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Boicote produtos testados em animais e exija das indústrias de abate um tratamento melhor.Não compactue com o sofrimento.

Correção: Arkio Machado Capa: Vagner Penna Autor

: F Feitosa

- Por favor, deixe-me livre. - Não posso, desculpe eu não ser o homem que você sonhou

.

Capítulo 1 Pode um raio cair duas vezes no mesmo lugar? Pois bem, para os céticos que afirmam ser impossível um raio cair duas vezes no mesmo lugar, pasmem: essa é uma possibilidade real. Mas da segunda vez o estrago é muito maior. Eu continuava presa num labirinto escuro, cheio de perigos e lobos selvagens. Metaforicamente falando, claro! Desculpe, irei me explicar melhor. Alguns anos atrás, descobri o romance secreto entre o meu marido John e a minha melhor amiga Emilly. Levando em conta o fato de ser meu marido, vamos chamar o acontecimento de "tragédia". A danada da Emilly não se contentando apenas com John, também decidiu roubar todo o meu dinheiro. E quando digo todo o meu dinheiro, não


estou exagerando. Só me restaram moedas suficientes para pagar um café, num bar de quinta categoria, onde eu pude chorar minhas mágoas. Os patifes me deixaram na miséria. Mas, o mundo dá voltas, e finalmente consegui me reerguer, antes de cair novamente. Em uma viagem de negócios, conheci Mozah, um homem lindo, charmoso, milionário etc. Ele possuía todas essas qualidades maravilhosas que nos saltam à vista, incluindo músculos bem delineados, voz firme e outras coisas mais, suficientes para fazer o universo feminino vibrar, literalmente em todos os sentidos da palavra. Jamais acreditei em contos de fadas, mas, por alguns segundos, imaginei estar vivendo uma história semelhante. Mozah era perfeito, quando o conheci, acreditei que fosse louco por mim, mas depois do nosso casamento descobri que ele era apenas um louco. Foi um choque quando tive de enfrentar sua personalidade possessiva e as suas manias incomuns. Você deve estar se perguntando "Anita, por que você não se divorcia?” Hum...até faria isso se pudesse pagar a multa pela quebra do contrato nupcial. São tantos zeros que só de pensar sinto enxaqueca. Meu casamento foi consumado mediante as leis de Dubai. Sim, meu marido é um sheik. Algumas mulheres vivem verdadeiros contos de fadas ao lado dos seus maridos sheiks bilionários. Infelizmente, não tive esta sorte. Os árabes geralmente são homens respeitosos, ligados à tradição e jamais desfazem seus compromissos ou abandonam suas companheiras. Realmente, não sei o que acontece comigo, às vezes desconfio de que estou pagando uma dívida de reencarnações passadas. Em consequência disso, fui condenada a viver histórias de amor fracassadas e a vagar solitária pelo resto da minha vida. Quando não sou traída e roubada, sou trancafiada pelo ciúme doentio de um homem que me faz juras de amor e não aceita outro sentimento em troca. Venho tentando, sem muito sucesso, encontrar uma maneira de me divorciar sem precisar pagar a bendita multa cheia de zeros. Simplificando as regras do contrato: se eu pedir o divórcio, pago uma quantia ”xxx”; se o meu marido Mozah pedir o divórcio, eu recebo uma quantia "x". A segunda opção está fora de cogitação. Mozah jamais permitira minha partida. Prefere me ver morta. Como costumava dizer o meu falecido pai: “enquanto há vida, há esperança.” Que Deus o tenha! Até hoje tenho dúvidas se ele era um sonhador visionário ou um otimista sem limites. O que você seria capaz de fazer para fugir do “dono do mundo”? Uma


amigacerto dia me

disse:“Eu mataria o canalha que ousasse me aprisionar”. Pobrezinha, ela havia bebido cinco tequilas e sei lá quantas vodcas. Nem sabia mais o próprio endereço. Achei por bem ignorar o conselho encharcado de álcool. Depois do falecimento do meu ex-marido John — que Deus o tenha também, num lugar bem distante do meu pai! Tenho certeza de que papai o mataria novamente se fosse possível. John foi corroído pelo câncer, mas para saber mais sobre esta história, você terá de ler o meu primeiro desabafo no livro "Deixada para trás" —, depois do funeral de Jhon, os dias tornaram-se ainda mais sombrios. Mozah desejava se vingar, pelo fato de eu não amá-lo mais. E com quem ele decidiu flertar? Com a caça-níqueis da Emilly, amante do meu ex-marido. Dono de um caráter vulnerável e extremamente impetuoso, Mozah jamais admitiria ser deixado para trás. Emilly, por outro lado, adorava o luxo e a boa vida.

Observei seus olhares se cruzarem, e soube que tempestades de areias se aproximavam. A vigarista da Emilly flertava com Mozah ao mesmo tempo em que fingia chorar sobre ocaixão de John .

— Mozah, o que você está fazendo aqui ? — indaguei apreensiva. — Ora, eu não a deixaria sozinha em um momento triste como esteminha querida . Mentira! Ele estava lá, para me controlar . — Imaginei que estivesse viajando... — Sim, mas cancelei todos os compromissos para estar ao seu lado. Ele farejava meus paços como um lobo faminto. Já nem sabia mais em quem confiar, até mesmos os advogados compactuavam com a teia de manipulação tecida por ele. Todos têm um preço, e Mozah não se importava em pagar. — Aquela bela jovem senhora é a viúva de John? — perguntou-me, fitando Emilly. —Sim! — Irei cumprimentá-la, prestar meus sentimentos. Durante longos minutos eles conversaram discretamente. Foi a manifestação de pêsames mais demorada que presenciei em minha vida. Francamente, ela nem estava tão triste assim. Vestida naquele vestidinho preto justo, deixando o corpo bonito e cheio de curvas à mostra. Isso me fez lembrar minha dieta interrompida, engordei alguns quilos devido ao estresse dos últimos tempos. Engraçado... olhando à distancia, eles não pareciam conversar sobre assuntos tristes, muito pelo contrário, os sorrisos discretos se tornaram cada vez mais indiscretos. — Você demorou! — Está com ciúmes, Anita? — Certamente que não! Só não confio na Emilly. — Ela também não confia em você. — O que você quer dizer?


— Nada, minha querida. Os pais de John se aproximaram, e eu tive de confortá-los .

Depois da cerimônia, retornei ao hotel, e apressadamente organizei minhas malas. Mozah não permitiu minha estadia prolongada em Amsterdam. Retornamos a Dubai, no voo noturno. Felizmente tive tempo de contactar um novo advogado, Frank Milli, um viciado em cassinos. Vestia sempre o mesmo paletó, pois fora o único bem que não se desfizera nas mesas de apostas. Ninguém ousava contratá-lo, mas, Frank Milli precisava do dinheiro, e eu precisava do Frank Milli. Um homem endividado costuma fazer negócios perigosos. — Engraçado, quando a vejo partir, imagino jamais revê-la — disse-me Hanna, quando retornei a casa em Dubai. — Você já me disse isso, querida tente encontrar novas frases sarcásticas, assim não vai se tornar uma chata repetitiva. — Nós sabemos que qualquer dia desses, eu acerto — ironizou ela, afastando-se e deixando o ambiente impregnado por seu perfume doce. Despertei às oito horas da manhã, sozinha. Mozah havia saído para o trabalho enquanto Hanna rondava a casa sorrateira como uma serpente. Pedi ao motorista, Ademir, para me levar ao centro comercial. Tive a brilhante ideia de negociar ouro e joias com as sombras do dinheiro das minhas despesas diárias. Precisava economizar, para um futuro incerto. Não era muito, pois Mozah jamais permitiria eu me apresentar de forma inferior a das outrs mulheres. Como se alguém se importasse comigo naquele universo de lenços pretos. No conceito das mulheres árabes eu era apenas uma estrangeira aventureira e sem modos. Lembrei-me então da executiva holandesa, da qual Frederico, meu ex- chefe e velho amigo havia falado: ela largara tudo em Amsterdam e fora viver um amor nos Emirados Árabes. Podíamos ser amigas, quem sebe? Tentei entrar em contato via e-mail, pois não sabia seu número de telefone. Valentina era o seu nome, ela residia em Dubai há vários anos, conhecia os costumes e as regras; se eu tivesse sorte, talvez pudesse me ajudar em algumas questões. Provavelmente entenderia a minha situação. Passei a me refugiar com frequência na casa do deserto, a qual batizei de "oásis". Me sentia segura lá. Pelo menos, não precisaria encontrar Hanna ou o castigador pelos corredores. Nem sei dizer qual dos dois eu temia mais. As feridas nas minhas costas


causadas pelas chicotadas se tornaram cicatrizes profundas no corpo e na alma. Deixe-me esclarecer quem é o “castigador": Mozah jamais me tocou de forma brusca. Mas, o castigador sim. Um senhor de meia idade, de poucos sorrisos e nenhum amigo. Vivia exclusivamente incumbido de cumprir as ordens e caprichos de Mozah, executava o “trabalho sujo". Desconfiei de que, no fundo, ele sentia um prazer mórbido em torturar suas vitimas, no caso, eu. Aquele homem mataria se Mozah o ordenasse. Um belo dia, Mozah sofreu um ataque de ciúmes fulminante, e eu paguei o preço por aquela loucura sem sentido. Apesar de ser uma casa no meio do deserto, o oásis possuía uma arquitetura moderna. Tecidos brancos foram pendurados ao redor , no intuito de fazer sombra e amenizar o calor. Não existia nada em volta além de areia. Ironicamente, combinava com a minha vida, reduzida a pó. Vez ou outra, algum viajante atravessava o deserto fazendo uma parada rápida para pedir água. Fátima e Samir moravam na propriedade, cuidavam de toda a organização. Quando as tempestades de areia eram anunciadas, os lençóis brancos tinham de ser retirados, evitando que os ventos fortes os levassem. No trajeto entre a casa em Dubai e o oásis no deserto, eu costumava aproveitar a oportunidade e telefonar para Frederico. Não era possível driblar o motorista sempre. Mozah continuava viajando meus paços, de forma obcecada e tempestiva. Apesar de os caseiros serem pessoas discretas, precisavam relatar todos os acontecimentos a Mozah. Isso não me chateava, eles temiam sua ira, assim como eu. Numa noite quente de calor insuportável, ouvimos no radio sobre o perigo de uma possível tempestade de areia, Ademir conhecia bem o deserto e achou melhor não se aventurar, retornando à casa naquela noite . Nós nunca conversávamos, não é que eu não quisesse, Ademir era um rapaz simpático. Mas, como todos os outros, ele também temia o comportamento imprevisível do seu patrão. Deixei um recado com a secretaria, avisando da minha permanência no oásis. O deserto não é o lugar mais seguro do mundo, as tempestades são vorazes. Depois do jantar me recolhi ao quarto, todas as janelas e portas foram trancadas e reforçadas com estacas de madeira na parte interior, devido à força incontrolável dos ventos. As tempestades são assustadoras, não apenas pelo poder de destruição, mas pelos uivos trazidos pelos ventos. Algumas vezes, jurei ouvir sussurros e gritos. A ventania forte iniciou antes das dezoito horas da noite, minutos depois, tive a nítida sensação de ouvir o ronco de um motor.


Ninguém seria louco o suficiente de se arriscar naquela tempestade. No decorrer , escutei passos apressados e vozes apreensivas. Vesti a minha camisola, e fui em direção à porta principal, tentando descobrir o que estava acontecendo . Vi o caseiro correndo, segurando uma lanterna. Era Mozah , dirigindo um carro 4x4; ele atravessou a tempestade. Era um louco, louquinho mesmo, precisava realmente de terapia ou um internamento intensivo em algum manicômio. — O que aconteceu? — indaguei. — Nada! — Por que se arriscou atravessando essa tempestade? — Para estar com você! Como se isso fosse verdade! Mozah era um homem inteligente, sabia sempre o que dizer e como dizer. Um jogador, vivendo no limite, testando suas próprias limitações na arte de amar e manipular. — Quis ter a certeza de que estava tudo bem – explicou - preciso tomar um banho, estou coberto de poeira. Ele retirou a camisa, deixando a mostra os músculos bem delineados e uma pele bronzeada. Um bronzeado recente, sem dúvida nenhuma. Talvez tivesse ido velejar durante o final de semana ’’ deduzi ”. Eu não gostava de fazer perguntas e nem ele de respondê-las. Será que fora sozinho, ou acompanhado? Senti o ciúme me corroer. Por outro lado, se Mozah encontrasse outra paixão, esqueceria a obsessão doentia que sentia por mim. Não se pode chamar de amor uma relação onde perdemos a nossa própria identidade em beneficio da satisfação do outro. Era um jogo de sedução: ele se encantava, se cansava, e, por ultimo, descartava. Simples assim. A tempestade ficara ainda mais densa. Encolhi-me em cima da cama igual a uma criança assustada. Parecia mais o fim do mundo, tive o pressentimento de que o teto desmoronaria sobre a minha cabeça. Impossível dormir ouvindo aqueles ruídos agudos, semelhantes a apelos tristes. O trinco da porta girou devagaratrás de mim. Era ele. Senti seus beijos quentes em meus ombros e suas mãos acariciarem minhas costas. Não consigo distinguir a sensação predominante naquele momento, se o medo ou desejo... Ainda podia ouvir o sons das chicotadas rasgando a minha carne. — Cometi erros, mas estou disposto a reparar todos eles - sussurrou. No íntimo, desejei acreditar. Mas, conhecia Mozah, ele não tinha limites, nem para o amor, nem para o ódio. Queria odiá-lo, mas o meu coração


traidor ainda não permitia. Não fizemos mais amor depois da noite infeliz em que fui surrada. As visitas ao meu quarto continuaram limitadas a carícias e nada mais. Mozah fervia em orgulho, jamais faria amor com uma mulher se ela não o desejasse de verdade. — Anita, enquanto eu viver, irei protegê-la de todo o mal. Contive o desejo de sorrir. — E quem vai me proteger do teu ciúme Mozah? Não sou nenhuma chata reclamona, mas desconfio, se fez uma vez, certamente fará novamente. É como aquela velha história do bate e assopra. — Já pedi mil perdões, o que mais quer de mim? — Assine o divórcio ! —Tudo, menos isso. Não saberei viver sem te. Com o passar do tempo, você vai aprender a me amar. Sou paciente, sei esperar. Ele permaneceu ali, deitado ao meu lado. Definitivamente seria uma boa ideia escrever um diário ! Nada comparado ao diário da Anne Frank, uma garotinha de doze anos que teve seus sonhos destroçados pela barbaridade da guerra. Seria um desabafo, uma tentativa de não me perder no meio de toda daquela loucura.

Conhecendo Valentina

V alentina me enviou um e-mail em resposta, convidando-me para ir até a sua casa beber um chá ao final da tarde. Aceitei imediatamente. Surpreendi-me com o tamanho da casa: gigantesca, projetada de forma moderna e pouco comum. Ela foi me receber no portão de entrada, dirigindo seu carrinho de golfe. Graças a Deus, não precisaria caminhar quilômetros naquele calor intenso. Ademir reconheceu o porteiro da casa, certamente eram amigos. Optei por deixá-los conversando tranquilamente na entrada. Queria o máximo de


privacidade possível, ainda não sabia se podia ou não confiar em Valentina. Mas, precisava descobrir depressa. Uma palavra para definir Valentina: espetacular, com seus olhos de cor azul turquesa. E silhuetas semelhantes às esculturas da Grécia antiga. Não me refiro apenas à beleza, pois costumo enxergar mais além. De traços marcantes, gestos suaves e olhar penetrante . Ao entrar na casa, esforcei-me para não deixar meu queixo cair ou mesmo babar, esse tipo de coisa quando nos encontramos perplexos diante de algo. A mobília branca tornava a claridade do dia ainda mais intensa. O piso de mármore, também na cor branca, reluzia os raios de sol, através das cortinas espessas. Senti-me no Olimpo. O cortinado possuía um tom prateado envelhecido . Alguns objetos se sobressaiam no meio da brancura, como a espada samurai originalmente antiga pendurada na parede. Os quadros, ao contrário da mobília, destacavam-se com suas cores vivas e vibrantes. Chegou-me ao nariz um aroma agradável de rosas, havia vários vasos espalhados pela casa. Valentina caminhava descalça, vestida numa calça bege, e uma blusa fina de cetim branco. — Vem, fofinha, vamos beber o nosso chá longe desses olhares curiosos — ela se referia à mulher escondida atrás da coluna de mármore. Não consegui ver seu rosto, estava envolto em tecidos coloridos. Segui Valentina até chegarmos num local exótico, simplesmente fabuloso, a réplica de uma floresta. — Ah, Deus! Que lugar fabuloso, cheio de plantas raras! Pensei em voz alta. — Obrigada! Foi projetado por mim . Diga-me, fofinha, como anda sua vida aqui nos Emirados? — Estou me adaptando. — Entendo! Não gosto de mentir, mas não seria sensato revelar minhas intenções antes de conhecer Valentina. Afinal, o meu pescoço estava em jogo. — Está tudo bem. Muito bem ! — assegurei-lhe. — Tenho certeza que sim, Mozah é um peixe difícil de se fisgar. Andei interessada nele antes de casar com o meu querido marido Omar, mas a


recíproca infelizmente não foi mútua. Provavelmente ele deve se sentir atraído por mulheres assim, iguais a você, quero dizer, com mais carne cobrindo os ossos. “Carne cobrindo os ossos”, ela estava me chamando de gorda? Ora, vejam só: costumo me cuidar, admito ter exagerado um pouquinho, uns dez quilos extras, talvez. Como já expliquei, o estresse me abriu o apetite. — Fui rejeitada - continuou- coitadinho, não sabe o que perdeu. Mas, você me parece interessante, foi uma boa escolha. Mozah é mesmo um tipo indecifrável! — ela falava naturalmente, como quem diz: vou pedir uma pizza para o jantar. — Mas, diga-me, fofinha, o que a trouxe aqui? — a insistência em me chamar de fofinha começava a irritar. — Na verdade, Frederico me falou sobre você. Fiquei curiosa, pensei que pudéssemos nos conhecer melhor. As mulheres me evitam ao máximo, sinto-me portadora de uma doença contagiosa. Ela sorriu, mostrando seus dentesperfeitos e alinhados.

— Não se importe com isso. As pessoas tendem a temer o desconhecido. Somos estrangeiras, possuímos hábitos diferentes. Você já conhece os costumes? — Apenas alguns. — Hum, sei... Se gosta de praias, saiba que só podemos nos banhar no mar vestidas com roupas longas? — Honestamente, não sabia disso. — Pois sim, o meu querido marido Omar, apesar de ser um homem árabe, respeita meus costumes e cultura. Posso até fazer top less, em locais permitidos, óbvio. — O fato de ele aceitar nossos costumes é fabuloso. — Sim! Mas, existem limites. Não se esqueça fofinha, o adultério pode custar uma chuva de pedras sobre a sua cabeça. Sinceramente, prefiro uma chuva com pedras de diamantes bem lapidados. — Pelo que vejo, você partilha uma união estável. — Sim, claro. Amo o meu querido marido Omar, sou tratada como uma rainha, despertada com beijinhos e uma bandeja com xícaras banhadas a ouro, sem


mencionar a rosa vermelha sobre o meu travesseiro. Ah, ela era louquinha. Senti-me constrangida em perguntar sobre a intimidade dos árabes, mas minha curiosidade foi maior. — O fato de o seu querido marido ser casado com mais duas mulheres não a incomoda? Digo, você não se sente enciumada? — Oh, sim, você está se referindo aos dois vultos escondidos pela casa ? Felizmente nunca me dirigiram a palavra ! Não tenho tempo, nem paciência para joguinhos do tipo “eu sou a preferida e blá, blá”. Aqui, tudo é democrático, ganhamos todas as mesmas joias e a mesma atenção. A única vantagem é o fato de eu poder viajar mais. Meu querido Omar não se importa. Quando ele está ausente, zarpo rumo às praias do Caribe. E se o tédio me ronda, entro a bordo do meu jatinho e ganho os céus . Por acaso percebeu o meu bronzeado dourado? — Sim, é lindo. — Fofinha, ouvi rumores relacionados a você e Mozah. Não quero ser intrometida. Desculpe, longe de mim, mas infelizmente sou uma pessoa bastante curiosa. Você sabe, trabalhei na bolsa de valores, jamais perco uma oportunidade de especular. Não vejo você nas festas nem nos lugares públicos. Por isso cheguei à conclusão de que talvez ele se sinta inciumado. É isso? Mozah já a machucou? Disfarcei com um sorriso forçado, ela podia ser louca, mas era uma louca muito esperta. Senti vontade de desabafar: “ele jamais me tocou, mas ordenou que o castigador executasse o seu desejo ”. Contive-me, respondendo apenas: “Mozah é um homem encantador”. Não era totalmente uma mentira, achei seguro manter os detalhes sórdidos em segredo. — Jamais esperei outra atitude vinda dele. É um homem muito respeitado e admirado pelos oponentes, e também conhecido pela longa fila de mulheres, digo, admiradoras. Não deixe esse bonitão escapar, fofinha! — disse ela sorrindo, enquanto acendia seu cigarro. Uma jovem moça aproximou-se de nós trazendo consigo uma bandeja e um bule de chá de aroma agradável. — Senhora Valentina, aqui está seu chá. — Obrigada, queridinha. Pode deixar, eu mesma servirei à minha convidada. — Claro! – concordou a moça.


