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|| e d i t o r i a l

Ciência a serviço da Saúde Indicadores nacionais e internacionais que rea-

a melhoria da qualidade da pesquisa e a des-

lizam a previsão de crescimento econômico e

centralização dos recursos aplicados. Essa é a

social de uma nação já incluíram, em seus pa-

lógica de trabalho do PPSUS, que atua por

râmetros de análise, a área da Ciência e Tecno-

meio de Editais Descentralizados, lançados por

logia (C&T), atestando-a como fator condicio-

UF, sendo os temas de pesquisa definidos com

nante para o desenvolvimento de uma região.

a participação de pesquisadores, agentes do ser-

Ainda longe de ter suas implicações entendi-

viço da saúde e outros atores.

das, como um todo, pela população em geral,

No biênio 2004/05, a soma de investimen-

a C&T parece fazer parte das vidas das pessoas

tos no programa, entre verbas do governo e a

mais do que elas imaginam.

contrapartida dos Estados, foi de R$ 22 mi-

Foi o que comprovou, em 2000, a Organi-

lhões. Em 2006/07, o valor foi quase o dobro:

zação dos Estados Ibero-Americanos (OEI) em

R$ 41 milhões, cota já considerada a mínima a

conjunto com a Rede Ibero-Americana de Indi-

ser disponibilizada na edição seguinte da ação.

cadores de Ciência e Tecnologia (RICYT) com uma

Nas duas edições PPSUS do Amazonas, foram

pesquisa realizada para avaliar a percepção pú-

investidos R$ 3,5 milhões, sendo R$ 2 milhões,

blica da C&T em alguns países. A maioria dos

recursos da FAPEAM, destinados ao desenvol-

entrevistados concorda que o desenvolvimento

vimento de 30 projetos.

da ciência e da tecnologia é o principal motivo

O fomento à pesquisa, desenvolvimento tec-

da melhoria da qualidade de vida da sociedade.

nológico e inovação na saúde é contemplado

Uma antiga recomendação popular já aler-

em mais de 100 projetos pertencentes a 13

tava para o óbvio quando se dizia: “a você,

programas da Fapeam, com aporte de recursos

desejo muita saúde e felicidade”. Se atingir o

superiores a R$ 10 milhões, dos quais 70% em

apogeu da felicidade é uma tarefa da própria

programas exclusivos da Fundação.

pessoa, oferecer saúde de qualidade é uma responsabilidade do Estado.

O PPSUS é, portanto, uma iniciativa democraticamente inovadora, pois se fundamenta

Aumentar o número de pesquisas em saúde,

na participação dos principais atores envolvidos

de modo que os resultados dos trabalhos te-

na prestação de serviços de saúde e permite cap-

nham implicação direta no Sistema Único de

tar as especificidades quanto às prioridades re-

Saúde (SUS), é assumir um compromisso pú-

gionais da pesquisa. Obedece, dessa forma, ao

blico de atender aos problemas e às demandas

princípio constitucional da eqüidade, assegurado

sociais de um País com um quadro de desen-

na Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Ino-

volvimento científico e tecnológico desigual. Essa

vação em Saúde (PNCTIS), que se baseia na

é a proposta do Programa Pesquisa em Saúde

soma de esforços para diminuir as desigualda-

– Gestão Compartilhada, o PPSUS. O resul-

des regionais nos investimentos em CT& I na área.

tado dessa nova política de investimento, en-

Desse modo, os leitores da Revista “Amazo-

cabeçada pelo Ministério da Saúde em parce-

nas faz Ciência”, terão a oportunidade de co-

ria com o Conselho Nacional de Desenvolvi-

nhecer, nesta edição especial, os projetos desen-

mento Científico e Tecnológico (CNPq), as Se-

volvidos no Amazonas que geram conhecimen-

cretarias Estaduais de Saúde e com as Funda-

tos especializados para atender às demandas de

ções de Amparo à Pesquisa Estaduais (FAPs), é

saúde pública da região amazônica. Boa leitura!

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6

G R AV I D E Z riscos de hipertensão poderão ser evitadas, garante pesquisador

8

LEISHMANIOSE Inpa estuda meio de acelerar diagnóstico

GOVERNO DO ESTADO DO AMAZONAS

Carlos Eduardo de Souza Braga GOVERNADOR SECRETARIA DE ESTADO

– José Aldemir de Oliveira DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

SECT

SECRETÁRIO FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DO AMAZONAS

FAPEAM

Odenildo Teixeira Sena DIRETOR - PRESIDENTE Elisabete Brocki

11

DIRETORA TÉCNICO - CIENTÍFICA

Ana Lúcia Mendes DIRETORA ADMINISTRATIVO - FINANCEIRA

REVISTA AMAZONAS FAZ CIÊNCIA

Departamento de Difusão do Conhecimento – Decon COORDENAÇÃO EDITORIAL

Ana Paula Freire – DRT 172/AM Grace Soares – DRT 236/AM TEXTOS

Valmir Lima PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO

Rômulo Nascimento Ricardo Oliveira REVISÃO

Lorena Nobre IMPRESSÃO

Gráfica Vitória FAPEAM Rua Recife, n.º 3280 Parque Dez. CEP 69057-002, Manaus AM. Tel.: (92) 3643-3344 / 3634-3389 e-mail: decon@fapeam.am.gov.br atendimento@fapeam.am.gov.br www.fapeam.am.gov.br Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da Fapeam. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos sem a prévia autorização.

RENAN ALBUQUERQUE

FOTO DA CAPA

E N T R E V I S TA Márcia Motta


13

21

C A PA saúde indígena na Amazônia é preocupante, dizem cientistas

CRIANÇAS E ADOLESCENTES identificação da tuberculose pode ser mais barata e fácil

24

OBESIDADE pesquisa atualiza dados do MS sobre problema

28

COARI comunidades sofrem com incidência de mansonelose

RICARDO OLIVEIRA


|| g r a v i d e z

Estudo promete diminuir risco de hipertensão AGÊNCIA BRASIL

Por meio de um diagnóstico precoce e preciso da doença, as pacientes terão diminuídas as chances de complicações associadas à doença

O

teste da dosagem da microalbuminúria pode ser importante para um diagnós-

tico mais precoce e preciso da Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG). A expectativa é que ele seja incluído no rol de exames disponíveis na rede pública de saúde, principalmente no acompanhamento da doença, evitando assim possíveis problemas renais nas pacientes. Essa é a principal conclusão a que se chegou a equipe coordenada pelo farmacêutico-bioquímico Emerson

6

Silva Lima, da Universidade Federal

|| Entre os principais problemas enfrentados por grávidas em final de gestação encontra-

do Amazonas (UFAM), durante o de-

se a Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG)

senvolvimento do projeto de pes-

Amparo à Pesquisa do Estado do

De acordo com Emerson, a micro-

quisa “Avaliação da doença DHEG no

Amazonas (Fapeam), pelo Ministério

albuminúria é o teste mais sensível

Amazonas: relação com parâmetros

da Saúde (MS) e Conselho Nacional

para detecção precoce das complica-

bioquímicos específicos e implanta-

de Desenvolvimento Científico e Tec-

ções associadas à DHEG, contudo, seu

ção de programas de diagnóstico e

nológico (CNPq), é parte do Pro-

diagnóstico requer coleta da urina de

controle mais adequados”. O traba-

grama de Pesquisa para o SUS: gestão

24h e uma metodologia normal-

lho, financiado pela Fundação de

compartilhada em saúde, o PPSUS.

mente mais cara do que a maioria

I N.° 8 , MARÇO DE 2008


Conhecendo para prevenir. O coração é uma bomba eficiente que bate de 60 a 80 vezes por minuto durante toda a nossa vida e impulsiona de 5 a 6 litros de sangue por minuto para todo o corpo. Pressão arterial é a força com a qual o coração bombeia o sangue através dos vasos. Ela pode ser modificada pela variação do volume de sangue ou viscosidade (espessura) do sangue, da freqüência cardíaca (batimentos cardíacos por minuto) e da elasticidade dos vasos.

sintomas com as taxas da relação cálcio/magnésio, sugerindo que este último elemento também possa ter uma função importante na causa da DHEG. Na pesquisa, avaliou-se a quantidade de elementos como ferro, cobre e zinco no sangue das mulheres

O que é? Hipertensão arterial é a pressão arterial acima de 140 x 90 mmHg (milímetros de mercúrio) em adultos com mais de 18 anos. Elevações ocasionais da pressão podem ocorrer com exercícios físicos, nervosismo, preocupações, drogas, alimentos, fumo, álcool e café.

participantes da amostra. “Em todas as grávidas entrevistadas foram realizadas coletas de sangue e análises desses minerais. Desses elemen-

das técnicas normalmente disponí-

jovens, grávidas pela primeira vez ou

tos, o mais deficiente foi o ferro, se-

veis nos laboratórios clínicos.

de baixa classe econômico-social.

guido do zinco, e praticamente não

Entre a população, a forma mais

houve deficiência em cobre”, expli-

Universo da Pesquisa. A equipe

grave da DHEG é conhecida como

de Emerson trabalhou com 707 mu-

eclâmpsia, e ocorre próximo ao mo-

Uma segunda frente de ação do

lheres grávidas atendidas nas unida-

mento do parto. A forma mais amena

trabalho buscava identificar possível

des de saúde do município de Ma-

da doença é conhecida como pré-

relação entre a deficiência encon-

naus. Nesse universo, foram confir-

eclâmpsia. A eclampsia é caracteri-

trada nas mulheres e a presença de

mados 35 casos de DHEG, o que re-

zada quando a mulher com pré-

doenças específicas da gravidez.

presenta 4,95% das mulheres pesqui-

eclampsia grave entra em convul-

“Não foi encontrada nenhuma rela-

sadas. “Devido a dificuldades, como

são ou em coma. A pessoa tem con-

ção neste sentido, contudo a análise

possíveis subdiagnósticos e falta de

vulsões porque a pressão sobe muito

pode ter sido prejudicada pelo pe-

pessoal para acompanhar todos os

e, em decorrência disso, diminui o

queno número de casos analisados”,

casos de DHEG durante o projeto

fluxo de sangue que vai para o cére-

disse o pesquisador.

em todas as unidades de atendi-

bro. Essa é a principal causa de morte

mento de Manaus, não foi possível

materna no Brasil atualmente.

estabelecer taxas precisas de inci-

cou Lima.

