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US$ 13 bilhões em armamento Exportações do país no setor devem superar as projeções para 2015 REUTERS

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Este suplemento é produzido e publicado pelo jornal Rossiyskaya Gazeta (Rússia), sem participação da redação da Folha de S.Paulo. Concluído em 5 de agosto de 2015. Publicado e distribuído com The New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), The Daily Telegraph (Reino Unido), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), El País (Espanha), La Nacion (Argentina) e outros.

Plano B Alternativa ao Banco Mundial, instituição deslancha após cúpula do Brics em Ufá, com definição de presidente e regulamento

‘Novo Banco’, novas ambições Capital de US$ 100 bilhões do Novo Banco do Brics já desperta o desejo dos setores público e privado, dentro e fora do grupo. MARINA DARMAROS

Embora só comece a financiar os primeiros projetos a partir do ano que vem, o Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, que iniciou suas atividades ainda durante a 7° cúpula do grupo, no início de julho, já tem pretendentes a seus fundos, avaliados em US$ 100 bilhões. Com volume de capital autorizado modesto, se comparado ao do Banco Mundial, que maneja US$ 2 trilhões (ver opinião na p.2), o Novo Banco tem candidatos das mais diversas áreas, tanto do setor público, como do privado, e até de países europeus. Os países-membros, porém, terão direitos exclusivos na instituição, e a Rússia, que perdeu a possibilidade de pedir crédito junto do BERD (Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento) deve aproveitar a nova oportunidade, com a seleção dos beneficiários programada para se iniciar já no final do ano. “Em um momento em que as empresas russas têm acesso cortado ao capital norte-americano e europeu, o surg i me nt o de u m a font e alternativa de investimentos deve ter um efeito benéfico na economia russa”, diz o diretor do departamento econômico da Fundação Instituto de Energia e Finança, Marcel Salikhov.

ALEXEY DRUZHININ / TASS

GAZETA RUSSA

Grupo de países emergentes passa de mutuário a credor

“Com acesso cortado ao capital ocidental, Rússia deve ver efeito positivo com criação do banco”

Público x privado Algumas empresas privadas do país já manifestaram interesse no banco. Uma delas foi a holding agroindustrial moscovita Miratorg,

que teve joint venture com a Sadia no enclave russo de Kaliningrado entre 2007 e 2009, quando adquiriu a parcela da brasileira. “Mas só poderemos discutir mais detalhes quando todas as condições e o mecanismo de interação do mutuário com o banco forem conhecidos. Ainda é cedo para falar sob quais condições esse

financiamento pode ser interessante”, declarou um porta-voz da Miratorg à Gazeta Russa. “As empresas russas esperam receber exatamente os mesmos recursos que as companhias dos outros países do Brics”, diz a economista especializada em Brics Aleksandra Morozkina. No Brasil, o setor privado

também reivindica acesso aos fundos. No início do ano, por exemplo, a secretária-executiva dos Brics da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Silvia Menicucci, disse à imprensa que uma das demandas dos empresários é que o banco complemente financiamentos que, atualmente, não são oferecidos pelo Banco Nacional de Desenvol-

vimento Social (BNDES), como projetos de infraestrutura de empresas brasileiras fora do país ou projetos conjuntos entre o Brasil e outro país para investir em um terceiro mercado. Apesar dos rumores de que o banco nasce inicialmente voltado aos projetos públicos, seu acordo de criação, assinado em Fortaleza no ano

passado, prevê “apoio a projetos públicos e privados” de “infraestrutura e desenvolvimento sustentável no Brics e em outras economias emergentes e países em desenvolvimento”. Essa foi uma das preocupações levantadas na segunda edição da reunião “paraCONTINUA NA PÁGINA 3

Erupção preciosa Relâmpagos poderiam ter parte na formação de mineral

Modernização Diferença climática não é obstáculo

Cientistas encontram diamantes em lava de vulcão congelada

Tecnologia agropecuária brasileira inspira renovação

Pedras de um novo tipo estavam em magma expelido por vulcão na península do Kamtchatka entre 2012 e 2013.

SHUTTERSTOCK/LEGION-MEDIA

ROSSIYSKAYA GAZETA

Diamantes de um novo tipo foram detectados na lava congelada expelida pelo vulcão Plôski Tolbatchik, na península do Kamtchatka, entre 2012 e 2013, de acordo com o site do Ministério da Educação e Ciência da Federação Russa. A erupção que resultou na descoberta foi considerada incomum e caracterizada como

Traços geominerais das pedras se diferenciam dos tradicionais

intersticial - quando a lava sai não pela cratera, mas por fiss u r a s n a s e nc o s t a s do vulcão. Em toda a história, só foram registradas seis grandes erupções desse tipo desde o século 10 (na Islândia, no México, nas Ilhas Canárias e no Kamtchatka). O documento divulgado pelo ministério destaca que de uma pequena amostra da lava foram extraídas centenas de diamantes de grandes dimensões. Geólogos apresentaram uma teoria de que a ação de relâmpagos poderia ter formado os diamantes de Tolbatchik, quebrando os gases vulcân icos que contêm carbono. Para tanto, a natureza teria se encarregado de “copiar” um processo patenteado pela França, em 1964, para a obtenção de pedras artificiais com uso de fortes cargas elétricas sobre gases.

