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< EDITORIAL

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O CORAÇÃO

C

DAS TREVAS

oube ao escritor inglês Joseph Conrad capturar a atenção ocidental para a imagem de um continente africano de extremos superlativos: belíssimo, repleto de riquezas naturais no solo e abaixo dele, e paupérrimo socialmente. Em “Heart of Darkness”, desponta entre personagens e cenários uma desigualdade insana que a nós, brasileiros, não causa estranheza, mas familiaridade. Familiares, portanto, soaram também os dramas e desafios relatados por nossos co-irmãos gestores hospitalares de países de língua portuguesa, na Conferência realizada em Florianópolis. Tanto a profundidade e complexidade dos problemas éticos, humanos e políticos inerentes à administração hospitalar quanto a genialidade criativa que resulta em soluções eficientes – ainda que heterodoxas – têm sido uma constante histórica para eles, e também nessas nossas terras tupiniquins.

Esta talvez tenha sido, senão a mais relevante, a mais evidente das empatias que imediatamente nos irmanaram a nossos colegas de além-mar. O Encontro Catarinense de Hospitais foi enriquecido pela intensa troca de experiências culturais. Portugal nos trouxe a visão europeia tantas vezes vanguardista e ainda hoje, apesar da crise ininterrupta dos últimos 5 anos, comprometida com um ideal de wellfare state. Os colegas africanos, ou das ilhas atlânticas, exibiram as cicatrizes das rupturas políticas e instabilidades civis que marcaram e ainda influenciam todo o processo de construção, estruturação e gestão de rede hospitalar.

Um elemento comum despontou em todas as culturas, todas as raças, todas as nações presentes

no Encontro e na Conferência: o subfinanciamento da saúde e a busca alucinada de fontes de recursos – financeiros e humanos – para manter instituições hospitalares em funcionamento. Os colegas africanos mencionaram repetidas vezes a dificuldade em encontrar e manter médicos qualificados nos hospitais – um drama que, mais uma vez, é tão familiar aos gestores públicos e privados do interior catarinense.

Europa, África e Brasil estão em franco e tumultuado processo de aprimoramento democrático, cada um em seu momento histórico. Na Europa, é o conceito de uma unidade europeia que está em jogo; na África, as instituições basilares da democracia engatinham ou ainda estão para ser criadas; e no Brasil o processo é de revisão e remodelamento de estruturas que pareciam excelentes, quando criadas há 30 anos, mas que hoje já não respondem aos anseios sociais.

Por isso que AHESC-FEHOESC e FEHOSC se engajaram politicamente no movimento Saúde + 10, que entregou um projeto de Lei de Iniciativa Popular no Congresso Nacional para aumentar o financiamento para a saúde. A Democracia preconiza, afinal, que os cidadãos têm o direito de escolher onde preferem investir o dinheiro de seus impostos. E os cidadãos brasileiros clamam por mais financiamento para a saúde. O “coração das trevas” era geográfico no início do século XX, quando Joseph Conrad escreveu seu livro, mas hoje ele é um conceito mais identificado com a postura leniente, omissa ou indiferente que não estabelece como prioridade a saúde dos povos, princípio seminal de todo bem-estar, desenvolvimento e riqueza social.

Dario Staczuk Presidente AHESC | Tércio Kasten Presidente FEHOESC Expediente Saúde Catarinense Presidente AHESC Dario Staczuk Presidente FEHOESC Tércio Kasten Diretor Executivo AHESC-FEHOESC Braz Vieira

Assistente Financeiro AHESC-FEHOESC Silvana Hoffmann Assessor Jurídico AHESC-FEHOESC Rodrigo de Linhares (OAB/SC 8630) Editor-chefe Iuri Grechi

Jornalista Responsável Rute Enriconi

Arte da Capa Arte | ShutterStock

Estagiário Eduardo Corrêa Silva

Fotos Vera Rocha Shutterstock

Projeto Gráfico e Diagramação Gabriel Bourg

vendas@saudecatarinense.com.br

DRT-SC 434

Comercial Cyrillo Jr

Este informativo é produzido e publicado pela Associação e Federação dos Hospitais de Santa Catarina, com veiculação dirigida a associados e instituições da área de saúde.

Telefone: (48) 3224-5866 E-mail: ahesc-fehoesc@ahesc-fehoesc.com.br Twitter: @ahescfehoesc12 www.ahesc-fehoesc.com.br

AHESC-FEHOESC em números Associados Hospitais Laboratórios Clínicas Serviços de Saúde Total

117 272 2111 782 3282


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EVENTO >

AS PRÁTICAS E A

PERFEIÇÃO >

Boas práticas de saúde foram o eixo norteador da 6a edição da Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Oficial Portuguesa e o 35º Encontro Catarinense de Hospitais, que ocorreu entre os dias 28 e 30 de agosto, em Florianópolis.


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O

homem é a medida de todas as coisas”, decretou o filósofo ateniense Sócrates (469 a.C. - Atenas, 399 a.C). Trata-se de uma compreensão a ser estudada e relembrada ainda hoje no cotidiano da gestão hospitalar. Nas ponderações que abriram o Encontro Catarinense de Hospitais 2013 (ECH), o presidente da Associação de Hospitais do Estado de Santa Catarina (AHESC), Dario Staczuk, voltou ao tema, ao tentar minimizar o deslumbramento natural com as novas tecnologias e focar nos profissionais da saúde. “Vamos falar de pessoas que amam o que fazem. Precisamos nos esforçar para manter a unidade em defesa da sociedade”, expôs. A cerimônia foi pres-

tigiada por autoridades na área de saúde de vários estados brasileiros e dos países de Angola, Portugal e Cabo Verde. O presidente da AHESC enfatizou que os hospitais privados e filantrópicos já se aproximam de responder por 80% dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – mas a contrapartida financeira necessária para sustentar esse importante serviço social é minguada. Sem o reajuste da Tabela do SUS e apoio governamental, dezenas de hospitais só se mantém abertos por causa da caridade das comunidades onde estão instalados. O presidente da Federação Brasileira de Hospitais, Luiz Aramicy Bezerra Pinto, abordou a falta de médicos generalistas. Apesar de existirem 202 cursos de Medicina no país, ele ressalta que ainda há uma defasagem nessa área.

