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Uma crise, dois pontos de vista

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Socióloga comparou percepções russo-ucranianas por quase uma década P. 3

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Este suplemento foi elaborado e publicado pelo jornal Rossiyskaya Gazeta (Rússia), sem participação da redação da Folha de S.Paulo. Concluído em 15 de abril de 2014. Publicado e distribuído com The New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), The Daily Telegraph (Reino Unido), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), El País (Espanha), La Nacion (Argentina) e outros.

Suave na nave Disputa pelo cosmos se tornou menos belicosa, e país hoje conta com cooperações internacionais no setor antes impensáveis

Corrida espacial, parte dois hermética do projeto Mars500 em Moscou. Lá, eles passaram 520 dias testando o corpo - e os nervos - para um possível “bate-e-volta” ao planeta vermelho.

Por Marte, Nasa e Roscosmos unem forças para uma missão histórica, mesmo após ameaça russa de deixar ISS com sanções ocidentais. MARINA OBRAZKOVA, MARINA DARMAROS

Lua mais próxima

No último domingo (12), celebrou-se o Dia Internacional do Cosmonauta. A data remonta à primeira viagem do homem ao espaço, realizada por Iúri Gagárin a bordo da nave Vostok. Mas a conquista do espaço está apenas começando, apesar de mais de 500 astronautas de dezenas de países já terem lá estado após o soviético pioneiro. Hoje, o principal objetivo das agências espaciais é Marte e, por essa meta, Rússia e Estados Unidos uniram forças para iniciar uma missão histórica no final de março. Então, o russo Mikhail Kornienko e o norte-americano Scott Kelly, ambos veteranos do cosmos, foram enviados à ISS (da sigla em inglês, Estação Espacial Internacional), onde ficarão por um ano estudando os limites humanos no espaço e os efeitos da ausência de gravidade sobre o corpo. Outro russo, Guennádi Padalka, auxiliará a equipe por seis meses. A ideia é utilizar os resultados da missão na preparação da expedição a Marte.

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GAZETA RUSSA

Oito anos após o soviético Gagárin chegar ao espaço, os EUA conquistaram a Lua. No século 21, Marte leva agências espaciais a superar diferenças.

em órbita por tanto tempo, o que faz da viagem um marco muito importante para o desenvolvimento dos estudos espaciais”, disse à Gazeta Russa o editor do suplemento científico “NG

Gêmeos divididos “Nunca antes astronautas norte-americanos ficaram

Nauka”, Andrêi Vaganov. Scott deixa um gêmeo na Terra que também é astronauta e participa do projeto. Mark Kelly terá uma rotina similar à do irmão e, ao fi nal do experimento, os

resultados obtidos de ambos serão comparados. “É a primeira vez que os norte-americanos fazem uma experiência desse gênero, que tem grande importância tanto para os EUA,

A expedição não é a primeira investida da Rússia em Marte. Em meados de 2010, três cosmonautas russos, um francês, um italiano e um chinês se trancafiaram em uma cápsula

como para a Rússia. A Nasa irá estudar como o espaço, a ausência de gravidade e a m icrog rav idade afetam Scott Kelly”, explica o chefe da agência espacial russa Roscosmos, Ígor Komarov.

Enquanto a ida do homem a Marte gera publicidade ao programa espacial do país, o projeto de finalmente levar um russo à Lua está muito mais próximo de se tornar realidade, segundo Vaganov. “Hoje, esse programa é mais importante a curto prazo para a cosmonáutica russa”, afirma. “Em um futuro próximo, a Rússia dará muita atenção ao programa lunar que pretende realizar em parceria com outros países”, declarou, ainda em março, o vice-diretor de programas tripulados da Roscosmos, Vladímir Mítin. A Rússia chegou a confirmar, no fi nal de 2014, planos para a criação de uma estação espacial na superfície da Lua. A Roscosmos planeja realizar sua primeira missão tripulada ao satélite natural da Terra em 2030. “Planejamos uma ‘visita’ à Lua em nave não tripulada entre 2028 e 2029, e com desembarque humano entre 2029 e 2030”, anunciou no último dia 14 o chefe da Roscosmos, Ígor Komarov. Mesmo mais próxima de se tornar realidade que a marciana, a missão lunar enCONTINUA NA PÁGINA 4

Emergentes Reforma do Fundo Monetário Internacional está entre prioridades

Segurança Ataques terroristas estão entre preocupações

Moscou estabelece tarefas ao assumir presidência do Brics

FSB dará apoio a Brasil nas Olimpíadas 2016

No mês em que a Rússia assumiu a presidência rotativa do Brics, o subsecretário do país no grupo, Vadim Lukov, falou sobre planos e prioridades de Moscou. “Reforçar a posição do Brics no sistema internacional e, paralelamente, fortalecer a posição da Rússia na política e economia mundial” são os primeiros objetivos da Rússia no cargo, segundo ele. Em seguida, vêm o uso de mecanismos para consolidar a estabilidade estratégica e a não proliferação de armas de destruição em massa, “assim como a luta contra o terrorismo internacional e a manu-