GAZETA RUSSA, FONTE CONFIÁVEL DE NOTÍCIAS 83% consideram a gazetarussa.com.br como fonte para novos pontos de vista de especialistas russos

81% acreditam que a gazetarussa.com.br fornece informações e análises que vão além da cobertura tradicional da mídia sobre o país 77% dizem que nossos projetos on-line são relevantes para todos - e não apenas a quem tem algum interesse especial pela Rússia * P e s q u i s a re a l i z a d a co m l e i to re s d a G a ze t a R u ss a e d o p ro j e to R BT H e m m a rço d e 2 0 1 5

Enquanto Moscou se prepara para substituir importações, vice-premiê afirma que experiência do Brasil é “muito interessante”. ÍGOR RÔZIN GAZETA RUSSA

O vice-premiê russo Arkádi Dvorkovitch anunciou em julho que a Rússia está estudando a experiência brasileira na implantação de tecnologia agropecuária e que o setor do país está de portas aber tas pa ra tais inovações. “Hoje, as companhias que por muitos anos se desenvolveram e aumentaram a produção agrícola extensiva começaram a transição para as novas tecnologias. Está ocorrendo uma introdução ativa

de novas tecnologias na agricultura e na pecuária”, disse. Dvorkovitch ressaltou o interesse russo no histórico brasileiro no setor. “A experiência do Brasil é muito interessante, e agora a estudamos ativamente. Há muitas semelhanças, mas há também as particularidades climáticas”, explicou. Segundo ele, uma fase de muita atividade na introdução e aprimoramento das novas tecnologias agropecuárias se inicia na Rússia.

Planos governamentais Em outubro, segundo o vice-premiê, uma base normativa deverá limitar as compras estatais de equipamento est r a n ge i r o e m d ive r s o s setores.

U M P O N T O D E V I S TA B A L A N C E A D O S O B R E A R Ú S S I A

Nesse sentido, o governo russo estaria preparando planos “para a substituição de importações em todos os ramos”, para incentivar a produção tecnológica dentro do país. Ele também relembrou que o tema já foi debatido no fór u m “I n noprom”, em Iekaterinburgo. “A discussão será estendida também ao fórum ‘Inovações Abertas’, em outubro. Até lá já estarão prontos os principais documentos tanto para telecomunicações, como para tecnologias médicas, equipamentos para química, petroquímica, produção de petróleo e gás. Em setembro ocorrerá a fase mais ativa da discussão dessas questões”, acrescentou Dvorkovitch.

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Opinião

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TRAGÉDIA E MENTIRAS NO CASO DO MH17

O SONHO BRASILEIRO DOS NAVIOS MISTRAL

Vitáli Léibin

de helicópteros de ataque Mi-28NE ou Ka-52.

JORNALISTA

U

Dura realidade

TATIANA PERELYGINA

Aleksandr Korolkov HISTORIADOR

A

relutância francesa em entregar os navios de assalto Mistral encomendados pela Rússia já dura quase um ano, mas parece ter evoluído um pouco. No final das contas, o país não receberá os navios e será indenizado - o valor foi finalmente acertado. Resta apenas definir a quem vender as embarcações, que foram construídas com participação russa e levando em conta as exigências e necessidades da Marinha do país. Entre os possíveis compradores, a imprensa já citou China, C a n ad á e at é E s t ado s Unidos. Na semana passada, no entanto, durante uma apresentação do analista militar Robert Farley, professor da Escola de Diplomacia Patterson, o Brasil também passou a integrar a lista de pretendentes. Todos ganhariam com a ideia: o Brasil aumentaria substancialmente a capacida-

de de sua Marinha, a França poderia se livrar dos Mistral “encalhados” e a Rússia poderia equipar as embarcações com armas e helicópteros.

Utopia benéfica Atualmente, a frota militar de transporte brasileira não corresponde a suas ambições de liderança regional. Após a retirada de uso, em 2012, do navio de desembarque de doca “NDD Rio de Janeiro”, a Marinha do país ficou apenas com quatro navios de transporte, construídos nas décadas de 1950 e 1960. O Mistral pode transportar, além de 16 helicópteros, cerca de 13 tanques, 50 veículos blindados e 450 fuzileiros navais. Um navio desses aumentaria substancialmente a capacidade da Marinha brasileira não só para conduzir operações no Atlântico Sul, na proteção da plataforma continental e de seu setor na Antártica, mas também para desembarcar forças em qualquer lugar do mundo. A moderna embarcação, com a instalação de um sistema de base portuária e a

possível transferência de tecnologia para sua manutenção, seria útil para o Brasil concretizar seus planos de construção de um porta-aviões próprio, anunciados no ano passado pelo então ministro da Defesa, Celso Amorim. O destino dado às embarcações Mistral “russas” - que

cisaria equipá-los com helicópteros que pudessem dar apoio às tropas e impedir submarinos ou navios inimigos. Nesse caso, poderia adquirir ainda o helicóptero coaxial russo Ka-52K, projetado para uso em navios. As embarcações Mistral “russas” foram modificadas

Transação seria benéfica para Rússia, que veria seus Mistral longe da Otan e poderia equipá-los