“São formados 16 mil médicos por ano no Brasil, mas não temos generalistas, clínicos-gerais que resolvam os problemas nos ambulatórios. Os dados consolidados da OMS são de que 80% dos problemas de saúde da população podem ser prevenidos ou sanados em ambulatórios. Precisamos planejar isso para se evitar a vinda de médicos estrangeiros no futuro”, afirma Aramicy.

Pela segurança nas operações

Estudos apresentados durante o ECH revelaram que, em média, 1 em 10 pacientes sofre pelo menos um efeito adverso durante a assistência médica recebida. A gerente-geral de tecnologia de serviços de saúde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Diana


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Carmem Almeida Nunes de Oliveira, expôs em apresentação sobre a segurança nos procedimentos que 63% desses eventos seriam evitáveis. A especialista explicou que o estresse, o ambiente influenciado por normas de alguns grupos e a cultura organizacional estão entre os fatores que induzem os profissionais aos erros, que podem causar desde transtornos simples – a queda de pessoas da maca – até a operação em membros errados.

“Em muitos casos, os profissionais fazem um procedimento intuitivo, mas não consolidado. É preciso construir a mentalidade com foco em segurança e mostrar como a falta de cuidado na saúde pode ser danosa “, retrata Diana.

A gerente-geral da Anvisa observa que as boas práticas orientam para a melhor comunicação da equipe, confirmando-se dados do paciente e a quais processos ele deve passar. Higienização das mãos, prevenção de quedas na transferência de um local a outro e orientações para se estimular a participação de quem vai receber os procedimentos também estão entre as precauções necessárias.

Tércio Kasten Presidente da FEHOESC: profissionais que gostam daquilo que fazem e sentem que seu trabalho é importante dão significado à gestão hospitalar.

Além de fortalecer as práticas seguras, é preciso dar suporte para que o profissional tenha coragem de admitir que errou. Depois disso, esse erro precisa ser analisado não com o fim máximo de se punir o profissional, mas para, principalmente, que novos equívocos sejam evitados.

“O custo não nasce na sala do gerente financeiro: acontece em cada centímetro do hospital. Por isso, tem de ser gerido em cada área, e quem conhece cada atividade deve avaliar as melhores medidas”

“Cada hospital deve desenvolAfonso José de Matos Um exemplo Doutor em Saúde Pública ver as próprias positivo foi mosações para se evitrado pela Ph.D tar os incidentes em Gestão, Anabela Almeida, do Conseque podem até não atingir o paciente ou lho Administrativo do Centro Hospitalar não causar dano mas que causam prejude Cova da Beira, de Portugal. Anabela ízos a quem deveria receber assistência”, abordou como o hospital, que atende a pontifica Diana. uma população de 94 mil habitantes, se

tornou uma referência, sendo acreditado pela Joint Commission International (JCI), em julho deste ano.

“Foi uma mudança de procedimentos e mentalidades”, explica Anabela. Entre as medidas aplicadas estava o reforço da identificação dos pacientes, com pulseiras lacradas e sinalização daqueles com mais risco de queda, o controle de medicação, com sinais na embalagem reforçando a periculosidade ou a similaridade com outras nomenclaturas.

Antes de qualquer cirurgia, também é realizada uma conferência geral, para verificar todas as condições para o procedimento. Os incidentes que acontecem são analisados em auditorias internas e externas, com foco na superação desses equívocos.

Diana complementou que não só os gestores dos hospitais, mas os próprios profissionais de saúde podem buscar alternativas para melhorar a segurança dos procedimentos. Segundo ela, no Bra-


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“Vamos falar de pessoas que amam o que fazem. Precisamos nos esforçar para manter a unidade em defesa da sociedade” Dario Staczuk

Presidente da AHESC, em seu discurso de Abertura Oficial do Evento


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sil, protocolos para operações seguras podem ser encontrados no site do Ministério da Saúde (www.saude.gov.br).

Saúde física e financeira

O equilíbrio entre investimentos, custos e remunerações nos hospitais foi abordado na Conferência por analistas conceituados, como o diretor-presidente do Conselho Superior do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, Gilberto Luiz do Amaral. O professor evidenciou que um terço dos gastos no setor de saúde é tributação. E que é possível reduzir isso, com vontade política e inteligência.

O doutor em Saúde Pública e professor de Administração Financeira e Custos Hospitalares, Afonso José de Matos, complementou a visão financeira no setor da saúde abordando a necessidade de uma gestão estratégica nos hospitais e o acompanhamento dos gastos pelos próprios profissionais. “O custo não nasce na sala do gerente financeiro: acontece em cada centímetro do hospital. Por isso, tem de ser gerido em cada área, e quem conhece cada atividade deve avaliar as melhores medidas”, diz Matos.

O bom exemplo de referência vem de Cabo Verde. A diretora do Hospital Agostinho Neto, Ricardina Andrade, apresentou um case: em dois anos de ges-

tão conseguiu otimizar os recursos, com gestão de resíduos, de custos e na valorização das competências dos profissionais. “Sensibilizamos os médicos para questões de gestão e isso nos ajudou muito”, resumiu Ricardina.

defende que agora é hora de colocar em prática as discussões levantadas.

Em três dias de debates, a Conferência esboçou o panorama da saúde em países de língua portuguesa e apontou caminhos para se chegar à excelência em gestão. Circularam pelo evento cerca de 700 pessoas, de Portugal, Cabo Verde, Angola e do Brasil. Para o diretor-executivo da AHESC-FEHOESC, Braz Vieira, o resultado não poderia ser melhor.

Durante todo o evento, foi possível notar que os profissionais de saúde estão decididos a realmente agir, superar todos os problemas para garantir os direitos da população.

