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Contos de dantesco e burlesco 1 Andreu Paulus


"De um suicida"


"De um suicida" Subiu na banqueta como que entorpecido por uma tristeza abissal,anelou a grossa corda rústica ao pescoço com um gesto de autômato,ajustou o laço sem nenhum pensamento,ensaiou no ar um passo de uma dança desastrada. A viga sob o teto não suportou o peso. Ruiu sobre ele .A perícia atestou a morte por fratura craniana .


GIGI ALIEN


" Crisântemos florescem junto ao monte de estrume: uma só paisagem" Issa GIGI ALIEN Gigi Alien, cansada da madruga quente e úmida, estaciona seu conversível no Timbiras Parking e o deixa para trás descuidadamente. Descendo a rua vai espantando as pombas, pisando em vômito com suas longas botas prateadas. Enquanto ajeita seu vestido, caminhando diante das decadentes


fachadas art-deco dos velhos edifícios - com portas lacradas à tijolos - Gigi repete entre dentes cerrados alguma frase incompreensível, repetindo e repetindo, como uma cantilena mórbida. Numa esquina um anão mascate, um desocupado e o sapateiro Carcabrina jogam conversa fora, numa rodada de pinga. Dois moleques sobem a rua, em sentido inverso, com mochilas de escola e uniformes ridículos, assoviando e trocando figurinhas. Cruzam por Gigi na calçada mijada, rindo alto...Em seus ouvidos ela sente o riso das crianças como uma chuva de afiadas lâminas de gelo e finos cacos de cristal a rasgar seu cérebro; duas grossas lágrimas de dor extrema escorrem-lhe dos olhos manchando o rosto de maquiagem - mais alguns passos e Gigi pára _ e voltando-se para trás atira quatro vezes contra os estudantes com sua Glock 9 mm. Na esquina um anão mascate, um desocupado e o sapateiro Carcabrina não fazem nada. Atravessando a rua uns passos adiante, Gigi some por trás de uma porta metálica. O interior da boate contrasta explendidamente com o cenário exterior de ruas abandonadas e imundas tanto quanto de sua arquitetura de grotesca assimetria cheia de contornos subjetivos e decorada com figuras toscas e incompletas, na


verdade tudo parece ser o conjunto produzido por uma imensa série de modificações impostas a uma velha fábrica do século dezenove; tudo coberto e recoberto por espessas camadas de tinta metálica martelada. No entanto o impecavelmente vermelho atapetamento e as cortinas de veludo, bem como todo ambiente tem o calor de um velho e luxuoso bordel, ainda que estivesse fechada para o público já à muito, tudo parece perfeitamente intacto. Ela encaminha-se decididamente através de um corredor até uma pista de dança e dirige-se ao seu centro onde estão três figuras sentadas à uma mesa. O ar esfumaçado é profundamente frio e seco. Apesar do ruído de seus saltos altos contra a pista, apenas ao aproximar-se da mesa Gigi pode olhar no rosto aqueles três personagens, que voltam-se para ela. Um gordinho de fisionomia andina, um careca com um enorme furúnculo na testa e uma velhinha que não tira os olhos de um livro. Na mesa peças de dominó confusamente dispostas entre copos de cerveja velha. - A coisinha está aí ? - Procurando algo dentro da blusa. - Como combinado ... Trouxe ? - Trouxe - Gigi atira um envelope sobre a mesa na direção do gordo e pergunta: - E o bichinho ?


- Como combinado... “Señora” - sorridente, cutuca com o cotovelo o careca, que limpa debaixo das unhas com um palito - está tudo “listo” como combinado, “señora”, pode usar El salão “Chino” El tiempo que quieras . Gigi demora-se somente o tempo de pegar na mesa o chaveiro de aço em forma de crucifixo, e desaparece nas sombras, gingando pela pista de dança vazia. As três figuras de anedota ficam para trás, mudas e de olhos injetados. As exaustivas horas de choro deixaram o peito de Alessandra dolorido, e já não sabe ao certo se a difícil respiração é causada pelo esforço de tentar gritar com uma bola de pingue-pongue enfiada em sua boca - e presa por uma mordaça de couro - ou pela horrenda posição a que é forçada pelo móvel ao qual está atada (uma cadeira sem assento cujas pernas, sob duas barras de ferro, abertas em um ângulo de 45o. se unem em uma base fixa ao chão, um espaldar vazado pelo qual as mãos de Alessandra passam e prendem-se por algemas). O frio seco entumesceu seus mamilos, e seus calcanhares amarrados à cadeira de Picpus formigam; vez por outra todos os pelos de seu corpo nú se eriçam após um curto espasmo. Seria um delírio ? A visão de Gigi surgindo das sombras com seus seios enormes


