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Deixada para trás

Capítulo 1 - Traição

Ano 2014, Maiorca, Espanha. Somente para você, contarei os meus segredos. Amsterdam, ano 2007. Lá estava eu, sentada no chão imundo, em um quarto minúsculo e fedido. Bebendo vinho em uma taça suja, manchada com digitais de alguém que esteve naquele lugar decadente antes de mim. Assistindo, através de uma janela de vidro, empoeirada, o ir e vir apressado das pessoas. Jamais me senti tão sozinha: sem família, amigos, trabalho ou dinheiro, uma indigente ainda viva. Mas as coisas não foram sempre assim. Digamos que vivi o luxo, e agora sou uma amiga íntima da sarjeta. Você deve estar se perguntando o porquê e como isso aconteceu. Fui traída e roubada por meu marido e minha melhor amiga. A falsidade é um recurso excelente para o uso de venenos discretos e mortais. Aos vinte e seis anos de idade eu havia perdido tudo aquilo que um dia imaginei ter sido meu. Amsterdam, dezembro de 2007, dois graus abaixo de zero. Em uma tarde fria e silenciosa do rigoroso inverno europeu, lá estava eu, de pé, do lado de fora. Procurando na bolsa a chave de casa; apressadamente, para fugir do frio que castigava minhas mãos. Depois de três longos minutos, encontrei-a debaixo de alguns papéis amassados. Girei o trinco da porta lentamente, tentando evitar que os seis centímetros de neve acima do nível do assoalho entrassem comigo. Ouvi ruídos estranhos, vindos do andar de cima. Estremeci, imaginando ser um assalto residencial, mas logo descobri que se tratava de algo mais surpreendente: eram sussurros de prazer. Retirei dos meus pés o par de botas marrons cano longo e subi os degraus da escada, em silêncio. Pela porta entreaberta, vi a intimidade entre John e Emilly. Senti meu coração disparar, minha alma quase fugir, deixar meu corpo de vez. Deus... eu estava tão sombria! Felizmente, não cometi nenhuma bobagem. Num impulso, movida pela emoção, empurrei a porta e gritei: patifes miseráveis, o que significa isso? As lágrimas corriam pelo meu rosto, sem consentimento. — John, como você pôde? Na nossa cama, e com a minha melhor amiga? — Anita — disse-me ele, frio, sem qualquer emoção aparente —, esta não é mais a sua cama, nem mesmo é a sua casa. — Não estou entendendo, aonde você pretende chegar com tudo isso?


— Anita — respondeu-me Emilly, então —, eu realmente desejei que as coisas fossem diferentes. Desculpe. — “Desculpe” é tudo o que você tem a dizer? — Fomos amigas desde a infância, Emilly. O que fez você descer a um nível tão baixo? — Jamais fomos amigas, querida! Essa sua carência sufocante, a tendência por implorar atenção constante! Eu suportei demais! Agora é diferente, eu e John estamos apaixonados. Acostume-se. — Maldita! — gritei — Malditos patifes! Saiam da minha casa agora! Não quero ver vocês nunca mais! — Anita — repetiu John —, esta não é mais a sua casa. Ele não estava mentindo. Além de traída, eu havia sido roubada. Assinei, enganada, alguns documentos, dando direitos legais a John sobre todos os meus bens. Meus pesadelos começaram. Meses e meses em brigas judiciais, sem sucesso. E para aumentar a minha falta de sorte, John era um excelente advogado, encarregou-se cuidadosamente de não falhar em seus planos. Eu não mudaria nada recorrendo judicialmente. Todo o meu dinheiro foi parar em mãos sujas. Após o falecimento de meu pai, John assumiu a frente dos negócios. Fomos casados por seis anos, até descobrir que meu dinheiro e meus sonhos foram reduzidos a pó. Os sonhos ajudam a suportar as decepções, quando eles desaparecem ou deixam de existir, despencamos em um abismo escuro e solitário. Nos meses seguintes, recebi uma ordem judicial de despejo, restavam apenas dívidas com advogados, três malas, alguns objetos de baixo valor e um porta-retratos antigo. Uma foto para eu jamais esquecer a garota que um dia fui. Não tive irmãos, Emilly preencheu o vazio desta solidão por vários anos — confiável e dedicada —, mas era uma falsa, dissimulada. O caso teve repercussão em quase todos os jornais, isso me deixou ainda pior. O nome da empresa do meu pai exposto de forma tão baixa e humilhante! Uma vida dedicada a construir um nome estável e confiável para a corretora, e tudo se desfez naquele escândalo vulgar. Depois de ser despejada da minha própria casa, aluguei um quarto na periferia de Amsterdam, numa espécie de abrigo para pessoas com pouco dinheiro, quase nada. O quarto cheirava a mofo, as paredes estavam pichadas com desenhos obscenos, a iluminação era pouca como em filme de terror. Igualmente, a minha vida cheirava a trapos velhos e restos de felicidade. Ao menos, o aquecedor mantinha a temperatura necessária para enfrentar aquele inverno de dez graus abaixo de zero. Tudo o que me restava eram as três malas, das quais teria de ir me desfazendo para pagar a diária da espelunca e a comida em algum restaurante


esquecido pela vigilância sanitária. Um ano depois, minhas condições de vida permaneciam ruins, e eu estava ainda pior. Tomada pelo desespero e pela solidão, pensei em desistir. Quem notaria se eu deixasse de existir? Certamente algumas pessoas julgariam minha atitude como sendo fraqueza diante da vida. Mas, na situação em que me encontrava, não dava a mínima para opinião de pessoas que buscavam em tragédias alheias uma distração para sua própria infelicidade. Restavam alguns comprimidos soníferos, e eu desejava não acordar mais. Retirei todos da embalagem e enchi minhas mãos. Os dois patifes haviam vencido, eu estava entregue, cansada de insistir. No exato momento em que levava os comprimidos à boca, fui interrompida pelo jornaleiro, que empurrava por debaixo da porta o jornal, como fazia de costume. Deixei a taça de vinho ao lado dos comprimidos, sobre a mesa. No meu íntimo, senti alívio por aquela interrupção. Recolhi o jornal, e, para minha surpresa, uma foto de John e Emilly na primeira página anunciava o casamento mais badalado pela mídia nos últimos tempos. Ressurgiram ódio, rancor, raiva e a miserável sensação de fracasso. Emilly estava num vestido azul escuro, à altura do joelho, com sandálias elegantes e delicadas, cabelo loiro, liso, caído sobre os ombros e um anel de brilhante bem lapidado, provavelmente comprado com o meu dinheiro. John, muito elegante, vestia terno cinza escuro e exibia um sorriso triunfante. Patife! Naquele momento, o meu ódio tornou-se ainda maior do que a minha tristeza. Ao contrário de desistir, optei por continuar e recuperar tudo aquilo que me fora roubado. Ao fim de minha vingança, não restaria pedra sobre pedra. Os dois patifes se arrependeriam amargamente de terem me enganado. Guardei o jornal numa pequena caixa velha, joguei os compridos no sanitário. Durante horas, caminhei de um lado a outro do quarto, imaginando uma maneira de mudar aquela situação desfavorável. Lembrei- me, então, de um velho amigo de meu pai, Paul. Jamais pedi favores antes, mas já não existia nenhum lugar para orgulho. Telefonei para o Paul, que me atendeu cheio de preocupações. Marcamos num restaurante no Leidseplein, centro de Amsterdam. Sempre soube que a empresa de meu pai era seu maior investidor, a empresa que agora pertencia a John. Por isso tive de ser bastante discreta. Minha situação financeira era difícil, precisamente falando, miserável. Por que deixar isso claro? Não me esqueci de cuidar da aparência. Nos piores momentos, lembrava minha mãe dizendo que “só os que nos amam de verdade podem conhecer nossas fraquezas”. Traduzindo: use maquiagem, salto, e sorria.


Cheguei antes da hora marcada, e Paul foi britanicamente pontual. Devido ao dia chuvoso, poucas pessoas passeavam no parque em frente ao restaurante. A temperatura variava entre zero e dois graus. Estávamos no inverno, tudo parecia tranquilo e úmido. Fiquei observando por alguns minutos a paisagem, até avistar Paul entrando no restauraste. Ele tinha aproximadamente cinquenta e nove anos, voz firme e gestos de um cavalheiro. Meu pai costumava dizer: “no mundo dos negócios, Paul, é o único homem em quem se pode confiar”. — Olá, querida! Como você está? — Estou bem! Obrigada por vir. — Ora, eu não deixaria de atender a um pedido da filha do meu melhor amigo! Soube dos últimos acontecimentos, sou absolutamente contra o comportamento de John, mas um homem de negócios faz acordos com muitas pessoas sem escrúpulos, o mercado de trabalho não me permite escolher clientes. Fale comigo abertamente, se eu não puder ajudá-la, atrapalhar não vou. Por que não me procurou antes? — Não tive coragem, foram dias difíceis, queria ficar longe das cobranças e especulações. — Soube que recorreu várias vezes em juízo — disse ele — expressando um gesto de desapontamento no canto da boca. — Sim, recorri de todas as maneiras possíveis, mas foi inútil, o contrato não deixou nenhuma brecha. Sinto que sou idiota por ter confiado todos os meus bens a outra pessoa. Fomos ligeiramente interrompidos pela moça que trazia consigo um pequeno caderno de anotações. Pedi um café com canela. — Não se culpe dessa forma, o mundo dos sentimentos não é diferente do mundo dos negócios, existem sempre aqueles que farão de tudo para alcançar seus objetivos, não importa a quem tenham de destruir ou enganarem . Não se deixe abater por isso. Eles venceram uma batalha, mas isso não significa que a guerra esteja ganha. Você precisa expandir seus horizontes, recomeçar uma nova vida, fazer novos planos. As pessoas mais bem-sucedidas que conheço foram aquelas que souberam o momento exato de recuar, sair de cena, para não serem destroçadas pelo inimigo. Paul falava de uma forma engraçada e codificada, mas entendi exatamente o que ele tentava dizer. Ou eu esquecia toda aquela história e seguia adiante, ou perderia muito mais do que já havia perdido. — Entendo! Tentarei seguir o seu conselho — falei apenas para tranquilizá-lo, não seriam palavras engraçadas e codificadas que me fariam mudar de ideia. — Preciso encontrar um trabalho. Embora tenha concluído a faculdade, não tenho nenhuma experiência anterior. Se for possível, gostaria de contar com sua ajuda. — Você é fluente em outros idiomas? — Sim, falo perfeitamente quatro idiomas!


— Alguns dias atrás, um funcionário responsável pela tradução dos contratos de uma grande companhia pediu demissão, creio que ainda não encontraram ninguém suficientemente bom para substituí-lo. Falarei diretamente com o diretor da empresa a seu respeito. — Estou muito feliz por contar com a sua ajuda. — Ora, não seja tola. Para que servem os amigos se não podemos contar com eles nos momentos difíceis? — Depois de beber duas taças de vinho, preciso ir, tenho uma reunião agendada para esta tarde. Ah, querida, gostaria de manter essa nossa conversa em sigilo! Por mais que eu abomine as atitudes de John em relação aos últimos acontecimentos, sou um homem de negócios. Não escolho meus clientes. — Sim, entendo! Serei discreta, não se preocupe. Antes de levantar-se, Paul retirou de sua maleta um pacote volumoso contendo cédulas de cem euros. Obviamente, uma quantia generosamente alta. Fiz menção de recusar, mas ele elevou uma de suas mãos impedindo a devolução. Fiquei imensamente feliz. Eu precisava daquele dinheiro. Ele sabia disso. — Há alguns anos, tive alguns desgostos em minha vida, o seu pai foi meu melhor amigo. Não ofereço por piedade, estou quitando uma dívida antiga. Ajudarei você a encontrar um trabalho e seguir sua vida, mas, por favor, esqueça tudo o que aconteceu, só assim você conseguirá ser feliz novamente. Agradeci o gesto de compaixão, despedimo-nos logo depois. A quantia era suficiente para pagar um bom apartamento por pelo menos um ano. Quanto ao meu novo trabalho, seria apenas uma questão de tempo. Voltando à espelunca, comprei o jornal em uma das várias bancas de revistas espalhadas pelo centro de Amsterdam. Sentei em um banco, folheando ansiosa em busca de um apartamento disponível para mudança imediata. Meu desejo era deixar o mais rápido possível aquele lugar deprimente. Nos últimos meses, pude aprender a economizar, a viver no limite. O aluguel e a alimentação eram minha prioridade, depois deles vinham os honorários dos advogados. Ainda em direção ao “hotel”, caminhando entre as ruas estreitas, senti o cheiro de boa comida. Isso me fez lembrar que há um ano o meu cardápio variava entre saladas congeladas e pratos prontos. No fundo sempre desconfiei que fossem restos de comida de restaurantes mais caros. Senti uma vontade quase incontrolável de entrar e pedir um dos pratos principais do cardápio, embora eu precisasse priorizar minhas necessidades. Lembrei-me, então, de um restaurante próximo. Desejei comemorar aquele momento. Para mim, era o início de um recomeço. John e Emilly se arrependeriam amargamente do momento em que me enganaram. Seria a minha revanche. Chegando ao hotel, guardei o dinheiro em um lugar seguro, vesti algo mais confortável: calça jeans, blusa térmica preta, um par de botas antiderrapantes e, para me proteger do frio,


um casaco quentinho, imitando pele de animais — casacos feitos com peles de animais são desumanos e deselegantes. Cruzei ruas escuras até chegar ao restaurante chamado Glamour, certamente os proprietários equivocaram-se na escolha do nome. Na entrada, havia uma porta de vidro com um espaço reservado para dependurar os casacos. Uma chinesa muito simpática, vestida em um quimono, conduziu-me a uma pequena mesa com vista para uma parede de tijolos. Um local agradável, de decoração exótica, inúmeros quadros pendurados em todas as paredes, e, no teto, um grande lustre ofuscado pela poeira e o óleo da cozinha. Um verdadeiro mix cultural: chineses, poloneses, indianos, noruegueses, etc. Sempre gostei de observar esses detalhes. Meus pensamentos foram interrompidos por um rapaz parado em minha frente, sorrindo de maneira desconcertante. — Olá, não me entenda mal, estou em uma das mesas próximas da saída, minha irmã e meus dois amigos fizeram uma aposta ridícula. Espero que você não se chateie. — A que tipo de aposta você se refere? — Na verdade, se me sentar com você, venço a aposta, e o perdedor paga a conta. — Entendo! Mas não é justo, partindo do princípio de que sei de tudo. — A questão não é essa. Você consegue ver a minha irmã? — Sim. — Ela irá contar e recontar esse acontecimento pelos próximos quarenta e cinco anos! Sorrimos. “Afinal, que mal pode existir em ajudar um rapaz tão bonito?” — Pensei! — Você pode se sentar, se quiser. — Obrigado! — É a primeira vez que venho a este restaurante. Você me ajuda a escolher um prato e ganha sua aposta, o que acha? — Fechado! — Que tipo de comida prefere? Apimentada, indiana? — Não, sou vegetariana, prefiro salada biológica. — Você acreditou na placa do restaurante? O que você deseja comer não é servido aqui. "Glamour" é apenas o nome na placa. Desculpe não ter me apresentado, meu nome é Arthur. — Anita. — É um nome muito bonito, você conhece o significado? — Não! — Significa “cheia de graça”. Ele tentava me impressionar, e estava conseguindo. Charmoso, aproximadamente trinta anos, cabelos lisos escuros, sobrancelhas largas, olhos azuis e um sorriso lindo. Nos últimos meses, meus diálogos haviam sido sobre documentos e recursos jurídicos; conversar sobre coisas comuns me pareceu uma boa ideia.


— Obrigada! Arthur também é um nome muito bonito. — Você sabe o significado? — Sim, meus pais eram fãs de palavras cruzadas — Sorrimos. Duas pequenas cavidades ficavam evidentes nos cantos da boca sempre que ele sorria. Definitivamente, um homem muito interessante. — Diga o que trouxe você aqui justamente hoje? — Uma ocasião especial! — Está comemorando algo? — Digamos que sim! — Comemorando algo sozinha, não entendo! — Tenho uma boa proposta de trabalho. — Ah, parabéns! Desejo-lhe sorte! Gostaria de sentar-se conosco? Minha irmã costuma ser amável com os desconhecidos. — Sorrimos novamente. — Não, obrigada pela gentileza. Mas hoje prefiro ficar sozinha. Outro dia, talvez. — Entendo! Outro dia está bem — disse ele, fazendo um sinal para a garçonete, pedindo-lhe, caneta e papel. — Anita, este é o número do meu telefone, ligue quando quiser conversar. No dia seguinte, empenhei-me em encontrar um apartamento. Havia um próximo à estação central de Amsterdam: bem localizado, em um prédio tradicional. Paredes brancas, piso de madeira clara, cozinha estilo americano. Iluminação bem posicionada, levando em conta que durante o inverno as noites são mais longas, e a cidade é envolvida pela escuridão antes mesmo das quatro horas da tarde. Não tive dúvidas de que aquele lugar me traria muitas alegrias. A beleza do inverno em Amsterdam é valorizada pelos muitos canais e lagos que disputam espaço entre as ruas convencionais. Sem dúvida, desejei mudar para aquele apartamento imediatamente. O valor era bastante alto, mas em poucos dias eu estaria trabalhando, e, depois, recuperaria todo o meu dinheiro. Teria, finalmente, a minha vida de volta. Assinei o contrato de locação durante aquela mesma tarde. Retornei ao hotel antes do anoitecer para buscar meus objetos pessoais. Não encontrei nenhuma dificuldade na mudança, afinal, eram apenas três malas, e o apartamento já estava mobiliado. Organizei minhas poucas roupas no closet, tomei um banho demorado com água quente — apesar do bom aquecedor, a água do chuveiro do hotel era gelada de causar dor. Antes de dormir, fui à varanda apreciar a vista. A temperatura estava cada vez mais baixa, o lago já começava a congelar. Fiquei ali, com o olhar perdido em algum lugar, onde apenas eu podia estar, imaginando o que fazer para destruir, de uma vez por todas, John e Emilly.


