Issuu on Google+

Me fui pro

Chile Guilherme Mazui


SUMÁRIO

Introdução ...............................................................................................5 1 Viajar é um Vício Os mochileiros .........................................................................................8 A trip ......................................................................................................10 Pré-Jornada ...........................................................................................11 O roteiro .................................................................................................12 As paradas..............................................................................................14 As passagens ..........................................................................................16 O abrigo .................................................................................................18 A documentação ....................................................................................20 Pesado, só se for em dólar ......................................................................22 O cartão de débito ..................................................................................24 Doleira ...................................................................................................26 Malas .....................................................................................................27 As roupas ...............................................................................................28 Necessaire demais ..................................................................................28 Sem receita, só aqui ...............................................................................30 A merenda de casa .................................................................................31 Não saia de casa sem o cadeado .............................................................31 Máquina fotográfica...............................................................................32 2 alô chile Pé na estrada .........................................................................................36 De mochila e chinelo ..............................................................................36 Chile, to chegando! ................................................................................42


INTRODUÇÃO

A inspiração na mochila

V

iajar é um vício gostoso. E não faz mal. Pelo contrário, abre horizontes, amplia experiências, traz novas histórias e realidades. Este livro serve como um guia para quem tem este anseio, mas conta com recursos moderados. Leia-se, é um guia para mochileiros. Viajar não é somente ir, parar em hotel cinco estrelas, fazer refeições fartas, entrar num ônibus de um city tour e rodar pelos pontos turísticos das cidades. Viajar é mais! É uma aventura, é desbravar, é sentir-se um Colombo em qualquer parte do planeta. Com ou sem caravela, o mochileiro é um desbravador por natureza. A idéia deste livro nasceu de duas trips. A primeira no finalzinho de dezembro de 2007 a janeiro de 2008. Ao lado da minha inseparável namorada, Morgana Rohde, vulga Moguinha, a mais destemida das namoradas, rodei por terras italianas, francesas, espanholas e portuguesas. Roma, Milão, Paris, Barcelona, Madrid, Porto, Lisboa, Pisa e Florença certamente não são mais as mesmas. A eurotrip, meu primeiro vôo interna-


cional de avião, despertou o espírito mochileiro até então adormecido feito o Vesúvio. A viagem só deu gana de querer mais, foi o aperitivo, a polentinha com queijo do churrasco. Daí surgiu a trip que ilustra este guia. De 1º a 18 de janeiro de 2008, novamente com Moguinha na garupa, rodei cerca de 5.200 quilômetros. De Porto Alegre a Santiago do Chile, passando por Argentina e Uruguai. Tudo de busão e mochila nas costas. Senti-me o verdadeiro Cristóvão Colombo cruzando nas diversas caravelas sobre rodas os oceanos de asfalto. Vento, chuvisco, neve, calor de rachar. A indiada completa. Eis, o mochilão. Esta loucuro vicia. É jogar os itens básicos de sobrevivência na mochila, apertar as roupas e os presentes na mala e pegar o mundo atrás de uma nova cidade, desconhecida, misteriosa em cada esquina, assustadora em cada beco e estação de metro. O mochilão também é não entender bulhufas do idioma local, arranhar um portunhol, inglês de escolinha ou mímica - esta sim, a linguagem universal - para poder comprar um copo d’água, conseguir pouso, chegar ao ponto certo. Olhar 550 vezes o mesmo mapa até descobrir que mapas se olham de cabeça para baixo, e aí, com sorte, começar a acertar os deslocamentos; rezar para encontrar um brasileiro solidário que esteja na mesma situação ou more no local e possa ajudar, quem sabe com informação, carona, comida ou só um pouquinho de atenção mesmo também estão nessa essência de alças, fazendo peso nas costas. Este pacote consta no mochilão. O mochilão ainda é adrenalina, é gol no minuto final em La Bombonera, é desafiar o desconhecido, os limites do dono da mochila. O mochileiro não liga para o cansaço: caminha 15 km, senta, toma um refri, levanta e anda mais 15 km. Ele quer conhecer, tem sede de conhecer. Cada ponto conquistado é uma vitória de virada na Libertadores. Por questão de geografia, sempre na casa do adversário. O mochilão é isso e mais um pouco. Tudo de mapa na mão, passagem de metro no bolso e McDonalds no estômago. Quem tem sede de conhecer, é viciado em viajar, está intimado a folhear as próximas páginas.

6 MeFuiProChile


1

Viajar é um vício


Os mochileiros

S

e o mochilão é Maradona marcando gol de mão em Copa do Mundo, se é vitória de virada no minuto final com um homem a menos, os mochileiros precisam estar à altura. São figuras que não podem manifestar o menor dengo possível. Comer mal, caminhar muito, ter bolhas, dores nas pernas, compõem o quadro romântico da viagem. Além de diminuir os custos, o mochilão testa a resistência, desafia, provoca o homem. Topar meter a mochila nas costas é como chegar ao espelho, olhar-se na face, cerrar a expressão e dizer: “Você é capaz?! Será?! Veremos...” Pois bem, o mochileiro parte de casa sabendo que o conforto fica com a agência de turismo e seus pacotes. O mochileiro é autossuficiente, ou tenta ser na maioria das situações. Quando se aperta, grita, pede ajuda, conta com a solidariedade dos seus irmãos de bagagens nas costas. Pois bem, o mochileiro precisa de tranqulidade. Ao longo da trip, desencontros, perdas, roubos, lambanças, tudo é possível. Não dá para se desesperar. Manter a calma, feito centroavante na cara do gol, é fundamental. Outra característica importante é estar aberto ao novo. Quem viaja nestas condições vai para ver, sentir, conhecer, experimentar o novo, o desconhecido. No resumo, o mochileiro precisa ser tão maluco quanto o mochilão. No meu caso, tentei agrupar as características. Vontade de ver o novo, frescura zero, tenho ao natural. Calma, serenidade, nem sempre. O mochilão desafia em cada 8 MeFuiProChile


esquina, em cada ponto turístico que precisa ser encontrado. Preparar-se psicologicamente abrevia a adaptação. Assim como você poderá encontrar um colchão macio, limpinho, para descansar, pode parar em um colchonete sujo, fedorento, mofado. Faz parte. Banheiros nem tão limpos assim, comida com gosto estranho ou em quantidades que não alimentam nem sabiá, também. Em suma, o mochileiro pode ter a mania que tiver, mas precisa ter a mente aberta. Ele sabe que não há lugar como a sua casa, mas uma vez ao ano dar um giro tem seu valor.

Mazui: Eu, Guilherme Mazui Roesler, 21 anos, sou gaúcho de Santa Maria, mas radicado em Santa Cruz do Sul. Trabalho no jornal Gazeta do Sul, da minha cidade. Cubro esportes, uma paixão, mais precisamente voltada ao futebol. Sou um cara boa pinta, de prosa fácil (até demais), curioso por natureza e viciado em viajar. Este foi meu segundo mochilão. Mais virão.

Moguinha: esta loirinha loiríssima é Morgana Mariano Rohde, popular Mogui. É a minha namorada. Conhecida por sua coragem, acompanha-me nas aventuras de mochila nas costas. Também viveu a segunda trip. Assim, esta candelariense de 19 anos, estudante de Arquitetura, ganhou o título de “A mais destemida das namoradas”. Você verá porque.

MeFuiProChile 9


A trip Para muitos, ao topar encarar o mochilão, o viajante recebe um cocar, ou no mínimo o arco e a flecha. Pode ser indiada, encontro da Funai ou algo similar. Quem respira aventura, o novo, discorda. Acha que com a trip abre-se o horizonte do desbravador, do Colombo, Cabral, Vasco, enfim, do navegador que entra sem medo no desconhecido – ou quase isso, porque mochileiro sem informações prévias do destino recebe sim cocar, arco, flecha e pintura de guerra. Como sugere o título do livro, Me fui pro Chile leva-nos ao Chile. Bingo! O destino surgiu de repente. Estudo jornalismo e sou repórter esportivo de um jornal. Em uma manhã perdida de julho precisei cobrir a saída de um grupo de motoqueiros que iriam até o Deserto do Atacama. Fiquei com a pulga corcoveando na orelha. Pois bem, na semana seguinte um amigo foi a Buenos Aires e trouxe fotos e histórias fantásticas. A pulga corcoveou ainda mais. Meu desejo era não viajar no final de 2008, início de 2009. No ano anteirior já havia posto a mochila nas costas, os euros no bolso e partido ao lado da Moguinha para a Europa. Gastei o que tinha e não tinha. A intenção era se recuperar e fazer um pé de meia no meses seguintes. Pois tentado a repetir a operação, terminei em julho de pagar as contas da eurotrip. No primeior mês sem dívidas, chutei o balde. Decidi viajar de novo. Convidei, Moguinha, sugeri que ela trabalhasse no Natal, erguesse um troco e que viajássemos outra vez. O destino, barato: América do Sul. O dólar ainda andava adormecido em R$ 1,70. Aí, veio a crise e a disparada. A querida moeda americana alcançou R$ 2,50 em duas semanas. Uma catástrofe. Mas o mochileiro precisa de serenidades e confiança. Resolvi manter a aposta. Afinal, minha rotina é puxada, em três turnos o ano inteiro. Moguinha faz arquitetura, padece com a lista interminável de trabalhos. O jeito de descansar a mente é encarar a trip. Independente da cotação do dólar. O tempo disponível é de 18 dias. Tenho 20 de férias todo verão. Pois bem, todos os destinos apontaram para Santiago, capital do Chile, encravada no pé da Cordilheira dos Andes, a segunda maior rede montanhosa do planeta. O ponto de partida 10 MeFuiProChile


