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Marido de Aluguel Anne Miller


Sumário Prólogo O Homem Perfeito — Capítulo 1 Plano B — Capítulo 2 Ligação — Capítulo 3 Mau Humor — Capítulo 4 Encontro Virtual — Capítulo 5 Fechando o Negócio — Capítulo 6 O Jantar — Capítulo 7 Exclusivo? — Capítulo 8 Crianças — Capítulo 9 Depois do Beijo — Capítulo 10 Confiança — Capítulo 11 Negócios — Capítulo 12 Os Hoffmann — Capítulo 13 O Último Beijo — Capítulo 14 Mudanças — Capítulo 15 Verdades Não Ditas — Capítulo 16 De Volta a Escola — Capítulo 17 Pablo — Capítulo 18 Marido de Aluguel — Capítulo 19 O Retorno — Capítulo 20 Explicações — Capítulo 21 Queimando — Capítulo 22 Chuveirada — Capítulo 23 Pedras no Caminho — Capítulo 24


Fique Comigo — Capítulo 25 Epílogo Agradecimentos Copyright


Quando comecei a escrever “Marido de Aluguel” — o meu primeiro romance — eu não imaginava que ele pudesse se tornar tão popular no Wattpad, não da maneira que se tornou. O livro já ultrapassou a marca de 170 mil visualizações. E tudo isso em menos de quatro meses na plataforma. Desta forma, seria extremamente injusto não dedicar esse livro a esses meus leitores, as pessoas que começaram junto comigo. Obrigado por tudo.


Prólogo

Eu cresci ouvindo que o maior sonho de uma mulher — ao menos, da maior parte delas — era, definitivamente, ter o casamento perfeito — com o homem perfeito —, no entanto, a única coisa que eu almejava era o cargo de editora chefe na revista Global, o que me tornava totalmente estranha, de acordo com a sociedade. Mas talvez eu fosse mesmo estranha e isso nunca foi um problema pra mim. Pelo menos, até a manhã daquela segunda-feira, no momento em que o meu supervisor se colocou à minha frente e cuspiu todas aquelas palavras na minha cara. — O que você disse? — perguntei a ele, ainda não acreditando naquela grande bobagem que havia saído da sua boca. Respirei fundo, tentando manter a calma, enquanto o meu olhar continuava fuzilando o centro do seu rosto, sem me importar com o que ele pudesse fazer. Quando percebi que ele não iria repetir, tornei a falar. — Você não pode estar falando sério. Ele levantou as mãos, rendendo-se a mim. — Você é, sem dúvida alguma, a melhor funcionária que eu já tive em anos nessa revista. Mas... mas eu tenho que ser sincero e te falar a verdade, aquilo que ninguém além de mim quer dizer. Gabriele, eles não vão te oferecer o meu cargo. Naquele instante, tudo o que eu mais quis foi arrancar a cabeça de Gaspar com as minhas próprias mãos. Nunca pensei que pudesse chegar a odiar aquele idiota — não da maneira que eu o odiei naquele instante. Eu não conseguia me conformar com o fato de não ganhar aquilo que, por direito, deveria ser meu. — Eu tentei... antes mesmo de eu me demitir, falei com Frederico e te indiquei para esse cargo, eu disse a ele que você era a melhor, a mais capacitada para me substituir. Mas tudo o que ele disse, foi que nunca daria um cargo assim para uma mulher... uma mulher solteira. Era ridículo e totalmente injusto comigo, uma pessoa que passou anos se dedicando, esperando por aquele momento. E, quando ele finalmente chegava, tudo era arrancado dos meus braços com brutalidade. Não havia como compreender. Eu não ganharia o cargo porque era uma mulher e, pior do que isso, sem um marido por trás


da minha imagem, passando uma espécie de confiança para uma sociedade extremamente machista. Era como se eu não tivesse um valor, pelo menos, não sem um homem ao meu lado. — Então, você está supondo que se eu fosse uma mulher casada, aquele machista me daria o cargo? Gaspar riu, ainda encarando o meu rosto, antes de responder: — Eu não estou supondo, estou afirmando. Você é perfeita para o cargo e Frederico não tem como ignorar isso. Mas sem uma aliança de casamento no dedo ou, no mínimo, a promessa de uma, ele não vai te promover. Sentei-me na cadeira ao seu lado e encarei o piso branco, sem a mínima ideia do que responder a ele. Não foi nada fácil assistir a todas as minhas esperanças serem esmagadas daquela forma. — Eu não sei o que dizer... — Mas eu sei — disse ele, interrompendo-me. — Diga um “muito obrigado pela dica Gaspar, você é incrível”. Eu sei que você está namorando, só precisa convencer o cara a te propor em casamento e, caí em entre nós, isso não vai ser tão difícil. E, no fim das contas, Gaspar estava certo a respeito da proposta de casamento. Não seria nem um pouco difícil conseguir fazer o meu namorado me propor em casamento, seria completamente impossível pelo simples fato de ele, na verdade, ser gay.  


O Homem Perfeito — Capítulo 1

Depois de um dia cansativo de trabalho, tudo o que eu mais gostava de fazer era chegar em casa e me sentar no sofá da sala, onde eu colocaria o notebook em meu colo e começaria a editar um artigo que escrevi para a revista. Um artigo que, infelizmente, não teria nem a chance de ser publicado, como de costume — pelo menos, até que eu assumisse o cargo de editora chefe. E, sim, escrever sobre coisas das quais eu não poderia publicar era totalmente deprimente, mas era o que eu gostava de fazer. Durante toda a minha vida, eu sempre coloquei o meu trabalho na frente de todas as outras coisas existentes nela e os homens, definitivamente, não eram uma exceção. O meu plano sempre foi muito simples; eu deveria me dedicar ao meu trabalho na revista, àquilo que eu realmente gostava de fazer e, se eu seguisse por esse caminho, tudo daria certo para mim, contanto que eu não colocasse nenhum homem como o centro do meu universo. E pensar que toda essa minha estratégia desmoronou tão fácil. Entretanto — apesar de tudo —, existia um único homem que quase conseguia me dobrar. O meu namorado — como Gaspar havia lembrado bem — com toda a certeza era esse homem perfeito. Só existia um pequeno detalhe que contrariava toda essa sua perfeição. No momento em que abri a porta da minha casa, eu fui contemplada com uma cena extraída do início de um pornô — um gay, por sinal —, uma cena em que um garoto beijava a boca de Eduardo — a pessoa que todos do meu trabalho conheciam como o meu namorado — em meu sofá. Eduardo não fez cerimônia para retribuir o beijo quente que havia acabado de receber. E, enquanto enfiava a sua língua na boca do outro garoto, ele agarrou o menino magrelo e o colocou em cima de seu colo, dominando-o completamente. Sim, o meu namorado tinha um namorado. Eduardo encarou o meu rosto e esticou os seus lábios em um sorriso mais que perfeito. Alguns segundos depois, o garoto em cima dele virou o seu pescoço e cumprimentou-me também, da mesma forma gentil que a pessoa a sua frente fizera. — Vocês dois não transaram no meu sofá, não é? — perguntei a eles, torcendo para que a resposta fosse um enorme “é claro que não transamos”. Com o silêncio dos dois, eu obtive a


minha resposta. — Incrível... mas eu vou logo avisando, se vocês mancharam alguma coisa, vão limpar com a língua. Eduardo se limitou a continuar sorrindo. Por outro lado, Kauan — o garoto no colo de Eduardo — afastou-se do meu “namorado” e caminhou em minha direção, para um abraço forte e, infelizmente, inevitável. Eu poderia muito bem acrescentar um “forçado” na descrição do abraço. — Eu já estava até com saudades – disse ele, ainda me abraçando, como se eu fosse a sua pessoa preferida no universo, o que era uma completa mentira. Antes de se afastar, Kauan completou, mantendo a sua falsidade em um nível bem alto: — eu espero que você não se importe por eu ficar aqui essa noite. — A casa é sua — respondi, no momento em que ele se afastou de mim, também com o modo “falsiane” ligado. – E saiba que pode ficar o tempo que quiser. Você é sempre bemvindo aqui em casa. Por mais que não aparentasse, eu não era a dona do apartamento. A pessoa que havia comprado o apartamento e todas as outras coisas dentro dele não era eu, mas Eduardo. Foi ele quem me convidou para morar ali e não o contrário, o que significava que, na verdade, o namorado dele possuía muito mais poder dentro daquela casa do que eu. O meu melhor amigo levantou-se do sofá e caminhou em minha direção. Correção, Eduardo caminhou na direção do namorado dele e o abraçou por trás. Após beijar o pescoço de Kauan, ele finalmente voltou o seu olhar para mim e encarou-me por alguns segundos, com uma expressão de paisagem, enquanto me analisava. — Você está muito estranha hoje — observou ele, rapidamente. Edu franziu a testa e continuou queimando o meu rosto com o seu olhar. Não demorou muito para que ele perguntasse: — aconteceu alguma coisa que eu deva saber? Ele, definitivamente, era a pessoa que mais me conhecia em todo o universo. Se colocassem Eduardo de um lado e a minha mãe biológica de outro, em um programa de perguntas e respostas sobre mim — um De Frente Com Gabriele, dois ponto zero —, Eduardo ganharia sem nem se esforçar. Mas não que a minha mãe fosse concordar em participar de um programa em que ela não fosse à atração principal. — Eu... eu acho que preciso me casar, Edu — disse a ele, em um tom sério, com o


olhar fixo em seus olhos castanhos claros. Com um nó enorme na garganta, continuei a falar: — eu não acredito que vou dizer isso, mas eu preciso que você se case comigo. Respirei fundo e continuei sustentando o meu olhar em sua direção, enquanto esperava pela resposta do meu melhor amigo. Mas o que aconteceu em seguida foi completamente diferente daquilo que eu havia imaginado. Não houve nenhum abraço seguido por um “é claro que eu te ajudo, somos irmãos, não é?”. — Mas é claro que precisamos nos casar, minha princesa — respondeu ele, não segurando a risada. Edu gargalhava como se eu estivesse contando uma piada muito engraçada, do tipo que não envolvia gays ou loiras burras, coisas que afetavam a nós dois. Após ver que eu não havia compartilhado do seu humor e que a minha expressão continuou a mesma, Eduardo levantou as sobrancelhas, perguntando, totalmente surpreso: — Você não está falando sério, não é? Gabriele Novais, por favor, me diga que não! Ele se afastou muito antes de eu começar a explicar o quanto tudo aquilo era importante para mim, acabando com toda a minha estratégia dramática, algo do tipo “eu pensei que fôssemos irmãos, mas tudo bem. Eu... eu me viro”. No entanto, Eduardo não queria saber dos detalhes, estava mais do que claro que ele não toparia me pedir em casamento — não com o seu namoro em jogo. Dessa vez, era oficial, eu estava mesmo sozinha, de uma maneira que nunca estive antes — pelo menos, não antes de ele aparecer. Com uma expressão nada legal estampada na face, Eduardo respondeu totalmente irritado: — essa nossa mentira já foi longe demais, Gabriele. — Ele disse aquelas palavras com o olhar focado o rosto de Kauan, como se precisasse se certificar de que o namorado ciumento estivesse ouvindo a cada uma de suas palavras. — Eu não quero e não posso mais me envolver em todas essas suas mentiras sem fim. Sem mais cartas escondidas na manga, restava-me apenas um último truque, o meu olhar pidão ou, como eu gostava de chamar, o calcanhar de Aquiles para Eduardo — o mesmo que o convenceu a fingir ser o meu namorado para as pessoas do meu trabalho. — Mas é o emprego dos meus sonhos — eu disse a ele, lentamente, usando aquele meu olhar bandido. Fiz uma careta de choro, enquanto fingia limpar uma lágrima com a manga da minha


camisa. — Eu... eu não sei o que fazer, é o meu sonho, Eduardo. — Mas e quanto aos meus sonhos? — questionou-me ele, voltando o olhar para mim. Após ouvi-lo falar daquela forma, eu soube que não havia mais o que eu pudesse fazer para mudar a sua opinião. O meu melhor amigo não salvaria a minha pele desta vez. – E quanto a minha felicidade, Gabriele? Como é que eu fico nessa história toda? Kauan nem mesmo esperou o seu namorado terminar de falar e deixou a minha casa. E a atitude dele era totalmente compreensiva, uma vez que eu estava tentando me casar com a pessoa que ele, certamente, amava. Talvez — seu eu estivesse em seu lugar —, fizesse muito pior, pulando em cima do pescoço da amiga — vaca — egoísta e manipuladora. Eu não odiava o namorado do meu melhor amigo e, bem no fundo, sabia que ele também não nutria um ódio mortal por mim. Mas não éramos amigos e nem mesmo podíamos nos considerar colegas. Eu era, simplesmente, a pessoa que ficava entre ele e o namorado. Eu era, definitivamente, aquilo que os afastava. Entretanto, talvez o que Kauan mais odiasse em mim fosse à preferência que o seu namorado sempre me daria. Mesmo depois de ele ter deixado o apartamento, Eduardo continuou comigo, esperando pelo que eu tinha para falar. — Desculpe — eu disse, com o olhar voltado para o chão da sala. Depois de alguns segundos em silêncio, criei coragem para continuar. — Gaspar me contou que eles não querem me dar o cargo pelo simples fato de eu ser uma mulher solteira, como se isso fosse algum tipo de doença contagiosa ou uma ficha criminal. Caminhei em direção ao sofá e Eduardo me acompanhou, sentando-se ao meu lado. O meu amigo estava sem camisa, trajando apenas uma fina bermuda azulada. Uma das coisas mais lindas em Eduardo, sem dúvida alguma, era o seu abdome totalmente definido, onde os gominhos eram esculpidos perfeitamente. Coloquei a minha mão em cima da sua coxa e suspirei, enquanto virava o meu pescoço em sua direção. Ele colocou a mão em cima da minha e continuamos sentados, em um silêncio profundo. Não havia uma maneira de ele me ajudar, não sem aceitar ser o meu noivo perfeito e isso, infelizmente, parecia estar totalmente fora de questão naquele instante. — Kauan me deu um ultimato mais cedo, dizendo que eu deveria escolher entre você e ele. Acho que, no final das contas, ao ficar aqui, eu acabei escolhendo você.


Por mais que eu gostasse da ideia de ser a escolha de Eduardo, aquilo não era certo e nem mesmo uma pessoa egoísta como eu poderia ignorar. Então, eu fiz aquilo que deveria ter feito há muito tempo, mas que acabei não fazendo por medo de perdê-lo. — Nós terminamos, oficialmente — eu disse, surpreendendo tanto a ele quanto a mim mesma. Ainda em um estado hesitante, completei: — eu não vou mais roubar a sua vida, nunca mais. Ele ficou me encarando, como se estivesse esperando pelo momento em que eu desmentiria tudo, um momento que não aconteceu nos segundos seguintes e nem depois disso — por mais que eu quisesse desmentir e voltar atrás em toda aquela história. — Não fique aqui me olhando, seu idiota. Vá atrás do seu garoto!  


Plano B — Capítulo 2

A maior parte das pessoas teria um plano B, entretanto, tudo o que eu possuía era uma enorme dor na boca do meu estômago. Por mais que eu soubesse que Eduardo não aceitaria de primeira participar mais uma vez dos meus planos — diga-se de passagem —, bem no fundo, eu nutria esperanças de que ele fosse, eventualmente, ceder a toda a pressão acompanhada do drama que eu estava fazendo. Mas isso não aconteceu e, parte disso, era culpa minha, que o dispensei na noite anterior. Eu estava arrependida, por mais que tivesse feito à coisa certa para o meu amigo. ¬ Sim, eu era uma pessoa extremamente egoísta e parte disso, infelizmente — ao quadrado —, acabei puxando da minha mãe biológica, que não conseguia viver sem ser o centro do universo de todas as pessoas que a cercavam. Mas a última coisa que eu precisava era ficar pensando em Clarisse. Caminhei em direção à cozinha, mas antes que eu pudesse me sentar à mesa, Eduardo apareceu, com o seu namorado ao lado, o que significava que, felizmente, eu não havia destruído o relacionamento dele com Kauan — o que também não era muito bom pra mim. Por mais que eu quisesse me esconder e evitar toda aquela conversa que estávamos prestes a ter, aproximei-me dos dois, dizendo, de uma vez só: — Eu sinto muito por ontem, O.K? Kauan se limitou a balançar a cabeça, o que era melhor do que nada. Eduardo, por outro lado, sorriu, mostrando-me que estava mais do que bem para nós dois. Saber que a minha relação com Eduardo não estava completamente destruída, deixou-me mais feliz. E quanto à de Kauan, sinceramente, eu não me importava. ¬— Eai? — perguntou-me ele, referindo-se ao que eu faria a respeito do cargo de editora chefe. Éramos tão íntimos ao ponto de quase não precisarmos de palavras para que nós dois nos entendêssemos. — O que você está pensando em fazer agora, qual o seu plano B? Fiz uma careta, balançando a cabeça, mostrando a ele que, na realidade, eu não possuía nenhum plano B. Tudo o que eu tinha, naquele instante, era ódio e um sentimento enorme de impotência. Eu odiava o dono daquela revista por ser um machista com M maiúsculo, mas eu me


odiava ainda mais por precisar de um homem para provar o meu valor. — Eu vou desistir... Não preciso de um homem para provar que sou boa o suficiente e se eles não enxergarem isso, quem perde não sou eu — eu disse a eles, mesmo sabendo que Frederico nunca nem mesmo pensaria em olhar para mim sem uma aliança. Gaspar não me contaria isso se não fosse a mais pura verdade. — Eu não preciso disso. E, ao pronunciar o “eu não preciso disso”, eu estava dizendo outra mentira. A revista Global já não era um simples trabalho para mim. Depois de um tempo, aquele trabalho passou a ser a minha vida, ele passou a definir a pessoa que eu era e, com isso, tornou-me mais que uma simples dependente. Parte de mim sentia muito medo de não ser capaz de me reconhecer sem fazer aquilo que eu tanto gostava. — Você não precisa desistir só porque o meu namorado não quer bancar o seu noivinho — disse Kauan, após cansar de se fingir de estátua. Com uma estranha expressão no rosto, ele continuou, dizendo: — nós não somos amigos, mas eu sempre admirei você, pois nunca te vi desistir de algo. Essa pessoa aí, com toda a certeza, não é você. A Gabriele que eu conheço nunca deixaria com que o chefe machista ganhasse, não sem lutar. Depois daquelas palavras arrebatadoras, eu finalmente poderia dizer que aquele garoto magrelo havia ganhado algumas dezenas de pontos comigo. Entretanto, eu não tinha a mínima ideia do que fazer, de como me tornar aquela pessoa forte que Kauan dizia que eu era. — O que você me sugere? — arrisquei na pergunta, pronta para qualquer coisa, com exceção daquilo que ele me respondeu. Depois de alguns segundos pensando, de uma maneira hesitante, Kauan respondeu a minha pergunta, aparentemente, ainda em dúvida se deveria mesmo estar dizendo aquilo: — um amigo de uma amiga, que conhece um cara, que conhece outro cara... bem, o que eu quero dizer é que tem um homem que faz esse tipo de serviço, ele é muito discreto e apenas algumas poucas pessoas sabem sobre o que ele realmente faz. Voltei o meu olhar — um nada bacana — para Eduardo, que estava fingindo uma expressão de paisagem ao lado de Kauan, como se nem estivesse prestando atenção nas coisas que deixavam a boca do seu namorado. — O seu namorado está me mandando contratar um puto para ser o meu noivo.


Você está ouvindo isso, Eduardo? — perguntei a ele, completamente possessa de ódio. — Ele quer que eu me envolva com um puto? Com um sorriso nos lábios, o meu amigo respondeu: — sim, eu ouvi e, na verdade, até acho uma ótima ideia. E não é como se você precisasse transar com ele... seria mais como um acompanhante de luxo. Não importava o quanto ele tentasse melhorar aquela frase, no fim das contas, continuaria significando que eu precisava contratar um garoto de programa para fingir ser o meu noivo. Naquele instante, eu não estava apenas odiando o mundo por ser completamente machista, eu estava me odiando por não ser capaz de encontrar um homem decente sem ter que pagar por isso. Voltei o meu olhar para Kauan, já com o meu nível de ódio por ele reduzido. Afinal, que diferença faria usar o meu melhor amigo gay ou um puto para fingir ser um cara interessado em mim? Em ambas as formas, eu era um fracasso total como mulher. — Então, esse seu amigo da amiga, do amigo, do amigo tem o número deste prost... acompanhante de luxo?  


Ligação — Capítulo 3

Já havia se passado uma semana desde que Kauan me deu a incrível ideia de contratar um garoto de programa para fingir ser o meu noivo. Primeiramente, pensei muito sobre a decisão que estava prestes a tomar e acabei desistindo por ser um plano totalmente irresponsável, uma vez que eu poderia estar colocando um assassino dentro da minha própria casa. Entretanto, no dia seguinte, Gaspar me confidenciou que Frederico daria uma pequena festa e convidaria algumas pessoas e que, por muita sorte — ou muito azar —, eu e o meu acompanhante estávamos inclusos nesta pequena lista de convidados. Como eu, Gabriele Novais, não acreditava nem um pouco em sorte, confrontei o meu chefe e, desta forma, obtive a minha resposta de uma maneira rápida. Em uma tentativa desesperada de me colocar em seu atual cargo, Gaspar mentiu para Frederico, dizendo que eu já estava noiva. Mas, ao que tudo indicava, Frederico precisava ver isso com os seus próprios olhos. — Agora, por favor, me diga que convenceu o cara a se casar com você? — A voz dele soou um tanto desesperada, assim como a expressão de seu rosto. Depois de alguns segundos em um silêncio constrangedor, Gaspar completou: — eu espero, de verdade, que esse seu silêncio signifique um imenso “sim, ele vai se casar comigo”. Então, eu fiz aquilo que sabia fazer de melhor. Eu menti para Gaspar, dizendo que tudo estava sob o meu incrível controle, que o meu namorado — o homem mais perfeito de todo o universo — havia aceitado se casar comigo e que eu nem mesmo havia me esforçado, pois o pedido de casamento havia partido dele. Pelo jeito, eu estava muito ferrada — com a lama até a minha cintura —, tão ferrada ao ponto de reconsiderar a ideia ridícula de Kauan. Eu não tinha outra opção a não ser contratar aquele puto para me acompanhar, ao menos, se eu quisesse continuar na disputa pelo cargo de editora chefe, o que eu, certamente, queria e muito. Quando entrei na minha casa, a primeira coisa que fiz foi correr até o meu quarto e apanhar o papel em que Kauan anotou o número daquele garoto de programa ou, como ele gostava de dizer, acompanhante de luxo — que, pra mim, dava no mesmo. Depois de várias horas encarando o número daquele ser totalmente desconhecido por mim,


decidi arriscar e ligar para ele. Afinal, pior do que estava, definitivamente, não poderia ficar. Eu estava oficialmente no fundo do poço, com os meus saltos completamente sujos de lama, não tinha como me afundar mais. Instantes depois de digitar aquele número de celular, eu percebi que estava totalmente perdida, o que era completamente compreensivo já que nunca me imaginei ligando para um homem que vendia o próprio corpo. Eu não sabia nem mesmo o que dizer quando ele atendesse a minha ligação. Deveria dizer um “oi, você é aquele garoto de programa do panfleto que encontrei no telefone público?” ou “oi, eu falo com um profissional do sexo?”. Não importava qual fosse a minha ideia, ela sempre seria pior que o ridículo. Mas no final das contas, nem mesmo precisei dizer uma única palavra, já que ele não atendeu a minha ligação. E depois da terceira tentativa, eu finalmente desisti de ligar. Algo me dizia que ele devia estar “trabalhando”, enfiando o seu pinto em alguma mulher de meia idade entediada com o próprio casamento. Entretanto, o fato de eu estar ligando para ele, por precisar de um simples acompanhante, com toda a certeza, tornava-me alguém em uma situação muito pior do que a dessas mulheres que só queriam se divertir. Cansada de esperar por um retorno de ligação que, obviamente, não aconteceria, sentei-me em meu sofá e me preparei para mais um dos meus artigos. Por mais deprimente que aquilo fosse, eu adorava ficar ali sentada, escrevendo sobre coisas das quais eu gostava de falar, coisas que poderiam dar outra visão do mundo para os leitores da revista, coisas inovadoras e, talvez, coisas revolucionárias, mas, principalmente, coisas que nunca seriam publicadas na revista Global — ao menos, até que eu assumisse o cargo de Gaspar. Quando o ponteiro do meu relógio apontou para as dez da noite, eu recebi uma mensagem de Eduardo, uma em que ele dizia que não voltaria para o jantar. Aparentemente, estar com o namorado era muito melhor do que ficar ao lado de uma amiga chata, completamente viciada em trabalho — e obcecada por um garoto de programa. Caminhei até a cozinha na esperança de encontrar alguma coisa bem gordurosa e suculenta, algo que faria com que eu engordasse uns três quilos, mas tudo o que eu encontrei foram bolachas e algumas outras porcarias que não eram da família do bacon. Apanhei um pacote de pipoca instantânea no armário e o preparei rapidamente. Quando retornei à sala, com uma bacia repleta de pipocas na mão, sabia exatamente que tipo de filme eu deveria assistir.


E, mais uma vez, eu assistiria a Saga Crepúsculo e embarcaria na jornada de Bella Swan ao lado de Edward Cullen, em uma história de amor proibido, envolvendo uma humana sem graça e um vampiro sexy que brilhava no sol. Era uma história de romance água com açúcar? Sim, era e não importava o quanto falassem mal daquela saga, eu nunca deixava de amar cada um daqueles personagens maravilhosos. Aparentemente, só me faltava os gatos para a situação ficar ainda mais deprimente. O toque do meu celular fez com que eu me assustasse, soltando a bacia que estava em minha mão esquerda, derrubando toda a pipoca no tapete da sala. Mesmo sem voltar o meu olhar para a tela do telefone, visualizando o número que me ligava, eu sabia quem era e foi por esse motivo que me assustei, como um pressentimento daquilo que estava por vir. Corri até a mesinha de centro e peguei o meu celular. Como cheguei tarde demais para atender, retornei aquela ligação e, desta vez, eu esperava que o garoto de programa me atendesse. E, para a minha sorte, ele realmente atendeu. — Quem fala? — perguntei, ainda sem saber exatamente o que eu deveria dizer para alguém como ele. — Eu... estou falando com quem? A voz do outro lado da linha finalmente soou, em uma risada completamente sarcástica. E, por algum motivo, essa única ação dele foi capaz de me irritar. — Então, como foi você quem me ligou primeiro, não sou eu quem deve se apresentar aqui! — respondeu ele, de uma maneira grosseira e mandona. E antes que eu pudesse responder à altura, ele tornou a falar, cortando-me: — eu também não tenho todo o tempo do mundo... então, fale logo o que você quer! Sem paciência para a grosseria daquele imbecil, disse as minhas próximas palavras, sem nem mesmo pensar uma segunda vez: — por quê? No puteiro em que você trabalha precisa bater cartão? — A única coisa que eu vou bater, será o meu pin... Quer saber, obviamente, isso é algum tipo de trote idiota, feito por uma garota virgem idiota. E eu não vou mais perder meu tempo com isso aqui. Foi bom falar com vo...


— Não, espere! — eu gritei, interrompendo-o e o impedindo de desligar a ligação. Engoli todo o meu orgulho de uma só vez, como se fossem cem gotinhas de dipirona e prossegui de uma maneira totalmente hesitante: — eu... eu gostaria de contratar os seus serviços.  


Mau Humor — Capítulo 4

— Então, você está precisando de um homem, não é? — questionou-me ele, com uma voz excitante, em uma tentativa bem sucedida de me constranger. — Tá precisando de quê exatamente? — Eu estou precisando de um acompanhante — respondi, sem graça com aquela situação completamente constrangedora. — Eu preciso de alguém para me ajudar a... — Vou logo avisando que eu não costumo foder com as minhas clientes — disse ele, cortando a minha fala, mais uma vez. Sua voz soou rouca, propositalmente, enquanto ele pronunciava a palavra “foder”, destacando-a do restante de sua frase. — Se a tua intenção é me usar para nutrir a falta que o frouxo do seu marido faz na relação de vocês, então está ligando para a pessoa errada. Não demorou muito para que eu estivesse gritando como uma descontrolada no telefone. Eu não disse apenas uma vez, mas várias e continuei repetindo, em uma tentativa de fazer com que aquele grande idiota entendesse, de uma vez por todas, o que eu estava tentando fazer — que, definitivamente, não era transar com ele. — EU. NÃO. QUERO. TRANSAR. COM. VOCÊ — disse ao puto do outro lado da linha, pela décima vez. Eu nem mesmo deixava-o falar, gritando aquela mesma frase várias vezes, como uma mulher surtada, com sérios problemas mentais. — Entendeu? Droga! Depois de um silêncio torturante, ele finalmente respondeu: — sim, de uma forma extremamente alta. Você não está procurando um cara pra te comer, eu já entendi isso, O.K? — sua voz soou animada, com uma pitada de sarcasmo, algo que me deixou com ainda mais raiva. — Nós podemos finalizar esse negócio pessoalmente, senhora “eu não quero dar a minha boceta”? Antes que eu pudesse gritar um “não”, ele havia desligado o telefone na minha cara. Segundos depois, recebi uma mensagem daquele puto grosso, com o endereço em que deveria encontrá-lo no dia seguinte. E, naquela altura do campeonato, nem mesmo sabia se iria atrás daquilo que me cheirava a enrascada das grandes. Mas a cada minuto que ia se passando, todas as palavras de Gaspar tornavam a invadir a minha mente, com ainda mais força, torturando-me ainda mais com todo aquele assunto.


