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Irresistível Trilogia da Lei Volume II Copyright© 2015 M.S. Fayes Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob qualquer meio existente sem autorização por escrito dos direitos. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. 1º Edição Digital 2015 Revisão: Nathalia Marques Diagramação e Arte Interna: L. A. Fukunaga


Direção de Arte e Design de Capa: Elisa Medeiros Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. F283i Fayes, M. S. Irresistível / M. S. Fayes. – 2º volume da Trilogia da Lei Brasília: Edição do Autor, 2015. 16x23 cm; XXX páginas. ISBN: 978-85-918634.0-2 1. Romance Brasileiro I. Título Maria Catarina da Maia da Silva CRB10/993 CDD B869.35 CDU 869.8(81)-30

Dedicatória

Dedico este livro a todos os leitores queridos que tanto amaram a história de Gabe Szaloki e Kate Campbell, do livro Absoluto, e que abriram espaço em seus corações para Fay e Alex. Fiquei emocionada com todos os ardentes pedidos pelo livro com a história dos dois. Espero


realmente que eles, Alex e Fay, possam ser para vocês tão irresistíveis quanto foram para mim enquanto escrevia este livro.

Prólogo

Ela caminhava apressadamente pelas ruas abarrotadas, correndo em alguns momentos e tentando evitar os esbarrões das pessoas que tinham pressa em chegar a algum lugar. Tal como ela. Era uma da tarde e Faith já devia estar na venda de seu pai, substituindo o funcionário que o auxiliava até o almoço. Incrível acreditar que ainda continuava perdendo a noção do tempo quando estava na aula de ballet. Seu pai não tinha muitas condições financeiras, então, aos 15 anos, ela fazia todo o possível para ajudá-lo no trabalho e para honrar as bolsas escolares que ela recebia do governo. Faith vivia com a avó em New Jersey até sua morte anos atrás, quando teve que se mudar para Manhattan para viver com o pai. Com o custo de vida elevadíssimo na cidade, eles não tinham muito com o que se sustentar. Até mesmo suas aulas de ballet tiveram que ser canceladas. Faith desviou de um indigente com um carrinho de mercado que vinha em sua direção e num ato reflexo resolveu cortar o caminho para chegar o mais rápido possível no trabalho do pai. Antevia a bronca que ia levar pelo atraso, quando pulou uma cerca que fechava o acesso de um beco entre dois quarteirões. Quando ela se preparava para pular a outra cerca no fim do beco sujo e asqueroso, a porta de um dos prédios foi aberta de maneira abrupta e três homens saíram gritando uns com os outros. Assustada demais para fazer outra coisa, Faith escondeu-se atrás de umas caixas de papelão que estavam jogadas no canto. Ela esperava que o conflito que parecia estar acontecendo se resolvesse logo e quando os homens entrassem novamente no prédio ela daria o fora dali rapidamente.


O suor escorria de seu cabelo. Ela estava nervosa porque sempre ouvira do pai para não cortar os caminhos pelos becos do bairro. Para nunca se desviar pelos atalhos mais fáceis, já que ele quase se habituara aos seus horários tardios. Parece que ela não tinha ouvido o suficiente. Engatinhando por trás das caixas mal cheirosas, Faith sentiu uma pedra cortar seu joelho pelo rasgo de sua calça jeans. Quando conseguiu entrar embaixo de uma estrutura de cimento que parecia um abrigo de algum indigente da região, ela percebeu que a discussão continuava e que agora pelos ruídos de ossos batendo, um deles estava apanhando duramente. Espiando pela abertura que permitia ver toda a cena, Faith ficou chocada com os golpes que um dos caras recebia ainda caído no chão. O que parecia ser o líder apenas observava com as mãos atrás do corpo. O outro capanga musculoso chutava o homem que sequer se mexia no chão. Faith estava sentindo todo o seu corpo tremer agora. O homem de pé, lhe amedrontou até os ossos tirando suas mãos detrás de si com uma pistola, deixando Faith sem fôlego. O brutamonte que golpeava o cara no chão ergueu o corpo do infeliz o colocando de joelhos, e o homem, com um sorriso sádico no rosto, colocou o cano da pistola na boca do rapaz. Faith estava sentindo que uma lágrima descia pelo seu rosto. Estava chocada demais para fazer qualquer coisa e sentia no fundo do seu ser que algo de ruim iria acontecer ali. Ela viu quando a arma disparou e sangue voou da cabeça do cara. O capanga deixou o corpo do cara cair ao chão e o líder apenas observou seu trabalho. — Agora sim, Bob — ele disse congratulando o cara ao seu lado. — É desse jeito que mostramos o que acontece com quem atravessa meus negócios. Achando que tudo já estava acabado, Faith ficou chocada quando viu o cara atirar mais três vezes no corpo desfalecido do rapaz. Faith podia ver a quantidade de sangue que escorria do corpo do rapaz. Era absurda. Descia serpenteando como um rio, num tom vermelho vivo. O brilho líquido a deixou hipnotizada. — Bob, confira se todos os pacotes de heroína estavam com esse merdinha. Pegue-os de volta. Se mais algum bastardo se meter nisso, você dá o mesmo fim — o homem disse. — Você já sabe o que fazer. — Sim, Sr. Montoya. Montoya. Era um nome conhecido no bairro. Conhecido e temido. O cara era um traficante de drogas que dominava toda a área empobrecida onde moravam. Faith viu quando os dois deixaram o corpo do cara e entraram de novo no prédio sem sequer olharem para trás. Enquanto isso, um rio fluido de sangue chegava até seus tênis. Faith estava com os braços em volta de seus joelhos e não conseguia sequer se mover para afastar-se ou sair dali. Com os olhos muito abertos ela apenas ouviu uma janela abrindo e um grito de mulher. Ela não soube quanto tempo depois as sirenes da polícia soaram ensurdecedoras. O pequeno beco ficou completamente tomado por fitas amarelas para isolar os curiosos que agora se aglomeravam para espiar o que acontecia ali. Faith via e ouvia todos os sons, mas não conseguia mover-se. Ela apenas sentia as lágrimas descendo quentes e sorrateiras. Quando um policial iluminou com o brilho de uma cegante lanterna o local onde Faith se escondia, ele gritou algo e mais homens correram até onde ela estava. Uma policial feminina agachou-


se na frente de Faith e falou alguma coisa que ela não conseguia entender. — Ela está em choque. Tragam os paramédicos! — A policial gritou. Faith apenas olhava, estarrecida, como agora seus tênis estavam completamente ensanguentados.

Capítulo Um Boston é uma cidade conhecida por suas Academias de Direito e ao contrário do que muitos pensam, sua vida noturna é cheia de uma variedade de boates, bares e demais entretenimentos, como os filmes ao luar do Harbor Hotel. Fay Williams andava pela boate escura e enfumaçada. Com um copo de bebida na mão, ela apenas analisava os potenciais caras pegáveis. Como Kate nunca gostava de sair com ela para as baladas, Fay muitas vezes ia com o pessoal da Associação, depois que terminavam os trabalhos lá, onde ela dava aulas de dança, entre outras coisas. Ela sempre chamava atenção nos clubes noturnos e como não era nem um pouco inibida, acabava dando uns bons amassos quando encontrava algum cara quente. Levantou o copo de seu drink ao passar por uma multidão que dançava freneticamente o ritmo da música e apreciou a descontração do lugar, que incluía sofás, mesas e uma grande varanda. Riu quando um cara dançou esquisitamente à sua frente, fazendo malabarismos. Entrando no ritmo dele, ela dançou junto momentaneamente e antes de seguir em frente jogou um beijinho no ar para o esquisitinho, que ficou embasbacado por seus passos. Ela se embrenhou ainda mais na pista de dança e achou o casal de amigos, a seu ver, numa conversa muito íntima. Sorrindo e pretendendo deixá-los sozinhos, começou a dançar sozinha. Não intencionava voltar e se juntar aos outros no bar porque a música era simplesmente demais para não se deixar dançar. Também gostava de se dedicar a momentos solitários em que entrava no ritmo da música e se deixava vagar pela melodia. Bebeu mais um gole de seu drink, parecendo misturada à multidão. Dançava de maneira discreta apenas mexendo o corpo levemente. À medida que o ritmo fluía em seu corpo ela se permitia soltar os quadris, sacudindo-os no compasso ritmado do som. Fechou os olhos e se deixou levar pelo que ouvia. Embora a letra não dissesse nada com nada, era simplesmente contagiante. A música a ajudava a extravasar seus excessos de energia, pensamentos ou emoções. Fay amava os momentos em que podia se soltar e sentir-se livre das convenções sociais. Nascida


em NY, tinha uma rotina diária tão agitada quanto sua cidade de origem. Ela costumava dizer que vivia intensamente a vida enquanto as pessoas costumavam fazer um julgamento precipitado e errôneo a seu respeito, considerando-a superficial. E por mais que estivesse acostumada a isso, momentos como esse a deixavam mais relaxada e tranquila. Quando estava ainda de olhos fechados sentiu um par de mãos em seus quadris. Virou o pescoço levemente para analisar quem seria o atrevido parceiro de dança que interferia em seu momento catarse. De soslaio, percebeu que o homem a olhava de forma faminta e sem pestanejar uma única vez. Ele simplesmente fazia o tipo “tomo o que quero” e continuava a mantê-la firmemente presa pelos quadris. Deixando-se levar, ela permitiu que ele a conduzisse como quisesse. Quem diria que dançar assim fosse sexy pra caralho! Enquanto ela mantinha o copo em sua mão, o outro braço se estendeu para trás para prender o pescoço de seu parceiro, encontrando uma sedosa massa de cabelos para agarrar firmemente. Sua cabeça tombou no ombro dele e sentiu quando ele cheirou seu pescoço esfregando a ponta do nariz logo abaixo de sua orelha, fazendo-a sentir o sexy roçar da barba em seu ombro. Seus quadris mexiam juntos e Fay precisou se esforçar para conter um gemido atrevido que queria sair de sua boca. As mãos dele nunca deixaram seus quadris para se aventurar por zonas proibidas. Eles apenas balançavam juntos na melodia da música. Outros casais dançavam à frente deles, mas era como se o mundo tivesse deixado de existir. Só havia eles dois. Eroticamente entranhados na pista de dança. Com a cabeça inclinada em sua direção, sentindo aquele contentamento inebriante provocado pela dança, Fay foi tomada por um momento idílico e encostou os lábios sussurrando a letra da música no ouvido dele. Ela sentiu os lábios dele esboçarem um sorriso e deslizarem pelo seu pescoço e pela curva de seu ombro. Uma mordida leve ali aumentou ainda mais sua expectativa com o que estava por vir. — Isso é uma promessa? — Ele provocou Fay, revelando nesse momento um tom de voz grave. As mãos nem se moviam, fazendo Fay se impacientar. Ela queria se virar para encará-lo, mas ele impediu a afastando da pista e a levando para um canto mais escuro. Ele tirou o copo de sua mão e depositou em um balcão qualquer, e num instante a imprensou contra a parede. De costas para ele, Fay não se fez de rogada e resolveu explorar os limites. Continuou movendo seus quadris até que ele a prendeu firme, evitando seus movimentos. Com uma mão em seus cabelos, ele virou o rosto dela o suficiente em direção à sua boca para beijá-la. Longamente. Já tinha ouvido falar em beijos com “encaixe perfeito”, mas era a primeira vez que sentia uma descarga de euforia roubando seu ar e esquentando seu corpo. Num movimento, ele a puxou de forma a tê-la mais grudada ao seu corpo, evidenciando seu estado de excitação. Com apenas a prisão de seu corpo e sua boca, ele estava fazendo um estrago em Fay. Suas mãos estavam contidas entre seu corpo e a parede, enquanto o aperto em seu cabelo se mantinha para colocá-la completamente à mercê de seu beijo. Com uma língua ousada, explorava sua boca com paixão. Seu hálito era mentolado e com um toque de uísque. De repente, ele a virou em seus braços e ela pode enfim lançar seus braços em seu pescoço mantendo o aperto. Fay não queria que acabasse o beijo mais mágico que dera em sua vida.


Capítulo Dois Ainda se mantinha cativa das mãos do estranho, quando o percebeu abrandando o beijo. Agora a boca dele vagava por sua mandíbula, pela linha de seu pescoço, mergulhando na curva de seu ombro salpicando beijos úmidos pelo caminho. Ela percorreu os cabelos sedosos de seu estranho. Como a luz da boate era escura, apenas pode supor que fossem claros. Uma barba marcava seu rosto lhe dando um aspecto totalmente proibitivo. Ele ainda aspirava e fazia cócegas em seu pescoço. — Oi, estranho — ela disse de forma casual, dando-lhe um sorriso sexy escancarado. Quando ele ergueu os olhos e a encarou, mesmo à luz negra, ela pode divisar o que? Desejo? Misturado com... Divertimento? Ela sempre trocava ao menos os nomes antes de beijar um cara... Parece que eles pularam essa fase e ele achara divertida a situação. Ainda se mantinham juntos e balançando ao ritmo de outra música. Ele segurou o cabelo dela pela base, fazendo seu pescoço envergar para trás beijando-a com vontade. Fay adorou esse movimento, com aquela pegada firme de quem sabe o que quer. — Oi, ruiva. Sou Alex — ele respondeu e sorriu, com a tentativa frustrada de acalmar um pouco seus quadris. — Fay ao seu dispor — ela provocou, olhando para ele sem parar de mexer seu corpo contra o dele. Ele pareceu mais divertido com o atrevimento dela. — Combina com você. Está aproveitando sua noite? Fay deu um sorriso zombeteiro e o observou com um resquício de sorriso nos lábios. — Ela ainda não acabou. Depende do incentivo — respondeu matreiramente. — Incentivei o suficiente? — ele perguntou com a sobrancelha arqueada. — Além do esperado. — Ela disse com seu jeito direto de ser e o beijou novamente. Fay o observava enquanto ele fazia o mesmo. Ela percebeu que seu aspecto lhe dava um ar despojado e meio grunge, apesar de seus olhos serem argutos e afiados. Eram claros, mas Fay não conseguia definir precisamente a cor. Atraente, o corpo era definido e seus bíceps deliciosos ao toque. Ela podia sentir a muralha de músculos também, ocultos apenas pela roupa. Boca perfeita. Cheia, bem formada num rosto de barba cerrada, que a deixava arrepiada só com a sugestão de um roçar na pele. Os olhos de Fay caíram para o seu pescoço que mais parecia uma


coluna de aço. Ela podia sentir os olhos dele varrendo seu corpo. De corpo bem formado e com curvas em todos os lugares. Ela dançava, fazia suas aulas de boxe constantemente e mantinha uma alimentação saudável. Não que fosse psicótica com o físico, mas parecia que seu corpo produzia uma quantidade de energia excessiva, que precisava ser extravasada. Seus cabelos eram longos e ruivos, lhe dando um ar indomável. Seus olhos azuis translúcidos atraiam tanta atenção quanto seus cabelos, tipicamente irlandeses. Ela sabia que sua personalidade forte não contribuía para tornar mais fáceis suas relações com as pessoas, de modo geral. Quando queria alguém, Fay era agressiva, porque gostava de chegar e desconcertar o homem que chamara sua atenção. Esse cara a surpreendeu por se atrever a interferir em seu espaço pessoal no meio da boate lotada, colando seu corpo ao dela como se lhe pertencesse. Mais surpresa ficou ao gostar de ser manejada dessa forma por ele. Alex a olhava extasiado. A beleza dela chamou sua atenção, mas não poderia imaginar que teriam uma conexão tão instantânea assim. Claro que já havia visto mulheres deslumbrantes, quem sabe até mais bonitas que ela, mas nenhuma o fez sentir o que ele sentia naquele momento, parecia como o despertar de uma paixão. A boate não fazia seu estilo, mas ele acabou arrastado ali por seus companheiros de trabalho numa comemoração por seu retorno à cidade. Tinha pensado em seguir Gabe e John ao bar, mas diante da ruiva em seus braços, viu que tomou a mais acertada das decisões. Alex esteve fora resolvendo pendências particulares que exigiam dele muito mais do que se poderia imaginar. As lembranças trágicas do seu passado que o assolavam sempre que ele voltava às suas origens, o deixavam um pouco irritado. Além disso, tinha acabado de lidar com um caso complexo no Tribunal e aquela noite ele queria apenas desanuviar a cabeça. Não imaginava estar sentado em uma banqueta no bar e deparar-se com uma beldade ruiva dançando sozinha, alienada de todos os outros ao redor. Ela estava alheia a absolutamente tudo à sua volta. Simplesmente curtia a música como se a batida emanasse de dentro de si. Alex se viu hipnotizado por ela, que ainda sacudia os cabelos ao ritmo da música. Ele sentiu uma irresistível atração instantânea, e como um ímã, se viu levantando do banco e caminhando em sua direção. Seu passo era firme. Com destino certo. Uma beldade que dominava a pista de dança e seu olhar. Agora que a tinha entre seus braços, Alex só queria levá-la a um lugar isolado e possuí-la de maneira inconsequente, sem se preocupar com o dia de amanhã. Ela beijava de maneira sedutora e faminta. Mesclava momentos em que tudo o que queria fazer era se deleitar com seus beijos e com gemidos inaudíveis que mostravam sua disposição em estender o momento para um local apropriado. Aquele interlúdio entre eles aumentava progressivamente. Ao pegar uma garrafa d’água para ela, Alex a viu enviar uma mensagem por celular para alguém. Acertou a conta e a levou em direção à saída, entre carícias e sorrisos. Com a noite fria, Alex a ajudou a vestir seu próprio casaco de couro e a puxou pela rua e com a avidez que demonstravam, entretidos um com o outro, ficava claro que não se preocupavam com os


olhares curiosos de algumas pessoas que aguardavam na fila de entrada. Fay aspirou o cheiro áspero de couro com uma essência totalmente masculina. Quando percebeu o rumo que a noite tomara, deu um sorriso maroto. Ohhh, alguém estava realmente selvagem hoje! E esse alguém era ela! Sem dar chance a qualquer tipo de argumento, Alex pediu que ela bebesse a água antes de prosseguirem a jornada. Fay obedeceu ao comando com um sorriso deliciado em sua boca. Ele observou a ruiva beber avidamente o líquido da garrafa e, por mais incrível e louco que aquilo pudesse parecer, o feito foi bastante erótico. Ele pegou um capacete extra na garupa de sua Harley Davidson, mas antes de lhe entregar, encostou seu corpo na moto a beijando e puxando para um abraço íntimo. Fay colou seu corpo ao dele tentando aplacar o desejo, mas só fez aumentar a paixão. — Aaah... — ele bufou com uma rouquidão na voz que a fez ainda mais excitada, apesar de ter se afastado. Tentando desanuviar a pressão e dar-lhes espaço ele indagou: — Vamos andar de moto? — Só se for para sua casa — disse ela voltando a abraçá-lo. Ele a manteve em seus braços, olhando-a agora de maneira intensa. — Tem certeza? — Absoluta. — Respondeu sorrindo, abraçada a ele e passando a mão pelo seu corpo. Ela não conseguia parar de tocá-lo. Ele a apertou dando-lhe um sonoro beijo na orelha antes de colocar o próprio capacete e se ajeitar na moto. Fay sentou-se na garupa da moto e sem cerimônias agarrou o forte tórax do homem à sua frente. Ela sabia que era uma loucura. Simplesmente ir embora com um cara que acabara de conhecer. E para fazer as coisas mais sexies que ela poderia imaginar. Se o homem apenas beijando a fizera ver estrelas, Fay estava ansiosa para descobrir o que ele poderia lhe proporcionar em um lugar mais intimista. Cruzou os dedos à frente do seu peito e encostou o queixo no ombro musculoso. O ronronar da moto foi quase suficiente para deixá-la ainda mais disposta. Quando seguiram a pista rumo ao bairro de North End, Fay se distraiu com a mão dele, que abandonou o guidão da moto e pousou possessivamente em sua coxa. Alex estacionou sua moto na garagem e eles subiram o elevador para seu apartamento entre beijos e toques sedentos. Mal abriu a porta, ele a imprensou com seu corpo forte. As coisas estavam acontecendo muito rápido, mas Alex não conseguia parar. Ele a queria completamente entregue, nua em seus braços. Alex beijou aquela boca sedutora duramente enquanto as peças de roupas iam sendo eliminadas de maneira abrupta. — Rápido, rápido... — ela disse em gemidos. — Rasgue a roupa... não me importo — ela conseguiu dizer entre ofegos e beijos ardentes no momento em que ele rasgou a lateral de sua calcinha. — Sim, sim... Isso que é sintonia, homem. — Qualquer coisa que você quiser, ruiva. — Ele disse enquanto a mordiscava no pescoço, esboçando um sorriso. Alex parou ao se deparar com o mais belo par de seios rosados e empinados, cobertos por uma lingerie preta rendada, que imploravam seu toque. Ele parou e olhou embevecido. — São lindos, — ele disse sem fôlego à medida que passava os dedos suavemente pelas bordas


do sutiã. — que pecado escondê-los por baixo da blusa... — Seria um estouro aderir à moda do “sem nada para cobrir”, não é? — ela disse de maneira pícara. Ele riu e a ergueu nos braços, fazendo com que ela enlaçasse a cintura dele com suas longas pernas. Desse jeito, a manteve presa na parede e enquanto tirava o sutiã, ele mordiscava sua pele delicada do pescoço, roçando sua barba áspera e causando sensações intensas em Fay. — Hmm... — sussurrou ele enquanto dava atenção ao alto de seus seios — Você gosta disso, ruiva? Do que mais você gosta? Sem esperar por resposta, ele roçou seu corpo mais intimamente do que já estavam, criando um atrito enlouquecedor. Quando as carícias intensas fizeram-se mais abrasivas, Fay achava que não conseguiria suportar. Com ela na iminência de atingir o ápice, Alex desacelerou o ritmo. — Não ouse! Nem um pouco intimidado, Alex a levou para seu quarto. Ela não deixava seus lábios e não parava de friccionar as mãos nele. Sentia-se possuída por uma poderosa onda de luxúria. Fay sempre fizera questão de proporcionar a si mesma a deliciosa sensação do prazer. Além de conhecer seu corpo, era uma mulher de atitudes. Gostar de sexo e fazê-lo com vontade não desmerecia ninguém. Ela tinha para si que o caráter de alguém é algo completamente dissociado disso. Porém, a experiência daquela noite estava sendo além de suas expectativas. — Oh... Isso é uma cama ou um campo de futebol? — ela perguntou ainda do alto de seu corpo musculoso. Por incrível que pudesse parecer, parou de mexer em seu cabelo e beijá-lo para observar a arquitetura do ambiente. — Você é adepto de orgias? — disse o provocando. — Por que a pergunta? — ele retorquiu curioso, sem pensar muito, já que seu cérebro não fazia sinapses naquele instante. Todo o seu sangue e pensamento estavam concentrados ao sul. — Porque essa cama é do tamanho do Gillete Stadium! — ela disse e voltou a se concentrar no belo homem que a carregava como se ela não pesasse nada. — Pode ser espaçosa, mas eu só quero você nesta cama... — ele disse e a colocou sobre a colcha macia até mesmo com delicadeza. Seu corpo forte cobriu o de Fay, enquanto as mãos se arrastavam por toda a extensão leitosa exposta aos seus olhos. Alex estava simplesmente abismado em como a pele dela não apresentava uma sarda sequer. Uma ruiva legítima, se é que aquela cor fulgurante de cabelo fosse natural, sem uma única sarda espalhada pelo corpo. Ele a beijou de maneira sistemática, descendo por seus seios, passando por sua barriga, ventre, chegando ao tão esperado destino. Alex emitiu um suspiro ao ver uma delicada borboleta tatuada em sua pélvis, provavelmente coberta pela calcinha que já tirara. — Hmm... Você é deliciosa — sussurrou para ela. Fay já não conseguia articular palavras coerentes, enquanto a boca de Alex mostrava a que veio. — Ah... — Entregue ao prazer, sentia como se conhecesse aquele homem há tempos. A intimidade com que ele sondava seu corpo, com que ele beijava cada pedaço seu, mostrava que antes ela apenas imaginara o que era prazer em preliminares. Quando ele fez seu corpo explodir agudamente, ela viu as estrelas prateadas que lera em um livro recentemente. Ela rira quando a cena


se passou na cabeça, mas agora via que isso podia ser real. — Hummm....— ela gemeu, satisfeita. Ele subiu pelo corpo dela distribuindo beijos ardentes, demorando em alguns lugares para uma especial atenção. A barba roçava em pontos erógenos deixando marcas avermelhadas como um rio de lava quente num vulcão em erupção máxima. Fazendo uma reviravolta, enquanto suas forças retornavam, ela o virou de repente na cama, tirando o que ficava de sua boxer. Admirando seus peitorais, se posicionou por cima dele. Ele a olhou surpreso e agraciado. — Minha vez. — Disse e piscou para Alex que a recebeu de bom grado. Ela o viu agarrar os lençóis ao seu lado enquanto ela lambia cada centímetro do tórax musculoso e sem pelos. Oh, ela adorava um homem depilado. O que mostrava que ele era um cara que malhava bem. Seus músculos abdominais eram sulcados em adoráveis pacotes de seis gomos bem divididos. Hello, gomos 1,2,3,4,5 e 6! Sua boca malandra descia pela fresta central do abdômen, parando no umbigo enquanto suas mãos já lhe proporcionavam prazer. Havia um quê de sexy no umbigo daquele cara. As mãos de Fay ousadamente o fizeram gemer. E se Fay podia achar sexy ouvir um homem gemer, ela não estava preparada para quase gozar junto quando começou a deixá-lo em êxtase com seus lábios. Quando Fay achava que Alex perderia o controle, ele segurou o cabelo dela num forte aperto, puxando-a para longe e liberando-o daquela boca atrevida. Ele não queria que a brincadeira acabasse tão rapidamente, e pelo andar da carruagem, aquela boca gulosa poderia fazê-lo esquecer da máxima de proporcionar o prazer primeiro para a mulher em questão, para somente depois ele permitir que seu corpo aliviasse sua excitação. De costas no colchão, Fay o assistiu colocar rapidamente uma camisinha e num pestanejar, sentiu o mergulhar dele em seu corpo. Fechou os olhos ante o prazer de senti-lo dentro de si. — Olhe para mim, — ele pediu sentindo a conexão imediata entre eles quando seus olhares se cruzaram. Assim permaneceram, ora gemendo e sussurrando um ao ouvido do outro. No instante em que ela tornou a estar por cima, Fay começou a mexer-se com vigor, acelerando o ritmo e rebolando o quadril em movimento. Para ele, acompanhar o vai e vem de seu próprio eixo mergulhando naquela cavidade sedosa, enquanto a via remexer sem parar, o encheu de tanto tesão que não resistiu. Os espasmos que os sacudiram depois ainda eram remanescentes do orgasmo poderoso que sentiram. Apenas o som da respiração dos dois era audível na penumbra do quarto. Ninguém se movia. Fay, com a cabeça descansando em seu tórax, mantinha uma mão completamente desfalecida no colchão, enquanto a outra ainda estava agarrada ao poderoso bíceps dele. — Uau, não consigo me mexer — ela disse quebrando o silêncio que se instaurou depois de apaziguadas as respirações. — Nem eu. A não ser que a casa esteja pegando fogo, não se mova. — Ele sussurrou com a voz sexy e rouca. Mais como um ronronar. — Qualquer coisa que você quiser, Viking. — Ela disse esboçando um sorriso atrevido e se movendo bem devagar, mas parando para beijar seu torso. Ele a chamara de ruiva por conta do óbvio, já que seus cabelos eram flamejantes. Já os de Alex


eram num tom loiro e combinados com a barba perfeita, ele se assemelhava e muito, aos poderosos guerreiros vikings, algozes de tantas histórias. Fay achava que se estivessem em outro tempo, em outro lugar, ela pediria...não, melhor, imploraria para que este viking a desbravasse totalmente. Ela riu sozinha da fantasia que passou em sua cabeça. Alex não poderia imaginar que estaria pronto para outra rodada tão cedo, mas se enganou. Fay ronronava enquanto ia ajeitando-se novamente num encaixe perfeito, a fim de obter seu prazer. Ele não poderia decepcionar a mulher espetacular que tinha entre os braços e, resolveu participar ativamente do ato. O calor do corpo dela era simplesmente maravilhoso. Ao deslizar para dentro e para fora dela, gemiam juntos. Ela o abraçava de frente, enrolando as pernas ao redor do tronco dele. Eles se movimentavam devagar, intercalando a troca de olhares com a troca de beijos lânguidos. Quando foram mais uma vez arrebatados por um clímax poderoso, os dois deixaram-se cair largados na cama. Sem ao menos se dar conta, Alex a puxou para um abraço, encaixando-a em seu ombro, fazendo com que ela deitasse a cabeça ali. Ele não era um típico “abraçador” logo após uma sessão ardente de sexo, e não conseguia explicar a necessidade atroz de manter a ruiva deliciosa ao seu lado e nem o que sentia por dentro ao ver aqueles cabelos vermelhos esparramados em seu tórax. — Essa cor é natural? — ele perguntou com os olhos fechados e afagando as madeixas soltas de Fay. — Que raio de pergunta é essa? — ela fingiu irritação. — Está ofendendo minhas raízes irlandesas de maneira irrevogável, meu camarada — ela disse fazendo um acentuado sotaque irlandês. — Oh...me desculpe, irlandesa ruiva...agora ao menos sei suas origens. — Ele disse. — E você? Pinta essas madeixas loiras? — ela brincou mexendo com seus cabelos. Para um homem como aquele, seus cabelos eram macios e cheiravam bem demais. Um cheiro almiscarado, masculino. — Totalmente naturais, ruiva — ele disse rindo. — Você descende dos irlandeses, enquanto minha família tem herança nórdica. — Ahá! — Fay gritou assustando-o imediatamente. — Eu sabia que você era um viking! — Eu não sou um viking — ele disse rindo. — Eu disse apenas que minha herança se deu por aquelas bandas, embora meu sobrenome tenha vindo do meu avô, que era alemão. — Não tem problema. Não estou interessada na sua árvore genealógica — ela disse suspirando. — Mas que você é um viking apetitoso, isso você é. Dali em diante nenhum dos dois falou mais nada porque caíram num sono reparador, acordando só para repetirem o que fizeram, mais uma vez, antes do amanhã surgir.


Capítulo Três Fay acordou meio desorientada, esfregando os olhos e percebendo que corria o risco de causar um estrago maior ainda ao seu visual matinal. Dormir de maquiagem trazia esse efeito sobre uma mulher. Correção: dormir de maquiagem depois de um sexo selvagem com um desconhecido, fatalmente faria isso a uma mulher. E no torpor da manhã que se iniciava, ela resolveu tentar demover o braço musculoso que a aprisionava à cama gigantesca. Mesmo a cama sendo quase do tamanho de um campo de futebol, ainda assim, Alex, o delicioso pedaço de homem estendido ao seu lado, não se fez de rogado e não lhe cedeu um átimo de espaço. Ela olhou para o homem deitado de bruços, depois de conseguir sair de seu casulo, e ficou maravilhada com as linhas tribais tatuadas em toda a extensão de suas costas. Os símbolos formavam uns desenhos intrincados, permeados de dizeres em latim. Dare Nemo Potest Quod Non Habet. Ela estudara latim na faculdade, mas tentar lembrar o que significava, ao invés de apreciar cada linha rígida de pura masculinidade formada naquele conjunto de músculos, era algo inconcebível. Ela afastou os olhos relutantemente de seu objeto de desejo e recolheu suas roupas, correndo para o banheiro. Ajeitou o máximo que pode seu visual catastrófico, olhando com desgosto para suas madeixas ruivas absurdamente selvagens. Seus lábios estavam inchados dos beijos intensos e ardentes. Sua pele clara estava cheia de vergões avermelhados do roçar da barba sexy de Alex. Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao se lembrar dos momentos cheios de deleite passados nos braços do homem mais sexy que Fay pusera os olhos. E as mãos. Porém, não obstante sua vontade insana de correr os dedos por aqueles cabelos compridos que quase chegavam aos ombros fortes, ela sentia-se estranha e confusa. Cenas da noite anterior invadiram sua cabeça e junto com elas, uma sensação de bem-estar e ansiedade. Sentia uma tremenda vontade de voltar ao lado dele para permanecer ali indefinidamente. O que a assustou até a morte. Como uma pessoa prática, nunca foi dada a devaneios. Mas poderia até mesmo culpar suas raízes irlandesas e sua cultura tão mística, sobre essa coisa de magia e romance. Ela terminou de se vestir e olhou-se no espelho, pronta para ir. A sensação de perda com a ideia de ir embora a fez se apressar mais; percebeu que não cairia mal apanhar um táxi. Saiu de fininho, não sem antes dar uma última olhada ao belo exemplar masculino profundamente adormecido naquela cama convidativa. Fay sabia que se não saísse dali imediatamente, ficaria tentada a ficar.


Fay entrou no apartamento intempestivamente. Correu para seu quarto e trocou sua roupa da noitada anterior por uma camiseta do Boston Celtics enorme. Ouviu suas amigas conversando no cômodo próximo e seguiu até lá. Deparou-se com Lana fazendo a mala e Kate sentada na poltrona do quarto. Jogou-se sem cerimônia alguma na cama de Lana, fazendo com que várias mudas de roupas voassem e fossem parar no chão. Pelo diálogo que se seguiu ela percebeu que Lana seguiria o imbecil do namorado, abandonando a faculdade no fim do semestre. Prestou atenção aos comentários de Kate, a sempre sensata e amada Kate e, emitiu sua opinião sutil e nem um pouco delicada sobre a imbecilidade daquele infeliz que Lana chamava de namorado. Aconselhou Lana como achava que deveria e discutiu com Kate, se sentindo de repente mal humorada e sarcástica. Ao criticar sua amiga por estar sozinha, não dando chances a qualquer relacionamento, percebeu que fazia a mesma coisa com sua vida. Ou não. Talvez a noite de ontem a tenha deixado com a visão um pouco embaçada, e para reafirmar mais para si mesma do que para suas amigas, disse: — Eu não perco o meu foco... Mas confesso que ele fica um pouco turvo quando faço um bom e velho sexo selvagem. E não se esqueçam do meu lema: sexo é como uma atividade orgânica vital, tal qual comer e dormir — ela falou e se deitou na cama. — Estou mantendo a energia do universo contrabalanceada em prol das minhas amigas abstêmias. — Disse e olhou enfaticamente para Kate antes de se juntar a elas num abraço apertado. Elas eram amigas inseparáveis. Conheceram-se na Universidade e Fay de repente descobriu-se compartilhando o quarto com as duas. Lana, a loira adorável do interior e Kate, a pragmática sexy certinha. Com o tempo caíram numa convivência agradável e o laço da amizade surgiu, se fortificando cada vez mais entre elas. Esperava que permanecesse sempre assim. Não queria que as coisas mudassem entre elas. Só Deus sabe como Fay odiava mudanças. Fay saiu de fininho do quarto. Aparentemente aquele estava sendo um movimento muito bem executado por ela. Sair de mansinho, sem ser notada. Entrando novamente em seu quarto, ela pegou a blusa que vestira na noite anterior e sem o menor pudor cheirou o material para tentar captar o resquício do cheiro de Alex. Sentiu-se uma imbecil ao ter saído de lá correndo. Agiu sem pensar e sequer pegara o sobrenome dele, ou o telefone. Pensando melhor, achou que tinha superestimado o que sentira ao acordar, fora apenas um sentimentalismo fora de lugar. Querendo encontrar-se com ele mais uma vez, como faria? Não faria. Isso era fato. Provavelmente nunca mais encontraria aquele pedaço de homem pela frente. E agora, ao invés de simplesmente gastar toda aquela paixão desenfreada, ficaria a ver navios. Burra, burra, burra. Fay estava se xingando por não ter anotado os dados do cara. Embora ela nunca fosse a que ligava no dia seguinte, faria uma exceção nesse caso. Jogou a blusa no canto e resolveu tomar um belo banho. Conforme o cair da água em seu corpo, lembranças de algumas palavras de sua avó vieram em sua cabeça. Ela costumava dizer que quando alguém encontrava o elo perdido, sua outra metade, sua alma gêmea, tendia a entrar em uma concha dentro de si mesmo e ficar ali, apenas sentindo as doces e aterradoras sensações de perda, se o objeto em questão não estivesse perto.


Alma gêmea, minha bunda. Fay pensou. Amava vovó Lianna, por mais que ela fosse cheia de crendices, truques e mitos de sua terra longínqua. Fay sentiu as saudades apertarem em seu peito. Sentia saudades também dos conselhos sábios de sua avó. Ela compensava o fato de seu pai não ter tido tempo algum para cuidar de uma criança aos oito anos, quando sua mãe morrera. Fay não queria pensar em seu pai naquele momento. Falara com ele duas semanas atrás e a briga telefônica ainda ardia em seu peito. Ele não aceitava que ela quisesse trabalhar voluntariamente em uma associação que auxiliava crianças e jovens sem condições. Ela podia perceber o medo em sua voz. O sonho de Fay era entrar na promotoria. Ela queria chutar a bunda da sociedade, dos bandidos, da máfia. Ela queria defender a justiça com unhas e dentes afiados. Cravar o punhal dos justos em cada bastardo que ousasse infringir a lei. Ela queria poder dar um pouco de senso de justiça àqueles que precisavam. Fay precisou das asas da justiça em uma ocasião dramática. E isso mudara completamente o rumo de sua vida e do relacionamento com seu pai. Ela prestava assistência a um centro comunitário em Dorchester, uma associação que dava suporte à comunidade em situação de vulnerabilidade social. Jovens que levavam uma vida dura em meio ao mundo do crime, mulheres que testemunhavam contra seus agressores. Lá ela conhecera Arthur Fontes. Um brasileiro que morava em Boston desde criança e estava completamente radicado na cidade. A vida dele era trabalhar com a população carente, que vivia a desigualdade social. Talvez por presenciar tanto essa realidade em seu país de origem. Arthur era quente. Moreno, olhos escuros, com um sorriso de arrasar quarteirões inteiros. Os dois já tiveram um ligeiro affair, embora nunca entre os lençóis, mas acabaram ficando amigos de longa data. Era como se fossem irmãos. A afinidade fora imediata. Enquanto Kate e Lana eram suas melhores amigas, praticamente irmãs, cuja convivência era na base diária, Fay acabou encontrando em Arthur, um amigo do sexo masculino que não queria simplesmente entrar em suas calças, mas que a valorizava por quem ela era por dentro. Sem querer dar uma dor de cabeça maior ainda a Kate ou até mesmo a Lana, já que um drama estava se estabelecendo bem ali no quarto ao lado, e precisando desabafar sobre sua burrice, ela optou por fofocar com Arthur. Fay saiu do banho, enrolou-se em uma toalha felpuda e sacou seu celular no balcão do banheiro. — Alô? — a voz com um leve sotaque sexy falou. Arthur adorava acentuar seu sotaque só porque Fay disse que era muito sexy. — Arthur? Preciso de você urgente — ela disse e riu. — O que andou aprontando, ruiva? — ele perguntou de pronto. — Nada grave. Apenas preciso de um ombro másculo para chorar as minhas mágoas. — Certo... acredito que haja a necessidade de ser um ombro forte e masculino... suas amigas não estão por aí? — ele sondou. — Estão. Lana está se aprontando para viajar com o ridículo daquele namorado dela... — ela disse e suspirou audivelmente. — E Kate... está ajudando. Estou só. Mulher alguma poderia me compreender agora neste instante. Na verdade, eu não quero sobrecarregá-las neste instante. — Fay admitiu timidamente. — Sei. Bem, estou indo para a associação — ele disse de pronto. — Você podia me ajudar com a roda de capoeira que faremos lá hoje. Alguns alunos serão batizados. Quer que eu passe aí e te dê uma carona? — Ótimo! Faz tempo que não participo, Brasil. — Ela implicou com ele ao mencionar o apelido


que ele tinha ganhado na Associação. Os dois se despediram e Fay se vestiu rapidamente, com sua indefectível jaqueta de couro. Prendeu os longos cabelos num rabo de cavalo e calçou suas botas. Passou pelo quarto das meninas e se despediu de Lana novamente. Com o coração apertado, claro. Ela preferiu não perturbá-la mais ainda com o assunto, já que Fay nunca deixou escondido o fato de que o namorado de Lana era um desafeto confirmado. Fay adorava capoeira, justamente por sua musicalidade. Já fazia tempos que não praticava. Ao saber que hoje haveria batizados, rememorou-se de como era. Uma roda de capoeira festiva, em que o aluno deixa de ser iniciante e ganha uma corda, recebendo um apelido que vai ser usado dali em diante entre os capoeiristas. Geralmente surgem por alguma particularidade que a pessoa apresenta, seja uma característica física ou comportamental. Ruiva Irlandesa. Apelido que ganhou e que a fez lembrar, novamente, da noite anterior...


Capítulo Quatro Fay

e Arthur compartilhavam aquele tipo de amizade inexplicável. Havia química evidente,

mas não sexual. Ela podia compartilhar tudo com ele. Desde seus segredos mais sórdidos, aos momentos mais triviais. Somente um segredo ficara guardado e continuaria trancado a sete chaves dentro de seu peito. Mas este segredo era guardado até mesmo de suas amigas, Kate e Lana. Fay sacudiu a cabeça para apagar as memórias ruins. Entrou no carro dele e abaixou o volume do carro. — Me fodi. — Disse sem cerimônias. — Nossa. Você sabe como começar um assunto de maneira chocante, hein? — ele disse olhando de soslaio para ela enquanto riam. Deu de ombros, meio sem jeito e disse — Agora você colocou imagens mentais bem gráficas na minha cabeça. Fay riu largamente. — Saí com a galera ontem e de repente...— ela suspirou e deitou a cabeça no banco do assento. — Uau... Estava de repente nos braços daquele cara. O silêncio ficou evidente. Ela olhou para Arthur e ele estava franzindo o cenho. — Continue. — Pediu, mas a voz estava áspera. — Arthur... Não adianta ficar de bico. — Fay... Eu me preocupo com você. — Eu sei me cuidar, Tuts. E sei quando me permitir voar. — E você voou? — ele perguntou a olhando rapidamente. — Voei. Como voei, — ela disse e fechou os olhos vendo as mãos de Alex em seu corpo, de seus corpos suados e enrolados. — Eu nunca senti a magia que vovó Li falava tanto como senti ontem. — Era o cara, então? — ele falou. Fay sorriu ao perceber que Arthur lembrava-se bem da história que ela havia contado sobre as superstições de sua querida avó. — Você sabe que não acredito nessas coisas, certo? Mas, acho que nunca mais vou vê-lo novamente. — Disse pesarosa. — Como assim? Fay... Pelo amor de Deus... Quem era esse cara? — ele perguntou irritado. — Não sei — ela riu — Peguei só nome dele: Alex. — Um total estranho?!


— Não seja hipócrita, Sr. Não-sou-de-ninguém — ela disse batendo no ombro dele com a mão e num murmúrio ela apenas disse — Alex... — e com a voz mais vivaz ela finalizou — E se arrependimento matasse, eu estaria morta, enterrada e você estaria construindo um memorial lindíssimo pra mim. — Por quê? — Não peguei a porra do sobrenome e o telefone — Fay disse e bufou frustrada com sua própria incompetência. — Para onde vocês foram, um hotel? — Arthur tentava arrancar as informações de Fay sem que demonstrasse sua irritação. Ele realmente se preocupava com ela. — Não. Ele me levou para a casa dele, numa moto absurdamente linda e barulhenta. E eu estava tão enlevada que sequer me dei conta da direção que ele seguiu. — Ela disse e encostou a cabeça no encosto do carro. — Meu senso de direção já é uma droga, de noite e com pressa então... — Nossa. Ele deve ter sido quente — ele disse e Fay pode detectar um pouco de ciúmes de sua voz. Arthur era meio possessivo. Talvez fosse um lance dos genes brasileiros. Calientes. — Você não sabe de nada, meu caro Batman. — Ela falou, colocando alegria no lugar da irritação que ele começara a sentir, ao fazer menção à piada interna entre eles.


Capítulo Cinco Um mês e meio depois... Além de Fay prestar assistência na área jurídica da Associação Blanche Suit, ainda dava aulas de dança às crianças e adolescentes. Seus anos de ballet clássico, que estudara dos 5 aos 15 anos, a ajudavam a poder manter esse lado social do qual se orgulhava. E mesmo insistindo que daria as aulas voluntariamente, Madelin Brody a obrigava a receber uma parte da ajuda de custos pelas aulas. Ela fazia por prazer. Mas deveria confessar que muitas vezes o dinheiro era bem vindo, já que precisava se manter e as economias da herança de sua falecida avó estavam minguando por conta dos gastos na faculdade. Ela mantinha a bolsa fornecida pelo governo, mas precisava pensar mais à frente, quando teria que pagar por aquela concessão. Manter o vínculo com o ballet também era uma maneira de se manter conectada com a pessoa que ela foi há tempos atrás. Antes de ver sua vida completamente modificada e ter seu universo abalado. Como mais um dia rotineiro, Fay encontrou com seu amigo Arthur no estacionamento e entraram juntos no prédio que abrigava as maiores partes de atividades dedicadas à comunidade. Fay riu quando Arthur abriu a porta elegantemente para ela. — Vamos, ruiva. — Ele disse e afanou a cabeça de Fay. — Acho que depois daqui você vai precisar recarregar suas energias totalmente em um bar. — Nossa, Tuts... Se eu beber mais alguma coisa em menos tempo, vou me considerar uma alcoólatra. — Ela disse rindo lembrando-se da noite anterior com seu adorável professor de boxe. Ela jurou a si mesma que nunca mais beberia vodka novamente. Quando eles chegaram à sala de Madelin, um pandemônio estava formado. Crianças choravam abertamente, adolescentes consolavam uns aos outros, e os adultos tentavam manter o pânico contido. — Meu Deus... — Fay disse. — O que aconteceu? — e correu para a sala. O professor de artes, Phillip Bureau, a segurou e impediu de entrar. — Não, Fay. Ninguém entra na sala de Madelin — ele disse em um tom estranho. — O que houve, Phillip? Pelo amor de Deus, o que é isso tudo? — o pânico tomou conta de Fay. Ela já se deparara com um episódio assustador assim. Imagens voavam em sua cabeça como um filme sombrio. Arthur voltava da ala com dois copos de água. Estendeu um para Fay e outro para Phillip.


— Um dos garotos da gangue Forbangs, o Brandon, entrou no prédio e não viu que estava sendo seguido, — ele disse e deu um gole de sua água. — Acreditamos que ele tenha vindo finalmente buscar ajuda de Madelin, e agora estão sendo mantidos lá dentro. Os caras estão armados. — Meu Deus...— ela disse lembrando vagamente do jovem arredio que às vezes ia à Associação. — E a polícia? — Como o fato se deu há apenas alguns minutos, eles ainda não chegaram... — Ele parou. — Ou melhor... Acabaram de chegar. Veja. Fay observou os policiais se encaminharem para onde eles estavam, recolhendo informações de Phillip e de Morgan, o zelador do prédio. Também estava ali o Sr. Tabott, o segurança mais antigo da associação. — Qual a situação e qual a quantidade de reféns? — um dos policiais indagou a Phillip. — Acredito que estejam mantendo a diretora da associação, Madelin Brody, e o adolescente infrator. Não sabemos ao certo quantos rapazes entraram na sala. Apenas escutamos os gritos. — Certo — ele disse e imediatamente acionou a equipe de operações especiais. Arthur puxou Fay pelo cotovelo, tentando afastá-la do tumulto e observando suas feições preocupadas. — Venha, Fay. Talvez seja melhor você ir embora. Vou ficar e dar assistência, caso precisem — ele disse. — De forma alguma. Preciso saber o que está acontecendo direito. — Ela afirmou categórica e passou as mãos freneticamente pelos cabelos. — Madelin é minha amiga, Arthur. Não sei se eu conseguiria simplesmente virar as costas desta forma. — Eu sei. Algumas horas mais tarde, Fay ainda cansada, organizava a retirada das crianças e jovens do galpão. Eles foram encaminhados para suas casas, mas Fay se recusava a deixar o prédio. Mesmo que a situação já estivesse praticamente contornada. Os rapazes que renderam a diretora e o jovem saíram algemados, não sem constantes ameaças de morte ao adolescente que buscara refúgio ali dentro. Os policiais conversavam com Madelin e o rapaz de apenas 17 anos, quando Fay foi chamada. — Fay, por favor, querida... venha aqui. — Madelin, com um tom cansado e um aspecto abalado a chamou da sala. Enquanto ela tomava par da situação, percebeu que seus serviços jurídicos estavam sendo necessitados. O rapaz deveria ser encaminhado devidamente ao centro juvenil, sob guarda e proteção do Estado, para evitar que fosse morto pelos membros da gangue a qual fazia parte. Tudo porque um poderoso esquema de tráfico de armas estava sendo desbaratado naquele instante. Aparentemente o rapaz conhecia parte daquele esquema, e num acesso de consciência, querendo sair de tudo aquilo, ameaçou contar à polícia sobre o que sabia, caso não o deixassem em paz. Nesse ínterim, seu irmão fora brutalmente espancado em retaliação e como forma de recado para manter-se calado. Ele buscara ajuda com o professor da escola, mas fora ignorado. O único que ele poderia pensar era em compartilhar a informação com a associação, já que ele sabia que havia conselheiros que trabalhavam especificamente com rapazes ex-membros de gangue, e que tinham um programa de


proteção a desertores. — Qual sua opinião, srta. Williams? — Fay olhou o policial encarregado do conflito. Ele era um homem bonito. Sério, com olhos astutos e cheios de vivências nas áreas mais sombrias da sociedade. — Bem, Detetive Bromley, em casos como esse, temos que entrar em contato com a promotoria do Estado para assegurar os direitos de Brandon. Ele deve ser encaminhado a um programa de proteção à testemunha e mantido sob guarda, já que o esquema de tráfico de armas, quando desbaratado, deverá ser encaminhado ao escritório do promotor para julgamento devido dos envolvidos — ela disse pensando. — Amanhã mesmo eu entro em contato com a promotoria e averiguo as informações necessárias. O detetive Bromley assentiu e apanhou seus papéis metodicamente. — Estamos tentando pegar esses caras há pelo menos uns dois anos, — ele disse cansado. — Isto é o mais próximo que chegamos desde então. Preciso de tudo seguro e coberto pela lei para não perder estes peixes grandes. — Ele disse e a olhou enfaticamente. — Concordo. Se não amarrarmos bem as cordas, os peixes saltam de volta ao mar, não é mesmo? — ela disse. — Mas não acho que seria nem um pouco ético usar aquele garoto como isca. — Ela falou e saiu da sala. Quando estava chegando à porta da cozinha, seu braço foi suavemente agarrado. — Ei! — o detetive Bromley falou a olhando intensamente. — Ninguém vai usar o garoto como isca. Eu garanto isso. — Queira me desculpar, detetive, mas nessa comunidade, isso é o que eles esperam. E o que já foi visto sendo usado de tática muitas vezes. —ela disse cansada. — Vezes sem conta, na verdade. Mas me preocupo com outro aspecto. — Qual, srta. Williams? — ele perguntou. — E a segurança de Madelin? Da associação? — ela perguntou. — Ela pode ser considerada um alvo fácil, por ter estado no meio do olho do furacão. Você já pensou nisso? — Vou designar policiais que farão a cobertura da área e da própria srta. Brody — ele disse. — Enquanto isso, posso contar com você entrando em contato com a Promotoria e em seguida comigo? — ele perguntou e estendeu um cartão para Fay. — Aqui tem meu número celular pessoal — ele falou. — Pode entrar em contato comigo em qualquer circunstância. Dizendo aquilo ele se virou e Fay o observou deixar o prédio. Como era muito escolada naqueles assuntos, ela poderia jurar que o detetive jogara uma bela cantada. E se Fay não estivesse tão recentemente satisfeita, poderia aceitar a oferta. Se bem que não poderia dizer que mais de um mês fosse recentemente. O que poderia afirmar com toda a certeza é que em sua busca por esquecer um certo par irresistível de olhos claros nos braços de outro homem, estava se tornando frustrada, porque a cada dia a imagem dele se firmava em sua mente, e um forte sentimento de saudade batia em seu peito. A reviravolta em seus pensamentos a assustou. Em um momento ela pensava em Alex, e no próximo, uma imagem vívida em sua adolescência chegou à sua mente. Com o coração em frangalhos pelas lembranças tenebrosas, Fay voltou para dentro do prédio. “— Você definitivamente terá que se ajustar ao programa, Srta. Maximilliam. O seu testemunho foi crucial para que a polícia apanhasse um dos maiores mafiosos de Nova York. Não há a menor


condição de deixarmos que você siga sua vida de maneira corriqueira como se nada houvesse acontecido. Tanto você quanto as outras duas pessoas que testemunharam o caso estão sendo encaminhadas ao Programa de Proteção à Testemunha. Suas novas identidades estão sendo configuradas, bem como toda a documentação e o local onde você será instalada. — Eu não....posso....não...posso abandonar meu pai....abandonar tudo... — Você não tem escolha. Seu contato deverá ser cortado irrevogavelmente. Você deixará de ser Faith Maximilliam e se tornará Fay Williams. Compreendeu? — Há outra maneira? — Não. Você deixa de existir a partir de agora no sistema.” No dia seguinte Fay acordou com uma horrível dor de cabeça. O evento ocorrido na Associação ainda mantinha seu cérebro em slow motion e os próprios conflitos de suas amigas ainda a martirizavam. Fay sempre aparentava um aspecto solto e descontraído, mas preocupava-se com Lana, com a saída de sua amiga para uma viagem totalmente descabida, com um cara que não a valorizava de forma alguma, e ainda mais, no último semestre da faculdade. Já passava mais de um mês desde que ela se fora e por mais que Lana jurasse que a viagem seria breve, apenas para descontrair, ela tinha a estranha impressão de que o destino de sua amiga seria traçado ali. Kate estava tomando café da manhã, quando Fay se arrastou e largou-se bruscamente na cadeira do balcão. — Eu. Estou. Morta. — Ela disse em um tom robótico. — Por quê? Mais uma noitada ensandecida? — Kate perguntou com a sobrancelha erguida. — Antes fosse — ela disse bebericando o café que Kate estendera a ela. — Apenas conflitos na Associação. — O quê? Uma de suas alunas de ballet? — Kate perguntou. — Não. Um caso jurídico que me fará ir ao escritório da promotoria. — Bem, excelente oportunidade para ir até lá e conferir a resposta sobre sua aplicação para o cargo de assistente. Qual o problema? Fay exalou o ar retido em seus pulmões. — Ainda estamos concluindo nosso curso, apesar da nossa aprovação no Exame da Ordem. Queria começar a trabalhar como assistente da promotoria o quanto antes, mas talvez não tenha conseguido a vaga por, talvez, me considerarem despreparada demais. E quero muito participar desse caso, por mais que ele possa tomar proporções épicas. — Como assim? — Veja bem, o caso é grande. Envolve toda uma porra de sistema social, onde polícia e promotoria terão que lidar juntas para quebrar um esquema forte de tráfico de armas. Mas sabe quando você sente que talvez não esteja à altura de algo assim? E se minha chance for jogada para outra pessoa, por alguém me considerar incompetente para agir corretamente? — Fay. Eu nunca a vi sem confiança... — Kate falou surpresa e contemporizando. — Posso ver que isso é grande, mas você está preparada. Sempre esteve. Onde está minha amiga destemida, que


sequer precisa estudar horrores para garantir conceitos excelentes? Aquela mulher trabalhadora que sempre se coloca a disposição dos outros? Aquela pessoa fiel e justa que conheço? — Eu sou assim? Não sei. Você a vê debaixo desse balcão roendo as unhas, com medo? — Fay brincou. — Sem chance. Eu a vejo descendo o cacete em quem quiser se interpor entre esse caso e você. — Kate disse. — Era o que eu precisava ouvir. Fay se levantou e deu um beijo estalado na bochecha de Kate. Ela foi se arrumar para seguir para a aula daquela manhã. O fim do curso estava chegando e logo ela se veria livre da rotina de salas de aula. Ela foi um pouco mais contida em suas vestes, porque passaria na promotoria mais tarde, então o decoro seria solicitado. Não que se envergonhasse de suas roupas despojadas e cheias de estilo nova iorquino. Eram poucas as mulheres que passavam tanta autenticidade quanto Fay e suas escolhas visuais. Quando sua vida mudara radicalmente anos atrás, ela fez questão de conservar ao menos o estilo que sempre admirou. Recusou-se a mudar isso e a cor de seus cabelos. Sua herança não poderia ser despachada como se fosse algo comum. Colocou um vestido azul marinho, com botas de cano alto, sem saltos. Uma boina azul com preto completava o visual. O tempo estava chuvoso, logo Fay trançou seus cabelos ruivos para evitar que se transformassem em uma massa descoordenada e sem lei capilar. Entrou em seu carrinho Beatle e seguiu para o campus. Logo depois do almoço, Fay se dirigiu para o poderoso escritório da promotoria, situado no bairro comercial de Boston. O prédio da promotoria era arrojado, destacando-se entre os outros pelas vidraças espelhadas e seu visual contemporâneo. Com inúmeros escritórios, o prédio abrigava o seu sonho. Ali, a promotoria estava dividida em setores: divisão de julgamentos, divisão de investigação e recursos. Cada qual era subdividido em Unidades especializadas, afora os departamentos que cuidavam da parte administrativa. Cada Unidade dessas tinha suas próprias ramificações em áreas ainda mais específicas, como Sonegação Fiscal, dentro da Unidade de Crimes contra a Ordem Tributária, da Divisão de Investigação. Ela suspirou audivelmente imaginando-se trabalhar naquele lugar. Quando chegou ao complexo, foi encaminhada a um amplo e espaçoso hall de recepção. O frio no estômago bateu acentuadamente, porque ela já havia encaminhado sua solicitação de emprego antes do término da faculdade, e esperava que ao final de sua formatura, dentro de dias, passasse a trabalhar como assistente da promotoria. Quando seu nome foi chamado ela passou por um detector de metais e prosseguiu conforme a instrução, se dirigindo à unidade de Crimes Violentos, da Divisão de Julgamentos, cuja chefia tinha mudado recentemente. Parece que o chefe dessa unidade era alguém novo, respeitado no meio e muito crítico. Um amplo escritório a aguardava e uma secretária elegante, na faixa dos quarenta anos a esperava. — Boa tarde, — Fay disse. — Eu solicitei uma reunião com o promotor chefe, referente ao caso Blanche Suit.