de aréolas rosadas saltando para fora de um corpete, caminhando lentamente com uma faixa de seda negra nas mãos. Delírio ou não, são as últimas imagens que Alessandra vê antes que seus olhos sejam vendados. Gigi dança um pouco ao redor da cadeira de Picpus ao som de uma música louca e silenciosa, que soa apenas em seus ouvidos, girando e girando, brincando de aplicar beliscões nos peitos e coxas de Ale. Derramando um fio serpenteante de calda escura sobre o corpinho trêmulo, demorando-se mais aqui e ali - por um momento Gigi para e contempla a menina deliciando-se com as gotas frias de suor que brotam de sua testa, e de seus grunhidos soluçantes, com a ternura de um artista diante de sua obra em andamento. Ela busca entre suas coisas o chaveiro, e abrindo uma porta liberta um cão enorme, de pelos espetados, que deixa uma repulsiva poça de baba atrás de si. Farejando avidamente , o cachorro corre até Alessandra para satisfazer o estranho apetite com o qual fora acostumado. Lambendo furiosamente a vulva e o anus de Ale, arranhando suas coxas com as patas descomunais como se tentasse cavar, enchendo rapidamente a pele frágil de vergões. Deslizando a língua áspera no ventre jovem e contraído, o animal morde os


seios fazendo-os sangrar; o sangue misturado ao misterioso ingrediente da calda escura logra excitá-lo ainda mais e seu membro fino e grotesco procura cegamente acoplar-se à pequena Ale, que parece tentar urrar sob a mordaça. O cão aproxima-se de consumar seu instinto, Gigi masturba-se violentamente apertando seu pênis em movimentos alucinados. Seu jorro que alcança Ale e seu cachorro - magnetizados à cadeira de Picpus - é seguido por dois disparos orgásticos da 9 mm. Na escuridão uma porta é arrombada por um pontapé, o careca - com um grande furúnculo - entra atabalhoadamente no salão chinês. - Meu cachorro, porra ! O que você fez com o meu cachorro ? Seu travéco filho-da-puta ! Gigi explode o crânio escalpelado com um único tiro, o corpo do careca cai ao chão como um marionete quebrado. Ela se arruma prendendo os longos cabelos vermelhos em um coque, veste-se e sai encontrando a velha senhora: - Minha filhinha, minha filhinha ! O corpo, morto, da anciã - com um olho dependurado por um fio de carne e músculo - fica tombado com a cara enfiada num molho repugnante no chão entre as coxas da filha seviciada. Alguns passos adiante Gigi some para fora de uma grossa porta metálica.


(NA COZINHA COM ZEFERINA) POR: GREEN DEMON &WILLIS NOW


(NA COZINHA COM ZEFERINA) POR: GREEN DEMON &WILLIS NOW

BRASIL - NO CARRO QUE NOS LEVOU AO ENCONTRO DE ZEFERINA MARIA DA SILVA,32 JÁ ERA POSSIVEL,AO LONGE ,PRESSENTIR A PROXIMIDADE DO LOCAL DE TRABALHO E MORADIA DESTA MULHER E DE SEUS SEIS


FILHOS BEM COMO DE TODOS OS 28 MEMBROS RESTANTES DO CLÃ SILVA. CONFORME NOS APROXIMAVAMOS O ODOR DE METANO IA TORNANDO-SE MAIS PENETRANTE E OS URUBÚS MAIS NUMEROSOS NO CÉU. QUANDO FINALMENTE CHEGAMOS AO LOCAL O FEDOR ERA PRATICAMENTE INSUPORTÁVEL,ESTAVAMOS NO LIXÃO DE P... NA REGIÃO METROPOLITANA DE UMA GRANDE CIDADE BRASILEIRA,PRONTOS PARA O ENCONTRO COM AS PERSONAGENS QUE VIVERAM UM EPISÓDIO TENEBROSAMENTE EMBLEMÁTICO DA REALIDADE DO PAÍS : ZEFERINA QUE É MÃE SOLTEIRA E VIVE COM SEU ENORME GRUPO FAMILIAR DE EXPLORAR O QUE ENCONTRA REVIRANDO OS MONTUROS DE LIXO DO ATERRO SANITÁRIO,TAMBEM É A ENCARREGADA DO CARDÁPIO DO CLÃ,ELA TERIA AO LONGO DE ALGUNS MESES SERVIDO A TODOS CARNE HUMANA RETIRADA DE UM DESPEJO CLANDESTINO DE LIXO HOSPITALAR . ZEFERINA ,QUE ENTRE OUTRAS IGUARIAS PREPAROU TETAS,MEMBROS E FETOS;ORA REFOGADOS;ORA ASSADOS,OU AINDA SIMPLESMENTE COMO "PERTENCES" NO FEIJÃO,NOS DEU ESTA CURIOSA E ESCLARECEDORA ENTREVISTA ,ENQUANTO TENTAVA INUTILMENTE TOMAR CONTA DO FILHO MENOR QUE SE DIVERTIA ESPETANDO SEUS IRMÃOS COM AS SERINGAS ENCONTRADAS NOS ARREDORES . APESAR DE ANALFABETA TODO O TEMPO RESPONDEU COM CLAREZA IMPECÁVEL NÃO NOS POUPANDO SORRISOS DE SUA BOCA DESDENTADA .