Também não foi encontrada relação entre o aparecimento da DHEG,

Emerson destaca que as causas

e os hábitos alimentares e o estilo de

da DHEG ainda são desconhecidas,

vida das pacientes. Mas esse resul-

O pesquisador afirma que o percen-

mas o seu desenvolvimento está as-

tado, a exemplo da análise de mine-

tual de mulheres acometidas de

sociado à pobreza, ausência de cui-

rais, pode ter sido prejudicado pelo

DHEG pode ser maior. Os 4,95% cons-

dado pré-natal e pobreza nutricional

universo reduzido de amostras.

tatados pelo estudo ficaram abaixo dos

das grávidas. Uma associação tem

Apesar das dificuldades, a equipe

índices nacionais, que giram em torno

sido proposta mais recentemente

coordenada pelo farmacêutico-bio-

de 5% a 7%, podendo chegar a 10%

entre a deficiência de alguns mine-

químico tem, pelo menos, quatro

em algumas regiões do País.

rais, como o cálcio, e a DHEG.

produtos desenvolvidos a partir da

A incidência de DHEG parece ser

pesquisa: uma aluna de mestrado

Doença. A DHEG é uma síndrome

maior em populações com baixa in-

que deve defender dissertação ainda

caracterizada pela hipertensão, protei-

gestão de cálcio, e a suplementação

este ano; um artigo publicado em

núria (presença de proteína na urina),

com cálcio para mulheres grávidas

revista nacional; um trabalho apre-

hipoalbuminemia e edema. Essa con-

tem sido associada à pressão san-

sentado em um congresso inter-

dição, normalmente, desenvolve-se

guínea reduzida.

nacional e mais dois artigos já foram

dência”, disse Lima.

no terceiro trimestre da gravidez, afe-

Outros estudos também têm de-

tando, particularmente, mulheres

monstrado uma forte correlação dos

enviados para publicação em revistas nacionais e internacionais. || AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I

7


|| p e s q u i s a GRACE SOARES

DIAGNÓSTICO DA LEISHMANIOSE Co-infecção com o HIV em diversos pacientes no AM é preocupante; pesquisadores estudam meio de acelerar o diagnóstico da doença ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||

U 8

ma equipe de pesquisadores

e vacinas de combate.

divíduos co-infectados (leishmania

do Instituto Nacional de Pes-

O trabalho, financiado pela Fa-

e HIV). A técnica consiste em iden-

quisas da Amazônia (Inpa)

peam/MS/CNPq, coordenado pela

tificar as proteínas expressas dife-

conseguiu otimizar uma técnica que

bióloga Maricleide de Farias Naiff, foi

rencialmente nos quadros de HIV e

vai possibilitar a redução do tempo

desenvolvido a partir de análise de

Leishmaniose Tegumentar (LTA).

de diagnóstico da leishmaniose e

amostras de soro humano de quatro

A subcoordenadora do projeto, a

identificar se o indivíduo tem co-in-

grupos de indivíduos: um de indiví-

infectologista Antônia Maria Ramos

fecção com o HIV. No futuro, o es-

duos normais, um de indivíduos

Franco, explicou que o objetivo prin-

tudo poderá ser utilizado como alvo

com leishmaniose, um de indiví-

cipal foi o de otimizar a técnica, ou

para o desenvolvimento de drogas

duos com HIV/Aids e outro com in-

seja, padronizar os métodos de modo

I N.° 8 , MARÇO DE 2008


exame de biópsia, que pode levar

LEISHMANIOSE:

até dois meses, dependendo do es-

A leishmaniose é classificada por especialistas como uma doença endê-

tágio da doença. “O que é melhor:

mica. Em Manaus, mais de 80% dos casos tem como agente etiológico

fazer uma biópsia ou coletar o san-

(causador da doença) a Leishmania guyanensis. Quem mais sofre com esse

gue e fazer o exame com o sangue?”,

tipo de enfermidade são os moradores dos bairros localizados na peri-

questiona Antônia. “Nesse caso, isso

feria, próximos da mata. Sua incidência está relacionada, principalmente,

favoreceria a precocidade de diagnós-

com a ocorrência de desmatamentos.

tico, porque através de um exame de

Os principais vetores são popularmente conhecidos como mosquito-pa-

sangue, pode-se ter um método diag-

lha, biriguis e tatuquiras e consistem de várias espécies do gênero Lut-

nóstico capaz de dar suporte como

zomyia, que são pequenos mosquitos, com 1 a 3 mm de comprimento.

resultado no teste para identificar se

Somente as fêmeas se alimentam de sangue (os machos se alimentam

o indivíduo tem leishmaniose ou

de néctar das plantas).

mesmo se ele tem uma co-infecção com o HIV”, ratifica.

que se possa, a partir daí, selecionar

de causar qualquer patologia nes-

Segundo Maricleide, há casos em

proteínas candidatas alvo para estu-

ses animais. A cada três meses, tam-

que o diagnóstico é demorado por-

dos terapêuticos e de diagnóstico.

bém foram coletados parasitas para

que o material coletado do paciente

“Nesse estudo, resolvemos otimizar

análise proteômica posterior.

para biópsia precisa ser aplicado em

um desses métodos, que é o de estu-

Após a padronização dos proto-

animais para a comprovação da

dar proteínas, direcionando para al-

colos de obtenção dos mapas proteô-

doença. “Com o exame de sangue,

vos como diagnóstico em soro hu-

micos, a equipe iniciou a avaliação

um diagnóstico pode ser adquirido

mano de indivíduos normais, de in-

dos mesmos. Essa etapa consumiu

em, no máximo, uma semana”. Mui-

divíduos com leishmaniose, de indi-

seis meses. Nesse período, foram

tas vezes o tratamento é complicado,

víduos com HIV e de indivíduos com

realizados novos testes de identifi-

porque o diagnóstico é divulgado

as duas infecções”, disse.

cação de proteínas e a análise dos da-

tardiamente, seja para uma doença,

Para chegar a esse resultado, a

dos obtidos, inclusive a identificação

seja para outra, explica a coordena-

equipe trabalhou durante dois anos

e descrição das proteínas expressas

dora. “Então, a associação de um

intensamente. Os primeiros seis me-

diferencialmente nos estudos.

método que pudesse separar e dizer

ses do projeto foram destinados à

O primeiro semestre do segundo

o que o indivíduo tem seria muito

padronização da técnica de eletrofo-

ano do projeto foi destinado à aná-

bom, principalmente porque alguns

rese bidimensional (identificação de

lise dos mapas obtidos e os últimos

pacientes são portadores do HIV e

proteínas) no Laboratório de Leis-

seis meses, para a organização dos da-

não apresentam sintomas, isso di-

hmaniose e Doença de Chagas do

dos e preparação dos mesmos para

ficulta o tratamento da leishmaniose,

Inpa, para, posteriormente, ser oti-

publicação.

por exemplo”, conclui.

mizada a metodologia para os estu-

Antônia alerta que essa etapa da

dos com soros humanos e substân-

pesquisa ainda não é conclusiva e os

cias parasitárias.

resultados práticos para o Sistema

Expansão da leishmaniose na região. A expansão da leishma-

Em um segundo momento, as

Único de Saúde (SUS) ainda vão de-

niose está relacionada a uma série de

culturas dos parasitas foram subme-

morar. “Ela (a pesquisa) reflete para

modificações ambientais, como o

tidas a sucessivas passagens in vitro

o SUS um retorno que não é ime-

desmatamento, construção de as-

visando à perda da infectividade.

diato, mas vai possibilitar o uso des-

sentamentos, urbanização e migra-

Esse parâmetro foi avaliado periodi-

sas proteínas em métodos de diag-

ção de pessoas não-imunizadas para

camente (a cada três meses) por meio

nóstico rápido”, diz a pesquisadora.

as áreas endêmicas. Esses processos

de testes em ratos, até que se obtives-

Atualmente, o diagnóstico da leis-

têm ocorrido de forma significativa

sem formas dos parasitas incapazes

hmaniose só é possível por meio do

na bacia amazônica, aumentando AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I

9


a incidência e criando um ciclo ur-

de leishmaniose e acredita-se que

sões ulceradas, caracterizadas por

bano da doença na região.

no estado existam mais de 20 mil pes-

uma depressão central circundada

Segundo a Fundação de Medici-

soas infectadas. Destes casos, a gran-

por uma borda proeminente, no en-

na Tropical (FMT-AM), cerca de 60%

de maioria (mais de 99%) é de casos

tanto, em alguns pacientes, as le-

dos casos de leishmaniose no Brasil

de leishmaniose tegumentar.

sões podem persistir apenas como

ocorrem na região da Amazônia Bra-

Entre as importantes espécies cau-

nódulos ou placas. Posteriormente,

sileira. Entre os Estados dessa re-

sadoras desse tipo de leishmaniose

pode haver o surgimento de lesões

gião, o Amazonas é o quinto mais

na região amazônica estão Leishma-

disseminadas pelo corpo do paciente,

atingido por casos da doença, es-

nia (Leishmania) amazonensis e Leis-

denominadas lesões satélites.

tando atrás do Pará, Maranhão,

hmania (Viannia) guyanensis. As leis-

O curso da doença em um pa-

Mato Grosso e Rondônia.

hmanioses tegumentares evoluem,

ciente vai depender de vários fato-

Por ano, no Amazonas, surgem

tipicamente, da formação de pápu-

res relacionados a características do

aproximadamente 2 mil novos casos

las a nódulos até o surgimento de le-

parasita e às condições imunológicas do hospedeiro. Em relação ao

COMO TUDO COMEÇOU

tratamento, infelizmente, nenhum

A dificuldade no tratamento da leishmaniose foi o que motivou o desen-

“Existe uma urgência na melhor

volvimento de pesquisas abordando a relação entre essa doença e o HIV. No

compreensão dos mecanismos da

final da década de 1990, um paciente da FMT-AM foi encaminhado ao La-

co-infecção e do funcionamento do

boratório de Leishmaniose e Doenças de Chagas do Inpa, porque o trata-

sistema imune do paciente que pos-

mento oferecido naquela unidade de saúde não estava apresentando resul-

sam ser traduzidas em métodos de

tados satisfatórios. A partir de exames mais detalhados de amostras de san-

tratamento confiáveis e aplicáveis

gue, os pesquisadores constataram que o paciente, além da leishmaniose,

em grandes populações”, afirmam os

era portador do vírus HIV. Essa segunda doença impedia o avanço no tra-

pesquisadores

tamento da primeira. Foi o primeiro caso comprovado no Amazonas de paciente com co-infecção leishmaniose/HIV.

protocolo ideal foi ainda descrito.