© ALEKSEY DRUZHININ / RIA NOVOSTI

OLEG KÓNIUKHOV ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Grupo também quer combater monopólio da internet por EUA

tenção da segurança internacional de informações”, acrescentou. A cooperação estratégica entre os países do Brics, desenvolvida com base no projeto russo-chinês, terá prioridade na esfera econômica. O documento que servirá de base para essa parceria, so-

bretudo em energia e mineração, deverá ser assinado na próxima cúpula do Brics, que será realizada em julho em Ufá, na Rússia. “Também temos urgência em dar continuidade à reforma do FMI, que já está há três anos parada por causa da posição do Congresso america-

Agências brasileiras poderão contar com serviço de inteligência russo para garantir segurança pública nos jogos do Rio. TASS

O Comitê Olímpico Russo se reuniu no Ministério dos Esportes no final de março para discutir a segurança dos atletas russos nos Jogos Olímpicos de Verão 2016, no Rio de Janeiro, e os Jogos de Inverno 2018, na Coreia do Sul. “Damos grande ênfase à segurança da nossa enorme delegação, que ficará no Brasil por um longo período. É por isso que os funcionários do FSB querem cooperar com os brasileiros, que participaram dessa reunião”, disse o vice-ministro dos Esportes russo, Iúri Nagornikh. Em fevereiro passado, uma delegação do Comitê Olímpico Russo e da Agência Federal Biomédica da Rússia esteve no Brasil analisando as instalações olímpicas.

REUTERS

Em 1° de abril, país assumiu oficialmente a presidência do Brics, que estava sob comando brasileiro. Função é rotativa e dura um ano.

no. Ao que parece, o governo de Obama não é contra a iniciativa, mas não possui maioria parlamentar no Congresso para levá-la adiante”, explicou Lukov. Os países-membros do grupo também pretendem compartilhar em uma conferência científica suas experiências e tecnologias na luta contra doenças cardiovasculares e infecciosas. Na área educacional, há planos de ampliar a parceria técnico-científica por meio da Liga de Universidades. A segurança e a luta contra ameaças comuns também devem estar em pauta. “Daremos atenção especial à questão do Oriente Médio e do Norte da África”, anunciou o diplomata ao falar sobre áreas “afetadas pelo terrorismo e pelo tráfico de drogas”. Um grupo de trabalho para combater o narcotráfico, assim como discutir a monopolização da internet pelos EUA, reunirá ainda os ministros das Comunicações dos países-membros. “A internet está hoje nas mãos de grandes players americanos, que não compartilham sua gerência com países não ocidentais”, disse Lukov. “Isso é injusto com os Brics, que têm bilhões de usuários.”

Delegação russa preocupa serviço de inteligência do país

“Agora temos plena compreensão das condições em que os torneios olímpicos serão realizados e estamos trabalhando em conjunto com as federações esportivas de cada esporte olímpico para selecionar as instalações para as equipes que gostariam de fazer os últimos treinos no Brasil”, disse Nagornikh. No início do ano, Luiz Al-

berto Sallaberry, diretor do departamento antiterrorista da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), declarou que a ameaça terrorista nos jogos de 2016 aumentou após os atentados cometidos em Paris em janeiro deste ano. Segundo ele, o país não abriga indivíduos que pertencem a grupos terroristas, mas que podem dar assistência a esses.

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Opinião

RÚSSIA O melhor da Gazeta Russa gazetarussa.com.br

O BRICS E O MUNDO MULTIPOLAR

dade, a incapacidade da nova geração de líderes de edificar um sistema de segurança e cooperação que responda à realidade de um mundo global e interdependente. O fim da Guerra Fria, na qual perderam ambos os lados e o mundo todo, foi anunciada como a vitória do Ocidente e dos EUA. Como resultado, o mundo não se tornou um lugar mais seguro. No lugar de uma “ordem mundial”, recebemos uma “perturbação global”. Os conflitos tomaram não apenas países do terceiro mundo, mas também a Europa. E agora o conflito armado bate literalmente à nossa porta.

A PERESTROIKA NA ATUALIDADE

Mikhail Eskindarov, Viktória Pérskaia ECONOMISTAS

próxima cúpula do Brics acontecerá em ju n ho na cidade russa de Ufá, onde serão identificadas novas áreas de cooperação e formuladas propostas para o desenvolvimento dessas cinco economias emergentes. Mas o Brics não deve ser visto como uma comunidade de integração baseada em instrumentos tradicionais, como a liberalização das economias e dos fluxos de comércio e investimentos.

A

Mudanças hoje

TATIANA PERELYGINA

Não vou falar mais sobre o conflito ucraniano por aqui. Sua motivação profunda está no fracasso da perestroika, nas decisões irresponsáveis que foram tomadas na floresta Bielovéjskaia pelos líderes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Os últimos anos tornaram-se para a Ucrânia um ensaio para a ruptura. Atraindo o país para a “sociedade euroatlântica”, o Ocidente ignorou de forma exemplar os interesses da Rússia. Subentende-se que a experiência da perestroika e da política externa baseada na nova mentalidade não dá receitas prontas para resolver os problemas atuais. O mundo mudou. Na política mundial surgiram novos “players”, novos perigos. Mas nenhum desses problemas pode ser resolvido pelos esforços de um país ou até de um grupo de países. Nenhum deles tem resolução militar. A Rússia pode fazer uma contribuição importante para a superação do “caos global” atual. É isso que o Ocidente deve entender. Muitas tarefas que foram colocadas na ordem do dia nos anos da perestroika continuam sem resolução. São a criação de um sistema político pluralista e competitivo realmente multipartidário, a formação de um sistema de retenção e contrapesos que equilibre as divisões do governo, a garantia de um revezamento periódico no poder. Estou certo de que a busca por uma solução quanto ao beco sem saída no qual a política russa e mundial se encontra terá sucesso apenas quando seguir os caminhos da democracia. Outro caminho não há.