— Jamais se engane com esses sorrisos. Elas são mulheres bonitas, jovens, e homens como os nossos dariam um belo banquete em suas camas. — Tenho certeza disso, afirmei. — Mas, diga-me, você ama Mozah? Meu Deus, ela não tinha limites, perguntava tudo o que lhe vinha à cabeça. — Como não amá-lo? Foi uma resposta curta, na tentativa inútil de fazê-la parar de bisbilhotar. Não é que Valentina não fosse uma pessoa gentil, até me parecia uma boa pessoa. Mas, na minha situação difícil, melhor falar pouco ou quase nada. — Frederico me falou sobre a sua carreira promissora e bem sucedida em Amsterdam. Valentina descruzou suas pernas longas, aproximando-se de mim, e exagerando no sussurro, perguntou: — Quem é Frederico? — É o diretor da multinacional THE BEST VAN DE WERELD, em Rotterdam. — Hum! Ela riu-se .Imaginei que fosse algum ex, você sabe..... O meu passado está esquecido e enterrado. Lembro-me dele. Um rapaz de estatura mediana, com os cabelos encharcados de gel e roupas extravagantes. — Sim, é ele mesmo. — Um bom rapaz, pena possuir tanto mau gosto. Deve ter sofrido algum trauma durante infância. A propósito, a executiva mais bem sucedida de Amsterdam é apenas um título. Status não enche barriga, nem paga conta. Amo o luxo, meu marido sabe disso, todos sabem disso. Não pense que sou alguma oportunista dissimulada. Aproveito as oportunidades, mas jamais me escondo atrás de máscaras, meus gostos são explícitos. Amo o brilho dos diamantes e o peso do ouro. Que culpa tenho eu, de me sentir atraída pelo brilho das joias? — Nenhuma culpa! — concordei com ela, sempre li nas revistas, a frase: “ não discuta com os loucos, eles estão sempre certos, diz o ditado popular ”. — Você é feliz, então? — ela semicerrou os olhos azul turquesa. — Felicidade é uma palavra repleta de significados. Cada um de nós tem uma percepção diferenciada da felicidade. O que a faz feliz pode não me agradar e vise versa. Vivemos em tempos de Xerox: as pessoas simplesmente


copiam a vida das outras. Se uma nova marca é anunciada, e o seu vizinho comprou, você certamente vai tentar imitar. Dessa forma, as pessoas vão deixando de serem felizes, na tentativa frustrada de imitar a felicidade alheia. Sou feliz com a vida que escolhi, não me importo, sei o que quero, não preciso de espelhos externos. Mas, como disse anteriormente, o meu conceito de felicidade é diferente do seu. E você, Anita, se sente feliz, com as escolhas? Aquela mente seria um banquete magnífico para os estudos de Freud, o pai da psicanálise. Ela me fez lembrar-me de Frederico. Seriam irmãos? Tão idênticos! Cheguei à conclusão de que existe um universo paralelo, povoado de Fredericos e Valentinas. Pessoas inteligentes, extremamente sensíveis e desconectadas do restante do mundo. — Sim, sou feliz com as minhas escolhas- afirmei. — Espero que isso seja verdade, fofinha. Gostei de você! Irei a Londres na próxima semana, se quiser vir junto, será um prazer. Conversamos durante horas, Valentina era magnífica. Um pouco melodramática e cinematográfica, mas me pareceu uma mulher de bom coração. Retornei a casa antes do jantar. Felizmente Hanna retirou-se após servir a nossa refeição. — Fui à casa de Valentina esta tarde — confessei a Mozah, como se ele não soubesse de todos os meus passos. — Não a conheço muito bem, mas sou um dos colaboradores na empresa do Omar, um homem íntegro e honesto. Fico feliz que faças amizades. Anita, sinto saudades suas. Gostaria de poder ficar mais tempo contigo. O que achas de viajarmos? Hum, sei. Provavelmente ele pensava em se deliciar entre as minhas pernas. Uma briga cerrada se fez dentro de mim, de um lado o desejo arrebatador, do outro a lembrança da dor causada pelas chibatadas. Se eu cedesse naquela noite, ele venceria, seria consagrado o meu dono e senhor. Conhecia bem os caprichos de Mozah. Ele jamais violentaria a minha vontade. Seria uma desgraça ser rejeitado a ponto de cometer um abuso grotesco. — Ainda não estou preparada, Mozah. — O que tu queres que eu faça, Anita? Diga-me! Já tentei de todas as formas desfazer o mal-entendido, e continuo recebendo o teu desprezo silencioso.


Pedi perdão, deixei-te livre, não te nego nada. O que mais tu queres de mim? — O divórcio! Deixe-me livre para que eu possa escolher ficar ou partir. — Se eu concordar com o divórcio, tu vais embora para sempre. Ainda não aprede a viver sem você. — Você pode desfrutar do amor de qualquer mulher. Por que continuar preso a mim, nos escombros de uma relação adoecida? — Não existe ninguém mais, além de você. — Posso me recolher aos meus aposentos? — Faça como quiseres.

Levantei-me calmamente, indo em direção à porta, sem olhar para trás. Tornara-se difícil prever os acontecimentos. Não tinha ideia de até onde Mozah aguentaria honrar a sua promessa de jamais me tocar sem o meu consentimento. Meu destino estaria selado para sempre se eu fizesse amor com ele mais uma vez. O divórcio seria um sonho distante. E ele trataria de me manter presa para sempre naquela cadeia de loucuras e obsessão. Decidi ler um bom livro enquanto esperava o sono me levar embora para a terra dos sonhos, onde eu poderia descansar minha alma. Mesmo vivendo dias difíceis, tentei manter o humor e a esperança. Persistia tentandonão me deixar abater pelas sombras negras e negativas daqueles que me rodeavam. Por volta da meia noite, senti meu coração disparar, podia escutar as batidas irregulares. O lençol da cama foi afastado cuidadosamente. Senti o calor do corpo dele ao lado do meu, ele estava no limite do desejo, eu, no limite da loucura. Uma onda de calor percorreu minha pele, enquanto as dúvidas visitavam meus pensamentos. Sabia da inconstância do seu humor, quando contrariado se transformava num homem impiedoso, sem limites, sem fronteiras. O temor tornou-se maior do que o arder do meu desejo. A nudez dele me instigava. Continuei imóvel, em silêncio. Senti seus beijos quentes cobrirem meu pescoço; lambidas, mordiscadas e todas aquelas coisas mais, capazes de arrepiar os pelinhos do corpo de uma mulher.


Mesmo assim, não cedi. Ah, Deus, não foi fácil. Meu corpo implorava carícias . Por um instante, imaginei afastar as penas e me deixar navegar naquele mar de prazer. Ouvi sua voz rouca sussurrar meu nome enquanto me acariciava. Senti o corpo dele tremer ao final de toda aquela explosão. — Anita —sussurrou, numa voz ainda rouca —, estou tentando ser compreensivo, mas a minha paciência tem limites. Quando confrontado, revelava sempre o seu verdadeiro caráter controlador. Não houve mudança alguma, continuava sendo o mesmo egoísta de sempre. Ouvi a porta bater, e pude finalmente respirar sem medo. Dois dias depois Valentina telefonou , insistindo para que fôssemos juntas a Londres. Apesar de ela ter modos pouco convencionais, eu gostava de sua companhia extrovertida. Encontrarmo-nos em um bar, onde a temperatura interna variava entre zero e dez graus abaixo de zero. Os bancos eram moldados em pedras de gelo, provocando uma sensação de frio no traseiro. Antes de adentrar, os visitantes tinham de vestir os casacos disponibilizados à clientela. Lá fora: Dubai, 45 graus; dentro do bar: estilo Polo Norte, cinco graus abaixo de zero. Valentina se agasalhou num casaco branco, tipo esquimó. Imitei a anfitriã. Vesti um casaco verde, pesado, senti-me em casa, no inverno europeu. — Então, vamos a Londres ou você tem outros planos? – quis saber ela. --- Ah, sim, deixe-me ver. Tenho um horário livre das oito da manhã às dezoito horas da noite — risos. — Entendo! — observou — No início foi difícil me acostumar. Não que eu fosse obcecada pelo meu trabalho. Admito ter achado esquisito o fato de encerrar minha carreira. Mas, não se pode ter tudo nessa vida. Com o tempo, vai se habituar. Ajudarei você. Não sei explicar, mas acreditava nela. Valentina tinha os olhos mais bonitos que eu já vira. Se a esperança tivesse uma cor, certamente seria aquela. — Diga-me, você e seu marido costumam viajar frequentemente? — Sim! Mas, você sabe, são homens de negócio, não é sempre que podemos desfrutar dos braços aconchegantes dos nossos amados maridos. — Você não tem, você sabe, ciúmes? — perguntei novamente. — Não, jamais fui de gritar emoções ao vento. Sou uma mulher prática —


disse-me, levantando a sobrancelha e sorrindo, enquanto bebia o líquido azul dentro da taça coberta por fumaça branca. Retornando a casa, ponderei sobre a proposta de irmos juntas a Londres, por que não? Seria, no mínimo, mais agradável que cruzar com a Hanna pelos corredores. Comuniquei sobre a viajem dois dias depois. Mozah estava demasiado atarefado, ganhando dinheiro para banhar mais objetos em ouro. Não entendo porque executivos e empresários investem todo o tempo de suas vidas comprando um patrimônio que provavelmente nem terão tempo de desfrutar. Quase tive um ataque cardíaco quando ouvi Mozah dizer: — Anita, quero um herdeiro! Anunciou ele durante o jantar. Engasguei-me com o vinho, demorei alguns segundos reavaliando a frase. Afinal, um filho não é um objeto. Tipo:“preciso de um paletó, ou de um novo relógio”. — Por que me diz isto? — Não se faça de desentendida. Você sabe muito bem, preciso dar continuidade ao nome da família. Além do mais, sou um homem, tenho minhas necessidades carnais. “Necessidades carnais”, segurei o riso. Ele deve ter ouvido essa expressão antiquada do pai, quando era criança. Sabia que esse dia chegaria, só não imaginei que fosse tão rápido. — Então, vai me possuir contra a minha vontade? — Seu sarcasmo é infundado, não violento mulheres. Devia saber bem disso. Jamais toquei em uma mulher sem que a mesma o permitisse. Por alguns segundos estúpidos, imaginei Mozah assinando o divórcio. Mas, logo percebi o engano. — E o que pretende fazer? — questionei. — Casar-me novamente. Senti o chão sumir debaixo dos meus pés. — O quê? Não aceito bigamia! — Não seja hipócrita — disse numa voz alterada —, sou um homem a quem você despreza todos os dias. Estou cansado de ser rejeitado. Cometi o erro de te punir, mas não estou disposto a continuar o resto da minha vida insistindo no teu perdão.


— Assine, então, o bendito divórcio; depois, case-se com Hanna. Aproveite a oportunidade, e vá junto dela para o quinto dos infernos ! Sei muito bem que ela andou aquecendo a sua cama ! — Jamais dormi com Hanna depois do nosso compromisso. — Mentiroso, patife! — Cale-se! — Por quê? O que acontece se não calar, vai mandar me chicotear novamente? Dane-se, você e esse velho sádico safado. Torturador de animais e mulheres indefesas. Covardes pervertidos! — Retire-se agora, Anita. Antes que eu perca a paciência. Puxei a toalha da mesa, jogando toda a prataria pelo chão. Hanna escutava atrás da porta, e quase se estatelou no chão tentando ouvir a briga. — Ele é todo seu Hanna. Lambuzem-se na lama. Tranquei a porta do quarto, joguei-me na cama, abafando minha raiva no travesseiro. Se ele pretendia casar-se com Hanna e ter filhos. Por que continuar me mantendo prisioneira naquele inferno?

A proposta

N a manhã seguinte, a casa se encontrava envolvida em um silêncio mordaz. Não havia ninguém espreitando pelos corredores. “Hanna morreu?”, sorri comigo mesma, “maldade”. Provavelmente ela viveria longos anos, pessoas más vivem bastante, até pagarem todos os seus débitos. Hanna teria de viver uns mil anos caso essa hipótese fosse verdadeira. Certamente estava ocupada, cuidando dos preparativos do seu casamento. O maravilhoso silêncio, foi interrompido pelo “trimtrim” do telefone escandaloso. — Olá, senhora Anita! Como está? — reconheci imediatamente a voz da secretária.


— Estou bem, obrigada! — O senhor Mozah deseja que a senhora esteja pronta pontualmente às dezoito horas, é um compromisso importante e inadiável. O senhor Mozah deseja isso, o senhor Mozah deseja aquilo. Como se eu tivesse outra escolha! Agradeci à moça. Não fora avisada de nenhum compromisso. Lembrei-me de ter exagerado nos xingamentos na noite anterior. Tudo estava tão silencioso e tranquilo! Isso era um péssimo sinal. Lembreime, então: Mozah havia comunicado sobre o casamento, mas não revelara a data. Seria naquela noite? O dia transcorreu sem novidades e sem a desagradável presença de Hanna. Escolhi um vestido digno de uma rainha. Caso planejassem me execrar e humilhar em público, pelo menos eu estaria com uma ótima aparência. Derramei algumas lágrimas, resmunguei algumas dores. Pontualmente, na hora combinada, eu estava de pé na escadaria, vestida num vestido longo, de cor verde escura, ombros e braços cobertos por um tecido de falsa transparência, cheio de flores salientes e pedrarias. Entrei no carro tão feliz quanto alguém indo a um funeral. Meu Deus, e se ele estivesse planejando me matar e enterrar o meu corpinho no deserto? Fiquei imóvel. Talvez devesse voltar e telefonar avisando Frederico. Mas, de que adiantaria? Eu precisava enfrentar sozinha. Durante o trajeto, imaginei o que me aguardava nas areias do deserto. Tão bela eu estava, vestida naquele vestido maravilhoso! Nunca tive filhos, nem adotei nenhuma criança necessitada de amor. Não participei de nenhuma instituição de caridade, nem mesmo escrevi um livro. Pelo menos plantei uma árvore. “ Deus, por favor não me deixe morrer esta noite igual a uma indigente sem passado”. Chegamos. Ouvi o motor ser desligado. Minhas mãos congelaram em pleno deserto. Ademir abriu a porta do carro em câmara lenta, pareceu durar uma verdadeira eternidade. Avistei uma tenda armada no meio do nada. Igual às dos filmes de época, onde se retratava a beleza do deserto. A lua iluminava magnificamente as areias, naquele universo mágico, criado por Deus. Jamais imaginei existir um lugar tão belo quanto aquele. Antes de


sair do carro, retirei minhas sandálias, desejava sentir a areia com meus pés descalços. A brisa acariciava os meus cabelos, como se possuísse mãos para amar. Caminhei em direção à tenta, sentindo a areia fina debaixo dos meus pés. O vento trouxe-me o cheiro dos lençóis, era jasmim. Aproximei-me cada vez mais. Meus olhos percorriam tudo ao meu redor. O silêncio era o rei. Mozah estava recostado ao lado da tenda, vestido numa calça preta, pés descalços e nada mais. Ele foi ao meu encontro, diminuindo a distância entre nós. Antes de pronunciar uma só palavra, senti suas mãos macias acariciando meus cabelos. O cheiro dele me embriagava como um afrodisíaco feito exclusivamente para mim. Senti os beijos quentes cobrindo os meus ombros e pescoço. Deslizando entre os meus seios, ouvi-o dizer meu nome com a voz rouca: — Anita, você deseja estar comigo? — Sim! Depois me puxou para si, fazendo-me esquecer de tudo, do mundo, só existíamos nós dois. Deitou-me cuidadosamente sobre os lenços macios, acariciou meus seios com a língua em seguida todo o meu corpo. O suor dele se misturou com o meu. A sensação envolvente do calor daqueles beijos e a maciez daquela língua hábil cobrindo meu pescoço, enquanto as mãos passeavam pelo meu corpo, fizeram-me implorar para que ele não parasse nunca mais. Despertei ao lado dele sentindo aquele cheiro inconfundível, capaz de me fazer viajar a dimensões inimagináveis. Por que aquela noite não se tornou eterna? — Anita, querida, o sol já está surgindo. O dia amanheceu, que pena! Desejei continuar ali mais algumas horas ou, quem sabe, mais alguns anos. O vento soprava calmamente, circulando entre os lençóis estendidos ao redor da tenda, o brilho dos raios de sol rapidamente se tornaram intensos, clareando todo o deserto. — Esse lugar é magnifico ! — disse-lhe. — Sim, essas areias escondem os segredos mais antigos da humanidade.


Existem milhares de lendas sobre essa região. — Verdade? Conte-me uma, então. — Seu desejo é uma ordem! — disse ele, acariciando o meu rosto. — Gostei da frase — sorrimos. — Existe uma lenda antiga, contada e recontada há várias gerações. No inicio dos tempos, era o deus dos ventos quem governava todo o planeta: Céu, água,Terra e ar. Soberano, onipotente e impiedoso. Quando contrariado, destruía as plantações dos camponeses, arrancando suas plantas pelas raízes e as levando para, longe. Com seu poder, enviava as nuvens de chuva para regiões distantes, condenando o lugar à seca mais impiedosa experimentada pala terra. Os animais morriam de sede, depois os homens, mulheres e crianças. Tudo se reduzia a cinzas, depois de experimentar sua fúria. Assim, destruía toda a cidade, transformando os moradores em mortosvivos, famintos e sedentos, até que a morte viesse buscá-los definitivamente. Certo dia, o deus decidiu visitar uma aldeia necessitada de cuidados: as árvores estavam morrendo secas, e o lugar precisava da brisa do vento como um elixir reparador. O vento era fiel aos seus súditos, não permitiria um povo que o idolatrava morrer ao relento. Lá chegando, foi tomado pelo amor. Uma mulher lhe roubara o coração. Um amor impossível: entre uma mulher casada, e o deus do vento. Ele tornou-se obcecado, podiam-se ouvir os seus uivos nas noites sombrias , semelhantes a murmúrios e lamentações. Quando sua amada ia se banhar no lago, ele a acompanhava, sem que ela soubesse. Dava voltas no seu cabelo, acariciava sua pele, experimentando o frescor da fragrância exalada do seu corpo . Sentia-se estilhaçado quando ela sorria. Ele era o deus, o dono do mundo, mas de nada adiantava se não podia nem ao menos tocar-lhe a pele. Foi então que tomou a decisão de transforma-se num mortal, desistindo da dádiva de ser eterno. Tudo para estar com ela.

