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Bruxas da noite Esquadrão noturno feminino fez mais de 24 mil voos. Pioneiro, espalhava terror entre os alemães. P.3 © RIA NOVOSTI

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Este suplemento é elaborado e publicado pelo jornal Rossiyskaya Gazeta (Rússia), sem a participação da redação da Folha de S.Paulo. Concluído em 6 de maio de 2015. Publicado e distribuído com The New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), The Daily Telegraph (Reino Unido), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), El País (Espanha), La Nacion (Argentina) e outros.

FOTOSOYUZ/VOSTOCK-PHOTO

Celebração Mesmo com indiferença de Aliados, evento promete pompa

Derrota de nazistas completa sete décadas

Comemorado em 9 de maio, o Dia da Vitória é o feriado mais importante do país, homenageando os cerca de 27 milhões de soviéticos mortos durante a guerra contra a Alemanha

Parada deste ano terá líderes de dezenas de países, mas não dos antigos Aliados. Rússia usa oportunidade para exibir arsenal militar. DAVID MILLER ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Quando as forças nazistas se aproximavam de Moscou, no final de 1941, os riscos para a União Soviética não podiam ser maiores. Os eslavos, povos nativos do Leste Europeu, eram considerados por Hitler uma etnia inferior. Registros nazistas sugerem que, se a Alemanha tivesse vencido a guerra, os russos teriam sofrido um genocídio sem precedentes. Assim, é fácil compreender por que quase toda família na Rússia tem ligação direta com o conflito. A Grande Guerra Pátria (ver box ao lado) tem uma força tão grande sobre os russos que estrangeiros vi-

sitando o país ainda se surpreendem. “Na mente dos russos, a Segunda Guerra Mundial foi um evento muito diferente da concepção que têm os norte-americanos e europeus ”, diz o analista político Paul Goble. “Para os russos, a Segunda Guerra Mundial foi, e continua a ser, a principal cena de sua história no século passado. Já para americanos e europeus, o conflito é cada vez mais uma questão distante.”

Ausência de Aliados É evidente que, com tamanha importância, os russos tenham se desapontado com a ausência massiva de líderes ocidentais no maior feriado do país, a parada da Vitória, que ocorre neste sábado (9). Para além das sanções impostas a Moscou devido à crise ucraniana, até a celebração das sete décadas de vitória dos

Aliados sobre o nazi-fascismo entrou no alvo das disputas. No final de março, o ministro russo das Relações Exteriores, Serguêi Lavrov, anunciou que líderes de 26 países planejavam participar das comemorações em Moscou em 2015, incluindo o chinês Xi Jinping e o norte-coreano Kim Jong-un. Entre as potências ocidentais, porém, nenhum líder pretende participar - nem mesmo os chefes de Estado dos antigos Aliados. A chanceler alemã Angela Merkel deverá se juntar a Pútin na colocação de flores no túmulo ao soldado desconhecido, junto à muralha do Kremlin, em 10 de maio. E, apesar de não planejar participar no Dia da Vitória em si, explicou sua presença no evento seguinte em seu videoblog no site do governo. “Hoje, temos pontos de vista

27 MILHÕES de soviéticos morreram durante a Segunda Guerra Mundial. Esse número supera o de qualquer outro país que tenha participado.

muito diversos dos da Rússia, inclusive no que diz respeito ao que ocorre na Ucrânia. Mesmo assim, para mim é importante colocar, junto ao presidente russo, a coroa de flores no Túmulo ao Soldado Desconhecido, para pagar tributo aos milhões de mortos que são de responsabilidade da Alemanha na Segunda Guerra Mundial”, declarou no início do mês.

Eterna e onipresente Todo 9 de maio, a Rússia comemora a vitória sobre a Alemanha nazista com um zelo incomparável. Os serviços governamentais e mercados financeiros fecham, a principal via de Moscou se transforma em um imenso calçadão para pedestres e é enfeitada com bandeiras e fitas laranjas e negras de São Jorge, o símbolo r u s so pa r a o he roí smo militar.

E o feriado não é comemorado apenas em Moscou. Praticamente todas as cidades russas têm um monumento à guerra e uma chama eterna, junto da qual se realizam as cerimônias. A dedicação russa à memória da guerra também pode ser explicada em números: a URSS teve a maior quantidade de vítimas na Segunda Guerra, superando qualquer outro país que tenha tomado parte nos confrontos. As estimativas variam entre 20 e 28 milhões de baixas. O colossal sacrifício humano empenhado pela União Soviética faz com que muitos russos sintam, ainda na atualidade, que seu país pagou o preço mais alto na derrota da Alemanha nazista.

Exibindo o arsenal O desfile original da vitória aconteceu em junho de 1945,

200 DIAS foi a duração da Batalha de Stalingrado. Decisiva, ela custou mais de um milhão de vidas.

Grande Guerra Patriótica é o nome que os russos deram ao conflito que durou desde a invasão alemã à União Soviética, em 22 de junho de 1941, até a assinatura da rendição da Alemanha, em 9 de maio de 1945. Essa denominação surgiu em um comunicado de rádio feito por Iossif Stálin ao povo soviético em 3 de julho de 1941, quando o líder da URSS apelou a toda a nação que lutasse con-

tra os invasores. O confronto da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas contra a Alemanha e seus associados Bulgária, Hungria, Itália, Romênia, Eslováquia, Finlândia e Croácia foi parte decisiva da Segunda Guerra Mundial. Fora do país, no entanto, a Grande Guerra Patriótica é mais conhecida como a “Frente Oriental” da Segunda Guerra Mundial.

quando muitas tropas soviéticas já haviam retornado do fronte. Depois disso, em 1965, por ocasião do 20° aniversário da vitória, foram realizadas paradas militares no dia 9 de maio e, em seguida, em 1975 e 1985. Os desfiles se tornaram anu-

ais em 1995, quando se comemorou o 50º aniversário da vitória. Hoje, eles são tanto uma oportunidade para honrar os sacrifícios e as realizações do passado, como para exibir o que há de mais moderno no arsenal bélico do país.