Mikhail Gorbatchov EX-PRESIDENTE DA UNIÃO SOVIÉTICA

á trinta anos, começavam transformações na URSS que mudaram a cara do país e do mundo. A perestroika foi, sobretudo, uma resposta aos desafios históricos com que o país se debateu nas últimas décadas do século 20. Mas a história dedicou a ela um período curto: menos de sete anos. Então, a administração centralizada detinha a iniciativa das pessoas, amarrava a economia em uma camisa de força e punia seriamente aqueles que ainda assim tentavam ser proativos. Assim, no início dos anos 1980, ficamos atrasados em relação a outras potências, com uma produtividade 2,5 vezes menor na indústria e 4 vezes menor na agricultura. A economia foi militarizada, e era cada vez mais difícil suportar o fardo da corrida armamentista. Partimos para a transição não para receber honras, mas porque entendemos que as pessoas tinham direito a uma vida melhor e mais livre. A glasnost tornou-se o ins-

H

trumento mais importante da perestroika. Ela significa, claro, a liberdade de expressão, falar abertamente sem medo de censura ou repressão. Mas também significa a abertura das atividades do Estado, a justificativa de suas resoluções e a consideração da opinião popular.

Desintegração da URSS, sacrifícios e privações resultaram da sabotagem da perestroika No início, todos manifestaram-se a favor das mudanças. Mas, depois, verificou-se que o caminho para essas não satisfazia, nem de longe, a todos - e aí havia tanto líderes como a chamada “elite”. De um lado, estavam os radicais, que se aliaram aos separatistas e, sentindo a impaciência das pessoas, sobretudo da “intelliguêntsia”, exigiam “destruir todas as bases” e faziam promessas irresponsáveis e quiméricas de que dentro de dois anos o país seria um paraíso na Terra.

Do outro, estavam os conservadores, presos ao passado, lutando contra as reais muda nças, i ncrédu los das escolhas livres do povo e desejosos de não perder seus privilégios. Foram justamente eles que, perdendo na luta política aberta, partiram, em agosto de 1991, para o golpe que enfraqueceu minha posição como presidente do país e abriu caminho para as forças radicais que, dentro de alguns meses, desintegraram a União. Lutei pela união do país por meios políticos. Estava pronto a concordar com a máxima descentralização econômica e com a concessão dos mais amplos poderes às repúblicas. Mas, sob os aplausos do Parlamento russo, foram tomadas resoluções completamente diversas que levaram à destruição até mesmo da defesa conjunta dos países da União. A desintegração, os sacrifícios e privações pelos quais muitos passaram, sobretudo nos anos 1990, são resultado da sabotagem da perestroika. Mas isso não muda o mais importante: a perestroika trouxe mudanças tão profundas

que tornaram impossível voltar ao passado. Elas são, acima de tudo, as liberdades políticas e os direitos humanos: a possibilidade de votar, de expressar suas opiniões, de professar sua crença, de atravessar fronteiras livremente, de abrir um negócio e prosperar.

A Rússia pode fazer uma contribuição importante para a superação do ‘caos global’ atual Paramos com a corrida armamentista. Começamos o processo de redução das armas nucleares. Normalizamos as relações com o Ocidente, com a China. Retiramos nossos soldados do Afeganistão. Regulamos muitos conflitos regionais. Iniciamos o processo de integração do país à economia mundial. Os perigos de hoje são justamente o fracasso da perestroika, a desintegração da União, o afastamento dos princípios da nova mentali-

rantia à estabilidade social e a segurança institucional e dos territórios nacionais, a diminuição das disparidades nos níveis de renda dos indivíduos e regiões dos países, além do desenvolvimento da sociedade civil e das liberdades democráticas, sem a violação das bases tradicionais da construção dos Estados. Em outras palavras, os interesses nacionais dos Brics visam ao desenvolvimento interno de cada um dos países, e não à dominação internacional, mas ao estreitamento de laços econômicos regionais e transregionais para que suas metas sejam alcançadas.