Uma síntese da Conferência

“O evento superou as expectativas. Pelas manifestações que recebemos, ele deixou os expositores e participantes muito satisfeitos”, declarou. Para ele, a interação entre os países de língua portuguesa despertou ainda mais a curiosidade dos profissionais da saúde para os próximos eventos. Braz

“Temos problemas, mas não deixaremos de lutar para o paciente ser bem atendido. Podemos enfrentar as adversidades“ Luiz Aramicy Pinto Presidente da FBH

“Os participantes trocaram informações, experiências, isso tudo permitiu uma reavaliação do que os profissionais fazem e isso é muito bom para a saúde dos povos, e gestores do setor”, destacou.

“Temos problemas, mas não deixaremos de lutar para o paciente ser bem atendido. Podemos enfrentar as adversidades“, sinalizou Aramicy, ainda na abertura da Conferência.

No ano que vem, será a vez do 36o Encontro de Hospitais de Santa Catarina e, em 2015, a 7a Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Oficial Portuguesa, que será realizada em Coimbra, Portugal.


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Interação cultural europeia, latina e africana: quem muito anda e

muito lê, muito vê e muito sabe.

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o

Agende-se

No ano que vem, será a vez do 36o Encontro de Hospitais de Santa Catarina e, em 2015, a 7a Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Oficial Portuguesa, que será realizada em Coimbra, Portugal.


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MEÇO,

LOGO EXISTO >

Governos brasileiro e português aperfeiçoam o monitoramento da qualidade

P

recisamos sempre medir, o que é medido melhora”, repete, como um mantra, o diretor da Agência Nacional de Saúde, Leandro Fonseca. Durante a 6ª Conferência de Gestão de Língua Portuguesa e do 35º Encontro Catarinense de Hospitais, Fonseca se incumbiu de apresentar o programa Qualiss de estímulo à qualificação dos prestadores de serviços na saúde suplementar. O Qualiss pretende ampliar o poder dos usuários de planos de saúde de avaliar e escolher os prestadores de serviços, que têm participação voluntária no programa. Salvo os que compõem a rede própria de operadoras de planos

das prestadoras de serviço.

de assistência à saúde, caso em que a participação é obrigatória.

De acordo com definições da ANS, rede própria é todo e qualquer serviço de saúde de propriedade da operadora ou de sociedade controlada pela operadora ou, ainda, de sociedade controladora da operadora. Profissionais e unidades de saúde que desejarem fazer parte

do monitoramento devem estar credenciados à rede de alguma operadora e ter licença de funcionamento atualizada, emitida por órgão de vigilância sanitária.

Para avaliar a qualidade, há um sistema de medição por meio de indicadores, que possuem validade, comparabilidade e capacidade de classificação dos resultados. Foi definido um conjunto de indicadores que possibilitam a comparação entre os diversos prestadores, divulgando os resultados para os usuários. O programa adotou diferentes ícones para cada padrão de qualidade.


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Em cada módulo de prestadores são definidos indicadores para períodos de avaliação de dois anos. E em cada período de avaliação, são definidos indicadores essenciais e recomendáveis. Os essenciais devem ser reportados obrigatoriamente por todos os participantes, já os recomendáveis, reportados opcionalmente pelos participantes que desejarem, recebendo um bônus na pontuação final. “Todos os indicadores foram amplamente discutidos”, diz o diretor da ANS. “O Qualiss está na etapa de avaliação controlada e logo depois vamos generalizar o uso, num avanço ambicioso para melhorar o atendimento aos usuários”.

Mais informações: www.ans.gov.br

Portugal e o Sinas A presidente da Federação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Marta Temido, apresentou um panorama da rede hospitalar no país (ver quadro), onde os serviços de atenção primária são, historicamente, muito fortes: apenas 0,03% da população estão a mais de 30 minutos de um centro de saúde. Marta Temido conta que a última década foi marcada por uma privatização de hospitais públicos. Regidos pelo direito privado, os processos internos foram acelerados. A avaliação das prestadoras de serviços de saúde, feita de acordo com a lei de bases, é feita em todas as unidades públicas, privadas ou sociais, que devem obedecer a um con-

trole de qualidade. “Mas também monitoramos a qualificação dos servidores.

Portugal criou também o Sistema Nacional de Avaliação em Saúde (Sinas), que pertence à Entidade Reguladora da Saúde. O sistema permite avaliar diversas dimensões da qualidade dos prestadores, como excelência clínica, segurança do doente, adequação e conforto das instalações, a orientação dada aos usuários e a satisfação deles. Pelo Sinas, são avaliados 14 procedimentos, em 12 áreas clínicas. No total, somam 163 unidades. Não avalia profissionais, nem serviço.

Mais informações: www.ers.pt

A EM PORTUGAL REDE HOSPITALAR

47 357 23 05

Hospitais do serviço nacional de saúde Unidades de saúde familiar

Centros hospitalares

91

08

Unidades locais de saúde hospitais privados

hospitais do serviço nacional de saúde, em regime de parceira entre o público e privada. Primeira unidade é de 2009 e ainda não há avaliação disso

Marta Temido

Presidente da Federação Portuguesa de Administradores Hospitalares apresentou um panorama da rede hospitalar no país.

QUALIFICAÇÃO DOS PROFISSIONAIS

Recursos Humanos

8 escolas de medicina todas públicas 12 faculdades de farmácia: 6 públicas e 6 privadas 40 faculdades de enfermagem: 20 públicas e 20 privadas

1 médico a cada 1 mil habitantes: média superior à média da OCDE Déficit de enfermeiros: 1,5 enfermeiros por médico


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GESTÃO>

CAMINHO

SEM VO pela excelência da gestão, não há pontos de retorno. E o fator humano, > Naporbusca vezes relegados no manuais, é a chave para a produtividade e eficiência.

O

médico Haino Burmester sublinhou, em Florianópolis, algo que os manuais de gestão relegam aos pés de página: nas organizações o que mais conta é o desempenho humano. Responsável por 80% da produtividade.

“Creiam: só 20% do que produzimos depende de tecnologia. Dentro do fator humano, 70% é atitude e 30% conhecimento”, resume Burmester.