6.000 TANQUES e canhões autopropulsados foram usados na Batalha de Kursk, em junho de 1943. Ela permanece como a maior batalha do gênero.

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Grande Guerra Pátria versus II GM


70 Anos da Vitória

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Guerra ideológica Resultados da Segunda Guerra e papel da Rússia são contestados no Ocidente

OPINIÃO

Revisão histórica é novo capítulo de desavenças

Por que recordamos a vitória Denis Maltsev ANALISTA POLÍTICO

E

YURY SMITYUK / TASS

Após declarações ucranianas, Ministério dos Negócios Exteriores russo afirmou ser preciso parar de “fazer chacota com a história” e respeitar veteranos

Afirmações polêmicas de líderes europeus atacando papel desempenhado pela Rússia na guerra provocaram reação imediata de Moscou.

ucranianos. A declaração era parte de sua explicação sobre por que não participaria da parada na Rússia.

Veteranos como escudo ALEKSEI TIMOFEITCHEV, MARIA AZÁLINA GAZETA RUSSA

Nos meses que antecederam o Dia da Vitória, que será celebrado neste sábado (9), diversas declarações polêmicas ressoaram acerca do papel da União Soviética na guerra contra a Alemanha nazista. Mas as palavras que causaram maior indignação entre os russos foram as do primeiro-ministro ucraniano, Arsêni Iatseniuk, que falou sobre uma “invasão soviética da Alemanha e da Ucrânia” durante a guerra. Além disso, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Grzegorz Shetiny, afirmou à Rádio Polonesa que o campo de concentração de Auschwitz foi libertado pelos

O Ministério dos Negócios Exteriores russo reagiu rapidamente às declarações. “Consideramos ser necessário parar de fazer chacota da história e deixar a histeria antirrussa para respeitar a memória daqueles que não pouparam suas vidas em favor da libertação da Europa”, lê-se em declaração sobre o caso divulgada no site da pasta. O presidente russo Vladímir Pútin também rebateu a polêmica em uma reunião para a organização da celebração do 70º aniversário da vitória. Segundo ele, hoje a Rússia encara não apenas uma tentativa de deturpar os acontecimentos relativos à guerra, mas também a “calúnia descarada e cínica”

dos vetera nos e de sua geração. “Seu objetivo é claro: minar a força e a autoridade moral da Rússia contemporânea, restringir seu status de país vencedor com todas as consequências do direito internacional decorrentes disso, dividir o povo e semear a discórdia, usar especulações históricas em jogos geopolíticos”, completou. O primeiro vice-premiê russo Serguêi Ivanov manifestou apoio a Pútin. “Organiza-se uma campanha em diversos países para revisar os resultados da Segunda Guerra e da Grande Guerra Pátria”, disse. “Sim, claro que nos deparamos com tais tentativas também antes, mas, nos últimos tempos, o fluxo de mentiras cínicas e calúnias adquiriu um caráter realmente sem precedentes”, acrescentou o coronel-general aposentado.

Lapsos? O historiador Nikita Petrov, da organização de defesa dos direitos humanos “Memorial”, acredita que o problema não exista na forma como foi formulado pelo presidente russo. “Ninguém está distorcendo a história da guerra”, diz. Ele afirma ainda que as declarações de Shetiny e Iatseniuk foram lapsos. “São declarações emocionais e que não podem ser levadas a sério, já que não refletem a posição oficial dos Estados que representam.” Depois do incidente, a assessoria do premiê ucraniano afirmou que ele se referia à divisão da Alemanha após a Segunda Guerra. Iatseniuk ainda se pronunciou sobre o caso: “Todos se recordam da ocupação soviética da Ucrânia, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e Países Bálticos após a Segunda Guerra”, disse. Entre especialistas, porém,

há também quem acredite que temas históricos sejam utilizados pelos vizinhos da Rússia na conquista de seus próprios objetivos políticos. “Atualmente, intensificaram-se os esforços de nossos adversários ideológicos para rever acontecimentos conhecidos da Grande Guerra Patriótica e emendar o desfecho da guerra”, diz Dmítri Andreev, historiador e cientista político da Universidade Estatal de Moscou. O presidente da fundação “Memória Histórica”, Aleksandr Diukov, recorre ao exemplo do premiê ucraniano. “Nos últimos anos colocaram-se todos os esforços possíveis em reescrever a história, ou seja, glorificar os crimes cometidos por ultranaciona l istas ucra n ia nos durante a guerra. Isso provocou uma divisão na sociedade e se tornou uma das causas desse trágico conflito civil”, diz Diukov.