Interesses conjuntos

Elevar padrão de vida da população e realizar potencial dos cidadãos são prioridades no Brics Hoje, o Brics simboliza um sistema de relações baseado na igualdade de cooperação e na possibilidade de implementação de uma estratégia unificada que leve em conta certas prioridades nacionais. Para colocá-lo em prática, é necessária a participação ativa desses países na elaboração de documentos no G20. O potencial do Brics em lançar iniciativas foi testado durante os preparativos da Cúpula do G20 de 2014. Por isso, o encontro em Ufá deve reconsiderar esta “falha” e propor uma consolidação das iniciativas do grupo entre os temas que estejam sendo analisados e aplicados no G20. Por outro lado, entendemos que as parcerias estabelecidas entre os Brics irão prosperar apenas em setores relacionados com interesses nacionais. Dessa forma, nada mais lógico que perguntar: nas atuais condições, quais são os interesses nacionais dos Brics? Acreditamos que seja o desenvolvimento dinâmico de suas economias, com a consecutiva elevação dos padrões de vida das populações e a criação de oportunidades para a realização dos potenciais individuais dos cidadãos. Também estão na lista a ga-

Mikhail Gorbatchov foi secretário do Partido Comunista e presidente da URSS.

O interesse dos países do Brics é explícito quando se trata de estratégias de longo prazo. Um exemplo é a utilização conjunta de recursos hídricos em obras de irrigação e drenagem, bem como a utilização econômica de fontes subterrâneas profundas. Soluções dessa natureza interessam à Índia, ao Brasil e à China, enquando na Rússia há uma reconhecida experiência em otimização do uso de recursos hídricos. Também tem importância fundamental o estabelecimento de padrões de ensino e treinamento conjunto em setores educacionais prioritários, particularmente os relacionados à aeronáutica, espaço, saúde, construção naval, segurança cibernética, nanotecnologia, meio-ambiente e outras áreas tecnológicas. Por fim, o grupo deve estimular o desenvolvimento de projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento, com a participação de cientistas e outros especialistas dos países-membros focados em objetivos como a substituição de importações, a padronização do ambiente jurídico empresarial, o estabelecimento de parcerias público-privadas e a criação de novos postos de trabalho. Viktória Pérskaia é membro da Academia de Ciências da Rússia. Mikhail Eskindarov é reitor da Universidade de Finanças sob o Governo da Federação Russa.

NEMTSOV E O LIBERALISMO RUSSO Irina Khakamada POLÍTICA

A

GRIGORY AVOIAN

ssassinado a sangue frio no centro de Moscou em fevereiro, Boris Nemtsov surpreendeu a classe política da Rússia desde sua primeira aparição. Jovem, bem apessoado, inteligente, audaz, de um encanto fascinante que a União Soviética ainda não conhecia. O ano era 1991. Ele era um governador em início de carreira - assim como eu era uma política em início de carreira. Ambos éramos novatos no espectro pós-soviético e, claro, isso nos aproximou. Mas, até 1997, eu apenas observava, à distância e com interesse, suas atividades. Se Lev Nikolaievitch Tolstói pode ser chamado de “espelho da revolução russa”, então Boris Efimovitch Nemtsov “espelhou” todos os tra-

ços desses tempos de transição. O aventureirismo de Sôtchi, o servilismo soviético, a crença romântica na vitória da democracia e o entusiasmo do Komsomol (do russo, “União Comunista Juvenil”). Quando ele me convidou a fazer parte do governo, em 1997, já se tratava de outra pessoa: o encanto e a energia criadora se mantiveram, mas o entusiasmo do Komsomol foi substituído pela responsabilidade de um reformador de proporção federal. Boris ganhou peso político. Mas, diferente de muitos, não perdeu a vontade de mudar o mundo para melhor. A batalha com Berezóvski, a greve dos mineiros na Casa Branca (até 1994, edifício que abrigou o Parlamento em Moscou), o fracasso e, no final das contas, a demissão do governo, em 1998, tornaram-se para todos nós uma grande provação. Esses eventos não destru-

íram ninguém, mas sim aumentaram o arroubo e a energia, apesar de nos considerarem defuntos políticos. E o Boris foi o primeiro a começar a reunir o time no-

vamente. Com toda sua ambição, para ele o resultado era absolutamente prioritário. O partido Soiuz Pravikh Sil (do russo, “União das Forças Direitas”), iniciado por ele, ven-

ceu as eleições para a Duma (câmara dos deputados na Rússia) sob a liderança de Serguêi Kirienko. Nemtsov manteve-se como uma das figuras mais brilhan-

tes no Parlamento, onde a maioria já não era composta por comunistas, mas pelo partido no poder, e o país era governado não por Boris Iéltsin, mas por Vladímir Pútin. Diferentemente de Serguêi Kirienko, que partiu bastante rápido para o poder Executivo, Nemtsov deleitou-se com a liberdade e a concorrência política ao se manter no Parlamento. Mas, depois, muitas águas rolaram: a crise dos reféns na peça Nord-Ost, o caso Khodorkóvski, a derrota de dois partidos liberais nas eleições para a Duma em 2003. Nemtsov estava novamente fora do sistema. E mais uma vez ele aguenta o golpe. E converte o peso de sua experiência na criação de uma oposição “fora do sistema”. À medida que se estreitava o campo de possibilidades para a realização de suas ideias, suas declarações e mé-

todos de trabalho se tornaram cada vez mais radicais. Pelo exemplo de Boris Nemtsov, pode-se observar como o projeto liberal deslocou-se de dentro do sistema (representado nos órgãos do governo), para algo “não sistemático”, que tomou as ruas e os protestos. E seu líder foi morto de maneira dura e exemplar. No meio da ponte que liga tanto à catedral como ao Kremlin, dois símbolos da Rússia atual. Mataram o liberalismo da Rússia com esses tiros? A marcha em memória de Boris Nemtsov, que reuniu dezenas de milhares de pessoas livres em todo o país, traz esperanças de que não. Irina Khakamada é política. Compôs o governo junto a Boris Nemtsov como presidente do Comitê Estatal da Federação Russa para Apoio e Desenvolvimento de Pequenos Negócios (1997-1998).

