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Aspectos da rotina produtiva do jornalista no cenário marcado pelas tecnologias digitais: O profissional monomídia perde espaço para o profissional multimidiático

Giovanna de Almeida Castro Silva1

Resumo: Este trabalho procura levantar reflexões sobre a rotina produtiva do jornalista em um cenário marcado pelo impacto das novas tecnologias digitais que se, por um lado, oferecem facilidades e agilidade ao processo de apuração, produção e divulgação da notícia, por outro, exigem do profissional alterações no seu modus operandi cotidiano. Para tanto, buscou-se - através da análise de textos e observação do cotidiano de uma redação que atravessa o processo de convergência entre suas estruturas de produção - identificar as mudanças com as quais o profissional precisa lidar e apresentar as habilidades que o jornalista deve adquirir. Desta forma, procura-se demonstrar que, atualmente, o jornalista encontra-se diante da necessidade de abandonar o tradicional perfil monomidiático para pensar e produzir informação de maneira multimidiática. Palavras-chave: jornalismo; internet; convergência; rotina; produção.

1. O jornalismo e o jornalista diante das novas tecnologias digitais

É fato incontestável que o desenvolvimento das tecnologias digitais e o consequente avanço da Internet observado nos últimos 15 anos, aproximadamente, provocaram importante impacto na vida contemporânea como um todo, em vários setores do cotidiano das pessoas comuns, assim como nos meios de comunicação de massa – em termos de equipamentos para produção e transmissão e/ou veiculação das notícias – mas, especialmente, no modus operandi do Jornalismo e particularmente no que diz respeito à relação do profissional da área com o seu objeto de trabalho, a informação. Não é novidade afirmar que o Jornalismo sempre esteve sujeito e aberto à evolução tecnológica e, mais do que isso, é possível dizer que, recorrentemente, tem 1

Jornalista, formada pela Universidade Federal da Bahia, Editora de Conteúdo do portal noticioso A Tarde On Line (pertencente ao Grupo de Comunicação A Tarde) e pós-graduanda em Jornalismo e Convergência Midiática pela Faculdade Social da Bahia.

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feito uso da tecnologia a fim de responder a uma de suas principais exigências que é a velocidade na produção e divulgação da notícia – que envolve o processo que começa pela pauta, passando pela apuração até a publicação. Não é de hoje que o Jornalismo se vale de equipamentos como o telefone, o telex, o fax, mais adiante o celular, entre outros aparelhos, a fim de conferir ao veículo detentor da informação o privilégio do ineditismo, de “dar a notícia primeiro”. Neste sentido, a velocidade cada vez maior proporcionada pelo sofisticado aparato tecnológico atual, traz consequências para a rotina profissional do jornalista que se vê obrigado a aprender a lidar com novas formas de acessar a informação e divulgála. É comum repórteres e editores se questionarem, de maneira bem humorada, sobre como faziam para pesquisar informações e conseguir acesso a dados de arquivo, além de coberturas de outros veículos de comunicação sobre determinado fato, antes do surgimento de recursos como a Internet. A maioria admite que o acesso à informação aumentou significativamente e ficou mais fácil, sem perder de vista o fato de que o trabalho passou a ser muito mais complexo quando se leva em conta a multiplicidade de fontes de informação à disposição do profissional, exigindo do jornalista uma grande capacidade de filtragem do material que chega às suas mãos (Gatekeeping). Tamanha facilidade de acesso às informações levanta questionamentos por parte de estudiosos do assunto no que diz respeito à essência do trabalho do jornalista que é receber e apurar o fato e não apenas reproduzir o material adquirido junto às fontes encontradas na Internet sem qualquer tratamento. Diante deste cenário, este trabalho objetiva levantar algumas reflexões sobre as mudanças observadas no cotidiano do jornalista, no que diz respeito à sua rotina produtiva, dentro do contexto marcado pela tecnologia. 1.1 – Evolução O processo de evolução experimentado pelo jornalismo nas redações, no que diz respeito ao tratamento das informações face ao avanço tecnológico, pode ser apresentado em três fases. Elas estão intrinsecamente ligadas ao desenvolvimento das tecnologias digitais e, mais particularmente, à forma de aproveitamento das notícias produzidas pelo meio impresso nos sites e portais noticiosos. Em um primeiro momento, é possível afirmar que os sites e/ou portais de notícias eram meros reprodutores do material jornalístico produzido pela porção 2