Nova Ordem Setenta anos depois, conferência ainda gera debate entre políticos e analistas

O mundo precisa de mais uma Yalta? Churchill, Roosevelt e Stálin (da esq. para a dir.) se reúnem na Crimeia para discutir ocupação conjunta da Alemanha e planos para a Europa após a Segunda Guerra Mundial TASS

Continuidade da assembleia, realizada em 1945, poderia resolver conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, segundo especialistas. ALEKSÊI TIMOFEITCHEV, MARINA DARMAROS GAZETA RUSSA

Em fevereiro de 1945, os três principais líderes dos Países Aliados - o soviético Iossif Stálin, o amer icano Franklin Roosevelt e o britânico Winston Churchill -

reuniram-se em Yalta, na Crimeia, para criar um sistema que evitasse novos conflitos militares de escala global. Setenta anos depois do encontro, porém, a questão ainda não parece ter sido solucionada. “Uma ‘Nova Yalta’ é necessária para tratar de questões de segurança global e encontrar maneiras de resolver os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. Ela deveria ser realizada com a

participação de líderes de países com peso real para se chegar a um acordo sobre as regras do jogo nas relações internacionais”, disse à Gazeta Russa Mikhail Miagkov, professor da Mgimo (da sigla em russo, Instituto Estatal Moscov it a de R e laçõe s Internacionais). Durante as celebrações do 70° aniversário da conferência, realizadas no início de fevereiro, o porta-voz da Duma de Estado (Câmara

dos Deputados na Rússia), Serguêi Naríchkin, expressou opinião semelhante. “[Durante a Conferência de Yalta em 1945], os líderes dos principais países mostraram sua prontidão para o diálogo e habilidade para mantê-lo, apesar de suas diferenças em termos de pontos de vista e da competição em suas tarefas nacionais. Eles buscaram alca nça r u m acordo em questões-chaves e compromisso em outras”, disse Naríchkin na Crimeia. O político afi rmou ainda que os líderes mundiais têm em suas mãos o poder de resguardar a paz no planeta e devem fazê-lo sem esperar que novos conflitos os coloquem à beira de u ma catástrofe. “Os líderes políticos do século 21 também precisam esperar por uma tragédia comum para relembrar do valor das negociações e das possibilidades da diplomacia?”, perguntou. Durante as nostálgicas cerimônias na Crimeia, uma estátua em homenagem aos “Três Grandes” - Churchill, Roosevelt e Stálin - foi inaugurada em um parque próximo ao Palácio Livádia.

Fracasso? Apesar dos resultados positivos exaltados por políticos e analistas russos, Yalta ainda é considerada por muitos historiadores e líderes ocidentais como um fracasso. Seguindo essa linha, a conferência teria prepa-

rado terreno para a Guerra Fria e a “Cortina de Ferro” que cairia sobre a Europa, como chamou Churchill apenas 13 meses depois. Em 2005, George W. Bush declarou em Riga, capital da Letônia, que Yalta foi “um dos maiores erros da história”. Antes disso, o então presidente norte-americano já havia criticado a conferência diversas vezes, principalmente em visitas oficiais ao Leste Europeu. Talvez por isso, com temor de cair na mira dos republicanos, hoje Barack Obama não tome parte nas negociações em Minsk do “Quarteto da Normandia” (composto pelos líderes da Rússia, Alemanha, Ucrânia e França) acerca da crise ucraniana. O formato é considerado atualmente o que mais se aproxima do da conferência de 1945. Mas não é apenas a Obama que uma “Nova Yalta” não agrada. Em coluna no “The Moscow Times”, o político oposicionista Vladímir Rijkov escreveu que “Yalta agora é parte da história”. “Ainda que, como esperamos sinceramente, ela prove ser possível interromper a guerra no leste da Ucrânia e criar um enclave pró-Moscou seguindo a linha da autoproclamada república da Transnítria, Moscou não pode parar o processo histórico pelo qual as antigas repúblicas soviéticas se tornaram Estados independentes e soberanos”, atacou o dissidente.

m 2015, a Rússia comemora o 70º aniversário do fim da Grande Guerra Patriótica. Russos e outros povos da ex-União Soviética mantêm essa denominação, e não a de “Frente Oriental” (veja box na p.1) porque, para eles, o conflito foi uma batalha pela liberdade e independência da pátria, uma guerra pela própria existência. Segundo os planos nazistas para a região, mais da metade da população russa deveria ser aniquilada. Mas o povo soviético frustrou o projeto nazista. O feito empreendido pelo povo soviético foi, de fato, grandioso. Quase toda a população se envolveu na guerra de alguma maneira. Mais de 19 milhões de pessoas se ofereceram para ir ao fronte. Em discurso em julho de 1941, Stálin disse: “O objetivo desta guerra nacional é não só defender o país dos opressores fascistas, não só eliminar o perigo que paira sobre nosso país, mas também ajudar todos os povos europeus sofrendo sob o jugo do fascismo alemão”. A missão foi cumprida. Embora a vitória seja fruto dos esforços de muitos países, foi a URSS que eliminou a maior parte do Exército alemão. Mais de 74% das baixas totais da Wehrmacht (10 milhões, de um total de 13,4 milhões de soldados abatidos) foram resultado de batalhas travadas com o Exército soviético.

Frente essencial Analisando o impacto das forças soviéticas na Segunda Guerra Mundial, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt disse: “Considero difícil ignorarmos o simples fato de que o Exército russo está matando mais soldados do Eixo e destruindo mais material do Eixo do que todas as outras 25 nações juntas”. O Exército Vermelho capturou e eliminou 607 divisões inimigas entre 1941 e 1945, contra as 176 eliminadas por tropas britânicas e americanas. O número de combatentes mortos e feridos na frente oriental da Alemanha nazista foi seis vezes maior que na frente ocidental e no Mediterrâneo somados.

