digo, em tom compreensivo. — Mas eles vão embora logo. Noel assente, nem um pouco convencido. Passo os braços ao redor do seu pescoço e o puxo para um beijo rápido. — Nada mudou — digo. — É só trabalho. Juro. Por cima do ombro do Noel, vejo duas mulheres de meia-idade na calçada, segurando as câmeras dos celulares no ar. — Droga — sussurro, baixando os braços. Noel se vira para investigar e uma expressão sombria toma seu rosto. — Eu avisei — diz ele, desanimado. Enfio as mãos nos bolsos do meu short jeans. — Vai passar — digo. — Depois que todo mundo for embora, vou voltar a ser uma garota comum. — Você nunca conseguiria ser comum — diz ele, com um sorriso abatido. Pego a mão dele para um aperto rápido e prometo ligar quando todo mundo for embora, depois volto correndo para o carro, onde K2 espera. Quando me fecho dentro da quietude refrigerada, ouço as palavras do Noel ressoando em meus ouvidos. Você nunca conseguiria ser comum. Quando ele disse, pareceu um elogio. Mas agora não tenho tanta certeza.


16 59 dias para a turnê 15 de julho

— VAI SAIR? Eu congelo com uma das mãos na porta dos fundos. As tábuas do piso rangem sob meus pés. Sammy está na base da escada, de pijama, um conjunto listrado fofo que comprei para nós três no Natal passado. Seu cabelo está preso em um coque alto e bagunçado e ela está de óculos. É tarde, já passa da meia-noite, e ela anunciou que ia dormir há horas. — Achei que você estava dormindo — digo. Sammy me olha ao abrir a porta da geladeira e pegar um jarro de limonada. — Eu fiquei com sede. E você? Vai caminhar de novo? Desde que Terry e os outros foram embora, três dias atrás, prometendo voltar assim que eu tivesse mais músicas para gravar, tenho saído escondida para encontrar Noel todas as noites. Nas poucas ocasiões em que a Tess ou a Sammy perceberam, falei que ia sair para caminhar, procurar mais inspiração. O que não é totalmente mentira. — É. — Faço que sim, apertando meu longo cardigã de tricô ao redor do corpo. — Terry está me pressionando para terminar esse disco. Ele disse que poderíamos lançar as primeiras cinco músicas como um EP especial da turnê, mas eu prefiro um disco totalmente novo e completo. Se eu conseguir manter este ritmo, não vai ser difícil. Desde que eu não me distraia. Olho discretamente pela janela dos fundos. Noel já está na praia. Ele prometeu fazer uma fogueira, e temos planos de dormir ao ar livre. Sob a calça jeans, estou


usando duas meias-calças térmicas, e Noel vai levar cobertores. Sei que deveria estar compondo, e passei o dia trabalhando em novas melodias, mas a ideia de ficar uma noite inteira com ele, de conversar durante horas e acordar com o sol nascendo sobre o mar... é maravilhosa demais para deixar passar. Afinal, eu vou embora em três semanas e meia, e ainda não conversamos sobre o futuro. O dele. O meu. O nosso. — Mal posso esperar para ouvir o que você está compondo. — Sammy sorri, e há algo tão crédulo em seus olhos que meu coração dói. — Qual é o nome? Eu me viro e vejo a Tess vindo da sala de estar, o cabelo escuro em um ninho amassado por dormir no sofá. — Qual é o nome de quê? — Desculpe — diz Sammy. — Acordamos você? Tess resmunga e anda feito um zumbi até a porta da geladeira, que ela abre e fecha sem tocar em nada lá dentro. — Passarinho vai sair para caminhar — explica Sam. — Eu estava perguntando sobre o que ela está compondo. Tess assente e faz um sonolento sinal de positivo enquanto se dirige até a escada. Eu volto para a porta, mas algo não me deixa ir embora. Toda vez que saio sem dizer a elas aonde estou indo, é como se o abismo entre nós aumentasse. Não tenho conseguido parar de pensar no que Terry falou. Não quero ser falsa. Nem nas músicas nem com as minhas amigas. — Gente — digo, em voz baixa, ainda de costas para elas. — Preciso contar uma coisa. Ouço os passos da Tess pararem na escada. — O quê? — pergunta Sammy. Ela entra imediatamente no modo babá, pegando uma cadeira e me fazendo sentar nela. — Está tudo bem? Tess reaparece na porta, apoiando-se à parede com os olhos semiabertos. — Alguma chance de esperar até amanhã? — Na verdade, não. — Eu suspiro. — Não consigo. Coloco as mãos no tampo da mesa e estico os dedos na toalha xadrez. Há um rastro de respingos de uma antiga mancha de café entre meus polegares. Respiro fundo. — Estou saindo com uma pessoa — digo, rapidamente, como se arrancasse um Band-Aid. Ergo os olhos para a Sammy, e vejo a confusão se espalhar por seu rosto. — Eu quis contar para vocês na hora, mas falei tanto sobre ficar sozinha, e sabia que iam achar que estava cometendo um erro... — Espere — interrompe Tess, repentinamente alerta. — Como assim saindo com uma pessoa? Diga que não é o Jed. — Não é o Jed — garanto.


Faz semanas que ele me mandou as mensagens, e consegui quebrar o hábito diário de me perguntar o que ele está fazendo, se ou quando vai entrar em contato outra vez. Mas ouvir o nome dele ainda faz meu coração parar. — Alguém de Nova York? — pergunta Sammy. Balanço a cabeça. — Uma pessoa daqui. Tess ri. — Uma pessoa daqui? Você não conhece ninguém daqui. E quase não sai de casa, a não ser quando vai caminhar. Volto a olhar para as minhas mãos, culpada. Tess puxa a cadeira ao meu lado e se senta com um baque. — Você não sai para caminhar, não é? Balanço a cabeça outra vez. — Eu sabia! Sabia que você estava estranha. Não falei que ela estava estranha? — pergunta Tess para a Sammy. — Quem é? — pressiona Sammy. Pelo tom de voz, percebo que, embora esteja magoada por eu ter mentido, há uma parte dela empolgada para ouvir cada detalhe. Sammy e eu trocamos segredos e fofocamos sobre nossas paixões (a princípio, basicamente sobre as dela) desde que tínhamos doze anos. Praticamente temos nossa própria língua. Não é com Sammy que estou preocupada. — É o Noel — digo, em um sussurro cuidadoso. — Noel? — pergunta Tess, erguendo as sobrancelhas. — O meu Noel? Faço que sim, com o rosto tenso. — Desculpe — digo, erguendo o rosto para encará-la. Sua expressão está congelada entre o riso e a descrença. — Eu deveria ter contado assim que começou. — Que foi quando? — Tess já está fria e distante, com os olhos vidrados no chão. — Não sei. — Dou de ombros. — Logo depois que saímos de barco, acho. — Isso foi há três semanas — diz Sammy. — Você passou as últimas três semanas mentindo para a gente? Qualquer traço de animação que houvesse em seus olhos desapareceu. A última vez que menti para a Sammy deve ter sido no nono ano. Ela queria sair escondida para ir ao cinema e eu falei que não estava me sentindo bem, quando, na verdade, estava com medo de ser descoberta. Então, fiquei em casa e fiz uma maratona de episódios antigos de Gilmore Girls com a minha mãe, o que era basicamente a minha ideia de uma sexta-feira perfeita. — Desculpe — sussurro. — De verdade.


— Não peça desculpas para nós — diz Tess, abruptamente. — Era você quem queria uma mudança. Você disse que estava cansada de emendar relacionamento em relacionamento, de se magoar e escrever sobre isso. — Ela se levanta, arrastando a cadeira no piso de linóleo. — Se quiser continuar se perdendo e se apaixonando pelas pessoas erradas, o problema é seu. — Me perdendo? — pergunto. — Achei que você gostasse do Noel. — Não tem nada a ver com o Noel! — grita Tess, virando-se rapidamente. Não consigo me lembrar da última vez em que ela levantou a voz para mim. Na verdade, não sei se já aconteceu. — Tem a ver com você. Somos as suas melhores amigas. As únicas pessoas que não puxam o seu saco e dizem o que você quer ouvir o tempo todo. Não é? — Claro — balbucio. — Mas... — Mas o quê? Mas só quando você pede? — Tess se aproxima de novo, com as mãos nos quadris. — Não é assim que verdadeiras amizades funcionam, Passarinho. Amigos verdadeiros dizem a verdade, seja ela fácil de ouvir ou não, e a verdade é que você não está pronta. Engulo em seco e olho para a Sammy em busca de apoio. Ela estende a mão e aperta meu braço. — Tess está certa — diz ela. — Você não está pronta. Falou que queria que as coisas fossem diferentes. Passar do Jed para outra pessoa antes de ter tempo de descobrir o que você quer, para você... é exatamente o que você sempre faz. Cruzo os braços, meu coração martelando no peito. Era isso o que eu temia. Nenhuma das duas tem a menor ideia de como as últimas semanas foram para mim, ou como o Noel, como esta ilha inteira, me faz sentir. Finalmente sou capaz de dar um passo para trás e enxergar com clareza. Estar com o Noel me ajudou, não apenas pessoalmente, mas criativamente. Minha vida está diferente. Minha música está diferente. Mas sei que protestar só vai piorar as coisas. Tess joga as mãos para o alto e ri, uma gargalhada fria. — E agora? — pergunta ela. — Agora todas as suas músicas são sobre o Noel? Sobre o fato de ele ser tudo o que você sempre desejou, e mais? Você arrasta os seus produtores até aqui de duas em duas semanas para gravar o seu novo som? Para pisotear esta casa toda como se fosse a cobertura particular deles? — Ela balança a cabeça e faz um gesto no ar, como se tentasse me apagar da sua visão. Em seguida se vira e entra pelo corredor, parando na escada. — Eu deveria ter imaginado que trazer você aqui seria um erro — diz ela, antes de subir com passos pesados até seu quarto. Lágrimas quentes ardem nos meus olhos. Sammy aperta de novo a minha mão. Sei que ela quer falar alguma coisa, mas fica calada. Não é necessário. Vejo a decepção por


todo o seu rosto. — Nós nos importamos com você, só isso — diz ela, em um tom calmo. — Não queremos vê-la se magoar outra vez. Eu faço que sim e desprendo meus dedos de sua mão. Minhas bochechas ainda estão quentes. As palavras da Tess se repetem sem parar nos meus ouvidos. — Você sabe como ela é — diz Sammy, dando uma olhada rápida para o teto. — Ela vai superar. — Espero que sim — digo suavemente. — É que é muito para ela. — Como assim? — A nossa presença aqui — diz Sammy. — Esta era a casa dela. E agora é... — Agora tudo diz respeito a mim — digo. Penso na manhã na varanda com o Terry e os outros caras, do jeito que a casa inteira foi transformada em questão de minutos. Tess não disse uma palavra, mas eu notei seu olhar, a foto na mesa, derrubada sem o mínimo cuidado. — Ela vai ficar bem — garante Sammy outra vez. — Só precisa desabafar. Assinto, querendo acreditar nela, mas sabendo que não vai ser fácil assim. Não desta vez. Sammy se recosta na cadeira e boceja. — Vá dormir — digo. — Você está com uma cara exausta. — Quer que eu fique? — pergunta Sammy. — Posso fazer um chá para você. Balanço a cabeça, mordendo a parte interna das bochechas para não chorar. Tenho as melhores amigas do universo, e só dou trabalho. Elas me apoiam e fazem tudo o que podem para que eu tenha qualquer coisa que quero, na hora que quero. E é assim que eu as recompenso? Mentindo? Fazendo a única coisa que jurei não fazer? — Não — digo. — Acho que vou só ficar aqui por um tempo. Sammy assente e aperta o meu ombro. Ela desliga a luz do corredor e também as da cozinha. Penso em pedir para deixá-las ligadas, mas não o faço. Fico sentada no escuro, ouvindo o ruído da geladeira e o constante tique-taque do relógio na parede. Lá fora, a lua se escondeu atrás de uma nuvem. Tento não imaginar o Noel agachado diante do brilho alaranjado de uma fogueira quando pego meu telefone. Toca cinco vezes antes de cair na caixa postal. Desligo e decido mandar uma mensagem de texto. Não vou poder ir, digito. Tive um problema. Penso em explicar mais, ou adicionar um beijo. Em vez disso, apenas escrevo: Desculpe.


17 58 dias para a turnê 16 de julho

NA MANHÃ SEGUINTE, ESTOU fazendo um bule do café importado do Terry quando ouço uma batida na porta. Atravesso o corredor em meu roupão de malha e espio pela janela de vidro colorido. Ray está no deque, segurando uma pequena sacola de papel com o punho gigantesco. — Obrigada — digo quando ele me entrega a sacola. Olho para a pilha pegajosa de donuts lá dentro. — Quer ficar para comer um? Prometo não contar para ninguém. Ray sorri e balança a cabeça. — K2 fica solitário. — Ele aponta para o carro na estrada. — Estamos ouvindo um audiolivro. Ele está em uma fase Dickens. Em seguida revira os olhos e desce a escada com passos pesados, atravessando lentamente a entrada de carros. Mandei uma mensagem de texto para ele mais cedo por desespero. Eu não sabia se petiscos e o café do Terry seriam o suficiente para melhorar as coisas com a Tess, mas sabia que precisava fazer alguma coisa. Passei a noite acordada me revirando na cama, repassando em minha mente tudo o que tinha acontecido. Quando decidi contar a verdade sobre o Noel para a Sammy e a Tess, sabia que elas ficariam decepcionadas. Mas, com a Tess, parece haver algo mais. E ela não é de “ter DR”. Com ela, é só uma questão de imaginar o que está errado e fazer o que for possível para consertar. Em geral, isso envolve donuts. No acampamento, comíamos donuts todas as manhãs. Tess sabia onde eles ficavam guardados na cozinha e como entrar sem ser notada. Sempre que uma de nós estava triste, ou quando ela sentia saudades da


cidade, Tess nos reunia para encontros tarde da noite, durante os quais descíamos na ponta dos pés a trilha coberta de lascas de madeira e nos empanturrávamos no escuro com aquelas delícias pegajosas e cobertas de glacê. Estou diante do fogão, fervendo água para o chá (nunca fui de beber café, já sou agitada o bastante naturalmente), e me lembro do que a Tess disse sobre este verão. Ela achou que seria uma versão atual do acampamento. De repente, entendo por que isso nunca seria possível. Não havia garotos no acampamento. Hoje em dia, depois de anos de namoros em série e de relacionamentos emendados uns nos outros, é difícil imaginar que, quando eu era mais nova, não ligava para garotos. Ou, para ser mais exata, eles não ligavam para mim. Às vezes eu ficava com inveja de como os garotos esperavam a Sammy do lado de fora da escola no ginásio, se exibindo e agindo feito idiotas, brigando pela atenção dela. No ensino médio, ficou claro que a Sammy estava caminhando a passos largos para a popularidade (capitã da equipe de dança, rainha do baile de formatura, tudo o mais) enquanto eu ainda ia pescar com o vovô e brincava com o meu violão. Mas, àquela altura, Sammy era leal demais para me libertar. De vez em quando acho que só saí viva daquele lugar por causa dela. Da Sammy e da música. Tess foi diferente. Deu para sentir que ela precisava de nós desde o primeiro dia de acampamento, mesmo que ela não tivesse concordado de imediato. Ela mencionou o recente divórcio dos pais só para dizer que se livrar dela durante as férias foi a primeira coisa na qual eles concordaram em anos. Ao final daquele primeiro verão, Tess tinha nos arrastado para todo tipo de aventuras na madrugada e nos metido em mais problemas do que jamais teríamos arranjado sozinhas. Ela substituiu todas as músicas do Top 40 no meu iPod por bandas indie obscuras e, até hoje, devo a ela quase todo o crédito de ser descolada na vida ou no gosto musical. Tess foi a responsável por grande parte da minha motivação para ir morar em Nova York. Eu sabia que a queria do meu lado, física e emocionalmente, por todo o tempo que ela aguentasse. E é por isso que não posso deixar que ela fique zangada comigo durante muito tempo. Por pior que eu tenha agido, Sammy e eu temos história demais para que ela desista de mim. Mas, com a Tess, não tenho tanta certeza. A chaleira apita, e sirvo uma xícara de chá para mim e uma caneca do café fragrante para a Tess. Arrumo uma pilha de donuts em um elegante prato florido e equilibro toda a comida em uma bandeja, depois subo com cuidado os degraus rangentes. Bato de leve à porta dela. Nada. Entreabro a porta. Ela está esparramada na colcha com os cachos escuros cobrindo o rosto.


— Tess? — sussurro. — Está acordada? Ela resmunga e rola na cama. Coloco a bandeja no criado-mudo de vime. — Eu trouxe uma coisa para você — digo, cutucando o ombro dela. Tess se aproxima da parede e cobre a cabeça com a colcha. — Donuts! — anuncio, alegremente. — Sei que não são da Krispy Kreme, mas estão com uma cara bem autêntica. Glacê de canela... seu preferido. Tess não se move. Vejo o cobertor subir e descer com a respiração dela. — E café de verdade também — insisto. — Está com um cheiro maravilhoso. Aqui. Eu sopro o vapor da bandeja mais ou menos na direção dela, que continua me ignorando. Finalmente, jogo as mãos para o alto. — Qual é! — explodo. — Estou me esforçando! Já pedi desculpas. Você precisa cooperar um pouco! Tess joga o cobertor para longe e se vira para mim. — Cooperar um pouco? — responde, com desprezo. — Eu coopero completamente! Trabalho para você! Moro com você! Faço tudo por você. Tudo o que eu tenho, tudo o que eu faço gira em torno de você. É pedir demais que algo seja só meu? Ela me encara, ofegando, ainda com olhos sonolentos. Eu fico ali, paralisada, perplexa e confusa. — Noel? — pergunto, enfim. — Mas... — Argh! — rosna Tess, pegando um travesseiro e jogando-o agressivamente no meu colo. — Não é o Noel! Nem tudo tem a ver com homens, sabia... — Eu sei — digo, na defensiva. — Só não sei o que mais eu fiz de errado. — Você não fez nada de errado. O problema é esse. Você não faz nada, e mesmo assim, parece que só por estar aqui tudo fica diferente. Eu suspiro, e uma estranha tristeza cobre meu coração. É a mesma velha história, o eterno equilibrismo que minha vida se tornou. — Ah. Isso. Eu tinha muito medo de que a convivência comigo afetasse minha família e meus amigos. A princípio, claro, toda a atenção e a fama foram empolgante para todos nós. Mas não demorou até a novidade passar, e pude ver como era difícil. Também foi difícil para mim, mas eu escolhi isto. Eles, não. Por isso, vir para a ilha foi como uma fuga mágica para mim. Eu senti como ela estava me modificando, quebrando aos poucos as barreiras que eu construíra com tanto cuidado. Mas nunca tinha parado para pensar no quanto eu poderia estar modificando-a. — Desculpe — digo. — Eu sei que este era o seu lugar. A Tess puxa a colcha para o colo, cutucando os cantos puídos. — Era a única coisa que nunca mudava. Toda vez que eu voltava, não importava o


que mais estivesse acontecendo, na faculdade, com os meus pais... Espio através da cortina de cachos revoltos da Tess e vejo a mesma garota que conheci no primeiro dia de acampamento. Por mais que reclamasse de ser acordada de manhã cedo, do calor, dos insetos, do uniforme ridículo que tínhamos que usar aos domingos, sempre soubemos que as quatro semanas que passávamos lá eram suas quatro semanas preferidas do ano. Nós sabíamos porque sentíamos o mesmo. — Eu sei — digo. Tenho vontade de falar mais. Tenho vontade de dizer que às vezes também odeio toda a atenção. Mas reclamar desta vida, desta vida absurda, privilegiada, na qual tudo é possível, sempre me deixa inquieta. Como se ela pudesse ser tirada de mim, arrancada em um instante, e eu ficaria para trás sendo a mesma garota desajeitada de antes, presa no meio do nada, sonhando. Então, só digo: — Sinto muito. Tess pega o travesseiro e me bate de novo, desta vez de brincadeira. — Eu também — diz ela. — Não estava falando sério sobre ter me arrependido de trazer você para cá. Desculpe por ser tão pirracenta. — Você não consegue evitar. — Dou de ombros alegremente, entregando a ela o prato de donuts. — É o seu jeito. Tess assente com seriedade e coloca o prato no colo. Olha os donuts, pega um deles cuidadosamente e o morde. — Impostor — declara ela, deixando-o cair de volta no prato. Dou uma risada e passo o café para ela, que toma um gole cuidadoso. — Melhor? — pergunto. — Qualquer coisa seria melhor que aquele lixo aguado que vendem na cidade — diz ela, tomando outro gole. — Você vai vê-lo de novo? — Quem? Tess revira os olhos. — Quem? — debocha, fingindo inocência. Meu coração se aperta quando me lembro da mensagem que mandei na noite anterior. — Acho que não — digo, enfim. Eu sei que o que irritou a Tess não foi o fato de eu sair com o Noel, mas também sei que ele é parte do que torna este lugar tão especial para ela. Ela não tem muitas lembranças felizes da infância. Não posso estragar esta. — Ah, deixe de ser boba — diz Tess. — Eu não ligo que você saia com ele. — Sério? Tess assente, lambendo os dedos. — Mas e quanto a todas aquelas coisas que você falou? Sobre eu precisar parar de


me perder em relacionamentos. Sobre eu não estar pronta. Tess dá de ombros. — Provavelmente não está — diz ela. — Mas e daí? Você é assim, Passarinho. É por isso que gente que nunca te conheceu pessoalmente manda cartões de Natal, tricota o seu rosto em suéteres e acende velas para você na igreja. Eles amam a sua música, sim, mas também amam você. Tipo, amam de verdade. E é porque sabem que você gosta deles. Você gosta de todo mundo. Você se apaixonaria por um saco de papel se convivesse com ele por tempo o suficiente. Solto uma risada, apertando os cantos dos olhos para conter as lágrimas. — É que eu sinto que estou sempre deixando vocês na mão — digo. — Tenho medo de estragar tudo outra vez e de, na próxima, vocês não estarem aqui. Fico com medo de vocês desistirem de mim. — Desistir de você? — Tess me olha como se eu estivesse falando outra língua. — Eu só estou aqui agora por sua causa. Você se importou comigo quando ninguém mais se importava. Quando meus próprios pais não aguentavam ficar perto de mim. Eu fiz tudo o que pude para tirar você do meu pé e foi em vão. Tess hesita, com os olhos cheios de lágrimas. A única vez que eu a vi chorar foi quando ela bateu com a bicicleta fixa dela na porta aberta de um caminhão de lixo e quebrou duas costelas. Ela funga, desvia os olhos e bate no rosto com as duas mãos. — Não existem namorados idiotas o suficiente no mundo para me fazer desistir de você. Encosto a cabeça no ombro dela, que me deixa aninhada por um segundo antes de se endireitar e se esticar para pegar o café no criado-mudo. Eu me ajeito na cama e enfio a mão no bolso do roupão para pegar o telefone. — O que você está fazendo? — pergunta ela. Passo pelos meus contatos até encontrar o nome do Noel. Meu polegar paira acima da opção Excluir Contato. — Não faça isso! — guincha Tess. — Já falei que não me importo. — Eu sei — digo. — Mas eu me importo. Aperto o botão. Tem certeza de que deseja excluir este contato?, pergunta o telefone. Por um instante, vejo o rosto do Noel. Lembro-me da sua expressão quando fui embora, depois de mais uma noite na água. Eu o flagrei me observando ir e ele fingiu que estava procurando o Murphy nas dunas. Meu coração se aperta quando penso que aquela pode ser a última vez que o vi. É absurda a ideia de nem nos despedirmos direito. Mas não tão absurda quanto a de perder a Tess.