Não importava que fosse apenas o tempo insignificante permitido pela


mortalidade humana. Qualquer sacrifício valeria a pena para amá-la. Depois de invocar as forças da natureza, trocou seus poderes pela simples mortalidade. E assim aconteceu. Transformou-se em um homem de boa aparência, dentes brancos, pele bronzeada, cabelos lisos, escuros. Chegando à aldeia, foi cobiçado pelas mulheres, inclusive as casadas, elas olhavam como se o fossem devorar. Nunca ninguém vira alguém tão belo naquela região. Ancioso, esperou por sua amada, escondido entre as árvores, no caminho para o lago. Quando a viu, foi consumido de grande emoção, sentindo seu coração pulsar acelerado. “Os mortais se sentiam assim, quando estavam apaixonados”, pensou ele. Saindo de trás das árvores, pode revelar sua aparência humana magnífica. “Sabe quem sou?” Ela confusa respondeu: “Não me recordo do senhor”. “Sou o deus do vento, reneguei a minha imortalidade por amor a te ”.Os olhos dela o fitaram com um brilho indecifrável. “O que me diz é verdade?”. “Sim, estou aqui para te amar. De nada me valeria uma eternidade sem te ”.“Transforme-se novamente no deus do vento e vá embora. Não desejo o teu amor sombrio e doente”. “Porque estas a dizer isso?”, indagou, confuso. “Prefiro a morte a ser tua amada”. “Por quê ? Desisti de tudo por te”. “Você tirou tudo de mim ! Destruiu minha aldeia, todos os homens, mulheres e crianças, inclusive meus pais e meus irmãos, todos morreram por tua causa. Condenastes todos nós a morrer lentamente , sem comida nem água , num calor insuportável. Presenciei o sofrimento de todos os outros. Felizmente o pai do meu marido passava por aquelas terras e ouviu os meus soluços. Fui a única sobrevivente da tua chacina macabra. Prefiro morrer a ser tua amada, criatura abominável e doentia”. O vento não suportou aquela rejeição, tudo aquilo acontecera por culpa dele, sempre egoísta e impiedoso. Agora revestido na fragilidade de um corpo humano, podia sentir a dor das criaturas que tanto desprezara. Tomado de solidão, fome, cansaço e sede, chegou a uma decisão definitiva: atirou-se em um abismo. E, assim, nasceu a lenda de que o vento chora.


— Bom, você podia ter contado uma lenda com um final feliz, não acha? — É só uma lenda infantil, para assustar as crianças, e lembrá-las que toda atitude gera consequências. Esqueci-me disso quando magoei você, Anita — continuou —, estou disposto a reconsiderar a ideia de casar-me novamente. Senti meu corpo vibrar . - Por que faria isso? — Podemos retomar nossa história, esquecer-nos de tudo. Deixar o passado enterrado aqui e agora. — Mozah, você é tão inconsistente! Isso me deixa aflita. — Você sente medo , Anita? Quis mentir, mas não foi possível. — Sim — afirmei. Ele se afastou, ficando de pé ao lado do colchão, dardejando o olhar pelas areias. — Por quê? — Não creio que seja uma pergunta difícil de responder. — Já te pedi perdão. — Ainda tenho cicatrizes que me impedem de esquecer os acontecimentos. — Podemos mudar isso, não é verdade? Permaneci em silêncio, sem ter a certeza se podíamos mesmo mudar alguma coisa. Não sou nenhuma ingênua: enquanto as coisas ocorressem de acordo com o desejo dele, tudo estaria bem, mas se algo o contrariasse, a fúria assumia o controle de sua personalidade hostil. Era como a fúria dos titãs. Nada permanecia intacto. Senti o frio da indecisão percorrer minha alma. O que dizer ? Se pedisse para desistir do casamento com Hanna, estaria assinando um pacto irreversível. Jamais poderia partir. Seria condenada pelo resto dos meus dias a um amor inconstante, vivendo debaixo das leis e dos possíveis castigos de Mozah. Castigos humilhantes, capazes de ferir o corpo e a alma. — Não sei o que dizer,Mozah. — Então, não se importa de eu me casar novamente, é isso? — Preciso pensar, ponderar. Ter a certeza de que quero permanecer aqui para sempre . Estou confusa. Pronto, falei, provoquei novamente a fúria do titã. — Você teme a mim, Anita! — exclamou, ofendido.


— Temo seu descontrole, sua falta de respeito de achar que pode tudo, sem medir consequências. — Não vou mais pedir perdão pelo mal entendido, fiz isso inúmeras vezes e nada mudou. Quero saber a sua posição sobre este assunto agora! — Não me agrada a ideia de ver você se casar com outra mulher. — Dispenso respostas vazias. Você não me ama, não é verdade Anita? Permaneci em silêncio. Como amar alguém em quem não confio? Mozah se deliciava testando o meu limite. Tudo ou nada. Anunciou um novo casamento sem o menor constrangimento. Sem, ao menos, consultar-me. Agora, em contra partida, exige que eu o impeça. Se fizer isso, perderei o controle do meu destino, que já não me parece nada entusiasmaste. — Você está disposto a me permitir escolher o meu próprio destino? Assine o divórcio, prove respeitar minhas vontades e o meu direito de decisão. — Caso eu aceite essa imposição, o que pretende fazer, partir ? — Isso você só saberá depois. Ele sorriu, aparentemente cansado de tudo aquilo. — Sei o que está tentando fazer Anita. Lhe aseguro de que não vai funcionar. — É a única maneira . Ou você pretende me manter prisioneira dos seus gostos? — Não fale bobagens, não é minha prisioneira. Recebe o tratamento de uma rainha. — E usufruo da liberdade de uma escrava! — Desejo seu amor. Quando isso acontecer, dar-te-ei o divórcio, será uma mulher livre e rica. Poderá escolher em permanecer ao meu lado mesmo sem os laços matrimoniais. Mas isso só acontecerá, quando eu tiver a certeza de que me ama. — Isso não é amor, Mozah, é orgulho. — Chame do que quiser — disse — afastando-se. Cobri meu rosto com as duas mãos e me deixei cair para trás. Se tivesse concordado o divórcio, provaria sua mudança. O fato de não fazê-lo significava que continuava a ser o mesmo homem orgulhoso, incapaz de aceitar ser contrariado. O motor do carro arrancou, anunciando sua partida brusca. Retornei a


casa, logo mais à tarde com Ademir. Precisava pensar, rever minhas decisões. Sempre temos respostas e fórmulas mágicas capazes de resolver os problemas alheios, mas quando nos deparamos com questões de escolha, estagnamos nas dúvidas.

A dúvida

R etornando a casa, fui comunicada por Hanna da ausência de Mozah. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, Hanna não me parecia uma noiva entusiasmada. Nem mesmo me espezinhou, deixando clara sua vitória. Afinal, ela iria se casar com Mozah, seria a concretização do seu sonho obsessivo. Mas ao invés disso, permanecia em silêncio, atitude incomum vindo dela. Na presença dela, eu me sentia cansada, igual a um esportista depois de percorrer uns 15 quilômetros, sem pausa. Naturalmente, falo no sentido figurado; nos últimos tempos, tornei-me amiga íntima do sedentarismo. Como diria Valentina: “muita carne cobrindo a estrutura óssea”. Aceitei o convite de Valentina, iríamos juntas a Londres. Seria menos doloroso não estar presente durante os preparativos do casamento. Como diz o ditado popular: o que os olhos não veem, o coração não sente. Um pensamento louco me fez estremecer: como seriam as noites depois do casamento? A partir da maldita noite em que fui surrada pelo castigador —, eu havia me distanciado completamente de Mozah, evitando as relações mais íntimas . No deserto, foi a primeira noite juntos depois dos acontecimentos. Sondaria Valentina sobre o assunto, ela sabia como as coisas funcionavam, afinal o seu marido mantinha laços matrimoniais com três mulheres. Saudável o rapaz, cheio de testosteronas alegrinhas. Nós nos encontramos pela manhã, no saguão do aeroporto. Aceitei a proposta de sua hospitalidade. Omar, o querido marido de Valentina, possuía vários imóveis em Londres. Mozah também tinha inúmeras propriedades espalhados pelo mundo, mas jamais me ocorrera a ideia de aproveitá-las para descanso. A casa no deserto tornou-se meu refúgio.


— Olá, Valentina, como está? — Ótima, fofinha, e você? — Feliz por sua companhia. — Oh, não seja tola, você é um amor! Ao desembarcar, seguimos para o hotel localizado próximo ao centro. Uma big cobertura, com direito à piscina térmica e banheira de hidromassagem. E o fato de as paredes terem sido substituídas por vidros espessos, podiase apreciar a vista da cidade enquanto se tomava banho. Nada mau. — Escolha o quarto do seu agrado, fofinha. Sinta-se em casa — disse ela, arrastando sua mala de cor cinza metálico. A cobertura do hotel fora totalmente transformada num caloroso apartamento residencial, privado. Organizei minhas roupas no closet; na sequência, decidimos sair caminhando pelas ruas sem rumo. A temperatura estava baixa, o ar pesado e úmido circulava entre as vielas abarrotadas de turistas. Visitamos algumas galerias, museus, e mais ou menos cinquenta lojas de artigos femininos. Fazíamos intervalos durante a caminhada, afinal precisávamos repor as energias, beber alguma coisa e conversar sobre assuntos de pouca relevância. — Ah, meus pés estão me matando, veja quantas bolhas! — resmungou ela, retirando os sapatos discretamente por debaixo da mesa. — Não consigo entender! Por que calçar sapatos de salto se pretende passear pela cidade? — Sinto-me despida sem meus saltos - confessou --prefiro andar sem roupas no frio. Anita, você é uma mulher interessante, tem um marido milionário, mas não me aparece feliz em puder desfrutar destas regalias. Por favor, não me diga que você acredita na frase: dinheiro não traz felicidade? Em primeiro lugar a saúde, é claro! Em segundo, os tesouros do corpo, que podem ser facilmente encontrados nas lojas de produtos femininos naturais. Não vamos sacrificar os animais pela cor bonita de um batom, não é verdade? Não sou tão má assim. Nada contra a espiritualidade, mas amo ser afligida pelo o vício do consumismo! Definitivamente Valentina vivia num universo paralelo. Especificando a questão: um lugar onde se pode tudo, sem culpa e sem noção. O limite da mente é tão vasto quanto o próprio universo. Pelo menos, ela


tinha a consciência do sofrimento causado aos animais por essas indústrias miseráveis. — Não sou a pessoa mais consumista do mundo. Gosto de conforto, não de ostentação. Desculpe, eu não quis dizer isso. — Quis sim ! Não me importo, é verdade. Gosto de ostentar. Não posso fazer nada, fofinha. O meu corpo adora poder desfrutar de viagens caras, roupas maravilhosas, sentir o peso do ouro e ver o brilho dos diamantes — sorrimos. Maluquinha e extremamente observadora, nada passava despercebido diante daqueles olhos de cor azul-turquesa. Intuitiva ao extremo, não demorou a perceber que algo me incomodava. E como a discrição não era uma de suas virtudes mais perceptíveis, perguntou-me sem rodeio. — Você não está gostando da viajem? --- Sim, claro! Por que pergunta? Ela descruzou as longas pernas bem torneadas e se aproximou, dizendo: — Fofinha, diz-me o motivo do teu incômodo, então? Porque não falar? O casamento de Mozah e Hanna, não seria segredo. Decidi desabafar, chorar e murmurar minhas tristezas, não aguentava mais aquela sensação angustiante. — Mozah pretende se casar novamente. — Entendo, e você está magoada com isso? — Aconteceram coisas desagradáveis. Mesmo assim, sinto um vazio quando ele se afasta. Não acredito no amor de Mozah, embora ele afirme ser verdadeiro. — E porque ele faria juras de um amor que não existe? — Para me dominar, possuir, provar a si mesmo que não existe nada neste mundo impossível de se conquistar. — Hum, não é tão diferente da maioria dos homens com quem me relacionei. Diga-me, quem é a felizarda? Lancei um olhar fulminante na direção dela. — Quero dizer, quem é a oportunista? — Na verdade não é nenhuma oportunista. No fundo ela o ama, à sua maneira. É Hanna, a pessoa responsável pela organização da casa. — A governanta? — Sim — assenti.


— Entendo, tinham um caso. Agora decidiram oficializar a relação. — Sim, acho que é isso. Optei por não dizer os pormenores a Valentina. Mesmo porque, confessar que tive as mãos atadas e fui surrada, me faria sentir novamente humilhada. — E como você descreveria o comportamento de Hanna? — Psicótica, por vezes acreditei ter ingerido substâncias estranhas. Depois de beber o vinho servido por ela, sentia-me completamente dopada, perdendo totalmente a noção do tempo e espaço. Agora sou eu quem providencia a minha própria alimentação. — Oh, Deus! Mozah sabe disso? — Não tenho provas concretas para acusá-la. --- Você terá de enfrentar grandes problemas pela frente, fofinha. Não se deixe abater, vamos encontrar uma saída. Conte comigo — disse ela, piscando o olho azul. Londres é mesmo o paraíso das compras, principalmente quando se trata de uma viciada, maníaca compulsiva por produtos fúteis e inúteis, como Valentina. Comecei a aceitar sua sinceridade escandalosa, e o seu jeito espontâneo de ser. Mas, a verdade tem de prevalecer: jamais andei tanto em toda minha vida. Ela parecia incansável e insaciável. Tudo era lindo e extremamente necessário. Fez-me recordar de Frederico, sempre buscando no externo alguma coisa capaz de preencher o vazio interno. Ultimamente, ele estava sumido, "desaparecido", não dispunha de tempo para conversas ou visitas. Minha intuição dizia que algo acontecia. Uma barreia intransponível foi erguida entre nós dois, não pude ultrapassá-la. Respeitei sua privacidade, evitando insistir. Quatro horas mais tarde, Valentina continuava impecável; diferente mim, completamente arrasada, esgotada. Como meta, decidi não entrar em nenhuma loja pelos próximos dois meses. — Diga-me, fofinha, gostou de fazer compras em Londres? — Comprei um sapato e dois vestidos, estou satisfeita. Ela fez um gesto no canto da boca, semelhante a um sinal de desapontamento. — Você está pálida, vou providenciar um lanche com baixa caloria para nós duas.


— Valentina, gostaria de saber sobre uma questão. — Pergunte, responderei se souber. — Como você lida com as outras mulheres? Digo, como são as noites, os dias? — Você se refere ao sexo? — Sim, afirmei com a cabeça. — Fique tranquila quanto a isso, na casa de um árabe de princípios não existem desavenças, e nenhum tipo de você sabe... Os homens devem honrar o casamento, dormindo com todas as suas esposas. Pense de maneira democrática: hoje eu, amanhã a outra, depois a outra, depois eu novamente. Não suportei, tive de sorrir. — As esposas possuem seus quartos individuais — continuou explicando —, e seus dias específicos para desfrutarem da companhia do seu marido. Jamais um homem deve fugir das obrigações do matrimônio. E quando digo obrigações, estou falando literalmente. Isso significa que Mozah irá dormir junto de Hanna em dias alternados. Acredito que isso seja difícil de você aceitar . — Por que acha isso? — Você ama Mozah, é natural sentir ciúmes. Detive-me a não perguntar mais nada. Só de imaginar Mozah e Hanna fazendo amor tão próximo de mim, bagunçou meus pensamentos.Três dias depois de uma rotina cansativa, retornamos a Dubai. Senti saudades do calor, já estava me habituando. Preparei um banho com ervas relaxantes; como diz Valentina: o meu corpo merece. Depois do banho, decidi ir ao mercado. Pela primeira vez, não esbarrei com Hanna, mas essa alegria desapareceu ao ouvi-la dizer: — Imagino que tenha se divertido bastante. — Sim, foi só afastar você dos meus pensamentos, e a felicidade me sorriu. Engraçado, imaginei que estivesse ocupada com os preparativos do casamento. — Casamento? — indagou, perplexa. Não precisava dizer mais nada. O espanto de Hanna fora verdadeiro. Não seria ela a segunda esposa de Mozah. Disso eu tinha certeza. A pergunta é, quem seria ? — Casamento? — tornou a repetir.


A voz angustiada dela me trouxe de volta ao momento presente. — Esqueça, não é nada importante — disse-lhe, tentando aparentar indiferença.

A descoberta

D urante dois dias fui corroída por uma ansiedade desmedida. Seria um blefe? Queria Mozah instigar o meu ciúme? Conhecer os meus limites? Essa hipótese pairou pela minha cabeça como uma nuvem de fumaça negra. Como de costume, estava eu verificando a correspondência , quando um envelope branco, de tamanho médio e qualidade impecável me chamou a atenção. As bordas haviam sido minuciosamente pinceladas na cor dourada, formando desenhos exóticos e indecifráveis. Embora não entendesse muita coisa do idioma árabe — melhor dizendo, nadinha — principalmente pelo fato incomum de eles escreverem da esquerda para a direita. Olhando com mais atenção, reconheci o nome da empresa. Era uma loja tradicional, fabricava cartões e convites de alto nível. Famosa pelo requinte dos seus trabalhos únicos e pelo preço exorbitante dos serviços prestados. Haveria realmente um casamento. Mas, quem seria a sua escolhida? Tentei arrancar informações do motorista, Ademir. Ninguém melhor do que ele conhecia os lugares frequentados por Mozah. “Sou mesmo idiota”. Obviamente ele não diria nada, todos temiam as mudanças repentinas de Mozah. Telefonei para algumas pessoas, dando desculpas esfarrapadas, na tentativa frustrada de descobrir quem seria a prometida. As mulheres de burca preta definitivamente não estavam nem um pouco interessadas na minha conversa fiada. Se tivessem anunciado a minha morte, certamente elas reagiriam com mais entusiasmo. Só me restava uma alternativa: esperar. Não tardaria a descobrir; minhas indagações seriam respondidas, ainda aquela noite.


Despertei durante a madrugada, escutando vozes vindas do jardim. Ainda sonolenta, levantei-me, indo em direção ao balcão, afastei a cortina, tentando saber quem havia chegado a casa. A iluminação branda dificultava minha visão. Semicerrei os olhos, tentando ver melhor, e finalmente as sombras foram tomando formas. Mozah estava de pé ao lado do carro, com uma das mãos estendidas, esperando alguém sair. Meu coração quase veio à boca quando avistei um par de belas pernas longas saltarem para fora carro. Oh, Deus, estou tendo um pesadelo! Não pode ser verdade. Não é possível. Não novamente. Emilly saiu do carro estonteante. Com os cabelos esvoaçastes, igual aos comerciais de televisão. Linda, mentirosa, falsa e perigosa. Não é nenhum segredo, sabemos que a maioria dos homens repara apenas no primeiro quesito, ignorando completamente os últimos três. Belisqueime, bebi água, lavei o rosto com água fria. Mas, tinha de aceitar a verdade, era real. A caça-níqueis me enganou e me roubou, teve um caso com o meu exmarido, e agora estava ali, em Dubai , nos braços de Mozah. Sem pensar duas vezes, peguei a camisola de seda verde jogada sobre a cadeira ao lado da cama, cobri meu corpo, e desci os degraus da escada freneticamente. Desculpem, prefiro ser sincera: desci a escadaria completamente desesperada. Detive-me, quando me aproximei da entrada.O velho safado, tarado e covarde, abriu a porta para recepcionar a visitante. Pude ver nitidamente a caça-níqueis agarrada no braço de Mozah, como um náufrago se agarra a uma boia salva-vidas. — Mozah, o que significa isso? — perguntei com a voz trêmula. Na verdade, eu queria esbofetear a Emilly, desfazer aquele penteado fabuloso e rasgar seu vestido lindo. — É exatamente o que vê, minha querida. Em dois dias, Emilly será oficialmente minha esposa. — Anita — disse-me Emilly—, é bom vê-la novamente. Demorei alguns segundos tentando me recompor. Arrumei a camisola, passei a mão entre os cabelos, tomei fôlego. — Cale a boca, sua infeliz!