Assim, os russos têm um orgulho natural de sua vitória e não estão prontos para encarar a Grande Guerra Patriótica como apenas uma das muitas frentes da Segunda Guerra Mundial. Só em Moscou, 125 ruas têm nomes de eventos e heróis da guerra. Esse é apenas um indício de como a vitória na Grande Guerra Patriótica tem valor eterno para o povo russo. A campanha de São Jorge é um exemplo perfeito disso. Realizada anualmente desde 2005, a campanha celebra o Dia da Vitória com a distribuição pelas ruas de fitas simbólicas com listras laranjas e pretas da Ordem de São Jorge. Inicialmente uma ação públi-

Tentativas de vincular a vitória à ditadura de Stálin falharam, e os russos se orgulham do feito ca, a iniciativa foi mais tarde adotada por autoridades governamentais. Segundo os organizadores da campanha, seu objetivo é “evitar que as novas gerações esqueçam quem ganhou a mais terrível guerra do século passado, o preço que foi pago, e de quem e do quê devemos nos orgulhar e lembrar”. Com esse intuito, mais de 50 milhões de fitas de São Jorge foram distribuídas em todo o mundo durante os últimos seis anos - já que todos os países que têm diásporas r u s sa s pa r t icipa m d a campanha. Os slogans da campanha incluem frases como “A vitória do meu avô é minha própria vitória!”, “Eu me lembro! Eu me orgulho!”, “Somos descendentes da Grande Vitória!”. De acordo com pesquisas recentes, 73% dos russos consideram a iniciativa positiva. Desde a era soviética, 9 de maio se mantém como símbolo da unidade da nação russa. As tentativas de vincular a vitória ao regime de Stálin e criar um sentimento de culpa nos descendentes dos vencedores falharam. Os russos de hoje sentem a guerra como um grande e patriótico feito do povo, desligado de líderes políticos. Denis Maltsev é associado-sênior do Instituto para Estudos Estratégicos da Rússia.

O FUSO DO TRIUNFO

© ALEKSEY KUDENKO / RIA NOVOSTI

POR QUE OS RUSSOS COMEMORAM A VITÓRIA EM 9 DE MAIO? Em 7 de maio, o comandante supremo da Wehrmacht, Alfred Jodl, assinou em Reims a rendição incondicional das forças alemãs. Segundo essa, as tropas nazistas se comprometiam a cessar as hostilidades a partir das 23h01 de 8 de maio de 1945. O documento foi rubricado na presença do general russo Ivan Susloparov. Porém, Stálin exigiu que a rendição alemã fosse assinada em Berlim, na presença de um representante do Alto Comando das Forças Armadas Soviéticas. Em 8 de maio, pouco antes da meia-noite, a segunda rendição alemã foi assinada nas proximidades de Berlim, na presença do marechal Gueórgui Jukov. A rendição entrou em vigor às 23h01 (GMT) do dia 8 em Berlim, mas em Moscou, com o fuso, era 1h01 de 9 de maio.


Guerra oculta

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pressa e, por meio delas, pode-se até esboçar a movimentação do Exército soviético: dicionários polonês-russo, romeno-russo, turco-russo, japonês-russo etc. Também era editada literatura nas línguas dos povos da URSS. Assim, as populações das repúblicas podiam ler nas línguas nativas e os russos podiam conhecer as culturas daqueles que lutavam a seu lado, ombro a ombro. Mais de uma dezena de editoras continuava em funcionamento. Muitas foram evacuadas para a retaguarda, mas continuavam a produzir livros.

Ler para viver Nem conflito freou amor aos livros

O que os soldados soviéticos liam durante a guerra Púchkin, Shakespeare, partituras... Publicação de livros não parou na URSS, e bibliotecários iam ler à beira das trincheiras e em hospitais. MARINA OBRAZKOVA GAZETA RUSSA

Guias de conversação foram extremamente importantes à medida que Exército Vermelho avançava chefe militar russo Aleksandr Suvorov (1730-1800), exibida na biblioteca, encaixava-se perfeitamente no bolso ou na mochila. Para Arlánova, a escolha pela edição de “Preceitos de Suvorov” na época não se deu por acaso. “Um amigo meu veterano costuma dizer que não foram os artilheiros ou os tanquistas que ganharam a guerra, mas os instrutores

políticos que preparavam os soldados para a batalha, ao ajudá-los a manter disposição e estado de espírito adequados.”

LIvros contra o MP3

Política e jardinagem A literatura publicada então era muito diversificada. De um lado, havia obras filosóficas e políticas: “Diplomacia”, de Harold Nicolson; “A Paz” de André Tardieu; “História da Filosofia em dois volumes”; títulos do diplomata Otto von Bismarck e do filósofo Plutarco; algumas obras sobre a invasão francesa à Rússia em 1812 e sobre os confrontos entre tribos eslavas e germânicas. Também foram publicados diversos clássicos, russos e estrangeiros: Shakespeare, Púchkin, Dante, Górki, Dickens e Tolstói. Além disso, outras publicações surpreendiam pela temática aparentemente desnecessária para aqueles anos, como era o caso de “Jardinagem Ornamental” e “Caça”, volumes da Grande Enciclopédia Soviética, um álbum artístico do pintor russo Karl Briullov e um