Aperto a opção Sim e guardo o telefone de volta no bolso. Meu coração se contrai de tristeza, mas respiro fundo. É melhor assim. De um jeito ou de outro, preciso voltar ao trabalho. Sem desculpas. Sem distrações. Mesmo que isso signifique sem o Noel. Tess balança a cabeça. — Lily Ross deixando um rastro de corações partidos. Reviro os olhos. — Antes eles do que eu. — Pulo da cama dela e remexo a primeira gaveta bagunçada da cômoda dela. — Ande logo. — Para onde vamos? — pergunta Tess, apoiando os pés no chão e esticando os braços para o teto. Encontro seu biquíni e o jogo no colo dela. — Vamos à praia — digo. — Porque estamos de férias. E aquelas ondas precisam de alguém para surfá-las.


18 52 dias para a turnê 22 de julho

TESS SE ARRASTA PARA a praia com sua prancha de surfe, deixando-a cair com um baque pesado nas pedras. — E chega. Faz quase uma semana desde que eu levei donuts para ela e a arrastei para o mar com o equipamento de surfe, e muito pouco progresso foi feito. Para o crédito da Tess, as ondas não têm cooperado; ou são pequenas demais ou grandes e frágeis demais ou quebram longe demais. Como demonstração de solidariedade, eu remo na prancha uma ou duas vezes, vestindo uma roupa de surfe alugada e tomando ondas de espuma na cara. Fiquei de pé na prancha uma vez, mas só por tempo o suficiente para ver uma pedra bem no caminho, entrar em pânico e cair sem a menor elegância. — Você está desistindo? — pergunta Sammy, com o livro aberto no colo. Ela se recusa a entrar na água (Sammy tem medo de tubarões, uma desculpa que usa desde a aula de segurança aquática que fomos obrigadas a fazer no lago do acampamento, conhecido pela ausência de tubarões). Em vez disso, tem passado a semana lendo seu romance. — Mas é o seu objetivo de verão! — Não venha me falar sobre objetivos, Leitora-Relâmpago. — Tess bate com a toalha nos tornozelos da Sammy. — Você está com o rosto enterrado nesse livro há semanas. Como é possível ainda não ter terminado? — Eu enxergo mal — diz Sammy, tirando os óculos de leitura do cabelo. Tess ri.


— Ouvi dizer que eles funcionam melhor quando você de fato os usa. Na verdade, essa é uma boa pergunta. Sammy tem passado muito tempo com o livro, e não aparenta ter avançado muito. Ela nunca foi muito fã de leitura, mas eu saberia se a minha melhor amiga fosse analfabeta, não é? No entanto, ignoro a implicância da Tess para não deixar a Sammy envergonhada. — Senhoras — interfiro. — O objetivo é a diversão. Ninguém é obrigado a surfar ou a ler, se não quiser. Tento não parecer convencida, ainda que secretamente esteja orgulhosa do meu recente progresso. Na última semana, compus mais duas músicas que não têm nada a ver com o Noel e provei a mim mesma, de uma vez por todas, que meu talento não está ligado a quem quer que seja o integrante da espécie masculina que elegi temporariamente como “o cara certo”. — Obrigada, mãe — cantarola Tess. Ela seca as mãos e pega seu telefone no bolso da sacola da Sammy, dando uma olhada rápida na hora. — Preciso me arrumar. — Se arrumar para quê? — pergunto. — Ioga — responde Tess, esticando o braço às costas para abrir o zíper da roupa de mergulho. — Você vai de novo? — pergunta Sammy. Nós três voltamos à aula de ioga da Maya em duas manhãs de sábado, mas, nos últimos tempos, Tess tem encontrado outras aulas às quais ir sozinha. Tess é conhecida por sua repulsa a qualquer atividade em grupo, sobretudo as que envolvem exercícios, então seu recente comprometimento com posições como a do guerreiro e a do cachorro olhando para baixo despertou suspeitas por aqui. — Eu gosto. — Tess tira a roupa grossa e a deixa caída em uma pilha amassada na areia. — E não estamos exatamente ocupadas. — Acho ótimo — digo, sorrindo para ela. — A gente se encontra mais tarde na casa — diz Tess. — Que horas é o jantar? — A hora que quisermos. Com mais músicas debaixo do braço, decidi mudar um pouco e trabalhar no meu outro objetivo de verão: cozinhar. O fato de isso também me ajudar a não pensar no Noel é apenas um bônus. Depois de apagar seu número, imaginei que não demoraria até eu ter notícias dele, e passei muitas noites acordada na cama, pensando em como me explicaria quando chegasse o momento. Mas ele não ligou, nem mandou mensagem, e embora o afastamento tenha partido de mim, fiquei frustrada por ele não se esforçar mais. Será que não tinha se perguntado por que eu não apareci na praia naquela noite? Será que nem ao menos se importava?


Sammy e eu voltamos em um passo preguiçoso para a casa, e, enquanto ela toma banho, envio uma mensagem para o K2 pedindo que me leve na cidade. Hoje à noite vou preparar meu prato preferido: linguine ao vôngole. Compramos a maior parte dos mantimentos no início da semana, mas achei melhor deixar os frutos do mar para o fim. O mercado de peixe fica no final da rua principal, imprensado contra o porto. Está fervilhando de atividade, com pescadores trazendo a pesca do dia pela porta dos fundos e compradores fazendo uma fila que serpenteia pela porta da frente. Os fregueses são uma mistura de gente que veio passar o dia, esperando para tirar selfies com uma lagosta viva, e moradores da ilha comprando peixe para o jantar. Noel me ensinou a identificar a diferença: os turistas geralmente usam sapatos e carregam bolsas. Os locais usam chinelos, quando muito, e em geral botam na conta. Entro na loja apertada. Profundos coolers cheios de mariscos e filés empilhados cobrem as paredes, e um grande quadro-negro anuncia as ofertas e os preços do dia. Olho uma geladeira próxima e escolho alguns molhos e pastinhas, equilibrando-os em uma torre de Tupperwares enquanto vou para o caixa. Um dos potes cai no chão, rola pelo piso e para aos pés de um homem mais velho. — Aqui está — diz ele ao passar o pote para mim na fila. Ele tem uma barba grisalha desgrenhada e me analisa com olhos bondosos. — Ei! Você não é aquela garota do rádio? A minha neta é louca por você. Eu sorrio e reorganizo minha pilha. As pessoas da fila param de conversar e um silêncio recai sobre o lugar cheio. — Espero que sim. O homem sorri. — O que você está fazendo aqui, afinal? — pergunta ele, para a diversão do grupo cada vez maior de pessoas. — Não tem peixe lá na Califórnia? — Não igual aos daqui! — intromete-se uma mulher atrás do balcão, segurando duas enormes lagostas e jogando-as em um cooler nos fundos. — Ela não se importa com os seus ratos do mar — diz o homem, furando fila para falar comigo em um sussurro fingido. — Se quiser uma refeição de verdade, vá à minha casa. Eu faço o melhor ensopado de peixe da ilha. — Ele dá um tapinha no meu cotovelo com dois dedos artríticos. — É mesmo? Percebo como é bom voltar a interagir com as pessoas. Eu nunca passara tanto tempo sem fazer um evento ou uma aparição, nem mesmo algo informal como sair para almoçar ou surpreender um fã-clube, e não percebi o quanto tinha saudades de me sentir conectada.


— Ande logo, George — interrompe uma voz familiar vinda da porta dos fundos. — Se não vou contar à Louise que você andou flertando de novo. Eu me viro e vejo Noel baixando um pesado cooler no deque atrás do mercado. Nossos olhares se encontram por um rápido instante e ele assente, depois volta para seu barco. — Pode contar! — grita George. — Ela precisa de um pouco de competição. Risadas enchem o mercado, e George se oferece para pagar meus vôngoles. Eu recuso, mas prometo experimentar seu famoso ensopado um dia, depois tiro algumas fotos com um par de gêmeas e seus pais de Montreal, que estão visitando a ilha e usando sapatos. Depois de pagar, saio de fininho pela porta dos fundos e procuro Noel no deque. Encontro seu barco ancorado perto da bomba de combustível e vejo que está com o Latham e o J.T. Eles estão ocupados descarregando armadilhas e equipamentos, e espero os dois amigos irem embora, levando coolers para o mercado do peixe. Respiro fundo e sigo em direção ao píer, cujo piso de madeira irregular range sob meus pés. Murphy me vê primeiro. Ele corre até mim, balançando o rabo loucamente. Acaricio suas orelhas e continuo andando enquanto ele encosta o focinho no meu joelho. — Olá — chamo. Noel está de costas para mim no barco e não se vira. Sinto meu rosto ficar quente. Será que ele vai mesmo me ignorar? Mas então vejo o fio branco de seus fones de ouvido indo das orelhas até o bolso. Eu me seguro em um dos altos pilares de madeira e me inclino para dentro do barco, dando um tapinha no ombro do Noel. Ele toma um leve susto e tira os fones. — Algo bom? — pergunto quando ele enfia os fones no bolso. Meus braços estão cruzados com firmeza, e sinto meu coração batendo tão intensamente que temo que balance o barco inteiro. — Só um rap de um palhaço comum. — É uma piada, mas os olhos dele não mostram humor. Estão cansados, sem o brilho habitual. — Espero que o George não tenha causado muitos problemas lá dentro. — Que nada. Ele parece ser um amor. — É um criador de caso. — Ficamos em silêncio por alguns instantes até ele pigarrear. — Como você está? Bem? — Muito bem — digo, com a voz tensa e alta demais. — Tudo está ótimo. Eu só... sabe... só queria me desculpar por aquela noite. Ele continua trabalhando enquanto eu falo, pulando para o deque e desenrolando uma longa corda úmida. Não sei por que sinto que preciso mentir para ele, fingir que


não senti saudades durante todos os segundos de todos os dias. Apoio todo o meu peso no pilar. — Aquela noite? — pergunta ele, distraído. — Na praia — digo, corando. Ele se abaixa para enrolar a corda em um cunho de metal. — E por não ligar. As coisas... as coisas andam meio caóticas. Ele passa por mim e nossos ombros se esbarram. Uma onda de eletricidade percorre meu corpo, e tudo o que mais quero é tocá-lo, abraçá-lo, sentar no barco ao lado dele e zarpar em direção ao horizonte. Respiro fundo. — Ando compondo muito — digo. — E tenho ficado com as minhas amigas. Sabe, foi por isso que eu vim para cá. Esta viagem tinha o objetivo de, tipo, fortalecer nossos vínculos, então, sei lá, acho que simplesmente concluí que... Noel vasculha o baú sob o banco, fazendo uma barulheira. Ele pega um rolo de papel-toalha e um frasco de spray e começa a limpar as janelas da cabine. O papel guincha pelo vidro em intensos círculos. — Será que você poderia parar, por favor? — grito, enfim. Noel interrompe o movimento no meio e amassa o papel na mão antes de jogá-lo no fundo do barco. De braços cruzados, ele se senta no banco e morde o interior de uma das bochechas. Respiro fundo. — Desculpe. Eu só... estou tentando explicar... Ele me olha abruptamente. — Explicar o quê? Sua voz é ríspida. Fico confusa, depois irritada. Por que ele está tornando tudo tão difícil? — Olha — diz ele, inclinando-se para apoiar os cotovelos nos joelhos. — Você não precisa fazer isso. — Não? Ele balança a cabeça. — Não. Eu entendo. Não é como se eu achasse que o que tivemos fosse real nem nada do tipo. Sei que você é ocupada. E eu... — Ele aponta para a água. — Eu estou aqui. Está tudo bem. As coisas são como são. Eu o encaro. Quero dizer tanta coisa que parece que as palavras estão se pisoteando, tropeçando umas nas outras e se misturando. Quero dizer que esta semana pareceu uma eternidade, que precisei usar toda a minha força de vontade para não ligar para ele. Que ir à praia com as minhas amigas foi uma tortura, porque toda vez que vejo o mar, eu penso nele. Quero dizer que não desejo ser ocupada. Também quero estar aqui.


Mas aí vejo a silhueta familiar de duas garotas andando pelo píer com roupas de ioga. Levo um minuto para perceber que são a Tess e a Maya, e elas estão rindo, cada uma segurando um sorvete de casquinha. Quando se aproximam mais alguns passos, noto que estão de mãos dadas. — O que foi? — pergunta Noel. Eu me dou conta de que estou boquiaberta. Paralisada. Tess e Maya? Continuo observando enquanto elas passam pelo mercado do peixe. Maya olha para a água, apertando os olhos por causa do sol, e Tess também se vira. Noel segue meu olhar silencioso. — Aquela é a Tess? Com quem ela está? — Com a nossa professora de ioga. Ergo a mão para acenar, e vejo a Tess arregalar os olhos ao me notar. Há um momento no qual parece que ela quer sair correndo, seus olhos disparando freneticamente para o estacionamento, para o mar, procurando a rota de fuga mais rápida. — É a Maya Scott — diz Noel. — Você a conhece? Ele assente. — Ela era um ano mais velha que eu na escola. Oradora da turma. Boa, Tess. Tess aperta a mão da Maya com mais firmeza e elas se aproximam de nós, juntas. — Oi, Passarinho. Oi, Noel. — Tess o cumprimenta com um grande sorriso, como se tivesse planejado tudo: nos encontrar juntos, estar com a Maya, tudo. — Eu esperava encontrar vocês. — Esperava? — Eu a olho com desconfiança antes de sorrir para a Maya. — Como foi a aula? — Ótima — diz Maya. — Até consegui manter esta aqui acordada. Ela dá uma cotovelada de brincadeira na Tess. Apesar de ser pega desprevenida, Tess parece feliz e calma de um jeito que eu nunca tinha visto. Noel voltou a mexer no barco, e Tess olha para ele e depois para mim, tentando comunicar alguma coisa telepaticamente. Dou de ombros, sem entender, e ela pigarreia. — Noel, eu não sei o que a Lily falou para você, mas eu queria me desculpar — diz ela. Tento fazer contato visual outra vez, comunicar silenciosamente que isso não é necessário, mas ela encara o Noel. — Eu tive... tive dificuldades com... um monte de coisas... e meio que surtei. Este lugar sempre foi especial para mim... Olho para a Maya e a vejo abrir um sorriso tranquilizador para a Tess. Não dá para ter certeza, mas tenho a forte suspeita de que ela já ouviu pelo menos parte desse


discurso. Sinto uma rápida pontada de ciúmes ao perceber que a Tess tem feito confidências a outra pessoa. — Você faz parte daqui — continua Tess. — E quando a Lily me contou que vocês estavam saindo, fiquei com medo de perder tudo. Por isso, se ela andou esquisita... mais esquisita que o normal, quer dizer... é culpa minha. — Ela se vira para mim com um sorriso. — A verdade é que eu não a via tão feliz desde, tipo, nunca. E se, por alguma estranha razão, isso tiver a ver com você, como posso ficar no caminho? Ele fica vermelho e baixa o olhar para as tábuas oscilantes do deque. Meus ombros relaxam de repente, e uma onda de afeto preenche o meu corpo. — E agora que todos nós sobrevivemos ao meu primeiro pedido de desculpas adulto, quem quer surfar? — continua Tess. Ela olha do Noel para mim, apertando levemente meu cotovelo. — Esta garota está louca para ter uma aula. Noel me olha com desconfiança. — Sério? Eu sorrio. — Sem dúvida. Noel pula do barco para o deque e fica ao meu lado. Tenho vontade de abraçar a Tess, de falar o quanto estou grata por ela estar se abrindo, não apenas para a ideia de que o Noel realmente me faz feliz, mas para a possibilidade de também ser feliz com alguém. Enquanto os três conversam, percebo o emaranhado branco dos fones de ouvido do Noel escorregando do seu bolso em direção ao mar. — Cuidado — digo, estendendo a mão rapidamente para pegá-los. Seu telefone cai na minha mão e ouço uma batida suave e distante ainda saindo pelos pequenos fones. Olho a tela do celular e me deparo com a capa do meu último disco. Perfeitos círculos vermelhos aparecem nas bochechas dele, que enfia o telefone no bolso. — Rap de palhaço, hein? — sussurro. Ele dá de ombros e pega a minha mão, e, de repente, tudo está em ordem novamente.


19 51 dias para a turnê 23 de julho

NO DIA SEGUINTE, NOEL se oferece para levar todas nós de barco até uma ilha próxima, um point de surfe local que aparentemente é tão secreto que nem tem nome. — Nós o chamamos simplesmente de “alto mar” — explica J.T., vestindo sua roupa de surfe na areia escura e pedregosa depois de ancorarmos. Eu deveria estar trabalhando nas últimas músicas do disco, mas, por algum motivo, ele me parece cada vez menos importante. Agora que voltei com o Noel, tenho a sensação de que o verão está passando rápido demais. Talvez Terry esteja certo, talvez eu não force a barra. Talvez lance apenas o EP da turnê, um presente especial para os fãs. O “alto mar” é uma ilha deserta, cheia de pinheiros e arbustos espinhentos. As ondas quebram em uma linha contínua paralela à praia pequena e isolada. Assim que o Latham termina de passar protetor solar, ele e J.T. deitam nas pranchas e começam a remar para longe da ilha, com braçadas longas e determinadas. — Está pronta? — pergunta Noel à Tess, que concordou em ser sua primeira aluna. Sammy e eu levamos cadeiras de praia e toalhas até um ponto perto das dunas, e reviro minha sacola em busca dos óculos escuros. — Pronta para o meu quase-afogamento diário? — retruca Tess, com um sinal de ok exageradamente animado. — Pode apostar! Damos gritos de encorajamento quando a Tess oscila em sua prancha, e o Noel a segue até o ponto onde as ondas estão quebrando. Murphy nada com eles por alguns metros antes de perder o interesse e voltar para ficar conosco, ofegando enquanto se


refresca na areia ao nosso lado. Ao longe, Noel parou com a Tess em um ponto calmo da baía, e eles treinam as posições. Ele está de pé ao lado dela, com água até a cintura, mantendo a prancha equilibrada, e a Tess, deitada de barriga para baixo com os dedos dos pés apontando para trás. Quando Noel grita “Vai!”, ela ergue o tronco, fica de pé com um pulo no meio da prancha e gira para o lado, com um pé na frente e outro atrás. Sammy e eu aplaudimos loucamente, fazendo a Tess se virar para nós, perder a concentração e cair para trás no mar raso. Noel balança a cabeça e a chama para o fundo com ele, onde podem treinar sem ser perturbados. — Ela parece tão feliz. Sammy sorri para o livro fechado em seu colo. A julgar pela página dobrada no meio, parece que ela ainda não fez muito progresso. — Eu sei — digo, passando filtro solar nos braços. — É estranho. Sammy ri e se mexe na cadeira, ajeitando a parte de cima do biquíni tomara que caia preto e branco de bolinhas. — Você também. Noel é um fofo. Sinto um agito no coração, a sensação levemente constrangedora e efusiva que tenho sempre que vejo ou sequer ouço o nome do Noel. Baixo a mão para acariciar o pelo áspero e molhado sob a coleira do Murphy. — Ele é — digo, notando o tom sonhador na minha voz. Pigarreio, estranhamente envergonhada, e analiso o esmalte vermelho lascado das minhas unhas. Sinto o olhar da Sammy sobre mim, e temo que exista algo novo e quase desconfortável entre nós. Durante a maior parte das nossas vidas, Sam foi a única pessoa com quem sempre consegui ser eu mesma. Mesmo quando todos os outros me achavam intensa demais, sempre compondo, cantando ou falando sobre compor e cantar, ela me fazia sentir especial. Prometeu que um dia todo mundo também veria isso. Concluí que, quando contasse a ela sobre o Noel, as coisas voltariam a ser como sempre foram, que qualquer tensão que eu sentisse entre nós se dissiparia, porque não haveria mais segredos. No entanto, esse estranho vão entre as coisas que queremos dizer e as que realmente dizemos ainda existe, e não sei o que fazer. — Detesto ter mentido para você — disparo, trincando o maxilar. Lágrimas atrasadas ardem nos cantos dos meus olhos. — Eu sei — diz Sammy. — Está tudo bem. — Não está tudo bem — insisto. — Eu fui uma idiota. É que eu... tive medo. Não queria que vocês me dissessem que eu estava cometendo outro erro. — Eu não diria que foi um erro...


Sam enfia os tornozelos na areia. Eu a avalio com descrença até ela ceder. — Tudo bem. — Ela ergue as mãos. — Eu posso ter lembrado delicadamente você de que o objetivo deste verão era ficar sozinha. Mas isso não é desculpa para o fato de você ter mentido. — Eu sei que não — digo, suavemente. — Detesto quando você fica zangada comigo. Fico com dor de estômago. — Não estou zangada com você — insiste ela. — Nunca consigo ficar zangada com você. Solto uma risada abrupta. — Lembra quando eu tive aquele teste e perdi a sua festa de Halloween? — pergunto. — Você me fez usar uma fantasia diferente a cada vez que ia à sua casa até o Natal! — É verdade — admite Sam, e seu olhar fica distante enquanto ela pensa naqueles tempos mais descomplicados em que só precisávamos nos preocupar com caronas até o shopping e provas de múltipla escolha. — Mas eu não estava zangada. Voltamos a atenção para o mar outra vez, onde Tess e Noel estão sentados nas pranchas com as pernas balançando dentro d’água. De vez em quando, Noel vira a cabeça para ver se vem alguma onda. Latham e J.T. são manchas de cor boiando no horizonte, oscilando na maré cada vez mais alta. Sammy mexe de novo no livro e pigarreia. Parece que quer perguntar ou dizer mais alguma coisa. Percebo, com um choque culpado, que talvez ela esteja pensando em outras coisas. Talvez eu não tenha nada a ver com o que a está incomodando. — E quanto a você? — pergunto, tentando soar casual e preocupada ao mesmo tempo. — Está se divertindo? Sei que as coisas andam meio... lentas por aqui. Sammy dá de ombros e morde o lábio inferior, um sinal claro de que algo está acontecendo. — Não, está tudo ótimo. — Ela hesita. — Quer dizer, é, estou meio... sei lá... acho que só estou meio nervosa com todo este tempo livre. Mas acho que é bom para mim, sabe? A paz. Ajuda muito a deixar as coisas mais claras. — Nem me fale — digo, e damos risadas. O brilho tranquilo volta a seus olhos esmeralda. Nesse momento, Noel grita alguma coisa na água e nos viramos, notando uma onda perfeita se formando ao longe. Ele faz gestos frenéticos para a Tess, que olha de olhos arregalados para a nossa direção, remando com os braços fortes sem parar. A onda cresce atrás dela. Uma linha branca aparece de um dos lados e se espalha devagar, como chantilly sobre uma torta quente pouco antes de derreter. — Agora! — grita Noel.