W.N. - Dona Zeferina,como você resolveu viver de revirar o lixo ? zef. - eu comecei de pequena,aprendi com minha mãe que ajudava meu avô ,é coisa de família (risos) g.d. - e como era avida nessa época ? zef. - ah! era uma fartura ,antigamente o lixo era um lixo rico ,uma beleza ,a gente encontrava até resto de comida de restaurante fino . g.d. - e hoje ? zef. - hoje é a tal de crise ,né ? o povo não tá jogando nem papel de bunda usado,e essa tal de "recicragem"é uma desgraceira,que é difícil de encontrar coisa boa nesses lixo de hoje . g.d. - como é a alimentação de vocês ... da sua família ? zef. - a comida que a gente come é quase tudo tirado aqui do lixão,seu moço,cada um faz o seu,cada um "cata" sua parte,das vez meu avô traz umas folha de repolho,doutra um sobrinho vem com uma galinha fresquinha tirada do despacho,trazem tudo pra cá ,onde eu cozinho pra nós tudo . g.d. - do despacho de macumba ? zef. - é,quando das vez que sobra,porque essas coisa fina o povo rapéla lá pela cidade mesmo,pra fazer galinhada,quase não se acha aqui no lixão ... w.n. - a carne humana ,foi a senhora que achou? quem encontrou primeiro ? zef. - olha,parece que foi um dos meus pequeno ... g.d. - o que ele achou ? zef. - ah!de primeiro foi engraçado por causa de que ele achou foi uma coxa de mulher e nós achava que fosse um pernil de leitão bem rosadinho . só depois que eu se apercebí do que era . G.d. - e como percebeu?


zef. - é no tal que a gente fomos achando as peça de carne eu fui vendo um tal de teta,um tal de perna ... e daí eu tinha que carnear os pedaço né ?desfiava a carne dos membro assim,assim(gesticula) para a carne render mais . w.n. - e mesmo sabendo que era carne ... zef. - é seu moço ... (após uma longa pausa ) o senhor não sabe quanto tempo nós não via o que era uma carne ... g.d. - e que tal o sabor ? zef. - o senhor veja , tinha uns certos pedaço que tinha um gostinho assim,como ... um iodo,mertiolate,umas coisa assim que não saía facil,mas na maioria é um gosto bom ... assim como carne de porco . e nós aqui costuma sempre de tomar uma amargosa antes das refeição que ajuda a disfarçar . g.d. - as outras pessoas da familia sabiam então ? zef. - vichi! mas é claro ! saia tudo à cata,era uma festa quando se achava uma maminha,uma barriga pra fazer torresmo,um botinho ... w.n. - botinho ? zef. - é moço os feto assim quando é tirado , não sei ... quando fazem à boto ... g.d. - aborto ! zef. - sim senhor,um bortinho assado no espeto é de lamber os beiço . w.n. - a quantos anos a senhora está neste lixão ? zef. - vichi,moço,tem filho pequeno que nunca saiu desse lixão ... eu nasci aqui ! não tenho dinheiro ! só saio daqui quando não tem mais resto,sô! daí a gente vamos por aí capeando,procurando até encontrar ! mas os filho pequeno fica aqui ao deus dará ... g.d. - com'assim?


