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Pasta Perestroika Massa com molho de vodca e salmão defumado foi hit de estrangeiros nos anos 1990 P.4 JENNIFER EREMEEVA

Produzido por

Publicado e distribuído com The New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), The Daily Telegraph (Reino Unido), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), El País (Espanha), La Nacion (Argentina) e outros.

Este suplemento foi preparado e publicado pelo jornal Rossiyskaya Gazeta (Rússia), sem participação da redacão da Folha de S.Paulo. Concluído em 11 de junho de 2014.

Bilateral Autoridades dos dois países discutem abertura recíproca do mercado de peixes

Do Brasil à Rússia sem escalas Produtores querem acabar com mediação portuguesa, mas exportação direta da Noruega pode dificultar sucesso das medidas. VÍKTOR KUZMIN

ALAMY/LEGION MEDIA

ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Durante visita ao Brasil em meados de maio, Aleksêi Alekseienko, representante do Rosselkhoznadzor (Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária), reuniu-se com seus pares do Ministério da Agricultura e da Pesca brasileiro, além de funcionários da Agência para Proteção dos Produtos Agrícolas do Paraná e empresários do ramo da pesca, para discutir uma abertura recíproca dos mercados de peixes. “As empresas russas estão prontas a fornecer ao Brasil volumes significativos de produtos manufaturados, como bacalhau seco”, disse Alekseienko. Porém, não há até o momento qualquer empresa brasileira certificada para o abastecimento do mercado russo de peixes, e vice-versa. Toda a produção é intermediada por terceiros, como, por exemplo, Portugal, que revende o excedente de peixe russo ao Brasil. No mercado russo, o ponto alto do interesse pelo produto brasileiro está na aquicultura de tilápia, cujo principal fornecedor atualmente é a China. É possível que ocorra uma futura substituição, já que os russos não estão nada satisfeitos com o alto teor de químicos nos produtos e a poluição ambiental do país fornecedor.

Com adesão do país à OMC, setor está prestes a passar por uma grande reforma e tributos de exportação devem cair

e aquicultura paralelamente à Sessão Geral da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), no final de maio. Também é esperada uma reunião dos russos com o chefe do Serviço de Inspeção Veterinária do Brasil.

Abrindo as portas O Rosselkhoznadzor deu continuidade às negociações com o lado brasileiro sobre mecanismos de segurança e certificação sanitária dos produtos de pesca marítima

“Para começar, os dois países assinarão um documento sobre segurança alimentar no for necimento de peixes e outros frutos do mar, e depois passarão às tratativas sobre o formato em que se dará a abertura do mer-

cado, além de discutir se haverá inspeções in loco das empresas ou se essa tarefa será confiada aos serviços de inspeção veterinária nacionais”, explica Aleksêienko. Espera-se que, após as negociações, o Brasil passe a

fornecer à Rússia atum, lagosta, peixe-espada, cavala, polvo, camarão e linguado.

bém tem todos os recursos para aumentar sua oferta ao Brasil. No país recomenda-se a pesca costeira de 55 mil toneladas por ano. Porém, apenas 16 mil toneladas são pescadas anualmente. “Além do bacalhau, a Rús-

OMC e lobby Segundo o analista Iúri Tsgusha, do Grupo FIBO, a indústria de pesca russa tam-

sia pode oferecer ao Brasil salmão, arenque e bacalhau pollock”, diz Tsgusha. Em 2013, a Rússia exportou quase 790 mil toneladas de escamudo, 24,5 mil de caCONTINUA NA PÁGINA 3

Aprovação Índice aumentou após acontecimentos na Ucrânia

Literatura Clássicos e contemporâneos homenagearam local

Integração da Crimeia aumenta popularidade de presidente russo

Objeto de disputa, península já foi ‘musa’ de escritores

DANILA ROSANOV

Em maio de 2012, uma grande multidão se reuniu no centro de Moscou para a “Marcha dos Milhões”, protestando contra o governo na véspera da posse de Vladímir Pútin, em seu terceiro mandato como presidente. O resultado foi um confronto violento e nt r e m a n i fe s t a nt e s e policiais. Mas apenas dois anos após um dos protestos mais significativos da história da Rússia moderna, o índice de

REUTERS

ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Movimentos de oposição perdem força no país

CONTINUA NA PÁGINA 2

continua a exaltar a liberdade, mas agora a entende como a libertação da opressão do poder.