— Anita, controle-se, o que está acontecendo? — repreendeu Mozah, disfarçando o riso cínico. — Mozah, diga o porquê de tudo isso? Eu exijo uma explicação! Por instantes, notei uma tristeza atravessar seu olhar, mas logo foi substituída por um tom irônico na voz. — Foi você quem decidiu, minha querida! — Por que vai se casar com essa oportunista? — Veja como se refere a mim, Anita. Não sou de aguentar desaforos. — Dane-se,infeliz ! Quando vai deixar de me perseguir, de se contentar com as migalhas e sobras? — Mozah me procurou, não é culpa minha se não consegue saciar o desejo dos seus parceiros. Ok, talvez fosse o momento apropriado para esquecer essa história de antiviolência e dar um tapa na cara deslavada da Emilly. Fiz pior. Lembrei-me de um filme antigo. A mocinha fora expulsa de casa, pobrezinha, saiu arrastando uma pequena mala velha cheia de quinquilharias. Mas, com o olhar altivo e sem dizer uma única palavra, cuspiu no chão próximo aos pés de sua rival. Fiz o mesmo. Não foi nenhuma atitude sensata ou adulta, mas teve impacto. Como diz o velho ditado: mais vale um gesto do que mil palavras . Dei de ombros, indo em direção ao quarto. E lá permaneci estarrecida. Nem nos meus piores pesadelos ou devaneios, imaginei coisa parecida. Devo ter sido mesmo uma má pessoa em vidas passadas, não existe outra explicação lógica. Não recordo de nenhuma maldade atribuída a mim nessa vida que justifique um destino sombrio como este. Admito ter esquecido de cumprir algumas promessas, mas não acreditei que fosse ser castigada por isso. Antes mesmo de acordar direito, já estava de pé ao lado da cama . Minha cabeça doía como se os sinos e sirenes tivessem anunciado por toda noite o início de uma guerra. Sentia também dores nas costas, fazendo-me acreditar ter carregado o peso do mundo sobre os meus ombros. Banhei-me, sem pressa, depois vesti um vestido longo, calcei sandálias de salto, dei “um tapa” no visual. Sempre usando produtos naturais, claro. Além


da qualidade e dos benefícios, não são testados em animais. Afinal, a frase "eu gosto de animais" deve incluir vacas, coelhos, ovelhas galinhas e etc. Não se pode salvar cachorros fazendo churrasco de vaca para comemorar, não é verdade? A casa estava envolta num silencio tenebroso, fui à cozinha buscar uma fruta. — Estrangeira! — assuntei-me, largando a maça sem querer. — Por favor, poupe-me das suas ironias, Hanna. Não estou com a mínima vontade de ouvi-las. — Não costumo ser irônica, sou realista, é diferente. Como pode ver, Mozah se cansou de você. Vai se casar novamente com outra golpista estrangeira. Às vezes, a angústia de Hanna tornava-se quase palpável, noites e dias, anos e anos, esperando ser amada, alimentando esperanças vazias. Mesmo entendendo sua tristeza, me mantinha o mais distante possível da escuridão que a cercava. — Sim, ele vai se casar novamente — concordei , afastando-me daqueles olhos intimidadores. Passando pelo saguão voltei a ouvir novamente: — Anita! Ah, não pode ser, era a caça-níqueis da Emilly, vestida numa camisola de seda vermelha, pés descalços e um colar maravilhoso pendurado no pescoço. De maneira teatral ela desceu os degraus da escadaria, apoiando sua mão direita no corrimão de cor branca. Com o rosto impecavelmente maquiado em tons opacos e cabelos lisos loiros, caídos como ondas sobre o seu ombro direito - disse --- Anita, quase me esqueço que tu ainda moras aqui. “Francamente, ela imaginava-se caminhando no Olimpo entre seus súditos’’. — Não é uma má ideia. — Prometo que não vai permanecer muito tempo aqui. — Não prometa o que não pode cumprir. Ela sorriu, deixando a mostra toda sua arcada dentária, como num comercial de pasta de dentes. Deu de ombros e afastou-se, desfilando pelo saguão. A infeliz enlouquecera de vez. Quem ela pensava ser ? De certo a


própria reencarnação da Cleópatra. — A propósito — disse ela, voltando-se novamente em minha direção —, Mozah vai assinar o divórcio, e você estará livre para pegar suas tranqueiras e ir embora! — Ele lhe disse isso? — Ainda estamos discutindo sobre o assunto. Fique tranquila, não vai demorar muito. A infeliz sabia o que dizer para me magoar. O casamento aconteceria em dois dias, os preparativos tiveram início na manhã seguinte. Emilly certamente organizaria uma festa memorável, digna de uma rainha. Uma curiosidade mórbida me passou pela cabeça: afinal, onde seria a primeira noite de núpcias?Não conseguia imaginar Mozah fazendo amor com Emilly, tão próximo a mim, sem me sentir estilhaçada. Outra dúvida infernal consumia minha alma: Mozah estaria mesmo apaixonado por Emilly? Ou tudo não passava de um plano macabro para me tripudiar ? Do balcão do meu quarto, assisti a movimentação começar, carros chegando carregados de flores, enquanto os funcionários recebiam instruções sobre a cerimonia. Hanna certamente se recolhera ao quarto, chorando mais uma vez o desprezo de Mozah. Emilly instruía os funcionários como se fossem seus súditos. A reencarnação fajuta da Cleópatra tinha sérios problemas mentais, sem sombras de dúvida seria necessário um tratamento com eletrochoques. Nossos olhares se cruzaram por um momento, anunciando uma briga silenciosa e mortal. Só existia lugar para uma de nós naquela casa.

A perda

É

difícil aceitar a perda daqueles que amamos, ainda mais quando se

trata de uma garotinha de apenas onze anos de idade. Valentina amava seus pais: jamais conseguiu esquecer a voz suave de sua mãe, narrando histórias sobre príncipes valentes salvando princesas em perigo; nem do sorriso amável


do seu pai, quando ela recostava a cabeça em seu ombro, pedindo um pouco de atenção. Baas, o pai de Valentina, era um executivo bem-sucedido no mundo dos negócios. As empresas disputavam o seu peso a ouro. Ele era o melhor. Não somente pelo talento inigualável no ramo dos negócios, mas também por sua honradez em cumprir seus compromissos. No dia quinze de dezembro, em uma tarde fria do rigoroso inverno europeu, o aeroporto em Amsterdam teve de ser interditado, devido ao mau tempo e às condições precárias da pista de pouso. Baas tinha um compromisso inadiável com uma empresa suíça. Devido à interdição do aeroporto, ele decidiu seguir de carro em uma longa e cansativa viajem, de aproximadamente doze horas. Sua esposa Karen optou por ir junto, assim poderia trocar de lugar com o marido quando ele estivesse cansado de dirigir. A pequena Valentina foi deixada na casa dos seus avós. No momento em que retornassem, eles iriam buscá-la. A menina viu o carro de seus pais desaparecer na escuridão da noite. Permaneceu acenando, sorridente até ver o carro sumir por completo. Karen jogava-lhe vários beijos, e formou um coração ao juntar as duas mãos. Fora a última vez em que Valentina os viu com vida. As estradas da Suíça cobertas pela neve se tornaram escorregadias, fazendo com que o carro rodopiasse varias vezes antes de cair no penhasco. O clima natalino foi substituído pela tristeza da perda. Daquele dia em diante, a menina pacata, e melhor aluna da sala de aula, deixou de existir. Tornou-se uma rebelde sem limites. Aos quatorze anos, fumava e bebia escondido dos avós, iniciara depois o consumo de drogas pesadas. Por consequência disso, tinha de fazer pequenos furtos para sustentar o vício. Aos dezesseis anos, engravidou. Seu namorado, Kees, era um garoto de dezenove anos, igualmente perdido. No momento em que soube da gravidez de Valentina, socou- lhe o rosto e a barriga sem piedade. A garota teve de ser levada às pressas ao hospital para estancar o sangue. Seis dias mais tarde, Valentina sentava na recepção de uma clínica especializada em abortos. Depois de deixar a clínica, jamais voltara a ser a mesma de antes.


Afundou-se na escuridão de sua própria culpa e de lá jamais saiu: era mesmo uma pessoa má, como pôde ter a coragem de matar o seu próprio filho? Existiam tantos métodos anticoncepcionais! Uma atitude bárbara como aquela era imperdoável. A garota nunca conseguiu se recuperar da culpa que trazia na alma e dominava o seu coração. Mas, ela tinha tanta cede de amor ! Desejava loucamente ser amada! Uma amiga afirmou que os homens pagariam caro pelo prazer de sua bela companhia. Foi quando mergulhou de cabeça em um mundo completamente insano, sem datas, sem limites, compromissos ou sonhos. Começou a sentir-se desejada e amada mesmo que por alguns poucos minutos, enquanto os homens faziam suas juras vazias de amor. A bebida e o álcool se tornaram um refugio. Gastou todo o dinheiro deixado por seus pais com festas, drogas, viagens, objetos fúteis e sem valor. Não restou nem um único centavo. Obviamente, isso não era um problema, ela tinha a juventude a seu favor, e um belo corpo, capaz de garantir o seu sustento. Sempre bonita, bem vestida, e com um sorriso no rosto, disfarçando sua dor, desfilando solitária pelas ruas estreitas de Amsterdam. Mais tarde, decidiu alugar uma cabine, um lugar onde as garotas vedem amor , ganharia muito dinheiro expondo seu corpo aos clientes famintos de prazer e igualmente solitários. A maioria deles era como ela, perdidos num mundo insano, tentando desesperadamente preencher o vazio de suas almas tristes. Deixavam se perder em qualquer coisa que lhes ofertasse prazer momentâneo. A cabine tinha uns cinco metros e uma janela de vidro gigantesca; dessa forma, os clientes solitários podiam apreciar seu corpo exposto. Vestida num minúsculo biquíni branco, instigava os homens a entrarem. Os valores eram cominados e a cortina, fechada: chegara a hora de fingir sentir prazer, de fingir ser quem não era, numa tentativa inútil de amenizar a solidão de sua alma . Quinze ou trinta minutos mais tarde, o homem deixava a cabine saciado. Valentina reabria as cortinas a espera do próximo cliente, solitário e sedento de amor. “Uma vida humilhante” — pensava ela — “que futuro terei


nesse lugar triste?” E quando a velhice chegar, serei obrigada a fechar definitivamente as cortinas". Ela pensava em tudo isso, enquanto dirigia o seu Porsche a cento e oitenta quilômetros por hora, numa autoestrada onde a velocidade máxima permitida era de cem quilômetros. Danem-se as multas — pensava —, eu posso pagar! Um caminhão ligou a sinaleira, alertando da sua ultrapassagem, mas Valentina continuava submersa em seus próprios pensamentos. Percebeu tarde demais o perigo. O seu Porsche capotou inúmeras vezes. Ela só conseguia lembrar do barulho das sirenes e da voz do bombeiro gritando: — Ela está viva, rápido, não vamos perdê-la. Os bombeiros são heróis anônimos, assim como os policiais honrados que se arriscam todos os dias salvando vidas de pessoas desconhecidas. — Mas que droga, ainda estou viva! Por que não morri? Dois meses internada numa UTI, até ser transferida para uma unidade de recuperação intermediária. Seus olhos ainda estavam inchados, conseguia abri-los com muita dificuldade. Teve alguns pequenos cortes no rosto, mas o cérebro havia sofrido um inchaço temporário. Ela pestanejou, dardejando os olhos ao redor: em pouco tempo voltaria a velha rotina, foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu. Mas, o destino lhe preparara uma surpresa inesperada, colocando no seu caminho um jovem médico chamado Peter. — Como está a minha bela paciente? — perguntou ele, sorrindo. — Já estive melhor. — Hum, está recuperando o senso de humor, isso é um bom sinal — observou, enquanto tentava sentir seu pulso e checar os batimentos cardíacos. Costumava ser tão sozinha que a sensação de ter alguém cuidando dela, mesmo que por uma obrigação, enchia-lhe o coração. Felizmente, recuperouse, saiu do hospital levando consigo não apenas novas esperanças, mas o amor do jovem médico, Peter. Repensou sua vida, já estava na hora de mudar. Além do mais, o amor que sentia por Peter não lhe cabia no peito. Faria qualquer coisa para agradar o seu amado. Inclusive retomar os estudos. E assim, nascera uma executiva brilhante.


Ansiava por brilhar mais e mais, para que Peter se sentisse orgulhoso de suas conquistas. Aboliu de sua vida o vício da droga e do álcool. Estava feliz, não precisava de pílulas para conforto. Cinco anos depois, Peter, chegou a casa numa tarde de quinta-feira, por volta das cinco e quarenta da tarde. Colocou as chaves sobre o móvel da sala, encheu uma taça com vinho tinto, permanecendo de pé próximo à vidraça, com o olhar perdido em algum lugar onde só ele podia estar. — Precisamos conversar, Valentina. Ela estremeceu, imaginou ser aquele o momento tão esperado, do pedido de casamento. — Recebi uma proposta de trabalho num hospital dos Estados Unidos. Serei o cirurgião chefe. Você sabe, esse sempre foi o meu sonho. — Sim, amor — respondeu entusiasmada — isso significa que mudaremos toda a nossa vida? Ela teria de deixar tudo e seguir com Peter rumo aos Estados Unidos, não faria objeções. Ela o amava. — Espero que entenda, não posso recusar. — Sim, claro, entendo! Preciso de um tempo, tenho de reorganizar os meus projetos, afinal vamos mudar para o outro lado do mundo. — Nós não vamos nos mudar, Valentina — disse Peter, com os olhos fixos no chão de madeira escura. Como se tivesse ensaiado várias vezes aquela fala. — Irei sozinho. — O quê? Inicialmente, imaginou ser uma brincadeira, Peter gostava de fazer esse tipo de coisa. Mas, percebeu uma tristeza verdadeira em seu olhar. Não se tratava de nenhuma piada. Ele iria sozinho. — Peter — disse ela com seus olhos azul-turquesa, encharcados de lágrimas —, nós nos amamos. Como pensa em passar tanto tempo longe de mim? — Estive pensando sobre nós dois, Valentina, éramos jovens, movidos pela paixão tola. — Você é um homem de trinta e dois anos, Peter, não é mais nenhum garoto. — Preciso de um tempo — confessou ele, evitando os olhos dela. — Se é esse o seu desejo, no que depender de mim, terá todo o tempo do mundo.


Com passos firmes, fingindo não se importar, foi para o seu quarto organizar suas malas, era a hora de partir. “Como ele pôde fazer isso comigo? Por que não me disse antes? Fez-me acreditar num amor inexistente, e agora me expulsa de sua vida, como uma funcionária a qual os serviços se tornaram dispensáveis”. Valentina sentiu-se, mais uma vez, deixada para trás.

Prisão sem muros

M esmo cercada pelo luxo, eu continuava vivenciando a pobreza da solidão. Morar na mesma casa que Emilly seria um verdadeiro inferno, os encontros seriam inevitáveis. Mesmo se residíssemos num enorme castelo dinamarquês, teria de sentar-me à mesa todas as noites e ceiar com a minha rival. Eu me encontrava perdida, num labirinto de desencontros. Mozah jamais permitiria minha partida, Hanna atribuía-me a culpa de ter perdido o seu amado, e Emilly nutria um ódio infundado. Mesmo sem querer, Emilly poderia ajudar-me a conseguir a sonhada liberdade. Ela não se continha de tanta felicidade no meio de toda aquela riqueza. Tudo pertenceria somente a ela, e a nenhuma outra mulher. Não tardaria a arquitetar um plano, tirando-me de uma vez por todas do seu caminho. Eu, por outro lado, sentia-me confusa, dividida entre o amor e a razão, entre o real e o irreal. Imaginar Mozah apaixonado por outra mulher me doía a alma. Mas que futuro terei, presa a um amor fracassado e obsessivo? Prisioneira de uma paixão sem limites. Jamais me habituei a ter o meu computador vigiado, meus telefonemas, minha conta do banco, até mesmo conversas comuns. Convites de festas e eventos chegavam aos milhares, mas nunca pude comparecer em nada, as únicas pessoas com quem ainda mantinha contato passaram a ser as mulheres árabes, esposas de um grupo seleto de amigos. Nem mesmo podia vestir a roupa do meu agrado, pois a estilista escolhia todo o meu vestuário. O closet de nove metros quadrados, repleto de roupas


seria mesmo um sonho realizado se pudesse escolher o que vestir. Não se tratava apenas das roupas, mas do meu perfume, de bolsas, sapatos, joias etc. Todos os dias, uma funcionária me deixava a roupa do dia sobre a cadeira. Mozah mantinha o controle de tudo. Eu, Anita, havia me tornado uma boneca de luxo. Nas viagens, minhas malas eram organizadas pela mesma pessoa incumbida de escolher minhas roupas diárias. Deixei de cortar os cabelos, ordens de Mozah. Perdi o interesse em comprar artigos femininos, deixei de sonhar. Com o passar do tempo, deixei de me reconhecer. O meu reflexo no espelho mudou: a verdadeira Anita estava deixando de existir aos poucos. As coisas aconteceram numa sequência louca: no início, me senti cuidada e protegida, como uma rainha. Só depois a venda foi retirada dos meus olhos, obrigando-me ver a verdade. Mas, era tarde demais. Eu havia me tornado escrava daquele amor . Mozah via em mim o reflexo de uma deusa, saída dos sonhos mais íntimos. Acreditava que eu detinha toda a beleza existente no mundo. Eu era uma mulher , igual a muitas, mas aos olhos dele, não existia outra igual. Desesperado por meu amor, ele tentou negociar, comprou joias caras, tão valiosas quanto imóveis de alto padrão. No meu aniversário, presenteou-me com um Rolls-Royce clássico lindíssimo. Detalhe: só poderia dirigi-lo acompanhada pelo segurança. Mozah não queria me perder, nem me magoar, só não sabia como lidar com aquela paixão, capaz de lhe fazer perder a razão e o equilíbrio. O meu cheiro parecia invadir seus sonhos como um feitiço. Antes de me encontrar, penso que ele nem mesmo conhecia o amor, achava tudo uma tolice. O desejo incontrolável de me possuir queimava sua alma. Ele ansiava ser amado por mim a todo custo. Dividira a cama com muitas mulheres, mas eram apenas corpos macios e bonitos, não despertaram nenhum outro sentimento, além do desejo vazio. Ele tinha certeza que, com o decorrer do tempo, eu aceitaria todo o seu amor. Nesse dia, eu o amaria como ele sempre sonhou. No velório de John, Mozah viu em Emilly uma oportunidade de me fazer reconsiderar. Cometera o grave erro de mandar me surrar; estava fora de si,


louco de ciúmes. Foi precipitado, desesperou-se, andando de um lado ao outro, ouvindo meus gritos. Isso o fez recordar os gritos de sua mãe. “O que eu fiz?” — pensou , mas, era tarde demais. O meu amor foi substituído pelo medo, da sua obsessão.

O jantar

S entamo-nos todos em volta da mesa, enquanto aguardávamos o jantar ser servido. Mozah sentou-se à cabeceira, Emilly à sua esquerda, e eu senteime à direita, como de costume. Hanna se retirou depois de servir a refeição, visivelmente abatida e cansada. Mozah permaneceu calado, de olhos fixos no nada. Emilly, ao contrário de todos, estava radiante de alegria deslumbrada com a sua nova conquista. Vestia numa blusa decotada de linho preta em que mal lhe cabiam os seios, enquanto eu trajava roupas apropriadas para um funeral. — Querido, como foi seu dia? — perguntou ela — ignorando totalmente a minha presença. — Cansativo — respondeu, sem interesse. — Finalmente, decidi-me sobre o meu vestido de noiva. “Ops”, não ouvi resposta. Emilly se ajeitou na cadeira, jogou os ombros para frente deixando o decote mais convidativo. Os olhos de Mozah passearam por segundos na profundidade daquela exuberância antes de fixar novamente o olhar na taça de vinho tinto sobre a mesa. Ela sorriu continuando: — Tenho dúvidas quanto à prataria, é muito antiga. Queria atenção; conseguiu, coitadinha! — A prataria antiga à qual se refere foi repassada através de muitas gerações, não pretendo substituí-la por objetos modernos, sem nenhum valor histórico ou sentimental. Ah, faça-me o favor, Emilly não sabe nada sobre história. Para ela, objetos antigos são quinquilharias. E sentimentalismo, só mesmo com o cartão de crédito. A Cleópatra maluca se ajeitou novamente na cadeira, sorriu


desconcertada, entendendo finalmente, o silêncio como oportuno. Ela ainda não conhecia o verdadeiro Mozah, não sabia dos seus caprichos ou da sua mudança de humor . — Anita, por que não me ajuda com os preparativos? A insistência dela me tirava a paz. — Desculpe, tenho outros compromissos. — Engraçado, você não me parece a pessoa mais atarefada do mundo. — Não disponho de tempo para assuntos de pouca relevância. Resolva suas questões com os funcionários. — Ah, entendo. Você está com ciúmes! Não se envergonhe querida, é perfeitamente normal. — Não seja ridícula, não sou sua funcionária. Mozah contratou pessoas suficientes para lhe servir. — Por favor, discutam este assunto em outro momento, desejo terminar minha refeição em paz. Emilly sorriu, assentido. Pobrezinha, não tinha a menor ideia de onde estava metida. Levaria um susto quando descobrisse. Sentiria -se a Alice no País das Maravilhas depois de cair no buraco. Mozah não é manipulável, e sim um manipulador. O jantar foi desagradável, mas ter de olhar para a cara deslavada da Emilly enquanto bebia meu vinho na sala de aperitivos depois da refeição foi ainda mais constrangedor. Mozah sentou-se em sua cadeira de couro acolchoada, ela acomodou-se no sofá estilo divã ao lado da lareira, e eu me sentei numa poltrona atrás da mesa baixa, de mais ou menos um metro e meio de cumprimento. Não adiantou nada. A distância segura necessária seria, no mínimo, eu morar num outro continente. — Então, Anita, diga-me como posso aproveitar melhor o meu tempo em Dubai — indagou ela, piscando os olhos de forma maliciosa, enquanto cruzava as pernas sensualmente. Bebi um gole de vinho, fingindo naturalidade. — Temos interesses diferentes, minhas experiências nada iram lhe acrescentar. Mau caráter! Sentia náuseas só em vê-la.