zef. - ué ?! fica tudo aqui,capeando mais um pouquinho nos lixo para ver se acha argumas coisa . w.n. - que outras coisas ? zef. - umas tauba para aumentar nossas moradia ,porque a família só vai aumentando (risos) . g.d. - e hoje do que a senhora está se alimentando ? zf. - olha ,to fazendo o que o povo daqui tudo faz ... um caldo com os resto que nós capeia nos lixo … A ESTA ALTURA ZEFERINA SE MOSTRAVA UM POUCO IMPACIENTE E IRRITADA BERRANDO INCESSANTEMENTE PARA SUA FILHA SHARYSTONE QUE PARASSE DE CORRER ATRÁS DO IRMÃO RIQUEMARTIN COM AQUELAS SERINGAS ! A OESTE O CÉU ESCURECIA RAPIDAMENTE MISTURANDO SEU CINZA CHUMBO AS CORES MORTAS DO LIXÃO AMEAÇANDO EXPLODIR EM TEMPESTADE ... AS CRIANÇAS JÁ SE SENTIAM CONFIANTES O BASTANTE PARA AMEAÇAREM-NOS COM SUAS ARMINHAS BRANCAS CONTAMINADAS ... RESOLVEMOS IR EMBORA DAQUELE CENÁRIO ,E DEIXAR PARA TRÁS AQUELE TRANSE INFERNAL ...


(O lago,verde e im贸vel)


(O lago,verde e imóvel) O lago ,verde e imóvel,milenar testemunha de tantos fatos e guardião de verdades inomináveis . O caldo vivo de suas àguas repletas de plancton,quase sempre gélido e encoberto por neblina pela manhã,hoje nesta noite quente de dezembro,sem ventos,tem o ar bafío repleto de suas emanações . Imóvel em seu leito lodoso,ainda que suas àguas caiam constantemente em um sorvedouro demarcado,seu espelho não revela o menor movimento _ a menos que repentinamente venha à tona uma das grandes carpas que o habitam _não fosse o céu abafado de núvens sujas,refletiría a lua indecifrável.


Desde que me lembro tem me assombrado com pesadelos,este lago bem como todas as sua cercanias,em cada nascente d'água; em cada arvore do bosque labiríntico que o cerca;em cada gruta;em cada rocha . Da estrutura de um abandonado gazebo tomado pela hera,quantas vezes tenho me visto disparar em fuga sem no entanto conseguir mover minhas pernas. E a persistente e inoportuna recordação de fatos os quais não ouso determinar a qual mundo pertencem,se a este nosso ou àquele no qual" a luz do sol é apenas uma anomalia atmosférica" ... Uma noite Em minha fúria por conhecimento Quando não era o bastante Tatear Através dos saberes do dia Fui arrastado ao lago Entre os salgueiros


até Os ermos dos mortos aonde Os negros vates Tomavam um novilho e cortando suas quatro patas E arrancando o seu couro, ainda em vida Empurravam Em sua garganta Um suco viscoso (meio sangue,meio vômito) Que o fazia tremer em convulsões Quase humanas E revirarem-se os olhos de forma horrenda Eis,a vida Esvaia-se do animal infeliz Mas algo ... Não menos irracional Tomava sua carcaça Ancestral Terror anterior ao Éden inflava vida à aqueles olhos (ou epécie de vida) E sua boca Espumosa se movia E respondendo ao interrogatório


dos feiticeiros Tecía fatos ocultos pela cortina do Futuro E loucos ejaculavam sobre o cadáver e mais perguntas e mais perguntas ( a quente e densa noite frisada de vapores ) E frenética a boca imunda não podia ser contida E a cada profecia decompunha-se o corpo Como digerido por um estômago infernal Então escorria Pela pedra da cerimônia Como bílis fétido No murmúrio das últimas palavras


CAP DE UNGLA


CAP DE UNGLA NAS ENCOSTAS DE UMA PEDREIRA ABANDONADA,VIVIA UM ERMITÃO A QUEM CHAMAVAM CAP DE UNGLA . A CAVERNA QUE ESCOLHERA COMO EREMITÉRIO FICAVA NA PARTE MAIS INGREME DA VELHA MONTANHA ESPOLIADA DE SUAS CARNES ROCHOSAS,SOBRANCEIRA A UMA LARGA CRATÉRA A QUAL A CHUVA ENCHERA DE AGUAS MORTÍFERAS,DE MODO QUE SÓ PODIA SER ALCANÇADA A DURAS PENAS E COM GRANDE RISCO DE DESASTRE . CERTA NOITE EM QUE UMA TEMPESTADE SE ATIRAVA COM A MAXIMA LOUCURA DOS ELEMENTOS CONTRA AS PEDRAS,DESABANDO EM CACHOEIRAS AO REDOR DA GRUTA , O CAP DE UNGLA EM PERFEITA SERENIDADE MEDITAVA SOBRE AS MUITAS DIMENSÕES DA EXISTENCIA NOS CÉUS ALEM DO UNIVERSO .