Sem uma aliança de casamento no dedo ou, ao menos, a promessa de uma, ele não vai te dar o cargo, havia dito Gaspar, destruindo todas as minhas esperanças, naquela segunda-feira. Abri a minha caixa de mensagens e encarei a mais recente delas. “Amanhã, encontre-me na praça de alimentação do Shopping Palladium, às 19:00 horas. E, por favor, não se atrase!”. Eu estava completamente surpresa com aquela mensagem, só não sabia qual fora o fato que me surpreendeu mais; ele estar usando a palavrinha mágica “por favor” ou saber que aquele puto não gostava de atrasos. Ele, certamente, devia trabalhar com hora marcada. Segundos depois de eu ler aquela mensagem, outra chegou, “estarei vestido de azul e você?”. Ainda com dúvidas se realmente faria aquela loucura, mandei como resposta a palavra “vermelho”. Depois de morder o meu lábio inferior e respirar fundo, tornei a puxar conversa com aquele assassino em potencial. Um assassino, aparentemente, muito canalha e safado. “Eu ainda não sei o seu nome”, enviei a mensagem, depois de constatar que ele ainda estava online no aplicativo de mensagens mais usado pelos brasileiros. “O meu nome é Pablo. Pronto, agora é a sua vez. Como é que devo chamar à senhorita?”. “Gabriele”, respondi, sem saber o que continuar dizendo a ele. Entretanto, logo depois de descobrir o meu nome, Pablo se desconectou da internet, o que era ótimo já que eu não fazia a mínima ideia sobre o que conversar. Mas depois que ele se tornou indisponível no aplicativo, uma grande dúvida pairou em minha mente. “Pablo” era o seu nome verdadeiro ou um simples nome de guerra que ele usava? Aparentemente, eu não descobriria naquela noite. Em uma tentativa desesperada de ver a sua aparência, adicionei o seu número em minha lista de contatos — como “Pablo Puto” — e cliquei em sua foto de perfil, entretanto, ao que tudo indicava, ele não havia adicionado o meu número, o que me impossibilitou de ver a sua imagem. Puto burro, eu pensei, ainda inconformada e frustrada por não ser capaz de ver a sua aparência, algo que estava me deixando muito curiosa. A última coisa que eu me lembro de ter feito naquela noite, foi clicar em sua foto mais uma vez, em uma décima tentativa mal sucedida de ver o seu rosto. Dormi em cima do meu celular, o que


não foi nada romântico. E, como não poderia deixar de ser, eu me esqueci de ativar a porcaria dos alarmes e acabei acordando muito atrasada. Por mais que eu não fosse tão preguiçosa, geralmente os meus alarmes começavam a disparar às quatro horas da manhã, pois eu amava acordar e descobrir que ainda tinha mais algumas horas para dormir. Esse, sem dúvida alguma, era o meu segredo para o bom humor pela manhã. E essa estratégia nunca falhava — até o momento em que ela falhou. Como já era 07:30 da manhã, eu precisei levantar às pressas. Acordei com muita dor de cabeça e um péssimo humor, como sempre acontecia quando eu me atrasava por algum motivo. Na maior parte das vezes, eu era uma pessoa bem humorada, mas quando o meu mau humor batia, um simples “bom dia” já era capaz de me irritar. Vesti as primeiras coisas que encontrei em meu guarda roupa e corri para fora do apartamento, desesperada — como se correr fosse adiantar de alguma coisa. Deixei o estacionamento como uma louca, o que me rendeu muitas buzinadas, mas não me importei nem um pouco. Quando estava finalmente chegando ao meu trabalho, lembrei-me de um detalhe muito importante. Eu, definitivamente, não vestia nada na cor vermelha — a cor que eu havia combinado com Pablo de usar. Uma coisa engraçada sobre colegas de trabalho é que, por mais que você pense que ninguém repara em você, essas pessoas te conhecem de uma maneira que você nem imagina. Assim que me viram se aproximar, naquele estado de destruição total, ninguém nem mesmo me cumprimentou, deixando-me aproveitar o meu mau humor sozinha. Parte disso, certamente, se devia a última vez em que me cumprimentaram em um dia assim, a minha resposta foi um simples “bom dia pra quem mesmo? Por acaso eu estou com cara de quem está tendo uma droga de bom dia?”, depois disso — provavelmente, por medo —, as pessoas do meu ambiente de trabalho passaram a reparar em meu humor matinal. A única pessoa que pouco se importava com o meu humor era Gaspar, que nunca se deixou intimidar por uma de minhas caretas. E, talvez, por esse motivo, eu gostasse tanto dele. — Nossa... Meu deus, você está um trapo hoje — observou ele, antes de tomar um gole do seu café. — É melhor abrir um sorriso querida, ninguém aqui é pago pra te ver com dor de barriga. Forcei um sorriso sarcástico, encarando o rosto de Gaspar.


— Melhorou? — perguntei a ele, de uma maneira provocativa. Utilizando-se do mesmo sarcasmo, ele respondeu: — Na verdade, não. Mas você vai continuar com essa expressão de mulher em processo de parto mesmo assim, não é? — ainda com um sorriso enfeitando os seus lábios, ele prosseguiu: — sabe o lado bom de estar em um processo de parto? As suas chances de se casar aumentam em oitenta por cento. Balancei a cabeça, torcendo para que ele me deixasse em paz. E, felizmente, Gaspar deixou o meu pé e caminhou em direção à sua sala. Levantei-me, indo em direção à porta e a fechando com força logo após ele sair. Quis deixar muito claro a minha vontade de não querer receber mais nenhuma visita indesejada. Meu celular disparou, fazendo com que eu encarasse o nome brilhando em sua tela. No princípio, eu pensei que fosse o garoto de programa e isso, por mais estranho que pudesse ser, acabou me animando um pouco. Entretanto, eu estava muito enganada. Desta vez, não era o Pablo Puto. O nome “Clarisse Novais” foi o suficiente para que eu recusasse a ligação e me debruçasse sobre a minha mesa, em uma tentativa de me esconder do mundo — e, principalmente, da minha mãe biológica. E, infelizmente, alguma coisa me dizia que aquele dia, para o meu azar, estava apenas começando.  


Encontro Virtual — Capítulo 5

Continuei ignorando as chamadas da minha mãe biológica até que ela desistisse de continuar ligando. Eu não era um monstro sem coração e, por esse exato motivo, me recusava a falar com ela. Aquela mulher só conseguia amar uma pessoa no mundo de cada vez — essa pessoa, geralmente, era ela mesma —, mas, às vezes, Clarisse ficava sem dinheiro e, neste exato momento, se lembrava de que tinha uma filha viva e, magicamente, ela começava a me amar incondicionalmente, até que todo o meu dinheiro estivesse em sua conta bancária. Depois disso, todo esse amor chegava ao fim, como se tivesse um prazo de validade. Talvez fossem os diversos namorados da minha mãe que me traumatizaram ao ponto de eu nunca conseguir engatar um namoro sério com alguém e, principalmente, era a frequente lembrança deles que me fizeram nunca colocar um homem como prioridade em minha vida. Se eu não quisesse terminar como a minha mãe — não viver com um único propósito de agradar um homem — esse era o primeiro passo que eu deveria dar. Depois de passar a tarde inteira refletindo sobre a imensa droga que a minha vida havia se tornado, peguei a minha bolsa roxa — a cor mais próxima do vermelho que eu usava — e deixei o prédio da revista alguns minutos mais cedo que o normal. Entrei em meu carro, um celta vermelho, e enviei uma mensagem para Eduardo, perguntando a sua localização. Segundos depois, ele respondeu, com apenas três palavras, preocupando-me imediatamente. “Banco da dor”. Sem perder mais tempo, eu dirigi em direção ao lugar que Eduardo devia estar passando a sua tarde, sem me importar com o que o seu namorado pudesse pensar quando me visse chegando. Naquele momento, eu precisava da ajuda do meu amigo e não abriria mão disso por causa de Kauan. E também, ao que tudo indicava, Eduardo precisava da minha ajuda ou não estaria sentado no “banco da dor”, um lugar que só visitávamos quando não estávamos bem, tanto no sentido físico quanto no emocional — o que mais nos levava até aquele banco. Para a minha surpresa, ele estava sozinho, sentado em um dos bancos daquela praça — em nosso lugar preferido de todo o universo. Ele sorriu ao notar a minha presença e convidoume para sentar ao seu lado, um convite que eu não recusei, por mais que fosse me atrasar e irritar o Pablo Puto.


— Você se lembra de quando a gente costumava vir aqui para fugir dos nossos problemas? — perguntou-me ele, como se eu pudesse me esquecer de um detalhe tão importante quanto aquele. — Você costumava vir aqui para fugir daquela louca que chamava de mãe. — Eduardo começou a rir, certamente, lembrando-se de um momento marcante de nossa infância. — E eu sempre passava por aqui depois de apanhar de algum garoto da escola... era como se os meus machucados ardessem menos se eu estivesse sentado aqui nesse banco. — Pelo que eu pude notar em seu rosto, desta vez, você não apanhou de ninguém — eu disse ao meu amigo, em uma tentativa de descobrir o porquê de ele estar sentado em nosso “banco da dor”. — Você não têm motivos para estar aqui, Edu. Seus olhos castanhos claros ergueram-se em minha direção, encarando-me. Sem desviar aquele olhar intenso de mim, Eduardo disse, por fim: — Kauan terminou comigo — revelou-me ele, ainda encarando o meu rosto. — E está doendo tanto quanto aquelas surras do tempo da escola costumavam doer. Tudo o que eu queria poder dizer a ele era um “esse seu namoro não daria certo mesmo”, mas optei por me manter calada — algo que, certamente, causaria menos danos. Por mais que Kauan fosse um garoto extremamente ciumento e, às vezes, inconveniente, aparentemente, o meu amigo gostava dele o suficiente para recorrer ao nosso banco especial. E nem mesmo eu poderia ignorar algo assim. — Daqui a exatamente uma hora, eu vou me encontrar com o garoto de programa — comentei, mudando completamente de assunto. – E eu gostaria que você viesse comigo, se não for pedir muito. Ele balançou a cabeça, concordando. — Eu não perderia por nada. Afinal, nós somos irmãos, não é? Balancei a cabeça, em um sinal positivo. Sim, nós éramos irmãos e possuíamos uma ligação mais forte e muito mais valiosa que quaisquer outras de sangue. Aparentemente, Edu não estava com o carro dele e, naquela ocasião, eu não quis deixar o clima ainda mais tenso, enchendo-o de perguntas desnecessárias e irritantes sobre o seu carro — um porsche. Eduardo entrou no meu carro sem questionar e, principalmente, sem reclamar


do quanto ele era feio e desconfortável. O meu amigo, definitivamente, não estava em seu estado normal. — Temos um puto pra contratar, não é? – disse ele, roubando-me um sorriso. — Nós temos — respondi, ainda com o sorriso forçado em meus lábios. Depois de encarar mais uma vez a expressão tristonha de Eduardo, eu completei: — nós vamos finalmente conhecê-lo. *** Não demorou muito para que estivéssemos adentrando o estacionamento do shopping, o lugar onde havia marcado de me encontrar com Pablo. A pessoa ao meu lado continuava calada e, às vezes, sorria de uma maneira aleatória, tentando mascarar o fato de estarmos vivenciando uma verdadeira novela das oito. Apanhei a minha bolsa no banco de trás e peguei o meu batom vermelho, com um sorriso no rosto. No fim das contas, eu estaria usando a cor vermelha — assim como prometi ao puto por mensagem —, mesmo que fosse totalmente impossível de Pablo deduzir quem eu era através da cor do meu batom. Depois de estacionar o meu carro, seguimos, em passos lentos, na direção da praça de alimentação, que ficava no terceiro andar do shopping. Enquanto caminhávamos, meu amigo, de repente, me perguntou: — Onde é que vocês marcaram de se encontrar mesmo? — Eu te disse, na praça de alimentação – respondi confiante em minhas palavras, enquanto continuava andando. — Ele estará usando a cor azul e eu a vermelha ou, no meu caso, quase isso. Depois de perceber que estava andando sozinha, virei-me, procurando a pessoa que há pouco tempo estava bem ao meu lado. Eduardo estava parado no meio do caminho, enquanto me encarava com um olhar de deboche. Não demorou muito para que ele começasse a rir, deixando-me confusa sobre o real motivo da graça.


— Como é que vocês vão se reconhecer? Então, tem centenas de pessoas usando azul e vermelho na praça de alimentação — disse ele, não se controlando e voltando a rir. — Amiga... você é muito burra! Por mais idiota que pudesse soar, eu não havia pensado naquele detalhe, o que me tornava tão idiota quanto Pablo que havia dado aquela ideia estúpida. — Eu... eu não tinha pensado nisso. Que droga! Apanhei o meu celular e enviei uma mensagem de texto para aquele idiota. “Como é que vamos nos reconhecer na praça de alimentação? Lá tem centenas de pessoas de azul e vermelho. Pelo jeito, inteligência não deve ser uma das suas competências”, encaminhei a mensagem, como se eu sempre estivesse ciente do quanto àquela ideia era idiota e totalmente falha — o que estava muito longe de ser a verdade, diga-se de passagem. Segundos depois, recebi a sua resposta. “Se marcássemos em um outro lugar, não teria graça”. Depois de ler, quase atirei o meu celular no chão, tentando extravasar todo aquele ódio que estava sentindo. “Eu não tenho tempo para joguinhos idiotas. Quer o trabalho ou não?”, enviei, mesmo sabendo que Pablo não desistiria daquilo que estava planejando para a noite, pois, aparentemente, eu era a única burra. Superando o recorde anterior, a sua mensagem chegou ainda mais rápida, como se ele estivesse programado o seu celular para me enviar. “Se quiser me contratar, precisa me encontrar. Eu estou usando azul, boa sorte”. — O que foi que ele disse? — perguntou-me Eduardo, com a sua atenção voltada para o celular em minha mão. Peguei o meu telefone e o entreguei a Eduardo, para que o meu amigo visse à mensagem com os seus próprios olhos. Após ler e responder a sua própria pergunta, ele tornou a dizer: — Ele não pode estar falando sério. Eu suspirei, respondendo: — mas esse babaca está. E, infelizmente, nós vamos ter que falar com todos os caras de azul, até encontrar esse desgraçado.


— Isso se ele não estiver usando azul da mesma forma que você está usando o vermelho — continuou Eduardo, com o seu dom de deixar a situação ainda pior. — Ele pode muito bem estar chupando uma bala azul ou, simplesmente, estar usando uma cueca nessa cor. Cansada de estar sempre sendo enganada pelos homens em minha vida — primeiro por Frederico e depois por aquele garoto de programa idiota —, encarei a pessoa a minha frente com uma expressão renovada no rosto. — Se ele quer jogar, tudo bem. O idiota também não sabe quem eu sou, o que, por um lado, é bem legal. Peguei o meu celular da mão de Eduardo e comecei a escrever uma nova mensagem para o Pablo Puto. “Mudança nos planos. Quer o trabalho? Então, me encontre. Estou usando vermelho, boa sorte”. Por mais que eu fosse a pessoa mais necessitada, optei por jogar verde com Pablo. Talvez, desta forma, ele desistisse daquela brincadeira idiota e finalmente revelasse o lugar onde estava. “Você é a senhora na fila de sorvetes no Mc Donald’s?”, perguntou-me ele, por SMS, arrancando-me algumas gargalhadas. Voltei o meu olhar para a senhora de vermelho com uma casquina na mão e não consegui controlar o riso. “Não, sou uns cinquenta anos mais nova do que ela. E, sinceramente, espero que você também seja, pois não consigo nem imaginar um puto dessa idade”, respondi a ele, antes de olhar ao meu redor, tentando identificar um homem de azul, mexendo no celular. Depois de alguns minutos, acabei aceitando que eu não conseguiria encontrar Pablo daquela maneira. Eu desisti, voltando a minha atenção para a nossa conversa. “Eu estou louco para te mostrar quem é o puto velho”, disse ele há exatamente dois minutos. Depois de rir um pouco da sua ameaça, respondi a sua mensagem com um ”por favor, não me mostre. Não sou obrigada a assistir O Vovô Sem Vergonha de novo”. “Mas você vai gostar desse sem vergonha, ele faz o trabalho bem feito”, disse ele, deixando-me nervosa.


Antes que eu pudesse responder à sua mensagem, Pablo enviou-me outra: “Eu estou bem atrás de você, Gabriele”.  


Fechando o Negócio — Capítulo 6

Rapidamente, virei-me na esperança de finalmente encarar Pablo, entretanto, ninguém estava atrás de mim. E, com isso, mais uma vez, eu havia sido passada para trás. “Agora é verdade, encontrei você”, enviou-me ele, me enchendo de ódio. Pablo jogou verde e eu caí em seu papo como uma idiota, pois devia ser a única pessoa naquela praça de alimentação que se virou às pressas para encarar um alguém inexistente. De repente, um homem alto, trajando um terno azul escuro, caminhou em minha direção, com um sorriso nos lábios. Ao menos, um de nós havia cumprido o acordo de usar a determinada cor. Pablo era muito diferente da pessoa que eu fantasiei em minha mente — o que, na verdade, era algo muito bom. Seu cabelo era tão escuro quanto o de Eduardo — tão escuro quanto um céu sem estrelas —, mas diferente do meu amigo que possuía olhos castanhos claros, os de Pablo eram azuis esverdeados, totalmente hipnotizantes. Fui capaz de sentir o cheiro do seu perfume caro de longe e aquilo me excitou de uma forma que não imaginava ser possível — pelo menos, não pelo Pablo Puto. Comecei a sorrir como uma idiota, completamente surpresa com a sua aparência física. Era oficial, eu me sentia muito atraída por ele. — Você roubou — eu disse a ele, desprendendo-me de todo aquele encanto causado por seu cheiro. — O que significa que eu ganhei esse jogo. Trapaceiros como você não ganham! Ainda com aquele sorriso sexy nos lábios, Pablo argumentou ao seu favor: — Mas foi você quem roubou primeiro ao não estar usando vermelho... a trapaceira aqui é você, meu amor. — O meu batom é vermelho — eu disse, com uma expressão séria no rosto, esforçando-me para não começar a rir. — Você não deixou especificado o que eu deveria usar na cor vermelha, então resolvi usar um batom básico. — Eba... todo mundo ganhou — disse Eduardo, encarando a nós dois com uma expressão de velório, que era provavelmente o do seu namoro. — Pronto, agora vamos deixar de


enrolação e, por favor, focar no nosso objetivo aqui? Pablo balançou a cabeça, concordando com o meu amigo. E, como eu não queria ficar para trás, também balancei a minha, mostrando que não queria perder mais tempo ao lado dele. Nós três nos sentamos em uma mesa vaga e ficamos nos encarando em silêncio por algum tempo. E, definitivamente, continuaríamos desta forma se Pablo não quebrasse o gelo entre nós. — Eu te imaginava diferente — disse ele, com os olhos claros voltados em minha direção. — Imaginava você menos... bonita. Aquilo era um elogio? O safado nem me conhecia e já estava tentando me cantar? Será que Pablo pensava que eu daria alguma espécie de gorjeta a ele se me elogiasse? Ao que tudo indicava, sim. — Eu também — disse a ele, com um leve sorriso, mascarando todo o meu sarcasmo. — Eu sempre te imaginei com uma roupa de couro e um chicote na mão. — Após dizer, não fui capaz de segurar o meu riso, tampouco Pablo. — É sério! Depois de mais alguns segundos nos encarando, sorrindo, Pablo trouxe-nos de volta ao objetivo daquela noite, assim como o meu amigo havia feito há alguns minutos. — Então, me conte por que uma mulher tão bonita quanto você precisa de um acompanhante de luxo? — questionou-me ele, envergonhando-me no mesmo segundo. Pablo voltou o seu olhar para Eduardo e, de repente, pensou ter entendido toda a situação. — Vocês dois são algum tipo de casal entediado, que precisam, desesperadamente, contratar alguém para apimentar a relação? Eduardo balançou a cabeça, respondendo: — não, nós não somos casados. Eu sou gay. Pablo levantou as mãos, respondendo, com o olhar queimando o rosto do meu amigo: — Eu não... eu não faço esse tipo de serviço, amigo.


— Eu preciso que você finja ser o meu noivo — eu disse, por fim, surpreendendo Pablo, que ficou me encarando com uma expressão de paisagem estampada na face. — O meu chefe só vai me promover se achar que eu estou noiva, o que significa que você, no mínimo, precisa enganar aquele idiota. Pablo fechou os olhos e fez uma careta. Aparentemente, fingir ser noivo de mulheres encalhadas não era a sua parte preferida em seu trabalho. Ainda com o olhar voltado para mim, ele deixou escapar: — seria muito mais fácil comer o seu amigo. — E quem é que disse que você seria o ativo? — retrucou Eduardo, arrancando-me um olhar raivoso. — O que eu quero dizer, é que vai ser complicado cobrar um valor X de você. Eu, geralmente, cobro por hora. E mesmo que eu cobre somente as horas em que nos encontrarmos, você quer um tipo de exclusividade que eu geralmente não ofereço, pois acaba me tirando a oportunidade de novos trabalhos e... Cansada de todo aquele drama de vendedor, mostrando o quanto o serviço era valioso, eu disse, interrompendo-o: — Nos poupe do quanto será um sacrifício ficar do meu lado e vá logo ao ponto. Quanto é que tudo isso irá custar? — Com o máximo de desconto e usando a promoção de natal adiantada em onze meses, o que eu consigo é... — Pablo retirou uma caneta do bolso interno do seu paletó e escreveu o valor em um guardanapo. — Esse aqui é o meu valor. Encarei o papel sobre a mesa e voltei o meu olhar para ele, totalmente transtornada com aquela informação. — Tem certeza que não tem muitos zeros aqui? — questionei, ainda não acreditando na quantidade de dinheiro que aquele desgraçado queria arrancar de mim. — Você não vale tudo isso, amigo. Eu posso saber o que você tem de tão diferente, vai limpar a minha casa também? — O valor está correto, quarenta mil é o meu preço — respondeu ele, se levantando da mesa. Antes de se retirar, seus olhos analisaram-me uma vez mais. — Qualquer coisa, você tem o meu número.


Eu não era idiota e sabia muito bem que não sairia barato contratar um acompanhante de luxo, entretanto, estava imaginando um valor na casa dos vinte mil e nada acima disso. E, mesmo que Pablo valesse todo aquele valor, eu não tinha como pagar. — Eu não tenho todo esse dinheiro, Edu. Eu dirijo um celta, droga — eu disse ao meu amigo, enquanto deixava escapar um sorriso de frustração. — Esse é o fim da linha pra mim. Eduardo revirou os olhos, respondendo: — Pare de dramatizar isso, você está roubando a minha parte da novela. E, sim, você tem esse dinheiro, a diferença é que você não quer usar, por orgulho. Eu não queria entrar naquele assunto de volta, porque sempre discutíamos. Então, eu me mantive com a boca fechada e continuei encarando o nada. Por mais que Eduardo fizesse questão de dizer que eu possuía dinheiro guardado, quem realmente possuía não era eu, mas a família dele. — Eu posso tirar do meu fundo — disse ele, com uma voz mansa, como se mudar o tom da voz fosse me fazer aceitar. — E nem vai me fazer falta... será como um presente de aniversário adiantado. — Você quer mesmo tirar quarenta mil reais da sua conta e entregar para um puto? — perguntei a ele, mudando o foco do meu olhar. — É muito dinheiro... — Que não vai me fazer falta, isso não é nem meio por cento do que tem no meu fundo, Gabriele — respondeu ele, estralando os dedos. — Mas se a gente contratar... garota, você tem que transar com ele, é sério! — Você é muito sem noção, Eduardo. É claro que eu não vou transar com ele — disse ao meu amigo, deixando-me rir um pouco, ainda sem acreditar que faríamos mesmo aquela loucura.  


O Jantar — Capítulo 7

— Ainda não acredito que estamos mesmo contratando um puto — eu disse, encarando o meu reflexo no espelho. Uma garota loira e completamente pálida sorria bem a minha frente. Voltei o meu olhar para o garoto do outro lado do meu quarto, perguntando: — como é que eu estou? — Pálida demais — observou Eduardo, rindo. — Passe um pouco de pó, sei lá. Mas se é só o Pablo Puto, como você mesmo diz, por que é que está se arrumando tanto? Não respondi a pergunta óbvia de Eduardo. Por mais que Pablo pudesse ser um grande idiota, isso não o deixava menos atraente e, por esse motivo, eu não queria ficar para trás. Eu precisava estar deslumbrante no momento em que ele adentrasse o meu apartamento. — Você arrumou a mesa? — perguntou-me Eduardo, lembrando-me de que, na verdade, eu não havia arrumado. Com o meu silêncio, ele obteve a sua resposta. — Continua se produzindo para o nosso gostosão, que eu arrumo as coisas lá na cozinha. Antes que eu pudesse dizer que não estava me arrumando para o “gostosão”, Eduardo já tinha deixado o meu quarto. Quem é que eu estava tentando enganar? Era claro que eu estava me arrumando para o garoto de programa ou acompanhante de luxo — que continuava dando no mesmo para mim. Caminhei em direção à cozinha e Eduardo sorriu, sinalizando que estava tudo pronto para a chegada do nosso convidado. Pablo viria até o meu apartamento para que pudéssemos discutir mais sobre o meu plano de casamento — e para acertar a questão do pagamento com Eduardo, algo que eu ainda não concordava muito. Antes que o interfone tocasse, eu sabia que ele havia chegado, pois recebi uma de suas mensagens idiotas, que dizia, basicamente, “eu entrei com tudo”. Respirei fundo e caminhei em direção à porta para recebê-lo. E, como não poderia deixar de ser, ele continuava impressionante. Mas, desta vez, como um visual um pouco mais simples. Pablo estava usando uma calça jeans, uma camisa branca e, é claro, como não poderia deixar de ser, uma jaqueta de couto preta, assemelhando-o com um galã — estilo bad boy — de filmes adolescentes.


Mas não esperei pelo convite para o baile e o chamei para entrar, o que ele, rapidamente, fez, sentando-se no sofá da sala. Com os olhos presos em mim, Pablo disse, com um meio sorriso colorindo os seus lábios: — você está ainda mais linda que ontem. Por mais que eu quisesse retribuir, dizendo algo extremamente idiota, parecido com um “muito obrigado, não foi nada fácil me arrumar para você. Acho que, com esse elogio, a missão foi cumprida”, continuei calada, sem nem mesmo agradecer. — Você gosta de frutos do mar? — perguntei a ele, tentando mudar de assunto. — É que eu preparei um prato especial de sushi hoje e não é todo mundo que gosta. Ele riu maliciosamente, dizendo: — que isso, eu não tenho nenhum problema com sushi. Se comida for mesmo boa, eu como com gosto, Gabriele. – Ele, descaradamente, desceu o seu olhar em direção às minhas pernas e continuou: — e hoje eu estou faminto. Pensei que não fodesse com as suas clientes? Eu pensei em dizer, mas não disse, mantendo-me calada. Fiz um sinal para que ele me acompanhasse até a cozinha. Quando chegamos lá, Eduardo estava segurando a sacola da Casa do Sushi, acabando completamente com o meu plano de impressionar Pablo. Fechei os olhos, tentando me acalmar — e também tentando não avançar no pescoço de Eduardo, que havia me sinalizado que tudo estava pronto. — Quem está com fome? — perguntei a eles, fingindo uma animação. Após sentarmos à mesa, completei: — o cheiro está muito bom. Eduardo era a única pessoa que ainda estava em pé. E eu sabia exatamente o porquê e o mataria de uma forma lenta por isso. — O papo aqui está ótimo, mas eu tenho um compromisso agora — disse ele, antes que eu pudesse fazer algo para impedi-lo de me abandonar com o Pablo Puto. Com o olhar voltado para Pablo, Eduardo continuou: — Não me espere hoje, Gabriele. Se Pablo fosse um pouco inteligente, entenderia exatamente o que Eduardo estava tentando fazer ao nos deixar a sós. O meu amigo praticamente gritou as palavras “foda ela”. Após o showzinho particular, Eduardo finalmente nos abandonou.


Usei a comida em minha boca como desculpa para não puxar assunto com a pessoa ao meu lado, mostrando a ele quem eu realmente era — um bicho do mato, antissocial. Eu não tinha a mínima ideia de como deveria agir perto dele, pois aquela era a primeira vez que eu ficava sozinha com Pablo. — A comida está ótima — disse ele sorrindo, como se não tivesse visto Eduardo desfilando pela cozinha com a sacola do lugar onde havíamos comprado à comida. — Sem brincadeira, deve ser o melhor sushi que eu já provei. Retribui o sorriso, respondendo: — eu adoro esse lugar, almoço lá sempre que eu posso. — Encarei os lábios dele e avistei uma sujeira, Pablo havia se sujado com o Sushi. E, de repente, eu me avistei em uma daquelas cenas de romance, onde a garota virgem limpa os lábios do garotão bonito e comedor. No entanto, tudo o que eu fiz, foi dizer: — a sua boca está suja. - E por que você não limpa ela? — provocou-me ele, deixando os talheres sobre o prato. Com um sorriso sacana nos lábios, ele continuou: — deixa eu te ensinar. Ele apanhou o guardanapo em cima da mesa e o colocou em minha mão. Lentamente, Pablo conduziu o meu braço em direção à sua boca. Com leves movimentos, ele limpou a sujeira próxima da sua barba rala. — Pronto — disse ele, finalizando. — Viu como é fácil? Revirei os olhos, retrucando: — se eu quisesse, teria limpado a sujeira. Isso se trata de vontade e não de educação. — Se você quer que as pessoas acreditem que eu sou mesmo o seu noivo, então precisa começar a acreditar também, Gabriele. — Pablo surpreendeu-me ao dizer aquelas palavras, pois ele estava completamente certo. — Quando eu comentar sobre o quanto você está linda, agradeça. Quando eu, propositalmente, me sujar com a comida, você limpa a minha boca. — Depois de uns segundos em silêncio, Pablo tornou a falar: — eu vou convencer qualquer pessoa de que sou o seu noivinho perfeito, mas você precisa fazer a sua parte, O.K? Balancei a cabeça, concordando com ele. Não havia como argumentar contra o que o meu “noivo” estava falando. Se fossemos mesmo fingir ser um casal, as pessoas precisavam acreditar nisso, o que necessitava de uma atuação melhor da minha parte.