foi duplo. Eu saí de Santa Cruz do Sul, Moguinha de Candelária. Nós dois tivemos que ir a Porto Alegre, capital dos gaúchos, terra de dois campeões mundiais – Grêmio e Internacional. De Porto sai toda a semana o ônibus que nos carregará até Santiago. Desta vez, o carro partia dia 1º de janeiro. O ano abriu com as nossas mochilas lotadas de esperanças e curiosidade. Assim, Santiago foi o primeiro ponto de parada deste mochilão. Iremos direto para o Chile. A previsão é de 36 horas de viagem. Depois, tem o litoral, com Valparaíso e Viña Del Mar. Visto o Chile, a trip vai a Mendoza e Buenos Aires, na Argentina. Depois, cruza o Rio da Prata até Colônia do Sacramento, Montevidéu e Punta Del Leste, no Uruguai. A volta ao Brasil vai depender da grana, do tempo e do dinheiro. O certo é que no dia 19 de janeiro preciso estar de volta no serviço. A viagem é inteirinha de ônibus, com a exceção do barco na travessia de Buenos Aires a Colônia. Bom, o mochilão traz seus desafios, mas a função é refrescar a mente. Que assim seja!

Pré-Jornada Antes de colocar as mochilas nas costas e meter o pé na estrada, é preciso preparação. O mochilão tem seu lado romântico, errante, de bandoleiro, mas exige organização – a mínima ao menos. Como no futebol, uma pré-temporada bem feitinha abrevia o caminho até uma trip bem sucedida. A minha preparação foi ok. Comecei a planejar o mochilão em agosto, conversei com amigos, que foram desistindo, até bater o martelo em novembro, quando o roteiro já estava praticamente pronto. A duas semanas da viagem comprei as passagens de ônibus no site da Pluma, por R$ 315,00 cada. Junto procurei um albergue em Santiago, a primeira parada da trip e com dia certo para chegar. O prazo foi tranquilo. Quem sabe eu poderia ter visto a passagem antes ou o albergue, mas, pelas indefinições quanto as férias de trabalho, ficou bom. Sobravam vagas no busão. A grana foi levantada toda com antecedência, poupando durante cinco meses e com o auxílio integral do 13º salário. Moguinha trabalhou para erguer um pouco e pediu ajuda da sua mamãe. Neste quesito deu tudo certo. Vamos aos detalhes.

MeFuiProChile 11


O roteiro Definir um roteiro é algo básico em qualquer viagem, porém a conclusão exata dos pontos de paragem e tal e coisa demora. A preguiça, velha e sorrateira companheira do homem, faz o mochileiro adiar o serviço. Chega em cima do laço e nada do roteiro figurar prontinho, lisinho, impresso, legível para quem quiser ler e copiar. Como o desejo é desembarcar em Santiago do Chile, os pontos extremos da trip nascem prontos: Porto Alegre/Santiago. Ou melhor, com uma esticadinha a Valparaíso para curtir o Oceano Pacífico. Assim, é sabido que a partida é de Porto Alegre, mais precisamente da rodoviária da capital dos gaúchos. O busão é o transporte até Santiago, capital dos chilenos. Segundo o site do conselado do Chile, são aproximadamente 2.600 km de distância, passando por Uruguaiana, Santa Fé (Argentina) e Mendoza. Ao ultrapassar os Andes surge a primeira parada destino. A Pluma, empresa que nos transporta, promete a entrega dos mochileiros sãos e salvos em Santiago após 36 horas de viagem. Candelária/Porto Alegre - 208 km Até Valparaíso são mais 150 km. Ida e volta dá 300. Porto Alegre/Santiago - 2.600 km Saber as distâncias é básico no momento de estaSantiago/Valparaíso - 112 km belecer o roteiro e definir a quantidade de dias que Valparaíso/Santiago - 112 km cada cidade receberá. Nossa previsão era de dois a Santiago/Mendoza - 374 km três para cada ponto. Valparaíso, Colônia e Punta Mendoza/Buenos Aires - 1.058 km que receberiam apenas um. Buenos/Colônia - 170 km Voltando para o ínicio, depois de Santiago, o Colônia/Montevidéu - 177 km próximo destino fica na Argentina, Mendoza. São Colônia/Montevidéu - 177 km mais 360 km de estrada. De Mendoza a Buenos Montevidéu/Punta - 135 km Aires, terra do superclássico entre Boca Juniors e Punta/Montevidéu - 135 km River Plate, são mais 1.058 km. Aí abandona-se o Montevidéu/Rivera - 501 km busão temporariamente para usar a balsa e cruzar Rivera/Santa Cruz - 500 km até Colônia do Sacramento. Com mais 177 km Total: 6.080 km chega-se a Montevidéu, a capital da banda oriental.

Distâncias

12 MeFuiProChile


Uruguaiana

Valparaiso

Santa Cruz Porto Alegre

Mendoza

Santiago

Col么nia do Sacramento

Buenos Aires

Punta del Leste

Montevideo

MeFuiProChile 13


O próximo destino é Punta del Leste. São mais 270 km, 135 de ida e volta. De Montevidéu a Rivera cabe mais 501 km, e mais 465 km de Livramento a Santa Cruz. Existe a chance de ingressar no Brasil por Artigas, fronteira com Quaraí. De qualquer forma, a aventura toda dará cerca de 5.200 km. Um roteiro lógico, reto, dividido em duas fases: uma andina e outra do Prata. São duas rotas muito procuradas. Como a alma de qualquer mochilão, este roteiro não é definitivo. Conforme a sanidade mental dos viajantes, as rotas podem sofrer alterações.

Sites para informações - www.mochileiros.com - www.voudemochila.com.br - www2.uol.com.br/mochilabrasil - www.comunidademochileiros.com - www.mochilaosemfronteiras.com

As paradas Sempre é bom saber um poquinho do que te espera em cada cidade visitada. A internet é a biblioteca ideal. Ali, encontra-se qualquer lugar. Saber a história, a geografia, os costumes de cada parada da trip ajuda a preparar o espírito para o encontro. Santiago (CHI): fundada em 12 de fevereiro de 1541 pelo conquistador espanhol Pedro de Valdivia (não é aquele meia cabeludo, murrinha que joagava no Palmeiras), é a capital do país, no pé da Cordilheira dos Andes. Também é a capital da região metropolitana de Santiago, a Grande Santiago. Palácio da Moeda, Praça de Armas, Cerro Santa Luzia, Cerro San Cristóban, vinículo Concha y Toro estão entre os pontos que precisam ser vistos. Valparaíso (CHI): capital da província de Valparaíso, a cidade homônima nasceu a partir da sua baía, que recebeu os primeiros espanhóis em 1536. Em 1544 Valdívia não o do Palmeiras, mas aquele de Santiago - batizou a localidade como porto naval de 14 MeFuiProChile


Plaza de Armas em Santiago. Um dos pontos que aguarda os mochileiros na capital chilena.

MeFuiProChile 15


Santiago. Ela abriga o Congresso Nacional do Chile, uma casa que pertenceu ao poeta Pablo Neruda e sua área histórica é patrimônio da humanidade. Valparaíso é banhada pelo Pacífico. Viña Del Mar (CHI): fica colada em Valparaíso. Um pórtico tímido, na orla, separa as cidades. Fundada em 31 de maio de 1878, é uma das cinco comunas que formam a Gran Valparaíso. Abriga os vedetes, famosos e milionários do Chile. A cidade tem um festival de música tradicional, um dos grandes eventos do país. O anfiteatro que recebe este festival, o cassino e a praia de Reñaca são pontos turísticos do local. Mendoza (ARG): criada em 2 de março de 1561, fica do outro lado da cordilheira. A cidade, e a província que tem o mesmo nome, é conhecida por sua vinícolas - Caminos del vino - e pelas ruas arborizadas. Com grandes reservas de petróleo é uma das regiões mais ricas da Argentina. Mendoza produz 70% do vinho argentino. A variedade Malbec é típica da região. Buenos Aires (ARG): capital da argentina e da província que leva seu nome, nasceu em 3 de fevereiro de 1536, foi destruída e reconstruída em 11 de junho de 1580. É um dos principais centros econômicos e culturais da Amércia Latina. É a terra do tango de Carlos Gardel. Banhada pelo Rio da Prata, entre seus inúmeros pontos figuram o Teatro Colón, a Casa Rosada, Puerto Madero, El Caminito, La Recoleta, La Bombonera, Monumental de Nuñes e por aí vai. Colônia do Sacramento (URU): Criada por portugueses em 1679, foi motivo de inúmeras brigas e tratados. Madrid, Idelfonso, Badajós, para todos os nomes e gostos. Sua troca com os Sete Povos das Missões resultou na Guerra Guaranítica, no século 18. É um local histórico, com fortes e igrejas de época. Portão de Armas e Basílica do Santíssimo Sacramento são alguns dos pontos de visitação. Montevidéu (URU): Na outra margem do Prata, é capital do Uruguai e do departamento que leva seu nome. Os primeiros habitantes chegaram em 1724. É obrigatório visitar o centro histórico de La Ciudad Vieja, a região do porto, a Praça da Independência e o Estádio Centenário. A cidade é casa de Peñarol e Nacional, tricampeões do Mundo. Punta del Leste (URU): criada em 1829, é umas das principais praias da América Latina. Balneários no Atlântico e no Rio da Prata chamam atenção, porém nem de 16 MeFuiProChile