Em um movimento sagaz, Tess fica de pé. A onda a persegue por trás, empurrando-a durante alguns segundos de tirar o fôlego. Suas costas estão curvadas, seus joelhos, dobrados, mas, pouco antes de cair, ela ergue um punho, gritando orgulhosamente para o céu.

À tarde, depois que todas tivemos nossa vez na água e estamos com os braços doloridos de remar e o cabelo molhado e cheio de areia, Noel me puxa disfarçadamente para um ponto de mergulho mais fundo e isolado, conectado à praia por uma trilha coberta de vegetação. É muito menor do que a pedreira que ele me mostrou na ilha principal, mas duas vezes mais fundo. Noel mergulha primeiro, e eu o sigo, nadando para alcançá-lo. A luz do sol é parcialmente bloqueada pelos galhos e o ar é frio, mas os braços do Noel estão quentes quando ele me puxa. — Acha que elas estão se divertindo? — pergunta ele, inclinando a cabeça em direção à praia. Seus olhos azuis são honestos e preocupados. É a primeira vez que estamos todos juntos desde que contei à Sammy e à Tess sobre nós, e percebo que ele sente uma pressão diferente, uma necessidade de se provar digno, ainda que conheça a Tess há mais tempo que eu. — O dia está perfeito — garanto. — Obrigada. Noel beija meu nariz e afasta delicadamente meu cabelo molhado do rosto antes de me pegar pela cintura e me jogar na água bruscamente. Eu grito e nado até a superfície, determinada a me vingar. Rimos e lutamos, tentando nos segurar em qualquer parte do corpo que conseguimos, dando caldos um no outro e pedindo várias tréguas falsas. Por fim, nos deitamos em uma pedra aquecida pelo sol e ficamos de barriga para cima, minha cabeça apoiada no peito do Noel. Com o dedo, desenho linhas em seu braço bronzeado. — Por que “Passarinho”? — pergunta ele de repente, enfiando meu cabelo molhado atrás da orelha. — Como assim? — Eu me apoio em um dos cotovelos. — Meu apelido? Noel assente, esticando os braços para cima e apoiando a cabeça nas palmas das mãos.


— Quem pode usá-lo? — pergunta ele. — Existe algum tipo de iniciação? Um aperto de mão secreto? Solto uma risada e volto a me aninhar, pressionando a testa contra a barba por fazer do maxilar dele. — Tess que inventou — explico. — É mais para família e amigos íntimos. Mas posso fazer uma exceção... — Ergo o rosto e sorrio para ele. — Nah. — Ele dá de ombros. — Eu gosto de Lily. Lily Ross — diz ele, pronunciando cada sílaba com uma precisão afetuosa. O jeito que ele diz meu nome, meu verdadeiro nome, o renova, afastando-o da Lily Ross de quem passei o verão inteiro tentando fugir. Não soa como um negócio. Soa como uma pessoa real. Como eu. — Você pensa no que vai acontecer depois? — pergunta ele, remexendo-se na pedra dura. Sua voz está suave, mas seu coração bate forte no peito, martelando nos meus dedos esticados. — Depois do quê? — pergunto, olhando um rastro fino de nuvens que serpenteia pelo céu além das copas das árvores. — Quando você terminar tudo isto — diz Noel, entrelaçando os dedos aos meus. — Fazer turnê. Viajar. Você não pode continuar fazendo isso para sempre, não é? Olho para a teia de nossos dedos, os meus longos e finos, os deles grossos e calejados. — Não sei — digo, baixinho. — Para ser sincera, sempre achei que faria. Ele ri, nervoso. — Mas agora? Sorrio. — Agora não tenho tanta certeza. É difícil enxergar com clareza quando você está no meio de tudo, mas, na maior parte do tempo, eu só me sinto sortuda, sabe? No entanto, parece que viver desse jeito me faz perder muita coisa. — Ah, é? — Ele se senta lentamente, e eu ergo a cabeça. Um sorrisinho hesitante aparece em seu rosto. — Como o quê? — Ah, não sei — implico, sentando-me ao lado dele. — Um monte de coisas. Noel se levanta e começa a voltar pela trilha, sumindo atrás de uma árvore. — Aonde você vai? — grito. Ele não responde, então sigo o som dos seus pés nos arbustos até ele reaparecer no alto, em outra clareira. Do topo do penhasco, ele espia através de um aglomerado de árvores, tentando


desenrolar alguma coisa. Quando volta, está arrastando uma corda longa e forte, amarrada a um galho grosso lá em cima. — O que você está fazendo? — grito, rindo. — Essa coisa parece estar aí desde a Idade Média. Noel dá um bom puxão na corda. — É — concorda ele. — Divertindo a juventude entediada da ilha há séculos. Ele me chama, mas eu balanço a cabeça. — Nem pensar. Noel dá de ombros dramaticamente. — Você é quem sabe! Ele anda até a beirada e dá alguns pulos segurando a corda, como se quisesse provar que está pronto. Finalmente, toma impulso para trás e pula em um arco cuidadoso sobre a água, soltando a corda. Ele aperta os joelhos junto ao peito e gira para trás em um impressionante mortal duplo antes de entrar na água com um mergulho perfeito. Espero até ele aparecer na superfície e aplaudo da pedra mais baixa. Noel afasta com as mãos o cabelo louro curto e bagunçado do rosto e abre um sorriso malicioso para mim. — Qual é — incita ele. — Você não está com medo, está? Olho a face íngreme da pedra e a corda puída. E o tipo de coisa da qual eu normalmente fujo, não por não ter vontade, mas por medo de ser fotografada em uma posição estranha ou de acabar com algum tipo de machucado idiota que seria um pesadelo para explicar. Mas não há câmeras aqui. Pela primeira vez, não preciso pensar no futuro. Não preciso ter medo de que esse acontecimento seja distorcido, revisado e reescrito até não me pertencer mais. Eu me levanto e subo. Lá em cima, recolho a corda e dou um puxão firme. Meu estômago afunda quando olho para baixo, considerando a distância. Noel coloca as mãos em concha ao redor da boca e grita alguma coisa para mim, mas as palavras são engolidas pelos ecos e não consigo entendê-las. — O quê? — grito, em resposta. — Pule que eu conto! Reviro os olhos e respiro fundo, sentindo as fibras ásperas da corda arranhando as palmas das minhas mãos. Antes que eu mude de ideia, tomo impulso para trás e depois corro em direção à borda, me pendurando sobre a água. Quando solto, caindo livre e sem peso em meio ao cobertor verde de árvores ao meu redor, ouço a voz do Noel: — Estou apaixonado por você, Lily Ross!


A água se aproxima rapidamente, uma barreira fria de tirar o fôlego, mas sorrio enquanto afundo. Entreabro os olhos, nadando em direção à luz leitosa. Quando chego à tona, Noel está a alguns metros de distância, sorrindo. Eu me aproximo e o abraço. — Você é louco — sussurro na lateral quente de sua bochecha áspera. — E também estou apaixonada por você.


20 48 dias para a turnê 26 de julho

NA VERDADE, A CASA do Noel são três casas. Quatro, se contar com o galinheiro. Depois de alguns dias de programas na minha casa (mais sessões de surfe com o Noel na nossa praia, ioga com a Maya no deque, longos jantares festivos e muitos jogos de tabuleiro), decidi surpreendê-lo na casa dele. É a primeira noite que não passamos juntos a semana inteira, e penso em ligar ou mandar uma mensagem antes, mas estou me sentindo aventureira, e orgulhosa de (com uma ajudinha da Tess) ter conseguido encontrá-lo sozinha. Ela me deu direções aproximadas do que se lembrava da época em que brincava lá, na infância, e o K2 e eu dirigimos lentamente pela vizinhança até eu avistar uma caixa de correio vermelha em formato de barco, com B RADLEY pintado em preto de ambos os lados. K2 me deixa no final de um caminho longo e coberto de conchas, e meus pés estalam enquanto ando, incerta, em direção ao aglomerado de casinhas. Fica claro que uma delas é a principal, com uma varanda coberta e uma fila de galochas ao lado da porta. Outra é uma cabana menor, com uma corda para roupas pendurada em uma das janelas e presa no topo de um chuveiro ao ar livre. Uma terceira parece um galpão de ferramentas e está cheia de equipamentos; cadeiras de praia enferrujadas, pranchas de surfe velhas, um cortador de grama de aparência muito antiga sobre o gramado irregular. As galinhas estão soltas, e algumas se aproximam correndo, seguindo-me até a porta da frente. Conforme chego mais perto, ouço os baques e chiados de alguém cozinhando,


barulho de água corrente, o som de uma transmissão esportiva na televisão. A porta da frente está entreaberta, e eu bato de leve, espiando o piso de ladrilhos da sala de estar, onde um par de pés descalços está apoiado em um dos braços de um sofá de couro gasto. — Olá? — chamo. Ouço passos e, em seguida, a porta se abre mais, revelando uma garota de uns catorze anos. Seu cabelo louro está preso em um rabo de cavalo grosso, e ela usa um short jeans cortado e um moletom cinza estampado com um robô cor-de-rosa. — Ai, meu Deus — sussurra ela ao me ver, mal movendo a boca. Eu sorrio e levanto a mão em um aceno. — Oi. Você deve ser a Sidney. Eu sou a Lily. Noel está em casa? Ela fica paralisada na porta, com a boca entreaberta. — Ai, meu Deus. Ai, meu Deus — repete ela, desta vez um pouco mais alto. — Espere. Não se mova. Eu acho... — Ela fecha os olhos por um segundo, depois os abre novamente, com uma das mãos na barriga. — Achei que ia vomitar. Sabe aquela sensação que a gente tem quando acha que vai vomitar, mas aí não vomita? Foi o que aconteceu. Mas acho que está passando. — Ela respira fundo. — Sim. Estou bem. Solto uma risada. — Que bom. — É. Bom. — Sidney assente com seriedade. — Entre. Quer entrar? Ou não. Como você quiser. NOEL! — explode de repente, gritando o nome do irmão sem tirar os olhos de mim, como se tivesse medo de que eu desaparecesse. — NOEL! — Caramba, o que foi? — Ouço Noel na cozinha. A torneira é fechada e ele corre para a porta. — O que aconteceu com você... Ah — diz ele, claramente surpreso. Seus olhos correm do meu rosto para a casa ao redor, e suas bochechas ficam vermelhas. — Nós... nós tínhamos planos? Sinto meu sorriso se desfazer e pigarreio. Ele está com uma expressão chocada, e não de um jeito totalmente confortável. Talvez isto tenha sido um erro. — Não — digo. — Pensei em fazer uma surpresa para você. Mas posso ir embora, quer dizer, se não for um bom momento... — Não! — grita Sidney. — É um ótimo momento! O melhor momento de todos! Não sei por que estou gritando. Eu estou gritando? — Sid. — Noel coloca uma das mãos no ombro dela. — Não é melhor você ir avisar ao papai que nós temos visita? Ele aponta para a sala de estar com a cabeça. — Claro — diz Sidney, mas não se move. — Agora? — pressiona Noel, afastando-a da porta e me fazendo entrar. —


Desculpe por ela — diz ele suavemente quando passo. — Eu diria que ela não é sempre assim, mas... ela é. Sorrio e finjo não ouvir a conversa que acontece em sussurros frenéticos atrás de mim. A televisão é desligada e ouço mais passos. — Aqui vamos nós... — diz Noel, entredentes, quase para si mesmo. Sidney reaparece, arrastando um homem de calça de pijama de flanela e uma camiseta preta. O rosto dele é uma versão mais velha e vivida do rosto do Noel: os mesmos olhos azul-claros e maxilar forte. Ele estende a mão e sorri calorosamente. — Oi — diz ele. — A minha filha disse que não tenho permissão para falar com você. Eu sou o Lew. — Lewis — interrompe Sidney. — O verdadeiro nome dele é Lewis. É um nome de família. — Oi, Lew — digo enquanto ele aperta minha mão com firmeza. — Eu sou a Lily. Não é um nome de família. Minha mãe simplesmente gostava de lírios. — É uma flor linda. — Lew sorri. — Uma flor linda para uma garota linda. — Pai! — Sidney segura as laterais da cabeça como se seu cérebro pudesse vazar. — Que nojo! Eu avisei que não era para você dizer nada. Ele precisa ficar aqui? — Sid se vira com uma expressão de súplica para o Noel. — Sim, ele precisa ficar aqui — diz Noel. — Sid, pai, por que vocês não terminam de assistir ao jogo enquanto a Lily e eu fazemos o jantar? Pode ser? — Achei que você nunca ia perguntar. — Lew abre um sorriso agradável e volta à sala de estar. — Vamos, Sid. Eu deixo você ficar na poltrona grande para espionar a conversa. — Eu não ia espionar — choraminga Sidney, seguindo o pai com relutância. Noel coloca a mão nas minhas costas e me guia para a cozinha. A pia está cheia de pratos sujos, e as bancadas, cobertas de tigelas. Há uma posta grossa de peixe branco em um prato perto do fogão, ao lado de uma caixa de biscoitos Ritz. — Desculpe a bagunça — diz Noel. — Meio que sou um desastre na cozinha. — O que tem para o jantar? — pergunto, antes de sussurrar: — Tem certeza de que não tem problema eu estar aqui? Noel segura meu queixo com uma das mãos e me dá um rápido beijo na boca. — Tenho — diz ele. — Se você tivesse avisado, eu poderia ter preparado os dois um pouco. E preparado você. — Me preparado? Para o quê? Observo Noel pegar um pacote de biscoitos e começar a batê-lo na bancada. — Para as piadas toscas do meu pai — diz ele, transformando os biscoitos em uma farinha fina. — Para a Sid sendo... a Sid.


— Eu queria conhecer a sua família. — Há um saco de couve-de-bruxelas fechado na mesa, e começo a desembalar a verdura. — Não a sua família preparada. O que você está fazendo? Noel joga as migalhas em uma tigela. — Farinha de rosca — diz ele, olhando a grande caixa de biscoitos. — O que foi, não fazem assim em Nova York? Dou uma risada, estendendo a mão enquanto ele me passa uma faca. Trabalhamos juntos na cozinha, adquirindo um ritmo tranquilo enquanto picamos, descascamos, misturamos e limpamos. É engraçado pensar que isso teria sido difícil para mim poucos meses atrás, mas meus objetivos culinários compensaram. É fácil e divertido, mas talvez parte do motivo se deva à presença do Noel, e ao seu jeito de fazer tudo parecer leve. Sid passa o jantar me bombardeando com perguntas (desde “Se você só pudesse ouvir uma música pelo resto da vida, qual seria?” até “Você acredita em extraterrestres?”) ou me observando mastigar em um silêncio perplexo. Há algo tão honesto e familiar nela que simpatizo logo de cara, mas só entendo o porquê quando estamos sozinhas na cozinha, lavando os pratos. Ela é exatamente como eu era na idade dela: impetuosa e desajeitada, confiante e tímida, tudo ao mesmo tempo. — Quer ver o meu quarto? — pergunta Sid quando terminamos a louça. — Achei que você nunca ia perguntar. E subo atrás dela. Noel me lança um olhar questionador da mesa de jantar, mas eu aceno e articulo um Estou bem silencioso. Sid sobe de três em três degraus e me conduz por um longo corredor. Há uma galeria de fotos nas paredes: Sid e Noel na praia, ainda crianças; Noel e o pai no barco; uma foto em preto e branco de um Lew bem mais jovem com uma linda mulher grávida e um pequeno Noel de cabelos muito claros agarrado à perna dela. O quarto da Sid fica no final, um espaço pequeno de teto baixo. — É aqui — diz Sid, estendendo o braço quando passo pela porta. — Cama. Mesa. Abajur. — Ela aponta a mobília do quarto, parando em uma coleção de bichos de pelúcia que transborda de uma caixa no chão. — Miscelânea. Desculpe, está uma bagunça. Em geral sou muito organizada, mas ando ocupada com um trabalho da escola... Ela se senta à escrivaninha improvisada no canto. — Para que aula? — pergunto, olhando suas estantes e notando todos os títulos familiares: Anne de Green Gables, Harry Potter, Alice no País das Maravilhas. Mesmo muito depois de Sammy e todo mundo ter passado a ler livros e assistir a programas mais “descolados”, eu continuava fiel aos clássicos.


— É uma aula de programação de computadores na faculdade comunitária — diz ela. — Faço pela internet. Estamos criando sites do zero. Estou fazendo um para o meu pai. A voz dela fica mais aguda e rápida conforme ela começa a explicar algo sobre escrever códigos, e meus olhos vagam até um quadro de cortiça na parede, acima da cabeça dela. Está coberto de cartões-postais do mundo inteiro: Sri Lanka, Budapeste, Nova Zelândia, Roma. Ao lado, há um mapa com alfinetes vermelhos espetados em vários lugares. — São da minha mãe. Ela viaja muito. Está em Goa agora. Fica na Índia. No sul — diz ela, indo até o mapa. — Tem muitas praias e é lindo. Ela disse que, até agora, é seu lugar preferido para pintar. As cores são tão fortes que dá para sentir o gosto. Sorrio, observando Sid verificar os alfinetes, certificando-se de que estão bem presos. — Você conversa muito com ela? Sid balança a cabeça. — Só pelos cartões-postais — responde. — O papai fala que é caro ligar. — Você deve sentir saudades. Não consigo imaginar não poder ligar para a minha mãe... ou não tê-la por perto na idade da Sid. Ela dá de ombros. — É — confirma. — Era pior antes do Noel voltar para casa. Agora estamos bem. Temos turnos para cozinhar, lavar a roupa. O papai não tem nenhum jeito para essas coisas. Ele mal consegue usar o micro-ondas sem colocar fogo em alguma coisa. — Eu ouvi isso — grita Lew do andar de baixo. Sid revira os olhos. — Ele construiu esta casa sozinho nos anos 1970. É revestida com jornal — sussurra ela. — Não tem nenhuma privacidade. — A casa na qual eu cresci era igual a esta — digo. — Bom, mais ou menos. Na verdade, era menor. Eu dormi no mesmo quarto que os meus pais até os oito anos. — Sério? — pergunta Sid, com os olhos arregalados de descrença. Eu faço que sim. — Depois me mudei para o porão, que eu amava. Era como se fosse meu próprio apartamento — digo. — Exceto pelo fato de que eu era obrigada a dividi-lo com a bicicleta ergométrica da minha mãe. Sid se ajoelha para apontar pela janela baixa. — Aquela é a cabana do Noel — diz ela, apontando para a casinha com a corda de roupas. — Ele se mudou para lá quando voltou. Antes era o estúdio de pintura da


minha mãe. Ele o arrumou e colocou um colchão no chão. É bem aconchegante. Sorrio, tentando não ficar triste ao imaginar o Noel dormindo no chão no quarto onde sua mãe pintava antes de deixá-los. Penso na minha própria mãe, em todas as tardes que passamos juntas na cozinha, fazendo meu dever de casa, cantando junto com o rádio, assistindo a filmes melosos na cama. — Tudo bem, meninas, chega de tagarelar — grita Lew. — Vamos aos negócios. — Negócios? — pergunto. — Era o que eu temia — reflete Sid, balançando a cabeça enquanto me guia até o térreo. Ela para de repente no alto da escada e se vira para sussurrar no meu ouvido: — Olha, se você quiser ir embora, diga que está tendo problemas de menina. Em geral, funciona comigo. Eu reprimo uma risadinha e olho a sala de estar por cima do ombro dela. Lew está de joelhos, abrindo um estojo preto no chão. — Pai, será que a gente podia fazer isso em outra hora? — pergunta Noel. — Estamos com um pouco de pressa. — Pressa para quê? — pergunta Lew, abrindo as travas de metal. — Vai pescar? — Não, mas... — Mas nada — interrompe Lew. — Relaxe. Eu e a Lily vamos fazer um som. Ele tira um instrumento curto e redondo do estojo e ajusta a alça sobre o ombro. — Isso é um bandolim? — pergunto, perplexa, estendendo a mão para tocar o corpo liso e as cordas antigas e enferrujadas. — Viu? Falei que ela ia ficar impressionada — diz Lew, sentando-se no sofá e começando a afinar as cordas, uma de cada vez. — O papai tocava em uma banda de bluegrass — conta Sid, parada no corredor com uma expressão mista de orgulho e constrangimento. — Uma vez eles abriram para o Bob Seger. — Pete Seeger! — corrige Lew. — Foi em um evento antinuclear no continente. Um cara muito legal. “This Land Is Your Land”. Conhece? Lew toca alguns acordes e começa a cantar; sua voz rouca se suaviza, tornando-se um tenor agradável e límpido. Ergo uma das sobrancelhas, admirada, para o Noel, que está encolhido de vergonha perto da porta. Eu me sento no chão. É uma música que não canto ou ouço desde as aulas de música do quarto ano, mas de alguma maneira me lembro da maior parte da letra. Sid se senta ao meu lado e se junta a nós, chamando o Noel com um chute nos tornozelos. Seu irmão balança a cabeça e cruza os braços de um jeito desafiador, mas, quando nossos olhos se encontram, os dele estão sorrindo.


21 48 dias para a turnê 26 de julho

QUANDO NOEL DEIXA A entrada para carros da sua casa e começamos a percorrer a rua principal, K2 sai de seu esconderijo e começa a nos seguir de perto. O Lew fez questão de que o Noel me levasse em casa, apesar de eu ter garantido várias vezes que podia ir sozinha. “Não quero saber qual é a moda hoje em dia”, disse ele durante a sobremesa (profiteroles congelados com um pote de Ben & Jerry’s). “Esse garoto foi criado com bons modos.” — Obrigada por aquilo — diz Noel com um olhar grato. — Eu sabia que a Sid ia dar uma de nerdona. Mas esperava que meu pai se controlasse. À porta, Lew me entregou um CD gravado com seus clássicos folk preferidos, cada título escrito no envelope de papel em uma letra pequena e caprichosa. — Eles foram incríveis. — Bato o CD de leve no joelho. — Fazia um bom tempo que um cara não gravava um CD para mim. — Cuidado — avisa Noel. — Ele está criando coragem para perguntar se pode participar da sua turnê. Olho pelo para-brisa. Uma chuva leve começou a cair, e os limpadores rangem com força no vidro. Sinto uma agitação no estômago ao pensar na turnê. Os dias estão passando de um jeito frenético. Logo vai chegar a hora de voltar para a estrada. Uma parte de mim sente falta de trabalhar, de me apresentar, do caos reconfortante de passar poucas noites em cada cidade. Mas isso significa deixar a ilha. Deixar o Noel. A ideia de não vê-lo todos os dias me deixa com o coração na boca.