Russos sempre apreciaram as “águas neutras” da Crimeia, distante tanto da Europa liberal, quanto de Moscou ou São Petersburgo.

Meca da intelectualidade

ALEKSANDRA GURIÁNOVA GAZETA RUSSA

Aleksandr Púchkin foi o primeiro a abrir a Crimeia para si próprio. Verdade seja dita, não foi por vontade própria. O escritor mais amado da Rússia foi exilado de São Petersburgo para o sul do império devido a suas poesias exortando a liberdade. No entanto, das duas, uma: ou ele era incorrigível ou os ares da Crimeia lhe deram ainda mais forças. “Meus sentidos ressuscitaram, minha mente se aclarou”, escreveu de lá. A principal descoberta de Púchkin na Crimeia foi a poesia de Ovídio. Ali, ele soube que seu congênere romano fora deportado para a mesma

© RIA NOVOSTI

Aumento do apoio popular à presidência leva ao enfraquecimento da oposição, que há apenas dois anos levava milhões às ruas.

aprovação de Pútin aumentou significativamente. Após a adesão da Crimeia ao país, esse índice chegou a 83%. A “Marcha dos Milhões” foi o ápice do período mais ativo da oposição, entre 2011 e 2012. “Desde o primeiro trimestre deste ano, a disposição para apoiar ou participar de protestos despencou aos níveis mais baixos já verificados desde o colapso da União Soviética”, diz o sociólogo Lev Gudkov. Em um artigo opinativo para o jornal “The Moscow Times”, o político oposicionista Vladímir Rijkov escreveu que o impasse em torno da Ucrânia ajudou Pútin a angariar apoiadores. Segundo ele, os acontecimentos na Crimeia tiveram um “poderoso efeito mobilizador”, que serviu para “reforçar a posição do Kremlin no momento em que o crescimento econômico estava estagnado”. Um processo jurídico sem precedentes na história da Rússia pós-soviética, intitulado “Caso Bolótnaia”, foi

Volôchin: a casa do poeta em Koktebel era uma meca da intelectualidade russa

região e também por capricho de outro imperador déspota. Púchkin compara seu exílio ao destino do poeta da Antiguidade. Nas obras poéticas escritas na península,

Leia as notícias mais fresquinhas no site

Outra personalidade da Crimeia livre foi Maximilian Volôchin, poeta e pintor que fundou uma comunidade artística. Sua casa em Koktebel era uma meca da intelectualidade russa do início do século 20. Marina Tsvetáeva, Ossip Mandelstam, Andrêi Béli, Maksim Górki e Aleksêi Tolstói eram alguns dos habitués do local. Volôchin incutia simplicidade e naturalidade à boemia russa. Fazia com que seus hóspedes recusassem os formalismos, que limitavam a criatividade, e em sua presença trajava um robe para CONTINUA NA PÁGINA 4

b r. r b t h .co m


Política e Sociedade

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Estrangeiros Nova lei torna obrigatório o conhecimento da língua para obter permissão de trabalho

Esperança de diálogo renovada na Ucrânia

mentos básicos do idioma russo. Em janeiro deste ano, mais de 18 mil trabalhadores obtiveram os certificados de idioma exigidos no âmbito dessa legislação. Atualmente, há 190 centros de testes autorizados na Rússia e no exterior. Em novembro de 2013, havia na Rússia 253 escolas de línguas para imigrantes. Setenta e nove delas – 67 operadas pelo serviço de imigração e 12 pela Igreja Ortodoxa Russa – oferecem aulas gratuitas.