perto rivalizam com os cassinos, prédios e carros de luxo que transitam pelas ruas. Sobreviver em Punta exige um saco de dinheiro. Rivera (URU): a cidade faz fronteira com Santana do Livramento, no Brasil. Uma linha imaginária no meio de uma praça separa os países. O local leva o nome do primeiro presidente do Uruguai, Fructuoso Rivera. A cidade é paraíso dos Free Shops e recebe milhares de turistas gaúchos todos os anos. Quando o dólar cai, as visitas acompanham a bolsa. Fui fundada em 1862.

As passagens Depois de definir o destino, o passo seguinte aponta ao guichê – virtual ou não. É preciso comprar a passagem – de ida ao menos. No caso dessa trip pelo Mercosul o bilhete premiado é só de ida mesmo. Como dito anteriormente, a volta será repleta de paradas estratégicas. Para dar um jeito de chegar a Santiago tive várias idéias, todas discutidas com a Mogui. Conversar entre os viajantes é sempre importante. A primeira ideia - e mais prática, porém mais corrosiva no bolso - foi ir de avião. Espiei nos sites da TAM, Varig e Lan. Na época, o valor médio só da ida beirou os R$ 1.000,00. Assim, risquei a opção do caderninho das alternativas. Em qualquer ponto da pré-temporada da viagem é necessário pesquisar. A internet abre dicas em sites de mochileiros, de revistas especializadas, enfim, abre seu conteúdo infindável para esclarecer dúvidas.

MeFuiProChile 17


Voltando às passagens, a segunda possibilidade de ida era encontrar outros mochileiros de plantão dispostos a embarcar na aventura de carro. Detalhe, eles teriam que entrar com o desejo de desbravar o sul da América e mais quatro rodas. Leia-se: teriam que emprestar o carro. Foram cinco convites para duplas diferentes e todos fracassaram. Seria o jeito mais econômico de viajar. Para matar os 5.200 km de ida e volta, entre quatro figuras num carro, o custo ficaria em R$ 271,00 de gasolina por cabeça. A conta é simples: Distância / Km por litro do carro X preço do gas / número de passageiros = custo da brincadeira

5.200km / 12 X R$ 2,50 / 4 = R$ 271,00 Um lembrete muito útil: se for uma caranga com motor a diesel o preço despenca. O mesmo vale para carros flex, que podem usar álcool. Tem gente que também se arrisca de moto. Como eu e a Mogui ficamos solitos, o jeito foi partir para a terceira e última opção: o busão. Nada de excursão, com guia e um monte de conhecidos. Aqui o lance é mais hard. Guilherme Mazui e Moguinha lado a lado na poltrona e mais ninguém. Cavoquei na internet alguns roteiros mochileiros.com e a dica era usar a Pluma. Amém. Adentrei no www.pluma.com.br, busquei os itinerários e mandei ver na passagem Porto Alegre/Santiago. Custo: R$ 315,00. A ida estava garantida.

A carta verde Se você tá a fim de ir de carro ou caminhoneta, passe numa seguradora. Independente da natureza do veículo, se você é o motorista é preciso o seguro especial para automóveis em trânsito pelo Mercosul, a Carta Verde. Você consegue em qualquer seguradora.

O abrigo Os homens das cavernas ganharam este nome porque justamente se abrigavam em cavernas. Lógico. O abrigo é quase tão fundamental quanto a comida. Perde para o ar, claro, mas, como é comprovado, fez a diferença na evolução. Quando o homem conseguiu fixar residência, dominou a agricultura e de quebra abandonou a vida nômade 18 MeFuiProChile


Pronto para o embarque! Depois de comprar as passagens, você só consegue pensar nesse dia: o do embarque. Aqui, a maratona começa na rodoviária de Porto Alegre.

MeFuiProChile 19


junto com o telhado de estrelas. Aí começou a arrancada rumo aos prédios futuristas de Dubai. Em qualquer viagem a hospedagem requer cuidados extras. Saber que há uma cama reservada te esperando, fofinha, de lençol branquinho, pronta para te acolher, garante um bom dia no mochilão. O sono é vital para recuperar a energia perdida em refeições meia-boca e caminhadas sem fim, dois pontos que se repetem diariamente na trip. Por isso, já dizia o sábio: “mochilão sem albergue, não é mochilão”. É como um Gre-Nal com o Inter de branco e o Grêmio de preto. O jogo sai, mas perde a graça. Aconselho pelo bem da experiência e do bolso ao menos uma parada em um albergue. Os preços falam por si só. No caso dessa trip, enquanto os preços dos hotéis com serviço mais básico - cama, banheiro e café da manhã - batem no mínimo os US$ 20,00, os albergues abrem suas portas em custos módicos que oscilam entre US$ 8,00 e US$ 20,00 na média. Tá certo que o quarto é coletivo, que o banheiro é comunitário e sempre há um descendente viking com indisposição estomacal, mas também há vantagens. Todas na carteira. A internet costuma ser free, a cozinha fica à disposição do mochileiro/goumert – neste caso a Moguinha –, e a lavanderia é baratinha. Vale a pena reunir as meias, as cuecas e as camisetas sujas e dar um trato no albergue. Assim como vale a pena comprar comida no mercado e desafiar a culinária na cozinha do refeitório. Por essas e outras eu e Morgana optamos por arrancar a viagem em um albergue. A busca começou em sites especializados no assunto. Sugiro o Booking e HostelsClub. Tem o Albergue da Juventude, que exige carteira internacional de albergue. Só entram membros nos quartos. Em caso de outos albergues, os membros ganham descontos. Para buscar um pouso em Santiago optei pelo HostelsClub. Dá opções em diversos locais do mundo. O site tem versões em português, espanhol, inglês, francês e alemão. Ao abrir o portal você preenche logo o campo no canto esquerdo da página: país/cidade/data da chegada/número de noites/moeda. Coloquei Chile/Santiago/01-01-2009/2 noites/dólar e mandei ver. As opções podem ser ordenadas por preço. É mais interessante. Nesta ordem, a primeira chamava-se Plaza de Armas. Cliquei e surgiu o quarto que eu tanto queria. Por US$ 9,00, R$ 21,00 na época, veio a opção 20 MeFuiProChile


de quarto coletivo para dez pessoas. Furunguei outras opções, como o CheLagarto, um albergue famoso de Santiago. Nenhum bateu o Plaza no preço. Confirmei duas reservas para o dia 3 de janeiro. Como a trip não teria dia certo para chegar nas demais cidades, a procura pela internet limitou-se a Santiago. Nas demais paradas, a aventura seria easy rider mesmo. Chegar no local e dar a cara à tapa. Sorte aos mochileiros.

Ao fazer a reserva cuide: - Localização: se o albergue for perto do centro ou perto de uma parada de metro/ônibus, fica fácil de chegar. - Segurança: é vital que o albergue tenha locker, o armário onde você colocará suas malas e poderá passar o cadeado. A área onde fica o albergue também precisa ser segura. - Limpeza: albergue sujo ninguém merece. Banheiros, camas, cozinha. A higiene (ou falta de) pode sacramentar sua opinião sobre a trip.

A documentação Fundamental. O fiscal da aduana, o guarda de trânsito, qualquer um pode te complicar em terras estrangeiras. São o perigo vermelho, que veste azul, verde ou qualquer cor, dependendo do país. Eles comem criancinhas, mijam na cruz, fazem o diabo. Desculpe pelo exagero, mas é bom assustar. A documentação certinha evitar uma penca de problemas na trip. No Mercosul é básico ter a carteira de identidade. Com ela você circula tranquilo pelos países do bloco econômico. Caso a viagem é por via aérea, sem passaporte você não passa da área de embarque. Por isso, atenção à pepelada. Identidade e passaporte chegam na frente. Se você possui um seguro internacional, coloque-o juntinho. Quem estuda vale carregar a carteira de estudante. Em alguns locais o pessoal aceita e concede descontos em pontos turísticos, mesmo o documento MeFuiProChile 21


sendo do Brasil. Dependendo do país visitado, é bom colocar na bolsa comprovantes de que sua intenção é apenas fazer turismo. Dar o pinote e ficar ilegal no local não passa pelas suas ideias. Carteira de trabalho, contra-cheque, extrato de matrícula da universidade, consiga provas de que sua vida acontece mesmo no Brasil. É sempre bom prevenir.