— Vamos começar de volta? — propôs Pablo. — Então, conte-me um pouco sobre você. Eu preciso saber tudo a seu respeito, já que vou me casar com você — continuou ele, não segurando o riso. — Deixe com que eu veja a pessoa que você realmente é, Gabriele. Levantei-me e caminhei em direção a pia, o lugar onde depositei o meu prato sujo. Não demorou muito para que eu ouvisse os passos de Pablo, aproximando-se. Ele parou atrás de mim, fazendo com que eu sentisse o seu corpo se encaixar ao meu. Naquele instante, em meio ao silêncio, eu fui capaz de ouvir a sua respiração, eu fui capaz de sentir o seu hálito quente em meu pescoço. Ele se afastou, deixando o seu prato na pia, quebrando a ligação que estávamos tendo. Voltei o meu olhar em sua direção, sem saber exatamente o que deveria falar, como deveria responder à pergunta que ele havia me feito há alguns minutos. — Meu nome é Gabriele Novais, eu trabalho na revista Global e o meu maior sonho, a coisa que sempre almejei, é o cargo de editora chefe. Mas, por algum motivo, o dono dela não vai me promover, simplesmente, por eu ser uma mulher solteira. — Ainda com o olhar em seu rosto, finalizei: — não ter um homem em minha vida, aparentemente, desvaloriza a pessoa que eu sou e isso me incomoda muito. Faz com que eu queira correr até o centro da cidade para sentar no meu banco da dor. Com as sobrancelhas arqueadas, Pablo questionou a minha última frase: — banco da dor? Às vezes, eu acabava me esquecendo de que — com exceção de Eduardo — ninguém conhecia o verdadeiro significado de um “banco da dor”. Aquele banco no centro da praça não era um simples acento público — não pra mim —, mas o meu único refúgio, o lugar em que sempre recorria para refletir quando estava com problemas. Depois de sorrir sem graça, eu dei início a minha primeira tentativa de explicar o que, de fato, era aquele banco: — ele é... o banco é... Infelizmente, eu só fui perceber o quanto tudo aquilo era extremamente pessoal quando comecei a falar, gaguejando em frente a Pablo. Depois de respirar fundo, pensando exatamente em como deveria contar a ele, eu prossegui:


— Eu nunca tive uma relação boa com a minha mãe biológica, principalmente depois que ela me jogou para fora de casa a pedido do namorado — revelei a Pablo, de uma maneira bastante hesitante. Nunca me imaginei contando aquelas coisas para alguém que não fosse Eduardo. — Durante a minha infância, aquele banco era o único lugar em que eu podia refletir sobre os meus problemas, que em sua maioria a envolviam. Eu dividi mais coisas com esse banco do que com qualquer outra pessoa. — Agora, é a sua vez! Eu preciso saber dos seus medos, inseguranças e, principalmente, dos seus lugares especiais, daqueles que você usa quando quer se desligar da realidade — completei, antes que ele pudesse sentir pena de mim. — Conte-me sobre você... qual é o seu “banco da dor”? Ao contrário do que eu pensei, Pablo não respondeu a minha pergunta — algo que havia sido ideia dele. Em vez disso, ele encarou o celular e demorou o seu olhar na tela do iPhone, como se estivesse esperando uma mensagem — uma, obviamente, mais importante que a nossa conversa. — Eu... — seus olhos azuis esverdeados se ergueram em minha direção, antes de ele completar a frase anterior, dizendo: — eu preciso ir... desculpe. Nós podemos terminar isso aqui outra hora? Balancei a cabeça, respondendo a sua pergunta em silêncio. Sim, nós podíamos terminar outra hora. Mas, infelizmente, algo que dizia que aquela conversa não tornaria a se repetir. Eu não me abria duas vezes para a mesma pessoa, principalmente quando essa pessoa era muito idiota. Acompanhei Pablo até a porta, perguntando-me o porquê de eu estar tão chateada com a sua partida. Diferente de mim, a pessoa ao meu lado só conseguia expressar a sua grande indiferença em relação ao que estávamos tendo — ao que ele havia acabado de interromper. — O jantar estava delicioso, obrigado por me convidar. E, pincipalmente, foi muito bom conversar com você. Eu adorei te conhecer — disse ele, antes de cruzar a porta. — Boa noite, Gabriele.  


Exclusivo? — Capítulo 8

Até mais, seu otário, pensei, logo após fechar a porta a minha frente. Ainda com uma expressão decepcionada em meu rosto, caminhei em direção ao sofá da sala e sentei-me, voltando o meu olhar para o chão. Depois de xingar mentalmente Pablo em várias línguas, apanhei o controle da televisão e, como nada mais agradável estava passando, assisti ao noticiário local. Antes que eu pudesse descobrir sobre mais um roubo à mão armada na cidade de Curitiba, a porta da sala se abriu, assustando-me completamente. Para a minha surpresa — e decepção —, não era Pablo, mas Eduardo que, ao contrário do que pensei, não estava se divertindo em uma festa incrível. — Droga Eduardo! — eu disse a ele, com a mão direita sobre o coração, de uma maneira ofegante. — Você nunca aprendeu que se deve bater na porta antes de entrar? — Eu não vou bater para entrar em minha própria casa — respondeu o meu amigo, dando de ombros para as minhas palavras. Depois de vasculhar a casa com o olhar, Eduardo tornou a dizer: — cadê o Pablo? Eu já estava com raiva muito antes de Eduardo tocar no nome daquele imbecil, mas depois que ele o fez, o meu ódio aumentou de nível. E, de uma maneira extremamente grosseira, eu respondi: — quando eu descobrir, conto pra você! O garoto a minha frente ergueu as mãos, dizendo: — Calma aí... eu só fiz uma pergunta. — Com um sorriso irritante nos lábios, ele prosseguiu: — pelo jeito, não teve sexo. Revirei os olhos e tentei ignorar as coisas estúpidas que iam saindo da boca de Eduardo de uma maneira descontrolada. Eu não precisava me estressar ainda mais naquela noite. — Pensei que você estivesse em uma festa maravilhosa — comecei a dizer, esforçando-me para mudar de assunto e, também, para irritá-lo. — Pelo que eu posso ver, choveu bastante para você também, meu querido.


— Negativo, minha querida. Eu só voltei aqui porque me esqueci de entregar o cheque para nosso puto preferido... quer dizer, o seu Puto preferido — disse ele, na defensiva. — Aqui na minha quebrada, está completamente ensolarado e sem nenhuma previsão de chuva. E, somente naquele instante, eu percebi que Pablo havia partido sem levar parte do dinheiro que havíamos combinado de pagar como uma entrada para o seu “serviço”. Isso só poderia significar duas coisas: uma grande dor de barriga ou que algo realmente sério havia acontecido. Esses eram os únicos motivos lógicos que o fariam deixar a minha casa sem o dinheiro. — Ele foi embora sem pegar o dinheiro... — disse ao Eduardo, deixando a minha voz falhar no fim da frase. Ainda com os olhos fixos em meu amigo, repeti, aumentando o meu tom de voz: — ele foi embora sem pegar o dinheiro! Eduardo encarou-me com um olhar confuso, aparentemente, sem entender o que eu estava tentando dizer. E, naquele momento, eu não fui capaz de explicar a ele a grande teoria da conspiração que havia se formado em minha mente. Cansada de vê-lo com aquele olhar de “acho melhor você tentar desenhar, porque eu ainda não estou entendendo nada”, optei por ser um pouco mais direta. — Algo sério aconteceu — eu disse, preocupando-me com o homem que há poucos minutos estava odiando fortemente. — Ele não deve estar em uma situação boa, Edu. Balançando a cabeça, em um sinal negativo, Eduardo respondeu: — Você é quem não está em uma boa situação, Gabriele. — O que você quis dizer com isso? — perguntei a ele, de uma forma bem direta. Após perceber que ele não responderia a minha pergunta, completei: — diga logo, Eduardo! Depois de me ouvir gritar por mais alguns segundos, como uma garotinha mimada, ele finalmente revelou: — se ele não está aqui e nem mesmo se preocupou com o dinheiro... significa que, na verdade, ele está com outra cliente, uma que deve estar pagando o dobro. — Aquele cretino... — deixei escapar, enquanto ainda encarava Eduardo. — Então, mesmo depois de nos propormos a pagar aquela fortuna a ele, ainda sim, nós não vamos ter exclusividade?


Não precisava de uma resposta da parte do meu amigo para que eu soubesse a verdade. Pablo era um canalha e, por algum motivo idiota, acabei me deixando levar por um instante, pensando que ele iria honrar aquele nosso acordo. De uma maneira descontrolada, eu corri até a cozinha e apanhei o meu celular em cima da mesa. Depois de encarar a tela apegada, pensando se realmente deveria mandar aquela mensagem, desbloqueie o aparelho e cliquei no ícone do aplicativo de mensagens. E sem pensar uma segunda vez, enviei “Eduardo voltou e me lembrou de que ainda não pagamos aquela primeira parte do seu pagamento. O que acha de vir aqui pegar com a gente?”. Em menos de um minuto, ele respondeu com um “desculpe mesmo, não consigo ir até o seu apartamento agora. Eu tenho que resolver algumas coisas ainda hoje. Podemos deixar isso para um outro dia, Gabi?”. As palavras na mensagem confirmaram as suspeitas de Eduardo. Entretanto, eu ainda poderia estar certa, Pablo podia estar com problemas sérios — o meu nome escrito de forma carinhosa contribuiu para esse pensamento. Mas a grande verdade — aquela que os meus ouvidos não queriam ouvir — era que parte de mim estava ignorando o fato de que Eduardo estava certo, enquanto eu estava tentando me enganar com aquela desculpa idiota. — Tem uma coisa que preciso te dizer — disse Eduardo, ao adentrar o cômodo. Com o olhar voltado em minha direção, ele continuou dizendo aquilo que não deveria ter começado: — eles... eles querem te ver. E você não pode mais adiar isso, não da maneira que está fazendo, Gabriele. O “eles” significava “meus pais” ou, simplesmente, “os pais do Eduardo”. Aquelas pessoas me criaram como se fossem meus pais biológicos, dando-me amor e conforto — coisas que a minha mãe nunca chegou a me oferecer. No entanto, eu não podia simplesmente voltar e encará-los como se nada tivesse acontecido. As coisas, infelizmente, não funcionavam assim. — Eu... eu não posso voltar lá — eu disse, com um pouco de dificuldade. E antes que Eduardo pudesse argumentar, completei: — não será a mesma coisa, não desta vez. — Então, eles virão até você — argumentou ele, assustando-me. — Você os conhece muito bem... Afinal, eles também são os seus pais. Cansada de toda aquela história sobre os Hoffmann, eu mudei de assunto, mais uma vez, em um mesmo dia: — você não tem uma festa pra ir?


Eduardo balançou a cabeça, concordando e, também, aceitando que não seria tão fácil me arrastar para dentro da casa dos seus pais. Eu, definitivamente, não pertencia a aquele lugar e nada — nem mesmo ele — poderia mudar isso. O meu amigo não esperou por outra patada da minha parte e caminhou em direção à porta, deixando-me sozinha. *** Depois de passar de um tempo sozinha, sem nenhuma porcaria gordurosa para beliscar, enquanto assistia a mais um capítulo da novela, peguei o meu carro e dirigi até a minha panificadora preferida, Doces Corações. Aquele lugar possuía facilmente as melhores sobremesas da cidade. E, naquele momento, eu, definitivamente, estava precisando de uma sobremesa. Comprei sonhos de doce de leite, algumas fatias de bolos — incluindo um de chocolate —, mini churros e — como não poderia deixar de ser — alguns brigadeiros. Quando percebi que havia exagerado na compra, eu já estava dentro do meu carro, com as sacolas no banco de trás. Virei-me para apanhar a embalagem que armazenava os sonhos. Não liguei o carro antes de dar a primeira mordida naquela bomba calórica e, com uma mão no volante e a outra no sonho, segui pela estrada, devorando-o completamente. Quando o sinal fechou, voltei o meu olhar para o outro lado da rua e observei o movimento, enquanto o semáforo não ficava verde. O que chamou a minha atenção não foram as garotas desfilando sem roupa do outro lado da rua, em uma tentativa de conseguir clientes. Mas um homem — um muito familiar — com uma sacola na mão, passando pelas garotas em uma cena incrivelmente sarcástica. O encontro dos putos, eu pensei ao ver Pablo próximo daquelas garotas de programa. Antes que eu pudesse nutrir algum pensamento maldoso em relação a isso, ele se afastou das meninas, recusando o convite delas e entrando em seu carro, o novo Golf — um prateado, deixando aquele modelo ainda mais lindo. Passei tanto tempo encarando aquele homem que não notei quando o sinal abriu, o que fez com que várias buzinas soassem, alertando-me daquela grande falta de atenção. Mas, por sorte, Pablo não me viu observando-o como uma verdadeira stalker adolescente, do tipo que passa horas em frente ao computador, com a página da rede social do namorado aberta. Não pensei duas vezes e peguei a mesma rua que Pablo, seguindo-o em uma boa distância, diminuindo as chances de ser pega. Naquele momento, tudo o que eu queria era flagrá-lo com


uma outra cliente e provar que o desgraçado não estava cumprindo com o nosso acordo de exclusividade, um dos benefícios que ele me ofereceu quando fechamos negócio. E por mais que isso não fosse acrescentar em nada na minha vida, eu desejava mais que qualquer outra coisa. Com um extremo cuidado para não perdê-lo de vista, estiquei o meu braço, apanhando o meu celular no banco do carona. E, ainda com a atenção na estrada — ou quase isso —, enviei uma mensagem ao Pablo Puto. “O que você está fazendo?”, perguntei, como se ele me devesse algum tipo de satisfação. Em seguida, para que ele não suspeitasse do meu plano de vilã da novela das nove, enviei outra mensagem, dando um tom de humor naquela conversa “eu sou a sua noiva agora, preciso saber de tudo”. As ruas medonhas que Pablo seguia fez com que eu perdesse a atenção no celular e voltasse o meu olhar para a estrada — o lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Não demorou muito para que eu constatasse que estávamos adentrando uma favela. Mas nem o medo fez com que eu retrocedesse. Eu precisava descobrir quem Pablo estava indo encontrar. O carro dele estacionou em frente a um grande barracão, o que me parecia ser uma escola. Quando Pablo deixou o veículo, finalmente identifiquei o que estava dentro da sacola que ele carregava. Sem dúvida alguma, eram garrafas de refrigerantes, o que me deixou ainda mais confusa. Ele nem mesmo visualizou a mensagem que mandei, provando-me que o seu foco estava direcionado a algo ainda mais importante do que eu. Só desci do meu carro quando Pablo passou pelo portão. Quando ele deixou o meu campo de visão, caminhei até a grande armação de metal e visualizei a fachada do lugar. Eu estava certa, aquele lugar estranho e mal rebocado realmente era uma escola. Eu tinha duas opções, que eram bem simples. Eu poderia caminhar em direção ao meu carro e ir embora e, logo em seguida, me arrepender muito por não ter adentrado aquele local misterioso em que Pablo se escondia. Ou então, eu poderia entrar na escola com uma grossa camada de óleo de peroba no rosto e sofrer as consequências pelos meus atos. Ainda de uma maneira hesitante, eu passei pelo portão rapidamente, enquanto o meu estômago era tomado por borboletas. Eu caminhei lentamente, refazendo os passos do meu alvo.


Entretanto, a minha vida bandida e fora da lei acabou no instante em que eu adentrei o lugar. Pablo estava parado, ao lado da porta, esperando-me entrar. — Você ficou louca? — perguntou ele, fuzilando-me com o seu olhar duro. Antes que eu tivesse a chance de explicar algo inexplicável, Pablo completou: — por que você me seguiu?


Crianças — Capítulo 9

No mesmo instante, eu comecei a rir, em uma estúpida tentativa de mascarar o meu desespero. No entanto, Pablo continuava sério, enquanto eu revirava os meus olhos, com uma expressão de “eu te seguindo? Claro que não!”. Ainda com o sorriso em meus lábios, eu finalmente respondi a pergunta acusatória de Pablo: — O quê? Eu... eu não estava te seguindo. — balancei a cabeça, enquanto forçava um riso, como se a suposição dele fosse algo totalmente fora da realidade. — Eu estava... estava... — depois de pigarrear, com direito a uma ridícula crise de tosse, eu tentei prosseguir, com bastante dificuldade: — eu... eu... — cansada de me humilhar em frente a ele, devido a minha falta de criatividade para uma desculpa descente, respondi: — tudo bem... eu te segui mesmo! Mas só porque você é um cretino. Tínhamos um acordo de exclusividade, um acordo que você quebrou sem pensar duas vezes. Antes que ele pudesse se defender das minhas acusações, uma mulher alta, magra, loira e ridiculamente perfeita aproximou-se de nós dois, interrompendo a nossa pequena discussão. Foi impossível não secar aquela mulher com os meus olhos. Os olhos negros da loira fixaram-se em mim, analisando-me completamente, da mesma maneira que eu havia feito com ela. Ainda me fuzilando com o olhar, ela perguntou: — Interrompi alguma coisa? — a sua atenção voou em direção a Pablo, esperando pelas palavras que certamente estavam por vir. Depois de alguns segundos em um silêncio torturante, o meu “noivo” respondeu: — de forma alguma Gisela, você não interrompeu nada. — Um estranho sorriso deixou os lábios de Pablo, fazendo-me questionar os pensamentos que deviam pairar por sua mente. — Na verdade, gostaria de te apresentar uma pessoa. — Sem mais tardar, ele caminhou em minha direção, completando, antes de me envolver com o seu braço esquerdo: — eu quero que conheça Gabriele, a minha noiva.


Gisela, aparentemente, estava ainda mais surpresa do que eu. Seus olhos não tornaram a me fuzilar, como pensei. Ela estava concentrada no rosto de Pablo, no sorriso que brotou em seus lábios ao falar do nosso noivado. Era como se, de alguma forma, ela estivesse tentando-o, esperando que ele tropeçasse em sua própria mentira. De repente, a mulher sorriu e caminhou em minha direção, abraçando-me, um pouco antes de dizer: — você é real, quem diria? Estou muito feliz por finalmente te conhecer. Após se afastar, a expressão do rosto de Gisela passou de alegre para confusa, finalmente deixando transparecer toda a desconfiança que ela nutria. — Eu... eu pensei que você se chamasse Kamile... — mais uma vez, os olhos da mulher queimaram o rosto de Pablo, dando-nos uma grande amostra de toda a sua falta de confiança. — Ao menos, foi isso o que o seu noivo me disse há algum tempo, não é Pablo? Nós duas voltamos o olhar para o homem que ainda mantinha uma expressão de paisagem no rosto. Ele retribuiu os nossos olhares, mas não foi capaz de pronunciar uma única palavra. E isso, certamente, deu a resposta que Gisela tanto esperava. De uma maneira espontânea, comecei a rir. Depois de balançar a cabeça e fingir um falso entusiasmo, respondi a sua pergunta, que fora feita para Pablo, da melhor forma possível: — E, infelizmente, é! — mordi o lábio inferior, mantendo o meu sorriso, enquanto pensava em uma saída para aquela pergunta. — Tenho nome composto, eu me chamo Kamile Gabriele, mas odeio o “Kamile” com todas as minhas forças. — Virei-me, encarando Pablo com um olhar de “você, definitivamente, me deve uma”. — E, obviamente, Pablo saiu espalhando pra me irritar, não é seu canalha? Aos poucos, toda a desconfiança deixou a face da mulher a minha frente, fazendo com que ela tornasse a sorrir, estendendo a mão, convidando-nos para entrar — algo que nunca pensei que fosse acontecer e, ao julgar pela surpresa de Pablo, nem ele. — Acho melhor entrarmos, pois ainda temos muito trabalho essa noite — ela, simplesmente, começou a caminhar, enquanto continuou a falar sobre o determinado trabalho do qual eu, de alguma maneira, havia passado a fazer parte: — as crianças já deveriam estar na cama, mas ainda estão acordadas, esperando por você. Mas, como eu te disse por telefone, hoje é uma exceção, algo que não voltará a se repetir...


— Não vai — disse Pablo, interrompendo-a, com uma postura séria. — Eu deveria estar aqui antes, mas acabei me atrasando. Então, a culpa foi toda minha e eu assumo isso. Mesmo sem ter a mínima ideia sobre o que os dois falavam, resolvi me enfiar no meio da conversa. Caminhando ao lado de Pablo, comecei a dizer: — e minha também. Eu acabei me atrasando, enquanto me arrumava. Pablo só é culpado por me esperar. — O importante é que vocês chegaram e as crianças vão ter esse momento e, por mais que esteja muito longe de algo perfeito, eu tenho certeza que para elas vai significar muito — disse Gisela, de costas para nós dois. Seguimos Gisela pelo corredor, que nos levou para o segundo andar do prédio, mais especificamente para uma sala repleta de crianças. Elas estavam sentadas uma ao lado da outra, amontoadas sobre os diversos colchonetes espalhados pelo chão. Em frente a elas, uma parede branca refletia algumas imagens do projetor. Assim que nos viram adentrar o cômodo, várias crianças correram em nossa direção, de uma forma desesperada — assustando-me no mesmo instante —, cercando-nos e enchendo o homem ao meu lado de abraços apertados. Algumas delas até mesmo demonstraram carinho por mim — uma completa desconhecida — abraçando-me após cumprimentar Pablo. — Quem é ela tio Pablo? — perguntou uma garotinha, que não devia possuir mais de cinco anos. Antes que a pessoa ao meu lado tivesse a chance de mentir, dizendo o famoso “uma amiga”, a criança tornou a perguntar, completando: — é a sua namorada? Depois de sorrir, Pablo balançou a cabeça, rendendo-se à criança, respondendo: — então, essa aqui é a tia Gabi... — Ele sorriu, voltando o seu olhar para mim, que retribuí o sorriso. — E, sim, ela é a minha namorada. Pablo caminhou até o canto da sala, onde algumas bacias repletas de pipocas estavam expostas, deixando a sacola branca com os refrigerantes. — Galerinha, quem é que está pronto para o filme? — perguntou Pablo, com uma expressão alegre no rosto. Após o “QUERO” gritado pelos pequenos, sentei-me ao lado de Pablo e de várias outras crianças. Pelo que pude contar, estávamos cercados por mais de vinte delas, o que fez a


minha mente tornar a questionar o motivo de um garoto de programa frequentar um local como aquele. Os momentos em que passamos naquela escola ainda não faziam sentido — pelo menos, não em minha mente. Depois de notar o olhar de Gisela sobre nós dois, de uma maneira discreta, o homem ao meu lado envolveu-me com o seu braço direito, obrigando-me a encostar a minha cabeça em seu peito. Naquele momento, eu fui capaz de senti-lo de uma forma completamente diferente. O som constante da batida de seu coração, de alguma forma, acalmou-me, deixando-me ainda mais confiante para a mentira que contávamos. Seus olhos azuis esverdeados se voltaram para mim e, em seu rosto, um sorriso se formou. Um “obrigado” silencioso deixou os seus lábios, fazendo com que eu retribuísse o sorriso que continuava em sua face sedutora. Por uma pequena fração de segundos, enquanto nos encarávamos, existiu apenas nós dois e o silêncio naquela sala. Continuaríamos daquela forma se não fossemos interrompidos pela música dos créditos. O filme havia chegado ao fim e as crianças já resmungavam que não queriam ir para as suas respectivas camas. E, de uma maneira carinhosa, Pablo pegou algumas delas no colo e as arrastou para fora da sala. Enquanto as crianças o seguiam, completamente animadas, Gisela — a pessoa responsável por aquele lugar, aparentemente — aproximou-se de mim. Por mais que ela tivesse me intimidado há algumas horas, naquele instante, eu estava confiante, o suficiente para iniciar o assunto. — Elas são maravilhosas — eu me ouvi dizer, enquanto sorria, encarando o corredor pelo qual Pablo havia seguido. Ela balançou a cabeça, concordando com as minhas palavras. — Elas são as coisas mais importantes do mundo pra mim — disse ela, antes de interromper a própria fala. Após alguns segundos em silêncio, Gisela tornou a falar: — e elas são importantes para o Pablo também... esse lugar é a casa dele. Tudo o que pude fazer, foi assentir. Eu não conhecia nada de Pablo, não havia nada que eu pudesse dizer a ela — pelo menos, não algo relevante sobre a vida do meu “noivo”. — Eu estou muito feliz por finalmente conhecer você, de verdade — prosseguiu ela, enquanto


me analisava intensamente. — Ele estava precisando de algo sério, algo... algo como você. Eu não poderia estar mais feliz pelo meu amigo. Continuei sorrindo, com uma expressão de paisagem estampada em meu rosto. Continuaria desta forma, completamente muda, se Pablo não tivesse retornado, salvando-me de mais algumas frases totalmente sem sentido para mim. Nós nos despedimos de Gisela, que nos acompanhou até o portão da instituição, enquanto repetia o quanto às crianças haviam gostado da nossa visita. Quando Pablo a abraçou, eu senti um estranho sentimento, algo que me incomodou. Por algum motivo, eu estava sentindo ciúmes dela, o que era estranho, muito estranho. A primeira coisa que Pablo fez quando finalmente ficamos sozinhos, foi abraçar-me fortemente. Ainda envolvendo o meu corpo com os seus braços, ele disse, desta vez, em voz alta: — muito obrigado. Sem graça, respondi, logo após afastar-me de seu corpo: — não precisa agradecer. Fui eu quem te contratou pra isso, não é? Se existiu algum clima, o meu “te contratou” jogou um balde de água fria nele. E, pela expressão de Pablo, eu não havia sido a única que percebeu o quando a palavra deixou aquele momento tenso. — Não... — disse ele, quebrando o nosso silêncio constrangedor. — Você está me pagando para fingir ser o seu noivo, algo que ainda nem comecei a fazer. O que aconteceu hoje foi completamente diferente, você não precisava me ajudar. As palavras de Pablo fizeram com que eu me sentisse culpada. No fim do dia, eu descobri que ele não estava quebrando o nosso acordo de exclusividade e que nem mesmo estava saindo com uma outra mulher. Pablo, definitivamente, estava me surpreendendo — e de uma maneira boa, o que era o mais estranho de toda aquela situação. — Eu estava errada em relação a você... — deixei com que as palavras escapassem, enquanto ergui o meu olhar, focando em seus olhos claros. — E você não precisa me agradecer, sou eu quem deve desculpas por toda a situação constrangedora em que nos enfiei. Caminhamos em direção ao meu carro, do outro lado da rua. Pablo abriu a porta do


motorista para que eu entrasse, como um verdadeiro cavalheiro. Após entrar, ele a fechou e, logo em seguida, eu abri o vidro, tornando a encarar o seu rosto. Antes que ele me deixasse, livrei-me de uma pergunta: — o que é esse lugar? Ele virou a cabeça, encarando a fachada da escola e voltou a sua atenção para mim, sorrindo. — O lugar onde eu cresci... — disse ele, dando sentido às palavras daquela mulher intimidante. — O mesmo lugar em que Gisela cresceu também. — Após perceber o quanto o nome de Gisela deixou-me tensa, Pablo sorriu, completando: — ela é só uma amiga, quase irmã. Não tem nada entre a gente, eu juro. Completamente na defensiva, respondi: — tudo bem, você não me deve explicações. — Enquanto pronunciava aquelas palavras, ignorei completamente o fato de tê-lo seguido mais cedo. — Você... você não me deve satisfações da sua vida. Com a mão, ele pediu para que eu me aproximasse da porta, em um gesto simples. Sem entender o porquê, eu ergui a minha cabeça, esperando por uma resposta de sua parte. Logo em seguida, sem nenhum aviso prévio, Pablo aproximou-se ainda mais da porta, passando a sua cabeça pelo vidro e, consequentemente, me beijando, pegando-me totalmente desprevenida. Meus olhos mantiveram-se fechados enquanto a sua língua explorava a minha boca. Pablo devorou-me com um único beijo, fazendo-me ansiar por mais. Aqueles segundos pareceram longos minutos e, ainda sim, aparentaram serem poucos para matar toda a vontade que eu sentia. Quando o seu rosto afastou-se do meu, eu continuava insaciada, necessitava de mais, precisava sentir aquela sensação por uma maior quantidade de tempo. Com um meio sorriso, Pablo encarou-me por mais alguns instantes, antes de dizer às palavras que nós dos queríamos desesperadamente adiar: — boa noite, Gabriele.  