SUA MENTE VAGAVA ULTRAPASSANDO AS NÚVENS , CONCENTRANDO SUA VISÃO NAS DANÇAS DOS PLANETAS SUPERIORES . QUANDO UMA SUAVE VOZ FEMININA ROMPEULHE O TRANSE ... EU SOU A ALMA DESTE MONTE_ DISSE A MULHER,CUJA BELEZA EMANAVA UMA LUZ DIÁFANA E CUJO BUSTO NÚ EXALAVA O ODOR DOS CAMPOS DE PAPOULA_ TU PROCURASTE O SEIO DO MEU PALÁCIO COMO ABRIGO,MEU TEMPLO O QUAL TEUS IRMÃOS SAQUEARAM E DE ONDE LEVARAM MEUS FAMOSOS ADORNOS,MAS TU O COBRISTE NOVAMENTE COM AS JÓIAS DOS TEUS SENTIMENTOS PUROS,DEVOLVENDO-ME A ALEGRIA _ E ENQUANTO FALAVA SUAS MÃOS EXECUTAVAM UMA DELICADA COREOGRAFIA_ POR ISSO VIM A TI , PARA QUE ME POSSUAS,E DESFRUTE DO PRAZER DAS ESFERAS EM QUE TE FIXAS . O CAP DE UNGLA BEIJOU-LHE OS PÉS ,O VENTRE BRANCO E MACÍO,AFUNDOU O ROSTO ENTRE SUAS COXAS ,POR FIM ENTREGOU-SE A EMBRIAGUEZ DO SEXO . O PRÓPRIO TEMPO DILATOU-SE ATÉ QUE A CONSCIÊNCIA DO SÁBIO SE DISSIPASSE EM ORGASMOS CELESTIAIS . NA MANHÃ SEGUINTE ,QUANDO O SOL JÁ AQUECIA O VALE FAZENDO ESPOUCAR COGUMELOS POR TODA PARTE,OS ALDEÕES MURMURAVAM LASTIMANDO A SORTE DO VELHO EREMITA, ADMIRANDO-SE DO DESABAMENTO QUE ARRASTARA TODA A ESCARPA DA MONTANHA ...


ANESTESIA DESAUTORIZADA Há perguntas que jamais devem ser feitas As que se repetem inesperadamente e insistem sem que haja uma desgraçada resposta e martelam e fustigam mesmo o inquisidor mais perverso com saliva de áspide E as perversa crianças em sua inocência fingida tremeriam e lutariam e nunca ousariam formulá-las Arrancaria meus olhos furaria meus tímpanos e seria grato se assim delas me esquivasse mas enquanto as maldigo em vão e sinto as lágrimas queimarem meu rosto


as escrevo na carne e em pedaรงos de couro cru, sangrento e fixo em minha pele, com alfinetes e apodreรงo ao sol com um sorriso. Hรก perguntas que jamais devem ser feitas.


Sime達o


Simeão

No bairro do Cambucí, não longe do lugar onde se deu o importante episódio de nossa independência, havia uma prisão conhecida ironicamente como bastilha. Quis o caprichoso e indomável destino - no verão da minha mocidade que eu tivesse exercido a função de médico na citada instituição, passando lá meus primeiros anos de clínica médica. As histórias que presenciei, em muito impulsionaram as pesquisas às quais me dedico e pretendo um dia trazer à lume. Neste dia em particular - decorridos tantos anosme afige a lembrança insistente de uma tarde fria do século passado, em que a rua estreita com


o calçamento coberto pelas folhas mortas de plátano, parecia por completo impregnada da dor e do sofrimento que se desenrolavam nos porões da bastilha. Cada úmido tijolo do muro da velha fábrica belga parecia enegrecido, mais pela malignidade vizinha, do que pela ação das nuvens plúmbeas que derramavam-se em incansável garoa. A tarde estranha, na qual ouvia a narração de um preso chamado Simeão Nepomuk. Tinha 23 anos quando fora encarcerado, e no cárcere, enquanto a sífilis galopante tomava conta de seu corpo e de seus nervos, me fez de confidente. Simeão, o pobre Simeão; que violava as covas recentes do cemitério de Vila Mariana sempre que uma bela jovem era sepultada, para abrasar o seu instinto bestial nas vaginas frias e pegajosas e que afogava-se em beijos sôfregos sobre corpos gelados, tomados pelo rigor mortis. Me contava do profundo alívio que se seguia, e como conseguia - em sua mente perturbada -justificar seus atos, e mesmo encobrí-los sob o manto de um misticismo herético eivado de velhacaria. Não suportava a idéia de manter intercurso com uma mulher viva, a vergonha insuportável do ato sexual inculcada desde a infância vivia em