Estendo a mão para pegar a dele e olho nossos dedos entrelaçados. Ainda não conversamos sobre o que vem depois, mas já aprendi que é como se vive aqui. Quando há peixes para pescar, fogueiras para fazer e casas para construir, não sobra muito tempo para se preocupar com coisas que ainda não aconteceram. A caminhonete desacelera quando Noel encosta no recuo diante da nossa casa, chacoalhando pelos buracos, espirrando água das poças lamacentas na estrada. — Vocês estão esperando visitas? — pergunta Noel de repente. Sigo o olhar dele em meio à escuridão e vejo um sedã desconhecido estacionado diante da casa. — Não — digo. — Estacione. Noel para o carro na lateral da entrada, onde ficamos escondidos pela vegetação. Minha pulsação se acelera, e pego o telefone. Sempre que Ray me importuna para trancar tudo à noite, implico com ele por ser paranoico. Este lugar parece tão perigoso quanto um filme da Disney. Mas agora estou feliz em ter os caras por perto. K2 passa por nós no Escalade, iluminando as telhas irregulares da casa com os faróis. Nós o observamos sair do carro e ir diretamente até o sedã, verificando a placa e olhando o interior pelas janelas de vidro fumê. De repente, um vulto alto se move perto da escada da frente e K2 corre para interceptá-lo. Aperto a mão do Noel com mais força até a figura se aproximar da luz e eu ver seu rosto claramente. — Esse é o...? — pergunta Noel. — Jed? — Olho pela janela com os olhos apertados, largando a mão do Noel e abrindo a porta. — Espere... — pede Noel. Saio da caminhonete às pressas e ando rapidamente pela chuva. Jed e K2 estão se cumprimentando quando os alcanço, conversando sobre o tempo e a viagem difícil da cidade até a ilha. — O que você está fazendo aqui? — interrompo com a voz estridente e seca. Jed olha para mim, e seu sorriso grande e ansioso vacila apenas um pouquinho. K2 assente de leve para nós e volta para o SUV. — Eu tentei mandar mensagens, mas você não respondeu — explica Jed, curvando os ombros largos por causa da chuva. — E sei como você adora surpresas. — Ele abre os braços, com um sorriso estranhamente bobo. — Surpresa! Eu o encaro enquanto meu cérebro trabalha a mil por hora para processar a presença dele nesta estrada, nestes degraus, nesta ilha. Ele usa uma calça jeans escura e um cardigã bege de gola grande e larga. Seu cabelo está molhado de chuva, mas ainda assim forma uma onda perfeita sobre a testa. Por mais que eu não queira sentir


nada, meu coração tropeça e acelera, e um calor ávido se espalha pelo meu corpo. Não estamos parados na chuva. Estamos de volta ao grande sofá de couro de seu apartamento e as longas pernas dele cobrem as minhas. Com a mão no cabelo dele, enrolo distraidamente aquela onda perfeita enquanto ele cantarola uma melodia nova. — Está tudo bem? Ouço uma voz atrás de mim. Baixo o olhar furtivamente para o chão molhado. Os passos no Noel se aproximam pelo cascalho. Jed olha para trás de mim e vejo seu corpo mudar, como se de repente ficasse ainda mais alto. Ele estende a mão para o Noel. — E aí, cara — diz ele. — Eu sou Jed. Não quis assustar vocês. Este lugar não é muito chegado a postes de luz, não é? Noel aperta a mão do Jed rapidamente antes de enfiar os punhos nos bolsos. — Parece que não — diz ele. — Lily, eu vou, humm... Te ligo mais tarde? Olho do Noel para o Jed, insegura. — Claro — digo. Noel se demora, e me aproximo para dar um rápido beijo em sua bochecha. É forçado e idiota, e gostaria de não ter feito isso, mas meus pensamentos ainda estão confusos, e de repente me sinto tonta. — Ele parece legal — diz Jed, observando o Noel sair de ré pela entrada. Seus faróis vão sumindo a distância. — Ele é. — A chuva cai mais forte, e o moletom que o Noel me emprestou está ficando úmido e pesado. Jed aponta para a casa. — Tudo bem se eu entrar? Encaro fixamente a porta de tela por um bom tempo, como se ela pudesse me dar um conselho. Não é fácil me deixar sem palavras, mas estou tendo dificuldades para entender o que devo fazer em seguida. É quase como se o Jed e a ilha tivessem existido em duas dimensões diferentes. É absurda a ideia de as duas terem colidido de repente no jardim da cabana. — Lily? — pergunta ele, estendendo a mão para tocar o meu braço, o que faz com que um choque corra pela minha coluna. Afasto o braço. — Claro — digo, com a voz formal e alegre demais, antes de começar a subir os degraus da varanda. — Entre. — Tess e Sammy foram jantar na casa da Maya, então, bem ou mal, ficaremos sozinhos. Jed me segue, abaixando-se ao passar pela pequena porta da frente. Seu tamanho faz a mobília parecer pequena, como se ele tivesse entrado em uma maquete.


— Casa bonitinha — comenta, olhando as escadas e a sala de estar. Sinto vontade de me colocar diante dele, de bloquear sua visão, proteger este lugar dos seus olhos curiosos. Respiro fundo para me acalmar e sigo para a cozinha. — Quer um chá? — pergunto, soando muito como uma dona de casa de meiaidade. Jed se senta na ponta do sofá puído da sala de estar. — Quero, ou café — responde ele. Eu suspiro na frente da cafeteira, irritada diante da perspectiva de fazer um novo bule. — Na verdade, chá está ótimo — grita ele, como se lesse minha mente. Encho a chaleira de água e vejo um relance do meu reflexo na janela acima da pia. Meu cabelo está molhado e escorrido, e meu rímel derreteu, formando manchas escuras nos cantos dos olhos. Eu as limpo com a lateral do dedo e tento arrumar melhor o cabelo. Repreendo-me silenciosamente por me importar tanto com a minha aparência, mas sei que é inútil. Não importa o que tenha acontecido entre nós, continuo sendo uma garotinha nerd e louca para agradar, maravilhada pelo fato de Jed Monroe estar sentado casualmente no cômodo ao lado. Pego duas canecas e espero a água ferver, com a mente cheia de perguntas. O que ele está fazendo aqui? Por que agora? Como sequer me encontrou? Meu telefone vibra. Noel. Considero sair para a varanda, dizer que está tudo bem. Mas já até consigo ouvir a tensão na minha voz, o tremor dúbio. Rejeito a ligação e deixo o telefone na bancada. — Obrigado — diz Jed quando me junto a ele na sala de estar. Coloco as canecas sobre dois porta-copos de cerâmica e me sento diante dele em uma das cadeiras antigas de encosto alto, com a postura reta e rígida. Seguro a caneca, mas ela queima minhas mãos. Fixo os olhos na névoa de vapor que sobe. — Terry me falou onde você estava — diz Jed finalmente. — Não fique zangada. Ele não teve escolha. Abro um sorriso tenso. — Sempre temos escolha. Jed dá de ombros. — Eu dei meus ingressos dos Yankees para ele. Nos melhores lugares. Além disso, ele gosta de mim. Infelizmente, ele está certo. Na verdade, fiquei surpresa que o Terry não tenha resistido mais quando nós terminamos. Ele estava sempre dizendo que o Jed e eu nos complementávamos bem. Um grande elogio vindo de alguém que conseguia encontrar defeitos na Madre Teresa se achasse que ela havia olhado feio para ele.


— Depois que expliquei o meu caso, penso que ele achou que você deveria pelo menos me ouvir. — Seu caso? Jed pigarreia. — Eu cometi um erro — diz ele. — Mais que um erro. Fui um idiota. Se pudesse apagar os últimos meses, se conseguisse voltar ao que as coisas eram... Eu nunca tinha sido tão feliz quanto fui com você, Lily. Nós dávamos certo. Não é? Eu me recosto à cadeira dura. É como se ele estivesse lendo um script que escrevi nos dias e semanas após o término. É exatamente o que eu sonhava que ele dissesse. Mas, agora, as palavras soam diferentes, quase vazias, como se o seu significado tivesse se perdido. — Era o que eu achava — digo. Jed passa uma das mãos pelo cabelo escuro, fazendo gotas de chuva pingarem em seus ombros. — Eu fiquei com medo. Um dos caras me mostrou uma matéria idiota na internet dizendo que íamos ficar noivos. Naquele final de semana você queria que eu fosse à sua cidade conhecer os seus pais. O site dizia que eu queria a permissão do seu pai para pedir você em casamento. Eu sei que é idiota. Devia ter ignorado. Mas entrei em pânico. Olho para o tapete oriental desbotado, a estampa rebuscada distorcida pelo vidro grosso da mesa de centro. — O final de semana da festa de aniversário de casamento dos meus avós? — pergunto, encaixando os fatos. O que eu li nos tabloides era verdade. Ele mentiu ao falar que não podia ir. Mas não porque não queria estar lá. Ele ouvira um boato e ficara com medo de que fosse verdade. — Desculpe — diz ele. — É que... é muita pressão. Não é possível que você não saiba disso. — Pressão? — pergunto. Meu rosto está quente, e sinto uma agitação crescente no peito, como se todas as coisas que eu quisesse dizer a ele, perguntar a ele, estivessem tentando vir à tona através das minhas costelas. — Pressão para quê? Até onde eu sabia, nosso relacionamento era exatamente o que os dois queriam. Nós trabalhávamos pesado, e o pouco tempo livre que tínhamos passávamos juntos, fazendo coisas discretas e normais. Não havia drama. Raramente brigávamos. Eu entendo alguém surtar com um boato da internet, mas, no final das contas, valia a pena jogar fora tudo o que tínhamos sem ao menos conversar antes? — Eu nunca pedi para você fazer nada que não quisesse.


Sinto uma raiva justificada se espalhar dentro de mim. — Eu sei. — Jed se remexe, desconfortável. — Não foi você. Foram... todas as outras pessoas. O mundo inteiro está torcendo por você, Lily. Querem que tenha uma história de amor perfeita. Um pedido de casamento surpresa, o anel perfeito, uma cerimônia de conto de fadas. Você faz alguma ideia de como é ser o responsável pelo fim do conto de fadas de Lily Ross? Os olhos do Jed procuram os meus. De repente, vejo o cara por quem me apaixonei, o cara da sacada que fazia o que gostava, recusando-se a ser igual a todo o resto. De todas as pessoas que poderiam ter sido colocadas nessa posição, parece injusto que tenha sido o Jed. O Jed, que detesta aparições públicas tanto quanto eu as adoro. O Jed, que passa semanas enfiado no estúdio, obcecado por cada detalhe das suas músicas. Não é de estranhar que ele estivesse se sentindo sobrecarregado. — Queria que você tivesse falado alguma coisa — digo, amolecendo. Jed balança a cabeça. — Eu não sabia o que dizer. Você não estava fazendo nada de errado. Não tinha o que consertar. As coisas simplesmente são assim. Ele dá de ombros e eu o encaro. — Se você odeia tanto, por que falou com a imprensa? — pergunto. — Eu vi as revistas. Você me fez parecer patética. Jed olha no fundo dos meus olhos. — Lily, eu não disse uma palavra — jura ele. — Só pode ter sido alguém da minha equipe, alguém que sabia o meu calendário. Não fui eu. Você sabe como me sinto em relação a minha privacidade. Eu nunca teria feito uma coisa dessas. Há algo tão sólido na sua voz que é difícil não acreditar. — Tudo bem — digo. — Mas o que mudou? Qual é a diferença agora? Não são os meus fãs. Não é a minha vida. Assim que eu for embora daqui e cair na estrada, tudo vai voltar a ser como sempre foi. Não estou interessada em me casar. Isso é tipo... um sonho, e com certeza vou querer um dia. Mas não hoje. Não amanhã. Jed respira fundo, e vejo o alívio inundá-lo como uma corrente. — Isso não significa que as pessoas vão parar de falar do assunto — continuo. — Eu posso perder a voz de tanto repetir que não estou interessada em casamento ou em uma aliança. Mas as revistas, os blogs... sempre vão existir. — Eu sei — diz Jed. — Não estou dizendo que tenho todas as soluções. Não estou dizendo que estou pronto para... Não posso prometer que estou pronto para ser o seu príncipe encantado, caso você sequer me aceite de volta. — Ele entrelaça os dedos e em seguida os abre no colo, olhando timidamente para o chão antes de erguer o rosto para mim com um sorriso. — Mas gostaria de ter uma chance de continuar tentando.


Os meus ombros relaxam quando me recosto à cadeira. A chuva bate na janela atrás do Jed, e eu ainda nem acredito que ele está sentado aqui. Semanas atrás, eu teria dado qualquer coisa por um grande gesto romântico como este. Posso não estar ansiosa por um pedido de casamento, mas os meus fãs têm razão sobre uma coisa: eu sou louca por um final feliz. Mesmo assim, agora que estou na ilha, longe da insanidade da minha vida cotidiana, nem sei como identificar um final feliz. Seria Jed e eu, fazendo música e ficando juntos, correndo de um evento para outro, presos nas engrenagens das nossas marcas, das nossas vidas? Como sempre, eu consigo visualizar essa hipótese clara e facilmente. Nossa vida juntos ainda faz sentido. Nosso relacionamento é construído sobre a terra firme da carreira, e quando ela é tudo, o que mais importa? Além do mais, é inevitável pensar, com culpa, que isso significaria manter meu disco antigo. Talvez Para sempre pudesse voltar a ser Para sempre. No entanto, me lembrar do rosto do Noel indo embora na chuva, pensar nele em casa, se perguntando se acabou, se tudo o que estávamos construindo foi demolido em um instante depois de uma visita daquela outra vida maior... causa uma pontada forte no meu coração. Não consigo mais olhar Jed nos olhos. Encaro o meu chá, aspirando o vapor quente. — Não preciso de uma resposta agora — diz ele. — Leve o tempo que precisar. Avalio minhas mãos, minha mente, meu coração ainda preso entre dois lugares. — Mas eu esperava que você passasse o dia comigo amanhã. Ergo o rosto rapidamente. — Amanhã? Jed assente e diz: — Tenho uns dias livres. Reservei um quarto na cidade para passar a noite e esperava que você me mostrasse a ilha. O tempo deve melhorar. Podíamos ir à praia. Ficar de bobeira. Não importa. Eu só... quero ficar com você — diz ele, colocando uma das mãos no meu joelho. — Senti saudades de você, Lily. Muitas. Engulo em seco e olho pela janela novamente, vendo o carro alugado dele. Imagino-o dirigindo até o continente, entrando em um avião de volta à cidade. É uma longa viagem, e seria uma pena se ele não conhecesse nada da ilha. No começo, eu o imaginava em todos os lugares que íamos: nós dois brincando nas ondas, nos aninhando com um cobertor ao pôr do sol. A imagem tinha desbotado, mas agora que ele está aqui, começo a ver flashes de novo. É fácil seguir em frente, imaginar um futuro diferente quando ele estava longe, e o Noel, tão perto. Mas agora que Jed está aqui, bem aqui, sinto o ímpeto de dar uma segunda chance a ele. — Só um dia — promete Jed. — Depois deixo você voltar ao trabalho. Terry disse


que você está criando umas coisas incríveis aqui. Olho a mão dele no meu joelho, esquentando a minha pele sob o seu peso. É estranho e familiar ao mesmo tempo, como se uma parte de mim ainda estivesse presa no passado, antes de tudo mudar, e outra parte já estivesse diferente. Não sei se é possível voltar atrás, mas também não estou pronta para desistir. Ainda não. — Tudo bem — concordo, enfim. — Um dia. Só isso.


22 47 dias para a turnê 27 de julho

— ERA DE SE esperar que essas coisas existissem em tamanhos diferentes. Jed está de pé em uma baía rasa, com a calça jeans dobrada até o meio das canelas. Um caiaque vermelho flutua ao lado dele. Já estou acomodada no meu, com um dos remos apoiado no fundo rochoso, tentando me empurrar para longe da praia. — Você vem? — grito por cima do ombro. Jed enfia as pernas longas no seu barco, desajeitado, acabando com os joelhos dobrados diante do rosto. Alugar caiaques foi ideia minha, e eu estaria mentindo se dissesse que não queria gerar um desafio. Jed nunca foi muito de ficar ao ar livre; na única vez em que fomos fazer uma caminhada perto da casa dele em L.A., ele se assustou achando que um galho caído na verdade era uma cobra. Raramente sai da sua zona de conforto, então estou louca para ver até onde vai e quão a sério está levando essa história de me querer de volta. — Tem certeza de que não prefere almoçar antes? — pergunta Jed, lutando para conduzir o caiaque em linha reta. — Acabamos de tomar café — lembro, olhando a mochila que ele insistiu em trazer do carro. — E você nunca vai a lugar algum sem um lanche. Alguma outra desculpa? Jed levanta o remo e cutuca a parte de trás do meu barco, me empurrando para o lado. — Cuidado — implica ele. — Não sou muito bom com estas coisas. — Você vai aprender rápido — digo, ganhando velocidade com remadas curtas. —


O último que chegar vai ter que rebocar o outro pelo caminho de volta. Quando chegamos a uma parte tranquila e isolada da praia, puxamos os barcos para a areia. Jed tira uma manta da mochila e a estende perto da água. Tiro a camisa e ajeito a parte de cima do biquíni, sentindo-me estranhamente exposta. Não tinha demorado muito até eu parar de pensar no Jed como Jed Monroe, Galã, quando começamos a namorar, mas agora é como se estivéssemos voltado à estaca zero. — Eu poderia me acostumar a isso — diz ele, esticando as pernas e se deitando ao meu lado. — Já me acostumei. Jed se vira para me olhar, protegendo os olhos do sol com uma das mãos. Ele me avalia cuidadosamente. — O ar fresco te faz bem, hein? Eu me apoio nos cotovelos e observo o manto oscilante do mar e o céu azul-claro. Parece que estamos empoleirados na beira do mundo. — O silêncio me ajuda a pensar. Jed pega um punhado de areia e peneira algumas pedras lisas entre os dedos. — Você não sente falta da cidade nem um pouco? Dou de ombros. — No começo, sentia — respondo. — Foi difícil me acostumar a ter tanto tempo livre. — Aposto que sim. — Jed se reclina de volta sobre a manta, arregaçando as mangas da camiseta enrugada. A pele clara da parte de cima de seus braços reluz ao sol. — Bom, a cidade sente a sua falta. O Quatro de Julho não foi a mesma coisa sem você. Ele pega o telefone e vira a tela para mim, passando fotos de seus amigos em um telhado cintilante. Amigos dele que se tornaram meus amigos, gente com quem não falo desde o término. É estranho como as nossas vidas se encaixavam perfeitamente desde o começo, e como foi fácil para me desprender depois. Enterro os dedos dos pés na areia fria, vendo relances de esmalte vermelho através de uma camada de seixos cinzentos e brancos. Jed está certo: também não foi a mesma coisa para mim. Nem de longe. Eu me lembro da parada, dos fogos e de nadar à noite com o Noel, e me esforço para esconder um sorriso. — Deve ter sido divertido — digo, em um tom amigável. — Mas eu precisava disto. Estava me sentindo... presa. — Eu sei — diz Jed. — Mal posso esperar para ouvir suas músicas novas. Tem alguma coisa que eu possa escutar? Durante o último ano, Jed sempre foi o primeiro a ouvir todas as novas músicas que eu escrevia. Ele é muito talentoso, com mais conhecimento sobre teoria musical e


composição que qualquer outra pessoa que já conheci, e eu sempre valorizei a opinião dele. Porém, o novo disco tem algo que ainda não estou pronta para compartilhar com ele. Saiu de uma nova parte de mim, uma parte mais tranquila, uma parte que não sei se quero que o Jed critique... pelo menos não até o disco inteiro estar finalizado. — Desculpe — minto. — Ainda não gravei nada. Ele sorri. — Talvez mais tarde. Ele se senta e pega a mochila, revirando o bolso grande e tirando sacos enormes de manga seca e mix de cereais. — Comida de esquilo? — implico, puxando a mochila e abrindo mais o bolso. O personal do Jed faz o que pode para combater seu exagero de carboidratos, sugerindo lanches saudáveis. — Você não tem nada melhor aqui? Enquanto vasculho a mochila, minhas mãos tocam um envelope largo e grosso. — O que é isto? — pergunto, trazendo-o à tona. É brilhante, azul e branco e tem a imagem de uma onda na lateral. Jed fica perturbado por um instante. — Abra — diz ele, com um sorriso tímido. — É para você. Destaco a aba superior e encontro duas passagens de avião. Nada impresso do computador, e sim duas passagens de verdade, enfiadas em um dos lados da pasta de papelão. Leio as letras maiúsculas na primeira linha. — Bali? — Eu reservei duas semanas para a gente em um eco-resort novo — diz ele. — O Siggy e a Lex acabaram de voltar de lá. Disseram que foi absurdo. Surfe, ótima comida, festas na praia que duravam a noite inteira... — Você vai surfar? — pergunto, incrédula. Depois da dificuldade de colocá-lo em um caiaque, não me parece um cenário muito provável. — Se você quiser. — Ele dá de ombros, olhando o mar. — Acho que está descobrindo algo novo aqui. Nesse afastamento. Mas quero que a gente faça isso junto. As coisas vão ficar caóticas de novo quando você entrar em turnê. Se quisermos mesmo dar certo, precisamos voltar a ser o que éramos. Antes de tudo ficar tão... bagunçado. Olho para as passagens nas minhas mãos e o papel treme de leve entre os meus dedos. Durante todo o tempo em que ficamos juntos, Jed nunca falou de forma tão aberta sobre nosso futuro. É inacreditável a maneira como ele foi afetado por esse período que passamos separados. É como se, em um passe de mágica, ele tivesse se transformado na pessoa com quem sempre sonhei em estar: cheio de surpresas,


planejando aventuras e totalmente comprometido com o relacionamento. — Isso é... incrível — digo, baixinho, mas as palavras impressas nas passagens começam a ficar borradas. Sinto Jed se aproximar de mim sobre a manta. — Não — diz ele, pegando as passagens e batendo-as levemente na minha perna. — Isso é fácil. Ao longe, duas gaivotas voam acima do mar em direção ao horizonte, com o movimento das asas totalmente sincronizado. Ele está certo. Voltar à rotina familiar, viajar, trabalhar... seria muito fácil. Mas será que o fácil é sempre a resposta?