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Política e Sociedade

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De mal Ucranianos não acreditam em melhoria de relações

Moscou quer ‘Cúpula Parlamentar’ do Brics

Uma crise, dois pontos de vista OLGA FÍLINA OGONIÔK

“Vocabulário também influencia: russos falam em integração, e ucranianos, em anexação da Crimeia” Em geral, de acordo com estudos realizados em fevereiro deste ano, cidadãos dos dois países têm atitudes muito diferentes em relação à vida: enquanto na Rússia 68% se disseram satisfeitos, na Ucrânia apenas 27% tinham o mesmo posicionamento, contra 70% insatisfeitos (ver gráfico). Além disso, a certeza com que 60% dos russos acreditam que as relações com a Ucrânia irão melhorar em um futuro próximo é descrita pela socióloga como “intrigante”. Mesmo porque, a julgar pelas enquetes análogas

GAZETA RUSSA

no país vizinho, os ucranianos parecem muito menos otimistas - apenas 7% compart i l h a m d a opi n ião do s russos.

Questão de vocabulário Pautova explica que até mesmo a maneira de colocar as questões por sociólogos pode influenciar nas respostas dos entrevistados. “Nós, russos, falamos em integração da Crimeia, e os ucranianos, em anexação. As diferentes maneiras de colocar a questão estão inseridas nas enquetes dos sociólogos”, diz. A crise que levou aos acontecimentos na península, porém, levou a uma opinião que é comum para a maioria dos cidadãos russos (67%) e ucranianos (88%) de que a Rússia não deve enviar tropas para o leste da Ucrânia. Para colher resultados mais próximos da realidade no país vizinho, apesar das diferenças culturais e linguísticas, a FOM fechou parcerias com institutos ucranianos. “Quando olhamos apenas para nós mesmos, podemos ter uma impressão distorcida. É preciso compreender o contexto no qual estão inseridos os entrevistados da Rússia e de outros países. Por isso, tentamos comparar dados representativos de pesquisas realizadas na Ucrânia e na Rússia”, conta Pautova. O maior desafio, contudo, foi lidar com contradições

Cidadãos de ambos os países acham que Rússia não deve enviar tropas à Ucrânia

Atitudes de russos e ucranianos após turbulências

ALYONA REPKINA

Ainda em 2006, muito antes de estourar a crise na Ucrânia, a diretora de projetos da FOM (da sigla em russo, Fundação Opinião Pública), Larissa Pautova, começou a estudar as similaridades e divergências entre as percepções do que era estabilidade para russos e ucranianos. Enquanto os estilos de vida de ambos pareciam semelhantes, seus problemas foram gerando um distanciamento entre eles. Na época, a continuidade das dificuldades econômicas na Ucrânia deixava a população local extremamente insatisfeita. Já os russos, temiam pela própria vida devido à ameaça terrorista e à situação no Cáucaso. Assim, os entrevistados dos dois países tinham diferentes percepções de estabilidade: os russos estavam convencidos de que essa surgiria no país a qualquer momento, enquanto os ucranianos afir mavam já ter a “estabilidade da pobreza” que não era, porém, pelo que almejavam. “A diferença nas atitudes de russos e ucranianos pode ser explicada pelas condições em que as populações de

ambos os países viveram após a queda da União Soviética, mas também por outras características culturais”, diz Pautova. Na Ucrânia, as relações de parentesco geralmente têm grande importância, enquanto na Rússia, o trato de igual para igual muitas vezes é reprimido pela longa tradição burocrática, cujo início remonta aos tsares. “O russo conta mais com o poder da máquina estatal que com os recursos da comunid a d e lo c a l”, a f i r m a a socióloga.

ANNA TROFÍMOVA

GETTY IMAGES/FOTOBANK

Coincidências e divergências nas percepções de russos e ucranianos são objeto de estudo de socióloga há quase uma década.

Além de maior integração no Legislativo, representantes do Judiciário dos países do grupo já se reuniram na China.

nas pesquisas de opinião pública. “Às vezes, até as respostas a um mesmo questionário são

Pesquisa Mesmo com queda, integração ainda é aprovada por 69%

Cai euforia quanto à Crimeia Para observadores, indicador deve se agravar com a decepção de turistas na península, cuja infraestrutura fica para trás da de destinos famosos entre russos. EKATERINA SINELSCHIKOVA GAZETA RUSSA

Abalo econômico As diferenças em relação a 2014, porém, não tiveram um forte impacto na conclusão final dos sociólogos. “De modo geral, não ocorreram quaisquer alterações significativas”, disse à Gazeta Russa o vice-diretor do Centro Levada, Aleksêi Grajdánkin. Segundo ele, embora a percepção dos problemas relacionados à reintegração da Crimeia tenha crescido e pessoas com níveis mais elevados de escolaridade e renda tenham passado a apoiar menos a decisão, não se pode falar