O processo de desenvolvimento de novas drogas e vacinas é lento e en-

Tratava-se do primeiro relato de co-infecção na Amazônia brasileira

volve uma série de etapas, sendo que

feito por uma equipe coordenada pelo infectologista Ilner de Souza e Souza.

a primeira delas é a identificação de

O paciente, heterossexual, do sexo masculino, morador do município de Ben-

proteínas que possam servir como

jamin Constant, estava infectado com Leishmania (Viannia) guyanensis

alvos desses agentes. Até recente-

associado com HIV. Ele apresentava lesões na pele e mucosas, com teste ne-

mente, a identificação desses alvos foi

gativo de HIV. Como tinha imunodeficiência, os medicamentos administra-

feita de forma empírica, através da

dos para a leishmaniose não produziam o efeito esperado e o quadro da

identificação de proteínas por mé-

doença permanecia estável.

todos convencionais de purificação.

De acordo com as pesquisadoras do projeto, no Amazonas, atualmente,

No entanto, as modernas tecno-

tem-se observado co-infecção por HIV e leishmaniose tegumentar em diver-

logias genômica e proteômica, repre-

sos pacientes atendidos na FMT-AM. Esse fato vem preocupando as autori-

sentaram um avanço nessa impor-

dades de saúde da região.

tante etapa do processo. Em rela-

O Laboratório de Leishmaniose e Doença de Chagas do Inpa já desen-

ção à tecnologia proteômica, a pos-

volve estudos em colaboração com o infectologista Ilner e com órgãos como

sibilidade de identificação de várias

a FMT-AM especializados em pesquisas de co-infecção por HIV e Leishma-

proteínas através de géis bidimensio-

nia. Diversos soros de pacientes já se encontram na soroteca do Inpa, o que

nais traz um avanço no processo de

dispensou a busca ativa em campo. Para desenvolver sua pesquisa, a equipe

descoberta de novos métodos de

de Maricleide solicitou o uso desses soros humanos ao comitê de ética em

prevenção e tratamento, segundo

pesquisas humanas.

Antônia Franco. ||

10 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


|| e n t r e v i s t a

“Com o PPSUS, a evidência científica terá impacto nos processos de tomada de

COMUNICAÇÃO DECIT/MS

decisão em saúde” MÁRCIA MOTTA coordenadora geral de Fomento à Pesquisa em Saúde do Departamento de Ciência e Tecnologia em Saúde do Ministério da Saúde (Decit/MS)

m 2004/05 a soma de investimentos no PPSUS, en-

ponto, os seminários de avaliação foram fundamentais

tre verbas do governo e contrapartida dos Estados,

para o nosso aprendizado.

foi de R$ 22 milhões. No biênio 2006/07, o valor foi quase o dobro: R$ 41 milhões. Como esse cresci-

Paralelamente à expansão no número de investi-

mento no contingente de investimento tem reper-

mento cresceu também o quadro de instituições fa-

cutido na comunidade científica nacional?

vorecidas. No Amazonas, quais poderiam ser apon-

–– Márcia Motta: A pesquisa científica em saúde pos-

tadas como beneficiárias?

sibilitou o aumento dos recursos, anualmente, em mais

–– Márcia Motta: A capacidade de pesquisa não só na

de R$ 100 milhões. Todo investimento feito pelo PPSUS

área da saúde, mas em todas as outras áreas, está fun-

requer uma contrapartida das instituições parceiras, ou

damentalmente instalada nas instituições públicas, e

seja, agências de fomento, instituições de ensino e

eu me refiro às Universidades. É muito difícil as parti-

pesquisa, fundações. Do ponto de vista setorial é muito

culares investirem em pós-graduação, em pesquisa,

dinheiro. Além do PPSUS, também há os editais nacio-

existem poucas universidades particulares que fazem

nais que têm contribuído para o aumento das pesqui-

isso. No Amazonas, especificamente, pelas suas carac-

sas científicas em saúde. Hoje, os pesquisadores têm mais

terísticas, pelo seu perfil epidemiológico identificado

opções, o que não acontecia antes. Havia apenas o

com uma prevalência e uma incidência grande de

edital nacional, no qual concorriam pesquisadores de

doenças transmissíveis, eu posso citar a Fundação de

todo o país e, infelizmente, os investimentos ficavam

Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), como ins-

centrados em instituições com mais tradição em pes-

tituição bastante atuante na região, assim como temos

quisa em saúde, localizadas no eixo RIO-SP. E, conse-

a Carlos Chagas, no Pará. Fundamentalmente nesses dois

qüentemente, com as experiências nos editais, eram sem-

Estados, eu tenho fundações, instituições vinculadas ao

pre as mesmas a ganharem os editais. Com o PPSUS, os

Ministério, às secretarias estaduais de saúde que rea-

estados com menor tradição em pesquisa em saúde pas-

lizam pesquisa, além das Universidades Federais.

sam a ter uma chance maior, promovendo a melhoria da qualidade da pesquisa e descentralizando os inves-

O Censo realizado pelo Conselho Nacional de Desen-

timentos. Concorrendo instituições de todo o País,

volvimento Científico e Tecnológico em 2004 apre-

sempre a mesma ganhava, pois a experiência e o ciclo

senta a Região Norte como pouco representativa, no

são perversos, e o PPSUS inverte essa lógica. E nesse

cenário nacional, no que diz respeito ao número de AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 11


grupos, linhas de pesquisa, pesquisadores e estudan-

a sustentabilidade do programa. O que eu quero dizer

tes na área das ciências da saúde. Os desdobramen-

com isso: nós temos no Brasil, infelizmente, uma cul-

tos do PPSUS vêm alterar esse cenário?

tura de que a cada nova gestão programas que vi-

–– Márcia Motta: De fato, a região Norte é pouco re-

nham sendo desenvolvidos no governo anterior são

presentativa mesmo e o que salva o Centro Oeste é Bra-

abortados. Se amanhã um ministro resolver acabar

sília. Nós temos poucos grupos, isso implica um maior

com o PPSUS, por exemplo, quanto mais instituições es-

investimento em capacitação, não tenho dúvidas, é

tiverem envolvidas nesta ação maior será seu ônus po-

preciso investir também na formação de mestres e

lítico. Portanto, as parcerias institucionais são essenciais,

doutores, mas essa não é uma responsabilidade do De-

porque, de fato, os programas ainda dependem da

cit/MS. Eu não tenho rubrica para formar pessoal, o

decisão de gestores de plantão.

Fundo Nacional de Saúde permite que fomentemos, por meio de investimento, a realização de pesquisa, forma-

Na escala de temas importantes que rendem pesqui-

ção de recursos humanos quem faz é a Coordenação

sas financiadas pelo programa, quais se enquadram

de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Ca-

entre os principais? No que se refere ao volume de

pes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecno-

recursos, a liderança ficou com quais temáticas?

lógico (CNPq), ou Instituições locais como o Instituto Na-

–– Márcia Motta: Estudos realizados no próprio Decit

cional de Pesquisas na Amazônia, o Inpa. Como, então,

mostram quais os temas são mais pesquisados dentro

se consolida a parceria do Decit com a Fapeam e as ou-

do PPSUS, cujos resultados, de certa forma, podem re-

tras FAPs do Brasil? Nós temos um acordo que prevê o

velar um perfil nacional. Em primeiro lugar estão as

investimento financeiro somente quando a FAP local

doenças transmissíveis. O segundo maior tema são as

também entrar com algum recurso, isso garante que

doenças crônicas não-transmissíveis, em terceiro en-

a ação não assuma um viés paternalista. O nosso ob-

contram-se a avaliação de política e programas e o

jetivo, afinal, é dividir responsabilidades. Esperamos que

quatro é a saúde da mulher. Pesquisas sobre doenças

o Estado se responsabilize e se aproprie das suas de-

transmissíveis lideram por dois motivos: vivemos, hoje,

mandas e, com isso, buscamos criar, em conjunto, uma

um processo de transição demográfica/epidemioló-

cultura de utilização da evidência científica nos proces-

gica. Significa que o Brasil convive com uma carga de

sos de tomada de decisão. Então, no que se refere à for-

doenças importantes, a maioria relacionada à pobreza,

mação de capital intelectual, a nossa atuação se des-

que são as transmissíveis, mas convive também com as

dobra da seguinte forma: cada pesquisa nossa gera

não-transmissíveis, que já representam a principal causa

um número enorme de dissertações de mestrado e te-

de mortalidade. Entre as principais estão as cardiopa-

ses de doutorado. O Ministério não investe em forma-

tias, os agravos decorrentes da diabetes, hipertensão,

ção de recursos humanos, mas o efeito da pesquisa

cânceres, entre outras.Vivemos o que no jargão da

que financiamos é esse.

saúde coletiva denomina de transição epidemiológica. Período de transição de doenças do terceiro mundo para

Uma análise do número de pesquisas financiadas

doenças do primeiro mundo

pelo PPSUS entre os anos de 2004 e 2006 aponta o Amazonas como o Estado que mais recebeu recur-

Para o biênio 2008/09, o Ministério espera superar a

sos (R$ 3 milhões) para desenvolvimento de pesqui-

cota de recursos disponibilizados na edição anterior?

sas (31 projetos, abaixo somente de Mato Grosso e

Como o Amazonas deve se preparar para recebê-lo?

do Pará). Qual a importância da efetividade das par-

–– Márcia Motta: Os recursos são liberados depois de

cerias estabelecidas entre o programa e as Secreta-

votados no Congresso Nacional, o que ainda não acon-

rias de Saúde e C & T e a FAPEAM para o sucesso das

teceu. Não posso prever os cortes que o legislativo vai

ações no Estado?

fazer naquilo que está previsto para a saúde, o que eu

–– Márcia Motta: Quanto mais parceiros multi-institu-

posso garantir é que o investido ano passado é o pa-

cionais possuirmos maiores as chances de garantirmos

tamar mínimo.