ULLSTEIN BILD/VOSTOCK-PHOTO

Mesmo durante os anos da Grande Guerra Pátria (19411945), o mundo dos livros continuou sendo muito especial na União Soviética. Ainda com os combates, a devastação e a fome, as pessoas liam muito, e novas bibliotecas eram continuamente inauguradas. Só na unidade federativa de Moscou, 200 novos estabelecimentos do gênero foram abertos no período. “Com a guerra, o bibliotecário passou a ter novas responsabilidades. Por exemplo, se a biblioteca era atingida por um projétil, ele tinha que selecionar todos os livros que não haviam sido danificados e encaminhá-los a outras instituições”, conta Elena Arlánova, curadora da exposição “Vitór ia: h istór ias não inventadas”. Na biblioteca Tchernichévski, em Moscou, a exibição

apresenta mais de 300 títulos publicados entre 1941 e 1945. A mostra traz informações curiosas ao visitante. O fato de muitas edições do período terem saído em formato de bolso, por exemplo, não era pura coincidência, mas uma forma de facilitar a leitu ra pelos soldados em campo. Seguindo essa fórmula, uma coleção de citações do

Soldados de artilharia em campo leem título de autoria de Stálin, em 1952

Conversação como arma

livro sobre fundamentos da composição musical, além de partituras de compositores clássicos como Glinka, Rímski-Kôrsakov e Rachmaninoff.

tava se deslocando e chegava a novos países, onde precisava se comunicar com a população local. Uma grande quantidade de publicações do gênero foi im-

Além de livros de viés militar e político, a época exigia a publicação de dicionários e guias de conversação. Afinal, o Exército soviético es-

Para o especialista em literatura militar Boris Leonov, a guerra trouxe muitas novidades literárias e conferiu valor ainda maior aos livros. “Esse período nos presenteou com toda uma categoria de literatura militar que se tornou clássica e serviu de base para as futuras obras do século 20. Surgiram muitas obras poéticas, romances e histórias sobre a guerra. Parte dessas foi impressa durante nesses anos”, disse Leonov à Gazeta Russa. Já os bibliotecários, passaram a exercer uma função quase de pregadores. “Os funcionários das bibliotecas começaram a ir às trincheiras que estavam sendo cavadas para ler em voz alta para quem trabalhava nelas. Eles também o faziam em hospitais”, diz Arlánova. “Hoje, isso já não é mais possível. As pessoas passam a maior parte do tempo ouvindo MP3 e assistindo a filmes. O livro deixou de ser a b a s e d a c u lt u r a”, d i z Leonov.

Barbarossa O que o líder soviético sabia sobre a ofensiva?

Mistério sobre ataque alemão permanece Alertas sobre investida eram muitos, mas Stálin não reagiu. Entre indícios, havia fortificações na fronteira com a URSS e até dicionários. MARINA DARMAROS GAZETA RUSSA

ram a ser distribuídos em unidades militares na fronteira germano-soviética. “Eles tinham o mesmo conjunto de frases que os dicionários alemão-tcheco fornecidos às unidades alemãs na véspera da ocupação da Tchecoslováquia”, diz Mozôkhin.

Stálin teria recebido do Führer duas cartas em que este prometia não atacar a URSS

Promessa de Führer

© RIA NOVOSTI

Em 22 de junho de 1941, Hitler invade a União Soviética na chamada “Operação Barbarossa”, quebrando o pacto de não agressão tratado com Stálin. Desde então, historiadores de todo o mundo debatem a questão sobre o conhecimento do ataque pelo líder soviético. “Apesar de existir um mito popular de que Stálin sabia a data exata do ataque, ele não é verdadeiro: entre as datas possíveis, citavam-se os mais diversos números. O 22 de junho estava entre eles, mas ninguém declarou o dia como definitivo”, disse à Gazeta Russa o historiador Aleksandr Verchínin, pesquisador-sênior do Centro de Análise de Problemas. Segundo documentos de arquivos, Stálin já tinha sido in-

formado pelos órgãos de segurança de que Hitler havia aprovado a Operação Barbarossa e ordenado a preparação imediata para a guerra. Mas era impossível antecipar uma data. “É natural que, após o quinto ou sexto relatórios seguidos sobre possíveis datas para o início da guerra, Stálin tenha deixado de confiar nessas informações”, diz o pesquisador Oleg Mozôkhin, especia l i zado nos órgãos secretos do país. Segundo ele, Stálin imaginava que a Alemanha fosse iniciar uma guerra com a URSS somente após obter a vitória sobre a Inglaterra.

O que o bigodudo sabia? Além das disputadas datas do ataque, comunicados emitidos pelos serviços de inteligência ao líder soviético estavam diretamente ligados aos preparativos da Alemanha para a guerra contra a URSS. “Lavrénti Beria, comissário do povo para assuntos internos [equivalente ao cargo

de ministro do Interior] da URSS, repassou-lhe, ainda em 1° de agosto de 1940, informações da inteligência de que os alemães estavam construindo fortificações de campanha e permanentes na fronteira

ritório romeno, em colaboração com a Itália, contra o flanco esquerdo da URSS. Se a investida do Führer ainda não parecia verossímil, em novembro de 1940 dicionários alemão-russo começa-

com a União Soviética”, diz Mozôkhin. Até 1942, outras notificações dão conta da aproximação de tropas alemãs da Finlândia, além da organização de um grupo de ataque em ter-

Sexo frágil? Esquadrão noturno feminino foi pioneiro e espalhava pavor entre os alemães

As Bruxas da Noite contra o terror do fascismo Regimento lutou até o fim da guerra e realizou 24 mil voos no período. Seus biplanos Polikarpov atingiam alvos com precisão excepcional. OLGA BELENÍTSKAIA ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

EVGENIY KHALDEY / TASS

Pouco depois do início da Segunda Guerra Mundial, um grande número de cartas de pilotas começou a chegar aos órgãos do governo soviético. O conteúdo era quase sempre o mesmo: todas insistiam em ser enviadas para o fronte e lutar lado a lado com os homens. Nessa mesma época, a pilota e heroína da União Soviética Marina Raskova, conhecida em todo o país pelo lendário voo direto entre Moscou e o Extremo Oriente a bordo de um Tupolev ANT37 “Rôdina”, apresentou a ideia de formar um regimen-

to especial formado só por mulheres. Na aviação mundial não havia nada desse tipo. Mas a aviadora conseguiu, enfim, o aval de Stálin para formar um regimento feminino, e a seleção das voluntárias começou em meados de 1941. O 46º Regimento da Guarda, única divisão feminina de bombardeio noturno do mundo então, formou-se em meados de 1941, após um curso intensivo.