tormentosa batalha contra o desejo carnal exacerbado, o campo dessa batalha era a alma de de Simeão, e ele sua primeira vítima. Tentara, num momento de guarda-baixa de sua consciência atormentada, aliviar-se com as meretrizes que perambulam nos arredores da Estação da Luz. Não tolerava a possibilidade de ser rejeitado, como de fato, já acontecera muitas vezes; mesmo as prostitutas evitam certos tipos de homem... Quando num belo verão ele conheceu uma costureirinha, que vivia na Rua do Gasômetro. Uma jovem com os atributos físicos de uma princesa de contos orientais, cujo charme ocultava por completo sua condição de pobre operária de uma confecção. E a mórbida paixão - mantida sob o mais rigoroso segredo - se pôs a trabalhar em Simeão. Passava os dias a se masturbar minando sua saúde mental e física no paroxismo do amor solitário; o cérebro completamente obcecado pela imagem da costureirinha, de seus pés, suas mãos, das gotinhas de suor brotando em sua testa durante a árdua faina, do roçar suave de seus negros pelos pubianos em sua roupa íntima.


Mas a vergonha, como uma chusma de diabos fustigando-lhe o espírito, ora gritando ,ora sussurando em seus ouvidos a crua verdade: uma princesa jamais se aviltaria deixando-se tocar por um verme como Simeão. E o demônio da luxúria também pôs-se a trabalhar. Simeão, dedicava seus dias inteiramente à sua eleita, conhecia todos os seus passo, e espreitava - escondido por entre os eucaliptos - o apito da fábrica, dia após dia, anunciando a saída da tão amada. O apito da fábrica, grave no início e que assustadoramente ia se tornando agudo ao extremo - como as sirenes antiaéreas - fazia as têmporas de Simeão vibrarem como se aumentassem a pulsação de sangue em seu cérebro, apenas para potencializar a sua loucura. E se deu que um dia, Simeão, cedendo - mas com volúpia - ao demônio da luxúria e munido de um martelo de marca Corneta assassinou a costureirinha com severos e impiedosos golpes no crânio, quando esta voltava de sua jornada diária na fábrica. Arrastou o cadáver por alguns metros, pois já escolhera com antecedência uma casa de ferroviários abandonada como palco de seus delírios. E consumou seu amor louco entregando-se de todo à bela princesa levantina - como numa lua-de-mel medonha - em longas horas de prazer.


Catorze dias depois, os vizinhos incomodados com o odor penetrante de carniça, encontraram o apaixonado Simeão. Os homens da Guarda Civil tiveram que empreender um grande esforço para separar Simeão de sua prometida. Somente quando este atingiu o clímax e parou de bombar furiosamente no cadáver é que conseguiram removê-lo.


ODE AO IDIOTA O idiota armado de um argumento "inteligente" O idiota irado indignado (pela própria natureza) O idiota tece a teia de considerações morais grandes paradigmas político-econômicos delírios (idiotas) de proporções gigantescas O idiota letrado faz apologia dos nobres ideais e a turba (de idiotas) celebra longa vida aos idiotas ! (assim na terra como no céu) Até que a morte os separe (amem) A trave no teu olho é o tempo e o estúpido cortejo de idéias razoáveis A trave no teu olho é o triunfo do adestramento


que o transforma em máquina e o mórbido murmúrio ao redor do cadafalso A trave no teu olho é o gancho de ferro cravado na pálpebra controle remoto norte e devoção destino biológico Veredito. A trave no teu olho é o tempo e o estúpido cortejo fúnebre.


RIVE GAUCHE


RIVE GAUCHE

O espírito do velho nihilista ergueu-se das lamas do rio Sena e caminhou tropegamente em minha direção fitandome e mostrando sua face horridamente deformada . Sua aparencia encharcada e putrefata me transmitia ondas gélidas de repulsa que contorciam meu estomago . Enquanto aproximava-se de mim a podridão e o lodo iam evaporando-se revelando as feições crispadas de dor do velho nihilista que agora me encarava fixamente por trás de suas longas barbas ,cinzentas como o pelo de


ratazanas . Por quantas décadas ele teria experimentado a decomposição e o negro amargor dos vazíos ? Enquanto tentava inutilmente dissolver-se na inconsciência das lamas imundas do fundo do rio,como se pudesse fundindo-se ao limo e aos dejetos encontrar a realização de seus sonhos de aniquilação . Agora,apesar do torpor causado pelo prolongado letargo,lentamente o nihilista recuperava a consciência,projetando ao redor de sí quadros confusos de um turbilhão de lembranças e monstruosas abstrações que assumiam ora a forma de seres comicamente aberrantes,ora jorravam como convulsas ondas de cores sujas . Quando ,por fim,cessaram as perturbações e ele recobrou seu raciocínio a emanação solar pareceu brilhar mais intensamente e o semblante do velho nihilista tornou-se menos carregado . Sem uma única palavra,mas com um sorriso irônico no canto da boca ele


me dirigiu um Ăşltimo olhar e desfez-se numa neblina cintilante . Naquela noite lembrei-me dele vĂĄrias vezes,enquanto comia minha sopa de frutos do mar ...