“tradicional” das empresas de comunicação, ou seja, pela equipe do jornal impresso. Neste período inicial, acontecia a simples transposição do material escrito pelo jornalista do impresso para a Internet. Neste espaço de tempo referido, ainda não se lançava mão dos recursos proporcionados pelo ambiente virtual, ou seja, dos vídeos, áudios e fotos, a fim de enriquecer o material noticioso e de aproveitar as características do novo e atraente meio. No segundo momento, os jornalistas produzem material exclusivo para a internet e utilizam recursos midiáticos proporcionados pela rede, os já citados áudios, vídeos e fotos. “(...) hyperlinks (...) to other web sites: some interactive capabilities, such as search engines and electronic clickable indexes where the reader uses the mouse to select different content; some multimedia content, such as photos, video and audio; and some customization of sites and information, where readers create their one own personal news categories, stock listings and other content” (PAVLIK, 2001: 43 apud MIELNICZUK, Luciana, 2003: 46).

E, no terceiro momento, para o qual se caminha atualmente, o produto jornalístico é elaborado especificamente para a Internet, mas é processado de forma a possibilitar leituras em um ambiente multimídia não linear. “(...) Os usuários têm o poder de ir aonde quiserem, coletando informações. Eles podem, a partir de um bloco de informações, acessar um arquivo de áudio, um banco de dados, um gráfico, um resumo, um vídeo, um arquivo e, em seguida, desaparecer em um link externo para outro site. Isso não significa que todos os usuários agem desta forma, mas eles podem se assim quiserem. Esse padrão de consumo de informações é um ziguezague aleatório, não uma linha, e cada trajetória criada pelos usuários pode ser diferente”. (WARD, 2007: 125).

Esta realidade impõe ao jornalista a necessidade, não apenas de dominar a forma linear de apresentação da notícia, que é mais familiar ao leitor ainda tão mais afeito à forma impressa, mas de pensar a matéria jornalística de modo diferenciado. “Dividir a sua reportagem em blocos maximiza o potencial de leitura. As reportagens podem ser complexas, com vários assuntos, ângulos e áreas de cobertura. Como resultado, os leitores irão se sentir atraídos pelas diferentes partes da reportagem e por diferentes razões. Quando apresentadas em uma única reportagem pirâmide, os leitores precisam separar a informação que não os motiva daquela que desejam. Alguns não se incomodam e buscam algo novo. Isso minimiza o potencial de leitura. Porém, se a reportagem for segmentada em diferentes seções que podem ser localizadas pelo leitor (por meio de um mecanismo de busca) e lidas separadamente, sem a necessidade de recorrer a outras seções, será possível satisfazer o potencial do usuário médio e maximizar o potencial de leitura” (WARD, 2007: 127).

No entanto, para atender a esta nova configuração de notícia, o jornalista precisa estar apto a desempenhar diversas funções e dominar, ainda que não totalmente, as 3