— Mozah, posso me retirar? — pedi quase a implorar. — Sim, minha querida. Caminhei em direção ao quarto, perguntando-me se dormiriam juntos naquela noite. Permiti meu corpo cair sobre a cadeira. Fechando os olhos e desejando acordar daquele pesadelo . Era o fim. Não existia saída, criei falsas ilusões sobre o divórcio. Só havia uma maneira de fugir daquela casa, seria “morta e cremada". Uma ideia insana me ocorreu. Poderia alguém simular a própria morte? Imaginar um futuro feliz naquele inferno era mais um delírio, um sonho tolo. Não existia futuro algum, Mozah havia encontrado uma maneira de me acorrentar pelas cláusulas de um acordo maldito. Mantendo meu corpo preso às regas de um contrato assinado, e a minha alma acorrentada nele. Se eu ousasse pedir o divórcio, certamente apodreceria na cadeia, a multa aplicada pelo rompimento do acordo era exorbitante. Por outro lado, restava a opção de continuar vivendo na mediocridade daquela situação ridícula. Cercada do luxo e corroída pela solidão, tendo de assistir Emilly, a reencarnação da Cleópatra maluca, desfilar pelos corredores todos os dias me espezinhando. Honestamente, descartei a opção de viver na cadeia. Mesmo estando com a vida destroçada, ainda usufruía do benefício de uma liberdade parcial. Não precisava ver o sol nascer quadrado atrás das grades de ferro em uma penitenciária vulgar. A situação estava ruim, ser encarcerada na prisão, só pioraria as coisas. Ocorreu-me uma vontade infantil de espiar o desenrolar daquela noite. “Credo, Deus me livre”, tratei rapidamente de esquecer essa estupidez, não desejava me tornar uma sombra triste igual à Hanna. Não preguei os olhos durante toda a noite, acordei com olheiras profundas . Vi o nascer do sol, depois ouvi meu rádio despertador tocar a música Love to love you baby. Sentia-me literalmente quebrada. Camuflei as olheiras com um bom corretivo, vesti a roupa deixada sobre a cadeira e saí do quarto tão feliz quanto alguém condenado à forca. Havia uma movimentação intensa na casa, vi pessoas indo e vindo com


caixas, mesas, luzes... uma infinidade de futilidade! A Cleópatra maluca comprara esculturas de mármore numa tentativa fracassada de decorar o jardim. Credo! Mais parecia uma festa organizada para alunos do jardim da infância, tipo Cinderela. Tapetes vermelhos foram espalhados por todos os corredores, placas de néon para mostrar aos convidados a direção correta dos banheiros. No centro, um palco fora montado ao lado de uma estátua de dois metros, retratando a silhueta de uma bela mulher. Uma estátua bonita a não ser pelo fato de estar coberta com lâmpadas coloridas, fazendo a pobrezinha parecer uma árvore natalina. Tanto mau gosto me deixou perplexa. — Anita — uma voz rasgou o silêncio, — se quiser ajudar, tenho um avental disponível. Inclusive, a cor combina com você! É cor de vômito — ironizou Emilly. — Fazer graça é uma qualidade encontrada nas pessoas inteligentes e observadoras. Ninguém nunca lhe disse que este tipo de observação não combina com você? Além do mais, qual é a letra da palavra "não" você tem dificuldade de entender? — Ora, os ânimos estão alterados esta manhã. Você continua a Anita de sempre, previsível e monótona. — Hum, pelo que vejo você também não mudou nada, continua sendo uma oportunista fútil. Elevei meus óculos espelhados ao rosto, deixando a maluca conversando com o vento.Precisava falar com Valentina, não confiava em mais ninguém. O porteiro avisou-lhe da minha chegada. Valentina chegou alguns segundos depois, dirigindo o seu carrinho de golfe. Certamente, desconfiou da visita inesperada àquela hora da manhã. — Entre, fofinha! Aconteceu alguma coisa? — Estou perdida, Valentina. — Por quê? — A escolhida de Mozah não é a Hanna. — Então quem é ela? — É a Emilly.


O desabafo

A fastamo-nos dos olhares curiosos das mulheres que andavam pela casa. — Vamos conversar no meu quarto, lá elas não podem bisbilhotar — garantiu Valentina. Tratei de fechar a boca, disfarçando o espanto ao entrar no quarto . Uma associação desconsertada entre a mitologia grega e o modernismo. Um ambiente gigantesco, abarrotado de esculturas, quadros antigos, sem mencionar a fonte no meio, jorrando água de cor azul. Porque raios alguém iria querer uma fonte com água azul? Perguntei-me. O teto fora pintado com figuras de nuvens em um tom infantil de azul claro. A colcha branca desaparecia embaixo das várias almofadas coloridas sobre a cama redonda. À esquerda, um escritório nada modesto; como pano de fundo uma estante de madeira escura chegando até o teto alto, repleta de livros. Sobre o móvel havia um computador moderno, alguns papéis e objetos comuns de escritório. A poltrona na cor vinho escuro fora acolchoada com um tecido aveludado, aparentemente confortável. À direita, localizava-se uma bela sala de estar em tons pastéis e brancos. Valentina projetou para si a cópia de um apartamento extremamente aconchegante. Aquele era o seu mundo, o seu refúgio. — Lindo, não é? — indagou ela, percebendo a minha admiração. Com uma voz contida, tentando não deixar visível o espanto- concordei. — Sente-se, fofinha, vou preparar um chá. Ela caminhou até a mesa do escritório, onde estava uma bandeja com algumas xícaras e um bule de chá na cor dourada. Pelo brilho reluzente deduzi ser ouro. Em seguida encheu as xícaras com o líquido escuro; depois virou-se, em minha direção. — Beba, é um chá feito com ervas raras, vai acalmar seus nervos e fazer


retornar-lhe a cor dos lábios. — Estou tão mal assim? — sorri sem graça, bebendo o líquido amargo, sem gosto. — Conheço o desespero de um olhar, porque já vi várias vezes refletido no espelho. Se não é Hanna a futura esposa de Mozah, quem é então? — Há alguns anos, descobri o romance secreto entre o meu marido John e a minha melhor amiga Emilly. Além de ser traída, também fui vítima de um golpe, perdi tudo. Eles me deixaram na miséria. Eu me tornei obcecada, quis me vingar de John, e assim o fiz. Anos depois, recuperei as ações. Mas fiquei completamente atónita ao descobrir a doença de John, um câncer em fase terminal. Antes de falecer ele implorou minha presença, não pude negar o pedido de um moribundo. Na nossa última conversa, foi-me revelada toda a verdade. Emilly me manipulou, assim como fez com John. Implantou provas falsas de uma traição inexistente. Ela instigou seu orgulho e ira, tornando-se, depois, sua amante. Vivenciei momentos difíceis até conseguir encontrar um trabalho e finalmente me reerguer. No decorrer, conheci Mozah, numa viajem de trabalho, enquanto acompanhava Frederico. Mozah compareceu ao funeral de John sem me avisar e sem ter sido convidado. Prestou condolências à viúva, e agora vai se casar com ela. — Ah, meu Deus! Isso é terrível. Você acha que Mozah está apaixonado ? — Não sei! É tudo tão confuso. — Anita — disse ela, aproximando-se —, diga-me, Mozah machucou você? — Sim, uma vez! — Como foi? — Prefiro não falar, desculpe. — Não precisa, porque já sei. — Como pode saber? — Meu marido, Omar, conhece toda a história da família de Mozah, incluindo os segredos. — O que aconteceu, Valentina? — Bassaam, o pai de Mozah, nutria um amor obsessivo por Alima, sua mãe.


Um amor louco . Ninguém podia aproximar-se dela, se alguém ousasse, pagaria com a vida. Ele a mantinha trancafiada e a surrava frequentemente. --- Por quê? Isso é loucura! Alima desrespeitou o casamento? — Não, ele a surrava pelo fato de não conseguir lidar com a sua rejeição. Larguei a xícara, pondo-me de pé, num sobressalto. — Você tem certeza disso? Diga-me: o que aconteceu com Alima? — Ninguém sabe com certeza, alguns afirmam ter sido um ataque fulminante. — E qual é a segunda hipótese? — Existe a suspeita de que ele a tenha assassinado. Mas, a segunda alternativa jamais foi provada, são apenas boatos. O fato de você não ser vista em locais públicos ou em festas badaladas, despertou minha desconfiança. Mozah jamais tivera um relacionamento sério. Deitava-se com corpos bonitos, mas nem mesmo conseguia se lembrar do nome das mulheres no dia seguinte. Ele jamais amou alguém. Imagino que depois de tantos anos de solidão, seja difícil lidar com um sentimento complicado como o amor. — Minha vida se tornou um inferno. Vivo sob o controle dele: minhas roupas, meus perfumes, minhas conversas, tudo é decidido por ele. Sou escrava de um amor louco. Não posso me divorciar, teria de pagar milhões pela quebra do contrato de casamento. Pedi, implorei milhares de vezes pelo divórcio, mas ele se recusa. Agora vai casar-se com a mulher responsável pela minha desgraça. Você chama isso de amor? — Não posso responder a isso com exatidão. Estou tentando entender os sentimentos de um homem frio, com um passado sombrio e confuso. — Valentina, preciso fugir! — Como? — Vou morrer. — Ora, não fale asneiras, você tem a vida inteira pela frente. — Não me refiro a morrer de verdade, vou simular a minha própria morte. — O quê? Fofinha, isso pode até funcionar nos filmes, mas na vida real é outra história. — Valentina, por favor, não vou conseguir viver o resto da vida confinada naquela casa, submissa às vontades de Mozah, exposta ao ódio de Emilly e Hanna. Mozah acredita que me mantendo próxima, irei aprender a amá-lo.


É exatamente o contrário, se assinasse o divórcio, provando respeitar a minha vontade, sem impor seus desejos, teríamos uma chance, talvez. Ele não está disposto a correr riscos. Prefere viver seguro num amor infantil, imposto pelo medo e alimentado pela rejeição. Ajude-me, por favor, eu a imploro. --- Ah, fofinha, não sei, se Omar descobre me deserda! — Entendo! — Bem, não estou disposta a ajudá-la na parte prática, mas não me custa nada ajudar na parti teórica. Digo: contar algo sobre um filme ou um livro não é ser cúmplice, não é verdade? — sorri. — Obrigada Valentina! Sou muito sortuda por ter conhecido você. — Obrigada, geralmente as pessoas dizem o contrário. — São tolas, não ligue — risos. — Que Deus proteja você, no meio de toda essa loucura.

A Trama

P ermaneci na companhia de Valentina durante o restante do dia, retornando a casa somente à noite. O fato de estar planejando uma fuga me ajudaria a suportar os dias seguintes.Falar fluentemente vários idiomas facilitaria o recomeço de uma nova vida, num país distante. Não seria prudente retornar a Amsterdam, de certo me apanhariam. Talvez a França ou Espanha. É isso: Espanha. Conhecia bem a ilha de Maiorca, meus pais tinham verdadeira paixão pelo calor e a hospitalidade espanhola. Um paraíso, cercado por praias paradisíacas, verdadeiros cartões postais. Além do fato de ser um ponto turístico, encontraria trabalho facilmente como guia, depois pensaria na possibilidade de exercer um cargo na minha área. Compraria um apartamento modesto com o dinheiro economizado ao longo daqueles anos. Estaria finalmente livre. Enquanto cruzava o jardim, já em casa, deparei-me com uma réplica da Disneyland, não contive o riso. Nada superava o mau gosto da Cleópatra maluca.


Não dei muita importância, a felicidade não me cabia no peito. Só precisaria arquitetar um bom plano, colocá-lo em prática, e estaria finalmente livre daquele déjà-vu cansativo. — Anita — valha - me, Deus — virei-me sobressaltada, ouvindo a voz de Hanna vinda da escuridão atrás das palmeiras. — O jantar está servido, não se atrase. — Estarei lá em três minutos. — Espero que sim, para o seu próprio bem! Apressei o passo em direção à sala de jantar. Mozah e Emilly esperavam por mim, aparentando certa irritação. — O que aconteceu Anita? —continuou —Não me oponho à tua amizade com a Valentina, mas não aceito a desfeita de chegar atrasada. — Desculpe, perdi completamente a noção do tempo apreciando a decoração no jardim. Houve uma troca de olhares silenciosa. Tentei aparentar tranquilidade, diferente da euforia costumeira. Mozah semicerrou os olhos, como se quisesse ler meus pensamentos. Desviei o olhar na direção da prataria posta sobre a mesa, quase acreditando ser possível essa possibilidade. — Convidei Omar e Valentina para cerimônia . Sei do teu apreço por ela. Assim, vai ter alguém com quem conversar. — Fico feliz de saber, obrigada! — Quem é essa tal de Valentina? — quis saber Emilly. --- É a esposa de um amigo do ramo dos negócios. Também nasceu em Amsterdam, talvez vocês três possam se tornar amigas, afinal pertencem à mesma cultura. Não discordei, nem fiz abjeções, tinha de ser cautelosa, fingir conformismo e obediência faria com que as coisas acontecessem mais rápido. — Talvez — resmungou Emilly, desinteressada. — Anita, aconteceu algo diferente hoje? — insinuou Mozah, fingindo indiferença. Ele não podia ler meus pensamentos, era humanamente impossível. Blefe! — Não, por que pergunta? — Por nada, apenas interesse. Ele tentava me intimidar, e conseguiu.


— Estive pensando, estou disposta a aceitar algumas mudanças — falei, no intuito de mudar o rumo da conversa. Emilly ajeitou-se na cadeira impaciente por não ser o centro das atenções como de costume. Não suportando a exclusão, apressou-se em de dizer: — Mozah, meu querido, ainda não decidimos aonde iremos em nossa lua de mel. Tomara que bem distante de mim! Na Lua ou em Marte, de preferência. Mozah demostrou desinteresse. Isso desagradou Emilly nitidamente. — Discutiremos este assunto num outro momento. — Quando? Vamos nos casar amanhã! — retrucou ela, igual a uma menina mimada esquecida pelos pais três minutos na porta da escola. — Emilly, não insista, conversaremos sobre isso depois. O tom autoritário dele fez com que Emilly se encolhesse na cadeira . Duas coisas ela tinha de sobra: orgulho e veneno. Depois do jantar fomos à sala de aperitivos, o mesmo déjà-vu do dia anterior. Sentamos todos no mesmo lugar, olhamo-nos da mesma maneira, sem dizer uma só palavra. Meus olhos dardejavam entre as labaredas do fogo queimando a lenha, imaginei-me numa praia em Maiorca, pisando a areia fina, sentindo cócegas embaixo dos meus pés descalços. O sol bronzeando a minha pele, enquanto eu apreciaría a água cristalina, azul do mar. Completamente livre, completamente eu. — Anita — fui trazida ao presente, ouvindo Mozah perguntar —, que lembranças tão belas estão a pairar nos teus pensamentos? Quantos minutos fiquei fora de mim? Estava deixando Mozah perceber sei lá o quê. Precisava ser dissimulada, esconder minhas emoções e proteger meus pensamentos da intuição aguçada dele. Precisei dizer algo interessante para despistar sua curiosidade. E o que me veio à cabeça? Uma tremenda de uma bobagem! — Estive pensando — pigarreei — devia ter feito mais por nós. Porque falei essa bobagem, afinal ? Quis morrer. Mozah estava desconfiado, conhecia-me melhor do que pensei. Tinha de despistá-lo, e deu certo. Certo demais. Os olhos dele brilharam enquanto os de Emilly se afundaram na escuridão. — Verdade? Jamais pensei em ouvir isso de você — exclamou.


— Não é você quem costuma dizer: “todos cometem erros”? — Podemos consertá-los, ainda há tempo. Pobre Emilly, decidiu abrir a boca. — Mozah, preciso de ajuda em algumas questões relacionadas à organização da festa. --- Contratei vários funcionários, não foi o suficiente? — Sim, mas pensei... — Não disponho de tempo, desculpe. Por um milésimo de segundo tive a sensação de ver um traço verdadeiro de emoção no rosto de Emilly. Mozah era um homem excêntrico, arrogante, mas também bonito e sexy. Ela podia ser uma mau caráter, mas continuava a ser uma mulher igual a qualquer outra. Mozah se levantou, colocando a taça de vinho sobre a mesa, afastando-se sem olhar para trás. Na sua ausência, Emilly me fez ameaças. — Não dessa vez, Anita! Não vou permitir você me roubar o amor de Mozah, sua maldita. — O quê? Você está completamente louca! Foi amante do meu ex-marido, vai se casar com o meu atual marido, e ainda me culpa por isso, sua lunatica ? — Você não perde por esperar — esbravejou, permitindo-me ver toda a sua raiva, nem mesmo Hanna me odiava daquela maneira. Antes de sair da sala, e sumir na escuridão, rebolou a taça contra a parede, fazendo com que os cacos de vidro fossem lançados em todas as direções. Se não simulasse a minha própria morte, provavelmente morreria de verdade. Perguntei-me o porquê de todo aquele ódio? Jamais a fizera mal nenhum. O cansaço me obrigou a ir deitar mais cedo, meu quarto tornara-se um refúgio naquele hospício. Depois de vestir a camisola branca decotada com rendas bem trabalhadas, deitei-me permitindo a imaginação viajar naquele plano de fuga insano. Virei-me, vendo o trinco da porta girar enquanto Mozah surgia entre a escuridão, vestido numa calça jeans azul, sem camisa e sem vergonha. Confesso adorar a sensação de recostar em seu peito largo, sentindo o ardor do desejo. Os meus hormônios festejavam alegrinhos. A distância foi desaparecendo entre nós.


— Mozah, o que faz aqui? Seu casamento é amanhã. Com as mãos apoiadas sobre a cama, ele se aproximou. — Posso ficar esta noite ao seu lado? — Preciso de um tempo. — Sei esperar. Hoje, depois do jantar você assumiu ter cometido erros — repetiu ele, deixando os dedos deslizarem numa mecha de cabelo caída sobre meu ombro, chegando aos meus seios. — Não vim implorar por sexo. Quero apenas estar contigo. Preciso. — Precisa? — sussurrei. — Não sou um homem de crer em bobagens, mas ontem tive um pesadelo estranho. Sonhei que a havia perdido para sempre. Acordei atormentado com essa possibilidade. Jamais irei permitir que isso aconteça, jamais. Engoli a seco, era mais um blefe, não tinha como saber. Ou tinha? Valentina não contaria nada, sabia bem o julgamento do seu querido marido Omar, caso soubesse da sua má conduta em ajudar uma fugitiva. Nunca soube fingir, meus olhos sempre me denunciavam. — Agrada-me a ideia de dormir ao seu lado — confessei. Eu falava a verdade. Ele estendeu um dos braços, permitindo que me aconchegasse no calor da sua pele. Perdi-me nos meus próprios pensamentos. Se as coisas tivessem acontecido de forma diferente, sem dúvidas eu seria a mulher mais feliz do mundo. Mas, a inconsistência daquele amor me levava ao céu e ao inferno com a mesma frequência. O controle obsessivo e o ciúme desmedido me deixavam como um barco à deriva, enfrentando tempestades no oceano.