Capítulo 2 - Uma chance

Quatro dias depois, Paul ainda não havia dado nenhuma notícia, e a minha ansiedade só aumentava. Todos os dias eu vasculhava as bancas de revistas tentando descobrir os planos de John. Tornei-me obcecada. Em um desses dias, li um artigo escrito, divulgando o interesse dele em expandir os negócios para países vizinhos, como Bélgica, França e Alemanha. John sempre foi ambicioso, casar-se comigo foi apenas um degrau rumo ao topo. Ele não passava de um jovem advogado desconhecido, conseguiu dar uma guinada em sua carreira depois de ser contratado pela empresa do meu pai. Podemos dizer que ele fez isso muito bem, tão bem que se tornou sócio majoritário. Mas o patife não perdia por esperar, como dizem no mundo dos negócios, "a vingança é um prato que se serve frio". Daquele dia em diante, vingar-me tornou-se uma obsessão. Naquela noite específica, desejei conversar com alguém, afastar-me daquele mundo de lembranças sombrias no qual eu me encontrava confinada. Lembrei-me de Arthur. Por que não telefonar? — Olá, Arthur, como está? É Anita! — Estou bem e você? — Muito bem! Obrigada por perguntar. Eu pensei sobre a sua proposta do outro dia. O que acha de sairmos para conversar um pouco? — Sim, claro, seria perfeito. Mas hoje, infelizmente, não poderei. Tenho muito trabalho acumulado. Podemos amanhã? — Sim, está ótimo, às 20 horas? — Combinado. Na manhã seguinte, recebi o telefonema de Paul, avisando-me que agendara uma entrevista de emprego na empresa sobre a qual havia falado. Ah, Deus, fiquei radiante com a notícia. Aproveitei o dia para terminar de organizar todo o apartamento. Pontualmente às 20 horas, o interfone tocou. — Senhorita Anita, o senhor Arthur está à sua espera — era o porteiro. — Obrigada, diga-lhe que já estou pronta.


Vesti um vestido de veludo verde, com detalhes em lantejoula, sapatos de saltos e, para me proteger do frio, um casaco de inverno preto. — Anita, você está linda! — Não fale isso com tanta frequência, se não serei obrigada a acreditar. — Diga-me aonde iremos? — Fale-me você! — desde o nosso primeiro encontro casual, percebi que Arthur dispunha de poucos recursos financeiros. Eu não queria deixá-lo embaraçado indo a lugares além de suas possibilidades. — Confio em você, por isso deixarei que decida. — Não se preocupe senhorita Anita, a senhorita não irá se arrepender — disse , sorrindo. Alguns minutos depois, chegamos a um restaurante agradável, onde tocavam música ao vivo. Do lado esquerdo, havia duas mesas de sinuca, e alguns homens disputavam partidas entre eles. Todos sorriam enquanto levantavam seus copos cheios de cerveja, que transbordava pelos cantos de suas bocas. O líquido respingava nas camisas amarrotadas de cores berrantes. Entretanto, ninguém parecia se importar com esses pequenos detalhes. — Você não quer retirar seu casaco?- Arthur perguntou enquanto fazia sinal para a garçonete. — Sim, onde posso pendurá-lo? — Imagino que deva colocá-lo atrás de sua cadeira. Minutos depois a garçonete serviu-me uma taça de vinho, e uma limonada para Arthur. — Por que pediu limonada? — Estou dirigindo, não posso beber. Ele era lindo, interessante e politicamente correto, além de charmoso. — Qual o seu trabalho Arthur? — Trabalho em uma cafeteria, é um negócio de família. Uma verdadeira relíquia construída antes da Segunda Guerra. Toda a cidade foi bombardeada, mas o local resistiu. Aquele definitivamente não me pareceu o trabalho mais interessante e lucrativo do mundo. Para mim, a palavra relíquia simbolizava coisas únicas, perguntei-me o que poderia haver de único em uma cafeteira? — E por que não quis estudar, seguir outra profissão? — Por que eu deveria? Estou feliz com o meu trabalho, meus pais herdaram dos meus avós, e eu herdarei de meus pais. Conclui rapidamente que Arthur não possuía grandes ambições. Era um jovem rapaz sonhador, desejava viver o resto dos seus dias atrás de um balcão, servindo café e rosquinhas. Sinceramente, pouco me importava, afastei esses pensamentos e decidi aproveitar o momento presente. Conversamos durante horas, sorrimos, dançamos, arrisquei até cantar uma música no karaokê, fui um fracasso. Foi uma das noites mais agradáveis dos últimos tempos.


Arthur deixou-me em casa por volta das duas horas da madrugada, despedimo-nos e combinamos de sair novamente no final de semana. Eu me senti leve e feliz durante aquela noite, não existiram fantasmas ou lembranças, tudo foi perfeito. Quase me atraso para a entrevista na manhã seguinte. Vesti uma roupa discreta, calcei sapatos baixos e confortáveis. Tive que vender meu carro para pagar dívidas, comecei, então, a utilizar o serviço público de transportes. Caminhei até a estação de Amsterdam. Lá chegando, apanhei o trem com destino a Rotterdam. Desembarcando nesta cidade, substituí meus sapatos baixos pelos de salto, que estavam dentro da minha bolsa. Afinal, uma boa apresentação sempre rende bons frutos. Era um prédio moderno, repleto de escritórios pertencentes a grandes companhias. Ao me apresentar na recepção, fui imediatamente encaminhada ao escritório do Dr. Frederico Stivir; um homem magro com cabelos lisos encharcados de gel, 1,60 de altura e uma voz extremamente aguda. Confesso ter idealizado uma figura diferente para aquele cargo. Existe uma imagem criada em torno dos homens de negócios, e a maioria segue um padrão do tipo "elegante, voz firme e gestos discretos". O senhor Frederico definitivamente não se encaixava nessa definição. Mas, sem dúvidas, era um homem bastante competente para dirigir uma empresa daquele porte. Ele falou seguidamente durante cinco minutos, deixando-me exausta e confusa. Depois esclareceu sobre o meu salário, e fiquei surpresa com a quantidade de zeros existentes em meu pagamento. Despedimo-nos logo em seguida. O cargo era oficialmente meu. Telefonei para Arthur, contando-lhe a novidade. Não havia muitas pessoas com quem eu pudesse dividir aquele momento. Coincidentemente depois do escândalo, todos os meus amigos viajaram ou mudaram inexplicavelmente o número do telefone, resumindo; ficaram indisponíveis por tempo indeterminado. Arthur e eu nos encontramos durante a noite para comemorar. Desta vez, vesti algo simples e confortável, nada muito glamoroso. Uma blusa branca, calça jeans e sapatilhas azul-escuras. Também comprei uma bolsa nova na feira dos estrangeiros, 100% falsificada, 5 % do valor original. Arthur chegou pontualmente, trazendo consigo um buquê de tulipas. — Que gentil! Obrigada! — Elas combinam com você! — Por que diz isso? — São bonitas, de cores alegres, e possuem um cheiro suave. — Isso significa que sou bonita, alegre, e tenho um odor suave? — Sim — respondeu ele sorrindo, formando aquelas covinhas maravilhosas nos cantos da boca. Naquela noite, fomos a um restaurante mexicano afastado da cidade, os pratos eram exóticos e extremamente apimentados. Engraçado, durante anos residi em Amsterdam e jamais frequentei aquele local. Existia charme na simplicidade do lugar. A boa música tornava o ambiente muito aconchegante.


— Esta é a terceira vez que nos encontramos, e ainda não sei nada sobre você — perguntoume. — Você tem irmãos, família? — Meus pais morreram, não tenho irmãos — respondi de forma fria, demonstrando falta de interesse em falar sobre o assunto. — Sinto muito! — Está tudo bem! Mas prefiro não falar sobre isso. — Entendo! Fale-me sobre seu novo trabalho, quando vai começar? — Amanhã! Serei responsável pela tradução de contratos. — Hum... isso me parece muito interessante e perigoso. — Não me diga. Qual perigo pode existir em traduzir palavras? — Você vai conhecer os segredos dos grandes empresários. — Você é um tolo! Novamente sorrimos. Conversamos durante horas, depois decidimos dançar uma música suave. Sem perceber, nós nos beijamos. Arthur era um homem gentil e bonito, mas não se encaixava nos meus planos futuros. Um rapaz modesto procurando alguém para se apaixonar, casar, ter filhos e herdar a cafeteria da família. Não existia possibilidade de um relacionamento mais profundo entre nós dois, o fim seria inevitável. Ele mexia comigo de um jeito diferente, tranquilo e doce. Era impossível não gostar de uma companhia tão agradável. Depois do beijo, retornamos à mesa, e as coisas começaram a fugir do meu controle. Perdi novamente a noção do tempo, quase me esqueço do meu trabalho no dia seguinte. Meu primeiro dia de trabalho. Saia justa na altura do joelho, sapatos altos, uma blusa amarrotada, pois jamais fui especialista em passar roupa. Fui apresentada à secretária do Dr. Frederico Stivir e aos outros colegas de trabalho. Tive o privilégio de ter um escritório só meu, se fosse possível chamar um cubículo minúsculo de um metro e meio de "escritório". Pelo menos tinha uma cadeira para eu me sentar. Havia uma pequena escrivaninha e sobre ela um computador antigo, alguns objetos de escritório, na parte inferior algumas gavetas. A cadeira giratória velha, fazia um barulho ensurdecedor ao girar. Mas nada daquilo importava, pois eu estava no meu escritório, quem diria? O objeto mais cativante era o quadro com a paisagem de uma praia no Hawai, levando em conta o detalhe que não existia nenhuma janela. A secretária do Dr. Frederico chamava-se Melissa, recebi de suas mãos algumas pastas para tradução. — De quanto tempo disponho para a entrega de todo esse trabalho — perguntei a Melissa. — Você dispõe de todo o dia de hoje, querida! Naquele momento, entendi por que existiam tantos zeros no meu pagamento mensal; teria que fazer valer cada centavo ganho. Durante todo o dia, trabalhei na tradução, e, como uma mágica sombria, o conteúdo


parecia se tornar ainda mais volumoso. Quando me dei conta, já eram 16 horas, final do expediente. Felizmente terminei todo o trabalho a tempo. Arthur já estava à minha espera, havíamos combinado de nos encontrar depois do expediente; eu estava exausta e faminta. Jantamos num restaurante chinês em Rotterdam. Estávamos no mês de novembro, a neve começava a enfeitar os telhados das casas de branco. Depois do jantar, seguimos caminhando pelo parque em direção ao estacionamento. Avistamos, então, uma pista de gelo, onde se alugavam patins. Patinar no gelo jamais foi meu esporte favorito, mas aceitei o desafio proposto por Arthur. Surpreendi-me com a desenvoltura dele, sem dúvidas, um excelente patinador. Eu fui conduzida com elegância, até tombar e deslizar pela pista sem necessitar dos patins. — Você está bem? Perguntou-me. — Sim, mas desisto da minha carreira de patinadora neste exato momento. — Não seja dramática, arrisco até dizer que você caiu com muita classe. — Obrigada, sinto-me bem melhor. O tombo deixou meu corpo dolorido, e a neve continuava caindo em demasia. Algumas estradas estavam bloqueadas devido ao risco de derrapagem, por esse motivo decidimos não nos demorar. Arthur levou-me para casa, agradeci-lhe a noite agradável e novamente me deixei envolver. Na manhã seguinte, despertei ouvindo Donna Summer, “Love to love you baby” era a música tocada pelo meu despertador. Abri a cortina e pude ver toda a cidade encoberta pela neve. Tudo parecia tranquilo e silencioso, até mesmo as avenidas mais movimentadas de Amsterdam aparentavam certa calmaria, embora fosse apenas uma impressão momentânea, pois o trânsito na cidade jamais seria tranquilo. Bicicletas, táxis, trens, carrinhos de passeio, motos, etc.; um frenesi constante de uma cidade que nunca dorme.

Capítulo 3 - Decisões Arthur dormiu no meu apartamento na noite anterior, mas teve de ir embora logo cedo devido a suas obrigações com a cafeteria. Honestamente falando, eu não pretendia me envolver em nenhum relacionamento. Minhas cicatrizes ainda não estavam curadas. Infelizmente, deixei de acreditar no amor. Hoje tenho a minha própria teoria sobre o assunto. “Acredito que algum publicitário solitário e ambicioso criou a ideia de que se podia ser feliz para sempre, como nos contos de fadas da Disneyland. Depois, idealizou uma boa estratégia de marketing, o chamado Valentine’s day, com a intenção de movimentar o comércio e aquecer as vendas. A ideia foi tão boa que Hollywood comprou os direitos autorais, eternizando vários filmes românticos, recordes de bilheteria. O publicitário morreu mega milionário, levando consigo o seu segredo para o túmulo.”


O medo de amar novamente havia se instalado em meu coração. Cuidei de afastar aqueles pensamentos enquanto vestia minhas roupas apressadamente: saia justa na altura do joelho, blusa social branca com gola alta, de novo amarrotada. Melissa estava à minha espera, com um sorriso que nunca lhe chegava aos olhos, e roupas dois números abaixo do seu manequim adequado. — Você chegou cinco minutos atrasada, querida. Espero que isso não se torne rotina. Ah, antes que me esqueça, você cometeu um erro ontem. — Cometi um erro? - Indaguei. — Sim! Traduziu uma palavra errada, e isso é inadmissível. Tome mais cuidado da próxima vez. — Posso saber a gravidade e as consequências do meu erro? — Perguntei enquanto organizava as pastas em cima da mesa. — Você trocou a palavra, atenciosamente por atencioso, isso não pode acontecer, querida disse ela — saindo logo depois, comprimida dentro de seu vestido preto justo. Definitivamente Melissa era insuportável! Comecei a crer que havia encontrado a pessoa responsável por guardar os portões de entrada do inferno. Sentei na minha cadeira barulhenta, olhei para o quadro do Hawai e iniciei meu trabalho. Durante a pausa, fui à cantina descansar e tomar um café forte. Avistei o Dr. Frederico sentado próximo à janela, segurando uma xícara de chá, com o olhar perdido em algum lugar, onde só ele podia estar. Perguntei-me por qual motivo o diretor de uma multinacional insistia em vestir roupas estranhas e deselegantes. Talvez fosse um solteirão do tipo que vive em função do trabalho ou, quem sabe, apenas mais um solitário, vítima do mundo moderno. Roupas do Elvis Presley não era exatamente o estilo adotado pelos executivos. Ao perceber minha presença, ele acenou convidando-me a sentar junto dele. — Olá, Anita. Como está? — Estou bem! E o senhor? — Bem, obrigada! — Sou um grande amigo de Paul, ele falou muitas coisas boas a seu respeito. Disse-me que você é uma excelente profissional e precisa apenas de uma chance no mercado de trabalho. — O senhor Paul foi muito generoso em suas palavras. — Sei quem você é! Vi sua foto nos jornais alguns meses atrás. Desculpe, não quero ser indiscreto — continuou ele — sinto muito. — Não é nenhuma indiscrição, quase todos nesta cidade acompanharam o escândalo nos jornais. Fico feliz em saber que nem todos possuem uma memória tão boa. O fato é que aconteceu, não podemos alterar o passado. — Fico feliz em saber que você foi capaz de superar tudo isso - disse-me ele- levantando-se da mesa. Superar era uma palavra inadequada. Minutos depois, recebi uma mensagem de Arthur. “Vamos ao cinema hoje?” — “Sim, claro!” — respondi.


Por algum motivo desconhecido, não consegui dizer não. Saindo do trabalho, lá estava Arthur, com um buquê de tulipas. Por vezes, vi nos olhos dele o mesmo brilho que um dia existiu nos meus. Mas descobri que nem todos os sorrisos são benéficos, e nem todos são aquilo que afirmam ser. — Obrigada, as flores são lindas! — Não tem que agradecer. Diga-me como foi o seu segundo dia de trabalho? — Ah, não tão bom, Melissa definitivamente não gosta de mim, isso é desconfortável, sinto-me vigiada. — Ela sabe o quanto você é talentosa, isso talvez a deixe insegura. — Você é mesmo engraçado, como pode afirmar sobre o meu desempenho com tanta convicção? — Conheço o sorriso das pessoas talentosas, e o seu é o mais lindo de todos - disse, tocando em meu rosto. Continuamos a caminhar pelo parque de mãos dadas. As ruas da cidade estavam totalmente encobertas pela neve densa. Os lagos transformaram-se em pistas de gelo, proporcionando alegria aos patinadores amadores. O Natal se aproximava, luzes coloridas enfeitavam toda a cidade, atrações como "kerstmis" e uma diversidade de outros entretenimentos divertiam adultos e crianças. Vi uma mulher vestida com roupas coloridas e acessórios extravagantes. Uma cigana vidente. Ela apresentou-se como alguém capaz de revelar o futuro. Arthur sugeriu que seria interessante a cigana revelar o meu suposto futuro. Jamais acreditei em coisas a priori, mas precisávamos aquecer o comércio natalino. Concordei, então. Sentei-me em um banco improvisado, estendi a minha mão esquerda, esperando as revelações da cigana. — Você é uma pessoa especial — disse ela — mas uma grande decepção lhe roubou a paz, enchendo-a de mágoa e rancor. — Assustei-me. Era blefe. Afinal, quem neste mundo nunca sofreu decepções? Charlatona! — O caminho do ódio não tem volta. Nada é definitivo, tudo está suspenso. Deus sempre nos oferece novas oportunidades. A vida está lhe ofertando uma chance de ser feliz novamente. Você deve deixar o passado ir embora; vejo tempestades se aproximarem na forma de um homem envolvente e misterioso. Ele realizará todos os seus desejos em troca da sua alma. — Obrigada, é o bastante. — O que aconteceu Anita? Você realmente acredita em previsões sobre o futuro? — Não! Só estou cansada, não preciso ouvir adivinhações fajutas. Coincidência ou não, aquelas palavras escondiam uma verdade sombria sobre mim mesma. As lembranças e recordações dolorosas pairavam como fantasmas barulhentos rodopiando em minha cabeça. Lembrei-me de Emilly, atenciosa, gentil e companheira. Viajávamos juntas, dividíamos sonhos. Sempre presente e dedicada, prestou-me inúmeros favores. Certo dia, senti-me indisposta, John havia viajado a negócios, Emilly permaneceu junto a mim no quarto do hospital durante toda a noite.