Depois do Beijo — Capítulo 10

Depois do beijo, tudo mudou, por mais que nenhum de nós dois quisesse admitir. Infelizmente, Pablo não foi embora após dizer “boa noite, Gabriele”. E, infelizmente — novamente —, fui eu quem insistiu para que ele não fosse. Logo nós estávamos em meu apartamento, adentrado o meu quarto completamente apressados, ansiando por aquele ato que não deveríamos cometer, mas que, ainda sim, estávamos dispostos a dar continuidade, sem medo de ceder aos nossos desejos. Antes de cruzarmos a porta, Pablo já tocava o meu corpo, apalpando tudo o que a sua mão era capaz de alcançar. Sem pudor algum, ele apertou os meus seios com força por cima do tecido, envolvendo todo o meu corpo em uma tensão que eu não sentia há muito tempo. No entanto, antes de seu toque, eu já estava completamente entregue a ele — e isso não era mais segredo. Aquele homem me ganhou no instante em que nossos lábios se tocaram, no instante em que nossas palavras se perderam durante o silêncio que o beijo nos trouxe. Ele me beijou, um beijo tão voraz quanto o último que tivemos — um beijo que não deixava a minha mente. Enquanto sua língua invadia a minha boca, eu quis fugir de seus braços fortes, interromper o beijo e me afastar de seu corpo mais que convidativo. Mas a cada movimento, a cada mordida de leve que Pablo dava em meus lábios, eu era convencida a continuar ali, aproveitando daquele momento perfeito — aproveitando de uma companhia que fora paga com o dinheiro do meu amigo. — Tem alguma chance do seu amigo nos interromper? — perguntou-me ele, lendo os meus pensamentos. Pablo não esperou por uma resposta, não antes de me empurrar em direção à parede, prendendo-me com o seu corpo enorme. Suas mãos posicionaram-se acima de meus ombros, enquanto o seu olhar intenso me devorava. — Eu não quero ser interrompido... não enquanto estiver com você, Gabriele. Eu o entendia completamente. Antes mesmo de começar, já temíamos pelo momento em que teríamos que deixar de nos tocar, o momento em que ambos naquela sala queriam, com todas as forças, ter que adiar. — Não seremos interrompidos — eu disse, mesmo sem ter certeza de minhas palavras.


Simplesmente, pareceu-me a coisa certa a ser dita para ele. Antes de prosseguir, eu já havia me arrependido por minhas próximas palavras. — Mas... eu não estou pagando para ouvir você falar. Enquanto Pablo atirava-me em direção a cama, lembrei-me de suas palavras, palavras que ele fez questão de expor no dia em que nos conhecemos. E pensar que foram aquelas mesmas palavras que fizeram com que eu desgostasse dele — ao menos, o quanto era possível quando se tratava de alguém como Pablo. Vou logo avisando que eu não costumo foder com as minhas clientes, dissera ele, por mensagem, naquele dia. Com um sorriso nos lábios, levantei o meu olhar, fixando-o no centro de seu rosto. Pablo continuava em pé a minha frente, enquanto eu me deitava na cama, abrindo os meus braços e pernas, excitando-o com os movimentos do meu corpo. Tudo o que eu mais quis, naquele instante, foi roubar completamente a sua atenção — algo que eu, certamente, consegui com um pouquinho de esforço. — Achei que você não fodia com as suas clientes — eu me ouvi dizer em voz alta, provocando-o ainda mais. Após sorrir com o meu comentário, ele respondeu, antes de tirar a camiseta, virando o jogo de sedução contra mim: — e não fodo. Mas você, Gabriele, é uma cliente especial, merece o serviço completo. Pablo era um jogador tão bom quanto eu — talvez, aquele safado fosse até melhor. Ambos lutávamos, roubando a atenção um do outro, excitando-nos com simples frases e gestos. Um simples olhar era capaz de dizer muita coisa — coisa demais. Antes que eu pudesse perguntar “eu mereço mesmo?” com a minha voz mais sexy, o acompanhante de luxo aproximou-se da cama e, consequentemente, de mim. Pablo engatinhou ao meu encontro, como um verdadeiro felino, em uma pose completamente sexy. Foi impossível não me sentir uma presa, algo que estava prestes a virar o jantar de um predador faminto. Era como se os seus movimentos fossem programados para me excitar. Tudo naquele homem aumentava o meu desejo de uma maneira insana. Resistir a ele estava ficando cada vez mais difícil. Aparentemente, era Pablo quem ganharia o jogo da sedução. Mas eu não poderia dizer que dormir com ele era uma maneira ruim de perder, poderia?


Tudo o que os meus olhos queiram ver, eram os músculos expostos em seu corpo completamente torneado. Vê-lo daquela forma fez com que eu desejasse passar a minha língua por cada um dos gomos em seu abdome definido. Eu queria, desesperadamente, tocá-lo. — Acho melhor a gente começar logo... eu costumo cobrar por hora — disse ele, logo após sobrepor o meu corpo com o seu, aprisionando-me naquele colchão. — No instante em que te conheci, quando olhei para você, eu sabia que acabaríamos aqui. Desta vez, fui quem tomou a iniciativa. Beijar Pablo foi fácil demais, era como se aquele simples movimento de erguer a minha cabeça para alcançar os seus lábios fosse um instinto do meu corpo. Difícil mesmo foi deixar de tocá-lo daquela forma, abandonando os seus lábios para tentar um outro tipo de beijo. Eu o empurrei de cima de mim, jogando-o para o lado e, logo em seguida, subindo em cima de seu corpo, copiando os seus movimentos anteriores. Comecei o beijo por seus lábios, que ansiavam mais que os meus pelo toque. Segundos depois, fui descendo, beijando o seu peito e, consequentemente, lambendo os seus mamilos, em movimentos circulares, algo que pareceu excitá-lo bastante. A tensão entre nós dois era gigantesca, não conseguíamos mais disfarçar o quanto queríamos aquilo — pelo menos, eu não conseguia deixar de transparecer a minha vontade. Depois de brincar com os seus mamilos, continuei descendo por seu abdome, deixando-o tenso para o que estava por vir. Pablo não tentou apressar as coisas, empurrando a minha cabeça em direção a sua virilha, como a maioria dos caras certamente fariam. Assim como eu, ele queria aproveitar cada momento lentamente, saboreando-o como um prato caro e refinado. Mas, então, o desejo continuou aumentando, fazendo com que eu apressasse as coisas. Abri a sua bermuda rapidamente, ansiosa para encontrar aquilo que tanto procurava. Pablo continuava com o olhar sobre o meu rosto, assistindo-me despi-lo — aquele canalha adorou cada segundo. Ele amou sentir todo o meu desejo por ele. A cor de sua cueca era azul, algumas tonalidades mais escuras que a de seus olhos. Eu a abaixei sem pensar duas vezes, queria acabar com toda aquela fome que sentia. Mas antes que eu pudesse dar uma boa olhada em seu membro, um som familiar começou a tocar, algo que fez com que eu quisesse gritar. Eu reconheceria aquele som irritante em qualquer lugar do mundo. Era o toque do meu despertador.


Abri os meus olhos e continuei ouvindo o som do despertador, enquanto os últimos vestígios daquele sonho se dispersavam de minha mente, tornando alguns detalhes confusos. Ainda deitada na cama, eu tentava me lembrar daquele sonho — algo completamente ridículo —, não queria me esquecer de nada. Sim, era oficial e completamente terrível. Eu estava sonhando com o Pablo Puto — e havia gostado do sonho — e isso conseguia ser ainda pior que o beijo que havíamos compartilhado na noite anterior.  


Confiança — Capítulo 11

— Eu... eu o beijei — eu disse, finalmente tomando coragem para falar sobre aquele momento com outra pessoa. Eu estava tão ansiosa que não conseguia ficar parada em um único lugar e, por esse motivo, enquanto apoiava o celular em meu ouvido direito, desfilava de um lado ao outro, em minha sala. Quando notei que Eduardo não comentaria nada a respeito, tornei a dizer: — eu beijei o Pablo Puto, Eduardo! Após mais alguns segundos fingindo ser mudo, o meu amigo resolveu abrir a boca, diminuindo todo o frio que eu sentia em minha barriga. — Foi só um beijo, um único beijo. Não precisa fazer drama por algo que acabaria acontecendo entre vocês. E, até onde eu sei, vocês são noivos, não é? — Eduardo suspirou, mostrando o quanto estava gostando do assunto que discutíamos. — Eu ainda não sei o motivo pra ficar se pilhando por causa de um beijo idiota. Em uma tentativa de não revelar a grande verdade a Eduardo, eu desliguei a ligação. O motivo era bem simples — simples até demais. Eu sabia que não havia sido um “beijo idiota” — como Eduardo fez questão de destacar. E, principalmente, eu sabia que aquele contato havia significado algo, para nós dois. No momento em que nos beijamos, infelizmente, algo mudou e eu era capaz de sentir — talvez, Pablo também fosse. — O que aconteceu? — perguntou Gaspar, invadindo a minha sala, sem nem mesmo bater. O homem a minha frente analisou-me por mais alguns segundos, antes de continuar: — você está com aquele olhar de “droga, eu não acredito que fiz isso!”. Arqueei as sobrancelhas, fingindo uma expressão confusa, enquanto perguntei: — O quê? — eu conhecia Gaspar o suficiente para saber que ele não repetiria a sua frase anterior, mas, ainda sim, eu precisava tentar. Depois de estacionar em seu silêncio, eu completei, tirando-nos de lá: — eu, definitivamente, não tenho esse olhar. Na verdade, eu nem sei sobre o que você está falando. — Ah, não sabe? — após perguntar, ele deixou com que uma risada escapasse por


entre seus lábios. Encarou o meu rosto mais uma vez e, antes de deixar a sala, jogou uma bomba prestes a explodir em minha cabeça, ao dizer: — se não quiser me contar, tudo bem, mas, pelo amor de Deus, só não vá esquecer de que aquele jantar com Frederico é hoje. Quando eu me preparei para gritar um gigantesco “O QUÊ?”, Gaspar deixou a minha sala da maneira mais rápida que conseguiu, mostrando-me que ele havia planejado tudo. Ele, certamente, sabia que eu havia me esquecido da porcaria do jantar e, então, aproveitou para me lembrar do que eu nunca deveria ter esquecido. A primeira coisa que fiz, após me recuperar do susto, foi mandar uma mensagem para Pablo. Por mais que eu ainda estivesse com receio de falar com ele, devido ao nosso momento “beijo” no dia anterior — e pelo sonho completamente quente que tive —, eu não consegui controlar a minha ansiedade e, também, eu precisava avisá-lo sobre o jantar que ele, certamente, teria que me acompanhar. “Temos um jantar muito importante hoje. Use a sua melhor roupa, algo completamente apresentável. Ou seja, nada de bermuda e camisetão. Pode ser aquele traje que usou quando nos conhecemos no shopping, o seu terno azul. Você ficou lindo nele”, enviei, na esperança de que ele acatasse o meu pedido ou, no mínimo, usasse algo parecido com o que eu solicitava. Alguns minutos depois, Pablo respondeu “Primeiro, você não diz o que eu devo ou não vestir. Segundo, você me contratou, não é? Então, por favor, tenha um pouco de confiança em mim. E terceiro, por que você não me contou sobre isso antes? E, quarto, você me chamou de lindo?”. Sem paciência para outra resposta elaborada, enviei uma única frase para o meu querido noivo, ignorando a sua última frase, claro. “nossa, seu cavalo... só faltou relinchar”. E, então, o que recebi em seguida foi um áudio de um cavalo relinchando. Por algum motivo, aquilo me fez rir, levantando um pouco o meu astral. Depois de mandar um “idiota”, voltei para o meu trabalho, tentando ignorar toda a pressão que estava sentindo com aquela noite que se aproximava. Conforme as horas foram se passando, toda a ansiedade que eu estava sentindo apenas aumentou. A sensação gélida em meu estômago parecia não ser capaz de deixar o meu corpo. A preocupação excessiva com detalhes insignificantes também parecia fazer parte de mim


agora. Infelizmente, tudo isso continuou me acompanhando, mesmo após eu deixar a revista, quando o meu expediente chegou ao fim. Quando cheguei em casa, tudo o que eu mais quis foi ligar para Pablo, relembrandoo do quanto aquele jantar era imprescindível para a minha promoção — que era o real motivo para a sua contratação. Mas, após discar o seu número, desconsiderei aquela ideia idiota. O acompanhante de luxo estava certo, eu precisava lhe dar um voto de confiança. E nada melhor do que começar naquele exato momento. Era tão irônico o fato de eu saber exatamente o que Pablo deveria usar, uma vez que eu não possuía uma mínima noção do meu próprio traje. Provei diversos vestidos de cores variadas — que equivalia a todo o meu guardaroupa —, mas nenhum deles parecia ser o certo para a ocasião. Eduardo, a pessoa que sempre me ajudava nessas coisas, não estava em casa para dar algum palpite relevante sobre o que estava realmente bom. E, se estivesse, diria exatamente a mesma coisa que percebi quando olhei para os vestidos. “Eles são bonitos, mas, infelizmente, nenhum deles vai cumprir com o papel”. Mesmo não gostando da ideia, abandonei aquela parte do guarda-roupa e volteime para a outra, uma que eu, definitivamente, não deveria usar. “É uma ocasião muito especial, não vai fazer mal”, pensei, enquanto passava a minha mão pela seda do vestido preto, ainda embrulhado na caixa de presente. Se a aparência dele não tivesse me convencido, a maciez do tecido certamente o faria. Decidida a usá-lo pela primeira vez, eu o tirei, visualizando-o por inteiro. Ele era maravilhoso. A seda negra era linda, transformando a mulher que o usasse em uma verdadeira princesa. As mangas longas, em uma renda decorada, tornava aquele pedaço de tecido caro em algo ainda mais deslumbrante. O vestido era um presente de aniversário que ganhei dos Hoffmann no ano anterior. E usá-lo agora fazia com que várias lembranças invadissem a minha mente, jogando-me de volta no passado, no momento em que a minha mãe biológica retornou a minha vida. Se a ocasião fosse outra, eu jamais o teria tirado da caixa. Mas eu, definitivamente, não deveria viver de passado. Eu já estava decidida a usar o vestido. Mais do que isso, eu estava decidida a arrasar naquela festa. Estava decidida a brilhar ao lado de Pablo, fazer com que fossemos o casal da noite.


*** No instante em que o momento do jantar finalmente chegou, parei em frente à entrada do local e aguardei por ele, que não havia me dado nenhum sinal de vida, ignorando as centenas de mensagens que eu havia enviado. Foi impossível não fantasiar diversas formas de fracasso, assustando-me ainda mais com as intermináveis possibilidades de falha criadas por minha mente. Após completar vinte minutos de espera, eu não tive alternativa a não ser entrar sozinha. O grande problema de depositar expectativas nas pessoas é que, na maior parte das vezes, elas acabam falhando com você, justamente naquele momento em que você mais precisa delas. E, com o Pablo, infelizmente, não foi muito diferente. Com a cabeça erguida, adentrei o salão enorme e descobri da pior forma que de particular aquela festa não tinha nada. Havia, no mínimo, cerca de cento e vinte convidados. Por um lado, ter toda aquela multidão ajudou-me bastante. Eu não teria a atenção completa de Frederico e isso era um enorme alívio. Se eu pudesse, evitaria entrar em seu caminho pelo resto daquela noite, que já começara da pior forma possível — com uma noiva abandonada no altar. Quando estava terminando o meu terceiro drink e prestes a esquecer de que havia sido abandonada por Pablo, Gaspar encontrou-me, enfiando-se a minha frente, trazendo com ele a terrível lembrança do abandono. Após roubar a taça da minha mão, impedindo que eu continuasse bebendo, Gaspar perguntou: — O seu noivo vai aparecer, não é? — ele já sabia qual seria a minha resposta antes mesmo de fazer aquela pergunta. — Ficar se empanturrando de bebida não fará com que a sua situação melhore, Gabriele. Mas, de qualquer forma, acabou... sem o seu noivo aqui, Frederico dificilmente te promoverá. Ambos sabíamos que não teria uma segunda chance — não para mim.  


Negócios — Capítulo 12

Quando a primeira hora de espera chegou ao fim, eu abandonei todas as esperanças de ver Pablo naquela noite. Ele não apareceria e isso, infelizmente, estava óbvio tanto para Gaspar quanto para mim. Pela expressão do atual editor chefe da revista Global, não foi difícil supor que a minha situação não devia ser das melhores. Gaspar conhecia Frederico muito bem e se ele não estava otimista, eu também não deveria ficar. As minhas chances de ganhar aquela promoção morreram no instante em que tive a brilhante ideia de contratar um acompanhante de luxo para fingir ser o meu noivo. Definitivamente, não tinha como aquele plano dar certo. Sem opções aparentes, eu tentei agir normalmente, cumprimentando as pessoas conhecidas que apareciam diante de mim, da forma mais simpática que eu consegui. E quando o dono na revista apareceu — para conhecer o meu noivo inexistente, obviamente —, tudo o que eu pude fazer foi sorrir, como se nada tivesse acontecido, como se Pablo — a pessoa que deveria agir como o meu noivo — estivesse bem ao meu lado, o que não era o caso, claro. Continuei com aquele sorriso estampado em meu rosto, fingindo que não estava com uma tremenda vontade de começar chorar. Eu precisava ser forte e fazer com que o meu orgulho não me abandonasse também. — Tudo bem com o senhor? — perguntei a ele, esforçando-me para conseguir falar. Era tão irônico o fato de eu fazer aquela pergunta, levando em conta o meu estado no momento. — Eu... eu... eu estou adorando a festa. Frederico continuou me encarando, transparecendo todo o desconforto que estava sentindo com o meu embaraço. Ele voltou o olhar para Gaspar, como se estivesse tentando dizer algo ao homem parado ao meu lado, provavelmente era um tipo de código para que Gaspar o tirasse daquela situação constrangedora. E, no fundo, eu não o culpava. Se eu pudesse, naquele momento, iria embora e pouparia a todos daquela situação desconcertante em que eu me encontrava. Os pensamentos deprimentes adentraram a minha mente tão rápido quanto Frederico foi ao se aproximar de mim, segundos antes. Se aqueles dois não estivessem mais a minha frente, já teria me afogado com as minhas próprias lágrimas.


No momento em que Gaspar e o dono da revista ensaiaram a partida — transparecendo o quanto queriam se livrar de mim —, alguém tocou em meu ombro, fazendo com que eu me virasse e, logo em seguida, me surpreendesse com a cena. De todas as pessoas que eu conhecia, aquela foi a última que esperei ver — ao menos, naquela fração de segundos. Sem pudor algum, Pablo me pegou de surpresa, beijando-me intensamente em frente aos dois homens. Aquele beijo queimou completamente as minhas bochechas, tornando-as tão vermelhas quanto um par de maças maduras ou parecidas com a cor de batom que eu estava usando. Se o atraso de Pablo não tivesse dilacerado todas as minhas chances de promoção, aquele beijo, sem dúvida alguma, o fez. No entanto, eu, aparentemente, não estava me importando com isso, não enquanto ainda era envolvida por ele. Tudo o que eu mais desejava era continuar beijando-o daquela forma, sem me importar com quem estava nos assistindo. O seu toque era tudo o que eu queria e precisava sentir. E, então, eu finalmente percebi. Durante todo aquele tempo, eu culpei Pablo por se atrasar e acabar com as minhas chances na revista Global — o que realmente era culpa dele —, quando, na verdade, esse nem de longe era o motivo para que eu estivesse zangada. Pablo havia me deixado, ele fez isso logo após eu depositar parte das minhas fichas em sua presença, confiando nele. Eu não fiquei magoada porque não seria promovida, fiquei magoada porque ele não conseguiu suprir as minhas expectativas. Depois de roubar todo o ar em meus pulmões, Pablo levou o meu fôlego também. Se eu corresse por uma hora sem pausa, teria mais fôlego que no instante marcado pelo término de nosso beijo. Lentamente, nossos rostos foram se afastando, rompendo a maravilhosa conexão que estávamos tendo até então. Entretanto, nem mesmo sem a ligação de nossos lábios eu deixei de encará-lo, era como se existisse algo magnético entre nós dois, unindo-nos de uma maneira intensa. — Desculpe a demora — disse ele, com um sorriso que me derreteu rapidamente, fazendo-me perdoá-lo pelo atraso no mesmo instante e, em seguida, odiar-me por esse mesmo motivo. Ele balançou a cabeça, como se estivesse se divertindo ao se lembrar de algo engraçado. — Você sabe como Fernando é... ele gosta de tomar todo o meu tempo com algo sem muita relevância. — voltando o olhar para Frederico, Pablo completou: — Fernando é o meu contador. Estou querendo investir em um novo projeto e ele está cuidando para que eu não saia em desvantagem nesse ano de crise.


O velho próximo de onde eu estava fez algo completamente inédito, Frederico sorriu para o meu acompanhante, o que foi, no mínimo, estranho. Após esticar os seus lábios em um sorriso completamente bizarro, de uma maneira boa, ele respondeu: — é como dizem, o contador é o melhor amigo do homem. Com uma expressão confusa na face, Gaspar perguntou: — a frase correta não seria “cachorro” no lugar de “contador”? Pablo riu, voltando o olhar para o meu colega de trabalho, que ainda estava confuso com as palavras do homem ao lado — o seu querido chefe. Com um belo sorriso enfeitando o rosto, Pablo explicou: — Você não deve estar muito familiarizado com eles, não é? Bom... contadores, geralmente, tem um faro muito apurado, farejam coisas há distâncias e, principalmente, cavam tudo até encontrar o que procuram. Se você acha que jornalistas investigam bem, espere até conhecer um bom contador. Se o balanço patrimonial não fechar, eles descobrem exatamente o que você fez com esse dinheiro. Frederico não estava mais constrangido com a minha presença, tampouco com a de Pablo. Se eu pudesse arriscar, diria que ele estava surpreso com as palavras do meu noivo — todos nós estávamos. Gaspar não pensou que o meu acompanhante — de luxo — soubesse alguma coisa relacionada a finanças, tampouco eu pensei. Quem é que poderia supor que Pablo — um acompanhante “particular” — pudesse ser tão inteligente? Talvez nem tudo estivesse perdido no fim das contas. Talvez, em um momento futuro, eu fosse promovida a editora chefe por causa da performance de Pablo na festa. Ainda sim, não parecia — e, sem dúvida, não era — certo precisar de um homem para provar a outro homem o quanto eu era boa no meu trabalho. — Você deve ser um dos meus, garoto! — disse Frederico, com os olhos fixos em meu noivo. Depois de encarar Pablo e, logo em seguida, voltar os seus olhos para mim, olhando-nos como um todo, como um verdadeiro casal, ele finalizou: — foi um prazer conhecê-lo, meu rapaz. Meu colega de trabalho sorriu, com uma expressão que claramente gritava “parabéns, você mandou muito bem, garota!”. No entanto, quem realmente merecia os elogios era Pablo. Mais que isso, o acompanhante de luxo merecia desculpas da minha parte — primeiramente, por continuar


referindo a ele dessa forma. Mesmo depois de decidir confiar um pouco mais em Pablo, ainda sim, eu não conseguia ter fé, não completamente e, infelizmente, o atraso melou ainda mais as coisas. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou-me o homem que trajava o terno azul ao meu lado. Era incrível o quanto aquele paletó combinava perfeitamente com os seus olhos. Após analisar um pouco mais a expressão do meu rosto, ele obteve a sua resposta e continuou, ignorando a sua própria pergunta: — eu preciso me desculpar com você, por esse atraso. Eu... eu não deveria ter feito uma mulher tão lindo quanto você esperar por um homem como eu. — Depois de alguns segundos silenciosos, ele prosseguiu: — eu tive que resolver alguns problemas na escola, mas isso não justifica o meu atraso. Eu sinto muito. E as suas últimas palavras foram mais que suficientes para que eu me sentisse ainda mais culpada por todo o meu drama. A minha sorte era que Pablo não podia ler os meus pensamentos. Se ele pudesse, certamente estaria me odiando — e há muito tempo. Ainda encarando a sua vestimenta — a mesma que pedi para que ele usasse —, respondi, com um sorriso tímido: — Não precisa se desculpar, O.K? Você conseguiu fazer o meu chefe sorrir em menos de um minuto, algo que eu estou tentando fazer há anos. — O fato do seu chefe não ter sorrido antes, no instante em que te viu essa noite... só prova o quanto ele é idiota. — após dizer, Pablo aproximou-se, congelando o meu estomago. Um simples olhar seu era capaz de acelerar o meu coração, igualando-me a uma garotinha apaixonada. — Você está linda, Gabriele. É, de longe, a mulher mais encantadora dessa festa chata... e, com toda a certeza, você já me fez sorrir hoje, várias vezes. Após estender a mão, ele completou: — A senhorita me concederia a honra? Depois de rir um pouco, constatando que ele estava de curtição com a minha cara, tornei a encará-lo e percebi que ele continuava com a mão estendida. — Até quando você vai continuar brincando comigo? — perguntei, deixando escapar um riso. Por mais vaga que a minha pergunta pudesse ser, Pablo pareceu entender bem o que eu estava querendo dizer. Entretanto, eu sabia que nenhum de nós falaria abertamente a respeito “daquilo”.


Ele balançou a cabeça e retribuiu o meu sorriso da melhor maneira que alguém poderia fazer. Por mais discreto que fosse, aquele riso era exageradamente maravilhoso. — Eu não estou brincando com você — Pablo pronunciou as palavras de uma forma tão séria que acabei acreditando. — É que hoje você parece uma princesa. Então, eu tenho que começar a agir como um príncipe, não é? Aceitei o convite e peguei em sua mão, enquanto um sorriso transparecia exatamente o que eu estava sentindo. Após a sua chegada, a minha noite mudou completamente, nem mesmo parecia que eu estava na mesma festa. Demorou alguns segundos até que eu percebesse que continuava segurando a sua mão. — Obrigado — eu disse, antes de afastar a minha mão da dele. — Obrigado por aparecer e por... — pensei em usar a frase “alegrar o meu mundo”, mas optei por não pronunciá-la. — Obrigado por estar aqui. — Só estou cumprindo com a minha obrigação — respondeu ele, antes de voltar o olhar para baixo. Ainda encarando o piso do salão, ele finalizou: — estou recebendo pra isso, lembra? Depois de um silêncio interminável, Pablo tornou a erguer o seu olhar. Ele demorou os seus olhos sobre mim, analisando cada centímetro do meu rosto, ainda em um estado quieto. — Eu... eu... — O homem a minha frente interrompia as próprias palavras, completamente perdido. Após respirar fundo, ele continuou: — No fundo, eu não queria ter aparecido nessa festa, por um motivo egoísta. Em breve, você será promovida e eu não quero que isso acabe. Sem entender, eu perguntei: — O que exatamente você não quer que acabe? — Essa mentira que estamos contando a todos. E eu não quero que acabe porque eu gosto de estar com você, Gabriele. — Com os olhos fixos nos meus, Pablo aproximou-se, roubando-me um outro beijo, ainda mais quente que o anterior. Enquanto nos tocávamos, eu não era capaz de pensar em outra coisa que não fosse ele. Quando nos afastamos, seus olhos continuaram a me encarar, queimando o meu rosto. — Eu realmente gosto de você e isso me assusta, de verdade. Eu ainda estava em choque com as palavras de Pablo. E, parte disso, se devia ao fato de eu


sempre achar que seria a primeira pessoa que entregaria todos os pontos. Entretanto, tudo partiu da parte de Pablo e eu ainda não sabia como digerir tudo aquilo. — Eu também — disse a ele, por fim. Ele sorriu, arrebatando-me com aquele simples gesto de esticar os lábios. — Por favor, me diga que não está se referindo a você mesma com esse seu “eu também”. Foi impossível não sorrir. — Eu quis dizer que gosto de você também e que esse fato também me assusta. Na verdade, eu estou aterrorizada. — Naquele instante, não pensei, simplesmente, comecei a falar as coisas que pensava a respeito de nós dois. — Acho que a regra número um sobre contratar um acompanhante de luxo é, sem dúvida alguma, não se envolver emocionalmente. E... eu falhei. Ele arregalou os olhos e, só então, percebi a grande burrada que havia feito. O que disse a Pablo foi, praticamente, um “eu te amo”, levando em conta o quanto a nossa relação era recente. — Você sente algo por mim? — perguntou-me ele, ainda surpreso com a minha revelação. — Eu... — respondi, ainda sem saber o que deveria dizer a ele. — Sim, eu estou. De repente, Pablo começou a rir, como se eu estivesse fazendo algum tipo de piada. Por mais complicada que fosse a nossa relação, eu não estava mentindo sobre a maneira que me sentia. Entretanto, tudo o que eu fiz foi rir com ele, confirmando as suas falsas suspeitas. Após rir mais um pouco, ele respondeu, com uma expressão séria: — por um segundo, um bem pequeno, eu juro que acreditei nas coisas que você disse. Você me enganou. — Inocência não combina com você, garotão — continuei a dizer, como se Pablo estivesse completamente certo, como se todas as minhas palavras não tivessem passado de uma brincadeira idiota. — Nós dois... juntos, como um verdadeiro casal? Eu e um garoto de programa? Definitivamente, não iria rolar. Toda a graça deixou o rosto de Pablo e, por um momento, toda a irritação que ele estava sentido ficou clara em seu rosto. Mas essa transparência não durou muito tempo, entretanto, foi o bastante para que eu soubesse a maneira que ele se sentia por dentro.