— Dr. Bergman? Qual seu nome? — ela perguntou polidamente. — Sim. Fay Williams. — Ela respondeu simplesmente. A secretária abriu a porta do escritório e fechou imediatamente, impedindo que Fay visualizasse algo mais. Quando ela foi chamada para entrar na sala do Dr. Bergman, Fay se ergueu prontamente e ajeitou o tecido do vestido, além de ajeitar rapidamente os cabelos. Ela agradeceu à secretária educadamente e entrou. Não teve tempo de conter sua língua, antes de proferir sem pudor: — Mas que porra..? — ela disse em choque. O promotor não era ninguém mais, ninguém menos que Alex. O seu Alex.


Capítulo Seis Fay ainda observava estarrecida o homem sentado diligentemente a sua frente. Ele a olhou sem emitir uma palavra, nem mesmo quanto a sua falta de decoro. Suspeitou amargamente, ela tinha que admitir, que ele não se lembrava dela em hipótese alguma, já que não demonstrava sequer o mais remoto sinal. Ela clareou a garganta com um pigarro nada sedutor e disse: — Perdoe-me, Dr. Bergman. — Fay esperava não gaguejar. — Eu, humm... — Merda, foco, Fay! — Desculpe, eu me atrapalhei ao entrar e... — droga, concentração! — Só falei sem pensar. — Senhorita Fay Williams — ele disse naquela voz que Fay se lembrava tão bem. Aquele timbre que ainda a fazia suar e suspirar em sonhos eróticos, sempre que se lembrava daquela noite, tempos atrás. — Não há problemas. Sente-se. Fay andou como se estivesse seguindo para seu cadafalso, e sentou-se na poltrona à frente da mesa de mogno polido. Ele a olhava atentamente, mas sem dar sinais de que sabia quem ela era. Aquilo doía à beça. Mas era o preço que pagava por ter se entregado àquela noite de paixão ardente de maneira impulsiva e sem voltas. Ela engoliu arduamente a saliva, bem como a vontade de derramar algumas lágrimas ardidas de pura consternação. — Qual o motivo da reunião? — ele perguntou erguendo a sobrancelha. — Eu vim direcionada pela Associação Blanche Suit de Dorchester, a pedido do Detetive Bromley, já que presto assessoria jurídica voluntária neste centro de auxílio. — Ela disse de uma só vez. — Por que o próprio detetive não entrou em contato? — ele sondou. — É o procedimento usual. — Eu sei. Mas como presenciei toda a ação ocorrida ontem e, como já informei, presto assessoria, ele achou por bem que eu viesse em caráter de colaboração interdepartamental. — Fay estava sentindo orgulho de si mesma por não ter gaguejado em momento algum. — Compreendo, — ele disse e folheou alguns dos papéis que Fay colocara à sua frente. — Além de prestar assessoria jurídica, você ainda serve como testemunha chave? — Informalmente. Não estive ligada diretamente à ação, mas estive no prédio e mantive contato direto com esse jovem. — Fay estava achando difícil disfarçar sua apreensão. Ela observava como ele lia os documentos de maneira concentrada, por vezes passando a mão distraidamente pela barba, que trazia memórias ardentes à Fay. Ele ergueu os olhos e quase a flagrou o encarando. Fay disfarçou tentando retirar partículas


inexistentes da saia de seu vestido. — Vejo aqui que você entrou com uma requisição para assistência na promotoria? — ele mais afirmou que perguntou. — Sim. Embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra — ela disse meio agressiva, por conta do nervosismo. — Fiz aplicação para vaga de assistente antes disso. — Ela suspirou profundamente e continuou o discurso vivaz. — Veja bem, Dr. Bergman. Eu trabalho nesta associação. Lido com crianças e adolescentes que tentam superar os obstáculos que lhes aparecem para ter uma chance de viver bem. Fazemos ali um trabalho sócio cultural que envolve várias frentes. E uma dessas frentes é prestar assistência jurídica em qualquer situação. Desde pequenas causas às grandiosas, — ela disse parando para respirar. — Minha tese final é totalmente voltada ao direito penal e minha abordagem vem das minhas experiências e do que vivi ali naquele centro. Além disso, estou aqui porque quero fazer o possível para preservar a vida daquele garoto. Alex a olhou longamente. — Eu não insinuei absolutamente nada, Williams. — Ele disse entrecerrando os olhos e despertando arrepios na pele dela por ouvir seu nome proferido naquela voz quente. — Mas para que fique claro, não estou forçando minha entrada aqui. Isso não tem nada a ver com a vaga de assistente. — Ela falou precipitada, se sentindo tensa. — Certo. Estamos entendidos neste assunto — ele disse e recostou-se em sua poltrona. Colocando as pontas dos dedos juntos em uma atitude contemplativa, ele apenas a observava. Fay estava em ebulição, sentimentos contraditórios a trespassavam enquanto ela sentia o calor subindo por suas pernas, e malditamente passando pelo seu centro do pecado, e podia jurar que o calor chegaria de elevador até seu rosto, fazendo com que ela corasse. — Williams, como teríamos essa reunião hoje, fui incumbido de lhe informar como será seu trabalho aqui, já que sua aplicação foi aceita. — Que ótimo! — ela disse empolgada. — Mas isso não quer dizer que você vai trabalhar como assistente da minha Unidade — ele disse sem tirar os olhos dela e perceber que seu rosto antes contente, começava a apresentar indícios de consternação. Quando ela começou a questioná-lo sobre isso, ele a interrompeu: — Eu ainda estou falando. Ela voltou a se calar e ele continuou: — Geralmente, o assistente iniciante entra num abrangente programa de treinamento. Conforme for ganhando experiência, vai passando a casos criminais mais graves. Ela permaneceu sentada e olhando fixamente para ele. Será que ele era grosso desse jeito com todos os seus funcionários? Ela pensou. — Nesses primeiros meses de teste, você vai trabalhar na Divisão de Investigação, Unidade de Fraudes, alguns dias da semana. Aqui está o contato da promotora que deverá orientar seu trabalho — ele estendeu sem pressa o cartão da Dra. Tania Bauer em sua direção. — Hmm... Fraudes. — Ela disse pegando o cartão e antevendo o trabalho burocrático a esperava. — É. Fraudes contra idosos. — Fraudes contra idosos?! — Fay exclamou sem pensar. Parecia que ele estava de brincadeira


com ela, porque Fay achava uma chatice aquele tipo de assunto. Embora, claro... os idosos precisassem de ajuda. — Algum problema com isso? — ele perguntou bastante sério. —Não. — Fay apenas murmurou uma resposta. Evidente que não ia estragar a oportunidade da sua vida, dando chilique na frente dele. Se era ali que devia começar, então assim seria. — Ótimo — ele falou olhando para ela com um ar pensativo. Sem analisar mais o que estava prestes a dizer, soltou: — Para terminarmos, voltamos ao assunto principal. Devido ao seu envolvimento com a associação, não vejo problemas em você nos ajudar, excepcionalmente, no caso Blanche Suit. Vamos nos reunir com o detetive encarregado do caso o mais breve possível, — ele disse. — Enquanto isso, vou solicitar os procedimentos necessários para colocar o garoto aos cuidados do Estado, garantindo sua segurança e seu testemunho na corte. — Certo. — Fay disse, em expectativa. — Sempre que efetuar o trabalho de assistência nesse caso, fará aqui, comigo. — Fay sentiu uma ligeira palpitação e assentiu, aguardando ele continuar. — Ficou tudo claro? — Talvez... — ela se viu num inesperado conflito. Primeiro porque já não sabia se queria estar ali tão próxima daquele homem que fora um arroubo de paixão, e que sequer se recordava dela. Segundo que o clima tenso a afetaria demais. Como era suposto pensar com ele ali do lado? Ela temia ficar prejudicada em seu julgamento, já que sua cabeça estava concentrada em outro setor. Fay só conseguia pensar em quarto... lençóis e amassos. Ela tentava reformular a imagem dele nesse cara grosso e ranzinza, mas não conseguia. Seu coração palpitante explodiria a qualquer momento. — Sem talvez, Williams. Aqui só trabalhamos com certezas. Parece que temos em nossas mãos um caso de grande repercussão, logo não vamos perder tempo. Ele se levantou e rodeou a mesa. Fay ergueu-se de maneira súbita e afastou-se um pouco, estendendo a mão para ele, em cumprimento. — Obrigada, Dr. Bergman — ela se forçou a dizer. Apesar da maneira áspera com que ele a tratou, devia agradecê-lo. Afinal, conseguira o trabalho que almejara e ele era mais do que necessário na dissolução do caso Brandon. — Vou entrar em contato com o detetive Bromley e agendar com sua secretária uma reunião. Ele continuava a encarando de maneira intensa, sem ao menos piscar os olhos. Ela quebrou o contato e se dirigiu à porta, ansiosa por sair da sua zona de influência. — Williams? Com a mão na maçaneta da porta, ela se virou de onde estava, para encontrar o seu olhar. — Sim? — Foi uma grata surpresa revê-la. Espero que não fuja furtivamente da minha sala como fugiu da minha cama. — Ele disse ironicamente, a queimando com o olhar e vendo o rubor aparecer no rosto dela. Fay ficou estarrecida, sem fala e abriu a porta. Antes de sair, ouviu: — Ah, acho que diante das circunstâncias podemos cortar a formalidade entre nós. Você pode me chamar de Alex. Olhando para o alto, ela pediu silenciosamente ajuda aos céus. Onde eu fui me meter? Pensou ela, engolindo em seco e já se despedindo da secretária na recepção.


Ele n達o se esquecera daquela noite. Ela n達o sabia se isso era alentador ou assustador.


Capítulo Sete O que ela mais queria era se esconder embaixo do primeiro carro que ela avistasse estacionado na rua. O constrangimento era algo incomum para Fay. Como era apaixonada em tudo o que fazia, dificilmente ela parava para se lamuriar sobre fatos da vida, ou sobre feitos que ela tivesse participado ativamente. Como ter uma noite de paixão longínqua, tempos atrás, com um homem absurdamente inesquecível e reencontrá-lo casualmente. Se fosse em outra situação, provavelmente Fay passaria incólume, cumprimentaria o homem em questão, como se não fosse nada de mais, até acharia a coincidência engraçada. Mas naquele exato momento, o fato de ter dormido nos seus braços, depois de uma noite explosiva, com um até então desconhecido, que se revelava nada mais, nada menos que o melhor promotor do estado, deixava Fay com os cabelos em pé. Ela entrou em seu carro e bateu suavemente a testa contra o volante, maldizendo sua sorte estranha. — Merda, merda, merda — o xingamento acompanhou o ritmo em que ela infringia dor a si mesma. — Porra... E agora? O que vou fazer? Seja prática e faça seu trabalho. Ótimo, Fay estava entrando no rol dos que conversavam sozinhos e pediam e davam conselhos a si mesmos. Ela apanhou sua bolsa e foi em busca do cartão do detetive Bromley. Benjamin Bromley. Bonito e distinto nome. O telefone soou quatro vezes até que uma voz áspera atendesse. — Sim? — Detetive Bromley? — Eu mesmo, quem é? — perguntou. Alguém estava de mau humor. — Fay Williams. Da Associação de Dorchester. Nós nos falamos ontem. — ela disse e ele a interrompeu. — Claro, como vai? — ele amainou. — Bem, obrigada. Eu estou saindo do gabinete do promotor agora e, ele solicitou uma reunião o mais rápido possível. — Fay falou rapidamente. Ela ainda sentia palpitações só em lembrar do tal promotor. — Certo. Deixe-me ver aqui... — um ruído de papeis sendo mexidos podia ser ouvido por Fay. — Que tal amanhã, às duas horas?


— Ótimo. Vou passar as informações para a secretária dele e confirmar com você — Fay disse e passou a mão no rosto. — Posso enviar um SMS para o seu celular? — Claro. Você vai estar na reunião? — ele perguntou. — Acredito que sim — Fay respondeu sem entender o interesse súbito. Ou melhor, entendendo o interesse súbito. — Okay, nos vemos amanhã. — Ele disse e desligou. Fay ligou para o escritório da promotoria e agendou o horário com a secretária eficiente que já aguardava sua ligação e estava preparada para dar preferência a este caso. Como sabia que se fosse para casa encontraria apenas o vazio, já que Kate não estaria ali, Fay se dirigiu para a casa de Arthur, mesmo sem averiguar se ele estava lá. Tudo o que precisava era do amigo para desabafar. Ela sabia que podia contar com Kate, mas a amiga estava envolvida demais nos eventos da faculdade e um possível trabalho antes mesmo de se formar. Ela pensou em ligar para Lana, mas acabou interrompendo sua ligação antes mesmo de completar. Lana ainda estava naquele seu momento rebelde com o namorado, em algum lugar do país. Ela desceu rapidamente do carro e subiu às pressas as escadas do prédio. Cumprimentou o porteiro e bateu à porta de Arthur. Depois de duas tentativas, ela desistiu. Ele não estava em casa. Ela deslizou o corpo pela parede e se sentou no corredor. Pegou o celular e discou para Arthur. Okay, teria sido melhor se ela tivesse ligado para ele antes. — Onde você está? — perguntou antes mesmo dele sequer falar alô. — Chegando em casa, por que? — perguntou. — Estou no corredor do seu prédio, parecendo uma indigente sem ter aonde ir — ela disse rindo. — E é verdade? — sondou ele. — O quê? — Que você esteja sem ter aonde ir? — Arthur queria confirmar a importância de sua amizade em detrimento de outras tantas que Fay tinha. — A única pessoa em que pensei para estar junto, neste instante, foi você, Tuts — ela respondeu com um suspiro audível. Ela não queria ferir os sentimentos de Arthur e dizer que sua primeira alternativa era Kate ou Lana, pelo vínculo que compartilhavam. Quão fútil era ela, aproveitando-se da amizade daquele homem? — Okay. Assim me sinto melhor — ele respondeu e estava bem à frente de Fay. — Engraçadinho — ela continuou ao celular. — Não sabia dessa veia cômica em meu amigo... — Sério? Eu sempre fui assim, você que nunca reparou. — Ele disse e seus olhos estavam ardentes. — Ceeerto. Podemos desligar nossos celulares? — Fay perguntou, dando-lhe um abraço apertado. Arthur abriu a porta do apartamento e Fay viu-se em um ambiente altamente masculino. Uma área de guerra, com uma zona declarada, porém ainda assim organizada. Montes de livros e um violão


ficavam lado a lado no canto da sala, onde um sofá aconchegante e verde envelhecido a esperava de braços abertos. — Oh, Deus, Tuts. Juro que você é um santo — ela disse. — Por quê? Pareço um santo? — ele falou zombando. Fay não entendia porque não caia de amores por aquele homem. Ele era compreensivo, quente, sexy e sempre disposto a ajudá-la. — Você tem aguentado um fardo muito grande, amigo, — ela disse a palavra em português. — Eu venho, vomito todos os meus dramas e você apenas ouve. — Eu não posso fazer mais do que isso, ruiva — ele disse e sentou-se ao lado de Fay, pegando os pés com as botas calçadas e colocando em seu colo. — Eu poderia fazer mais, mas você não me dá bola. — Ele disse zombando dela. Fay sentiu o rosto ficar vermelho. Ela sabia que Arthur era extremamente paquerador e que mesmo não tendo rolado absolutamente nada entre eles, ainda assim prevalecia seu instinto de macho predador, sempre em busca de sua caça. Mesmo que Fay tivesse dado apenas alguns beijos, não conseguira pular a etapa, evitando estragar a amizade que tinham. — Arthur... — Eu sei, ruiva. Somos amigos e blá blá blá — disse com um tom resignado. — E eu também te importuno com as minhas coisas. Fale, o que te perturba? — Tudo. — Ela falou e colocou uma almofada no rosto. Arthur arrancou a almofada e exigiu saber o que se passava. — Lembra-se quando te contei de um cara super sexy que fiquei há um tempo? — Sim... Aquele que você saiu fugida da casa dele, que não pediu o telefone e perdeu o contato... — Eu não fugi! Simplesmente fui embora. Esse mesmo — ela disse e suspirou. — O reencontrei. — Oh. Aonde? — Eu não tinha que ir à promotoria hoje e encaminhar os documentos que o detetive me pediu daquele caso de ontem? — Sim. Ele trabalha lá e você o encontrou por acaso nos elevadores? — Pior, Tuts. Muito pior. — Ela disse. — Ele é o promotor chefe do caso.


Capítulo Oito —

Caralho, ruiva. — Arthur disse rindo. — Você consegue o inimaginável.

— Eu juro... — ela falou bebendo a cerveja que agora tomavam no balcão da cozinha. — Eu quase perdi a cabeça ao ver aquele rosto, daí acabei me enrolando e atropelando minha própria fala. Horrível. — Ela falou pensativa. — Nem quando eu caí na frente de todo mundo no ensino médio, depois que pisei na minha saia, me senti tão consternada. — Como você conseguiu pisar na sua saia? — ele perguntou com a sobrancelha arqueada. — Era um modelo hippie chic. Mais comprida que minhas pernas... daí, já viu, né?! — Fay se arrepiou ao lembrar o episódio. Ter a escola toda vendo sua calcinha de bolinhas, aos 13 anos foi traumático. — Certo. O cara é o promotor chefe... e aí? O que você vai fazer? Isso não quer dizer que vai passar a vê-lo todos os dias agora, não é? A não ser que queira isso. — Arthur perguntou com interesse genuíno. — Não sei. Ele me quer trabalhando lá. Toda essa coisa me deixou confusa. É muita coisa. Caralho... minha vida tá uma zona de guerra. Estou me formando e ainda com futuro incerto, um caso desses aparece e para completar vem esse fantasma sexy me assombrar. — Fay disse e afundou o rosto nas mãos. Ela sentiu a mão quente de Arthur fazendo carinho em seus cabelos. — Fay... Você não precisa temer nada, meu bem — ele disse. — Você sempre encarou as coisas de frente, então encare essa de frente também e saia dessa crise. — É mais fácil falar do que fazer, Tuts. — Ela disse e ergueu o rosto. — Primeiro eu fiquei em frangalhos pensando que ele não me reconheceu. Depois, fiquei irritada quando ele foi meio grosso comigo. Apavorada quando percebi que teria que trabalhar com ele. E agora estou congelada, quando sei que ele se lembra de mim. O que será que ele pensa de mim? Uma vadia? Arthur começou a rir do drama que Fay fazia de si mesma. — Olhe para você. Está escutando o que está dizendo? — Eu simplesmente fui pra casa dele na primeira noite, Tuts! O que ele vai pensar de mim? — ela perguntou nervosa. — E desde quando você se importa com a opinião das pessoas? Eu pensaria que você é gostosa e inesquecível. — Ele disse a fazendo rir. —Você não faz o tipo de “não vou transar na primeira noite


para me valorizar”. Sempre vejo você respeitando as pessoas, confiante de si, fazendo o que acha por bem fazer, inclusive sexo. Tem situações e situações, às vezes isso só acontece. É uma coisa tão relativa. E você fala como se fizesse isso sempre, o que não é o caso. Você até tem um jeito meio careta, ao contrário do que demonstra. E eu também vejo isso. — Ahh, é? Muito obrigada pelo relatório. Não sei se agradeço ou me sinto ultrajada. Careta, eu? Fala sério — ela reclamou olhando para ele. — Obrigada, amigo. Só você mesmo pra me dar um ânimo. — Fay disse e deitou a cabeça no ombro de Arthur. A jornada de Fay seria áspera. Trabalhar lado a lado com Alex não seria fácil em hipótese alguma. Porém se ela conseguira se enfiar nesse ninho de gatos, ela conseguiria sair. Não sem alguns arranhões, claro. Mas ela sairia. Já saíra de situações muito piores em sua vida. Quando Fay entrou no apartamento, deu de cara com Kate encaixotando várias coisas. — E aê? Está se mudando e nem fala nada para as amigas? — ela disse jogando a chave de qualquer maneira na mesinha lateral. Fay se aproximou de Kate e viu que na verdade ela estava guardando uma série de pertences de Lana. — O que houve, Kate? Aconteceu alguma coisa com a Lana? Eu sabia... Eu estava sentindo uma vibração ruim...— ela disse e sentou bruscamente no sofá. — Ela ligou hoje mais cedo — Kate começou a dizer. — Ela está grávida, Fay. Fay ficou momentaneamente sem fala e congelada no lugar. — Puta merda. Aquele vagabundo ainda conseguiu engravidar alguém? — ela disse e logo depois se arrependeu. — Quero dizer... Eu sempre tive a esperança de que ele tivesse problemas nos ovos, sabe como é... Kate riu mesmo a contragosto. Não havia maneira de ficar irritada com Fay. Trabalharam por horas embalando todos os pertences de Lana para encaminhar a uma empresa transportadora que levaria tudo para o Kansas. Fay foi para seu quarto já tarde da noite, cansada e sem ânimo algum para sequer ligar seu ipod e mergulhar em suas músicas. Deitando-se de qualquer jeito, ela fitou o teto de seu quarto e se pôs a pensar e sonhar com um certo homem de barba, de cabelos loiros compridos com olhos maravilhosos e mãos insaciáveis. Fay fechou os olhos e suspirou audivelmente. Ela queria poder voltar no tempo. Voltar naquela noite. Talvez não se envolver com Alex. Assim ela não teria ficado estragada para todo e qualquer homem que viesse depois dele, ou também poderia nunca ter conhecido o melhor sexo da sua vida. Ela precisaria pensar. Colocar as ideias no lugar e ver como lidaria com ele no dia seguinte, na tal reunião. Seria crucial que ela fosse totalmente profissional e nada transparente em seus sentimentos conturbados. Seria um milagre se ela conseguisse esse feito.


Capítulo Nove O dia seguinte chegou com um belo céu acinzentado e um frio enregelante. Muito promissor se isso pudesse exemplificar o espírito de Fay. Ela foi à faculdade apenas pegar seus certificados, já que o curso se encerraria em uma semana, e tanto ela quanto Kate já estavam mais do que aprovadas maxima cum laude. O restante das aulas seria apenas informalidade. Kate já estava até mesmo trabalhando em um escritório de advocacia depois de um relatório fantástico sobre um caso de tribunal. Caminhou alguns passos até seu carro, quando seu celular tocou. — Alô? — Fay? — uma voz potente disse do outro lado. — Sim. E você? — Detetive Benjamin ao seu dispor — ele disse e Fay podia sentir que havia um sorriso no rosto dele. Opa... parece que alguém agora estava de bom humor. — Ah, olá Sr. Bromley...— ela disse. — Por favor, me chame de Benjamin. Ou Ben. Vamos trabalhar juntos, seria chato manter as formalidades, não é?! — ele perguntou. — Não sei. Seria? — Fay brincou. — Certo, Ben. A que devo a honra de sua ligação? — Já que estaremos na promotoria às duas horas, pensei que talvez você gostasse de almoçar comigo e assim irmos juntos para a reunião, que tal? — ele disse. — Seria este um pedido estranho para almoçar comigo? — ela zombou. — Não sei. Seria? — Benjamin respondeu com suas próprias palavras. — Touché. Você venceu. Devolver com minhas próprias artimanhas vocálicas uma sentença requer tempo e muita criatividade. Você passou no teste. — Fay disse brincando. — Onde quer que nos encontremos? — Poderia ser no Sam LaGrassa’s? Lá tem pratos quentes e sanduíches se você quiser uma comida mais fast food, como as que estou acostumado — ele disse. — Quer dizer... não que você vá querer um sanduíche... Fay riu e aceitou se encontrar com Benjamin Bromley no restaurante. Era um local bacana e com uma variedade enorme de pratos, o que agradou ao paladar de Fay, embora seu estômago estivesse em greve e se recusasse a aceitar comida. A expectativa para que a tarde chegasse logo a


deixou sem apetite. — Olá — ela disse retirando o cachecol e colocando o casaco e a bolsa no banco ao lado de Ben. Assim ela teria a desculpa perfeita para se sentar de frente e não tão próxima. — Olá. Você está linda. — Ele disse. — Quer dizer... você está bem? —ele tentou disfarçar. — Sim. Obrigada. Acabei de me despedir da faculdade e estou com o espírito livre e leve — ela disse rindo. Os dois pediram seus pratos e mesmo que Fay praticamente quase não tocasse na comida, o papo fluía de maneira fácil e contagiante. Benjamin Bromley surpreendentemente era um homem extremamente divertido e participativo em suas conversas. Além de ser um homem muito charmoso e arrebatador. Quando Fay menos esperava, o horário de irem à promotoria chegou e seu nível de angústia cresceu. Os dois saíram do restaurante e foram direto ao carro dele, mesmo Fay alegando que o carro dela estivesse ali. — Eu a trago de volta, Fay. Vamos... Me faça companhia. Sempre sonhei prender uma mulher fatal como você — ele brincou. — Então você dirige uma viatura? — ela perguntou. — Não. Um carro fuleiro do departamento mesmo, mas a ideia é a mesma. Se eu te der uma ordem de prisão, você vira minha prisioneira, compreende? — ele disse e seus olhos eram enigmáticos. — Cuidado, sr. Bromley. Conheço as leis como ninguém, hein? — ela respondeu brincando. Quando Fay e Benjamin chegaram ao prédio da promotoria, foram logo encaminhados à sala do promotor que já aguardava a reunião. Fay entrou na sala de recepção e viu pela porta aberta do promotor chefe, que ele andava de um lado ao outro passando as mãos intempestivamente pelos cabelos. Em uma determinada volta, seus olhos se encontraram. Fay engoliu em seco. Ele caminhou para fora da sala e o coração de Fay batia acelerado. Ela temia que qualquer pessoa pudesse ouvir seus batimentos. — Williams, detetive, eu suponho. — Ele disse. — Dr. Bergman, como solicitado, aqui estamos para a reunião sobre os procedimentos que deverão ser tomados pelo Estado.... — ela disse nervosamente. Céus! O que ela estava fazendo? Ensinando um padre a rezar? — Por favor, se acomodem em minha sala — ele disse e saiu pelo corredor deixando Fay e Benjamin sozinhos. — Então... esse é o cara, hã? — Benjamin perguntou. — O quê? — ela contra-argumentou assustada, tentando saber se ele desconfiara de alguma coisa. — O cara. O promotor mais top do momento — ele disse. — Eu ainda não havia lidado diretamente com ele, apenas os assistentes. — Ah, sim... É,... dizem que o Dr. Bergman é extremamente competente em suas funções. — Ela disse.


— Que palavras lisonjeiras, Williams. — O promotor em questão respondeu da porta. Fay desejou que a matassem ali naquela hora. Com requintes de crueldade.


Capítulo Dez Como ela não sabia o que responder, preferiu ficar muda. Na verdade, a língua de Fay estava colada no céu da boca. Ela só dava fora quando estava próxima de Alex, então tentou fingir que não fora pega em flagrante delito elogiando o belo promotor. E nem mesmo observando seu corpo com ganância. — Dr. Bergman, a equipe da polícia está bastante otimista em desbaratar essa quadrilha o quanto antes e, com o testemunho deste jovem para o qual estamos tentando a proteção do Estado, a prisão dos criminosos será bem mais rápida. — Benjamin disse. — Eu acredito nisso. E quero saber a respeito de todo o trabalho da Associação aqui citada, para averiguar inclusive se cabe pedir proteção até mesmo a alguns membros da comunidade. — Nos dispomos a colocar mais viaturas na área e assegurar o bem estar dos voluntários que trabalham ali. — Benjamin disse e olhou para Fay que ainda continuava muda. — Dr. Bergman, como já falado anteriormente, nós estamos nos dirigindo diretamente ao senhor para quebrar o protocolo e a burocracia do sistema e agilizar o programa de testemunha em relação ao jovem — ela estava suando. Sua mente de repente a levou para lembranças dolorosas agora. “— O programa de proteção às testemunhas trabalha em prol de você, Srta. Maximiliam. Por isso precisamos de sua colaboração neste sentido. — Mas eu não quero perder minha vida assim! — Faith chorava. — É necessário, Srta., não há nada que possamos fazer. Estamos burlando a burocracia para que você seja inserida o quanto antes no programa, mesmo sem o julgamento ainda ter acontecido.” — Williams? — o promotor a chamou. Ela voltou rapidamente ao tempo e piscou os olhos, confusa. — Desculpem-me. Acho que me perdi — ela resolveu usar da verdade, do que disfarçar o óbvio. A reunião prosseguiu por mais uma hora e com o tempo ela foi se sentindo mais à vontade e participando ativamente da conversa. Eles eram profissionais diretos, ela gostava disso. Tudo ficou completamente definido e os trâmites já estavam sendo encaminhados. Naquela tarde mesmo, o jovem ex-membro da gangue local estaria sendo resguardado, bem como sua família. Os três se levantaram e estenderam suas mãos em cumprimento, sendo que Alex segurara a mão


de Fay por mais tempo do que o necessário. — Até mais breve, Williams. — Ele disse e seus olhos estavam quentes e misteriosos. — Espero que você já esteja com seus horários e seus afazeres acertados aqui. — Ahhh. Não. Quer dizer... Ainda não. — Fay disse tentando se recompor naquele exato instante. — Pois bem, espero que comece logo. Em breve teremos um coquetel onde haverá o lançamento de meu último livro e espero que você esteja lá, junto com os demais funcionários do escritório. — Ele disse. Fay não sabia mais o que dizer. Quando ela menos esperava, Benjamin a pegou pelo cotovelo e a guiou para fora da sala do promotor. Enquanto eles caminhavam para fora, ela podia sentir seus olhos queimando suas costas. Quando ambos entraram no elevador, Fay viu que Alex a observava com os olhos semicerrados e as mãos nos bolsos, numa pose despretensiosa, mas que mostrava claramente que a estava estudando. Alex ainda não tinha percebido o que Fay queria. Acostumado a ser extremamente racional, tanto no trabalho quanto em casa, ter esse pensamento inconcluso sobre ela era, no mínimo, algo despropositado. Para ele, a noite em que a conheceu ficou marcada na memória por variadas razões: sua beleza, paixão, personalidade. E a decepção que sentiu, ao acordar e não vê-la ao seu lado. Seus amigos Gabe e John chamavam-no de ermitão, por viver uma vida solitária, com poucos relacionamentos e exclusivamente dedicada ao trabalho. Com o passado que teve, ele tinha consciência da mudança em sua forma de viver a vida. Sentia-se tranquilo sobre isso, porque gostava da vida que levava, sem maiores distrações. Mas estar com Fay provocou nele a vontade de algo mais. Era comum que nesses últimos tempos se pegasse pensando naquela noite e em como seria se tivessem acordados juntos. Se eles continuariam naquela paixão ou se aquilo fora só uma coisa de momento; se gostaria dela quando a conhecesse melhor; se eles tinham alguma coisa em comum, dentre tantas outras coisas. Encontrá-la em seu escritório fora surpreendente, por mais que conseguisse disfarçar. Aparentemente ela possuía uma boa postura profissional e clareza de raciocínio ao expor suas ideias na sala de reunião. Mas no campo pessoal, difícil dizer. Quando a lembrou sobre a noite que tiveram, ela saíra sem dizer uma única palavra. O que essa reação significava? Constrangimento ou desinteresse? Ao ver o detetive colocando as mãos possessivamente nos braços dela, seu lado mais primitivo fora ativado e ele só não saíra dali reivindicando aquela ruiva como sua, porque se lembrou vagamente que estava em seu ambiente de trabalho. E porque estava com um caso importante para trabalhar dali a algumas horas e um escândalo dessas proporções cairia como um presente nas mãos da Defensoria. E porque talvez, eles já estivessem juntos. Ele não sabia o que fazer, mas sabia que algo deveria ser feito ou ele não ia conseguir tirá-la de sua cabeça. Agora que ela estava ali, ao alcance de suas mãos, ele estava encontrando dificuldades em se controlar. Ele queria Fay de novo. Com mais intensidade do que antes. E queria mais. Conhecê-la, estar com ela. Ela o estragara para qualquer outra mulher. Ele só poderia dizer que aquela ruiva o enfeitiçara completamente.


Capítulo Onze Algumas semanas se passaram e o trabalho de Fay na promotoria foi se solidificando. Passou a gostar do que fazia na Unidade de Fraudes e, apesar da tensão que sempre existia quando estava na presença de Alex, achava muito proveitosas as reuniões sobre o caso de tráfico de armas, que acabara envolvendo a Associação por conta do Brandon, ex-integrante da gangue. Todavia, por mais que estivesse satisfeita com o seu trabalho, aquela situação mal resolvida com Alex a incomodava. E por mais que tivesse acabado de chegar, não via a hora de sair daquele coquetel. Fay apareceu às costas de uma sempre bem arrumada Kate, interrompendo seus pensamentos, — Que festa tediosa, Kate! Ainda bem que cheguei atrasada. Espero já ter perdido a palestra e ir direto ao que interessa, o jantar. Estou morrendo de fome. O nervosismo estava latente dentro de Fay, mas mesmo assim ela ainda conseguia elevar o humor por onde passava. E manter-se bem humorada era essencial para que ela conseguisse sobreviver às mais árduas tarefas da semana. Trabalhar com Alex durante algumas horas de seu dia? Era fichinha. Até mais porque ele passava mais tempo detonando seus oponentes do que no escritório. Fingir que tudo estava na mais perfeita paz quando seus hormônios estavam completamente possuídos? Era muito simples. Bastava que ela mantivesse sua rotina de banhos gelados três vezes por dia. Às vezes até quatro... dependendo dos pensamentos indecentes no momento. Porém ter que ir a uma festa de coquetel do seu chefe, rodeado por mulheres absurdamente lindas e coquetes e ainda assim fingir que tudo entre eles sempre foi o mais profissional possível? Isso era punk. E mais ainda.... fingir para Kate que ela sequer conhecia “biblicamente” o promotor era uma tarefa hercúlea. Kate virou-se para se deparar com Fay ostentando sua belíssima produção para a noite. — Uau... Fay, você está escandalosamente deslumbrante! — Kate falou surpresa ao ver a amiga. Fay usava um longo vermelho escarlate, combinando com o tom de seu cabelo que se encontrava solto em cascatas pelas costas, com uma frente-única de chiffon, exibindo um generoso decote que evidenciava seus bem desenvolvidos seios. O vestido era puramente sensual, mas sem perder a elegância. Descia de forma justa, ressaltando seu corpo bem torneado. Levava apenas um pequeno par de brincos de diamantes, conjugado com uma leve maquiagem que se notava apenas pelo batom, de igual tom do vestido. Os saltos eram altíssimos, em tom nude. — E daí? O vestido anda sozinho pela sala, ele fala por si só. É um Versace. Ao menos foi isso que me disse a vendedora da loja que o emprestou. Não pensou que eu viria trabalhada no couro, né?!


Bem que eu queria, seria mais prático. — Resmungou Fay. — Fay, você está um arraso. — Kate riu e disse. — Como uma avessa aos ditames da moda, claro que não imaginava couro, bom, quase ele, mas não isso — brincou Kate. — E você devia estar agradecida pelo Dr. Bergman ter estendido o convite para todos os funcionários do departamento, já que é uma boa oportunidade para conhecer o meio. — Ah, Kate, sermão agora não. E ele só distribuiu convites como um panfletário de rua, porque é um exibido, isso sim. Nunca vi uma mistura mais atroz de badboy + abusado + algo como... — Candura. — Kate completou para Fay. — Consigo enxergar uma pitada de candura naquele perfil imponente. Talvez se ele tirasse aquela barba... Kate não tinha noção do que estava falando. Mas ela tinha. O que mais uma vez a levava para a cena quente que viveu com ele naquela fatídica noite. E o que o roçar constante daquela barba em sua pele fizera com ela. Resolveu desanuviar a tensão brincando com Kate. Fay a avisou que ia ao coquetel perto do evento, não parava de ouvir sobre o tal Gabe Szaloki e o novo escritório em que trabalhava. Aparentemente eles estavam interligados de maneira inusitada. Ficava feliz por ver sua amiga construindo uma carreira tão promissora, mas sentia algo diferente no ar. Talvez esse Gabe possa ser o responsável por isso. Será? Com as apresentações feitas no grupo em que estavam conversando, Fay apenas passava as vistas pelo amplo saguão, em busca de um par de olhos penetrantes. — Ora, falando no homem, ele aparece — o Dr. Kevin Bullock disse ao promotor que se aproximava. Fay ergueu seus olhos rapidamente para se deparar com o imponente olhar de Alex, que mais assemelhavam-se aos olhos verdes e brilhantes de um gato. — Kevin, parabéns pelo sucesso com o caso do desvio de verbas, todos lá no departamento estão comentando sobre isso. — Ele disse e deu um gole em sua bebida. Eles começaram a conversar e ela viu uma morena participar da conversa, o que era claro e óbvio que fazia isso tentando a todo custo chamar a atenção do promotor. Fay percebeu claramente as garras da morena atingindo o pico máximo de afiação, prontas a se cravarem naquele pedaço suculento de mau caminho. Já perdida em pensamentos, revirou os olhos ante tantas deferências dadas a ele durante a conversa. Era demais. Voltou a olhar a morena, fuzilando-a com os olhos. Que descarada! Pensou. Sem o mínimo de noção em se comportar num ambiente profissional, sério. A atitude de Fay não passou despercebida por Bergman, que sorriu brevemente em sua direção. Ele simpatizou rapidamente com Kate e, ao responder a um elogio que acabara de receber, disse: — Assim lutamos todos nós. Você sabe, jurista é todo aquele homem apaixonado que persegue aquela bela e inconquistável mulher que se chama Justiça — brincou o promotor, citando uma frase famosa e provocando risadas entre as pessoas do grupo. Não passou despercebido a Kate que enquanto ele proferia essas palavras, o promotor olhava diretamente para Fay, com algo mais no olhar. Enquanto isso, numa atitude completamente fora de sua característica, Fay olhava para todos os lados, menos para ele. Logo, a palestra do Dr. Bergman começara e o discurso teve início. “— Precisamos enxergar adequadamente quais são os obstáculos que hoje existem no combate às organizações criminosas na área empresarial. Esse presente estudo traz a possibilidade – real – de


fazermos estratégias integradas...” Fay ouvia o discurso de Alex, embalada pela rouquidão sexy de sua voz. Lembranças enternecedoras permearam seu cérebro e ela agarrou o primeiro cálice de champanhe oferecido por um gentil garçom. De um gole só ela tragou todo o líquido espumante, esperando que em algum momento, depois de umas vinte taças, ela pudesse apagar de sua memória as lembranças das mãos másculas de Alex percorrendo seu corpo. Com esse intuito em mente, ela “atacava” cada garçom que passasse por ali. Ela sabia que estava em um mato sem cachorro. Ou melhor, modificando o ditado, que estava em um mato com vários pitbulls enlouquecidos por um pedaço de carne. E a carne era ela. Estar em contato com ele diretamente no escritório estava sendo torturante. E isso quando ele simplesmente não disfarçava sequer sua irritação quando ela tinha que se reunir ao detetive Bromley para o prosseguimento dos trâmites judiciais no caso em que trabalhavam. Se Fay fosse esperançosa sobre algo em sua vida, ela poderia jurar que ele estava mexido com ela. Porém, como Alex não deu sequer qualquer amostra de interesse, procurando-a novamente, ela acreditava que isso era puramente uma ilusão oriunda de seus devaneios românticos. Fay não poderia dizer que era uma romântica incurável. Ao contrário de Lana, que via tudo em tons de rosa com purpurinas, Fay era bem realista ao que relacionamentos poderiam gerar. E com seu histórico conturbado e seu passado tenebroso, um relacionamento era tudo o que ela deveria evitar com o máximo de suas forças. Daí seu jeito tão despojado em fazer-se apenas alguém sem compromissos ou amarras. Ela sabia o que era ser arrancada de um laço afetivo. Ela sabia o que era perder toda a sensação de estabilidade que ela imaginava ter. E ao permitir-se envolver com algum cara e acabar apaixonada por ele, o risco poderia ser muito maior, no caso de um término. Seu coração estando envolvido era uma coisa. Seu corpo apenas se aquecendo era outra bem diferente. Embora ela passasse uma imagem muito mais vulgar do que o que realmente condizia, Fay sabia que muitas pessoas a viam como um furacão sexual ambulante. E ela permitia que sua imagem de ruiva sedutora acabasse com qualquer ilusão a respeito dela desejar algo mais sério. Porém, ela tinha que admitir para si mesma que o fato de Alex não se manifestar em nada, não demonstrar absolutamente qualquer reação ante ela, a deixava muito mais pra baixo do que ela gostaria. Ele às vezes a irritava com seu modo grosseiro, deixando-a constrangida em algumas situações, mas nunca demonstrara interesse. Ela estava na merda. Depois de mais três taças do líquido alegre e borbulhante, Fay mudou a estratégia para anestesiar os sentidos, bebendo dois cálices de vinho. Ela já podia sentir que suas pernas já estavam um pouco bambas. Seu senso de direção já balançava como um navio sem prumo, e suas mãos e pés já não apresentavam sensibilidade. Yay. Ela estava bêbada. Isso que era um belo comportamento em ambiente profissional. Com o máximo de dignidade que ela conseguiu reunir em seu corpo exuberante, Fay dirigiu-se à saída do local do coquetel. Para onde era seu apartamento mesmo? Ela pensou que talvez devesse procurar Kate e solicitar sua ajuda, mas desistiu ao vê-la entretida com seu chefe e amigos. Respirando fundo, Fay ergueu a mão para testar a densidade do ar. Ela queria averiguar se o mesmo poderia fazer às vezes da parede e ajudá-la em manter o equilíbrio há muito perdido. Só agora ela percebeu que não consumiu quase nada do jantar, daí seu porre


apresentar-se tão intensamente como um musical da Broadway. — Nem mesmo um gambá poderia estar mais embriagado do que você, Williams — disse uma voz estranhamente conhecida atrás dela. Tentando ao máximo se virar sem desequilíbrio, segurou o braço que lhe estava sendo oferecido com muito apreço. — Ooooh... Se não é o promotor bonitão e pomposo — ela disse irônica. — Espera. Você não estava lá no púl...pul...pito? — ela questionou. — Aparentemente eu estive há vários minutos atrás... Até que percebi que você estava tentando manter-se em pé ou querer se fundir à parede. Fay riu. — Meu camarada, eu estou muuuuuito bêbada... — ela disse rindo. — Mas é só porque preciso apagar da memória um caso super quente que tive... Alex se aproximou mais dela. — É mesmo? — ele perguntou pensando no detetive que vivia ao redor dela. — Que caso quente? — Aaah. Um caso de uma noite. Super quente... — ela disse e fechou os olhos. — Mas é estranho, porque você se parece muito com ele... — Seriamente, Williams? Você acha que conseguiria fornecer seu endereço adequadamente? — ele solicitou ao mesmo tempo divertido e preocupado com o comportamento dela ali. Agora estava aliviado porque o caso quente que ela falara era ele. E isso só poderia significar que ela também não o esquecera. Seu coração batia energicamente em seu peito. — Eu poderia te deixar na sua casa, vamos? — ele perguntou. — Jura? Prefiro ir para a sua. Você é aquele cara muito parecido com meu caso quente... — ela estava perdida na névoa da embriaguez. — Eu me lembro que ele tinha uma suuuuuper moto... Eu estou de vestido, não dá para ir... Que pena — ela disse e se abanou. — Puxa... Você se lembra da Harley? — ele perguntou surpreso, agora dificilmente conseguindo se conter em não fazer o que ela pediu. Era o que ele mais queria. — Ela é uma mooooto lindaaaa... Cara, que deus... — A moto? — Não... O motoqueiro... Nunca vou me esquecer dele — ela disse e soluçou. Estava sendo hilário conversar com aquela estátua que se parecia muito com seu Alex. — Ele era demais... — Venha, Fay. Vou te levar pra casa. — Ele disse e começou a guiá-la pelo saguão, longe dos olhos do público. Até mesmo ele tinha um limite. — Espera. Meu vestido é um Veeeer...sa...ce... Não dá pra levantar — ela cochichou em seu ouvido. — Minhas pernas ficariam de fora. Seria indecente. Atentado... Violento... ao Pudor... — Por causa das suas pernas? — Alex perguntou divertido, lembrando-se bem daquelas pernas torneadas em volta de sua cintura, como se fosse ontem. — Não... — ela disse em tom conspiratório. — Porque estou sem calcinha. — Ah, Fay, não provoque! — ele disse e amaldiçoou baixinho ante a revelação. Deus o ajudasse. Alex estava aflito. Respirando fundo e amaldiçoando por baixo de seu fôlego


com o fato revelado por Fay, ele a guiou até seu carro que já estava à sua espera, pegou a chave com o manobrista e deixou uma Fay embriagada e falante no banco do passageiro. Alex ainda afivelou o cinto de segurança, já que ela mostrava uma capacidade inábil de executar qualquer ação e aspirou profundamente seu perfume exótico. Sentando-se ao banco do motorista, ele ajeitou sua evidência de excitação o melhor que pôde e seguiu rumo ao endereço que ela tentava fornecer. Alex a levou até a porta de seu apartamento e se segurou para não arrancar aquele vestido sedutor de seu corpo e tomá-la de novo contra a parede, a porta, o balcão ou qualquer superfície próxima. — Então... Tchau, alucinação...— ela disse e deu um aceno para nenhum lugar. — Foi um prazer viajar nessa embriaguez... — ela disse e tentou girar a chave. Alex colocou sua mão por cima da sua e girou a chave por ela, com seu corpo colado às suas costas. — Uau... Essa alucinação é tãaaaao real...— ela disse e riu sozinha. — Fay, não pense que isso não terá consequências depois, porque vai ter. Ele a enviou para dentro, mesmo em seus passos trôpegos e fechou a porta de seu apartamento. Colocando sua testa na porta, respirou profundamente várias vezes até retomar seu equilíbrio. Ele não era forte o suficiente para ser um cavalheiro e a colocar na cama. Com isso, Alex saiu dali como se estivesse sendo perseguido por mil assombrações.


Capítulo Doze No dia seguinte, Fay acordou com pedaços de algodão grudados no céu da boca. Ou ao menos era essa a sensação que ela tinha. Erguendo seu corpo moído do sofá, ela percebeu que adormeceu na sala e ainda no vestido de festa sensacional que ela usou no coquetel. Coquetel. Ela repetiu a palavra diversas vezes até afundar a cara na almofada do sofá, lembrando-se de alguns pedaços de episódios da noite anterior. — Cara, o que eu fiz ontem? — Até eu queria saber. — Kate disse do umbral da cozinha com uma xícara fumegante de café em uma mão e um copo de algo verde e viscoso na outra. — Sério, Fay. Como você chegou aqui? — ela perguntou e caminhou em direção à Fay que estava ainda esparramada no sofá. — Porque a última vez que eu a vi, você estava dançando sozinha no hall de entrada. — Jura? — Fay perguntou assombrada. — E nua — Kate falou. — Não!!!! — Fay disse mortificada. — Claro que não, tonta. Toma, beba isso aqui. Você deu sorte por sua bebedeira ter passado despercebida ali — ela disse. —Ah... — Fay diz estendendo a mão para o copo de café — Esse cheira divinamente, mas mesmo assim faz meu estômago se contorcer como um bailarino do cirque du soleil — Kate fez uma cara de nojo. — Não. Beba esse copo adorável que mais se parece com a floresta amazônica — ela disse. — O café é totalmente meu. Fay ergueu uma sobrancelha olhando temerosa para o copo. — Isso é nojento, Kate. Eu nunca fiz isso com você. — Claro. Porque eu não chego bêbada a tal ponto de simplesmente deitar no chão da sala — ela disse. — Você tem noção de quão pesada você é? Quase arrebentei minha coluna tentando te colocar no sofá. — Uau. Sem ofensas. Por favor, estou de ressaca, mas não precisa me chamar de baleia — ela disse e tomou o líquido. Kate riu da desfaçatez de sua amiga. Ela sempre soube que Fay era a doidivanas do grupo, mas


vê-la caída no chão do apartamento na noite anterior lhe roubou cinco anos de vida. Isso nunca tinha acontecido antes. Quando percebeu pelo bafo que na verdade ela estava embriagada, Kate apenas sacudiu sua cabeça em descrença e tentou ajeitá-la o mais confortável possível. Fay nem era de beber tanto assim. — Sério, Kate. Você poderia ter ao menos tirado meu vestido, né?! — ela disse indignada. — Assim ele não estaria caótico desse jeito... — Eu? E você poderia pensar que eu fosse um caso seu e me agarrar em seu estado de embriaguez? Nunca. — Ela disse e riu. — Vaca. — Fay respondeu e riu junto. — Aaaaai, não me faça rir, sua cretina. Isso dói até mesmo minhas entranhas... Kate riu mais ainda e deixou Fay em sua miséria. Quando Fay conseguiu sentir-se gente outra vez, ela tomou um banho e se arrumou para uma corrida rápida. Na verdade, Fay usou a corrida habitual para queimar todos os pensamentos indecentes que ela tinha e também reorganizar o acordo entre um corpo sadio e sóbrio. Como a festa fora na sexta feira, o porre ao qual ela entregou seu fígado de bandeja não prejudicaria tanto sua reputação como estagiária. Seria o fim chegar na segunda feira exalando álcool por todos os poros na promotoria. E ainda encontrar com Alex.... Estacando repentinamente no meio de seu quarto enquanto vestia uma meia, ela ficou de boca aberta tentando se recordar se suas lembranças eram de fato reais ou fruto de sua imaginação. Se Fay pudesse treinar em si mesma seus golpes de boxe, ela estaria totalmente vencida num sparring épico. Será mesmo que Alex me viu no estado em que eu estava? Fay pensou com seus botões enquanto amarrava o ipod no braço. — Kate! Estou indo correr! — ela gritou para ninguém aparentemente, já que não houve resposta. Descendo pela rua numa velocidade acelerada, Fay queria queimar todo o álcool de seu corpo. E esquecer o possível vexame que passou na frente de ninguém menos que seu chefe gostoso. A música explodia abertamente em seus ouvidos. Era hilário até mesmo para si, a capacidade de fazer um autoexame filosófico sobre sua vida ouvindo OneRepublic. Por que ela se sentia errada fazendo as coisas certas e sentia-se tão certa fazendo as coisas erradas? Era um questionamento muito interessante aquele que Fay estava fazendo consigo mesma. Cinco quilômetros depois de muito suor, uma chuva fina começou a cair teimando em esfriar o corpo super aquecido de Fay. Ela olhou à sua volta e arquejando apoiou as mãos nos joelhos enquanto recuperava seu fôlego. Um carro parou exatamente ao seu lado. — Olá! Você é corajosa em correr num dia chuvoso, hã? Ela olhou para o lado e viu o detetive Bromley sorrindo despudoradamente em sua direção, apreciando a vista. Em outros tempos, antes de Alex Bergman estragá-la para outros homens, ela responderia à altura daquele olhar. Porém agora ela encontrava-se embaraçada já que seu traje estava completamente molhado da chuva, marcando completamente suas curvas. Por que raios ela estava sentindo que fazia algo errado pelas costas de Alex? Isso só poderia ser culpa da música que estava em sua cabeça.