“Se não houver atitude correta haverá problemas em progredir. Não é só na academia que a qualidade se desenvolve – também nas associações profissionais e nos modelos industriais. De modo geral, a área da saúde é conservadora em desenvolver novas formas de fazer gestão e precisamos de ajuda de outros setores que desenvolvem essa tendência”,

afirmou o especialista, que já lecionou cursos sobre o tema em diversos países e estados brasileiros. A métrica da qualidade é fazer bem-feito, de maneira coerente, sistêmica, integrada. Com eficiência, eficácia e efetividade. “Os gestores devem ter perguntas: o que fazer, como fazer, por que fazer da forma como fazemos?”, sugeriu.

No “como fazer”, Burmester disse ser preciso fazer com ética, estética e legitimidade de modelos assistenciais e de gestão. A questão ética passa pela moral. A estética une pessoas, equipamentos e materiais para trabalhar pessoas em harmonia, conseguindo um resultado eficaz. “Gestão é um processo criativo extremamente difícil”, observou. Já a legitimação vem pelo reconhecimento de grupos de interesse, que validam as ações executadas. Ele acrescen-

Dr. Haino Burmester “A qualidade que se busca é uma carreira sem linha de chegada, nunca estamos lá. Estamos buscando novos patamares, novos líderes”


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OLTA tou que todo trabalho envolve pessoas, gerenciamento de informação, contabilidade no sentido de saber o quanto entra e o quanto sai. Mas o sucesso vem apenas se os grupos de interesses como donos, clientes, fornecedores e sociedade reconhecem o bom trabalho. Burmester ainda pontificou sobre a importância de implantar padrões. “A qualidade que se busca é uma carreira sem linha de chegada, nunca estamos lá. Estamos buscando novos patamares, novos líderes”, diz Burmester.

Pela segurança nas operações

O português José Fragata é professor, cirurgião cardíaco, diretor cárdio-toráxico de um dos maiores hospitais de Lisboa e tem vários livros publicados na área. Fragata abordou a necessidade de conhecimento sobre o impacto da gestão nos resultados, e fez um comparativo

com o setor industrial. Apesar das diferenças com a área de saúde, existem vários aspectos que convergem e deveriam ser importados para o setor. “Não há por que não importarmos know-how. Na indústria, quem sabe da gestão do negócio, sabe do negócio da gestão e nos hospitais existe essa rivalidade: quem faz a gestão clínica briga com a gestão de processo”, argumentou. Fragata pondera que a medicina ganhou escalas industriais ao longo das décadas Hoje o tratamento é em equipe, com muita tecnologia e enorme eficácia. Uma das peculiaridades da saúde é que quanto mais se investe, mais se gasta. E o investimento gera mais procura. Por isso, os custos são sempre altos. Ele citou como um dos exemplos a serem importados pela indústria da saúde a filosofia Toyota, que elimina desperdício e produz no tempo certo.

Dr. José Fragata Para finalizar, Fragata defendeu ser possível aumentar qualidade sem aumentar recursos. “Chega a um ponto que por mais que se coloque dinheiro a qualidade não aumenta. Resolve-se mais com a cabeça e alguma verba, do que só com recursos”.


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SAÚDE>


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YES, WE CAN >

Governo de SC anuncia financiamento de dívidas de hospitais filantrópicos e privados. “Sim, é possível”, foi a resposta do governador ao presidente da FEHOESC a esta reivindicação, que tramitava há anos no labirinto burocrático do poder.

E

ntidades hospitalares de Santa Catarina (AHESC-FEHOESC e

FEHOSC) deram um importante passo para sanar as dívidas

do setor, que hoje somam mais de R$ 200 milhões. Uma reivin-

dicação antiga foi atendida durante a 6a Conferência de Gestão

Hospitalar dos Países de Língua Portuguesa e o 35° Encontro

Catarinense de Hospitais. O governador Raimundo Colombo assinou um convênio que autoriza uma linha de crédito através do Badesc, com ju-

ros menores de mercado para hospitais filantrópicos que atendem o SUS em Santa Catarina. A medida irá beneficiar 200 instituições no estado.

A cerimônia contou com a presença ainda da secretária de Saúde, Tânia Eberhardt e o presidente do Badesc, João Paulo Kleinubing.

O governador reconheceu que há, de forma muito clara, um baixo in-

vestimento na saúde. Além de poucas verbas para o setor, os 14 hospitais estaduais do estado consomem quase todos os recursos públicos disponíveis – e em contrapartida atendem apenas um sexto da população.

Raimundo Colombo revelou que ações de governo para fortalecer as en-

tidades filantrópicas e privadas foram alvos de ações na Justiça. “Envolve

uma questão ideológica muito forte e nem sempre racional”, afirmou o governador catarinense, que revelou outra medida que pretende tomar:


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Bom senso e aglidade

Sim, financiar é possível, diz o governador catarinense, exterminando numa canetada uma hesitação burocrática que se arrastava há anos.

assumir a conta de luz dos hospitais.

“Pedi para fazerem um projeto. Talvez

só possa trazer o benefício em janeiro

(2014). Tudo o que fortalece a ação de vocês fortalece as nossas. As pessoas

não querem saber se é do estado, do município ou filantrópicas. Elas querem saúde!”

O presidente do Badesc detalhou

que as novidades vão ajudar a desbu-

rocratizar o processo de concessão de crédito. O financiamento para hospi-

luta pela causa, observou que ninguém

com os hospitais filantrópicos e não só

Hoje os juros são de 1,6% ao mês - e

“Queria agradecer ao Kleinubing que

ao governador, na mesma hora Colombo

tais passa a ter juros de 8,5% ao ano e

10 anos para o pagamento das dívidas.

as dívidas precisam ser negociadas em cinco anos. O presidente da FEHOSC, Hilário Dalmann, que há bastante tempo

quis operar essa linha crédito e agrade-

ceu o empenho do governo e do Badesc.

em um mês e meio atendeu a gente. Isso

mostra como estão preocupados com a saúde. Estão também preocupados

os públicos”, disse. Dalmann ainda lembrou que quando procurou ajuda junto disse “sim, é possível”.