12 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


|| c a p a

saúde indígena: UM DESAFIO PARA A CIÊNCIA Doenças como tuberculose e hanseníase afetam populações indígenas do Amazonas

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 13


|| c a p a A preocupação com o atendimento às populações indígenas residentes em Manaus nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e a falta de um atendimento diferenciado para esses grupos étnicos que migraram para os centros urbanos mobilizaram um grupo de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-AM) para estudar o problema. O objetivo do trabalho, de acordo com a coordenadora do grupo, Evelyne Marie Therese Mainbourg, doutora em Ciências Sociais, é fornecer subsídios para a elaboração de uma metodologia de atenção básica em saúde que leve em consideração a população indígena residente na cidade de Manaus. LEANDRO GIATTI

das. “A análise dos dados ainda está em andamento”, informou Evelyne. A partir desses subsídios adquiridos na pesquisa, a equipe de Evelyne vai propor “uma discussão com os órgãos de interesse”, principalmente os gestores municipais de saúde e organizações indígenas, sobre estratégias de inclusão dos grupos indígenas residentes em Manaus no serviço de atendimento à saúde através de uma proposta de metodologia que será encaminhada ao SUS para análise de viabilidade. No projeto, também houve a par|| Populações indígenas esperam atendimento à saúde diferenciado

P

ticipação de organizações indígenas.

ara alcançar esse objetivo, a

diferenciado da população indígena.

Após várias reuniões em diversos bair-

equipe aplicou questionários

“Tal metodologia poderá propor mo-

ros com associações indígenas da ci-

entre a população indígena a

dificações ou inovações na organiza-

dade, foi realizado um curso de capa-

fim de identificar os aspectos sócioe-

ção dos serviços de saúde, na percep-

citação de entrevistadores indígenas

conômico e ambiental que possam

ção dos profissionais de saúde e na ins-

com duas vagas para cada associação

influenciar no acesso aos serviços de

trumentalização da clientela indí-

envolvida. No final do curso, 17 en-

saúde. No mesmo questionário, bus-

gena”, previa o projeto de pesquisa.

trevistadores foram selecionados para

cou-se verificar as condições de saúde

A coordenadora do projeto ex-

aplicar questionários nos bairros. “A

dessa população a partir da sua pró-

plicou que foram aplicados 1,5 mil

aplicação dos questionários foi bas-

pria visão, quanto à oferta de serviços.

questionários em uma população

tante demorada em função da dificul-

A última etapa do trabalho bus-

indígena estimada em 10 mil pessoas

dade dos entrevistadores de encontrar

cou identificar as condições de aten-

na cidade de Manaus, e em um nú-

famílias indígenas, entre outras difi-

dimento de saúde nas áreas de resi-

mero de famílias não-indígenas se-

culdades”, explicou Evelyne.

dência da população indígena, en-

melhante ao da amostra indígena.

Após a aplicação dos questioná-

fatizando as questões de acesso, efe-

Nesse segundo grupo, buscou-se

rios, foi feita uma reunião com as as-

tividade e aceitação.

identificar práticas em relação à

sociações indígenas para apresentar

O estudo deverá subsidiar a elabo-

busca de tratamento e atendimento

o balanço dessa experiência. “O pró-

ração de uma metodologia de adequa-

à saúde para a população não-indí-

ximo passo é a apresentação dos pri-

ção dos serviços de saúde existentes

gena residente nas proximidades

meiros resultados da pesquisa cuja

em Manaus para um atendimento

das famílias indígenas entrevista-

análise pode se estender, pois são

14 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


RENAN ALBUQUERQUE

muitas variáveis a serem tratadas”, promete a pesquisadora.

Recursos. A pesquisa contou com financiamento de R$ 97,8 mil da Fapeam/MS/CNPq, com recursos do Programa de Pesquisa para o SUS Gestão Compartilhada em Saúde (o PPSUS). “Com certeza, foi fundamental o financiamento da pesquisa, pois a mesma é de certa extensão. O fato da Fapeam, do Ministério da Saúde e do CNPq terem financiado a pesquisa mostra a preocupação do governo estadual e federal em oferecer possibilidades de contribuição à redução das desigualdades sociais na área da saúde”, afirmou Evelyne. || Amazonas é o segundo em incidência da tuberculose, perdendo apenas para o RJ

Proteção da Lei. A partir de 1999, por força da Lei Federal nº 9.836/99, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) criou os Distritos Sanitários

DOENÇAS NEGLIGENCIADAS SÃO ALVO DE PESQUISAS

Indígenas (DSEIs) para atendimento diferenciado da população indígena que vive em suas comunidades de origem, mas a população indígena re-

Instituições desenvolvem projetos para identificar novos métodos de combate à tuberculose e à hanseníase

sidente nas áreas urbanas não foi a legislação determina a instalação

O

beu, nos últimos anos, a con-

vem se mantendo desde 2004, se-

dessas unidades de saúde apenas en-

tribuição de três grupos de pesqui-

gundo dados do Ministério da Saúde.

tre os indígenas aldeados. Os indíge-

sadores amazonenses, que desen-

No Brasil, são registrados, em média,

nas urbanos foram alijados dessa es-

volveram projetos sobre a doença, no

85 mil casos da doença por ano. O

tratégia adotada através dos DSEIs e

Programa de Pesquisa para o SUS:

Rio de Janeiro concentra 20% das in-

até o momento não foi implemen-

gestão compartilhada em saúde – o

cidências do País.

tada nenhuma proposta de atendi-

PPSUS, patrocinado pelo Ministé-

Além de Manaus, que reune 70%

mento diferenciado para os indíge-

rio da Saúde (MS), Conselho Nacio-

dos casos, mais cinco municípios

nas urbanos, que continuam sendo

nal de Desenvolvimento Científico

apresentam altos índices da doença:

atendido pelo SUS, nos mesmos mol-

e Tecnológico (CNPq) e pela Funda-

Itacoatiara, Parintins, Tefé, Tabatin-

des adotados anteriormente, sem

ção de Amparo à Pesquisa do Es-

ga e São Gabriel da Cachoeira.

nenhuma atenção especial. Esse fato

tado do Amazonas (Fapeam).

contemplada por esse sistema, já que

combate à tuberculose rece-

2.165 casos no Estado, número que

foi determinante para a proposta de

O Amazonas é o segundo do Bra-

Programas avaliados. Uma das

pesquisa do grupo de Evelyne, que

sil em incidência da tuberculose,

pesquisas desenvolvidas no PPSUS

já vinha realizando outros estudos so-

perdendo apenas para o Rio de Ja-

foi coordenada pelo pesquisador An-

bre saúde indígena em Manaus.

neiro. Em 2006, foram registrados

tônio Levino, da Fundação Oswaldo AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 15


|| c a p a COMUNICAÇÃO FIOCRUZ-AM

Cruz. Intitulado “Tuberculose e Hanseníase em Áreas Indígenas: pesquisa avaliativa de ações programáticas”, o trabalho conjugou componentes epidemiológico, antropológico e de pesquisa avaliativa, na busca de compreender a lógica dos programas de controle de tuberculose e hanseníase, dos sistemas municipais de saúde e dos distritos sanitários especiais indígenas, nos municípios de Autazes, Eirunepé e São Gabriel da Cachoeira. Levino partiu da análise antropológica para compreender a relação dos indígenas acometidos pela tuber-

|| O pesquisador da Fiocruz-AM, Antônio Levino, faz parte de um grupo de pesquisa dedicado a gerar conhecimento na área de saúde indígena

culose e a hanseníase com os serviços de saúde que oferecem o trata-

distintos, e sim como uma conver-

buída, pelos Mura, ao consumo de

mento para essas doenças. O estudo

são, de gravidade crescente, até que

alimentos considerados “reimosos”

antropológico foi desenvolvido nos

se atinja o patamar de uma doença

(expressão regional para determina-

municípios de Autazes e São Gabriel

grave (a tuberculose).

dos tipos de carne), como por exem-

da Cachoeira, junto aos grupos in-

“Nesse contexto, a tosse é o sin-

plo, carne de porco, carne de anta e

dígenas Mura, Baniwa, Tukano e

toma mais significativo nessa ca-

peixes lisos. Tais alimentos são apon-

Dessana.

deia; sua persistência pode demarcar

tados como fatores que desenca-

“Do ponto de vista dos sujeitos in-

o início do processo de adoecimento.

deiam doenças, particularmente as

dígenas, a pesquisa encontrou dife-

A tuberculose, por sua vez, é um

de pele. Outra explicação associada

renças significativas entre os mem-

diagnóstico médico; não surge es-

à causa da hanseníase é o corpo aberto

bros das duas culturas (Autazes e

pontaneamente no sistema indí-

entendido como um estado limi-

São Gabriel da Cachoeira), seja no

gena de cura e cuidados. O diagnós-

nar; uma condição de fragilidade

que diz respeito às interpretações

tico ocorre apenas quando o serviço

corporal que propicia a produção

culturalmente produzidas sobre as

de saúde atribui tal condição a um

de doenças, infortúnios e agressões

doenças, seja no que diz respeito às

doente que recorre ao hospital”, ex-

mágicas, como os feitiços.

formas de organização dos serviços

plicou o pesquisador.