— Ah, estava tentando me livrar das preocupações do dia a dia, sabe como é... — ela disse e se aproximou do carro. — Quer continuar sua fuga das preocupações diárias correndo ou aceita uma carona? — ele perguntou. — Uau. Mas eu não vou estragar esse carro luxuosíssimo do governo? — Fay zombou e abriu a porta. Benjamin ligou o aquecedor do carro, de forma que Fay pode ao menos aliviar os tremores em seu corpo. O resultado de uma corrida intensa, chuva e suores poderia derrubar uma pessoa. — Então, como andam os trâmites da nossa testemunha? — Benjamin perguntou tentando puxar assunto. Por alguma razão aquela ruiva o deixava nervoso. — Ele já está no programa de proteção às testemunhas e toda a parte documental está pronta no que se refere às investigações que vocês estão mantendo — ela disse esfregando suas mãos. — Acho que tudo é muito substancial para a promotoria enfiar aqueles filhos da puta na cadeia por um bom tempo. — Você realmente gosta do seu trabalho, não é?! — ele perguntou olhando-a de soslaio. — Adoro. Ver a justiça sendo empregada da maneira correta e ver as ruas livres de pelo menos alguma parcela de marginais bastardos é um ideal. — Ela disse e seu tom ficou um pouco mais receoso. — Embora algumas vezes, decisões como a do jovenzinho possam acarretar em mudanças drásticas de vida. De maneira inimaginável. Benjamin ficou em silêncio por alguns minutos. — Você teve alguma experiência assim, Fay? — ele perguntou. Seu modo detetive estava acionado. — Você está me investigando agora, detetive Bromley? — ela tentou brincar, mas sentia-se nervosa ao extremo. — Não. Apenas fazendo conjecturas. Seu timbre de voz mudou como se você tivesse conhecimento de causa no assunto. — Ah, bem... Trabalho em Dorchester há um tempo. Já tivemos casos de testemunhas desistentes com medo de terem suas vidas mudadas completamente pelo sistema — ela disse e sorriu. — É aqui. Muito obrigada pela carona, detetive. — Você não gostaria de tomar uma xícara de café comigo? — ele insistiu. — Eu agradeço o convite, mas realmente vou ter que declinar. Vamos deixar para outra hora — ela sorriu. — Veja... Meus trajes não são nada apropriados para a ocasião. — Você fica linda de qualquer jeito, querida. — Ele disse e seu olhar alongou-se por toda a extensão de seu corpo. — Obrigada, Ben, — ela disse e deu um beijo delicado na bochecha dele. — Mas nos vemos essa semana na promotoria, okay? Fay desceu do carro à toda pressa. Resolveu que pegaria Kate pelos cabelos para que tivessem um programa só de mulheres. Ela precisava mais do que nunca de sua amiga.


Capítulo Treze Depois de um banho relaxante, Fay ligou para Kate decidida a levar sua amiga em algum lugar para apenas desanuviarem a cabeça. Como Kate estava impossibilitada por algo no escritório, ela decidiu aceitar o convite de suas colegas de trabalho e junto a Arthur, saiu em direção ao seu refúgio quando precisava esfriar a cabeça e simplesmente apagar dados e deixar de pensar. Com a mente duzentos e vinte volts que possuía, só tinha um lugar onde ela conseguia essa proeza. Um ambiente enfumaçado, barulhento e cheio de pessoas se balançando tresloucadamente. Ali ela conseguia deixar de pensar. Queria entregar-se à música, entorpecer seus sentidos rumo a pensamentos errantes e cheios de desejo guardado. Encontrou suas colegas na boate e seguiram para a pista de dança completamente lotada. Os corpos se amontoavam no ritmo alucinante da música com que o DJ conduzia a multidão. Arthur a encontrou no meio do caminho e sem nem ao menos uma palavra sequer a guiou para o local que Fay mais gostava de ficar. Ele a conhecia melhor do que ninguém. Sabia que em muitos momentos dançar a fazia esquecer seus problemas, suas preocupações, suas próprias aflições. Enquanto ele dançava próximo, ela se deixou levar pelo som que reverberava no ambiente. A letra penetrava nas profundezas de seu cérebro enevoado. E sem querer, ela apenas se permitiu sonhar que dançava naquela noite longínqua, com braços fortes a rodeando, apenas sentindo a grandiosidade da percepção de não estar atada a ninguém em particular, mas ao mesmo tempo estar tão conectada a uma pessoa. Fora isso o que ela sentira tantos meses atrás. Quando se permitira flutuar nos braços de um estranho e acabar se vendo enredada nas teias mais sedosas da paixão e do frenesi. Fay era adepta de sentir-se livre e despojar-se dos olhos alheios. Quando ela se permitia ser capturada por um ritmo, ela não se importava se alguém poderia achá-la estranha, dançando de olhos muitas vezes fechados, completamente imersa em um mundo próprio, alheia ao ambiente externo e às outras pessoas ao redor. Estava deliciando-se deste mesmo torpor quando sentiu um arrepio percorrer toda a extensão de sua coluna. Com os olhos entrecerrados, sem perder o ritmo da melodia, seus olhos percorreram o ambiente até esbarrar com um par devastador de olhos perscrutadores. Encontrou o objeto de seu desejo sentado no bar da boate, olhando-a com olhos predadores e cheios de promessas. Fay pensou em ignorar Alex de maneira descarada, mas a força magnética com que ele a encarava, a manteve cativa e completamente à mercê. Arthur percebeu que ela saíra de seu torpor e buscou a direção do olhar de Fay. Quando percebeu a conexão visual dos dois, ele se achegou a Fay dançando colado ao seu corpo e sussurrou em seu ouvido:


— Quer matá-lo de maneira lenta ou com requintes de crueldade? — ele perguntou. Fay olhou-o confusa. — Vamos, Ruiva. Vamos dar algo a ele em que pensar — ele disse e agarrou os quadris de Fay mexendo-se no ritmo da canção. Fay recordava-se apenas de Alex dançando quase da mesma maneira tanto tempo atrás. E embora ela não fosse do tipo de mulher de fazer joguinhos, porque quando queria alguma coisa, ela simplesmente batalhava por ela, Fay não resistiu ao seu lado travesso. Elevou os braços em envolveu o pescoço moreno de Arthur. — Você é um cara mau, Tuts — ela disse com os olhos entrecerrados — Quem poderia imaginar que fosse tão ardiloso... Os dois faziam um espetáculo na pista de dança. Aos olhos de muitos, não passavam de um casal dançando embalado pela melodia contagiante da música. Fay sabia que os olhos de Alex estavam cravados neles na pista de dança. Ela podia sentir as vibrações que ele emanava de longe. Arthur tinha um gingado muito peculiar, típico dos homens latinos, e quando dançava um ritmo que contemporizava com suas origens, ele se sobressaía. E quem estivesse com ele, seguiria junto. Ela adorava dançar com ele. De manuseio experiente, a uma pegada mais intensa, Arthur dançava como se estivesse fazendo amor na pista de dança. Ao passo de menos de um minuto, uma forte mão interrompeu o contato do corpo de Fay com Arthur. Bastou apenas um olhar para que Arthur desse um esgar de um sorriso e saísse em direção ao outro grupo, deixando Fay à mercê de um Alex carrancudo. Ele agarrou seu corpo e a puxou em direção ao dele, rumo a um escuro canto da boate, sem deixar sequer um espaço suficiente entre seus corpos para uma moeda deslizar. Não que Fay quisesse deslizar uma moeda. Sem ao menos uma palavra, ele cravou o olhar aos seus lábios e a beijou com a mesma voracidade que vivenciaram naquele primeiro encontro, sob quase as mesmas circunstâncias. Fay agarrou aqueles cabelos longos que chegavam quase aos ombros musculosos. E num duelo de bocas sedentas, cada qual matou a saudade à sua própria maneira. Fay percebeu que mesmo as semanas em que ficaram sem saber notícias, que quase viraram meses em que cada um deve ter se envolvido com outras pessoas, como ela fizera, a lembrança de Alex nunca desaparecera de sua memória. Ele estava gravado e forjado em fogo em suas entranhas. E assim parecia que o desejo também o lambia como lavas de um vulcão. A proximidade naquelas semanas no escritório só estava premeditando um encontro explosivo como o da primeira vez. Alex estava completamente fora de si. Mesmo sabendo que deveria ser comedido no trato com sua recém-encontrada mulher misteriosa, ele simplesmente não pode aguentar ver as mãos de outro homem naquele corpo. Chegou ao limite. Para agravar a situação, podia sentir que estavam sendo alvo dos olhares curiosos das outras pessoas ao redor. Se alguém do trabalho os visse ali seria um problema. Porém, tudo o que ele pensava era que Fay se encontrava em seus braços e que eles estavam vivenciando basicamente a mesma performance da outra vez. Com exceção da música que era distinta, e do canto obscuro ao qual ganharam certa privacidade. Agora tudo o que ele sabia é que se encontrava sob as luzes estroboscópicas, rodeado por uma multidão, sob o embalo de uma melodia fervente, e bebendo loucamente da boca daquela mulher que perturbara seus sonhos por mais de um mês enlouquecedor. O porte altivo, o sorriso e o choque no rosto de Fay quando adentrou seu escritório deveria ter


sido fotografado para a eternidade. Aqueles olhos extremamente azuis, completamente assustados diante da descoberta de quem ele era, seria inesquecível para Alex, porque ele pode ver o reconhecimento imediato em seus olhos atormentados. Foi difícil para ele conduzir aquela entrevista inicial sem demonstrar um grama dos sentimentos conturbados que ela despertou nele. Desde quando se reencontraram, duas semanas atrás, seus dias estavam sendo consumidos pelo desejo intenso de tomá-la e fazê-la sua novamente. A aparente falta de interesse dela somado ao fato de estarem trabalhando juntos tinha impedido que ele fizesse algum movimento inicial. Mas depois dos esclarecimentos dela na bebedeira de ontem, tudo ficou mais fácil para ele. No coquetel ficara sabendo que hoje um grupo do trabalho estaria ali. Num impulso de momento, resolveu ir, com inconsciente esperança de encontrá-la ali. Erguendo as mãos dela entrelaçadas às suas, acima de sua cabeça, e rodando o corpo, ele a direcionava para outro lado. — Estamos nos repetindo, ou este é um dejávu? — ela perguntou entorpecida. — Estamos terminando o que começamos no coquetel, sem embriaguez para interferir — ele disse enquanto a guiava pela multidão, — ou alguém para culpar. Ao que parece, meu palpite estava certo. — E que palpite seria este? — ela perguntou e lambeu os lábios sedutoramente, tentando lembrar sem sucesso o que começaram. — De que em algum momento, em alguma noite, eu teria a mesma sorte de me encontrar com uma ninfa entre meus braços, no meio de uma pista de dança, sob uma canção que não diz absolutamente nada, mas ao mesmo tempo diz tudo... — Então você estava me observando? — Todo o tempo. Quando deu por si, Fay já estava do lado de fora da boate, o que a fez parar. Ele ergueu o olhar para ela, com a sobrancelha arqueada, em uma pergunta muda. — Estamos indo para onde? — ela perguntou. — O que você acha? — ele perguntou irônico e começou a andar em passos largos rumo ao estacionamento, seguido de perto por ela. — Quem você pensa que eu sou? — Fay fez-se de irritada. — Não se faça de rogada agora, ruiva “sem calcinha” — ele falou sorrindo ao chegarem próximo à moto dele. — Oh. Como você ficou sabendo que ontem eu... Ah, eu estava bêbada, não pode levar em consideração as coisas que falei! — Williams, vou te fazer lembrar. Agora, suba na moto — disse Alex já acomodado em sua Harley. — Droga, não me chame assim. Faz-me esquecer sobre o que estava falando e isso não é justo. — Ela disse sem pensar, fazendo um sorriso aparecer no rosto dele. — Venha, Fay. Vamos conversar num lugar mais apropriado. Não vai acontecer nada que você não queira. — Ele disse num tom apaziguador. — Ahã.... — ela riu em seco, olhando-o aos olhos e fazendo uma pausa para pensar. Sempre achava graça ao ouvir essa frase dos homens, mas agora ela se sentia um pouco assustada, apesar da


euforia de ter estado há pouco nos braços dele. Era uma vontade de segui-lo acrescida à outra que a mandava recuar. Pondo fim à silenciosa troca de olhares, Fay sentou atrás dele enlaçando seu corpo com os braços e só o que pode perceber foi a sensação de bem estar. Ela pertencia exatamente àquele local. Sua mente viajou e imagens dos dois percorrendo as estradas do país passaram por seus pensamentos. O vento frio batia no rosto de Fay pela viseira levantada de seu capacete. O cheiro de Alex estava em todo lugar. Ela percebeu que ele não tinha um capacete feminino naquele momento, o que muito a agradou, porque isso significava que ele não tinha companhia feminina usurpando seu lugar. Quando chegaram ao condomínio de Alex, ela sentiu o formigamento da antecipação percorrendo seu corpo. Fechou seus olhos momentaneamente e apenas aspirou o perfume másculo de Alex. — Pensando melhor? — ele perguntou enquanto a olhava com luxúria e desejo. — Não. Apenas me recordando daquela outra vez — ela admitiu. — Hmm... — ele disse isso e a ergueu do assento da moto. Retirou o capacete delicadamente de Fay e caminhou com ela em seus braços até a porta do prédio. Quando entraram, Alex tentou manter o máximo do decoro possível, controlando sua vontade imensa em tomá-la ali mesmo no elevador. Assim que conseguiram chegar ao apartamento, Alex jogou o casaco de qualquer jeito nas costas de um sofá. Fay ainda não se movera, constrangida com as lembranças. Alex a pegou pela nuca, com um punho agarrando seus cabelos de maneira possessiva e delicada ao mesmo tempo. Ele a puxou em sua direção e parou com sua boca a milímetros de distância da boca sedenta de Fay. Seus olhos estavam conectados e falavam por si só. Palavras não eram necessárias naquele momento. — Alex... — Fay sussurrou. O pedido desesperado estava escrito em seus olhos azuis. Os lábios se encontraram como se estivessem matando saudades um do outro. Ele instigava seus desejos enquanto percorria seu corpo com as mãos, fazendo-a perder a cabeça, deixando-a tonta de paixão. Mesmo com a avidez que sentiam um pelo outro, as mãos viajavam pelos seus corpos numa viagem lenta, de reconhecimento. As peças de roupas deixavam seus corpos com paciência, como se cada passo estivesse sendo apreciado. Alex a olhava embevecido, venerando cada parte do corpo de Fay que surgia ante seus olhos. Ele não era dado a sentimentos românticos da menor espécie. Mas Fay despertava nele uma avalanche de emoções que ele não conseguia classificar. Desde que ela adentrou em sua vida novamente entrando em seu escritório, sua existência tornara-se um doce martírio. Vê-la no escritório tornara-se seu tormento, porém seu momento mais esperado do dia. Quantas vezes sentira o desejo louco de arrastá-la pelo seu escritório e mostrar que ela ainda rastejava por sua pele? Quantas vezes sentira a vontade áspera de puxá-la pelos cabelos e apenas marcá-la como sua? E quantas vezes pensara em convidá-la para sair e simplesmente deixar que as coisas seguissem seu rumo? Fay respirou entre ofegos. Seu corpo já estava em chamas. Ela decidiu que amava o lento, mas que o que precisava naquele instante era o rápido. Alex conseguia fazer com que ela sentisse vontade de chorar só em estar com sua boca em seu corpo. Nunca antes suas emoções estiveram tão à superfície em vias de explodirem.


Ela agarrou os cabelos dourados de Alex em suas mãos e inclinando sua cabeça para trás, deixou que sua pele do colo e pescoço fosse exposta aos seus beijos ardentes. A arranhadura da barba de Alex somente deixava a sensibilidade mais aguçada. Como os dois chegaram ao quarto era um mistério. Num instante eles estavam na sala em passos lentos e amassos abrasadores. No seguinte estavam incendiando os lençóis de sua cama gigantesca. As mãos tocavam, ora com luxúria, ora com candura. A boca de Alex nunca a abandonava, nem mesmo quando ele se movimentava para alinhar seu corpo musculoso ao dela. Quando o corpo de Alex se uniu ao dela foi como um reencontro, uma reconexão. As partes quebradas da alma de Fay se ajustaram como um quebra cabeças por fim montado depois de séculos de ajustes de suas peças. Fay mantinha seus olhos fechados. Ela sabia que se Alex a visse, sua alma estaria exposta. Ele segurou seu rosto com as duas mãos ladeando sua cabeça e conectou seu olhar ao dela. — Olhe para mim, Fay — ele pediu. Com muito custo Fay abriu seus olhos. Suas emoções eram cruas naquele instante. Gentil, Alex beijou sua testa, suas pálpebras, sua bochecha, percorrendo seu rosto indo parar no lóbulo de sua orelha. Quando por fim seu corpo reivindicou a doçura do dela, Alex ouviu um longo gemido e acabou percebendo que havia sido o seu. Olhando para a mulher que tinha entre os braços, ele sentiu-se em casa. Não literalmente, já que realmente ele estava em seu lar, mas sentiu a magia de voltar a ter o coração exatamente no lugar aonde pertencia. À medida que seu corpo mostrava a ela todos os sentimentos devastadores que ela causava, Alex observava sua ruiva começar a deixar cair as barreiras que erguia em volta de si. Por fim, ele conseguiu que ela se deixasse soltar e voar em seus braços. Em seguida ele permitiu-se decolar junto a ela. Ajeitando-se ao lado de seu corpo, desfalecidos e ofegantes, Alex se aconchegou às suas costas e decidiu que não a deixaria ir de novo.


Capítulo Quatorze Quando abriu os olhos com a claridade que entrava no aposento, Fay levou apenas um segundo e meio para detectar que não se encontrava em sua cama e que não estava sozinha. Um corpo quente a mantinha cativa como se estivesse encapsulada. Braços fortes com pelos dourados formavam um casulo aquecido e pernas musculosas enroscavam-se com as suas delicadas. Ela olhou para o que parecia ser um curioso tecido amarrado em seu pulso. E para seu espanto percebeu que o tecido a ligava ao nó no pulso de Alex. Porra, ele só podia estar brincando!!! Alex a havia amarrado a ele! Fay se irritaria se não tivesse entendido a mensagem clara que ele quis deixar. — Bom dia — sua voz soou rouca ao falar na direção de Alex. E para que pudesse acordá-lo, suas palavras foram acompanhadas de uma leve cotovelada em suas costelas. Ele apenas resmungou, abrindo um meio olhar. Ela o olhou por cima de seu ombro e com a sobrancelha arqueada ergueu os pulsos conectados pela sua gravata. Ele deu de ombros e a abraçou mais apertado. — Só para me certificar que você estaria aqui quando acordasse — soou aquela voz grave ao pé do ouvido, provocando arrepios. Ele olhou de relance o relógio na cabeceira da cama e falou: — São seis horas. Você sempre acorda tão cedo assim? — Sim. Gosto de correr de manhã — ela falou, sentindo-se de repente deslocada. Não se recordava da última conversa íntima trocada na cama com alguém. Era bem possível que aquela fosse sua primeira vez. — Também gosto de correr pela manhã. Mas isso é madrugada — ele disse, levando mais uma cotovelada amiga. — Jamais ia imaginar que o Promotor Chefe do Estado fosse um preguiçoso. — Vou te mostrar quem é o preguiçoso aqui, — disse, beijando sua nuca e roçando a barba em seu ombro a fazendo rir. As risadas, porém, cessaram quase que imediatamente quando o desejo latente que ardia nos olhares dos dois deixou tão claro como cristal que eles precisavam de uma conexão mais do que imediata. Os dois seguiram para o que Fay nunca antes compartilhara com homem algum. Uma manhã preguiçosa entre os lençóis, fazendo as coisas mais ilícitas já antes descritas na literatura romântica.


No final da manhã daquele domingo, deitados lado a lado, Fay repousava languidamente a cabeça sobre os braços de Alex, encarando o teto. — Sabe.... Estou suada, com fome, dolorida... E a última coisa que lembro bem foi que viemos aqui para conversar. Devo ter me perdido em algum lugar entre você e a conversa — ela disse. Ele riu e começou a acariciar os longos cabelos dela enquanto continuava a falar: — O que aconteceu no coquetel? Você me disse ontem que íamos terminar o que começamos, mas eu só me lembro de chegar lá com aquele vestido apertado e... — ele a interrompeu em seguida. — Sem calcinhas. — Ok, já entendi que você ficou sabendo dessa parte. — Ainda me sinto chocado ao lembrar que não fiz nada sobre isso quando soube. É como se sentisse em mim uma sensação de perda, sabe? Vai ser difícil de esquecer. — Ele disse colocando a mão dramaticamente sobre seu coração. — Alex! — ela disse entre risos, — estou falando sério! — Eu também! Mas tudo bem, prossiga. — Kate me encontrou apagada na sala de estar quando chegou. Eu me lembro da sua palestra — ele a olhou com ceticismo — Sério. Conversei com algumas pessoas e depois... Não sei. — Hmm. Você costuma fazer isso com muita frequência? — O quê? — Fay desconversou. — Ficar de porre. — Não! — ela respondeu de pronto. — Aquele dia foi corrido, mal tive tempo de comer. Acho que foi por isso que fiquei naquele estado tão rápido. Além disso, tenho estado um pouco preocupada, cansada e não queria estar ali. Ela nem mesmo se reconhecia pelo simples fato de estar se justificando. Desde quando ela devia explicações a alguém? — Obrigado pela parte que me toca. Por que foi então? — ele questionou fingindo estar chateado. — Porque meu chefe me obrigou. — Fay olhou acusatoriamente para ele. — Eu!? Apenas convidei... — tentou dizer indignado. — “Espero que você esteja lá, blá blá blá” — ela tentou repetir o que ele tinha dito imitando-o o melhor que podia. — Fay, isso foi um convite, porra. — Ele disse entre risos. Ela era inacreditável. — Hei, desculpa se fiz soar como uma obrigação. Não era. — Tá bom. Talvez eu esteja exagerando também. Você nem é meu chefe de verdade. Dra. Bauer que o diga! — ela disse arrancando dele um riso. — Você está gostando de trabalhar com ela? — ele perguntou interessado. — Ah, ela é uma promotora muito mandona. Adora que eu pegue café para ela. “Fay, coraçãozinho, me traz um café?” — disse remendando a própria chefe. Alex soltou uma gostosa gargalhada diante da perfeita imitação de Fay. — E sobre o trabalho? O que se sente a respeito de fraudes? — Por quê? Foi você que me colocou lá?! –— ela perguntou curiosa.


— Não! Recebi suas informações do Administrativo e só repassei a você. Não está gostando? — ele quis saber. — Fraudes contra idosos? — ela perguntou fazendo-o rir — No início achei muito chato. Você investiga, faz relatórios, manda ofícios. Recebe ofícios, investiga, faz relatórios. Talvez casos como embriaguez no volante sejam mais interessantes, apesar de estar começando a gostar das pesquisas. — Ela continuou pensando em quando se reencontraram na Promotoria pela primeira vez e perguntou: — Por que você foi grosso comigo no escritório quando me viu? — Eu fui grosso? — ele perguntou olhando-a de lado. — Não. Você foi um ogro bem florido... — Fay respondeu irônica. Ele se virou, ficando de lado, para olhá-la melhor nos olhos. — Acho que num primeiro momento fiquei irritado contigo. Por ter me deixado naquela noite sem se despedir, por não aparecer depois. E então, quando vi você ali no meu escritório, esse sentimento só voltou. Talvez tenha sido um pouco duro, mas acho que estamos trabalhando bem desde então, não estamos? — Sim. Estamos sim. — Ela falou pensativa. — Você trata as pessoas de igual para igual, dá liberdade para os seus assistentes trabalharem... Você não precisa lembrar a ninguém quem é o chefe ali, mas eles expõem suas ideias nas reuniões e você realmente os escuta, sabe? Acho isso legal. Outra coisa boa é que você dá espaço para o trabalho da polícia, não fica em cima o tempo todo. — Hmm... Não sabia que você andava prestando tanta atenção em mim — Alex disse brincando, sem conseguir evitar se sentir orgulhoso ante o que considerava elogios. — Mas não adianta me bajular porque você não vai para minha Unidade — seu tom jocoso só fez com que ela o olhasse com uma sobrancelha arqueada. — É... Acho que não seria bom também. — Por quê? — ele quis saber. — Porque agora eu só ia conseguir imaginar as melhores posições para ter você sempre que entrasse naquele escritório — ela falou tentando não pensar que ela já fazia isso. — Você tem razão. Eu já faço isso todas as vezes que você vai lá. Agora então, não sei como vai ser. — Alex! — ela exclamou e sorrindo, percebeu que não estava sozinha nisso. Lembrando-se do dia anterior, indagou: — Como você foi parar naquela boate ontem? Boates não fazem seu estilo. — Estou impressionado em como você me conhece. Eeei! — ele reclamou depois de levar mais uma cotovelada. — Algumas assistentes comentaram com a Dra. Mendez que estariam lá ontem. Pensei que você poderia estar entre elas. — Aquela promotora morena, de verde, que estava se jogando em cima de você no coquetel? — Ela estava? — O que você acha? — Não notei, estava ocupado olhando para você. Naquele vestido. Sem calcinhas... — Ele disse sonhador. — Ei, pelo que me consta até aquele momento eu ainda não havia revelado este pequeno segredo... — O que não me impediu de imaginá-la sem calcinhas...— ele disse.


Fay bufou, rindo um pouco ao se espreguiçar. Enquanto ela se esticava na cama, Alex se levantou e caminhou até o banheiro, deixando a porta aberta. Ela o observou prender o cabelo num pequeno rabo de cavalo, enxaguando o rosto a seguir. Fay pegou seu celular na cabeceira, onde deixara durante a noite anterior, e respondeu as mensagens preocupadas de Kate e Arthur, dizendo que estava bem. Sem conseguir evitar, ela acabou retornando seu olhar para Alex, de costas para ela. Correndo os olhos por seu corpo nu, da cabeça aos pés, Fay parou para analisar mais detidamente as linhas tão bem traçadas de sua tatuagem, descendo o olhar para a musculatura logo abaixo da linha do Equador... — É melhor você se preparar, se continuar me olhando assim. Ela subiu o olhar e encontrou os olhos dele através do espelho, reparando que ele tinha acabado de escovar os dentes e a encarava ardentemente por seu reflexo. Quando Alex se virou para Fay, não havia dúvidas de que estava mais do que preparado para cumprir sua ameaça, pronto para uma batalha. Ele simplesmente inclinou a cabeça de um modo sexy, e com um leve sorriso fez uma proposta impossível de ser recusada. — Vem tomar um banho comigo. Sem precisar perguntar de novo, Fay se levantou obediente e foi. — Vou ajeitar algo para comer. Você arruma a mesa? As coisas estão naquele armário — ele disse para ela apontando o armário e indo para cozinha. De lá, ele falou: — Você quer um café da manhã tardio ou almoço? — O que for mais rápido, motoqueiro selvagem, estou morrendo de fome! —Motociclista, ruiva. Não motoqueiro — ele disse fingindo indignação. — O que seja. Dá na mesma. O que está embaixo das suas pernas? —perguntou zombeteira. — Neste exato momento? — ele respondeu com uma sobrancelha arqueada e um olhar safado nos olhos. Os dois riram e mais tarde, depois do almoço, encontraram-se embalados no sofá para simplesmente assistirem algo que passava na TV. Os pensamentos de Fay começaram a encher sua cabeça, fazendo-a sentir fagulhas de constrangimento. Como seria o dia seguinte? Atento a isso, ele perguntou: — O que está te incomodando? Ela suspirou audivelmente e respondeu com honestidade. — Não sei se misturar prazer com trabalho seja algo inteligente de se fazer. Quando essa paixão acabar é bem provável que eu fique prejudicada. Você já tem uma carreira. E eu? — Continuando a falar, disse: — Sempre me dediquei aos meus objetivos para simplesmente me tomarem como favorecida de alguém? Quero ser reconhecida por meus próprios méritos. — Fay, quem conhece o dia de amanhã? Pode ser que a paixão acabe mesmo. E daí? Cada um segue o seu caminho. Independente disso, se você trabalhar duro, terá seus méritos, esteja onde estiver. E por que não abrir espaço para ver o que surge a partir do que temos agora? — ele falou cauteloso, sem mencionar que ela, para ele, já representava muita coisa. — Vamos dar tempo ao tempo, certo?


— Hummm... Acho que posso fazer isso. — Certo. Agora levante essa bunda do sofá porque iremos dar uma volta na Harley. — Você vai me deixar guiar a moto?! — perguntou uma Fay mais tranquila e ansiosa por dirigir. — Claro que não, Williams. Vamos! Somente muito mais tarde, depois que eles percorreram alguns pontos da cidade sem rumo algum, foi que Alex a deixou em sua casa. Com um beijo leve em seus lábios, ele se despediu. — Se eu beijá-la da maneira que quero, garanto que amanhã estaremos nos jornais. — Ele disse. Fay riu e conseguiu soltar-se do aperto aconchegante de Alex. Ela subiu ao seu apartamento sentindo-se nas nuvens. Seu final de semana fora de desastroso a maravilhoso como que por encanto. Kate estava em um estado de nervos quando a encontrou. Aquilo cheirava a romance no ar. Decidiu que não atentaria sua amiga naquele instante, até mesmo porque sua avalanche de perguntas poderia resultar em perguntas vindas da contraparte e ela não estava preparada para responder sobre coisas que ela nem sabia o que era ainda.


Capítulo Quinze A manhã de segunda feira chegou com intensidade. Na verdade, Fay não dormira quase nada. A expectativa do dia seguinte era desgastante. Ela não sabia como deveria agir e não sabia como Alex agiria. E pior: ela não sabia se estava preparada para algo inesperado como ele fingir que não eram nada um para o outro. Ela estava sentindo-se uma “mulherzinha”. As políticas de relacionamentos dentro de escritórios do governo eram bem claras quanto à proibição de inter-relacionamentos entre seus funcionários, e um caso entre o promotor e sua assistente era o mais clichê dos clichês. Por mais que não fosse exatamente sua assistente, já que trabalhavam juntos só no caso que envolvia a Associação. O período da manhã tinha sido bem produtivo. Estava gostando de analisar toda aquela papelada. Preconceito bobo que tivera. Conforme seus relatórios investigativos iam ficando prontos, a Dra. Bauer ia se mostrando bastante impressionada com os resultados obtidos por Fay. Dizia que Fay via coisas onde ninguém mais via. Como se fossem insights, que ligavam algumas informações, aparentemente sem importância, a outras, dando uma nova vertente ao caso ou abrindo novas direções para pesquisa. — Senhorita Williams, você me deu uma ideia. Vou selecionar alguns casos que estão parados para você revisar — a promotora falou quando de repente o telefone de Fay tocou com uma música estridente. — Srta. Williams? Dr. Bergman solicita uma reunião urgente agora. Você pode vir? — perguntou Andrea, a secretária dele. Fay, ao ser liberada pela Dra. Bauer, confirmou sua presença desligando o telefone. A ligação a deixou apreensiva. Sem saber explicar o porquê, subiu às pressas para o andar da Unidade de Crimes Violentos. Ao chegar ao escritório de Alex, Fay encontrou o detetive Bromley sentado à esquerda do promotor. Tomando o assento ao lado, ela esperou. — Williams, chamei você aqui porque tivemos uma reviravolta no caso da Associação. E um fator que vai pesar ao se considerar as investigações sobre a venda ilegal de armas pela Forbangs. Antes que o promotor pudesse continuar, o detetive falou. — O irmão de Brandon foi encontrado morto hoje de manhã. — O quê? — Policiais encontraram o corpo do rapaz num beco, com marcas de contusões pelo corpo e um


tiro na cabeça. — Fay imediatamente se desligou do que o detetive continuava a dizer e se viu remetida à cena que a marcara e transformara sua vida quando jovem. “Ela viu quando o tiro disparou e sangue voou da cabeça do cara. O capanga deixou o corpo dele cair ao chão e o líder apenas observou seu trabalho.” — Você está bem? — chamou Alex, despertando Fay de seu pesadelo interior. — Sim, estou. — Ela respondeu um pouco catatônica. — Ótimo, — disse o detetive. — Nós temos testemunhas oculares do crime e outras que viram os irmãos Velásquez, membros da Forbangs, acossando Johnny, o irmão de Brandon, antes disso acontecer. A ordem de prisão já foi expedida e preciso me juntar à equipe para ajudar na busca. — Tudo bem, detetive. Vá e me mantenha atualizado. — Alex falou observando a maneira como o detetive olhava e sorria para Fay ao se despedir. Desde o início aquilo não estava lhe agradando. Não gostava daquele cara em cima dela e pensava que em breve, se continuasse assim, lhe chamaria a atenção. Quando ele e Fay ficaram sozinhos na sala, ele foi direto ao assunto que não lhe passou despercebido. — O que aconteceu, Fay? — ele perguntou notando sua palidez evidente. — Nada. — Não minta para mim, — disse Alex, zangado. — Por um momento, parece que perdemos você. Se você não quiser falar, tudo bem. Só não minta. — Certo, Alex. Não quero falar. Posso ir, agora? — Vá em frente. Fay voltou à sua estação em seu setor, porém acabou passando o dia pensativa. Ela fora absurdamente grossa com Alex na reunião. Depois daquilo ele não a procurara mais. Seu medo em como seria tratada por ele acabou sendo infundado porque ela é que o tratara de maneira diferente. Ela permitiu que as imagens de seu passado preenchessem sua mente e, honestamente, Fay não se sentia preparada para compartilhar aquilo a Alex. Quando chegou em casa mais tarde, pode perceber que Kate continuava agitada. Algo estava acontecendo e ela não conseguia disfarçar de maneira correta. Como Fay estava muito nervosa e irritada com o evento do dia, ela deixou passar. Kate era extremamente sensata para saber procurá-la no momento em que precisasse de sua ajuda. Ou ao menos assim Fay esperava. As duas pareciam estar com incompatibilidades de agenda. Abrindo a geladeira ela agarrou a garrafa de vinho e levou para seu quarto. Fay despiu-se bebendo goles longos e nem um pouco dignos de uma dama, diretamente do gargalo da garrafa. Fay desnudou-se no banheiro enquanto enchia a banheira. Decidiu que daria a si mesma alguns momentos de prazer borbulhante. Tanto das bolhas perfumadas de seus sais de banhos quanto das bolhas que sairiam daquele gargalho miraculoso. Provavelmente uma trilha sonora à La Nora Jones a colocasse nos trilhos. Para Fay, se quisesse voltar às suas origens e lembrar-se dos tempos em que pôde viver despretensiosamente, bastava que colocasse Nora em seu ipod e seu mundo tornava-se cor de rosa novamente. Ela conseguia visualizar as ruas de Nova York, as cafeterias que gostara de visitar com sua vó Li. As folhas do outono colorindo o Central Park, enquanto ela ficava deitada na grama, apenas


deleitando-se daquele espetáculo. A neve pegajosa nas calçadas da Times Square. A patinação no gelo com seu pai, antes de tudo desabar em sua cabeça e sua vida tomar um rumo assustador. “ — Filha...não quero que você se preocupe comigo. Vai ficar tudo bem. Estaremos afastados, mas sempre juntos em pensamento. Tentaremos manter contato da melhor forma possível. — Papai...eu não quero te perder!!! — ela disse ao seu pai chorando em prantos sentidos e longos. — Por favor...não há outro meio, Sr. Johnson? — Não, querida. Infelizmente não. Seu testemunho é vital para que fechemos esse caso, mas para que asseguremos sua segurança, você terá que adotar uma nova vida, uma nova identidade, assim como seu pai — ele disse pesaroso. — Eu sinto muito.” Agora entendia e aceitava melhor a separação forçada que passou a ter com seu pai. Será que este poderia ter sido seu fim, exatamente igual ao que acontecera com o irmão de Brandon, se não tivesse sido protegido pelo Estado? Tentando amenizar a forte enxaqueca que se pronunciava, Fay resolveu ligar para Lana, apenas para que ouvisse o som doce de sua voz. — Alô? — Lana perguntou do outro lado. Pelo tom de voz Fay deduziu que ela estava longe do telefone e havia dado uma corrida. — Hey, Blondie...— Fay disse usando o apelido que somente ela usava e que irritava Lana. — Só existe uma pessoa nesta terra de Deus que me chama deste jeito — ela disse fingindo-se zangada e logo em seguida riu. — Fay! Que saudade. Quando foi a última vez que nos falamos? Fay sentiu a vergonha inundar seu rosto, já que ela fora realmente relapsa nesta questão. A correria do dia a dia acabara deixando passar em branco o contato quase diário que elas tinham. Kate seguia os passos que queria seguir, Lana havia desviado seu caminho para outros ventos e Fay pegava carona na corrente que passava ao seu redor. — Acho que quando você estava arrumando suas malas...— Fay admitiu. — Nossa! Há tanto tempo assim? — Lana perguntou chocada. — Yeap. Parece que estivemos um pouco ocupadas, não é?! — Isso não é justificativa. — Ela ralhou do outro lado. — Estou com saudades suas e da Kate. O tom de voz de Lana era triste e resoluto. — Nós também, Blondie. Depois de mais ou menos uma hora de conversa, Fay finalmente sentiu-se mais leve e pôde dormir em paz.


Capítulo Dezesseis A semana passou e com ela a nuvem de tristeza que pairava sobre a cabeça de Fay, trazida por antigas memórias. A presença de Alex em sua vida tornou seus dias mais esperançosos. Ele mostravase muito eficaz em fazer com que as lembranças ficassem apagadas. Aparentemente aquele episódio no escritório dele fora esquecido. No dia seguinte, como se nada houvesse acontecido, os dois trabalharam normalmente e passaram juntos a noite de terça. Quarta, pela manhã, fizeram pela primeira vez a corrida que tanto gostavam. Descobriram mais algumas coisas em comum e Fay passou a perceber que se sentia à vontade com ele em outras situações e lugares que não só na cama. Estar ao lado dele de certo modo a deixava mais tranquila. Parecia natural estar ali. Ela sentia-se muito bem. E era exatamente aquilo que mais a preocupava. Naquele dia em particular, Fay chegou cedo ao prédio da promotoria e encontrou Benjamin Bromley a esperando com as mãos nos bolsos dianteiros de sua calça. — Ei, policial, o dia mal começou e você já está encerrando o expediente? — Fay brincou para chamar sua atenção. Ao percebê-la, Ben foi ao seu encontro no estacionamento do prédio. — Detetive, Fay. Eu sou um DE-TE-TI-VE. — Ele disse rindo e fazendo com que Fay risse mais ainda. — Vou para a DP. Agora que o trabalho da polícia sobre a morte de Johnny está quase concluído, preciso me dedicar mais às coisas que estão acontecendo por lá. Ele deu um suspiro cansado que não passou despercebido a Fay. — Alguma coisa aconteceu? — Nada demais. — Vamos, detetive. Abra seu coração e me conte o que perturba sua alma... — Fay disse arqueando suas sobrancelhas de maneira cômica. — Você é uma coisinha irritante, não é? — Benjamin disse enquanto lhe apertava a ponta do nariz arrebitado. E antes que ela pudesse dar vazão à expressão contrariada que surgiu em seu rosto, ele continuou — Algumas coisas no departamento de polícia parecem não se encaixar. Estando lá, poderei averiguar mais de perto a situação. Creio que não seja nada demais. Ainda atenta aos olhos cansados do detetive, Fay teve uma sensação de que muito mais estava por vir, fosse qual fosse o assunto que o mantinha preocupado. De repente, ela disse: — Apenas saiba que você pode contar comigo, se precisar.


— Na verdade, preciso mesmo — ele disse enigmático. — Dê um pé na bunda daquele promotor mandão que eu te mostro como me ajudar. Não passara batido aos olhos do detetive que Fay e Alex eram mais do que parceiros no trabalho. Ela esperava que apenas ele, com seu faro aguçado, houvesse percebido. Sem conseguir evitar, Fay sorriu abertamente e respondeu de pronto: — Só em outra vida, amigo. Para essa, fico com os loiros. — Ah, tudo bem, — Ben disse tentando soar indiferente e se afastando lentamente dela. — É muito peito e pouca bunda para o meu gosto. Fay abriu a boca em espanto, ficando momentaneamente sem reação, até que resolveu participar da brincadeira que ele propunha. —Seu bastardo! Deixe de ser um menininho e aceite minha rejeição como um homem, cara. — Ela disse enquanto continuava seguindo-o pelo estacionamento, fazendo pouco caso dele. Ele se virou para estar de frente para ela, enquanto andava de costas pelo estacionamento. — Que boca suja, srta. Williams! — tentando imitar o tom de voz reprovador do promotor. — Você está pedindo uma surra! — Fay disse percebendo que o infeliz estava rindo às suas custas. Tentando alcançá-lo, Fay arrancou um dos sapatos em sua mão, pronta a atacá-lo sem dó ou piedade. A cena era ridícula, mas Fay era apenas assim. Sem nada de convenções sociais guiando seus caminhos. — Você não me pega com essas perninhas magricelas, amor! — A corrida cessou abruptamente quando o detetive chocou suas costas num carro, do lado do passageiro. Encurralado e sem parar de rir, Ben quase se dobrou tentando conter seu acesso de risos. A cena era realmente hilária. Uma ruiva furiosa, parecendo uma valkíria alucinada com um salto na mão e o ameaçando de torturas vis. — Fay, estou brincando! Você é uma mulher incrível e maravilhosa! Fay fingiu que não ouviu o que ele dissera, tentando de qualquer maneira acertá-lo. Como seu salto voou longe de sua mão, ela tentou desferir golpes em sua barriga malhada. Sim. Ela percebeu que o abdômen do detetive era absurdamente travado. Ben a abraçou apertado tentando restringir seus movimentos frenéticos. Aquele pequeno entrevero durou apenas o suficiente para que ambos percebessem o papel que estavam desempenhando para uma parca plateia no estacionamento. Quando os dois começaram a rir e encontraram em si mesmos as forças para saírem do estranho abraço em que se encontravam, as portas do carro ao qual estavam encostados se destravaram. O motorista não se fez de rogado e bateu a porta quando saiu do veículo. — Que diabos está acontecendo aqui!? — a voz irada de Alex deixava claro que seu humor não estava bom. Como duas crianças pegas fazendo arte, eles mostraram-se um pouco culpados e apenas responderam que estavam conversando. — Conversando sobre o que? — o tom irritado crescia como um trovejar. Os dois responderam ao mesmo tempo: — Tempo — Fay respondeu zombando. — Caso Rice — Ben disse resoluto. Ambos se entreolharam, um tentando silenciar o outro com o olhar, enquanto Alex os observou atentamente por um momento, virando suas costas em seguida e saindo em silêncio.


Fay ficou estarrecida, porque se ela pudesse jurar sobre algo, seria com o fato que Alex estava enciumado. Um esgar de sorriso começou a se formar em sua boca, mas logo seu lado racional veio para estragar a festa. Alex não era o tipo de homem que apreciava qualquer estilo de joguinhos. Embora ela não tenha feito nada, além do que manter uma simples brincadeira entre dois amigos, Fay percebeu que Alex talvez tenha interpretado erroneamente o que viu. Respirando tranquilamente, Fay se despediu de Ben. — Okay... agora vou enfrentar a fera — ela disse zombando. — Você precisa de força policial ao seu lado para protegê-la? — ele perguntou. — Você me disse que não é policial, Ben. Você é um de-te-ti-ve. — Fay repetiu suas palavras anteriores fazendo com que Ben risse. — Então não...vou sozinha me entregar como mártir. — Ela disse fazendo um ar de dramaticidade. Dando um beijo amigável na bochecha de Ben, Fay caminhou em direção ao prédio e ao que estava por vir. Fay passou por Andrea, a secretária adorável de Alex e averiguou se ele estava disponível. — Ah, querida. Ele acabou de entrar em uma reunião para a audiência que acontecerá no final da tarde — ela disse conferindo a agenda de Alex. — Mas posso deixar o recado que você esteve aqui. É algo grave, relacionado ao caso que vocês estão cuidando? — ela perguntou e Fay notou o tom de curiosidade inocente. Voltando para sua sala, Fay entregou-se ao trabalho que a Dra. Bauer lhe havia incumbido. Como Alex sequer apareceu ao longo do dia, Fay trabalhou em um estado eterno de tensão. A tarde se prolongou e os minutos se arrastavam. Quando a hora de reunir suas coisas chegou, Fay apenas pegou sua bolsa e dirigiu-se a toda velocidade para o elevador. Ela esperava que uma saída à francesa fosse a melhor alternativa, ainda mais que Alex vinha pelo corredor com uma promotora do Estado da Califórnia, que passara ali para vê-lo. Ela, em seu corpo dourado do sol californiano, segurava o braço de Alex enquanto os dois sorriam espontaneamente. Sentindo os olhos marejarem pelo descaso óbvio com que Alex a tratara naquele dia, talvez por conta do ocorrido no estacionamento, Fay preferiu a saída mais razoável, exatamente para evitar demonstrar a intensidade de sua irritação e mágoa com ele. Ela não fizera absolutamente nada, mas com a atitude de Alex, ela acabara adotando para si mesma a marca de pecadora. Quando percebeu que acabaria dividindo o elevador, ela resolveu escapar pelas escadarias. Maravilhoso! 20 lances de escada! Uhuuu! Quando desceu o primeiro lance apressadamente ela percebeu que deu um mau jeito no tornozelo com seus saltos. Porque seu tornozelo sempre dava as caras nas horas mais impróprias? — Merda!!!! — xingou a si mesma pela burrice. Por que ela simplesmente não tivera a ideia de voltar à sua sala e fingir que algumas horas de trabalho a mais eram essenciais para sua vida? Ela arrancou os sapatos e os carregou em suas mãos já abarrotadas com sua bolsa e documentos. No quinto lance de escadas, Fay já suava loucamente e arrancou o blazer. — Pooooorra — ela amaldiçoou sua imbecilidade. — Dizem que o temperamento das ruivas é como um barril de pólvoras — uma voz disse logo


atrás dela. — Você realmente faz jus à fama. Ela virou-se com tanta pressa que acabou deixando voar alguns papéis e um pé de seu sapato. — Droga, Alex! Sua intenção era me matar de susto? — ela quase gritou. Alex apenas continuou descendo calmamente o lance de escadas até chegar à Fay. Suas mãos estavam em seus bolsos e sua pose era calma e plácida. Somente seus olhos verdes deixavam antever o questionamento em seu olhar. — O que foi aquilo que vi no estacionamento esta manhã? — ele foi direto ao ponto. — Não é o que você está pensan...— ela tentou dizer. — E o que seria, então? — ele a cortou, incisivo. — Alex, Ben e eu nos encontramos antes de entrar, estávamos tirando sarro um do outro, foi só isso. — Só isso? Naquela proximidade em que estavam? — ele retrucou irritado. Fay começou a sentir seu temperamento explosivo saindo à tona. Tentando controlar isso e manter-se calma ela tentou argumentar com Alex da maneira mais natural possível. — Nada demais, eu.... — Você o que? — Alex a interrompeu mais uma vez e o tom de raiva era perceptível em sua voz. Agora ela estava mais do que irritada porque ele sequer deixava que ela terminasse as frases. Mais uma vez com sua tentativa sendo ignorada, Fay apenas arregalou os olhos diante da fúria incontida de Alex. — Pensei que estávamos na mesma página e o que vejo? — seu tom irônico saía com crueldade. — Você toda sorridente com o detetive. O que ele fez, além do que eu vi? Vocês tem um caso? — o tom de Alex era cruel. — Vocês em um abraço íntimo é mais do que evidência, certo? Fay estava chocada e extremamente nervosa agora. Ele estava sendo injusto e ofensivo. — Pode parar com esse interrogatório! — estourou Fay — Não venha com essas merdas pra cima de mim, promotor! Se eu não estivesse com minhas mãos ocupadas, lhe acertaria a cara só pela acusação que teve a coragem de fazer... — Ela disse entre os dentes cerrados. — Oh... sério? O que eu poderia insinuar que meus olhos não tenham visto claramente? Desde que estamos juntos, pensei que fôssemos nós dois e mais ninguém. Mas acho que isso talvez não tenha ficado muito claro para você. Ficou? — Alex revidou com ironia. — Eu não lhe devo satisfações da minha vida. Se o que você pensa de mim é algo tão baixo ao ponto de achar que eu sairia da sua cama e iria para a dele, então você não vale o meu esforço! — ela disse quase cuspindo as palavras. Dando conta que seu tom de voz estava alto o suficiente para se ouvir na escada, sussurrou para ele: — Você não me conhece! Era isso. Ela sempre era julgada por seu temperamento descontraído e agora Alex a taxava como uma vagabunda qualquer. Antes que ela conseguisse voltar a descer as escadas, Alex a pegou pelos cotovelos e a virou bruscamente em seu peito, fazendo cair seus papéis e o outro sapato que restara. Sua boca desceu sobre a dela como uma forma de punição por todo o tormento que ela o fizera sentir ao longo daquele dia infernal de trabalho. Ver aquele detetive Dom Juan abraçado intimamente com ela, com os corpos colados como estavam, aquele mesmo corpo cujo qual ele esteve mergulhado horas antes, onde suas


mãos percorreram incansáveis até que ela atingisse o prazer, o deixara possesso. Fay lutou contra a posse da boca de Alex por apenas.... Dois segundos. Passado o choque, seus braços ganharam vida própria e se elevaram enlaçando o pescoço dele. Com apenas um impulso, Fay o enlaçou com suas pernas. — Não vamos começar isso aqui — ela disse freneticamente e perdida em seus beijos. — Se alguém nos pegar, sua carreira acaba e a minha mal começa. — Não. — Alex a beijava intensamente, intercalando as palavras, fazendo com a excitação de Fay subisse a níveis máximos. — Me. Importo. — Você perdeu a cabeça! — ela tentou argumentar, o sentindo levantar sua saia e passear a mão por sua calcinha. — Oh... — Fay... — Alex disse com aquela voz ao pé de seu ouvido, num murmúrio sedutor. — Apenas fique quieta e não lute contra isso — ele disse mordendo e beliscando sua orelha, fazendo pouco caso de seus alertas. Quem estava lutando? Estava claro pelo modo que ela remexia os quadris contra ele, que queriam a mesma coisa. Desesperadamente. — Alex! — disse num ofego ao senti-lo em seu corpo. — Não acredito que estamos fazendo isso aqui. — Fay arquejava, oscilando entre saber que aquele lugar era impróprio para o que estavam fazendo e o desejo avassalador que sentia em tê-lo dentro de si. Aquele frenesi continuou até alcançarem o que tanto almejavam. Sem uma palavra qualquer, ambos ajeitaram suas roupas. Quando Fay percebeu o que fizera, abaixou-se rapidamente para apanhar suas coisas largadas no chão, e sem olhar para trás, desceu os lances de escada apressadamente. A vergonha a alagara e ela nem mesmo sabia a razão. — Fay! — Alex tentou conter sua fuga. — Pare com isso. Vamos conversar. Ela não esboçou qualquer reação e continuou descendo as escadas, mesmo que continuasse ouvindo Alex chamando seu nome. Naquele exato instante ela estava sentindo-se muito à flor da pele. Não queria que Alex a visse assim. Quando Fay chegou em casa, ela simplesmente fez o que sempre fazia quando se sentia agitada. Mergulhou na banheira. A água estava escaldante, mas liberou as tensões que seus músculos sentiam desde o início da manhã. Ela repousou a cabeça no travesseiro do suporte da banheira e fechou seus olhos. A canção de um amor desiludido tocava em seu ipod e ela pôde sentir uma lágrima sorrateira querendo escapulir de seus olhos. Era o que faltava para ela agora! Ter que enfrentar aqueles arroubos de sentimentalismo despertados por Alex Bergman. Onde estava a Fay despojada, arruaceira e sem amarras que ela sempre fora? Fay se perguntava constantemente. Seu telefone emitiu uma mensagem e seu coração deu um pulo. Erguendo-se um pouco na banheira ela secou sua mão e alcançou o aparelho. Sentiu suas mãos tremerem. Está de pé nos vermos amanhã em Dorchester? Arthur.

Ela afastou a onda de decepção que encheu seu peito. Porque Alex ligaria para ela? Respondendo rapidamente ela digitou: Yeap. Dou aula de ballet para a classe de 9 anos e depois assistência jurídica às mães solteiras do bairro. Eu te vejo lá.


Ela estava deixando seu telefone no chão e sorriu ao ouvir outro som de mensagem. Arthur a conhecia como ninguém. Talvez não mais do que Kate ou Lana. Mas era um sentimento bem próximo. O que vc tem, ruiva? Quer que eu vá até aí? Ela pensou bastante em sua resposta. Não, Tuts. Amanhã te explico tudo. Prometo. Lov U.