Orçamento militar russo é três vezes superior ao do Brasil e 1,2 bi de euros dos Mistral já pesavam

representariam um desafio significativo caso incorporadas pela Marinha dos países da Otan - seria benéfico, caso essas fossem para o Brasil. Com o casco reforçado até a classe de embarcação quebra-gelo, os navios podem ser usados na Antártica, e as armas suplementares permitem reduzir o número de navios de escolta. E, se o país comprasse os navios da classe Mistral, pre-

para serem usadas especificamente junto a esses helicópteros. Para tanto, aumentou-se a altura do ‘twin deck’, o espaço entre os conveses, e foram feitas alterações na abertura dos elevadores que conduzem os helicópteros para o convés superior, já que os helicópteros russos são menos compridos, porém mais altos. Além disso, o Brasil já negocia com a Rússia a compra

ma das mais terríveis tragédias do conflito – ainda em curso – na Ucrânia ocorreu há um ano, em 17 de julho de 2014. Uma aeronave da Malaysia Airlines que fazia o voo MH17, entre Amsterdã e Kuala Lumpur, foi abatida quando sobrevoava a região de Donetsk, no leste ucraniano. Todas as 298 pessoas a bordo morreram. No Ocidente, assim como na Ucrânia, a opinião pública se convenceu desde o início de que os culpados da tragédia eram ‘combatentes pró-Kremlin’, isto é, os separatistas de Donbass, no leste ucraniano, ou a própria Rússia. Mas, enquanto o inquérito não chegar ao fim, tudo o que temos são declarações fragmentadas, muitas vezes com grande carga política e emocional, das várias partes envolvidas na investigação. Em todas as guerras, todas as partes mentem. No conflito ucraniano mentem não só seus participantes diretos, mas também o Ocidente e a própria Rússia. Mas nunca antes a opinião pública ocidental, tradicionalmente livre e criteriosa, perdeu tanto seu senso crítico. Isso é surpreendente até para nós, russos, que (muitas vezes com razão) somos criticados pela falta de liberdade de expressão. Sim, os canais de TV estatais emitem opiniões antiucranianas, mas existe também uma oposição maciça na imprensa escrita que apresenta pontos de vista ucranianos e ocidentais. O que não se divulga é que, desde 26 de maio, quando Petrô Porochenko foi eleito presidente da Ucrânia, o Exército ucraniano começou a usar armas aéreas contra suas próprias cidades. Primeiro, a cidade de Donetsk, com mais de um milhão de habitantes, se viu sob fogo. Depois foi a vez de Lugansk, onde diversos civis morreram na praça central, após bombardeio, e outras. Na época, o governo ucraniano mentiu abertamente, dizendo que as vítimas ti-

Seguindo o discurso de Robert Farley, porém, pode-se ficar com a impressão de que o obstáculo do preço é transponível. Por isso, vale lembrar que o contrato para fornecimento dos navios Mistral à Rússia era da ordem de 1,2 bilhão de euros. Além desse valor, seria necessário capital para a criação de infraestrutura (base portuária e oficina), para a aquisição de helicópteros, para a manutenção obrigatória etc. Apenas os Ka-52K custam pelo menos US$ 20 milhões cada, e só o orçamento para a aquisição de helicópteros significaria um acréscimo de mais de US$ 320 milhões. A Rússia tem um orçamento militar quase três vezes maior que o do Brasil, e mesmo para ela a compra dos navios Mistral era um fardo muito pesado. Além disso, não é segredo que o orçamento militar brasileiro sofreu cortes que chegaram a acarretar em um atraso na assinatura do contrato para o fornecimento dos caças suecos Gripen. Já os russos, também não veem com grande otimismo a possibilidade de essa transação se efetuar, com a histórica dificuldade na questão da transferência de tecnologia e das operações de financiamento. Como resultado, até o momento, o sucesso dos negociantes de armamento russo no Brasil resume-se à venda dos sistemas portáteis de lançamento de mísseis terra-ar Igla e um contrato de fornecimento de 12 helicópteros Mi-35M, que se mostra tortuoso devido ao longo período de execução. As perspectivas do Pantsir-1S e de helicópteros de ataque são agora mais que vagas - isso sem contar os hipotéticos Ka-52K. Assim, a venda dos navios Mistral ao Brasil não é nada mais que uma ideia - atraente, sim, porém utópica. Aleksandr Korolkov é doutor em História.

BRICS E O MUNDO MULTIPOLAR Geórgui Bovt CIENTISTA POLÍTICO

A

Banco Mundial e do FMI, que, por vezes, impõem condições de motivação política para conceder ajuda.

Sistema paralelo

TATIANA PERELYGINA

cúpula do Brics, que ocorreu em julho na cidade russa de Ufá, não foi apenas uma prova simbólica de que o Ocidente não conseguiu isolar a Rússia com suas sanções. No ápice da presidência do país no grupo, a reunião introduziu elementos importantes no novo cenário multipolar mundial, resultando em uma série de soluções práticas. Os países do Brics divergem em valores e objetivos geopolíticos. Cada um vive situação econômica diferente. A China está desacelerando o crescimento para menos de 7% ao ano. As economias brasileira e russa vão diminuir neste ano entre 1,5% e 3,5%. A Índia exibe, otimista, quase 8% de crescimento, enquanto a África do Sul, de 1% a 2%. Mas até economias não li-

gadas intimamente podem influenciar na arquitetura da cooperação econômica internacional - que, pela primeira vez desde a 2ª Guerra Mundial, não tem participação dos Estados Unidos ou de qualquer um dos países do G7. Muitos se perguntam o que pode haver em comum entre a África do Sul, cuja economia na atualidade está mais perto da estagnação, e os autossuficientes Índia e Brasil. Quem não encontra respostas está olhando para o dia de hoje, e não para o amanhã. A África do Sul é, em muito, uma porta de entrada para todo o continente. E não só porque se trata de um dos países mais desenvolvidos da África, mas também porque, com os devidos investimentos infraestruturais (já ativamente feitos pela China), o continente é o que mais cresce no planeta, e tomará a dianteira como um dos maiores produtores de minerais para fomentar a economia global.