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GESTÃO>

A LÓ

IRRAC >

O Brasil criou um modelo de baixo impacto e alta insatisfação, subfinanciado e centralizado. O Ministério da Saúde planeja derrubar essa lógica e impor novos desafios à gestão hospitalar brasileira.

G

randes hospitais com taxas altas de ocupação. E pequenos, ociosos. Ana Paula Cavalcante, coordenadora de Atenção Hospitalar do Ministério da Saúde, não é branda nem comedida ao traçar o retrato do modelo hospitalar brasileiro. Durante a 6° Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Portuguesa e o 35° Encontro Catarinense de Hospitais, ela revelou o que o Governo Federal pensa sobre a situação: quer dar outra finalidade aos pequenos hospitais ou investir naqueles que têm potencial de virar referência. Ana Cavalcante apresentou um panorama da realidade hospitalar brasileira.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, quase 50% dos hospitais têm menos de 50 leitos. Na contramão da própria época, segundo Ana, em que a maioria dos países está criando conglomerados. O levantamento do Ministério ainda mostra que 46% dos leitos de UTIs estão em hospitais com 50 a 100 leitos. “Leito de UTI é um sinal de adensamento tecnológico. Quanto maior porte do hospital, mais adensado tecnologicamente”, observou. Especialista no setor, a coordenadora classifica o modelo brasileiro como ineficiente, de baixo impacto e alta insatisfação. “Hoje a gente busca a humanização, a qualidade e a efetividade. Temos ainda que rever a formação dos nossos profissionais”, instrui Ana Paula. “A tendência mundial é passar do atendimento hospitalar para o ambulatorial e o domiciliar. Já o atendimento no hospital deve envolver muita tecnologia e novos conceitos arquitetônicos”.

Os hospitais devem ainda ser integrados à Rede, mas o que se vê no Brasil é um isolamento. “A política nacional de atenção hospitalar estabelece diretrizes para criar uma Rede de atenção, montada com base no perfil demográfico e epidemiológico de


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GICA

IONAL cada região”, preconiza Ana Cavalcante. “Muitos hospitais surgiram com ofertas sem olhar a necessidade da região. O hospital precisa ser regionalizado e não ficar num local com apenas 10 mil habitantes. Ele também precisa ser um espaço de educação e com formação de recursos humanos”.

O Ministério já tem algumas redes traçadas que seriam prioritárias, como a Cegonha, voltada a maternidade e nascimento seguros. Outra rede para dependentes de álcool e drogas, ainda outra para urgência e emergência, a rede de doenças crônicas e a de atendimento a pessoas com deficiência. “Temos que avançar para chegar a um modelo diferenciado, que tenha financiamento efetivo para os hospitais. Temos que sair da lógica do pagamento por procedimentos, que está longe de ser um financiamento sustentável”, argumenta.

A REDE BRASILEIRA

7.219 hospitais - 5,4 mil atendem também pelo SUS, destes 51% são públicos e 49% privados - Maioria dos hospitais com menos de 30 leitos é municipal. Entre 30 e 50 leitos também. O que soma quase 50% do total

A exposição de Ana Paula gerou questionamento por parte do presidente da FEHOESC, Tércio Kasten, que expôs a realidade de Santa Catarina. No Estado, os 180 hospitais privados são responsáveis por 70% dos atendimentos. Destes, 101 têm menos do que 50 leitos. “São hospitais antigos criados pela comunidade e não dá pra fechar. É uma questão social relevante”, indagou o presidente.

Ana Paula enfatizou que a proposta do Ministério da Saúde não é fechar os pequenos hospitais de maneira indiscriminada. Apesar de ressaltar que, em unidades de pequeno porte, o risco de óbitos é maior, observou que a história deles não pode ser ignorada. “Inevitavelmente a rede hospitalar vai mudar e não podemos fazer isso de forma traumática”, afirmou.

A coordenadora de atenção hospitalar do Ministério da Saúde anunciou que será realizada uma pesquisa in loco em cada um dos pequenos hospitais para conhecer o trabalho feito por eles. De acordo com ela, as unidades podem ganhar um novo destino – como ser transformadas em Unidades de Pronto Atendimento, ou Casas de parto normal ou maternidade. “O impacto financeiro desses hospitais está insustentável. Vamos ter que nos debruçar caso a caso, região por região. Estudar o que cada um faz e realizar o estudo de forma rápida, de maneira racional e sem traumas. Pensar como migrar. É rever e mudar caso a caso. Ou investir ou transformar”.


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ENTREVISTA>

DIAGNÓSTICO

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Pelo menos 13 milhões de brasileiros sofrem algum tipo de doença rara. O tratamento médico, hospitalar e farmacêutico nesses casos é complexo desde o diagnóstico. A ONG Raríssimas Brasil auxilia o governo, pacientes e familiares nesse processo.

A

s doenças raras não são frequentes nem conhecidas. Mas também não são poucas. No Brasil, elas atingem 1,63 pessoas em cada grupo de 2 mil habitantes. A Organização Não Governamental RARÍSSIMAS Brasil auxilia esses pacientes e seus familiares. As fundadoras da ONG são Regina Próspero e Paula Lito Costa, que também coordenam, no Ministério da Saúde, um grupo de políticas de atenção às pessoas com doenças raras.

Saúde Catarinense: Como surgiu este projeto?

Regina Próspero: Tudo começou pelos nossos filhos. Tenho três filhos e os dois mais velhos foram diagnosticados com Mucopolissacaridose, doença genética rara (Nilton faleceu com seis anos, e Eduardo tem 23). Um dos dois filhos da Paula foi diagnosticado com Cornélia de Lange, síndrome genética (Marco faleceu em 2006, com 17 anos). Comecei atuando na Associação Paulista de Mucopolisacaridose, que nasceu em 2001. Já a Raríssimas Bra-

sil, com sede em São Paulo, surgiu em 4 de julho de 2012, como consequência de nossa necessidade de buscar atendimento e benefícios para ajudar aqueles que sofriam com a mesma situação e também para aqueles que padecem de outras patologias. Nosso principal objetivo é lutar por políticas públicas e benefícios para esses portadores.

Como a Raríssimas atua com famílias carentes?