ferramentas de edição de vídeo e áudio, ter conhecimento, ainda que básico, de fotografia e ter visão global sobre as características da rede mundial de computadores. Tudo isso sem perder a essência da profissão, que está na apuração da notícia com entrevistas e busca de fontes a fim de oferecer ao leitor o máximo possível de informações sobre determinado fato. Atualmente, o jornalista não pode mais ser monomídia, ou seja, dominar somente uma mídia e desconsiderar as demais mídias audiovisuais. A considerar o novo formato de notícia desejado pelo internauta, o profissional deverá passar a ter conhecimentos multimídia. Escrever bem, possuir o tão propalado “texto final” não é mais suficiente para garantir a inserção do jornalista neste novo contexto. O profissional precisa, sim, escrever bem, ter experiência no trato com a notícia – afinal de contas, vai precisar ter capacidade de filtragem cada vez mais refinada para eleger as notícias que serão privilegiadas no site ou no portal – ter conhecimento sobre as tecnologias aplicadas à comunicação e saber como utilizá-las a fim de desenhar a nova notícia multimídia. 1.2 - Visão empresarial O avanço das tecnologias digitais na comunicação proporcionou redução de custos para as empresas, daí pode-se entender a movimentação para a implementação do processo de convergência porque, além de reunir todas as mídias em um só veículo, a Internet, ainda exige que os profissionais sejam polivalentes, dominando os novos elementos da produção da notícia. “En el pasado, los periodistas de prensa, radio y televisión se distinguían, entre otras cosas, por trabajar con herramientas muy diferentes. El redactor de un periódico se enfrentaba a diario a uma máquina de escribir; el locutor de radio, a un micrófono y un magnetófono (gravador); y el presentador de televisión, a una cámara y a un dispositivo de edición de vídeo. Hoy día, el ordenador ha venido a integrar en un único aparato todas esas tecnologías para la redacción y la edición audiovisual” (SALAVERRÍA e AVILÉS, 2008: 36)

O jornalismo como se apresenta, atualmente, nada mais é do que uma potencialização da forma anterior de exercício da atividade. Se antes, o jornalista de TV se concentrava na linguagem visual, o radialista focava na notícia em áudio e o jornalista do jornal impresso se restringia ao suporte papel, hoje, a combinação desses recursos prevalece. Agora, várias atribuições passam a ser executadas por um único profissional o que, de quebra, atende aos mais fortes anseios do empresariado: economia de pessoal e de custos. 4


2. A rotina nas redações A intensificação do uso das novas tecnologias trouxe, por um lado, facilidades para o jornalismo e para o jornalista como rapidez no acesso a informações, agilidade no contato com as fontes, espaço ilimitado, multiplicidade de fontes de informação, maior quantidade de informações e dados disponíveis, aumentando a abrangência das pautas e permitindo a apuração de variados ângulos da matéria com maior precisão. “Em termos de clara ruptura em relação aos suportes anteriores há apenas uma a ser salientada: pela primeira vez na História do Jornalismo, sua prática se dá em um suporte que não limita seu exercício nem em termos de espaço físico (como no jornal e nos impressos em geral), nem em termos de espaço temporal (como rádio e TV). Os limites passam a ser a capacidade humana de gerar, disponibilizar e interligar informação, bem como de selecioná-la para consumo, numa situação em que a escassez não é mais crono-espacial, mas está regida pela „economia da atenção‟: vivemos uma era de pós-escassez de informação e escassez de “consumidores possíveis” para o imenso volume de material cultural, de todo tipo, produzido e disponibilizado na web”. (PALÁCIOS e RIBAS, 2007: 36)

Por outro lado, este processo tecnológico apresentou ao jornalista um novo cenário no que diz respeito à sua rotina produtiva. O trabalho do jornalista tradicionalmente apresentava estreita relação com o veículo ao qual estava vinculado e mudava a cada mídia, fosse impresso, rádio ou TV. Estas áreas eram estanques e não se interligavam em um único meio. Ainda que em todas elas o texto jornalístico fosse, como ainda é, um recurso comum, ele era tratado de forma ímpar pois cada uma das mídias lançava mão de técnicas específicas que permitiam a realização bem-sucedida do percurso entre o emissor e o receptor e a consequente comunicação advinda desta relação. Nesta nova fase, de que trata este trabalho, as mídias se unem e se complementam a fim de proporcionar ao leitor/internauta alternativas de acesso à determinada notícia e formas diferentes de fruição da mesma. O internauta não mais se contenta com o texto descritivo. Ele quer ouvir uma entrevista que avance em relação ao material lido, deseja ver mais do que uma foto do evento que atraiu sua atenção e ainda anseia por ver as imagens relacionadas a este mesmo acontecimento. Esta complexidade no tratamento da informação que corresponde mais proximamente à realidade - uma vez que ao presenciar um fato, o indivíduo registra som, imagens em movimento e focaliza/congela aspectos que mais lhe interessam no