© MIKHAIL MOKRUSHIN / RIA NOVOSTI

Um ano após a reanexação da Crimeia, uma pesquisa realizada pelo Centro Levada mostra que o número de russos que consideram a integração da península “uma grande conquista cujos efeitos positivos terão repercussão no futuro” caiu de 79% para 69%. Apesar de a maioria ainda ser favorável à decisão, a pesquisa revela também que cresce o número de pessoas que acreditam que os acontecimentos de 2014 demonstram um crescente aventureirismo do governo russo. Para 14% dos entrevistados, o Kremlin estaria tentando afastar o foco da atenção dos reais problemas sociais e econômicos do país. Paralelamente, 72% dos respondentes (contra os 79% do ano passado) acreditam que, ao agir desse modo, o país esteja consolidando seus interesses no espaço pós-soviético e retornando ao status de “grande potência”. Os pesquisadores ressaltaram ainda que o número de pessoas contra a expansão das fronteiras russas cresceu consideravelmente desde o ano passado – de 32%, em 2014, para 57% neste ano.

Para sociólogos, resultados remontam aos de anos anteriores a 2014

em uma diminuição real do apoio ao governo. Mas o diretor do Grupo de Especialistas em Política, Konstantin Kalatchev, acredita que haja, de fato, uma tendência de diminuição desse apoio. “Além de a euforia ter passado, acrescenta-se aí a crise econômica. É claro que, quanto menos dinheiro uma pessoa tiver, menor será seu desejo de pagar pelas decisões das autoridades”, diz Kalatchev. Além disso, segundo ele, a decepção dos turistas russos com a península deve piorar ainda mais os indicadores de satisfação com a integração da Crimeia. “Quem viajar à Crimeia, depois de ter ido ao Egito e à Turquia [destinos rotineiros de férias da classe média russa], ficará decepcionado com a qual idade dos serviços.”

Restauração da URSS? Para Grajdánkin, do Levada, seria mais correto notar a percepção atual como um “retorno à tendência dos anos anteriores, já que 2014 foi um ano incomum, e não 2015”. “A reintegração da Crimeia ins-

tigou um pouco a ideia de restaurar a União Soviética ou, pelo menos, atrair algumas repúblicas para a órbita russa”, diz o sociólogo. Para ele, foi justamente por esse motivo que o número de opositores à expansão russa no ano passado não foi tão elevado (32%). “Em compensação, a ideia de uma possível desintegração da Ucrânia realmente se consolidou de maneira maciça”, reconhece o sociólogo. O novo estudo do instituto mostrou que um a cada três russos é a favor da desintegração do país vizinho - contra um a cada quatro em 2014. “Muitos observadores estão discutindo essa questão na mídia russa. Eles acreditam que a federalização e até a desagregação do país será a solução para os problemas da Ucrânia”, diz Grajdánkin. Porém, na opinião, de Grajdánkin, trata-se de uma situação temporária. “Tudo irá mudar dependendo do sucesso da Ucrânia na realização das reformas. É preciso recordar a postura assumida pelos russos em relação aos países Bálticos nos anos 1990”, afi rma.

contraditórias. A consciência social, tanto na Rússia quanto na Ucrânia, encontra-se em um estado de turbulên-

cia. Os paradoxos na percepção das pessoas são típicos de per íodos i nstáveis,” explica.

A delegação russa propôs a suas homólogas dos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) a possibilidade de realizar em junho uma cúpula parlamentar em Moscou. A ideia foi sugerida durante a 132ª Assembleia da União Interparlamentar do grupo, no final de março. “Poderemos realizar uma reunião já no final de abril para nos preparar para a cúpula parlamentar em junho”, disse Konstantin Kossatchov, chefe do comitê Internacional do Conselho da Federação (equivalente ao Senado na Rússia). Segundo ele, autoridades chinesas já confirmaram disponibilidade para participar da cúpula. A Rússia pretende ainda reforçar a cooperação entre os mais altos órgãos judiciários durante sua presidência no Brics, segundo o juiz do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) da Federação Russa, Vladímir Khamenkov. Também no final de março, a cidade chinesa de Sanya sediou uma reunião de caráter extraordinário entre representantes dos órgãos superiores do poder judiciário dos países do Brics. “Os resultados da futura cooperação serão imensos. Como disse o presidente do Supremo Tribunal Popular da China, Zhou Qiang, o fórum em Sanya já deu o primeiro passo para obter resultados tangíveis”, disse Khamenkov.


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RÚSSIA O melhor da Gazeta Russa gazetarussa.com.br

Por uma disputa menos belicosa SHUTTERSTOCK/LEGION-MEDIA

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frenta desafios. Um deles é o preço: com a crise econômica vivida no país hoje, todos os projetos espaciais encareceram em cerca de 27%, de acordo com o chefe do Conselho Técnico-Científico da Roscosmos, Iúri Koptev. Além disso, as sanções impostas pelo Ocidente levaram a agência russa a confirmar, em dezembro passado, seus planos de criar uma estação espacial própria e deixar a ISS a partir de 2024. A estação internacional esteve continuamente tripulada desde sua primeira expedição,

em novembro do ano 2000, e a retirada russa do projeto antes do esperado poderia colocar um ponto final a duas décadas de ocupação espacial ininterrupta pelo homem.