“Nesse âmbito, o corpo é o prin-

de controle da hanseníase e da tu-

Essa interpretação dos Mura tem

cipal mediador do processo saúde

berculose nos Distritos Sanitários

implicações na busca (ou não) de

e doença. Estando aberto ele propi-

Especiais Indígenas”, disse Levino.

tratamento, uma vez que a tubercu-

cia a eficácia dos feitiços e gera

Para os indígenas da etnia Mura,

lose, reconhecida como doença

pouca capacidade de reação ao

a tuberculose está ligada a uma ca-

grave, não costuma ser aventada

evento patológico”, explica Levino.

deia de eventos, cujos significados

nos diagnósticos tradicionais atri-

O estado oposto, o corpo fechado,

são bastante distintos daqueles uti-

buídos aos doentes. Tal fato pode

oferece uma barreira física e simbó-

lizados pela biomedicina. Eles atri-

implicar em retardo na busca de tra-

lica à ação agressiva dos poderes

buem a doença a uma seqüência

tamento específico.

xamânicos e, em conseqüência, à

cronológica evolutiva (Gripe-Pneu-

produção da doença.

monia-Tuberculose). Os Mura não

“Corpo aberto”. Já a hanseníase,

Na região do Alto Rio Negro, a in-

vêem as doenças como três quadros

por exemplo, tem sua causa atri-

terpretação de doença se caracte-

16 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


riza, para a tuberculose, como um

paz de sangrar. A pesquisa não en-

flexo direto na adesão, ou recusa, ao

produto direto da agressão xamâ-

controu, entre as etnias do rio Ne-

tratamento biomédico pelo sistema

nica praticada por seres humanos e

gro, qualquer simbolização estrutu-

de saúde; em alguns casos consta-

pelos grandes animais predadores

rada sobre a hanseníase.

tou-se retardo na busca de tratamento, mas não necessariamente a

(anacondas, jaguares etc.). Diferente dos Mura, as etnias rionegrinas atri-

Constatação. Diante desse qua-

recusa dos cuidados da medicina

buem aos animais uma condição de

dro de interpretações antropológicas,

científica pelos índios. “O aban-

existência similar a dos humanos.

a equipe de Levino constatou que,

dono de tratamento parece estar

Organizados em sociedades não-hu-

embora essas atribuições de causa-

mais ligado à irregularidade na

manas, eles seriam colocados em

lidade difiram da interpretação bio-

oferta de cuidados pelos serviços de

competição direta com os huma-

médica, estão com ela imbricadas, na

saúde e às dificuldades de acesso

nos, na disputa por recursos alimen-

medida em que a história de contato

dos pacientes indígenas, do que às

tares na floresta.

dos povos indígenas com a socie-

explicações causais geradas pelas

Uma das conseqüências dessa

dade nacional brasileira propiciou a

produções culturais indígenas”,

competição seria a capacidade dos

circulação de informações biomé-

disse Levino.

animais de ‘flechar’ os humanos

dicas e a re-significação dessas infor-

com componentes mágicas, invisí-

mações pelos indígenas.

A pesquisa também evidenciou uma tendência de articulação entre

veis, capazes de gerar ferimentos

Os pesquisadores concluíram, no

os tratamentos tradicionais (uso de

nos órgãos do corpo. “A ‘caverna

entanto, que as divergências de in-

chás, massagens, consultas ao pajé

tuberculosa’ pulmonar, um produto

terpretação sobre as causas da tuber-

e rezador, etc.) e aqueles ofertados

típico da interpretação biomédica, foi

culose e da hanseníase não têm re-

nos serviços de saúde.

ressignificada pelos indígenas que atribuem sua geração à ação dos xamãs animais”, avalia Levino.

Sistema de saúde falho Os pesquisadores consideram “pouco

riamente ofertados por profissionais

Por outro lado, as interpretações

prudente” falar em não-adesão ou

de nível médio, com capacitação in-

sobre certos alimentos na sociedade

em abandono do tratamento, por

suficiente para o desenvolvimento

Mura também estão presentes nas so-

parte da população indígena, num

das tarefas requeridas pelo programa.

ciedades do alto rio Negro, na ava-

contexto de ineficiência e ineficácia

Também ficou evidente a frag-

liação da tuberculose. A diferença é

das ações instituídas no subsistema

mentação das ações, precariedade

que as prescrições não estão ligadas

de saúde indígena.

no estabelecimento de vínculo e aco-

à idéia de reima e sim à “capacidade

Já os sistemas municipais de

lhimento aos pacientes, superposi-

de agressão xamânica”. Os alimen-

saúde, de acordo com as conclusões

ção de perfis e atividades profissionais,

tos são vistos como elementos que

da equipe, desconhecem a realidade

desconhecimento das necessidades e

podem facilitar a instalação de

nas áreas indígenas e demonstram

características próprias dos usuários

doença, desde que os animais (pei-

acentuada ineficiência de gestão e

indígenas, perda de informação e

xe ou caça) ingeridos tenham estig-

operacionalização das ações dos pro-

grande desarticulação entre os siste-

mas físicos de predadores.

gramas de controle da hanseníase

mas municipais de saúde e os distri-

Dessa forma, a ingestão da carne

e da tuberculose, não apenas para os

tos sanitários. “Esse conjunto de pro-

de animais dotados de garras, presas,

indígenas, mas também para a po-

blemas resultou em baixa capacidade

esporões e outros atributos dos pre-

pulação em geral.

de captação de casos e numa ‘invi-

dadores é vedada aos portadores de

A pesquisa revelou falha de noti-

sibilidade’ dos pacientes indígenas

ferimentos de quaisquer tipos, entre

ficação, erros técnicos nas condutas

nos sistemas de notificação e de con-

os quais a tuberculose, que é repre-

adotadas, omissão médica na pres-

trole das doenças”, escreveu Levino,

sentada essencialmente como uma

tação de cuidados que são majorita-

no relatório final da pesquisa.

“ferida” profunda no pulmão, caAMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 17


|| c a p a

ASSISTÊNCIA À SAÚDE É OBJETO DE AVALIAÇÃO DE GRUPO DE PESQUISA DA FIOCRUZ-AM CCS/FIOCRUZ

Cuidados são fundamentais para evitar o retardo no diagnóstico que pode acarretar na interrupção do tratamento

O

controle biomédico da tuberculose e hanseniase deve ser

feito, em ambas as regiões, de acordo com as normas técnicas instituídas pelos programas de controle do MS. Nesse nível, a equipe de Antônio Levino encontrou problemas distintos, segundo os níveis de assistência ofertados aos indígenas, nos dis-

|| Descontinuidade da oferta de serviços de saúde nos distritos sanitários gera impacto nas medidas de tratamento

tritos sanitários e nos sistemas mu-

e de organizar suas linhas de cui-

tico e a interrupção do tratamento,

nicipais de saúde.

dado de acordo com os princípios da

inviabilizando, por exemplo, a ado-

A organização do subsistema de

promoção à saúde, da descentraliza-

ção de doses supervisionadas dos

saúde indígena tinha como um de

ção, da continuidade e regularidade

medicamentos”, concluiu Levino.

seus principais objetivos estender a

das ações sanitárias.

cobertura das ações de saúde até as

Nos municípios estudados, a pes-

aldeias indígenas, anteriormente ex-

quisa constatou que a descentraliza-

Precária capacitação profissional. O baixo grau de descentrali-

cluídas das ações ofertadas pelos sis-

ção e regularidade da assistência não

zação das ações de controle dessas en-

temas municipais. Nesse âmbito, os

se instituíram, de modo a efetuar o

demias foi atribuído à falta de capa-

indígenas encontravam restrições

controle regular das endemias de

citação das equipes de saúde que

de acesso aos serviços, porque os

interesse do estudo. O acesso dos

atuam nos Distritos Sanitários Indí-

sistemas municipais organizavam

pacientes indígenas permanece pau-

genas; a uma não-sensibilização dos

suas atividades a partir da demanda

tado pela demanda espontânea, não

profissionais para instituir o diag-

espontânea, inviabilizando o aten-

havendo busca ativa de casos. Os

nóstico e tratamento nas próprias al-

dimento dos pacientes indígenas

procedimentos diagnósticos, para

deias; à rotatividade elevada da mão-

que, via de regra, residem em re-

as duas endemias, permanecem cen-

de-obra nos Distritos, levando à des-

giões isoladas e distantes das sedes

tralizados nas sedes municipais, o

continuidade e à baixa qualidade

municipais.

que exige a mobilização do paciente,

nos cuidados de saúde e à perda de

da aldeia para a área urbana.

informação, de documentação e des-

Os distritos sanitários foram concebidos como sistemas locais de

“A descontinuidade da oferta de

coordenação administrativa para ofe-

saúde, capazes de desenvolver ações

cuidados de saúde nos distritos sa-

recer suporte operacional ao trabalho

interiorizadas nas próprias aldeias,

nitários gera o retardo no diagnós-

das equipes.

18 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


APLICABILIDADE DO ESTUDO

do total. Já em São Gabriel da Cachoeira o estudo revelou que

Municípios serão beneficiados com informações sobre combate às doenças

72,2% de todos os casos de tubercu-

A

lose registrados ocorreram entre os indígenas, um fato que pode ser

grande contribuição do trabalho

cidência da tuberculose durante o pe-

considerado previsível dado o peso

coordenado pelo pesquisador An-

ríodo de 2000 a 2005 ultrapassam a

dessa parcela da população no total

tônio Levino é a produção de informa-

média nacional. São Gabriel da Ca-

do município.

