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A LÍNGUA DAS REDAÇÕES

Gabriela Borini 3º ano Jornalismo Facamp Jornalismo Multimídia


A língua é o principal instrumento de trabalho do

socorro”, complementa Bia Mendes, gerente de serviços

jornalista. Ela é onipresente em uma redação. Na Folha de S.

editoriais da Abril. “O jornalista não quer saber se a vírgula

Paulo, para todos os lados, era possível observá-la: em uma

deve ser usada em determinada frase, porque se trata de uma

conversa entre um repórter e um editor sobre determinada

oração subordinada substantiva objetiva indireta. Por isso, os

reportagem; ou quando outro repórter, isolado, escrevia sua

manuais simplesmente te apontam: ‘tire a vírgula, porque não

matéria no computador; ou ainda na leitura da edição do dia

se pode separar sujeito de complemento’”, exemplifica.

anterior feita por um editor-assistente, na qual buscava e anotava todos os erros encontrados. “Rafael, três erros”, alertava a editora. E gritava: “Patrícia, quatro erros!” A importância dada à língua portuguesa nesse ambiente de trabalho é indispensável. Assim, independente de ser um veículo diário, semanal, ou online, para um repórter, um editor-assistente ou um editor chefe, o uso do dicionário de sinônimos e dos manuais de redação é frequente. “O dicionário é fundamental para você encontrar a melhor palavra para seu texto”, afirma a repórter da revista Capricho, Amanda Zacarkim. Já os manuais “são como um pronto

Bia Mendes, gerente de serviços editoriais da Abril


Com

a

nova

reforma

ortográfica,

porém,

o

procedimento do jornalista está mudando um pouco. Luis

acontece porque em algum momento alguém passou a usar essa forma e essa tendência se tornou majoritária”.

Carlos de Oliveira, editor-assistente do caderno Nacional, do

Para ele, é a própria imprensa – principalmente os

jornal “O Estado de São Paulo”, afirma que muitos colegas o

meios impressos – que cria as tendências. “Na norma culta, ela

têm procurado mais. “A maioria das dúvidas estão

ainda é o que pesa mais. A escrita tem mais força que a

relacionadas à hifenização. Essas dúvidas são naturais, porque

palavra oral; as pessoas acreditam mais no que lêem do que

muitas regras não estão assentadas na lógica anterior;

no que ouvem ou vêem na TV. Por isso, o que sai no impresso,

simplesmente mudaram”, explica.

passa a prevalecer”, diz.

A língua é algo vivo e dinâmico. Por isso, é normal que

A capacidade da imprensa de criar tendências

ocorram mudanças com o passar do tempo. “Pela força

linguísticas, por meio dos manuais de redação e estilo,

elocutória (dos atos de linguagem) que se desenvolvem nas

segundo alguns estudiosos, leva a uma padronização da

práticas cotidianas, podemos afirmar que todos os dias há

linguagem baseada nos valores da empresa jornalística que o

transformações”, diz Marialva Barbosa, vice-coordenadora de

desenvolve. “Ao fazer isso, a linguagem constitui-se como um

pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal

modo de ser da imprensa”, critica a lingüista Sandra de Melo

Fluminense. Por exemplo, cita Claudio Augusto, editor do

em sua tese “Identidade, ética e linguagem: uma análise

caderno Nacional, d’O Estado de São Paulo, “antigamente, os

pragmática das práticas discursivas na imprensa”.

jornais usavam ‘poetisa’. Hoje, escrevemos ‘a poeta’. Isso

Todavia, a posição dos jornalistas é outra. Para alguns eles, não há padronização da linguagem. “O texto continua


livre”, afirma Augusto, que estabelece a comparação: “suponhamos que o texto seja um bolo. O manual padroniza os ingredientes, mas o bolo cada pessoa faz de um jeito”. O manual serve para você saber, por exemplo, se “se deve escrever os nomes de publicações em itálico, com aspas, em letra maiúscula, minúscula, etc. É uma escolha e isso eu acho importante”, diz Bia Mendes. Outro ponto relevante relacionado à linguagem em que o manual está presente é na construção dos títulos das matérias. Segundo o Luis Carlos, o título deve “informar, ser preciso e caber no espaço delimitado”. Se, a princípio,

Luis Carlos de Oliveira, editor-assistente do caderno Nacional, do

exemplifica, o título de uma matéria seria “Congresso

jornal “O Estado de São Paulo”

pretende mudar a Constituição”, terá de ser transformado em algo como “Senado mira nova Carta”, pois o espaço destinado

O jornalista Claudio Augusto reforça a importância

para ele seria insuficiente. A palavra “carta”, nesse caso, deve

dessas três características citadas, “os títulos, por exemplo,

ser iniciada com letra maiúscula, pois, não se trata de uma

são a parte sensível da produção jornalística”. Ele diz só

simples mensagem, mas de um conjunto de leis.

aceitar uma sigla se ela for auto-explicável e cita Sabesp como exemplo. O nome completo da empresa – Companhia de