Jamais imaginei Emilly envolvida num caso amoroso com John, um homem pelo qual nunca demonstrou simpatia. Por outro lado, havia John, muito amoroso, presente em todos os momentos possíveis da minha vida. Durante as noites, depois do jantar, dançávamos ao som de músicas antigas, enquanto John sussurrava toda sua paixão. Tudo era perfeito; uma perfeita armadilha para me roubar. "Inimigos disfarçados de amigos sempre causam grandes tristezas". — Anita — ouvi Arthur dizer —, vamos embora, você deve está cansada, foi um dia longo. — Você tem toda razão, eu devo descansar. Chegando, sentei-me no sofá da sala em meio à escuridão. Arthur e eu vivíamos em mundos diferentes, sonhávamos futuros diferentes. "Para que alimentar esperanças no coração de quem não temos a intenção de amar?” Certamente ele encontraria uma boa mulher, um amor verdadeiro. Alguém disposta a compartilhar seus sonhos. Meu desejo era seguir carreira, tinha tantos planos, objetivos ainda não realizados. Na manhã seguinte, despertei ouvindo o barulhento dos carros. Afastei a cortina querendo saber se ainda nevava. A neve havia cessado. Mas as ruas tornaram-se escorregadias e perigosas. Muitos acidentes acontecem nesta época do ano, carros costumam deslizar sobre as finas camadas de gelo, até mesmo caminhar torna-se uma aventura escorregadia. Vesti-me para ir ao trabalho, decidida a dar um basta no meu envolvimento com Arthur. Não era justo alimentar aquela ilusão. Chegando ao escritório, adivinha quem estava à minha espera? Melissa! Sempre atenta aos detalhes mais irrelevantes. — Olá, querida! O Dr. Frederico tem uma reunião marcada às 14 horas com os acionistas de uma grande multinacional. Espero que você não o decepcione. — Desculpe, senhora Melissa, mas não fui informada sobre nenhuma reunião. — Oh, querida. As reuniões são marcadas com antecedência, entretanto, algumas vezes, de imediato. Pelo que sei, você é uma funcionária, e não uma acionista, por esse motivo, não me dei ao trabalho de lhe avisar antecipadamente. Imaginei-me, por um momento, arrancando os cílios postiços de Melissa. Mas a boa diplomacia me impediu de ter uma reação tão hostil. Por sorte, eu tinha meus utensílios básicos de primeiros socorros da boa aparência na bolsa. Maquilagem, perfume, spray para cabelos e um par de brincos com pequenos diamantes. Era uma peça única, minha mãe encomendou ao joalheiro, especialmente para mim. Tinha um valor sentimental inigualável, por essa razão não os vendi com as outras joias. Pontualmente às 14 horas, lá estava eu, ao lado do Dr. Frederico. Ele estava vestindo uma blusa branca, calça preta e um paletó xadrez. Particularmente, comecei a imaginar que as roupas pudessem ser uma estratégia de marketing para causar impacto. Como dizem no mundo dos negócios; falar mal também é propaganda. Os acionistas chegaram logo depois. Sempre apressados, usando o slogan "tempo é


dinheiro". A reunião foi um sucesso, desempenhei meu trabalho muito bem, com direito a elogios do Dr. Frederico. — Vamos tomar um café no terraço? — perguntou-me Frederico — ainda temos quinze minutos. Você se saiu muito bem, estou impressionado. — Obrigada! — Em duas semanas, acontecerá uma reunião em Dubai, precisamos de uma resposta positiva dos árabes para dar continuidade aos projetos de expansão da empresa. Depois do que vi hoje, quero sua presença. Se você estiver disponível, é claro. — Sem dúvidas! Como recusar uma viagem a Dubai? Além do mais, minha carreira é prioridade. — A cultura árabe é muito diferente da nossa cultura, isso pode causar certo desconforto. — Não se preocupe, Dr. Frederico. Farei o meu melhor! — Se preferir, pode me chamar de Frederico quando não estivermos no ambiente de trabalho. É mais caloroso. — Senti um frio percorrer meus ossos, melhor dizendo, petrificar minha alma. Tive receio de que aquelas palavras fossem uma prévia para algo mais. — Entendo! Mas não sei se é adequado; e se em algum momento eu me confundir e chamá-lo de Frederico e não de Dr. Frederico, isso pode gerar especulações sobre o assunto. — Você tem razão, algumas pessoas costumam fazer suposições preconceituosas e precipitadas, baseadas em suas próprias ideias e vivências. — Imediatamente reconsiderei minha fala. A palavra suposições preconceituosas me afetou, afinal, Frederico era um amigo confiável de Paul. — Não me refiro ao senhor. Sou nova na empresa, alguns me olham como uma ameaça nuclear. Não desejo despertar rancores. — Ele sorriu, concordando. Longe do glamour, de volta ao meu mini escritório. Lá estava novamente Melissa, igual à Fênix da mitologia grega, renascida das cinzas. — Querida, soube que você se saiu muito bem na reunião! — Fiquei intrigada, vinte minutos depois do término da reunião, os boatos já circulavam pelos corredores. — Sim, obrigada! — Isso não foi um elogio. Não deixe que esse rápido acontecimento lhe suba à cabeça. — Não deixarei — respondi. Retirando de suas mãos as pastas de trabalho. No final do expediente, Arthur estava à minha espera. Atencioso, sempre percebendo os pequenos detalhes. — Belos brincos, você não usava eles esta manhã. — Observou ele. — Aconteceu uma reunião de última hora, precisei melhorar a minha aparência. — Isso seria uma tarefa impossível, você é perfeita! — Ora, já lhe avisei, não fale isso com tanta frequência. Sinto-me tentada a acreditar. — Eu jamais mentiria para você. — Todos dizem isso. — Retruquei, olhando profundamente em seus olhos. — Não sou todos - disse, com um olhar que convenceria qualquer pessoa, menos a mim. — Preparei uma surpresa. Espero que goste! — Uma surpresa? Não me deixe curiosa, isso é maldade, Arthur.


— Ora, Anita, se eu contar, não será surpresa. Depois de quase uma hora dirigindo, chegamos a uma pequena fazenda no meio do nada. E quando digo nada, não estou exagerando. Entrando na casa, percebi que se tratava de uma reunião familiar, com mais ou menos doze pessoas. Todos foram gentis e calorosos. Senti-me a pior pessoa do mundo. Não era justo enganá-los. Uma parte de mim desejava ficar, viver as emoções daquele instante. E como se não bastasse, Arthur comunicou que havia comprado passagens com destino a Paris. As reservas estavam agendadas para duas semanas mais tarde, a partir daquela data. Isso me daria tempo para pensar em algo. Recusar diante de toda a família seria humilhante demais. Uma briga íntima entre a razão e a emoção se fez dentro de mim. Mas o que adiantava prolongar o final de um relacionamento que já nasceu condenado ao fracasso? Retornando ao apartamento, encostei-me ao lado da vidraça enquanto bebia uma xícara de chá quente, remoendo minhas decisões erradas. Os meus sentimentos pediam que eu ficasse, mas meus planos exigiam minha partida imediata. Nos dias seguintes, permaneci distante, evitei atender os telefonemas de Arthur. Comuniquei minha viagem a Dubai via e-mail. Concentrei-me cada vez mais no meu trabalho. Aeroporto de Amsterdam, Dr. Frederico e eu, quero dizer Frederico, embarcamos com destino aos Emirados Árabes. Seis horas mais tarde desembarcamos em Dubai. Hospedamo-nos no hotel Jumeirah, um dos mais luxuosos da cidade. Frederico disse-me que nossas despesas seriam pagas por uma das empresas interessadas no fechamento do contrato. A temperatura estava em torno de quarenta graus, mas nem mesmo um tempo tão quente pode ofuscar a beleza de uma cidade enigmática como Dubai, onde tudo foi projetado para ser grandioso e único. No momento em que entrávamos no Jumeirah, vi um homem, acompanhado de suas quatro esposas, negociar alguns objetos com um mercador independente. Geralmente, compramos nas ruas coisas como jornais, lanternas, doces. Mas em Dubai é possível comprar “Rolex”, “Guess”, “Prada” e outras marcas. O homem deixou uma pequena fortuna nas mãos do mercador. Uma cidade construída no meio do deserto para mostrar o poder do dinheiro árabe sobre os demais. Deixamos nossas malas nos quartos e saímos decididos a conhecer Dubai, levando em conta que nem sempre teríamos a sorte de ter nossas despesas pagas. As ruas eram limpas e seguras, partindo do princípio de que a pena para o roubo é a morte. Trinta minutos caminhando debaixo do calor escaldante e já estávamos exaustos. As pessoas vestiam-se de forma impecável, senti-me em um desfile de moda na Champs -Élysées, em Paris. Algumas mulheres trajavam burcas pretas, cobrindo seus corpos e rostos, mas pude perceber que, por debaixo daquelas roupas, existiam mulheres sensuais e ousadas. Olhos maquiados, sandálias de salto alto, mostrando pés delicados e bem-cuidados. O fato de


estarem juntas significava que pertenciam ao mesmo harém. — Frederico, é a sua primeira vez em Dubai? — Não, chérie, já estive aqui outras vezes. - Com o passar do tempo, conheci algumas manias de Frederico. Ele adorava filmes franceses, sempre que possível, pronunciava algo em francês. Meu nome foi substituído definitivamente pela palavra chérie. — Chérie, Dubai foi construída para mostrar ao mundo o real valor do ouro — disse ele, bebendo uma limonada. — Eu jamais me adaptaria a uma cultura tão arcaica. — Não subestime o brilho dos diamantes, chérie. Alguns anos atrás uma das executivas mais bem-sucedidas de Amsterdam abandonou uma carreira promissora, vindo morar em Dubai. Agora, faz parte de um harém junto com mais duas mulheres. — Você é casado, Frederico? — Não! Ainda não lhe disseram? — Disseram-me o quê? — Sou homossexual! Pensei que soubesse. — Não, não sabia. E você tem namorado? — Sim, estou envolvido em um relacionamento com um rapaz mais jovem, mas estamos meio afastados. É difícil encontrar um amor verdadeiro. Fui traído de forma muito dolorosa. — Sinto muito. — Admiro sua atitude, depois de tudo, você conseguiu superar — disse ele— com um sorriso terno. — Não é tão simples quanto parece. Os pesadelos ainda me assombram. — Verdade, eu não imaginava. — Fiquei em pedaços, fui submetida a humilhações públicas, foi doloroso. Mas aprendi a seguir em frente — É assim que se fala, chérie, devemos sempre seguir em frente. Fizemos um tour pela cidade, retornando ao hotel apenas no entardecer. Tive de tomar um banho demorado para retirar os resíduos da poeira fina que o ar seco de Dubai deixou impregnado por todo meu corpo. Desci ao saguão do hotel às 18 horas. Frederico já esperava por mim. Um salão luxuoso, repleto de tapetes e artefatos de época. No centro, havia uma fonte de água cristalina, feita de mosaicos com detalhes em ouro. Colunas largas de mármore sustentavam o teto alto. A diária custava cerca de dois mil dólares. Sem dúvidas, os menos favorecidos economicamente éramos Frederico e eu. Percebi certa rivalidade entre as mulheres árabes, um exibicionismo discreto; o brilho das joias definia quem podia mais. Eu não conseguia entender o motivo pelo qual aquelas mulheres submetiam-se a uma tradição arcaica. —A esposa pertencia ao marido, por outro lado, o marido pertencia a quantas mulheres desejasse. Nós não estamos mais na pré-história, quando os machos eram responsáveis pelo sustento e a segurança das fêmeas — Sentei-me à mesa junto de Frederico. — É fascinante não é? — disse Frederico, observando tudo ao seu redor — A maioria das pessoas nem ao menos imagina ser possível este tipo de ostentação.


— Melhor assim, por que sofrer imaginando? — Existem mundos diferentes dentro de um mesmo planeta. Uns vivem na miséria, enquanto outros nem sabem o que isso significa. — Não quero ser indiscreto, chérie, mas acredito que o Sheik da mesa ao lado gostou de você. — Hum... isso é bom, talvez a minha sorte tenha finalmente mudando de direção — respondi, sorrindo. — Ah, você sabe, chérie, se um sheik apaixonar-se por mim, isso me fará muito feliz. — Por que você acha que será feliz? Não sabe nada sobre esta cultura. Além do mais, não quero desanimá-lo, mas creio que a homossexualidade não seja vista com bons olhos na cultura árabe. — Oh, é verdade. Eu havia esquecido completamente desse detalhe. O casamento é um negócio entre famílias, dessa forma, a fortuna aumenta através das gerações. Você acha que é possível amar mais de uma pessoa com a mesma intensidade? — Não sei, acredito que seja possível gostar de várias pessoas, mas amar verdadeiramente apenas uma. — Veja, o Sheik levantou-se, está vindo em nossa direção. Frederico, obediente atendeu ao chamado do Sheik, indo ao seu encontro. Os homens não podem conversar com mulheres em público jamais, a não ser com suas próprias esposas. Pensei: cultura sem educação. Ele retornou à mesa minutos depois com uma proposta absurda. — O Sheik gostou de você, achou seus olhos fascinantes, está louco. Perguntou-me se você pode ser negociada? — O quê? Você está brincando, esse senhor tem idade para ser meu avô ou, quem sabe, bisavô. — Não acho que ele seja tão velho assim, chérie. — Ora, Frederico, poupe-me de suas brincadeiras. Diga-me, o que respondeu? — Não tome isso como uma afronta. Estamos nos Emirados Árabes, lembre-se. Devemos agir com diplomacia. Muitos já desaparecem nas áreas do deserto. — Isso é verdade? Perguntei, angustiada. — Frederico gargalhou, dizendo: “Não leve a sério tudo o que digo, mas seja cautelosa”. Após a descoberta do petróleo no Golfo Pérsico, em 1966, a cidade de Dubai começou a expandir suas fronteiras. Em sete anos cresceu mais de 300%, e continua crescendo ainda hoje. Mas Dubai possui dois mundos diferentes, um cheio de ostentação e luxo, e outro, onde a população não possui tantos privilégios. É assim no bairro de Bastakia, onde há residências, com muros robustos e famosas torres de vento que capturam a brisa e a canalizam para dentro das casas, ajudando a refrigerar o ambiente, já que durante o verão a temperatura chega a cinquenta graus. A forma primitiva e eficaz desse tipo de construção foi criada pelos Persas, e passou a ser comum nas construções árabes. Nos hotéis 7 estrelas, como o Burj Al Arab, os hóspedes são recebidos por mulheres, que


perfumam suas mãos, para que entrem perfumados no hotel. O chão é feito de mosaicos com detalhes em ouro. Outra opção são as tatuagens com hena, uma tradição árabe e uma atração para turistas, que fazem desenhos belíssimos. A cidade também dispõe de táxis especiais para mulheres. Na cultura árabe, não é permitido que mulheres casadas andem sozinhas ou em companhia de homens desconhecidos. Quando um homem decide se casar, é tradição que ele presenteie sua esposa com uma quantia, "um dote". Assim, se algo acontecer, ela estará segura com esse dinheiro. Os árabes nunca deixam suas mulheres desamparadas. Caso isso aconteça, são banidos do convívio com sociedade e perdem o respeito dos demais.

Capítulo 4 – Surpresas

A

reunião iniciou pontualmente às dezesseis horas. Estavam presentes executivos de vários lugares do mundo. Existia uma rivalidade disfarçada entre os árabes. Lobos em lados opostos, homens de classe social invejável e com “gordas” contas bancárias. A prepotência era quase uma regra. Mesmo depois de me apresentar, nada mudou, continuei invisível. Fui designada para a tarefa de servir café, água e tudo mais que me fosse solicitado. Não pude deixar de reparar na alta qualidade dos paletós impecáveis dos árabes, provavelmente o valor correspondia alguns meses do meu salário. Frederico não conseguia esconder o seu desejo mórbido de bajular os senhores do petróleo, até mesmo a mexer o açúcar na xícara dos árabes ele se propôs. Em minha opinião, até mesmo bajular requer certa etiqueta. Fiquei esquecida em um dos cantos da sala, como um objeto inanimado sem muito valor. Todos esperavam ansiosos pelo acionista majoritário. Depois de algum tempo, entendi finalmente o motivo real pelo qual eu me encontrava ali. Minha função não era traduzir contratos, e sim bajular e servir café. Todos os presentes falavam fluentemente vários idiomas. Minha presença era desnecessária. Pelo menos servindo café eu fui notada. — Você está gostando? — perguntou-me Frederico, com um sorriso largo, típico de um ganhador da Mega Sena. — Depende do ponto de vista ao qual você se refere. Sinto-me invisível. Não entendo por que estou aqui. —Chérie, acostume-se, os milionários são excêntricos. Não tente entender o mundo deles, apenas sorria e finja entender. É simples.