Fay somente saiu de seu banho de imersão quando percebeu que a música parou completamente e que a água estava fria. E mais ainda. Quando percebeu que suas mãos e pés estavam enrugados como a pele de sua saudosa Vovó Li, a imagem a fez sorrir. Saiu da banheira e enrolou-se na toalha felpuda. Nem ao menos se deu ao trabalho de recolher seu lixo do banheiro. Do jeito que estava, caminhou até sua cama e deitou-se desabando como um tronco de árvore. Quando acordou no dia seguinte, ela se deparou com olheiras medonhas que só agora via no espelho. Boa noite mal dormida, pensou irônica. Ajeitou-se o melhor que pode para seguir para seu trabalho em Dorchester. Graças a Deus ela não teria que dar as caras na promotoria no dia de hoje. Ainda não estava preparada para fingir um dia de trabalho comum e corriqueiro. Vestiu suas roupas de malha que permitiam que desse sua aula de ballet e saiu para encontrar Kate pensativa na cozinha. — O que houve, lindeza? — Fay perguntou como se sua vida não estivesse de cabeça pra baixo também. — Não sei — foi a resposta de Kate. Ela continuou mexendo em seu café como se o tempo não fosse um fator importante. Fay, sempre muito perceptiva, sacou logo que algo perturbava a mente de sua amiga. — Kate? — Hã? — Desembucha. — Lembra-se do coquetel daquela noite? — Aquele onde dancei nua? — ela zombou e Kate riu. — Esse mesmo. Estou tão dividida. — Ela disse. — Com o que, querida? — Fay sentou-se com sua tigela de cereal. — Peter, um dos sêniors do escritório vem fazendo um movimento em mim. Fay a irritou por mais alguns instantes antes de jogar sua filosofia de vida. Hello, Oprah! — Kate, querida. Deixe-se viver. Há quanto tempo você não sai com alguém efetivamente? — Fay perguntou. — Não sei. Há tempos. Talvez desde o Mike. — Porra, garota.... Você já deve ser virgem de novo! — Fay disse rindo e ganhou um tapa no braço. — Mas sério, vá sair, balançar esse corpinho sexy tão bem conservado no Pilates, dê uns amassos e voilá! Deixe a coisa seguir seu rumo. — Fay.... Você não entendeu? Peter está me chamando para sair, não o Dr. Absoluto — ela disse. — Mande ele ir à merda. Homens são possessivos e territorialistas. O bundão vai perceber que deve mexer seus pauzinhos com mais eficácia na hora que ele sentir o cheiro da competitividade —


ela falou com sabedoria. Embora não se sentisse apta a dar conselhos a ninguém sobre esta área, quando ela estava também tão confusa. — Okay. Você é a escolada do assunto. — Isso aí, querida, aprenda com a titia aqui! As duas se despediram para seus respectivos compromissos e Fay resolveu que deixaria seu celular desligado. Embora ela tivesse certeza que Alex não ligaria para ela, já que este não fazia seu estilo. Ele não era um homem de perseguir uma mulher, de caçar e marcar território como tantos outros. Alex era um objeto a ser caçado. As mulheres que tivessem a graça de o conhecerem deveriam sequestrá-lo para mantê-lo só pra elas. Fay sacudiu a cabeça com a iniciativa de crime de cárcere privado invadindo sua mente. Ela estava rindo de si mesma quando se encontrou com Arthur no salão comunitário da Associação. — Ei, ruiva — ele disse e deu-lhe um abraço apertado. — Tuts... você é um cara cheiroso, eu já te disse isso? — ela disse e o abraçou de volta. Ela estava carente. Precisava de um abraço e sentir-se protegida contra seus próprios sentimentos. Lembrou-se que o motivo de sua angústia tinha exatamente a ver com abraços inofensivos. — Eu sei, flor. Sempre fui cheiroso. Sou um cara exótico e muito perfumado. Você não sabe que há espécimes que atraem suas fêmeas pelo odor? — ele zombou agitando as sobrancelhas. — Quer me adiantar o que preocupa essa cabecinha ruiva? — Agora não. Mas obrigada, docinho. Quem sabe depois da nossa agenda aqui a gente não consiga um bate papo regado a sentimentalismos dignos de novelas americanas — ela disse. — Uou. Isso está mais para novela brasileira, querida. Cheia de tramas densas e quentes, praticamente censuráveis para o horário das nove. Fay riu e os dois seguiram para seus rumos. Ela adentrou sua sala e sete pequenas criaturas de 9 a 10 anos a abraçaram e quase a derrubaram no chão. — Srta. Williams!!! — elas disseram em coro. — Hey, pipoquinhas... Cheguei e hoje vamos ralar horrores! — ela disse e as meninas gritaram em êxtase. O aquecimento das meninas evoluiu maravilhosamente e quando a música soou no salão minutos depois, e Fay começou a mostrar os passos de dança que ela gostaria que as meninas executassem, ela percebeu que na verdade as garotas estavam caladas e concentradas na porta do salão. Fay voltou-se para olhar e deparou-se com um par de olhos penetrantes que a olhavam sem pudor algum. — Meninas, executem os Grand pliés e pliés na barra, seguidos de jettés, por favor — ela instruiu e tentou acalmar seu coração andando calmamente na direção de Alex. Saiu do salão e fechou a porta atrás de si, acompanhando o progresso das garotas pelo vitral redondo. — O que você está fazendo aqui? — perguntou sem preâmbulos. Alex não gostou de ver o olhar ressabiado e o tom de voz frio de Fay. Ele sabia que em parte era responsável pela mudança brusca no tratamento dela. Ele a ofendera ontem. E hoje quando havia chegado à promotoria e não a vira, um sentimento de perda assustador batera em seu peito. Ele pensou que poderia tê-la perdido mais uma vez. E isso o motivara a ligar para ela sem sucesso. Alex gostava de dar espaço às suas conquistas, sem marcar ou pressionar por qualquer razão. Ele sempre fora um


cara mais despojado em seus sentimentos por suas escolhas e parceiras. Sempre fora verdadeiro. Nunca prometera aquilo que não pudesse dar. E nunca rastejara em hipótese alguma por mulher alguma. Ele gostava de um bom desafio, mas não cansava seus neurônios tentando entender uma mulher. Se ela não estivesse disposta, paciência. Sempre haveria outra. O problema era que Fay mexera com uma parte dele mesmo que nem ele entendia. Ele queria desenvolver um relacionamento com ela, não só pelo sexo, mas também porque ela era engraçada, o fazia rir, o deixava feliz com sua espontaneidade, ajudava a outras pessoas, sem pedir nada em troca. Ele queria estar ao lado dela, senti-la, viver com ela e ser o único a fazê-la suspirar. E queria que ela se sentisse da mesma maneira. — Fay — seu nome foi a única coisa que ele disse e seu tom pesaroso disse mais a Fay do que ela gostaria de admitir.


Capítulo Dezessete Fay recostou-se à porta do estúdio e ergueu sua sobrancelha bem arqueada. Ela estava esperando saber qual motivo levara o poderoso promotor a um recinto tão pouco habitué de seus lugares frequentados. — Alex — ela repetiu o estilo monossilábico de Alex. Alex passou as mãos pelos cabelos dourados e suspirou audivelmente. — Podemos conversar em particular? — Ele questionou com gentileza. Fay até estranhou. Normalmente Alex era autoritário e enfático em suas afirmativas. — Eu não posso me ausentar daqui. Minhas alunas poderiam tocar fogo no lugar. — Ela disse zombeteira. O tom formal o deixou mais irritado do que o normal e foi difícil para ele disfarçar. — Olha, Fay. Eu me excedi, okay? — Ele olhou ao redor tentando descobrir se tinham alguma plateia indesejada. — Peço desculpas pela insinuação que fiz ontem, pela pressão. Confesso que não gostei da intimidade compartilhada com o detetive Bromley. Pelo sexo, não me desculpo, até porque foi consensual — ele sorriu e diante da cara fechada de Fay, continuou, se justificando. — Eu não quis resolver as coisas com isso, foi só algo que aconteceu. Sinto muito por aquela cena descabida de ciúmes. Fay olhou estupefata para ele. Um pedido de desculpas talvez fosse a última coisa que ela esperasse de Alex, tão prontamente. Uma explicação clara e objetiva de seus motivos foi surpreendente. Mas... — Alex, eu cheguei a dar qualquer indício de que eu sou propriedade exclusiva sua? — Ela perguntou. O sangue de Alex estava fervendo em fogo brando até aquele momento. Porém a pergunta rebelde de Fay atiçou as labaredas e extrapolou o ponto de fervura. — Eu. Não. Compartilho. — Alex disse entre os dentes, com raiva. Ao mesmo tempo, seu corpo foi se aproximando do de Fay, que tentava recostar-se mais firmemente à parede. — Alex, sempre tive muitos amigos homens e não vou começar a me policiar avaliando minhas próprias ações por conta das suas vontades. Quem diria que você fosse um homem assim tão possessivo? — Fay não sabia se ficava irritada ou lisonjeada com aquela explícita demonstração de territorialismo. Ela puxou a gravata de Alex e aproximou sua boca à dele. — Cheguei a ficar altamente super aquecida com toda essa sua cena machista.... Porém, não sou um objeto a ser possuído, ou ser


disputado numa briga de garotos, entendeu? Apenas confie em mim — ela disse e lambeu os lábios. — É mais fácil confiar quando as pessoas se colocam disponíveis. Você é tão fechada, às vezes. Não brinque com fogo, ruiva. Você pode acabar saindo mais chamuscada do que gostaria... — ele disse e agarrando sua nuca, a puxou para o beijo em standy by com o qual ela o estava atormentando. Quando ouviu a gritaria por trás da porta do estúdio, Fay voltou à realidade. Mais uma vez Alex a tirava fora de seu chão e a deixava acesa e ansiosa apenas pelo mais breve de seus toques. E novamente em um local totalmente impróprio. — Okay. Traga gasolina da próxima vez, você vai perceber que eu sou forjada no fogo, Viking. — Ela disse e tentou se soltar do agarre de um Alex risonho ao som do novo apelido. — Nossa conversa não acaba aqui — ele disse categórico e carinhoso, ao mesmo tempo. — Não, — ela disse e ajeitou a gravata que quase soltou o nó quando ela o puxou para si. — Mas nós dois sabemos exatamente como termina, não é mesmo?! Fay disse e riu, passando por baixo dos braços de Alex. Antes de entrar no estúdio ela ainda lhe dedicou um sorriso zombeteiro e simultaneamente sedutor e piscou um olho para ele. Alex saiu do prédio da Associação rindo consigo mesmo. Ele achava inacreditável estar caído por uma mulher tão atrevida e abusada como Fay. Embora Alex tivesse um lado selvagem dentro de si, normalmente optava por sair com mulheres que tivessem o perfil bem distinto daquilo, geralmente suaves, dóceis. O frescor da espontaneidade de Fay o lembrava exatamente do porquê ele curtia tanto suas viagens em sua moto, pelas estradas espalhadas pelo Estado, sentindo o calor do sol, ou a brisa fresca do vento em seu rosto. Ou mesmo o vento cortante do inverno, quando as estradas pediam que sua moto ficasse hibernando na garagem. Alex amava tudo o que fosse latente. E Fay era isso e um pouco mais. A percepção do pensamento que ele acabara de ter fez com que Alex estacasse bruscamente na calçada antes de chegar ao seu carro. Puta merda! Ele estava se apaixonando por Fay Williams?


Capítulo Dezoito Fay saiu da Associação muito mais tarde naquele dia sentindo-se mais leve do que o usual. A visita repentina de Alex naquela manhã a deixara tão enlevada quanto uma adolescente em seu primeiro beijo. Quando chegou ao seu carro, Fay percebeu que havia esquecido o celular conectado ao carregador, no estúdio, antes de prosseguir e dar o atendimento às mulheres da comunidade. Pensando dois segundos se deveria voltar ou não para buscar, Fay deu meia volta e voltou ao prédio. Quando ela estava quase abrindo a porta do estúdio, uma mão calosa tampou sua boca e Fay viu-se empurrada contra a parede. Sua cabeça ficou zonza imediatamente, já que o cara praticamente estampou seu rosto ali. Sentindo um pânico horrível alastrar-se pelo seu corpo, ela tentou lutar contra o agressor da melhor maneira que pôde. Fay distribuiu cotoveladas, fazendo com que sua bolsa caísse ao chão e esparramasse todos os seus pertences. Com um pisão forte no pé do cara que a segurava bruscamente, conseguiu se desvencilhar e dar-lhe um soco, que foi muito bem revidado. Sua face ardia e ela podia jurar que vira estrelas pontilhadas diante de seus olhos. Fay percebeu que um líquido viscoso escorria pela sua sobrancelha e descia pelo seu olho direito. Ótimo. Ela estava sangrando. Como se sangue alheio já não a fizesse passar mal, o próprio sangue dela a fazia ver estrelas cadentes. Ou melhor, ela não via nada, já que normalmente estava desmaiada. O atacante a dominou novamente, quando náuseas e uma tontura súbita a invadiram. — Fique quieta, puta! Ou vou ser obrigado a te machucar! — O homem disse num sotaque carregado. Mesmo com uma mão pressionando sua boca, Fay tentou gritar, ou morder os dedos nojentos do assaltante. — Quero saber onde está o infeliz que vocês estão protegendo! — Ele gritou em seu ouvido. — E quero saber agora. Temos contas a acertar e não será você nem essa associaçãozinha de merda que vai nos impedir de dar o trato que aquele moleque merece, você entendeu? O que fizemos ao irmão dele foi só um aviso. Fay mexeu com a cabeça afirmando que havia entendido o recado. Seus olhos estavam marejados com lágrimas que teimavam em querer saltar à vida. Ela odiava ter medo. Odiava ter a sensação de ser refém, de ser vítima, de ser um alvo. Isso trazia lembranças indesejáveis em sua mente.


— Você é bem gostosa, sabia disso, Chica? — Ele disse e lambeu o pescoço de Fay, fazendo com que ela tivesse ânsias de vômito. Ser o alvo de um possível estupro era apenas o que faltava. — Eu poderia me divertir um pouco com você, chica, mas no momento só o que preciso saber é onde está aquele maldito moleque! Reunindo forças que nem sabia que tinha, Fay conseguiu acertar com seu joelho, um golpe certeiro nas partes baixas do bandido, fazendo com que ele retrocedesse o suficiente para ela ganhar espaço. Seu golpe fora tão forte que derrubara o infeliz no chão. Fay agitou a cabeça novamente e sentiu um alívio imediato ao ter sua boca livre e poder respirar novamente. Não perdeu tempo e chutou em seu tórax quando ele tentava se levantar. Ela estava sentindo-se destemida, talvez por conta da adrenalina que agora percorria seu corpo. Quando por fim o cara conseguiu se levantar do chão, Fay percebeu que seus atos apenas despertaram algo pior do que imaginava. Sempre disseram para que as pessoas nunca reagissem a um assalto...Fay dera ouvidos a isso? Claro que não. Ela não sabia que ele tinha uma faca até vê-la brilhando na mão do bandido. Com um olhar feroz, o homem partiu pra cima dela com essa arma em punho. Antes que pudesse se desviar rapidamente, Fay sentiu a lâmina cortando a pele de seu braço. O segurança do prédio, Sr. Tabott, entrou pela porta principal averiguando o espaço e seus olhos ganharam quase que a dimensão de pratos quando ele os viu. Imediatamente sacou a arma e atirou para o alto. O bandido preparava-se para liberar mais um golpe em Fay, e o medo que ela sentia era genuíno. Se o Sr. Tabott não tivesse intervido, Fay mal sabia como conseguiria escapar daquela faca. Quando ela deu por si, percebeu que o agressor saía em disparada pela porta da frente. Recostando-se à parede, escorregou seu corpo lentamente até chegar ao chão. Ela precisava resgatar o fôlego e pensar com clareza. Fay sentiu a dor latente do machucado em seu rosto. O soco que levou a deixaria com um olho roxo, talvez, mas o que escorria do corte acima era o que a estava perturbando. Colocou as mãos para sentir a dimensão do corte, mas ao olhar, percebeu seus dedos embebidos em sangue. Antes de ter sequer a chance de desmaiar, fechou os olhos, respirou profundamente e limpou o sangue em sua roupa. — Srta. Williams! — O Sr. Tabott gritou desesperado chegando a seu auxílio. — O que aconteceu? Fay perdeu a resposta óbvia e sarcástica que passou por sua mente. O pobre Sr. Tabott não tinha nada a ver com o que aconteceu e não merecia sua ira. Embora, se ele estivesse em seu posto de trabalho, talvez o bastardo mequetrefe que a abordou não tivesse entrado no prédio. Ou talvez se ela não tivesse voltado para apanhar seu celular, a esta altura deveria estar em algum sinaleiro rumo à segurança do seu lar. — Sr. Tabott, poderia pegar meu celular ali dentro do estúdio, por favor? — Ela pediu com a voz ainda trêmula e as mãos geladas. — Claro. Espere. Segure aqui esse lenço no corte — ele estava preocupado com o tom extremamente pálido que a Srta. Williams apresentava. Ela já tem a pele tão clara...porém agora parece mais translúcida. Pensou o segurança. — Por favor, não me diga que está sangrando e que esta merda é vermelha. Eu vou desmaiar só em pensar nisso. — Fay disse ainda tentando fazer piada de sua desgraça. — Não, Srta. É apenas... suor e amarelo — ele disse rapidamente e entrou no estúdio para


apanhar seu celular. Quando ele voltava, Fay percebeu que ele já havia feito uma ligação para a central de polícia. Maravilhoso. Era tudo o que ela queria. Horas e horas de testemunho e blá blá blá. — Obrigada — Fay disse e ligou para Arthur. Ela poderia ter ligado imediatamente para Kate, mas Fay sabia que a amiga estava trabalhando loucamente num caso complicado no escritório onde ela estava e o cansaço estava estampado em seu rosto. — Ruiva — Arthur disse de pronto. — Tuts, onde você está? — Ela perguntou e fechou os olhos recostando a cabeça na parede. — Passei no mercado, gata. Por quê? — Ah, digamos que fui abordada de maneira rude e nem um pouco delicada por um meliante.... — ela tentou brincar. Na verdade, Fay estava com uma vontade louca de chorar como uma criança, sentindo-se ainda às bordas de um desmaio. — Fay, deixe de brincadeira. O que aconteceu? — Arthur perguntou, agora nervoso. Fay relatou o ocorrido de maneira acelerada. Não seria estranho se Arthur não tivesse entendido absolutamente nada e resolveu poupar seus créditos do celular preferindo averiguar a história ao vivo. Ela ligou para o celular de Kate, mas deu em sua caixa de mensagens. Embora ela não quisesse deixar a amiga alarmada sobre o ocorrido, ela sabia que deveria ao menos avisar que chegaria mais tarde. Naquele momento um pandemônio se instalou. A porta da frente foi aberta repentinamente e um detetive Bromley muito afobado entrou com mais uma leva de policiais. Ele correu em direção de Fay no instante em que seus olhos se encontraram. — Fay! Por Deus, ouvi pela radiopatrulha quando a ocorrência foi registrada! Fui informado agora que um suspeito foi preso nas imediações do bairro — ele disse e apalpou seu rosto em busca de mais machucados. — Vamos querida, o que aconteceu? Enquanto Fay relatava todo o ocorrido a um detetive extremamente puto, Arthur chegou correndo e trouxe junto consigo uma leva de paramédicos. — Meu Deus, pessoal! Pra que tudo isso? Que exagero! — Ela disse exasperada. — É apenas uma coisa de nada que não é sangue e nem é vermelho, não é mesmo, Sr. Tabott? — Ela esperou o apoio do segurança. Era o mínimo que ele poderia fazer por ela. — Claro. É apenas um suor amarelo que não para de escorrer. Muito estranho — ele disse e Fay sorriu, meio tonta. O paramédico agachou ao seu lado com uma lanterninha, enquanto sua parceira abria um kit de primeiros socorros e agilizava alguns procedimentos. — Acho que não vai precisar de pontos nos cortes, querida. Mas fique quietinha aí, porque teremos que levá-la ao hospital para um R-X na cabeça. — Pra quê? Calma, não me responda. Isso foi totalmente retórico. Eu sei para o que serve um RX. Quero apenas saber o porquê da necessidade dele na minha cabeça. Eu nem mesmo bati a cabeça com tanta força assim. — Não, claro que não, — o paramédico disse com um sorriso compreensivo. — O bandido que te abordou foi que bateu sua cabeça na parede. — Certo. Ele estava um pouco exaltado e perdeu a noção da força, daí abriu este... pequeno local de onde escorre algo, — ela disse. — Ah, meu Deus...acho que ele pode ter usado um objeto


perfuro cortante em meu braço! — ela disse em um jargão criminalista, exatamente para evitar a palavra faca e virou o rosto para o outro lado enquanto o paramédico averiguava. Somente agora ela dera conta de que havia outro corte, com mais algum fluido seu se esvaindo por ali. Arthur olhou para o detetive Bromley e percebeu que ele achava que Fay estava desregulada das ideias. Mais do que o normal. — Ela tem pavor a sangue. Não pode sequer ouvir o nome ou ver a cor vibrante — ele sussurrou para que Fay não escutasse. O detetive Bromley fez cara de paisagem, compreendendo a técnica de abordagem que deveria usar. — Fay, esse suor estranho precisa ser bem limpo e os médicos precisam ver o local de onde... ele escorre da sua cabeça... e do seu braço, e fechá-lo, sem riscos. — Tá. Tudo bem. Agora vamos ao que interessa... — Ela começou a dizer. — Aaaai! Que porra é essa que doeu? — Ela gritou com a paramédica. Fay nem sequer se importou de mostrar seu lado mais-boca-suja-que-um-marinheiro. Ela daria orgulho ao seu pai se ele soubesse. E provavelmente o cofrinho de Kate ficaria lotado. O acordo prevalecia em um dólar para cada palavrão descontrolado que ela falasse. — Um antisséptico. Fique quieta, preciso esterilizar para colocar o curativo. — Então, onde eu estava antes desta torturadora dos infernos besuntar minha testa com este ácido? — Ela perguntou aérea. — Ah, sim. Tomou nota de que o cara queria a localização da testemunha, Ben? — Fay gemeu quando a paramédica, junto com o parceiro, rasgavam a manga de sua blusa para ter acesso ao corte em seu braço. — Sim, Fay. E pela sua descrição, o suspeito preso ainda há pouco é esse cara que te agrediu. E pelo visto, foi um dos foragidos que mataram Johnny. Teremos que colocar um policiamento mais ostensivo aqui até tudo terminar, inclusive um policial com você. — O que? Um guarda-costas? Uma babá? — Ela exclamou indignada. — Nem pensar! — Ela disse mais revoltada ainda. Só faltava mais essa. Sua vida finalmente organizada sendo devastada pelo sentimento complexo de insegurança e falta de privacidade. De novo não. — Fay, seja sensata... — Bromley tentou argumentar. — Não. — Certo. Acho que ela não vai ceder nesse quesito, detetive, — Arthur disse. — Acho que poderíamos então tentar que você ficasse afastada da Associação enquanto duram as investigações, que tal? Fay pensou sobre o assunto e mesmo não concordando plenamente, ela ficou calada e resolveu deixar o assunto para depois. Sua cabeça estava começando a doer e o efeito do analgésico que lhe fora aplicado estava demorando a atuar. Ela brigaria pelo seu direito de continuar indo e vindo em outra hora. — Tuts, me leva pra casa — ela pediu cansada. — Eu posso levá-la, Fay — o detetive Bromley tentou se adiantar. — Ah, na verdade, detetive, eu acho que você poderia ajudar bastante a nossa amiga, tentando minimizar a burocracia com a qual ela vai ter que lidar. Eu a levo ao hospital e depois a deixo em casa. — Arthur falou categoricamente, sem dar margens a argumentações.


Saindo do tumulto onde se encontravam, Fay e Arthur foram ao hospital e ela foi submetida a um R-X que comprovou que não havia danos ou sequer uma concussão. Sua cabeça era dura. Ela sempre soube disso. Quando chegou ao apartamento, os dois entraram em silêncio, já que provavelmente Kate estivesse dormindo, e Arthur a levou para o seu quarto. Chegando lá ele a ajudou a livrar-se das roupas pesadas e a deitou delicadamente na cama. Fay estava aborrecida porque não conseguiria sequer tomar um banho, mas seu cérebro já estava enevoado o suficiente para que ela corresse o risco de bater o outro lado da cabeça desmaiando no banheiro. — Obrigada, Tuts — ela disse grogue. — Eu te amo. — Eu também, ruiva. — Ele disse e a cobriu com o edredom antes de depositar um suave beijo em sua testa. Arthur resolveu fazer vigília ao lado de Fay durante as primeiras horas, garantindo que a cada duas horas ele a acordasse levemente para obter respostas, como o médico do P.S sugerira, apenas por precaução. Ele olhou para a pele de alabastro de sua amiga tão querida e detestou ver que aquela perfeição fora insultada com uma ferida que mostraria toda a sua coloração em breve. O olho já começava a mostrar sinais da contusão. O corte em seu braço fora superficial o suficiente para não deixar uma cicatriz gritante quando sarasse. Depois do quinto round de averiguações de sua suposta paciente resmungona, já que todas as vezes que ele a acordou ela o xingou prontamente, Arthur deixou o apartamento em silêncio, sentindose mais tranquilo ao ver que nada de mais grave acontecera com a mulher mais doce que ele já conhecera, ainda que nem ela mesma se enxergasse dessa forma.


Capítulo Dezenove Fay acordou de uma noite agitada e turbulenta, povoada de sonhos loucos e psicodélicos. Logo em seguida ela se lembrou do ocorrido na noite anterior e gemeu em sua cama. Fay lembrou-se também de que muito provavelmente ela xingara Arthur mais do que deveria. Criando uma coragem que ela sequer sabia de onde viera, Fay se levantou, tomou um banho e olhou seu curativo no espelho do banheiro. O curativo do braço estava bem feitinho, ela não quis desmanchar. O do rosto fez questão de olhar. Como ela conseguiria disfarçar aquela belezura, era algo a se pensar. Tomando coragem, ela arrancou a atadura e fechou os olhos. Abrindo apenas uma brecha de um olho, Fay observou seu aspecto no espelho. O corte nem era assim tão agressivo e a coloração em volta nem estava assim tão assustadora. Ela ficaria com vários matizes de roxo dentro de horas, mas seu cabelo poderia cobrir a maior parte do prejuízo. Saindo do quarto ela percebeu que Kate já saíra e suspirou aliviada. Assim poderia poupar seus ouvidos da bronca que a amiga lhe daria, afirmando que a Associação de Dorchester era um perigo, que Fay estava correndo riscos desnecessários, que ela se envolvia muito com seus clientes e toda a ladainha que ela sempre ouvia. Fay correu para a cozinha em busca de um tão desejado copo de café com leite. Seu lado infantil queria um belo chocolate quente, numa caneca charmosa e um cafuné, para afastar todo o medo e deixá-la saber que não existe bicho papão. Seu lado mais maduro queria algo que se aproximasse da sensação de calor de um líquido gostoso descendo pela garganta. E como queria Alex ao seu lado! Sequestrando um cookie dentro da vasilha secreta de Kate, Fay voltou para seu quarto, criando coragem para se arrumar para mais um dia de trabalho. Ajeitando o estrago com uma boa dose de maquiagem poderosa, “obrigada Macy’s”, Fay arrumou o cabelo de maneira que cobrisse totalmente a lateral de seu rosto e sua belíssima têmpora. Uma boina francesa charmosa e elegante faria as vezes de cobertura ideal para o local. Vestindo-se rapidamente, Fay pegou sua bolsa e seu malfadado celular e percebeu que tinha mais de 12 ligações. Três de Arthur, algumas de Alex e o restante do detetive Bromley. Tuts se contentou com uma leva de mensagens ao perceber que ela não atendia as ligações. O detetive mostrou que resolve seus casos pela insistência. Quanto à Alex... Simplesmente não queria se mostrar vulnerável. Ainda mais diante daquela súbita necessidade de tê-lo por perto. Nunca foi dependente de ninguém, não seria agora. Suspirando, ela deixou o conforto de seu apartamento e quando dirigia-se à garagem, pensou:


Pooooorra, o carro ficou na Associação. Somente agora ela lembrava-se que Arthur a levou para casa depois dos exames no hospital. Fay sentiu um momentâneo instante de revolta juvenil e bateu o pé no asfalto. Resignando-se ao fato, ela pediu ao porteiro do prédio que chamasse um táxi e aguardou, checando seu reflexo nos vidros espelhados do edifício. Seu celular tocou naquele instante. — Hey, Kate — ela disse tentando parecer casual. — Fay, por onde você tem andado, hein? Poxa, eu chego em casa, você não está, eu saio, você está desmaiada no seu quarto. — Kate disse fazendo-se de resmungona. — Sério, garota. O que tem te deixado tão ocupada? Ah, aquele professor de boxe que você deu uns amassos um tempo atrás estava te procurando ontem. Oh, uau. Exatamente o professor de boxe que a ensinou alguns golpes defensivos. Fay sentiu-se de repente grata pelos momentos passados com ele. — Eu estava um pouco enrolada em uns... Eventos na Associação e agora estou me dirigindo à promotoria... — ela disse. — Prometo parar em casa para que a gente se delicie com um belo pote de sorvetes. Que tal? O fim de semana poderia ser uma coisa só de garotas. — Maravilhoso. Fico esperando. Talvez eu demore um pouco hoje. Tenho que terminar um processo. — Ela disse e Fay notou seu tom cansado. — Kate, você não acha que está se desgastando demais não, hein? — Fay ralhou com a amiga. — Você precisa descansar mais, se estressar menos. — Sim, mamãe. — Kate zombou. Encerrando a ligação, Fay correu para o táxi que a esperava em frente à sua rua gelada.


Capítulo Vinte Entrar sorrateiramente no prédio da promotoria, passar pela segurança sem levantar suspeitas, já que ela estava mantendo o rosto sempre baixo e os cabelos quase cobrindo o rosto, com uma boina enviesada e com objetivo explícito em camuflar, estava sendo uma aventura. Fay tinha consciência de que despertava os olhares curiosos de algumas pessoas que transitavam no hall do prédio. Quando venceu a etapa do elevador sem deparar-se com qualquer pergunta indiscreta, ela suspirou aliviada e chegou à sua sala compacta e aconchegante, cheia de processos simplesmente maravilhosos para serem explorados. Seu sarcasmo estava em nível 5 da escala Richter. Apenas alguns minutos se passaram quando a porta de sua sala foi aberta intempestivamente. Oh, oh. Fay podia sentir que uma tempestade estava se formando pelo belo tom esverdeado nos olhos de Alex Bergman. Era engraçado como seus olhos mudavam as tonalidades diante da gama de sentimentos que ele demonstrasse. Tentando dar um sorriso inocente, Fay apenas ergueu a sobrancelha aguardando o que viria a seguir. Infelizmente Fay escolheu a sobrancelha errada, o que fez com que ela sentisse uma pontada em seu corte. A expressão no rosto de Alex era no mínimo, intrigante. Fay viu que o detetive Bromley seguia logo atrás dele e naquele instante revirou os olhos de maneira infantil, mas bem eloquente. Aquele gesto mostraria àquele fofoqueiro de marca maior o que ela achava de delatores de fofocas alheias. — No meu escritório. Agora. — Alex disse e a esperou levantar-se. Alguém estava realmente aborrecido. Fay levantou-se com toda a classe que poderia apresentar e seguiu um promotor chefe furioso com algo que ela suspeitava que pudesse ter a ver com o episódio da noite anterior. Benjamin olhou para trás e tentou esperá-la para seguir ao seu lado, mas o olhar categórico de Alex o fez desistir do intento. Ele poderia dizer claramente quando um homem era extremamente possessivo com algo, e Benjamin via esta atitude escrita no rosto do famoso promotor. Quando os três se acomodaram no escritório amplo e arejado de Alex, Fay sentou-se tentando fazer uma manobra de meditação para acalmar seus nervos. Na verdade, ela estava sentindo um certo pavor do Promotor chefe do Estado resolver tirá-la do caso por conta do ocorrido. Ela bem sabia que somente o envolvimento deles dois já era mais do que um detalhe que poderia gerar sua saída do caso. Ou até mesmo da promotoria.


— Detetive Bromley, eu agradeço imensamente a sua presença e os seus relatos, mas eu gostaria de ter uma conversa em particular com a minha assistente. — Alex disse com um olhar gélido em direção a Benjamin. Naquele instante, Fay levantou-se para tentar distrair ambos os machos que pareciam estar em pé de guerra, e dirigiu-se à cafeteira que Alex mantinha numa bancada próxima. Serviu-se de café, sempre acompanhando as farpas trocadas entre os dois. Resignando-se a apenas assistir àquela nítida demonstração de machismo, Fay sentou-se novamente e bebericou seu café, enquanto acompanhava o embate. — Eu acredito que deveríamos discutir o assunto juntos, Sr. Promotor, principalmente no quesito segurança da sua assistente. — Ela olhou com rancor ao detetive que muito provavelmente tirava conclusões precipitadas sobre o clima tenso na sala. Embora este fator apenas exaltasse a eficiência do detetive em investigar casos. Neste caso, o dela e o de Alex. E isso era péssimo. — Detetive Bromley, eu não estou abrindo exceções e nem mesmo portas de possibilidades em palpites sobre como conduzir a política do meu escritório. — Alex disse bruscamente. Seus olhos irradiavam ódio. — Você quer uma reunião? Marque um horário com minha secretária. Agora, neste instante, eu gostaria de falar a sós com Williams. O tom de voz e a firmeza da alegação não deixavam margens de dúvidas sobre quem estava mandando ali. O detetive Bromley dirigiu-se à saída, não sem antes colocar a mão no ombro de Fay, numa tentativa frustrada de conforto. Certo. Ela provavelmente teria mais um round com o adorável promotor. O silêncio na sala, logo após a saída de Benjamin foi longo e eloquente. Fay podia sentir as ondas de raiva saltando das veias estufadas no pescoço de Alex. Ela bebia seu café sem nem ao menos sentir o gosto do mesmo. — Quando algo ocorre com algum funcionário meu, relacionado a algum caso que esteja ligado ao escritório desta Unidade, especialmente se for um caso grande como o que está em questão, eu gostaria muito de ser avisado prontamente. Não depois do fato e pela boca de terceiros. — Alex disse e um longo silêncio se seguiu. Fay se sentia culpada. Mas não conseguiu evitar que seu temperamento rugisse. — Quando um fato ocorre, na noite anterior a um dia de trabalho, onde o relato do ocorrido poderia ser devidamente esclarecido num horário mais apropriado, eu acredito que minha ânsia em alardear o feito poderia ser facilmente controlada. Especialmente se eu estivesse sob efeito de medicamentos. — Fay respondeu provocando e saudando internamente seu temperamento. Alex estava injuriado. — Fay, suas gracinhas não são bem vindas — ele disse e apertou com seus dedos a ponte de seu nariz, buscando dentro de si mesmo uma calma interior que não existia. Tirando essa questão profissional, saber que Fay sofrera um ataque na noite anterior pelo detetive irritante, o deixara inicialmente assustado. Depois se sentiu frustrado em saber que Fay não ligara para ele em primeiro lugar. Até ligara para ela ontem, sentindo sua falta. Agora sabia porque ela não havia atendido à ligação. Era um sentimento estranho para ele. Seu homem das cavernas interior gritava que ele deveria ter oferecido proteção à sua mulher. Parecia que ela não tinha a relação deles em conta. Isso o deixou decepcionado e irritado ao mesmo tempo.


— Alex, eu não estou sendo engraçadinha. Eu só acho que você está fazendo tempestade num copo d’água. — Ela disse tentando aliviar o clima tenso. Alex se moveu tão rápido que Fay nem sequer percebeu sua chegada iminente. Ele a levantou de uma vez da cadeira onde ela estava confortavelmente sentada e a puxou para si, derramando o café que estava em sua mão, diretamente em sua camisa, sem querer. — Droga! — Alex praguejou, indo fechar a porta com a chave e descendo as persianas que afastavam a vista dos curiosos do lado de fora. Embora os vidros escuros da janela interna de seu escritório fossem mais do que abafadores e invisíveis a olhos nus. Ele tirou a camisa, agora manchada com o líquido quente, o que a fez rir. — Continuo não achando graça. — Ele disse rangendo os dentes e indo ao banheiro enxaguar a pele já avermelhada de sua barriga. — Pois eu estou achando uma graça nesse exato instante...— Ela disse zombeteira e quando recebeu um olhar enviesado de Alex, ela emendou: — Eu só continuo achando que você está superestimando o acontecido — ela disse, observando a tatuagem em suas costas enquanto o seguia, na tentativa de ajudá-lo a se limpar. Bendito café que lhe permitiu uma visão do paraíso que era o corpo de Alex, naquele momento tenso. Foi uma distração bem vinda. Alex virou-se de repente enlaçando o corpo de Fay que já se encontrava bem próximo. Ela sentiu-se derreter imediatamente nos braços dele. Ele a apertou sem dar sequer qualquer espaço para que Fay se movimentasse livremente, sabendo que qualquer ação de Fay geraria um atrito abrasador entre seus corpos. Recostando a testa à de Fay, Alex simplesmente exalou um suspiro frustrado. — Droga, Fay. Custava você me telefonar ontem mesmo e me dizer o que aconteceu? Eu poderia ter feito alguma coisa... — Fay pode notar que seus olhos estavam fechados e ele lutava para manter o controle. Ela passou a mão pelo rosto lindo de Alex, deslizou seus dedos pelos cabelos compridos e rebeldes daquele promotor durão e fora dos padrões. — Alex, não foi nada de mais. — Fay disse tentando convencer-se a si mesma. Ela sabia que fora um lance assustador e que necessitava de cautela, mas ela não queria valorizar o fato para que aquilo não se transformasse num grande elefante sentado na sua cabeça. E nem queria analisar muito os sentimentos que vieram em relação à sua necessidade dele. — Fay, o detetive me relatou tudo o que ocorreu. Você foi atacada, em seu ambiente de trabalho, voluntário por sinal, por conta de um caso que nosso escritório cuida. Você não está somente ligada a este caso pela ponta da associação. Você também está ligada pela ponta e envolvimento da promotoria. Era meu dever saber imediatamente do que aconteceu e oferecer a você... — Ele tentou dar sequência, mas Fay cobriu sua boca delicadamente com seus dedos trementes. — E oferecer a mim o que? Segurança? Proteção? Cuidados? — e era tudo o que ela mais queria dele naquele momento, com urgência. Isso a assustou um pouco, o que a fez emendar rapidamente: — Não sou criança, Alex. Sei cuidar de mim mesma. — Ela disse. As mãos de Alex subiram por suas costas e o calor daqueles dedos chegou até seu rosto, onde ele gentilmente afastava os cabelos de Fay para que pudesse ver seu ferimento. Quando viu o corte e o tom arroxeado, mesmo na tentativa de Fay em cobrir, ele suspirou audivelmente e recostou novamente sua testa à de Fay.


— Porra, Fay. — Porra, Alex. — Ela tentou brincar e tirar aquela ruga de preocupação da testa dele. Num arroubo louco e ensandecido, Alex a pegou pela nuca, daquele jeito que só ele sabia fazer e, sem dó ou piedade a beijou vorazmente como um homem faminto. Fay correspondeu à altura e enlaçou o pescoço de Alex de maneira possessiva e desesperada. Muito provavelmente os hormônios adormecidos da noite anterior estavam dando boas vindas agora aos hormônios sexuais que imperavam, e Fay deu vazão à enorme necessidade de se sentir protegida nos braços dele. Ela sequer reparou na dor latejante do ferimento em seu braço. Aquele homem era demais para os sentidos esfomeados de Fay. Ela sequer conseguia se controlar, ou manter seus impulsos à deriva quando estava perto dele. E quando se encontrava nos braços dele, sendo devorada por aquela boca, aí é que Fay ficava mais alienada do que o normal. Ela sequer notou que eles estavam em seu escritório. Ela sequer percebeu que os gemidos que ambos emitiam poderiam talvez até mesmo ser ouvidos do lado de fora. Sequer deu-se conta que suas roupas denunciariam claramente o que ela esteve fazendo ali dentro com o promotor chefe. Tudo o que ela queria era sentir-se amada, acalentada e completamente possuída por ele. Quando Alex ergueu a saia de Fay para alcançar seu objetivo, ela sentiu os calafrios de antecipação percorrerem seu corpo. Alex não abandonava sua boca nem mesmo enquanto ia eliminando algumas peças de roupas. A blusa de Fay estava aberta e seu sutiã já à vista. “Obrigada, Victoria’s Secret.” O conjunto lilás de sutiã e calcinha deixavam em evidência os atributos de Fay, e Alex não se deu por rogado. Fartou-se nas curvas e reentrâncias de Fay como um homem reverenciando o que tinha em suas mãos. Fay só podia sentir prazer. As ondas lânguidas de emoção e plenitude a deixavam letárgica e quando Alex livrou-se de suas próprias roupas de baixo, abordando o calor secreto de Fay, os dois suspiraram juntos e Alex conteve o grito de Fay com sua própria boca. O ritmo ensandecido dos dois marcava o desespero e a necessidade feroz de estarem conectados naquele instante, como se o amanhã não existisse. Ela permitiu-se vivenciar todo aquele arroubo de paixão avassaladora que transbordava por seus corpos. De maneira mais do que imprópria, os dois apenas se imaginavam sozinhos no universo. Não havia mais ninguém. Somente a sensação cálida de pertencer. Fay sequer se deu conta que essa fora a primeira vez que fizeram amor de forma apaixonada, com ela tão entregue. — Ah, Uau... — Fay tentou brincar ainda completamente apegada a Alex. As roupas restantes de ambos estavam mais do que amarrotadas, mas ela nem se importava. Só lhe importava sentir a palpitação de Alex ainda dentro de si. — Você é um promotor muito indecente, Dr. Bergman. Por acaso é assim que você acossa suas testemunhas? — De forma alguma. Eu só acosso uma mulher específica que me deixa louco. — Ele disse e ergueu o rosto do vão do pescoço de Fay. Alex pode observar aquela boca luxuriosa inchada de seus beijos e olhou para os dois ainda moldados um ao outro. Somente neste instante ele deu-se conta de um fato relevante. — Oh, merda. Não usei preservativo. Fay, sinto muito — ele disse tentando contemporizar o fato, mas ainda assim sentindo-se estranhamente satisfeito com a sensação de tê-la sem barreiras. Fay sentiu a cor de rosto esvair por um instante, mas logo lembrou-se que poderia confiar em


Alex. Ou então ela poderia alegar um caso grave de insanidade mental por paixonite aguda. — Tudo bem, não há nada a se preocupar, tomo pílula. — Estou limpo. Não estive com nenhuma outra mulher desde aquela nossa primeira noite, há meses. Aliás, posso me aventurar a dizer que até bem antes disso. — Ele disse. — Ahhh... — Fay ficou chocada com a revelação de Alex e tentava se lembrar se no interlúdio do encontro e reencontro dos dois ela tinha chegado ao HomeRun com alguém. Lembrou-se de Michael, o professor de boxe, mas logo em seguida descartou, recordando que apenas chegaram à segunda base. Ela não conseguiu evoluir. Alex já havia estragado suas conexões sexuais com outros homens. — Eu também estou. Nunca fiz sem camisinha, — ela disse pensando que aquele era o papo pós-sexo mais esquisito que já tivera na vida. — Até mesmo porque nunca estive em um relacionamento longo e sério. — Ela tentou ser casual sobre o fato, mas estava sendo complexo. Soltando-se de seus braços sem na verdade querer sair daquele calor e aconchego agradáveis, Fay pegou suas roupas que estavam esparramadas pelo chão. Ela passou por ele em direção ao banheiro e quando ia fechando a porta virou-se e com um olhar sedutor, perguntou ao seu promotor: — Essa foi a primeira vez para você, promotor? — seus olhos se encontraram e Fay viu o riso chegar aos belos olhos verdes dele. — Sim, srta. Assistente. Foi a primeira vez que defraudei minha mesa corrompendo as leis máximas de relacionamento no escritório. — Ele disse e ajeitou o nó da gravata. — E não me arrependo nem um instante que seja que eu tenha perdido completamente minha mente com você. De novo. Ela riu deliciada pela admissão de Alex e trancou-se no banheiro. Fay estava sentindo-se estranhamente leviana. Ao sair, o encontrou sentado em sua cadeira, arrumado, numa expressão pensativa que a incomodou. Para tirá-lo disso, ela lhe fez uma pergunta mudando completamente o assunto que poderia lhe estar perturbando. — O que significa os dizeres em latim que tem em suas costas? — Dare nemo potest quod non habet. Ninguém pode dar o que não possui — ele falou fazendo Fay se lembrar das lições de direito reais. Isso se falava muito em casos que a pessoa vendia alguma propriedade que não era sua. Claro que havia exceções, mas a regra era essa. — Por que essa frase, em particular? — ela perguntou ao sentar no colo dele. Hoje era o dia das atitudes politicamente incorretas. — Tem tantas outras mais duronas, promotor. Ele riu passando os braços ao redor dela, mantendo-a do jeito que queria, perto de si. Nunca deixando de acariciar suavemente suas costas. — Quando mais jovem eu queria que muitas coisas fossem diferentes. Passei a procurar nas ruas o que eu achava que devia ter em casa e não tinha. Aceitação, parceria, afeto. Enfim, passei por situações que mexeram muito comigo e posso dizer que quando eu comecei a perceber que as pessoas só dão o que elas têm para dar... Eu me senti mais livre. As cobranças que eu fazia perderam o sentido. — Não tem como extrair leite de pedra, né? — Exatamente. Parece simples, mas levou tempo para eu aprender isso. — ele disse e mudando


de assunto: — Já que você está aqui, queria revisar algumas anotações sobre o caso Johnny. A polícia já terminou a investigação e achamos que temos provas suficientes para entrar com a ação. — E quanto ao caso da Forbangs? — As investigações ainda continuam e eu assumo que vá demorar — ele respondeu. — Por quê? — Recentemente fizemos contatos com o departamento de polícia do Estado da Carolina do Norte. Descobrimos que parte do armamento contrabandeado está indo para lá. Queremos aproveitar esse laço que fizemos com eles para extrair mais evidências. Talvez eles simulem algo, para aumentar a rede de captura. Há uma rede muito grande envolvida, não só os membros da gangue daqui. Eles começaram a trabalhar e Fay foi finalizando os relatórios que estavam em aberto. Analisou alguns gráficos, reconheceu o homem que a acossou no dia anterior como um dos acusados, mas ao olhar a foto da cena do crime e ver toda aquela vermelhidão que encharcava o corpo da vítima se espalhando pela calçada, Fay saltou do colo de Alex intempestivamente. Só a visão apavorante foi o suficiente para quase fazer Fay simplesmente voar do colo de Alex e derramar o pouco que tinha no estômago no banheiro. Isso sobressaltou Alex. — O que foi? — ele questionou uma Fay agora extremamente pálida. — Nada, estou bem. Algumas fotos me chocaram um pouco, — ela disse tentando manter-se neutra entre a honestidade de admitir que tivesse um trauma ou a mentira simples pela omissão. — Fay sentou-se no sofá antes que despencasse no chão. Suas pernas estavam bambas. — Essas aqui? — Alex apontou as fotos novamente, fazendo-a fechar os olhos fortemente. — Não entendo, qual o problema? — ele disse intrigado, indo se sentar perto dela, que agora havia se acomodado confortavelmente no sofá da sala. —Essa coisa... toda. Líquida... espalhada na foto — ela disse sem olhar o que ele segurava. — Sangue? — Não diga! — ela exclamou sentindo o estômago embrulhar. — Oh, preciso ir embora. — Fay — ele disse num tom de voz cauteloso. — O que? — Você trabalha na promotoria. Vemos fotos como essas praticamente todos os dias. Pelo menos no Departamento de Julgamentos. Principalmente na minha Unidade. — Eu sei. — Ela disse amuada. Ver-se diante de sua fraqueza era aterrador. — Você quer conversar sobre isso? — Não. Prefiro ir. Vou almoçar alguma coisa, antes de voltar ao trabalho e terminar os relatórios para a Dra. Bauer. — Tudo bem. Vem, vamos almoçar juntos. — Ele disse, dando-lhe um beijo na testa e se levantando para pegar o paletó. Alex tinha que admitir que ficara ressabiado por ver que ela não confiava o suficiente nele. Ele acreditava até então que, o relacionamento dos dois era forte o suficiente para compartilharem assuntos diversos sobre si mesmos. Ele sabia que Fay era extremamente fechada em assuntos muito particulares e não forçaria a


barra. Por enquanto.


Capítulo Vinte e um No final daquela semana, Fay dava graças a Deus que enfim pudesse ficar em casa descansando. A ferida em sua testa já estava mostrando sinais de melhora e Fay percebeu que no estado em que Kate estava ela sequer percebeu algo de diferente nela. Era aterrador a maneira como sua amiga estava completamente alheia e imersa em seus próprios problemas. Fay sentia que algo não estava bem, mas não queria invadir o silêncio de Kate. Alex havia viajado para Washington D.C. naquela tarde e só voltaria na segunda feira, o que fazia com que o final de semana de Fay fosse completamente solitário. Claro que ela sempre poderia sair com seus amigos a noite para dançar, mas ela sentia como se aquilo agora não lhe desse tanto prazer, a não ser que Alex estivesse ao seu lado. Com um pote de pipocas, dois filmes bestas e românticos e bastante chocolate para afogar as mágoas da solidão, já que Kate estava em alguma comemoração com o irritante colega do trabalho, Fay se acomodou em seu sofá e apenas deixou-se curtir um momento só para si mesma. Ela nem sequer encontrara a amiga antes dela sair. Paciência. Kate provavelmente havia esquecido que combinaram um final de semana só de garotas. Muito mais tarde, depois de uma cochilada insólita no sofá, em meio aos edredons deliciosos que a esquentavam, Fay acordou assustada ao ouvir a campainha. Seu coração deu um salto, na ânsia de que pudesse ser Alex voltando mais cedo de sua viagem e cheio de saudades dela. Afastando o suspiro juvenil que ela queria soltar, Fay ergueu-se para abrir a porta e seus olhos muito provavelmente estamparam seu choque. Sem sequer perceber que seu visual estava completamente despenteado e amarrotado, Fay olhou estupefata o imponente Dr. Absoluto, aquele que mexia com os brios de sua amiga Kate, exatamente com esta quase em seu colo, como uma cavaleiro andante. — Kate! — Fay disse sem nem ao menos temperar o volume de sua voz. Pela careta de Kate, deve ter sido alto. Oh, oh. Sua amiga teria uma puta dor de cabeça no dia seguinte. O cérebro de Fay já estava maquinando a vingança da bebida esverdeada contra porres horrendos. — O que houve? — ela perguntou para Gabe. Obviamente, já que Kate estava em um estado impossível de articular qualquer palavra plausível. — Acredito piamente que uma séria mistura de bebidas alcoólicas, senhorita. — Ele disse e não passou despercebido o tom irônico em sua voz. — Você não é o Szaloki da Kate, é? — perguntou com um olho meio fechado. — Caralho! É você mesmo... — Fay falou efusivamente sem sequer dar-se conta que entregou a amiga na sentença


“Szaloki da Kate”. — Uau, você é muito mais gato ao vivo. — Fay disse sem ter como segurar o comentário. O homem era digno de um anúncio publicitário. Fay ouviu Kate gemer e saiu da porta, dando espaço para que Gabe Szaloki agora a erguesse habilmente em seus braços. Ohhhh... A cena foi tão similar ao filme que ela tinha acabado de assistir. Ou ao menos pensava que tinha assistido. Claro que no filme a amiga da mocinha não olhava descaradamente o traseiro do rapaz. — Vou colocá-la para dormir. Onde é seu quarto? — ele perguntou em sua voz de barítono. O homem era imponente. Fay não pode deixar de continuar a admirar suas costas e atributos enquanto indicava com o dedo o quarto de Kate. Um sorriso conhecedor passou pelos seus lábios. Na manhã seguinte, Fay estava sentada comportadamente na sala, à espera de Kate. Ela quase roera suas unhas em ansiedade para acordá-la logo e fazer com que a safada relatasse a noite anterior. Como suas unhas eram muito queridas, Fay optou por um pacote de biscoitos Oreo. — Uau, se não temos aqui uma certa senhorita completamente de ressaca... — Ela disse rindo. Kate desabou na poltrona ao seu lado. — Estou com uma bela dor de cabeça, Fay. — Kate disse gemendo. — Imagino. Deveria ter mesmo, já que deixou escapar aquele pedaço de mau caminho sem nem ao menos dar um amasso nele. — Fay disse e continuou mastigando seu biscoito. Como era gentil, ela ofereceu um a Kate, já sabendo que a amiga recusaria. Com certeza seu estômago não era um dos seus melhores amigos hoje. — O que você sabe sobre ontem à noite? — Fay percebeu que Kate a estava sondando. — Gata, eu é que deveria estar te perguntando isso. — Fay disse e virou-se completamente para encarar sua amiga arruaceira. — Você chega em casa, arrastada por um homem absurdamente maravilhoso, que a carrega apartamento adentro como um cavaleiro medieval... Uau, tive sonhos eróticos com ele. Tenho que confessar. Kate riu de seu comentário. — Kate, Kate... Quem diria, Gabe Szaloki? O grande astro jurídico em nossa humilde residência, exalando um tesão absolutamente voltado para você. Puta merda, estou me arrepiando de novo. Fay tomou um tapa na mão quando tentava se abanar. — Para, sua tonta. Ele apenas me trouxe pra casa. — Ela disse a título de explicação. — Ahãm. Conta outra, por favor. Primeiro... Começa do início. Vocês saíram juntos? — Não. Estava com o Peter. — Kate disse e passou a relatar os acontecimentos da noite anterior. — O que? Peter te dando um Mine Chan? — ela perguntou incrédula. — Oh, oh...acho que alguém estava mal intencionado desde o princípio... Quando o assunto esgotou-se, Kate pôs-se a limpar seu quarto e colocar a roupas para lavar. Era o momento TOC que ela fazia para relaxar. Fay se entregou completamente ao ócio naquele sábado. Nem sequer sentiu vontade de praticar sua corrida matinal. Depois de organizar algumas besteiras, pintar as unhas e folhear revistas de


fofocas, ela sentou-se novamente em sua posição favorita no sofá e continuou zapeando a TV em busca de algo interessante. Sem filmes românticos pra ela. A cena da noite anterior entre sua amiga e Gabe Szaloki já atiçara seus hormônios necessitados e saudosos de um certo promotor quente. No meio da tarde a campainha soou e Fay ouviu o grito de Kate, vindo da lavanderia, para que ela atendesse à porta. — Oh, olá, Dr. Szaloki. Que surpresa agradável. Há quanto tempo, não é mesmo? — Fay brincou e apreciou o sorriso conhecedor de Gabe. Ela deparou-se com o belo exemplar de homem, numa pose despretensiosa e com um pacote de comida nas mãos. Fay sorriu internamente e dando espaço para que o Absoluto entrasse no apartamento, ela disse: — Kate, você tem visita. — Fay gritou da sala e apanhou sua bolsa rapidamente. Yeah... Ela era uma boa samaritana. Deixaria a amiga à solta com aquele homem fabuloso e depois faria a linha investigativa para extrair de Kate todos os detalhes sórdidos. — Vou comprar uns doces ali na confeitaria, okay? Fay saiu do apartamento e fechou a porta com um sorriso no rosto. Sua amiga Kate merecia o que havia de melhor. E com toda certeza, Gabe Szaloki era o melhor para ela.