Após a cúpula de Ufá, entrou em atividade o Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, cujo capital pode chegar a US$ 100 bilhões. O acontecimento é significativo, já que a China, 2ª maior econo-

mia do mundo, está entre os votantes de “segunda categoria” no Banco Mundial e tem apenas 5% de participação no Banco Asiático de Desenvolvimento, contra os 15% detidos por EUA e Japão.

No âmbito do Brics também está sendo criado um fundo condicional de reservas cambiais, ferramenta de estabilização dos mercados de capitais nacionais em casos de crise. O fundo independe do

O Brics ainda planeja criar um sistema de pagamentos próprio. Afinal, a Rússia já enfrentou dificuldades quando a Visa e a MasterCard impuseram sanções contra seus bancos. Já a China, que criou seu próprio sistema de pagamento e só depois abriu seu mercado aos sistemas ocidentais, evitou maus bocados. Na cúpula de Fortaleza, em 2014, também falou-se muito sobre a criação de uma moeda única para substituir o dólar e o euro. Começando pela transição para seu próprio sistema de pagamento eletrônico, os países do Brics chegarão, mais cedo ou mais tarde, à criação de uma moeda comum. No entanto, isso deverá acontecer em condições completamente novas, quando não

n h a m s ido mor t a s p or separatistas. Até a tragédia de 17 de julho, a guerra pelo ar era feita sem cerimônia, mas a milícia de Donbass passou a deter (provavelmente com ajuda russa) armamento antiaéreo eficaz para impedir os ataques de Kiev. Em um desses episódios, chegaram a destruir um cargueiro ucraniano a 6.500 metros de altitude. É fácil supor que a milícia tenha confundido o Boeing com uma aeronave de transporte militar, considerando a falta de monitoramento ou a fraca qualificação militar. Ainda mais porque, naquele mesmo dia, um dos então líderes da milícia, chamado Ígor Strelkov, declarou que um

Ocidente perdeu tanto o senso crítico que surpreende até russos, acostumados com parcialidade avião militar ucraniano havia sido abatido na área de Torez. Teoricamente, o Boeing também poderia ter sido derrubado pelas forças armadas da Ucrânia, que na época temiam que os separatistas promovessem ataques aéreos. Ao obterem apoio moral, as tropas ucranianas reiniciaram com nova força seus ataques. De acordo com dados da ONU, pelo menos 6 mil já morreram na guerra em Donbass. A maior parte são civis. Bombas ucranianas caíram, inclusive, perto de locais onde estavam sendo conduzidos os trabalhos de perícia para a investigação do caso MH17. A investigação formal poderia determinar de onde e com que arma foi feito o disparo fatal. Mas, naqueles dias, a guerra não tinha uma linha de frente definida. Seja qual for a resposta, a principal causa da tragédia foi a própria guerra na Ucrânia. Vitáli Leibin é editor-chefe da revista“Rússki Reportior”.

apenas o dólar e o euro dominarem o mundo, mas também o yuan conversível, assim como as moedas digitais, intituladas “criptomoedas” (como os bitcoins). Com tudo isso, entretanto, comparar as novas estruturas financeiras do Brics, que dispõem de US$ 200 bilhões, com as do Banco Mundial, que maneja US$ 2 trilhões, não é correto. Se, por exemplo, contabilizarmos em dólares no valor de hoje o Plano Marshall do pós-guerra, teremos apenas US$ 103 bilhões. No entanto, a seu tempo, ele foi mais que suficiente para implementar as metas a que se propôs. Isso significa que a importância, aqui, está não só no montante total de investimentos, mas no funcionamento apropriado de um mecanismo novo de tomada de decisões para a criação de uma infraestrutura financeira alternativa ao FMI e ao Banco Mundial. Infraestrutura essa que seja mais justa, e não baseada na dominação de um país ou grupo de países. Gueórgui Bovt é cientista político e membro do Conselho de Política Externa e Defesa.

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lela” do Brics, realizada em Fortaleza por representantes da sociedade civil em 2014. Então, membros de ONGs, movimentos sociais e pesquisadores questionavam a utilização do banco para financia r g ra ndes projetos infraestruturais com ganhos para governos e empresas ligadas a esses, e a possível ausência de projetos para beneficiar diretamente a população, como hospitais, escolas ou obras de saneamento básico.