— Olá? A luz da cozinha da cabana está acesa, mas Sam e Tess tinham planos de sair com a Maya outra vez. Enquanto se afastam, os faróis do carro do Jed iluminam o teto, e por um instante desejo não estar sozinha. — Sou só eu. — Noel aparece na porta com as mãos nos bolsos do colete de flanela cinza. — A Tess me deixou entrar quando estava saindo. Ouço o estalar distante dos pneus do Jed e me pergunto quanto o Noel viu da nossa despedida. Depois de passar o dia na praia, Jed sugeriu jantar na cidade, mas eu disse que estava cansada e prometi o encontrar no barco amanhã. Falei que precisava de tempo para pensar, que daria uma resposta sobre Bali de manhã. Meu estômago se contorce em nós complicados quando penso que vai ser muito mais difícil manter a mente clara estando na presença do Noel. — Eu mandei mensagens — diz Noel. Ele ainda está com botas de pesca e uma calça jeans desbotada com leves manchas brancas presa para dentro dos grandes canos de borracha. Largo a bolsa e me junto a ele na cozinha. Os pratos do almoço ainda enchem a pia. Puxo uma das cadeiras descombinadas da mesa de jantar para o Noel e me sento pesadamente na outra. Ele não se senta. — Desculpe — digo. — Eu deveria ter ligado. — Você teve um dia bom? Noel está com dificuldade de me encarar, seus olhos vidrados no chão de linóleo amarelo, mas noto que está curioso de verdade. Mesmo chateado, mesmo quando eu


sumo e passo as últimas vinte e quatro horas com meu ex-namorado, Noel quer saber como foi o meu dia. — Foi... legal. Confuso. Meu maxilar está contraído e tenso. — Ele quer você de volta? — pergunta Noel. Ele cruza os braços e se apoia na parede, depois solta uma risada repentina. — Claro que quer, por que mais viria até aqui, não é? Abro um sorriso triste. — Acho que sim. Noel assente por um instante antes de se sentar na cadeira vazia diante de mim. — Olha — diz ele. — Andei pensando. E eu sei, eu sei que o certo a fazer agora seria dizer que entendo, que seja lá o que você e o... Jed Monroe tiveram, tenho certeza de que precisam resolver algumas coisas, e eu deveria ser superior e dar espaço para isso. — Noel, eu... Estendo a mão para pegar a dele. — Espere. — Noel segura a mesa com firmeza entre os dedos fortes. — Me deixe terminar. Eu pensei muito, e o que existe entre a gente é verdadeiro. Ele coça a parte de trás da cabeça e olha para o teto. Vejo seu esforço refletido pelo corpo todo, a dificuldade de dizer as palavras certas, de falar o que quer. De se expor. — Isto é loucura. — Ele faz uma careta. — É o Jed Monroe. É a primeira vez que vou lutar por alguma coisa, e estou competindo com Jed Monroe? Meu estômago se revira. Quero dizer que não é uma luta, que ele não está competindo com ninguém, mas sei que ele não vai acreditar. Noel me olha pela primeira vez, com os olhos azuis apreensivos e inseguros. Ele segura as minhas mãos e respira fundo. — Desculpe se isto dificulta as coisas — continua ele. — Ou talvez não dificulte. Talvez você já tenha se decidido. De um jeito ou de outro, eu vim aqui dizer... que os últimos anos não foram muito bons. Desde que voltei, acho que estava meio estagnado. E queria que você soubesse que este verão foi... Ele me tornou a melhor versão de mim mesmo. A pessoa que eu não sabia se ainda conseguia ser. Toco as linhas ásperas das mãos dele com os dedos e me lembro do dia em que nos conhecemos, seis semanas atrás, diante do emaranhado fumegante dos nossos carros. Ele parecia tão confiante, tão completo, mas talvez fosse uma forma de defesa. Talvez ele precisasse de tanta ajuda quanto eu. Talvez as barreiras que me esforcei tanto para derrubar desde que cheguei não tenham sido apenas as minhas. — Ainda não sei o que é isto, nem para onde vai — diz ele. — Mas estou cansado


de desistir. Não vou a lugar algum até você pedir. Há um nó ameaçador na minha garganta, e engulo por cima dele. — No outro dia, quando estávamos saltando da pedreira, eu não fui totalmente sincero — diz ele, colocando uma das mãos na lateral do meu pescoço. Seus olhos se iluminam de novo, francos e cheios de esperança. — Eu não estou apaixonado por você, Lily Ross. Eu amo você. Minha respiração fica presa na garganta e minha pulsação ressoa alto nos ouvidos. Todas as células do meu corpo se dão conta na mesma hora: eu também o amo. Eu o amo de um jeito que nunca amei ninguém, ou nada, desde pequena. Eu o amo como amava o cheiro do acampamento, cantar no chuveiro ou me enroscar no sofá com uma tigela de pipoca amanteigada para fazer uma maratona de filmes ruins em um sábado à noite. Eu o amo do mesmo jeito que amo tudo nesta ilha. De uma maneira essencial. Mas isso basta? Quando a minha vida é a minha música, quando tanta gente conta comigo, espera por mim, torce por mim... basta amar? E, por mais que seja desconfortável admitir, mesmo que só para mim mesma, parte de mim continua amando o Jed. Amo o jeito que ele sabe o que quer e não se desculpa por ser a pessoa que é. Amo a nossa vida juntos, o quanto ela pode ser harmoniosa e complementar. Ele fez uma besteira e me magoou, mas será que estou pronta para fechar essa porta para sempre? Encontro os olhos do Noel, e todo o meu corpo dói. Sei que ele quer ouvir que eu também o amo, e quero muito poder dizer isso. Mas as palavras ficam presas na garganta. — Eu só preciso de um tempinho — consigo dizer, enfim. — Tudo bem? Noel se aproxima e passa uma mecha solta de cabelo por cima do meu ombro. — Tudo bem — diz ele, abaixando-se para beijar de leve a minha bochecha. Antes de se afastar, sussurra no meu ouvido: — Só não se esqueça de continuar saltando.


23 46 dias para a turnê 28 de julho

— SINTAM SEUS PÉS, firmemente centrados e conectados à terra. Eu, Tess e Sammy estamos na posição da montanha no deque de trás enquanto a Maya nos encara, de costas para o mar, com a trança longa e cheia por cima de um dos ombros. Fecho os olhos com força, mas eles se reabrem. Meu corpo está inquieto e tenso. — Vocês devem se sentir equilibradas e em paz. Faço um som de desdém, mais alto do que pretendia, e Tess cutuca minhas costas com força. — Desculpe — digo, saindo da posição de oração. — Mas nunca estive menos equilibrada ou em paz na vida. Os olhos da Maya se abrem. — Talvez seja melhor continuarmos mais tarde? Dou um sorriso agradecido, mas a Tess bufa. — Não — diz. — Se a Passarinho quer continuar atormentada por causa do seu Grande Verão da Indecisão, pode fazer isso sozinha. Nós estamos fazendo ioga. Sammy dá de ombros para mim como que pedindo desculpas, e eu saio de cara fechada para o balaço da varanda. As palavras da Tess são duras, mas não injustas. Passei a manhã inteira perseguindo minhas amigas pela casa, repetindo tudo o que acontecera nos últimos dois dias: o jantar com a família do Noel, a aparição surpresa do Jed, nossa manhã juntos, as passagens para Bali, a visita do Noel ontem à noite. Durante horas, elas escutaram com paciência a minha indecisão entre ficar na ilha ou


ir com o Jed, remoendo e tagarelando sobre se deveria dar outra chance a ele. Elas ouviram, fizeram perguntas, mas se recusaram a dar conselhos. Enquanto eu pesava os prós e os contras, atualizava a Maya sobre o que tinha acontecido antes e lutava para esclarecer meus sentimentos, o silêncio delas demonstrava que não estavam contentes por me ver envolvida em outro minidrama romântico. Quando a Maya sugeriu que fizéssemos ioga depois do café, todas concordamos que precisávamos de uma distração, mas agora percebo que vou precisar de mais que saudar o sol e respirar de forma consciente para me ajudar a decidir. — Vou sair para andar — digo às três, que se curvam para a posição do cachorro olhando para baixo. Sammy ergue uma das mãos em um aceno, com cuidado para não perder o equilíbrio, e Maya me oferece um sorriso triste. Sigo o caminho em direção à água e me sento no final da longa escada de madeira, depois fecho os olhos e ouço o barulho contínuo das ondas. Sempre me orgulhei da minha capacidade de tomar decisões rápidas, definitivas. Na verdade, é uma questão de sobrevivência; quando há setecentas decisões a serem tomadas todos os dias, normalmente não tenho tempo nem energia para me concentrar demais em uma só. Mas aqui tenho todo o tempo do mundo. Quase desejo que houvesse mais distrações, mais contexto, por mais acelerado e frenético que fosse, para me empurrar em uma direção ou em outra. Faltam três semanas até que comecem os ensaios da turnê em Nova York. Eu tinha planejado passá-las aqui, com as minhas amigas. Com Noel. Ainda não estou nem um pouco preparada para ir embora. As coisas com o Noel mal começaram a parecer reais. Não sei o que vai acontecer quando eu partir (dói demais pensar nisso), mas não consigo imaginar reduzir ainda mais o tempo que temos juntos para atravessar o mundo com outra pessoa. Mas Jed não é outra pessoa. E ele disse tudo o que eu queria ouvir. Não está pedindo uma decisão, e sim uma chance para ver se o que tínhamos ainda existe. Se realmente teremos a nossa versão de felizes para sempre, no fim das contas. Apoio a cabeça entre as mãos e puxo as raízes do cabelo. Quando se trata de calendários e eventos, decisões sobre a minha imagem e até sobre a música, não tenho dúvidas do que quero. Mas, quando se trata de amor, é como se eu ainda fosse aquela adolescente desajeitada e boba, sempre pronta para estragar tudo, desejando que alguém simplesmente me dissesse o que e como fazer. — Não pode ser tão ruim assim. Levanto a cabeça e vejo a Maya atrás da mim. Ela segura dois copos de chá gelado e me entrega um.


— Achei que toda essa comunhão com a natureza podia te dar sede. Pego o copo, molhando as mãos com as gotas de condensação, e deslizo para o lado. — Quer sentar? — pergunto. Maya se acomoda no lugar que abri e olha para o mar. Por algum motivo (talvez a respiração calma ou o jeito lento e deliberado com que se move), é reconfortante ficar ao seu lado. Dá para ver por que a Tess gosta tanto dela. — Esta é a minha hora preferida do dia — diz ela depois de um tempo. — Pouco antes de o sol ficar muito quente. É como se houvesse uma energia em todo lugar. Dá para sentir que as coisas vão mudar, mas nada aconteceu ainda. Olho para o mato oscilante do pântano, o farfalhar dos arbustos e as piscinas formadas pela maré, que cintilam sob o sol cada vez mais forte. Ela está certa. A toda volta, o mundo se prepara, uma gigantesca orquestra esperando a batuta de um maestro invisível. — Deve ser bom conhecer tão bem um lugar — digo. — É, sim — confirma Maya. — Já viajei muito, morei em vários lugares, mas nunca encontrei nenhum que falasse a minha língua como esta ilha. Sei que deve parecer meio hippie... Solto uma risada. — Completamente hippie. Maya sorri, e olhamos o mar interminável enquanto um silêncio confortável paira entre nós. — Você sempre soube que queria ficar na ilha? — pergunto. — Não — diz ela. — Ainda estou decidindo. Essa é uma das coisas de que mais gosto aqui. Nada acontece no inverno, então quase todo mundo vai embora, pelo menos por um tempo. É um bom equilíbrio. Você sai para o mundo, vê o que está acontecendo, depois retorna para ficar um tempo. É parecido com o ato de respirar. Você se acostuma ao ritmo de ir embora e voltar para casa. — Sei lá — digo, girando o copo gelado entre as mãos. — Estou sempre indo embora. Acho que nunca vou me acostumar a isso. Maya olha para mim. Seus olhos são de uma cor âmbar clara. — Talvez você precise trabalhar na parte de voltar para casa — diz ela. — Seja lá o que isso signifique para você. — Bem que eu queria saber. Suspiro e olho a longa escada de madeira, cujas tábuas frágeis se apoiam em pedras antigas e penhascos íngremes. Uma nuvem de insetinhos pretos passa zunindo, e a Maya os enxota com uma das mãos.


— Eu não sei o que fazer — digo, suavemente. — Sei que é ridículo. Vim aqui para fugir desse tipo de coisa. Pular de um relacionamento para outro. Me envolver em todo esse drama. E agora estou exatamente de volta ao ponto onde comecei. — Não é verdade — diz ela. — Talvez você ainda não tenha encontrado as respostas, mas acho que sabe mais do que está deixando transparecer. — Sei? Maya me olha com um sorriso caloroso no rosto. — Você sabe o que fazer — diz ela. — Só está esperando ficar mais fácil. Eu olho para ela. — E quando vai ficar mais fácil? Ela sorri e olha os cubos de gelo do seu copo antes de batê-lo de leve no meu. — Não vai.

O sedã do Jed está estacionado ao fim de uma curta fila de carros no porto, esperando para sair da ilha. Bato de leve na janela fumê e abro a porta, sentando-me no banco ao lado dele. — Oi — diz ele, guardando o telefone no console central e abaixando o volume do rádio. — Eu estava começando a me perguntar se você não ia aparecer. — Pelo parabrisa, observo a barca se aproximar do porto com ambos os deques lotados de gente que vem passar o dia, carrinhos de bagagem, cachorros ansiosos e ofegantes. — Cadê as suas malas? Fixo os olhos nas minhas mãos, no colo. — Desculpe — digo, em um tom suave. — Você não vem — diz ele, quase como uma pergunta, como se estivesse meio convencido de que é uma brincadeira. Respiro fundo. — Não posso. Não é certo. — O que isso significa? — pergunta ele, friamente. Jed tem paciência limitada para o que chama de conversa melosa. Assim como eu, ele foi treinado para agir de forma rápida e decisiva. Faz um plano e não muda de foco. Não é que ele não siga seu coração de propósito; ele só não passa muito tempo consultando-o. — Significa que eu me esforcei muito para chegar até aqui — digo, pacientemente.


— Aonde? — Ele olha de um jeito exagerado para o estacionamento, as minivans lotadas de equipamentos de praia e os caminhões de trabalho abarrotados de varas de pescar e ferramentas. — Aqui? Aperto as laterais dos joelhos descobertos, e as pontas desfiadas do meu short fazem cócegas nos meus pulsos. — Eu estava me sentindo estagnada, como se estivesse compondo sempre as mesmas músicas. Agora não. Preciso honrar isso. Preciso acreditar que estou aqui por uma razão. — É por causa daquele cara? — É a primeira vez que o Jed menciona o Noel desde que nos encontramos na entrada da casa. Eu tinha certeza de que meu ex ia querer saber mais sobre ele, mas nem sequer perguntou o seu nome. — O cara daquela noite? Eu me remexo no banco de couro, desconfortável. — Em parte — admito. — Porém, é mais que isso. Eu gosto da pessoa que sou aqui. Não me sinto assim em relação a um lugar desde criança. Jed ergue uma das sobrancelhas para mim. — E quanto à pessoa que você é em todos os outros lugares? O que vai acontecer quando você voltar à turnê? — pergunta ele. — Ele vai junto? — Não sei — respondo, suavemente. — Talvez esteja na hora de criar raízes e... sei lá, fazer uma pausa de verdade. — Uma pausa? Tipo, das turnês? — Talvez — digo. — Todos os meus relacionamentos anteriores acabaram por causa da minha carreira, ou da carreira da outra pessoa. Tudo o que eu fazia, todos os pensamentos que me vinham à cabeça tinham a ver com trabalho. Foi bom me desligar disso. Se eu não consigo ser feliz e fazer música ao mesmo tempo, qual é o sentido? Jed me olha como se eu tivesse criado membros extras de repente. — O sentido? — Ele apoia a mão no meu ombro, como se eu estivesse caindo e ele tentasse me segurar. Então se aproxima, não me deixando alternativa além de olhar para ele. — O sentido é que você não pode escolher, Lily. A sua voz, as suas músicas... são quem você é. Pode se esconder no fim do mundo pelo tempo que quiser, mas vai continuar tendo esse dom. Se não conseguir encontrar um jeito de viver com isso e com alguém, seja lá quem for... você nunca vai ser feliz.


24 46 dias para a turnê 28 de julho

ESTÁ TARDE QUANDO O K2 me deixa na casa, e eu meio espero, meio torço para encontrar a cabana do Noel vazia. Mas uma das janelas está iluminada pelo abajur da escrivaninha, e vejo sua silhueta curvada através do velho lençol listrado de azul e branco que ele usa como cortina. Desde que Jed foi embora, de manhã, não consegui tirar as palavras dele da cabeça. Você nunca vai ser feliz. E se ele estiver certo? Por mais que eu tente fazer as coisas funcionarem com o Noel, por mais que ame ficar nesta ilha, será que conseguiria ser feliz de verdade sem fazer música, sem ver os meus fãs, sem cantar minhas canções na turnê? Não posso simplesmente fingir que isso não faz mais parte de mim. As músicas que escrevi desde cheguei... sinto mais orgulho delas que de qualquer outra coisa que já fiz. Eu me sentiria mal se não as compartilhasse só porque decidi ser feliz. E quanto às próximas músicas? Mesmo que ficar aqui com o Noel seja o que o meu coração mais quer, isso não significa que eu possa, ou deva, obedecê-lo. Mas não quero deixá-lo. A ideia de seguir em frente sem ele me atinge feito um chute no estômago. Quando penso em perdê-lo, não consigo respirar. Bato na porta duas vezes antes de abri-la. — Noel? Mariposas cercam a lâmpada nua que pende sobre o pátio. Fecho a porta para que elas não entrem comigo. Noel está na sua escrivaninha, usando uma calça de flanela xadrez e uma camiseta. Seu cabelo está molhado e despenteado, e há uma toalha úmida embolada no chão de


madeira empoeirado. — Oi — cumprimenta Noel, surpreso. Ele empurra a cadeira para trás e se aproxima como se quisesse me abraçar, mas para, constrangido, parecendo não saber se ainda pode fazer isso. Então enfia as mãos nos bolsos, mordendo a parte interna da bochecha. Eu nunca estivera na casinha dele. O lugar é apertado, e praticamente não há espaço entre os móveis descombinados: a mesa de cozinha quadrada, também usada como escrivaninha, uma cômoda baixa, a cama elevada contra a parede sem janela ao fundo. Ele olha em volta, inseguro. — Desculpe. Não tem lugar para sentar. Quer dizer, tem a cadeira, mas não é muito confortável. O assento tinha uma almofada, mas cheirava a queijo mofado, então joguei fora — explica ele, com o pescoço vermelho. — Não sei por que contei isso. Eu solto uma risada e dou um passo à frente, tornando quase impossível nossos corpos não se tocarem. Coloco as mãos nos ombros dele e o beijo. Sinto seus braços envolvendo as minhas costas, puxando-me para perto. Ficamos assim pelo que parece uma eternidade, apoiados um ao outro. Sinto meu corpo relaxar, como se fosse derreter junto ao dele. Nunca mais quero me afastar. Noel se afasta bem de leve, nossos narizes ainda a centímetros de distância. — Isso significa que você se decidiu? Passo as mãos pelos contornos suaves dos seus braços fortes e lhe dou outro beijo rápido. — Significa que vou saltar — digo. — Eu também amo você, Noel Bradley. Noel passa os braços ao redor da minha cintura e me aperta, com tanta força que me levanta. Quando me recoloca no chão, encosto a cabeça no seu ombro. Algo na escrivaninha chama minha atenção: um caderno aberto ao lado de uma pilha de lápis de carvão curtos. Há um esboço não terminado do barco dele, sombreado e cheio de detalhes impressionantes. — Você fez isso? — pergunto, aproximando-me para ver melhor. — O quê? — pergunta Noel. — Ah. Sim. Eu precisava de alguma coisa para me distrair de... tudo — explica de um jeito tímido. — É incrível. Você desenhou de cabeça? Quer dizer, sem se basear em uma foto? Noel sorri e dá um tapinha na lateral da cabeça. — Só com o que está aqui. Eu devo ter passado mais tempo naquele barco que em qualquer outro lugar do planeta — diz ele, dando de ombros. — Eu o conheço muito bem.


Folheio o caderno e encontro uma série de desenhos igualmente impressionantes — uma torre de armadilhas enferrujadas para lagostas, uma prancha de surfe encostada a uma árvore —, cada um mais preciso que o anterior. Enfim, ergo os olhos dos desenhos para ele, cheia de ideias. — Venha comigo — digo, de repente, como se fosse a única opção. — O quê? — Noel solta uma risadinha, fechando o caderno e enfiando os lápis em um pote de geleia. — Ir com você aonde? — A todos os lugares — digo. — Não quero deixar você. E não quero deixar a ilha. Mas preciso ir. Sempre vou precisar ir. Fazer turnês é... a minha motivação para tudo isso. Pelo menos por enquanto... estar no palco, ver os meus fãs, significa tudo para mim. Noel se deixa cair na cadeira com uma expressão de conflito. Estendo a mão e pego a dele. — É quase tudo — digo. — O que temos é maravilhoso. E não quero que termine no final do verão. Quero você comigo. Vai ser uma loucura, semanas de ensaios, carregar a vida toda em uma mala, viajar de dois em dois dias, mas eu vou ter alguns dias de folga, e vai ser... bom saber que você está sempre por perto. Noel pisca devagar, como se estivesse subitamente exausto. Eu me aninho no colo dele, passando os braços ao redor do seu pescoço. — E quando não estivermos juntos, você pode fazer isto. — Com a cabeça, aponto o caderno na mesa. — Ou o que quiser! Eu sei o quanto você ama este lugar, e eu também amo, mas a ilha vai continuar aqui. Venha comigo. Começo a escorregar pelas pernas dele, e Noel me puxa para perto. Ele olha pela janela em direção à casa principal, onde a luz azul trêmula da televisão brilha na sala de estar. — Não sei — diz ele, suavemente. — Não sei se consigo deixá-los. Meus olhos voltam-se para a janela do quarto da Sidney. Imagino-a entre dois computadores, absorta no trabalho sob uma teia de alfinetes e cartões-postais, sonhando com a pessoa que será um dia. — Eu sei — digo, prendendo uma mecha solta de cabelo sedoso atrás da orelha do Noel. — Mas prometa que vai pensar. Ele assente devagar, e me aproximo para beijá-lo de novo. — E eu prometo não te distrair — digo, entre beijinhos. — Demais.