Não tem passaporte? Bom, o primeiro passo pra quem precisa de um passaporte é entrar no site da Polícia Federal - www.dpf. gov.br. Procure o ícone Passaporte e clique em Requerer passaporte. Você vai preencher um cadastro, gerar um boleto e pagá-lo no banco. Daí é procurar o posto da PF que faça passaporte mais próximo e mandar bala!

Pesado, só se for em dólar Definitivamente, sem dinheiro não há viagem. Tudo custa. Da hospedagem ao chiclete, da passagem ao cartão-postal. Qualquer papel de bala consome centavos de alguma moeda cotada todo santo dia em bolsas de valores de todo o mundo. No Brasil usa-se o real (R$). No Chile é o peso chileno, desvalorizadíssimo em relação ao real - R$ 0,003 na venda e R$ 0,0045 na compra. No Uruguai vale o peso uruguaio (R$ 0,09 na compra e R$ 0,12 na venda), enquanto na Argentina vigora o peso argentino (R$ 0,65 na venda e R$ 0,80 na compra). Como é fácil concluir, o real anda bem cotado entre os vizinhos da América. No entanto, a moeda quente, é o dólar (US$). É sempre mais fácil e rentável fazer o câmbio em dólar. Washington e outros vultos norte-americanos são bem quistos em suas versões verdinhas. Para não ter problemas nas compras e pagamentos de serviços no Chile, Argentina e Uruguai o lance é trocar os reais 22 MeFuiProChile


O tamanho das notas Apesar do cartão de crédito ou débito ser seguro, compras pequenas ficam melhor em cash, em especial se as notas são menores. Notas grande são usadas apenas em locais seguros. Em feiras de artesanato, barriquinhas na rua, opte sempre por notas pequenas, ou troque as grandes primeiros. Tenha atenção com o seu dinheiro. Ele fará falta. por dólares ainda no Brasil. A cotação média em dezembro de 2007 variava entre R$ 2,45 e R$ 2,55 na venda. Ou seja, este é o preço praticado pelas operadoras de câmbio para os pobres mortais criarem reservas em dólares. A disparada da moeda americana nos meses anteriores encareceu qualquer viagem ao exterior. Em agosto a cotação ficava na casa do R$ 1,68 por dólar. Paciência. Como o marujo fica à merce dos mares, o mochileiro é refém das bolsas de valores. A operação de câmbio merece cuidado e pesquisa. Ter um amigo que conseguer dólares – verdadeiros, lógico – abaixo da cotação praticada sempre ajuda. No mochilão, cada dez centavos economizados podem fazer a diferença lá na frente. Portanto, cada centavinho ganho na conversão do real em dólar será útil. Tenha certeza. Por isso, o mochileiro precisa estar atento a flutuação da moeda e saber escolher o dia do bote, da estocada, da conversão. Em Santa Cruz fiz o câmio em uma agência de turismo. Além delas, bancos realizam a operação. Na agência, levei um desconto bacana. Comprei os dólares por R$ 2,35 em vez de R$ 2,45. Assim, transformei R$ 3 mil em US$ 1.270,00. Para concluir a operaçao, levei o dinheiro todo até a agência. Vale lembrar que euem pode buscar dólar ou euro em Porto Alegre ou São Paulo encontra preços melhores do que no interior. Outra opção para conseguir moedas estrangeiras é ir nos bancos. O Banco do Brasil, por exemplo, tem um serviço seguro para clientes. Você compra a moeda na agência do banco e o valor convertido é retirado da sua conta automaticamente. É possível escolher entre ficar com dinheiro na conta ou retirá-lo na agência ou ainda usar travel cheques, uns cheques que são aceitos no exterior. Mais um detalhe. Além do dinheiro em papel e do cartão de débito é importante carregar um cartão de crédito, autorizado para transações internacionais. O mochileiro precavido vale por dois. MeFuiProChile 23


O cartão de débito Como lembrado anteriormente, sem dinheiro não há trip. A essência da mochila fala em sobreviver com pouco, na base de caronas, passeios andando, fast food, porém em momento algum desmerece a importância da grana. Além da grana em cash, por questão de segurança vale apostar em cartões, de crédito ou débito. No caso, preferi o de débito. Voltar individado não constava nos meus planos. Optei pelo Visa TravelMoney, utilizado na europtrip de 2008. Trata-se de um cartão de débito feito especialmente para viagens. Você cria um cadastro, ganha seu cartão com senha, registra um contra-senha, efetua o depósito mínimo de US$ 200,00, faz outro cadastrinho no site do Turistar (empresa que fornece o cartão) e está pronto para gastar. O cartão não possui anuidade, juros ou coisas parecidas. Só sai dinheiro dali se o saco da conta estiver cheio. Outra vantagem é ficar livre das variações cambiais. O depósito é feito em reais no valor mínimo da moeda escolhida (euro, dólar, peso, guarani, etc...) no dia da compra. Ponto final! Ah, se a grana terminar no meio da trip, o pai e a mãe podem realizar outro depósito (também de no mínimo 200 alguma coisa) e salvar o filhote em apuros. A Turistar ganha grana nos saques. A cada saque realizado em qualquer caixa eletrônico Visa é cobrado uma tarifa de 2,50 na moeda do cartão, que é aceito em 14 milhões de estabelecimentos comerciais e 1 milhão de caixas eletrônicos pelo mundo. Além de tudo isso, o Visa TravelMoney vale pela segurança e discrição. Em caso de furto, basta contatar a Turistar e bloqueá-lo. �� diferente de ter a grana no bolso e ser roubado. No cartão, sem a senha a grana fica quietinha, imóvel na conta. Só aconselho ao mochileiro anotar sempre os gastos e consultar o saldo no site do Turistar para controlar legal.

Crédito Os cartões de créditos aceitos no exterior precisam ser internacionais. Se o seu não é, procure seu banco e encomende um. É interessante um aumento no limite. Com menos de R$ 1.000,00 fica difícil viajar. 24 MeFuiProChile


MeFuiProChile 25

Leve a merenda de casa! Mais adiante vocĂŞ entenderĂĄ. Aqui, Moguinha degusta o pollo torrado com papas fritas secas.


Meninas Meninas só conseguem usar doleira no inverno. Como a roupa feminina é muito justa e o utensílio faaz certo volume, perde sua utilidade, pois denuncia o paradeiro do dinheiro e dos documentos.

Doleira Na lista de itens de sobrevivência do mochileiro figura com destaque esse artefato de 30 centímetros de largura por 15 de altura. Nele reside parte da vida do viajante. É quase tão importante quanto a mochila. A doleira ou portadólar carrega a plata, o money, o dinheiro. Mais segura que a carteira, mais discreta que o bolso, o iten certo para quem se aventura por aí. A doleira é fundamental na trip por sua discrição. Com elástico ou alças ajustáveis, fica presa ao corpo do usuário. Tem gente que usa na cintura, entre a cueca e calça, bem camuflada. Outros preferem usar nas costas. O fato é que este artefato guarda documentos e dinheiro sem fazer alarde. A minha é de algodão cru, tem zíper e elásticos. A da Moguinha é zero bala. Comprou em Candelária por R$ 22,00. É de tecido macio, tem zíper e alças são ajustáveis. Na minha, carrego passaporte, carteira de identidade e motorista, dinheiro trocado (também distribuo algo nos bolsos, por segurança) e o Visa TravelMoney. Também pode guardar outros documentos importantes. Sugiro sempre se deixar algumas moedas e notas menores nos bolsos das calça ou bermuda. Em caso de assalto, libere esta grana e fique frio. A doleira tem tudo para passar ilesa.

26 MeFuiProChile


Malas Fechar as malas. Serviço desgraçado. Um dos piores do pré-viagem. É preciso checar tudo, refazer os cálculos de camisetas, cuecas, meias, bermudas. Até o cadeado ser posto na mala, qualquer mudança é valida. Apesar de lacradas com antecedência, a pulga que coça atrás da orelha teima em deixar o mochileiro inquieto, com medo de ter esquecido algo. Fechar as malas é um trabalho desgastante. Aconselho a atirar tudo em cima da cama e contar uma, duas, três vezes. Faça uma lista antes e depois cheque-a até ter certeza de que não falta nada. No caso, eu usei uma mochila e uma mala de rodinha. Moguinha idem. Na minha mala que é propriedade da mãe da Moguinha, forrei o espaço de cima fica forradinho com sete cuecas e seis pares de meias. No fundo, lancei duas fronhas e, em seguida, minhas roupas. Dois jeans, uma bermuda, um blusão, um canguru, dois calções e nove camisetas. Ainda entraram um casaco da Mogui, quatro toalhas e meu All Star. Finito. O segundo passo foi a mala da Mogui. Morgana Rohde separou mais coisas. Duas blusas, três vestidos, dois biquínis, sete blusinhas, dois shorts, três regatas, uma bermuda, um jeans, um pijama, um All Star, um sapato, um guarda-chuva, um ferro de passar, uma chapinha, um secador de cabelo, um carregador de celular, três sutiãs, 11 calcinhas e seis pares de meias. Ufa! Mulheres dão muito mais trabalho. A combinação mochila e mala com rodinha é prática. Distribui bem o peso e facilita no transporte. Durante a trip, com o acúmulo de quinquilharias e souveniers, pode ser conveniente comprar uma mala ou mochila – geralmente encontra-se algo com preço em conta. É bom se preparar para este investimento.