— Não precisamos nem mesmo sorrir, ninguém notou nossa presença. — Isso não importa, estamos aqui para fechar um contrato, faça o seu melhor. Depois de trinta minutos sentindo na pele o verdadeiro significado da palavra invisível, entrou na sala, o tal empresário, o Sheik Mozah, todos fizeram um silêncio fúnebre. A submissão daqueles homens prepotentes tinha um motivo óbvio: chegara alguém ainda mais poderoso. Observei os detalhes e confesso que o silêncio era oportuno diante daquela figura quase majestosa ou, talvez, totalmente majestosa. Jamais havia visto um árabe tão bonito. Na verdade, nunca vi um árabe antes de chegar a Dubai. Mas isso não importa, não muda o fato de ele ser um homem fisicamente encantador. Cabelos escuros e cheios, sobrancelhas largas, rosto fino, olhos cor de mel, pele bronzeada. Sem mencionar o sorriso perfeito, tive dúvidas se aqueles dentes eram mesmo verdadeiros ou se teriam sido moldados por algum cirurgião dentário competente. "Afinal, estamos vivendo a era dos bisturis". E, para minha satisfação, ele notou minha modesta existência, cumprimentado-me com um gesto sutil. Em um determinado momento, foi me solicitado pelo Sheik Mozah que fizesse algumas traduções. Ah, Deus, fiquei tão nervosa, fui envolvida por um branco celestial. Gaguejei e gaguejei novamente, não sei o que me aconteceu. Naquele instante, desejei voltar a ser invisível. — Senhorita Anita! Mostre-nos o quanto as mulheres são aptas a exercer altos cargos — disse Mozah — mostrando todos os dentes brancos de sua arcada dentaria, num sorriso malicioso. Ouvi risos discretos e indiscretos de alguns. Sempre fui orgulhosa, não seria um árabe presunçoso que me deixaria sem palavras. — Senhor Mozah, estamos no século XXI. Vivemos em um mundo civilizado há vários anos. Um silêncio mortal se fez presente. Temi ser demitida, afinal, o cliente sempre tem razão, não importa o quanto estúpido ele seja. Descobri o quanto os árabes eram imprevisíveis. Todos sorriram, divertindo-se. Senti-me ainda mais ridícula. Não importa, saímos da sala com o contrato assinado, Frederico estava eufórico. — Chérie, eu espero que este seu comportamento insano jamais se repita. — Desculpe, não acontecerá novamente, você tem a minha palavra. — Muito bem! Agora vamos sair, quero comemorar essa conquista. Só havia um problema: não sabíamos ler o cardápio. Mesmo traduzindo para o inglês, eu continuava sem entender aquele amontoado de palavras desconhecidas. Batatas com salada foi a escolha mais segura. — Tive a impressão de que o árabe gostou de você!- Insinuou Frederico, maliciosamente. — Qual árabe? — Ora, não se faça de desentendida, o Sheik Mozah, é claro. — Por que acha isso? — Intuição aguçada. Notei que ele a observava enquanto os outros conversavam distraídos. Até onde sei, ele é um solteirão solitário.


— Frederico, é hora de retornar ao hotel, já comemoramos o suficiente por esta noite. Você está bêbado, sofrendo delírios ocasionados pela adrenalina desta tarde. — Mas, chérie, nós não ingerimos álcool — retrucou ele. — Então esqueça a palavra “bêbado”, delírio já é um bom diagnóstico. Despertei na manhã seguinte com o barulho da campainha, que mais parecia um sino tocando dentro da minha cabeça. O forte calor de Dubai me causou fortes enxaquecas. — Senhorita Anita, queira assinar aqui, por favor — disse o camareiro enquanto me entregava um buquê de rosas vermelhas junto com um cartão, no qual estava escrito: "Sempre acreditei na igualdade feminina. Jantamos às dezoito horas. Não se atrase. Mozah.” Que árabe presunçoso —pensei. Fui imediatamente ao quarto de Frederico. Ele abriu a porta, ainda sonolento. E eu pude ver pela primeira vez a decadência do seu vestuário. Blusa lilás, bermuda xadrez e meias vermelhas, sem mencionar a bolsa de água rosa pressionada contra sua cabeça. Não estávamos habituados ao calor de Dubai, a mudança climática causou desconforto. — O que aconteceu? Por que você está batendo na porta a essa hora da madrugada? — Já é meio dia. — Não importa! Estou com enxaqueca, me acorde às duas da tarde, por favor. — Recebi flores de Mozah. — O quê? Entre, rápido! Por que não me disse que se tratava de um assunto urgente. Conte-me tudo. - Entreguei o cartão nas mãos dele. — Oh, my God, diga-me, qual é a roupa que pretende vestir? — Não estou certa se irei a esse encontro — essas palavras deixaram Frederico em pânico. — Você está louca? Deixe-me dizer uma coisa. Quando um árabe lindo, gentil e milionário convidála para um jantar, aceite! Nem sempre a vida oferece a mesma oportunidade duas vezes. — O problema é exatamente esse, nós pertencemos a mundos diferentes. Ele deve está querendo um pouco de diversão. — Diga-me, então, que mal existe em querer um pouco de diversão? — Não é possível falar sério com você! — Chérie, escute. Você está magoada, aconteceram coisas horríveis na sua vida. Mas, agora, o passado nada mais é do que uma simples lembrança. — Nada disso é verdade — resmunguei — isso não tem nada haver com o meu passado. — Não se apegue a momentos tristes do passado, por favor. — Talvez você tenha razão. Mas só desta vez! — sorrimos. — Vamos às compras. Temos de encontrar um vestido lindamente charmoso para você vestir esta noite. Com o decorrer do tempo, eu soube do passado triste de Frederico. Ele foi deixado para trás pelos seus próprios pais em um orfanato nos arredores da grande Paris. Eles o deixaram lá, como um objeto sem valor, algo sem importância. E, por muitos e muitos anos, era exatamente assim que ele se sentia. Durante as noites, costumava sufocar o choro por medo de alguém o ouvir e puni-lo pela sua fraqueza. “Homens não choram”, dizia seu pai, Ramiro. Um homem violento, alcoólatra, com um passado igualmente destroçado. Cresceu nas ruas


sujas, rolando na lama do esgoto dos esquecidos Quando criança, Ramiro também desejava ser amado e chorava escondido. Ele também foi deixado para trás. O orfanato em que Frederico foi deixado fechou anos mais tarde devido a inúmeras denúncias de maus-tratos. As crianças tinham de trabalhar duro em troca de pães mofados. Frederico sonhava todas as noites com o retorno de seus pais, que o retirariam daquele inferno frio e solitário. Mas isso jamais aconteceu. Graças à bondade de um estranho desconhecido, seus estudos foram pagos. O pobre garoto pôde estudar em bons colégios, conseguindo mais tarde uma boa formação. Frederico descobriu anos mais tarde que seus pais eram apenas dois adolescentes imaturos em corpos envelhecidos... Tornou-se, depois, um gênio consagrado das finanças. Mas, no íntimo, continuava de pé próximo ao portão do orfanato, esperando o retorno de seus pais. Fingir ter esquecido foi a maneira que ele encontrou de amenizar sua dor. — Você está louco? Eu não disponho de dinheiro suficiente para me arriscar nessa aventura – disse — você bem sabe que nem podemos comprar objetos vendidos nas escadarias dos hotéis pelos vendedores independentes. Imagine o valor de um vestido lindamente charmoso. — Já sei, vamos alugar! Mas tenha cuidado para não derramar vinho. Você sabe, isso sempre acontece com as roupas alugadas. Saímos caminhando pelas ruas de Dubai à procura de um vestido extremamente charmoso. Encontramos uma loja simples, mas de preço nada modesto. Às 17h30, a recepcionista interfonou, avisando-me sobre a chegada do motorista de Mozah. Desci ao saguão, vestida com meu vestido longo de cor azul turquesa com transparências discretas nos braços e nas costas. O motorista apresentou-se como Rassam, enquanto abria a porta. Fiquei extasiada, nunca imaginei existir um carro tão bem equipado. Sinceramente, eu poderia morar confortavelmente dentro daquele veículo. Vinte minutos depois estacionamos próximo a um jardim. Foi, então, que percebi o engano, não era um restaurante, mas a casa de Mozah. O meu nervosismo era ridículo, estava me sentindo uma adolescente candidata à vaga de odalisca. O mordomo cumprimentou-me abrindo a porta. Um senhor de meia idade de poucos sorrisos. Ele me conduziu por um longo corredor até chegar a uma grande sala, repleta de obras de arte de Van Gogh. Senti-me constrangida por trajar uma roupa alugada enquanto aquele homem esbanjava dinheiro e poder. "Dizem que o sol brilha para todos, mas depois de tudo o que presenciei, desconfio dessa verdade". A sala tinha uma decoração medieval: uma lareira de tijolos antigos, e, sobre ela, algumas fotos de familiares, provavelmente já falecidos. Candelabros de época iluminavam discretamente o local. — Anita! Você está deslumbrante. — Obrigada! Foi tudo o que consegui dizer. — Você aceita tomar algo — perguntou—, fazendo menção para me sentar. — Sim, por favor, vinho tinto. — Um detalhe me chamou a atenção: as taças foram banhadas a ouro. Deus, como é possível alguém possuir taças banhadas a ouro? Nem mesmos nos sonhos mais


fantasiosos imaginei existir esse tipo de ostentação. Bebi o vinho de uma só vez. A adrenalina do momento me impedia de raciocinar. — Vejo que aprecia vinho. — Sim, muito! Mozah andou alguns passos em direção à lareira, ascendendo-a de forma artesanal. Imaginei que ele desejava finalizar a noite em seu quarto. Não que eu não quisesse, mas jamais fui para a cama com um homem antes de encontros frequentes. Mas imprevistos acontecem. — É a primeira vez que você vem a Dubai? — Sim! Não me veio à memória nada de interessante para falar. Responder apenas sim e não me manteria em um nível de conversação razoável e seguro. — Quanto tempo pretende ficar? — Retornaremos a Amsterdam amanhã, o nosso trabalho foi concluído. — Você pode ficar o final de semana se quiser. Responsabilizo-me pelas despesas, suas e do seu chefe. — Não, obrigada! Realmente não posso aceitar. — Naturalmente, rejeitei imaginando que ele iria insistir. Mas, para minha desilusão, ele não propôs novamente. — Entendo! Respondeu-me. — Sua casa é muito bonita! Imaginei que os sheiks árabes possuíssem verdadeiros haréns. Novamente fiquei com raiva de mim mesma. Por que falei aquela bobagem? O nervosismo estava começando a afetar minhas atitudes. Mas por que eu estava nervosa? Qualquer mulher em meu lugar sentiria o mesmo. Aquele homem despertava em mim um êxtase de emoções desconhecidas. O luxo daquele lugar sucumbia aos olhos de qualquer pessoa. Era como estar em um mundo irreal, um lugar onde não existem sonhos não realizados, pois o dinheiro pode negociar qualquer coisa. — Não tenho harém, dedico-me exclusivamente aos negócios de minha família, não me sobra muito tempo para pensar em outros assuntos. Mas me fale sobre você. Falar dos meus planos deixaria qualquer pessoa deprimida, acho que ele pretendia ouvir histórias e experiências de humanos mortais. Talvez fosse algum tipo de fetiche saber que a maioria das pessoas acorda cedo, dirige carros velhos, sofre humilhações no trabalho e faz milagres com os seus baixos salários. — Perdi meus pais, e isso foi muito difícil. Depois, pedi o divórcio ao meu ex-marido e, finalmente, encontrei um trabalho na empresa que presta serviços a você. — Ele sorriu. — Confesso ter ouvido histórias melhores e mais longas. — Desculpe decepcioná-lo, prefiro fazer um breve resumo. — Algo me diz que você esconde segredos. — Sério? E você? — Perguntei, tentando me esquivar do assunto. — Como disse antes, vivo para o meu trabalho. — Pessoas que afirmam viver para o trabalho escondem sempre histórias intrigantes. — Fale-me, então, como você imagina ser a vida das pessoas que vivem para seus trabalhos. — Prefiro não arriscar.


— É tão ruim assim? — Não é isso, vivemos em mundos diferentes. Minhas ideias não se enquadram nos padrões árabes. Um homem poder casar-se com várias mulheres e conviver amigavelmente na mesma casa com suas esposas me parece meio primitivo. Isso lembra os tempos dos faraós. Também existe a questão da religiosidade, vocês são impiedosos em suas crenças. Como pode alguém que não tem compaixão falar de justiça? — Tradições não seguem a moda. Não importa o século em que estamos, a humanidade evoluiu muito tecnologicamente, mas continuamos os mesmos de milhões de anos atrás. Quando nascemos em um determinado local, herdamos costumes e tradições dos antepassados. Alguns árabes lutam arduamente tentando manter a tradição. Fomos interrompidos por batidas discretas na porta. Era Hanna, a governanta. Fomos oficialmente apresentadas. Uma mulher jovem, de olhos grandes escuros, muito bem maquiados, magra, de altura mediana, cabelos negros, lisos e brilhantes. Muito bonita, parecia mais uma modelo famosa de capas de revistas. Afinal, o que uma mulher jovem fazia confinada naquela casa?

Capítulo 5 – Hanna

N aquela noite, enquanto Mozah jantava com a estrangeira Anita, Hanna andava de um lado ao outro do quarto, completamente enlouquecida, por ver uma intrusa sentar-se à mesa ao lado de Mozah. Depois de tantos anos de dedicação, continuava sendo a governanta em tempo integral. Inclusive, durante as noites, quando Mozah desejava seus serviços íntimos e discretos, Mozah jamais desonrou Hanna, ele saciava seus desejos num lugar seguro. Dessa forma, Hanna não seria rejeitada por outro homem, caso decidisse se casar. Mas Hanna jamais desejou outro homem que não fosse Mozah. Um amor adoecido fadado ao fracasso, destruído pelo simples fato de Mozah não amá-la. Logo ela que dedicara toda sua vida àquela paixão, rejeitando pretendentes bonitos e cobiçados, só para estar ao lado dele. Algumas noites, Mozah entrava em seu quarto, sem ao menos avisar. Ele sabia o quanto ela o


desejava. Segurava em seus cabelos e beijava-lhe o pescoço, deixando-a de joelhos e a possuía. Sem juras de amor, nem promessas. Depois de saciar seus desejos, partia, deixando-a para trás. Era humilhante alguém se submeter a amor tão sem compromisso. Mas Hanna esperava o dia em que Mozah se daria conta do seu amor por ela. Ele a amava, ela tinha certeza. Mozah era um homem viajado e experiente, conhecia mais sobre o amor do que aquela pobre mulher submissa e apaixonada. Ele ofertava migalhas de amor e recebia tudo em troca. Quando Mozah se ausentava por conta de suas viagens de negócios, Hanna esperava ansiosa o seu retorno. Sonhava com seus beijos e carinhos, mas nunca foi diferente, ele a possuía sem se importar com seus sentimentos. Um homem marcado pelas lembranças do passado, que teve uma infância difícil. Seu pai, o Sheik Bassaam, nunca honrou seu casamento. Maltratava suas mulheres de forma dolorosa. Muitas vezes, o pequeno Mozah foi obrigado a ouvir os gritos de sua mãe implorando que Bassaam a deixasse em paz. A mãe de Mozah, Alima, era a preferida do Sheik Bassaam, mas, ao contrário do que alguns pensavam, ela era prisioneira de um demônio. As roupas pretas escondiam não apenas o rosto de sua mãe, mas os hematomas causados por aquela criatura abominável. Um ditador perverso, que foi capaz de construir um quarto secreto no subterrâneo, na tentativa de abafar os gritos de dor provocados pelas suas surras severas. Depois de chicotear sua esposa, ele a deixava lá por dias, a pão e água. Alima desejava que o seu filho crescesse e a levasse embora daquele inferno. Certo dia, Bassaam chicoteou Alima sem piedade, causando-lhe ferimentos graves e infecções sérias. Ninguém se opunha àquele tirano, ele era o dono do mundo. Teve inúmeros casos com prostitutas, algumas chegaram a ganhar verdadeiras fortunas, mas outras simplesmente desapareceram sem deixar vestígios. Todos conheciam o destino de quem ousasse desafiar Bassaam, um homem medíocre, que nunca admitiu ser deixado. Um psicopata, inseguro e covarde, que exigia ser amado a todo custo. Mas, certo dia, um silêncio angustiante se fez, depois foi anunciada a triste notícia do falecimento de Alima. O médico legista atestou ataque fulminante do coração, contudo, o pequeno Mozah desconfiou de que aquela não era a verdadeira causa da morte de sua amada mãe. Hanna era a filha de uma das criadas do seu pai, responsável pela organização da casa. Cresceu com certas regalias, pôde estudar, ser uma mulher independente. Mas a obsessão que sentia por Mozah a impediu de seguir seu caminho. O Sheik Bassaam faleceu quando Mozah ainda era um jovem rapaz. Depois disso, Mozah foi obrigado a assumir os negócios de sua família. Hanna permaneceu ao seu lado, desejando todos os dias ouvir um pedido de casamento, mas isso nunca aconteceu. Tentou seduzi-lo, mas suas tentativas fracassaram, e ela despencou no abismo de sua própria solidão. Mozah acordou em uma madrugada por conta de seus pesadelos. Hanna foi ao seu quarto para confortá-lo, oferecendo-lhe seu corpo e todo seu amor. Ele sentiu-se atraído por Hanna, mas não a amava, e jamais desejou magoá-la. Ela insistia em provocá-lo. Mozah não resistiu, acariciou seus seios, depois a deitou na cama, penetrando seu membro em um lugar seguro, permitindo a Hanna casar-se “virgem” com qualquer outro homem.


Daquela noite em diante, Hanna tornou-se obcecada. “Alguns amam tanto e outros amam quase nada.".