Capítulo Vinte e dois No domingo de manhã, depois de amargar uma noite de sonhos eróticos com seu promotor, Fay criou coragem para levantar-se e começar um novo dia. Sem Alex. Era incrível como o homem já se fazia tão necessário quanto o ar que ela respirava. Quando chegou à cozinha, Fay deparou-se com uma Kate completamente acabada. Oh Oh... Parecia que alguém ali também não teve uma noite saudável. — Meu Deus! Que horror! Você está medonha! — Fay disse sem cerimônias e deu à amiga um copo de café. — Obrigada, você sabe mesmo como levantar a moral de suas amigas... — Kate resmungou. — Gata, relaxa, hoje é domingo. O que acha de pegar um cineminha com a amiguinha aqui? Você precisa descontrair, porque sabe o que eu vejo? Uma garota sexualmente frustrada, com olheiras que mais parecem tatuagens abaixo de seus olhos — Fay disse e bebeu um gole de seu suco. Ela bem sabia o que era estar frustrada sexualmente. Embora não tanto quanto Kate. — Hoje sairei com meus pais. E não estou sexualmente frustrada. — Kate disse, porém Fay não se convenceu em hipótese alguma. — Fique repetindo isso para você mesma como um mantra. Quem sabe assim você passe a acreditar, não é mesmo? — Fay, é sério. — Também falo bem sério, Kate. Você deveria aliviar essas tensões em seu corpo, querida. E somente um belo orgasmo pode fazer isso por você. — Fay disse casualmente, mordiscando seu delicioso donuts. — Um orgasmo? Fay! Eu nem ao menos tenho um namorado! — disse nervosa. — Não tem porque não quer. Aquele gatinho pentelho do escritório quer te dar uns amassos e você foge. Szaloki, aquele pedaço de mau caminho enfiado num terno Armani quer te dar uns amassos mais do que bem dados e você faz o que? Foge. — Fay disse e endireitou-se na cadeira. — Bom, se não quiser o Dr. Absoluto avisa logo, assim não perco a oportunidade de arregaçar as mangas e partir para o abraço. Nossa, ele aparenta ser muito bom de cama, hein? — Claro que Fay dissera isso a título de obter uma reação de Kate, já que seus pensamentos estavam mais do que apegados a Alex Bergman. — Fay Williams!! Não ouse! — Kate gritou.


Sabendo que atingira exatamente o ponto que esperava, Fay apenas sorriu e disse para sua amiga: — Honestamente, Kate. Do que você tem medo? De se entregar? De se apaixonar? — quem era ela para fazer tal indagação? Fay pensou consigo mesma. — Não sei. Queria ser como você, mas não sou. — Kate disse. — Não é uma transa rápida que vai resolver meu problema. Okay. Com Alex, Fay entendia muito bem o que a amiga queria dizer. — Dr. Absoluto mexe com você como ninguém fez, não é? — Fay disse e observou a amiga. Numa atitude de derrota, Fay viu Kate enfiar o rosto entre seus braços cruzados na mesa. — É. — E daí? Tire a cara do oco dos seus braços, sua tonta. Está saindo com som surround aqui. — Fay falou e deu um leve puxão nos cabelos de Kate. — É, Fay. Confesso. Queria realmente ser prática o suficiente para me entregar para ele de maneira simples e eficiente, mas não sou. E depois da última vez que ele esteve aqui, minhas chances são nulas, passei o maior sermão e ainda o aborreci no final. Ele me chamou de criança, o que realmente fui. — Kate admitiu e Fay acionou seu lado cupido. — Okay. O cara está te dando um gelo, certo? Vamos reverter a situação, Kate. Vamos agitar! Faltava agora ela bolar um plano onde pudesse ajudar a amiga e ainda assim ajudar a si mesma resolvendo as pendências de seu próprio coração.


Capítulo Vinte e três Com a chegada iminente à promotoria na segunda feira, Fay sentiu um indesejável frio no estômago quando desceu de seu carro e deparou-se com Benjamin Bromley recostado tranquilamente na pilastra do estacionamento, somente a esperando. Fay respirou profundamente e decidiu xingar o detetive apenas em seus pensamentos. Já não bastava o mal entendido da semana anterior, agora exatamente no dia que ela ansiava para reencontrar Alex, ele aparecia por ali apenas para colocar um pouco mais de lenha na fogueira. Como uma boa jogadora, Fay usava e abusava dos sentimentos de ciúmes para provocar e seduzir quando queria. Porém ali estava uma novidade que ela desconhecia. Somente a ideia de deixar Alex aborrecido a deixava nauseada. Nunca antes ela fora tão dependente da aprovação de um homem em sua vida. Era por isso e um pouco mais que Fay evitava intimidade extrema, evitava permitir que alguém alcançasse as bordas de seu coração. O sentimento de dependência de uma pessoa era devastador. Ela poderia ser destruída apenas pela ideia de não estar mais junto ao homem amado. Homem amado? Uau. As ideias de vovó Li estavam flutuando na mente de Fay. Naquele exato instante ela teve um insight e não foi uma sensação prazerosa. — Ei, doçura. — O detetive disse em uma voz sedutora. O detetive sabia como ser tentador, embora Fay já nem mesmo conseguisse usar seu próprio estilo sedutor como sempre tratara os homens em geral. — Ei, detetive. — Ela disse casualmente tentando manter-se formal, mas sem conseguir de todo. — Estava seguindo para a promotoria e resolvi esperar por você. — Ben disse com um sorriso. — Em breve o trabalho da polícia sobre a morte de Johnny estará concluído. Vim averiguar por conta própria como anda o processamento dos documentos e como anda minha assistente da promotoria favorita — ele disse com um sorriso. — E por acaso você tem outra? — ela perguntou zombando dele. Com Ben era tão fácil apenas brincar sobre algo ou uma situação. Já no elevador, os dois praticamente sozinhos mantinham uma conversa agradável o suficiente brincando um com o outro. — Não. Todos os outros eram homens horripilantes que nem sequer usavam um perfume agradável — ele disse e cheirou seu pescoço. — Não como você. Fay estava rindo com as cócegas que Ben a fizera sentir, quando o elevador deu uma parada


antes de chegar ao andar em que desceriam. E naquele momento o universo resolveu conspirar contra Fay. Quando as portas se abriram, Alex estava parado esperando para entrar e presenciou plenamente a performance quase vampírica de Benjamin com o nariz enfiado em seu pescoço. O olhar gelado que recebeu de Alex foi mais do que o suficiente para esfriar seu coração. Ele olhou dela para Benjamin e apenas esperou que as portas se fechassem novamente. Ela engoliu em seco e quando chegou ao seu andar, dirigiu-se para sua sala. Benjamin seguia logo atrás dela e pressentindo algo estranho, entrou no modo profissional e enquanto averiguavam os documentos, em momento algum deixou escapar nada indevido. O coração de Fay palpitava loucamente. Por mais que ela tivesse certeza absoluta que não fizera nada de errado, ainda assim a deixava aborrecida o simples fato de estar preocupada com o quê exatamente Alex poderia estar pensando. Ele já se mostrara ciumento em relação a Ben quanto ao episódio no estacionamento. Palavras haviam sido trocadas de maneira intempestiva e conseguiram resolver de alguma maneira. Antes de seguir para sua Unidade, passou pelo escritório de Alex. Estava caminhando pelos corredores quando o viu sair de uma reunião, seguido de seus assistentes. Ben ainda mantinha-se ao seu lado, já que buscava preencher sua papelada com os documentos finais. — Williams, que bom vê-la aqui, — ele disse ao pousar os olhos nela. — Na minha sala, por favor. Temos novidades sobre o caso do irmão do Brandon. Fay estranhou que em seus olhos não houvesse sequer nenhum traço de irritação. Um leão feroz era muito mais fácil de lidar do que um Alex plácido. Assim que a porta foi fechada, Alex a agarrou em um abraço e um beijo profundo. — Sabia que você ia acordar, sentir minha falta e vir correndo para cá. — Ele disse. Fay franziu o cenho quando Alex por fim a liberou de seu beijo ardente. Ela sequer teve reação. — O que houve? — ele perguntou assombrado em vê-la estática. — A-Alex...ahn...você está bem? — ela perguntou entrecerrando os olhos. Alex sentiu vontade de rir ao ver a incerteza naqueles lindos olhos azuis. Encostando sua fronte à dela, ele apenas suspirou e aspirou seu perfume. — Fay, Fay...— Ele disse. — Você me tenta como ninguém, sabia? Ela continuou apenas encarando Alex sem entender sua expressão. Ela esperava uma recepção fria por conta do episódio que ele presenciara no elevador. — Alex? — ela chamou fazendo com que ele abrisse seus olhos. O verde explícito demonstrava toda sua volúpia. — Sim? — Você está bem? — ela perguntou e colocou as mãos na face aveludada dele. Sua barba aloirada acentuava mais ainda sua masculinidade. Alex riu e resolveu tirar sua Fay de sua miséria. — Estou bem. Um pouco tenso, precisando talvez de uma massagem... — Ele brincou. — Falo sério, Alex. — Okay. Então você esperava que eu fizesse um escândalo como o que fiz daquela vez quando a vi com o detetive, não é mesmo? — ele perguntou.


— Sim... — Você esperava que eu a ofendesse da mesma maneira, tirando conclusões precipitadas de algo aparentemente normal entre dois amigos? Não passou despercebido o tom irônico que ele usou para se referir à sua amizade com Ben. — Ahnn... sim? Talvez? — ela disse incerta. — Ao menos isso justificaria aquele olhar glacial que você nos deu no elevador. Alex apertou seus braços firmemente ao redor de Fay, sentindo todas as curvas pelas quais ele tanto ansiara no final de semana. — Eu confesso que não gostei de vê-lo enfiado em seu pescoço, — ele disse beijando-a ao longo de sua mandíbula. — Especialmente este vão aqui que me pertence. — Com essa afirmativa, Alex lhe deu uma mordida ardente no pescoço. Fay riu deliciada com a admissão dele e com seu carinho sedutor. — Porém, eu me lembrei da última vez em que fui irracional. — Ele disse. Fay ficou vermelha ante a memória daquele dia. — Se bem que aquela escadaria nunca mais será a mesma para mim depois daquela briga, certo? — ele riu. — Eu apenas não quero que aquele tom de mágoa retorne ao seu olhar, Fay. Quando eu deduzi o pior, eu vi a mágoa que deixei ali e não quero voltar a repeti-lo. — Nossa...— Ela estava pasma. — Não sei nem ao menos o que dizer. — Diga apenas que sentiu minha falta, que chorou o final de semana inteiro, se contorcendo entre os lençóis, esperando que apenas eu pudesse aplacar essa dor latejante em você. — Ele disse e a mordeu novamente. — Você é muito convencido, não é? — Fay tinha que admitir para si mesma que aquela recepção calorosa a deixava satisfeita. Ainda mais porque ele encontrava-se de bom humor. — Só um pouquinho. — Alex relaxou um pouco o aperto dos braços ao redor de Fay. — Na verdade, temos mesmo novidades sobre o caso. O julgamento começa nessa quinta-feira com a seleção do júri. Acho que será bom você ir. — Certo, encontrarei vocês lá. — Ela confirmou. — Certo. E hoje à noite jantaremos só nós dois. — Ah, é? Isso é um aviso? Todos os promotores são mandões desse jeito ou estou dando azar? — ela perguntou o fazendo sorrir, deliciando-se com a sensação de ainda estar com seus braços enlaçados. Na manhã da tão esperada audiência sobre o caso Rice, Fay viu-se nervosa com o fato de ver-se frente a frente com um caso de assassinato brutal. Quando encontrou-se com os outros dois assistentes da promotoria, ela respirou fundo mentalizando uma maneira de passar incólume por aquele pequeno obstáculo. Fay estava suando frio. A quem ela queria enganar? Ela pensou consigo mesma. Quando chegaram à corte, Alex já estava em seu lugar devido e eles apenas aguardariam a chegada do juiz. A primeira etapa de todo o processo seria a escolha adequada do júri. Naquele momento, entravam em ação os trâmites para que quarenta jurados fossem apresentados e por fim caberia à


promotoria e defensoria, quanto à escolha de apenas doze para integrar o grande júri. Fay revirou os olhos ao observar a ganância de um dos dois assistentes em tentar manter-se o tempo todo ao lado de Alex e fazendo perguntas, como se aquilo fosse realmente atestar que ele era uma perfeita escolha para se tornar um futuro assistente do Promotor Chefe. O’Neill tinha uma infantil mania de disputar com Fay pela atenção de Alex. Mal sabia ele quão íntima e pessoal era sua relação com o promotor. Fay pensou e riu sozinha. Para evitar uma gafe, ela abaixou o rosto e cobriu a boca com a mão, mas não escapou do olhar questionador de Alex. — Como devemos questionar o jurado, Dr. Bergman? — O puxa-saco perguntou parecendo um cão Basset em busca da atenção de seu dono. — Não existe uma pergunta específica. Pergunta boa é aquela em que você consegue fazer o jurado falar bastante, ou falar o suficiente para você pegar alguma contradição ou notar se ele está tendencioso para algum lado. — Alex respondeu, porém sem tirar os olhos de Fay, que controlava-se para não rir. — O ideal é que ele seja favorável à acusação, certo? — o jovem perguntou. — Errado. Nós buscamos a Justiça, não a acusação a qualquer custo. O ideal é termos jurados com senso crítico, pessoas que possam analisar as provas e depoimentos com maior imparcialidade. Isso garante um julgamento justo. Fay revirou os olhos novamente e se abanou com a pasta de documentos. Alex lhe deu um olhar atravessado e ela apenas agitou um dos ombros em descaso. Os dois assistentes eufóricos continuavam com suas perguntas, enquanto Fay apenas refletia sobre toda a situação. — Já reparei que perguntas relativas a crenças pessoais, comportamentos ou experiências de vida trazem mais informação sobre a pessoa que está ali. Às vezes revela um jurado bom. — mencionou Fay. Ela também não poderia simplesmente fingir-se de estátua e agir como se não fosse uma aprendiz dedicada. — Verdade, Williams. — Alex concordou. Fay lhe deu uma piscada e apenas observou quando ele sacudiu a cabeça como se afastasse pensamentos indevidos. Com a entrada do juiz, a pequena travessura de Fay teve fim, já que agora eles realmente deveriam estar centrados no processo. O caso Estado versus Johnny Rice ganhara repercussão na mídia devido à brutalidade do crime. À medida que os jurados iam sendo apresentados e questionados devidamente tanto pela promotoria, quanto pela Defesa, o caso ia tomando forma. Cada um dos que foram escolhidos passaram por um crivo acirrado de perguntas. Era um processo interessante de eliminação, e Alex tinha argumentos extremamente interessantes para justificar suas escolhas. O promotor fez outras perguntas que achava pertinentes, à respeito da disponibilidade de cada um para um exame minucioso de todas as evidências, além do quesito de restrição de horários e compromissos que os impossibilitassem uma concentração em 100%. Alguns julgamentos poderiam levar dias. Alex torcia para que o prazo máximo se estendesse até o dia seguinte. Em seguida, Fay acompanhou a defensoria argumentar com os possíveis jurados. Quando o juiz solicitou que Alex e o advogado de defesa apresentassem suas escolhas, Fay aproveitou aquele instante para respirar fundo e afastar o mal estar.


Quando os doze jurados estavam devidamente alinhados em sua bancada, o juiz fez um breve relato dos fatos, apresentando o caso onde os acusados, os irmãos Velasquez, integrantes da gangue Forbangs, estavam sendo julgados por homicídio qualificado, sendo a vítima o jovem Johnny Rice, irmão de Brandon, o menor que buscara refúgio na Associação. Já era quase noite quando o Júri voltou e revelou o veredito: os réus foram considerados culpados. Agora cabia ao juiz fixar quantos anos os irmãos Velasquez ficariam presos e sob qual regime de prisão. Toda a ficha criminal deles seria levada em consideração juntamente com outras ações que eles estavam respondendo. O promotor e a defesa precisariam ficar um pouco mais no fórum, o que fez Alex agradecer e dispensar seus já cansados assistentes. Não passou despercebido a ele que Fay estava mais pálida do que o normal. Ele já havia percebido que ela tinha uma estranha reação com imagens sanguinolentas. Porém, Alex sentia que havia algo mais escondido por trás daqueles profundos olhos azuis. O que o irritava era o fato de que Fay já deveria ter se aberto com ele. Pensar nisso o fez perceber que estava sendo injusto, já que ele também mantinha vários aspectos de sua vida resguardada. Para Fay, o julgamento tinha sido um suplício. Imagens gráficas e ampliadas da cena do crime, da autópsia da vítima. Discussão sobre ferimentos para considerarem se aquilo era ou não enquadrado em requinte de crueldade... Tantas minúcias. Por mais que tivesse se retirado em alguns momentos, ficou bem claro que se ela quisesse continuar na Promotoria, aquele departamento não seria o mais adequado. Somente o pensamento de render-se a um de seus medos fez com que Fay se sentisse mais cansada do que o habitual para um dia longo como aquele.


Capítulo Vinte e quatro Chegando em casa, Alex desatou o nó de sua gravata e tirou sua camisa de qualquer jeito. Sentando-se na sala, ele olhou para seu celular e pensou por alguns instantes se deveria enviar ou não uma mensagem para Fay. Ela devia estar cansada, assim como ele, mas nem esse pensamento fugaz o impediu de agir como um egoísta. Optou por acabar logo com sua comiseração e enviou um sms para ela. Onde você está? Preciso vê-la. A.

Alguns minutos se passaram antes que o toque vibrasse em sua mão. Chegando de uma corrida. Por quê? F.

Ele sorriu porque sabia que Fay compreendia muito bem a razão de sua pergunta, mas tentava fazer-se de difícil. Ele podia até mesmo imaginá-la com um sorriso torto e zombeteiro no rosto. Espero você aqui. Ou você prefere que eu a pegue em seu apartamento? A.

Alex esperava ansiosamente que Fay cedesse à atração que os dois sentiam e realmente se entregasse de corpo e alma ao que eles poderiam construir juntos. Em breve estarei aí. F.

Alex sorriu e decidiu tomar uma ducha para aguardar a chegada de Fay. Em seguida ele ajeitou algo para que comessem, sem nem ao menos dar-se conta de que Fay poderia não apreciar sua escolha. Mas ele pouco se importava. O que ele queria era ela ali, em seus braços, para que matasse a saudade que o consumiu nos últimos dias de trabalho. Isso e mais a necessidade de encerrar aquele dia com seu corpo exaurido por outros motivos que não o de trabalho. Cerca de 30 minutos depois a campainha soou. Alex passou as mãos nos cabelos e na barba, averiguando se tudo estava em ordem. Era estranho, mas Fay gerava nele o desejo de estar mais do que irresistível para ela. Quando abriu a porta, uma Fay completamente vestida em trajes sedutores o esperava. Ela usava um sobretudo preto fechado até a gola, com um gorro sexy sobre sua cabeça e sobre seus cabelos que caíam em ondas eletrizantes. Um sorriso sedutor estava estampado em seu rosto e quando Alex a puxou para si, fechando a porta logo atrás, só o que ele pode fazer foi deliciar-se naquela boca tentadora. Fay também mostrou toda a sua paixão em seus braços. Erguendo-se nas pontas dos pés, ela enlaçou o pescoço de Alex e deixou-se conduzir por ele para a sala.


— Porra, que saudade eu estava de você, ruiva. — Ele disse enquanto distribuía beijos ardentes por todo o rosto e pescoço de Fay. — Oh, eu também, Sr. Promotor. Você foi tão bem hoje — ela disse e montou no colo de Alex quando este se sentou puxando os dois para o sofá. — Achei que eu deveria lhe dar um prêmio. — Ela disse e começou a desamarrar o nó de seu casaco. Alex quase teve seus olhos saltando das órbitas quando viu os trajes que Fay usava por baixo. Se alguém poderia surpreendê-lo, definitivamente esse alguém era Fay Williams. Ao invés de uma lingerie sexy e despudorada, ela levava embaixo do casaco, um babydoll que se assemelhava ao traje de Mulher Gato, tão ajustado ao seu corpo que mais parecia uma segunda pele. Alex riu até quase derrubar Fay de seu colo. — Vejo que surpreendi o meu promotor. — Ela disse. — O que foi? Esperava um Victoria’s Secret? Um La Perla? — ela provocou. Alex continuava rindo ainda de sua surpresa. — Ah, querida, eu sequer sei os nomes de marcas de lingeries. Só sei que a sua fantasia me surpreendeu. — Ele disse e a puxou mais para o seu colo. Assim ela não teria dúvidas da evidência de sua excitação, mesmo em seus trajes divertidos. — Mulher Gato ? Por algum acaso ela não seria uma representante da criminalidade? Uma ladra escorregadia como um sabonete? — Quem melhor para lidar com uma criminosa do que um promotor sexy e ousado? — Fay disse e beijou o pescoço de Alex. — Aliás, eu gosto da ideia desse promotor me dar uma reprimenda. — Com certeza esse promotor vai ter que se desfazer destes seus trajes que revelam sua tendência ao crime e esconder as evidências. — Ele disse enquanto acariciava suavemente o corpo de Fay. — Você acha que vai ficar confortável assim? Sem nada? Afinal este tecido aqui até que é bem gostoso de se passar a mão... Fay colocou a mão no queixo como se estivesse pensando seriamente naquela proposta. — Bom... eu gosto muito de conforto. E conforto não se consegue com rendas e fru-frus. Mas este aqui... — ela disse passando a mão sobre toda a extensão de seu corpo. — Sai fácil e entra fácil. Isso não é genial? Além do mais, detesto cair no modismo de usar lingerie sexy para seduzir meu homem. Alex não deu tempo para uma resposta. Ele ergueu-se do sofá, sufocando o grito e a risada de Fay quando a carregou a toda pressa para seu quarto. Somente a admissão de Fay de que ele era seu homem já fez sua noite valer ouro. Agora era chegada a hora de colocar aquela mulher gato para mostrar suas garras. Mais tarde Alex acordou para olhar a mulher adormecida ao seu lado. Passando o dedo naquele rosto de anjo, ele esperou que ela se mexesse para continuar sua sondagem. Ele queria que ela passasse a noite ali com ele, mas sabia que com Fay nada poderia ser forçado, ou ela escorregaria por entre seus dedos como areia fina. Quando Fay estirou seu corpo, seus olhos azuis abriram-se de pronto para se encontrarem com os verdes magnéticos de Alex. Ela sorriu languidamente e espreguiçou seu corpo ajustando-se mais ainda ao calor de Alex.


— Olá, já amanheceu? — ela perguntou completamente fora do ar. — Não. Acredito que você desmaiou, roncou audivelmente, mas nem se passaram duas horas desde a hora que pegou no sono — ele disse e tomou um soco no ombro. — Eu não ronco! — Fay disse indignada. — Como você pode afirmar isso? Você está sempre dormindo quando este evento acontece. Isso significa que somente uma testemunha ocular pode alegar o fato. No caso, eu. — Ele zombou do óbvio desconforto de Fay. — E não fui somente uma testemunha ocular, fui uma testemunha auditiva também. Fay arrancou o travesseiro debaixo de sua cabeça e tentou sufocá-lo. Uma guerra de travesseiros no meio da madrugada era algo tão juvenil de se fazer que os dois acabaram caindo na gargalhada. — Eu me rendo, eu me rendo! — ele disse quando Fay apelou para as cócegas. — Eu ronco? — ela quis saber ainda com suas garras grudadas em Alex. — Não. Você apenas ronrona, como uma gatinha. — Ele disse. — Awww... — Fay se derreteu sobre o peito de Alex. Os dois conseguiam ser tão naturais e soltos juntos que Fay assustava-se de estar apenas sonhando. — Alex — Fay o chamou sem levantar a cabeça do peito dele. — Hummm... — Você já reparou que as coisas estão andando rápido demais entre a gente? Já está virando um hábito eu vir aqui todos os dias. — Ela disse. Alex já havia se dado conta daquele fato. E não ficou surpreso com a postura dela. Por mais que os dois estivessem há pouco tempo juntos, era como se eles se conhecessem há anos. — Acho que as coisas, como você mesma citou, caminham do jeito que deveria. Já te conheço de cor e salteado — ele disse e levou um beliscão. — Aiii! Quer ver? Vamos lá. Eu amo a cor azul. Tenho fascinação por vermelho intenso. Admiro e venero a brancura do mármore... Fay começou a rir porque Alex estava poeticamente tentando elogiá-la. — Seu bobo. Aposto que você não sabe nada sobre minhas preferências. — Sei que você ama verde. Acha o dourado uma cor muito ousada e irresistível. E a cor do mel, uma delícia! Os dois riram ante a evidente referência que ele fez a ele mesmo e continuaram ainda agarrados como dois adolescentes. Vários minutos se passaram com eles dois em um silêncio confortável. — Eu gosto de todo tipo de música. Desde o rock ao country. Folk, pop, rap... E você? Só te vejo ouvindo música com fones. — Fay observou. — Eclética, não? — ele zombou. — Blues, rock e só. — Adoro orquídeas porque são exóticas e temperamentais. — Não tenho uma flor preferida. Isso faz de mim um machista? — Não. — Ela riu. — Acho legais aquelas amarelas grandonas, com um marrom no meio. — Girassóis? — Fay disse rindo.


— Não sei. Deve ser. Torço pelo Chicago Bulls, não ligo para outros esportes e sempre fui um aficionado por Harleys. — Sou Yankees e só sei disso porque meu pai me obrigou, mas se você me perguntar sequer o nome de um jogador, você vai se decepcionar — ela disse rindo. — Eu sempre fui muito louca por Beatles. — A banda? — Não, o carro. Pequeno, miúdo, compacto. Fofo. — Chega. Isso não é carro, meu bem. — Eeeei! Claro que é! Não ouse falar mal do meu carrinho. Ou eu me levanto daqui agora e... — Vai embora nua? — ele perguntou. — Você roubou minhas roupas? — ela olhou para Alex e sacudiu a cabeça. — Tsc, tsc... Alex, uma noite você me amarra com sua gravata, na outra desaparece com minhas roupas. O que você quer? A resposta estava tão na ponta da língua que Alex sentiu dificuldade em elaborar uma pergunta retórica. — Que você passe a noite aqui? Fay sentou-se puxando o lençol sobre seu corpo e olhou para Alex com sua sobrancelha arqueada. — Só isso? — Fay sentia que Alex queria mais do que ela poderia dar. Por incrível que pudesse parecer, ela queria oferecer tudo o que tinha a ele, mas o medo ardia em seu peito. O medo de sonhar com algo e ter aquilo roubado era muito maior do que o desejo de se permitir voar. — Só isso, meu anjo. — Okay. Mas não vá se acostumando, barba — ela disse e deitou-se novamente sobre o tórax forte de Alex. — Barba? Meu Deus, Fay. Você não poderia encontrar um apelido menos...evidente? — ele brincou. — Ué, você também não é nem um pouco original nos seus. — Fay disse passando a mão em seu peito musculoso. — Gostaria que eu a chamasse apenas de anjo? — ele perguntou beijando sua testa. — Hummm...muito suave para mim. Não combina muito com meu estilo. — Gata? — Arg! Que decadente! Por favor, não faça isso. — Linda? — Obrigada. Eu sei que você acha isso, mas não precisa espalhar aos quatro cantos do país, certo? — Alex riu. — Baby? — O que? — Fay ergueu-se em um cotovelo apoiando-se no peito de Alex. — Isso é muito comum para nós dois, querido. — Ruiva?


— Original. Muito original. E eis que acabamos caindo em nosso mesmo parágrafo que debatíamos antes — ela disse com sabedoria. — A originalidade é o que nos forma. Você, barba. Mim, ruiva. — Ela imitou a fala de Tarzan. — E meu cabelo combina com o fato de eu ser indomável. Ela disse e suspirou. Alex esperou até que ela adormecesse antes de dar vazão aos seus pensamentos. Ele tinha mais do que certeza de que estava apaixonado. Alex fora inconsequente apenas uma vez em sua vida, quando era muito mais jovem. Dali em diante, ele sempre teve uma filosofia a seguir. Mas por que não compartilhar a vida com alguém? Pensar sobre constituir uma família sempre lhe fora um pouco dolorido. Mas agora, ao pensar no futuro, só via Fay em sua mente. O único que ele ainda se permitia de selvagem dentro de si era seu apreço pela sua Harley. Aquilo não morria nunca. Mesmo que trouxesse recordações dolorosas de um tempo longínquo e irresponsável. Porém, o que Alex nunca imaginou era que chegaria o dia em que seu coração se aquietaria e ele simplesmente tivesse o desejo de firmar-se em apenas um só lugar. Uma só mulher. Um só coração. Ele sabia que teria um desafio à frente em convencer aquela mulher indomável, como ela mesma se definia, em algo permanente, fazendo com que ela assumisse seus sentimentos e enfim se abrisse com ele. Ele sabia que Fay era fechada. Mas nem ele poderia reclamar sobre esse silêncio. Seu passado também era fechado a sete chaves.


Capítulo Vinte e cinco A rotina que Fay adotara fazia com que ela se desdobrasse entre seu apartamento, o trabalho, a associação e algumas noites na casa de Alex. Ambos saíam em horários diferentes para não gerarem nenhuma suspeita sobre o envolvimento entre os dois. Tudo andava às mil maravilhas. Embora não estivesse tão presente em casa, Fay tentava assumir suas funções domésticas e de vez em quando ajeitar suas roupas antes que não tivesse absolutamente mais nada limpo para vestir. Ela estava em seu processo de meditação observando o vai e vem da máquina de lavar quando viu Kate perambulando no apartamento. Olhando bem para sua amiga, Fay logo percebeu que algo não estava certo. Kate estava aos prantos. Em meio às lágrimas e soluços, Fay ouviu toda a história de Kate e sentiu um ódio potente arder em seu coração. Ela sabia que o cara do escritório, o tal Peter, era um mala sem alça, mas daí a ser um cafajeste total era outra coisa. Agredir sua amiga daquela maneira vil? Ele estava pedindo para morrer. Lentamente. — Você tem que fazer alguma coisa! Denunciar este crápula, ir à delegacia, aos jornais, ao pai dele! — Fay dizia furiosa. Naquele instante ela andou agitada pela sala, sem dar bola às negativas de Kate. — Não vai adiantar de nada, Fay. Será realmente a palavra dele contra a minha. Infelizmente é assim que vai acabar acontecendo. Foi uma ameaça bem real. — Kate disse secando suas lágrimas e tentando recobrar a compostura. Fay demonstrou graficamente todo tipo de tortura que ela queria desencadear para cima de Peter Merdinha Foster. O cara ousara encostar a mão em sua amiga. Ela percebia naquele instante que estivera completamente alheia ao que sua amiga estava passando. Depois de acalmá-la alegando que ficaria de fora daquela situação até que Kate a resolvesse por si só, Fay pensou com seus próprios botões que a correria da vida de cada uma havia apenas contribuído para aquele distanciamento entre elas, onde nenhuma sabia da outra, o que estava acontecendo em suas vidas. Fay pensou em Lana e decidiu que ligaria para ela no dia seguinte e averiguaria por si mesma se tudo estava correndo bem. O bem estar de suas amigas era importante para ela. Fay sempre soube que tudo o que era bom durava pouco. Ou ao menos assim ela acreditava que


sua vida se embasava. À medida que as semanas iam seguindo, ela e Alex continuavam cada vez mais juntos, porém Fay estava sentindo-se arredia, já que era difícil para ela assumir que ele havia se tornado uma parte importante de sua vida. Numa tarde logo após o almoço, Fay voltou para o escritório e deparou-se com uma cena que realmente mexeu com seus brios. Como a porta do escritório de Alex estava fechada e, aproveitando que a secretária dele estava ausente, Fay se dirigiu à sua sala com um sorriso atrevido, apenas pensando nas maldades escandalosas que ela faria com ele. Okay. Ela parou na mesa da secretária e folheou a agenda para averiguar se ele tinha alguma reunião iminente que pudesse atrapalhar seus planos audaciosos. Abrindo os dois primeiros botões de sua blusa de seda, ela ajeitou os cabelos e abriu a porta do escritório. Se uma cena pudesse congelar e ser rebobinada, Fay pensou que esta deveria ser a hora para isso acontecer. Ou ela poderia estar em uma espécie de pesadelo surreal por conta do almoço tailandês que havia comido há alguns minutos. Alex estava de costas para Fay, abraçado a uma mulher que chorava lamuriosamente em seus ombros. E pelo carinho com que ele a tratava, Fay poderia dizer que aquela ali não era uma pobre cliente maltratada, em busca de justiça para seus cinco filhos abandonados. O que havia ali era uma intimidade latente. Palpável. Da porta, completamente estática do jeito que estava, Fay apenas tentava fazer seu cérebro funcionar para que pudesse sumir dali sem ser vista. — Lory, querida. Eu sei o que você deve estar sentindo, mas não adianta se recriminar dessa maneira, doce. — Ele disse e o coração de Fay esmigalhou-se naquele instante. — É que é tão difícil tudo isso, Alex. Eu sei que faz muitos anos, mas até hoje, quando penso... — a mulher mostrou a Fay que sabia realmente chorar. — Hoje quando vejo os garotos da minha vizinha eu fico apenas desejando, sonhando... — Está tudo bem — ele disse tentando acalmá-la. — Está tudo bem, querida. A dor agora é apenas uma lembrança. — Não, Alex. Não quando a lembrança envolve uma vida que poderíamos ter tido juntos se eu não tivesse sido tão estúpida. — Ela disse fungando. Eca. Fay agora estava começando a sentir nojo. — Toda vez que o vejo nos jornais, defendendo algum caso importante, eu penso em como você conseguiu vencer todo o nosso passado torpe e seguir em frente. Penso em como seria minha vida ao seu lado, refeita de toda merda do passado — ela prosseguia. — Mas ao invés disso eu acabei com nossas vidas, e ainda continuei na mesma merda de trabalho servindo mesas a cada dia e cada noite, sem nunca mais ver seu rosto. — O que passou, passou Lory. Não há retorno, só consequências. Eu refiz meus ideais depois daquele dia, — ele disse e Fay pode notar que seu tom era pesaroso. — Você pode começar de novo a qualquer tempo e dar um rumo diferente à sua vida. Se havia alguma coisa mais absurda para acontecer naquele instante era o celular de Fay tocar naquele exato momento. Como a música do seu celular não era absolutamente nada discreta, Alex soltou o abraço que dava em sua amiga e virou-se para trás em tempo de ver uma Fay completamente pálida e estática na sua porta. — Fay... — ele disse a chamando.


Fay sacudiu a cabeça como se estivesse saindo de um transe e apenas olhou para seu celular. O número era desconhecido, exatamente como os números desconhecidos que vinham sendo encaminhados para sua caixa de mensagens. — Ahhh, com licença, desculpem-me por interromper. — Ela disse rapidamente fechando a porta e procurando uma rota de fuga viável. Os elevadores estavam longe e não daria tempo. E os malditos nunca chegavam na hora de uma fuga urgente. Sua sala também era impossível de passar despercebida e a mesma não tinha chave. As escadarias malditas poderiam quebrar seu pé dessa vez. Talvez o banheiro feminino fosse a solução. Se Fay conseguisse se lembrar agora qual era a direção do banheiro em seu total estado de torpor. Ela odiava ouvir conversas alheias e o pouco que escutou embrulhou seu estômago até a alma. Isso sem contar nos braços que deviam abraçá-la e somente a ela, envoltos em torno de outra mulher. Que Fay sequer sabia da existência. Fay correu para a sala mais próxima e simplesmente se enfiou dentro, esperando que conseguisse escapar de Alex. Naquele instante, pelas frestas da persiana da janela divisória da sala, ela viu Alex, cansado, sair de sua sala e olhar em volta em busca dela. Fay segurou a respiração porque tudo o que ela queria era desaparecer e sumir numa nuvem de encantamento. Ao menos nos seus sonhos os contos de fadas ainda poderiam existir. Quando viu que Alex tomou outro rumo no amplo corredor, ela saiu em disparada em direção aos elevadores e acionou rapidamente o botão que a levaria para longe daquele pequeno inferno. Somente quando ela chegou ao conforto de seu carro foi que Fay pode dar um suspiro de alívio e vazão às lágrimas salgadas que agora saltavam de seus olhos. Ela não se permitiria chorar. Em hipótese alguma. Erguendo seu telefone que tocava pela milionésima vez, Fay atendeu roboticamente. — Sim? — Srta. Fay Williams? — uma voz que ela achava que nunca mais ouviria disse. — A própria. E você? — ela sabia a resposta, mas mesmo assim teimava em sonhar que fosse apenas uma impressão sua. — Johnson. — Ele disse sucinto. — Precisamos conversar. Venho ligando há algum tempo. Fay sentiu um arrepio percorrer seu corpo de maneira fugaz. — Sr. Johnson. O que há para ser conversado que já não tenha sido tempos atrás? — o medo era um sentimento aterrador. — Serei sucinto e direto. A lista de testemunhas chaves daquele julgamento de tantos anos atrás vazou. De alguma forma, os nomes que ali estavam foram revelados e as identidades comprometidas. — Mas como isso poderia me afetar agora, se minha identidade que constava na lista era a da antiga eu? Aquela que não existe mais, você se lembra? — ela perguntou com o ódio começando a crescer dentro do seu peito. — A associação dos nomes reais das testemunhas, com a catalogação destas mesmas testemunhas no sistema de proteção do governo é um link fácil de obter. — Ele tentou parecer apologético. — O caralho que é fácil. A porra do governo não tem seus agentes secretos e suas operações tão


bem respaldadas que a sociedade sequer desconfia? — ela estava furiosa. — Onde está o confidencial que sempre vemos em filmes? Simplesmente vazou assim? A lista de testemunhas e também a lista de identidades novas que vocês embutiram a estas testemunhas?! — Srta. Williams, seja razoável. Qual é seu atual paradeiro? — o homem estava nervoso agora. Fay bateu a testa no volante do carro que continuava estacionado no mesmo local. Ela sequer reparou que os vidros de seu carro agora estavam completamente embaçados. — Não vou ser razoável porra nenhuma! Vocês acabaram com a minha vida há anos, agora querem o que? Acabar com ela de novo? — Precisamos realocá-la, srta. Williams. É um protocolo que deve ser executado. — Ele disse argumentando. Fay bufou audivelmente e deu partida ao seu carro. — Pegue a porra do seu protocolo e o coloque em um lugar onde o sol não bata, Sr. Johnson. — Ela esbravejou e desligou o celular. E desta vez desligou completamente. Tirou a bateria e jogou dentro da bolsa para evitar correr o risco de tentar olhar se tinha chamadas perdidas de um certo alguém. Fay ligou para Kate no mesmo instante. Ela não queria saber se a amiga estava ocupada, atarefada, fazendo ioga ou o que mais ela quisesse fazer. Ela precisava de um ombro para chorar. Precisava de uma amiga para se afundar em um balde de sorvete ouvindo Bonnie Tyler, com sua canção Total Eclipse Of The Heart. Ela sempre chorava ao escutar essa música. Sua ligação caiu na caixa de mensagens. Como usualmente vinha acontecendo quando ela tentava se comunicar com Kate. Ligar para Lana e vomitar sua dor não seria benéfico para o bebê. Ele não merecia vir ao mundo já embalado em doses cavalares de desilusão amorosa. Fay apertou os pedais do seu carro e dirigiu-se ao ombro amigo mais próximo. Um ombro, inclusive, que já conhecia toda a sua saga com Alex Bergman.


Capítulo Vinte e seis Chegando ao apartamento de Arthur, Fay tocou a campainha diversas vezes, até que ele abriu a porta com uma cara sonolenta. — Meu Deus, Tuts. Você está dormindo de tarde? Por algum acaso você está fazendo bico de go go boy e agora anda varando as madrugadas? — ela tentou brincar, quando na verdade sua vontade era se desfazer em lágrimas. Arthur ajeitou os cabelos e a abraçou. Ele conhecia sua amiga e sabia quando ela estava em um estado agitado de stress. Mesmo em suas tentativas de brincar em situações irreais, ele sabia exatamente quando ela estava completamente fora de si. — Ruiva, venha para o colo do seu amigo e me conte tudo. Você está uma pilha de nervos. — Ele disse e sentiu Fay desintegrar-se em seus braços. Arthur assustou-se ao presenciar Fay chorando porque ela sempre fora tão durona e isolada para sentimentos dramáticos. Fay era um sol brilhante que irradiava calor por onde passasse. Porém, mantinha um certo ar de mistério em volta de si e deixava que poucas pessoas a conhecessem verdadeiramente. — Você está me assustando, ruiva. Ela fungou mais alto ainda e riu histérica ao lembrar-se da mulher infame nos braços de Alex e da fungada nem um pouco elegante que ela deu. — Minha vida desandou de uma maneira cômica — ela disse secando as lágrimas que teimavam em escorrer de seus olhos. — Sabe quando alguém estoura a bolha de sabão que você está admirando há horas? — Eu não sabia que uma bolha de sabão poderia durar horas... — ele tentou brincar e arrancou uma leve risada de sua amiga. — Metáforas, Tuts. Metáforas... São usadas para poetizar alguma merda na nossa vida. Fay suspirou e ergueu-se do colo de Arthur. Seu aspecto deveria estar decadente agora neste instante. — Eu sempre soube que o amor não era pra mim. Que relacionamentos não eram pra mim — ela disse pesarosa e abatida. — Por quê? — Intuição. Sei lá. Chame do que quiser. Minha vida tomou um rumo anos atrás de uma maneira


que não teria mais volta e eu baseei toda a minha vida adulta neste fato. — Fay disse sem nada dizer. — E agora o mundo está louco e a merda do Superman deve ter dado um giro ao contrário na Terra, desfazendo anos e anos de superação, por algum capricho da Lois Lane. — O---kay. — Arthur disse cuidadoso. — Caralho, minha cabeça está uma bagunça. Você tem algo para beber? — Tenho, querida. Mas não acredito que essa seja realmente a solução para o momento. — Ah, Tuts. Deixa de ser estraga prazeres e traz a vodka. — Ela disse beliscando sua barriga. — Não. Você vai dormir um pouco e quando se acalmar, vou pedir uma pizza e vamos conversar como dois adultos muito bem comportados, okay? — ele disse e passou a mão pelos cabelos emaranhados de Fay. — Okay. Horas mais tarde o cheiro de pizza acordou Fay. Ela percebeu que estava faminta. Precisava se alimentar e decidir o que fazer dali em diante. Levantando-se do sofá aconchegante de Arthur, ela dirigiu-se à cozinha para encontrá-lo ali, preparando alguma sobremesa. — Hey — Fay o cumprimentou, constrangida com seu estado lastimável. — Hey — ele respondeu e ergueu a cabeça. — Walking dead adentrando a cozinha... A tentativa de Arthur em fazer Fay rir deu certo. Ela gargalhou com a piada e apenas sentou-se na bancada da cozinha, enxugando as lágrimas do riso solto que a acometera. — Você sabe realmente conquistar uma mulher, não é? — Infelizmente não. A que eu tentei não foi conquistada. — ele disse e olhou enfaticamente para ela agitando as sobrancelhas. Fay abrandou o sorriso em seu rosto. Ela amava seu amigo Arthur. Amava de verdade. Como a um irmão. Assim como amava Kate e Lana. Outro tipo de amor, somente outra pessoa despertou. Fay sacudiu a cabeça para afastar as lembranças de Alex. — Como é? A pizza está pronta? O cheiro me acordou. — Ela disse e cheirou o ar. — Calma, ruiva. Estou terminando esta sobremesa maravilhosa para que possamos afogar nossas mágoas em coisas mega calóricas. — Você é um rato, Tuts. — Ela disse. — O que você está cozinhando? Pudim? — Você me conhece tão bem, garota. — Ele disse e foi em sua direção dando-lhe um beijinho na ponta do nariz. — Argh...e se meu nariz estiver melequento? — ela brincou. — Então posso dizer que acabei de comer algumas bem nojentas. Os dois riram e seguiram a rotina de um lanche tardio na cozinha. Devoraram a pizza e em seguida o pudim que Arthur fizera. Depois apenas aconchegaram-se na sala e assistiram TV. Arthur era assim. Doce e fácil de conviver. Ele não pressionava, apenas lhe dava espaço para ser quem ela deveria ser naquele momento. E ela o amava mais ainda por isso. Passando quase da meia noite ela se despediu de seu amigo na porta de seu apartamento. — Você tem certeza que não quer dormir aqui, Fay? — ele perguntou.


— Sim. Preciso ter um momento à sós comigo mesma para pensar em um monte de coisas. — Fay respondeu e abraçou apertadamente seu amigo. — Obrigada, Tuts. Por simplesmente ser quem é. Arthur pegou o rosto de Fay entre suas mãos e disse olhando-a nos olhos: — Fay, tudo o que você precisa está apenas dentro de você. Seu coração é enorme. Sua alma é maior ainda. Você apenas a deixa encarcerada com medo de viver o que a vida tem a lhe oferecer. Viva cada dia de cada vez, amor. Cada dia de cada vez, porque nunca sabemos o que nos reservará o dia seguinte. Uma hora estamos aqui. Outra hora não. — Ele falou sério. — Não deixe passar os momentos preciosos que você quer ter guardados no coração por medo do amanhã. Fay sentiu a emoção que suas palavras produziram nela e se despediu com um carinhoso beijo no rosto dele. — Obrigada, Tuts. Por tudo.


Capítulo Vinte e sete Quando chegou ao seu apartamento, Fay deu graças a Deus por encontrá-lo vazio e deserto. Somente para ela e suas angústias. Jogando sua chave sobre a mesinha lateral, ela apenas recostou-se na parede e deixou seu corpo deslizar suavemente até o chão. Ela sabia que sentir pena de si mesma era o cúmulo da solidão, mas Fay não poderia se enganar. Ela estava sentindo-se traída pelo destino, enganada pela vida. Dilacerada pelo cupido. Que porra era aquela de sentimento que fazia com que você sentisse vontade de morrer simplesmente porque não poderia imaginar sua vida sem o cara? Fay sentiu as primeiras gotas salgadas chegando aos seus lábios. Talvez hoje tivesse sido o primeiro dia, depois de mais de sete anos, em que Fay derramara lágrimas salgadas de dor. Na verdade ela rompeu as barreiras. Perdeu as contas de quantas vezes ao longo da tarde desastrosa ela derramou essas preciosas gotas cristalinas de seus olhos. Sentindo a avalanche de sentimentos chegando, Fay apenas deixou que suas lágrimas fluíssem despudoradamente pelo seu rosto. E começou a lamentar pela merda de sorte que ela levava agora naquele instante. Ela quisera resguardar seu coração. E conseguira até conhecer Alexander Bergman. Tentou banalizar o que sentia e conseguiu, até ver uma outra mulher nos braços dele. Usurpando o lugar que pertencia somente a ela. Ver aquilo foi um choque de realidade. Ela não tinha noção de quão apaixonada estava por ele e isso a assustava por demais. Quem era ela afinal? Que espécie de mulher vivia às margens do medo? Medo de se envolver, medo de arriscar, medo de errar e ser feliz? Que espécie de amiga era ela que deixava que os outros se apegassem a ela sem que ela tivesse ao menos a decência de abrir tópicos de sua vida que pudessem explicar seu futuro desaparecimento? Lembrando-se de Johnson, Fay percebeu que não queria passar por tudo outra vez. Que espécie de mulher era ela que fugia da responsabilidade de assumir algo sólido com um homem maravilhoso, simplesmente para tentar agarrar-se à sensação de liberdade que ela sempre prezara? O ditado era muito cruel. Dizia que somente dava-se valor a algo quando se perdia. E era assim que Fay estava sentindo-se. Perdida. Ela estava perdendo sua vida, novamente. Perdendo a chance de ser feliz, perdendo a pos-


sibilidade de continuar fazendo o que mais amava, perdendo seus amigos, sua alegria, seu amor. Perdendo o vislumbre de seu futuro. Fay agora era apenas uma bola deitada e dobrada no chão frio do apartamento. Seus soluços eram agora silenciosos, mas dolorosos tanto quanto antes. Sua cabeça estava confusa. Suas decisões estavam em pauta e ela sentia-se como uma folha jogada ao vento, sem direção. Deitando-se enrolada como um feto buscando o calor no ventre de sua mãe, só o que Fay poderia sentir era pesar. Ela não acreditava que pudesse estar naquele completo estado de entrega, mas não havia dúvidas. Era ela ali, desfacelada por ações que ela não poderia controlar. Fay pensou em sua avó, quando elas tinham uma vida feliz numa casa de subúrbio em Nova York. Como uma criança ainda, correndo pelo quintal com suas tranças penduradas e o joelho das calças rasgados de subir em árvores, disputando com os meninos quem era mais esperta. Lembrou-se de seu pai, chegando em casa depois de dias de sumiço, completamente exausto, mas ainda assim com um abraço carinhoso para dar. Pensou na mãe que não conheceu. Que sequer tinha lembrança. Pensou em seus primeiros anos de escola, onde sentia-se deslocada pela brancura de sua pele e seus cabelos vermelhos. Sentia-se deslocada porque nunca conseguira se encaixar em nenhum padrão que as meninas viviam ali. Pensou naquela noite desastrosa, quando ainda adolescente ela presenciou algo que mudaria o rumo de sua vida, que mudaria sua essência como pessoa. As imagens passavam na cabeça de Fay numa velocidade vertiginosa. Todo o processo, o julgamento, a despedida de seu pai, a adaptação em outro estado e outra escola, com outro nome, outra história de vida. As lágrimas que derramara apenas naquela primeira semana. As atitudes que tomara a partir daquele instante. Quando mais velha ela optou por viver a vida para que nunca tivesse amarras. Lembrou-se dos anos na faculdade quando conheceu aquelas que seriam suas “irmãs de alma”. Seu coração abrindo-se à medida que se relacionava com elas. Sua vontade imensa de compartilhar seus segredos, mas dominada pelo medo em poder colocá-las em risco, ou colocar em risco a si mesma e o que havia construído até ali. Pensou em Alex e naquela noite longínqua, quando seus olhos se conectaram pela primeira vez e seus corpos se reconheceram. No que se seguiu depois. Pensou nas pequenas palavras, gestos e atitudes que a conquistaram cada vez mais. Os sorrisos marotos que ele dava, a forma como coçava sua barba. A maneira como passava as mãos agitadas nos cabelos, fazendo com que estes ganhassem um aspecto desleixado e sexy ao mesmo tempo. Pensou nas noites em que passou completamente aconchegada ao seu corpo, sentindo-se protegida e aquecida contra o frio da solidão. Fay fechou os olhos querendo apagar a imagem de Alex abraçado àquela estranha. A uma mulher que ela sequer soubera da existência. Embora ela tivesse que admitir que as trocas de informações sobre a vida passada de cada um ficara completamente ofuscada pelos momentos aquecidos quando seus corpos se encontravam. Adquirindo uma coragem saída de sabe-se lá onde, Fay sentou-se e resolveu sair de seu estado decadente de comiseração. Quando sentiu a última de suas lágrimas descer pelo seu queixo, ouviu a campainha tocar.