— Eu não sou um garoto de programa — afirmou ele, sério. — Posso estar sendo pago para fingir ser o seu noivo, mas não estou vendendo o meu corpo para você. — Eu me expressei mal — disse, em uma estúpida tentativa de melhorar as coisas. — Eu não quis... — Tudo bem — disse Pablo, ao me interromper. — Eu só quis esclarecer esse detalhe, O.K? — após eu balançar a cabeça, ele finalizou, com uma outra pergunta: — eu acho que já cumpri com o meu expediente hoje, nós podemos ir embora? Tudo o que fui capaz de fazer, foi balançar a minha cabeça novamente, concordando com ele. Somente naquele instante, percebi o quanto Pablo estava machucado. A minha covardia e burrice o machucou mais do que eu pensava ser possível. Às vezes, eu acabava me esquecendo de que ele era uma pessoa, com sentimentos, com orgulho, como qualquer outra. Caminhamos em direção à saída em silêncio, sem nenhum tipo de contato visual — pelo menos, da minha parte. Eu estava envergonhada demais para encará-lo. De repente, interrompi os meus passos e parei diante dele, tornando a olhar para a sua face. — Eu sinto muito — eu disse, fixando os meus olhos naquelas esferas azuis. — Eu não deveria ter dito aquelas coisas e, principalmente, eu não deveria ter brincado com os seus sentimentos. E eu estava mentindo quando disse que... — Gabriele? A voz familiar fez com que eu me virasse, no mesmo segundo em que a ouvi, interrompendo o meu pedido de desculpas. Duas das últimas pessoas que eu queria ter que encarar estavam bem a minha frente, observando-me de uma maneira tão feroz quanto Pablo fazia, do lado oposto. — Senhor e senhora Hoffmann — eu disse, ainda absorvendo toda aquela cena que acontecia diante dos meus olhos. — O que vocês fazem por aqui? A mulher loira sorriu, antes de responder a minha pergunta: — desde quando eu me transformei em “senhora Hoffmann”? É dessa forma que você se refere aos seus pais agora? Ricardo, o marido de Helena — e pai do meu melhor amigo — continuava calado, encarando-


me com um olhar decepcionado. E, definitivamente, o olhar dele conseguia ser ainda pior que o de Pablo. Voltei o meu olhar para Pablo e, logo em seguida, retornei a encarar os meus pais de criação, antes de dizer: — Pablo, esses são Ricardo e Helena Hoffmann, os meus pais. — Depois de respirar fundo, continuei com a minha apresentação. — Mãe e pai, conheçam Pablo... — O noivo dela — disse o acompanhante de luxo, interrompendo-me e ferrando completamente as coisas para o meu lado.  


Os Hoffmann — Capítulo 13

Ricardo e Helena eram, simplesmente, as pessoas que me acolheram quando eu ainda era uma criança. Por mais que eu continuasse insistindo em me referir a eles como “os Hoffmann” ou, simplesmente, “os pais do Eduardo”, eu os considerava meus pais. Minha mãe biológica — Clarisse Novais — nunca tentou ser um exemplo de mãe. Na maior parte do tempo, foi como se eu estivesse atrapalhando a vida dela, era como se eu fosse um obstáculo que ela queria, desesperadamente, se livrar — e, em um determinado momento, ela se livrou. Desta forma, quando Jean — o namorado atual dela na época — pediu para que ela escolhesse entre ele e a filha, a resposta não poderia ser outra. Ela me jogou para fora da casa em que cresci com tanta facilidade quanto costumava colocar o lixo na lixeira, antes do caminhão passar aos sábados. Tudo o que eu fui capaz de fazer, naquele instante, foi correr em direção ao meu esconderijo não tão secreto. Sempre que a minha mãe gritava comigo, dizendo coisas como “você foi o motivo de ele me deixar”, referindo-se ao meu pai, eu caminhava até a pracinha no centro da cidade e me sentava em um banco — o “banco da dor”. Depois de um tempo, aquele lugar passou a ser o meu refúgio de tudo de ruim que acontecia em minha vida. E, aparentemente, eu não era a única a me sentir daquela forma. Um garoto chamado Eduardo costumava aparecer uma vez ou outra. E ficávamos ali, conversando sobre o motivo que nos trouxera até aquele banco. Geralmente, os problemas dele costumavam ganhar dos meus — mas não naquele dia, obviamente. — O que aconteceu com o seu rosto? — perguntei, voltando o meu olhar para a sua face completamente machucada. Um de seus olhos castanhos estava contornado por uma coloração avermelhada pendendo para algo próximo de roxo. Antes que Eduardo pudesse responder a minha pergunta, eu já sabia qual seria a sua resposta. — Eu não consegui correr tão rápido dessa vez — respondeu ele, com um meio sorriso. Aparentemente, os mesmos garotos continuavam seguindo-o. Eduardo sofria aquele tipo de abuso, simplesmente, por ser diferente do restante dos garotos. Aquilo era, no mínimo, injusto. E por mais que eu quisesse ajudar, não havia nada que eu pudesse fazer por ele. Naquele dia, eu não


estava conseguindo resolver nem os meus próprios problemas. — Sua mãe brigou com você de novo? — perguntou-me ele, mudando de assunto. Ele sabia que eu não recorreria ao banco se não estivesse realmente com problemas. — O que ela te disse dessa vez? Geralmente, Eduardo era a pessoa encarregada de me dizer que o meu pai não havia partido por minha causa e que eu não era um estorvo humano, como a minha mãe fazia questão de afirmar. Na maior parte das vezes, ele conseguia me ajudar, resolvendo os meus problemas, mesmo que os dele continuassem a persegui-lo para lhe dar uma nova surra dia após dia. — Ela me expulsou de casa — eu disse a ele, ainda não acreditando em minhas próprias palavras. Naquele instante, notei que os lábios rosados dele também estavam cortados. — Eu não sei o que fazer. — Eu também não sei — revelou Eduardo, encarando o gramado. Ele jogou o cabelo castanho para o lado, revelando outro machucado. — Dessa vez, os garotos pegaram pesado demais. Eu não vou conseguir esconder todos esses cortes dos meus pais. — Ele se permitiu rir por alguns instantes, como se algo naquela imensa tragédia tivesse graça. — Dizer que caí enquanto voltava para casa não vai adiantar... não dessa vez. Pelo menos, você tem um lugar para ir quando anoitecer, eu pensei, enquanto ainda encarava os ferimentos em sua pele clara. Eu não entendia o motivo para que Eduardo continuasse mentindo sobre as agressões que sofria enquanto estava na escola. Se ele contasse aos pais, talvez elas parassem de acontecer. — Por que você não diz a verdade para os seus pais? — quis saber, como se a resposta não fosse óbvia demais. — Você não pode continuar fingindo que esses garotos não estão te machucando... talvez você não tenha tanta sorte da próxima vez em que eles te encontrarem. — Você não entende — respondeu o meu amigo. Ele ergueu o olhar, encarando a minha face, antes de prosseguir, explicando-me o motivo para continuar omitindo as agressões: — se eu contasse a eles sobre as surras, teria que contar sobre o motivo delas também. Depois de alguns segundos em silêncio, ele finalizou: — mas isso não importa, vou inventar uma boa desculpa no caminho. — Eduardo se levantou, preparando-se para partir. Aquela era, certamente, a última vez que nos veríamos. Mas, no último segundo, ele me surpreendeu, dizendo:


— vamos? Ainda sem entender, eu questionei a sua última palavra: — o que você disse? — Você não pode ficar aqui e os meus pais não vão se importar, eu tenho certeza. — Ele caminhou em minha direção e agarrou o meu pulso, puxando-me daquele banco. Sem uma melhor opção, deixei com que ele me levasse daquela praça. — Eu conheço um lugar perfeito. Pouco tempo depois, eu descobri que Eduardo não estava mentindo. Aquela casa era mesmo perfeita, foi como se eu estivesse vivenciando um daqueles contos de fadas que costumava ler na biblioteca da escola, em uma tentativa de fugir da minha própria realidade. Mas eu não era tão idiota, não ao ponto de alimentar esperanças de ficar naquele lugar. Quando os pais de Eduardo me viram, eu pensei que seria chutada daquela casa com ainda mais força do que a minha mãe fizera há poucas horas. Entretanto, para a minha surpresa, após preocupar-se com os machucados espalhados pelo corpo do garoto a minha frente — que não eram poucos —, o olhar deles voltaram-se para mim. Helena Hoffmann sorriu para mim e, por mais que aquela mulher me intimidasse, eu me permiti retribuir o sorriso. Se aquilo fosse um verdadeiro conto de fadas, a mãe de Eduardo, certamente, seria a Cinderela, uma verdadeira princesa. Naquele tempo, essas eram as únicas palavras que eu conseguia usar para descrever a sua beleza. Mas o que seria de uma princesa sem o seu príncipe? E aquele, sem dúvida alguma, era o papel de Ricardo em toda aquela história. O homem ao lado de Helena era tão lindo quanto a pessoa que estampava a foto que eu guardava escondida em meu bolso esquerdo. Ricardo e meu pai — a pessoa que estampava a foto — eram muito diferentes fisicamente, entretanto, ambos possuíam uma postura nobre, como a de um verdadeiro cavaleiro. Mas a maior diferença entre os dois homens, definitivamente, não era o físico. Ao contrário de Ricardo, meu pai abandonou a minha mãe no momento em que soube da gravidez, sentenciando-me a uma vida miserável. Os pais de Eduardo não me fizeram muitas perguntas, não no momento em que cheguei ao “palácio real”. Depois de um banho demorado, eu desfrutei do melhor jantar de toda a minha vida, um verdadeiro banquete. Eu não parei de comer até que o meu estômago estivesse completamente cheio, ao ponto de quase explodir. Mas a melhor parte, definitivamente, foi o momento em que Helena me levou a um dos quartos de hóspedes e eu tive o prazer de me


aconchegar naquela cama macia e confortável. Naquela noite, enquanto eu estava deitada na cama, eu não ouvi minha mãe discutir com o namorado aleatório dela no meio da noite, eu nem mesmo precisei levantar para me esconder em algum outro cômodo da casa, por medo de que ela descontasse em mim o ódio que sentia pelo amante. Aquela foi a minha melhor noite de sono, eu nunca dormi tanto em toda a minha vida. Como já era de se esperar, não demorou muito para que os pais do meu amigo conhecessem a minha verdadeira e trágica história. Helena ficou tão horrorizada ao ponto de cogitar chamar a polícia, mas Ricardo a lembrou de que aquilo não resolveria os meus problemas, tampouco faria com que eles ganhassem a minha guarda. Algo que, com o tempo, os vários advogados deles conseguiram conquistar. Depois disso, eu estudei nos melhores colégios, acompanhada por Eduardo que, em um determinado momento, contou aos pais sobre a pessoa que ele realmente era. Ao contrário do que ele sempre pensou, não houve gritos e nem nada parecido com isso. Os Hoffmann o apoiaram da mesma forma que fizeram comigo quando cheguei a casa deles. E, depois do primeiro namorado, Ricardo até mesmo tomou liberdade para fazer piadinhas sobre a sexualidade do filho, que ria de todas elas. E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava bem e muito feliz, completamente cercada por uma família que me amava. Mas essa felicidade durou exatamente cinco anos, o tempo exato que a minha mãe biológica levou para voltar a me assombrar.


O Último Beijo — Capítulo 14

— Noivo? — Questionou Helena, com os olhos fixos em mim. — Como é que você omitiu todas essas coisas de mim, Gabriele? Esperei por mais palavras raivosas e decepcionadas, mas tudo o que a mulher fez foi caminhar em minha direção e me abraçar com força, completando: — eu ainda não consigo acreditar que você escondeu tudo isso e por todo esse tempo. Mas, ainda sim, eu estou muito feliz por você, minha filha. Ricardo não me abraçou, continuando com o seu famoso olhar de desaprovação — um olhar que eu e Eduardo detestávamos causar nele. No entanto, nem mesmo aquilo foi o suficiente para que eu não me aproximasse, abraçando-o por conta própria. Quando nos afastamos, o homem a minha frente — o melhor pai que tive a sorte de ter — estava sorrindo, guardando para ele o quanto aquela história de casamento era ridícula. Pablo não era bom o suficiente para o meu pai, mas, para a minha surpresa, ele não fez questão de comentar o que devia estar pensando e, essa simples atitude, já era um grande avanço em nossa relação. — Da próxima vez que nós nos encontrarmos, eu tenho certeza de que você vai me contar que está grávida — comentou Ricardo, ainda com um sorriso no rosto. O olhar dele voltou-se para Pablo, que, obviamente, sentiu-se intimidado com a expressão séria estampada na face do meu pai. — Eu não preciso te dizer o quanto vai se arrepender se um dia magoar ela, não é? A pessoa que fingia ser o meu noivo balançou a cabeça, em uma resposta negativa — o acompanhante de luxo entendera o recado. — Foi muito bom vê-los aqui... — eu disse, rapidamente, em uma tentativa de tirar o meu pai do pé do meu noivo. — Na verdade, eu ainda não entendo como tudo isso é possível. Antes que eu pudesse perguntar a eles a razão para estarem na festa do meu chefe, o anfitrião caminhou em nossa direção, com uma enorme expressão de luto estampada no rosto cansado — mostrando-nos o quanto estava gostando de sua própria festa. O velho parou diante de nós, ainda sem entender. Não demorou muito para que ele fizesse a


pergunta: — então, vocês já conhecem uma das minhas funcionárias? — questionou o meu chefe, encarando a todos nós, como se o nosso encontro fosse uma grande conspiração contra ele. — Espero que não esteja planejando roubá-la de mim, Ricardo. — Depois de tentar forçar um sorriso, sem muito sucesso, Frederico prosseguiu: — não seria a primeira vez, não é mesmo? — Esse aqui é o meu chefe — eu disse, apresentando-o para os meus pais. — Eu trabalho na revista dele... Acho que vocês já devem ter ouvido falar da revista Global? — Como? — questionou Ricardo, ainda não entendendo as minhas palavras, como se todos estivéssemos conversando em uma língua da qual ele não compreendia. — Você trabalha com Frederico de Alcantra? — Sim, eu sou a as... — A editora chefe da revista — disse Frederico, interrompendo-me, antes que eu pudesse ter a chance de pronunciar a palavra “assistente”. — Gabriela é uma das nossas melhores funcionárias. — Gabriele — corrigiu Helena e Pablo, ao mesmo tempo. O meu noivo estava com um olhar sério, enquanto Helena carregava um sorriso simpático nos lábios. No entanto, eu sabia muito bem que por trás daquele sorriso gentil, escondia uma mulher com raiva. Helena não tolerava pessoas como Frederico e, por esse motivo, eu gostava tanto dela. — O nome da nossa filha é Gabriele Hoffmann. Após ouvir a palavra “filha”, Frederico arregalou os seus olhos e voltou o seu olhar sangrento para mim, analisando-me como um verdadeiro pedaço de carne do qual ele precisava, desesperadamente, devorar. — Estou feliz em saber que aceitaram o meu convite — Frederico mudou de assunto, ignorando as palavras de Pablo e Helena, outra das coisas que a mulher ao lado de Ricardo odiava. Era incrível o quanto ele aparentava estar intimidado por meus pais. — A parte ruim de dar a festa é que você precisa dar atenção também. Então, espero que me deem licença. — Antes de nos abandonar, pulando do barco em chamas, Frederico virou-se, encarando os meus pais uma vez mais e completando: — ah, espero que aproveitem a festa. E, então, ele se retirou, deixando-me com aquela bomba atômica prestes a explodir nas mãos. Se eu já não o odiasse, passaria a odiá-lo naquele instante.


— Como é que você pode estar trabalhando para o Frederico de Alcantra, garota? — perguntou Ricardo, aumentando o tom de voz. Quando ele se estressava, sempre usava a palavra “garota” em vez do meu nome. – E eu que pensei que você era a minha filha inteligente. — Ricardo! — Helena o encarava furiosa, enquanto o repreendia por sua última frase, completamente infeliz. Ele deu de ombros, respondendo: — eu não disse que o Eduardo é burro, só disse que inteligência não é o forte dele. Mas ele é bom em muitas outras coisas... coisas como fazer compras, viajar pelo mundo, se mudar ou, simplesmente, qualquer coisa que envolva gastar dinheiro. — Ouvindo você falar dessa forma, nem parece que foi você o culpado por mimar esse garoto. Como é que você dizia mesmo, Ricardo? Ah, lembrei “nós podemos dar uma festa na Disney e levar todos os amigos da escola. Afinal, só se faz quinze anos uma vez na vida” — argumentou a mulher, segurando a risada. — Agora, aguente! — “Acho que devíamos dar o porsche ao Edu, ele sempre foi um ótimo filho e o aniversário de dezoito anos está tão perto” — disse Ricardo, imitando Helena, ao afinar a voz, assemelhando-a com a de sua esposa. Eu comecei a rir em frente a eles e o homem ao meu lado me acompanhou na risada, mas de uma maneira tímida — provavelmente, Pablo ainda estava sendo intimidado por meu pai. Era impressionante o quanto eles conseguiam ser incríveis até mesmo em uma discussão. Aquele casal nunca entrava em uma briga séria e quando chegavam perto, transformavam toda a confusão em uma grande brincadeira. Se um dia eu fosse ter algo próximo a um casamento, certamente, queria ter a sorte de encontrar alguém da forma que eles encontraram. — Meus filhos são incríveis — meu pai voltou o seu olhar em minha direção e, enquanto encarava o meu rosto intensamente, completou: — os dois. Até mesmo quando estão trabalhando para o inimigo. Agora, era eu quem precisava, desesperadamente, mudar de assunto. Sem saber muito bem o que falar, depois daquela grande indireta de Ricardo, eu disse, sem opções: — vocês não imaginam o quanto estou feliz por vê-los. Eu... eu senti muita saudade. Helena lançou-me um olhar que dizia secretamente “não sentiria se tivesse nos visitado, querida”, entretanto, para a minha sorte, ela não transformou em palavras os seus pensamentos.


Lembrei daquilo que Pablo havia me pedido antes de esbarrarmos em meus pais — quando estávamos discutindo os nossos sentimentos da pior forma possível. Pablo havia sido bem direto quando disse que queria ir embora da festa. — Eu preciso ir, mas... — Sem “mas”. Nós conversamos na festa que estou organizando, Gabriele — disse Helena, interrompendo-me. — Eu quero te ver lá. — O olhar dela voltou-se para Pablo, antes de prosseguir: — vocês dois. Curiosamente, os dois continuaram naquela festa. Talvez eles quisessem desafiar mais uma vez Frederico, eu não sabia. Mas, certamente, meus pais não possuíam uma boa amizade com o meu chefe — talvez fosse por esse motivo que meu pai se referiu a ele como um “inimigo”. Enquanto estávamos juntos, tive uma leve impressão de que eles, na verdade, nem mesmo se suportavam. Mas, ainda sim, Frederico os convidou, o que era outra incoerência daquela noite. — Foi muito bom trabalhar com você — disse Pablo, após deixarmos o salão, cortando os meus pensamentos. Sem entender, esperei por suas próximas palavras, que não demoraram a vir. — E, de verdade, estou feliz com a sua promoção. A última palavra de Pablo esclareceu todo aquele assunto. Durante todo aquele tempo, nem mesmo me dei conta de que havia sido promovida. As palavras “editora chefe” deixaram a boca de Frederico, enquanto ainda estávamos próximos dos meus pais. A promoção foi o grande motivo para a contratação do acompanhante de luxo ao meu lado e, depois de conquistá-la, não restavam mais motivos para que ele continuasse a fazer parte da minha vida. Mas a verdade era que eu ainda não estava pronta para dizer adeus a ele. No momento em que eu me encontrava, a simples palavra “adeus” chagava a me dar calafrios. — Só porque eu fui promovida não significa que terminamos todo o seu trabalho, Pablo — deixei com que aquelas palavras saíssem, tentando convencer Pablo e a mim mesma de que aquela era a verdade. — Precisamos continuar. Afinal, meus pais pensam que estou noiva de você agora. E nós sabemos que decepcioná-los não é uma boa opção. Pablo começou a rir, de uma maneira completamente sarcástica, lembrando-me do tempo em que ainda não gostava dele. Talvez aquela fosse a intenção dele com a risada.


— Você quer mesmo enganar mais alguém com essa história que já deveria ter acabado? — questionou-me ele, duvidando do verdadeiro motivo do meu pedido. A expressão de seu rosto abandonou o sarcasmo e tornou a ser séria. — Eu já fiz esse tipo de coisa antes, sempre fui acompanhante e nunca me importei com comparações, como a que você fez mais cedo... — Pablo se aproximou, fazendo com que o meu estômago virasse uma enorme geleira. — Mas quando aquelas palavras partiram de você, eu me senti um verdadeiro lixo. De frente a ele, encontrar forças para uma resposta, ou melhor, um pedido de desculpas, não era nada fácil. Se eu não sentisse que estava perdendo-o a cada segundo que se passava, teria continuado em silêncio, encarnado o seu rosto escurecido pela noite. — Eu não deveria ter dito aquelas coisas. Espero que você não me odeie, pois em nenhum momento disse elas com o objetivo de te machucar. Se eu soubesse o quanto te afetaria, nunca teria dito. Suas mãos tocaram em meus braços, esquentando-me no mesmo segundo. Era impressionante o quanto eu me sentia confortável ao lado dele. Mas, infelizmente, naquela noite, ele não poderia dizer o mesmo. Pablo não estava apenas quente, ele suava muito e as suas mãos eram apenas um indício de todo o seu enorme nervosismo. — Você nunca vai entender, não é? Após perguntar, seu rosto trilhou um caminhou em direção ao meu. Por alguns segundos, permanecemos parados, encarando-nos, com os rostos colados um no outro. A iniciativa, mais uma vez, foi de Pablo. Seus lábios sugaram os meus com força, mostrando-me o tamanho de seu desejo. Enquanto a sua língua invadia a minha boca, suas mãos tornavam a explorar o meu corpo e, logo em seguida, encontrando a minha cintura, onde ele me segurou com força. — Eu nunca poderia odiar você, Gabriele. Nunca — completou Pablo, quando nossos lábios se desgrudaram. No instante em que ele ameaçou se afastar do meu corpo, eu parti em sua direção, retribuindo o beijo e, pela primeira vez, tomando o controle da situação. Joguei os meus braços para cima, apoiando-os em seus ombros largos, enquanto demorava o meu olhar sobre a sua face quadrangular, em uma tentativa de eternizar a sua imagem. Diferente de todas as vezes em que estivemos juntos, eu passei a analisá-lo por completo. Naqueles segundos, os seus lábios pareciam


ser ainda mais grossos, seus olhos ainda mais claros e o seu sorriso ainda mais apaixonante que antes. Se eu pudesse, teria beijado Pablo por mais tempo. Antes de desprendê-lo, dei uma leve mordida em seu lábio inferior, provocando-o um pouco mais. Pablo afastou os nossos lábios e, logo em seguida, me abraçou com força, apertando todo o meu corpo com os seus braços. No momento em que ele me envolveu, eu me senti a pessoa mais segura de todo o universo. Desejei estar ali, com aquele homem, por mais alguns segundos. Mas, infelizmente, Pablo afastou-se de mim, descobrindo-me e jogando-me novamente no vento gélido daquela noite. — Eu vou sempre me lembrar de você — disse ele, antes de se virar, preparando-se para me abandonar. — Pablo — gritei, roubando a sua atenção novamente. Ainda de costas, ele parou de andar e esperou por minhas próximas palavras, sem se virar. Eu estava decidida a dizer o quanto gostava dele, da mesma forma que Pablo fez quando estávamos na festa. Eu queria gritar para ele a minha louca teoria, dizer que pensava estar completamente apaixonada. Eu queria dizer qualquer coisa que o fizesse ficar. Mas, em vez de todas as coisas que passaram por minha mente naquela pequena quantidade de tempo, tudo o que eu disse foi: — eu vou pedir para Eduardo depositar o restante do dinheiro... É só me enviar uma mensagem com o número da conta. Ele não se virou, simplesmente, continuou andando, sem nem mesmo olhar para trás. E eu não o culpava. Durante toda a nossa conversa, eu fui covarde o suficiente para não admitir os meus sentimentos por ele, fui covarde o suficiente para deixá-los trancafiados dentro de mim. E, como consequência, acabei perdendo-o para sempre — ao menos, para mim, aquilo parecia ser o fim.


Mudanças — Capítulo 15

Por cinco longas semanas, a primeira coisa eu que fazia ao acordar, era checar a última mensagem que havia enviado para Pablo, na esperança de que ele finalmente a tivesse respondido. Mas era sempre a mesma coisa, tudo o que restava era mais de seu silêncio torturante. Quando nos despedimos — eu poderia chamar aquilo de despedida? —, em frente a casa de Frederico, onde ocorrera a "pequena" festinha, lembrei Pablo do dinheiro que estava devendo, os vinte mil que eu e Eduardo combinamos em pagar após a conclusão de seu serviço. Mas, infelizmente, ele ignorou a minha frase e foi embora, obrigando-me a mandar uma mensagem solicitando o número da sua conta para uma transferência bancária. "Eu preciso do número da sua conta", enviei a ele, ainda naquela noite, que parecia nunca chegar ao fim. Pablo recebeu a minha mensagem e, provavelmente, leu todo o seu conteúdo. Mas, infelizmente, eu não recebi nenhuma resposta dele. E, depois daquele dia, as próximas mensagens nem mesmo chegaram ao seu telefone, como se ele tivesse se livrado do celular logo após receber a minha primeira mensagem. E isso, sem dúvida alguma, era muito estranho. Abandonei aqueles pensamentos e terminei de me arrumar para o meu primeiro dia de trabalho como a nova editora chefe da revista. Durante cinco semanas, eu acompanhei Gaspar dando-me algumas instruções adicionais de como seria o meu novo cargo, da maneira em que eu deveria conduzir a revista sem ele. Entretanto, em noventa por cento de todo esse tempo, eu estava mais focada em finalizar as minhas matérias secretas — as mesmas que cheguei a pensar que nunca publicaria na revista. Mas, felizmente, tudo havia mudado para mim com aquela promoção concedida por Frederico. Eu finalmente poderia revelar todo o meu trabalho ao mundo e isso era, no mínimo, emocionante, o suficiente para acelerar as batidas do meu coração. Eu estava muito ansiosa para chegar até o prédio da revista e dar início naquela nova fase da minha vida. Mas mesmo com todas aquelas coisas boas acontecendo, ainda sim, era impossível não continuar me sentindo mal por tudo o que houve com Pablo. Toda a minha dedicação com aquelas matérias só tiveram início por ser a única maneira que eu encontrei para deixar de pensar no


acompanhante de luxo — mesmo que por uma pequena quantidade de tempo. Não demorou muito para que eu pegasse a chave do carro em cima da mesa e deixasse o apartamento, seguindo em direção ao meu trabalho. E, quando adentrei o prédio, com um sorriso estampando em meus lábios, percebi o quanto estava errada em relação a tudo. Diferente do que sempre acreditei ser a grande verdade do universo, ser a editora chefe não era o que eu mais almejava no mundo. O que eu realmente almejava, era a coisa que me afastava de toda a solidão que assombrava a minha vida. E, por uma longa quantidade de tempo, essa “coisa” foi o meu trabalho na revista. Mas tudo mudou quando conheci Pablo — a outra coisa, algo que conseguiu ser ainda mais forte que o meu vício em trabalho. Se eu soubesse o que aconteceria no instante em que empurrei a porta da minha nova sala, nunca a teria aberto. — Parabéns! — gritaram várias pessoas, ao mesmo tempo, enquanto seguravam cartazes estampados por vários “PARABÉNS” em letras garrafais, escritos em cores diferentes. Gaspar estava no centro da multidão, aparentemente, liderando toda aquela baderna. Por mais que o meu humor não estivesse lá em cima, eu não pude deixar de sorrir para aquela cena. O meu antigo supervisor estava sorrindo com um cartaz que dizia “VOCÊ CONSEGUE GAROTA!”. Ao lado dele, estava Jessica, uma colunista que, assim como eu, sempre sonhou em ter os seus artigos secretos publicados na revista. E, com a minha recente promoção, os sonhos dela finalmente se tornariam realidade, assim como alguns dos meus. Jessica foi a primeira a correr em minha direção para um abraço de comemoração. Após ela me desejar os devidos parabéns, Gaspar caminhou até mim, com uma expressão debochada no rosto, fazendo-me imaginar qual seria a sua piadinha da vez. — Eu nunca pensei que estaria tão feliz ao presenciar alguém ocupar o meu cargo aqui na revista, mas eu, estranhamente, estou — disse ele, ao me abraçar com força. Ainda envolvendo-me com o seu abraço, o meu amigo finalizou, sussurrando, mudando completamente o seu tom animado: — eu quero que saiba que não precisa se prender a esse lugar, você não tem obrigação nenhuma em continuar. Afinal, você não seria a primeira pessoa no cargo a pedir demissão. Ele se afastou, mantendo um sorriso no centro dos lábios, deixando-me ainda mais confusa em relação à tudo o que estava acontecendo.