Capítulo 6 - Escolha

O

jantar foi maravilhoso, comi mais do que devia, tomando o cuidado para não estourar os botões do vestido alugado. Depois do jantar, bebemos novamente outra taça de vinho. Conversamos durante horas, não percebi o tempo passar, Mozah conhecia quase todas as maravilhas do mundo, contou-me sobre coisas que jamais imaginei existirem. Sempre que ele sorria, eu me distraia. Imaginei como seria o "depois" até perceber que não existia nenhum depois. Às duas horas da madrugada, Hanna apareceu maquiada, linda e com o cabelo impecável, pronta para um ensaio fotográfico de uma revista famosa. — Desculpe interromper, o motorista está à sua espera para levá-la embora. Senti um sarcasmo oculto naquelas palavras, mas não me importei. Eu estava tão carente e solitária que quase pedi para ficar. Mas, certamente, que jamais faria algo do tipo. Pelo menos, acreditei nunca chegar a um nível tão deprimente. Retornando ao hotel, recebi o recado de Frederico. Era tarde, melhor não acordá-lo, mesmo porque não existiam tantas novidades. Adormeci no momento em que me deitei na cama. No dia seguinte, acordei com batidas frenéticas na porta. — Você não recebeu o meu recado? — Sim, mas era tarde, além do que, não aconteceu nada. — Você foi jantar com um deus grego, quero dizer, um deus árabe, e não tem nada para contar. Quero saber os detalhes, vocês têm um novo encontro? — Não! Quer saber, ele é egocêntrico, igual a todos os demais. Estava se sentindo sozinho, quis ouvir histórias reais de pessoas comuns, meros mortais como nós. Foi agradável, agora sei como os milionários vivem e, acredite, melhor não saber, assim é mais fácil se conformar com a vida dura. — Sinto muito, chérie. Imaginei que esse seria um encontro de contos de fadas. — Entendo, querido! Não foi sua culpa. Os contos de fadas não resistem às provações da vida cotidiana. Mas ainda estamos em Dubai, vamos aproveitar nosso último dia neste lugar maravilhoso, amanhã retornaremos à nossa antiga vida de meros mortais trabalhadores. Rimos compulsivamente até lembrarmos que tínhamos de devolver o vestido alugado. Fomos surpreendidos pela informação de que o vestido havia sido pago pelo Sheik Mozah. Senti-me humilhada, Frederico ficou surpreso, decidimos não falar mais sobre o assunto. Fomos ao parque aquático de Dubai, tentando fugir do calor escaldante. Não seria nada mal um bronzeado bonito antes de retornar ao frio holandês. Frederico teve um surto. Brincou em todas


as atrações, inclusive nos espaços reservados às crianças. Retornando ao hotel, fui surpreendida por uma enorme quantidade de buquês: vinte e cinco buquês, com flores de todas as cores. Em um deles, havia um cartão. "Espero que se encontre bem! Agradeço a noite agradável. Infelizmente aconteceu um imprevisto, precisamos de sua presença por mais alguns dias. Atenciosamente, Mozah." — Oh, my God, nunca vi alguém receber tantas flores de uma só vez! — disse Frederico enquanto rodopiava pelo quarto cheirando as flores, igual a uma borboleta perdida no Jardim do Éden. — O Sheik Mozah é deselegante e estranho. Depois de ter pagado o vestido apenas para mostrar seu poder, cheguei à conclusão de que ele é apenas mais um homem mimado e solitário, à procura de diversão. Iremos embora amanhã, está decidido. — E qual será sua resposta? Não se esqueça de que a empresa fechou um contrato vantajoso. — Escreverei um bilhete formal pedindo desculpas, explicando-lhe que não poderei ficar. Depois de alguns minutos, escrevi o bilhete e pedi à recepcionista para enviá-lo ao seu destinatário. Enquanto Frederico confirmava o voo, organizei minhas malas. Depois de sentir na pele o gosto amargo da traição, descobri que as feridas cicatrizam, mas a alma nunca esquece o preço que se paga por amar demais. Amsterdam. Retornei à minha rotina de trabalho diária, Frederico deu as boas novas sobre o fechamento do contrato. Melissa esperava ansiosa para me lembrar do meu trabalho acumulado. Arthur enviou flores para o meu apartamento. Junto com as flores, um cartão. "Entendo a sua decisão, mas ainda tenho esperanças que você reconsidere." — Tudo o que ele queria era saber por que eu havia ido embora sem motivos e sem dizer adeus. Eu simplesmente o deixei para trás. Dois dias depois fui chamada a comparecer à sala de reuniões. Lá chegando, fiquei perplexa, ou melhor, petrificada. Mozah estava sentado ao lado de Frederico. — Anita, você se lembra do nosso cliente, ele veio a Amsterdam resolver alguns negócios e decidiu nos presentear com a sua honrosa visita. A emoção de Frederico era tanta que seus olhos brilhavam. Realmente Frederico nasceu com um talento nato para ser um bajulador. Ele desculpou-se e pediu licença, saindo da sala para buscar um vinho envelhecido, guardado como uma relíquia para clientes especiais. — Foi uma pena você não poder continuar em Dubai. — Sim, foi mesmo uma pena. Estava tão surpresa, não consegui pensar em nada interessante para dizer. — Estive em Amsterdam poucas vezes, se você estiver disponível hoje gostaria que aceitasse jantar comigo. — Desejei falar não, mas minha boca me traiu, respondi sim. Frederico entrou na sala roubando toda a cena. Não pude contar a ele sobre o jantar, retirei-me da sala. Chegando à casa, fui imediatamente ao closet. Felizmente ainda possuía alguns objetos de boa qualidade. Fiquei eufórica. O ar de prepotência daquele homem me irritava, mas eu me sentia


atraída mesmo assim. Tomei um banho quente, caprichei no visual enquanto me perguntava o verdadeiro motivo de Mozah estar em Amsterdam. Seria por mim? Desci até a portaria às dezoito e trinta. Para minha surpresa, Arthur estava falando com o porteiro. Antes de eu dizer algo, percebi que, logo atrás de Arthur, estava Mozah. — Você está deslumbrante — disse ele — aproximando-se de mim e beijando minhas mãos. Arthur segurava um buquê de flores vermelhas em suas mãos. Sem pronunciar uma só palavra, virou-se, jogando as flores no lixo. Eu deveria ter ido atrás dele, mas fiquei imóvel até sentir a mão de Mozah em volta da minha cintura. No estacionamento, vi Arthur indo embora para sempre. Anos depois, descobriria que esse foi o maior erro que cometi em toda minha vida.

Capítulo 7 – Ausência

E nquanto Mozah dirigia, estava perdida em meus próprios pensamentos, sentindo-me vulgar. Alimentei esperanças vazias no coração de Arthur. Retornei ao presente quando percebi que estávamos no aeroporto. —Aonde estamos indo, afinal ? —Iremos a um lugar especial.


Senti meu corpo formigar de curiosidade. Afinal, não sabia para aonde estávamos indo. Em meus delírios, imaginei mil bobagens. E se Mozah fosse um sadomasoquista? Ou um mercador de escravas virgens? Quanto à segunda opção, eu não possuía os requisitos. Aquele homem detinha um poder aquisitivo inimaginável; para ele, a palavra "impossível" existia apenas no dicionário e era quase como uma metáfora. Durante o trajeto, Mozah desculpouse, dizendo que, pelo computador, precisava resolver alguns negócios inadiáveis durante a viagem. Não me importei, sabia o quanto ele era atarefado. Relaxei quando avistei a Torre Eiffel. Estávamos em Paris. Depois de desembarcar, seguimos de carro pela Champs-Élysées até chegar a um restaurante imponente com vista privilegiada para a torre. Mesmo tendo tido uma boa educação, senti-me inferior aos padrões do local. — Visitei Paris quando criança. Meus pais vinham durante as férias de verão. Meu pai tinha como hobby visitar museus e participar de leilões. — Paris é um lugar encantador. Respondeu-me ele, mudando bruscamente de assunto. — Anita, espero não ter criado problemas entre você e aquele rapaz. — Não, nós já havíamos rompido, foi um infeliz encontro casual. — Seus olhos contradizem suas palavras. Mas vamos mudar de assunto. — Concordo. Este lugar é fantástico! — É um dos meus lugares favoritos em Paris. - Imaginei as várias mulheres com quem ele ali estivera. — Você é fascinante, Anita. As pessoas costumavam dizer que eu era uma mulher interessante, mas jamais ouvi a palavra fascinante dirigida a mim. Nunca imaginei o impacto de um elogio como esse. Ainda mais vindo de alguém como Mozah. Por vezes, ouvi frases clichês como: tão belo, parece ter sido esculpido por um artista talentoso. Naquele momento, entendi que para algumas pessoas essas frases caem tão bem quanto um poema. — Há muito tempo venho pensando em mudar algumas coisas — disse ele — talvez esse seja o momento de me apaixonar. Por um instante, nem acreditei estar ouvido uma frase como aquela. Os conquistadores baratos nos anos de 1960, falavam esse tipo de coisa, na tentativa de conquistarem suas vítimas apaixonadas. — E, por que eu não consigo acreditar? — Indaguei, e ele sorriu. — Sabe o que mais gosto em você? Sua espontaneidade. Nos dias de hoje, é uma qualidade rara. Já me chamaram de exagerada, mas espontânea era uma boa descrição. Esqueci-me totalmente do tempo, de onde estava, e de Arthur. Conversar com alguém que sabe tudo sobre lugares paradisíacos, cultura, arte, música, etc. É realmente fascinante. Mozah explicou-me um pouco da cultura árabe. — Na verdade existem poucos sheiks árabes milionários. Alguns vieram de famílias tradicionais, juntaram seus tesouros ao longo dos anos. Outros são pessoas de classe média com padrões de vida bem posicionados. Nos dias atuais, os haréns são cada vez mais raros, mas a bigamia, o direito do homem de ter mais de uma esposa, ainda faz parte da cultura árabe. Em famílias extremamente tradicionais, o costume continua. Tempos atrás, o harém tinha de ser protegido por


um eunuco, um homem com as partes sexuais decepadas. Ele era incumbido de cuidar das mulheres e de protegê-las. Por lei, deveria ser castrado. — Isso me parece absurdo. Um homem dono de várias mulheres, e o outro com as partes sexuais decepadas, incumbido de cuidar delas. Pessoas não são mercadorias para serem negociadas. — Considero algumas coisas um exagero. Mas quando nascemos em um determinado país, seguimos os ensinamentos dos mais velhos, as tradições. Conversamos sobre diversos assuntos, depois do jantar fomos até o balcão para apreciar a vista. E lá eu senti o gosto do beijo de Mozah pela primeira vez. Jamais experimentei uma sensação tão envolvente quanto aquele beijo quente. Senti meu corpo vibrar, foi como se o mundo tivesse deixado de girar por segundos. O calor do corpo dele era intenso. Depois de mais ou menos trinta minutos de voo, aterrissamos novamente em Amsterdam. Novamente, dormi sozinha. Talvez ele fosse do tipo narcisista, gostava de ver as mulheres implorando por alguns minutos a mais. Por vezes, a minha dignidade ameaçava deixar-me. Felizmente, meu orgulho não permitiu. Adormeci pensando nele. Na manhã seguinte, ao entrar no meu escritório compacto, dei de cara com uma dúzia de buquês de tulipas e um cartão, no qual estava escrito: acordei sentindo sua falta. Frederico chegou logo depois completamente deslumbrado. Eu havia telefonado falando sobre o encontro. — Conte-me tudo, chérie, não esconda nada. Contei-lhe tudo mais de um milhão de vezes, mas o final não lhe agradou. — Não sei o que acontece. Toda essa produção para um beijo apenas. E por qual motivo ele não fez isso em Dubai? — Não sei dizer, ele é excêntrico. Talvez queira uma amiga, alguém para conversar, dividir segredo. Mozah me parece muito solitário. — Hum... não sei, você quer dizer uma amizade sem compromisso? — Talvez! — E em relação a Arthur? O que pensa fazer a respeito? — Nada, foi melhor assim. — Existem certas emoções que só sentimos uma vez na vida, cuidado para não deixar a felicidade escorregar entre os seus belos dedos. No dia seguinte, não tive nenhuma notícia de Mozah. Na semana seguinte, não foi diferente. Um silêncio se fez presente. Duas semanas depois, recebi um cartão convidando-me para um novo jantar. Eu já estava farta de tantas chegadas e partidas súbitas. Aceitei o convite relutante, disposta a saber suas reais intenções. O motorista me apanhou um pouco mais tarde, às vinte horas precisamente. Não fomos muito longe, ele estacionou o carro próximo a um bosque escuro e vazio. — Desculpe- Mas, estamos no lugar certo? — Sim, senhorita Anita, este é o local exato. Abri a porta do carro um pouco receosa. O que significava aquilo afinal? Continuei andando, até perceber o que estava acontecendo. O bosque havia sido totalmente decorado, luzes coloridas foram penduradas nos galhos das árvores. Centenas de velas e buquês espalhados pelo caminho.


Parecia mais o cenário de um filme romântico. Próximo ao lago, havia uma pequena mesa com flores e vinho. Senti meu coração disparar ao ver Mozah. — Anita, como você conseguiu ficar ainda mais deslumbrante do que a última vez? Ele justificou seu sumiço, e eu não fiz nenhum esforço para desacreditar. Bebemos o vinho como se fosse o elixir da vida eterna. Uma música suave tocava, vinda de algum lugar. O vinho me causou um efeito devastador. Eu estava em êxtase, a música e todas aquelas luzes pareciam rodopiar em minha cabeça. Senti os lábios quentes de Mozah tocar os meus. Esqueci-me de tudo, do tempo, do vento, do mundo. Só existíamos nós dois. — Por que você aparece e desaparece, fazendo-me imaginar mil coisas- sussurrei- fico imaginando o que você quer de mim? — Tudo! Quero tudo de você — disse ele — acariciando minhas costas com suas mãos hábeis e macias. Senti sensações de prazer e leveza, o calor do corpo dele me excitava. Eu estava louca para ser amada. Mas que pecado pode existir em desejar um momento assim? As luzes ficaram mais brandas, a melodia continuava a tocar. Mozah pegou-me em seus braços, levando-me a uma tenda armada próxima ao lago. Uma pequena tenda acolchoada com tecidos macios de um cheiro quase afrodisíaco. Senti meu vestido deslizar, em seguida, minhas roupas íntimas, tive vontade de gritar — não pare! Senti o calor do corpo dele dentro do meu. Aquela sensação durou longos minutos, fiquei exausta, nunca havia sentido nada parecido e de forma tão intensa. Às seis e meia da manhã, despertei ouvindo a música “Love to love you baby”, programada no meu despertador. Abri os olhos com dificuldade, não consegui organizar meus pensamentos, eu estava na minha cama, mas como? Foi um sonho? Procurei nas gavetas ao lado da cama um comprimido para enxaqueca. Demorei alguns minutos tentando organizar minhas ideias embaraçadas. Depois de algum tempo, consegui me levantar, lavei meu rosto na pia do banheiro com água fria, percebi pequenas manchas escuras em minhas costas, mas não dei nenhuma importância. Vesti-me lentamente para ir ao trabalho. Fui até a cozinha fazer um café forte, o vestido que usei na noite anterior estava sobre a cadeira. Mas que raios estava acontecendo. Pelo menos não estava sofrendo alucinações, aquela noite realmente existiu. Eu jamais fiquei embriagada em toda a minha vida, nem mesmo tinha o hábito de beber. Mas quem nunca exagerou no vinho, pelo menos uma vez na vida? Contei todos os detalhes de que me lembrei para Frederico durante a pausa. — Ah, chérie! Você ficou nervosa, tomou um porre, por isso não consegue se lembrar dos detalhes. Não a culpo, se um homem interditasse completamente um bosque, decorasse com luzes, músicas, velas etc., certamente eu sofreria uma amnésia momentânea, causada pela emoção. — Ora, Frederico, não dramatize. Você não entende. Não sei o que aconteceu. Estou confusa, você acha que Mozah usou de algum artifício para me dopar? — Chérie, você está se tornando paranoica. Estou começando a ficar preocupado. Mozah não precisa embriagar mulheres. Por que ele faria algo assim? — Você tem razão, eu devo ter bebido mais do que o indicado.


Não consegui me concentrar no trabalho, a dor de cabeça continuava insistente, fui para casa antes do final do expediente. Três semanas se passaram sem que eu tivesse nenhuma notícia. Fiquei aprisionada nas dúvidas e nas lembranças embaçadas, como num dèjá vu. No final do expediente, em uma tarde chuvosa de quinta-feira, avistei Mozah através da vidraça do prédio. Ao me aproximar, tive a sensação de estar diante de um homem ansioso. — Está tudo bem com você? Perguntou, abrindo a porta do carro. — Sim, estou bem! — Tive que me ausentar, você sabe, alguns negócios inadiáveis. — Onde, no polo Norte? — Tentei ser irônica, mas não funcionou. — Eu devia ter lhe telefonado ou enviado notícias. Foi um erro, não acontecerá novamente. — Você tem toda razão, não acontecerá novamente! Não foi um erro, você simplesmente não quis fazer isso. Foi muito bom conhecê-lo, mas essa história acaba aqui. Eu não aceito essas suas idas e vindas. Vejo você aparecer e desaparecer, igual a um truque de mágica em um show barato. Faça sua última apresentação, saia da cena de forma triunfal. Não desejo vê-lo mais. — Eu não pretendo desaparecer, quero estar com você. Dedicarei mais tempo a nós dois. — Não há nós dois — continuei — depois de três semanas, você reaparece prometendo coisas que jamais irá cumprir. Durante essas três semanas, fiquei imaginando se teria acontecido algo com você. Agora sei a resposta. Saia da minha frente e da minha vida. Desapareça. — Não seja infantil, Anita! — Infantil, eu? Retorne ao deserto e compre uma odalisca, senhor Mozah. Lamento lhe informar que não estou à sua disposição. — Eu não sou um homem acostumado a ouvir não. — Então mude seus hábitos e acostume-se. — Ninguém me deixa falando sozinho — disse ele, segurando o meu braço. — Acredite, existe sempre uma primeira vez. Puxei meu braço fazendo com que ele o largasse. Afastei-me rápido, tentando não correr o risco de mudar de ideia e, novamente, acreditar em desculpas esfarrapadas. Atravessei o parque em passos largos. Para que começar algo quando já se sabe qual será o fim. Entrando em casa, verifiquei a secretária eletrônica como de costume. Havia oito ligações de Frederico. Retornei imediatamente imaginado se tratar de algo urgente. — Finalmente retornou minhas ligações. Chérie, tenho uma surpresa maravilhosa — disse ele eufórico. Recebi um telefonema de Mozah alguns minutos atrás. Ele deseja contratar você como a nova diretora de marketing nas próximas campanhas da empresa. — Você sabe que existem profissionais mais competentes para ocupar esse cargo, Frederico. Mozah é um homem manipulador. — Um bom profissional jamais deve confundir negócios com a vida afetiva. É uma oportunidade única, não desperdice por orgulho. — Não sei, mas prometo pensar sobre o assunto. — Existem mais coisas na vida além do amor. A paixão ingênua deixou você na sarjeta, cheia de lembranças ruins e dívidas. Não desperdice a chance de reconquistar tudo o que lhe foi roubado. Mozah pode realizar todos os seus sonhos. Será uma bela revanche. Revanche; aquela palavra ecoou durante toda a noite nos meus pensamentos, organizando


minhas ideias de forma surpreendente.