ções que podem auxiliar na melhoria

choeira apresentou um coeficiente

Dentre os municípios que parti-

das ações de combate à tuberculose e

de 243,76 casos por 100 mil habitan-

ciparam do estudo, Autazes é o único

à hanseníase no Amazonas, principal-

tes, seguido por Autazes (61,61 por

considerado prioritário para ações de

mente nos três municípios estudados,

100 mil habitantes) e Eirunepé

controle da hanseníase no estado

todos com contingente de população

(34,51 por 100 mil habitantes). A

do Amazonas, ao lado de Manaus,

indígena expressivo.

média nacional é de 54 por 100 mil

Itacoatiara e Coari. Autazes possui

habitantes.

um percentual elevado de população

Segundo dados do IBGE (2006), São Gabriel da Cachoeira chega a ser

Entre os não-indígenas, o muni-

indígena, proporcionalmente ex-

um município atípico por possuir

cípio de São Gabriel da Cachoeira é

posta ao risco de adoecimento,

uma população indígena maior que

o que mais se destaca, com um coe-

tendo registrado, em 2004, 13 casos

a de não-indígenas, ou seja, 76,3% do

ficiente de incidência muito elevado

dos quais, 30,7% eram pacientes in-

total, o que representa a maior pro-

quando comparado com Autazes e

dígenas. Em 2005, esse percentual

porção, considerando todos os mu-

Eirunepé. No entanto, a situação es-

chegou a 50% do total.

nicípios do País. Autazes e Eirunepé,

pecífica das populações indígenas

No caso de Eirunepé, apesar de

apesar de possuírem uma população

destes municípios revela um perfil

também ser considerado um muni-

indígena menos expressiva, também

de gravidade ainda maior da doença.

cípio endêmico e com expressiva

estão bem acima da média dos outros

No município de Eirunepé, por

população indígena, não apresen-

municípios brasileiros que é de 0,4%.

exemplo, apesar da menor expressão

tou notificações de casos nesta po-

A representação indígena em Auta-

populacional (6%), o contingente

pulação, exceto um em 2004. Já São

zes é de 14% e a de Eirunepé, próximo

indígena contribui com 62% dos ca-

Gabriel da Cachoeira, apresentou

de 6% da população.

sos de tuberculose registrados du-

mais casos indígenas de hanseníase

Do ponto de vista epidemioló-

rante os anos estudados. Em Auta-

entre os três municípios estudados

gico, os resultados da pesquisa mos-

zes, onde os indígenas representam

(53,1% do total). De 2000 a 2005 fo-

tram que nos três municípios estu-

apenas 14% da população, os casos

ram registrados 32 casos em São Ga-

dados, os coeficientes médios de in-

de tuberculose alcançaram 40,70%

briel da Cachoeira.

TRATAMENTO IN LOCO Com construção de laboratório, indígenas de São Gabriel são diagnosticados nas próprias aldeias

U

m projeto de pesquisa com fi-

tório de análise da tuberculose em

sadora Irineide Assumpção Antu-

nanciamento da Fapeam/MS

uma comunidade indígena do mu-

nes, foi realizado em território dos

/CNPq, no valor de R$ 99,5 mil, pos-

nicípio de São Gabriel da Cachoeira.

índios Yanomami, às margens dos

sibilitou a montagem de um labora-

O trabalho coordenado pela pesqui-

afluentes do Rio Cauaburis (rio AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 19


|| c a p a Ariabu, Canal Maturacá, rio Yá, rio

pia positiva para BAAR, ocorre uma

Além de montar um laboratório

Maiá e rio Inambu).

redução para 124/100 mil habitan-

para a realização de diagnósticos

Nessa área, existem seis aldeias Ya-

tes na sede, e 618/100 mil ha-

mais rápidos e precisos da doença,

nomami (Ariabu, Maturacá, Auxi-

bitantes nas aldeias. “Mesmo as-

a equipe da pesquisadora Irineide

liadora, Nazaré, Inambu, Tamaquaré

sim, esses números são extr-

Antunes pretendia fazer um levan-

e Maiá), ocupadas por 1.718 in-

emamente superiores à média na-

tamento da real situação da tuber-

dígenas, num território de 2.400.000

cional”, destaca a pesquisadora Iri-

culose nas comunidades indígenas

hectares. O acesso às referidas al-

neide Antunes.

e elaborar sugestão de atuação do Programa de Controle da Tubercu-

deias se dá pela cidade de São Gabriel

Tratamento na aldeia. Devido à

lose nessas comunidades. “O tempo

Nesses espaços geográficos, as po-

inexistência de técnicas mais sensí-

não foi suficiente para realizarmos

pulações vêm sendo vitimadas pela

veis para o diagnóstico, tanto na

esse trabalho. Mas ele está sendo

tuberculose em proporções extre-

área urbana de São Gabriel como

realizado agora, fora do projeto de

mamente superiores às existentes

nas unidades laboratoriais das al-

pesquisa, através do Centro de Re-

em outras localidades do Brasil. A in-

deias indígenas, os pacientes indíge-

ferência Cardoso Fontes”, explicou

cidência média do país é de 54 ca-

nas com suspeita de tuberculose são

Irineide.

sos por 100 mil habitantes. Em São

prescritos com o tratamento especí-

Outra meta da equipe é o au-

Gabriel da Cachoeira, o coeficiente

fico ou transferidos de suas comu-

mento do número de novos casos de

de incidência em 2003 foi 274 por

nidades para as Casas do Índio de

tuberculose e a conseqüente eleva-

100 mil habitantes e, na população

Manaus ou de São Gabriel, em busca

ção do coeficiente de incidência da

Yanomami do Rio Cauaburis e seus

de serviços especializados.

doença. Apesar de esse resultado pa-

da Cachoeira.

afluentes, por exemplo, foi de 1.443

Essas transferências geram uma

recer desagradável, a pesquisadora

por 100 mil habitantes, de acordo

série de conflitos, como dificuldades

avalia que ele demonstra uma pre-

com dados do relatório da pesquisa.

de adaptação à moradia e à alimen-

sença silenciosa de pacientes man-

Além das incidências alarman-

tação fornecida na casa do índio;

tenedores do estado de transmissão

tes, há problemas na forma de diag-

entraves de relacionamento com in-

da doença. “O tratamento e cura

nóstico dos casos. Apenas 30% dos

dígenas de outras etnias; ausência de

comprovada deixam de ser fontes de

pacientes, tanto da sede do municí-

atendimento preferencial nos ser-

transmissão, diminuindo o número

pio quanto das aldeias pesquisadas,

viços de saúde, tornando extrema-

de novas pessoas infectadas”, justi-

foram diagnosticados como portado-

mente longo o período de tempo

fica a pesquisadora.

res de tuberculose pela presença de

para diagnóstico e tratamento e au-

Um paciente contaminado com

bacilos álcool-ácido resistentes

sência de infra-estrutura de lazer

o bacilo da tuberculose contamina

(BAAR), nas secreções examinadas

adequado as suas culturas.

em torno de dez indivíduos do seu

por baciloscopia. Os demais foram

Uma das propostas do projeto de

ciclo de convivência, segundo dados

tratados de forma presuntiva, de-

pesquisa, intitulado “Implantação

da pesquisa. “Conseqüentemente o

vido a forte sintomatologia pulmo-

e análise de métodos para diagnós-

projeto estará interferindo direta-

nar ou outras lesões indicativas de

tico da tuberculose em comunidades

mente na cadeia de transmissão.

tuberculose.

indígenas do município de São Ga-

Isso significa que se mantendo as

Quando se calcula o coeficiente

briel da Cachoeira – AM”, era evitar

atividades no futuro é possível con-

de incidência de tuberculose apenas

que os indígenas fossem transferidos

trolar a doença e até mesmo erradicá-

com os pacientes com bacilosco-

de suas aldeias para tratamento.

la”, afirma Irineide. ||

20 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


|| t u b e r c u l o s e

Crianças e adolescentes se beneficiam de novos métodos de diagnóstico A idéia é tornar o exame de identificação da doença mais barato, fácil, e menos dependente de recursos humanos especializados

U

ma pesquisa coordenada pelo pesquisador farmacêutico-bioquímico Mauricio Morishi Ogusku, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

(Inpa), estabeleceu um método para verificação de proficiência de microscopistas e gerou um sistema de triagem para diagnóstico da tuberculose na população infantojuvenil. De acordo com o pesquisador, um dos principais problemas da tuberculose está relacionado com o seu diagnóstico. O Ministério da Saúde (MS) orienta o uso preferencial da baciloscopia direta (exame baciloscópico das secreções pulmonares) em busca de bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR). Trata-se de técnica laboratorial de baixo custo e de fácil realização, mas altamente dependente de capacitação dos profissionais realizadores das leituras microscópicas. Além de estudar um método para verificação de proficiência, a pesquisa tinha o propósito de verificar a eficácia de um sistema de triagem que utilizasse pontuação. Esse método, estabelecido por Clemax Couto Sant’Anna, em 2002, foi adotado pelo MS, mesmo sem ter validação científica. Ele exclui os exames laboratoriais para a conclusão do diagnóstico da tuberculose infanto-juvenil.

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 21


GRACE SOARES

O último objetivo da pesquisa consistia em avaliar a utilização da PCR (sigla em inglês de Reação em Cadeia da Polimerase) como método rápido de diagnóstico da tuberculose. “Em relação ao método para verificação de proficiência (leitura duplo-cega) de microscopistas para tuberculose foi possível estabelecer que estes profissionais precisam ter um índice de concordância para com eles mesmos, maior ou igual a 90%”, disse Ogusku. Isso significa que se um microscopista ler um painel composto de cem lâminas de baciloscopia e relê-las, aleatoriamente (sem o conhecimento dos resultados da pri-

|| Pesquisadores do Inpa desenvolveram método para verificação de proficiência de microscopistas que gerou um sistema de triagem para diagnóstico da tuberculose entre jovens

meira leitura), os resultados entre as

Avanço. Quanto ao sistema de

adequados para a identificação e

duas leituras devem estar equivalen-

triagem para identificação de sus-

triagem de suspeitos da doença, já

tes no mínimo em 90 lâminas.

peitos de tuberculose pulmonar, os

que a tuberculose não foi diagnos-

Somando isso, foi definido que

pesquisadores basearam-se nas in-

ticada naqueles em que a pontuação

um painel para a caracterização da

formações clínicas, epidemiológica,

foi inferior a 50 pelo sistema de tria-

proficiência em baciloscopia da tu-

vacinal e radiológica. Para cada in-

gem proposto.

berculose deve conter, em média,

formação ou critério, foi atribuída

Apesar de os exames de bacilos-

75 lâminas, abrangendo em torno de

uma pontuação. Exemplo: tosse

copia e cultivo terem excelente es-

46% de lâminas negativas, 4% de

por mais de quatro semanas (15

pecificidade para o diagnóstico da tu-

inconclusivas (de 1 a 9 bacilos em

pontos), emagrecimento (10 pon-

berculose pulmonar em crianças e

100 campos microscópicos) e 50%

tos) e cavitação (padrão radiológico,

adolescentes, a dificuldade ainda

de positivas. “Estes resultados pos-

30 pontos).