Mochila com rodinha Um modelo de bagagem que muita gente aposta é a mochila gigante com rodinha. É um híbrido entre a mochila e a mala de rodinha. Costuma ser bem espaçosa e dá duas opções de transportes: nas costas ou puxando. MeFuiProChile 27


As roupas Levei na mala sete cuecas, seis pares de meias, duas fronhas, dois jeans, uma bermuda, um blusão, um canguru, dois calções e nove camisetas. Ainda entrou um casaco da Mogui, quatro toalhas e meu All Star. As camisetas usei todas, as cuecas e meias também, algumas mais de uma vez (foram lavadas no banho, claro). Já os jeans só ocuparam espaço. Uma chega. Um canguru é suficiente, dois é exagero. No caso da Mogui, ela levou duas blusas compridas, três vestidos, dois biquínis, sete blusinhas, dois shorts, três regatas, uma bermuda, um jeans, um pijama, um All Star, um sapato, um guarda-chuva, um ferro de passar, uma chapinha, um secador de cabelo, um carregador de celular, três sutiãs, 11 calcinhas e seis pares de meias. Um exagero, por mais que ela não admita. Moguinha usou tudo, menos o casaco que ficou na minha mala. O ferrinho não foi usado, poderia ter sido descartado. O guarda-chuva é preciso. Ah, ia esquecendo. Ainda teve dois travesseiros levados na mão e muito bem usados.

Tática de guerrilha Se você pretende não ter muito peso, uma alternativa é levar muita roupa velha para a trip. Conforme as camisetas, cuecas e meias são usadas, são jogadas foras ou doadas ao mendigos. Alivia o peso da mala e abri mais espaço para novas aquisições.

Necessaire demais É necessário uma necessaire na trip. É pelo bem da higiene – e do nariz – dos mochileiros. Eu carreguei uma e a Mogui outra. De tamanho proporcional ao gênero: masculino e feminino. Ambas pretinhas. Antes de enchê-las, Morgana mostrou que o cabelo loiro é apenas para enganar a torcida. Para ganhar espaço, tirou o shampoo de um pote grande e pingou no pequeno. Que loira esperta! 28 MeFuiProChile


MeFuiProChile 29

A bagunça é grande! Moguinha espalha na cama os utensílios da viagem e começa a seleção. Tente ser o mais enxuto possível no momento de fechar as malas.


Na minha necessaire levei o kit de sobrevivência do homem, nesta ordem: escova e pasta de dente, desodorante, sabonete, shampoo, condicionador, creme de pentear, perfume, gilete, remédios e manteiga de cacau. A da Mogui quase explodiu. Gilete, sabonete, dois protetores de sol, manteiga de cacau, hidratante, gel para o corpo, perfume, remédios, esmalte, cortador de unha, lixa para unha, creme para as mãos, condicionador e dois shampoos - um para cada dia. Como homem, questionei o uso de dois shampoos. É espaço dobrado! E a resposta? “Eu penso na saúde do meu cabelo.” Bom, de madeixas saudáveis, Moguinha encarou a viagem. A Moguinha, como menina, usou tudo que tinha na necessaire e mais um pouco. Eu, como menino, também. Shampoo, condicionador, creme para cabelo, gilete e sabonete. Básico. O perfume ficou na frasqueira da Mogui, junto com o protetor solar. Usamos um tubo e meio para duas pessoas. Os cremes para mão e hidratante a Mogui usou raramente, mas mulher não sai de casa sem essas coisas. Azar o delas. Deixei a frasqueira gigante na mochila dela. Como não molhavam, nossas necessaires não deram problema depois dos banhos. Foram excelentes. Para os mais precavidos ainda, sugiro colocar os shampoos e cremes dentro de sacos dentro das frasqueiras. Durante a trip nada vazou, mas se tivesse vazado teria dado meleca.

Sem receita, só aqui Samba, caipirinha, mulata de perna grossa, bunda larga e cintura fina, carnaval, futebol e venda de remédios sem receita. Tudo faz parte do Brasil, é genuíno daqui. Pois bem, aproveite e faça uma farmacinha antes de viajar. Antigripais, anti-inflamatórios, sal de fruta, bandaid, esparadrapo, água oxigenada, mercúrio, remédio para enjôo e náuseas, enfim, leve seu kit de sobrevivência Mas, claro, em caso de sintomas mais agudos, evite antibióticos ou doses fortes de qualquer substância. Dor de barrida, enjôo, coisas pequenas você mesmo pode resolver. É normal estranhar a comida nos primeiros dias da trip, porém corriqueiro mesmo é ter bolhas. Enormes, doloridas, ardidas. Cuidar dos pés é fundamental. Reforço: bandaid, gase, esparadrapo, o kit de primeiros socorros é hiper-útil na trip. 30 MeFuiProChile


A merenda de casa No início da trip, se você quiser poupar uma grana, leve rango de casa. Minha mamãe fez uma merendinha para mim. A mamãe da Mogui fez outra merendinha para ela. As mamães salvaram a pátria em alguns momentos. As barras de cereal, os salgadinhos e o Nescau bola morreram em algum momento de fome absurda e falta de dinheira. Barra de cereal é arriscado, pois tem sementes e pode não passar nas alfândegas. Não leve frutas, pois apodrecem e não passam na aduana. Outra coisa, evite bolachas Club Social, por exemplo. Viram farelo na mochila com facilidade. Uma merendinha pequena faz a diferença, principalmente na viagem de ônibus. Ajuda a economizar alguns tostões.

Não saia de casa sem o cadeado Mais necessário que a necessaire. O cadeado é o Comissário Gordon da trip: garante toda a segurança e ainda dispensa o bat-sinal. O cadeado é usado em 100% do tempo do mochilão. Sua tranqüilidade, a noite de sono de algodão, os passeios bem aproveitados dependem desta pecinha comprada por míseros R$ 3,00. Durante os translados, o cadeado lacra as malas. É questão de segurança. Se aberta a mala, o cadeado precisa ser arrebentado, denunciando o crime. É uma ratoeira no fecho da bagagem. Em um aeroporto, por exemplo, ao perceber que a mala foi violada, você registra a ocorrência ainda na área de embarque. No busão reclama pro rodomoço. Alguém vai ter que resolver o problema. Quando se está no albergue ou hotel, o cadeada cerra o locker, o armário gigante das malas. Em alguns casos, há este armário, porém sem chave e cadeado. Aí está a prova de que um mochileiro precavido vive dobrado. Só um aviso: pelo amor de Deus, não perca as chaves – ou leve as reservas.

MeFuiProChile 31


Cadeado P, M ou G Há cadeados com chave e outros com senha. Opte pelo o que você se der melhor. Um cadeado pequeno, discreto, ocupa menos espaço e, lógico, pesa menos,

Máquina fotográfica Item básico no bat-cinto do mochileiro. Registrar os momentos inesquecíveis da trip é imprescindível. Portanto, ter uma máquina digital de qualidade razoável faz a diferença na volta. Poder olhar as fotos e ver imagens de qualidade, em boa resolução, aguçam as lembranças do mochilão. Além de ter uma máquina legal, é importante a memória. Sem esquecer da bateria, o combustível para registrar a aventura. De preferência leva-se duas baterias. Se uma morre, a reserva garante o dia. No albergue, carrega-se ambas. Quanto ao memory card, tente adquirir algum de 4GB. Leve também pen-drives para baixar o material. Uma opção extra é baixar as fotos e distribuí-las em sites como Picasa e Flick. Eternizar os momentos será importante no retorno.

32 MeFuiProChile


Leve sempre uma bateria reserva para a câmera e um cartão de memória graúdo. Não corra o risco de perder imagens como esta.

MeFuiProChile 33


2 Al么 Chile

MeFuiProChile 35


Pé na estrada

R

ealizada a pré-temporada com afinco e intuito de vitória, graças a Deus chegou o dia da viagem. O professor nos orientou bem, trabalhamos forte e fomos lá buscar os três pontos. Sem medo dos chilenos, argentinos e uruguaios. Nossa Libertadores da América particular começou no dia 30 de dezembro. Bom, Libertadores todos sabem: é casca grossa! É o mais sanguinário dos campeonatos. Barro contra, torcida contra, arbitragem contra, clima contra, tudo contra. A Liberta é pra macho. O mochilão também. Claro que a animosidade não é tão grande, mas vale dizer que é. Fazer charme é do jogo.

De mochila e chinelo Como sempre, rodoviária reúne tudo que é tipo de gente. Em Candelária não era diferente. O entrevero estava posto, com a galera se cotovelando, criança ranhenta chorando, velho que só fala em alemao resmungando e aí por diante. A rodoviária é um local perfeito para observações antropológicas. Costumo cuidar os tipos das rodoviárias. A trip revela-se como uma oportunidade e tanto. Nosso busão Cande/Porto Alegre saiu às 17h15 do dia 31 de dezembro. Já o busão para Santiago partia às 7 da manhã do dia seguinte. Assim, fomos obrigados a dormir 36 MeFuiProChile


O temido Caracol nos espera! Uma serpente que desce do alto da Cordilheira dos Andes.