Capítulo 8 - O início

S abia que não estava em condições de recusar uma boa promoção, seria preciso agir com cautela. O fato de me sentir atraída pela figura de Mozah me causava certo desconforto. Nem sempre é fácil controlar os sentimentos e desejos, a razão e a emoção costumam ser desarmoniosas. Mozah, dono de uma personalidade forte e um temperamento muitas vezes perturbador, exercia um fascínio sobre todos ao seu redor, incluindo a mim. Assumi meu novo cargo uma semana depois. Nem preciso falar sobre o desapontamento de Melissa diante de tal notícia. Mudei-me para outro escritório, uma sala de sete metros quadrados e vista para o parque. Certa vez tive um pesadelo: Melissa sorria, entregando-me várias pastas, logo depois, o quadro do Hawai despencava sobre a minha cabeça. Isso não importa mais, as coisas haviam mudado, dediquei-me à minha nova tarefa. Sempre tive um talento extraordinário com marketing, herdei essa habilidade de meu pai. O fato de eu falar vários idiomas facilitou bastante os acontecimentos. A primeira campanha para a qual fui designada foi em uma empresa japonesa conhecida por preservar o meio ambiente acima de qualquer interesse. Os vazamentos de petróleo no oceano tornavam-se cada vez mais constantes. A mídia e os manifestantes exigiam melhores condições para que os animais marinhos não sofressem com esse descaso. Preparei vários esboços para apresentar aos acionistas. Frederico avisou que eu teria de ir ao Japão. Afinal, o tempo dos executivos vale ouro. Trabalhei noites e dias no meu primeiro projeto. Uma agenda cheia, como recompensa, um bom salário. Terça-feira, 14 horas, horário de Tóquio, a reunião teve início. Estava muito nervosa, afinal era minha primeira apresentação. Ao entrar na sala, vi Mozah conversando com alguns executivos. Ele me cumprimentou com um gesto sutil. — Que canalha, pensei. Na melhor das hipóteses, um ataque fulminante do coração me faria ser levada ao hospital, somente assim eu estaria livre daquela situação embaraçosa. Felizmente meu coração era forte. Mas a minha barriga não! Senti cólicas e calafrios devido ao nervosismo. Vinte e cinco executivos japoneses olhavam curiosos em minha direção. Meu Deus, as cólicas se tornaram mais intensas. Apresentei-me e comecei a explicar os detalhes da campanha. Senti-me ridícula, mesmo assim continuei. Os olhos de Mozah sobre mim deixavam-me mais ansiosa. No término da reunião, senti-me envolvida por uma sensação de alívio indescritível. Finalmente acabou. Agradeci a todos educadamente, depois sumi. Pode parecer engraçado, mas nos esquecemos de qualquer constrangimento diante de uma dolorosa cólica acentuada. Depois de alguns muitos minutos e tudo acabado, lavei o rosto, retoquei a maquiagem, tornei-me mais apresentável. Quando a porta do elevador abriu, lá estava Mozah. — Você se saiu muito bem!


— Não diga. — era deboche. — Para uma primeira apresentação, você foi ótima! — Obrigada! — talvez fosse um elogio sincero. Para uma primeira apresentação não foi um fracasso total — Você aceita um drinque? Ou tem algum outro compromisso? — Para dizer a verdade, tenho outros planos, pretendo ir ao museu de artes. É a primeira vez que visito o Japão, desejo aproveitar a oportunidade. Desculpe, marcamos outro dia. — Que coincidência, eu havia pensando em fazer o mesmo. Preciso avaliar os valores de algumas obras de artes antigas, pretendo fazer doações aos museus. Esnobe! Quase ouvi o eco da voz dele dizendo: pretendo doar obras de artes. As pessoas doam roupas, alimentos, quem doaria obras de artes valiosas? Ele gostava de ser reverenciado! Por outro lado, eu devia aquele cargo a Mozah. Com uma falsa relutância, aceitei a companhia. Não precisávamos de nenhum guia, Mozah sabia praticamente tudo sobre artes. Uma mistura de esnobismo e conhecimento. Senti-me constrangida por saber tão pouco, quase nada. Notei o brilho existente nos olhos de Mozah enquanto ele admirava as obras de artes. Sua paixão pela arte era verdadeira. Devido à claridade fraca das luzes, seus cabelos pareciam ter uma cor acobreada. Com as mãos postas nos bolsos, estudando os detalhes minuciosos de cada objeto, ele se esqueceu de quem era. Tornou-se apenas mais um admirador da arte, sem máscaras ou gestos articulados. Tornou-se ainda mais bonito e intenso. — Jantamos juntos hoje? — perguntou. Pensei em recusar, mas não o fiz. Eu queria estar com ele. Encontramo-nos à noite. — Reservei uma mesa com vista privilegiada. Assim, podemos observar melhor os arranhas céus em Tóquio. Durante o jantar conversamos sobre a vida, sobre artefatos antigos, até mesmo sobre o embalsamamento das múmias. E me perdia enquanto ele relatava suas aventuras pelo mundo. Mas, em momento algum, ele falou sobre sua família. — E seus pais? Perguntei. — Faleceram há muitos anos atrás. — Seu pai casou-se com mais de uma mulher? — Sim, três! Mas minha mãe foi sua preferida. — O que isso quer dizer? — Ele a amava, ao seu modo. — Anita — disse ele mudando de assunto bruscamente—, preciso saber o que você espera desta noite. Eu desejo estar com você. Continuei em silêncio, melhor não correr o risco de falar alguma bobagem. Ele sabia bem as emoções que despertava em mim, estava descrito com luzes de neon em meu rosto. Deduzi ser um costume árabe ou talvez fosse o ego narcisista de um homem ansioso por saber o quanto era desejado. Fomos para a suíte do hotel onde Mozah estava hospedado. Ainda no elevador, Mozah aproximou-se, beijando-me no pescoço com seus lábios macios e


quentes. Quando o elevador nos deixou no trigésimo sexto andar, ele me levou em seus braços até a cama coberta por lençóis de seda vermelho escuro e cheiro suave de alguma fragrância desconhecida. Seus beijos quentes me deixavam atordoada e úmida. Tão quentes e intensos! Senti suas mãos percorrerem o meu corpo, detendo-se sobre regiões secretas. Os beijos começaram se a espalhar pelo meu corpo, e, antes de eu explodir em êxtase, ele parou. Senti então o peso do seu corpo sobre o meu, pressionando cada vez mais forte, mais rápido, fazendo-me pedir mais. Com uma das mãos, ele acariciava meus cabelos enquanto a outra encontrava demais fronteiras, levando-me ao êxtase. Fiquei confusa e submissa aos carinhos alheios. Pela manhã, despertei com a claridade do sol entrando através das cortinas. Eu estava sozinha. Vi um bilhete sobre o móvel ao lado da cama: estou pensando em você. Ah, que legal, pensando em mim, onde? Estava tudo bem, não imaginei ser diferente. Ouvi a campainha tocar. O garçom entrou no quarto, deixando o café da manhã sobre a mesa. Ele parecia habituado com aquele tipo de situação. — O senhor Mozah pediu para avisar-lhe do seu retorno logo mais à noite. Caso deseje conhecer alguns pontos turísticos, o motorista poderá levá-la. Perguntei-me se não teria sido melhor escrever isso junto com o bilhete. Agradeci ao garçom. Conhecer a cidade de Tóquio me parecia uma ótima ideia. Um mundo neon, com tecnologia avançada. Uma cidade futurista, hotéis para todos os gostos e necessidades, desde os mais luxuosos aos práticos e modernos. Cabines pequenas, com cama, televisão, ar condicionado e algumas outras regalias, no espaço de 2,50 metros. Propagandas em painéis gigantes, lembrando sempre o nome de algum produto novo. Fotografei alguns pontos turísticos, fotografar era meu antigo hobby, eu possuía o dom de capturar imagens únicas através das lentes de câmeras. Nunca é tarde demais para retornar hábitos saudáveis. A secretária de Mozah telefonou comunicando a hora do jantar. Estranhei ter nossos encontros marcados através da secretária. Mas existia algo de positivo naquela situação: caso rompêssemos, não haveria nenhuma cena triste, pois eu seria avisada pela secretária. — Como foi o seu passeio em Tóquio? — Perguntou ele, acariciando meu rosto. Foi a primeira demonstração de carinho explícita de que me lembro, e também uma das poucas. — É uma cidade fascinante. — Devo permanecer em Tóquio durante este final de semana. Você deseja permanecer ou partir? — E o que você deseja? — Desejo que fique comigo. — Ah, desejo realizado! — sorrimos. — Tenho interesse em saber mais sobre esta cidade. — Pedirei à minha secretária para fazer uma nova reserva no hotel onde estou hospedado. A reserva foi feita numa suíte no trigésimo quarto andar. Não entendi. Mas com o decorrer do tempo, seus gostos e manias tornaram-se visíveis. Na sexta-feira, dormi sozinha, pior, senti-me obrigada por uma força maior a comer todos os chocolates próximos a mim. Durante todo o


sábado, não tive notícias de Mozah. Decidi jantar sozinha no restaurante do hotel. Depois retornei à suíte, adormeci assistindo um programa na televisão. Despertei ouvindo o som da campainha, era Mozah. Com as mãos postas dentro dos bolsos de uma calça de linho preta, uma blusa na cor azul e um brilho nos olhos, já conhecido por mim. Depois de envolver-me em seus braços, perguntou: — Posso ficar aqui com você? — Desejei responder não, pelo menos uma vez. Mas, no instante em que senti o calor do corpo dele próximo ao meu, pensei — por que dizer não? Seus beijos eram intensos, chegando a causar arrepios pelo meu corpo. Não respondi com palavras, mas deixei claro meu desejo. Mais uma noite passou e novamente acordei sozinha. Definitivamente estava me sentindo vítima de um dèjá vu. O mais estranho foi quando tudo aquilo deixou de me surpreender. No domingo à tarde, fui avisada pela secretária sobre o meu jantar com Mozah logo mais à noite. Foi a minha última noite em Tóquio, e o início de muitas outras noites de amor e solidão. Quatro meses se passaram, visitei quase todos os lugares do mundo. Paris, Itália, México, Rússia, Estados Unidos, Canadá, Japão, Filipinas e alguns outros. Meu envolvimento com Mozah tornou-se intenso. Comecei a sentir-me como um dos personagens da mitologia grega; apaixonada por alguém que me levava ao céu ao inferno com a mesma frequência. Destaquei-me na empresa fazendo um bom trabalho. Pude bancar alguns poucos luxos, antes impossível. Mas não sabia ao certo se os meus sentimentos em relação a Mozah me faziam bem ou mal. Uma mistura de amor, paixão, solidão e um profundo vazio que insistia em permanecer no meu coração. Acostumei-me a dormir acompanhada e acordar sozinha, a ter meus encontros marcados pela secretária. Frederico desfrutava de tudo aquilo intensamente. O dinheiro e o poder podem mudar de forma avassaladora os nossos sonhos. Quando se pode ter tudo o que se quer, os sonhos deixam de existir. Dei-me conta de que tudo tem um preço a ser pago, até mesmo os sentimentos: quando se ama demais, muitas vezes, paga-se um preço alto. Mozah e eu conversávamos diariamente, melhor dizendo: eu ouvia muito. Assuntos de negócios eram os seus favoritos, bolsa de valores, baixa do dólar crise europeia, etc. O assunto não me desagradava, mas confesso preferir conversar sobre nós dois: se é que se podia falar no plural. Durante um jantar, distraí-me relembrando momentos vividos com Arthur. Na companhia dele, podia ser eu mesma, não precisava estar sempre bem vestida, maquiada e pronta para ser fotografada. Já com Mozah, em quase todos os lugares onde estávamos, éramos cercados por jornalistas. Confesso ter gostado inicialmente, mas depois de um determinado tempo isso se tornou cansativo. No momento em que alguém se torna uma figura pública, a privacidade é um sonho distante, impossível de se realizar. Lembro-me do dia em que fui ao supermercado, vestida em um moletom, sem maquiagem, com o cabelo despojado. No dia seguinte, vi minha foto no jornal, com a frase: a maquiagem para algumas pessoas é indispensável. Algumas pessoas acreditam realmente na palavra glamour. Em geral, as pessoas são iguais,


acordam todos os dias, iniciam a mesma rotina: escovar os dentes, pentear o cabelo, tomar café da manhã.... No íntimo, somos mais parecidos ainda, tentamos fazer amigos, encontrar um amor, um bom trabalho, ser feliz. Admito que tudo aquilo inflava meu ego. Nas fotos, tudo parecia perfeito, ao ponto de ser invejado. Decidimos viajar para o norte da França, Mozah precisava descansar. Villefranche-sur-Mer é um lugar incrível e aconchegante. Mozah tinha o hobby de velejar. Naquela tarde, ele disse precisar conversar sobre assuntos relevantes. — Querida, estive pensando sobre nós dois e cheguei a uma conclusão - disse ele- fazendo uma pausa, um silêncio que pareceu durar uma eternidade. Senti meu coração estilhaçar em mil pedaços com a ideia de um rompimento. — Acho que devemos oficializar nossa relação. — O que isso quer dizer exatamente? — Você aceita casar-se comigo? Imaginei-me dizendo: quero muito me casar com você. Tenho sonhado com este momento. Na verdade, não falei nada disso, essas palavras ficaram apenas nos meus pensamentos. Permaneci em silêncio por alguns segundos, fingindo pensar na resposta. — Sim, eu aceito. O que fez você chegar a essa conclusão? Nada melhor do que ouvir uma confissão de amor. — Você é uma pessoa especial, gostaria de dividir minha vida com você! Confesso que preferia ouvir palavras românticas, mas eu estava apaixonada. Mozah beijou uma de minhas mãos, retirando do paletó uma caixa pequena preta. Ao abri-la, surpreendi-me com um lindo anel de diamantes. Sem dúvida, era um bom momento para desabafar, falar sobre os meus sentimentos. Dizer que não aceitaria me casar com um homem que nunca acorda ao meu lado. Jamais me telefona. E me comunica sobre os nossos encontros através da secretária. Quando me preparava para dizer, ouvi Mozah. — Este anel pertence à minha família há muitas gerações. Minha mãe me entregou para que eu pudesse presentear a mulher que amo. Fiquei em silêncio. Mesmo com tantos desencontros, acreditei haver uma chance de ser feliz naquela relação.

Capítulo 9 – Ilusões

A os olhos alheios, tudo parecia perfeito. Afinal, não é sempre que se encontra um homem como Mozah, mas, por trás das lentes das câmeras, na vida real, eu era apenas uma mulher solitária, ansiosa por ouvir declarações de amor. Os preparativos para o casamento tiveram início, não foram medidos esforços nem dinheiro. Mozah jamais aceitaria uma cerimônia simples. Os convidados, em sua maioria, eram investidores, jornalistas, empresários. Senti-me perdida entre


tantos rostos desconhecidos. Dias antes da cerimônia, Mozah comunicou sua opinião sobre meu trabalho. — Diante de todas essas mudanças, acredito que seja o momento oportuno para você deixar o trabalho na empresa — disse ele. — Conquistei um bom nome no mercado por mérito próprio. Não vejo motivos para encerrar minha carreira. — Entendo. Mas não se esqueça de que terá outros compromissos e uma agenda cheia de afazeres. Você deve me acompanhar a festas e reuniões. Como fará isso com a sua agenda de trabalho repleta? Na cultura árabe, o homem é responsável pela esposa. — Em outras palavras, você tem dinheiro suficiente e não deseja que seus aliados saibam que sua esposa trabalha. — Você decide! — disse ele. — Preciso usar burca? - Indaguei. — Em algumas ocasiões formais sim. Não sou eu quem faz as regras. Casamo-nos em Dubai, tive a oportunidade de conhecer os parentes distantes de Mozah, muito distantes. Frederico ajudou nos preparativos, ele amava tudo aquilo, era como fazer parte de um mundo inimaginável, não se perguntava valores, não se fazia economia. Tudo era possível. Sonhos... não existiam sonhos naquele lugar, tudo era realizável. Oitocentos e cinquenta convidados. Digamos que foi uma "cerimônia íntima". Mozah cuidou pessoalmente da lista. Eu estava feliz, mas quando algo se torna imenso, perdese um pouco a beleza que existe na simplicidade. Um mundo irreal e frio. Entretanto, sem dúvidas, foi uma festa memorável. A maioria dos convidados chegou de helicóptero, homens com o poder de fazer falar ou calar. Minha única convidada foi tia Miriam, ela morava no Texas. Imaginei que ela tivesse morrido. Jamais enviou notícias. Curiosamente, quando ganhamos status ou dinheiro, os laços familiares são rapidamente lembrados. Foram dois dias de festejos, fiquei completamente exausta, nem a maquiagem conseguia esconder o cansaço e as olheiras. Quando a festa encerrou, os funcionários organizaram a casa com rapidez e perfeição. Não notei a presença de Hanna em meio a tantos convidados. Senti-me aliviada, ela me causava arrepios. Felizmente eu a via raramente. Os convidados finalmente partiram. Naquela noite, eu dormi sozinha, acompanhada da minha própria solidão. Na semana seguinte, não foi diferente; Mozah esteve ausente. Aproveitei o tempo disponível, conhecendo Dubai. Frequentei lugares luxuosos e exóticos, mas sempre sozinha. Comprei roupas discretas, tentando passar despercebida em meio aos olhares curiosos. O calor intenso de quarenta e seis graus continuava a me causar fortes enxaquecas. Dentro da casa de Mozah, existia ar-condicionado em todos os ambientes, mas lá fora o calor e a poeira do deserto não davam nenhuma trégua, invadiam os muros da cidade como uma peste, mostrando ao homem que não se pode ir contra a natureza. Uma semana depois do casamento, jantamos juntos pela primeira vez.