Energia e risco A nova instituição dá pistas de que poderá ter boa disposição para financiar projetos de alto risco, normalmente rejeitados por seus análogos. Em discurso na plenária da cúpula, o presidente russo Vladímir Pútin anunciou que o banco do Brics investirá em projetos conjuntos de grande porte em infraestrutura de transporte e energia, bem como o desenvolvimento industrial dos países-membros. Na presidência do grupo, o país chegou a propor um roteiro para a cooperação. “Realizamos consultas em nossos círculos de negócios e já incluímos no roteiro cerca de 50 projetos e iniciativas. Entre eles está a proposta de instituição de uma associação no setor energético, a criação de um centro internacional de

de de o novo banco conceder crédito a projetos de desenvolvimento na Grécia. A declaração foi feita durante visita a Moscou do ministro grego da Reforma Industrial, do Meio Ambiente e da Energia, Panagiotis Lafazanis. Então, no auge da crise, o grego reafirmou o interesse do país europeu em se tornar membro não fundador do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, de acordo com sua assessoria.

pesquisas em energia e de uma união da indústria de fundição”, declarou Pútin. Além disso, no mês passado, o ex-dirigente do Banco Central da África do Sul, Tito Mboweni, disse à TV Bloomberg que o banco, que deverá ter uma filial para a África subsaariana, tem total capacidade de socorrer a estatal de energia elétrica do país, a Eskom Holdings SOC Ltd. A companhia terá um deficit de caixa de US$ 18 bilhões até 2018 porque está construindo usinas de ener-

Inovação ambiciosa Outra fatia interna do grupo que mostrou interesse nos fundos foi a dos jovens entre 20 e 35 anos que participaram do 1° Fórum da Juventude do Brics, realizado no final de julho também em Ufá. Com participantes também da Organização para Cooperação de Xangai (Índia, Cazaquistão, Quirguistão, China, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão) e da Coreia do Sul, a reunião terminou com a proposta de criação de um “Banco de Ideias”. “[Os projetos de inovação do ‘Banco de Ideias’] serão analisados e, possivelmente, quando o Banco de Desenvolvimento do Brics avançar, poderão receber apoio”, anunciou Elena Sutor m i na, representante no evento da Câmara Pública da Rússia, uma das agências organizadoras do fórum.

Para círculos empresariais russos, setor energético merece grande atenção do banco gia para ampliar sua capacidade. Para tanto, a Eskom implementa apagões rotativos regularmente desde o início do ano, devido às dificuldades encontradas para satisfazer a demanda, limitando o crescimento econômico. E, apesar do foco nos países do próprio grupo, o acordo de criação do banco não exclui a prestação de socorro a países que não sejam membros. Ainda em junho, divulgou-se que o vice-ministro das Finanças russo, Serguêi Stortchak, cogitou a possibilida-

REUTERS

Pretendentes a capital de banco do Brics multiplicam-se FRASES

Lucro certo Obrigações em rublos renderam 7% em 2015

Kundapur Vaman Kamath

País é o melhor do Brics para se investir, segundo a Bloomberg

PRESIDENTE DO NOVO BANCO DO BRICS

Rússia ultrapassou China no quesito e seu potencial é “subestimado”, de acordo com relatório da agência de notícias financeiras.

"

Nosso objetivo não é desafiar o sistema existente, mas melhorar e complementar o sistema do nosso próprio jeito”

ALIONA UZBEKOVA ROSSIYSKAYA GAZETA

Tito Mboweni

A Rússia foi avaliada pela agência de notícias financeiras Bloomberg como o melhor dos países do Brics para se investir em 2015, ultrapassando a China, que antes liderava o ranking. “Nossas análises mostram que é preciso investir na Rússia”, diz o gerente de investimentos da assessoria financeira londrina GAM U.K. Ltd., Tim Love, citado no relatório da Bloomberg. De acordo com a agência, os investidores não estão in-

EX-CHEFE DO BANCO CENTRAL DA ÁFRICA DO SUL

"

[Outros bancos de desenvolvimento] não estavam respondendo apropriadamente às necessidades dos países em desenvolvimento, colocando, quase sempre, condições severas que resultavam em estagnação e crescimento zero”

timidados pela queda dos preços do petróleo, sobretudo porque esse se estabilizou em um patamar acima dos 55 dólares por barril. Outros fatores também influenciaram no resultado, mas os lucros poderiam ser ainda maiores se os riscos políticos d i m i nu í s s e m , lê - s e no documento.

Subestimada “A maior parte da ações russas é totalmente subestimada. Há potencial para recuperação”, diz o fundador da Prosperity Capital Management, Mattias Westmen. Em termos nominais, o índice Micex subiu 18% em 2015, ou seja, 4 pontos percentuais menos que o índice Shanghai Composite. Mesmo assim, a

queda de volatilidade do mercado russo e a flutuação dos preços chineses resultam em lucros nos investimentos na Rússia e na China de coeficientes de 1 e 0,6 pontos, respectivamente. Ainda em março, a Bloomberg reportou que a situação na Rússia começava a mudar para melhor, e o crescimento da rentabilidade dos portadores de obrigações de corporações russas estabilizou-se. Já no segundo trimestre do ano, os investidores que colocaram capital em títulos estatais em rublos receberam lucros equivalentes a 7% em dólares, enquanto os investidores que trabalharam com obrigações de outros mercados em desenvolvimento em 2015 perderam 1,1%.