MeFuiProChile 37


em Porto. Um amigo nos emprestou seu apartamento, desabitado durantes as festas do final de ano. Como mochileiros/farofeiros, preparamos uma ceia, afinal, 2009 bateria a porta na próxima meia-noite. Subimos no ônibus da Viação União Santa Cruz com duas mochilas, duas malas, dois travesseiros, uma sacola térmica com a lentilha e uma sacola de loja com três garrafas de Gotas de Cristal e pão de queijo. Jesus! O busão era semi-direto. Entrava em qualquer rodoviária. A viagem durou três horas e meia. Ao chegar em Santa Cruz, após 40 minutos de translado.Moguinha largou a frase. “Já estou cansada de viajar”. Era só o começo da trip.

*** A trip iniciou mesmo no dia 30 de dezembro. Papai e mamãe foram para Florianópolis passar o Reveillon e Guizinho ficou em Santa Cruz do Sul. De férias desde o dia 27, trabalhei uma sexta-feira e cai no mundo. Na terça, dia 30, minha fiel escudeira, o Sancho Pança da minha temporada de cavaleiro errante, estava prontinha, explodindo em cima da cama. Minha mochila, trazida de Portugal na trip anterior, aguardava ansiosa o começo da viagem. Mas o primeiro destino era mais modesto: a Pacata Candelária. Candelária é uma cidadezinha no interior gaúcho, com seus 30 mil habitantes. Terra de gente simples que ainda procura uma identidade. Cande City já foi Terra do Mel, do Sapo e do Dinossauro. Na verdade, é a Terra da Bicicleta Sem Marcha. É a Amsterdã do Sul, com suas bikes contribuindo pela manutenção da camada de ozônio. Na verdade não é um costume, é necessidade. Para muitos, a grana do carro é curta. Então, compra-se uma bicicleta – sem marcha. O ônibus Santa Cruz/Candelária saía às 12h35 da rodoviária. Às 11h50 deixei meu lar, na Rua Henrique Ott, bairro Chácara das Freiras. De bermudão, camiseta e chinelo, um livro na mão direita e uma sacolinha de mercado na esquerda, meti a mochila nas costas e zarpei. Ao infinito e além. Andei oito quadras até a parada do ônibus urbano. O urbano chegou às 12h26 e atracou na rodoviária às 12h35. Perdi o busão rumo à Pacata Candelária por questão de dois minutos. Vi o carro dando as costas e ganhando a BR. 38 MeFuiProChile


O primeiro brinde O primeiro brinde de 2009, aquele saúda a chegada do ano, podemos dizer que não teve o charme esperado. Com a falta de taças no apê do meu amigo, o jeito foi improvisar. Os brindes foram em antigos copos de requeijão. O negócio é brindar o ano que inicia. Tabela de preços Coca-Cola lata: R$ 2,00 Água mineral: R$ 1,50 Enroladinho: R$ 1,50

contas >> Pré-viagem R$ 630,00 (duas passagens bus POA/SANTIAGO) R$ 40,80 (farmácia 1) R$ 26,00 (farmácia 2) Total: R$ 764,80

cidades Eu moro em Santa Cruz do Sul, terra da Ana Hickmann, Lya Luft, do Corinthians, campeão brasileiro de basquete. Mogui mora em Candelária. Nosso primeiro destino era Porto Alegre. No mapa, é fácil ver que Santa fica mais perto da capital do que Cande, mas, para CANDelÁRIA URUgUAIANA dar a largada a trip juntos, resolvi andar para trás. Não foi bem para trás, pois as três horas e meia até Porto Alegre tiveram que ser percorridas novamente. Santiago fica para depois de Candelária e não para os lados de Porto. Como o busão só para em Uruguaiana, no extremo-oeste do Rio Grande do Sul, fomos obrigados a embarcar em Porto.

SANTA CRUz DO SUl PORTO AlegRe

MeFuiProChile 39


Com tempo de sobra, mandei ver num enroladinho de salsicha, li um pouquinho e esperei até as 13h15. No busão certo me mandei para Candi City. Apareci na casa dos Rohde às 14h15. Consumi a tarde ao lado da Moguinha, em compras no mercado e farmácia. A dois dias do embarque, o nervosismo já começava a pegar. À noite fechamos as malas e o frio na barriga virou hipotermia.

*** As três horas e meia dentro do ônibus até Porto Alegre serviu de aquecimento, um bate-bola para o que viria. Na manhã seguinte abriria a maratona de 36 horas até Santiago. Chegamos depois das 20 horas em Porto. Pegamos um táxi a R$ 15,00 até o apartamento do meu amigo. Mal colocamos as tralhas no chão e Morgana já assumiu o fogão. Nem precisei mandar, tamanha a obediência da menina. Moguinha pôs as Gotas de Cristal no freezer e a lentinha na panela, enquanto eu tomava banho. Depois, ela tomou seu banho de beleza, ligamos a TV na Globo e ficamos curtindo o especial de ano-novo. O ano é novo, mas o especial parece ser sempre velho. Toda santa virada é a mesma coisa. Artistas num show em algum lugar e repórteres entrando ao vivo de tudo quanto é capital do Brasil. À meia-noite, na contagem regressiva, apanhei a Gotas de Cristal e “toooc”: Feliz 2009! A expectativa era essa mesmo, pois, em poucas horas iniciaria o mochilão do Mercosul. Dormimos cedo, pois deveríamos apanhar as passagens no guichê da Pluma a partir das 6 horas. Acordamos às 5, tomamos banho, café e pegamos o táxi. 6h02 estávamos na frente do guichê, que abriu às 6h22. Em oito minutos estávamos com as passagens. Aproveitei o período de espera para analisar os tipos da rodô. Tem coisa que só se vê em rodoviária, tipo, cara com regata e umbigo de fora, mulher de corsário e bico fino, mendigo, velha carregando muamba. São coisas que não estão nos aeroportos. Por isso gosto deste

40 MeFuiProChile


ar romântico da rodô. Depois de suspirar, peguei a Moguinha e demos um passeio. O busão estacionou às 7h30, meia hora atrasado. Sem problemas. Em quatro minutos estávamos com o pé na estrada.

Chile, to chegando! O dito gauchesco avisa de antemão: é longe Uruguaiana. Longe mesmo. Saímos às 7h30 de Porto Alegre, paramos por 15 minutos em Pantano Grande, por 50 em São Gabriel e chegamos às 16h30 na tal de Uruguaia, terra de taura macanudo, de índio veio macho! Por lá não se usa brinquinho em orelha. Quem tenta usar, deixa de usar óculos. Tem a orelha decepada. O caminho é praticamente uma reta só. São poucas curvas. A paisagem até São Gabriel apresenta coxilhas, umas leves ondulações no solo verdinho, coberto de grama, gado e arroz. Pelo Alegrete, o terreno plano impera. Um sinal do que virá após a ponte, em Uruguaiana. Passando a Ponte da Liberdade, que separa o Brasil da Argentina, chega-se a Pasos de Los Libres. A partir dali o chão é retinho, as árvores são nanicas e a estrada é reta. É assim até Mendoza, quando começam as curvas, enlouquecidas já no Chile. O pampa é plano, uma imensidão de grama rala. A Cordilheira é sinuosa. E é bem mais longe do que Uruguaiana.

*** A lentidão parece a marca dos vizinhos. Para tudo estes rapazes são vagarosos, lentos, preguiçosos, beirando a estupidez em alguns casos. A passagem por uma aduana é um destes. Entrar em uma aduana é sinônimo de demora, muita demora. Foi assim na passagem de Uruguaiana para Paso de Los Libres e de Mendoza para o Chile. Na primeira, descemos dos busão e demorou duas horas para os vistos chegarem. Detalhe. Só nós estávamos ali. Eram 30 pessoas querendo entrar no país, mais nada. Passamos todas as malas no raio-x, recebemos os vistos, tudo muito enrolado. MeFuiProChile 41


Por falar em enrolado, o rodomoço da Pluma merece menção honrosa. Chileno, o rapaz tentava falar em portunhol, mas sempre para dentro. Ouvi-lo era uma missão para impossível. E o pior de tudo, cuidada dos DVDs. Este senhor carregou uma verdadeira seleçao digna do camelô da esquina. Os clips dos anos 80 abriram as músicas. Tocou Caça Fantasma e Rock Balboa. Depois veio o primeiro filme: Azumi 2, uma história de mangá, em que a guria é um McGiver de saia e espada. Depois surgiu Uma madrugada muito louca. Só chapação e bobagem. Um fiasco, sem graça. Diamante de Sangue, com Leonardo DiCaprio, salvou a colheita. Por pouco tempo. Dragão Latino logo entrou em cena. Imagine aquele filme do Van Damme, coloque uma produção à Maria do Bairro e piore as coisas. Cruel. Chook Dee, a história do boxeador tailandês branco, e Demônio Azul, uma versão piorada do Tubarão, abriram o caminho para ele, que lotou um campo na Bahia, que com sua sensualidade vem arrebatando fãs. O único e inconfundível Marcelo Marrone. O DVD ao vivo em Porto Seguro infernizou nossos ouvidos. O cara grita, tem a voz mais aguda que o Zezé di Camargo, é gordinho, usa calça de couro de motoqueiro e gosta de rebolar. O rodomoço só poderia ser sadomasoquista. Se a viagem já era uma aula de paciência, ele conseguiu transformá-la em um doutorado. Durante a travessia este rapaz servia água, suco, refri, chá ou café. Ainda tinha bolachinha e salgadinho. Os lanches eram por conta da pluma. Os almoços não. Aí a culpa não era dele. Os motoristas, seis – que se revezavam ao longo da viagem – eram os culpados. Em São Gabriel o almoço foi no Paradouro. De chorar. Os atendentes gente boa, mas a comida... Sem sal, sem variedade e caríssimo: R$ 13,00 por pessoa, sem a opção do PF ou do bufe por quilo.