Saneamento Básico do Estado de São Paulo – jamais caberia

são necessárias objetividade e linguagem coloquial (ou o mais

no título de uma matéria. Mas Sabesp pode ser usada, pois é

próxima possível do seu público leitor).

uma sigla que ganhou vida própria. Da mesma forma, “todo

Essa não é uma tarefa fácil. Moacir Assunção, repórter

mundo sabe que MST é Movimento dos Trabalhadores Rurais

do caderno Nacional, d’O Estado de São Paulo, acredita que

Sem Terra, ou, quem não sabe, já associou essa sigla a essa

algumas editorias ainda utilizam uma linguagem muito

população”, diz. Em contrapartida, há, por exemplo, a sigla

específica. Ele considera, por exemplo, a linguagem econômica

CAE. Poucas pessoas sabem que ela significa Comissão de

e política ainda um pouco “cifrada”, direcionada a pessoas que

Assuntos Econômicos; não é usual. “Por isso, deve ser evitada

já têm algum conhecimento. E afirma “a gente tem a

no título”, afirma.

pretensão de escrever para todo mundo, mas não é de fato o

Encontrar a melhor palavra para expressar a idéia da

que acontece”.

reportagem é essencial para que se alcance o objetivo de todo

Já em uma revista, cujo público leitor é bem mais

jornalista: escrever um bom texto. Sandra de Melo afirma que

definido em comparação ao de um jornal, tanto a forma

“simplicidade, objetividade, precisão, concisão e correção

coloquial, quanto a forma mais culta, são possíveis de serem

gramatical são qualidades indispensáveis” para isso. Já a visão

usadas. São os casos das revistas Exame, cujo texto é mais

dos jornalistas entrevistados é ainda mais precisa. Para eles, a

sisudo e formal, e Capricho, que fala com a adolescente e tem

principal característica da linguagem jornalística para se

uma linguagem mais solta. “O objetivo é adequar a sua

escrever um bom texto é a clareza. “Um texto que não é claro,

audiência ao seu texto. Você tem que falar a mesma língua”,

não é jornalístico”, declara Augusto. Para se chegar à clareza,

comenta a gerente editorial da Abril.


A professora Marialva Barbosa explica que já no início do século XIX, quando aparece o primeiro jornal impresso no

que o jornal atingiu um bom público. Mas, ao mesmo tempo, tiverem que adaptar sua linguagem”, explica.

Brasil, havia a preocupação de registrar dessa forma fatos e

Percebemos que o atual jornalismo herdou muito do

acontecimentos. Nos anos 80, isso se intensificou, os textos

seu antepassado, mas, como já dito, devemos considerar que

passaram a ser predominantemente curtos e sentiu-se

transformações acontecem diariamente. Por isso, analisando

necessidade de “usar palavras simples, expressões comuns,

um dos aspectos tendenciosos da nova linguagem jornalística,

descrições corriqueiras, quando possível, acompanhados de

encontramos a uso de palavras estrangeiras. Para Assunção,

ilustração”, comenta.

“o português é uma língua de 80 mil palavras; mas, na prática,

Para o sociólogo André Villalobos, esse processo

usamos apenas três mil” e ainda assim continuamos

iniciou-se aproximadamente na década de 60, pois foi uma

adaptando palavras de outros idiomas. No jornalismo,

década em que houve uma massificação do ensino

adaptam-se muitas palavras do inglês e, de vez em quando, do

fundamental e médio (chamado secundário, na época). Um

espanhol. Por exemplo, “um amigo disse outro dia: ‘vai ter um

ensino que antes era elitista e mesmo escolas públicas que

mundialito’. Pensei, então, que mundialito nada mais é que

atendiam uma classe média mais privilegiada passou a

um mundial de clubes e me perguntei: por que usamos a

abranger novas classes e mais baixas. “A massificação do

palavra então?”, conta o jornalista. A conclusão é que todos

ensino, consequentemente, baixou sua qualidade”, comenta.

acabamos adaptando algumas palavras, mudando outras,

Surgiu, então, uma massa de pessoas razoavelmente educadas, que passaram a ler jornal. “Foi nesse momento em

utilizando mais algumas palavras em determinada época, porque a língua está em constante mutação.


Já para Villalobos, há outra tendência acerca da nova linguagem da imprensa. “Estamos vivendo o começo de uma nova mudança, de modo que talvez o jornal volte a ser mais elitista, voltado para um público mais exigente”, diz. Isso é conseqüência de um fenômeno já conhecido: a internet, uma vez que nesse veículo de comunicação não há limite de espaço e há mais atrativos e interatividade. Desse modo, o jornal procurará seu nicho e tende justamente a “expandir-se para áreas cuja linguagem voltará a ser mais específica, assemelhando-se àquilo que ainda se conserva na área de cultura e literatura em geral”, afirma.

A Língua das Redações  

Trabalho realizado para a professora Daniela Bertocchi, da disciplina de Jornalismo Multimídia, do curso de Jornalismo Multimídia da FACAMP.

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