Ostentação? Viagens e gastronomia não são prioridade de todos os russos, e 39% veem o salário terminar antes do mês Inflação disparada

Russos cortam gastos na cesta básica para manter supérfluos e alguns setores conseguem manter o fluxo de consumidores. MARIA FEDORÍCHINA ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Uma pesquisa da Fundação de Opinião Pública (FOM) revelou que 51% dos russos tentam superar a crise cortando gastos com comida, sobretudo carne, queijo e frutas. “Antes, meu marido ia sozinho às compras e cinco mil rublos [cerca de 285 reais] por semana bastavam para a comida. Mas agora passei a ir ao mercado porque ele não presta atenção aos preços”, conta Elena Azálina, de 45 anos. Além de afetar o setor ali-

rantes e clubes noturnos Ribambelle, Oigul Mussakhanova. Em um dos estabelecimentos da rede, o consumo por pessoa permanece, em média, em 2.160 rublos (mais de 120 reais). Para manter os clientes, os proprietários do Ribambelle decidiram não aumentar os preços, apesar de alguns dos gastos estarem v i ncu lados a moedas estrangeiras.

mentício, a crise que se instalou no país desde o final de 2014 também causa preocupação entre outros comerciantes. Estima-se, por exemplo, que 26% dos russos tenham reduzido os gastos com vestimentas nos últimos meses. “Se antes o fator determinante era a marca, agora é o preço. Também diminuiu bastante o interesse por peças de luxo”, diz a consultora de compras on-line Alina Grúzdeva. Paralelamente, apenas 13% dos russos deixaram de comprar cosméticos e produtos de perfumaria, e 12% reduziram os gastos com restaurantes e viagens. “A crise não afetou o número de clientes nem o valor médio consumido”, diz a proprietária da rede de restau-

Turismo interno Uma pesquisa realizada em junho pelo Centro Nacional de Pesquisa de Opinião Pública (VTsIOM) revelou que, com a crise, quase 40% dos russos planejavam passar o verão no próprio país. Enquanto 26% da população prefere passar as férias

ANTON BUTSENKO / TASS

Apesar da crise, turismo e restaurantes retêm clientes nas datchas (casas de campo) e 11% querem conhecer melhor o país, apenas 6% expressaram interesse em viajar para o exterior. “Neste ano, a demanda pelo turismo interno aumentou cerca de 30%. As causas disso são a alta de moedas estrangeiras, a necessidade de obtenção de vistos Em tempos difíceis, muitos cortaram e o preço elevado das preferem cortar gastos com passagens internaciocarnes, queijos e frutas a gastos com alimentos nais”, diz a consultora restaurantes, viagens de turismo Olga e cosméticos. Vôlkova. Entre os destinos mais deixaram populares do país estão a Crimeia, a região de de comprar cosméticos Krasnodar e a Abecáreduziram e perfumes sia. Turquia, Egito e conta em restaurantes e Grécia lideram os desviagens tinos preferidos pelos russos no exterior. FONTE: FUNDAÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA (FOM)

Não ao básico, sim ao supérfluo

51 %

13 %

12 %

Alguns russos, porém, enfrentam dificuldades reais com a crise. Dos entrevistados pela FOM, 39% afi rmaram que seu salário não é suficiente para o mês. “Tive uma filha em fevereiro de 2014 e planejava ficar em casa por pelo menos um ano, mas aos cinco meses tive que voltar a trabalhar porque o salário do meu marido não era suficiente, me smo com o bico que ele fazia de motorista nos fi nais de semana”, conta a vendedora Evguênia Golítsina. Atualmente, um em cada três russos cogita fazer trabalhos extras para complementar os rendimentos, e só 13% estão satisfeitos com o salário atual. Desde o início do ano, os preços no país já subiram, em média, 8,5%, segundo o Serviço Federal de Estatística da Rússia. Pela previsão do Ministério do Desenvolvimento Econômico, a inflação chegará a quase 12% até o fim do ano.

Defesa Maiores importadores de 2014 foram Índia, China, Iraque, Síria e Venezuela, em ordem decrescente

Exportação de armas chegará aos US$ 13 bilhões TASS

As vendas da companhia estatal de exportação de armamentos Rosoboronexport em 2015 totalizarão 13 bilhões de dólares, segundo o chefe de comunicações da empresa, Vassíli Brovko. “O volume de exportações de produtos bélicos se mantém em um patamar de 13 bilhões de dólares. O portfólio de encomendas também não sofre alterações, e é de cerca de 40 bilhões de

dólares”, disse Brovko em coletiva à imprensa no final de julho.

Maior parte das exportações em 2014 foi destinada a países asiáticos (75%), América Latina (9%) e Oriente Médio (7%)

Brics e países em crise No ano passado, a Rosoboronexport forneceu um total de 13,2 bilhões de dólares em equipamentos bélicos, superando as projeções em 22 milhões, de acordo com Brovko. Em 2013, os pagamentos totalizaram 12,8 bilhões de dólares. Segundo Brovko, 59 países importaram armamento russo em 2014. “Os principais importadores da produção da corporação foram Índia (25%), China (22%),

EPA/VOSTOCK-PHOTO

Projeção é da agência responsável por vendas ao exterior, que avalia portfólio de encomendas para 2015 em US$ 40 bilhões.

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59 países importaram equipamentos bélicos russos em 2015

Iraque (22%), Síria (5%) e Venezuela (5%). Geograficamente, a maior parte das exportações de equipamentos bélicos foi para países asiáticos (75%), América Latina (9%) e Oriente Médio (7%)”, disse. O volume de fornecimento a países da CEI (Comu-

nidade dos Estados Independentes) em 2014 foi de 370 milhões de dólares (contra US$ 1,05 bilhão em 2013). O valor inclui os US$ 2,4 milhões fornecidos a Estados da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletivo, formada atualmente por Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia e Tadjiquistão), que em 2013 compraram 2,7 milhões de dólares em equipa mentos bél icos da Rússia. A Rosoboronex por t é parte da Rostekh, e é a única empresa autorizada a comercializar ar mamento russo no exterior.