Roscosmos logo se ofereceu para abastecer ISS quando foguete americano explodiu em outubro Mas, mesmo com a saída, a Rússia não fomenta animosidades. Em meio à guerra econômica que vivenciam as duas potências, quando um fogue-

te americano de companhia privada que levava suprimentos à ISS explodiu, em outubro do ano passado, a Roscosmos logo se ofereceu para reabastecer a estação. Os módulos Soiuz também não deixaram de transportar norte-americanos depois de os EUA aposentarem seu último ônibus espacial, em 2011 - apesar do ceticismo do ex-diretor da Nasa, Michael Griffin. “A possibilidade mais óbvia é a de que não haverá mais americanos ou parceiros internacionais na estação espacial após 31 de dezembro de 2011”, declarou, em 2008, o

então diretor da agência sobre as chances de colocar seus astronautas em órbita com a ajuda dos russos. Além disso, paradoxalmente, a nova base espacial, que a Rússia pretende oferecer aos países do Brics na cúpula de Ufá, na Rússia, em julho deste ano, já tem confirmada a participação da Nasa desde o início do mês.

na foram dispensados US$ 17,6 bilhões. Por isso, o país lança mão de alguns mecanismos para manter seu programa espacial operando de maneira efi-

Política sideral

Apesar de orçamento modesto em relação à Nasa, agência russa tem modelo eficiente

A Roscosmos sempre teve um orçamento modesto em comparação ao da Nasa. A título de comparação, em 2014 a agência russa recebeu US$ 2,8 bilhões, enquanto à america-

ciente. Nos últimos 20 anos, o setor passou por diversas reformas. A última foi a criação de uma corporação aeroespacial que deve alinhar a Ros-

ciativa, porém, é a falta de concorrência gerada entre as organizações que compõem a corporação. Além disso, o modelo impede a entrada de empresas privadas na indústria - como vem ocorrendo nos Estados Unidos, que desde 2012 contam com o trabalho dessas para abastecer a ISS. Uma das tarefas da nova corporação será a construção do cosmódromo Vostótchni, na região de Amur, no Extremo Oriente russo. O lançamento do primeiro foguete por essa base deve acontecer em 2015, e de sua primeira nave espacial tripulada, em 2018.

cosmos a todas as outras empresas do ramo. Durante a era soviética, a indústria espacial empregava uma série de instituições científicas e empresas estatais unidas pelas demandas do Estado. Esse sistema colapsou junto com a própria URSS, mas, agora, a reunião dessas empresas poderá ajudá-lo a se desenvolver de forma mais eficaz. “Em primeiro lugar, é mais barato criar uma estrutura unificada. Além disso, ficará mais fácil operá-la e garantir sua qualidade”, diz o analista político Dmítri Abzálov. O ponto negativo dessa ini-

Resenha Título tem ufanismo e dicas para evacuar no cosmo

Roscosmos oferece lugar para turista na ISS

Astronauta brasileiro narra treinamento russo

Cinco anos após suspender o transporte de turistas ao espaço, agência russa anuncia retorno de programa para cobrir redução orçamentária. MARIA AZÁLINA

SERGIO MADURO ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

A inspiração vinda do cosmonauta soviético Iúri Gagárin (1934-1968) dá a linha do novo livro de Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro a viajar ao espaço. “Caminhando com Gagárin: Crônicas de uma Missão Espacial” é mais um modo que o tenente-coronel encontrou de homenagear seu ídolo - que também estampava a camiseta levada por Pontes ao cosmos. Pontes chegou a Moscou em novembro de 2005 para finalizar a preparação iniciada sete anos antes nos EUA. A fase final de treinamento na Rússia, que durou quase cinco meses, justificava-se, entre outras razões, porque a nave que o transportaria para o espaço era uma Soiuz, de fabricação russa. O foguete que levou Pontes partiu de Baikonur, no Cazaquistão, com destino à ISS (da sigla em inglês, Estação Espacial Internacional) em março de 2006, e retornou à Terra em abril do mesmo ano. O russo Pável Vinogradov e o americano Jeff Williams

foram seus companheiros de viagem na Soiuz TMA 8.

Nacionalismo e autoajuda No novo título, o astronauta conta histórias, em forma de diário, selecionando 20 dias dos cinco meses que passou na Rússia, além dos 10 dias em que esteve no espaço. Recheado de fotos e trazendo uma biografia do autor, o volume tem como proposta principal explicar os preparativos a que o autor se submeteu no Centro de Treinamento de Cosmonautas Iúri Gagárin, na Cidade das Estrelas, a cerca de 25 km de Moscou. Seguindo essa diretriz, a obra passa pelo funcionamento dos simuladores de voo, o aprendizado da língua russa, os treinamentos de sobrevivência e os exames médicos, e entra até em detalhes engraçados, como a explicação de como um astronauta faz suas necessidades no espaço. Convém lembrar que, embora a profissão de astronauta seja uma função civil, Pontes iniciou a carreira como militar da Aeronáutica, chegando a piloto de caça da FAB (Força Aérea Brasileira). Como todo soldado, foi treinado para defender a pátria, seguir estratégias e não recuar diante de obstáculos. Seu livro expressa, em parte, a