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acontecimento, dando vazão a uma percepção por natureza multimidiática - exige do profissional jornalista uma nova percepção sobre os fatos. Agora, o jornalista deve estar pronto a compreender as diversas possibilidades oferecidas pelos fatos noticiosos a fim de apresentar ao leitor/internauta várias formas de fruição do assunto em questão. Sendo assim, o jornalista deve extrapolar a capacidade de escrever bem, que continua sendo imprescindível no jornalismo online, avançando sobre a capacidade de segmentar a notícia no que ela pode oferecer em termos de áudio, vídeo e fotos. A formação do jornalista multimídia é um processo que se mostra irreversível, uma vez que é impossível barrar o avanço das tecnologias digitais, em especial as aplicadas à comunicação. No passado, não muito distante, a rotina do profissional de jornal impresso se restringia a chegar à redação no começo da manhã, pegar sua pauta com a chefia de reportagem e ir para a rua à procura da notícia e suas várias versões. Terminada a apuração, o jornalista voltava à redação e sentava-se à frente da máquina de escrever e produzia seu texto. Cabia ao editor selecionar as fotos, escrever títulos e legendas e dar prosseguimento ao processo até a publicação da edição do dia seguinte. Em um momento posterior e próximo – tendo em vista a velocidade alucinante de implementação de mudanças no ambiente da comunicação, impulsionadas pelas tecnologias digitais – o jornalista passava a ser cobrado por sua capacidade de edição do material apurado e escrito. Pouco a pouco, o jornalista precisou dominar as ferramentas de edição, o que significa que a matéria final chegava praticamente pronta às mãos do editor. O novo contexto exige ainda do jornalista uma habilidade a mais, que é a capacidade de condensar de forma atraente todo o conteúdo da notícia em poucas frases. Afinal de contas, o perfil do leitor/internauta, exige que o que é mais importante da notícia seja disponibilizado o mais prontamente e o mais resumidamente possível, porque, quem procura notícias na Internet, a princípio, não parece necessitar de informações aprofundadas. “(...) O que entra nesses parágrafos iniciais é muito importante no meio online. As pessoas frequentemente exploram as reportagens nas páginas da web porque querem chegar direto ao ponto de forma rápida. Além disso, reportagens podem estar “no topo” (usando os primeiros parágrafos) para distribuição em telefones celulares e organizadores pessoais (...) o maior número possível de informações vitais deve entrar nos quatro primeiros parágrafos de uma reportagem, incluindo o contexto e as explicações suplementares. Isso serve para assegurar que a reportagem terá sentido caso os quatro primeiros parágrafos sejam lidos isoladamente. Além disso, cada

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parágrafo deve ter um propósito claro e uma estrutura simples. Os jornalistas devem se limitar a uma ideia por parágrafo”. (WARD, 2007: 115)

No momento atual, o jornalista que se vê obrigado a tornar-se repórter e editor a um só tempo, precisa se educar na “gramática do ciberespaço” que congrega as diferentes mídias. Daí a necessidade de aprender a editar vídeos, áudios e tratar imagens fotográficas. Esta dinâmica transforma o jornalista num profissional multifuncional que vai ao encontro dos princípios seguidos pela maioria das empresas, jornalísticas ou não, que é forjar o funcionário que seja capaz de realizar o máximo possível de funções. A visão econômica do empresariado, já descrita anteriormente, é um dos fatores que explicam o tão propalado processo de convergência, que vem sendo fortemente implementado em todas as redações do mundo e do qual se falará mais detidamente neste artigo. O que se vê no dia a dia das redações, na prática da profissão, é que o jornalista que se detiver a uma mídia exclusivamente perderá espaço cotidianamente e cada vez mais rapidamente. “Esta posibilidad tecnológica ha comenzado a ser aprovechada por las empresas periodísticas para promover una creciente polivalencia profesional de sus trabajadores. De hecho, particularmente en los cibermedios, cada vez más periodistas comienzan a manejarse de manera habitual con todas estas herramientas (...) la tendencia actual a la integración de redacciones lleva a pensar que la polivalencia instrumental crecerá en el futuro, en la medida en que las redacciones unificadas tendrán que atender las necesidades informativas de medios diferentes”. (SALAVERRÍA e AVILÉS, 2008: 36).