Ciência e Tecnologia

RÚSSIA O melhor da Gazeta Russa gazetarussa.com.br

Energia Estatal nuclear russa reforça presença no continente em meio a participação em licitação para construção de quatro usinas no Brasil

Rosatom abre escritório no Rio ve o sistema gerencial Multi-D, que permite a realização de simulações tridimensionais detalhadas dos procedimentos de constr ução, i nstalação e montagem. O Multi-D otimiza muitos aspectos na fase anterior à construção de uma usina, configurando diferentes cenários e possibilitando alterações para potencializá-los. O uso do sistema permite reduzir o tempo de concepção e construção de centrais nucleares, diminuindo custos.

Cidade passou a ser sede da companhia na América Latina. Estatal também organizou exposição para apresentar tecnologias. ANDRÊI RETINGER ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Por meio de sua estatal Rosatom, a Rússia tem expressado cada vez mais interesse em participar dos planos brasileiros para o desenvolvimento de energia nuclear em longo prazo, que incluem a construção de quatro usinas atômicas até 2030. “O fato de a Rosatom poder participar dessa licitação mostra que o Brasil está buscando o que há de mais moderno no campo da tecnologia nuclear”, afi rma o especialista em energia atômica A leksand r Uvarov. No fi nal de junho, representantes da indústria nuclear russa ministraram um seminário no Rio de Janeiro para apresentar as tecnologias que o país quer trazer ao Brasil.

drêi Budaev. O diplomata esteve presente ao seminário, celebrando também a abertura de um escritório da estatal na cidade. A “Rosatom A mérica Latina” passa a ser a sede da companhia russa no continente. “A Rosatom América Latina trará um novo impulso à cooperação bilateral e poderá levar, em um futuro próximo, à assinatura de diversos contratos vantajosos para ambos os lados”, disse Budaev.

FRASE

Energia nuclear para fins pacíficos

Leonam Guimarães DIRETOR DE PLANEJAMENTO DA ELETRONUCLEAR

Histórico antigo e atual Recepção positiva As apresentações incitaram o interesse brasileiro quanto às tecnologias radioati-

"

A Rosatom é líder mundial no setor nuclear, e a presença no Brasil de um player tão importante fortalecerá ainda mais a cooperação entre os dois países na utilização pacífica da energia nuclear.”

“Testes de fadiga pós-Fukushima demonstram que projeto russo suporta desastres diversos”

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vas da Rússia. “As tecnologias radioativas fornecem ao Brasil soluções em medicina nuclear, agricultura, dessalinização e tratamento de água”, afi rmou o presidente da Abdan (Associação Brasi lei ra pa ra o Desenvolvimento de Atividades Nucleares), Antonio Müller. A cooperação entre os dois países no setor se estabeleceu já em 2014, quando a Rosatom Isotope assinou um acordo com a Comissão Nacional de Energia Atômica do Brasil (CNEN) para fornecimento de isótopos médicos Molibdênio-99, usados no tratamento de câncer.

Com o seminário, desembarcou também na cidade uma exposição para materializar o novo formato de usina nuclear de terceira geração proposto pela companhia russa. No sistema proposto para produção energética, mesmo que o mecanismo de arrefecimento da água falhe por um longo período, a usina poderia cancelar o processo de fissão nuclear e remover o calor residual com segurança. “Os testes de fadiga pós-Fukushima demonstraram que o projeto russo suporta uma diversidade de tipos de d e s a s t r e s ”, e x p l i c a Uvarov. Entre as tecnologias apresentadas para a construção de plantas complexas, este-

Sede latino-americana As perspectivas da estatal no país sul-americano foram brindadas pelo cônsul-geral russo no Rio de Janeiro, An-

110 bi de dólares é em quanto estavam avaliadas as encomendas estrangeiras da Rosatom no início de 2015, o melhor indicador entre companhias do setor no mundo inteiro

Cooperação russo-brasileira no setor é regida por um acordo intergovernamental assinado ainda em 1994 sobre a utilização pacífica da energia nuclear

ALYONA REPKINA

Tecnologia viva

A cooperação russo-brasileira no setor nuclear é regida por um acordo intergover na menta l sobre a utilização pacífica da energia nuclear assinado em 15 de setembro de 1994. Em 2014, a estatal assinou com a empreiteira Camargo Corrêa um memorando de cooperação para a construção de usinas nucleares no Brasil, assim como instalações para armazenamento de combustível nuclear inutilizável. A Rosatom anunciou diversas vezes considerar a América Latina como um mercado prioritário. “A presença no Brasil de empresas russas, líderes mundiais em energia atômica, é de fundamental importância, já que isso fortalecerá ainda mais a cooperação entre os dois países na utilização pacífica da energia nuclear”, afirma Leonam Guimarães, diretor de planejamento da Eletronuclear, operadora da usina de Angra. Para ele, porém, o preço será fator decisivo para a construção de novas usinas nucleares. Segundo Müller, o desenvolvimento do setor poderia impulsionar o crescimento econômico do país.