Gondwana


Gondwana Nas densas florestas de Ta'tau, em meio à vegetação tropical - hoje tomada por serpentes e escorpiões - havia antigamente uma grande cidade chamada Gondwana. De comércio intenso e arquitetura exuberante, suas construções monumentais de misteriosos templos de rocha desafiavam as trevas verdes da selva. Os prósperos homens de Gondwana adornavam seus corpos empurrando pigmentos raros sob a pele em intrincados desenhos mágicos. Mercadores de terras distantes traziam suas preciosas tintas para a pele, que eram trocadas por ouro puro. Reis vassalos de cidades perdidas no horizonte iam até lá para pagar


seus tributos ao Senhor de Gondwana, cujos tesouros ocultos não podiam ser contados por um homem ao longo de uma só vida. Mas um dia, sem que se saiba ao certo o porque, todos os seus habitantes partiram e preferiram se tornar nômades famintos a retornar à sua gloriosa cidade. Não houvera um cataclisma, nem uma peste; a água limpa ainda corria em seus canais, hoje transformados em remanso de crocodilos ... Nenhuma invasão bárbara, nenhuma carestia ... Apenas um sábio errante que por lá estivera, não arrebatara grandes multidões com seus sermões, nem era seguido pelas ruas por um rebanho de prosélitos. Mas estivera, sim, com o Rei de Gondwana em pessoa e lhe transmitira diretamente um grande ensinamento secreto. O Rei, que era perverso e de natureza vil, desejoso de ser o único possuidor do ensinamento mandou assassinar o sábio andarilho. Desde então Gondwana se tornou uma cidade fantasma, e seu rei louco e inane morreu, solitário, devorado por um jaguar. Qual seria a natureza do poderoso ensinamento secreto ?


(De um Bardo)


(De um Bardo) o homem lentamente ergueu-se de sua cama improvisada de papelões e jornais imundos ,coçou a barba gordurosa e emaranhada ,revirou os bolsos do sobretudo azul. Trôpego caminhou entre a cachorrada e o monte de corpos entorpecidos de cachaça sob o viaduto Guadalajara,parou diante de sua sombra contra uma pilastra caiada,dançou com sua sombra na luz da fogueira suja,e lançando mão de um carvão ofereceu um poema regionalista para a grande estrutura de concreto : Tó a táuba de Taubaté Tó a táuba


(O sapo-drag達o)


(O sapo-dragão)

havia um monge andarilho que se fazia acompanhar,em suas peregrinações,por um enorme mandril,que ora o protegia_apenas com sua cara medonha_ora ajudava-o a esmolar alimento fazendo macaquices diante das pessoas nas aldeias por onde passavam. Um dia,por fim,o monge _que já se tornara velho_encontrou a iluminação de seu espirito,e abandonou suas vestes carnais . Uma mulher piedosa,que ultimamente o abrigara permitiu que seu corpo fosse cremado seguindo os antigos preceitos . O mandril que agora tambem já era velho e não mais assustava sequer os meninos pequenos,neste momento,esquecendo de sua própria natureza de símio lançou-se ao fogo para acompanhar seu mestre na viagem de volta á pátria celeste.


Mas as chamas da pira funeraria_caprichosas_recusaram-se a lamber-lhe a carne,ao contrario,a piedosa mulher viu saltar do fogo,um grande sapo-dragão,que alçou voo,e desapareceu entre as nuvens brancas .


(Fragmento)


(Fragmento) (...) As duas formas-pensamento saltaram diante de mim como enormes bolas de pingue pongue luminosas,tomando a forma seguidamente de ovóides coloridos e então assumiram a aparência de odaliscas de chanchada . Obstinadamente tentavam obstruir-me a passagem sufocando-me com suas tetas volumosas,simulando uma dança do ventre de modo patético . Projetei em minhas mãos um belo sabre japonês e fatiei ao meio a primeira_uma loura com cara de Barbara Eden_traçando um unico movimento no ar partí o cranio da segunda,abrindo-o ao meio no sentido vertical dividindo seu narizinho arrebitado em dois_seus corpos imediatamente se tornaram brancos como a crosta de um camembert e dissolveram-se no éter . Esquecí-me do sabre ,que desapareceu de pronto . Prosseguí minha marcha em direção ao portal ciclópico .