A preferida

E nquanto Mozah e Anita dormiam abraçados, Emilly afundava-se no seu próprio ódio. “Maldita Anita”, pensou ela. “Sempre atravessando os meus caminhos, usurpando a minha felicidade, roubando meus amores. Uma idiota, mimada pelos pais, carente de afeto. Viveu a vida inteira


implorando atenção, mentindo, fingindo ser quem não era, manipulando todos ao seu redor”. Na escola também fora a preferida. Ainda criança, Anita detinha toda a atenção. Emilly recordou-se da professora Amanda, sempre amável e gentil com a sua aluna predileta, nunca se cansava de elogiar seus méritos. Dizia aos pais de Anita: “ela é uma garota excepcional, possui dons magníficos, é um anjo”. “Mentirosa!”, pensou Emilly. “Anita não tinha nenhuma qualidade angelical, não passava de uma imprestável abobalhada.” Nascera rica, morando em Bilthoven, numa mansão com piscina interna aquecida, quadra de tênis, sala de cinema e milhares de coisas mais. A família também possuía uma casa de férias na Suíça e outra em Paris. O pai a amava costumava brincar com ela no jardim; para ele, Anita era a criatura mais especial do mundo. A mãe de Anita chamava-se Anne, uma mulher sem graça, que dedicara toda a sua vida exclusivamente à família. Sua vida resumia-se ao cuidado com a filha. Balé, aulas de música , escolas bilíngues caríssimas. “Aquela infeliz sempre vivera como uma princesa”, lamentava, Emilly. Muito diferente da vida triste de Emilly, uma garota rejeitada por sua mãe e abusada por seu padrasto, Alex. Morava num apartamento minúsculo, de vizinhança barulhenta. Não possuía condições financeiras de estudar balé ou música, nem mesmo podia pagar um bom colégio. Tivera a sorte de conseguir uma bolsa de estudos numa escola bem conceituada, onde as crianças eram preparadas para um futuro promissor. Aos nove anos de idade, não tinha nada além de trapos velhos e roupas amassadas com botões dependurados. Anita, então, fez-lhe uma proposta: — Emilly, vista a roupa que quiser, vou dividir meu closet com você. Afinal, somos amigas, não é verdade? — disse Anita, com a inocência de uma menina de dez anos. Emilly concordou, mas seu coração abominara a proposta. Apesar de ser uma garotinha de onze anos, ela vivera tantas coisas tristes, sofrera muitos desgostos. Tornou-se adulta antes do tempo. Só conseguia enxergar em Anita uma


menina mimada e nojenta, tinha tudo; enquanto ela não tinha nada. Anita imaginou ajudar uma amiga, quando, na verdade, cultivou o ódio de uma inimiga. Enquanto a maldita da Anita dormia no seu quarto de princesa, Emilly tinha de aguentar o cheiro de álcool e o peso do corpo de um demônio imundo. Os pedófilos são criaturas covardes, monstros destruidores de sonhos. E quem compactua com o silêncio, fingindo não saber, é ainda mais desprezível. Pedófilos são vermes, devem ser trancafiados pelo resto de suas vidas inúteis. Aos treze anos de idade, depois de ser violentada inúmeras vezes pelo imundo humano, namorado da sua mãe viciada, Emilly finalmente decidiu ir embora. Os pais de Anita, sabendo dos acontecimentos, apoiaram financeiramente e psicologicamente a menina marcada. Custearam seus estudos, aceitando-a na família como uma filha. Emilly sentiu a morte deles como se fossem seus próprios pais. Vivera anos e anos na sombra, mendigando restos de afeto. “Por que tive de passar por tudo isso?”, perguntava-se ela. Com o passar do tempo, tornaram-se adolescentes, Emilly continuava sentindo um desejo mórbido de permanecer próxima de Anita. Sabotou várias vezes seus relacionamentos e amizades. Esperou pacientemente uma oportunidade de se vingar daquela maldita, que sempre tivera tudo de mãos beijadas. E assim, o fez. Implantou provas falsas de uma traição forjada, colocou em prática seu plano doentio de conquistar John, depois o convenceu a roubar todo o dinheiro dela, deixando-a na miséria. A bastarda mimada tinha de saber o quanto doía o desprezo, a rejeição e a miséria. Emilly sorria só de imaginar Anita completamente sozinha, na sarjeta. No fundo, sempre soube que John não a amava, ele amava a infeliz da Anita. Não fazia nenhuma diferença, pois ela também jamais o amou. Mas, com Mozah foi diferente. Desde a primeira vez em que seus olhos o viram, ela sentiu-se atraída de uma maneira inexplicável. Ele parecia ter sido criado nos seus sonhos mais íntimos, tornando-se realidade diante dos seus olhos. Sonhava com o seu amor, seriam felizes para


sempre, ela tinha certeza disso. Mas existia um obstáculo, a maldita atravessava novamente o seu caminho. Dessa vez seria diferente. Emilly estava disposta a se livrar para sempre daquela mimada infeliz, mesmo que fosse necessário matá-la.

O casamento

A cordei desacompanhada. A claridade do sol atravessava as cortinas ainda fechadas, e o despertador marcava oito horas. Seria um dia daqueles! Melhor continuar dormindo por uns três dias e só acordar depois da bendita festa. Até que não seria uma má ideia. Preguiçosa, levantei-me da cama ágil, igual a uma tartaruga . Honestamente, eu estava um trapo. Naquele dia, Emilly iria se tornar oficialmente a esposa de Mozah. Digo, uma das esposas. Felizmente eu morreria em poucos dias "de mentira". Precisava agilizar os planos, não existia motivos para permanecer naquela casa, vendo Mozah e Emilly dormirem juntos. Enchi a banheira com água quente, joguei sais perfumados e acendi algumas velas aromáticas, permanecendo lá por uns vinte minutos. Se fosse possível, continuaria no conforto daquela água quente o resto do dia. Mas não podia, então, tratei de me secar e vestir a roupa deixada sobre a cadeira. Odiava aquelas roupas horríveis. A primeira providência ao chegar à Espanha seria comprar um novo vestuário, tecidos coloridos e calças jeans. Permanecer na casa durante aquele dia era, no mínimo, humilhante. Peguei a minha bolsa sobre a cômoda, saindo sem me importar, decidida a retornar somente à noite antes da cerimônia. O jardim havia sido transformado numa réplica brega da Disneyland. O mais surpreendente foi ver Emilly conversando com o castigador. O homem me causava arrepios, nunca o vira conversar com alguém antes, todos o evitavam, inclusive Hanna. Qual seria o assunto em comum? Tentei me aproximar sem ser vista. Não


foi possível, o covarde e a cobra ao perceberam a minha presença, trataram de se afastar rapidamente um do outro. — Ademir, deixe-me no centro, por favor — pedi, entrando no carro. O shopping de Dubai é semelhante a uma cidade, detalhe: dentro de uma redoma com ar refrigerado. Pequenos táxis circulam pelo estabelecimento levando e trazendo os turistas exaustos da longa caminhada. Apenas um dia não é o suficiente para percorrer todas as lojas, por isso existem os “mini táxis", parecidos aos carrinhos dos aeroportos. Certa vez ouvi a frase: “este mundo é muito pequeno”. Jamais duvidarei disto. Adivinhe quem encontrei no shopping de Dubai, fazendo compras? Frank Milli, o meu advogado, melhor dizendo, antigo advogado. O homem empalideceu, a cor lhe fugiu aos lábios, parecia estar tendo um troço. — Anita — gaguejou. O que o meu advogado falido e endividado estava fazendo em Dubai, afinal ? Da última vez em que nos vimos, ele não podia nem comprar um paletó. Vestia um antigo, preto, com riscas de giz, provavelmente herdado de seu pai. Pasmem, quase desmaiei vendo o relógio Rolex no braço ossudo dele. Isso me fez observá-lo mais atentamente. Vestia-se como um magnata, parecendo outro homem, os óculos fundo de garrafa foram substituído por um modelo extremamente caro. Não precisava ser uma cigana vidente: o patrocinador daquele corpo ossudo e de pouco caráter chamava-se Mozah. — O que traz você a Dubai, Frank Milli? O nervosismo fez o suor escorrer na testa larga de Frank Milli. — Vim visitar um amigo — explicou , metendo a mão ossuda no bolso, retirando um lenço branco para enxugar o rosto molhado. — Entendo! — assenti, afastando-me antes que alguém nos visse conversando. Entendo bem, cafajeste vendido. Não pedi explicações, achei por bem fingir acreditar na desculpa esfarrapada do canalha. Mozah certamente saberia daquele encontro, o vendido falaria. Despedi-me do patife antes de perder a compostura e esbofeteá-lo. Pelo menos tinha a certeza de que quando a minha morte fosse anunciada, alguém


iria chorar lagrimas de sangue. E seria o patife do Frank Milli. Sem mim, não existiria patrocinador. Continuei caminhando sem rumo, olhando desinteressada as vitrines enfeitadas. Só mesmo simulando a minha própria morte conseguiria encerrar o ciclo em torno de mim. Obviamente, Mozah oferecera uma boa quantia ao mau caráter do Frank Milli. Viciado em jogatina e completamente endividado, nem pensou duas vezes ao aceitar a proposta. Retornei antes do início da cerimônia. Emilly havia convidado metade da população de Dubai e organizado uma festa digna da própria Cleópatra. Em meio a uma multidão de pessoas, felizmente passei despercebida. No início da cerimonia, afastei-me, evitando me torturar. — Fofinha — ouvi a voz inconfundível de Valentina. — Ah, como estou feliz em vê-la! — Jamais a deixaria sozinha num momento como este! — Obrigada, mesmo assim. Contei-lhe sobre o encontro inesperado com o mercenário do Frank Milli. — Ah, é um vendido. — Pensei o mesmo. — Não importa, em poucos dias você irá morrer. Senti o impacto da frase. — Digo, no sentido figurado, fofinha. Morrer é morrer, entende? — Acho que sim! — concordei, sorrindo. — Coincidentemente, tenho lido alguns textos e assistido uns filmes interessantes, onde a mocinha desaparece sem deixar vestígios - disse ela fazendo clima de suspense. Se existe uma mente capaz de imaginar o impossível, essa é a mente de Valentina. — A que filmes se refere? — Quando os festejos se encerrarem, vá até a minha casa, lá conversaremos melhor — disse. Piscando o olho, enquanto jogava os cabelos lisos para trás num gesto ensaiado . Ouvi alguém dizer: “chérie”, virei-me em direção à voz. — Frederico, meu amigo, mas que surpresa agradável! Senti saudades. — Ah, eu também, minha deusa.


— Enviei-lhe o convite, mas não obtive resposta, imaginei que não viria. Lembra-se de Valentina? — Como poderia esquecer ? - disse ele, curvando-se numa venha, bem aceita por ela. — Fofinha, vou deixar vocês conversarem a sós, tenho de cumprimentar algumas pessoas. — Sim, claro — concordamos. — Diga, por que andava sumido, Frederico? — Na verdade, estou com problemas. Mas não é nada grave. — Problemas, quais? — Os de sempre, lembra-se do Carlos? — Claro! O moreno, alto, bonito e sexy? — ele confirmou . — Tive de ajuda-lo, e por consequência disto, contraí algumas dividas. Entendi tudo, o bonitão raspara a conta dele. Frederico sempre negociou o amor. — Seja especifico, quem sabe posso ajudar? — Não pode,chérie, é muito dinheiro. Mas, irei recuperar tudo com o passar do tempo. Fale-me sobre você! Fiquei “rosa chiclete” quando soube do casamento de Mozar e Emilly. Como isso aconteceu? — Quem me dera saber. Mozah conheceu Emilly no funeral de John; depois, sabe Deus. Frederico, tenho de contar algo importante. — How, adoro segredos! — Descobri uma maneira de fugir desse manicômio. — Sério? Qual é? — Vou simular a minha morte! — O quê? — gritou. — Cuidado, as paredes têm ouvidos — adverti. — Desculpe, mas o sol de Dubai definitivamente fritou seu cérebro. — Olhe à sua volta, não tenho escolha, só sairei daqui morta. — Escute,chérie, sei que você foi humilhada, levou algumas chicotadas, mas não dá pra esquecer disso? Digo, fazer vista grossa. — Você é mesmo louco — sorrimos. O tempo passou rápido, Valentina e Frederico ajudaram a amenizar a minha solidão. Dois dias depois, as comemorações finalmente foram


encerradas. Os funcionários organizaram tudo com rapidez e competência. Para a minha felicidade, e desespero de Emilly, Mozah viajou depois da festa. Uma noite de núpcias acompanhada da solidão, por isso ela não esperava. Permaneci no meu quarto, esperando uma chance de poder visitar Valentina. Precisava saber quais eram seus planos. Na primeira oportunidade, saí sorrateira. Como de costume, Valentina me buscou no portão de entrada. Optamos conversar em seu quarto, por segurança. — Sente-se — disse ela, servindo o chá amargo e de cor escura. — Andei lendo alguns livros, assistindo alguns filmes, tendo algumas ideias. Infelizmente, a primeira tive, de descartar. — E qual foi? — Bom, você podia forjar um acidente de paraquedas, o problema é que teria de ter um corpo comprovando o acidente. Revirei os olhos, tentando conter a raiva, tanto suspense, para escutar uma bobagem. — Agora vamos ao plano dois. — Não me diga — interrompi — posso imaginar, serei abduzida por uma nave espacial? Assim, meu corpo vai flutuar perdido na imensidão do universo. Ela me fitou em silêncio. Eu a magoara, podia ver nos seus olhos azuis. — Valentina, por favor, desculpe, estou uma pilha, não quero ser ingrata. Você é a minha melhor amiga, não desejei magoá-la. Segundos depois, ela contraiu os lábios dizendo: — Compreendo, se preferir podemos esquecer tudo isso. — Não, minha amiga, continue, por favor — deixei-a ver o quanto estava arrependida pelo comentário maldoso. — O segundo plano é um acidente de barco. Frequentemente, nos naufrágios em alto-mar, os corpos desaparecem sem deixar vestígio. — O hobby de Mozah é velejar — afirmei —, mas como seria exatamente? — Na verdade, vocês devem estar juntos no momento do suposto acidente. Dessa forma, ele não terá dúvidas, mesmo se o seu corpo jamais for encontrado. — Parece-me uma loucura possível, continue, por favor. — Primeiro, temos de escolher um local próximo à costa, é mais seguro. Mozah deve estar no lugar exato e na hora exata, então é só cair no mar —


gesticulando empolgada, ela rodopiava os dedos no ar como se imaginasse toda a cena. — Provoque uma briga, deixe Mozah furioso , posicione -se, finja desequilibrar-se, e caia na água. As águas são geladas, você deve contar com o apoio de um barco auxiliar. Podemos providenciar um, facilmente. — Não é má ideia, você é brilhante! — abracei-a, saltitante. — Mas, tudo deve ser cronometrado, é impossível permanecer nas águas geladas por muito tempo; caso isso aconteça, a simulação dará lugar a uma morte trágica. — Os mergulhadores profissionais vestem roupas térmicas, irei comprar o equipamento necessário. — Não esqueça as nadadeiras, com a ajuda delas vai rapidamente chegar ao barco de apoio. A bússola também é indispensável, para que saiba a direção correta a seguir. Se errar o trajeto, será fatal. — Podemos estudar melhor as possibilidades. — Sim! Seu corpo vai desaparecer no oceano, e você estará livre para sempre. — Nem sei como agradecer sua ajuda . — Ora, fofinha, não seja tola, somos amigas, não somos? — Sim, somos amigas, querida. — Valentina, como pensou nessa ideia magnífica? — Ah, li em um livro, você quer vê-lo? — perguntou, indo na direção da biblioteca — Se as pessoas soubessem os benefícios da leitura, o mundo seria diferente. — Concordo plenamente. Quem diria que a minha vida seria salva por um trecho de livro e uma cena de filme! Risadas se espalharam pelo quarto gigantesco. Deitei-me no confortável divã de cor vermelho escuro, devorando o livro em poucas horas. Não podia correr o risco de levá-lo comigo.

O confronto


A ntes do entardecer, retornei a casa. Devido à viajem de Mozah após a cerimônia, Emilly se encontrava num estado de nervos deplorável. — Onde está Mozah, Anita? — perguntou a voz vinda das sombras atrás das esculturas. — Como pode ver, não está comigo. — Sua miserável. Não ouse atravessar o meu caminho novamente. — Definitivamente, você está louca. Precisa de ajuda especializada. — Louca, eu? Não me faça rir! Sua ordinária, mimada. Estou farta de ver você usurpar a minha felicidade. — Não pode estar falando sério. Meus pais a aceitaram em nossa família como uma filha, e eu, como uma irmã. Em troca, você se tornou amante do meu ex-marido, roubou todo o meu dinheiro, traindo a minha confiança. Agora, casou-se com Mozah e continua me acusando de ser a culpada dessa situação ridícula. Faça-me o favor, não me importune mais quando estiver sofrendo suas crises psicóticas. — Isso não vai ficar assim, Anita, não dessa vez. Dei de ombros, afastando-me. Ela não me parecia nada bem. Provavelmente pioraria quando descobrisse os segredos daquela casa e a personalidade inacessível de Mozah. — Anita! — gritou, histérica —, ainda não terminei de falar. Vou perguntar mais uma vez, bastarda: Onde está Mozah? Tive vontade de voltar e fazê-la engolir cada palavra. Mas me contive. Emilly sempre fora temperamental: ou as coisas aconteciam à sua maneira ou simplesmente não aconteciam. Tranquei a porta do quarto com a chave, por precaução, afastei um móvel pesado, posicionando-o como uma barreira, caso alguém tentasse abrir a porta. Ansiei o retorno de Mozah. Emilly havia enlouquecido de vez. Qualquer mulher seria consumida pela raiva se o marido a deixasse na noite de núpcias, mesmo que fosse por motivos de trabalho. Comigo não foi diferente, Mozah teve de se ausentar. Mas, Emilly se descontrolou, agredindo a todos e quebrando tudo pela sua frente. Deixei-me cair sobre a cama completamente exausta, consumida


pelo cansaço. Acordei ouvindo batidas na porta, em um sobressalto, perguntei: — Quem é? — Desculpe, senhora, a porta está trancada, aconteceu alguma coisa? — Não foi nada — tranquilizei a mulher, afastando o móvel, recebendo de suas mãos um vestido longo de cor vinho. Aproveitando a ocasião, saí logo em seguida, evitando encotrar com Emilly. Tinha um compromisso inadiável naquela manhã, Valentina havia se inscrito numa escola profissional de mergulho em seu nome, mas a beneficiária seria eu, dessa forma não levantaríamos suspeitas. As aulas eram indispensáveis, precisava saber como usar o equipamento. A vontade de me livrar daquela loucura valia qualquer sacrifício. O mais difícil foi vencer a fobia de mergulhar no escuro com a claridade discreta de uma luz branda que me permitia, no máximo, enxergar o relógio bússola. Mergulhei em um enorme tanque; até aí, tudo bem, mas quando as luzes se apagaram, cedendo lugar à escuridão, entrei em pânico. O silêncio e a solidão embaixo da água chegavam a ser pavorosos, toda aquela escuridão. Não sei explicar, mas apaguei sem perceber, sendo retirada às pressas do tanque. Ouvi Valentina aproximar-se dizendo: “Não vai funcionar, ela não vai suportar”. Quando voltei a mim, estava me sentindo ridícula, como pude falhar no primeiro mergulho? — Você está bem? — quis saber o instrutor. — Já estive melhor — afirmei, levantando as mãos à cabeça, tentando assimilar o acontecido. — Quanto tempo fiquei desmaiada ? — Cinco minutos. — Se não fosse uma simulação, de certo eu estaria mortinha de verdade. Preciso trocar de roupa.--- comuniquei. Na verdade, queria mais era esconder minha cara num buraco. — Não deve se sentir envergonhada, é comum, acontece com 99% das pessoas. A pressão sanguínea cai, ocasionando tonturas e desmaios — garantiu-me o instrutor — seja persistente, tudo vai dar certo. "Deus me livre! Se conseguir sair com vida do falso acidente, mergulhar


jamais será o meu hobby”. Troquei o traje pela roupa seca, indo ter com Valentina na lanchonete. Acho que não vou conseguir — confessei. — Não diga isso, sabíamos das dificuldades. Mas a Anita não desiste fácil, não é verdade? Hoje foi o primeiro dia, dê tempo ao tempo. Vai aprender a usar os equipamentos, tenho certeza. — Tive um ataque de fobia, a escuridão me deixara em pânico, desculpe. — Não se desculpe. Vamos, vou levá-la embora. Por hoje é o bastante. — Irei pesquisar um local adequado para toda essa encenação. Não pretendo permanecer distante da terra firme — afirmei. No segundo dia, saí-me melhor, quero dizer, menos mal. O plano teria de ser executado na escuridão da noite, quando a visibilidade se torna precária. Só de imaginar, tremi o queixo. Três dias, quatro, cinco... Melhorei gradualmente. Emilly, por outro lado, estava muito atarefada fazendo compras enquanto Mozah permanecia ausente. E assim se formam os dias, numa rapidez espantosa. Oito dias depois, quando retornava a casa, Ademir advertiu-me do regresso de Mozah. Meio desajeitado, ele piscou o olho esquerdo arqueando a sobrancelha na direção da casa. Entendi imediatamente. Caminhei depressa pelo longo corredor. — Anita — valha-me Deus, meu nome era mesmo doce, qualquer dia sofreria um ataque cardíaco de tantos sobressaltos. — Mozah— balbuciei, tentando disfarçar o nervosismo. Ele se aproximou, tocando meu rosto e beijando meus lábios suavemente. Ele tinha o poder de me fazer esquecer o tempo com apenas um toque. — Como está minha querida? — Bem, muito bem. Por que esteve tanto tempo ausente? — Negócios inadiáveis. — Entendo, resumindo nada de novo. A sua nova esposa quase enlouqueceu na sua ausência. — Esse problema já foi solucionado. — Já? Mas que idiota sou eu, não devia ter perguntado. — Sim! Da melhor maneira possível, é claro. — Ah, é claro!