*** A trip é um convite aberto para amizades. Brasileiros se proliferam no exterior feito coelhos no cil. Se for na América do Sul, Jesus! De repente soa aquela frase em português quando menos se espera. Lá está 42 MeFuiProChile


MeFuiProChile 43

É longe Uruguaiana! Mas a gente chega lá. O busão é lento, mas devagar se vai ao Chile.


um patrício. Como a saída foi de Porto Alegre, só embarcavam gaúchos. O ônibus saiu do Rio de Janeiro, ou seja, apanhou os representantes dos demais estados no caminho. Mineiro, paulista, carioca, capixaba, catarinense, paranaense, tinha de tudo. E claro, alguns estrangeiros – argentinos, chilenos, bolivianos... De saída vi uma camisa do Grêmio. Camisa do Grêmio é sempre uma mão extendida, pedindo o aperto. No caso, a camisa ficou fora do ônibus. Entrou a acompanhante dela, uma japonesinha, baixa, gordinha. Tímidos, ficamos no sapatinho. Até a parada para o almoço em São Gabriel, só conversei com a Morgana e ela comigo. Daí arriscamos uma conversa boba com a tal nipônica. “Vai pra onde? Santiago?”, indaguei. “Sim, dai vou para Valparaíso e depois volto pra Argentina. Vou ver meu namorado em Buenos Aires.” Bingo! Sumire Hinata tinha anotado o mesmo roteiro que nós. Éramos irmãos de província e roteiro. Logo perguntei: - Já tem onde ficar em Santiago? - Ainda não, vi alguns albergues, mas não escolhi. - Eu peguei um no centro, na Plaza de Armas. Tem metro pertinho pelo o que diz o site. Daqui a pouco ficamos juntos. - Ah, seria legal - sorriu, antes de ser interrompida por um sotaque caipira, carregadíssimo. – Oi. Vocês vão pra Santiago? Eu vou pra lá também - disse Marcos Faveretto, paulista de Santos, morados de Campinas. – Vamos, sim! A gente tava combinando de ficar no mesmo albergue. Que tu acha? – Fechou! Vou ir pro Atacama, mas também vou parar em Santiago uns dias. Fica melhor com mais brasileiros pertos. O diálogo formou a primeira quadrilha da trip – Guilherme Mazui, Morgana Rohde, Sumire Hinata e Marcos Favaretto. No janta em Federal somaram-se Washington, outro paulista, mas este apaixonado por voo livre. Iria para o Norte do Chile, mas também queria ver Santiago. Completou a escalação Vladimir, um boliviano que morava meio ano no Chile e outro meio no Brasil. Sua casa chilena ficava em Valparaíso, nossa segunda cidade a ser visitada. O cara topou ser o nosso cicerone na capital chilena. A quadrilha que assolaria Santiago nos primeiros dias de janeiros estava formada, armada e cedenta pelo desconhecido. 44 MeFuiProChile


*** Se o almoço teve carreteiro pálido, bife sem sal e feijão aguado, a janta se revelaria mais insosso. Superada a inoperância na aduana em Paso de Los Libres, o busão ganhou a reta interminável do pampa argentino. Às 21 horas, adentrou em Federal, uma cidade minúscula, árida. Um ar de faroeste pairava. Só faltava a bola de feno rolando pela rua. O motora do momento parou no Comedor. Lindo por fora. Todo de madeira, com telhado de palha de santa fé, lembrava um galpão típico gaúcho. Dentro boleadeiras, esporas, lenços e quadros ornavam as paredes com muito bom gosto. As mesas e os bancos de madeira, rústicos, convidavam o freguês a sentar-se e observar pelo aquário a enorme parrija, manuseada pelo assador. Quilos de carne se acotovelavam em cima daquela espécie de grelha. Tudo muito bonito, apetitoso. Então, pedimos o cardápio. Um rapaz magricela, pálido, trouxe o menu. Para o nosso desespero. O câmbio era maluco. Se nas bolsas de valores de todo o planeta R$ 1,00 valeria em média $ 1,5, ali era ao contrário. Una boteja chica de Coca-Cola custava $ 5,00. Caso o pagamento fosse em real, a garrafa pequena de Coca passava a custar R$ 6,00 – $ 3,00 a mais. Tudo acompanhava essa lógica salafrária. Com pouca grana no momento e sem nenhum puto peso argentino no bolso, a solução seria mesmo pagar em real. Então fomos aos pratos mais baratos. – Chico, dá-me un sanduich de pollo! – No hay. – Como? – No hay sanduich. Solamente minuta. Pois bem, traduzindo para a linguagem do meu bolso, só os pratos caros estavam disponíveis. O sanduíche de qualquer coisa que custava R$ 6,00, teria que ser trocado por uma minuta, um bife de gado ou frango, acompanhado de fritas, que custava R$ 16,00 – ou $ 12,00. Sem grana, dividimos una minuta de pollo. Quarenta e cinco minutos depois, apareceu ela, a minuta, imperial, carregada feito uma Cleópatra até nossa mesa. Quando desceu o prato, a rainha do Egito virou a serpente. Um bife seco, torrado, preto nas pontas! Acompanhado de uma porção mínima de fritas, estas bem sequinMeFuiProChile 45


has. Só. Ah, uns pãezinhos acompanharam. Eu comi os pães, um terço do frango e quase nada das fritas. Mogui matou o resto. No ônibus recorri a um Nescau Bowl antes de domir. O amanhecer já revelaria a Província de Mendoza.

*** A noite voou. Sob chuva fina e incansável, paramos em um posto de gasolina para “baño” pelas 8 horas. O tal baño em espanhol significa banheiro. De toalha na mão, eu e Moguinha descemos. Só deu para comprar uns sanduíches. Seria a última descida do busão. O planejado era o almoço ser cortesia da Pluma no segundo dia de viagem. Às 13 horas, o ônbius entrou na cidade de Mendoza. Todos urrando de fome. Aí, nosso rodomoço pediu a palavra. Como falava pra dentro, não entendi nada. Pedi para a chilena da poltrona ao lado traduzir. Resumo: a Pluma esqueceu de providenciar os almoços. Assim, ficaria sob nossa responsabilidade a refeição. A parada seria em breve. Seria. O motora cruzou toda a cidade, tomou o rumo da Cordilheira dos Andes e nada do tal restaurante. A beleza do cordão montanhoso que se apresentava aos poucos ajudava a iludir o estômago. Os Andes são fantásticos. De Mendoza víamos a précordilheira, suficiente para ficarmos encantados. Incrível, fantástico, imponente, de tirar o fôlego, o Pelé das paisagens, o Dinho das montanhas, enfim, demais. É difícil descrever os Andes. As imagens falam por si. A cordilheira aparece em sua porção argentina. Avistamos seu vulto pela primeira vez às 13h25. Aparecia feito uma serpente, a te mirar no horizonte. E o busão ia em sua direção, em especial quando virou a primeira curva em horas de viagem. Aí, rumou a boca da serpente, que virou dragão, dinossauro, qualquer coisa grandiosa e fantástica. O mix de cores impressiona. De repente, ela é árida, vermelha. Muda o sedimento do solo e sua cor fica roxa, amarela. Em outros pontos há grama, verdinha, rala. Em outros a neve do inverno ainda 46 MeFuiProChile


Vale a pena esperar! A viagem é cansativa, mas ver a exuberância da Cordilheira compensa qualquer sacrifício.