(...) O gigantesco portal,embora em tudo fosse semelhante ao portão de madeira de um castelo medieval,não podia ser simplesmente transposto pela minha matéria sutíl,e alem disso era guardado por um sentinela proporcional ao seu tamanho monstruoso_o qual ignorou-me completamente em meus esforços para violar o portal_um troll com olhos cegos e esbugalhados. Seu nome era Apuruanaram,que significa "chapéu-armadura",e tinha nas mãos um porrete de pelo menos dois metros . (...)


NeftuĂ­m (o homem denĂşncia)


Neftuím (o homem denúncia)

(em uma repartição pública ) [um homem entra (de capa e usando um chapéu extravagante) dirige-se á um guichê sob uma placa onde se lê : "denúncias" .Uma atendente do tipo burocrático o recebe falando sem erguer os olhos.] Atendente: Pois não senhor,a que sua denúncia (mecanicamente) se refere,cite seu nome e endereço ... Sr. Neftuím: (em tom arrogante) Senhorita ! minha denuncia é de importancia capital ! Quero fazer uma denuncia sobre um bando de pedófilos,escatológicos,profanos e onanistas ! Atendente: (mecanicamente) Senhor,seu nome por fav ...(ergue os olhos vê a cara do Sr.Neftuím e começa a rir) Por favor (rí tentando controlar-se )


Sr. Neftuím:(exaltando-se) Senhorita ! Atendente:(não para de rir) Sr. Neftuím: (mais exaltado )Senhorita ! Me chamo Neftuím ! ... Atendente: (rí ainda mais) Sr. Neftuím: (orgulhosamente) Neftuím Barroso ... Atendente: (gargalha histericamente) Sr. Neftuím: ... de Almeirão (concluindo) Atendente: (controlando-se) pois não senhor Naftalim... Sr. Neftuím:Neftuím ! Atendente: Sim,claro ! Sr. Neftuím: minha denúncia ... Atendente: sim,parece-me uma denúncia de gravidade enorme,o senhor falou de peidófilos e ananistas ... Sr. Neftuím: Pedófilos ! Onanistas ! (indignado ) Atendente: (não se controla mais e cai na gargalhada ) Sr. Neftuím: Eu exigo que minha denúncia seja anotada ,mocinha ! [Um supervisor aproxima-se,percebendo problemas no guichê e atende o Sr. Neftuím ] Supervisor : Senhor ! Senhor ,permita-me lhe ajudar em sua denúncia . Sr. Neftuím: (mais calmo) Por favor ... Supervisor : Nome ? Sr. Neftuím: Neftuím Barroso de Almeirão . Supervisor : Profissão ? Sr. Neftuím: (ufano) Ator...


Atendente: (rí novamente baixinho) Sr. Neftuím: (concluindo) ...Dramático ! Atendente: (começa a rir incontrolavelmente) Supervisor : Bem senhor de Almeirão sua denuncia ... Sr. Neftuím: na verdade (recompondo-se) Quero denunciar uma seita de pedófilos,escatológicos ... Atendente: (emendando) Profanos e ananistas ! Sr. Neftuím: (pigarreando) Onanistas ...de qualquer modo,neste exato momento,sabe Deus,o que eles poderão estar fazendo . Supervisor : Fazendo ... Sr. Neftuím: Fazendo com aquelas pobres crianças indefesas ! De que perversões ? De quais taras serão capazes aqueles rufiões ? Atendente: (rola no chão de rir) Sr. Neftuím: Iconoclastas ! Supervisor : Mas senhor,talvez a polícia ... Sr. Neftuím: polícia ?! Supervisor : Talvez a polícia devesse ser avisada ! Sr. Neftuím: A polícia ! por Deus a polícia ! a polícia !? a polícia da polícia talvez ... Supervisor : O senhor insinua que ... Sr. Neftuím: (exaltando-se) insinuando ? Meu senhor! Eu não sou homem de insinuações .Não senhor! Eu afirmo : a polícia ! a polícia ! [entra um policial uniformizado(um tanto desmazelado) ] Policial : Quem solicita apoio policial ? Sr. Neftuím: Virgílio ! Virgílio ! onde estás Virgílio ?


[NeftuĂ­m afasta-se murmurando sozinho,deixando o supervisor sodomizando a atendente,enquanto o policial pergunta para a platĂŠia ] Policial : Alguem solicitou apoio policial ? Alguem solicitou apoio policial ?


Contos de Dantesco e Burlesco ( I )