Sem dúvidas, resolvido na cama de Emilly. — Depois do jantar preciso ter contigo — comunicou ele, abrindo a porta da sala de jantar. Assenti. Emilly lançou um olhar fulminante, mas permaneceu em silêncio. O jantar fora tão agradável quanto visitar Paris durante uma tempestade. Seguindo o script, enceramos a noite na sala de aperitivos. Mozah ascendeu o fogo da lareira, isso também fazia parte do enredo. — Emilly, tenho um presente para ti, querida. O quê, ele chamou a caça-níqueis de querida? Era mesmo um cafajeste! Sorrindo, levantou-se segurando uma caixa preta de uns vinte centímetros. Droga, de onde estava não conseguia ver! Certamente Mozah encontrou uma maneira melhor de me fazer apreciar o momento. Retirando da caixa um colar maravilhoso — multiplique a palavra “maravilhoso” cem vezes. Uma lágrima teimosa quase rolou pela minha face. Felizmente, contive a danada a tempo. Não senti inveja do colar, havia ganhado vários. Mas, a atenção dedicada a Emilly, me destruiu. Posso afirmar que os olhos dela vibraram de "prazer". O colar valia uma verdadeira fortuna. Um pensamento doloroso me ocorreu: Mozah estava apaixonado. — Mozah, posso me retirar? — Sim — concordou, sem objeções. Não preguei o olho durante toda a noite, imaginando Mozah na cama com Emilly, tão próximo de mim! Eu precisava mesmo desaparecer. Despertei cansada, com os cabelos embaraçados e completamente arasada . Melhor seria agilizar meu plano de fuga o mais rápido possível. Continuar lá, só me machucaria ainda mais.

O Desmaio

T odos os dias pela manhã, eu saia da casa de forma sorrateira, e, aos poucos, arquitetamos um bom plano de fuga. Entreguei meus documentos juntamente com todas as minhas economias nas mãos de Valentina.


Chegamos à conclusão de que a França seria o local apropriado para toda encenação. Mozah adorava velejar; apesar de estarmos afastados, ele não recusaria a um pedido meu. E, nas águas geladas francesas, eu desapareceria para sempre. Naquele manhã , Valentina não me esperava no seu carrinho de golf como de costume. Quem fez isso foi o seu querido marido Omar. Nós nos conhecíamos de vista. — Olá, bela senhora! — sussurrou ele, enquanto lambuzava a minha mão num beijo molhado e demorado. Ninguém merece! Três esposas não eram o bastante para um homem de meia idade? Existem crianças habitando corpos de adultos. Percebi nitidamente o medo da velhice rodando aqueles olhos bonitos e marcados pelo tempo. Cabelos tingidos, barba perfeita, marcas de expressão profundas, algumas suavizadas pelo botox. A velhice do corpo é fato, devemos ser gratos, afinal Deus nos permitiu viver logos anos em cima dessa terra, isso é uma dadiva, não uma maldição. No fundo, compreende o garotão, casou-se com três mulheres, imagine a energia necessária? Depois de lambuzar a minha mão igualzinho a um cachorrinho feliz, Omar finalmente me deixou na entrada da casa. — Bela senhora, infelizmente, tenho de ir trabalhar, não poderei apreciar sua bela companhia. “Vai tarde”. Omar era um homem gentil, mas me poupe. Ele curvou-se, novamente babando na minha mão, depois se virou cinematograficamente, piscando o olho castanho claro acinzentado enquanto se afastava. Ainda bem, finalmente pude enxugar minhas mãos no vestido. — Fofinha o que aconteceu? — Desculpe chegar tão cedo. Ando muito ansiosa. — Não por isso, minha casa é a sua casa. Não se assuste com o Omar, ele está atravessando a idade do lobo, quer mostrar sua virilidade a todo custo — risos. — Vamos conversar no meu quarto. Valentina estava linda, envolta num tecido azul claro meio transparente. Definitivamente ela gostava de tudo aquilo. Ao entrar no quarto, disse-lhe, sem rodeios:


— Mozah está apaixonado por Emilly. — Por que diz isso? — Ontem a noite ele a presenteou com um colar magnífico, e depois só Deus sabe o desfecho da história. — E o que você ganhou? — Nada. — O quê? Agora Mozah ultrapassou todos os limites, quem ele pensa ser? Não pode destratar uma esposa e privilegiar a outra. Isso é inadmissível. Resmungou ela, dando voltas no ar com seu dedo fino indicador. Jamais há vi tão enfurecida. — Que diferença isso faz? Cedo ou tarde, eles dormiriam juntos. — Não há problema nenhum em honrar o matrimônio. Afinal, o marido deve cumprir com as sua obrigação. Mas, presentear uma esposa e deixar a outra lambendo os dedos, é inadmissível. — Não importa, estou partindo. Não pretendo me tornar espectadora desse romance. Ela concordou, ainda furiosa. — Aluguei um barco pequeno , vai ser o seu suporte na fuga. É um senhor de meia idade, um mergulhador aposentado, estará aguardando você na hora combinada. Não esqueça a bússola, a escuridão será tenebrosa. No barco haverá toalhas, cobertor e uma garrafa de chá quente, isso vai manter-lhe aquecida. Quando chegar à costa, terá de partir imediatamente, evitando suspeitas. Também aluguei um carro com um motorista, ele vai levá-la até a estação central, em Paris. Você deve seguir de trem até Barcelona, lá chegando, irá embarcar no navio com destino a Maiorca. Então, minha amiga, você será uma mulher livre nas águas cristalinas espanholas. — Nem sei como agradecer. — Não precisa, estou quitando dívidas antigas. Se hoje estou onde estou, precisei contar com a ajuda indispensável dos meus amigos. Quanto à fuga, paguei todos os gastos; dessa forma ninguém precisará saber o seu verdadeiro nome. É mais seguro, não vamos deixar rastros. Depois enviarei o seu dinheiro de forma rápida e segura. Embora, na minha humilde opinião, seja uma quantia insignificante.


— Andei pesquisando os valores de alguns apartamentos, comprarei algo modesto. — Você decide. Se levasse algumas joias consigo, poderia vendê-las e viver tranquilamente. Certamente, Mozah não tem controle sobre o que lhe foi presenteado. — Não quero nada daquela casa. Nem mesmo as lembranças. Serei livre, dona e senhora de mim — risadas. — Ah, fofinha, com tão pouco dinheiro não vai ser dona de nada, além de si própria — mais risos. Lá estava eu novamente, sentada ao lado de Emilly e Mozah, tentando, sem sucesso, esquivar-me dos olhares. Emilly parecia irritada, felizmente permaneceu calada. Mozah observava atento, como se conseguisse ver através de mim. Senti um desconforto momentâneo, tudo parecia girar ao meu redor, perdi o equilíbrio: "é veneno", pensei antes de apagar. Quando retornei os sentidos, escutei vozes indagando o que acontecera. Senti meu corpo descansar sobre um tecido quente e macio, "morri". Hanna me envenenou: até que a morte não doía o quanto imaginei. — Anita! — a voz de Mozah trouxe-me de volta. O que aconteceu? — perguntei, abobalhada. — Você desmaiou — esclareceu, num tom apreensivo. Nos últimos dias, havia treinado mergulho de forma incessante. Isso deve ter me consumido as energias. Se Mozah desconfiasse de algo, nem seria preciso simular a minha morte. Fingi me sentir pior do que realmente estava, assim evitaria perguntas. — Mandei chamar o médico, ele está a caminho. — Não! — respondi de imediato —, por favor, Mozah, não gosto de médicos. Hoje fez um calor escaldante, devo ter bebido pouco líquido. Não é nada grave, tenho certeza. — Mesmo assim, acho melhor deixar o médico examiná-la. — Não — repeti, numa tom infantilizado —, por favor, fique comigo. Não quero nenhum médico. — Tem certeza? — Absoluta! Continuei, melodramática. Felizmente, deu certo. A visita do


médico foi dispensada. — Tenho um trabalho inadiável; quando terminar, venho ter contigo. — Concordei. Sem imposição, vendo-o se afastar devagar. Segundos depois, ouvi batidas na porta, pensei ser Hanna trazendo chá. Jamais beberia nadinha entregue por suas mãos. O trinco girou devagar , enquanto o rosto de Emilly tomava forma entre a escuridão. — Como está se sentindo? — Saia do meu quarto! — Francamente, fingir desmaiar só para chamar a atenção é mesmo ridículo. — Saia do meu quarto — gritei. Seus olhos passearam pelo quarto, analisando tudo ao seu redor com um sorriso maldoso no canto da boca. — Realmente, você nasceu para ser pobre, Anita. Essas cores berrantes são definitivamente um símbolo de cafonice. Bom gosto é igual ao talento: ou se nasce com ele ou não se tem. — Veja só. Estou surpresa, imaginei que seu talento se resumisse unicamente em encontrar homens dispostos a pagar o débito do seu cartão de crédito. Não consigo assimilar a ligação entre saber tirar proveito das situações e decoração de interiores. Agora, por favor, retire-se. Antes que eu me levante desta cama e empurre você a força. — Não se dê ao trabalho, querida, já estou de saída, esse ambiente cafona me causa tédio. Antes de sair, desabafou. — Fui sua sombra durante muitos anos, aguentei seu fingimento. Mas, irei alertá-la pela ultima vez: saia do meu caminho. Tanto esta casa quanto o amor de Mozah me pertecem. — Chega, estou farta! Peguei um porta-retratos sobre o móvel ao lado da cama, ameaçando rebolar na direção dela. — Sua louca! Isso não vai ficar assim — balbuciou, entes de desaparecer na escuridão do corredor. Adormeci logo em seguida, mas despertei pouco depois, sentindo a presença de Mozah me envolvendo em seus braços. — Como está minha querida? — Está tudo bem, foi um mal estar sem importância.


— Mesmo assim, deve ir ao médico, eu insisto. — Se isso faz você feliz. — Pelos menos, ficarei tranquilo, não saberia viver sem você. — Ontem à noite, você pensava diferente. — Descanse, minha querida, conversaremos sobre esse assunto em outro momento. — Mozah, lembra-se da nossa última visita a Paris? — Sim, claro! — Ficaria feliz de poder velejar novamente, só nós dois. Ele ficou surpreso, mas feliz. — Providenciarei o mais breve possível, estou mesmo precisando de descanso. Agrada-me a ideia de poder estar sozinho contigo — confessou, numa voz contida, enquanto beijava meus ombros. Em poucos dias, Mozah acreditaria na minha morte forjada, de certo me esqueceria no decorrer do tempo. Jamais nos veríamos novamente. Senti-me frustrada por não poder consertar os erros do passado. O lado ciumento e obsessivo de Mozah me fizera recuar, temendo aquele amor inconstante. Jamais duvidei das suas juras de amor, ele me amava a sua maneira. Assim como Hanna o amava a seu modo, e Emilly me odiava por motivos desconhecidos. Sentimentos inexplicáveis e infortunáveis. Não fui amada como um dia sonhei ser, mas não tinha dúvidas de que Mozah me amou do jeito que sabia. Tive vontade de senti-lo dentro de mim mais ultima vez! Afinal, as minhas intenções não eram as melhores do mundo, eu o enganara fazendo acreditar na minha própria morte. — Você faz amor com Emilly e agora jura me amar, por quê? Não faço amor com ninguém além de você, só você me satisfaz, só você. Ele se aproximou acariciando meu rosto com as suas mãos macias. Os beijos começaram nas minhas mãos, depois percorreram o meu braço chegando ao pescoço e por fim à minha boca. Se existia no mundo um beijo mais quente, jamais provei. — Quero você dentro de mim! Tínhamos tão pouco tempo! Eu o amei como jamais amara antes, sua pele quente me incendiava. Deslizei as mãos pelos


seus ombros, sem querer arranhei seu corpo macio e suado. — Mais, eu quero mais, eu preciso de mais.

A fuga

N ão

pude cumprir o horário da aula de mergulho por acordar atrasada no seguinte, o despertador marcava nove horas da manhã. — Ah, não! — cobri o rosto com as mãos. Precisava telefonar e avisar Valentina rapidamente, tomei uma ducha e me vesti, saindo apressada do quarto. Ai, que merda! Senti uma dor dilacerante debaixo dos meus pés. Havia pisado em cacos de vidro. Devagar, retornei a cama, sentei-me, fazendo esforço para não gritar ou berrar. Deus, como doía, um estilhaço de dois sentimentos penetrara inteiramente no meu pé fazendo o sangue jorrar livre. Gritei pedindo ajuda, havia sempre alguém na casa cuidando da arrumação. — O que foi, menina?— perguntou a mulher, entrando assustada. Pena a dor ter me tirado a felicidade de alguém me chamar de menina. — Machuquei meu pé, preciso fazer curativos e estancar o sangue. — Sim, senhora, irei buscar a maleta de primeiros socorros agora mesmo. Suspendi o pé, tentando estancar o sangue. — O que aconteceu? — Emilly estava de pé próximo à porta, com os braços cruzados, fingindo-se surpresa. — Foi você! — Não me lembro de ter deixado nem um copo cair. — Maldita, infeliz, saia do meu quarto! — Isso é só o começo — alertou ela, num tom de ameaça, antes de deixar o quarto sorrindo. A moça retornou com uma mala de primeiros socorros, abarrotada de instrumentos suficientes para se realizar uma cirurgia. — Telefone para Valentina, peça que venha aqui, por favor.


— Sim, senhora. Limpei o local, estancando o sangue com gases e algodão. Minutos depois: — O que aconteceu, fofinha? — Emilly arquitetou uma armadilha cheia de cacos de vidro. Pisei descalça sobre eles. — Ela está louca. Você tem de contar a Mozah. — Não posso, melhor deixar as coisas como estão. Curvando-se, sussurrou:— Então, conseguiu convencer Mozah a velejar? — Sim! — disse — evitando olha-la nos olhos. --- O que foi? Vocês dormiram juntos? --- Sim! Assumi. — Não a culpo por isso, sinceramente eu não conseguiria resistir a um homem tão... você sabe —risos. — Não me diga que desistiu da fuga! — Jamais, vamos velejar dentro de uma semana. Mas não tenho certeza se posso mergulhar com o pé machucado. — Vamos, vou levar você ao médico, ele vai fazer com que fique boa rapidinho. Emilly está fora de controle, hoje foram cacos de vidro, amanhã será o quê? — Ela sofre de algum transtorno psicótico. Tenho certeza. Isso me assusta. — Fique atenta, e mantenha distância. Não sei quais são os problemas esquizofrênicos dessa moça, mas de uma coisa tenho certeza: ela é perigosa. Três dias depois pude finalmente retomar as aulas de mergulho. A casa permanecia num silêncio secreto. Emilly parara de importunar. Isso despertou mais suspeitas, deixando-me num estado de alerta permanente. Mozah passou a dormir comigo todas as noites seguintes. Não fiz objeções, gostava de tê-lo; e, sabendo que tudo aquilo estava determinado a ter um fim, o amava com a sede de quem se despede. Os planos não haviam mudado. A semana passara rápido. Enquanto nós nos preparávamos para a viajem, a previsão do tempo anunciava um final de semana de muito sol. Embarcamos na primeira classe de um Boeing, saindo dos Emirados, com destino ao aeroporto principal, em Paris. Um rapaz simpático e elegante me serviu um aperitivo durante o voo, por descuido deixei pingar algumas gotas sobre a mesa, o moço se desculpou:


— Não se preocupe, deixe-me ajudar — disse o rapaz, sorrindo ao mesmo tempo em que secava os respingos com uma toalha branca. — Se pretende permanecer nesse trabalho, tire os olhos dela — ameaçou Mozah, trazendo perplexidade no rosto do jovem rapaz. Honestamente, queria encontrar um balde ou qualquer outro objeto onde pudesse enfiar a minha cara. — Mozah, por que fez isso? — Ele estava praticamente pulando no seu decote. — Não estou usando decote nenhum. — Não importa! Um funcionário tem de se manter no seu devido lugar. — Exatamente isso, ele estava cumprindo seu trabalho e sendo gentil, secando a bagunça feita por mim. Uma lembrança me chegou à memória: foi por motivos tolos iguais àqueles que o nosso relacionamento se transformara em pó. — Desculpe — desabafou —, você tem razão, foi desnecessário, não consegui me controlar. Mozah não se desculpou, mas presenteou o jovem com uma gorda gorjeta. Mozah definia o mundo em quatro palavras: “todos têm um preço”. Devia ter vestido a burca. Certamente seria poupada daquele vexame. Permaneci calma, sem esbravejar ou xingar por aquele comportamento idiota e machista. Precisava poupar energias para o que me vinha pela frente. Desembarcamos em Paris às oito horas da manhã, o motorista esperava por nós, nos cumprimentando enquanto ele abria a porta da Limosina. Evitei sorrir, temendo a explosão de Mozah. O céu de Paris estava nublado, anunciava um dia com grandes possibilidades de chuva; mais uma vez a previsão do tempo falhara. Queira Deus que seja apenas respingos de água, não estou disposta a enfrentar os perigos do oceano em meio a uma tempestade — pensei. Escondi a roupa de mergulho na maleta de maquiagem. Valentina havia pensado em tudo, só precisava seguir à risca todo o plano. O tempo está desfavorável — concluiu ele, estudando o céu nublado. — Devemos adiar ? — Talvez, o mar é sempre imprevisível. Nem precisava me lembrar.


— O que faremos, então? — Vamos velejar próximo à costa, é seguro. Seguro era uma ótima palavra. Mozah dispensou os funcionários, afirmando: — Não vamos permanecer muito tempo velejando, estão livres o restante do dia. O capitão de cabelos grisalhos concordou, feliz. Mozah gostava de velejar sozinho, por esta razão, comprara um barco de tamanho médio, uns trinta metros, aproximadamente. Dispúnhamos de uma cozinha pequena, bem equipada, banheiro, ducha e um quarto aconchegante, mobiliado com móveis de época. Prático e confortável. Esperei impaciente uma oportunidade de esconder as nadadeiras. Camuflei o relógio bússola debaixo de pulseiras grossas de material sintético. Depois de inspecionar o barco, Mozah soltou as correntes que o mantinham preso. Vesti um jeans claro, camiseta branca e um casaco na cor creme. Sentei-me na proa, de onde podia ver Mozah . — Anita, vou atracar em um lugar calmo, quero mergulhar. — Estou um pouco enjoada, importa-se que eu fique? — Certamente que não, querida. Três horas da tarde, atracamos em um lugar isolado, sem terra à vista. O mar estava calmo, mas o céu permanecia escuro encoberto por nuvens densas. Aproveitei o tempo em que Mozah esteve submerso para revisar todo o plano. Exatamente às seis horas e quinze minutos, eu deveria estar na água. O barco de apoio estava próximo, na direção leste, teria de nadar vinte minutos. Provavelmente, Mozah permaneceria no mesmo local, tentando me encontrar, isso me daria tempo de escapar. Tive medo de falhar, de não encontrar o barco de apoio a tempo, de morrer, concretizando um plano louco.