Sem vaidade A primeira regra colocada às moças era simples: ter o cabelo “com corte masculino”, chegando apenas “até a metade da orelha”. As tranças só eram permitidas após a aprovação pessoal de Raskova. Em 27 de maio de 1942, o regimento “Bruxas da Noite”, com um total de 115 garotas entre 17 e 22 anos de idade,

finalmente partiu para o fronte. O primeiro lançamento foi feito no dia 12 de junho. As aviadoras pilotavam pequenos biplanos de baixa velocidade PO-2, que antes da guerra eram usados no treino de pilotos. A cabine de pilotagem aberta, com viseira acrílica, não protegia a tripulação dos disparos nem mesmo

de ventos fortes. O veículo não tinha rádio, atingia apenas 120 km/h e 3 km de altitude máxima de voo. As únicas armas a bordo eram pistolas TT. Eles só ganharam metralhadoras em 1944. O avião também não tinha nenhum compartimento para bombas e, por isso, elas eram fixadas diretamente na parte

inferior da aeronave. Embora o PO-2 não pudesse carregar muitas bombas de uma só vez, atingia o alvo com uma precisão excepcional. As “Bruxas da Noite” chegavam a fazer dez voos por noite. Enquanto a copilota levava bombas menores sobre os joelhos e lançava-as manualmente sobre o alvo, as pilotas desligavam o motor e, em absoluto silêncio, faziam cair as bombas sobre o inimigo. Além de bombas, elas também transportavam cargas como medicamentos, munições, comida, correio etc.

O livro “What Stalin knew: The Enigma of Barbarossa” (do inglês, “O que Stálin sabia: O enigma de Barbarossa”), do ex-chefe da CIA em Berlim, David Murphy, traz duas cartas secretas entre o líder soviético e o alemão que poderiam esclarecer por que o líder soviético ignorou todos os sinais de um ataque alemão. De acordo com as missivas, o Führer tranquilizava Stálin com a promessa de que as tropas alemãs enviadas ao Leste Europeu tinham por objetivo protegê-los contra bombardeamentos britânicos e ocultar os preparativos para a invasão do Reino Unido, e afirmava que a Alemanha não atacaria a URSS.

Sem se apoiar nas cartas, cuja autenticidade não é comprovada, Mozôkhin segue a linha de que Stálin depositava confiança em Hitler. “Stálin entendia que, para conduzir a guerra contra a Inglaterra, Hitler precisava do pão e do petróleo que Alemanha recebia da União Soviética. A normalização das relações com o Japão, aliado da Alemanha, em 1941, t a m b é m e r a u m f at o r tranquilizador.” Enquanto novos documentos classificados como secretos não forem abertos aos pesquisadores, porém, o mistério continua. “A base dos documentos sobre o início da guerra continua a mesma: são materiais publicados ainda durante os anos soviéticos. Outras publicações foram feitas após 1991, mas os novos trabalhos e documentos de arquivo sobre a relação de Stálin com a perspectiva de uma guerra iminente não dizem quase n ad a de novo”, a f i r m a Verchínin.

VESTIDAS PARA A GUERRA SAIBA MAIS EM: RBTH.COM/LONGREADS/ UNIFORMES/ © RIA NOVOSTI

Pelas mulheres! As moças festejaram o Dia da Vitória nas proximidades de Berlim, recordando as 33 colegas de regimento que não viveram para ver aquele dia feliz. Inicialmente, as pilotas registravam inscrições nas bombas com os dizeres “Pela Pátria!”. Mas, após as primeiras amigas mortas em combate, começaram a surgir inscrições com nomes próprios. Nove das “Bruxas da Noite” ganharam o título de heroínas da União Soviética.

Junto aos milhões de homens no Exército havia também milhares de mulheres. E, como o antigo Exército russo nunca tinha presenciado uma quantidade maciça de representantes do sexo feminino, não havia vestes especiais para essas. Os dirigentes soviéticos pre-

cisaram de muita agilidade para resolver o problema. Assim, em agosto de 1941, um uniforme especial foi lançado para as mulheres. Em vez do chapéu bivaque, elas usavam um quepe, e a túnica de soldado foi substituída por um vestido, inicialmente de algodão, e depois de lã.


Memória

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ENTREVISTA BORIS SOKOLOV

O cinegrafista que filmou a rendição alemã

Estabelecida em 1942, a Ordem da Guerra Patriótica (esq.) foi a primeira condecoração militar da URSS durante o conflito. Concedida às tropas, forças de segurança e aos partisans por feitos heroicos, podia ser de primeira ou de segunda classe. Até 1977, era a única que podia ficar com familiares após a morte do condecorado (as outras deviam ser devolvidas ao Estado).