3. O processo de convergência Conforme apontam Salaverría e Avilés (2008), o processo de convergência é um fenômeno que atinge o jornalismo da mesma maneira que impacta outros setores da economia como indústrias, tomando-se como referência os grupos de comunicação que se tornam multimídia e deixam de lado o investimento que, anteriormente, era destinado a somente uma mídia fosse ela TV, rádio ou jornal. O mesmo ocorre, continuam os autores, com os espaços físicos das redações que experimentam o processo de convergência abandonando o antigo modelo segmentado e especializado para dar lugar a ambientes integrados e sob coordenações que buscam intensificar esse relacionamento entre mídias. A convergência é consequência direta da digitalização e também impacta na rotina produtiva do jornalista. “La digitalización ha modificado de raíz todos los procesos esenciales atribuidos a este trabajo: la búsqueda, elaboración y difusión de contenidos informativos. De hecho, el propio concepto de medio de comunicación ha mutado a raíz de la rápida confluencia entre la industria audiovisual, la

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informática y las telecomunicaciones”. SALAVERRÍA e AVILÉS, 2008: 32).

(Zaragoza,

2002

apud

Em seu trabalho, os autores Salaverría e Avilés (2008) fazem questão de destacar que o processo de convergência não se restringe ao processo de unificação das redações ou da capacidade dos jornalistas atuarem de forma multimidiática. O processo envolve as empresas, interessadas na redução de custos proporcionada pelo uso intensivo das novas tecnologias e abarca o jornalista que tem seu perfil profissional modificado. “(...) los nuevos medios amplían las tareas que ejerce el periodista, como ocurre con la necesidad de intervenir em todas las fases del proceso productivo y de elaborar una misma noticia para el informativo de televisión, para la web y para el sistema de alertas vía SMS o correo electrónico”. (RINTALA Y SUOLANEN, 2005 apud SALAVERRÍA E AVILÉS, 2008: 42) Tais mudanças, para os autores, são motivo de frustração para profissionais que estão dentro das redações. “En ocasiones, los periodistas en la redacción integrada constatan que su labor se reduce a “re-empaquetar” la información de prensa o audiovisual en vez de cubrir sus propias informaciones; lo que genera cierto sentimiento de frustración”. (SALAVERRÍA E AVILÉS, 2008: 41) Segundo descrevem, os jornalistas que desenvolvem suas atividades no cenário atual, marcado pelas novas tecnologias digitais e pelo processo cada vez mais intenso de convergência precisam dominar as tecnologias de gravação e edição digital, necessitam de habilidade para trabalhar em equipe, precisam ser versáteis para elaborar conteúdos com imagem, áudio, texto e gráficos, além de capacidade de reação para enfrentar as informações de última hora. Este conjunto de modificações, de acordo com Salaverría (1999), pode provocar o fim da prática jornalística na internet, pois ele considera que a essência do profissional das redações estaria correndo risco de desvirtuamento, uma vez que os jornalistas estariam abrindo mão da apuração cuidadosa da notícia. Para Puccinin (2003), “à potencialização dos recursos não há correspondência exata do aprimoramento do fazer jornalístico”. Não bastasse toda a exigência que se impõe sobre o jornalista, ele ainda sofre o que se pode chamar de uma crise de credibilidade que, mesmo que venha perdendo força, insiste em pairar sobre quem faz jornalismo na Internet. Puccinin (2003) levanta que “(...) pouco ou nada é originalmente produzido na redação online, fazendo do 8