O Barco

L embrei-me de Valentina recomendar: “deixe-o zangado”. Quando Mozah perdia a cabeça eu me apavorava. Na primeira distração eu me


jogaria na água. Tinha de nadar rápido e ganhar uma distância segura. “Meu Deus, as horas não passam”, pensei apreensiva. Mozah emergiu depois de quarenta minutos submerso embaixo d'água. — Não é um bom momento para mergulhar — disse, retirando o traje de mergulho. — Ah, sério? Por quê? — tentei disfarçar o pânico na voz. — As correntes marítimas estão muito fortes. --- E o que isto significa exatamente? — Quer dizer que podemos ser arrastados para lugares muito distantes. “Valha-me, Deus!”, nada disso fora previsto no plano. — Não se preocupe, estamos seguros no barco.- afirmou. Como pude ser tão estúpida a ponto de concordar com aquele plano idiota. Mas era tarde demais para desistir. Fui ao banheiro vestir a roupa de mergulho. Sobre ela, joguei um vestido preto comprido e um casaco sintético de plástico azul. Além das cem vezes que chequei o funcionamento da bússola. O cheiro de camarões fritos invadiu minhas narinas. — Decidi preparar o jantar, se não se importa. — Não me importo, o cheiro está ótimo. Jamais imaginei ver Mozah realizar uma tarefa doméstica. Bastava um estalar de dedos e tudo lhe chegava de mãos beijadas. — Por que vestiu essa roupa? — perguntou, desconfiado. Mas logo voltou sua atenção aos camarões. Cinco e quarenta e cinco, subi ao convés sentindo alguns pingos de chuva cair sobre mim. “Onde está a lua?”, me perguntei “não vejo nada nessa escuridão”. Chequei novamente a bússola, por via das dúvidas. — Anita! — Sim! — Vai chover, vamos jantar no interior do barco — avisou-me. Dezesseis horas: “É agora ou nunca”. Fui até a parte traseira, posicionando-me: — Já estou cansada de tudo isso Mozah. — A que você se refere? — indagou, fazendo menção de se aproximar. Elevei a mão direita recusando a proximidade.


--- Não consigo saber mais quem sou. Você me transformou numa boneca de trapo, coberta de luxo. — Você não pode estar falando sério. Realizei todos os seus sonhos, entreguei-lhe todo o meu amor. O que mais deseja de mim? — Mozah— pronunciei, trêmula —, você jamais realizou os meus sonhos. — Anita, por favor, não faça isso, nós estamos felizes. — Jamais fomos felizes. Eu estou presa — gritei — presa nessa sua fantasia louca. Não posso conversar sem a sua permissão, nem olhar para os lados, ou mesmo escolher o que vestir. Sou prisioneira das suas vontades. E você chama isso de amor? — Você poderá vestir o que quiser, providenciarei, prometo. Cometi erros, mas estou tentando repará-los. Quero ser o homem dos seus sonhos. Só preciso de uma chance. — E como pretende reparar os teus erros grotescos? Dormindo com Emilly? — Depois que fizemos amor, jamais desejei outra mulher que não fosse você. — Mentira! Você é um manipulador mentiroso. Eu não sou sua, eu não pertenço a você, seu cretino miserável! — O que você bebeu, afinal? Isso é loucura. — Se existe alguém louco aqui, é você. — Vou jantar, se preferir, pode continuar na chuva. — Você e seu pai são iguais. — A que você se refere? Pude ver o brilho do ódio atravessar-lhe os olhos, isso me deixou em pânico. — Seu pai assinou sua mãe. Minhas mãos tremiam. Elevando a mão ao cabelo, visivelmente impaciente, ameaçou: — Se voltar a tocar nesse assunto, vai se arrepender. — Tenho certeza disto. Vou morrer igual Alima ? Com passos decididos, ele caminhou na minha direção. Era a hora. Jogueime , sentindo o choque térmico da água fria. Nadei rápido em direção à boia, antes dele conseguir ligar os refletores. Peguei os objetos de mergulho escondidos; depois de colocá-los desapareci na escuridão. Seus gritos de desespero ecoaram na imensidão do mar, enquanto


eu me afastava mais e mais. Precisava chegar ao barco antes de a guarda costeira ser acionada. E, assim, nadei como louca. A baixa temperatura tem como efeitos colaterais: alucinações, diminuição do raciocínio e a desaceleração das batidas cardíacas. Emergi tentando ver a luz do pequeno barco, mas nada havia lá além da escuridão. Perdi de vista o barco de Mozah, a chuva dificultava a visibilidade. Entrei em pânico. Verifiquei a bússola, estava no local certo, mas não existia barco algum, nadei por mais cinco minutos. O frio aos poucos foi levando a minha lucidez. Onde está o barco, Deus? Não conseguia enxergar absolutamente nada, algo estava errado. Continuei nadando na direção indicada pela bússola, as câimbras começaram, aumentando o meu desespero. Fui perdendo os sentidos gradualmente.

O Resgate —

E stá tudo bem, querida? Ainda bem que encontrei você a tempo.

Pestanejei, tentando enxergar melhor. Era um senhor magro, de meia idade, com um chapéu tipo touca e fumando um charuto “alucinação". Quem no seu juízo perfeito fumaria um charuto na chuva em meio a uma tempestade? —Tem chá quente na garrafa, se a menina quiser beber. Olhei ao redor de mim, estava envolta em cobertores secos e quentes. — À sua direita tem uma bolsa com roupas secas — avisou ele, ligando o motor barulhento e tragando a fumaça fedida do charuto. — Obrigada! Estamos longe da costa? — Não! Mais alguns minutos e estaremos em terra firme. A menina errou a direção, tem sorte de eu conhecer essas águas. Sei exatamente para onde a correnteza arrasta os corpos. Credo! O barco, na verdade, mais parecia uma canoa de três metros de cumprimento, dois remos de madeira apodrecida, uma boia branca com a


frase escrita "Eu sou Netuno" e um motor tão barulhento que podíamos ser abordados pela guarda costeira a qualquer momento. Àquela altura Mozah já devia ter acionado toda a guarda costeira francesa, o quanto antes chegássemos à terra firme, melhor. Senti-me péssima por tramar aquela maldita farsa, mas não tive escolha. Os minutos pareciam uma verdadeira eternidade. — Pronto, menina, está em terra firme — comunicou o homem do charuto molhado. Melhor sumir antes que alguém rastreie seu paradeiro. Agradeci, pegando a bolsa com os objetos, e indo depressa na direção do carro alugado por Valentina. Quatro horas mais tarde, chegara à estação, em Paris, e aguardava impaciente a chegada do trem com destino a Barcelona. Finalmente livre. Descansei em um dos bancos da estação; para ser honesta, dormi, e certamente também ronquei. Apreciei a cansativa viagem rindo por dentro. Desembarquei em Barcelona, seguindo para o porto, apanhar o navio com destino Maiorca. Comprei um telefone móvel, havia prometido entrar em contato com Valentina. Criamos um código, enviei um sms com a seguinte frase: o diamante foi vendido. Não me pergunte o significado, pois não sei. Aluguei um quarto, num hotel modesto da cidade, localizado a dez minutos de distância da praia. Paguei antecipadamente a estadia, em dinheiro. Já era noite, precisava descansar e recompor as energias. Despertei às onze horas da manhã, sofrendo de uma forte dor de cabeça e mal-estar. Permaneci no quarto do hotel, optando por pedir uma refeição leve. Acordei menos indisposta no dia seguinte, tratei logo de tomar uma ducha e sair do hotel, queria me familiarizar com a cidade de ruas limpas e casas brancas.Maioca é uma enorme ilha com praias paradisíacas e águas cristalinas. Um cenário muito parecido com o filme Lagoa Azul. A única diferença são os milhares de turistas disputando um pequeno espaço nesse paraíso. Em algumas regiões, o calor é intenso e o sol bilha durante quase todo o ano. As ruas são cheias de altos e baixos, ladeiras. Maiorca, Cala D'or dispõe de vários restaurantes, bares, lojas de suvenires e uma infinidade de outras atrações.


Há anos eu não sentia a sensação boa de poder escolher e comprar as minhas próprias roupas. Num impulso, adentrei numa loja, comprando várias calças jeans e blusas no estilo camiseta. Só mesmo alguém que tenha vivenciado experiências iguais às minhas, pode entender a alegria de um momento tão comum e ao mesmo tempo importante como este. Eu estava livre, era novamente a dona do meu destino. Lembro-me de estar pensado nisso antes de eu apagar, quero dizer, desmaiar. Primeiro, o mundo girou, depois tudo escureceu. — Consegue me ouvir, senhorita? — Abri os olhos devagar, sem entender absolutamente nada. — A senhorita desmaiou, estamos cuidando de tudo, não se preocupe. Não é nada grave! Mandei fazer alguns exames, recomendo sua permanecia do hospital ao menos por um dia. Concordei, afinal, não tinha outras opções. Ao movimentar a mão, senti o cordão do soro repuxar minha carne; dardejei o olhar pelo espaço, a cortina branca separava minha cama da do outro paciente ao lado. Uma enfermeira simpática de olhos grandes, castanhos e sorriso gentil, surgiu, oferecendo-me um prato de sopa aguada .— Não é muito saborosa, mas vai ajudar a repor suas energias. — Obrigada! — Você é americana? — Não, nasci em Paris — respondi — ajeitando-me na cama, tentando tomar a sopa. — Não se preocupe, está em boas mãos, o doutor Demetrio é o melhor — garantiu ela, dando palmadinhas leves no meu ombro, antes de ir embora. Voltei a dormir. Acordei apenas às cinco horas da tarde me sentindo revigorada. O soro faz milagres. A enfermeira simpática apareceu junto ao doutor Demetrio. — Ora, como está a nossa paciente? — Sinto bem melhor. — Recebi seus exames —comunicou ele, enquanto checava alguns papéis — sua saudade exige cuidados. Ainda mais agora. — Cuidados? — Sim, você está com deficiência de cálcio, para uma grávida isso não é


nada saudável. Pigarreei. — Desculpe, mas acho que há um equívoco. — Quando foi seu antigo período menstrual? — Bom, na verdade, sempre foi irregular. O meu antigo médico garantiu ser impossível engravidar antes de realizar um bom tratamento. — Então, agora temos a certeza de que o seu antigo médico errou. — Não tenho condições de ser mãe agora, minha vida está uma loucura. Um caos. Ah, Deus, como vou cuidar de uma criança? — Senhorita Anita, na verdade não é uma criança — ele fez uma pausa retórica — são duas. — Duas? — Sim, duas — repetiu. Um turbilhão de pensamentos passou pela minha cabeça. Duas é mais que uma! Onde nós iríamos morar? Como poderia sozinha cuidar de duas crianças? Afinal, criança é assunto muito sério, não se pode gerar filhos sem um bom planejamento. A palavra “dois” ecoou nos meus pensamentos durante longos minutos, até a enfermeira simpática me entregar meus objetos pessoais. — Querida — disse, num amável —, tudo vai ficar bem! --- Não tenho estabilidade alguma, estou recomeçando uma nova vida. --- Então, pretende morar aqui definitivamente? — Talvez! — não afirmei. Conversávamos em espanhol, ela chamava-se Suzana pude ler no seu crachá. —Telefonei, solicitando um táxi, em pouco tempo poderá descansar no aconchego de casa. — Obrigada, Suzana! Retornei ao hotel com o número "dois" tinindo na minha cabeça. Agasalheime debaixo das cobertas, ligando a televisão, na tentativa inútil de amenizar a solidão. Dois... dois. Acordei, e fui logo me lembrando do no número "dois". Tomei uma ducha quente, descendo em seguinda ao pátio para tomar o café da manhã. Comi por três. Os problemas não inibiram o meu apetite. Enquanto lanchava, fiz uns rascunhos num bloco de papel, avaliando de quanto dinheiro


eu dispunha. Por sorte, as casas em Maiorca não eram tão caras quanto imaginei. Minhas ecomias seriam suficientes para comprar uma boa casa e um carro velho, enferrujado. Meu problema chamava-se "falta de tempo", como poderia trabalhar durante todo o dia e cuidar de dois bebês? Jamais seria negligente com os meus filhos, afinal, eles não pediram para nascer. Comprei três jornais, dando início à procura de um imóvel adequado e bem localizado. Um mês mais tarde, depois de visitar aproximadamente nove casas, encontrei o lugar perfeito. A casa dos meus sonhos. Enorme, de dois andares, com paredes brancas, janelas de vidro e madeira pintada da cor azul e um jardim simplesmente deslumbrante ao redor. Três arvores faziam-lhe sombra. Embaixo de uma delas, existia um banco de madeira antiga rodeado de flores. A sala era um pouco antiquada, com seu piso de cerâmica meio amarelada, mas em ótimo estado. A casa também dispunha de uma lareira de tijolos, típicos da região. Três quartos, sala de jantar, dois banheiros, uma cozinha espaçosa e bem iluminada. Os dormitórios ficavam no andar de cima, em um deles estava uma porta de entrada para uma varanda magnífica, repleta de plantas. — A senhorita gostou? — perguntou o corretor, Miguel, um homem de altura mediana, olhos claros, cabelos espessos e traços que me fizeram recordar do filme O Gladiador. — Impossível não gostar. — É perfeita. Acredite não estou dizendo isso pelo fato de ser o corretor. Sonhava em comprá-la para mim —confessou — mas possuo algumas propriedades, e infelizmente não pude. Os clientes que a viram antes de você estão tentando levantar a quantia junto ao banco. Ela pertencerá ao primeiro que conseguir o empréstimo. —Quero comprá-la. —O quê? Tem certeza? —Sim. —Honestamente, estou feliz em frechar a venda, mas não posso fazer reservas. Se está pensando em pedir um empréstimo, não garanto exclusividade.


—Gostei da casa. Não estou reservando, nem irei pedir empréstimo. —O que a traz a este lugar? — perguntou ele, curioso. —Quero apenas viver no seu país, aproveitar o sol e a beleza das águas cristalinas. Ele passou a mão entre os cabelos e fez uma expressão que indicava: ela falou, mas não respondeu. —Você trabalha em alguma empresa estrangeira? —Não! Nem mesmo tive tempo de procurar emprego. Primeiro pretendo cuidar do assunto da compra. Por isso desejo agilizar, se possível. —Sim, claro! Resolverei isso hoje mesmo — afirmou, entregando-me o contrato —,leia com calma, aguardo o seu telefonema. Qualquer dúvida, ligue. — Obrigada! Li e reli o contrato várias vezes antes de assinar. Ao entardecer, fui caminhar na praia, isso havia se tornado rotina. Estendi a toalha vermelha na areia branca, sentando-me sobre a mesma, enquanto admirava o azul mar. Meus pensamentos foram muito além do oceano. Como estaria Mozah? Será que ainda pensava em mim? —Senhora, aqui está a sua água de coco. —Obrigada! —era a garçonete. Mozah jamais conheceria seus filhos, nem as crianças saberiam nada sobre o seu pai. Ele jamais me perdoaria por tê-lo traído, simulando minha própria morte. Certamente, tiraria as crianças de mim, encarregando-se de fazer-me sofrer. Nem queria imaginar essa possibilidade. A compra do imóvel foi oficializada em cartório na semana seguinte. A casa dos meus sonhos finalmente era minha. Comprei também um carro velhinho de motor barulhento, vez por outra, ocorria pane no circuito elétrico travando as portas.

O Recomeço

D ois meses se passaram até que a casa fosse devidamente


mobiliada, com um cuidado especial no quarto das crianças. Também tive a sorte de encontrar um trabalho num restaurante em frente à praia, o salário não era nem um pouco atraente. Mas depois do nascimento das crianças, eu procuraria encontrar algo melhor. Admirar o por do sol tornou-se para mim uma rotina necessária. Numa bela tarde de uma quinta feira depois do trabalho, desci as escadas do hotel rumo à praia. Como num ritual cotidiano, estendi a toalha vermelha sobre a areia branca e fina, depois me sentei devagar, andava muito indisposta e com quilos extras adquiridos. Todos os dias, perguntava-me como estaria Mozah. Uma pergunta impossível de ser respondida; depois de tudo o que eu fizera, precisava me manter distante. Não era justo, mas não tive outra opção. Retirei da bolsa uma garrafa de água, bebendo um gole para matar a cede daquele dia quente. — Anita! Meu coração pulsou acelerado. — Sofri muito, quando pensei que estivesse realmente morta. Mozah! Reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo. Continuei imóvel. Ele se aproximou, ficando de pé ao meu lado. Aparentava mais magro e abatido. Vestido numa calca preta, blusa branca e uma gravata na cor vinho. Permanecendo com olhos fixos no mar, perguntou: — Você me odeia, Anita? — Não ! — foi tudo o que consegui dizer. — Você arriscou sua própria vida para fugir, ir embora. — Mozah, você não me deixou escolha. O que pretende fazer comigo agora? Se vingar ? — Não sou nenhum assassino — respondeu com um sorriso forçado. Farei pior, minha querida: esquecerei você para sempre. — O que isso significa? — balbuciei. — Exatamente o que entendeu. Darei o divórcio e você será uma mulher livre


e rica para desfrutar a sua vida como preferir. --- Isso e um blefe? — Não. Nunca falei tão sério em toda a minha vida. — Por que não concordou antes com o divórcio? — Eu tive esperanças que com o decorrer do tempo você aprendesse a me amar. Mas foi um engano. Cometi erros, e, tentando repará-los, piorei as coisas ainda mais. — E o seu casamento com Emilly? — Foi uma farsa, jamais dormi com Emilly, apenas paguei-lhe pelo seu silêncio. Eu costumo dizer que todos têm um preço. E não estava engando. — Por quê? — O seu preço é a sua própria liberdade, se eu tivesse compreendido isso antes, as coisas teriam sido diferentes entre nós. — Você está me dizendo que casar-se com Emilly foi uma farsa? — Desespero! Pensei que isso a deixaria enciumada. Mas novamente me enganei. Senti muita saudade sua, fiquei desesperado, completamente fora de mim. Até descobrir a farsa de sua morte. Valentina havia me traído, não tinha duvidas. — Como descobriu a verdade? — perguntei, com os olhos encharcados de lágrimas, enquanto ele se abaixava, sentando ao meu lado. — Frederico me procurou, falando sobre o seu plano de forjar a própria morte. — Bastardo, como ele teve a coragem? —Todos têm um preço, minha querida. Ele estava endividado, precisando de dinheiro. Não foi difícil. — Mozah, eu sinto muito. — Isso já não importa mais. Entrarei em contato com os meus advogados hoje mesmo, em dois dias estaremos divorciados. Desculpe não ter sido quem você sonhou. — Senti sua falta — confessei. — Anita, se nós não tivéssemos errado tanto, teríamos sido muito felizes. Mas, agora é tarde demais. Esta é a última vez em que nos veremos. — Você deixou de me amar? — Jamais — disse ele, fazendo menção de se levantar.


— Fique um pouco mais — pedi, tocando na sua mão. — Desculpe, é tarde demais. — Mozah, todos cometem erros, não é você quem diz ? Ele parou, virando-se devagar: — Não desejo amar uma mulher capaz de fingir a própria morte para se ver livre de mim. — Eu queria ser livre! Para escolher a quem amar. E eu amo você. — Isso é mesmo verdade? — Sim! Quanto mais ele se aproximava, mais eu sentia necessidade de abraçá-lo, de estar com ele. Esquecia-me de tudo quando ele me envolvia em seus braços. Ele tinha o poder de fazer parar o tempo, de fazer parar o meu mundo. — Você deseja voltar comigo para Dubai? — É tudo o que eu mais quero na vida. — Eu amo você Anita ! Quase morri sentindo sua falta. — Nós quatro seremos muito felizes, tenho certeza. — Nós quatro? — Sim! Agora somos quatro — afirmei pondo a mão sobre a barriga. — Nós seremos muito felizes, eu prometo – disse ele enquanto me abraçava.

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Lany van dijk deixada para trás #2 obsessão  
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