permanece em razão da baixa sen-

sibilitam o estabelecimento de cri-

Assim, todo paciente que obteve

sibilidade que apresentam. A PCR,

térios objetivos para os cursos e exa-

pontuação igual ou superior a 50

por sua vez, apresentou sensibili-

mes de proficiência, seja para o lei-

possuía um quadro clínico sugestivo

dade superior, porém com relação à

tor (profissional da rede básica de

de tuberculose pulmonar. Este, en-

especificidade, possui valores pre-

saúde) ou para o supervisor (profis-

tão, era encaminhado para a avalia-

ditivos positivos e negativos baixos.

sional responsável por verificar a

ção médica complementar, realiza-

Tais resultados fazem com que a

concordância das leituras em um

ção da prova tuberculínica, avalia-

PCR, por enquanto, não seja utili-

programa de controle de quali-

ção nutricional e coleta de amostra

zada em substituição ao cultivo ou

dade)”, explica o pesquisador.

clínica para os exames de bacilos-

considerada como única alternativa

Dessa forma, será possível tanto

copia (direta e pós-concentração),

para o diagnóstico da doença. Con-

a capacitação como a reciclagem de

cultivo e PCR (sigla em inglês de

tudo, a método poderá ser utilizada

profissionais que executam a bacilos-

Reação em Cadeia da Polimerase).

paralelamente aos exames bacterio-

copia, exame este preconizado pelo

O acompanhamento de todos os

lógicos convencionais, como uma

MS para o diagnóstico da tuberculose

pacientes indicou que os critérios e

ferramenta adicional para auxiliar no

em todos os níveis laboratoriais.

o ponto de corte (50 pontos) foram

diagnóstico da tuberculose.

22 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


Os avanços conseguidos pela equipe do pesquisador Ogusku, no

pendente de técnicas laboratoriais”,

contaminação dessas amostras.

afirma o pesquisador.

“Neste sentido, procuramos avaliar

entanto, representam apenas o iní-

Pesquisas realizadas desde a dé-

a possível interferência do conser-

cio de um processo que ainda pre-

cada de 1980 constataram que os

vante cloreto de cetilpiridíneo (CCP)

cisa ser aprimorado. “Novos méto-

ecossistemas amazônicos possuem

na PCR, já que um estudo anterior

dos de diagnóstico precisam ser ana-

uma variedade de espécies perten-

propôs essa hipótese para o escarro

lisados sob um protocolo de valida-

centes ao gênero Mycobacterium,

adicionado dessa solução”.

ção, envolvendo vários laboratórios

atualmente conhecidas como mi-

No estudo, os pesquisadores ob-

em diversas regiões, do Brasil ou do

cobactérias ambientais, cuja dife-

servaram que o CCP não interfere di-

mundo. Um estudo dessa magni-

renciação com as espécies do Com-

retamente na PCR. Porém, as amos-

tude requer pelo menos dois anos,

plexo Mycobacterium tuberculosis (ba-

tras de escarro sob condições de

sem falar no tempo necessário para

cilo da tuberculose) só é possível

transporte apresentaram 25,8% de

concepção do novo método e dos

através do isolamento “in vitro”.

contaminação do cultivo por mi-

testes preliminares que seria, igual-

“Devido às micobactérias am-

crorganismos da microbiota nor-

mente, de pelo menos dois anos”, ex-

bientais serem capazes de colonizar

mal, o que reduziu em 12,9% o iso-

plica Ogusku.

a orofaringe humana, induzem exa-

lamento do M. tuberculosis.

mes baciloscópicos falso-positivos

“O processo de transporte de ma-

Fundamentação. A necessidade

quando se utiliza apenas a bacilos-

terial clínico ainda apresenta gran-

da pesquisa da equipe de Ogusku

copia como exame de verificação

des limitações, principalmente por

se justifica pela diversidade de pa-

da suspeita clínica”, explica Ogusku.

reduzir a possibilidade de um diagnóstico fidedigno. A alternativa

tologias encontradas na região amazônica cujos sintomas se con-

Dificuldade de transporte. Um

ideal, sem dúvida, seria fornecer

fundem com os da tuberculose.

dos problemas secundários para os

uma infra-estrutura laboratorial e

Esse fato contribui para o retardo

exames diagnósticos da tuberculose

capacitar recursos humanos para

na constatação da doença – o que

é o transporte de amostras clínicas,

execução de exames como a bacilos-

aumenta o tempo de dissemina-

principalmente na região amazô-

copia e cultivo para tuberculose na

ção do agente causador pelo seu

nica, devido às dimensões geográfi-

própria unidade básica de saúde do

portador e agrava o quadro clínico

cas. O principal agravo é o risco de

interior do Estado”. ||

do paciente. Ogusku explica que os sintomas

Produtos .

A partir desse projeto, financiado pela Fapeam/MS/CNPq, duas

respiratórios da tuberculose pul-

dissertações de mestrados foram geradas, a primeira sob o título: “Análise de uma

monar confundem-se com os pro-

metodologia para caracterização de proficiência de leitores de baciloscopia para a

duzidos pela grande diversidade e

Tuberculose”, defendida pelo Farmacêutico-Bioquímico Francisco Duarte Vieira, no

alta incidência de outras infecções,

programa de Pós-Graduação em Patologia Tropical da UFAM, e a segunda sob título

como pneumonias bacterianas e virais e afecções por fungos que habitam os ecossistemas amazônicos. “Assim, a dificuldade do diagnóstico clínico da tuberculose e,

“Avaliação de um sistema de triagem para a identificação de crianças e adolescentes com suspeita de Tuberculose”, defendida pelo Pediatra Gastão Dias Júnior, no programa de Pós-Graduação em Doenças Tropicais e Infecciosas da UEA. Ambas foram orientadas pela Doutora Julia Ignez Salem, do Inpa.

conseqüentemente, de seu con-

Além das dissertações, um trabalho de iniciação científica foi realizado no Inpa

trole, esbarra primariamente na di-

pelo bolsista da Fapeam Lucas Hidenori Okamura. O projeto ainda proporcionou

ferenciação com as demais patolo-

apresentar cinco resumos em congressos nacionais e um artigo científico aceito para

gias respiratórias produzidas por

publicação, na edição de maio de 2008, do Jornal Brasileiro de Pneumologia sob

esses agentes.O diagnóstico definitivo da doença é altamente de-

título “Metodologia para caracterização de proficiência em leituras de exames bacilocópicos para diagnóstico da Tuberculose”.

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 23


|| a l i m e n t a ç ã o

Estudo analisa incidência de obesidade entre adolescentes Região Norte tem pouca representatividade em pesquisas relacionadas à nutrição. O problema já toma uma dimensão equivalente ao da desnutrição

( 24 I N.° 8 , MARÇO DE 2008

C

om financiamento da Fapeam/MS/CNPq de R$ 26,3 mil, o médico e farmacêutico-bioquímico Fernando Hélio Alencar

iniciou um estudo para identificar a incidência de obesidade na população infanto-juvenil da cidade de Manaus. A pesquisa, inédita na região Norte, vai contribuir, segundo o pesquisador, para atualizar os dados do Ministério da Saúde (MS) sobre obesidade na população dessa faixa de idade. De acordo com Alencar, nas pesquisas realizadas no País desde 1975 e que representam marcos científicos na produção de conhecimento relacionada à nutrição, a representação da região Norte é ínfima. “O centro-sul teve representação de 2.274 indivíduos, o nordeste 1.329, o Norte urbano, que na realidade foi só a área urbana de Manaus, teve representatividade de 212 crianças. Qual foi a representatividade?”, questionou. Essas pesquisas delinearam um novo perfil epidemiológico para o Brasil como um todo, mostrando que a desnutrição estava diminuindo e aumentando a obesidade e as doenças crônicas. Até então, só se falava em desnutrição. Como não havia representatividade da região, Hélio decidiu estudar os hábitos nutricionais e a incidência de obesidade em diversos grupos sociais no Amazonas. Em 2004, o pesquisador concorreu ao edital do Programa de Pesquisa Compartilhada para o SUS (PPSUS) com um projeto que tinha como objetivo verificar a ocorrência de obesidade na área urbana de Manaus, a partir de uma metodologia simples e barata: a antopometria (avaliação de peso, altura, idade e gênero), e da avaliação dos hábitos alimentares. “Fizemos só a determinação qualitativa, ou seja, o que a pessoa come, quando come, o que rejeita como alimentação, o que tem acesso quando


a renda está melhor”. Na prática, a pesquisa fez o diag-

“O problema do adolescente da área urbana de

nóstico e identificou os fatores determinantes do peso

Manaus não é a obesidade, é mais o processo de des-

dos indivíduos pesquisados.

nutrição. Mas somando os dois, chegamos a um per-

O estudo foi realizado em escolas da rede pública

centual de 24,3% que apresentam um quadro de risco

de ensino. Participaram do trabalho 895 adolescentes

nutricional, tanto de desnutrição como de excesso de

com idade entre 13 e 16 anos. Da zona Leste foram 325

peso”, analisa Alencar.

estudantes. A zona Centro-Sul participou com 434 e a

Um dos fatores determinantes da obesidade ou da

zona Oeste, com 90. A menor participação foi da zona

desnutrição, segundo o estudo, é o número de com-

Norte: 46 indivíduos. Desse universo, 41,8% (374) eram

ponente por núcleo familiar. “Foi o que pesou mais na

homens e 58,2% (521) mulheres.

determinação do estado nutricional, principalmente do excesso de peso”, disse o pesquisador.