trabalho dos jornalistas o que eles mesmos chamam de „integração ou centralização de conteúdo‟”. A crença comum, e ainda recorrente, de que as informações na Internet carecem de apuração ou seriam mesmo inverídicas, exerce uma pressão considerável sobre o profissional. “El trabajo se divide en compartimentos cada vez más reducidos, de manera que algunos profesionales llegan a cuestionarse su propia función de reporteros, porque se han convertido en “empaquetadores de contenidos”, como señalábamos antes. Hay menos redactores que buscan y generan noticias, y cada vez son más quienes se dedican a elaborar lo que se recibe de agencia o a través de otras fuentes”. (SALAVERRÍA e AVILÉS, 2008: 42).

O aproveitamento integral do conteúdo dos meios impressos ou o desenvolvimento da notícia a partir da consulta a outros sites foi, em um primeiro momento, uma realidade, mas que vem sendo superada cotidianamente nas redações. Ainda que continue existindo o chamado “requentamento” de informações entre os sites e portais é cada vez mais comum a apuração das informações ainda que isto seja feito por telefone, nos moldes do “jornalismo sentado”. Segundo aponta (Neveu, 2001: 07 apud Pereira, 2003: 14-15), “o termo „jornalista sentado‟ é utilizado para designar „um jornalismo mais orientado ao tratamento (formatação dos textos de outros jornalistas, gênero editorial ou comentário) de uma informação que não é coletada pelo próprio jornalista‟

4. Considerações finais Diante de toda a modificação estabelecida na rotina do jornalista e no jornalismo pelo desenvolvimento das tecnologias digitais, é fácil perceber que o profissional, dentro das redações, encontra-se diante de um desafio sem precedentes. Neste momento de transição entre a forma anterior de jornalismo, analógico, por assim dizer, para o jornalismo hospedado na Internet, o profissional procura se adaptar. Não bastasse o fato de ter que se habilitar-se para exercer novas e variadas funções no dia a dia, o jornalista precisa lidar com o complexo processo de convergência. Comum é a prática das empresas de impor aos jornalistas a obrigatoriedade de desenvolver novas habilidades rapidamente, tornando-se um profissional polivalente e multimidiático. Quem apostou na urgência de implementação das mudanças percebeu a necessidade de recuar estrategicamente, já que introduzir novos conceitos dentro de um 9


ambiente consolidado e dominado por profissionais, em sua maioria experientes, é processo que tende a ocorrer de forma menos traumática se for apresentado de forma lenta e gradual. Daí a necessidade de as empresas jornalísticas, juntamente com seus profissionais, procurarem encontrar formas de aplicar as novas regras que chegaram de roldão arrastando quem não percebeu o avanço do fenômeno da Internet. A rotina de trabalho mudou dentro das redações e não há retorno. É fato que o movimento está somente começando e tende a aprofundar-se ainda mais. Em pouco tempo, não haverá dentro das redações a figura do jornalista que se dedica exclusivamente a produzir textos para a seção impressa do grupo de trabalho no qual atua. Daqui para a frente, como já começa a se configurar nas redações, todos os profissionais serão capacitados para entender, desenvolver e executar notícias de caráter multimídia, ainda que o novo modelo permaneça calcado na linearidade do texto, da nota, da matéria ou da reportagem. O texto, agora, sustenta todo um arcabouço de mídias que ampliam a capacidade de entendimento do assunto e atendem às necessidades de um público leitor cada vez mais apressado e disposto a encontrar na rede exatamente o que procura e de forma rápida. Neste cenário, o papel do jornalista é criar a trilha que será percorrida pelo internauta e fazê-la tão atraente a ponto de mantê-lo, o máximo de tempo possível, dentro da trama informativa costurada por texto, vídeo, áudios e fotos.

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Aspectos da rotina produtiva do jornalista no cenário marcado pelas tecnologias digitais