Regina: Se é necessário um medicamento que não é oferecido, ou é negado pelo SUS, entramos com ações judiciais pedindo o tratamento ao Governo Federal. Normalmente, isso leva de seis a oito meses. Às vezes, solicitamos doação destes medicamentos, para garantir o tratamento e até mesmo a vida daquele paciente, até as decisões judiciais finais.

Também existe o Raríssimas Portugal. Como funciona lá?

Paula Costa : Lá existe há mais tempo, desde 2002. Entre os principais projetos, temos a Linha Rara, um call-center para dar assistência aos portadores de doen-


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Quantas são as doenças raras e como são? Paula: Existem em torno de 7 a 8 mil doenças raras. Os sintomas são variáveis e exigem tratamentos multidisciplinares, como de fonoaudiologia e fisioterapia, além de medicação. Mas, basicamente, elas podem ser divididas em quatro pilares: genéticas, autoimunes, neurológicas e os cânceres pediátricos. Se olhar em que grupo a criança se encaixa, fica mais fácil diagnosticar.

Quais sinais podem indicar que é caso de uma doença rara?

Raríssimas

ONG auxilia o governo, pacientes e familiares no processo de tratamento de doenças raras.

ças raras e seus familiares. Também temos um grande projeto, a Casa dos Marcos. O local, em construção com a ajuda de doações, deverá atender os pacientes e até permanecer com crianças que têm doenças raras enquanto os pais viajarem. A gente pretende trazer esse projeto para o Brasil. Além disso, assim como foi em Portugal, queremos capacitar aqui as famílias e os médicos para lembrá-los de que, quando eles tiverem dificuldade em diagnóstico, pode ser caso de uma doença rara. Podem entrar em contato conosco, pelo linharara@rarissimas.com.br, e podemos ajudar pela nossa rede internacional.

Quais as principais dificuldades que os portadores de doenças raras enfrentam?

Regina: A busca por um diagnóstico correta é perversa porque você peregrina de um médico para outro. Inclusive, muitos chegam a morrer achando que, por exemplo, têm uma dor de barriga - mas não é só isso. Tratam de um problema pontual, mas não se investigam as causas. Esses problemas podem até ser passados geneticamente para outras gerações.

Regina: Um problema crônico é um sinal, como uma criança que apresenta uma diarreia que não passa. Em um ultrassom, vai aparecer se tem outro órgão comprometido. Na dúvida, encaminhe para um geneticista, para um neurologista. A maioria dos pacientes vai receber um acompanhamento periódico de um hospital-escola, com equipe especializada, que poderá ajudar e avaliar a evolução do quadro ou até estudar para a fabricação de medicamentos.

Existiria um outro meio para se fazer o diagnóstico precoce?

Regina: Muitas doenças poderiam ser diagnosticadas no teste do pezinho. Hoje, o teste só avalia se há quatro doenças, mas ele poderia encontrar até 53. O que a gente quer é que sejam inseridas na avaliação pelo teste pago pelo governo ao menos 15 doenças. Para tratar do indivíduo antes de ele apresentar os sintomas.

Como mães, como é atuar na Raríssimas? Paula: Você coloca o amor que você dava para seu filho na causa que você representa. A gente quer dizer para essas mães que sabemos realmente o que elas estão passando. Mais informações: No Brasil: facebook.com/rarissimasbr

www.rarissimas.pt / linharara@rarissimas.pt


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ANGOLA>

UM MUNDO

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A CRIAR Assolada no Século XX por guerras civis, Angola desenvolve um projeto de reconstrução nacional e manutenção da estabilidade política que tem, como um dos eixos fundamentais, a expansão do acesso à prestadores de serviços de saúde. Gerir e melhorar esse sistema é o desafio de administradores hospitalares que participaram da 6° Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Portuguesa .

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Delegação Angolana de gestores hospitalares não desconhece a arte de tornar possível o impossível – esse exercício igualmente tão frequente nas administrações de hospitais brasileiros. Lá, como cá, o desafio é a regra: “ética, financiamento da saúde e manutenção ou obtenção de padrões de qualidade são problemas diários de gestão”, comenta o médico angolano Jorge Emanuel da Fonseca Dupret. “E não só em Angola. Nossos irmãos de Moçambique, Timor Leste, Guiné Bissau e São Tomé, que não puderam comparecer à Conferência, se encontram todos em situações análogas”.

Que analogia é essa? Basicamente, são países com baixíssimo índice de IDH,

que enfrentaram recentemente guerras internas ou externas, sairam ou estão saindo de regimes ditatoriais - ou, pior, totalitários - e têm pela frente a tarefa longa e complexa de recriar seu próprio mundo.

Angola conseguiu até aqui o essencial. “Depois de 30 anos de guerras, mantivemos a integridade territorial, e lançamos as bases de um Estado Democrático de Direito”, resume Dupret. Para isso, o país teve de resistir logo em 1975 à invasão simultânea de dois exércitos – o zairense a Norte, e o sul-africano a Sul – à ocupação de parte do seu território pelo exército de Pretória no início dos anos 80 e à desestabilização de longa duração conduzida por um partido armado, a UNITA de Jonas Savimbi, diretamente

apoiado pelo regime racista da África do Sul.

“Por isso não podemos comparar a realidade brasileira com a angolana”, explica o delegado angolano. “Recém-completando 11 anos de paz, estamos nessa fase de construção. Tivemos fuga maciça de profissionais e estamos correndo em busca de médicos expatriados, principalmente com nacionalidade cubana. Na enfermagem, também temos alguns problemas”, relata Jorge Emanuel da Fonseca.

Justamente por ter enfrentado, ao longo de sua própria história, uma trajetória inconstante de avanços e recuos, e carências contornadas por criatividade, a experiência brasileira de administração hospitalar acaba sendo mais útil para países como Angola do que, por exemplo,


< GESTÃO

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o modelo hospitalar canadense ou britânico.

Os casos apresentados durante a Conferência em Florianópolis terão uso prático e imediato nos hospitais angolanos. “Angola tem grande cooperação com o Brasil na área de saúde, e estamos reproduzindo as boas práticas que constam nos manuais brasileiros, porque, para nós, é uma escola”, ressaltou Dupret.

