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Luiz Bacellar/Voz do Leitor

Bobby Fabisak/JC Imagem

k Projeto do Arco Metropolitano não tem mais prazo

Travado de Norte a Sul, contorno da RMR é teste de paciência para quem trafega em qualquer um dos sentidos. Empresários que acreditaram na promessa do Arco cobram atitude do governo k economia 4


4 jornal do commercio

Recife I 8 de setembro de 2013 I domingo

economia

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Uma solução engavetada

RODOVIA Arco Viário, que desafogaria BR-101 e viabilizaria investimentos, não saiu do papel. Estado e Planalto não se entendem

Fotos: Michele Souza/JC Imagem

Giovanni Sandes gsandes@jc.com.br

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Arco Viário custaria R$ 1,21 bilhão e teria obras iniciadas este mês. A rodovia de 77 quilômetros para ligar a BR-101 norte e sul por fora do Recife é tão importante que só a promessa de sua construção levou todo o polo automotivo da Fiat para Goiana, na Mata Norte. O esperado novo contorno da área metropolitana induziu investimentos imobiliários e animou gente esquecida na euforia econômica do Estado. Mas o mês que teria o início das obras virou marco do esquecimento. Há seis meses, governo estadual e federal evitam o assunto. Empresários e executivos que acreditaram no Arco já cobram publicamente o projeto, enquanto a população pede saída para o caos crescente da BR. A nova rodovia seria a esperada solução. Um dos grandes nós da rodovia, a cidade de Abreu e Lima tem na BR-101 o centro da cidade, com igreja, lotérica, farmácia e até prefeitura na calçada. A confusão de bicicletas, gente, carros e animais se mistura às cargas de portos e indústrias. “É engarrafamento, acidente. E piorando mais”, conta o agricultor Adilson Mendonça, 47 anos. Também chamada de Arco Metropolitano, a rodovia tem vários objetivos: aproximar os polos industriais norte, oeste e sul do Grande Recife e absorver o tráfego pesado da BR-101, na linha dos projetos de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. “Sou do Paraná. Lá o governo fez a ‘Suape de Curitiba’ no equivalente do Arco, o Anel de Integração”, diz Luiz Henrique Romani, economista da Fundação Joaquim Nabuco. “As mudanças impressionam: mais qualidade de vida para a população, melhor logística para indústrias e menos acidentes”, conta. O Arco também vai integrar áreas isoladas, como Araçoiaba, que em pleno Grande Recife, é a mais miserável do Nordeste, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Aqui você corta cana ou é gari”, diz Gisele Silva, 21 anos. Estudante de curso técnico, ela sonha cursar psicologia no Recife, distante três ônibus na ida, três na volta. O Arco aproximaria Araçoiaba dos polos, como Suape. Sem renda ou emprego, Gisele e os amigos, membros de uma banda marcial, param carros no acesso à cidade para tentar arrecadar R$ 350 e tocar em Carpina. “Fomos chamados para encontros de bandas lá e em Campina Grande. Se ir para Carpina é caro, imagina Paraíba”, diz. O Arco era cogitado há anos. Em junho de 2011 o governador Eduardo Campos (PSB) anunciou que a obra seria estudada como Parceria Público-Privada pelo consórcio Odebrecht Transport, Invepar e Queiroz Galvão. Após muita espera, em janeiro passado o Estado decretou a desapropriação de 868 hectares para o Arco, uma vez e meia o Bairro de Boa Viagem, no Recife. Na véspera da primeira audiência pública do licenciamento, no dia 25 daquele mês, veio a cobrança emblemática. “O Arco não pode demorar. Tem que acontecer”, disse, na ocasião, o presidente da Fiat no Brasil, Cledorvino Belini. A cobrança tem motivo. O Arco convenceu a Fiat a produzir em Goiana 250 mil carros por ano, um polo de 15 fábricas, 12 mil trabalhadores e um fluxo de 2 mil veículos por dia. Imagine as carretas, caminhões, carros e cegonhas indo e voltando entre Goiana e Suape sem o Arco. O “pito” de Belini fez o Estado anunciar o Arco para este mês, com a primeira etapa pronta em 2014. Parecia que tudo ia decolar, até que em 25 de março a presidente Dilma Rousseff (PT) veio a Pernambuco, terra do provável rival nas urnas, Eduardo, e sua equipe anunciou que a União faria a obra. Desde então, as versões são desencontradas (leia a matéria ao lado). A cobrança continua. Na próxima quarta, por exemplo, haverá uma audiência sobre o novo bairro planejado de Ipojuca, Litoral Sul. O Engenho Trapiche, da Cyrela e Queiroz Galvão, custará R$ 3 bilhões e terá uma população de 78 mil pessoas, mais pressão na BR-101 e PE-60. “O Arco é importante para a Fiat e outros investimentos”, diz o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário, Eduardo Moura. “Acho que a obra sai. Mas desde que ela foi para Brasília, fiquei com a pulga atrás da orelha”, diz Moura.

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CONFUSÃO GRANDE Abreu e Lima é um dos símbolos da desordem no trânsito da Região Metropolitana do Recife. População sofre com os acidentes

DESCASO Adilson diz que a situação só está piorando. Gisele (de verde) integra a banda marcial de Araçoiaba, cidade pobre que aguarda os benefícios da industrialização

Governo gastou em estudo não utilizado

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RUMO A SUAPE No caminho do Litoral Sul, engarrafamentos também são constantes. Empresas e trabalhadores perdem

Pernambuco pagou mais de R$ 1 milhão para validar um estudo privado sobre o Arco Viário e não usou as informações. O fato pode estar no centro das divergências entre o governo federal e estadual sobre a rodovia. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) diz não ter recebido do Estado sequer um anteprojeto pronto para licitação. A Secretaria de Governo de Pernambuco (Segov) diz ter enviado “um anteprojeto completo”. O Estado contratou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) por R$ 4,2 milhões, em 3 fevereiro de 2012, para validar dois estudos de Parcerias Público-Privadas (PPPs). O Arco representou R$ 1,5 milhão do custo com a FGV. Mas o estudo desenvolvido pelo consórcio Odebrecht Transport, Invepar e Queiroz Galvão não foi usado. “Foi entregue um anteprojeto completo da implantação da estrada para análise e aprovação do Dnit, que licitará a obra. O anteprojeto foi contratado pelo governo de Pernambuco, que não aproveitou os estudos dos empreendedores responsáveis por

estudar a PPP”, diz a Segov. “A partir do momento que o governo federal assumiu o projeto, não cabe mais ao consórcio se posicionar sobre o assunto”, informa o consórcio. O Dnit alega desconhecer os estudos da PPP. “A autarquia está desenvolvendo seus próprios estudos e já identificou três alternativas de traçado. (...) O Dnit vai utilizar o resultado dos seus estudos”, diz a autarquia, que nega haver “plano B” para a obra. O Dnit diz que ainda trabalha “para desenvolver o anteprojeto de engenharia que dê suporte ao processo licitatório”, que será pelo Regime Diferenciado de Contratações (RDC), com o polêmico orçamento secreto. O anteprojeto, segundo o Dnit, deve ficar pronto até novembro. A promessa é ter licitação ainda este ano e obras em meados de 2014.

q Mais na web Veja o Relatório de Impacto Ambiental do Arco no jconline.com.br/economia

Jc 08 09 2013  
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