No instante em que Gaspar se afastou, um homem alto aproximou-se de mim. Seus olhos escuros, por algum motivo, me assustaram. Antes que ele pudesse pronunciar uma única palavra, eu sabia exatamente o que ele me diria. No fundo, todos daquela sala — com exceção de mim — já suspeitavam, antes mesmo da sua chegada. — Bom dia e, por mais que já esteja cansada de ouvir, parabéns pela promoção. Pelo que eu andei ouvindo sobre você, acho que realmente a mereceu. — Ele estendeu a mão para mim e esperou até que eu a apertasse. — Eu me chamo Osmar Wilbert e serei o encarregado pela revisão e aprovação do conteúdo da revista. Em outras palavras, aquele que decide os projetos que serão publicados. — Após sorrir, enquanto me secava com os seus olhos sombrios, ele finalizou: — acho que formaremos uma ótima equipe, Gabriele. Em outras palavras, Osmar era, simplesmente, a pessoa encarregada de dizer “não” para todas as minhas matérias. Eu não conseguiria publicar nem mesmo um terço de tudo o que havia preparado. E, o pior de tudo, Osmar não acabaria somente com os meus objetivos, mas com o de Jessica e todas as outras garotas na revista. Tudo não passava de uma grande fachada, eu nunca teria autoridade dentro da revista Global — não enquanto fosse uma mulher — e o meu novo cargo não seria capaz de me dar algum poder dentro daquele lugar. E, só então, entendi o que Gaspar quis dizer, enquanto ainda me abraçava. Ele, basicamente, apresentou-me uma outra alternativa, uma que nunca cheguei a cogitar. De acordo com o meu excolega de trabalho, eu não deveria continuar me prendendo a revista, não enquanto ela funcionasse como uma prisão para todo o meu trabalho. Antes que o homem — o meu novo supervisor — tivesse a chance de se afastar, eu caminhei em sua direção e perguntei: — Então, você será o meu novo chefe não é? Ele sorriu, sem graça, um pouco antes de responder: — eu não colocaria dessa forma, prefiro acreditar que formaremos uma ótima equipe juntos, mas, de certa forma, sim, eu serei o seu novo chefe. — Então, eu acho que você é perfeito para assinar a minha demissão — disse a ele, após colocar um enorme sorriso em minha face. Voltei o meu olhar para o cartaz que Gaspar estava


usando, que estampava “VOCÊ CONSEGUE GAROTA!”. Usei as palavras do meu amigo como fonte de força para a minha próxima frase. — Eu me demito do cargo de editora chefe. É melhor começarem a encontrar outra idiota para substituir essa aqui! Após aquelas palavras deixarem a minha boca, Osmar encarou-me assustado. As pessoas a nossa volta — com exceção de Gaspar, que me dera à ideia — começaram a rir, como se eu estivesse fazendo uma simples brincadeira, algo que o meu novo supervisor sabia que não era verdade. Meus colegas de trabalho só começaram a acreditar nas minhas palavras, no instante em que deixei aquela sala, caminhando em direção a minha antiga, no final do corredor. Quando eu a adentrei, finalmente me dei conta daquilo que estava prestes a fazer. Não era um simples emprego — não para mim —, eu estava me demitindo de uma parte enorme da minha vida. Mas, naquele momento, nem mesmo a razão conseguiu me impedir de começar a encaixotar as minhas coisas. Eu estava decidida a ir embora, não trabalharia mais para pessoas como Frederico. E, por mais que eu amasse o meu trabalho na revista, eu me amava mais e sempre me colocaria em primeiro lugar. Quando consegui colocar todas as minhas tralhas em uma mesma caixa, um senhor de idade adentrou ela, sem nenhum tipo de aviso prévio — outra coisa que eu não estava disposta a fazer. Frederico de Alcantra estava bem a minha frente, encarando-me com uma expressão indecifrável. Eu não sabia se ele realmente estava surpreso com a minha saída ou se o sarcasmo havia tomado conta de seu rosto. No instante em que o vi, a vontade de estrangulá-lo com as minhas próprias mãos aumentou consideravelmente. Entretanto, minha razão conseguiu me impedir de agarrar o pescoço daquele velho infeliz. No fundo, eu sabia que não valeria a pena me rebaixar ao nível dele. — Eu posso saber o que está acontecendo? — perguntou-me ele, como se o seu novo capacho não tivesse contado tudo o que havia acontecido na outra sala. — Eu pensei que você quisesse o cargo. Voltei o meu olhar para ele e o analisei, antes de responder: — e eu queria, você não tem ideia do quanto. Mas, no fim das contas, eu só estaria andando em círculos, caminhando no mesmo lugar que estava antes.


— Qual a vantagem de ser uma editora chefe se não vou ter o poder nem mesmo para publicar o meu próprio trabalho? E, só então, Frederico entendera onde eu queria chegar. Após compreender os meus verdadeiros motivos para deixar a revista, ele começou a rir, de uma maneira debochada, deixando-me com ainda mais raiva. — Você não pensou que eu iria permitir que destruísse a imagem da minha revista ao publicar matérias voltadas para o público feminino? — Frederico tornou a perguntar, eliminando o resto de paciência que eu ainda possuía. — A maior parte do público da revista são mulheres — argumentei, aumentando o meu tom de voz. Com os olhos me dilacerando, Frederico respondeu, com o mesmo tom de voz: — o nosso público são os maridos que compram as revistas para as suas esposas e não o contrário. De nada adiantaria continuar com aquela discussão, pois, no fim das contas, Frederico não assumiria que eu estava certa. — Eu estou indo — disse, no momento em que agarrei a caixa com as minhas coisas. Antes de passar pela porta, completei, de uma maneira hesitante: — você não está só perdendo uma aliada, está ganhando uma concorrente.  


Verdades Não Ditas — Capítulo 16

Empurrei a porta do meu apartamento e, por um pequeno instante, foi como se eu tivesse voltado no tempo — exatamente no dia em que Gaspar me contou sobre as intenções de Frederico em não me promover —, no exato momento em que toda aquela loucura envolvendo Pablo começara adentrar a minha vida. Eduardo estava sem camisa, deitado no sofá da sala. E, em seu colo, estava ninguém menos que Kauan, a pessoa que, até então, era o ex-namorado do meu amigo. Aparentemente, o “ex” daquela palavrinha — que damos ao significado de “pessoas do passado” — havia desaparecido e Kauan passara a fazer parte da vida de Eduardo uma outra vez, o que, sinceramente, não me deixou muito feliz. — Se vocês mancharam o meu sofá... — eu disse a eles, lembrando-me das palavras que pronunciara naquele dia. — Eu juro que vão limpar com a língua. — Voltei o meu olhar para Kauan, que sorria como se fossemos melhores amigos de infância, antes de completar: — os dois! Por mais que eu estivesse com um sorriso nos lábios — que era muito falso, diga-se de passagem —, eu não estava feliz pelo “flashback” que Eduardo estava tendo. Eu não achava que Kauan fosse uma pessoa ruim, mas ele, definitivamente, não era a certa para o meu melhor amigo. No entanto, eu poderia opinar na vida amorosa de Eduardo quando a minha estava desmoronando? Não, eu não poderia — não antes de resolver as coisas com Pablo, algo que ainda estava muito longe de acontecer, aparentemente. De repente, eu me senti como naquele dia, quando contei ao Eduardo e Kauan que não seria promovida por conta de todo o machismo do meu chefe. Era impossível não lembrar e comparar o dia atual com aquele. A grande diferença entre os dois dias era que, no seguinte, eu não teria que voltar para a revista Global e encarar Frederico, fingindo não ter vários pensamentos homicidas. — Eu não vou receber a promoção, simplesmente, porque sou uma mulher — eu disse, após atirar a minha bolsa no chão e me jogar no sofá ao lado dos dois. — A pior parte é que eu me organizei durante essas três semanas para assumir esse cargo e, nesse meio tempo, eu trabalhei em vários artigos. E, no fim das contas, todas essas ideais que eu tive... todas elas foram... foram desperdiçadas.


Diferente do que cheguei a pensar, o meu amigo não questionou o porquê de eu não ter conseguido a tão esperada promoção. No fundo, talvez ele soubesse que, em um determinado momento, todo o machismo de Frederico me levaria para longe daquele trabalho que eu tanto amava. Depois de um tempo brincando na chuva, o seu corpo passa a sentir a sensação gélida da água e, logo em seguida, todo aquele frio te força a abandonar a brincadeira. E, no fim do dia, você acaba resfriada. — Você não precisa desperdiçar elas — disse o garoto ao lado de Eduardo, intrometendo-se na conversa. Após voltar o olhar para mim, ele continuou, sem se importar com a minha expressão mal humorada: — você pode criar um blog, trabalhar em uma coluna no jornal ou... — Ter a sua própria revista — disse o meu amigo, interrompendo Kauan, que ficou ainda mais surpreso do que eu. Após perceber a surpresa do seu não tão ex-namorado, Eduardo explicou: — não se engane, Gabriele é tão rica quanto eu. A única diferença entre nós dois, é que eu gasto o meu dinheiro. O que também significa que ela é ainda mais rica, já que nunca tocou em nenhum centavo do fundo milionário que tem. Se ela quisesse, poderia muito bem comprar aquela revis... Antes que ele pudesse finalizar a sua última frase, eu o interrompi, dizendo: — você sabe muito bem que eu não considero esse dinheiro como algo meu. O dinheiro é dos seus... — Nossos pais, O.K? E já que você tocou no assunto, eles perguntaram o porquê de você ter faltado à festa. Os dois também estão perguntando sobre o seu noivo inexistente e eu, sinceramente, não sei o que responder. Poucos segundos depois, Kauan percebeu que estávamos tendo um tipo diferente de conversa, um que não o envolvia. Depois de nos encarar com um olhar assustado, ele tocou no ombro de Eduardo, que nem mesmo voltou a atenção para ele. Após ser ignorado, ele não pensou uma segunda vez e deixou o apartamento, abandonando-nos naquela discussão — uma que eu, certamente, não queria fazer parte. — Eu não quero brigar com você — eu disse a ele, já me sentindo culpada por toda aquela gritaria sem motivo. Se existia algo que eu odiava mais que Frederico, sem dúvida alguma, era estar brigada com Eduardo. — Não vamos entrar nesse assunto Edu, por favor. Ele começou a rir, antes de responder: — em qual assunto exatamente, Gabriele? O motivo para você recusar o dinheiro ou todo esse descaso que você tem pelos nossos pais?


Eu queria gritar o quanto ele estava errado, mas, infelizmente, eu não podia fazer isso. A verdade era que Eduardo estava certo, o meu descaso com os Hoffmann aumentava a cada dia e, por mais que pudesse parecer uma grande mentira, não era intencional. Toda aquela distância que eu mantinha era, na verdade, a única maneira que encontrei para protegê-los. Mesmo sabendo que me arrependeria, eu finalmente contei o único segredo que estava omitindo: — Ela está voltando. Há algum tempo, quando as coisas começaram com o Pablo, eu recebi uma ligação e, obviamente, ignorei. — Não consegui me controlar e comecei a rir devido a todo o meu nervosismo. — Você sabe exatamente a maneira como ela começa a agir, não é? Acontecia sempre da mesma forma, como se fosse um roteiro pronto. Clarisse ligava para o meu celular e era ignorada. Então, ela desistia do contato direto comigo e todos nós pensávamos que havíamos nos livrado dela — era incrível como aquela mulher sempre nos enganava nessa parte. Após um certo período afastada, a minha mãe biológica reaparecia para complicar a minha vida — e a de todos a minha volta. — Por que você não me contou? — perguntou Edu, aproximando-se de mim. Ele me puxou, encostando a minha cabeça em seu ombro, do mesmo modo que fazíamos quando nós dois visitávamos o “banco da dor” juntos, no tempo da escola. Quando ele percebeu que não teria outra resposta da minha parte, Eduardo continuou: — afastar os nossos pais não vai adiantar... não quando se trata dela. Agarrei o braço dele, em uma tentativa de ganhar forças. Era incrível como tudo estava desmoronando. Eu sentia medo de fechar os olhos por um pequeno instante e ser soterrada pelos escombros. E, por mais que fosse estranho, a minha mãe era um dos meus menores problemas — ao menos, naquele momento. — Ela vai aparecer e tentar levar com ela todo o meu dinheiro, como sempre faz. E, por esse motivo, eu não posso aceitar aquele dinheiro. Eu... eu tenho medo de acabar entregando tudo pra ela — pronunciei, enquanto me lembrava do que havia acontecido da última vez em que ela apareceu. — Então, enquanto ela estiver rondando a minha vida, eu não posso estar com mais dinheiro do que eu tenho agora e também não posso estar muito envolvida com pessoas que o tem de sobra. E essa, infelizmente, foi à única solução que eu encontrei.


Virei o meu pescoço, fixando o meu olhar em seu rosto, a espera de uma resposta. Durante muito tempo, eu quis contar a Eduardo sobre a maneira que havia encontrado para lidar com aquela situação, mas sempre que eu pensava em dizer, algo me fazia desistir. E, ao observar o seu olhar, constatei que os meus instintos estavam certos. Mesmo após eu explicar o motivo para me afastar, ainda sim, ele não conseguia compreender. — Falando em dinheiro... — comecei a dizer, tirando-nos do silêncio desagradável — não é porque eu pedi demissão que vou deixar de te pagar aqueles quarenta mil. — Eu estava mais que disposta a pagar tudo o que devia, tanto para ele quanto para Pablo. — Os vinte mil que você pagou ao Pablo com aquele cheque e os outros vinte que vou obrigar ele a aceitar. — Continuei com os olhos em seu rosto, enquanto terminava de pronunciar aquelas palavras. — Eu vou encontrar aquele idiota. Eduardo entregou um cheque de vinte mil reais para o acompanhante de luxo na manhã seguinte ao dia em que nos beijamos pela primeira vez, quando eu o segui até aquela escola e descobri o que Pablo fazia nas horas vagas. O meu amigo balançou a cabeça e se preparou para contra argumentar, mas antes mesmo de ele se negar a receber o dinheiro, eu o cortei, reafirmando: — eu vou te pagar e pronto. E você não tem que querer, só precisa aceitar o dinheiro de volta. — Não... — ele tentou dizer para, logo em seguida, ser cortado por mim novamente. — Eduardo, eu já diss... Ele arregalou os olhos no mesmo instante em que agarrou os meus braços e, após o seu toque, eu me calei para me concentrar em seu rosto. Depois de movimentar os seus braços, chacoalhando o meu corpo, impedindo-me de interrompê-lo novamente, Eduardo disse: — O que estou tentando dizer é que você não me deve mais nada. E não é só porque eu não quero receber esse dinheiro, mas porque aquele cheque que entreguei ao Pablo nunca chegou a compensar. Ele não quis o dinheiro, Gabriele. Após ouvi-lo dizer aquelas coisas, eu me levantei do sofá e apanhei a minha bolsa no chão. Os meus pensamentos estavam em uma espécie de congestionamento, tudo em minha mente estava completamente parado. A única coisa que continuava pairando sobre a minha cabeça era a última frase de Eduardo: “ele não quis o dinheiro”.


Sem olhar para trás, caminhei em direção à porta. Mas antes que eu tivesse a chance de cruzá-la, meu amigo correu atrás de mim, interrompendo-me de fazer a escolha mais certa de toda a minha vida. Com os olhos colados em mim, Eduardo fez a sua óbvia pergunta: — onde você está indo? — Atrás do meu noivo — eu respondi para ele, antes de passar pela porta do apartamento e seguir completamente confiante em direção ao desconhecido.  


De Volta a Escola — Capítulo 17

Enquanto eu deixava o meu apartamento, a maior parte das respostas que eu precisava adentravam a minha mente com bastante facilidade. Agora, tudo estava perfeitamente claro e essa clareza, de certa forma, fez com que eu me sentisse uma grande idiota por não ter tomado a mesma atitude no dia seguinte a festa de Frederico. Eu nunca deveria ter permitido que o acompanhante de luxo deixasse a minha vida — mas, infelizmente, eu deixei. Mas como eu não possuía a capacidade de voltar no tempo para consertar os meus erros, eu tinha que consertá-los no presente — antes que fosse tarde demais. Pablo havia desaparecido, eu não conseguia localizá-lo nem mesmo por mensagem. Em determinados momentos, foi como se ele nunca tivesse existido em minha vida, como se tudo não passasse de uma fantasia criada por minha mente doentia. No entanto, nesses pequenos instantes, a dor da saudade tornava a incomodar, mostrando-me o quanto tudo foi real. Depois de tudo isso, eu finalmente passei a entender o porquê do amor andar junto com a dor, como se fossem duas faces da mesma moeda. A dor, no fim das contas, era tudo o que nos restava quando o amor partia. Por mais que ele não tivesse deixado rastros, eu conhecia um determinado lugar em que ele poderia estar. E mesmo que ele não estivesse, eu não perderia a viagem, pois as pessoas que viviam lá saberiam me informar o lugar em que ele se escondia quando os problemas o alcançavam. Talvez eu finalmente fosse conhecer o “banco da dor” de Pablo. Quando o ponteiro do meu relógio indicou-me o horário, eu estacionei em frente à escola. Já passavam das vinte horas e, certamente, as crianças já deviam estar se preparando para dormir, mas, ainda sim, eu precisava ver Pablo e descobrir o que havia acontecido — o motivo para ele parar de responder as minhas mensagens e, principalmente, o motivo para ter recusado o dinheiro. Não demorou muito para que eu estivesse abrindo o portão e, mais uma vez, adentrando aquele lugar sem autorização. Antes de seguir em frente com o meu plano — aquele em que não se tem um plano —, virei-me para encarar o lugar, do outro lado da rua, em que Pablo beijou-me pela primeira vez, antes de me desejar boa noite. A lembrança do seu toque me deu forças para prosseguir. Desta vez, eu não fui flagrada por


Pablo. Mas, infelizmente, acabei esbarrando em Gisela, que segurava um maço de chaves nas mãos. Aparentemente, ela estava prestes a trancar o portão, para impedir que invadissem a escola, como eu havia acabado de fazer. Tentei cumprimentá-la, mas nenhuma palavra deixou a minha boca. Não consegui nem mesmo explicar a minha invasão a sua propriedade. Simplesmente, fiquei paralisada diante dela, com a boca aberta, ainda tentando pronunciar alguma coisa, sem muito sucesso. — Quer entrar? — perguntou-me ela, quebrando o silêncio causado pela minha incapacidade de pronunciar palavras. Depois de me observar balançar a cabeça, ela completou: — continue seguindo pelo corredor e entre na primeira sala. Eu vou trancar o portão e já te encontro. Concordei com um aceno de cabeça e caminhei até a sala que ela havia me indicado. Aquele lugar, definitivamente, assemelhava-se com a sala de um “diretor” ou, no caso, de uma “diretora”. A sala de Gisela lembrou-me de todas as vezes em que eu acompanhei Eduardo até a diretoria, quando algum garoto o machucava sem motivo. Naquele tempo, tudo o que fazíamos era sentar em uma cadeira e contar o que havia acontecido a um homem que não faria nada mais que ter uma conversa com os agressores e dizer ao meu amigo que se ele quisesse que as agressões chegassem ao fim, deveria passar agir como um “homem de verdade”. No fundo, o diretor nunca se importou com Eduardo, comigo ou com a escola, de uma maneira geral. Sentei-me no acento que ficava em frente a mesa da “diretora”. Eu sabia que o lugar não funcionava como uma escola convencional, que estava mais para um internato, mas as semelhanças eram gigantescas, tornando o ato de não fazer comparações impossível. Se todo aquele lugar já não estivesse me lembrando do tempo em que eu ainda cursava o ensino médio, a cena em que Gisela entrava na sala e sentava-se em sua mesa a minha frente, certamente, me lembraria. Seus cabelos dourados estavam jogados para o lado, deixando-me envergonhada por aparecer com o meu sujo. O batom vermelho em seus lábios era de algumas tonalidades mais claras que o meu, combinando perfeitamente com o restante da maquiagem. Tudo em Gisela parecia ser perfeito, de uma forma natural, como se ela não tivesse perdido muito tempo em frente ao espelho, como se ela acordasse daquela forma pela manhã. Antes que eu pudesse ter a chance de perguntar por Pablo, a mulher a minha frente disse,


claramente, lendo os meus pensamentos: — se você está procurando por Pablo, ele não está aqui. Por mais que eu quisesse me levantar e ir embora, continuei sentada, com a intenção de obter alguma informação sobre o paradeiro dele. Eu não deixaria aquele lugar sem respostas do que realmente havia acontecido com o acompanhante de luxo. — Eu tinha certeza que, eventualmente, você apareceria por aqui — ela comentou, depois de me analisar por alguns segundos. — Mas eu nunca pensei que demoraria um mês pra isso acontecer. Forcei um sorriso, antes de responder, desprendendo-me do problema que estava tendo para pronunciar as palavras: — Você... você não sabe o quanto foi difícil aparecer por aqui. — Decidida a não deixar com que o silêncio retomasse conta da conversa, continuei dizendo: — mas eu precisava falar com ele... na verdade, eu ainda preciso. Esperei pela sua próxima frase, que certamente seria a localização de Pablo. No entanto, Gisela continuava me surpreendendo. E, desta vez, não foi de uma maneira positiva. — Eu também não sei onde ele está — respondeu ela, quebrando-me ao meio. Naquele instante, todas as minhas esperanças de rever Pablo foram destruídas em um mesmo segundo. — Ele entrou, se despediu das crianças e foi embora. E, neste meio tempo, não me disse nada a respeito do lugar em que pretendia ir. E, então, eu me levantei. Gisela não seria capaz de fornecer as respostas que eu precisava — talvez ninguém fosse capaz de fornecer o paradeiro de Pablo. — Eu posso saber o que aconteceu? — perguntou ela, quando percebeu a minha intenção de deixar a sua sala. Antes que uma resposta deixasse os meus lábios, ela completou: — tudo estava tão bem e, de repente, o cenário mudou, com todas as coisas desmoronando em cima dele. E eu não tenho dúvida de que ele foi embora machucado. Eu não precisei dizer um “sim”, o simples fato de eu voltar a me sentar deu a Gisela a minha resposta. Com um sorriso bobo no rosto, ao me lembrar de tudo o que havia acontecido, eu comecei a dizer:


— Toda essa história se inicia com uma mulher solteira, que nunca imaginou ter a vida completamente reformulada por um homem. A história começa quando, de uma hora para outra, essa mesmo mulher precisa encontrar alguém para fingir ser o seu noivo.  


Pablo — Capítulo 18

Contei toda a história para Gisela, omitindo apenas alguns detalhes, como o fato de, no começo, Pablo ter cobrado um determinado valor pelo trabalho. E pensar que, no fim das contas, ele nem mesmo quis o meu dinheiro. — E, no final das contas, eu o deixei ir... sem saber que ele não voltaria — disse a ela, finalizando todo aquele relato. A loira a minha frente não interrompeu a história, escutou tudo com muita calma, enquanto analisava as expressões de meu rosto no decorrer de toda a história. Em alguns momentos, era como se ela pudesse ler os meus pensamentos e isso me deixava um pouco tensa, mas não fez com que eu deixasse de falar. — Eu nunca suspeitei... quero dizer, quando vocês vieram aqui, eu não desconfiei — disse ela, finalmente comentando sobre aquilo que ouviu. — Talvez seja porque existia muita verdade dentro de uma pequena mentira. Um dos meus maiores questionamentos a respeito da minha relação com Pablo sempre foi o “algo que começou com uma mentira pode ter um fundo de verdade?” e, de acordo com Gisela, tinha e muita — o suficiente para tornar todo o restante válido. — Quando alguma coisa ou, no caso, alguém o machuca, Pablo se isola do restante do mundo — confidenciou-me Gisela, com o olhar voltado para a sua mesa. Ela abriu uma das gavetas e apanhou um porta-retratos antigo e estendeu a mão, oferecendo-o para mim. — Ele sempre foi assim, mesmo quando ainda éramos duas crianças correndo por esses corredores. Ás vezes, eu me esquecia de que ela conhecia Pablo desde o tempo em que eram crianças. Esse detalhe, de certa forma, deixava-me com ciúmes, mesmo sabendo que não havia rolado nada entre eles — de acordo com o que Pablo me disse. Na foto estampando o porta-retratos, encontravam-se duas crianças, uma garotinha loira, trajando um vestido branco e sapatinhos azuis. Ao seu lado, estava um menino de cabelos escuros, vestindo uma camiseta listrada. Eu não precisei questionar, pois eu sabia que aquelas crianças eram ninguém menos que Pablo e Gisela.


— O que aconteceu com os pais de Pablo, o que fez com que ele viesse pra esse lugar? — eu perguntei ansiosa para saber mais a respeito da infância do acompanhante de luxo. Gisela balançou a cabeça em um sinal negativo, enquanto esticava os lábios em um sorriso. — Não, eu era a órfão. Mas, por sorte, fui acolhida pela família de Pablo, que gerenciavam essa instituição. Quando perdi os meus pais em um acidente de carro, eu pensei que nunca fosse ter algo parecido com uma família de volta. Mas, felizmente, eu estava errada. Nesse lugar, eu encontrei um novo lar. — Ela gargalhou, foi como se estivesse se lembrando de um momento feliz em um passado distante. — E, por esse motivo, eu não fico medindo esforços para manter esse lugar. Eu quero proporcionar um lar tão bom para essas crianças quanto o que os pais de Pablo me proporcionaram. Em nenhum momento durante as vezes em que estive na instituição, eu vi algum parente de Pablo circular por aquele lugar. E, no fundo, eu sabia o que isso significava. — Eu cresci ao lado de Pablo, como se fossemos irmãos. Assim como eu, ele quis continuar com o lugar e nunca deixou de ajudar os pais a manter tudo em ordem. — Gisela fez uma pausa e voltou o olhar para mim, deixando-me ainda mais apreensiva. — Mas, então, tudo mudou quando a mãe dele sofreu um infarto e morreu, nessa mesma sala. Não foi fácil pra ninguém e o fato de ter ocorrido nesse lugar, fez com que, de certa forma, eles, Pablo e o pai, se afastassem. Enquanto um raramente aparecia por aqui, o outro encontrava conforto no álcool. E não demorou muito para que o pai de Pablo partisse também, foram exatamente três meses após a morte de Denise. A polícia informou que Renato estava dirigindo embriagado e que, após colidir contra uma árvore em alta velocidade, ele não sobreviveu. Eu estava completamente sem palavras. Não sabia o que deveria dizer a ela, parte de mim sabia que um simples “sinto muito” não seria o bastante. Provavelmente, os pais de Pablo exerceram a mesma função que os pais de Eduardo, em relação a mim. Por mais que não houvesse uma ligação de sangue, eles eram os meus pais — talvez essa ligação fosse até mais forte, pois não foi o acaso, mas uma escolha. — Pablo não suportou perder os dois em tão pouco tempo. Então, quando ele completou dezoito anos, foi embora, deixando todo esse lugar para trás, incluindo a mim — disse a mulher a minha frente, enquanto encarava a foto em minhas mãos. — Quando ele se machuca com alguma coisa, ele se esconde do mundo. Pablo nunca retoma as coisas que abandonou, ele sempre procura


começar novas. Não em segurei e fiz a pergunta que pairava por minha mente, sem saber se queria mesmo descobrir a resposta. — Quanto tempo demorou até que ele retornasse a esse lugar? — questionei, sabendo que, em um determinado momento do passado, ele havia voltado. — Sete anos — revelou ela, fazendo com que o meu coração falhasse em uma batida. — Ele retornou três meses antes de trazer você aqui, apresentando-a como a noiva dele. E, ao contrário do que você pensa, ele não me contou absolutamente nada sobre o tempo em que esteve afastado. E foi por esse motivo que te convidei para entrar, porque eu pensava que você fazia parte daquele passado que eu não conhecia. Eu estava prestes a ter um ataque naquela sala. Ao que tudo indicava, eu não veria Pablo outra vez e esse tipo de culpa era muito grande para carregar sozinha. Se eu soubesse que nunca mais o veria, jamais o teria deixado partir. Mas eu não sabia — como é que poderia saber de algo assim? — e, ainda sim, sofreria com as consequências por valorizar algo depois de perdê-lo, como todos os seres humanos. — A culpa foi toda minha. Eu fui covarde, não consegui dizer o que sentia por ele — eu disse a ela, como se devesse um pedido de desculpas por afastar Pablo. — Eu sinto muito mesmo. O sorriso em seus lábios mostrou-me que ela não me odiava e isso, por mais que não fosse melhorar o meu dia, não tornaria ele ainda pior. — Você não o obrigou a partir, nem agora e nem há sete anos. Pablo escolheu se isolar do mundo, enquanto você está aqui... revelando os seus sentimentos para uma desconhecida — Gisela disse, enquanto se levantou. Ela caminhou em minha direção, antes de dizer: — o que eu quero dizer é que, definitivamente, você não é a covarde da história. O abraço inesperado me surpreendeu, ocorrendo no momento em que eu mais precisava. Era tão bom ouvir alguém te dizer que você não havia ferrado com tudo, enquanto te abraçava com força. Após me soltar, Gisela continuou a dizer: — e esse foi o motivo por eu ser tão séria com ele em relação as crianças, naquele dia. Eu não queria que elas se apagassem a Pablo e, logo sem


seguida, ele desaparecesse, deixando-as para trás, como me deixou no passado. Mas quando eu te vi, eu fiquei completamente aliviada, pois pensei que você seria o motivo, aquilo que o prenderia a essa cidade. É uma droga não estar certa sempre. Eu concordei, esforçando-me para manter todas as minhas lágrimas dentro dos meus olhos já marejados. — Eu tenho que ir, mas... muito obrigado pela conversa — eu disse, virando-me em direção à porta. — Gabriele? — disse ela, antes que eu pudesse deixar a sala. Quando me virei, ela completou: — apareça mais vezes, as crianças gostam de você. E elas já perderam Pablo. Balancei a cabeça, enquanto forçava um sorriso. No fundo, eu não tinha nenhuma intenção de voltar para aquele lugar, não enquanto ele me lembrasse de Pablo e de tudo o que eu havia perdido. Mas, obviamente, não podia dizer isso a Gisela, que já estava se esforçando para me confortar. — É claro... vou aparecer. A loira acompanhou-me até o portão e durante esse meio tempo consegui controlar a minha vontade de chorar. Mas quando entrei em meu carro, tudo desmoronou e o meu rosto foi inundado por uma tsunami. E aquela era a primeira vez que eu chorava por causa de um garoto. Entretanto, eu não me envergonhava das minhas lágrimas e nem da dor que eu estava sentindo. Pablo não era igual aos namorados da minha mãe e isso já me tornava diferente dela. Quando adentrei o meu apartamento, Eduardo me abordou, assustando-se com o meu estado. As lágrimas continuavam caindo, mesmo com a minha falha tentativa de interrompê-las. — O que aconteceu com você? — disse ele, abraçando-me, antes mesmo de saber o motivo. Aproveitei um pouco de seu abraço e me afastei, caminhando em direção ao meu quarto, sem responder a sua pergunta. Contar a ele sobre o motivo faria com que eu relembrasse toda a minha conversa com Gisela, faria com que eu constatasse mais uma vez que não tornaria a ver Pablo. E isso, definitivamente, seria mais do que eu conseguia aguentar.