25 36 dias para a turnê 7 de agosto

— ESSE NEGÓCIO É impossível. Sidney está agachada no jardim com um cortador de grama enferrujado virado de lado na grama seca. Suas mãos e sua calça jeans estão cobertas de graxa, e há uma mancha preta perto da sua orelha, onde ela passou o braço para tirar o cabelo louro bagunçado do rosto. — O que você está fazendo? — pergunto, abrindo a porta de tela da cabana do Noel. Faz mais de uma semana que o Jed foi embora, e eu passei praticamente todo esse tempo na casa do Noel, convivendo com a Sid e o pai deles ou saindo de barco. Liguei para o Terry há alguns dias, e vamos seguir em frente com o plano de lançar um EP da turnê. “Âncora” vai ser divulgado como single na última semana de ensaios, o que deve nos dar tempo o suficiente para criar expectativa no público. Agora que me livrei do peso da ansiedade de terminar a música, tenho conseguido relaxar. Quero aproveitar o resto do meu tempo aqui, já que o futuro com o Noel ainda é uma incógnita. Não conversamos muito sobre o que virá em seguida, mas a pergunta está sempre no ar, como um segredo, uma eletricidade escondida e especial constantemente passando de um para o outro. — O papai disse que se eu desmontar esse negócio e descobrir qual é o defeito, ele vai comprar as peças de que preciso para consertá-lo — diz Sidney, lutando para abrir as entranhas de metal com estrondos e gemidos assustadores. — E depois você vai poder usá-lo! — grita Noel de trás das portas de madeira do


chuveiro ao ar livre, onde está ocupado tentando consertar o vazamento em um cano. — Nem pensar — murmura Sid. — Eu não corto grama. Eu conserto. Pego uma velha cadeira de praia. Algumas das tiras estão torcidas e arrebentadas, mas consigo ficar confortável, cruzando os tornozelos. Olho a confusão de equipamentos e fios, observando a Sidney trabalhar. Com a testa franzida e o maxilar trincado, ela fica a cara do Noel enquanto trabalha no barco. — Você gosta dessas coisas, não é? — pergunto. Sidney grunhe e revira uma pilha de ferramentas. — Mais que de me bronzear. — Ela revira os olhos. — É isso o que as garotas da minha turma passam o verão inteiro fazendo. — Você não gosta de praia? — Quem falou em praia? — desdenha ela. — Elas se encontram na casa da Laura McMahon, aquela grande no final da península, sabe? Ela tem um deque enorme, e elas enfileiram as toalhas e fritam que nem linguiças magras e vermelhas. O chuveiro chia e guincha enquanto Noel o liga e desliga para testar, e o ouço rir. — É verdade! — insiste Sid. — Mal posso esperar para ir embora daqui. Tiro os óculos escuros do cabelo, baixando-os para o rosto. — Aonde você vai? — Qualquer lugar que não aqui — diz ela, girando uma chave inglesa nas profundezas no maquinário retorcido. — Vou me encontrar com a minha mãe em algum lugar assim que me formar. Talvez faça faculdade, se conseguir entrar. — Se conseguir entrar? — Noel sai de trás da porta do chuveiro, secando as mãos na bermuda de praia listrada. — Você faz aulas na faculdade comunitária desde o sétimo ano. Pode ir para qualquer universidade que quiser. Sidney solta outro grunhido, lutando para separar duas peças de metal retorcido. Seus olhos têm uma expressão distante, como se seu corpo estivesse ali, mas o resto estivesse em algum outro lugar. Sua concentração é impressionante. — Quem quer sorvete? — pergunta Noel, entrando na cabana para trocar a camisa suja por uma branca e limpa. — Por minha conta. Eu me levanto da cadeira com um pulo e alongo os braços acima da cabeça, erguendo o rosto para o sol. — Eu quero. — Sid? Você vem? — pergunta Noel. Ela nos ignora por alguns segundos antes de jogar a chave inglesa no chão. — Tudo bem — diz ela. — Eu preciso ler o manual mesmo. Espero que esteja em japonês. Estou praticando minha tradução. Ela corre até a casa.


— Pergunte ao papai se ele quer alguma coisa — grita Noel para ela. Sid o ignora com um gesto. — Sorvete de verdade. Não frozen yogurt — exige ela antes de entrar. Eu solto uma risada enquanto Noel pega a minha mão e me guia até a caminhonete. Ele se senta no capô, e eu me acomodo entre as suas pernas, de costas para o para-choque. — Você está ficando com sardas — diz ele, olhando para baixo e dando um tapinha brincalhão no meu nariz. Eu afasto a mão dele. — Eu sei — digo. — Vão me atormentar para sempre por causa disso. — Eu gosto — diz Noel, apertando a minha cintura. — Se é que faz diferença. — Faz — digo, erguendo o rosto para beijá-lo. — Então, qual vai ser a primeira parada? — pergunta Noel, apoiando as costas no para-brisa. Eu pulo para o lugar ao lado dele no capô. — Sorvete — respondo. — Não é? Noel pega a minha mão. — Eu estava falando da turnê — diz ele, olhando os nossos dedos entrelaçados. — Está chegando rápido. — Faltam seis dias para eu ir embora. Um vão se abre no fundo do meu estômago, e começo a me sentir tonta. Isso tem acontecido sempre que penso em ir embora, então ando me esforçando para não pensar. — Mas quem está contando? — implica Noel. — Qual é a primeira cidade da turnê? — L.A. Mas tenho algumas semanas de ensaio em Nova York antes. — Legal — comenta Noel. — Assim vou ter tempo de aprender a andar por lá. — O quê? — Eu me viro de repente sobre o capô para olhá-lo. Puxo as nossas mãos, ainda entrelaçadas, para o meu colo. Ele dá um sorriso travesso. — Você vai? — praticamente guincho. Noel dá de ombros. — Se você quiser que eu vá. — Sim! — Eu o abraço. — Quer dizer, claro, se é o que você quer... Eu pigarreio e finjo desinteresse, forçando uma expressão de indiferença. Noel ri e me envolve com força. Uma leveza se espalha pelo meu corpo, e o vazio no meu estômago se enche de calor. — E o trabalho? — pergunto, me afastando para olhar a casa. — E a Sid? O seu pai?


Noel gira o bracelete de corda sobre o pulso. — Eles vão ficar bem. Já criaram uma rotina. Eu só atrapalho na maior parte do tempo. Eu o analiso com atenção e desconfiança. — Tem certeza de que não vai sentir falta deste lugar? — Vou sentir muita. Mas, como você disse, a ilha vai continuar aqui. Você, não. Coloco a mão na manga macia da sua camiseta e me aproximo para beijá-lo. — Achei que a gente tinha combinado que esta era uma zona livre de demonstrações de afeto — grita Sidney da entrada para carros, correndo em direção à caminhonete. — Não me façam separar vocês dois. Noel segura a minha mão quando descemos do capô. — Eu adoraria ver você tentar.

***

— Lily, foi espetacular. Coloco o violão sobre os joelhos e pego um copo d’água. A cabine está quente e úmida, minha garganta seca e sedenta. Enquanto a contagem regressiva para a turnê continua, Terry me convenceu a marcar algumas entrevistas e aparições curtas no rádio. Passei a maior parte da tarde, um dia sem nuvens, perfeito para ir à praia, trancada na cabine de som escura e bolorenta da estação de rádio da escola de ensino médio local, fazendo rápidas entrevistas e apresentações ao vivo enquanto Sammy e Tess faziam caretas do outro lado do vidro. Eu toquei “Âncora” pelo menos seis vezes, reproduzi as mesmas declarações aprovadas pelo Terry (“Passar esse tempo afastada era tudo de que eu precisava” e “Mal posso esperar para voltar para a estrada e encontrar os fãs!”) e só confundi o nome dos apresentadores superanimados duas vezes. Este, o Joey Z, de Tucson, parece um esquilo sob efeito de anfetaminas. Ele passa correndo pela lista habitual de perguntas sobre o disco novo, o término e meu autoimposto exílio. No entanto, quando acho que a entrevista está acabando, ele me pega de surpresa: — Então, nos conte sobre esse tal de Noel — diz ele, em um falso sussurro, para gerar um efeito dramático. — Imagino que ele seja a âncora de que tanto estamos ouvindo falar. Pelo que eu vi, ele te conquistou. Minhas axilas começam a suar. Pelo que eu vi? Ouço uma batida na janela, ergo o


rosto e vejo que a Sammy está segurando o telefone contra o vidro. Seu navegador está aberto na página do TMZ, e ali há uma foto enorme minha, do Noel e da Sid comprando sorvete na cidade ontem. Noel e eu estamos de mãos dadas, e a Sidney nos segue com a casquinha perto do rosto, no meio de uma mordida. — Li-ly — entoa o Joey Z de um jeito provocador. — Tem alguma coisa que você queira nos contar? Respiro cautelosamente, me certificando de desviar o rosto do headset antes de ajustar o microfone. Em geral, não conto nada sobre a minha vida pessoal que não tenha sido avaliado pelo Terry e a equipe. E raramente sou pega de surpresa por fotos da imprensa. Se sou vista em público de mãos dadas com alguém novo, em geral é porque quero ser vista. Sei que o “certo” a fazer nesta situação seria negar. Dizer que o Noel é só um amigo, talvez da família, algo inocente e concreto. Mas algo me impede de encontrar as palavras ou o tom blasé ensaiado de que eu precisaria para torná-las críveis. Do que estou me escondendo? O Noel não é como os outros caras que namorei. Ele não tem um empresário, uma engrenagem de publicidade. Na ilha, somos apenas mais um casal fazendo o que casais fazem. Tudo está diferente agora. Por que isso também não ficaria? — Joey — digo, direta e casual. — Você sabe que não falo da minha vida pessoal. Mas vou dizer que ele é muito especial para mim, e mal posso esperar para que todos vocês o conheçam em breve. Vejo a Sammy e a Tess se encolherem quando o Joey Z uiva e grita. — Isso significa que ele vai se juntar a você na turnê deste outono? A Tess já está no telefone, e a Sammy segura a cabeça entre as mãos. Sei que deveria estar apavorada, mas em vez disso me sinto leve, como se metade do meu coração tivesse ficado acorrentado e agora, de repente, estivesse livre. — Ainda não tem nada certo — digo. — Mas eu ficaria muito feliz se ele fosse.


26 35 dias para a turnê 8 de agosto

A SAMMY EMPURRA O telefone na minha direção no banco de trás enquanto o K2 corre pelas estradas de terra da ilha em direção à casa. — É o Terry. Tento interpretar a expressão dela em busca de uma pista do que vou enfrentar, mas a boca da Sammy está contraída, e seus olhos, indiferentes. Eu tinha me esquecido de como as minhas amigas são quando as coisas se complicam. Ficar longe de tudo também as modificou. Elas andavam mais relaxadas, menos consumidas pelas minúcias do meu dia a dia, e é quase assustador vê-las voltar imediatamente ao modo profissional. Agora, há diferenças sutis no tom que usam para falar comigo e em suas expressões neutras e premeditadas. Prendo o fôlego e levo o telefone à orelha, preparada para a saraivada de repreensões que imagino que vou ouvir. — Alô? — cumprimento, humildemente. — Lily! — explode Terry. — Você foi brilhante! As minhas sobrancelhas se franzem. — Fui? — Aquele negócio sobre o cara? Que você mal pode esperar para nós o conhecermos? Simplesmente genial! — Terry ri. — E claro que ele é um galã. Meu Deus, onde você encontra essas pessoas? Dou uma risadinha nervosa. Terry está agindo como se tudo fosse uma jogada de marketing, como se abrir o jogo em relação ao Noel fosse um plano premeditado para


ganhar mais publicidade antes da turnê. De repente, começo a me sentir enjoada. — Detesto voltar os holofotes para mim — continua ele. — Mas posso só lembrá-la de que nunca caí naquela baboseira de “a ilha é a minha âncora”? Nem por um momento. Terry continua tagarelando sobre fazer mais entrevistas para ficar no controle do desenvolvimento da história. Tento prestar atenção, mas a minha cabeça está girando. História? O Noel não é uma história. Ele é uma pessoa. Minhas pernas começam a se agitar. Preciso desligar o telefone. Preciso ligar para o Noel. Digo que o sinal está ruim e finalizo a ligação assim que paramos diante da casa. — Passarinho... — diz Tess do banco da frente. — Um minuto — interrompo, encontrando o número do Noel. — Preciso ter certeza de que o Noel não vai me matar. O K2 desliga o motor e, de repente, o carro fica silencioso demais. A Tess e a Sammy estão viradas, olhando pela janela. — Eu diria que ele está quase lá — diz Tess. Vejo a caminhonete do Noel na frente da casa, e ele ao lado dela com o rosto paralisado entre a perplexidade e o pânico. — Você precisa tirá-lo daqui — diz Sammy. — Como assim? A Tess olha para trás por cima dos nossos ombros. — Ela está certa. A não ser que queira essa conversa transmitida no noticiário da noite, você precisa fazer isso em outro lugar. Ouço o barulho de pneus no cascalho, me viro e vejo dois carros parando às pressas no final da estrada. — Não acredito — digo, quando um aglomerado de paparazzi com câmeras se forma na borda do gramado. — Como isto pode estar acontecendo? Não tem como ninguém ter chegado aqui tão rápido. — As fotos foram divulgadas hoje de manhã cedo, e, ao que parece, os paparazzi chegaram à ilha logo depois — explica Tess. — Acho que a cidade virou um circo hoje. Quando a entrevista foi ao ar ao vivo, eles devem ter nos encontrado na estação e nos seguido até aqui. Tess abre a porta e sai na direção do Noel enquanto a Sammy me empurra para fora do carro. — Entre em casa — diz ela. — Não corra. Não deixe transparecer preocupação. Simplesmente ande feito uma pessoa normal. Forço o que espero que seja um sorriso casual e olho para o Noel. A Tess está passando um dos braços ao redor dele e sem dúvida dando as mesmas ordens, e eles


andam lenta, ainda que rigidamente, até a casa. — Lily! — ouço o primeiro grito vindo de trás. Agora a multidão conta com cerca de seis repórteres, que se esforçam para conseguir fotos. — Acene — sussurra Sammy, e ergo a mão, abrindo um sorriso ensaiado antes de subir a escada com ela.

— Noel, eu sinto muito. Estamos sozinhos na cozinha. A Sam e a Tess subiram para usar os seus telefones e se manter a par do que acontece na internet. O Noel se apoia à geladeira e eu estendo a mão para a bainha puída da sua camiseta cinza desbotada, puxando-a de leve. Ele tenta sorrir, mas seus olhos estão apreensivos e inseguros. — Quando eu cheguei... quando cheguei ao porto, eles estavam todos lá, com câmeras e várias perguntas. — Ele coça a parte de trás da cabeça. — Eu só queria saber o que dizer. — Eu entendo. — Assinto, abraçando a cintura dele. — Desculpe. Eu deveria ter... Nós deveríamos ter conversado sobre isso antes. Eu deveria ter avisado sobre esta parte. É que me deixei levar, e... estou cansada. Estou cansada de pensar em tudo o que digo, ou de ser orientada a distorcer as coisas. Isto, nós... — Coloco uma das mãos no peito dele. — Não precisa ser distorcido. Mas assim que falo, me sinto culpada. Sinto a pulsação acelerada do Noel sob a palma da minha mão. Como pude não considerar como isso seria para ele? A sua vida inteira vai ser analisada, cada movimento colocado sob os holofotes e analisado por semanas. Pego a sua mão e desejo mais do que tudo poder ir com ele para um lugar seguro, onde pudéssemos ficar sozinhos, só nós dois. Era assim que eu me sentia quando estava começando e não sabia lidar com o caos cada vez maior. Antes de aprender a ficar “ligada” o tempo todo. Eu me lembro do quanto era apavorante, de como eu me sentia invadida por não poder sair de casa sem sentir que estava em um show. Eu só queria me esconder embaixo das cobertas e acordar em um mundo no qual ninguém soubesse o meu nome. Agora, sem sequer uma palavra de aviso, fiz a mesma coisa com o Noel. Forço um sorriso tranquilizador, tentando acalmar os dois ao mesmo tempo. — Vai ser intenso por um tempinho — acabo dizendo, torcendo para ele não


perceber a verdade: nunca subestimei tanto algo. — Intenso? — Noel ergue uma das sobrancelhas, preocupado. Faço que sim. — Eles vão querer saber tudo sobre nós, sobre você — explico. — Mas a boa notícia é que não dura muito. Assim que perceberem como somos entediantes, vão embora daqui no próximo barco, prometo. Noel ri, e vejo a cor voltar às suas bochechas. — “Lily Ross e nativo entediante: Netflix em casa?” — brinca ele, esperançoso. Minha respiração instável começa a se acalmar, e meus ombros relaxam pouco a pouco. — Você ouviu primeiro aqui. Fico na ponta dos pés e me aninho ao seu peito, torcendo para ele estar certo. Claro que vão tirar fotos, vai haver uma ou duas matérias, mas depois que a novidade passar, talvez nos deixem em paz. Fecho os olhos e inspiro profundamente no ombro dele, sentido o cheiro familiar de água salgada e sabonete. — Lily? Afasto a cabeça e vejo a Tess na porta. Sua expressão é ansiosa e alarmante. Antes que diga uma palavra, percebo: nunca vão nos deixar em paz. As coisas ficaram muito, muito piores. — O que foi? — pergunto. Ela se aproxima lentamente com o telefone e o entrega para mim, mas seus olhos estão vidrados no Noel. O navegador está aberto em um blog de fofocas que mal conheço, exibindo uma foto de uma mulher vagamente familiar, mas que não consigo reconhecer de imediato. Quanto mais olho, mais percebo que trata-se de uma foto de registro policial, um close-up granulado e desbotado de uma mulher magra e pálida diante de uma parede branca. — Quem é essa? — pergunto, balançando o telefone para a Tess. Ela não responde, ainda encarando o Noel enquanto ele se inclina para dar uma olhada. Seu rosto fica distorcido, boca aberta e olhos arregalados. — É a minha mãe — diz ele, pouco mais alto que um sussurro. — É a minha mãe. Há um zumbido na minha cabeça, e sinto uma risada inapropriada se formando na garganta. Olho freneticamente do Noel para a Tess, que pega o telefone e vai passando a matéria. — Como assim, é a sua mãe? — pergunto, olhando por cima do seu ombro para ver mais uma vez. Minha mente volta à foto em preto e branco na parede da casa dele: a mãe do Noel,


grávida. Essa mulher é mais velha e mais magra, com rugas novas e profundas e olheiras escuras. Mas não dá dúvidas: é a mesma mulher. É a mãe do Noel. Eu balanço a cabeça, como se tentasse rearranjar as peças de um quebra-cabeça espalhado. — Não estou entendendo — digo. — Achei que ela estava na Índia. Noel desliza as costas pela geladeira, sentando-se no chão. Ele dobra os joelhos junto ao corpo, baixando a cabeça entre as mãos. Eu me agacho ao lado dele e apoio as mãos nos seus ombros. Espero que diga algo, mas ele apenas olha para um ponto do linóleo entre os meus pés. — Noel? — insisto, olhando dele para a Tess. — O que está acontecendo? Ela olha fixamente para o topo da cabeça dele, com os lábios contorcidos. Noel solta um grunhido, e volto a encará-lo. Seus traços assumem uma expressão severa que eu nunca tinha visto. Ele parece mais velho. Mais fraco. Está igual ao pai. — O que está acontecendo? — repete ele, lentamente, forçando uma risada rouca. — O que está acontecendo é que a minha mãe não está na Índia. Ela está em uma clínica de reabilitação perto de Portland desde que foi presa, há dois anos. — Presa? — pergunto. A vontade de rir voltou. Só pode ser brincadeira. Reabilitação? Como eu não sabia? — Do que você está falando? — pergunto outra vez. — Você disse... — Ela é uma viciada, Lily — explica Noel, com a voz cheia de uma exaustão magoada. — Ela é alcóolica e viciada, e meu pai a expulsou de casa. Ela foi presa no continente com drogas no carro, passou algumas noites na cadeia, e o meu pai disse que só ia pagar a fiança se ela buscasse ajuda. Ela ficou na reabilitação por um tempo e mora em uma casa de recuperação desde então. Tess coloca a mão no ombro do Noel e, por um momento estranho e confuso, sinto como se eu estivesse segurando vela. Parte de mim até se pergunta se devo deixá-los a sós. É impossível que a Tess soubesse a verdade, mas ela deve se lembrar de como a mãe dele era. Eles têm um passado juntos, uma história em comum, algo que nunca vou entender. Como posso reconfortá-lo se há tanto que ainda não sei sobre ele? Como posso ajudá-lo se o sofrimento dele é culpa minha? Tess olha para mim e guarda o telefone no bolso. — Vou estar lá em cima — diz, apertando o ombro do Noel uma última vez antes de sair silenciosamente pelo corredor. Noel puxa os cabelos claros e pisca furiosamente olhando para o chão. Eu me sento de pernas cruzadas ao lado dele. Fecho os olhos e imagino a Sidney, o mapa na sua parede, os alfinetes, os cartões-postais. — A Sidney... — digo, começando a entender tudo.


— Ela não sabe — completa o Noel, com um pânico renovado no rosto. — Não sabia. Porra. Ele se levanta desajeitadamente, esbarrando em uma cadeira e a derrubando no chão com um estrondo. Eu me encolho de susto e estendo a mão para detê-lo quando ele vai em direção à porta. — Ela não sabe do quê? Eu me levanto. — De nada! — grita Noel, agitado. — Ela achava... Nós estávamos... Sinto o sangue se esvaindo do meu rosto. — Você estava mentindo para ela? — pergunto. — O seu pai? — Foi ideia dele — dispara Noel, andando pela cozinha com os braços sobre a cabeça, como se tivesse corrido demais e precisasse andar para aliviar uma cãibra. — Esta ilha... é tão pequena. Ele não queria que ela fosse aquela garota na escola. Ninguém falaria de outra coisa. Já é difícil para ela, sabe? Ela é diferente. — Ele se volta para mim, e seus olhos esquadrinham os meus, implorando-me para entender. — Só estávamos tentando protegê-la. Eu me abaixo devagar para levantar a cadeira caída e desabo sobre ela. — E os cartões-postais? — pergunto. — Foi ideia da mamãe — diz Noel. — Ela compra um monte pela internet e os envia para uma caixa-postal. Meu pai os busca para que a Sidney não veja o carimbo. Minha mãe disse que é a única coisa que a mantém de pé: fingir estar em outro lugar. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas e os enxugo rapidamente. — Então todo mundo sabe, menos a Sid? — pergunto. Algo borbulha no meu peito, como se fosse eu que estivesse sendo traída. Como puderam não contar a verdade a ela? Ela é mais inteligente do que todos nós juntos. Será que achavam mesmo que não ia descobrir em algum momento? — Ela tem catorze anos, Noel — digo, agora em um tom mais severo, quase acusatório. — Não é uma menininha. Noel para de andar e se vira, apontando o dedo para a minha cara. — Você não pode me julgar. Você não tem ideia de como é — diz ele. — Não tem ideia de como nada é. Acha que esta ilha é uma bolha, Lily? Você é uma bolha. Toda a sua vida... não é nem mesmo real. Você reclama de não poder fazer o que quer? Pensar por si mesma? Você só pensa em si mesma! Fico paralisada à mesa, magoada pelas palavras dele. — Já parou para pensar que talvez eu não quisesse que você escrevesse uma música sobre mim? Que talvez eu não quisesse minha vida inteira vasculhada por completos desconhecidos? Noel me encara como se esperasse uma resposta. Minha respiração fica rápida e


curta; parece que o meu peito vai implodir. Eu me vejo outra vez como era antigamente, antes de tudo isto se tornar um modo de vida. Ver meus segredos mais íntimos nas páginas das revistas, me explicar em declarações cuidadosamente ensaiadas a cada vez... A diferença é que, quando é comigo, existe outro lado. Eu ainda posso fazer música. Ainda posso viajar pelo mundo. Ainda posso cantar minhas composições para milhares de pessoas no escuro. O que o Noel ganha com isso? Encosto a cabeça na mesa. Não sei mais o que dizer. O Noel ergue as mãos e se vira para a porta, ficando de costas para mim. Levanto o rosto e vejo a Tess e a Sammy paradas no corredor. De repente, de um jeito horrível, o Noel ri. Ele aponta para as minhas amigas e anda até elas. — Até as suas amigas têm que ser pagas para andar com você — diz ele para mim por cima do ombro, em um tom cruel. — Você acha isso normal? Lágrimas se acumulam nos cantos dos meus olhos, borrando minha visão enquanto encaro a ponta lascada da mesa da cozinha. Vejo a silhueta do braço da Tess se estendendo em direção ao Noel. Um rápido borrão de cor e movimento quando ele a afasta. Ouço o barulho apressado de passos. Sinto o tremor perturbador da porta batendo atrás dele.