Capítulo Vinte e oito Imaginando que pudesse ser Arthur conferindo se ela havia chegado em casa em segurança, sem derramar-se pelas ruas de Boston num estado lastimável de choramingação, ela abriu a porta sem averiguar o olho mágico e saber quem era seu visitante em hora tão tardia. Quando se deparou com o rosto preocupado de Alex, Fay tentou fechar a porta rapidamente, mas ele impediu com seu pé e a força com que segurou a porta. — Fay, por favor. Não faça assim. — Ele pediu e seu tom era completamente apático. Fay desistiu e deu as costas a Alex. Secando os resquícios de lágrimas, ajeitou o melhor que pode a bagunça de seu rosto e seu cabelo. Continuou de costas para Alex, mas pode senti-lo logo atrás de si. Fay cruzou os braços de maneira defensiva, tentando manter uma compostura que ela não tinha. Ele chegou em má hora. Ela ouviu quando Alex suspirou audivelmente. — Por que você foi embora sem falar comigo, Fay? Mais uma vez. — Ele disse demonstrando cansaço em sua voz. Fay deu uma risada debochada. — Oh, lá vem o discurso. Você não é meu pai para me passar um sermão. Sabe, não quero você me cobrando outro tipo de comportamento. Esse é o meu jeito — sua resposta conseguiu fazer com que Alex se irritasse e a virasse para ele. — Eu também não preciso de um discurso, Fay. Não tinha surgido ainda uma oportunidade para esclarecer sobre alguns pontos sobre a nossa vida. — Ele disse e seu tom de voz implorava que ela erguesse o olhar para ele. O que viu fez Fay sentir-se pequena. Rugas de preocupação e um leve franzido na testa de Alex mostravam claramente seu estado de tensão. — Não é uma parte da minha vida que eu goste muito de falar, mas existiu e agora eu preciso expor para que você compreenda. Fay sabia que havia partes de sua vida que também estavam guardadas a sete chaves e nem ela ao menos sabia se poderia e seria capaz de compartilhar aquilo com Alex, embora sentisse que devesse, mais do que tudo no mundo. — Eu era um jovem inconsequente. Revoltado com a família que eu tinha, com o sistema, com tudo e com todos — ele começou e Fay observou seus olhos ficarem enevoados, como se estivesse em


um tempo distante. — Acabei me envolvendo com um pessoal não muito bom. Naquela época eu tinha dezessete anos e queria apenas castigar meus pais por tudo que passei. Entenda, meus pais não eram abusivos no sentido físico, mas eu buscava um calor que eles nunca souberam me dar. Eles eram frios, sem uma gota de amor sequer para dar ao seu único filho. Fay continuou ouvindo o tom distante na voz de Alex. As mãos de Alex ainda a seguravam com força. — Eu tinha uma vizinha que enfrentava quase que a mesma coisa que eu. Só que ela realmente tinha uma mãe abusiva e alcoólatra. — Ele disse e engoliu em seco. — Eu acabei a envolvendo neste grupo e juntos caímos nas estradas fazendo estragos em bares e estabelecimentos. Desordem, pequenos roubos e muitas brigas depois que bebíamos muito. Alex a olhava pedindo compreensão por quem ele fora. Ela ainda mantinha-se em silêncio. — Como dois adolescentes com tesão, acabamos nos envolvendo e ela engravidou. — Fay segurou o suspiro chocado. — Ela fugiu de casa e foi para a minha, onde tentamos pensar no que fazer. Eu não queria que ela tirasse o bebê. Já que tínhamos feito a coisa toda, deveríamos assumir. Nessa hora, meus pais completamente fervorosos, contestaram qualquer hipótese de aborto e acabaram nos dando abrigo. Fay passou a mão pelo rosto de Alex e o puxou para que se sentassem no sofá. Ela sentia que o relato ainda seria longo e doloroso. — Nós continuamos sendo inconsequentes e ela mais ainda. E mesmo com uma barriga de cinco meses ela ainda se arriscava nas motos e brigas de bares. — Alex disse e apoiou os cotovelos nos joelhos numa atitude derrotada. — Numa destas brigas eu acabei me exaltando e disse coisas que nunca deveria ter dito a ela. Eu a ofendi e a humilhei, porque ela mantinha meu filho na barriga, mas ainda assim comportava-se como uma vadia. Bebendo, usando drogas. Eu havia tomado uma dose de juízo quando pensei numa criança para criar e estava começando a me afastar daquela vida. Ele suspirou e passou as mãos nervosamente pelos cabelos. — Nessa mesma noite ela saiu de moto com um dos caras e com as estradas chuvosas, acabou sofrendo um acidente grave que levou a vida do nosso bebê. — Fay sentiu a garganta seca. — Isso tem exatamente dezessete anos, mas agora que voltei a minha cidade natal, ela voltou a me procurar, tentando manter a memória do que seria uma vida juntos. O bebê era... era uma garotinha. E hoje ela seria uma jovem adulta. Acredita? — Fay podia sentir a dor pelo tom de voz. O pesar. Fay colocou a mão de maneira singela nas costas de Alex. Ela queria confortá-lo mesmo sem saber como. — Depois do acidente eu abandonei a cidade, aquela vida e uma Lory completamente destruída. Eu senti muita culpa na época. Ofereci a ela uma oportunidade de refazermos nossa vida em outro lugar, mas ela se recusou — ele disse e a olhou. — Sentia que devia cuidar dela. Tentar dar um rumo às nossas vidas e ao que sobrou dela. Mas eu não poderia obrigá-la. — Eu mudei, me afastei de tudo, inclusive dos meus pais, conclui meus estudos e ganhei a vida trabalhando arduamente e tentando manter umas economias para ingressar na faculdade. Conquistei tudo o que eu poderia ali. Acabei me voltando para uma área onde eu sempre me via enrascado. — Ele riu sem humor. Fay não conseguia soltar nenhuma palavra sequer.


— Então foi isso o que você viu. Eu a consolando por uma perda que ela ainda sente, como se fosse hoje. Ela me procura e eu não consigo ser rude com ela, porque vi que sua vida desandou completamente, enquanto a minha deu uma virada. Ela precisa de ajuda e sinto que devo convencê-la a aceitar que eu pague algum médico ou terapeuta que ela possa ver. Não há nada entre nós, no sentido romântico. Há muito tempo. E nem vai haver. O que aconteceu ficou no passado. Fay o olhou, compadecida, mas resoluta com a decisão que acabara de tomar. Ele já passou por tanto sofrimento nessa vida e ela só ia servir para lhe trazer mais complicações, brigas e decepções. Ela não se sentia capaz de muita coisa e uma delas era dar a Alex o que ele merecia. Uma vida feliz, pacata com alguém tranquilo ao lado dele, alguém que o apoiasse e estivesse sempre lá, alguém que ele pudesse contar. Não seria ela essa pessoa. — Agora eu entendo, Alex. — Ela falou sentando-se ao lado dele, no sofá. — E admiro sua postura em relação a ela, querendo ajudar. Mas não adianta ajudar quem não quer ser ajudado. Veja até onde pode ir e imponha limites. Se não fizer isso, ela vai arrastar todos os problemas da vida dela para sua e isso não é justo. Alex se sentiu aliviado por um momento. A compreensão de Fay só conseguiu reforçar ainda mais o que sentia por ela. Só conseguia imaginar seus dias futuros com ela presente ao seu lado. — Eu não diria nada neste exato momento, Fay — ele admitiu, mas se sentia disposto em abrir ainda mais seu coração para ela. Ele se virou, acariciou seu rosto e disse. — Mas preciso deixar claro que nunca deixei meus sentimentos por você camuflados ou abafados. — Alex, por favor, não continue. — Por quê? É verdade. Eu apenas lhe dei tempo para se acostumar com a ideia. — Alex. — Fay, eu amo você. Fay se levantou de um salto. Alex a segurou fortemente, a beijou com volúpia, enquanto suas mãos a sustentavam. Fay podia sentir que aquele beijo era uma espécie de adeus. — Quero viver com você, Fay — ele disse enfático. — Quero você na minha vida. — Alex, eu não posso — disse ela, sofrendo por dentro. — Eu sei que você não é uma mulher a ser domada, Fay. E tem mais medo de admitir seus sentimentos do que de ouvir os meus. — Ele disse ainda a segurando fortemente contra o ombro. — Mas eu te amo, porra! — Alex, para! — Exclamou Fay, não querendo mais ouvir aquilo. — Eu vou esperar. Não estou cobrando que você me ame de volta ou a história do seu passado que você deixa trancada dentro de si. Só cansei de ter que segurar as emoções que você me provoca simplesmente por medo de você fugir. — Alex, eu não sou quem você precisa. — Claro que é, Fay! — Alex disse atônito. — Amor, uma vida em conjunto. Filhos!! Isso não sou eu, Alex. Você está cego em achar que existe algo aqui além de....química. — Ela disse sem pensar, apavorada com os próprios sentimentos, querendo se livrar daquela situação e tentar esquecer-se de tudo o que viveu com ele, esquecer que o conheceu. Apagar aquele sentimento de dentro dela. Seria mais fácil desse jeito. — Fay, não faça isso comigo. —Alex viu-se implorando, tomado por fortes emoções.


— Eu não quis te magoar, Alex. Você merece algo melhor. E você vai encontrar essa pessoa — ela falou com convicção. Certa que fez o melhor movimento ao se retrair e recusar o que ele tinha oferecido a ela. Se tivesse que sofrer, que fosse agora. Já bastavam as dores de seu passado. Viver sem se envolver era a melhor forma de se manter segura. Era essa a escolha que acabara de fazer. Ela o beijou em sinal de despedida e ele não a correspondeu. Apenas a olhou, em silêncio. — Ninguém pode dar o que não possui. E eu não tenho esse futuro em conjunto para dar. — Ela disse o lembrando das palavras que ele mesmo tinha tatuado em suas costas. — É melhor você ir, Alex. — Você tem, Fay. Você só não quer dividir essa parte da sua vida comigo — ele murmurou em sua direção, deixando transparecer toda dor em sua voz. — Você tem certeza do que está fazendo? — ele perguntou segurando ao máximo a vontade de sacudi-la para que a muralha que ela construíra em torno de si caísse. — Eu saindo por aquela porta representa que estarei saindo da sua vida e deixando-a seguir com a sua. Ela assentiu com a cabeça, incapaz de falar por saber que sua voz estaria embargada a esta altura. Estava sendo difícil controlar a represa de emoções que tinha dentro de si, prestes a estourar. Alex a olhou, esperando por algum sinal que ela nunca deu. Ele simplesmente saiu do apartamento, indo embora da vida de Fay. Dois corações se quebraram naquele exato instante. Um por amar sem medo. O outro por ter medo de amar.


Capítulo Vinte e nove Fay voltou à casa de Arthur e passou a noite lá. Kate ainda não tinha chegado e ela não queria ficar sozinha. Foi uma noite mal dormida e esgotante, onde Fay não conseguira pregar os olhos apenas pensando em toda a situação que estava vivendo. Decidiu que faltaria ao trabalho. Melhor. Ela pediria uma semana de licença alegando problemas familiares e resolveria suas merdas sozinha. Ajeitando-se da melhor maneira possível, ela seguiu para a sala em busca de sua bolsa e seu celular, agora que ela recordava-se que havia tirado a bateria do infeliz e jogado de qualquer maneira na bolsa. Reconectando o aparelho ela viu que havia milhares de ligações e alertas de mensagens sendo enviados de segundos em segundos. Havia uma mensagem de Kate na caixa postal. Ela estranhou porque Kate não costumava deixar mensagens de voz. Ela ouviu a mensagem, mas não entendeu quase nada, só sabia que Kate iria resolver uma pendência naquela noite e que ela torcesse por ela para que tudo desse certo. Fay sentou-se no sofá e lembrou a noite anterior em que Alex estivera derramando seu coração. Sentiu-se uma merda pelo aconteceu, mas não via como podia ser de outra forma. Ela fez o melhor para ele. E o melhor para ela. Foi a melhor decisão. Com isso em mente, ela pegou o telefone. — Gabinete do Dr. Bergman, em que posso ser útil? — a voz da atendente trouxe Fay de volta de seus pensamentos. — Ah, olá, Brenda. — Ela pensou em tentar fingir uma voz anasalada e alegar uma doença contagiosa, mas sabia que não conseguiria sustentar a mentira por tanto tempo. E ainda precisaria arranjar um atestado para apresentar no trabalho justificando sua ausência. — Sou eu, Fay. — Oh, Srta. Williams. Pois, não? — ela perguntou solícita. — Eu preciso de um imenso favor seu, — disse e suspirou audivelmente para que a secretária captasse seu tom triste. — Surgiu um problema sério familiar que me obriga a ter que me ausentar, então, embora eu tenha iniciado meu estágio há pouco tempo, você sabe como é a política de solicitação de férias ou licença? — ela perguntou nervosa. — Oh... Problemas graves? — Fay sabia que Brenda era curiosa e talvez a maior fofoqueira do setor, mas daí já era demais. — Sim. Muito graves. Gravíssimos. — Seu tom irônico escorria de sua voz. — Você sabe me dizer se preciso me comunicar diretamente com o departamento de Recursos Humanos? Brenda pensou por alguns instantes, conferiu algumas informações e Fay pode ouvir o ruído do


teclado de seu computador sendo espancado sem dó por ela. — Basta comunicar à secretária do Dr. Bergman, já que a Dra. Bauer encontra-se em viagem. Como você trabalha para ele também, Dr. Bergman pode assinar o documento e tudo fica resolvido. — Ela disse solícita. — Você gostaria que eu fizesse isso por você? Fay estava mais do que feliz com a oferta de Brenda. — Oh, Brenda, você seria de grande ajuda. Você realmente faria isso por mim? — seu tom de pedinte estava comovendo até mesmo ela. — Claro, querida. Vou avisar agora mesmo que você precisa se ausentar por uma semana. — Ela disse e Fay desligou a ligação depois das despedidas. Com esse detalhe acertado, bastava agora tentar pensar aonde se esconderia de Deus e do mundo para que ninguém a encontrasse. Ela sabia que fugir não era uma alternativa. Tudo o que ela queria era um tempo para pensar e refletir sobre todas as coisas da sua vida e lamber suas próprias feridas. Erguendo-se do sofá, Fay partiu para seu processo de reclusão entregando-se a uma faxina na casa de Arthur, que já tinha saído rumo à Associação. A casa era arrumada, mas gritava por limpeza. Seguiu para o quarto, depois sala, cozinha, lavanderia e banheiros. Ela só não entrou no quarto de Arthur porque seria demasiadamente invasiva em sua obsessão por limpeza relaxante. Quando Fay deu por si, já se passavam das cinco horas da tarde. Vestindo seu agasalho de corrida, ela calçou seus tênis e desceu rapidamente pelas escadarias do prédio. Encontrou-se com uma rua gelada e completamente abarrotada de pessoas que resolveram fazer a mesma coisa que ela. Correr. Somente muito mais tarde, depois de sua corrida diária e uma parada no Starbucks para um mochaccino, foi que Fay voltou para seu próprio apartamento. Ela entregou-se à sua rotina de um banho relaxante, onde simplesmente acionou seu ipod e permitiu que o ambiente do apartamento se enchesse com as melodias que tocavam em sua playlist. Manter a mente ocupada e fazer tudo o que pudesse para distrair era a melhor coisa que fazia. Ele não a procurou durante o dia. Olhou seu celular um milhão de vezes e nada. Sentia falta de sua voz. Ela sabia que ele não ia ligar. Era melhor assim. Não era? Fay estava jantando quando o telefone tocou. Olhando para o relógio, viu que era tarde da noite e estranhou o número de chamada. Pensou em Kate imediatamente e um frio gelou sua barriga. — Alô? — ela atendeu incerta. — Srta. Williams? Fay Williams? — Fay podia perceber a tensão na voz da mulher do outro lado da linha. — Sou eu e você? — Meu nome é Bridget Leonard e eu trabalho no escritório de advocacia Magnum e Foster. Fay fez a associação do nome rapidamente. Era o escritório que Kate trabalhava. — Sim... Aconteceu alguma coisa? — ela estava com medo de perguntar, mas sabia que devia abordar logo o assunto.


Quando a mulher começou a relatar tudo o que estava acontecendo com Kate, bem como as chantagens que ela estava sofrendo nas mãos daquele imbecil de Peter, Fay sentiu o ódio irradiar de seu corpo. A tal Bridget ainda contou algo sobre um evento que estava acontecendo esta noite, relatando que Kate saíra do local muito abalada e somente aí Fay se levantou do sofá e começou a andar pelo apartamento como uma barata tonta indagando tudo o que pudesse extrair da mulher. — Mas me diga, você viu pra onde ela saiu? Chegou a falar com ela? — Fay estava em polvorosa. Ela desligou a ligação sem nem ao menos despedir-se da mulher ou agradecer a informação. Quando encerraram a conversa, Fay imediatamente começou a ligar para o celular de Kate que chamava e não atendia. Pelo menos não caia na caixa de mensagem, o que deixaria Fay pirada pensando no pior. Tentou mais de dez vezes o número de Kate, só para garantir que estivesse discando corretamente e ser persistente. Naquele instante a porta do apartamento se abriu e uma Kate completamente aos prantos adentrou. Fay largou seu celular de qualquer jeito no sofá e correu para sua amiga. Ela abraçou fortemente aquela que era sua irmã de coração. — Kate, Kate, estava tentando te ligar, você não atendia, — abraçando Kate, ela apenas a levou para o sofá. — Só hoje vi sua ligação na caixa postal, — disse Fay que andou sumida do apartamento nos últimos dias. Sequer vinha dormindo em casa. — Conta para mim o que houve! Uma amiga sua do trabalho viu o estado que você deixou o evento dessa noite e ligou aqui para casa, mas você não chegava de jeito nenhum. Eu estava quase ficando louca. — Fay.... Fay.... — Kate gaguejou chorando. — Eu pedi um tempo ao Gabe, ele entendeu mal as coisas, associou com a foto no jornal... Você viu? Kate relatou a Fay tudo o que acontecera no evento da noite e Fay ficou estupefata com a frieza com que Gabe Szaloki encarara a situação. Ou a falta de confiança. O que fosse. Kate somente chorava e lamuriava-se enquanto Fay aconchegava o corpo de sua amiga oferecendo um consolo que nem mesmo ela poderia dar. — O pior de tudo não foi isso, Fay. A forma com que Gabe me tratou... Ele me ofendeu e hoje a noite se recusou a me ouvir. Disse ter simplesmente me usado e que já estava farto de mim. Pediu que eu não o importunasse mais com ligações. É como se ele tivesse me apagado da vida dele. — Ela disse e chorou baixinho. — Acho que nunca mais vou conseguir ter um coração novamente, nunca pensei que o meu pudesse ser arrancado desta forma... Deixando a letargia de sua amiga de lado, Fay soltou seus braços dela e levantou-se para apanhar duas taças de vinho na cozinha. Ela bem sabia que as duas estavam precisando exatamente daquilo. Dois corações partidos, um bom vinho, o que mais poderia faltar? — O que você vai fazer? — Fay questionou. Kate pegou a taça que ela lhe oferecia e respondeu: — Eu entrei com o pedido de demissão há um tempo e o aviso prévio já está acabando. Por conta dessa situação de hoje, prefiro pagar multa a continuar naquele escritório. Você acredita que hoje à noite Peter ainda tentou continuar me chantageando? Eu quero que ele se exploda.


— Porra, Kate, você devia ter me deixado matar o cara aquele dia, eu seria sutil, juro. — Ela disse com ódio. — O que vou fazer, Fay? Protegi meu coração por tanto tempo, para simplesmente vê-lo ser chutado assim dessa forma. Naquele momento louco um foco de compreensão chegou à cabeça de Fay como um feixe de luz claro e brilhante. — Você ama o húngaro, né amiga? — Fay indagou. Porém, ela sabia perfeitamente a resposta. — Amo. Entreguei meu coração numa bandeja. Tentei tanto tempo me proteger e acabei sangrando. Elas estavam vivendo a mesma situação, só que em lugares inversos. Sem saber de onde ela conseguiu reunir suas palavras encorajadoras, Fay simplesmente começou a dizer para a amiga. — Kate, o amor é um lance muito doido, mas é eficaz, amiga. Você precisava sair da concha em que entrou por causa daquele imbecil do Mike. Gabe Szaloki trouxe o que há de melhor em você. Mostrou que você é uma mulher quente, excitante, deliciosa e que é cheia de amor para dar. — Fay sentou-se no sofá e a abraçou. — Se eu pegasse mulher eu te pegava. — ela disse e Kate riu. Fay admirava a amiga que sempre sentira dificuldade em revelar seus sentimentos, por simplesmente admitir em voz alta o que sentia por Gabe sem sequer hesitar. Embora o homem em questão fosse delicioso e um exemplar de pura masculinidade, Fay sentiu um ódio imenso por ele ter tido a chance de ter em mãos um doce coração como o de Kate e simplesmente deixá-lo cair no chão espatifando-se. — Sério. Não é por conta desse imbecil do Gabe que você vai se fechar de novo, não é? — Não sei. Acho que não sei mais nada da minha vida agora. — O que você quer fazer? — Ir embora daqui é uma alternativa? — Kate sorriu sem vontade. — Eu queria sumir. Desaparecer. — E porque você não faz exatamente isso? — Fay a instigou. — Já que você saiu do escritório, pode sair e arejar. Você nem tirou umas férias quando terminou a faculdade. Emendou logo no trabalho. Dar um chá de sumiço vai ser ótimo para colocar a cabeça em ordem. Aposto que isso pode dar um tempo para o Gabe pensar e voltar atrás, pedindo-lhe desculpas. Ela sentiu um insight do que ela própria poderia fazer e continuou matutando seu plano maluco. Ela quase não ouvia o que Kate estava respondendo. — Fay, ele me tratou muito mal. Está certo que eu poderia evitar a mágoa quando terminamos, mas ele mudou e nem sequer me deu chance de falar. Então agora quem não quer conversar sou eu. — Porque não vamos nós duas para Kansas, visitar a Lana? — Fay perguntou de sopetão. Pronto. Ela falara em voz alta. Kate a olhou pensativa e simplesmente acenou com a cabeça. — Então, que tal agora? — Fay já agilizava todo o esquema mental sobre como chegariam ao lugar, como fugiriam sem serem vistas, como.... Ela estava pirando. Com as passagens compradas para um voo naquela mesma noite, Fay incentivou Kate a arrumar sua mala enquanto ela mesma arrumava algumas peças de roupa em sua mochila. Ela tentava lembrarse de como estava a previsão do tempo no Kansas quando seu celular mais uma vez tocou.


Sem olhar o identificador de chamadas, Fay atendeu rapidamente. — Sim? — Srta. Williams. Voltamos a nos falar. Resolveu deixar seu celular à mão agora e refletir melhor sobre o que é o melhor para você? — a voz esganiçada de Johnson disse do outro lado. — Você não desiste nunca? E se eu não quiser fazer absolutamente nada? — ela indagou. — Não é uma possibilidade, Srta. Williams. Existe uma burocracia... — Eu já disse aonde você poderia enfiar a burocracia e os protocolos do caralho, não disse? — ela perguntou exaltada. Naquele instante Kate vinha de seu quarto, parecendo completamente abatida e derrotada e arrastando sua mala pequena de viagem. — Veja bem, Sr. Johnson. Deve haver alguma outra coisa que possa ser feita e que não envolva toda essa merda de novo. — Ela disse. — Eu vou sair de viagem e somente quando eu voltar eu vou ter uma decisão. — Srta. Williams... — Passar bem, Sr. Johnson. — Fay encerrou a ligação. Fay sabia que Kate a estava olhando indagando sobre toda aquela conversa estranha, mas preferiu não dar explicações agora. A hora chegaria. E seria em breve. Ela podia sentir.


Capítulo Trinta Deitada na cama de solteira da fazenda da mãe de Lana, em Abilene, Kansas, Fay deixou seus pensamentos seguirem em direção a um homem pelo qual ela ansiava. Se fechasse os olhos, Fay poderia sentir o cheiro de Alex impregnado em si mesma. Rodando na cama para cobrir os olhos da claridade do dia que entrava pela janela, Fay buscou o que fazer para acabar com tamanho sofrimento que impingiu a si mesma ao abrir mão do amor de Alex. Era um desespero maior do que achara que poderia suportar. Ela estava sentindo-se completamente perdida, como um cego em pleno tiroteio, com uma amiga à tiracolo que havia sofrido um baque em seu coração e mais uma outra que agora tinha sua vida completamente mudada também por conta da cretinice de um homem. Quem se sentia uma cretina agora era Fay. Ao não deixar-se envolver completamente, trancafiando seu coração e seus pensamentos sobre o que o futuro lhe reservava, ela percebeu que acabou ferindo ao homem que mais amava. Era isso. Ela amava Alex Bergman. Não havia outra explicação para o sentimento de vazio que ela sentia ao estar longe dele. Ela sentia falta de seus carinhos, seus toques, seu sorriso. Até mesmo sua barba que sempre arranhava a brancura de sua pele e que adorava. Ela sentia falta da inteligência com que ele lidava com todos os assuntos, sua sagacidade e até mesmo suas excentricidades. Porra. Fay sentia falta de enfiar seus dedos entre seus cabelos, olhar naqueles olhos verdes de um tom único e perder-se ali dentro enquanto ele a observava alcançar seu prazer. Uma batida na porta interrompeu seus devaneios. — Fay? — a voz suave de Lana a chamou. — Yeah, já acordei. Pode entrar. — Fay respondeu com uma voz sonolenta e sentou-se na cama. Lana chegou de mansinho, com aquela cara de anjo tão querida. Sua barriguinha já mostrava sinais evidentes de um ser ali dentro. Se alguma coisa pudesse fazer com que Lana ficasse mais bonita do que já era, esta sim era a maternidade. — Você quer conversar? — ela indagou. Fay esfregou seus olhos sonolentos e bocejou. Não por ser mal educada, mas simplesmente por estar exausta. — Quem mais precisa de um colo é a Kate, Lana. — Ela disse tentando parecer casual.


Lana remexeu-se na cama e esfregou as mãos em seu vestido florido. — Você esconde bem de quase todas as pessoas os seus sentimentos verdadeiros, Fay. Mas não de mim. — Ela disse com conhecimento de causa. — Por baixo de toda essa capa forte e destemida, você é apenas uma garotinha precisando de colo tanto quanto Kate e eu. Fay sentiu seus olhos marejarem. Sua Lana era tão doce e meiga e ainda assim tão assertiva em suas palavras. Kate entrou no quarto naquele momento e também se sentou na cama. — O que é isso? Reunião matinal? — Fay disse, fungando. Foi pega num momento de fragilidade e não estava conseguindo se recompor facilmente. Pode notar as sombras escuras debaixo dos olhos de Kate. Ela também não devia ter dormido nada. — Kate, estava tentando dizer a Fay que podemos ser diferentes em muitos aspectos, mas somos parecidas em um. — Lana falou. As duas aguardaram que ela prosseguisse sua sentença. — Somos apenas três garotas precisando desabafar seus problemas umas para as outras e tentar chegar a uma solução acertada. As três riram levemente e sentiram toda a conexão que sempre existiu entre elas ainda forte como uma rocha. — Vamos lá. Vamos descer e tomar o café da manhã. Venha Fay, você já conseguiu escapar da tarefa de ordenhar a vaca que minha mãe tinha preparado pra você. — Lana disse rindo. — Meu Deus! Eu teria que ordenhar uma vaca? Isso é um absurdo até mesmo para meus padrões selvagens! — Fay disse recuperada, arrancando risadas de suas amigas. Aquele som estava em desuso naqueles dias que se passaram em Boston antes da chegada das duas ao Kansas. Tanto para Fay, quanto Kate, os dramas envolvendo seus respectivos relacionamentos as haviam deixado esgotadas e agitadas, como se estivessem em um torvelinho de emoções conflitantes e dilaceradoras. Fay apenas esperava que Lana tivesse tido uma sorte um pouco melhor que a delas. Embora ser deixada grávida e largada num hotel de beira de estrada pelo namorado imbecil fosse recordista no quesito coração destruído. Chegando à cozinha, a mãe de Lana terminava de colocar o café da manhã na mesa. — Queridas, vou ao armazém comprar algumas coisas. Sentem-se e tomem o café da manhã com calma, sim? — Obrigada pela gentileza, — respondeu Kate, sorrindo observando a senhora partir. — E que Deus te abençoe! — murmurou Fay com os olhos brilhantes direcionados ao café fresquinho. — Sua mãe é um amor. Por que mesmo você saiu daqui?! — perguntou Kate, brincando. — Porque ela tem problemas, — responde Fay, sem dúvidas. Elas se sentaram servindo-se de um café da manhã tipicamente interiorano. — Estou apaixonada. — O que?! — disse Lana enquanto Kate se engasgava com o café. — É isso aí que vocês ouviram e não vou repetir de novo. — Fay falou encabulada. — Meu Deus! Será que você tem mais segredos? Desembucha. — Pediu Lana. — Você é


bruxa?! Tem poderes especiais? Sempre desconfiei desse cabelo... — ela continuou falando dando asas à sua imaginação. — Só você para me fazer rir, sua caipira! — Quem é ele? — perguntou Kate. Ao ver que não respondia, Lana tentou adivinhar. — Arthur? — Não! Tuts é meu amigo. — É aquele professor de boxe? — sondou Kate. — Nããão! Faz tempo que não o vejo. — Então!? — disseram as duas juntas. — É o Alex. —Fay respondeu baixinho. — Alex? Que Alex? — falou Kate procurando na memória alguém com esse nome. — Alex de Alexis? Alex de Alexander? Oh, merda! Alexander Bergman?! — Acho que sim — disse Fay. — Quer dizer...tenho certeza que é ele...— ela continuou se sentindo incompreensivelmente envergonhada com as amigas. Nunca tinha passado por isso antes. — Nossa!!! — exclamou Kate surpresa, rindo. — Agora estou me lembrando da troca de olhares entre vocês no coquetel! — Pois é... — Como ele é? — quis saber Lana. — Alto, loiro, olhos claros, cabelos até o ombro. É um doce. E atraente. Ah, e ainda tem uma barba super sexy. —Kate respondeu ao invés de Fay. — Dr. Irresistível. E se eu o tivesse conhecido antes, Szaloki passaria batido. — Cale a boca, sua cadela! — respondeu Fay rindo, com o rosto ruborizado. — Com essa descrição, Dr. Irresistível soa ser bem a cara dele. Olha como a ruiva está vermelha, Kate — disse Lana sorrindo e arrancando sorrisos das duas. — Não imaginava estar viva para testemunhar isso. E como está o relacionamento de vocês? — Não está. Ele disse que me ama e eu terminei com ele. — O que? — Kate deu um grito incrédulo. — Eu. Estou. Passada. — Falou Lana fazendo questão de soltar lentamente as palavras. — Como você pode — disse Kate se endireitando e caindo em si. — Minha vida é um livro aberto para você e você escondendo isso de mim? Você, cheia de conselhos para dar quando mal os tinha para você? Que hipocrisia, Fay. — Não fale assim! — Fay tentou se defender. — Você estava com muitos problemas e eu não quis incluir mais um. Além disso, eu imaginava que meu caso com ele fosse só isso, um caso passageiro. Eu me demorei em dar conta dos sentimentos que eu tinha por ele. Estava tentando me enganar. Bom, de qualquer forma, estou solteira agora. Iupi... — ela disse tentando brincar, sem conseguir. — Só queria saber o que fazer para isso passar. Dói o peito. — Massageou o coração ao falar. — Dois corações partidos aqui no Kansas, hein? E eu pensando que vieram para me ver! — falou Lana fingindo estar desolada. Ao ver que não obteve nenhuma reação, continuou — Vocês


precisam dar tempo ao tempo. Fay, eu sei que tem mais na sua história, coisas que você nunca comentou, mas que sabemos que tem aí dentro. Ei, tranquila, não estamos te cobrando nada. É realmente fácil não se expor aos sofrimentos, não se abrir... Mas será que vale a pena ficar sempre assim quando um companheiro de verdade surge em sua vida? Agora é ele, amanhã será outra pessoa. Vai continuar se recusando a viver? — Eu vivo a vida loucamente! — rebelou-se ela. — Vive a minha bunda. — Resmungou Kate. — Meu Deus, a desbocada aqui sou eu! Vou abrir um cofrinho para você também. Com menos dinheiro a cada palavrão, você se corrige. — Ou não, pensou Fay ao terminar de dizer. — Certo. Vamos acalmar esses ânimos. Todas lá para fora a me ajudar a dar de comer para as galinhas. — Elas me bicaram da última vez, acho que não seria uma boa ideia — falou Kate dando seu melhor olhar de desamparo a Lana, que percebeu naquele instante alguém tentando se esgueirar. — Fay! Não adianta sair de mansinho, volte aqui! Na noite seguinte Alex andava como um leão enjaulado pela sala de sua casa. Provavelmente ele furaria um buraco na área que se tornara seu ponto de calma e reflexão. Ele abriu seu coração para Fay. Exprimira seus sentimentos da única maneira que poderia fazer, de maneira direta e certeira. Não conseguia acreditar no que ela fizera e no quão dilacerado estava seu coração, que acelerou ao ouvir o toque de seu celular. Ele largou a garrafa de cerveja que estava bebendo no console da lareira. Pensando que pudesse ser Fay, ele fechou os olhos e respondeu: — Sim? — seu tom de voz era incerto até mesmo para ele. Quando ouviu a voz imponente de Gabe Szaloki ele concentrou-se no que o amigo advogado poderia querer. — Gabe? Que surpresa você ligar para o meu celular a essa hora — ele disse. — Alexander, como vai? Eu preciso de um favor seu. — Alex pode ouvir o suspiro cansado. — Diga — ele falou e esperou o que viria a seguir. — Fay Williams é sua assistente, não é? — Gabe perguntou e Alex ficou intrigado. — Por quê? O que você quer com ela? — Sua voz denotava toda a irritação que estava sentindo ao notar o interesse de Gabe por Fay. Alex nem mesmo conseguiu disfarçar a aspereza ou o jeito rude com que perguntou. — Eu preciso falar com ela, Alex. — Gabe insistiu. Que porra era aquela de Gabe Szaloki querer falar com Fay e naquele tom de urgência? — Numa hora dessas? Sobre o que, Gabe? É isso o que quero saber. O que você poderia ter para conversar com minha assistente? — ele estava realmente irritado. Alex conhecia a fama de sedutor de Gabe Szaloki e sabia que as mulheres caiam rendidas aos seus pés sempre e por onde ele passasse. — Ela é amiga da minha namorada, Alex. Não estou conseguindo falar com ela de jeito nenhum. Gostaria de saber se ela tem notícias. — Ele respondeu e Alex pode enfim soltar o fôlego que estava retendo. Suspirando cansado de toda aquela situação, ele simplesmente passou as mãos pelos seus


cabelos e admitiu. — Então somos dois, Gabe. As duas devem estar juntas em algum lugar desta cidade e eu malditamente também não sei aonde. Fay pegou uma semana de férias do escritório. — Ele disse a Gabe e em seguida passou o número do telefone de Fay. Alex realmente esperava que Gabe obtivesse algum retorno de Fay e da amiga que Gabe alegava ser sua namorada. Ao que parecia os dois também estavam no mesmo barco naufragando no amor. Esperava que seu amigo tivesse mais sorte que ele. Ele já havia resolvido que por fim daria o espaço que Fay queria. Daria a liberdade que ela alegava precisar. Ele a deixaria sair de sua vida e tentaria seguir em frente. Ele não podia se entregar à autocomiseração. Respeitaria o limite que Fay impusera, esfarelando o coração dele no processo. Ainda que aquilo fosse a coisa mais difícil que ele já tenha decidido fazer.


Capítulo Trinta e um Alguns dias se passaram e o toque insistente do celular de Fay estava realmente incomodando os animais da fazenda. Durante toda a tarde seu celular orquestrara uma sinfonia de canções que delatavam quem era o interlocutor do outro lado da linha. Seu coração deu pulos diversas vezes ao toque, mas quando via as ligações, ficava desolada por não ser ele. Tentou controlar-se a todo custo para não voar em direção ao celular e enfim aceitar qualquer migalha que ele quisesse lhe oferecer depois dela ter sido tão estúpida. Aquele toque, porém, era distinto e marcante. A música que soava mostrava que seu pai estava do outro lado da linha. — Pai? Como as ligações entre eles eram proibidas e monitoradas, Fay estranhou que seu pai ligasse novamente em tão pouco tempo. Eles sempre espaçavam suas ligações para burlar qualquer tentativa de rastreio por parte do governo em ver que eles continuavam se comunicando clandestinamente. — Pimentinha — o pai disse e o tom saudoso em sua voz trouxe lágrimas aos olhos de Fay. — Oi. — Oi, querida — ele disse e suspirou. — Eu liguei porque eu soube do que aconteceu. — Sobre o vazamento da lista? — Fay sabia a resposta, mas mesmo assim ela fez questão de saber. — Sim. O Sr. Johnson me procurou tentando sondar e saber se nós mantínhamos contato de alguma maneira. Ele me explicou todo o ocorrido e o que o governo está disposto a fazer. Disse que nunca mais soube notícias de você. — Pai, eu não estou nem aí para o que o governo está disposto ou não a fazer. A minha função eu fiz há anos atrás quando dei aquele testemunho maldito. — Fay podia sentir o ódio entrando em ebulição. — A incompetência foi deles. Será que eu tenho que pagar por isso pelo resto da vida? — Filha, o que você fez foi o correto, meu bem. E eu entendo e aceito a postura do governo em querer guardar sua segurança porque eu sou egoísta o suficiente para querer que você continue viva e bem. Fay sentiu o aperto em seu peito. — Eu sei, pai. Mas não quero mais viver assim. Tem que haver um basta, um jeito. — Ela disse e sentou-se na cerca de madeira que rodeava a fazenda. — Eu construí uma nova vida como Fay


Williams, eu conquistei meu espaço, eu... eu...conheci alguém... Um silêncio constrangedor fincou-se entre os dois. — Um conhecer alguém exatamente como sua avó Lianna falava e acabou encucando na sua cabeça? — o pai falou, mas Fay pode ouvir um sorriso em sua voz. Fay olhou para o pasto verdejante que se estendia à sua frente. A cor recordou os olhos de Alex. — Acho que sim, pai. — Acha? — o tom de seu pai era incerto. — Esse tipo de coisa não se acha, minha filha. Temse certeza. Quando duas almas afins se encontram, o reconhecimento é imediato, a conexão é instantânea. Nossa herança irlandesa nos garante crer em toda a magia do amor à primeira vista e do amor eterno. — O pai parou para respirar. — Eu nunca mais pude amar outra mulher como amei sua mãe. Quando ela se foi, levou um pedaço do meu coração e da minha alma junto. O vazio que passei a sentir era tão intenso que acabei me tornando uma casca vazia. Fay engoliu em seco diante das revelações de seu pai. Ele nunca antes havia proferido um diálogo tão longo. — Se o que você sente agora neste instante, ao imaginar sumir da vida desse rapaz, é um desespero maior do que o que você acharia que poderia suportar, se você achar que seu eixo saiu do equilíbrio e passar a não enxergar mais as cores do mundo, então filha... Esse é o seu amor verdadeiro. Uma lágrima sorrateira desceu pelo rosto de Fay. Enquanto seu pai falava, tudo tomava forma em sua cabeça. — Não aceite que sua vida seja definida por outros. Faça o que tiver que fazer, mas fazendo sempre por você. Viva sempre o hoje, filha. Como se o amanhã não existisse. Isso já se provou que muitas vezes o amanhã pode nos reservar surpresas indesejáveis. Aquele discurso de “viva o hoje” ela já ouvira de Arthur. Seu pai somente respaldara sua decisão que já estava tomada no fundo de seu coração há muito tempo. — Okay, pai, — ela disse e sorriu. — Obrigada. Por tudo. — Me mantenha informado, filha. Sempre em seu coração. Grá Síoraí. — Mé freisin, Athair. Os dois desligaram ao mesmo tempo e o coração de Fay quase saltou de seu peito em tamanho alívio. Ela sentia-se flutuando agora. Correndo para dentro da casa da fazenda ela subiu apressadamente as escadas e começou a organizar suas roupas. Ela não deixaria mais nada ser um empecilho à felicidade dela. Fay decidiu que voltaria urgentemente aos braços de Alex e se entregaria completamente em suas mãos. Não somente seu corpo. Mas também seu coração. Pediria desculpas, rastejaria pela calçada, lamberia o motor de sua moto... Respirando audivelmente ela apanhou seu celular e com toda pressa possível discou o número que a deixaria mais perto de seu Alex. Quatro longos toques, depois Fay sentiu faltar seu chão. — Alô? — perguntou uma voz feminina. Fay olhou para o visor de seu celular para ter certeza que o número ali registrado era o de Alex. — Ahhh, esse número é do Alex? — perguntou incerta.


Um silêncio prolongado e uma resposta curta. — Sim. — Eu, ah, poderia falar com ele? — Fay sentia uma raiva latejando por todos os seus poros, mas se recusava a tirar conclusões precipitadas, embora seu coração estivesse em pleno ritmo de taquicardia agora. — Não, querida. Ele está no banho. — Fay a podia ouvir falando tranquilamente. A voz tinha um tom bonito, jovial, delicado. Será que a mulher também era assim? — Você quer deixar recado? Eu digo que você ligou. Se ela não estivesse enganada de todo, Fay tinha certeza que conhecia a identidade da vadia. A voz parecia familiar. Com toda certeza devia ser a tal Lory H. Pilori. Fay riu sozinha de sua piada interna e do apelido que caía bem na individua. — Não precisa. Eu mesma dou o recado. Com isso, Fay desligou o telefone na cara da mulher e mordeu o lábio para segurar um xingamento. De acordo com Kate e Lana, naqueles poucos dias em que estavam juntas novamente, a dívida de Fay com o cofrinho dos palavrões era maior que a dívida pública do estado. Remoendo o que faria a seguir, Fay jogou suas roupas que já estavam embaladas, de volta às gavetas. Ela não iria ainda. Daria a Alex um bem merecido chá de cadeira sentimental. Se bem que ela fizera a merda maior. Ela não estranharia se Alex quisesse que ela experimentasse um chá de cadeira.


Capítulo Trinta e dois Na manhã seguinte, Fay viu uma ligação perdida de Alex em seu celular. Achou por bem falar novamente com ele cara a cara. Aproveitou o momento e enviou algumas mensagens de texto para Arthur. Fay apenas espreguiçou-se na cama macia e deixou que seu cérebro acordasse plenamente antes de se ajeitar e descer para tomar o café da manhã com suas amigas, antes que as duas entrassem ali com um balde de água fria. Vestida apenas com uma camisa de flanela e um par de meias quentes, Fay prendeu os cabelos num rabo de cavalo mais bagunçado do que suas próprias mechas e bocejou sem a menor discrição. — Bom dia, madrugadoras — ela disse e sentou-se se estatelando na cadeira ao lado de Kate. — Bom dia, adolescente. — Kate disse e riu. — Meu Deus, Fay. Você deve estar com seus hormônios enlouquecidos. Você consegue dormir mais do que os adolescentes desta cidade. Lana riu e a Sra. Mildred acompanhou o coro. — Isso é verdade, minha querida. — Ela disse. — Porém, pela carinha de cansada que você chegou aqui, você bem que estava precisando, não é mesmo? Fay concordou com a cabeça e pegou o copo de leite que a mãe de Lana lhe oferecia tão gentilmente. Ela não conseguia se lembrar quando fora a última vez que sentira este aconchego tão sublime que era a rotina familiar e o calor de uma mãe. — Então, qual é o plano para hoje? — ela perguntou abocanhando um pedaço de pãozinho de canela. — Campeonato de tetas de vacas? Disputa de velocidade de tratores? Quem rastela mais rápido? Todas riram na cozinha. Fay era fácil assim. Mesmo estando visivelmente chateada com alguma coisa, ninguém conseguia ficar impassível em sua presença. — Eu voto por um racha de tratores. — Lana respondeu. — Você não pode, Lana Banana. Essa sua barriga nos obrigaria a pegar leve com você e isso seria totalmente injusto. — Fay disse. — Concordo. Tetas de vacas eu e Lana já competimos hoje mais cedo e não foi nem um pouco agradável. — Kate respondeu fazendo cara de nojo. Fay riu cuspindo leite na mesa. — Desculpem... — ela disse tentando se controlar e limpar a bagunça. — Estou tentando imaginar a Kate tão elegante ordenhando uma vaca.


Kate jogou em Fay um pano de prato. — Ei! Pois saiba que a Sra. Mildred disse que eu ordenho muito bem, não é mesmo? — Sim, querida. Você só desgasta a pobre vaca com o tempo em que demora a pegar o jeito, mas Emmy nem sequer se deu conta. — Emmy? — Fay perguntou erguendo a sobrancelha. — A vaca. — Lana respondeu e acariciou sua barriguinha delicada. — Estaremos tão parecidas em breve... — ela disse com um suspiro e mais uma vez as três caíram na risada. Ao longo do dia, refletindo sobre sua próxima ação de “combate às vadias”, Fay caminhava em direção ao celeiro quando seu celular vibrou no bolso traseiro. Olhando o número desconhecido que estava ligando há algum tempo, moveu-se para desligar novamente o telefone. Mas ao pensar que poderia ser o Sr. Johnson, resolver atender pronta para esculachar. — Alô? — perguntou. Uma voz que ela nunca imaginaria ouvir do outro lado falou e seu tom era desesperado. — Fay? Sou eu, Gabe. Não, por favor, não desliga — ele pediu. Bufando de raiva, em parceria e compadecida com sua amiga Kate, ela deixou claro que o ódio também vinha dela. — O que você quer, cara? E só atendi essa ligação porque não reconheci o número. Se soubesse que era você o teria bloqueado. — Fay respondeu revoltada. — Fay, eu preciso falar com a Kate. Onde ela está? Ela podia ouvir o desespero na voz de Gabe Szaloki. Imaginar um homem tão poderoso quanto aquele, num tom de voz onde praticamente ele clamava por misericórdia, fez com que ela dialogasse com ele. — Aaaah, agora você está preocupado e com pressa para conversar, é?! — Fay zombou. É óbvio que ela não perderia a oportunidade de espezinhar. Ainda mais porque estava do outro lado do telefone e não tinha que encarar aqueles olhos perscrutadores. — Fay, estou falando sério. Onde vocês estão? — ela podia agora ouvir a irritação nítida. — Não te interessa, Gabe. Não volte mais a nos procurar, — disse se preparando para desligar a ligação. Era o que deveria ter feito. Mas seu coração mole e amanteigado por cenas românticas a fez prosseguir. Ela estava se parecendo com Lana, derretendo-se por uma cena emotiva nas novelas que costumavam assistir. — Eu a amo, Fay — ele disse num tom que não deixava dúvidas a Fay da veracidade de suas palavras. Fosse o que fosse que o motivara a ser cruel, deveria haver uma razão. — Quero consertar as coisas com ela e ter uma segunda chance. Fay ficou em silêncio por alguns instantes. O que era raro, dadas as circunstâncias. Girando uma mecha de seu cabelo ruivo na ponta de seu indicador, ela olhava suas amigas ao longe rindo e conversando com os cavalos. Ela entendia muito bem os sentimentos dele agora. — É sério o que está dizendo? — ela quis confirmar. — Sim. — a resposta foi tão contundente que Fay nem sequer precisava de outra alegação.


— Ela não quer mais ver você e o que estou prestes a fazer pode colocar em xeque minha amizade com ela. Mas vou confiar em você. Preste atenção no que vai fazer. Estamos fora da cidade e voltaremos no final da semana. — Vocês não podem voltar antes? — ele pediu desesperado. Homens. Depois que viam a besteira que fizeram queriam corrigir rapidamente e passar uma borracha pela situação. — Não, não. Vocês dois precisam de mais tempo sozinhos para pensar nas coisas que aconteceram. — Ela disse e quase não conseguia responder pelo ritmo frenético com que ele a interrompia. — Não vou deixar você falar com ela agora e nem saber onde estamos... — O Alex também está à sua procura... Pode ser algo do trabalho... — O quê? Ah, fala sério, manda o Alex catar coquinho no asfalto. — Ela disse categórica. Alex era seu assunto e isso seria resolvido na hora certa. — Olha, enquanto a poeira abaixa e vocês esfriam a cabeça, você devia... Depois de passar todos os detalhes do voo em que chegariam, Fay desligou o telefone e caminhou para suas amigas, com as mãos despretensiosamente nos bolsos de trás. — Ei. Sua mãe sabe que você bate papo com os cavalos? — ela perguntou à Lana. — Claro. Desde pequena. — Ela respondeu. Fay olhou para os cabelos loiros de sua amiga. Trançados como estavam e com as botas características das garotas fazendeiras, ela parecia a típica imagem da mocinha interiorana, jovem e inocente. — Kate. Precisamos preparar nossa volta. — Ela disse e observou a reação de sua amiga. Kate estava aflita porque sua situação mal resolvida com Gabe a deixava em suspenso. E Fay agora não sentia nenhuma culpa por dar um empurrãozinho ao relacionamento da amiga.


Capítulo Trinta e três Depois de um voo tenso do Kansas à sua saudosa cidade, Fay arquitetava seus passos, sem esquecer que se Gabe Szaloki levara seu plano ao pé da letra, então sua amiga teria uma surpresa a esperando. Fay esperava ardentemente que ela também pudesse ter sua surpresa. E que esta fosse agradável. “Passageiros do voo 3567, desembarque pelo lado direito, portão C.” Voltando a atenção para o universo em que habitavam, Fay empurrou uma Kate catatônica e ainda abatida. Mesmo com o tempo maravilhoso que passaram no Kansas, ainda assim, com a volta à realidade, Kate mostrava nitidamente que estava longe de estar bem. — Ouça, Kate, é o nosso portão. Vá em frente enquanto eu resolvo o problema das nossas malas. A comissária de bordo veio me falar agora que elas foram extraviadas e só chegam amanhã. Você acredita em um lance desses? — ela disse esperando que Kate topasse e resolvesse seguir o plano elaborado com Gabe. — Tem certeza, Fay? Vou com você — disse Kate. — Não, não precisa. Vai indo para casa. Se precisar de algo, eu te ligo. Depois daqui preciso passar em outro lugar antes de ir para casa. — Ela disse e piscou enigmaticamente para Kate. — Outro lugar, é? — perguntou Kate, curiosa para saber se Fay iria à procura de Bergman e como seria o reencontro deles. Se não conseguiu seu final feliz, pelo menos que Fay conseguisse o dela. — É. E vá logo embora, enxerida, já está acumulando uma fila atrás de você. — Fay a empurrou e viu a amiga partir com a cabeça baixa. Claro que o lance das bagagens fora um arranjo bem feito com a comissária, amiga de uma conhecida da faculdade. Conhecer tantas pessoas era bom. Às vezes acabava ajudando num momento como esse. Na esteira das bagagens, Fay se ocupou em apanhar o mais rápido possível, sua bagagem e a de Kate, colocando-as no carrinho do aeroporto. Saindo por outro portão, para que não corresse o risco de esbarrar em Kate e em Gabe em sua tentativa de resgatar o perdão de sua amiga, Fay acenou por um táxi e rapidamente forneceu ao motorista o endereço onde ela precisava estar com o máximo de urgência possível.


Alex estava trabalhando em um processo em seu laptop quando ouviu a campainha estridente de sua casa. Ele prendeu os cabelos com o elástico e dirigiu-se à porta. Quando abriu, seus olhos depararam-se com a visão que almejava por todos esses dias infernais da semana. Fay estava parada com as mãos na cintura, numa pose beligerante, típica dela, e duas malas atrás de si. Seu coração deu um pulo em ansiedade. — Oi. — Era incrível, mas a única coisa que ele queria era puxá-la em um abraço saudoso e um beijo caloroso. Notar esse impulso ainda tão forte dentro de si o deixou um pouco deprimido. — Você fez a barba! — ela falou impressionada. Ele sorriu com o espanto dela. Fay pode ver que ele estava constrangido e corado como um garotinho. — Kate tinha razão. Você parece um integrante de boyband, com um rostinho tão doce, — ela disse passando a mão por seu rosto liso. Ele pegou suas mãos gentilmente afastando de seu rosto e disse: — Vou levar isso como um elogio, por você estar me achando mais jovem. Fay estranhou aquele comportamento frio e nem um pouco esperado. — Em primeiro lugar, quero dizer que a conversa vai ser longa. Em segundo, que provavelmente eu vá te bater, porque você merece e vai ter que me dar explicações sobre a presença daquela vadia na sua casa — ela disse atropeladamente. — Em terceiro, eu espero que você ainda esteja me esperando. Ela não imaginava a resposta que ouviria. — Não estou mais, Fay.


Capítulo Trinta e quatro Alex apanhou o braço de uma Fay completamente atônita e a incentivou a sentar-se no sofá de sua sala. O brilho marejado nos olhos dela, quase foi o suficiente para que Alex mandasse tudo às favas e simplesmente a pegasse no colo e nunca mais a deixasse sair. Somente depois de alguns instantes, enquanto tentava recuperar a fala e não chorar diante do homem que amava, mas que ela mesma dispensou tão friamente, Fay achou que ao menos lhe devia a verdade sem retoques. — Queria explicar porque sumi sem dar explicações. Não foram familiares doentes. — Sua voz estava saindo estrangulada. — Foi o que eu pensei quando ouvi isso da minha secretária ao assinar sua licença. Retornei sua ligação quando vi que me ligou, mas você não me atendeu. O que aconteceu, Fay? — ele perguntou. Agora era a deixa que ela precisava para colocar pra fora tudo o que devia falar. — Quanto ao meu processo de evaporação... — ela começou e parou, sem saber por onde iniciar. Alex ficou em silêncio enquanto Fay buscava as palavras corretas para explicar tudo desde o início. Era claro que Alex faria conjecturas, já que o homem era conhecido por seu faro excepcional. Na verdade, Fay agora enxergava tudo cinza. Perdera a vivacidade que lhe era tão característica e simplesmente não sabia como conseguiria falar sem desmanchar-se na frente dele. — Você continua sofrendo ameaças por conta daquele processo, Fay? — ele perguntou e mexeu-se no sofá, fazendo com que Fay se ajustasse novamente em uma posição mais confortável. Saindo do transe em que se encontrava, ela respondeu catatônica: — Não, Alex. Quer dizer... Nada relacionado àquele processo de Dorchester. — Ela disse e passou as mãos nervosamente pelos cabelos. — É aqui que entra a longa história da minha vida. A que me definiu em muitos aspectos. Alex podia sentir que algo seria revelado. Ele só não esperava nunca que fosse naquele patamar que viria. — Eu...ah...veja bem...eu tenho empatia com casos que envolvam Enquadrinhamento de Proteção a Testemunhas — ela disse e engoliu em seco. — Eu ...eu sempre fiz questão de tentar me envolver em casos que se assemelhassem ao meu. Um silêncio imperou na sala enquanto Alex juntava as peças do parco relato de Fay.