Tranquei a porta do quarto e ignorei as batidas de Eduardo. Apanhei o meu notebook e o meu fone de ouvido, antes de colocar em uma música triste, que provavelmente me deixaria ainda mais deprimida. Algumas pessoas costumam dizer que a dor é quem realmente cria um escritor. No atual momento, eu não poderia concordar mais, pois algumas coisas nós só conseguimos expressar por meio de um texto. Algumas coisas simples frases pronunciadas não são capazes de explicar. Enquanto eu escutava “All Too Well” da Taylor Swift, abria um novo documento de texto, preparando-me para começar a escrever o que, provavelmente, seria o meu artigo mais difícil e, talvez, o mais triste. Após ouvir o refrão da música e me sentir ainda mais triste, eu comecei a digitar o título do texto. E, de uma estranha maneira, eu sabia que aquelas três palavras eram perfeitas para descrever toda a minha relação com o acompanhante de luxo. “MARIDO DE ALUGUEL”.  


Marido de Aluguel — Capítulo 19

Eu cresci ouvindo que o sonho de toda a mulher era, sem dúvida alguma, ter o casamento perfeito. No entanto, estar vestida de branco em frente a um homem que, de alguma forma, me daria um maior valor perante a uma sociedade machista, definitivamente, nunca foi um dos meus. O meu sonho sempre foi poder contar as minhas próprias histórias, mostrar para as pessoas a minha visão do mundo — uma visão bem diferente das que as mídias divulgam. Mas para que isso fosse possível, eu precisava me tornar a editora chefe da revista em que eu trabalhava. Entretanto, o meu chefe nunca nomearia uma mulher solteira para esse cargo de confiança, a sua ignorância jamais permitiria que algo assim acontecesse. E a minha história começa aqui. A única maneira de ganhar aquela promoção seria com um anel de noivado em meu dedo. Mas casar não estava em meus planos. E eu confiava muito no meu trabalho, confiava ao ponto de ter a completa certeza de que quando o meu chefe machista tivesse uma mínima noção do que eu poderia fazer naquele cargo, não se importaria com o meu estado civil ou sexo. Desta forma, eu não precisaria de um marido, mas de uma simples promessa de noivado — algo que eu poderia muito bem forjar. No final daquele dia, uma simples mentira não resolveria o meu problema. Eu precisava encontrar um homem, alguém que estivesse disposto a fingir ser o homem perfeito para o dono da revista. A escolha perfeita para o cargo era o meu melhor amigo, alguém que me apoiara desde o tempo em que ainda éramos crianças, mas, infelizmente, nesse caso específico, nem ele poderia me ajudar. Sem opções, eu precisei recorrer a um acompanhante de luxo — alguém que deixou bem claro, desde o início, que não se envolvia com as clientes. A palavra usada por ele foi “foder”, mas eu a interpretei de outra forma. Ele não queria se envolver de maneira emocional, pois nunca acabava bem, para nenhum dos dois lados — e, realmente, não acabou. Como era de se esperar, ele era bonito, com uma beleza fora do comum. Quem oferecia os serviços tinha um ótimo porte físico, brilhantes cabelos negros e reluzentes olhos azuis. Naquele instante, quando o encarei pela primeira vez, tudo começou a esquentar, como se ele tivesse a


habilidade de me queimar com o olhar. Muitos não acreditam em amor a primeira vista — eu também não acreditava —, mas acho que já o amei em meu primeiro olhar. Juntos, nós dois comemos sushis, fomos a uma festa e brincamos com crianças. E, durante esses momentos que compartilhamos, eu apoiei a minha cabeça em seu ombro e, finalmente, me senti protegida, como nunca cheguei a me sentir antes. Eu o abracei com toda a força do mundo, mas, ainda sim, não foi o suficiente. E, por fim, eu o assisti partir, sem nem mesmo tentar impedi-lo. Fui promovida e, logo em seguida, abandonei o trabalho. Eu havia provado que não precisava de um homem para ser uma excelente profissional ou para ser qualquer outra coisa. Eu provei isso em todas as vezes que tive a oportunidade. Mas todas as minhas constantes provas só levavam-me a outras. Eu precisava daquele homem específico para não cair em uma profunda solidão. Nunca foi porque eu precisava de um homem em minha vida, mas porque eu amava aquele homem. Mas ele não voltou e nem voltaria, não sem um grande esforço da minha parte. Nessa história não foi a garota quem revelou os sentimentos primeiro, mas o acompanhante de luxo, o mesmo que havia feito questão de dizer que não se envolvia com clientes. A covarde, até então, era a garota que nunca nadou por ter medo de se afogar. Entretanto, mesmo sem colocar um pé no mar, ela se afogou e quase morreu com as suas próprias lágrimas. Um tempo se passou até que eu finalmente criasse coragem para fazê-lo olhar para trás, para o nosso passado, um lugar do qual eu nunca deixava de visitar. Quando eu retornei ao lugar em que nos beijamos pela primeira vez, a rua já não brilhava como antes, o ar já não era tão aconchegante. Naquele instante, eu percebi que tudo havia mudado. De repente, eu já não era mais a garota que não precisava de um homem — pois, por mais que eu negasse, precisava dele. O sushi não seria tão saboroso, as festas não me divertiriam mais e as músicas só me deixariam ainda mais deprimida. Mas ele partiu, deixando-me para trás. Eu nunca mais tornaria a sentir o calor dos seus braços ou o conforto dos seus ombros. E as lembranças que eu guardava a sete chaves começavam a se desfazer, abandonando-me também. E em alguns momentos, foi como se ele nunca tivesse existido. Sim, eu o perdi. E durante o caminho em que eu escolhi seguir com os meus olhos fechados, eu acabei me perdendo, uma preciosa parte de mim mesma. E, por esse motivo, eu estou procurando por ele, seguindo a todos os seus rastros, procurando por respostas para perguntas que nem mesmo foram feitas. Eu preciso encontrá-lo, porque, talvez, esse homem ainda possa devolver a


parte minha que levou com ele. — Gabriele Novais, “Marido de Aluguel”, 2016.  


O Retorno — Capítulo 20

Voltei o meu olhar para cima, ainda não acreditando que o mundo inteiro tinha acesso ao meu texto sobre Pablo. O meu triste relato se tornou viral em menos de duas semanas, o que era inacreditável — com exceção de um único detalhe. Não era o destino quem deveria ganhar os créditos por todo aquele sucesso repentino, mas o meu melhor amigo. Eduardo vazou o meu texto após ter lido em meu notebook e, logo em seguida, pagou muito dinheiro para que vários meios de comunicação o divulgassem sem parar. Em pouco tempo, todos queriam saber quem era a garota que o escreveu e, principalmente, quem era o apaixonante acompanhante de luxo que a abandonou. A minha relação com Pablo e toda a desgraça que pairava sobre ela, sem dúvida alguma, parecia entreter milhares de pessoas por todo o mundo. A porta do meu quarto foi aberta, revelando o grande traidor. Eduardo aproximou-se da cama, com uma xícara de leite. Após encarar-me de uma maneira hesitante, ele finalmente resolveu abrir a boca: — Eu... eu acho que você precisa comer alguma coisa ou... Eu poderia gritar com ele, tomar a xícara da sua mão e jogar todo o líquido quente em seu rosto ou, simplesmente, ignorá-lo. No entanto, eu não podia deixar de falar com uma das únicas pessoas que ainda se importavam comigo. Eduardo não divulgou aquele texto com uma má intenção, eu tinha certeza disso, mas ainda não concordava com a sua atitude — mesmo que a sua intenção fosse trazer Pablo de volta. — Eu não te odeio... se é isso o que você quer saber — disse, voltando o meu olhar em direção ao seu rosto. Depois de encarar os seus olhos escuros, completei: — você não tinha esse direito, mas eu não quero criar uma outra confusão, não com você. Eduardo sorriu, pois sabia que a nossa relação não estava destruída. — Recebi uma ligação de uma grande editora. Eles querem, simplesmente, lançar um livro sobre o sobre o texto “Marido de Aluguel” e, pelo que me falaram, a tiragem seria gigantesca. Eu não precisei responder a sua ridícula tentativa de me animar. Em nenhum momento, tive a


intenção de divulgar os meus sentimentos. Eu nunca concordaria em criar um livro sobre a minha relação com Pablo, independente do dinheiro que ganharia fazendo isso. Escrever sobre os meus problemas como forma de entretenimento outras pessoas, definitivamente, estava fora de questão. Antes de deixar o quarto, Edu se virou, dizendo: — eu sei que você não gosta do Kauan. E, acredite, eu também sei que ele falhou várias vezes comigo, mas ele reconheceu os erros e se desculpou, Kauan correu atrás e consertou aquilo que fez de errado. Talvez, com esse texto, você tenha a chance de fazer o mesmo com Pablo. Ele não esperou mais nem um segundo e me abandonou com os meus milhares de pensamentos a respeito da sua última frase. Por mais idiota que pudesse parecer, eu nunca pensei na possibilidade de Pablo estar lendo as coisas que escrevi sobre nós dois. E, de repente, toda aquela situação pareceu ficar ainda pior. Apanhei o meu celular na cabeceira da cama e me assustei com as chamadas perdidas. De acordo com o aparelho, Clarisse tentara ligar para a sua “amada” filha mais de sete vezes. Ela, provavelmente, acabara de descobrir que aquela garota que atirou na rua havia ganhado destaque nos meios de comunicação. Provavelmente, devia achar que eu estava ganhando muito dinheiro com toda aquela história, o que estava muito longe de ser a verdade. A boa noticia era que as mensagens de texto — outra maneira que ela encontrava para me aborrecer — não começaram a chegar. Eu poderia muito bem bloqueá-la e parar com toda aquela tortura, entretanto, não saber qual seria o seu próximo passo era ainda pior. E, por esse motivo, precisava continuar recebendo as ligações e mensagens, enquanto ela estivesse tentado um contato à distância, não o faria diretamente. Diferente do que sempre fazia, deixei o meu quarto e caminhei em direção ao de Eduardo para contar sobre as ligações de Clarisse. Entretanto, na metade do caminho, ouvi batidas na porta, que me fizeram interromper os passos. Com uma péssima expressão facial, transparecendo todo o meu mau humor, rumei em direção à porta, para recepcionar Kauan — também conhecido como a única pessoa que nos visitava com frequência. Nem me obriguei a forçar um sorriso, simplesmente abri a porta. Só existia um pequeno problema, a pessoa que eu encarava não era o namorado de Eduardo. Continuei em silêncio, encarnado Pablo, como se toda aquela cena não passasse de uma


miragem, algo muito longe da realidade. Entretanto, ele deu alguns passos, adentrando o meu apartamento, provando-me o quando tudo era real. Em sua mão direita, uma revista era apertada. Eu não precisei pensar muito para descobrir o que ele segurava. Pablo caminhava com o meu texto na palma de sua mão, literalmente. Sua face quadrangular continuava misteriosa, sem dar nenhuma pista dos pensamentos que pairavam na mente dele. O cabelo escuro estava jogado para o lado, completamente bagunçado, mas, ainda sim, perfeito. As lanternas em seu rosto pareciam ser ainda mais azuis que antes, iluminando completamente aquela linda face. — Precisamos falar sobre isso — disse ele, erguendo a revista na altura de seu ombro. Ainda com o olhar fixo em meus olhos, Pablo completou: — precisamos falar sobre a gente, Gabriele.


Explicações — Capítulo 21

Se eu já não me achasse contraditória, teria achado no exato instante em que parti para cima de Pablo, agarrando o seu braço direito. Por algum motivo que nem mesmo eu compreendia, comecei a arrastá-lo em direção à porta, em uma tentativa de expulsá-lo da minha casa. — Fora daqui — eu disse, enquanto ainda segurava o braço dele. — Você não tem o direito de ir embora e, um mês depois, voltar para a minha vida. Quando estávamos próximos da saída, Pablo parou de andar, fazendo-me esbarrar em seu peito, em uma colisão prazerosa. Voltei o meu olhar para cima, encarando o seu rosto, antes de tornar a dizer: — Fora da minha casa... seu... seu... Continuamos nos encarando em um estranho silêncio. Quando retomei o controle do meu corpo, eu já estava beijando Pablo, que não pensou mais de uma vez para retribuir o beijo. Diferente do nosso primeiro beijo, desta vez, estávamos com mais desejo, as chamas queimavam dentro de nós dois e isso era bem aparente. Todo o meu teatro sobre não querer mais ver Pablo caiu por terra, entretanto, eu não podia reclamar — não enquanto ainda o beijava. Ergui a minha mão esquerda, tocando a maçã de seu rosto. O homem a minha frente estava quente demais, uma temperatura fora do normal. No entanto, Pablo não era o único. Em meio a toda aquela gritaria — da minha parte, claro —, Eduardo deixou o quarto e correu em direção à sala. Após ver Pablo, o meu amigo ficou ainda mais surpreso que eu. Sem dizer uma única palavra, ele retornou ao quarto e, em menos de um minuto, reapareceu com uma mochila nas costas. — Eu lembrei que também preciso brigar com o meu namorado — disse ele, antes de cruzar a porta. Antes de deixar o apartamento, ele se virou, lançando um olhar para Pablo, um olhar que eu conhecia muito bem, o famoso “pegue ela”. — Gabriele, não precisa me esperar... não vou dormir aqui. Eu quis matar aquele infeliz, mas, bem no fundo, o agradecia. Sem ele, Pablo não teria voltado.


Eduardo não fez nada mais do que me ajudar, mesmo quando recusei a sua ajuda. — Foi você quem me deixou primeiro — disse Pablo, retomando de onde havíamos parado. Há um passo de mim, ele continuou o seu esclarecimento: — eu contei o que sentia, mas, por algum motivo, você não deu atenção. Então, quando eu estou há milhares de quilômetros daqui, tentando esquecer tudo em uma cidadezinha no interior, descubro que você escreveu esse texto... Ele pausou as próprias palavras, a espera da minha resposta — uma que há algum tempo, ele não recebeu. — Eu não sei o que dizer — disse, não acreditando naquilo eu havia acabado de pronunciar. — Eu não tenho a mínima ideia do que dizer a você. E, então, Pablo começou a rir, como se eu estivesse lhe contando uma piada idiota. E, de certa forma, o que eu havia acabado de dizer foi uma grande piada, considerando as circunstâncias em que nos encontrávamos. — Você escreveu um texto e o divulgou por toda a internet, mas não sabe o que me dizer? — questionou ele, ainda em sua crise de risos. — Você não pode estar falando sério, Gabriele. Pablo conseguiu mexer com o meu emocional como ninguém, ele tinha o poder para me fazer rir e chorar, ao mesmo tempo. — Primeiro, não foi eu quem o divulgou e... — Eu só preciso saber se você sente o mesmo por mim — disse ele, interrompendo as minhas palavras. — Um simples “sim” ou “não” já basta para mim. De uma maneira hesitante, finalmente revelei o que sentia por ele ao dizer aquela simples palavra. — Sim. — Era tudo o que eu precisava saber — disse Pablo, antes de partir em minha direção novamente. Desta vez, o nosso beijo ocorreu com um menor afobamento, pois estávamos percebendo que nenhum de nós desapareceria no segundo seguinte.


 


Queimando — Capítulo 22

Continuamos nos beijando, aproveitando cada toque, por menor que ele fosse. Mas eu sabia, em meu interior, que seus beijos não eram capazes de satisfazer todo o desejo que eu estava sentindo e, Pablo, certamente, também pensava da mesma forma. Eu era capaz de sentir o calor emanando de seu corpo, enquanto a ansiedade o consumia por dentro. Ele estava tão quente quanto o próprio fogo, entretanto, eu não estava com medo de me queimar em seus braços. Seus olhos azuis esverdeados desceram, despencando sobre o meu rosto. E, por alguns instantes, eu retribuí aquele seu olhar, mostrando o quanto o desejava, pelo simples ato de encarálo. Talvez estivesse escrito em minha testa, eu não sabia, mas Pablo descobriu o momento ideal para me tirar do chão e levar-me para o céu com ele, como um verdadeiro anjo, arrebatando-me. O homem a minha frente me agarrou pelas pernas, erguendo-me desprevenida. Pablo carregou-me em seus braços até chegarmos ao meu quarto, no final do corredor. De uma maneira cuidadosa, ele atirou-me em cima da cama, um pouco antes de se juntar a mim. E, como naquele sonho que tive com Pablo, não demorou muito para começarmos a nos despir, quebrando completamente quaisquer preliminares. Pablo, ao contrário de mim, tornava o ato de tirar as roupas em um verdadeiro espetáculo, com direito a streap tease e tudo. Em pouco tempo dançando, ele ficou apenas com uma cueca. O seu menor movimento já era capaz de despertar milhares de desejos em mim. E da maneira que eu o encarava, até parecia que Pablo era o primeiro homem que eu via sem roupa ou, simplesmente, o primeiro com quem eu me relacionava sexualmente — o que estava muito longe da realidade. Eu já estive com muitos outros, mas, definitivamente, nenhum deles se comparava com o homem próximo de mim. Por sorte — muita sorte mesmo — naquele dia, eu estava vestindo um excelente conjunto de lingeries. As peças possuíam uma tonalidade escura e eram completamente detalhadas com rendas. Quando eu as comprei, não consegui deixar de pensar em Pablo e imaginá-lo me observando com elas. E, ao que tudo indicava, eu havia acertado, pois elas realmente o impressionaram, cumprindo muito bem com o seu trabalho. Do outro lado daquela cama, estava ele, com uma cueca box preta, que marcava bem o conteúdo que se escondia lá dentro, deixando-me ansiosa pelo momento em que eu a arrancaria de seu corpo.


Eu não me envergonhava nem um pouco por desejá-lo daquela forma. Eu queria, desesperadamente, senti-lo de todas as formas possíveis e sabia que Pablo nutria o mesmo desejo que o meu, pois foi ele quem dera o primeiro passo, ao subir em cima de mim, aprisionando-me em sua prisão particular — uma prisão da qual eu nem mesmo pensaria em fugir. Com o seu corpo em cima do meu, eu me sentia segura e completamente confortável. Talvez aquela sua prisão, na verdade, fosse o paraíso. Tudo o que eu fiz, naquele momento, foi voltar o meu olhar para cima e encarar o seu belo rosto, antes de erguer a minha mão para tocar em seu peito e provar daquele seu calor. Ao tocálo, eu pude sentir a constante batida do seu coração, senti também a maneira como elas aumentavam com a minha aproximação. De alguma forma, nós dois, naquela cama, estávamos completamente conectados. Seu rosto desceu, mais uma vez, para um beijo surpresa. Os lábios de Pablo possuíam um sabor do qual eu nunca enjoaria, não importava o número de vezes em que eu o beijasse. Parte disso, certamente, se devia ao fato de nossos beijos nunca serem totalmente iguais. — Eu pensei que você não fodesse com as suas clientes — deixei aquelas palavras escaparem, no momento em que nossos lábios se desgrudaram. Por sorte, aquelas palavras não o aborreceram. Diferente do que havia pensado após as deixar escapar, Pablo esticou os lábios em um sorriso maravilhoso, antes de responder: — Acontece que você não é mais a minha cliente, Gabriele. — O sorriso continuou estampado em sua face, mostrando o seu conforto com um assunto que já o aborreceu antes. — Agora, você é a minha garota... e eu costumo foder a minha garota. Depois de sua última frase, chegara a minha vez de sorrir. Eu queria muito ser a garota dele e, mais que isso, queria que ele fosse o meu garoto também. Naquele instante, eu percebi o quanto queria possuí-lo, torná-lo, de alguma forma, meu. Ele não precisou dizer mais nada para que eu me entregasse completamente. A nossa relação havia mudado de algo pré-estabelecido como um contrato, uma simples prestação de serviço para uma coisa completamente diferente, uma que envolvia sentimentos, de ambas as partes. Enquanto estávamos juntos, sem nem mesmo perceber, nós havíamos mudado.


Suas mãos tocaram os meus seios por cima do sutiã de uma maneira leve e provocativa. Logo em seguida, ele os apertou com força, enrijecendo todo o meu corpo com o seu toque. Enquanto suas mãos exploravam-me, seus olhos continuavam comigo, sem nunca mudar o foco. Pablo era abusado e, ao mesmo tempo, um verdadeiro cavalheiro. Ele conseguia ser tanto anjo quanto demônio e essa mudança constante me assustava. Tudo esquentou quando a sua mão desceu em direção ao meu sexo, lentamente, ainda em sua tentativa bem sucedida de me provocar. Por cima da minha calcinha, Pablo começou a agitar a sua mão direita, envolvendo-me em uma onda de prazer. Mesmo sem encará-lo, eu sabia que aquele canalha estava sorrindo, feliz por saber o quanto era capaz de me satisfazer. Ele interrompeu os próprios movimentos, mudando completamente a nossa brincadeira ao subir um pouco o seu alvo. O homem acima de mim arrancou o tecido que prendia os meus seios, com um pouco de violência. Segundos após remover o meu sutiã, Pablo os envolveu com seus lábios, mordiscando meus mamilos de leve, fazendo-me contorcer naquela cama. Enquanto ele chupava os meus seios com voracidade, suas mãos os apertavam com ainda mais força que antes, mostrando-me quem é que estava dominando. E, por mais doloroso que fosse algumas mordidas, o prazer que eu sentia era capaz de mascará-las quase completamente. Eu sabia que, no fundo, não existia prazer sem um pouco de dor. Pablo traçou uma trilha de beijos em meu abdome, descendo em direção a minha calcinha de renda. De uma maneira lenta, com o objetivo de me deixar mais ansiosa, ele removeu o último pedaço de tecido que cobria o meu corpo. Sem a minha calcinha guardando o meu sexo, eu estava completamente nua e entregue a ele. O seu próximo movimento surpreendeu-me. Ele tocou o meu sexo com os lábios, partindo para um outro tipo de beijo e, ao mesmo tempo, fazendo-me agarrar a fronha da cama, de uma maneira desesperada. Pablo abocanhou aquela parte do meu corpo que latejava sem parar, uma parte que estava gritando por seu toque. Após encher-me com a sua saliva, ele começou a me penetrar com a sua língua, arrancando-me baixos gemidos. Eu, até então, desconhecia aquela sensação. Era a primeira vez que um homem me sugava daquela forma, com tanta vontade. Na maior parte das vezes, os homens com quem eu me relacionava estavam mais preocupados com o próprio prazer, ignorando as minhas vontades. Mas Pablo, aparentemente, era diferente de todos com quem eu já estive.


— Quer que eu pare? — perguntou-me ele, deixando de me tocar com a sua língua. No instante em que ele reaproximou a boca do meu sexo, pude sentir a barba rala de seu queixo espetar-me. — Não — respondi a ele, rapidamente, ansiando por mais de seu toque. — Nunca. De alguma forma, ele pareceu perceber que sua língua já não era suficiente para mim. Após notar esse detalhe, ele penetrou-me com um de seus dedos e tornou a me chupar. Enquanto os seus dedos adentravam o meu interior, a sua língua acariciava o exterior do meu sexo, deixando-me completamente louca. Eu já não conseguia controlar alguns gritos, pois quando me dava conta do que estava fazendo, eles já haviam escapado dos meus lábios. E, pelo que eu pude notar, Pablo adorava ouvilos, pois era a confirmação de todo o prazer que ele estava me proporcionando. Conforme eu aumentava os meus gemidos, ele acelerava a velocidade de seu dedo. Depois de alguns minutos me dedando, em uma brincadeira que ele aparentava amar, eu estava prestes a ter o tão sonhado orgasmo. Entretanto, quando atingi o ponto, ele interrompeu os movimentos. — Eu estava quase... — interrompi a minha frase, não conseguindo pronunciar a palavra “gozando”, por achá-la masculina demais. — Você... você é do mal, sabia? — Então, você está me dizendo que eu consigo te fazer gozar só com um dedo, é isso mesmo? — questionou ele com um sorriso, completamente cheio de si. — Se acalme... isso foi só o começo, Gabriele. Não pense que eu vou embora sem te comer de todas as formas que eu conseguir. Se ele era capaz de me fazer ter um orgasmo com um único dedo, eu não queria nem imaginar o que ele poderia fazer com outras partes de seu corpo, principalmente aquela que começava com a letra “P”, uma parte que eu ansiava para conhecer. Ele desceu da cama e caminhou em direção a sua calça, que há pouco fora atirada no chão. Pablo apanhou a carteira guardada no bolso traseiro. Pude notar uma pequena embalagem preta sendo tirada dela. E, antes mesmo de subir em minha cama, ele já estava abrindo a camisinha. Sua cueca preta foi arrancada tão rápido quando ele removeu a minha calcinha minutos antes. O seu sexo pulou para fora da cueca completamente duro, surpreendendo-me. O mastro de Pablo não possuía trinta centímetros, não era o maior que eu já havia visto ou algo parecido, entretanto, era de um tamanho acima da média. Mas existia um pequeno detalhe — um muito importante —,


ele era extremamente grosso e, por mais que eu não tivesse muita noção de centímetros, eu sabia que não era comum. Pablo me arrebentaria completamente com aquela barra de ferro grossa, sem nenhuma piedade. O homem despido a minha frente não perdeu muito tempo encapando o membro com a camisinha. Pablo tornou a sobrepor o meu corpo com o seu, mas, desta vez, eu era capaz de sentir o seu pênis roçando em meu sexo conforme ele se movimentava. E, ao perceber isso, o cretino começou a brincar, esfregando-se em mim. Por uma última vez, ele adentrou-me com o seu dedo indicador, como se precisasse me preparar para o que estava por vir — e, talvez, realmente precisasse. Após aconchegar o primeiro dedo dentro de mim, ele enfiou um segundo, o famoso “dedo do meio”, pressionando-me com ainda mais força que antes. Pablo agitou dois de seus dedos, arrancando-me alguns gritos de prazer. — Pare de me torturar... — eu pedi, entre os meus gemidos. Mas, como eu bem imaginava, aquele tremendo canalha não interrompeu os movimentos dos dedos. — Comece logo, droga! Sem interromper o movimento dos dedos, Pablo sorriu, mordendo o lábio inferior. — Eu só vou começar a meter em você quando me pedir daquele jeitinho especial, com as palavrinhas mágicas. — Após dizer, o safado tornou a me dedar. Droga. Aquele maldito me obrigaria a pedir para ser fodida? Aparentemente, sim, ele me obrigaria dizer isso com todas as palavras. — Pablo, você poderia, por favor, me comer? — solicitei, conforme ele havia pedido. — Não me faça repetir isso... E, realmente, eu não precisei. Seu membro grosso me adentrou de uma só vez, fazendo-me tornar a segurar a fronha da cama. De uma maneira bruta, Pablo começou a estocar, arrebentando-me. Enquanto ele movimentava o seu quadril, seus lábios encontravam os meus em um beijo molhado e provocante. Antes de nos desgrudarmos, Pablo mordiscou os meus lábios, em um jogo de provocações. Eu sabia que ele não aumentaria o ritmo, não sem que eu implorasse por isso. Com a voz


abalada, comecei a pedir: — só isso? Eu pensei que você fosse me foder e não fazer cócegas. Foi certeiro. Pablo aumentou as estocadas de uma maneira impressionante. Não demorou muito para que eu estivesse me arrependendo do pedido que havia feito a ele. Em questão de segundos, os gemidos tornaram-se gritos. Mas, ainda sim, eu não queria que ele interrompesse aqueles movimentos. Pablo nos trocou de posição, deixando-me de quatro em cima da cama. Antes de me adentrar outra vez, ele roçou aquela barra de ferro em meu sexo, provocando-me ao ponto de eu pedir para que ele continuasse a me foder daquela forma. — Agora, eu vou te mostrar como um homem de verdade come uma mulher — sussurrou ele em meu ouvido direito, antes de me adentrar com o seu mastro. Por mais que o seu “homem de verdade” me provocasse uma imensa vontade de começar a rir, eu me controlei, por medo de acabar com o clima que estávamos tendo. Ainda com os lábios próximos de meu ouvido, Pablo tornou a dizer, no instante em que pressionou aquela barra de ferro em mim: — eu vou maltratar esse tua bucetinha, Gabriele. — Pablo agarrou o meu cabelo, puxando-o para trás, antes de finalizar: — vou comer ela até enjoar do gosto. E ele realmente me “comeu” completamente, ao ponto de eu cansar de continuar gemendo. Pablo me fez sentir o seu mastro de todas as posições possíveis. Fomos de “papai e mamãe” a “frango assado” em questão de minutos. As suas estocadas ocorreram na cama, no chão e comigo em seu colo. Por um pequeno instante, cheguei a pensar que ele não fosse chegar ao orgasmo. Mas, felizmente, minutos depois ele finalmente começou a dar indícios de que estava chegando naquele ponto — em um ponto que ele havia me feito chegar logo no início do sexo. Pablo urrou antes de chegar ao êxtase, assustando-me com o barulho que escapou de seus lábios. Depois de me beijar, ele caminhou em direção ao banheiro para se limpar. Quando Pablo estava prestes a adentrar o outro cômodo, ele se virou, dizendo: — você não vem?  