FONTE: WORLD ENERGY OUTLOOK 2014

Genética Constatações de cientistas da MGU sugerem proximidade da cura do câncer

Era do gelo Fenômeno pode ser atenuado

Descoberta traz esperança contra doenças crônicas

Nova era glacial em 100 anos é ‘apenas hipótese’

SVETLANA ARKHÂNGUELSKAIA

ALAMY/LEGION MEDIA

ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Todos os dias, ocorrem 20 mil pequenas falhas de DNA em cada célula do nosso corpo. Os motivos variam desde a exposição a raios UV e radiação ao consumo de substâncias nocivas, entre outras causas. Essas rupturas na espiral do DNA levam a mutações e provocam doenças grav e s , c o m o A l z h e i m e r, síndrome de Louis-Bar e câncer. No mês passado, porém, um grupo de cientistas da MGU (da sigla em russo, Universidade Estatal de Moscou), sob a orientação do professor Vassíli Studítski, juntamente com especialistas do Fox Chase Cancer Center da Universidade de Temple, na Fi-

Pesquisa foi divulgada em artigo na Science Advances

ladélfia, descobriu um novo mecanismo de reparação do DNA. O grupo espera que, no futuro, o método ajude a tratar e prevenir diversas doenças.

Enzima especial Não se sabe como seria a vida se não houvesse toda uma

série de proteínas e moléculas de sinalização do organismo reagindo a essas lesões constantes do DNA. Isso porque elas não só identificam as lesões, como avaliam a possibilidade de reparação e conectam os fios quebrados. Em muitos casos, a reparação acontece graças a uma

Morte programada Segundo os pesquisadores, até mesmo as áreas do DNA ligadas às histonas podem ser reparadas com a ajuda da RNA polimerase. Além disso, são justamente essas proteínas que auxiliam a enzima a localizar as lesões. Com a ajuda das histonas

forma-se uma espécie de laços de DNA, ao longo dos quais a RNA polimerase pode se movimentar. “Ao parar perto dos locais das rupturas, ela instala o pânico e desencadeia uma cascata de reações para começar os trabalhos de reparação”, explicou Stúditski. Paralelamente, o próprio modo de ligação do DNA às histonas – em forma de laço – ajuda a detectar rupturas. Durante as experiências, os pesquisadores provocaram rupturas em algumas partes do DNA com a ajuda de enzimas especiais, como o peróxido de hidrogênio. Desse modo, eles estudaram a influência do laço na rapidez de deslocamento da RNA polimerase e verificaram que o processo de formação dos laços pode ser programado. “Se tornarmos os contatos do DNA com as histonas mais resistentes, aumentaremos a eficácia da formação dos laços e a possibilidade de reparação, reduzindo o risco de doenças”, disse Stúditski. “Se, pelo contrário, desestabilizarmos esses contatos, então, com a ajuda de métodos especiais de administração de medicamentos, os nanotransportadores, será possível programar a morte das células afetadas. Isto significa que será possível tratar e prevenir o câncer.”

Primeiro reflexo seriam as frequentes pancadas de chuva e tsunamis no verão, assim como nevascas intensas no inverno. TASS

As declarações de cientistas de que uma nova era do gelo poderia começar dentro de 100 anos, são, por enquanto, “apenas uma hipótese”, afirma o pesquisador Vladímir Mêlnikov, da filial siberiana da Academ ia Ru ssa de Ciências. “Ainda não está claro quando exatamente esse fenômeno começará”, acrescentou, destacando que “os cient i s t a s já t ê m ba s t a nt e conhecimento e tecnologias para atenuá-la”. Segundo ele, é possível regular processos naturais usando compostos que mitig a m u m a p o s s íve l e r a glacial. “A era do gelo anterior começou 32 mil anos atrás e terminou há 6 mil anos. Estamos agora vivendo um período entre eras glaciais. É claro que este será o próximo ciclo, mas ninguém pode

As 10 mais belas igrejas da Rússia CURTA, COMENTE E COMPARTILHE: /GazetaRussa /GazetaRussa

ALAMY/LEGION MEDIA

Pesquisadores da Universidade Estatal de Moscou descobriram novo mecanismo de reparação da molécula do DNA.

enzima especial – a RNA polimerase. Movendo-se ao longo do DNA, a enzima monitora e detecta problemas da molécula. Ela desencadeia então uma cascata de reações que resulta na recuperação da área lesada. No entanto, a enzima consegue identificar a lesão de apenas uma das duas cadeias do DNA. Até recentemente, permanecia um mistério como se dava a reparação da segunda cadeia do DNA. “Uma parte da superfície da espiral do DNA permanece oculta, uma vez que interage com proteínas específicas – as histonas. É desse modo que está ‘embalado’ todo o nosso genoma”, disse Stúditski à Gazeta Russa. O grupo da MGU conseguiu provar agora que a restauração das rupturas ocorre também nas áreas internas “ocultas” da espiral do DNA. Um artigo sobre essa descoberta foi publicado na revista científica “Science Advances”, no início de julho.

Tsunamis frequentes e nevascas refletem o que vem por aí

dizer quando ele deve começar”, diz o pesquisador. “Já podemos ver o seu primeiro reflexo, embora fraco: são cada vez mais frequentes as pancadas de chuva e os tsunamis no verão, assim como grandes nevascas no inverno”, acrescenta. Para o cientista, a rápida corrente do Oceano Atlântico que flui para o norte a partir do Golfo do México pode acelerar o período glacial. “Hoje, os cientistas estão empenhados em observar esse processo para compreender o quão sério é o problema da migração da corrente do Golfo”, afirma.

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