Língua afiada será requisito para imigrantes

Moscou reenviou seu embaixador a Kiev para posse de Petrô Porochenko, cuja eleição gera expectativa de normalização das relações. NIKOLAI GORCHKOV ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

© RIA NOVOSTI

Aprovada em abril, nova lei passa a valer a partir de janeiro de 2015. Prova também trará questões de história e cultura russa.

terão que passar pelo teste qua ndo o ped ido for renovado.

NÚMEROS

A mão de obra imigrante no país

2,53

IVAN TCHERNOV VZGLIAD

Alvo centro-asiático? As isenções defi nidas pelo projeto de lei sugerem que ele é destinado a imigrantes da Ásia Central, que realizam a maior parte do trabalho braçal em grandes cidades russas. “Precisamos dos cidadãos estrangeiros não qualificados que vêm para cá trabalhar, mas eles têm que se adaptar à vida na Rússia, têm que falar russo. Isso não é problema do Serviço Federal de Imigração. É tarefa de outras instituições do governo lidar com essas questões”, disse o primeiro-ministro Dmítri Medvedev em seu discurso anual na Duma (câmara dos deputados na Rússia). No entanto, qualquer estrangeiro que não se qualifique à lista de isentos, incluindo professores de língua e outros profissionais freelancers, também terão que apresentar o certificado. A nova lei é, de certa forma, a atualização de uma norma que entrou em vigor em 1º de dezembro de 2012 e requer que todos os estrangeiros empregados nos setores de habitação, comércio e serviços provem conheci-

milhões de uzbeques - o maior número de imigrantes de um único país - chegaram à Rússia em 2013. No mesmo período, somente 1,1 milhão de europeus mudaram-se para o país.

ALYONA REPKINA

Uma nova lei assinada pelo presidente russo Vladímir Pútin obrigará candidatos estrangeiros a vistos de trabalho ou permissão de residência na Rússia a provar seus conhecimentos da língua, cultura e processos políticos do país. A med ida entrará em vigor a partir de 1º de janeiro de 2015 e se aplica a todos os estrangeiros que solicitarem autorização de residência, permissão de residência temporária ou de trabalho, com exceção de uma categoria especial de profissionais altamente capacitados, cujas qualificações são definidas por lei. Os estudantes estrangeiros atualmente matriculados em universidades russas credenciadas também ficarão isentos, assim como menores de 18 anos ou pessoas com mais de 60 anos. A lei tampouco será aplicada a indivíduos que tenham finalizado o ensino médio em escolas na União Soviética antes de 1991, já que a língua russa era disciplina obrigatória.

A grande maioria dos imigrantes na Rússia é proveniente das ex-repúblicas soviéticas, principalmente de países da Ásia Central. No ano passado, apenas 2,5 milhões de um total de quase 11 milhões de residentes estrangeiros chegaram ao país de localidades que não fossem do território da ex-URSS. A maioria desses imigran-

tes está empregada em trabalho pouco qualificado: 29% na construção civil e 19% em agências de serviços, como garis ou limpadores de neve. Mais de 80% vivem com salários abaixo dos 30 mil rublos (R$ 1.900) por mês. Somente 6% dos imigrantes têm diploma de ensino superior, e 25% sequer concluíram o ensino médio.

O objetivo do projeto de lei é “facilitar a adaptação cultural e linguística dos cidadãos estrangeiros na Rússia”, de acordo com Liudmi-

la Bokova, me mbro do Conselho da Federação (Senado russo). O certificado só poderá ser obtido em uma das institui-

67%

dos imigrantes na Rússia se estabelecem na região administrativa central, em torno de Moscou, e 22% nos Urais ou na Sibéria.

86%

dos imigrantes no país são homens. De acordo com o Serviço Federal de Imigração, 20% deles falam pouco ou nada no idioma russo.