Um exemplo concreto: a médica Constantina Furtado é diretora de um dos maiores hospitais de Angola, o Américo Boavida, que está passando por uma reestruturação. Constantina anotou a metodologia e os resultados catarinenses da implantação da Rede de Urgência e Emergência para adaptar ao plano estratégico do hospital angolano em que atua.

A primeira fase desse plano começou em 2010 e terminou neste ano. A gestão da urgência era o foco, trabalhada em sete eixos. “O hospital está localizado em uma região onde a população é mais carente e com pouco acesso aos serviços de saúde. Era preciso abrir as portas. E como a principal porta de entrada para um hospital é sempre a urgência nós redefinimos metodologias para essa porta facilitar, não barrar, o acesso da população”, explicou. Na Urgência do Boavida, foi aplicado o conhecido Protocolo de Manchester, que triplicou o número de atendidos e reduziu o grande número de mortes às portas da Urgência, já que muitos do-

entes que ali chegava tinham problemas mais graves, como AVC e hipertensão, e o hospital não tinha uma retaguarda para recebê-los. “Houve ainda mudanças para criar mais comprometimento por parte dos funcionários. Foi preciso instalar o controle biométrico, o que gerou alguns conflitos”, diz Constantina Furtado, que agora entrou na segunda fase do plano. “Após a normalização da produtividade, estamos no processo de aumentar

Delegação de Angola

Troca de experiências além-mar na Conferência dos Países de Língua Portuguesa.

a qualidade e a segurança do doente, e implementando a humanização da assistência. Então agora estamos desenhando a certificação, e qualificação de alguns serviços”.

Constantina está convencida de que eventos como a Conferência são sempre importantes para que gestores façam uma avaliação do trabalho. “Vislumbramos com mais precisão onde estamos e podemos nos corrigir no trajeto da nossa gestão”, analisa.

A mãe das batalhas

“Perdemos a guerra por 20 motivos” - diz o capitão. “O primeiro: faltou munição”. E o general responde: “nem precisa contar os outros 19”. A lógica é correspondente na batalha hospitalar de Angola.

Se uma necessidade elementar da batalha diária pela saúde não é atendida, como equilibrar as demais? O médico Welema Cipriano da Fonseca, diretor do

Hospital Regional do Huambo, reconhece que as Conferências de gestores hospitalares têm sido catalisadores da criação de uma série de medidas e normas para melhorar o atendimento à população dos países de língua portuguesa. Mas alerta que o setor de recursos humanos representa a principal dificuldade do sistema hospitalar de Angola. “Há insuficiência de médicos e enfermeiros. Há ainda escassez de recursos financeiros”. Só quando forem resolvidos ambos – a mãe de todas as batalhas – pode-se pensar em dar outro passo. “Que, ao meu ver, seria a criação de serviços de alta complexidade e no aprimoramento dos funcionamentos de urgência e emergência, porque a prática tem sido os doentes sairem do nível primário e irem ao nível terciário sem passar pelo secundário, sem necessidade, por pura falta de confiança nos recursos humanos que atuam na atenção primária “. A taxa da população assistida pela rede hospitalar em Angola chega a 60%, quando era de se esperar que essa fosse a quantidade de pessoas atendidas na atenção primária.


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POLÍTICA >

POSITIVAS

EMENDAS >

O

IMPOSITIVAS

Parlamentares federais articulados com AHESC-FEHOESC e FEHOSC estão elaborando as emendas ao orçamento da União que podem assegurar mais verbas para as entidades hospitalares catarinenses. O esforço maior é para garantir 25% das verbas do pré-sal para a saúde dos brasileiros.

s deputados que formam o Fórum Parlamentar Catarinense se comprometeram com AHESC-FEHOESC e FEHOSC em elaborar emendas coletivas para garantir o maior volume de recursos possíveis para os hospitais privados e filantrópicos de SC que atentem o SUS. “Foi um encon-

tro inédito, dos 16 deputados federais catarinenses, 12 estiveram lá – e os três senadores que não estiveram presentes enviaram os chefes de gabinete, reporta o presidente da FEHOESC, Tércio Kasten. O acordo firmado é que, apesar de ser uma ação de bancada, cada deputado que fizer a sua indicação terá respei-

tada a autoria no momento da entrega do valor ao hospital, que saberá quem foi o responsável por garantir os recursos. Kasten também solicitou que a bancada catarinense ligada à saúde ajude no descontingenciamento de R$ 25 milhões, referentes às emendas de 2009 a 2011. Por causa de todos os trâmites exigidos, o dinheiro não chegou aos hospitais. A


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proposta é que técnicos do Ministério da Saúde se desloquem para Santa Catarina para sanar as diligências de vários impasses , agilizando o repasse dos valores. “Estamos oferecendo toda a estrutura do Instituto Santé para acompanhamento técnico e liberação desses recursos para os hospitais privados e filantrópicos catarinenses”, dispôs Tércio Kasten. O presidente da FEHOESC analisa

que o trabalho político em Brasília jamais esteve tão bem articulado. “É uma questão de estar lá. Essa negociação política maior com as entidades foi possível com o Instituo Santé, que estava dentro do planejamento estratégico das três instituições”, AHESC-FEHOESC e FEHOSC, avalia.

O presidente da AHESC, Dario Staczuk, argumenta que o otimismo justifica-se pela total receptividade da bancada catarinense aos pleitos dos hospitais e pelos desdobramentos imediatos decorrentes das reuniões, “como o apoio dos parlamentares para inclusão no Projeto de Orçamento Impositivo do governo federal da vinculação compulsória de 30% dos valores das emendas para a área da saúde, bem como de 25% dos recursos do pré-sal também para a saúde”, diz Dario. Os recursos obtidos por emendas estão, inicialmente, destinados a investimentos na estrutura assistencial dos estabelecimentos, e também na construção, na reforma, na ampliação e na aquisição de equipamentos. “Mas

também queremos verbas de custeio dos serviços prestados, pois é essa a necessidade de quem atende pelo SUS, os prestadores de serviços privados e filantrópicos realizam 70% dos atendimentos pelo SUS em território catarinense”, recorda Dário. O presidente da FEHOSC, Hilário Dalmann, pediu o apoio dos parlamentares para o Governo catarinense criar linhas de financiamento através do Badesc com juros diferenciado em auxílio do custeio das instituições – pedido atendido semanas depois pelo governador Raimundo Colombo, e anunciado durante a 6° Conferência de Gestão Hospitalar dos Países de Língua Portuguesa e o 35° Encontro Catarinense de Hospitais, no final de agosto.