entre ideias e armas TO D A B ATA L H A COMEÇA NA MENTE Uma seleção especial de artigos militares: gazetarussa.com.br/eiea

visão de um militar de combate. Muitas vezes usando um tom messiânico e nacionalista, afirma, por exemplo, que sua aventura visou incentivar o civismo, e garante que estava disposto a oferecer a vida pela missão espacial a fim de levar “a bandeira brasileira e milhões de corações pela primeira vez para além das palavras e fronteiras, para fora do planeta”. Pontes usa a escrita também para oferecer em conta-gotas uma visão pessoal sobre suas experiências de treinamento com porções generosas de autoajuda, ligando as dificuldades encontradas por um astronauta ao dia a dia das pessoas comuns.

Homem multitarefa Além de engenheiro, candidato derrotado a deputado federal, embaixador honorário da ONU e presidente de uma fundação que leva seu nome, Pontes também se identifica como palestrante, coach e consultor técnico. Além, é claro, de escritor. “Caminhando com Gagárin” é o quarto livro desse homem multitarefa. Ele também é autor de um volume de autoajuda focado na realização de projetos, outro contando os bastidores da primeira missão espacial brasileira, e

GAZETA RUSSA DIVULGAÇÃO

Quanto tempo leva para ir ao espaço? O que pôr na bagagem? Marcos Pontes responde a essas e outras perguntas em novo livro.

Pontes com o americano Jeff Williams e o russo Pável Vinogradov (da esq. para dir.)

ENTREVISTA MARCOS PONTES

“Vejo política como missão” O que o inspirou em Gagárin? Seu pioneirismo e respeito pelas pessoas. Sempre procurei seguir essas características dele. Quais outros cosmonautas você admira? [Vladímir] Komarov [19271967], por sua dedicação e sacrifício na amizade com Gagárin. Quais as principais diferenças entre o treinamento russo e o americano? Eles são similares, mas o russo é mais apoiado no fator humano, e o americano, no equipamento.

E suas impressões da Rússia? Parece meio estranho, mas desde o início me senti como se já tivesse vivido lá por muito tempo. Não senti qualquer dificuldade em me adaptar. Foi maravilhoso. De seu aprendizado na Rússia o que pode ser aplicado no Brasil? Determinação em objetivos. Nosso programa espacial sofre de uma certa falta de constância. Talvez o fato das dificuldades enfrentadas pela Rússia com guerras e clima tenha ajudado a formar essa característica,

que considero muito importante para o sucesso. Por que você se candidatou a deputado federal em 2014? Vai se candidatar novamente? O Brasil sofre de falta de políticos dedicados aos projetos públicos e com conhecimento técnico e experiência para propor e avaliar projetos importantes. Meu objetivo era provocar uma nova tendência na escolha de políticos. Talvez eu me candidate novamente a deputado federal em 2018. Vejo a política como missão, não como carreira.

de uma autobiografia para crianças que ele mesmo ilustrou. Idealista, Pontes diz “querer influenciar positivamente mais e mais pessoas”. E conta em palestras e livros a experiência de ter uma origem humilde e se tornar o primeiro

brasileiro a sair do planeta. Sua lógica simples indica que, se não foi impossível para ele, não deve ser para ninguém. Mas sua explicação é pouco animadora e dá a dimensão da nossa insignificância: “Embarcados nessa espaçonave chamada Terra, viajando jun-

tos pelo espaço a mais de 100.000 km/h, todos nós somos, de cer ta for ma, astronautas”. Ou seja, para o Universo, cada um de nós é pouco menos que uma bactéria desesperada, agarrada à casca frágil de um ovo em órbita.

Entre em um tanque soviético

Desmonte uma pistola semiautomática

Descubra quem são os atiradores mais letais da Rússia

A agência espacial russa Roscosmos está oferecendo um lugar, tradicionalmente ocupado por um membro da tripulação espacial russa, a um turista espacial por um período de seis meses. O anúncio foi feito pelo chefe do conselho técnico-científico da Roscosmos, Iúri Koptev, no final de março. “Recebemos a recomendação de diminuir a carga orçamentária e, possivelmente, até mesmo vender um pacote de longa duração a um turista espacial, ainda que seja cortando a presença da Rússia na estação”, disse Koptev. Ele não descarta a possibilidade de que a recomendação se torne instrução oficial para a corporação de foguetes espaciais “Energia” e que os russos precisem reduzir de três a apenas um o número de cosmonautas na estação. De 2001 a 2009, a agência russa enviou oito turistas à ISS. Mas, depois de os EUA aposentarem seu último ônibus espacial em 2011, o transporte de seus astronautas nos foguetes Soiuz passou a colaborar no orçamento russo cada um custa cerca de US$ 76 milhões à Nasa. Após 2018, porém, com a finalização das naves tripuladas Dragon e CST-100, a Rússia deve perder essa fonte de renda.

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Confira nova edição do suplemento Rússia de 17 de abril, 2015

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