— Ao seu? — Eu sou inserida no programa de proteção às testemunhas desde que eu tinha quatorze anos, Alex. — Ela disse e mexeu as mãos nervosamente em seu colo. Naquele instante ela sequer olhava para ele. Suas memórias estavam longe. — Eu testemunhei um crime, num beco de Nova York, quando era adolescente. Sempre fui atrevida e quando era mais novinha eu me sentia mais um moleque do que uma garota — ela disse e riu sem nenhum humor. — Estava para sair do beco quando tive que me esconder por causa de uma briga que estava acontecendo com três homens. Um deles estava armado, enquanto o outro batia sem dó no terceiro cara que estava caído no chão. Alex percebeu que Fay estava tremendo. Ele a puxou para o seu colo e apanhou o cobertor que estava ali perto. Enrolando seu corpo frio com a manta, ele a incentivou a continuar. Claro que aquele gesto era apenas para dar conforto à alma atormentada que Fay parecia estar lidando. — O...o cara...que estava armado... — ela fechou os olhos. — Ele...simplesmente deu um tiro à queima roupa no outro cara, numa atitude fria e completamente desprovida de remorso. — Ela disse e engoliu em seco. — Ai, Deus, odeio relembrar... — Tudo bem, Fay. Tudo ao seu tempo, querida. Se você quiser parar... — Não. Eu prefiro terminar. Já que comecei. — Fay olhou nos olhos preocupados de Alex. — Ele ainda deu mais três tiros para confirmar o assassinato, como se um tiro que explodiu o cérebro do cara não tivesse sido o suficiente. Alex a abraçou mais forte. Ele estava agora tentando visualizar uma Fay adolescente, jovem e alegre tendo que testemunhar uma cena cruel como a que ela narrava. — Eu apenas fiquei ali... — ela disse em um fio de voz. — Eu não fiz nada. Apenas fiquei lá, olhando. Ela disse e suspirou ao sentir as mãos de Alex a afagando. — Fay, você não poderia ter feito nada, — ele tentou clarear as ideias de Fay. — Você teria se colocado em perigo até mesmo maior do que o homem. Você já pensou o que eles poderiam fazer com uma garota como você? Fay olhou apaticamente para Alex. — Já pensei, quer dizer, odeio pensar... Sequer me lembrar... — ela disse e deitou a cabeça no vão do pescoço de Alex. Ali ela sentia-se tão protegida. — Eu tento racionalizar, mas meu cérebro fragmentado luta contra isso. Ainda consigo me ver gritando para aqueles caras pararem com aquilo, os caras possivelmente correndo assustados e o cara ainda estar vivo. Embora ele fosse pior que a escória, um traficantezinho fuleiro que estava tentando passar a perna no traficantezão. Alex agora podia entender bem o porquê de ela ter sido inserida no Programa. Provavelmente o caso era complexo o suficiente para desbaratar algum esquema grandioso. — Por isso que você às vezes tem um sono agitado ou dorme pouco —ele falou como que para ele mesmo e pediu para ela continuar. — Só o que sei é o que eles relataram depois. Quando a polícia chegou e me encontrou ainda escondida, eu estava em choque, completamente suja do sangue que havia escorrido do corpo do cara e sujou meu tênis. — Ela disse. — Eu via o rastro de sangue descendo na minha direção e não conseguia me mexer... — Daí vem sua fobia com sangue, não é? -— Alex a abraçou apertado.


— É. Eu congelei, entende? — ela olhou desesperada. — Eu acho que fiquei lá por horas, sei lá, minutos. Só sei que saí dali em estado de choque e somente duas semanas depois foi que a polícia conseguiu meu depoimento completo e...quando eu revelei o nome dos criminosos, eles acionaram F.B.I, CIA, Interpol, Scotland Yard.... — ela disse tentando fazer brincadeira para descontrair. — Sei lá, Swat. Existem mais forças policiais conhecidas no mundo? — ela questionou e riu. Alex riu com ela, tentando amenizar o impacto das informações que ela lhe trouxe. — Foi uma zona, sabe? — ela disse e Alex viu que sua Fay estava saindo do transe que o relato a colocara. — Com meu testemunho eu teria que entrar no programa de proteção à testemunha. O cara era um dos grandes peixes, mandava e desmandava numa área inteira de Manhattan e tinha conexões no mundo inteiro. Ou seja, ele era um figurão. Alex aguardou o que ainda estava por vir. — Eu tive que deixar de ser quem eu era ali. Tive que abandonar uma vida inteira. Tive que abandonar meu pai. — Ali foi quando Fay começou a lacrimejar. — Eu perdi tudo, Alex. Perdi minha identidade, perdi tudo. Eu deixei de ser Faith Maximilliam, para virar Fay Williams. Por mais que os nomes fossem parecidos eu ainda me sentia outra pessoa. Meus laços, minhas amizades, meu sangue. Era como se tivesse deixado de existir — ela disse e limpou as lágrimas com a manga da camisa de Alex. E riu. — Desculpa por isso... — Sem problema, continue. — Ele incentivou. — Nunca mais vi meu pai. Depois do julgamento, o que me lembro é ser arrastada por um agente do governo e colocada numa van, tentando tocar pela última vez a mão do meu pai. — O pranto de Fay era sentido. — Dali eu fui enviada para diversas cidades, em lares escolhidos a dedos pelo governo, sitiada em lugares ermos e improváveis de ser encontrada novamente. — Mas mesmo assim eu consegui fazer contato com meu pai, alguns anos depois. Eu burlei a fiscalização intensa que existia. Meus números e ligações eram controladas, mas como sou muito mais esperta que eles, eu consegui fazê-los comer pó e voltar a ouvir a voz do meu Athair. O coração de Alex condoeu-se com o que a Fay garota tivera que passar para se tornar a Fay mulher. — Eu refiz minha vida, mandei o governo ir para a.... — ela parou o que ia dizer. — Estou tentando monitorar meu nível de palavrões, já que, de acordo com Kate e Lana eu estou com uma dívida grande. Daria pra comprar um apart-hotel em Dubai, acho. Os dois riram tentando voltar a uma atmosfera mais alto astral. — Terminei a escola, me aventurei por todos os lugares possíveis e inimagináveis e nunca mais refiz laços afetivos com ninguém. Até conhecer a Kate e a Lana, na faculdade. Elas conquistaram meu coração e acabei me vinculando a elas. Mas nunca tinha revelado nada disso a nenhuma delas, entende? — Alex concordou com a cabeça. — Eu tinha o maior medo de expor minhas amigas ou a mim mesma. Depois eu me apeguei ao Arthur, na Associação de Dorchester e... Alex continuou olhando para sua Fay que não afastava aquele olhar azulado de seus olhos. Ele não sabia mais o que ela poderia lhe dizer. — Você sabe que se na minha vida tiver que dar merda, ela dá ao cubo, não é?! — ela perguntou. — Aonde é mesmo o banco que você tem que fazer os depósitos por conta de cada palavrão


falado? — ele perguntou para aliviar o clima. Fay riu. E esperou. — Fay. Fala logo. — Ele estava completamente agoniado pela longa espera. — Eu fui procurada novamente pelo governo. Alex engoliu em seco. Ele só poderia imaginar que era algo ruim. Ele conhecia os trâmites da lei, conhecia os casos que circulavam nas promotorias do país, nos pequenos “incidentes”. — O agente que foi responsável pelo meu deslocamento anos atrás voltou a me procurar para dizer que de alguma maneira a lista de testemunhas daquele caso em questão vazou e que minha identidade poderia estar comprometida. Alex esperou e apenas continuou olhando para Fay. — Eles querem me deslocar de novo, e eu mandei o Sr. Johnson ir plantar batatas em Idaho — ela disse simplesmente. — Mas daí, nessa semana que estive fora, fiquei com Kate e Lana, em Kansas. Cheguei à conclusão de que até eu ter tempo para pensar no que fazer, ficarei aqui. Alex continuava emudecido e sem ter qualquer reação diante do que Fay expusera. Se o governo dos Estados Unidos estava intervindo no caso, querendo realocar uma testemunha chave de um grande caso, isso só poderia significar que falhas surgiram no sistema e que Fay poderia estar em um perigo muito maior do que ela poderia imaginar. Quando um fio corrompido era encontrado dentro do próprio sistema governamental, algumas evidências de falhas e fracassos eram devidamente “ajeitadas”, o que para um bom entendedor seria o mesmo que eliminadas. Ou seja, se Fay estava sendo contatada por um agente do governo, de maneira imediata e burlando toda a burocracia que deveria existir através do sistema judiciário, significava que algo deveria ficar encoberto. Agora Alex se perguntava o que seria este algo, e como ele poderia acionar seus contatos para ajudar Fay a resolver aquela pendência. — Fay. Você chegou a conversar com este agente pessoalmente? — Alex perguntou. Fay se remexeu e apoiou o queixo nos joelhos enquanto mantinha-se fechada como um casulo. Era uma forma dela tentar se proteger do que lhe era desconhecido. — Somente por telefone. — Ela respondeu apática. — Quer dizer, na época do caso em questão eu realmente tive bastante contato com ele, mas agora são apenas telefonemas perturbadores que venho recebendo dele. Fay suspirou audivelmente e olhou para Alex. — Viu quando eu disse que sou indomável? Que sou como um cavalo selvagem que não finca raízes? — ela disse e deu um sorriso triste. — Porque sempre tive medo de algo assim acontecer. Quando eu estivesse completamente feliz, haveria um furacão que devastaria meu sonho. Alex abraçou Fay. — Fique tranquila, nós vamos lidar com isso. — Ele disse e fez questão que Fay o olhasse nos olhos. Fay concordou com um leve aceno e deitou a cabeça na curva do pescoço de Alex. A esperança brotando em seu peito. — Não consigo sequer pensar em como resolver essa mer... Esse caso. Alex percebeu que Fay estava mais cansada do que gostaria de demonstrar. Mesmo que tenha


estado afastada por alguns dias, ainda assim ele podia ver rugas de tensão no canto de seus lábios, como se o ato de sorrir exigisse um grande esforço. — Eu vou pensar em algo — disse ele e beijou suavemente sua cabeça. — Apenas confie em mim. Ele esperava realmente que pudesse acionar todos os contatos possíveis e imagináveis para resolver aquele problema. Nunca tinha ouvido falar em sua carreira de algo como vazamento de informações, nesse nível. Devia ter algum protocolo a ser seguido e ele ia se certificar sobre isso. — Por conta de toda essa história e sofrimento que passei me separando de pessoas que eram muito queridas a mim, nunca permiti que meu coração se envolvesse com alguém, apenas meu corpo. Pensava ser mais fácil. Sabe a música da Lady Gaga? — Não. Graças a Deus.... — ele disse assombrado. Fay riu e continuou. — Então, “você pode fazer o que quiser com meu corpo, mas com meu coração e alma não”. — Eu nunca me permiti amar ninguém de verdade, Alex. Nunca. Até conhecer você. Eu te amo, Alex. Só a você. — Dizendo isso Fay ergueu o rosto para dar-lhe um beijo, mas Alex afastou sua boca fazendo com que o beijo de Fay resvalasse em sua barbeada face. — Fay...— ele disse e a afastou de si. — Você não queria que eu assumisse meus sentimentos, Alex? Que fosse sincera com você? Estou fazendo isso, pedindo desculpas pelo que aconteceu da última vez que nos vimos. O que mais posso fazer? — Você me magoou. — E agora você está com o orgulho ferido e quer revidar? — Fay levantou-se do sofá, agitada. — Eu quero provar para você que eu tenho mais para dar. Não sei por onde começar, mas vou tentar! — ela disse apressadamente. — Quero te fazer feliz — ela murmurou, sentindo-se derrotada. Okay, acrescente a isso a sensação de humilhação decadente e pronto. — Fay, eu sou a única pessoa que pode fazer isso. Imagina o peso que eu estaria colocando nas suas costas ao te fazer responsável pela minha felicidade? Só eu posso fazer isso por mim. Aliás, é o que cada um deve fazer por si. — Os casais se completam, é assim na vida, — ela falou, um pouco sem pensar. Só sabia que queria tê-lo ao lado dela. — As pessoas nascem inteiras e não pela metade, para serem completadas umas pelas outras, Fay. É ótimo encontrarmos ao longo do caminho pessoas com quem tenhamos afinidades, que sejam verdadeiros companheiros. Mas exigir que as pessoas que nos apaixonamos sejam como gostaríamos que elas fossem, isso é outra história e não funciona para mim. — Não estou entendendo você — ela falou, — Eu te amo, isso é o que importa, não é?! — exclamou Fay aflita. — Eu só não acredito em você agora. Por conta do passado que teve, você viveu fechada para vida — ele observou a expressão dela e esclareceu, — não me olhe assim. Não estou desmerecendo o seu sofrimento e você sabe que minha vida também não foi um mar de rosas! Mas a gente precisa seguir em frente. Você criou uma vida de ilusão e você não é o que aparenta ser: leviana, irresponsável, promíscua... — Fay agora estava com a face pegando fogo.


— Eu não vou ficar aqui escutando isso. — Fay disse começando a recolher suas malas. — E aí está. Você foge quando é confrontada e não encara os problemas de frente. Quando você disse para mim que o que tínhamos era só sexo, não era essa Fay aparente que você também viu? Eu cansei de esperar, de ter paciência, de correr atrás. Se eu te amo? Sim, amo. Mas sinceramente? Não acho que nossa relação iria para algum lugar. Eu já tenho quase trinta e cinco anos e preciso seguir com a minha vida. — Eu posso mudar, Alex. — Fay disse desolada. — Fico feliz que tenha decidido mudar, buscar enxergar quem você realmente é. Confiar nas suas amigas e ficar. E eu aprecio sua confiança em mim também. Você pode contar comigo. Eu quero ser seu amigo e espero que você tenha certeza que só quero o melhor para você. Nós vamos resolver juntos essa situação com o agente do FBI. Já ouvi na promotoria que o promotor chefe da Unidade de Fraudes está gostando do seu trabalho. Não jogue tudo para o alto. Fique. Naquele instante imerso no silêncio, os dois apenas se olhavam num duelo de emoções. Fay estava arrasada por compreender que fizera a maior burrada de sua vida. Alex estava incerto se o que estava fazendo poderia ser a maior burrada da sua vida. O som da campainha soou alto o bastante para despertá-los do momento congelado em que estavam. Alex foi abrir a porta e para grande estupefação de Fay, uma mulher belíssima estava ali. Se ela não se enganava totalmente, ela bem podia dizer que já vira Alex com ela no fórum. A mulher entrou sem nenhum convite, já que não era necessário, aparentemente, e deu um suave beijo na bochecha de Alex. — Olá, querido — ela disse com uma voz sedutora. Fay sentiu vontade de rasgar o terno caríssimo dela. Ela notou quando a mulher a percorreu de cima a baixo com o olhar conhecedor de uma fêmea aspirando competição. O que ela não sabia é que já não havia mais competição. Ela jogara o coração de Alex na lama. E quando tentara resgatar, percebeu que na verdade o coração na lama era o seu e de ninguém mais. Se era para que cada um seguisse sua vida, ela faria aquilo, nem que morresse a cada dia ao ver que ele realmente fizera o que aconselhou. Fay afastou seus olhos dos de Alex com resignação. Ela devia realmente colher aquilo que plantou. Sentindo um nó na garganta grande o suficiente para sufocá-la, ela simplesmente apanhou suas coisas e deixou o amor de sua vida, mais uma vez para trás. Na verdade dessa vez ela estava sendo expulsa sutilmente. Ela não poderia culpar a ninguém além dela mesma. Fora estúpida o suficiente para não reconhecer e dar valor ao amor que Alex lhe confessara. Banalizou todos os sentimentos que ele acreditava que os dois compartilhavam. Aquilo acontecera há o que? Uma semana? Fora o suficiente para que o amor que Alex alegara sentir por ela simplesmente evaporasse? Passando por um Alex envergonhado e uma mulher completamente à vontade com o homem que amava, Fay despediu-se. — Com licença — ela pediu e saiu sem mais nenhuma palavra e antes que as lágrimas que agora caíam soltas pelo seu rosto pudessem ser vistas. Mônica fechou a porta, já que Alex não se movia e o guiou até o sofá. — Sente-se aqui, querido. — Ela disse. — Vou preparar algo para você beber, okay?


Alex sentou-se completamente abatido no sofá, apenas olhando a porta que se fechara há pouco. O que fizera? Teve a chance de tê-la ali, entregue, mas o que ele fizera? Simplesmente a deixara ir. E ferida. Tal qual como ele estava. Valeria à pena ostentar este orgulho masculino e perdê-la? Seu corpo estava inerte, mas sua alma pedia a gritos que se levantasse dali e corresse atrás de Fay, dizendo que seu discurso fora totalmente fajuto e baseado em mentiras que ele mesmo tentara pregar a si mesmo. Seu coração sangrava de dor, porque ele acusara Fay de fugir em qualquer situação, mas ele estava fugindo naquele instante. Alex tinha certeza que a tristeza naqueles olhos que tanto amava, iriam assombrar seus sonhos dali em diante.


Capítulo Trinta e cinco Fay não conseguira dormir na noite anterior, mas ainda estava na cama quando Kate irrompeu seu quarto para conversarem. Seu estado depressivo era visível para sua amiga que por fim, conseguira se reconciliar com Gabe Szaloki. Ao menos um coração estava fora da U.T.I., Fay pensou consigo mesma. — Fay, gostaria de te agradecer por ter dado uma de enxerida. Eu consegui resolver tudo com Gabe ontem e foi graças a você que minha tristeza teve um fim. — Kate disse sentando-se na cama de Fay. — Pelo barulho que vocês fizeram antes de ele ir embora, foi uma comemoração e tanto, hein?! — Fay sorriu fracamente ao ver o rubor de Kate. Apenas para encher o saco da amiga, Fay resolveu agir como agente dupla. — Você não acha que perdoou o cara rápido demais não? Hein? — ela questionou. — Eu teria deixado o cara infeliz por mais alguns dias e só depois eu estenderia minha mão misericordiosa e perdoaria o cretino. — Não consegui. — Kate disse e suspirou. — Eu bem que pensei em fazer com que ele se afundasse na mesma miséria que eu por pelo menos uma semana, mas confesso que não consegui. — Certo — ela estava sentindo aquilo na pele. — Fay, você parece doente, o que aconteceu? — Kate perguntou passando a mão em sua cabeça. — Alex me chutou ontem. — Ela disse e fungou. — Sabe aquela porra de lei da ação e reação? Então... — Por quê? Tem algo a ver com aquela mulher que atendeu ao telefone dele? — Que mulher? Ah, a mulher. Acabei esquecendo de perguntar quem era a vadia. Mas não que isso importe. Eu fui sincera com ele, disse que o amava, mas não foi o suficiente. Ele falou que queria me ajudar, mas como amigo. — Ela disse e sentou-se desajeitadamente na cama. — E realmente uma mulher chegou na casa dele, acredita? Se era a mesma do telefone, eu não sei. Mas isso mostra que ele moveu-se realmente rápido, não é? — ela disse e secou o nariz com seu lençol. Ultimamente ela andava nojenta. — Ele quer ser meu amigo, isso não é o máximo? — Sério? — É. Disse que eu não sou quem aparento ser, uma espécie de “você precisa se valorizar e blá blá blá”. Babaca. — Fay xingou e fungou o nariz mais uma vez. — Enfim, o feitiço virou contra o feiticeiro. Odeio este ditado de merda.


Elas continuaram a conversar e depois Kate avisou que sairia para resolver algumas coisas. Kate estava receosa de deixar sua amiga naquele estado apático, mas decidiu que compraria algumas guloseimas para que as duas pudessem falar mal dos homens durante a noite inteira. Por mais que tivesse se reconciliado com Gabe, ela não poderia abandonar sua amiga naquele momento. E realmente elas precisavam resolver alguns assuntos que viriam adiante. Fay bem poderia imaginar o que seriam esses outros assuntos. Conhecendo a forma de agir de Szaloki, ela só poderia deduzir que ele queria eliminar qualquer fator que pudesse interferir em seus planos amorosos para Kate. O que significava que seu lado possessivo exigiria que Kate ficasse colada com ele quase que 24 horas. O que só poderia significar que ele levaria Kate para sua casa, e a manteria cativa como um leão de chácara. Fay riu porque sabia que ele teria um longo debate de argumentações com Kate e que seria divertido assistir. Seria quase como uma sessão no Tribunal. Naquela mesma noite quando Fay chegou da Associação, pode notar que Gabe e Kate estiveram juntos no apartamento. Havia pratos e copos espalhados pela bancada da cozinha, como se um breve jantar romântico houvesse sido compartilhado. Ainda investigando a cena do “crime”, Fay acabou levando um baita susto quando ouviu a voz trovejante atrás de si. — Guardamos um pouco de lasanha pra você no forno. — Gabe disse com o ombro apoiado no umbral da porta. — Meu Deus! Você precisava ser tão silencioso assim? — Fay disse com a mão no coração tentando averiguar se ele não pularia fora. — Bem que sempre compararam você a uma pantera... — Pantera? — Gabe perguntou com a sobrancelha erguida. — Este termo aplicado à minha pessoa eu nunca tinha escutado antes. Fay riu e pegou uma garrafa de água da geladeira. Gabe continuava a observando. — O que foi? Tem algo no meu cabelo? — ela perguntou. — Não. Eu gostaria apenas de agradecer por sua ajuda, — ele disse e suspirou audivelmente. — Eu pisei na bola com Kate e não sei como faria para ter uma chance de me reconciliar com ela se você não tivesse ajudado. — Você daria um jeito, Dr. Szaloki. — Ela disse e sentou-se na bancada. — Disso tenho certeza. Afinal você é ou não o mais temido advogado do país? Tenho certeza que você perseguiria e advogaria em prol de si mesmo com o mesmo afinco até provar sua “inocência” — ela disse fazendo aspas com os dedos no ar. — Embora eu não tenha achado o gesto inocente, de maneira alguma. Você foi vil e cruel e... — E um cretino de marca maior e etc. — Kate continuou entrando na cozinha naquele instante. — Mas graças a Deus, e a você, eu lhe dei a chance de me pedir perdão por ter sido tão bruto. Kate disse e abraçou Gabe. Fay apenas observou os dois e percebeu que ali estava um casal que realmente merecia ser feliz. A demonstração de amor de um pelo outro nem sequer precisava ser exposta em palavras. Ela ficava escancarada para quem quisesse ver na maneira com que os dois se olhavam. — Meu Deus, meus olhos estão queimando com toda essa demonstração clichê. — Ela disse


coçando os olhos de brincadeira. Kate se ajeitou à mesa e Gabe também, segurando a mão dela com os dedos entrelaçados. — Fay... — Eu já sei, já imaginei e já posso resumir — ela disse e viu que os dois estavam surpresos. — O Gabe aqui vai querer que a minha Kate aqui, — ela disse gesticulando teatralmente. — Se mude para a casa dele o mais breve possível, porque assim ele poderá controlar melhor esta advogada indócil por quem ele se apaixonou. Os dois continuavam de boca aberta. — Não acertei? Fay sempre acerta, meus queridos. Antes que vocês me tragam os sais de banho, eu já estou de banho tomado. — Definitivamente estas suas metáforas vem piorando a cada dia, Fay. — Kate disse. — Mas como você soube? — Kate, querida....está estampado na tua cara e na dele, que diga-se de passagem continua belíssima...— Fay devaneou rapidamente — ... que flores e crianças correndo pra cima e pra baixo estarão presentes em breve... Ela disse e observou quando sua amiga Kate corou. Gabe deu um beijo ardente em suas mãos entrelaçadas, apenas sorrindo com seus olhos. — Pois bem. Isto será resolvido da seguinte maneira...— ela foi falando. — Você apanhe suas coisas, que eu apanharei as minhas também e... — O que? Não, Fay. Não vou embora agora. Você precisa de mim aqui. Eu vou ficar até você estar se sentindo melhor, mas queríamos te avisar que pretendo me mudar. Para a casa de Gabe, na verdade. — Kate disse rapidamente. — Nem pensar que você vai ficar aqui por minha causa. Eu estou bem e sempre que precisar vou até você. Prometo. E pode ficar calma. Eu não vou me oferecer pra ir junto contigo... — elas sorriam e Fay continuou. — Eu vou arranjar algo menor e que caiba no meu orçamento pra morar... — Não! Fay, por favor... Quero que você fique no apartamento! — Kate falou indignada. — De jeito nenhum, Kate. — O apartamento é nosso! — ela falou exaltada. — Não é só meu. Não quero que você saia daqui só porque estou saindo! — Eu sei, Kate. Mas eu nunca aceitaria morar de graça assim, você sabe disso. Meu orgulho irlandês falaria mais alto e uma hora ou outra eu acabaria pirando. — Ela disse e estendeu a mão para que Kate esperasse ela concluir. — Eu realmente não preciso de um apartamento grande como este para ficar. — Fay... — Kate. É sério. Algo menor e mais próximo da promotoria seria ótimo — ela disse e sentiu os olhos marejarem. Ela já sentia saudades do lugar onde passara tantos momentos bons com suas amigas. Acertados os detalhes depois de muita argumentação, Fay enfim conseguiu acalmar Kate e seguiu para o seu quarto. Ela combinou que sairia do apartamento dentro de um pouco mais de um mês até encontrar algo viável, enquanto Kate já seguiria aos poucos com suas coisas para a casa de Gabe Szaloki, já que ele não a venderia mais.


Eles iam ficar em Boston e Kate entraria como sócia minoritária no escritório de Gabe. O sócio dele assumiria a filial que tinham acabado de abrir em Washington e já tinha iniciado hoje suas mudanças. Tudo aconteceu tão rápido, pensou Fay. Uma fagulha de inveja ardeu brevemente em seu peito porque no seu íntimo ela esperava que Alex a quisesse com a mesma intensidade que Gabe demonstrava por Kate. Vivendo e aprendendo. Seu telefone soou com uma mensagem de texto. Onde você está? Arthur.

Ela deu um sorriso e digitou a resposta. Em casa. Voltei de viagem. Amanhã a gente se vê em Dorchester? Fay.

Fay trocava de roupa quando a resposta chegou. Não. Temos que combinar na sexta feira. Preciso falar com você imediatamente. Arthur.

Fay estranhou o tom de Arthur, já que ele nunca demonstrava qualquer sinal de desespero em suas emoções. Ele sempre era tranquilo e calmo em situações de risco. Porque ele parecia agitado? OKay. Até sexta. Lov U.

Ela esperou que uma resposta voltasse, da mesma maneira que sempre voltava quando os dois se falavam. Não voltou nenhuma resposta. Algo devia estar acontecendo com seu amigo. E ela não se chamava Fay se não conseguisse descobrir. Os dias foram se passando e por fim, a fase inicial de treinamento na promotoria acabou e Fay fora efetivada como assistente. Ela ainda teria um longo caminho a percorrer durante o ano, dando assistência em outras Unidades para diversificar o conhecimento e a experiência, mas a fixaram em período parcial na Unidade de Fraudes. O promotor chefe gostou tanto do trabalho que ela realizara ali com a Dra Bauer que em poucos meses a faria encarregada do Arquivo Morto. Casos arquivados pela Promotoria por falta de evidências suficientes para ajuizar ação. Eles esperavam que as releituras de Fay Williams sobre os casos trouxessem novos indícios ou formas de investigação, para que esses casos tivessem uma solução no Tribunal. Se não estivesse sentindo-se tão miserável, ela comemoraria efusivamente aquela pequena vitória. Fay estacionou seu Beatle e pegou suas coisas para iniciar um novo dia de trabalho. A semana estava sendo um inferno. Ela estava sentindo falta das suas amigas no apartamento, de Arthur que estava meio ausente e da Associação, já que só trabalharia lá aos sábados, como voluntária nas aulas de dança e nas organizações dos eventos, sempre que possível. E seu coração ainda seguia na U.T.I. Em coma. Foi muito difícil tomar a decisão de se afastar e se dedicar à promotoria, mas ela optou em seguir seu sonho de ter uma carreira lá dentro. Agora iria focar nisso, se não ia cair na tristeza que sempre sentia ao pensar em Alex. Iria precisar se manter o mais profissional possível. Por mais que ele tivesse falado em amizade, Fay não achava que isso fosse possível. Sentia terrivelmente a sua falta. A dor em seu peito incomodava a cada minuto do dia. E se não bastasse isso tudo, a cena que ela viu logo a seguir diante de si fez seu coração estilhaçar em milhares de pedacinhos. Opa! Que coração? Ela já não tinha um, certo? Ela já devia estar acostumada àquela sensação em seu peito. A mesma mulher que irrompera porta adentro na casa de Alex, naquela fatídica noite, era sua companhia constante. Fay revestiu-se de


muitas doses de vodka no fim da noite, sempre que o via com ela em alguma esquina da promotoria. Sim. Se ela não era uma belíssima promotora... A mulher bonita e bronzeada, vestida com um terno bem cortado tinha acabado de se despedir de Alex com um selinho nos lábios e seguido para a promotoria enquanto ele abria o porta-malas do seu carro para pegar algumas pastas. Fay sentiu a raiva que vinha acumulando subindo do peito para a garganta em ondas. Aprumou-se e se dirigiu até ele com passos firmes até chegar às suas costas. — Bonita sua nova namorada, Dr. Bergman — ela disse ácida e ele se virou arqueando as sobrancelhas, surpreso. — Fay... — Fay, o caramba! — exclamou. — Você se move rápido, não?! Aplica um super discurso todo moralista pra cima de mim e pouco tempo depois está aí, com outra mulher em público. — Ela disse exaltada. — Pouco tempo mesmo, já que antes mesmo de me dispensar tão educadamente naquela noite, você já estava seguindo em frente, de acordo com suas próprias palavras, certo? Fay tentava manter os olhos secos. Ela bateria na sua própria cara se chorasse ali diante dele. — Fay, eu conheço Mônica há anos. Trabalhamos como promotores de crimes na área de direito empresarial da Califórnia antes de eu ser nomeado para cá — ele falou, tentando se justificar rapidamente. — O que? — Fay estava se lembrando de que vira os dois no escritório, pareciam tão à vontade conversando e rindo juntos. Ahá! Aí estava de onde Fay a havia visto antes de ter o prazer de encontrá-la na sua casa naquela noite. — Ela veio para dar um curso de formação e vai ficar por um tempo. Estamos.... — ele parou de falar quando ela levantou a mão para interrompê-lo. — Foi essa mulher que atendeu ao telefone quando liguei para você da fazenda? — ela perguntou subitamente com uma voz que aparentava tranquilidade que ela certamente não estava sentindo naquela hora. — Fay, não vá por aí. — Responde! — exigiu. — Era ela. Mas não... — Alex parou interrompido pelos xingamentos que Fay começara a fazer. — Seu filho da mãe! Bastardo! — ela gritou furiosa, pronta para partir para a briga. — Quase que poucas horas depois de você falar que me amava, você segue em frente esfregando uma mulher na minha cara, é?! — Não faça isso! — ele disse irritado olhando ao redor do estacionamento. — Dane-se! Eu faço como quiser. Deve estar me achando uma idiota, né? Você usou o mesmo discurso de amor com ela? — ela perguntou e seus olhos encheram-se de lágrimas mal contidas. Okay. Agora elas desceriam sem rumo. — Tenho nojo de você. — Não, Fay! — disse ele ao colocar as mãos nos ombros dela, para poder olhar seu rosto. — Você me substituiu em bem pouco tempo por ela e ainda teve coragem de dizer que ainda me amava? Seu mentiroso! — ela falou se livrando de suas mãos. — Nunca mais toque em mim! — ela falou afiada e se afastou dali. Porém, antes de seguir em frente ela falou de costas para ele, com a cabeça abaixada. Ela não viraria o rosto para que ele visse suas lágrimas estúpidas. Embora ele provavelmente já tenha visto mesmo. — Vou fazer como você e seguir em frente também. Obrigada por


me mostrar que meu medo não era infundado. Essa porra de amor não existe. Alex ficou estarrecido observando Fay afastar-se resoluta com as opiniões e impressões errôneas que teve. Só agora sua ficha realmente caiu. Ele a afastou de si quando ela fora lhe pedir perdão e ela entendera que ele realmente seguiu em frente. Mônica aparecera naquela mesma noite, quando Fay abrira seu coração para ele, implorando que ele lhe desse outra chance. Ele mesmo alimentara aquela impressão ao não lutar por ela da maneira que ela merecia. Alex teve plena consciência do grande erro que cometeu. Não era isso o que ele queria? Mostrar que ele seguira em frente? Como ele poderia fazer isso se ela não saía de sua mente e seu coração doía somente em vê-la? Quando Alex abriu mão de Fay, ele imaginou que falar seria o mesmo que concretizar a ideia. Mas viu que era algo surreal. Ele tentava se colocar no lugar de Fay, imaginando encontrá-la com outro cara e só o que vinha à sua mente eram cenas de assassinato e ele julgando a si mesmo. Declarando-se culpado porque o amor fazia essas coisas. A manhã foi terrível para Fay, de tamanha indignação e dor que sentia. Não conseguiu se concentrar nas suas tarefas mais simples e só se sentiu melhor quando saiu para almoçar com o Ben, antes de irem para a reunião que teriam na parte da tarde sobre o caso da Associação. Os dois chegaram juntos ao escritório e quando entraram na sala de reunião, Alex estava numa discussão acalorada com seus assistentes. Seu olhar ergueu-se e Fay pode vislumbrar a centelha de irritação substituída por preocupação em suas íris verdes. Ela sentou-se o mais delicadamente que pode, enquanto Ben apenas repassava algumas notas em seu bloco de anotações. — Temos novidades, Dr. Bergman. — Ben começou a dizer. — Uma operação está marcada para ser executada dentro de uma semana, e acreditamos que os principais líderes das gangues que comandam o tráfico de armas nas baixas regiões de Boston estarão presentes. Logo, seu escritório já pode preparar-se para a ação. Alex pegou sua agenda e anotou algo que Fay teve a curiosidade de ler. — Espero que a defensoria possa estar mais do que preparada para este caso também. — Alex disse enigmático. — Por quê? A defensoria enfraquecida não é bom para nós? — O’Neill, o assistente puxa-saco perguntou naquele tom maçante. — Porque um bom caso ganho é aquele onde não haja margens de dúvidas sobre a aplicação da lei e os direitos civis de cada um. Claro que estes marginais precisam ser presos, mas o veredito deve ser dado mediante provas contundentes de que a sociedade estará se beneficiando com suas prisões. — Ele disse. — Entendo. — Ben disse. — É preciso que tudo seja resolvido à luz da verdade. Nós da polícia só queremos que o crime seja controlado da melhor maneira possível. — Exato. Por mais que tenhamos ganas de enquadrá-los rapidamente no sistema e liquidarmos esta situação, um julgamento adequado deve ocorrer para que não aconteça sequer a hipótese da defensoria recorrer. Fay compreendeu o pensamento de Alex. Ela tinha que admitir, por mais mágoa que agora


sentisse por ele que, mesmo em sua jovialidade diante de um cargo de alta exigência, ele sequer buscava alternativas de se sobressair diante de um caso, mesmo que burlando muitas etapas burocráticas da justiça. Era bastante comum que promotores e defensores selassem acordos de qualquer jeito antes mesmo dos casos chegarem aos tribunais. Alex detestava isso. Durante toda a reunião, Alex tentava fazer com que Fay participasse das decisões que estavam sendo tomadas, mas ela mantinha-se calada, apenas fazendo anotações em seu bloco de notas. Alex reparou que ela sequer conversava com Ben, que tentava a todo custo fazê-la sair do modo cabisbaixo. Depois que a reunião seguiu com mais alguns detalhes sobre a operação, Alex ausentou-se para um encontro no alto escalão e Fay voltou para seu cubículo, apenas desejando que sua vida fosse mais simples e que descobrisse uma forma mágica de fazer com que sumisse toda a dor que sentia em seu peito. Alex saiu da reunião com o diretor de segurança nacional extremamente cansado e irritado. As notícias eram excelentes. O caso estava perto de ser encerrado, o que daria a ele um pouco mais de alívio, já que a Associação e Fay, por conseguinte, sairia do olho do furacão. Ele tinha que confessar para si mesmo que sua mente estava abstraída neste caso e em outros, porque a preocupação com a segurança de Fay era muito maior. Amanhã teria uma reunião com John para averiguar o caso em que ela foi testemunha anos atrás. Esperava encontrar respostas. Ao ver a luz do cubículo de Fay acesa, Alex sentiu a esperança acender na tentativa de vê-la. Porém, ao chegar ali, o que ele vira foi apenas uma sala vazia e sem nenhum sinal dela. Ele queria falar com ela e se explicar. Fazer com que Fay compreendesse que ele não seguira em frente em hipótese alguma. Admitir que teve um envolvimento com Mônica muito antes de vir para Boston. Mesmo que o relacionamento dos dois não tenha ido nada além de uma boa conversa e alguns jantares. Quando Fay sumiu repentinamente, Mônica apareceu em sua casa, alegando que estava de passagem pela cidade novamente. Ele até estranhou a situação, já que achava que o caso em que ela colaborara fora semanas antes. Ela era uma mulher gentil e doce. E demonstrou abertamente que gostaria de retornar do ponto em que pararam anos atrás. Alex, porém, não poderia se enganar e admitir que estava pronto a seguir em frente sem Fay. Por mais que sua decisão fosse aquela, executar o ato era muito mais difícil do que ele pensava. Quando ele falara todo aquele discurso para ela, enquanto ela insistia pelo seu perdão, Alex apenas imaginava que sairia dali em seguida e a procuraria para dizer que aquelas eram palavras vãs. Ele poderia até admitir que queria que ela sentisse na pele a dor que sentiu quando ele se declarou e ela o recusou, fugindo logo em seguida. Como Mônica chegou em sua casa naquela noite, apenas para uma conversa casual de amigos, Alex não seguira seu instinto de sair atrás de Fay imediatamente. Ou seu orgulho ferido. Agora ele via claramente que fora um imbecil. Naquela manhã Mônica havia pedido uma carona de seu hotel, já que iria embora logo em seguida de volta à Califórnia. O beijo que Fay presenciara fora apenas um gesto fraternal entre dois amigos. Analisando os fatos ele acabou percebendo que mais uma vez Fay o vira com outra mulher e deduzira o pior. Mas ele não fizera o mesmo antes, com ela e o detetive Dom Juan? Por mais que ele tenha alegado que sua vontade era seguir em frente, não havia como negar que aquilo era apenas uma balela, e que ele estava apenas esperando um tempo para que Fay realmente


tivesse certeza de seus sentimentos. As imagens e memórias vívidas de seu relacionamento com Fay nos últimos meses invadiam seus pensamentos a qualquer momento do dia. A única coisa que passou pela sua cabeça quando a viu nessa tarde foi a de que pudesse apenas puxar Fay para dentro de seu escritório e matar a saudade e angústia que aquela ruiva colocara nele. Apagar aquele olhar desolado que ele vira e mostrar que seu coração sempre lhe pertenceria. Sentia-se desolado e sem a menor vontade de voltar para casa ao final do expediente. Ligou para Gabe e combinaram de se encontrar no bar do Ray. Ele precisava desabafar com algum amigo. Ao chegar ao bar eles jogaram um pouco de sinuca enquanto Alex contava a Gabe tudo o que aconteceu entre ele e Fay. — E se aquele foi apenas um “beijo de despedida” totalmente fraternal, o que a Mônica fazia na sua casa enquanto você tomava banho? — Gabe perguntou explicando que ficara sabendo deste detalhe por Kate, que recebera o relato de Fay. — Naquela noite nos encontramos no fórum e apenas jantamos. Enquanto tomava banho, ela lavava a louça. Deve ter atendido Fay naquele momento, imagino. Depois disso ela foi embora. E Gabe, eu praticamente só falei sobre Fay com ela. O quanto eu sentia sua falta, o quanto a amava e tudo mais. Lembrando agora, eu acho que pareci bem patético. — Você sabe que mulheres funcionam diferentemente de nós, certo? — Gabe sondou. — Veja bem: Vocês estão juntos no maior affair. Logo em seguida ela vê uma mulher em seus braços aos prantos. Dedução hormonal 1: tem coisa aí. — Gabe falava contabilizando nos dedos. — Logo depois você diz que a ama loucamente, mas ela não aceita as coisas numa boa e toma um chá de sumiço. Alex apenas concorda com a cabeça acompanhando o pensamento de Gabe. — Quando por fim ela decide dar voz ao seu coração, ela liga em sua casa, de noite, e uma mulher atende ao telefone. Dedução 2: Que porra é essa? E essa mesma mulher aparece na sua casa, exatamente no dia em que ela chega para declarar seu amor por você, sendo que você simplesmente diz que agora não a quer. A mesma mulher que ela viu dando-lhe um beijo suave hoje de manhã. Dedução 3: Você seguiu em frente, dias depois de dispensá-la. — Você não fez isso também com Kate, Gabe? — ele disse irônico. — Esfregou aquela mulher na cara de Kate, o que? Um dia depois? Gabe engoliu um gole longo de sua cerveja. — Péssima tática masculina, admito — ele disse. — Somos burros. — Hoje a Fay me fez perceber exatamente isso. A impressão que passou foi totalmente equivocada. Nunca foi minha intenção. Você sabe bem que não sou de jogos. Cometi um erro em não tentar forçar uma reconciliação imediatamente com a Fay. Eu tive a chance em minhas mãos e ... puf!, deixei escapar — ele disse a contragosto. — Não. Eu a expulsei da minha casa. E agora ela me odeia. — Ele disse e abaixou a cabeça. — Eu fiz por merecer. Acabei ferindo-a, do mesmo modo que ela me feriu. E ainda a humilhei, de acordo com sua percepção. A presença indesejada de Mônica em momentos cruciais acabou por fechar meu caixão. — Do pouco que vejo, ou que ela permita que vejamos, já que está bastante reclusa, ela também não está passando um bom tempo e sente uma falta infernal de você. — Gabe disse bebendo sua cerveja. — Todos têm direito a segundas chances, como eu e Kate tivemos e eu sei que ela acredita nisso. Deixe a poeira baixar e converse com ela depois, só não jogue a toalha. — Ele disse dando um tapa camarada no ombro de Alex.


— É, você tem razão. Eu espero realmente que nem tudo esteja perdido. Ou realmente não sei o que será de mim sem ela. — Homem, você precisa parar de beber, isso é Vodka e seu corpo não é um poço sem fundo — disse Gabe depois de três horas de muita conversa com um Alex na fossa, fato nunca antes testemunhado na história da humanidade. — John precisa ver isso, você mal consegue ficar em pé! — Gabe falou ao mesmo tempo em que tirava uma foto de Alex com cabelo desgrenhado mostrando o dedo do meio para a câmera. — Pare... já... com isso, porra. — Alex falou meio enrolado. — Eu a quero, Gabe... Se não posso tê-la, prefiro não viver mais! — Bêbado e dramático! Jamais imaginei que você seria desse tipo. Surpreendente. Cara, sem brincadeiras. — Gabe falou encerrando e pagando a conta. — Vamos para minha casa, você não tem condições de ficar sozinho. — Eu quero bebês ruivos iguais a ela, Gaaaabeee! — ele disse arrastando o nome de seu amigo. — E com grandes olhos azuis... — Cristo, — ele disse mal conseguindo aguentar o peso de Alex até o carro. — Eu não fiquei assim quando briguei com a Kate, sabia? — Nããããooo... Ficou pior, chorando pelos cantos que nem um maricas. Sem comentários, Gabe pensou. — A Fay é a mulher da minha vida e eu não sei o que fazer para ela entender isso. Errei e ela não vai me perdoar Gaaaabe. Me ajudaaa, aaai! — ele disse depois de bater com a cabeça ao entrar no carro. — Ok, depois a gente vê como fica essa história. Agora você precisa descansar. — Gabe disse e olhou preocupado para Alex. — E tomar um banho frio para evitar entrar em coma alcoólico, seu filho da puta.


Capítulo Trinta e seis Depois de ter tratado da ressaca que o invadiu ao acordar, Alex chegou à reunião que marcara com John e esperava que houvesse frutos dali. Conseguir um horário na agenda do juiz John Reynolds era algo extremamente difícil dado às atribuições que o jovem juiz desempenhava. Sua santa secretária Andrea, porém, uma santa aos olhos de Alex, era amiga da secretária do Dr. Reynolds e conseguiu encaixar uma breve reunião com ele no intervalo de alguns de seus compromissos. Ele estava esperançoso que o resultado fosse positivo. John era conhecido por quebrar diversos esquemas no mundo do tráfico e conhecer bem as engrenagens que regiam os processos mais complexos como este. Engrenagens estas que ele como promotor, muitas vezes não tinha acesso, mesmo exercendo um cargo importante no governo. Algumas coisas só poderiam ser alcançadas por figurões muito bem relacionados. E isso John Reynolds era. Como era de uma família muito rica e respeitada em Boston, seus círculos sociais eram amplos e seu poder de influência era algo admirável. Ele esperava que conseguisse vislumbrar uma luz no fim do túnel para o impasse de Fay. — Olá, tenho um breve encontro com o Dr. Reynolds. — Alex disse para a secretária idosa que cuidava das coisas de John Reynolds como um pitbull. — Você e mais aquele tanto de advogados ali... — ela disse sem erguer a cabeça. Quando o encarou, ela o reconheceu e mudou o discurso. — Mas é claro, que para o Dr. Bergman, o Dr. Reynolds conseguiu disponibilizar gentilmente um horário. — ela disse com um sorriso no rosto. — Venha, Dr. Bergman. Por aqui, por favor. Alex seguiu a secretária até as portas imponentes de aço blindado que protegiam o juiz de toda e qualquer ameaça. Atuando em casos como os que ele julgava, seu esquema de segurança era fortíssimo. — Dr. Reynolds? O Dr. Bergman — ela disse e Alex entrou. John Reynolds levantou-se prontamente de sua cadeira e caminhou em direção a Alex para um cumprimento informal. — Alex! Depois da foto que recebi ontem, não imaginava vê-lo aqui de manhã cedo, — ele disse rindo e apertando a mão de Alex. — Embora eu deva admitir que você parece um lixo. — Nem me fale, John. — Alex riu sem graça e já planejando mentalmente uma vingança contra Gabe. — E que dificuldade de marcar uma reunião com você! Está muito cheio de compromissos.


Daqui a pouco estará nos dizendo que virou candidato ao Senado. — Quem sabe, Alex? — ele disse brincando. Ambos sentaram-se na ala de sofás que havia na sala. — Entendi que você precisava falar comigo sobre um assunto urgente. — Ele iniciou a conversa. Alex observou o juiz e viu que agora ele assumira totalmente seu lado magistral, mesmo ainda agindo na informalidade dos nomes. — Sim. Estou com um impasse de grande importância para resolver e precisava de um auxílio seu. — Ele cuidou em não demonstrar desespero. — E qual seria este impasse? Alex relatou todos os fatos do caso de Fay, revelando todo o trâmite que fora executado, bem como os fatores burocráticos que o agente do governo, chamado de Sr. Johnson por Fay, alegava serem exigidos. — Em primeiro lugar vocês devem confirmar a identidade do agente. Necessariamente ele deve ser um U.S Marshal, estar listado no programa e ter uma ficha mais do que impecável. — O juiz foi falando. — Em seguida, deve ser averiguado diretamente com o Secretário de Justiça se a ordem partiu diretamente dele. Ele é o único com autoridade suficiente para demandar um documento adequado. Alex continuava atento e fazendo algumas anotações enquanto o Dr. Reynolds listava os fatores principais. — Você sabe dizer se este agente ao qual ela se refere citou algum Memorando de Entendimento? — ele perguntou. — Não. Ao que me parece o único tópico que ele alega é a necessidade de realocá-la novamente. — Pois bem, mesmo que ela precisasse ser realocada, ainda assim a ordem deveria partir do Secretário de Justiça, e um novo memorando deveria estar em mãos, entende? — ele disse e aguardou enquanto Alex anotava. — A testemunha tem que estar necessariamente consciente do processo e autorizar todos os passos, ainda mais pelo fato dela ser uma testemunha chave civil de um caso encerrado. — Eu entendo isso. Já foram muitos os casos em que acompanhei a inserção de testemunhas no programa. Inclusive um mais recente. — Alex disse. — O que não entendo são alguns tópicos que não se encaixam no processo que foi executado com Fay. Por exemplo, qual a necessidade e afirmativa foi utilizada pelo Marshals Service para que ela fosse completamente apartada do pai? O programa não deveria ter estendido a proteção a ambos? Afinal de contas ela só tinha quinze anos! — Eu entendo. E realmente é um fator a se averiguar, mas o que cabe aqui não é simplesmente o critério que foi utilizado por conta do caso julgado. E sim compreender o que aconteceu para que houvesse o vazamento de informações, já que estas são informações tão sigilosas que são seladas pelo tribunal. Porque somente agora, anos depois, e por qual razão específica eles precisam localizá-la. — De acordo com o agente em questão, ele afirma que a lista vazou, bem como a identidade das testemunhas. — Isto é impossível, Alex. — John reafirmou. — Os arquivos selados são invioláveis. E não


ficam em poder dos U.S Marshals. É responsabilidade da Secretaria de Justiça dos Estados Unidos. Precisaria que o informante que tenha vazado a informação seja algum cabeça de lá, o que é inviável. Alex entendia os argumentos veementes do juiz. — Veja bem, estamos falando de um caso grande que aconteceu no estado de Nova York há anos. Porém, o crucial é a intensidade do caso. Uma quebra num esquema grande de tráfico é algo grandioso, mas o nível se eleva quando a testemunha pertence ou pertenceu à organização, um criminoso ou sequer informante. Fay foi apenas uma testemunha ocular, certo? — Sim. — Então qual a necessidade de se chegar a todo um esquema que foi desembaraçado há anos? Algo está estranho neste aspecto. O traficante em questão teve sua pena reduzida? Entrou em contato com alguém diretamente do programa? Ofereceu alguma espécie de propina? E por quê? — Não. Vi que todos os criminosos envolvidos à época estão mortos. Alguns foram assassinados na prisão. Outros, fora. Não haveria razão para uma ameaça atual. De onde ela está vindo? São muitas perguntas, John. — Alex disse exasperado passando as mãos pelos cabelos. — Que precisam ser averiguadas. Porém, eis o mais importante. A vontade da testemunha sempre deverá prevalecer, ainda mais que o caso encontra-se encerrado. — Ele disse. — Ou seja, se Fay não quiser ser realocada, não há nada e nem ninguém que poderá obrigá-la, nem mesmo o Departamento de Justiça. Alex sentiu uma onda de esperança crescer em seu peito. Se Fay não poderia ser coagida a obedecer à regra do programa, isso significava que ela era livre. Os dois se cumprimentaram e John falou ainda: — Posso averiguar para você, Alex, se houve uma ordem que tenha partido do Secretário de Justiça. E ainda posso tentar ver se há fumaça em qualquer esfera judicial em Nova York. — Eu agradeço, John — o aperto de mãos foi firme. — Você nem sabe o quanto isso me alivia. — Não se preocupe e tenha em mente apenas juntar algumas peças para que respostas sejam obtidas. Eles se despediram e Alex seguiu para a promotoria. A conversa trouxera-lhe um ar de alívio, mas o perigo ainda rondava as imediações. Quem seria este agente Johnson e porque sua insistência em fazer contato com Fay? Agora ele precisava mexer seus pauzinhos e acionar algumas pessoas. E somando a essa preocupação, estava a dor que tomava seu peito sempre que via ou tentava falar com Fay, que agora simplesmente o ignorava por completo. Ela sequer olhava em seu rosto quando se cruzavam na promotoria. E todas as vezes que tentara falar com ela, Fay mostrara-se no modo mais profissional e gélido possível.


Capítulo Trinta e sete Para Fay era difícil manter a postura, o sorriso no rosto e a impassibilidade diante de todas as pessoas. Kate agora estava feliz morando com Gabe, seu noivo. O cara fora rápido em garantir que ela não escapasse. Cara esperto. Fay pensou com seus botões. O único lugar onde ela podia mostrar toda a sua tristeza e sentir pena de si mesma era em casa. Seja num banho de duas horas mergulhada na banheira, onde suas lágrimas misturavam-se à espuma; seja em sua corrida, onde ela colocava o volume quase explodindo os fones de ouvido. Naquela noite ela estava sozinha em casa, comendo uma tigela de cup noodles, sentindo-se realmente a criatura mais miserável de todos os tempos. Seus dedos estavam separados por espuma, à espera que o esmalte secasse em suas unhas dos pés. Fay estava contemplando a própria solidão. De repente o clipe que começou a passar na TV serviu apenas como um contribuinte para seu drama pessoal. Britney Spears aparecia em toda a sua glória decadente cantando a canção Perfum. Revoltada com a letra da música, Fay pegou uma almofada do sofá e arremessou em sua TV. — Cala a boca, Britney! Sua vaca! — gritou para absolutamente ninguém. Sem forças para levantar e desligar a TV, já que a almofada não cumprira seus desejos, Fay largou-se no sofá e contemplou o teto de seu apartamento como se aquela tarefa fosse algo vital. De qualquer forma, nem aquela concentração toda conseguiu impedir que algumas lágrimas caíssem de seus olhos. A dor da traição era horrível. Imaginar outra mulher nos braços de Alex era pior ainda. Dias depois, Fay desceu do carro com uma chuvinha fina caindo. Sorrindo ela correu para o saguão do prédio. Ela sacudiu prontamente as gotas que se fixaram em seus cabelos. Ainda com uma série de compromissos na cabeça, bem como o encontro que ela deveria ter com Arthur logo mais, ela não percebeu quando uma figura acompanhou seus movimentos em todos os momentos. Fay cumprimentou o porteiro e subiu correndo para o apartamento, a fim de trocar suas roupas. Ela não precisaria dar aulas em Dorchester hoje, mas seguir pra lá com as roupas de um dia exaustivo de trabalho estava fora de cogitação. Não encontrara com Alex durante o dia inteiro, cuidando de outros casos menos importantes na


promotoria, enquanto ele seguia nas intermináveis reuniões ao longo do dia e fora do prédio. Quando Arthur enviou uma mensagem mais cedo combinando o horário que deveriam se encontrar, Fay apenas pegou sua bolsa e saiu do trabalho. Ela trocou suas roupas por uma calça de moletom preta e uma regata preta, com um casaco de chuva cinza por cima. Calçou seus tênis e ajeitou os cabelos em um rabo de cavalo alto. Decidiu que levaria apenas a carteira de motorista, já que o celular ficou esquecido dentro da gaveta do escritório, e deixou sua bolsa no sofá. Fay passou correndo pela figura que se mantinha nas sombras e que acompanhou todos os passos dela em direção à Associação de Dorchester. Quando chegou ao prédio da Associação, ela abriu a porta com uma força desnecessária. O barulho foi ensurdecedor. — Tuts! — ela gritou e sorriu de alívio quando ele desceu as escadas do segundo piso. — Ei, ruiva. Resolveu chegar mais cedo? — ele perguntou lhe dando um abraço apertado e mais longo do que o habitual. — Foi a saudade que me trouxe aqui. Então, me diga quais são as novidades. — Fay enganchou seu braço ao dele enquanto seguiam para o escritório de Arthur. — Todas na mesmice. Quando você não aparece isso aqui fica um marasmo só. — Ele disse e os dois riram. — Mas tenho uma novidade que talvez você não goste muito. — Jura? É tão ruim assim? — Não que seja ruim. Na verdade é muito mais sacrificial para mim do que pra você. — Uau. Sacrificial? Que coisa macabra. — Ela brincou. — Conte logo. — Recebi uma proposta de uma Associação para dar início a todos os aspectos burocráticos por lá. Fay apenas ouvia atentamente. — A responsável me ligou ontem e fez a proposta. — Uma outra Associação? — Sim. Para funcionar como um espelho desta, numa área de risco, mas com potencial de grande melhoria. — Ooookay...— Fay agora estava com o coração martelando em seus ouvidos. — E aonde seria isto? — São Francisco. — Ele disse e a olhou atentamente. Fay ficou boquiaberta por um instante. — Mas isto é do outro lado do país, Tuts! — ela afirmou o óbvio. — Yeah. Eu sei. — Não! Você não pode ir e me abandonar aqui! Agora Fay podia declarar-se completamente na terra dos azarados. Seu coração estava partido em milhões de pedacinhos e agora Arthur, o amigo que amava como a um irmão a abandonaria? — Fay, eu não estou te abandonando. Você muito provavelmente vai seguir outro rumo com o estágio efetivado na promotoria. — Ele disse. — Não. Não...eu vou continuar aqui!