HOMENAGENS >

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Homenagem In Memorian ao Dr. Wilson Paulo Mendonça, recebida pelo filho, Fernando de Oliveira Mendonça.

Dr. Diogo Nei Ribeiro

José Cleber do Nascimento

Homenagem In Memorian ao Dr. João Carlos Baron Maurer, recebida pela esposa Eunice baron Maurer.

Homenagem In Memorian ao Dr. Amir Antônio Martins de Oliveira, recebida pelo filho Amir de Oliveira Filho.

Armando Taranto Junior

Dr.Waldemar Barbosa

Tércio Kasten, recebendo homenagem em nome do Dr.Ronald Moura Fiuza.

Canísio Isidoro Winkelmann


< HOMENAGENS O jantar de comemoração dos 50 anos da AHESC, reuniu mais de 500 convidados no Lira Tênis Clube. O presidente da Associação de Hospitais de SC, Dario Staczuk, prestou homenagens aos ex-presidentes e também foi homenageado pelo aniversário da entidade.

Ir. Sandra Judite Roaris

FEHOSC homenageia AHESC

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SANTÉ>

SOB NOVA

DIREÇÃO

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Instituto Santé assume a frente do Hospital Salvatoriano São Luiz, de Campo Alegre, e pretende aprimorar processos internos.

esponsável pelo Escritório de Projetos, que tem garantido mais recursos aos hospitais privados e filantrópicos de Santa Catarina, o Instituto Santé dá outro importante passo: ele é o responsável pela gestão do Hospital Salvatoriano São Luiz, em Campo Alegre. Essa é a primeira vez que o Instituto faz esse trabalho, desde que foi criado pela AHESC-FEHOESC e FEHOSC.

A gestão foi assumida no começo de agosto de 2013. Teve início depois que o hospital - de baixa e média complexidade - foi repassado para a prefeitura. Por indicação das irmãs salvatorianas, a administração pública procurou a AHESC-FEHOESC para firmar um convênio, repassando a gestão do local para o Instituto Santé. A prefeitura ainda busca uma operação de crédito em Brasília para a compra do prédio onde funciona a unidade. Enquanto isso não acontece, as irmãs formalizaram um contrato de comodato para que a administração pública use o espaço até dezembro de 2014. “Essa é a primeira experiência que teremos em gestão hospitalar, mas esse trabalho já estava no escopo de atividades do Instituto Santé”, destaca o presidente da FEHOESC, Tércio Kasten. Kasten explica que o Santé pretende incrementar o atendimento que já vinha sendo prestado pelas irmãs. De acordo com ele, se houver mudanças, serão para melhor, com a busca por mais serviços e mais procedimentos hospitalares, que

atendam às necessidades dos moradores. “O Santé reúne profissionais com décadas de experiência em gestão hospitalar, capazes de tocar um processo como este, apesar de ser o primeiro hospital dirigido diretamente pelo instituto”, assegura Tércio.

Os funcionários do São Luiz continuam os mesmos, assim como os serviços de diagnósticos e as terapias. Também permanecem os fornecedores e o administrador. Será formado um conselho, que dará todos os encaminhamentos adicionais necessários. As mudanças de pessoal que ocorreram até agora foram por vontade própria dos funcionários. O Instituto está elaborando um estudo e planejamento, montando os novos caminhos que o hospital vai tomar. Os projetos serão sempre ligados às necessidades do município, junto à prefeitura e à secretaria de saúde municipal. Serão escolhidas algumas especialidades para que virem referência na região.

O São Luiz conta hoje com 28 leitos, distribuídos nas clínicas médica, cirúrgica, pediátrica, obstétrica e traumatoortopédica. Há ainda três salas cirúrgicas, centro de material e esterilização, ambulatório, radiologia, ulltrassonografia e eletroneuromiografia.

Junto ao hospital, funciona um lar de idosos. O presidente da FEHOESC comenta que há uma fila de espera grande para internações e que este é outro ponto que poderá se melhorado no São Luiz. A gestão feita pelo Santé tende a melhorar e aperfeiçoar o atendimento, implantando conceitos de hotelaria, para conquistar

outros pacientes de municípios vizinhos.

Para garantir as melhorias, o Santé irá à Secretaria de Estado da Saúde atrás de recursos que possibilitem levar novos procedimentos ao hospital, e transformar o local numa porta de entrada na rede de urgência e emergência.

Além de buscar o diálogo com o Governo do Estado, o Instituto também tem se articulado politicamente com parlamentares. O deputado federal, Mauro Mariani já fez uma emenda de R$ 200 mil para o São Luiz. O deputado Darci de Matos também demonstrou interesse em ajudar a instituição.

O Santé decidiu mobilizar empresários para que também ajudem o hospital. São donos de empresas e indústrias que podem destinar algum percentual de recursos para o São Luiz. Para Tércio Kasten, o desafio maior está na sensibilização junto aos médicos do hospital para a necessidade de modernizar o local e transformá-lo em uma referência na região. “Vamos precisar da confiança e empenho do corpo clínico, sem esses profissionais não conseguimos fazer nada”, ressalta. O presidente avalia que essa iniciativa inédita consolida uma proposta conceitual do Instituto Santé, que é criar uma rede assistencial hospitalar, baseada em pequenos hospitais comunitários. “Na nossa visão eles não podem simplesmente fechar as portas e deixar a população desassistida”, diz. “Por isso, a ideia é assumir a gestão de outros hospitais e estruturar essa rede”.


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Saude Catarinense 58