27 33 dias para a turnê 10 de agosto

PASSO OS DIAS SEGUINTES na cama. Pelo menos, meu corpo passa. Minha mente está em outro lugar, em todo lugar, relembrando cenas (as coisas que fiz e disse, as coisas que o Noel disse, a expressão das minhas amigas, paradas como estátuas no corredor) e me perguntando como tudo pode ter dado tão errado, tão rápido. Eu nunca estivera tão feliz. Finalmente tinha conseguido, finalmente encontrara um jeito de ter tudo o que queria. Minha música, meus fãs, minha carreira... e um relacionamento normal e estável com um cara que gostava tanto de mim quanto eu dele. Mas agora voltei à estaca zero: uma vida que nunca vai ser normal. Afundo a cabeça com força no travesseiro. De vez em quando, faço barulhos estranhos, gemidos baixos e guturais como se estivesse em um aparelho de tortura invisível e as minhas entranhas estivessem contorcidas em nós insuportáveis. Como pude ser tão imprudente? Ir à público deveria ter sido uma decisão conjunta entre o Noel e eu. Se ele soubesse no que estava se metendo, talvez decidisse não ir para a turnê comigo, mas pelo menos estaria preparado. Eu me sento, olhando pela janela escura. É noite outra vez. Daqui a pouco Sammy vai me trazer alguma coisa para comer, uma refeição simples preparada com amor que mal vou conseguir beliscar. A Tess vai ler os meus e-mails e me manter atualizada sobre o que está acontecendo em Nova York, como o set da turnê está ficando, quem vai fazer o quê, e o que está sendo planejado. Eu vou assentir e agradecer, distraidamente, sem ouvir uma palavra.


Meu telefone vibra, enterrado sob o edredom. Eu o tenho ignorado há dias, acumulando mensagens de voz e alertas de texto em aterrorizantes bolhinhas vermelhas. Mas, desta vez, algo me diz para olhar. É a minha mãe. Deslizo o dedo na tela e apoio o telefone na bochecha. Tento dizer “oi”, mas só o que sai é um choro patético. — Querida? — diz a minha mãe. Ouço os bipes que o carro dela faz quando a porta está aberta, o ronco do motor sendo ligado. — Amor, o que foi? — Eu estraguei tudo — digo assim que a minha respiração se estabiliza e minhas lágrimas parecem acabar. — Tinha me esquecido de como é. Como é fácil magoar as pessoas de quem eu gosto sem nem me dar conta. — Querida, nós já conversamos sobre isso — diz a minha mãe. Horas depois de a matéria sobre o Noel ser publicada, minha mãe tinha ligado. Dava para ver que ela queria vir para cá, ficar comigo, e parte de mim não queria outra coisa. Tê-la sentada na cama ao meu lado, acariciando minhas costas e dizendo que ia ficar tudo bem. Mas não achei certo. Era a Sidney quem deveria receber o abraço da mãe sempre que precisasse, ouvir sussurros tranquilizadores, ter uma incentivadora em momentos difíceis. Não eu. — Não é culpa sua — diz ela pela bilionésima vez. — O que aconteceu é uma pena, mas não foi sua responsabilidade. Eu balanço a cabeça, como se ela pudesse me ver do carro. — E se ele estiver certo? E se eu não for a pessoa que acho que sou? Ouço minha mãe suspirar, o pisca-alerta ligado ao fundo. — Você se lembra de quando afinávamos o piano? Aquele vertical que tínhamos na casa antiga? Olho meu reflexo choroso na janela e enxugo o rosto úmido. — O cara da moto? — pergunto. Uma vez por ano, meus pais mandavam afinar o piano de segunda mão com um cara que chegava em uma Harley carregando uma sacola de ferramentas e instrumentos e deixando para trás um rastro de perfume antiquado. — Isso — diz a minha mãe, e consigo ouvi-la sorrir. — Você o adorava. Ficava atrás dele que nem um cachorrinho, até eu obrigá-la a sentar na escada para sair do caminho dele. Você o observava pressionar as teclas e enfiar a cabeça debaixo da tampa por horas. Quando terminava, ele sempre tocava alguns acordes da mesma música, acho que era dos Beatles ou coisa assim, só para ter certeza de que o som estava certo. — “Let it Be” — digo, com um sorriso enquanto a lembrança inunda meus


sentidos. Vejo-o sentado, de jaqueta de couro, no banco de madeira pequeno demais, ouço os acordes baixos que ressoam pela sala de estar apertada. — Teve um ano em que você foi me procurar na cozinha, praticamente chorando. Você estava muito triste. Lembra do que disse? — Eu pedi para você deixá-lo terminar — digo. Minha mãe ri. — Isso mesmo — confirma ela. — Como se eu tivesse dito a ele que não podia. Então fomos para a sala juntas e você perguntou se ele podia tocar a música até o final. Ele parecia que ia chorar, como se fosse tudo o que queria fazer. E ele tocou, e você ficou sentada com aquele sorriso meigo... — Sua voz falha. — Você sabe exatamente o que as pessoas querem, Lily. É como um sexto sentido. Você sempre tentou deixar as pessoas felizes. Faz isso com a sua música, faz isso ao se expor. É preciso coragem para fazer o que você faz. Às vezes pode ser difícil para os outros entenderem. Mas você é assim. Ouço-a fungar e depois dar uma risadinha. — Eu diria que nós a criamos dessa forma, mas não posso levar o crédito — diz ela. — Eu só não queria que aquele cara se sentasse no meu sofá com a calça suja de graxa da moto. Digo para a minha mãe que a amo e que mal posso esperar para vê-la em algumas semanas (ela e o papai sempre vão às primeiras cidades da turnê para ficar na primeira fila e me ajudar a voltar à vida na estrada). Desligo e ouço batidas na porta. Sammy e Tess espiam dentro do quarto. Sammy coloca um prato de comida no criado-mudo, queijo-quente e sopa de tomate, meu preferido na infância. — Admita — diz ela, vendo meus olhos se iluminarem. — A Lily de nove anos está surtando de felicidade agora. Dou uma risada e assinto. — Totalmente — concordo. — Obrigada. Tess se senta na beira da minha cama com o telefone na mão. Ela me lança um olhar de desculpas. — Vamos acabar logo com isto? — Acho que sim. Suspiro, puxando o prato para o colo e dando uma mordida no sanduíche. — Tudo bem — diz ela, abrindo o primeiro e-mail. — Os croquis do guarda-roupa chegaram, e acho que você vai... — Espere — digo, de repente, com a boca cheia de queijo-quente derretido. Eu


engulo e recoloco o prato no criado-mudo. — Pare. Desculpe, é que eu... eu quero... preciso dizer uma coisa antes. Tess e Sammy me olham com expectativa. Sorrio para elas, minhas melhores amigas, as pessoas que sabem o que quero, que antecipam o que preciso e fazem de tudo para conseguir para mim, toda vez, o tempo todo, sem que eu sequer peça. Só que eu peço. Pedi para estarem aqui, para fazerem essas coisas, para colocarem a minha vida antes da delas. E elas concordaram. Funcionou, por um tempo. Mas agora quero algo diferente. Não quero que elas se preocupem ao me dar más notícias. Não quero que planejem meus dias, cozinhem para mim ou cuidem da minha correspondência. Quero as minhas melhores amigas de volta. Respiro fundo. — Vocês estão demitidas. Tess e Sammy trocam um olhar ligeiro. Tess bufa com desdém. — Do que você está falando? Sammy lança um olhar para o criado-mudo. — É por causa do queijo-quente? — pergunta ela. — Posso fazer outra coisa. Apoio a mão no joelho dela. — Não. O queijo-quente está perfeito. Tudo o que vocês fazem, tudo o que já fizeram, foi perfeito. Mas não posso mais fazer isso. Eu pedi para vocês trabalharem para mim porque não conseguia imaginar passar tanto tempo com mais ninguém. E adorei cada minuto da presença de vocês. Mas não posso impedi-las de viver a própria vida só porque é mais fácil para mim. Tess balança a cabeça. — Noel estava chateado — diz ela. — O que ele disse, sobre nos pagar... — Ele estava certo — interrompo. — Vocês são minhas melhores amigas. Quando as coisas dão errado na minha vida, quero poder ligar para vocês e reclamar. Quero que me digam que estou louca, que estou pensando demais, ou não estou pensando o suficiente, ou seja lá o que for. — A gente faz isso de qualquer maneira — diz Sam, enrugando a testa de ansiedade. — Eu sei — digo. — Só não quero que se preocupem com o que eu estou fazendo durante as outras vinte e três horas do dia. Vocês têm a própria vida. Está na hora de começarem a vivê-la. Sam se vira para mim com os olhos cheios de lágrimas. Eu a abraço. — Vai ficar tudo bem — digo. — Vai ficar melhor que bem.


Ela assente, hesitante. — Estou com medo — diz ela, mordendo o lábio inferior carnudo. Eu assinto, apertando a mão dela. — Eu também — digo. — Mas vamos continuar sendo... — Não. — Ela balança a cabeça. — Não é isso. Tess olha para ela com uma das sobrancelhas erguida. — Sam? — pergunta ela. — O que houve? Sammy olha repetidamente para Tess e depois para mim. — Eu vou voltar para a faculdade — diz ela. — Em Madison. Vou ser enfermeira. — O quê? — exclamamos em uníssono. — Desde quando? — completa Tess. Sammy puxa fios dos cobertores embolados entre as suas pernas cruzadas. — Passei o verão inteiro fazendo aulas pela internet. Biologia. É um pré-requisito, e preciso passar antes de começar a faculdade, no outono. É impossível. Tenho passado quase todas as noites com esses livros didáticos... — Então é isso que você lê trancada no quarto — digo, com um sorriso malicioso. Sam assente. — Pelo menos tenho tentado — diz ela. — Não acho que eu vá conseguir. — Claro que vai — digo. — Você é a pessoa mais esforçada que eu conheço. — Sou esforçada porque preciso ser — diz Sam, bufando. — A única coisa na qual já fui boa foi em ajudar você. Pelo menos eu sei o que estou fazendo. Tess revira os olhos e empurra o ombro da Sam. — Não seja tão dramática — diz ela. — Claro que você consegue. E se não der certo, tenho certeza de que há uma centena de pop stars carentes precisando do seu amor e queijos-quentes. Eu cutuco a Tess de leve e me aproximo para pegar a mão da Sam. — Isso é maravilhoso — digo. — Você acha? — pergunta Sam. — Acho. Tess se remexe na cama, e eu me viro para olhá-la. — E você? — pergunto. — Pensa em voltar para a faculdade? — Nem pensar — responde Tess. — Eu não vou largar esse osso tão cedo, não importa o que você diga. Todas nós rimos, e a Tess brinca com as alças da sua regata. — Estou brincando — diz ela. — Mas não sei o que vou fazer. A Maya quer ir ao Brasil... Ela dá de ombros casualmente. Sammy e eu erguemos as sobrancelhas uma para a


outra enquanto a Tess olha para o chão, corando. Poucas vezes ela passou mais que uma noite no apartamento de uma namorada, imagine ir para outro país. Ainda que eu estivesse distraída demais para notar, ambas as minhas amigas passaram o verão se arriscando, aprendendo sobre si mesmas e sobre quem são sem mim. Demorei um tempo para descobrir, mas todas acabamos no mesmo lugar. Estou tão orgulhosa delas, de todas nós, que sinto como se meu coração fosse explodir. — Me manda um cartão-postal? — implico com a Tess, que assente. Sammy funga, e nós duas enxugamos os olhos. Tess se levanta da cama. — Meu Deus, chega de histeria — diz ela. — Pelo menos você ainda tem um emprego. Reviro os olhos e me jogo nos travesseiros. — Tenho mesmo? Tess joga o telefone sobre as minhas pernas esticadas. — De acordo com os mil e-mails que agora você vai ler sozinha, eu diria que sim, quer você goste ou não. Sammy aperta o meu tornozelo, e eu as ouço descer as escadas. Olho o teto por uns instantes enquanto a brisa fresca da noite balança as cortinas. Pego o telefone da Tess. O navegador está em um monte de telas abertas: uma do email de trabalho dela, uma em uma conta dedicada aos fãs, e algumas em vários feeds de redes sociais que ela e a Sammy trabalharam arduamente para manter atualizados durante o meu pequeno hiato. Dou uma olhada nos últimos posts, nos quais os fãs adicionaram links para a matéria sobre o Noel, e meu estômago se contrai quando eu leio as manchetes sórdidas e exageradas. No entanto, os comentários são mais do que apenas os habituais emojis de coração, pontos de exclamação e trolls esporádicos. Coisas como:

Oi, Lily. Primeiro: eu te amo! Segundo, meu pai passou a minha vida inteira entrando e saindo da cadeia e da reabilitação, e é uma droga. Espero q a mãe do seu amigo melhore. Sorte dele ter vc pra conversar. E:

Queria que todo mundo deixasse a mãe do Noel em paz! Ela está tentando melhorar. Queria que a minha mãe fizesse o mesmo.

Abro o meu último post no Instagram, uma foto do braço do Noel esticado sobre a


borda do barco, segurando uma lagosta viva. Eu tinha colocado a legenda Apresentando: Jantar. AtĂŠ agora, recebera 1.176.006 curtidas. O comentĂĄrio mais recente ĂŠ de @lilylove02. Diz apenas: Volte para casa.


28 30 dias para a turnê 13 de agosto

PERCORRO A ENTRADA DA casa do Noel, aliviada ao ver que nem a sua caminhonete nem a do pai estão ali. Embora tivesse passado os últimos dias ensaiando as muitas coisas que quero dizer ao Noel, na verdade estou aqui para ver a Sidney. O plano era passar o dia arrumando as malas, já que vou embora para ensaiar amanhã. Porém, depois de perambular pela casa, recolhendo chinelos e óculos escuros perdidos, e de me despedir da vista de cada janela, percebi que estava na hora. Faz quatro dias que não vejo o Noel nem tenho notícias dele, e não parei de pensar em nem um momento na situação que ele e sua família estão enfrentando. Tentei mandar mensagens de texto, mas, quando ficou claro que ele queria ser deixado em paz, desisti. Eu queria pedir desculpas, mas, sobretudo, queria saber como a Sid estava. Eu a imaginava rasgando os cartões-postais do seu quarto, arrasada. Do lado de fora, no deque dos fundos, a Sid montou um espaço de trabalho impressionante, com o laptop aberto no colo, uma toalha cobrindo a cabeça e a tela para proteger do sol da tarde. Pela primeira vez em todo o verão, a vejo de roupa de praia (um maiô fofo de bolinhas), com pernas e braços cobertos de protetor solar brilhando ao sol. Sinto uma pontada de afeto no coração, me lembrando do discurso dela sobre as garotas da sua sala e sua dedicação cega ao bronzeado de verão. Também me lembro instantaneamente da solidão peculiar de não ser convidada para algo que você nem mesmo queria fazer. Coloco um dos pés na escada irregular do deque, e ela geme sob o meu peso. Sidney se sobressalta, embolando a toalha entre a sua cabeça e o computador.


— Desculpe — digo. — É que eu estava... por perto. Sidney me olha com desconfiança. Ela dobra a toalha cuidadosamente, deixando-a de lado. — O Noel sabe que você está aqui? Eu balanço a cabeça. — Ele não está me ligando de volta. Sid fecha o laptop com cuidado e o pressiona contra o peito. — Ele praticamente mora no mar agora. — Ela suspira. — Está furioso. — Eu sei — digo. — E eu não queria mais incomodar vocês, mas vou embora amanhã. Vim me despedir. Sidney abraça o computador e fixa os olhos em suas pernas esticadas, franzindo as sobrancelhas louras. Meu coração martela dentro do peito, e sou obrigada a morder os lábios para não chorar. Eu me agacho sem jeito na frente dela, de costas para o parapeito torto. — Você sabia que deficiência de vitamina D causa doenças cardiovasculares? — pergunta Sid abruptamente. — E também asma e câncer. Prendo uma risada surpresa. — Não — respondo. — Eu não sabia. Sid assente com seriedade. — É verdade — diz ela. — Por isso que estou aqui fora. Não porque me importe com o que as garotas idiotas da minha sala pensam. — Ok — digo, arriscando um sorrisinho. Ela assente outra vez, cutucando um adesivo da estação de TV local que está se descolando do canto do laptop. — Sidney... — digo, hesitante. — Eu já sabia — diz ela, olhando rapidamente para mim. — Sobre a minha mãe, se é isso o que você vai dizer. Se está aqui para, tipo, se desculpar por revelar esse terrível segredo, ou seja lá o que for, não se preocupe. Eu sempre soube. Eu a encaro, perplexa. — Sério? Sid dá de ombros. — Meu pai se esforçava tanto — disse ela. — Parecia o ponto alto da semana dele. Ir ao correio. Trazer aqueles cartões-postais idiotas. Dava para ver nos olhos dele. Toda vez, durante dois ou três minutos, acho que ele chegava a acreditar em si mesmo. Que ela estava em algum lugar incrível, vendo e pintando coisas lindas. Que um dia simplesmente ia aparecer, toda bronzeada e feliz, e as coisas voltariam ao normal. Sinto uma pressão no maxilar, e o movimento para aliviá-la.


— Sinto muito — digo. — Sinto muito por tirar isso dele. De todos vocês. Sid olha para mim. — Você não tirou nada — diz ela. — No mínimo, nos deu uma desculpa para parar de mentir, o que era exatamente do que eu precisava. Não era saudável. Sid puxa as pernas do parapeito e pega o frasco de protetor solar na mesa redonda. Ela abre a tampa e espreme um pouco do conteúdo na mão. — Aproximadamente quarenta por cento dos ataques cardíacos são causados por mentiras — diz ela, cobrindo as pernas com tiras brancas sólidas. — Sabia? Desta vez, não consigo evitar: solto uma risada sincera. — Não — respondo. — Também não sabia disso. — É porque eu inventei — admite ela. — Mas, mesmo assim, não tem como isso fazer bem para uma pessoa. — Você está certa — digo. — Está certa sobre um monte de coisas, sabia? Sidney dá de ombros outra vez. — Não de acordo com as pessoas daqui — diz ela, fechando a tampa do protetor e colocando-o na mesa. — De acordo com elas, eu sou uma espécie de aberração. Noel morria de medo do que o pessoal da escola ia pensar se soubesse sobre a mamãe. Esse é o menor dos meus problemas. Metade dos pais está bêbado na maior parte do tempo mesmo. — Ela dá de ombros. — Quem sabe agora eu me encaixe. Puxo uma das cadeiras do deque para perto dela e me sento. Quero fazer algo ridículo, como pegá-la, colocá-la no bolso e guardá-la ali até ela fazer dezoito anos e ter idade o suficiente para ir aonde quiser. — Sabe, eu era igual a você quando tinha sua idade — digo. Sid me lança um olhar enviesado antes de revirar dramaticamente os olhos. Ergo a mão para evitar que ela me interrompa. — Eu sei. Você deve pensar que é uma invenção ridícula da mídia ou algo que digo para ganhar fama, e eu não a culparia, mas juro que é verdade. Eu não tinha muitos amigos. Nunca vestia as roupas certas nem me importava com o que as pessoas consideravam descolado. Ela gira seu bracelete de corda, igual aos que deu ao Noel e ao pai. — Sério? — pergunta ela, ainda desconfiada. — Sério — digo. — E sei que um monte de gente deve estar dizendo que as coisas vão melhorar, que um dia você vai encontrar a sua tribo, ou seja o que for... Enquanto falo, procuro meu diário na bolsa. Eu o abro em uma página em branco e reviro o fundo da bolsa em busca de uma caneta. — E não sei se você vai ou não, mas sei que você é uma das pessoas mais fortes, inteligentes e esquisitas que já conheci. — Anoto o número do meu telefone e entrego


para ela. — E se você um dia estiver procurando uma tribo em Nova York, me ligue. Sid fixa os olhos no papel entre seus dedos. Ela olha do número para mim, e de volta para o número. — Sabe, eu poderia fazer um grande estrago com isto. — Eu sei — digo. — E eu mereceria. — É verdade — concorda Sid, cedendo a um sorriso teimoso. Antes que eu me dê conta, ela está em cima de mim, com os longos braços ao redor do meu pescoço e o rosto apertando o meu. Eu a abraço com força, puxando de leve seu rabo de cavalo. — O que aconteceu com a sua zona livre de demonstrações de afeto? — Uma voz nos surpreende. Sid pula para trás e ambas nos viramos, vendo o Noel. Ele está de macacão de borracha laranja enfiado dentro de grandes botas pretas, tirando uma armadilha da caçamba da sua caminhonete. Ergo a mão para ajeitar o cabelo e mexo sem jeito na barra do short. Sid me puxa para outro abraço. — Se você precisar de uma desculpa para sair, lembre-se: problemas femininos — sussurra ela no meu ouvido. — Tal pai, tal filho. Faço um sinal de positivo para ela e vou até a caminhonete, onde o Noel empilha recipientes de lagosta em um trecho de grama seca perto da cabana. — Oi — digo, com as mãos firmemente entrelaçadas nas costas. — Desculpe. Achei que você estaria fora. Eu tentei ligar... — É. — Noel dá de ombros e olha para as armadilhas. — Meu pai quer terminar bem a temporada. Diz que nossos números estão baixos. Parece que andei relaxado. — Deve ser culpa minha, não é? — pergunto, com um sorriso triste. — Provavelmente. Ele pega duas garrafas de água no cooler, me oferecendo uma. Eu aceito e ficamos ali, de costas para a lateral da caminhonete. Passo a mão por um amassado longo e superficial. — Isto também foi culpa minha — reflito, lembrando da manhã em que nos conhecemos. Como este verão teria sido se eu não tivesse ido à cidade naquele dia? Se tivesse parado no cruzamento como deveria? Noel se inclina para ver o dano e dá de ombros. — Adicione isso à lista. Baixo os olhos para meus tênis sujos. Por mais que eu tente combatê-las, as lágrimas se derramam dos meus olhos. Parada ali, com o Noel, desejo voltar atrás. Desejo nunca ter dado aquela entrevista. Desejo que pudéssemos ficar na nossa bolha,