Chuveirada — Capítulo 23

Pablo não precisou perguntar uma segunda vez. Deixei a cama e o acompanhei em direção ao banheiro. Enquanto ele parou em frente a privada para urinar, adentrei o box e liguei o chuveiro, erguendo a minha cabeça, esperando pela água quente, que não demorou a despencar por meu corpo. Senti as mãos de Pablo em minha cintura e, logo em seguida, senti o seu membro roçar em meu corpo mais uma vez. Eu queria tê-lo dentro de mim novamente, entretanto, estava cansada demais para isso. Pablo roubou toda a minha energia. Os lábios dele tocaram em meu pescoço, fazendo-me abrir os olhos. Toda essa cena rolava enquanto a água continuava caindo por nossos corpos. Levei a minha mão direita até as minhas costas, na altura da minha cintura e agarrei o meu membro, apertando-o com a minha mão. Virei-me para encarar a expressão de seu rosto, que estava completamente tomada por desejo. Seu eu quisesse, Pablo estava disposto a transar comigo novamente, tão intensamente quanto em nossa primeira vez. No entanto, eu tinha outros planos em mente. Ajoelhei-me diante dele, surpreendendo-o com a minha iniciativa. Eu estava louca para retribuir o sexo oral que Pablo havia feito em mim, precisava fazê-lo de maneira perfeita, assim como ele fizera comigo mais cedo. Com o rosto em frente ao seu membro, eu o abocanhei com vontade, em uma tentativa de colocá-lo completamente em minha boca. Como o mastro de Pablo era muito grosso, eu acabei não obtendo muito sucesso, mais, ainda sim, não deixei de continuar tentando. Enquanto eu forçava a minha cabeça em direção ao sexo de Pablo, suas mãos agarraram em meu cabelo, forçando a minha cabeça para frente. No segundo seguinte, eu interrompi os meus movimento e voltei o meu olhar para cima. — A única coisa que você vai fazer é continuar parado, gemendo, O.K? — disse a ele, mostrando quem estava no controle da situação desta vez. Após Pablo balançar a cabeça, assentindo com as minhas ordens, eu prossegui, repetindo as palavras que ele pronunciara mais cedo: — eu só vou começar a chupar o seu pintinho, quando você me pedir daquele jeitinho especial, com as palavrinhas mágicas.


Pablo fez uma careta, respondendo: — você disse pintinho? Será que eu vou ter que meter ele em você de novo, Gabriele? Afastei as minhas mãos de seu membro, impondo as minhas condições. Após perceber que não teria sexo oral sem as palavras que eu havia solicitado, Pablo começou a dizer, com uma expressão nada alegre: — você poderia, por favor, chupar o meu... o meu... — depois de me lançar um olhar raivoso, ele finalizou: — o meu pintinho? Agarrei o seu pênis e comecei a masturbar Pablo, revelando a cabeça rosada de seu membro. Aproximei-me do mastro que já estava ereto e passei a minha língua bem na ponta, fazendo com quem Pablo se contorcesse com o meu toque. A base do pênis de Pablo continha alguns pentelhos, mas isso não me incomodava, nem um pouco. E, de certa forma, ao perceber isso, Pablo pareceu ainda mais satisfeito. Ainda com o completo controle da situação, mudei o meu foco, apalpando os seus testículos. Após acariciá-los, eu dos coloquei em minha boca, um de cada vez, deixando-o em um estado de êxtase. Antes que ele atingisse o orgasmo, eu me levantei, ficando de costas para ele ao me escorar na parede gélida do banheiro. Eu não precisei abrir a minha boca para que Pablo entendesse a minha intenção. Antes de ele me adentrar com o seu brinquedo, lembrei-me de que Pablo não estava com uma camisinha. Mas nem mesmo tive tempo de mudar a posição ou de me preocupar com uma futura gravidez, pois Pablo havia adentrado uma outra parte do meu corpo. Eu gritei no instante em que seu pênis me rasgou, pois a dor era insuportável. Diferente do que Pablo devia pensar, eu nunca havia feito sexo anal antes. Eu, definitivamente, não estava preparada para as estocadas de daquele safado. — É tão apertadinho... — sussurrou ele, prendendo os meus braços na parede, enquanto tornava a estocar lentamente. — Eu pensei que você já tivesse feito, mas, ao que tudo indica, eu estava errado. Tudo o que eu conseguia fazer era gemer. A dor ainda era forte demais, mas diferente de quando ele começou, eu já conseguia sentir um pouco de prazer com os seus movimentos. E conforme ele foi aumentando a velocidade, ainda com cuidado, o prazer finalmente brotou, mas, ainda sim, não foi o suficiente para mascarar a dor.


Diferente de quando estávamos no quarto, Pablo não conseguiu retardar o orgasmo. Em poucos minutos, ele já havia entrando em êxtase uma outra vez. Pude sentir o seu pênis inflar dentro de mim, como se estivesse crescendo e, logo em seguida, parte do seu esperma começou a escorrer por minhas pernas, junto com a água. De repente, Pablo me virou para, logo em seguida, me beijar com ainda mais voracidade, como se aquele tivesse sido o nosso primeiro beijo depois de seu retorno. Quando nos afastamos, eu percebi que ele estava sorrindo, provavelmente, satisfeito com a ótima noite que estávamos tendo. Eu não pude deixar de observar que com a água caindo sobre o seu rosto, Pablo conseguia ser ainda mais perfeito. — Eu quero você, Gabriele — disse ele, encarando o meu rosto com uma expressão séria. — Não quero ser o seu noivo falso, eu quero algo real com você. Retribuindo o seu sorriso, eu assenti, concordando com as suas palavras. — Eu também quero — finalizei, mudando a expressão séria de Pablo para uma alegre. — Eu quero... eu quero algo verdadeiro com você também, Pablo. *** O barulho irritante do meu despertador começou a soar pelo quarto, como se eu ainda precisasse acordar cedo para trabalhar na Revista Global. Virei-me na cama, a procura de Pablo, mas eu não encontrei nada. Aparentemente, eu era a única pessoa naquele quarto. E, novamente, tudo não havia passado de um sonho. Pablo não havia voltado para a cidade, tampouco dormido comigo, como havia acontecido no maravilhoso sonho que tive. Antes que pudesse concluir aquele pensamento, um homem vestido apenas uma cueca preta — uma que vi ser arrancada na noite anterior —, aproximou-se da cama, provando-me que, na verdade, nada do que vivemos naquela noite foi um sonho. Nós estávamos realmente juntos e, ao que tudo indicava, perfeitamente bem. — Você é sempre tão linda quando acorda ou isso foi algo exclusivo pra mim? — perguntoume ele, arrancando-me o primeiro sorriso do dia. — É tudo pra você – respondi, ainda de maneira sonolenta. Após bocejar, completei: — e você,


parece sempre um modelo de cuecas ou é só pra mim? Após sorrir com a minha pergunta, ele se prontificou em respondê-la: — não... eu estou lindo sempre mesmo. — Cretino!


Pedras no Caminho — Capítulo 24

Em cerca de quatro meses, o texto divulgado por Eduardo tornou-me, de alguma forma, popular na internet — e, por incrível que pareça, a fama parecia nunca chegar ao fim, tornandome sempre o assunto do dia. E, com o retorno de Pablo, não existia mais motivo para que eu ignorasse as coisas boas que aquela fama trazia. Eu criei um blog, “MARIDO DE ALUGUEL”, onde postei parte das matérias que criei para a Revista Global — matérias que Frederico não permitiu que fossem publicadas e, obviamente, se arrependeu depois, ao lê-las em meu blog. Em algumas semanas, o meu novo hobby tornou-se um trabalho. E quando descobri que poderia ganhar bastante dinheiro com aquele blog, comecei a investir nele. E a coisa finalmente decolou para mim. Ainda não era uma revista, mas, ainda sim, eu conseguia escrever para uma enorme quantidade de pessoa. Eu já não era mais a garota abandonada, pois Pablo tornou-se o meu novo namorado. Não existiam acordos, obrigações ou contratos, nós éramos apenas dois jovens apaixonados aproveitando a vida juntos da melhor forma que podíamos. — Pablo Puto vem hoje? — perguntou-me Eduardo, com um sorriso nos lábios. Após perceber a minha careta, devido a maneira como ele havia se referido ao meu namorado, Edu rebateu, completando: — o que foi? Você sabe muito bem que não fui eu quem criou esse apelido. Optei por ignorar as coisas que Eduardo estava falando e pular direto para a sua pergunta. — Ele não vem hoje, tem que resolver umas coisas com Gisela na escola, o que, na verdade, quer dizer que ele tem que convencê-la a deixá-lo ver as crianças de novo. Como havia dito ao próprio Pablo, eu não tirava a razão de Gisela por proibir essa reaproximação, mesmo após ter se passado uma boa quantidade de tempo desde o seu retorno a cidade. Não é certo entrar e sair com frequência da vida de uma outra pessoa. E encontrar a porta fechada ao retornar é uma mera consequência. Mas, no fundo, eu sabia que Gisela acabaria cedendo. As batidas na porta fizeram com que o meu sorriso desaparecesse. Eu sabia que era Kauan do outro lado, pois Eduardo o estava esperando para que ambos fossem para uma festa — uma da qual eu rejeitei o convite. Eu não conseguia engolir Kauan nem com uma calda de chocolate.


Aquele garoto, simplesmente, não me descia. Eduardo abriu a porta e nos assustamos com a cena que se formava a nossa frente. Nenhum de nós dois encarava Kauan, mas a mulher ao lado dele, Clarisse — também conhecida como a minha mãe biológica ou a pessoa que me jogou para fora de casa quando eu ainda era uma criança. Ela não havia mudado nada desde a última vez que eu a havia visto. Seus cabelos estavam tão claros quanto no dia em que os Hoffmann fizeram um cheque para que ela desaparecesse, literalmente, comprando-me. Em seus lábios, um batom vermelho sangue se encontrava, dando a ela uma expressão poderosa, capaz de intimidar qualquer pessoa — incluindo a mim. — Minha filha... — disse ela, forçando os olhos, em uma tentativa de encenar um momento triste, em sua tentativa falha de me comover. — Ah, meu deus, você está tão linda. Clarisse sorriu e, logo em seguida, levou a mão direita aos lábios, como se a minha visão fosse emocionante demais para ela, como se não fosse capaz de acreditar que eu estava mesmo em sua frente. Lágrimas brotaram de seus olhos, fechando com uma chave de ouro aquele belo teatro que ela estava encenando. Kauan sorria, como se estivesse prestes a presenciar um lindo reencontro de mãe e filha separadas pelo tempo. Entretanto, Eduardo sabia muito bem o que realmente estava acontecendo naquela sala, ele imaginava também o que estava prestes a acontecer. Ainda sem reação, eu voltei o meu olhar para baixo e fiquei paralisada, esperando por uma coragem que não existia dentro de mim. O olhar de Eduardo voou em direção ao namorado, que ainda não entendia as nossas expressões horrorizadas. — Como você traz essa mulher pra cá? — perguntou o meu amigo, mais irritado do que eu. A raiva de Eduardo era perceptível no tom em que a sua voz havia soado e, como era de se esperar, Kauan percebeu isso no mesmo instante, se dando conta da burrice que havia feito em permitir que Clarisse subisse ao seu lado. — Eu estou falando com você Kauan! Que droga essa mulher faz aqui, do seu lado? — Eu... eu a encontrei lá embaixo — começou o namorado de Edu, de uma maneira completamente afobada, atropelando as próprias palavras com frequência. — Ela... ela estava


dizendo ao porteiro do prédio que conhecia a Gabriele, que era a mãe biológica dela. Eu... eu não achei que teria problemas em trazê-la comigo. — Então, você achou errado! — gritou o garoto ao meu lado, em resposta a Kauan, que mantinha uma expressão de choro no rosto. — Agora, vá embora e nos deixe limpar essa bagunça que você causou. Por mais estranho que pudesse parecer, eu estava com pena do namorado de Eduardo. Bem no fundo, eu sabia que ele não teve culpa pelo que havia acontecido. Todos nós — incluindo Eduardo — sabíamos o quanto Clarisse conseguia ser convincente quando se tratava de arrancar o meu dinheiro. Kauan só teve o azar de cruzar com ela. O garoto não esperou por outro grito de Eduardo e deixou o apartamento as pressas. Clarisse continuou onde estava, com a mesma expressão fingida no rosto, como se precisasse usá-la em nossa frente. Ela devia subestimar a minha inteligência ou superestimar a dela. Eu não sabia qual das suas opções era a correta. — O que você quer agora, Clarisse? — perguntei a ela, como se já não soubesse a resposta para a minha pergunta. — Em que mundo nós estamos? — começou ela, fazendo-me revirar os olhos. — Um mundo onde uma mãe não pode nem mesmo sentir saudades da filha? Um mundo em que tudo o que você faz é visto com segundas intenções e interesse? Sem paciência, respondi: — não, você está no mundo em que mães jogam crianças como lixo e depois as vendem como mercadorias. Agora, o que você quer? A expressão fingida deixou o rosto da mulher. — Não vai nem me convidar pra entrar? — Eu esqueci que vampiros precisam ser convidados para entrar — comentou Eduardo, segurando-se para não pular no pescoço de Clarisse Novais, também conhecida como sanguessuga humana. Ela voltou o olhar para Edu, focando na camiseta de rock e respondeu, com um sorriso odiável nos lábios: — não sabia que o Bambi ouvia rock... mas é bom saber.


Mesmo sem eu a convidar para sentar, Clarisse acomodou-se em meu sofá, cruzando as suas pernas, como se já fosse de casa. Depois de sorrir um pouco, finalmente mostrando as suas garras, ela começou a dizer: — Lugar bonitinho esse aqui. Ah, é bem a sua cara mesmo... estar no bom enquanto a sua família passa necessidades, você sempre foi uma péssima filha, Gabriele. Quando me preparei para avançar pra cima dela, Eduardo agarrou a minha mão, impedindome de prosseguir. Continuei com os olhos fixos em Clarisse, pois queria que ela visse todo o ódio expresso em meu rosto. Entretanto, eu sabia que ela não se importava com o que eu pensava dela, a única coisa relevante para aquela mulher era dinheiro. — Dessa vez, vamos encerrar isso logo, O.K? — disse Eduardo, enquanto caminhou até o quarto. Alguns segundos depois, ele retornou com uma sacola. — Eu sabia que não iria demorar até que você aparecesse por aqui outra vez, procurando por dinheiro... Então, separei algumas coisas para quando te encontrasse. Ele jogou a sacola em direção à Clarisse, finalizando: — pegue isso e desapareça. Ela abriu a embalagem e se maravilhou com as coisas que ali continham. Eduardo entregara a ela relógios, pulseiras, colares e várias outras joias que eu, de cara, reconheci. Aquelas coisas pertenciam à família Hoffmann e custavam uma fortuna, além do enorme valor sentimental que possuíam. — Solta isso agora — eu disse, jogando-me em direção a Clarisse, que colocou a sacola nas costas, em uma tentativa de afastá-la de mim. Voltei o meu olhar para Eduardo e continuei dizendo: — você não pode entregar essas coisas a ela. Isso pertence a sua... a nossa família. Clarisse começou a rir, no exato instante em que me ouviu pronunciar “nossa família”, como se a minha frase fosse algum tipo de piada. — E não é que você se acha parte da família mesmo? Minha querida, você nunca será da família desse aí, simplesmente, porque é da minha. E, no fundo, eu sei que somos iguais. A única diferença entre a gente é que você foi mais inteligente e deu o melhor golpe. — EU ODEIO VOCÊ — gritei no instante em que corri em sua direção, arrancando a sacola com as joias de sua mão.


No mesmo instante, enquanto eu me afastava dela, Clarisse abriu a bolsa marrom que carregava e retirou dela um objeto que, no mesmo segundo, eu identifiquei. Ela estava armada, portava um revolver na mão direita. E aquela cena, infelizmente acabou me paralisando completamente, roubando todas as minhas ações. Por mais que ela fosse uma pessoa podre, eu nunca pensei que Clarisse também poderia ser uma assassina. — A sacola! — gritou ela, sem paciência, apontando aquela arma em minha direção. — Passe essa a sacola agora, sua vaca. Eu joguei a sacola com as joias da família Hoffmann em direção a ela, desistindo de impedi-la de levar. Ao atirar aquele objeto em sua direção, eu torci para que Clarisse não fizesse nada além de deixar o meu apartamento, mas, infelizmente, o olhar dela voltou-se para Eduardo. E, então, dois tiros soaram.


Fique Comigo — Capítulo 25

Mais tarde, após eu descobrir que Clarisse havia sido presa, soube o que realmente aconteceu do lado de fora do meu apartamento, enquanto eu vivenciava aquela cena horripilante. Ao contrário do que eu e Edu havíamos pensado, o seu namorado não deixou o prédio após ser expulso. Kauan ficou do lado de fora ouvindo a toda aquela conversa — um verdadeiro filme de terror — e, quando os tiros soaram, mesmo sem saber quem havia sido atingido, ele correu em direção à portaria, em busca de ajuda. E quando retornou ao local do crime, não suportou o fato de não ter sido eu a pessoa atingida pelas balas. — Você já tem alguma notícia? — perguntou-me Pablo, trazendo-me de volta a realidade, ao estender a mão, entregando-me um copo de café com leite. Peguei o copo de sua mão, enquanto balançava a cabeça, respondendo a sua pergunta. — Tudo o que eu sei é que ele ainda está na UTI — comentei, esforçando-me para não começar a chorar novamente. Eu fechei os meus olhos, em uma tentativa de espantar alguns pensamentos. — Se acontecer alguma coisa com ele... eu... eu... Pablo sentou-se ao meu lado e me abraçou com força, tentando me passar algum tipo de conforto. No fundo, ele sabia que não existia uma maneira de melhorar a situação, mas, ainda sim, ele continuava tentando me tranquilizar dizendo coisas como “ele vai ficar bem” e “tudo vai dar certo” — coisas que não tínhamos como ter certeza. Eduardo, como sempre, estava a um passo de todos nós. Aquelas joias na bolsa que ele entregara a Clarisse mais cedo, antes do soar dos tiros, não passavam de réplicas feitas a pedido de Helena que não se sentia segura usando as originais. No fim das contas, Clarisse não levaria nada de valor com ela, o que também significava que tudo o que houve com Eduardo foi exclusivamente minha culpa, que tentei impedi-la de levar com ela aquelas joias falsas. A única coisa que era capaz de me passar certa tranquilidade em toda aquela história era o fato daquela mulher estar presa, completamente fora do meu alcance. Kauan também estava na sala de espera e, assim como eu, ele não a deixou desde o incidente que envolveu seu o namorado. E aquela atitude somada ao fato de ele praticamente ter colocado Clarisse atrás das grades, mostrou-me que, talvez, eu estivesse errada sobre ele no fim das contas.


E o fato de eu estar com Pablo e ele sozinho, naquele banco de hospital, era completamente injusto. Voltei o meu olhar para o homem ao meu lado. Pablo vestia uma camiseta azul e uma calça de moletom preta. Ele nem mesmo teve tempo de se trocar de maneira decente, seguindo direto para o hospital ao saber da noticia que contei a ele por mensagem de texto — se eu ligasse para ele, naquele estado de choque, tudo o que Pablo ouviria, do outro lado da linha, seria uma garota desesperada chorando. — Você não precisa ficar aqui comigo. — É claro que eu preciso — rebateu ele, ainda me envolvendo com os seus braços. Pablo me puxou para junto dele e, em seguida, deitou-me em seu colo. — Eu vou ficar e ponto final. Continuei deitada sobre o colo de Pablo e acabei adormecendo, completamente confortável junto dele. E, enquanto dormia, eu sonhei com Eduardo, recordei-me de um momento da nossa infância, de quando ainda visitávamos o nosso “banco da dor” com frequência. — Você tem medo dela — afirmou Eduardo, virando o pescoço para me encarar. O canto de seu olho esquerdo estava cortado, assim como o seu lábio inferior, mais uma vez. Mas, por algum motivo, os machucados não pareciam incomodá-lo. Edu estava concentrado no meu problema, ignorando os seus próprios. — Mas ela não pode machucar você, não agora que está morando com a gente. Eu balancei a minha cabeça, enquanto ria das bobagens que deixavam a boca de Eduardo. — Nós não temos certeza e você a conhece tão bem quanto eu... sabe muito bem do que ela é capaz de fazer — comecei a dizer, confirmando a afirmação de Eduardo. Sim, eu realmente tinha medo daquela mulher, mais do que qualquer outra coisa. Talvez eu estivesse na defensiva, eu não sabia. Mas acabei dizendo palavras das quais eu me arrependi logo após pronunciar. — Nem você e nem os seus pais são capazes de me proteger. Eduardo, você não consegue se proteger nem dos garotos da escola, como quer me fazer acreditar que é capaz de impedir que ela faça alguma coisa? Diferente do que eu pensei após dizer todas aquelas grosserias, o garotinho ao meu lado não deixou de tentar me ajudar, Eduardo continuou ao meu lado, mesmo após eu tentar afastá-lo. — Por você, eu posso tentar ser mais forte — respondeu ele, ainda sustentando o seu olhar,


que estava fixo em meu rosto. As palavras dele, por mais que não fossem capazes de me ajudar, alegraram um pouco o meu dia e mostraram-me que eu não estava sozinha — não enquanto ele estivesse ao meu lado. Lentamente, aquela cena foi deixando a minha mente. Absolutamente tudo foi clareando até que eu já não estivesse no centro da cidade, sentada ao lado de Eduardo. Meus olhos se abriram, jogando-me de volta na realidade, em um hospital, temendo pela vida do meu melhor amigo. — Ei, se acalme — sussurrou Pablo, voltando o seu olhar para baixo. Levantei-me de seu colo, ignorando as suas palavras. Sua mão envolveu o meu braço, antes que ele tornasse a falar: — os médicos estão falando com os Hoffmann, o que significa que em breve nós teremos notícias do estado de Eduardo. Mas eu não conseguia me acalmar, não quando se tratava do meu amigo, da pessoa que cresceu ao meu lado. O mais engraçado era que passei a minha vida inteira assistindo Eduardo se machucar com as surras que ele frequentemente recebia que, em um determinado momento, vê-lo sangrando tornou-se algo normal. No fundo, talvez, eu não devesse estar tão surpresa. Por mais que eu tentasse defendê-lo, envolvendo-me na confusão, ainda sim, aqueles garotos o encontravam sem mim e o meu amigo voltava para casa com um novo machucado. E, no final das contas, o maior ferimento não fora causado por aqueles garotos, mas por mim que afastei a todos, em uma tentativa de protegê-los de Clarisse, e acabei me esquecendo da pessoa mais importante. Levantei-me do banco e corri em direção ao outro lado do salão. Não demorou até que eu avistasse os pais de Eduardo conversando com dois médicos. Eu não fui capaz de controlar a minha ansiedade e disparei em direção a eles, sem me importar com o que os homens vestidos de branco pudessem pensar. A primeira pessoa a notar a minha aproximação foi Ricardo, que se virou para me abraçar. Enquanto abraçava o meu pai, as lágrimas despencaram pelo meu rosto. Eu mal conseguia encarálo sem me envergonhar do que havia acontecido. A culpa, naquele instante, estava me matando aos poucos. — Desculpe... — eu tentei dizer, com bastante dificuldade, em meio aos soluços. — Por favor, me desculpe... Ele afastou-se, dando espaço para que Helena se aproximasse de mim. A mulher não pensou


para me abraçar, sussurrando palavras reconfortantes, palavras que, bem no fundo, não eram capazes de mudar a nossa situação. Mas não deixava de ser bom saber que eles não estavam me odiando pelo que Clarisse havia feito. — Você não tem culpa de nada — continuou Helena, ainda envolvendo-me com os seus braços. E com um sorriso no rosto, enquanto seu rosto também era tomado por lágrimas, ela finalizou: — e... ele está melhor, querida. Eduardo já está em um estado estável, não corre mais risco de vida. Aquelas palavras livraram-me de toneladas de peso, elas aliviaram-me ao ponto de eu conseguir sorrir outra vez. Enquanto continuava ao lado dos meus pais, voltei o meu olhar para o outro lado do salão, onde um homem continuava sentado em um banco, me encarando com o que parecia ser um sorriso nos lábios. Se existia uma coisa da qual eu me orgulhava, sem dúvidas, era por ter acertado as coisas com aquele homem — um homem que eu poderia dizer, com toda a certeza, que amava.  


Epílogo

Voltei o meu olhar para Eduardo, em busca de respostas. No entanto, o meu amigo continuava se fazendo de desentendido. Mas eu o perdoava, pois sabia que tudo aquilo só podia ser ideia de Pablo, que certamente o enfiou em um de seus planos secretos. E, mais uma vez, eu e Edu estávamos em frente ao nosso “banco da dor”, um lugar que deveríamos, definitivamente, deixar de frequentar. Aquele lugar era a maior lembrança de toda a dor existente em minha vida e, de alguma maneira, visitá-lo fazia com que eu me lembrasse de coisas que já deveria ter esquecido. No entanto, o simples fato de ver Eduardo, bem a minha frente, completamente recuperado já era um motivo para me alegrar. Em menos de cinco meses, as coisas finalmente voltaram a ser como antes, como se a ameaça de Clarisse nunca tivesse existido. — Agora, é sério! — eu disse, sem paciência para toda aquela enrolação. — O que estamos fazendo aqui? — Eu já disse, Pablo me pediu para trazê-la aqui... eu não sei de mais nada, Gabriele — respondeu ele, deixando-me com sérias dúvidas se estava mesmo falando a verdade. O olhar do meu amigo mudou de direção, encarando algo que estava atrás de mim. Com um sorriso, Eduardo completou: — por que você mesmo não pergunta pra ele? Virei-me para encarar Pablo, que estava a menos de três metros de mim. Naquele dia ensolarado, os seus olhos azuis esverdeados pareciam estar ainda mais claros que antes. Seus lábios, com toda a certeza, estavam mais convidativos. Esperei por suas palavras, mas elas não vieram, obrigando-me a perguntar: — qual é o motivo para você ter me chamado aqui, nesse lugar bem específico? Após aproximar-se de mim, Pablo começou a falar: — Essa praça, de acordo com você, sempre representou tristeza e dor. Então, o que eu tenho para dizer não poderia ser dito em um outro lugar, Gabriele. — Pablo pegou em minha mão e a apertou de leve, acariciando-a. — Eu quero que essa praça, a representação de toda a tristeza em sua vida, passe a significar outra coisa... algo novo. Eu quero que esse lugar represente amor e


felicidade. Eu quero que represente essa coisa especial que nós temos. Antes que eu pudesse perguntar o tipo de bebida que ele havia ingerido, Pablo surpreendeume ao se ajoelhar diante de mim. Seus olhos continuaram comigo, enquanto um sorriso passou a se formar em seus lábios. E eu estava com muito medo, pois sabia exatamente o que aconteceria em seguida. — Gabriele Novais... você aceitaria se casar com esse idiota aos seus pés? — perguntou-me ele, ainda ajoelhado no gramado, próximo ao meu “banco da dor”. Pablo abriu uma caixinha, revelando um belo anel de noivado. — Se a resposta for um “sim”, saiba que eu vou me esforçar para te tornar a mulher mais feliz desse mundo. E, se for um “não”, vou me esforçar do mesmo jeito. — Não... — respondi, fazendo com que Pablo arregalasse os seus olhos claros. Depois de deixá-lo vermelho e sem reação, completei: — Eu... eu nunca responderia um “não” para você, seu idiota. — Após concluir a frase, aliviando o homem que estava abaixado diante de mim, eu o ajudei a se levantar e, logo em seguida, o abracei com força. Antes de se afastar, Pablo, disse, sorrindo: — e, só pra constar, eu sei que você não se atreveria a dizer “não” pra mim. — Ah, é claro que você sabia... só estava treinando o choro, não é? — comentei, antes de beijá-lo, fazendo com que as pessoas a nossa volta batessem palma, aplaudindo a cena que haviam acabado de presenciar. A vida, na maior parte das vezes, conseguia ser extremamente irônica. Eu comecei como a garota que não sonhava com um casamento, tampouco com o homem perfeito. E, por muito tempo, eu sempre fiz questão de provar que não procurava a felicidade em um relacionamento amoroso. Mas as coisas acabaram fugindo do meu controle e ao lado de Pablo, eu encontrei a cobiçada felicidade, escondida em um romance que tinha tudo para dar errado. Ao encontrá-lo, de alguma maneira, encontrei a mim mesma. FIM.  


Agradecimentos

Não foram poucas as pessoas que me ajudaram a chegar na palavra “FIM”. E essas pessoas me ajudaram tanto no Wattpad quanto no Facebook. Ajuda foi de votos e comentários a compartilhamentos e curtidas. Desta forma, eu não poderia finalizar esse livro sem agradecer a essas pessoas que me ajudaram nas redes sociais, principalmente a galera que me acompanha no Wattpad, que estão sempre comigo. Em segundo lugar, eu quero agradecer à Lana Torres — uma autora maravilhosa — pelas várias dicas e também pela motivação. Sem a ajuda dela, eu sei que nada disso seria possível. E, por fim, agradeço a minha família por me apoiar nessa nova fase da minha vida. Obrigada por tudo.  


Copyright

Copyright ©2016 by Anne Miller. Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, total ou parcial, constituí violação de direitos autorais. (Lei 9.160/98) Capa: Icaro Trindade Edição digital: abril de 2016

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