— Não vai, ruiva. E você mesma sabe disso — ele a abraçou para acalmá-la. — Você sabe disso. Novos rumos virão e os ventos já estão soprando. — Não, Tuts. Você não pode fazer isso comigo... — Bem, pelo menos fico envaidecido que você realmente não tenha ficado feliz... — Como eu ficaria feliz? — ela perguntou indignada. — Fay, somos amigos. Eu te amo mais do que você possa imaginar e agora eu preciso realmente galgar outros sonhos. Vai ser difícil me afastar de você, mas é preciso seguir em frente. — Ele tentou brincar. Okay, essa merda de seguir em frente já estava dando nos nervos de Fay. Que porra era aquela das pessoas quererem seguir em frente? Em frente para onde? Ao menos no horizonte de Fay ela só enxergava uma névoa densa. — O que? — Você sabe que vai sempre ter um lugar especial no meu coração, certo? — ele disse. — Eu torci realmente para que tivéssemos dado certo juntos... — Tuts... — Não rolou, mas nós vamos continuar do mesmo jeito. Apenas distantes. Mas eu vou estar atento e online sempre que você precisar de mim — ele tentou contemporizar. — E precisando, eu subo num avião, mesmo sentindo pavor em voar, e venho ser seu ombro amigo. — Arthur, isso...isso...— ela gaguejou. — Você está indo embora por minha causa? Ele suspirou nos cabelos de Fay enquanto a mantinha cativa dentro de seu abraço. — Sim. E Não. — Ele disse. — Sim, porque não sei se tenho estrutura para realmente ver que a perdi. Perder no sentido de que você vai acabar se assentando e nossa amizade de festas selvagens vai acabar. Você vai se acertar com o homem da sua vida. — Ele brincou. — E não, porque a proposta que foi oferecida por esta Samantha Bryan realmente foi muito encorajadora. — Eu sequer tenho um homem na minha vida agora, Tuts. — Ela disse triste. Arthur sabia de toda a merda que Alex Bergman a fizera passar. — E quem é essa Samantha, afinal? — Fay perguntou fazendo um tom enciumado. — Alguém que só conheci por telefone, mas que posso garantir que tem uma voz sexy do caralho. Os dois riram e o clima aliviou um pouco mais. Eles ainda mantinham-se abraçados, em uma muda despedida pelos fatos que se dariam dali em diante, quando a porta se abriu repentinamente. — Oh, que cena tocante. — Disse uma voz que Fay só tinha ouvido pelo telefone. Agora era real. O agente Johnson estava parado diante da porta, empunhando uma arma em direção a ela e Arthur.


Capítulo Trinta e oito Alex

estava sentindo-se incomodado naquela tarde. Os pensamentos de Alex seguiam

ocupados por Fay. Ele lembrou-se que onde havia raiva, agora fora preenchido pela frieza e indiferença quando ela o encontrava na promotoria. Ele preferia a raiva. Era um sentimento mais legítimo em termos de reação. Significava que a pessoa ainda se importava o suficiente para ter seu sangue agitado. A operação de apreensão da gangue de Dorchester fora um sucesso, colocando as rodas da justiça mais uma vez em funcionamento, mas isso também significava que o trabalho que Fay fazia para sua Unidade se encerraria ali. Mesmo assim ele não desistia de buscar uma solução para seu impasse. Tentou abordá-la algumas vezes nos dias anteriores, para um café ou uma conversa despretensiosa, mas ela não lhe deu espaço. Mesmo que o assunto fosse do interesse dela, Alex não conseguiu sequer uma abertura para que ela lhe desse um mínimo de atenção. Pensou nos contatos que fizera ao longo da semana a respeito do caso de Fay. Em primeiro lugar ele havia acabado de receber uma ligação do Dr. John Reynolds alegando que o Secretário de Justiça não havia emitido nenhuma ordem de realocação e nem sequer havia rumores de um vazamento de informações. O juiz tinha um amigo da promotoria de NY que disse não haver também nenhum relato de quebra de sigilos dentro do sistema de dados, bem como movimentos a respeito do caso passados há quase dez anos. Agora Alex seguia em direção à sua sala quando recebeu mais um telefonema esperado. — Dr. Bergman? — perguntou a voz enrouquecida do outro lado. — Sim. — O Dr. Fitzpatrick é um amigo em comum do Dr. Reynolds e me comunicou do caso em que o senhor demonstra uma certa atenção. Embora eu acredite que estejamos em jurisdições diferentes, acredito que não me custa nada tentar ajudar. — O homem falou. — Meu nome é Stephan Rogers e sou o delegado que foi responsável pelo caso em questão à época. Alex sentou-se rapidamente e deu-lhe toda atenção. — Certo, Sr. Rogers. Agradeço se puder realmente trazer alguma luz às dúvidas que tenho. — Em primeiro lugar, não há vazamentos ou quebras de sigilos de sistemas operacionais em


vigor. Disso estamos com plena certeza — ele disse e prosseguiu. — O que sabemos é que aparentemente o filho do réu em questão ofereceu uma exorbitante quantia para receber determinados dados referentes ao caso. — Que seriam? — A identidade da testemunha ocular era o principal. — Ele disse. — Acreditamos que ele tenha feito isso para vingar a morte do pai e para tentar demonstrar algum tipo de força num ato de desespero, já que aparentemente outra família resolveu assumir o comando, destituindo os Montoyas. Alex continuava ouvindo atentamente a cada palavra. Seu coração agora estava na boca. — O que soubemos com toda a certeza é que um agente da época, do Marshal Service, que havia sido afastado há alguns anos, foi recontatado e esteve na sede de seu trabalho cavoucando informações. Como você deve ter percebido, quando se mexe em arquivos fechados há muito tempo, o cheiro de mofo começa a exalar. Alex sorriu com a metáfora. Fay adoraria conversar com ele. Mais um aficionado por expressões estranhas que exemplificavam fatos. — A Delegacia foi contatada, a promotoria e todos aqueles que estiveram no caso foram acionados para abafar o caso e tentar isolar os prejuízos. Alex gostaria de saber o que significava isolar os prejuízos para o delegado. — Porém, Johnson sumiu de nossa vista. Alex sentiu o coração martelar. — Johnson? Você disse Johnson? — Sim. Este foi o agente afastado que esteve envolvido no caso e que teve seu afastamento dos Marshals homologado há alguns meses por quebra de decoro e vazamento de dados. Céus. Alex achava que teria um ataque ali naquele instante. Ele abriu rapidamente a gravata enquanto continuava a ouvir. — Ele já tem uma ordem de prisão emitida e agora está sendo caçado. — Meu Deus, acredito que ele esteja muito perto do que ele quer... — Alex disse desesperado. — Então agilize a força policial e dê ordens de prisão ao agente desertor. Ele é uma praga que queremos exterminar. Mantenha-nos informado. Até logo. Com isso o delegado Rogers desligou o telefone enquanto Alex mantinha-se estático sem saber o que fazer. Ele pegou o telefone e ligou imediatamente para Fay. Ele deveria alertá-la a não atender mais nenhuma ligação deste agente enquanto não estivessem devidamente grampeados, já que ele acionaria o departamento de polícia para rastrear a localização do indivíduo. O celular de Fay tocou diversas vezes sem atender. Depois de mais cinco tentativas desesperadas em contatar Fay, ele discou diretamente para a promotoria. A informação que recebeu o deixou em um estado de nervos mais evidente que antes. Fay havia saído mais cedo e esquecera o celular ali, desde que sua gaveta estava cantando. Em seguida Alex fez o que imaginou que nunca faria. Telefonou para o Detetive Benjamin Bromley em busca de auxílio. — Bromley. — Bromley, preciso de você urgentemente.


— E quem seria você? — Alex notou o tom irônico. — Dr. Alex Bergman — ele disse irritado. — Okay. E em que posso ajudá-lo? — agora o tom era curioso. — Fay pode estar em perigo, preciso da sua ajuda e de força policial. Alex poderia até mesmo estar sendo precipitado. Fay poderia apenas ter esquecido o telefone e ido direto para casa. Poderia estar no banho sem que ouvisse as ligações, poderia ter passado numa confeitaria para comprar doces. Seriam inúmeras possibilidades, mas ele sentia em seu âmago que algo estava errado. Um arrepio percorreu sua nuca enquanto ele desligava a ligação com o detetive. Uma sensação devastadora passava por seu coração naquele minuto. Sem mais demora ele correu para tentar encontrar o paradeiro de Fay. — Sr. Johnson? — Fay perguntou incerta. — Eu mesmo, pequena fugitiva. — Ele respondeu com sarcasmo. Arthur já ia partir em direção ao homem, quando Fay o segurou fortemente. — O que o senhor quer? — Meu Deus, menina. Como você é difícil. Tudo o que eu propus foi que nos reencontrássemos com o objetivo de colocar sua segurança em primeiro lugar. Algo no tom de voz dele denotava uma certa loucura evidente. — Sei. Eu realmente estive muito atarefada, Sr. Johnson. — Fay disse tentando chegar à mesa. Por trás do móvel ela teria como tentar alcançar algum objeto contundente que pudesse ser usado para atacar o agente. — Não, não. Que testemunhazinha mais rebelde temos aqui....eu oferecendo uma oportunidade magnífica de outra vida e você se recusando sequer a ouvir meus termos....tsc tsc tsc...— ele disse e Fay agora tinha certeza que o cara não estava em seu juízo perfeito. O brilho de seus olhos denunciava sua completa loucura. — Sr. Johnson, não podemos resolver isso de outro jeito? — ela perguntou tentando fingir resignação. — Eu só não queria abandonar minhas coisas todas de novo. — Não, querida, não há alternativa. Você precisa ser realocada. E nunca mais encontrada. Entendeu? — ele disse e sacudiu a arma efusivamente. Fay sabia que ali havia algo sórdido por trás, e ela apostava seus cabelos ruivos como não tinha nada a ver com o governo. — Okay. E para onde os Marshals vão me levar dessa vez? Arthur apenas acompanhava o diálogo dos dois tentando pensar em alguma forma de proteger Fay. Estava claro para ele que o homem era louco e mais claro ainda que o objetivo do cara era matar se fosse preciso pra que conseguisse o que queria. Ele se aproximou de Fay e o cara agitou a arma. — Não se mexa! Fique quieto ou eu atiro em você! — ele gritou. — Venha, Srta. Williams. Acompanhe-me de bom grado, por favor. — Ele pediu e abrandou o tom de voz, adquirindo quase que um tom carinhoso. — Seja dócil como da outra vez e não argumente mais. Fay não sabia o que fazer. Ela já havia conseguido abrir uma das gavetas da mesa de escritório, mas o único que avistara ali era um grampeador e algumas ligas e canetas. Porque as pessoas não


podiam guardar um taco de beisebol próximo o suficiente? — Eu vou...mas não faça nada com meu amigo. — Infelizmente eu vou ter que me livrar dele, querida — ele disse e limpou o suor da testa com a manga da camisa. — Ele me viu. Ninguém poderia me ver. Eu tenho que ser um fantasma. Assim como você. — Não faça isso! Nós podemos negociar e chegar a um acordo. Você precisa se acalmar, vai terminar tudo bem. — Ela tentou apaziguar os ânimos, mas conseguiu uma reação adversa. — Menina, não estou aqui para perder! Acha que trabalhei quantos anos nessa merda de sistema do governo ganhando uma mixaria por ano para quê? Agora que eu te achei finalmente tenho a chance de mudar de vida e ganhar rios de dinheiro. É tudo ou nada. Venha! — o agente enraivecido acionou o gatilho da arma apontando para Arthur. Okay. Péssima jogada, Fay, agora o louco ficou nervoso. — Ele não tem culpa, ele sequer sabe o que está acontecendo... — ela tentava argumentar. — Venha para perto de mim, Srta. Williams. — Fay, não! — Arthur pediu desesperado. Ela começou a caminhar em passos lentos, quando percebeu uma movimentação do lado de fora, já que a porta estava aberta. Avistou o sinal que o detetive Bromley fez para que fingisse que estivesse tudo bem. — Okay, eu estou indo, Sr. Johnson. — Ela disse e olhou para Arthur. Quando ela se aproximava do Sr. Johnson e já estava quase ao alcance dele, ela o ouviu falar: — Sinto muito, rapaz. Ordens são ordens. Você também tem que virar um fantasma. — Dizendo isso, ele apontou a arma acionando o gatilho na direção de Arthur. — Nãããããããããão!!!! — Fay gritou desesperada quando percebeu o que aconteceria e pulou na frente de Arthur, ouvindo logo em seguida o estampido de um tiro. Mais dois tiros foram ouvidos e Fay deslizou pelo corpo de Arthur, sem entender porque não conseguia erguer o braço para se segurar. — Fay!!!! Ela ouviu o seu nome ao longe, vindo de várias direções. Caiu duramente contra o peito de Arthur e sentiu sua visão escurecer. Alguns instantes mais tarde, Fay acabou sendo acordada pelo som insistente de alguém chamando seu nome e mãos manuseando seu corpo. Um par daquelas mãos ela reconheceu imediatamente e estavam em sua cabeça. Alex. Ela tentou abrir os olhos e o viu de cabeça pra baixo. — Oi — ela disse. — Oi — ele respondeu e tentou sorrir, mas Fay viu as rugas de preocupação em seu rosto. — O que f...— só aí quando ela tentou se levantar e ver Alex direito foi que ela se lembrou do ocorrido. Até mesmo porque a dor era um baita de um lembrete. Ela afogou um grito. — Aaaahhhhh.... — Não se mova, Fay. — Arthur disse ali do lado. — Tuts! Você foi ferido? — ela perguntou freneticamente e procurando com seus olhos algum sinal de algo vermelho.


Antes que ele tivesse tempo de negar qualquer coisa, ela agitou-se. — Ahhh, Jesus... não me digam que tem algo vermelho saindo de mim... por favor. — Querida, você já foi atendida e devidamente.... — Arrumada. — Arthur interrompeu. — Já ajeitaram sua roupa que tinha um buraco de nada... — Poooorra, vai me dizer que eu levei um tiro? — ela perguntou. — Sim, meu amor. — Alex disse. — Você pulou na frente do seu amigo. Você é louca? — o tom de voz de Alex era irritado. — Por acaso pensou que fosse à prova de balas? Ela sorriu. — Ah, Alex, você quando fica irritado é tão fofo... — sua fala estava arrastada, então ela só poderia supor que fora sobrecarregada de analgésicos. Até porque sóbria não se veria tão receptiva a ele. Ela estava com raiva dele. Muita raiva. — Fay... — ele disse e ela viu o suspiro de alívio que ele deu. Ele abaixou a cabeça e deu-lhe um beijo leve nos lábios. Ela ouviu um pigarro e procurou pelo som. O detetive Bromley estava com as mãos dentro dos bolsos da calça, olhando para ela com um sorriso enviesado nos lábios. — Ei, ruiva. — Esse apelido é meu. — Arthur disse irritado. — Você deixa todo mundo te chamar assim? — ele perguntou indignado olhando diretamente para ela. — Hei, esse apelido é meu. — Corrigiu Alex a fazendo rir. — Ué, eu sou ruiva. Vocês não poderiam me chamar de loira, não é?! — ela afirmou o óbvio. Ela adorava ficar sob o efeito de medicamentos. Ela ficava tãooooo óbvia. O detetive se aproximou e Arthur se despediu de Fay, mesmo a contragosto, mas tranquilo em saber que ela acordou bem e que estava bem acompanhada. Dali ela seria encaminhada para os cuidados no hospital, e seu cavaleiro de armadura brilhante já estava preparado. Ele, ao contrário, teria que dar depoimentos à polícia. Ele esperava poupar Fay ao menos dando-lhe tempo para se recuperar. Alex ainda mantinha as mãos em seus cabelos e fazia carinhos ligeiros e doces. — E então? Qual parte do sinal que eu dei lá fora você não entendeu? — ele perguntou fingindo irritação. Fay era uma teimosa e imprudente, que salvara a vida de seu amigo. — Aquele onde você sinalizou: “pule agora, querida, pule agora”? — ela perguntou e os três riram. — Fay, você foi muito imprudente. — O detetive disse. — Eu disse isso pra ela. — Alex afirmou. — Iala, iala, iala....já ouvi. Agora já foi. — Ela disse. — Alex! Ele olhou para ela e seu grito atônito. — O que foi? Está sentindo dor? — perguntou preocupado. — O buraco foi muito grande? Estragou meu casaco? — Que buraco, meu amor? — Do meu braço, daquele lugar onde deve estar saindo um suor amarelo.... — ela disse o


fazendo sorrir. — Não foi muito ruim. Sem suor agora. — Ele respondeu. A esperança se reacendeu no peito de Alex ao ver que ao menos ela não o repudiava, como viera fazendo desde sua última discussão. Para ele parecia um século atrás. Alex percebeu que já era hora de correr atrás e obrigar aquela mulher a perceber que eles pertenciam um ao outro. A vida definitivamente poderia ser encurtada por situações inimagináveis. Ele não tinha vergonha alguma em admitir que por um instante louco achou que seu coração havia parado de bater ao ouvir o som do tiro e ver Fay caindo desacordada nos braços de Arthur. Ele viu claramente ali que Fay era mais importante para ele do que sua própria vida, e nada e nem ninguém o atrapalharia a resgatar o amor daquela mulher. Sua mulher.


Capítulo Trinta e nove Fay acordou com um leve roçar em seus lábios. Abriu os olhos devagar e se deparou com um adorável par de olhos verdes. — O que você está fazendo aqui? — ela perguntou irritada. Agora já conseguia se lembrar que estava com raiva de Alex. — Passando a noite com você? — ele disse e ao vê-la tentar se movimentar falou — Fique quieta. Senão você vai ter que esticar sua estada aqui no hospital. — Porque estou no hospital? — perguntou confusa por um momento — Agora me lembro. — Ela disse apalpando o braço dolorido. — O que aconteceu com o Agente? — Foi ferido, preso e está a caminho de Nova York. — Ele esclareceu lhe contando tudo o que apurara junto ao juiz Reynolds e aos outros contatos que conseguira. — Quando soube do delegado responsável pelo seu caso que eles estavam com ordem de prisão para aquele agente que você tinha mencionado, mal pude coordenar meus pensamentos. Acionei Bromley e fiquei aliviado em saber que conseguimos interceder a tempo e evitar o pior. Ela o observou enquanto ouvia o que ele dizia e calma, falou: — Devo te agradecer, Alex. Não sei o que poderia ter acontecido se não fosse você. — Ela disse polidamente. — Não precisamos pensar nisso. O importante é que tudo acabou. O agente foi preso. — Mas o filho de Montoya continua solto. — Não. O policial de lá me informou que ele foi encontrado morto esta manhã, por um membro da facção rival. Eliminaram de vez a família do poder. — Não fico feliz com a morte de outras pessoas, mas sinto alívio em saber que não preciso mais ter medo do futuro. — Está tudo bem se sentir assim. — Ele murmurou dando-lhe um beijo na testa. Alex percebeu imediatamente que Fay estava se distanciando. — Alex, — ela disse e com a proximidade em que estavam quase se sentiu derreter quando ele acariciou seu rosto da maneira que tanto amava. — Obrigada por tudo, mas eu estou bem, você não precisa ficar aqui. Para ela estava sendo difícil tentar afastá-lo dali, mas agora se recordava que devia estar com raiva dele e o mais longe possível. Ao menos assim ela ainda conseguiria manter-se inteira. Ela não


queria ter seu coração, ou o que restara dele, ser destroçado novamente. Porque talvez daquela vez, ele nunca mais se recuperasse. — Eu quero ficar, Fay. Quero cuidar de você. Quero ouvir seus batimentos cardíacos através do bip que ecoa nesse quarto. Quero poder perceber suas respirações espaçadas enquanto dorme. Quando vi você nessa cama eu só pude perceber o quão importante você é para mim e o quanto eu preciso de você na minha vida — ele disse enquanto os olhos de Fay se enchiam d’água — Quero sentir sua pele quente em contato da minha. Quero olhar para você e ver seu sorriso, seu cabelo vermelho e continuar a me surpreender como uma pessoa tão ruiva pode não ter uma única sarda — Fay sorriu ante aquilo. — Quero estar ao seu lado e caminhar com você, viver e compartilhar uma vida em conjunto. Eu sei que te machuquei. Falei coisas pelas quais vou me arrepender pelo resto da minha vida e eu fui estúpido em tentar devolver na mesma moeda a ferida que você havia me dado, mas peço que me perdoe. Vamos recomeçar? Com o pé direito agora? — ele terminou de falar com um meio sorriso. — Ah, Alex... — ela suspirou rendida. — Eu não... não sei... — Ela disse incerta. — Não sei se posso, ou se aguento passar por tudo novamente. — Ela disse e uma lágrima sorrateira deslizou. Alex a colheu com seu dedo. — E aquela mulher? — Eu e ela éramos apenas amigos. — Amigos exatamente como você me propôs? — ela perguntou irônica. Alex sabia que ela queria averiguar se houve algo íntimo entre eles. — Eu e Mônica somos apenas amigos. Não aconteceu absolutamente nada. Foi uma fatalidade que ela aparecesse na minha casa aquela noite. — Ele disse. — Eu deveria ter saído imediatamente atrás de você aquele dia e pedir perdão rastejando por tê-la tratado daquela forma — ele disse e seu tom era desolado. — Depois veio aquele episódio onde você viu apenas um cumprimento cortês entre dois amigos e... tentei falar com você logo em seguida, mas você nunca me dava abertura. — Hummm... Ser cortês. — Ela disse irônica. — Deixe estar... Vou começar a ser cortês assim com Arthur, o detetive Bromley... Porque são todos meus amigos. — Fay... — a cara de cachorro sem dono de Alex era tão absurda que Fay não pode mais continuar a zombaria. — Meu Deus, Fay... você nunca vai poder imaginar a angústia em que fiquei naqueles dias que se seguiram. À medida que os dias se passavam e você se tornava cada vez mais indiferente... — ele disse suplicando. — Pensei ali que havia realmente perdido você para sempre. E comecei a pensar em várias formas de te reconquistar, mas cada vez que eu a via, você estava mais e mais distante. Como se eu nunca tivesse existido. — Você me mandou seguir em frente, Alex. — Ela disse ainda magoada. — Mandou que eu crescesse e realmente descobrisse quem eu era. Você praticamente me acusou de ser uma pessoa falsa vivendo uma realidade completamente turva. — Eu sei, Fay — ele disse abalado. — Sei todas as palavras que disse naquele dia. E me arrependo de cada uma delas. Fay ainda debatia-se entre a dúvida e a certeza de que eles dariam certo. — Eu nunca me humilhei tanto quanto naquele dia, Alex. — Ela realmente estava disposta a expor toda a dor que sentiu. — Eu imagino, e só imagino a dor que te causei quando você declarou seu amor por mim e eu o rechacei — ela disse. — E quando eu fiz o mesmo, abrindo e rasgando meu


coração pra você, de uma forma que nunca havia feito antes, eu pude sentir na pele cada pequena punhalada que você deve ter sentido. Alex não sabia o que dizer. Ele cometera um erro e a única pessoa que poderia dar o veredito agora era Fay. — Eu não vou dizer que não estou magoada e que esta mágoa passou. — Fay assumiu. — E quando vi você com aquela mulher, mesmo que nada tenha ocorrido, você conseguiu romper em mim algo que não sei se vou conseguir recuperar. Você conseguiu agir até mesmo pior do que eu. — Fay... Naquele momento, o detetive Bromley entrou no quarto, interrompendo o momento e sentindo as fagulhas da tensão que permeava o ar. — Olá, querida — ele disse e a cumprimentou de longe. Alex retirou-se do quarto passando as mãos agitadamente pelos cabelos e bufando de ódio — Oi, Ben. — Ela disse e mexeu em seus cabelos, constrangida. O jeito com que Ben a olhava, com aqueles olhos embevecidos a deixava envergonhada. — Problemas no paraíso? — ele perguntou. — Desde que eu estou numa cama de hospital, com um...curativo latejante no meu braço e com a cabeça povoada por remédios alucinantes, eu não sei onde você pode imaginar que minha vida seja um paraíso. — Ela disse com sarcasmo. Ben riu bastante com o ar de revolta resignada de Fay. — Espero que vocês se acertem. — ele falou fazendo uma careta. — Merda...é duro admitir isso, mas vocês se combinam. — Aham...— Fay disse constrangida. — É verdade, ruiva — ele disse e passou a mão carinhosamente pelos cabelos de Fay. — Você merece realmente um homem que caia em desespero como o que vi acontecer quando você desabou no chão. Fay sentiu seu rosto ficar vermelho. Ela sabia que Alex ficara preocupado, já que ele mesmo atestara aquilo. Mas ouvir da boca de outra pessoa o mesmo fato, criava uma imagem tocante. — Muito obrigada, Ben — ela apertou sua mão que repousava agora na cama. — Você realmente foi um herói em chegar a tempo de salvar minha vida e a de Arthur. Benjamin deu um sorriso triste. — Infelizmente é uma história onde o mocinho que salva a mocinha não fica com ela no final — ele disse resoluto. — Ben... — Eu sei, querida. Eu apenas não poderia perder esta fala dramática. — Ben suspirou e os dois riram. — Bem, cumpri meu dever. Infelizmente o tal Johnson não morreu ali na hora, mas ao menos pagará pelos crimes que veio acumulando ao longo dos anos e ainda responderá a um crime federal. — Falou satisfeito. Fay suspirou aliviada. Ela esperava que realmente sua vida dali em diante fosse mais tranquila, sem agentes, tiros e ameaças. — Espero que você não se coloque em perigo novamente, ruiva — dizendo isso, Ben deu-lhe


um beijo suave nos lábios. Naquele exato instante, Alex entrou no quarto completamente decidido a não deixar mais uma vez que eles se mantivessem afastados. Ben afastou-se de Fay com toda a paciência que um homem destemido poderia ter. Alex estava com um olhar assassino em sua direção, mas Ben não deixaria o quarto como um covarde. Era bom ele saber que Fay sempre poderia ter outra opção se ele não a tratasse bem. — Mantenha-se em segurança, ruiva. — Ben disse e piscou charmosamente para Fay, chamando-a pelo apelido somente para provocar Alex. — O mesmo digo eu a você. — Fay colocou uma mecha atrás da orelha, observando Alex lançar um olhar mortal para as costas de Ben, que deixava o quarto naquele instante. Um silêncio desconfortável se instalou no quarto. Alex a olhava com uma intensidade que abalava os nervos de Fay. As mãos nos bolsos, ele apenas manteve-se parado sem aproximar-se da cama. Fay começou a remexer nos lençóis que cobriam suas pernas que agora estavam trêmulas. Seus dedos faziam dobraduras até que ela não aguentou mais. — Ah, pelo amor de Deus, Alex! — ela disse exasperada. — Pare de me olhar desse jeito! — De que jeito eu estou olhando, Fay? — ele perguntou com uma sobrancelha erguida. — Você sabe muito bem. Droga! — ela reclamou quando tentou erguer-se na cama e sentiu dor no braço. Alex correu naquele instante para ajudá-la. — Não se mexa, Fay. Você pode romper o curativo — ele disse preocupado com a cara de dor que ela fazia. — Você está sentindo dor? — Não. Eu só gosto de fazer essa careta pra ganhar rugas...— ela respondeu irônica. — É claro que estou sentindo dor, Viking dos infernos! Alex riu ao ver que ela usara seu apelido tão eloquentemente. — Você quer que eu chame a enfermeira? — ele perguntou solícito. Fay remexeu-se na cama ajudada por Alex. — Não... porra... se me derem mais drogas eu vou ter que sair daqui direto para uma clínica de desintoxicação. — Fay suspirou e fechou os olhos cansados. Alex a observava atentamente. Sombras escuras marcavam sua pele abaixo de seus olhos. Aqueles olhos que tanto amava. Aquela pele imaculada que ele ansiava tocar novamente. — Achei que você tivesse ido embora depois do que falei antes de Ben entrar — ela disse ainda com os olhos fechados. Ele passou os dedos suavemente pelos cílios de Fay, obrigando-a a abrir seus olhos e encará-lo de frente. — Decidi que nós dois temos o péssimo hábito de falar as coisas e simplesmente fugirmos ou deixarmos que uma fuga seja bem executada. — Alex olhava fixamente para Fay. — Eu não vou sair daqui, Fay. Ela abriu a boca para argumentar, mas Alex colocou os dedos em seus lábios. — Não. Nem adianta tentar me expulsar daqui — Ele disse calmamente. — Você pode tentar,


gritar, espernear. Dessa vez eu não saio daqui. — Alex, por favor...— ela pediu tentando conter as lágrimas. Ela estava tão cansada. Uma briga com ele não era o seu sonho de consumo naquele momento. — Não podemos deixar isso para depois? — Não. Eu fico aqui. Você querendo ou não — ele disse e levantou-se. Fay viu que ele pegava uma mochila e colocava no sofá do quarto. — Já trouxe todos os itens que eu precisava para passar a noite aqui. Fay o olhou estarrecida. — Você não preci-ci-cisa...— ela gaguejou. — Sim, preciso. — Alex disse voltando para o lado de sua cama. — Dispensei a Kate delicadamente desta tarefa hercúlea. — Alex! Você não pode interferir assim... — Shhhh...— ele a calou com um beijo. — Vá dormir, querida. Amanhã teremos muitos assuntos do qual tratar. Sem saber o que falar ou o que pensar, Fay realmente rendera-se ao cansaço que abateu seu corpo. Com Alex segurando sua mão com extremo cuidado, ela fechou os olhos e permitiu-se entrar no reino dos sonhos.


Capítulo Quarenta Fay acordou com um leve toque de lábios quentes em sua boca. Quando abriu os olhos, deparou-se com os olhos verdes de Alex. Okay. Aquele era um jeito bem bacana de acordar, mas por um instante apenas ela percebeu-se desorientada. Até que tentou enlaçar o pescoço dele e lembrou-se com toda força de onde estava e o porquê. — Acordou, bela adormecida? — Alex perguntou com carinho. Sem querer abrir a boca, já que agora se lembrava de não haver escovado os dentes, ela apenas sacudiu a cabeça. — Você precisa de alguma coisa? Mais uma vez ela apenas sacudiu a cabeça e apontou para o banheiro. — Okay. Mas nada de banho ainda. — Alex disse ajudando-a a sair da cama. Fay ajeitou-se o máximo que pode com apenas um braço funcionante e, quando se sentiu gente novamente, saiu do banheiro para encontrar Alex ao telefone. — Ela está ótima, Kate — ela observou Alex ao telefone, ao mesmo tempo em que ele a observava tentar sentar-se sozinha na cama. Mulher teimosa. Ele pensou. — Estou apenas esperando o médico passar aqui para nos dizer se ela receberá alta hoje ou não. — Posso confiar que você vai cuidar dela, certo? — Kate perguntou preocupada do outro lado. Fay ajudara Gabe a recuperar o perdão dela. Agora era ela quem tentava ajudar Alex a recuperar o perdão de Fay. — Plenamente. — Ele disse olhando firme para Fay. Quando encerrou a ligação, o médico milagrosamente entrou no quarto. — Então, Srta. Williams, posso crer que você não vai dar de encontro com uma bala novamente, certo? — ele questionou e analisou a prancheta que apanhara no pé da cama. — Espero que não — foi a resposta simultânea dela e Alex. Ambos entreolharam-se e riram. — Vou dar-lhe alta, porém com ressalvas, okay? — Graças a Deus. Eu não estava mais aguentando a rotina do hospital... Dias e dias.... O médico riu. — Sei. Você só passou a noite, espertinha. — Ele disse sorridente. — Mas se pareceram meses. — Fay respondeu emburrada.


Alex sacudiu a cabeça rindo internamente da pirraça de Fay. O pobre médico nem poderia imaginar como aquela ruiva poderia ser teimosa. Quando o médico saiu, depois de dar as recomendações necessárias, Fay observou Alex arrumar todas as coisas do quarto, preparando-se para levá-la embora dali. Ela estava admirada. Alex ficou ali ao lado de Fay em todo o tempo, nem sequer permitindo Kate fazer uma permuta. Ele aparentava estar exausto, mas ainda assim se recusou a sair de perto dela. Quando Fay trocou os trajes nada fashion do hospital por suas próprias roupas, ajudada por Alex, claro, ela enfim permitiu-se dar o suspiro de vencida. Estava sentada na cama, à espera de Alex que saíra alegando que estava deixando o carro pronto para buscá-la. Quando ele voltou para o quarto, Fay não se conteve mais. — Alex? — Sim? — ele perguntou olhando indagativamente para ela. — Ah, Alex, venha aqui e me beije — ela pediu comovida. Ele sorriu e foi em sua direção como um náufrago rumo à algo em que se agarrar. Com um carinho extremo, ele colocou as duas mãos no rosto de Fay e apenas esperou que seu coração acalmasse um pouco o ritmo. Ele queria crer que aquele era um sinal do tão esperado perdão de Fay. Quando suas bocas se encontraram, foi como uma dose de adrenalina diretamente na veia. O ritmo que cada um imprimia naquele beijo de saudades, era marcado pela ânsia de cada um. Fay não conseguia erguer um braço, mas com o outro ela agarrou os cabelos de Alex mostrando que ele pertencia somente a ela. Alex e Fay marcavam a fogo cada um, respectivamente, atestando que nada os separaria novamente. — Fay? — ele perguntou quando pararam para resgatar o fôlego. — Hum? — ela respondeu ofegante e lambendo os lábios agora inchados. — O que acha de ir morar comigo? — ele disse e Fay arregalou os olhos. Ela sentiu sua boca abrir como a de um peixe e não conseguiu falar nada. — Isso não está rápido demais? — Eu sei que pode parecer precipitado — ele disse acariciando seu rosto. — Mas vê-la sendo ferida daquela forma fez com que tudo em mim se agitasse e realmente tomasse forma. Sabe quando dizem que as pessoas veem as cenas de sua vida, como se fosse um filme, num momento de pânico e terror? — Você viu o que, uma propaganda? — Fay tentou brincar. — Alex... espera. Ela colocou a mão delicadamente na boca de Alex. — Você tem um excelente timing para revelar seus planos, querido. Eu vou aceitar essa oferta e apostar em nosso futuro, Sr. Promotor. — Você me perdoou completamente? — ele perguntou procurando em seus olhos a afirmativa. — Sim e não. — Como assim? — Você vai ter que ir conquistando meu perdão pouco a pouco... — ela disse rindo. — Talvez se tornar meu escravo, lixar minhas unhas dos pés, comprar guloseimas pra mim... Ela ia enumerando a lista, enquanto Alex apenas sorria agradecendo a Deus pela oportunidade


de estar com ela em seus braços novamente. Ele esperava que fosse conquistar um grande avanço logo em breve. Acertados todos os detalhes daquele pedido incomum, Alex chamou a enfermeira que traria a cadeiras de rodas. Fay praticamente esperneou dizendo que não sairia dali daquela forma, mas era política do hospital e se ela não aceitasse, teria que continuar internada. Resignando-se a sentar-se na maldita cadeira, Fay resmungava audivelmente enquanto Alex a empurrava porta a fora. Quando chegou ao corredor, Fay levou um susto de morte. Colocando sua mão nos lábios, ela tentou conter as lágrimas que queriam escorregar de seus olhos. Todo o chão do corredor estava repleto de pétalas de rosas, enquanto cada uma das enfermeiras do setor segurava um arranjo belíssimo de orquídeas, as flores que ela mais amava. Fay olhou para um Alex sorridente que mantinha seu olhar esverdeado fixo nela. Ela estava mais do que chocada. Como ele conseguira organizar aquilo tudo? Quando chegaram à zona de embarque do hospital, Alex a levantou da cadeira e Fay só não pulou em seus braços porque ela estava com o braço em uma tipoia. Ela agarrou Alex pela gola de seu casaco e o puxou para um beijo ardente, ouvindo ao longe as salvas de palmas e assobios da equipe de enfermagem. Aquele fora o gesto mais romântico que Fay já presenciara. Ela poderia atestar que era a mulher mais feliz do planeta, mesmo que estivesse com um visual de um zumbi saído dos filmes de Hollywood. — Alex? — ela chamou quando ele a ajudava a se acomodar no assento de seu carro. — Humm? Ela esperou que ele tomasse seu lugar ao volante e perguntou: — Você andou tramando isso com a Kate? O sorriso de menino levado nos lábios de Alex mostrava que ela estava certa. E recostando sua cabeça no assento do carro, Fay sorriu deliciada ao ver que aquilo que se plantava, realmente se colhia. Ela ajudara Gabe com a ideia de ornamentos de rosas, enquanto Kate agora ajudara Alex no mesmo Modus Operandi. A única diferença era que Fay não era alérgica como Kate. E mantinha-se com um sorriso no rosto, do tamanho do buraco da camada de ozônio, ao ver o tanto de orquídeas que agora perfumavam o ar do carro de Alex Bergman. Olhando para o homem que amava de todo o coração, Fay admitiu para si mesma, que Alex conquistara 90% de seu perdão definitivo com aquele gesto romântico. Os outros 10% ele conseguiria quando ela arrancasse suas roupas e os dois estivessem praticando atos ilícitos.


Epílogo Fay colocava rapidamente o sapato de salto, pulando em um pé só enquanto ao mesmo tempo tentava fechar o brinco e abotoar o vestido. — Você sabe que poderia pedir minha ajuda, certo? — Alex disse encostado na porta do banheiro. — Eu sei...mas aí você ficaria muito enlouquecido pela minha lingerie, iria querer arrancar minhas roupas e isso acabaria com a minha maquiagem, além de nos fazer chegar atrasados. — Ela disse e mandou um beijo de longe. — Isso é verdade. — Alex apenas admitiu o óbvio. Os dois saíram em disparada para o condomínio chiquérrimo de Gabe e Kate, com o intuito de comemorarem o aniversário dele. Gabe fizera questão de uma festa com tradições húngaras e Fay não perderia isso por nada no mundo. Quando chegaram ao local, puderam ver que um número enorme de carros já se encontrava no lugar, o que significava que a festa estava bombando. — Fay! — Kate gritou ao longe quando os avistou na porta. As duas se abraçaram efusivamente no meio do salão, matando as saudades uma da outra. Embora mantivessem contato diário, elas se viam com pouca frequência por conta da agenda de trabalho de ambas e porque Kate morava com Gabe, enquanto Fay morava com Alex. Na verdade ela nem chegara a voltar a dormir no antigo apartamento. Alex se recusara terminantemente a deixá-la sair de sua vista, alegando que deveria cuidar de sua saúde e que seria seu enfermeiro particular. — Uau, você está linda! O Dr. Absoluto anda fazendo um bem enorme pra você, não é sua safada?! — ela disse e viu Kate corar como uma colegial. — Cala a boca. — Kate ralhou e em seguida as duas deram um grito histérico. — Lana!!!! O trio se abraçou, tentando ao máximo não esmagar o bebê que se encontrava dentro de ventre de Lana. — Que bom que você veio! — Kate falou. — Quando você chegou? Como? — Ei... Ei... deixa a garota se acalmar, Kate. Você está amassando nosso bebê. — Fay disse e sacudiu os ombros de Lana. — Como? Por quê? Onde? Eu sabia que você estava nos enganando, sua bandida! — Fay gritou histérica. As três riram felizes em estarem juntas novamente. — Meu Deus, Lana. Estou tão feliz que você pode vir! — Kate disse eufórica. — E perder o seu Gabe gostoso em uma tradição húngara? — ela falou e ainda assim corou. —


Nunca. — Eu disse. — Fay falou com os braços nos ombros de cada amiga. — Essa garota é muito esperta. De boba ela não tem nada. Elas riram e continuaram curtindo a festa, acompanhando com prazer a música, bem como a quantidade imensa de familiares de Gabe que arrastavam todas as mulheres para dançarem no salão. Fay observava sua amiga Kate dançando com alegria nos braços de seu Gabe e viu o juiz, Dr. John Reynolds, completamente sozinho e compenetrado num canto do salão. Ele era agora o mais novo e cobiçado solteiro da sociedade de Boston. Ao que tudo indicava, um escândalo de proporções cósmicas havia estourado e enfim a mulher sanguessuga com quem ele era casado foi desmascarada, fazendo com que ele abrisse os olhos. Caminhando em direção ao homem que fora crucial na solução de alguns itens do caso em que Fay era o alvo, ela pigarreou tentando chamar sua atenção e percebendo que ele olhava alguém ao longe. Quando Fay avistou o destino daquele olhar, ela apenas sorriu. Lana realmente parecia um ser angelical, banhada pelas luzes dos grandes candelabros que enfeitavam o jardim com vista para o mar. Seus cabelos dourados brilhavam e formavam um halo à sua volta que a deixavam parecida a uma imagem surreal. Seu rosto mostrava um sorriso delicado e complacente enquanto ela acariciava a barriga e apenas olhava o vasto horizonte à sua frente. Fay estalou os dedos na frente do rosto de John Reynolds tentando quebrar o encantamento. Somente ela teria a ousadia de tratar com tanta displicência um juiz do gabarito de John. — Terra chamando John! Atenção, estamos em um ataque massivo de alienígenas surtados que querem roubar a toga do juiz....— ela disse fazendo uma voz robótica. John olhou para ela e sorriu amplamente, e Fay poderia dizer que ele estava realmente feliz, pois o sorriso lhe chegava aos olhos. — Aonde você estava, querido? — ela perguntou, mas já sabendo a resposta. Quando ele olhou novamente para onde Lana estava e Fay acompanhou o olhar, ela notou o ligeiro rubor no rosto másculo dele apenas disse: — Ah, no reino angelical... Os dois saíram de braços dados e encontraram-se com Alex, Gabe e Kate no meio do salão. Alex abraçou sua Fay fortemente e deu-lhe um beijo efusivo diante de todas as pessoas. Timidez não era algo que perturbava o adorável promotor. Fay sorriu feliz e olhou à sua volta. Seus amigos todos estavam perto, com a exceção de Arthur que não era um amigo em comum de Gabe Szaloki, mas as pessoas que ela tinha como sua família estavam ali. Cada qual com seus próprios sorrisos de felicidade e realização. A música suave tocava e Fay enlaçou o pescoço de Alex, balançando ao ritmo da melodia. Alex a segurou com firmeza e deslizou suas mãos levemente por toda a lateral do corpo de Fay. Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo e deu um sorriso conhecedor para ele. — Agora que estamos assim tão próximos, ruiva — ele sussurrou fazendo suspense. — Me diga um segredo que está me perseguindo durante toda a noite...que lingerie você está usando? Fay riu e aproximou a boca bem próxima ao ouvido dele, causando arrepios por todo o corpo de Alex.


— Você vai ter que descobrir por si só, Sr. Promotor. Fazer uma acareação intensa para descobrir meus segredos que poderiam solucionar o seu caso. Alex riu gargalhando alto, enquanto outras pessoas contemplavam a cena única. O Promotor completamente cativo de uma mulher irreverente. Mas que transformavam os dois em um casal irresistível.

Bônus Alex e Fay mantinham uma rotina pacífica e prazerosa como um casal. Na promotoria todos acabaram ficando sabendo do que ocorrera com Fay e do envolvimento de Alex com ela e... todos já faziam ideia porque a química entre eles quando coabitavam o mesmo ambiente era palpável. Fay prosseguia na Unidade de Fraudes, enquanto Alex tentava seduzi-la para ingressar em suas fileiras. A festa anual da Associação chegara e Fay estava completamente ligada nas atividades, já que os grandes eventos eram os vinculados aos momentos esportivos. Sua turma de pequenas e talentosas bailarinas apresentou um recital, e a turma de Capoeira de Arthur apresentou um show belíssimo, homenageando seu estimado professor que começaria dentro de alguns dias em um novo lugar. Gabe e Kate estavam passeando de mãos dadas, circulando por todos os eventos, quando alcançaram o tatame de Luta Livre. As atividades já haviam sido encerradas, mas Fay olhava para Alex, tramando algo sórdido em sua mente. Quando avistou o casal de amigos, Fay apenas acenou para que apreciassem a vista. Ela agarrou o braço de Alex de maneira rude, fazendo com que ele olhasse com as sobrancelhas arqueadas para ela, indagativamente. Fay apenas arregaçou as mangas de sua camiseta e socou uma mão na outra, deixando claro para Alex qual era sua intenção. Ela se posicionou na área de luta e colocou-se em prontidão. — Tem certeza, ruiva? — Alex perguntou brincando. — Absoluta — ela respondeu partindo para cima de Alex tentando lhe acertar um golpe pra valer. — Calma, mulher. Assim você vai se machucar. — Alex riu admirado. — Eu me machucar? Ou você bate ou você apanha. Qual vai ser? — ela conseguiu desequilibrar um Alex estupefato e montá-lo no chão, numa manobra ágil. — Oh, merda, você realmente está falando sério — ele bloqueou os movimentos dela, evitando os golpes. — Você realmente acha que aquela morena bronzeada ia passar batido? — sua mão resvalou atingindo seu queixo, fazendo com ela sentisse uma dor horrível na mão. Ele gemeu de dor, já que mordera sua língua no processo e percebeu a chave de braço que ela estava tentando lhe dar.


— Você realmente achou que a raiva que eu senti, passou por completo? — o brilho nos olhos de Fay delatava todo o sentimento que ela armazenara naqueles dias. — Droga, Fay. Eu não vou revidar! Sou mais forte que você e não quero te machucar — ele resmungou tentando segurar os braços de Fay, sem que a machucasse. — Então você vai levar, porque homem, eu vou por toda essa indignação que sobrou para fora. — Imobilizando momentaneamente o adversário, Fay sentiu-se vibrar. — Então coloca para fora, vamos! — ele exclamou levando um golpe em cheio no tórax. Num determinado momento da luta, Fay gritou. — Aaaaaahhhh...— sua voz era de choro. — Fay, Fay! Porra! O que houve? Eu te machuquei? — Alex perguntou desesperado. — Meu braço... Aquele que levei um tiro...— Ela fingiu uma dor aguda. — Fingida! — Kate gritou de onde estava sentada apreciando o espetáculo. Mais alguns espectadores se juntaram na torcida por Fay. Quando Fay riu descaradamente, Alex sacou que aquela havia sido uma manobra sorrateira para distraí-lo. Eles se engalfinharam no chão por um tempo com ela atacando e Alex apenas se defendendo, até que ele resolveu encerrar a brincadeira e a imobilizou no chão. Naquele instante Fay notou que seu jogo apenas servira para deixá-lo excitado. — Seu pervertido! — Fay deu-lhe um tapa no braço e começou a rir. — O que?! — Alex disse rindo, perdendo as forças e sofrendo mais uma investida dela. — Estas não são preliminares! Estou te dando uma surra! — O que posso fazer? Aconteceu... — ele recuperou o domínio sobre ela, quase sem fôlego. Fay mais parecia uma pequena Valquíria enfurecida debaixo de seu corpo. — Seu masoquista enrustido! Ele prendeu o riso e disse num baixo tom de voz para que ninguém mais os ouvisse: — Seu tempo acabou. Espero que você tenha lavado a alma, porque agora vamos lavar os nossos corpos no chuveiro. Ela não aguentou e sorriu, tendo um vislumbre do arroxeado que começava a aparecer no queixo dele. — Porra, seu rosto está inchando. — Ela disse entre orgulhosa e arrependida. — Sem problemas, ruiva. — Alex sorriu, dando-lhe um beijo na ponta do nariz delicado. — Você falou um palavrão, Fay! — Kate gritou de longe. — Mais uma nota para o cofrinho! — Cala a boca, va... — quando percebeu que enriqueceria Kate um pouco mais...— Valiosa amiga do peito! Ela escutou a risada de Kate e Gabe e voltou a concentrar-se no homem acima de seu corpo. — Eu sinto muito! Eu não estava levando isso tão a sério, era mais uma brincadeira — ela disse rindo e acariciando o local onde ele levara o golpe. — Tudo bem, meu amor — Alex tentava tranquilizá-la beijando-a em intervalos entre as palavras. — Eu não me importo em ser seu saco de pancadas. Desde que você lave os meus cabelos... Dizendo isso, ele se levantou com ela no colo, abandonando a luta, despedindo-se de sua plateia e falando que naquele momento eles iam começar outra brincadeira...


Ah, o amor...


Agradecimentos Como em todo livro que se preze, a parte dos agradecimentos é o momento em que podemos externar nossa gratidão eterna a algumas pessoas. Agradeço a Deus primeiramente. Lógico. Foi Ele que me deu o dom da vida e o dom da escrita. Se hoje eu estou aqui é porque Ele acreditou que aos seus olhos isso era bom. Ao marido espetacular que tenho e meus filhos. Sempre souberam me dividir em momentos alucinantes de criatividade. Talvez a imagem mental que meus filhos tenham de mim por um tempo será a minha, sentada na minha cama e com o laptop fervendo. Amo vocês de montão. À minha família querida. Todos aqueles que acreditaram e mesmo achando que pudesse ser algo completamente louco, ainda assim continuaram me amando. Obrigada por todo o incentivo, ombro amigo em momentos incertos, investimento pessoal e emocional durante todo o processo. Meg, love you. À minha torcida organizada composta por todas as minhas amigas mais chegadas. Chegadas ao sentido de coração mesmo, porque algumas estão longe, não é mesmo Andrea Beatriz e Lisa? Minhas amigas de perto, sempre segurando minha mão ou dando espaço para minha verborragia. Minhas amigas de longe pelo incentivo e polegares para cima a todo o momento. Amo muito vocês. Agora é a hora derradeira. É o momento em que tenho que dedicar meus agradecimentos às pessoas que fizeram parte por trás dos bastidores. À Elisa, minha “Capista”, amiga e parceira no marketing. Só nós duas sabemos o quanto te perturbei durante os meses antecedentes. Espero que nos vindouros também. À minha equipe altamente profissional de alphas e betas readers. Adoro usar esse termo que só quem está na nossa área compreende. Lud, muito obrigada pelos toques certeiros em determinados momentos. Pelo empenho e assessoria em todas as etapas para divulgação. Minha Book Personal Assistant. Nathy, pelos olhos argutos de revisão. Samantha, ou simplesmente Sammy pra mim, obrigada pela empolgação, dicas, torcida, vibração e carinho com meu Alex e Fay. Você não imagina como é maravilhoso poder fofocar sobre um livro que estou escrevendo e ainda ouvir dicas e palpites bacanas. Ou a possessividade por alguns personagens... você ganhou o Tuts por merecimento. Considere o Irresistível como seu xodó, porque ele sempre será. Love You!; Carol, Gi, Luci. Vocês foram imprescindíveis e um bálsamo por serem os termômetros para este livro. E os ombros amigos, claro. Minha Andrea de novo, empolgada em cada palavra sendo transcrita... E claro, não poderia deixar de ressaltar nesta instância, a ajuda mais do que monumental de minhas assessoras de assuntos jurídicos literários, Juliana Jujuba e Alessandra Alê. Não preciso de nenhum ofício ou documento formal para expressar meu amor por vocês, mas não custa nada


caprichar nos verbetes. Jujuba, o Alex veio da sua empolgação em querer visualizar num livro, um personagem que te apetecesse. Por isso deixei você manusear meu promotor de maneira tão voraz. Seus comentários e críticas ácidas (sempre ácidas... isso ainda vai te fazer mal ao estômago...) trouxeram o Irresistível ao que ele é hoje. Suas pesquisas e averiguações também foram fundamentais em cada pequeno detalhe. Alessandra, minha super mega amiga do peito, criminalista poderosa, deu os toques e as nuances necessárias para tornar essa esfera jurídica em algo apaixonante. Amo vocês duas. Vocês são Absolutamente Irresistíveis pra mim. Capice? E por último, mas não menos importante. Obrigada a vocês leitores e blogueiros adoráveis que me encheram de palavras carinhosas, cobranças dengosas e incentivadoras para que eu soltasse o Alex e a Fay no mundo. Confesso que é difícil me despedir de um personagem. E quando são dois personagens tão apaixonantes como estes, é mais difícil ainda. Não contem ao Gabe, mas tenho uma queda absurda pelo Alex. Embora eu esteja muito dividida, porque o próximo também ganhou meu coração. Enfim, espero que vocês tenham espaço para cada um deles, do mesmo modo que eles fizeram morada no meu coração.

Lov Ya’ll

Trilogia da lei 02 irresistível  
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