só nós dois, como o velho e sua cabana flutuante, nossa ilha particular, para sempre. — Ei — diz ele, cutucando-me de leve. — Desculpe. Eu não deveria ter... eu não estava falando sério. Eu estava... Balanço a cabeça. — Você estava certo. — Não — diz ele, com firmeza. — Não estava. Eu estava zangado. E com medo. Mas não tinha nada a ver com você. Olho para ele, a linha forte e quadrada do seu maxilar, seus olhos azuis cansados. — Sinto muito — digo. — Se eu tivesse parado para pensar, nunca teria sido tão descuidada. Noel balança a cabeça. — Eu deveria ter contado a verdade. — Não — digo. — Você não deveria. Não até estar pronto. Esse é o problema. Esse é o meu problema. Tento fazer tudo rápido demais. Nunca dou tempo o suficiente para as coisas acontecerem sozinhas. É que... é com isso que estou acostumada. É como a minha vida funciona. Queria que não fosse assim, mas é. — Não precisa ser — diz Noel. Ele gira a garrafa d’água na mão, e o plástico estala entre seus dedos. — Você poderia ficar. Sinto uma agitação no peito. — Aqui? — pergunto. — Você ainda ia querer? Ele me lança um olhar cauteloso. — Claro — diz ele. — Tenho pensado, e acho que não posso ir com você. Pelo menos agora. Preciso ficar aqui. A Sid, o meu pai... eu devo isso a eles, ficar por um tempo. Eu concordo, imaginando a Sid e o pai deles lutando com o micro-ondas todas as noites. Sinto outra pontada e desejo poder levar todos comigo. — Mas você não precisa ir — continua Noel, hesitante. — Você pode ficar. Compor mais músicas. Quando estiver pronta, pode viajar para fazer shows, turnês, o que quiser. Não precisa abrir mão da sua vida. Só... desacelerar um pouco. Eu olho para além da casa, para as colinas cobertas de grama amarela-esverdeada, interrompidas por trechos de azul. Inspiro o ar úmido e salgado como esse estivesse tentando memorizar seu gosto. O gosto de tudo. Dobro os dedos na palma da mão áspera do Noel. — Eu vim para cá porque estava aprisionada. Todos os relacionamentos que já tive terminaram mal, e eu achava que era culpa minha, que tinha algo errado comigo. Você me mostrou que não era verdade. Eu posso ser feliz. Noel aperta a minha mão, e um sorriso tranquilo se abre no rosto dele. A agitação


no meu coração se transforma em uma dor aguda. — Eu me apaixonei por você e por este lugar ao mesmo tempo — continuo. — Você me mostrou uma vida que nunca achei que poderia voltar a ter, algo sólido e real. Fácil. Você me mostrou o quanto eu quero isto. — Dou um suspiro irregular. — Um dia. Os dedos do Noel soltam os meus. Sinto-o se afastar. — Um dia? Faço que sim com relutância. — Desculpe — digo. — Queria já estar pronta. Mas não estou. Quero fazer mais. — Não pode fazer daqui? — Agora, não — digo. — Estar com você, com a sua família, passar um tempo afastada... era exatamente do que eu precisava para ver as coisas de um jeito diferente. E ver as coisas de um jeito diferente me ajuda a compor o tipo de música que devo compor. Músicas sobre a vida... Todos os aspectos da vida, não só músicas de amor. Preciso me expor, experimentar mais. Se eu ficar... Minha mente volta à manhã em que o Jed foi embora, ao momento em que me sentei na escada com a Maya. Queria que tudo fosse fácil, mas talvez ela estivesse certa. Talvez “fácil” não seja a resposta. Há uma agitação dentro de mim que me faz seguir em frente, continuar fazendo perguntas e compondo músicas para descobrir as respostas. — Sei que deve parecer bobagem — continuo, sentindo-me mais forte. — No entanto, sinto que tenho... só uma chance, sabe? De dizer tudo o que quero dizer. E se parte disso fizer as pessoas se sentirem melhores ou menos sozinhas... Bom, não é todo mundo que tem essa oportunidade. Não sei quanto tempo vai durar. Mas não posso virar as costas para isso. Para eles. Ainda não. Noel cruza os braços. — E aí? Devo ficar esperando aqui até o resto do mundo se cansar de você? Até você estar pronta? De repente, meu corpo fica inquieto, trêmulo. Quero passar os braços em torno da cintura dele e implorar que vá comigo. Convencê-lo de que a família vai ficar bem, de que os dois não precisam dele. Existe um mundo enorme fora da ilha. Ele pode ser quem quiser. Fazer qualquer coisa. Mas me lembro da Maya outra vez. A Maya e o Noel nasceram para falar a língua deste lugar. A ilha vive dentro deles. Eles podem ir embora e voltar, mas sempre saberão como é ter um lar. Sempre vão sentir essa atração. Eu não tenho um lar... por enquanto. Mas conheço essa atração. Sei como é me sentir incompleta sem o ritmo da estrada, o som de quarenta mil pessoas cantando as


mesmas palavras, palavras que eu escrevi. Penso na Sidney, na garotinha confusa, esquisita e às vezes perdida que eu era. Minhas músicas sempre foram o meu jeito de entender o mundo, os erros que cometi, as pessoas que conheci e o que elas me ensinaram. Ainda não estou pronta para acabar com nada disso. Não sei se um dia vou estar. — Claro que não acho que você deva esperar — digo, suavemente. Noel encosta o queixo no peito e enfia as mãos nos bolsos. Chuta a terra da entrada, levantando nuvens de poeira ao redor dos nossos tornozelos. — Mas mesmo assim você precisa ir? — Mesmo assim eu preciso ir. Ficamos quietos por um momento, sob o distante som das gaivotas no céu, do barulho do mar. Uma das mãos do Noel desliza para fora do bolso e encontra a minha. Encosto a cabeça ao ombro dele e fecho os olhos, metade de mim desejando nunca precisar deixá-lo. Desejando poder guardar este verão para sempre, como uma porta secreta na qual posso entrar sempre que precisar. O verão em que me enxerguei como era antes, antes das luzes fortes, janelas fumê e quarenta mil vozes. E metade de mim já partiu.


29 Um mês depois Los Angeles

— LILY? Ouço uma batida rápida na porta do meu camarim antes de ela se abrir e o Ray deixar a Tess e a Sammy entrarem. Ele verifica o relógio e me lança um olhar de ande logo enquanto o murmúrio pulsante de uma multidão ansiosa vibra nas paredes ao nosso redor. Só faz uma hora desde que terminamos a passagem de som, mas parece que estou nos bastidores há uma eternidade, olhando distraidamente meu reflexo fortemente maquiado, ouvindo ao canto insistente, os ecos do meu nome invadindo o camarim a cada vez que a porta é aberta. “Li-ly! Li-ly! Li-ly!” Eu me acomodo na ponta do sofá em L, puxando as franjas da saia curta de lantejoulas. Tess e Sammy se sentam uma de cada lado. Corro os olhos entre as duas e forço um sorriso trêmulo. — Algum sinal? — pergunto, tentando não ficar muito esperançosa. Pelo espelho, vejo-as se entreolharem. Sammy balança a cabeça. — Os lugares ainda estão vazios... Sinto muito, Passarinho. Eu assinto lentamente. Faz semanas que o Noel e eu não nos falamos. Trocamos mensagens de texto no início, logo depois que fui embora da ilha, mas depois as coisas ficaram caóticas demais e foi mais fácil, acho que para nós dois, terminar de vez. Antes de pararmos de nos falar, mandei ingressos do primeiro show para ele e a Sidney, mas nunca acreditei de verdade que eles pegariam um avião até aqui. Não é que eu esteja surpresa, mas parte de mim tinha esperança, e agora a decepção afunda no meu


estômago feito uma pedra. — Gostei do lugar. Tess olha o camarim elegante com ar de aprovação. Foi a primeira vez que me preparei para um show sem elas, e sei que essa é parte da razão para eu me sentir tão estranha. — Acho que talvez tenha sido um erro — digo, como se ainda houvesse tempo para mudar de ideia. Como se eu pudesse sair pela porta e voltar correndo para o hotel sem ninguém perceber. Me enroscar na cama com serviço de quarto e um filme. A ideia é tão tentadora que faz meu corpo inteiro doer. Sammy pega minha mão e a aperta com força enquanto Tess balança a cabeça. Seu cabelo cresceu, e as mechas curtas de baixo agora são camadas macias misturadas ao resto. — Você só está com medo — diz ela, em um tom neutro. Ela se levanta e me puxa, arrastando-me até o espelho. — Olhe só para você. Você está... — Eu sei — digo, fazendo uma careta para o collant cintilante, a sala justa. — Estou ridícula. Tess balança a cabeça, dessa vez de um jeito desafiador. Ela me empurra mais para perto do espelho. — Você está fenomenal — insiste Tess. — Parece uma estrela. — É verdade — ecoa Tess. — E não há problema em ficar nervosa. Mas você vai se sair muito bem. Os ensaios foram bons, não é? Olho meu reflexo com desdém. Os ensaios foram brutais. Fui obrigada a espremer meses de novas coreografias e mudanças no cenário e nas roupas em poucas semanas. Quando voltei à cidade, estava tão fora de forma que mal conseguia aguentar uma hora sem desmaiar. Passar o verão inteiro deitada na praia não foi o melhor preparo para pular pelo palco de salto alto doze horas por dia. E, emocionalmente, eu estava um desastre, convencida de que cometera um erro terrível. Eu estava distraída, e todo mundo percebeu. Terry tentou esconder a preocupação, mas eu sentia que ele me observava toda vez que eu errava um passo ou enrolava uma letra, esperando que eu desmoronasse. Então, pouco a pouco, eu me recuperei. Aprender os passos complicados, usar as roupas cintilantes... foi como um minitreinamento militar. Tive que reaprender a me entregar a algo maior que eu, ao lindo caos das engrenagens da turnê, o teatro da vida na estrada. Mas ainda há momentos, todos os dias, em que tudo volta em flashes: quando vejo um cara com os mesmos ombros largos do Noel trabalhando no set, curvado sobre um martelo, ou quando, ao ensaiar as letras, eu me lembro da ilha, da vida que podia


estar levando, a que deixei para trás. — Passarinho, você consegue — diz Sammy, como se lesse a minha mente. Tess estende a mão. — Vamos — diz ela, me puxando para ficar de pé. — Por que nós mentiríamos? Não ganhamos mais para isso. Ela pisca para mim e a sigo, nervosa, as vibrações pulsantes ficando mais intensas conforme nos aproximamos da porta do corredor. — Espere! — grita Sam atrás de nós. Ela está curvada sobre a mesa de canto, mexendo no telefone. Quando se ergue, a alegre batida introdutória da nossa música pré-show preferida da Madonna estoura por um alto-falante portátil. — Não acredito que quase esqueci. — Tess sorri. — Você não pode subir ao palco sem uma dancinha de aquecimento. Tess larga a minha mão e faz uma rápida série de passos inspirados em “Vogue”, me chamando para participar. Sammy está com os braços no ar e o rosto para cima enquanto grita a letra para o teto. Eu solto uma risada e sinto o nervosismo se transformar em sentimentos mais familiares, como expectativa e animação. Algo com que consigo lidar. Dançamos e rimos até ficarmos suadas e sem fôlego, até o Ray enfiar a cabeça para dentro e dizer que está na hora. Minhas amigas me acompanham até as coxias e me abraçam com força antes de voltar para seus lugares, do outro lado do palco. Eu as vejo desaparecer e sinto o estádio inchar ao meu redor. Fecho bem os olhos e me perco nas milhares de vozes. Há um alvoroço de atividade, gente arrumando o meu cabelo, as minhas roupas, me posicionando embaixo do palco, onde vou ser fechada em um elevador de vidro e erguida até o campo de visão do público. — Pronta? — pergunta alguém da equipe. O maquinário estala e geme, e o set móvel é engolido pela escuridão, com exceção dos feixes de luz que se infiltram pelas fendas acima. Sinto uma onda dentro de mim, uma grande e repentina mudança. Tudo se acalma. Estou sozinha. Sei o que preciso fazer. — Estou pronta — digo quando as portas se fecham ao meu redor e o piso começa a se mover, erguendo-me em direção à luz.


Estou parada no palco, ofegante, as últimas notas de uma música ecoando no ar. Luzes rodopiam pelo estádio em um padrão cruzado, chegando até a área do mezanino, onde iluminam mãos, dedos e rostos, dezenas de milhares de olhos em mim. Estou no meio do primeiro set, com o coração disparado e as bochechas doloridas de tanto sorrir. Eu tinha me esquecido disto: a primeira noite da turnê, depois de todo o trabalho de coreografar, ensaiar, planejar e passar o som, é sempre emocionante. É pura alegria olhar o mar de rostos sorridentes, gritando e cantando. Rostos jovens, rostos velhos, alguns em pares tímidos, outros em animados grupos. Alguns rostos são familiares, como o dos meus pais na primeira fila, ou o da Tess e da Sammy que, pela primeira vez em anos, estão aplaudindo na plateia e não exaustas e ocupadas nos bastidores. É uma emoção que nunca senti, uma energia nas veias que faz o coração disparar e o sangue correr, um balão cheio de êxtase se enchendo entre as minhas costelas. Sempre foi assim, a mágica e a euforia que sinto ao voltar depois de uma longa pausa. Mas, nesta noite, o sentimento é magnificado e misturado com um alívio ambíguo. A Sammy e a Tess estavam certas: apesar de tudo o que aconteceu durante o verão, apesar de todos os meus medos, ainda consigo subir aqui e fazer o que faço. Usando todas as minhas forças, tudo o que me tornei. Consigo fazer isso e continuar sendo eu. Agora, enquanto os últimos acordes se extinguem ao meu redor e os aplausos ensurdecedores se tornam um rumor baixo, ando cuidadosamente até o lugar onde colocaram o piano. Eu falei para a equipe que queria experimentar uma coisa nova esta noite. Depois da abertura, depois que tivesse tocado algumas das mais populares, eu queria tirar alguns minutos e simplesmente conversar, como se estivesse sentada na minha sala de estar com alguns amigos. Tenho certeza de que todos pensaram que eu enlouqueci, mas fizeram a minha vontade, e agora o piano está aqui e o estádio vibra com um silêncio carregado e ansioso. Meu estômago se revira e minha pulsação dispara nos meus ouvidos. Antes de me sentar, encaro a Tess e a Sammy. Elas estão de braços dados e sorriem como pais orgulhosos em um recital. Eu sei que não teria conseguido sem elas. Também sei que, quando o final de semana terminar, quando a turnê seguir em frente e elas forem embora para dar início às próprias aventuras, todas vamos ficar ótimas. Não nos veremos tanto, vamos precisar nos esforçar mais para manter contato, mas amigas como essas não precisam de cargos, ligações diárias ou rotina. Amigas como essas são para sempre. Eu me sento ao piano, virando para a plateia os saltos agulha de cadarço com os


quais é impossível andar. — Oi, gente — digo, ajustando meu microfone. A plateia explode em gritos, como se eu tivesse dado carros de graça para todos. Solto uma risada e ouço minha voz ecoar no alto, me perguntando se um dia vou me acostumar a isso. Espero que não. — Eu tive uma ideia — grito acima dos aplausos. — Pode ser uma loucura, mas eu só queria... Vocês se importariam se eu conversasse com vocês um minuto? Prometo voltar para a música já já, mas quero dizer algumas coisas antes. Tudo bem? Ouço urros, e as luzes diminuem, me destacando ao piano. Puxo o banco mais para perto, apoiando um dos cotovelos na tampa para ficar confortável. Sorrio para o brilho de dezenas de milhares de celulares e câmeras, cada uma como uma pequena chama em um mar de corpos silenciosos e ondulantes. — Em primeiro lugar, obrigada, do fundo do meu coração. Por me dar a oportunidade de desaparecer neste verão — digo. — Vou ser totalmente honesta: eu precisava. Estava me sentindo... Eu estava triste. E cansada. E confusa. E, às vezes, quando você está triste, cansada e confusa, precisa de um descanso. Precisa ficar com as amigas que te conhecem desde criança. Precisa voltar a ser aquela criança. E foi o que eu fiz. Encontro a Tess e a Sammy outra vez na escuridão, vendo as luzes do palco refletidas em seus olhos sorridentes. Respiro fundo. — Além disso... eu conheci uma pessoa neste verão. Há outro rugido repentino, aplausos e cantos, e vejo alguns cartazes que dizem coisas como: C ADÊ O NOEL? e NÓS AMAMOS O NOEL!, adornados com corações e flechas gigantescos. Continuo sorrindo, erguendo as mãos até o silêncio retornar. — Eu sei, eu sei — digo. — Vocês queriam que ele estivesse aqui. Eu também queria. Mas às vezes... às vezes... As palavras me faltam. Eu tinha planejado um discurso inteiro, mas agora, sentada diante de milhares de rostos esperançosos, esqueci tudo. Ser tão honesta em relação ao Noel é mais difícil do que eu previ. Respiro fundo, tentando lembrar a mim mesma de que o objetivo é esse. Nem tudo pode ser fácil o tempo todo. Às vezes, as partes difíceis são as que mais nos ajudam a crescer. Passei a noite toda evitando certa seção da plateia, os lugares que reservei para o Noel e a Sid. Mas agora sinto meus olhos atraídos para lá, como se o meu corpo precisasse de um lembrete visual. Como se eu precisasse me recordar do amor louco, da dolorosa perda e da tristeza duradoura que me motivaram a abrir o coração aqui. Eu me preparo e encaro as fileiras da frente, procurando os dois lugares vazios... então meu estômago afunda.


Ali, na terceira fileira, estão o Noel e a Sidney. Uma dor aguda e penetrante aperta o meu coração. Tudo começa a girar. Pisco e olho de novo. A Sidney está de pé na sua cadeira, com um braço apoiado no ombro do Noel. Pela postura, dá para ver que as mãos dele estão nos bolsos. Ele olha timidamente para os lados. A Sidney acena de um jeito bobo com o braço erguido. Eles estão aqui. Eles vieram. Meu coração parece flutuar, e um sorriso grande se abre no meu rosto. No entanto, assim que me volto para o piano, sinto um medo novo e paralisante. Aqui estou eu, prestes a fazer a mesma coisa que sempre fiz: me expor para milhares de desconhecidos, convidá-los para dentro da minha vida de um jeito que pode deixar algumas pessoas desconfortáveis. De certa forma, foi exatamente o que me separou do Noel. Será que vale a pena? É isso mesmo o que eu quero fazer? Viro-me outra vez para o Noel, e nossos olhares se encontram. Sob a incerteza, sob o desconforto inquieto, eu o vejo sorrir. E percebo que ele está bem. Ele vai ficar bem, assim como eu. O que é engraçado, porque era exatamente isso o que eu queria dizer hoje: mesmo que as coisas não saiam exatamente do jeito que você esperava, mesmo que seu final feliz perfeito não aconteça, tudo vai ficar bem. Se apaixonar não é tudo. É muito. Mas não é tudo. Pigarreio e continuo. — Às vezes, a vida nos oferece várias oportunidades ao mesmo tempo, e você precisa fazer escolhas. Às vezes, o que você quer e o que você precisa são duas coisas diferentes. Às vezes, a vida não vai fazer sentido, as coisas vão ser complicadas e nada vai ser fácil. As escolhas não vão ser fáceis. Mas vocês vão ficar bem. Nós vamos ficar bem. Porque aqui e agora, eu escolho todos vocês. O estádio explode em berros e eu me levanto, agora quase gritando, só para me ouvir apesar do rugido ensurdecedor. — É por causa de vocês que todos os meus sonhos se realizaram. É por causa de vocês que eu posso fazer o que mais amo todos os dias e todas as noites. Posso compor músicas e podemos cantá-las juntos. Então, enquanto vocês estiverem aqui, eu também estarei. Combinado? Há gritos e uivos, e eu solto uma risada, voltando ao piano e abrindo a tampa. Posiciono as mãos nas teclas, pressionando-as lentamente. Toco os primeiros acordes de “Let it Be”, improvisando até meus dedos encontrarem os acordes novos, os certos. — Então esta música é para todos vocês. É para todo mundo que tem uma escolha a fazer. Todo mundo que ainda está esperando. Ela se chama “Querida Sid”, e eu a compus para uma amiga muito especial. Dou uma olhada para a plateia e vejo a Sidney com as mãos no rosto, de olhos arregalados e brilhantes.


Viro para o piano. Fecho os olhos, respiro fundo. E canto.


PUBLISHER Omar de Souza

EDITORA Giuliana Alonso

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Thalita Aragão Ramalho

PRODUÇÃO EDITORIAL Jaciara Lima

COPIDESQUE Paula de Carvalho

REVISÃO Marcela de Oliveira Ramos Thamiris Leiroza

DIAGRAMAÇÃO Abreu’s System

ADAPTAÇÃO DE CAPA Julio Moreira

PRODUÇÃO DO EBOOK Ranna Studio


Capa Rosto Créditos Dedicatória 1 | 92 dias para a turnê mundial Lily Ross Para Sempre | 12 de junho 2 | 92 dias para a turnê | 12 de junho 3 | 91 Dias Para a Turnê | 13 de Junho 4 | 90 dias para a turnê | 14 de junho 5 | 87 dias para a turnê | 17 de junho 6 | 86 dias para a turnê | 18 de junho 7 | 84 dias para a turnê | 20 de junho 8 | 84 dias para a turnê | 20 de junho 9 | 81 dias para a turnê | 23 de junho 10 | 80 dias para a turnê | 24 de junho 11 | 77 dias para a turnê | 27 de junho 12 | 76 dias para a turnê | 28 de junho 13 | 70 dias para a turnê | 4 de julho 14 | 67 dias para a turnê | 7 de julho 15 | 65 dias para a turnê | 9 de julho 16 | 59 dias para a turnê | 15 de julho 17 | 58 dias para a turnê | 16 de julho 18 | 52 dias para a turnê | 22 de julho 19 | 51 dias para a turnê | 23 de julho 20 | 48 dias para a turnê | 26 de julho 21 | 48 dias para a turnê | 26 de julho 22 | 47 dias para a turnê | 27 de julho 23 | 46 dias para a turnê | 28 de julho 24 | 46 dias para a turnê | 28 de julho


25 | 36 dias para a turnê | 7 de agosto 26 | 35 dias para a turnê | 8 de agosto 27 | 33 dias para a turnê | 10 de agosto 28 | 30 dias para a turnê | 13 de agosto 29 | Um mês depois | Los Angeles Ficha técnica


Vivi greene sing (oficial)