Hoje aos 95 anos, cameraman insistiu por três até ser aceito para cobrir os eventos no fronte. Teve trechos de seu trabalho usados pelo diretor Andrêi Tarkóvski

A distinção mais disseminada dos confrontos foi a Medalha pela Vitória Sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945. Estabelecida por decreto no Dia da Vitória, 9 de maio de 1945, foi concedida a quase 15 milhões de pessoas. RGAKFD/VOSTOCK-PHOTO

EKATERINA SINELSCHIKOVA GAZETA RUSSA

Durante a Grande Guerra Pátria, 258 cinegrafistas soviéticos trabalharam no fronte. Desses, porém, resta apenas um sobrevivente na Rússia: Boris Aleksándrovitch Sokolov, de 95 anos. Em entrevista à Gazeta Russa, o cameraman condecorado com 31 medalhas e duas Ordens da Estrela Vermelha pelas filmagens da libertação de Varsóvia conta como era filmar a linha de frente. Cobrindo a guerra, você foi direto para o fronte? Eu tinha 21 anos em 1941. Foi quando começaram a organizar grupos de cinegrafistas para a linha de frente no Instituto de Cinematografia Guerássimov. Sempre pedia para entrar, mas me diziam “não”. Eu sabia que inicialmente enviariam os mais experientes. Na verdade, ninguém ensinava a filmar em condições de guerra. No Exército alemão, pelo contrário, havia cursos para cinegrafistas militares. E para onde você foi enviado? Foi convocado para o Exército? No início, fui para defender os arredores de Moscou. Depois voltei para o estúdio, que

acabou evacuado para Alma-Ata, então na República Soviética do Cazaquistão. Estava com meu amigo, Misha Possélski, que conseguiu, em alguns meses, integrar-se ao grupo cinematográfico do fronte, enquanto eu continuava na evacuação. Sempre pedi para ser aceito na linha de frente. Por que isso era tão importante para você? O país vivia uma guerra! “Tudo para o fronte, tudo para a vitória” era o slogan daquela época. Infelizmente, consegui ser aceito no fronte apenas em 1944. Era a última chamada. Filmei a vida do Exército russo durante os três meses em que ele esteve nas redondezas de Varsóvia. Você teve medo? O medo existia, mas o esquecíamos durante o trabalho, mesmo sofrendo grandes perdas. Durante a guerra, só 258 cinegrafistas trabalharam no fronte. Eles filmaram mais de 3,5 milhões de metros de filme de 35 mm. Um em cada cinco morreu. Outros se feriram ou entraram em estado de choque. A câmera era pesada? A câmera equipada com todas as lentes pesava muito. Não havia zoom, para cada escala

era preciso ter uma objetiva diferente. O corpo da câmera pesava quase 3,5 kg. Além disso, a gente levava bobinas com fitas de 30 metros, mas o corpo da câmera tinha um mecanismo de mola que só permitia rodar 15 metros de fita, ou seja, 30 segundos de filmagem contínua. Quanto tempo levava para recarregar o filme? Era preciso fazê-lo em um lugar escuro, dentro de um saco ou em um quarto, para não estragar o filme. No saco, era preciso fazer tudo tateando. Levava de 5 a 10 minutos, às vezes mais. Para filmar, usávamos o filme americano “Aimo” ou seu análogo soviético, o “KS”. Os alemães usavam seu “Arriflex”, que podia ser carregado mesmo exposto a luz, e as fitas, em vez de 30 metros, tinham 60 ou 120. Tinha alguma proibição nas filmagens? Podíamos filmar tudo. Mas a censura limitava a exibição ao público. Eu ainda não estava no fronte quando sofremos derrotas, mas essas foram muito pouco filmadas. Sei de casos em que cinegrafistas tentaram filmar momentos de derrota, mas os soldados pediam para não filmar, muitas vezes com ameaças.

Qual filmagem tem destaque nas suas lembranças? É claro que a da assinatura do ato de rendição da Alemanha. Pediram para eu e o Possélski filmarmos a delegação alemã. Fiquei especialmente impressionado com o comportamento do [chefe do Comando Supremo da Wehrmacht] Marechal-General Keitel.

tag. Na noite de 30 de abril para 1° de maio, uma bandeira apareceu na cúpula do Reichstag. Mas, durante a noite, não tinha luz suficiente para filmarmos, apesar dos incêndios ao redor. Muitas pessoas consideram que a filmagem foi encenada, mas o que ocorreu, na verdade, foi uma reconstituição dos fatos.

Como ele se comportava? Como se fosse o vencedor, e não o derrotado. Mesmo recebido apenas pela guarda na saída do avião, ele cumprimentava as pessoas com a vara de marechal. Nenhum dos oficiais foi ao aeroporto. Na sala da assinatura, ele também cumprimentava todos com a vara, mas ninguém respondeu.

Vocês não podiam rever o próprio material na linha de frente. Mas, depois da guerra, você conseguiu ver seu trabalho? Consegui, quase por acaso, quando o material foi usado em longas-metragens. No filme “A Grande Guerra Patriótica”, por exemplo, intitulado no exterior de “A Guerra Desconhecida”, era possível ver partes de nossos trabalhos. Mas eu mesmo não consegui ver nada.

Você não filmou a bandeira da vitória sendo hasteada no Reichstag. Você se arrepende? Quando filmaram, não pensavam sobre o significado da bandeira. O Reichstag se tornou símbolo de vitória apenas mais tarde. E nem me lembro onde eu estava filmando naquele momento.

Suas filmagens também aparecem no filme “A Infância de Ivan”, de Andrêi Tarkóvski, com a famosa guilhotina ... Sim, foi na prisão da cidade de Poznan, na Polônia. Filmamos aquela guilhotina em um dos cômodos daquela prisão. E então nem sabíamos que aquele material tinha sido usado por Tarkóvski. Fiquei sabendo só depois, e aí lembrei que fomos nós que filmamos.