Resultados do estudo. O resultado do estudo foi

Subentende-se que quanto maior o número de

surpreendente, segundo Fernando, apesar de o universo

pessoas na família, maior é a diluição do poder de com-

pesquisado ser pequeno. Os adolescentes com sobre-

pra de alimentos. “Na escala final do processo, você

peso e obesidade somaram 10,9% dos participantes do

vai ver que uma família com maior número de pessoas,

estudo, sendo 3,4% de obesos e 7,5% de pessoas com

vai receber uma quantidade menor de nutrientes, de

sobrepeso. Por outro lado, a soma dos adolescentes que

alimentação no final do dia”. Outro aspecto que se re-

apresentam magreza ou desnutrição é superior aos

laciona com o número de filhos é que as crianças,

com excesso de peso: 13,4% dos pesquisados. Os que

principalmente as de baixa renda, em maior número

apresentaram quadro de normalidade são 75,8%.

no núcleo familiar, têm um ambiente mais lúdico, de

FOTOS DE RICARDO OLIVEIRA

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 25


brincadeiras, que possibilita maior gasto de energia.

que o adolescente não gasta as energias adquiridas a

“Essas crianças recebem menos nutrientes e têm pos-

partir dos alimentos”, acrescenta Alencar.

sibilidade de gastar mais. Essa variável foi significativa na determinação do excesso de peso”, afirmou o pes-

Alimentação pobre. Os resultados dietéticos da

quisador.

pesquisa apontam para uma alimentação pobre em nu-

A escolaridade materna apareceu como o segundo

trientes. Chegou-se a essa conclusão a partir da apli-

fator determinante do excesso de peso. A pesquisa

cação de um questionário aos estudantes selecionados

concluiu que por mais pobre que seja a mãe, se ela tem

aleatoriamente para participar do estudo. O principal

um grau de escolaridade maior, tem melhores condi-

alimento da dieta diária de 56% deles é carne, arroz,

ções de reivindicar e buscar uma alimentação saudá-

macarrão e farinha. “Caracteriza uma alimentação po-

vel para os filhos. “A escolaridade da mãe é fundamen-

bre em micronutrientes e com uma alta oferta calórica

tal para que os filhos comecem, desde cedo, a ter uma

de substâncias”, disse Fernando.

alimentação saudável”.

Os estudantes que disseram não comer verduras e

A atividade física, apesar de pouca participação no

saladas nenhuma vez na semana são 23% dos entre-

resultado da pesquisa, mostra um dado preocupante:

vistados. Outros 55% disseram que comem salada pelo

54% dos adolescentes entrevistados disseram que não

menos uma vez por semana e 33% comem esse tipo

praticam nenhuma atividade durante a semana. “Além

de alimento pelo menos três vezes na semana.

de ter vida sedentária, 89% desses adolescentes dedi-

As frituras são comuns na dieta de 36% dos adoles-

cavam de 2 a 3 horas diárias na frente da TV ou do com-

centes, enquanto 38% disseram que os alimentos co-

putador. Isso contribuiu para o aumento de peso, por-

zidos são mais freqüentes nas refeições. A soma dos que

26 I N.° 8 , MARÇO DE 2008


consomem frituras e cozidos representa 74% do uni-

dos segmentos mais importantes da população de Ma-

verso pesquisado. “Quando se preparam esses alimentos,

naus, que é o adolescente. Vai viabilizar, dentro de um

o principal ingrediente é o óleo, que vai possibilitar maior

futuro relativamente próximo, a inclusão da problemática

oferta calórica. É uma pobreza de alimentação”, salienta

nutricional no cenário regional e nacional”, destaca.

o coordenador.

O pesquisador também alerta para o que ele chama

Dez por cento dos entrevistados disseram que nunca

de risco nutricional, ou seja, a soma dos desvios nutri-

comem frutas e 19% as consomem eventualmente. Em

cionais: magreza e desnutrição (o que falta) e a obesi-

contrapartida, o consumo de refrigerante é alto entre os

dade (o que excede). “Os dados da pesquisa apontam

adolescentes: 28% consomem diariamente, 38% só to-

que alguma coisa tem que ser feita, porque algo de er-

mam nos finais de semana e apenas 3% disseram que

rado está acontecendo no padrão nutricional dessa po-

nunca tomam.

pulação”.

O consumo de guloseimas é comum para 51% dos es-

Apesar de reconhecer a relevância do estudo, Fer-

tudantes, e 62% afirmaram comer fora do horário das

nando faz uma autocrítica. “Como pesquisador, admito

refeições (a famosa beliscadinha). “Você acaba comendo

que essas informações não representam um pacote fe-

tudo o que está mais fácil. Nunca se belisca coisa de va-

chado, pronto para ser utilizado no SUS, porque não

lor nutricional, mas alimentos que vão aumentar a oferta

teve representatividade global, refere-se a crianças de

calórica ao organismo”, afirma o pesquisador.

baixo poder aquisitivo [as crianças de escolas particulares e do interior do estado não foram incluídas]. Falta maior

Aplicabilidade. Para Fernando, a maior contribui-

representatividade étnica e numérica. Seria o caso de as

ção do estudo é a inserção da região Norte com maior

instituições com interesse nessa área partirem dessas in-

representatividade na pesquisa nacional. “Podemos inse-

formações com o objetivo de elaborar uma coisa mais

rir no contexto nacional um diagnóstico a respeito de um

abrangente”, sugere. ||

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 27


|| v e r m i n o s e

Mansonelose atinge 25% da população de Coari Comunidades rurais são as mais atingidas pela doença; dificuldade de diagnóstico compromete o tratamento

incidência de um tipo de filariose, a Mansonelose, causada pela Mansonela ozzardi, no município de Coari (a 368 quilômetros de Manaus) atinge 25% da população. Os mais afetados são os moradores das comunidades rurais. A constatação é da bióloga Marilaine Martins, a partir de pesquisa realizada desde 2004, com financiamento do Ministério da Saúde. O projeto de Marilaine é um dos contemplados pelo Programa de Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde – o PPSUS, executado, no Estado, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). A equipe coordenada por Marilaine realizou exames de sangue em 1,2 mil pessoas com suspeita de filariose, em nove comunidades rurais e na área urbana do município de Coari. “Os exames foram positivos de microfilária em 25% das pessoas que se submeteram ao estudo”, disse a pesquisadora.

A

28 I N.° 8 , MARÇO DE 2008

A partir dessa constatação, a equipe de Marilaine, que atua na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), em Manaus, vai sugerir ao Ministério da Saúde que inclua Coari e os municípios vizinhos como regiões endêmicas de filariose mansonelose. “Até hoje, não existe, no Ministério da Saúde, qualquer protocolo de tratamento dessa doença”, afirmou a pesquisadora. No estudo, foi confirmada incidência da doença em pessoas de todas as idades. “Nós encontramos crianças de dois anos de idade parasitadas, assim como encontramos uma pessoa de 83 anos com a doença, confirmada através do exame de sangue”, revelou.


A pesquisa. Quando submeteu seu projeto de pesquisa à Fapeam, para concorrer ao edital do PPSUS, Marilaine se propôs a estimar a prevalência dos portadores de mansonelose e realizar testes moleculares para a caracterização de Mansonela Ozzardi no município de Coari-AM. Depois de identificar os portadores desse tipo de filariose e relacionar os sintomas clínicos da doença, a equipe iria orientar os infectados para tratamento nas instituições de saúde. De acordo com a pesquisadora, o principal problema encontrado no município é a dificuldade de diagnóstico da doença e o conseqüente retardo no tratamento. Quando não há tratamento adequado e imediato, os sintomas da mansonelose são mais evidentes. “Os resultados desse trabalho poderão servir como subsídio para programas de interrupção da transmissão de mansonelose nas comunidades afetadas, detectando a doença e indicando as pessoas para tratamento”, diz.

O passo inicial, na opinião de Marilaine, é vencer a barreira que dificulta o diagnóstico. A maioria das pessoas que contraem a doença a confundem com a malária, devido à semelhança dos sintomas. “Até o exame para detectar a doença é semelhante ao da malária, é um exame simples”, explica. A caracterização de espécies bem como o estudo da mansonelose é importante não só para elucidar a evolução das diferentes manifestações clínicas observadas, mas também pode servir de suporte para condutas terapêuticas, na opinião da pesquisadora.

AMAZONAS FAZ C I Ê N C I A I 29


Em relação à participação e motivação da comunidade, a equipe não teve grandes dificuldades, porque a população identifica as filarioses como prioridade dentre os vários problemas de saúde da região. Os pesquisadores realizaram o trabalho nas famílias e não com pessoas isoladamente, apesar de terem aplicado questionários de forma individual. As famílias foram sorteadas através de amostragem aleatória simples. Depois da entrevista e do exame de sangue, os indivíduos detectados como portadores das filarioses no estudo de prevalência da zona urbana, foram resgatados, por busca ativa, para exame clínico, coleta de nova amostra para confirmação diagnóstica e caracterização molecular.

30 I N.° 8 , MARÇO DE 2008

A doença. A mansonelose é uma filariose humana, causada pela Mansonella ozzardi: filária (vermes finos e delicados encontrados nos tecidos localizados sob a pele e nos vasos linfáticos e sanguíneos) própria do continente americano, que foi inicialmente detectada apenas no estado do Amazonas, ao longo do rio Solimões e seus afluentes. Atualmente, têm sido encontrados casos também na região do alto Rio Negro. Esse tipo de filariose é transmitido pelo mosquito Pium (Simulim vernustum), muito comum em toda a região amazônica. Os efeitos da presença desse parasita no hospedeiro humano ainda são mal definidos e são raros os estudos sobre a clínica e epidemiologia dessa doença no Brasil. “Até o momento, não existe um marcador molecular descrito na literatura que seja específico para as Mansonella e que tenha sido testado para as diferentes espécies desse parasita humano, relacionado com evolução clínica diversificada e com isolados provenientes de insetos vetores”, assegurou a pesquisadora no projeto de pesquisa.

O trabalho visa encontrar um marcador e diversificar os isolados encontrados, podendo não só ser um teste específico para esse agente causador da doença na região amazônica, como também possibilitar um teste quantitativo de monitoração da resposta terapêutica e cura da doença. Os principais sintomas da filariose mansonelose são: febre moderada, frieza nas pernas, dores articulares, adenite (inflamação dos gânglios linfáticos) e dor de cabeça. Uma nova sintomatologia atribuída a essa filariose é a presença de lesões visuais, com círculos brancos na córnea que podem levar à cegueira. De acordo com Marilaine, existem nove tipos de filariose no mundo. Na região amazônica, no entanto, foram encontrados apenas três tipos: a mansonelose, a elefantíase (que atinge os membros inferiores) e a oncocercose (conhecida como ‘cegueira dos rios’ e que ataca os olhos, podendo causar cegueira). ||



Revista 08