MeFuiProChile 47


resiste. Pequenos rios escoam pelas montanhas. São ás últimas lágrimas do degelo. É o caso em que a natureza se impõe bruta, sem pedir licença. Quem pede é o viajante, que ganha o presente que é contemplar tal paisagem. Apesar de toda exuberância do cenário, a cada ciclo de 15 minutos o estômago lembrava que somos humanos, dependemos de energia para viver. E nada do restaurante aparecer. Enfim, surgiu algo que parecia um restaurante. E era. Porém, às 15h30. A cantina ajeitada, na beira na estrada, acostumada a receber turistas. Mais uma vez tivemos que apelar ao prato dividido. Descemos do ônibus desesperados, em debandada até a copa. Pedimos raviole ao molho sugo. Mogui abocanhou quase toda a massa e eu matei quatro pãezinhos ofertados como entrada. Valeu a pena. A refeição custou R$ 19,00 para duas pessoas. Razoável. Antes de retornar ao busão, ainda aproveitei para apanhar os pães da mesa vizinha, abandonados ao destino. A morada daquelas indefesas bolas de farinha e ovo foi a minha barriga. Alimentados, corados novamente, seguimos viagem. Impressionante como o apetite saciado embeleza ainda mais o ambiente. Estávamos há uma hora da fronteira com o Chile, em Libertadores. Foi tiro curto, mas lindo. A cordilheira não cansava de nos encantar com suas cores e formas gigantes. Às 16 horas surgiu a aduana. Às 19 conseguimos ultrapassar a linha. Às 20, enfim, seguimos viagem. Passar pela aduana do Chile é um desafio de paciência. A fila costuma ser grande, digo, as filas. São três. Uma para caminhões, uma para carros particulares e outra para ônibus. Quando estacionamos, havia cinco busões na nossa frente. Um de cada vez é inspecionado pelos fiscais. Enquanto as bagagens são levadas até o raiox, os passageiros entram na fila dos carimbos. São dois. Um para deixar a Argentina e outro para entrar no Chile. Ou seja: duas filas enormes. De carimbos à mão, as malas correm na esteira da verdade. Ainda no ônibus, você precisa preencher uma declaração jurada (eu disse jurada!) revelando se possui algo de origem animal ou vegetal na mala, mais de US$ 10 mil, eletrônicos em abundância. Em caso de contradição, prepara-se! Os chilenos são impiedosos. Pois bem, as malas e as mochilas passam por todo este processo. Aí elas retornam ao bagageiro e você precisa esperar que os fiscais liberem o ônibus. Aí, é só seguir viagem. Nossa liberação demorou uma hora. Uma senhora teve problemas com as baga48 MeFuiProChile


gens. Durante a espera, descemos do ônibus e curtimos o vento gelado a 2,8 mil metros de altitude. Encerrada a estadia na aduana, pudemos tocar o barco. Então, o motora avisou. “Segurem-se nos bancos.” O aviso fora pertinente. El Caracol nos aguardava.

*** As 29 curvas sinuosas fazem as bagagens rolarem de um lado para o outro. O movimento de barko viking também reflete no alto, com os passageiros. A cada curva para direita, todos seguem o embalo. A cada virada à esquerda, todos seguem o embalo outra vez. Grávidas não devem cruzar o Caracol. A estrada é um barranco interminável. Os chilenos pegaram um morro e resolveram transformá-lo em estrada. O resultado foi a imensa serpente formada de asfalto, cravada na pedra andina. A sequência de S colado no outro impressiona. O ônibus não passa da terceira marcha. A cada curva, o desfiladeiro se apresenta. Para quem tem medo de altura vale o mesmo procedimento das grávidas. O fôlego some quando se espia o vazio pós-curva. Caso o motora erre a dose, a ribanceira supera dos 30 metros de altura. Uma queda e a turma vira pate. Por isso, pé no freio! O Caracol se arrasta por suas 29 curvas até quase o nível do mar. Quando tudo fica reto, cerca de uma hora depois de iniciar a descida, a viagem corre até Santiago. É o momento de dormir o sono impossível de dormir no colo do Caracol. Eu e Moguinha repousamos. Lá pelas 22 horas despertamos. Famintos, demolidos. Estávamos no ônibus desde às 7 da manhã do dia anterior. Minhas panturrilhas doiam pela falta de circulação do sangue. As caimbras surgiam sem avisar. O pescoço duro, as costas tensas, a cabeça pesada. Apesar de estar sentado e sem fazer nada há quase dois dias, de dormir cerca de 20 horas, o cansaço era digno de um Marílson dos Santos pelas ruas de Nova York. Morgana acompanhava na exaustão. Às

MeFuiProChile 49


22h30 o ônibus da Pluma entra em Santiago do Chile. Meia hora depois estamos na rodovária. Me Senti um Dunga erguendo a taça do tetra, de veia saltada no pescoço, de músculos rijos no braço. A vontade era de gritas, berrar, dar o soco do Pelé no ar, fazer o aviãozinho do Zagalo, sei lá, de extravazar. Abracei minha namorada firme. Se em 2007 ficamos exaustos com 12 horas de voo entre Buenos Aires e Roma, havíamos superado algo maior: 40 horas dentro de um ônibus, dois dias sacundindo num busão, para cumprir 2,6 mil km entre Porto Alegre e Santiago. Somos um casal vencedor. Após estas 40 intermináveis horas o cansaço deu lugar a excitação. Chegar a Santigago depois de dois dias libera doses de adrenalina pelo corpo. O instinto de sobrevivência aflora. Me senti como um primata, atrás de abrigo e comida. Você sabe que chegará ao desconhecido e tem ciência da necessidade de encontrar o albergue. O medo de que tudo pode dar errado assusta, paralisa as pernas. Se precisasse cobrar um pênalti a aquela altura, faria como Roberto Baggio em 1994: isolaria o tetra para fora. O frio na barriga acompanhou e cada degrau até a descida daquele carro da Pluma. O arrepio aumentou no momento de apanhar as malas. Nessa hora, tudo passa pela cabeça. “Como vou achar o albergue? Vou de táxi? Será que o metro é seguro? Será que deu certo a reserva? Ai, meu Deus! E se der errado? Vou dormir na praça? Não, não dá. Eu quero a minha mãe!” são coisas que embaralham os pensamentos. É bom respirar e tentar ficar lúcido neste momento. O problema do táxi é o mais fácil de resolver. Ele vai até os mochileiros. Em bandos. Em dois minutos, três taxistas fardados de calça e sapatos sociais pretos, mais camisa branca e cap, nos atacaram. O instinto brasileiro nos fez ficar colados aos novos amigos. Informei que eu tinha uma reserva em um albergue no centro e que poderíamos tentar ficar todos por lá. O taxista viu o endereço negociou um preço de $ 5 mil, divido por três cabeças. Sem entender muito do câmbio naquele momento, exauridos, topamos. Fomos em dois táxis. Eu, Mogui e Sumire em um carro. Vladimir, Washington e Marcus no outro. Finalmente o Chile era nossa casa de momento!

50 MeFuiProChile


MeFuiProChile 51

De babar! A Cordilheira dos Andes se imp천e sobre a vis찾o fascinada do mochileiro.


Multa no Chile Nas aduanas é sempre bom ficar esperto. Algum engraçadinho pode implicar com você. No Chile, é melhor ficar mais esperto ainda. Os caras são muito rigorosos ao verificar o que entra no seu país. É precisa fazer uma declaração jurada antes de ir para o raio-x. Se você tiver produtos de origem animal ou vegetal e não relatar nesta declaração, leva multa. Uma mulher fez isso no nosso ônibus. Tomou uma dura danada, um interrogatório de uma hora e um tufo de R$ 500,00. Tudo por causa de um saquinho de nozes. lista de filmes Jamais veja isso durante uma viagem. Cortesia do rodomoço da Pluma. - The Best of disco! - Azumi 2 - Uma madrugada muito louca - Dragão Latino - Choock Dee - Demônio Azul - MARCELO MARRONE AO VIVO EM PORTO SEGURO

o poeta marrone Ronaldo nada! Curta as letras do verdadeiro fenômeno: Marcelo Marrone - Motel Paraíso: o motel paraiso pra mim é um inferno / o motel paraiso deixou meu peito deserto / o motel paraiso um pecado / um pecado se fez no motel paraiso / eu fui traido pela primeira vez - Gato e Rato: Parece até briga de gato e rato / Eu sou flamengo ela torce pro Vasco / Se eu quero silêncio ela aumenta o rádio / Seu eu piso na bola ela pisa no calo - Manual da Mulher: O manual da mulher é fácil de ler/ Não é complicado / É fácil entender / Mulher só gosta do homem que faz ela sentir prazer o dog Durante a espera na aduana de Libertadores, no Chile, um amigo inesperado apareceu. Não sei o nome dele, só sei que era triste, lerdo, mas de tão triste e lerdo ficava simpático. Batizei-o de Bethoven, por causa do filme. São Bernardo e Andes combinam demais!

52 MeFuiProChile


A trupe de mochileiros. Primeira fila: Vladimir, os motoristas malucos, Washington e Marcos. Segunda fila: eu, Moguinha e SumirĂŞ.


Contas >> Dia 1 - Candelária a Porto Alegre R$ 67,50 (2 passagens Cande/POA) R$ 10,50 (táxi rodo casa do Júlio) Total: R$ 78,00

54 MeFuiProChile

>> Dia 2 - POA/Federal R$ 15,00 (táxi casa do Júlio rodô) R$ 3,50 (2 águas) R$ 2,00 (Coca-Cola) R$ 30,00 (2 almoços, 1 Sprite) R$ 2,00 (água) R$ 19,00 (galinha e batata frita) Total: R$ 71,50


MeFuiProChile 55



Livro - Me fui pro Chile