Mas sabe-se que a filmagem da bandeira da vitória no Reichstag foi encenada... Durante as batalhas, mais de dez bandeiras apareceram em diferentes andares do Reichs-

Um morto muito vivo Ao ser rejeitado na aviação por quebrar as pernas, militar fez agachamentos

Durante quase quatro anos de combates, naquilo que foi para a União Soviética a guerra total, os soldados do Exército Vermelho foram agraciados com mais de 38 milhões de distinções, ordens e medalhas por bravura e pela participação em campanhas. Infelizmente, porém, muitas dessas condecorações nunca chegaram aos que foram designados a recebê-las. Agora, a tecnologia possibilita que essas faltas sejam sanadas: os veteranos e suas famílias podem verificar on-line se há quaisquer distinções que lhes são devidas. O objetivo do projeto Zviôzdi Pobédi (Estrelas da Vitória) é garantir a reparação de possíveis faltas com os veteranos que, ao longo dos 70 anos após o fim dos conflitos, espalharam-se pelo mundo. Mais de 8.200 nomes estão listados no banco de dados do projeto, e podem ser conferidos em russo pelo link: rg.ru/zvezdy_pobedy. Por meio do Zviôzdi Pobédi, e com a ajuda dos leitores, os editores da Gazeta Russa e do projeto RBTH já encontraram as famílias de cinco mulheres cujos nomes constam na lista. Se você é imigrante, se tem parentes que lutaram ou serviram no Exército entre 1941 e 1945, ou se tem amigos russos vivendo no seu país, não deixe de conferir o link citado. A Gazeta Russa manterá os leitores informados sobre a descoberta de mais veteranos por meio do banco de dados on-line. Então, por favor, não deixe de nos avisar pelo email info@rbth.com se achar que você ou algum conhecido deixou de receber a devida distinção de guerra.

A Medalha pela Captura de Berlim (esq.) estava entre as principais condecorações da guerra. Foi concedida a pouco mais de um milhão de pessoas, ou seja, todos os envolvidos diretamente na conquista da capital do Terceiro Reich de Hitler ou em sua organização.

e todo o cockpit ficou em chamas.” Apesar de diminuir a altura e abrir o paraquedas, ele quebrou as pernas ao cair no solo e perdeu os sentidos. Quando acordou, teve uma surpresa. “Olho em volta e vejo uniformes verdes e capacetes. Eram soldados da SS. Achei que fosse o fim”, conta.

Aos 92, piloto foi dado como morto mais de uma vez Serguêi Kramarenko chegou a ser capturado pelos alemães em 1943, mas cidade foi tomada por soviéticos logo em seguida.

Providência alemã

EKATERINA SINELSCHIKOVA GAZETA RUSSA

VITALY BELOUSOV / TASS

A notícia da guerra pegou de surpresa os cadetes da escola de aviação. “Queríamos ir para o rio nadar. De repente, veio a ordem para nos reunirmos junto do quartel-general, onde ficava o alto-falante, e lá escutamos a mensagem de Moscou”, diz o veterano Serguêi Kramenko, 92 anos. De um ‘kukuruznik’ - as aeronaves rurais soviéticas - de dois lugares, o jovem Serguêi Kramarenko, então aos 18 anos de idade, teve que pular para um caça de nova geração. Em dezembro de 1941, ele foi enviado para as redondezas de Moscou, para um regimento formado por 50 pilotos. “Desses, sobraram apenas 5”, conta. Lá, a bordo de uma aeronave LaGG-3

SANANDO A DÍVIDA DE MEDALHAS

Kramarenko (centro): “Nós, os cadetes, queríamos ir nadar quando chegou a notícia da guerra”

equipada com um canhão e quatro metralhadoras, entrou na guerra. O primeiro combate aéreo, sobrevoando a cidade de Jizdra, já lhe rendeu boa dose de emoção. “De repente, surgem na minha frente dois aviões. Aí vi as cruzes, eram aviões alemães. Não sei como eles não me viram”, conta.

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Deu uma rajada de tiros, mas começaram a disparar contra ele. Mergulhou debaixo deles, e a perseguição continuou. Afinal, deu mais um mergulho, agora poucos metros acima de uma floresta. Quarenta anos depois, descobriria que, segundo relatório alemão, sua aeronave teria se destroçado na floresta.

Em 1943, Kramarenko foi o único no regimento a ser enviado à Esquadrilha do Marechal, que tinha as potentes Lávotchkin La-5. Mas, na batalha de Proskurov, na Ucrânia, um projétil acertou sua cabine.“Explodiu bem debaixo dos meus pés, cortou os cabos do combustível, a gasolina pegou fogo

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O tenente tentou interrogá-lo, sem sucesso. Então, passavam dois oficiais alemães que perguntaram quem era ele. “Responderam: ‘Um piloto prisioneiro, recebemos ordem para fuzilá-lo’. Os dois pensaram um pouco e disseram: ‘Nein’.” Seis dias depois, Proskurov foi cercado por tropas soviéticas. Os alemães acabaram fugindo, deixando para trás doentes e feridos. No hospital, o piloto acabou pegando tifo. Mas recuperou os sentidos duas semanas depois. Quando o tratamento terminou, Kramarenko pediu para voltar ao fronte, mas seu regimento já o dava como morto desde a queda. Disseram então que poderia lutar, mas não voar, porque tinha quebrado as pernas. “Respondi: ‘Ora, que estão dizendo?! Vejam como eu consigo fazer agachamentos!’. Eles ficaram olhando e riram. E Kramarenko seguiu até Berlim.

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