Não conversamos quase nada naquela noite, senti que algo preocupava Mozah, não perguntei o motivo de imediato. Depois do jantar, bebemos vinho próximos à lareira, ele continuava com o olhar distante, perdido entre as chamas do fogo. — Está tudo bem, Mozah? — Sim, e com você? — Estou bem! — Tive uma semana tumultuada, desculpe minha ausência. Estive pensando, podíamos viajar juntos este fim de semana. Preciso descansar um pouco. — Eu adoraria, aonde iremos? Perguntei ansiosa, afinal não nos víamos há dias. — Paris! Respondeu. Mozah levantou-se, abasteceu a lareira, aproximou-se de mim, tocando meus cabelos de forma doce. — Você deseja estar comigo esta noite? — Sim! Não o vejo há dias, senti sua falta. — Talvez um dia eu acredite nisso — disse ele, enquanto me beijava. Não analisei a frase no momento. Aquela noite foi diferente, ele era meu, tão dependente de mim. Beijou-me como se fosse a primeira e a última vez. Fomos para o quarto de Mozah. Os beijos espalharam-se pelo meu corpo, estremeci, o cheiro dele me deixava embriagada. O peso do corpo dele sobre o meu me causava delírios. Foram muitas horas, e várias vezes repetidas, fiquei exausta, implorando por mais. Novamente acordei sozinha, no fundo eu sabia que jamais seria diferente. Mozah vivia sozinho há muito anos. Acho que ele acostumou-se com a sua própria solidão. Por isso, despertar ao lado de outro alguém se tornou difícil. Uma palavra define Paris: paraíso; nunca vi águas tão cristalinas. Hospedamo-nos em um hotel discreto e afastado. Os peixes nadavam tranquilamente no lago que corria ao redor da suíte. As plantas cobriam partes das paredes do lado de fora com suas folhas grandes e verdes. O contato com a natureza é incrível, Mozah sentou-se na pequena varanda, a meu lado. — Tudo é lindo nesse lugar — comentei — tentando desvendar o que estava por trás daquele silêncio. — Este é um dos meus lugares favoritos. Gostaria de lhe fazer uma proposta Anita, mas pense bem antes de responder. Pretendo presenteá-la com algo que você queira muito. Diga-me qual é o seu maior sonho, e eu o realizarei. — Pensei em recusar, mas não o fiz. Afinal estávamos casados, tinha direitos. Não precisei pensar, sabia exatamente o meu desejo. No final da tarde fomos velejar. Durante o verão, Paris, é uma das cidades mais visitadas do mundo, as praias afastadas e tranquilas escondem belezas paradisíacas. Os cardumes de peixes aproximavam-se do barco tranquilamente, não existiam pesca, sujeira ou poluição, um pedacinho do Céu. Ao anoitecer, o isolamento se tornava ainda mais visível, era como se fôssemos os únicos sobreviventes depois do fim ao mundo. Naquela noite, conheci um Mozah diferente, um homem comum. Como qualquer outro, disposto a correr o risco de expor suas emoções, sem máscaras sarcásticas ou atitudes ensaiadas.


Jantamos frutos do mar servido num restaurante sobre as águas. Não havia muitas pessoas de férias. A julgar pelo valor da diária, poucos podiam pagar aquele paraíso. Foi uma noite diferente de todas as outras, e também a última. Depois as coisas ficaram fora do meu controle, se é que algum dia o tive. Mozah estava diferente. Senti-me amada, mesmo que essas palavras não fossem pronunciadas. Quando acordei pela manhã, Mozah dormia ao meu lado, pela primeira vez, acordei acompanhada. Imaginei que daquele dia em diante tudo seria melhor. Mas estava enganada. Mozah foi se tornando cada vez mais controlador e obsessivo. Mergulhamos durante o dia e almoçamos no barco à vela, não era permitido barco a motor; a preservação do meio ambiente estava acima dos interesses turísticos. Antes de iniciar nossa refeição, Mozah perguntou novamente sobre seu presente. — Diga-me Anita, qual é o seu maior desejo? Não precisei pensar, sabia bem o que queria. Eu queria me vingar de John e Emilly. Finalmente a vida me devolvia a chance de recuperar meus bens. — Desejo recuperar as ações da companhia que pertenceram à minha família. — Afinal, era justo recuperar o que me fora roubado. Uma companhia de porte médio não significava nada diante do império de Mozah. — Eu já desconfiava - disse-me. — Por quê? — Você não tem nenhum talento para esconder seus sentimentos. Sempre soube de toda a história. —Jamais falamos desse assunto, mas desconfiei que Mozah soubesse. No mundo dos negócios não existem segredos, principalmente para um homem igual a Mozah. —Desculpe, prefiro não tocar neste assunto. Respondi, voltando a ficar no silêncio dos meus pensamentos. O silêncio se fez presente entre nós dois daquele dia em diante. Só descobri o motivo de tudo aquilo mais tarde. Meus pensamentos se perderam no azul do mar. Imaginei o momento em que eu retomaria o controle das ações da empresa, humilhando publicamente John, assim como aconteceu comigo. Os dois patifes seriam pegos de surpresa. Nem mesmo em seus mais terríveis pesadelos eles haviam imaginado meu regresso triunfal. O que eu não sabia, é que, a surpresa seria minha. Na nossa última manhã em Paris, acordei novamente sozinha. Nada havia mudado. Mas eu estava eufórica, envolvida nos meus próprios planos de vingança, nem mesmo me apercebi do afastamento de Mozah. Arquitetei um plano para comprar a ações. Meu desejo era vê-los destruídos, no lixo. Recuperar as ações seria apenas o começo. Passaram-se dois anos desde a última vez que vi John no tribunal. Ao retornarmos a Dubai, o silêncio tornou-se ainda mais presente entre nós.

Capítulo 10 – O castigador


T elefonei para Frederico contando-lhe a novidade, juntos planejamos minuciosamente uma forma de surpreender John. Frederico se apresentaria como um acionista interessado em comprar as ações. Todos sabiam que os negócios não iam bem. Mesmo quando meu pai era o principal acionista, a empresa atravessava crises financeiras constantes, isso gerava incertezas entre os investidores. — Você deseja vingar-se de John? — Perguntou Frederico em uma de nossas conversas pelo telefone. — Não desejo vingança, e sim justiça! — Sei o quanto foi difícil tudo o que aconteceu, a traição, a humilhação pública seguida da falência financeira e emocional. Mas agora tudo é diferente, você pode recomeçar, esquecer definitivamente aqueles dois medíocres. Deus está lhe concedendo uma nova chance. Não desperdice este momento com vinganças tolas, chérie, até os deuses do Olimpo já sofreram traições. Desprenda-se dessa história. — Você não entende, ainda tenho pesadelos com aqueles dois patifes. Eles me deixaram na miséria não apenas financeira, mas emocional. A minha vida e os meus sentimentos foram descartados, jogados no lixo. A empresa é minha, você consegue entender isso? — Entendo, chérie, se é essa a sua decisão, entrarei em contato com os acionistas, farei uma boa proposta pela compra das ações de John. Queira Deus que você não se arrependa. — Estou feliz por contar com a sua ajuda. Os dias se passaram rápido, idealizei todo um cenário de decadência e humilhação envolvendo John. Aquele momento ficaria registrado na memória dele por toda a vida. Esqueci tudo mais ao meu redor, inclusive Mozah, estávamos cada vez mais distantes. Três meses depois, Frederico conseguiu finalmente comprar as ações, John aceitou a quantia oferecida. A reunião para oficializar o fechamento do contrato foi marcada em uma tarde de segundafeira, em Amsterdam. No exato momento da assinatura e do fechamento do acordo, eu me apresentaria como a verdadeira compradora. Imaginei qual seria a reação de John mediante aquela revelação. Tive informações seguras sobre a crise pela qual John atravessava. Não estava nem ao menos conseguindo pagar a hipoteca da casa. Certamente uma grande parcela havia sido paga com o meu dinheiro, e, para conseguir o restante necessário para liquidar a dívida, ele teve de recorrer ao banco. Emilly, por sua vez, era especialista em luxo. Não admitia um homem que não pudesse custear seus caprichos. Gastou toda a herança deixada por sua família, mas isso nunca foi um problema, ela sempre soube como fazer os homens pagarem por seus desejos. Na quinta-feira, Mozah chegou. — Anita, amanhã à noite, teremos de ir a uma reunião familiar na casa de um dos homens mais importantes do setor petroleiro. Vista-se como uma rainha, não economize. — Um homem mais poderoso do que Mozah? Quem seria ele? A presença de Hanna me incomodava, quando não estava espiando atrás das portas, estava entre nós simulando fazer algo, mas a verdade é que estava sempre me vigiando. Sempre bonita,


exalando o cheiro de um perfume forte e marcante, eu podia senti-lo entranhado nas paredes de toda a casa. Naquela noite não suportei sua presença. — Hanna, obrigada por servir o jantar, gostaria de ficar a sós com o meu marido. — A reação dela foi sutil, mas seus olhos escureceram-se. Depois do jantar, Mozah propôs que bebêssemos uma taça de vinho especial, comprado na Escócia. Naquela noite, não fomos para o quarto, deitamos na tapeçaria macia, envolvidos com o som suave da música e o calor da lareira. Aqueles olhos castanhos brilhantes despertavam os meus desejos mais secretos. O silêncio se fez, as mãos macias acariciavam meus seios com uma sutileza sexy e mágica. Aqueles beijos quentes e molhados me faziam perder os sentidos, uma relação de amor e submissão. Depois de retirar toda a minha roupa, inclusive a meia fina, ele sussurrou: — O que você deseja esta noite? — Perguntou enquanto beijava meus seios, deslizando as mãos entre minhas pernas, fazendo movimentos circulares com as pontas dos dedos em lugares secretos. — Desejo você. Houve um silêncio assustador, ele afastou-se, deixando-me sozinha, despida no chão. Não foi apenas meu corpo que ficou estendido no chão, foi o meu orgulho. Por que tudo aquilo, afinal? Mozah havia mudado? Ou sempre fora assim? Sempre se paga um preço pelas escolhas. Alcancei o vestido e o envolvi em volta do meu corpo, vi Hanna espreitando no corredor escuro como uma cobra venenosa. Não lhe dei importância, ergui a cabeça, seguindo para o quarto. Os travesseiros macios absorveram minhas lágrimas miseráveis. Talvez eu tenha cometido um grave erro casando-me com Mozah! Mas quem nunca se deixou enganar pela paixão ao menos uma vez na vida? Até onde eu sabia, Mozah era excêntrico, não um mau-caráter. Com a convivência frequente, fui notando a mudança de humor constante, e a intolerância desmedida. Eu estava prestes a conhecer o verdadeiro Mozah. O motorista levou-me a uma das lojas mais caras de Dubai, eu devia escolher um vestido para aquela noite. Comprei um vestido de renda preta, sem decote, o mais discreto possível. Custou uma verdadeira fortuna, mas Mozah não aceitaria nada inferior. As seis e trinta, eu estava pronta, Mozah esperava por mim na sala de visitas. — Anita, você está linda, querida! Vamos, não podemos nos atrasar. Quarenta minutos mais tarde, chegamos à casa do Sheik Hamad, quero dizer ao castelo do Sheik Hamad. Havia um enorme jardim ao redor do castelo, com várias palmeiras e um lago artificial, sem mencionar as piscinas e o campo de golfe. Passamos pela pista de pouso dos helicópteros e pelo zoológico particular. Ao entrarmos no castelo, fiquei deslumbrada com a arquitetura perfeita daquele lugar e com o bom gosto da decoração. Até onde eu sei, não se pode ter tudo na vida, certamente o dono daquele império tinha seus oitenta e poucos anos. Ouvi um homem atrás dizer: Mozah, como vai irmão? — Hamad e Mozah não eram irmãos, mas tratavam-se como se fossem. — Hamad, não o vejo há mais de um ano, por onde andou? — Você sabe, sou um aventureiro. Defendo a tese de que nascemos para caminhar e não devemos permanecer no mesmo lugar como árvores secas. Você casou-se?


— Sim, esta é Anita. Hamad beijou minhas mãos, dizendo: agora entendo por que se casou. Senti a fúria de Mozah atravessar minha alma. Hamad pareceu não se importar. Ao contrário do que pensei, Hamad era jovem, tinha trinta e dois anos. Atlético, alto, olhos escuros e sobrancelhas largas. Eles afastaram-se. Enquanto isso, as duas esposas de Hamad me observavam intrigadas. Talvez pelo fato de eu ser uma estrangeira. — Seu vestido é inapropriado para uma mulher casada. Ele desperta a curiosidade dos homens disse Sacha, esposa de Hamad. Quem ela pensa ser para me dizer como devo me vestir? Pensei! Melhor não fazer desfeita, por isso me calei. Difícil dizer quem me olhava mais, as mulheres de Hamad ou o próprio Hamad. O jantar tornou-se uma guerra de olhares, agradeci a Deus quando chegou ao fim. Mozah afastou-se para buscar o paletó, enquanto Hamad veio “cheio de mãos” na minha cintura. — Foi um prazer conhecê-la, Anita. Espero vê-la outra vez. — Sim, quem sabe. Quando me virei, lá estava Mozah, inerte, com um olhar indecifrável. Retornarmos para casa, sem que ele pronunciasse uma palavra. Naquela noite, eu conheci o caminho para chegar ao inferno. — Anita, você não pode se comportar como uma mulher da rua. Você me deve respeito. — Do que você está falando? — O que Hamad lhe disse? — Nada, apenas que nos veríamos em outra ocasião. — Um encontro? — Nada disso, as pessoas se despedem dessa forma. O que está acontecendo com você? — Eu não queria fazer isto, mas sou obrigado. Você deve aprender nossos costumes. Por bem ou por mal. Mozah chamou Hanna e deu ordens para que ela encontrasse Ademir, o mordomo. Não entendi o que acontecia até o senhor de meia idade me arrastar pelo braço. Ele era o castigador. O que está acontecendo? Descemos a escada até a cozinha, Ademir afastou um móvel pesado. Havia um corredor secreto. Meu coração disparou, senti-me como um animal a caminho do matadouro. O que você vai fazer comigo? — Perguntei. O velho continuou em silêncio. Depois de cruzar o longo corredor, entramos num quarto escuro e abafado. Quando a luz do candelabro foi acesa, pude enxergar melhor o ambiente. Era uma câmara de tortura. Tentei lutar contra Ademir, mas foi em vão, apesar da idade, ele era forte e cruel. Tive as duas mãos acorrentadas acima da cabeça, em uma tábua de madeira velha. — Você não pode fazer isso comigo! Disse-lhe. Ele continuou em silêncio. Depois se aproximou, segurando um chicote. — Seu psicopata louco, eu exijo que me solte agora. A primeira chibatada queimou minha pele numa dor inigualável. — Maldito, solte-me! — Segunda chibatada. Deus, eu estava no inferno! — Mozah— gritei! Supliquei. Nada mudou. Foram dez chicotadas.


Mozah estava próximo, podia ouvir os meus apelos! Por um momento, ele fechou os olhos, e arrependeu-se de ter tomando aquela decisão. Mas era tarde demais. Lembrou-se dos gritos de sua mãe Alima, suplicando clemência. Mas Anita tinha de conhecer as regras. Acordei confusa! Tentei mover-me, senti minhas costas arderem como fogo. Imaginei despertar de um pesadelo, mas me enganei. A minha vida tornou-se um tormento. Quando me recuperasse, iria procurar as autoridades e pedir o divórcio! Mozah era louco. Só conhecemos alguém quando descobrimos os seus segredos mais sombrios. Às quatro horas da tarde, Mozah entrou no quarto. Aparentemente arrependido. O que ele fez não merecia perdão. Eu deitei de bruços, tentando não machucar meus ferimentos. Permaneci na cama durante todo o dia. — Anita, perdoe-me! — Por que você quis casar-se comigo, Mozah? — Porque eu amo você! Meu ciúme me cegou. Jamais fui tão longe com alguém. — Mas foi agora! Essa é a sua forma de amar? — Jamais amei alguém antes de você. Nem mesmo sei como me comportar diante desse sentimento. — Você não me ama! Seu desejo é me possuir, me dominar. Por favor, Mozah, deixe-me sozinha.

Capítulo 11 – Surpresas

A

viagem a Amsterdam havia sido marcada antes dos acontecimentos. Mozah não me impediria. Isso levantaria muitas suspeitas. Aproveitaria a oportunidade para consultar um bom advogado, iria me divorciar o quanto antes. No sábado, embarquei. Ao contrário de outros aeroportos, o reconhecimento em Dubai é feito através do escaneamento do globo ocular. Faz parte da cultura árabe que as mulheres andem com seus rostos completamente cobertos. Para evitar constrangimentos, escanear os olhos é regra. Drogas e bebidas alcoólicas são consideradas infrações gravíssimas, dependendo da quantidade, a pena de morte é inevitável. Hospedei-me no apartamento de Frederico durante o final de semana. Entre nós não existia segredos, desabafei. — Meu Deus, você está em uma enrascada sem tamanhos. — Sou uma cidadã europeia, ele não pode me manter em cárcere privado, nem me chicotear. — Chérie, escute. A rainha da Holanda não vai declarar guerra aos Emirados Árabes por sua causa. Você casou-se de livre e espontânea vontade. Não foi obrigada. A maneira mais segura de resolver tudo isso é entrando em acordo com Mozah. — Irei procurar um bom advogado. — Faça isso! Mas tome cuidado. — Frederico, sinto-me um animal encurralado. — E você está, querida! Sua vida corre perigo. Mozah é louco. Aconteça o que acontecer não leve essa história a público. Vamos resolver de forma segura e sigilosa. E quanto a Hanna? — Felizmente moramos em uma casa grande, mas, algumas vezes, tenho o desprazer de encontrá-


la vagando pelos corredores, espreitando na escuridão. Tenho um pressentimento ruim em relação a ela. Por vezes, encontrei coisas organizadas de forma diferente das que deixei. — Não dê importância a isso, é natural que Mozah esteja querendo saber coisas a seu respeito. Segunda-feira será o seu grande dia, depois do divórcio, você poderá assumir a empresa de seu pai. Tudo voltará ao que era antes. O que acha de jantarmos num restaurante vegetariano, hoje? — Uma excelente ideia! A noite foi agradável, esqueci-me dos meus problemas, conversamos sobre a empresa. Fui apresentada ao novo namorado de Frederico, Carlos. Anos mais jovem, musculoso, um metro e oitenta. Frederico desejava tanto ser amado que não se importava de pagar o preço que fosse. Marquei hora numa maquiadora conhecida em Amsterdam. Um valor exorbitante. Teria sido menos caro fazer uma cirurgia rejuvenescedora, economizaria bastante dinheiro. Mesmo assim, não me arrependi, a qualidade do trabalho valeu cada centavo pago. Esperei aquele momento durante anos, não iria permitir que John soubesse a verdade escondida atrás das aparências. Nada acontece da forma que imaginamos. Surpreendi-me ao entrar na sala, ao ver um homem pálido e muito magro, barba por fazer, e um paletó amarrotado. Nem parecia o John de poucos anos antes. A meu ver, tornou-se ainda mais pálido e trêmulo. As olheiras escureciam seus olhos, antes tão bonitos. A magreza foi o que mais me chamou atenção. Ele não estava bem, tive certeza. — Foi você quem comprou as ações? — Sim! Agora elas estão nas mãos certas. — Nunca desejei lhe causar mal algum. Defendeu-se. — Isso não importa, os tempos são outros. Disse-lhe, observando a magreza de suas mãos pálidas sobre a mesa. — Você tem razão, as ações são suas, sempre foram. Talvez um dia você possa me perdoar? — Não sei se consigo! — Entendo! Fui um cafajeste. - Eu quis desabafar, afinal esperei anos por aquele momento. Mas, diante de uma figura tão debilitada, me vi sem palavras. — Eu amava você, Anita! Mas, como você mesma disse, isso não importa mais – disse, levantandose da cadeira e caminhando em direção à porta. — O que está acontecendo? Perguntei a Frederico. — John está morrendo. O câncer está lhe roubando a vida. — Minha raiva e ódio tornaram-se insignificantes. Jamais desejei a morte de John. — Frederico, você sabia? — Não, John escondeu a doença de todos. Não é culpa sua, chérie, ninguém sabia. Você não cometeu nenhum crime em querer de volta o que lhe pertence. Durante anos, imaginei o dia em que John veria o meu triunfo. Noites e noites sofrendo, remoendo dores. —A vingança sempre tem um gosto amargo— Frederico tinha razão, era hora de deixar o passado ir embora. Contratei alguém para cuidar das ações. Na segunda-feira pela


manhã, fui ao escritório do advogado Mark Bertens, em Amsterdam. — Olá, senhora Anita! Em que posso ajudá-la? —Meia hora mais tarde, eu havia contado todo o meu problema. Depois de ler alguns papéis, ele me surpreendeu dizendo: — Não posso fazer nada pela senhora! — O que isso quer dizer? — O casamento foi realizado segundo as normas de Dubai. Por esse motivo, o divórcio deverá ser negociado segundo as leis do país. Isso não é tudo. Se pedir o divórcio a Mozah, terá de pagar uma verdadeira fortuna pela quebra de contrato. Só Mozah pode modificar o contrato para que a senhora não pague a multa. — De quanto estamos falando? — Estamos falando de milhões! — Isso não pode estar acontecendo. — Aconselho a procurar um bom advogado em Dubai. Irei falar de forma extraoficial para que me entenda melhor. Mozah pode deixar você quando quiser, mas você não poderá fazer o mesmo. — E se eu não retornar a Dubai? — Com o poder aquisitivo que esse homem detém, não existe lugar seguro. Veja bem, conseguir o divórcio não é impossível. Mas deve ser algo bem planejado. — Entendo perfeitamente. Desembarquei no aeroporto de Dubai às 22 horas. Tive o desprazer de encontrar Hanna pelos corredores. — Imaginei que não fosse voltar! — Não estou interessada no que você acha. — Mozah não sentiu nenhuma falta sua, ele tem a mim. — E você, Hanna, tem a quem? — Vai se arrepender de ter voltado a esta casa - disse ela sumindo na escuridão. — Anita. Ouvi a voz de Mozah — Venha ao meu escritório, preciso lhe falar. Segundos depois eu estava no escritório de Mozah. — Como foi a compra das ações? — Ocorreu tudo bem! — E a sua visita ao advogado? — O quê? Fingi não entender a pergunta. — Mark Bertens é um bom advogado, mas tenho melhores aos meus serviços. — Continuei imóvel e em silêncio. Ele sabia tudo, controlava a todos como um lobo selvagem. — Antes de nos casarmos, avisei-lhe que não sou um homem acostumado a ser contrariado. Não é você quem decide quando deve partir, sou eu. E deixe essa mania de se sentir superior a Hanna, pois você não é. Nunca gostei da proximidade de Hanna. A nossa convivência tornou-se infernal. Mozah jamais admitiria ser deixado para trás. Telefonei para Frederico no dia seguinte na esperança de ouvir algo positivo sobre o divórcio. Contei-lhe também sobre as insinuações de Hanna. — Quantas vezes eu lhe falei para deixar o passado trancafiado em sua memória? Sempre desconfiei de Hanna. Chérie, Mozah é um homem encantador, o que fez você pensar que Hanna


não se sentiria atraída por ele? Hanna agora é uma inimiga declarada, não transforme Mozah num outro inimigo. É impossível fugir de um homem como ele. Sua única opção é fazer com que Mozah desista de você de uma vez por todas. — Como conseguirei fazer isso sem despertar seu ódio? Não sei, fique de olhos abertos, talvez você consiga usar a paixão de Hanna em seu benefício. Ou você ama Mozah? Como você pode me fazer essa pergunta? As pessoas comentem erros. Chicotear ou bater em pessoas não é um erro aceitável, é uma falha de caráter. Ele me causa medo. Nunca sei seus pensamentos ou suas intenções... — Ouvi Hanna aproximar-se, desliguei o telefone sem me despedir. — O jantar está servido — disse ela, com um sorriso maldoso nos lábios. — Não precisa ser dessa forma Hanna, podemos melhorar nossa convivência. — Acha que sou idiota? Você é só mais uma estrangeira tola. Logo Mozah se dará conta de que cometeu um grave erro casando-se com você. — Se ama tanto Mozah, por que não se casou com ele? — Nossa conversa está encerrada. — Percebi uma troca de olhares entre Mozah e Hanna. — Estive pensando — disse Mozah — a sua amizade com Frederico anda causando rumores, é prudente se distanciar. Permanecer em silêncio era mais seguro, evitaria que as palavras se voltassem contra mim. Depois do jantar, recolhi-me no quarto tentando me manter afastada. Iniciei a leitura de um livro, isso me ajudou adormecer em paz. Acordei exausta, sentindo um desconforto incômodo. O despertador marcava 14 horas. Vesti uma camisola longa e fui até a cozinha comer e beber algo. Retornado ao quarto, encontrei Hanna vestida com roupas sensuais, bem maquiada e com cabelos brilhantes. — Pensei que não fosse acordar — disse ela, irônica. — Não lhe devo satisfações. — Isso é o que você pensa. — Deixe-me em paz. — Você não sabe mesmo onde está pisando estrangeira. Se eu fosse você, teria cuidado com as areias do deserto, muitos desapareceram sem deixar vestígios. Pela primeira vez, senti a intensidade do ódio de Hanna por mim. Embora ela tivesse uma aparência frágil, era tão perigosa quanto as cobras venenosas do deserto. Bonita e mortal. Durante os dias seguintes me mantive afastada. Comprei um telefone celular e sempre que possível mantinha contato com Frederico. Tive de encontrar um lugar seguro para escondê-lo. Os advogados tentavam encontrar uma maneira de me divorciar sem danos. Enquanto isso, as provocações continuavam. Mozah perdeu totalmente o interesse por Hanna, despertando nela um ódio doentio. Ele ia ao meu quarto quase todas as noites, o mais estranho é que eu não conseguia me lembrar de nada claramente. Acordava exausta, dormia demasiadamente e minha lembrança continuava embaçada. Não conseguia mais organizar meus pensamentos de forma clara me sentia dopada. Finalmente percebi que toda aquela sonolência e esquecimento não eram comuns. Alguém estava me dopando. A


pergunta era quem? Mozah, Hanna, ou os dois? Durante as noites seguintes, não bebi vinho, sem que percebessem, despejava todo o líquido nos jarros de plantas. Dois dias depois disso, senti-me melhor, menos sonolenta. Observei Hanna buscando o vinho na adega depois enchendo minha taça. Meu temor aumentou, quando me dei conta de que a comida também estava sobre seus cuidados. Eu tinha como alimentação principal frutas, saladas e iogurtes light. Minha vida tornou-se um inferno, tudo o que eu desejava era sobreviver àqueles dias horríveis. O luxo ao meu redor também me aprisionava naquela casa escura de paredes frias. Hanna assustou-se ao ver-me descer as escadas de manhã cedo, mas não fez nenhum comentário, isso aumentou mais minhas suspeitas. Finalmente, encontrei espaço para falar com Frederico. — Chérie, o que aconteceu? Já estava imaginando o pior. Você não telefona nem dá notícias há mais de duas semanas. Telefonei várias vezes, mas Hanna ignorou minhas perguntas. — É uma longa história, melhor falarmos pessoalmente. — Tenho uma notícia triste, John encontra-se internado no hospital em fase terminal e deseja ver você pela última vez. — Não sei se poderei ir a Amsterdam, as coisas estão fora de controle, tentarei falar com Mozah. Tive de desligar, ouvi passos no corredor. Não me restavam muitas alternativas, tinha de ser esperta, não me deixar manipular por Hanna ou pelos caprichos de Mozah. Marquei uma consulta numa clínica afastada de Dubai, em uma cidade pequena com poucos habitantes. Fiz alguns exames tentando saber se existia alguma substância diferente em meu organismo. Veneno ou coisa do tipo. Hanna talvez não quisesse apenas me deixar sonolenta, ela podia estar tentando me envenenar com pequenas doses imperceptíveis. Para minha tranquilidade, tudo estava bem. Voltando para casa, encontrei-a no jardim como um cão de guarda. Ignorei-a, indo para o meu quarto preparar um banho. Naquela noite, Mozah jantaria em casa. Tinha de ir a Amsterdam me despedir de John. Aproveitaria a oportunidade para ir ao escritório do advogado, amigo de Frederico. Naquela noite, tomei uma atitude que devia ter tomado há muito tempo. — Hoje desejo jantar as sós com o meu marido, seus serviços estão dispensados, Hanna. Mozah continuou em silêncio, não parecia se importar. Hanna jamais se opunha às decisões de Mozah. — John está morrendo, em fase terminal, gostaria de vê-lo pela última vez. — Quem lhe disse isso, Frederico? — Sim! Mas não nos falamos com a mesma frequência de antes. — Não a impedirei de se despedir de seu ex-marido. Você pode viajar quando quiser. Achei estranho Mozah não se opor. Seria sensato usar de cautela em relação a ele. Quanto a Hanna, ignoraria a presença dela por completo. Depois de Mozah adormecer, retornei ao meu quarto. Era eu quem não queria mais acordar ao lado dele. No dia seguinte, viajei . Enquanto o motorista organizava minhas malas, Hanna aproximou-se.


— Talvez seja melhor levar mais malas, você bem sabe que imprevistos acontecem frequentemente. Ignorei-a colocando meus óculos espelhados, fingindo não ouvir. Segui do aeroporto diretamente para o hospital. Expliquei ao médico a situação, e tive a visita autorizada. Não reconheci a pessoa deitada na cama, um homem magro, sem cabelos e olhos acinzentados. Notei um sorriso discreto e triste no seu rosto envelhecido. Aproximei-me dele, tocando em sua mão. — Quero que saiba que sinto muito por tudo isso! — Querida, não precisa me dizer isso. Eu tenho certeza! Fui injusto e desonesto, magoei-lhe, deixei você na miséria. — Foi difícil aceitar uma traição tão dolorosa. Pensei em desistir. — Conheço você, jamais faria isso! Um homem magoado e traído por vezes tem atitudes impensadas e imaturas. — Um homem traído? Desculpe, do que você está falando? — Refiro-me ao seu relacionamento amoroso com o Patrik. Fiquei enfurecido quando descobri, fui um idiota patético. Não contive meu ódio, quis fazer você sofrer. — Isso é ridículo, eu e Patrik somos amigos de infância, de onde você tirou essa ideia absurda? — Emilly confirmou minhas desconfianças, apresentou provas convincentes. Durante minha ausência, os encontros aconteciam. Emilly me entregou fotos comprometedoras. Foi quando nos aproximamos um do outro. — Não sei o que Emilly lhe contou ou sobre essas tais fotos comprometedoras. Mas, por Deus, jamais tive amante. — Isso é verdade? — Sim, estou dizendo a verdade. Durante suas viagens e sua ausência, estive sempre junto de Emilly. Patrik é um velho amigo, nada mais que isso. —Perdoe-me, Anita. Fui um tolo, acreditando em tudo que me foi falado por Emilly. Nos últimos tempos, descobri muitas mentiras. Prometa-me que ficará longe dela? Emilly é perigosa! — Acabou, essa história chegou ao fim. Não vamos nos culpar, tudo vai ficar bem. Fiquei estarrecida com a revelação, não insisti em saber os detalhes. John estava morrendo, não queria deixá-lo ainda mais angustiado. O passado de desencontros não era importante naquele momento. Tudo foi armação da Emilly. Mas por quê? Para ficar com o meu dinheiro? Ou por amor a John? Ela simulou uma traição que nunca existiu, implantou fotos falsas, depois se aproximou de John, instigando seu orgulho e ciúmes. Durante todos aqueles anos, eu odiei a pessoa errada. John e eu fomos fantoches, bonecos de trapo, nas mãos de uma manipuladora mentirosa. Não que ele não tivesse sua parcela de culpa. Mas ambos fomos enganados. Dois dias depois de minha visita ao hospital, John faleceu. Foi me enviado o cartão para o funeral. Mozah ainda estava viajando, minha presença na casa era desnecessária. Deixei um recado com a secretária, explicando o motivo da minha permanência prolongada em Amsterdam. Contei a Frederico sobre os detalhes dos últimos acontecimentos, implorei-lhe ajuda sigilosa em relação a meu divórcio. Depois de tudo resolvido, retornaria ao meu antigo trabalho na empresa


junto a Frederico. Por vezes, Frederico me assustava com suas premonições. Lembro-me de ouvi-lo dizer: — Chérie, você corre perigo. Mozah é um homem muito vingativo, despertar o ódio dele será o mesmo que assinar a sua sentença de morte. Você não estará segura, nem mesmo no inferno. — Ah, Frederico, por favor. Você continua assistindo a filmes violentos de gangster? — Isso não é verdade — continuou ele — jamais assisto a filmes com conteúdos violentos. Estou tentando abrir seus olhos, mesmo com o divórcio em mãos, não subestime Mozah. E se ele decidir assassinar você? Não crie ilusões, sua morte jamais será motivo suficiente para a rainha Máxima declarar guerra aos Emirados Árabes, já lhe disse isso. Não estou dramatizando, existem milhares de corpos de indigentes enterrados no deserto. — Chega Frederico! Disse-lhe encerrando aquele assunto. Aproveitando minha estadia prolongada, decidi visitar Arthur. Tive receio de procurá-lo. Um impulso me fez chamar um táxi. Pedi ao motorista que estacionasse do outro lado da rua, em frente à cafeteria. Através da vitrine, observei a movimentação. A mãe dele atendia as pessoas às mesas, sorridente. Arthur surgiu logo atrás. Mas ele não estava sozinho. Uma moça alta de cabelos castanhos longos apareceu ao seu lado. Eles sorriam, pareciam conversar algo engraçado. Ficou claro que não existia mais nenhum lugar para mim. Pedi ao motorista que retornasse ao hotel. Frederico e o namorado decidiram morar juntos, por isso, optei por me hospedar num hotel próximo ao centro. Minha vida andava em círculos. Igual a um dèjá vu. Conclusões precipitadas, escolhas erradas, erros repetidos, uma mistura de embaraços. O que mais podia dar errado? A cremação de John aconteceu às 16 horas. Reencontrei alguns conhecidos, inclusive a família de John, todos pareciam envergonhados com os últimos acontecimentos. Emilly estava linda e distante. Dissimulada, cheguei à conclusão de que os óculos escuros eram um disfarce para que as pessoas não percebessem seu olhar frio e a insignificância da morte de John para ela. Durante a doença de John, Emilly manteve-se afastada, deixou-o aos cuidados das enfermeiras. Ao hospital, foi apenas duas vezes. Infeliz. Um Lamborghini preto de vidros escuros estacionou próximo ao local onde aconteciam os preparativos para a cremação. Todos olharam discretamente: Mozah. Deus, eu estava perdida, aquele homem não tinha limites. Notei o interesse de Emilly vendo Mozah aproximar-se e, para meu desespero, Mozah retribuiu o olhar com o mesmo interesse. Esta história não chegou ao final, é o início de uma obsessão.

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Lany van dijk deixada para trás #1 deixada para trás  
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