ções oficiais autorizadas a realizar os exames, e será válido por cinco anos. Os imigrantes que já possuem permissões de residência

Mais pessoas imigram para a Rússia do que para qualquer outro país no mundo, exceto os Estados Unidos, de acordo com um relatório de setembro de 2013 produzido pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas. Na época do relatório, a ONU divulgou a existência de 11 milhões de imigrantes residindo na Rússia. Segundo o Serviço Federal de Imigração, apenas 1,5 milhão deles trabalham no país legalmente. Isso não significa que as outras 9,5 milhões de pessoas estão vivendo ilegalmente no país. Muitos chegam ao país com visto de turismo e negócios, que não permitem o trabalho formal no país, mas depois acabam exercendo funções assim mesmo. Além disso, do total de imigrantes computado pela ONU, 23% eram cidadãos do Uzbequistão e 10%, do Tadjiquistão. De acordo com o Serviço Federal de Imigração, 38% dos estrangeiros que se mudam para a Rússia têm entre 18 e 29 anos de idade e não pretendem ficar no país em longo prazo. A grande maioria deles é composta por homens. Cerca de 20% sabem muito pouco ou nada da língua russa. Para Muhammadnazar Mirzoda, presidente da Associação da Amizade Entre os Povos da Rússia e da República do Tadjiquistão e cônsul honorário do Tadjiquistão em São Petersburgo, a lei é válida, uma vez que incentiva a i nteg ração dos imigrantes. “Há, realmente, uma grande quantidade de imigrantes que não falam russo. Temos problemas quando precisamos elaborar e assinar os documentos para eles”, diz Mirzoda. O Tadjiquistão, assim como a Rússia, também utiliza o alfabeto cirílico, o que, segundo ele, pode facilitar o aprendizado do russo para os imigrantes tadjiques. O cônsul honorário defende também a criação de uma rede de escolas de idiomas na Rússia que funcionem com o apoio dos consulados de ex-repúblicas soviéticas, assim como de centros culturais que possam servir de apoio aos imigrantes com dificuldades no país.

PHOTOSHOT/VOSTOCK-PHOTO

Recorde de imigração

Kremlin está aberto ao diálogo com Petrô Porochenko

A Rússia deu o primeiro sinal de que está pronta a trabalhar com o novo presidente da Ucrânia ao enviar de volta a Kiev seu embaixador, Mikhail Zurabov, que havia regressado a Moscou em 23 de fevereiro. “O presidente russo Vladímir Pútin disse estar aberto ao diálogo com Porochenko, além de relembrar que ele não é o responsável pela tragédia militar vivida no leste do país, o que significa que a Rússia pode vê-lo como interlocutor”, disse Zurabov quando da posse de Porochenko. Moscou defende que a crise ucraniana seja solucionada em conjunto pela Ucrânia, Rússia e União Europeia, declarou ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguêi Lavrov, após uma reunião com seu homólogo finlandês, Erkki Tuomioja. “Propusemos mais de uma vez a nossos colegas, tanto europeus como ucranianos, uma reunião para impedir a divisão da Ucrânia e harmonizar os processos a que a Ucrânia gostaria de aderir na Comunidade dos Estados Independentes com aqueles de cooperação com a União Europeia”, afirmou. Lavrov declarou esperar que o novo presidente da Ucrânia cumpra sua promessa de cessar a intervenção no leste e inicie o diálogo com todas as regiões do país, com base na resolução de Genebra de 17 de abril e no roteiro da presidência suíça da OCSE. De acordo com dados da agência Rússia Hoje, atualmente estão em operação mais de 200 veículos blindados no exército do país, além dos aviões e do maquinário bélico em reparo e construção nas fábr icas de Kharkov.

Favorecido na prisão

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Aleksêi Naválni?

REUTERS

iniciado após a “Marcha dos Milhões”, quando diversos manifestantes foram presos. Uma comissão internacional independente que contou com a Anistia Internacional e a Human Rights Watch chegou à conclusão de que “a violência e a violação da ordem pública foram, em grande parte, causadas pelas ações das autoridades, e sobretudo pela polícia”. Mesmo assim, 27 manifestantes foram presos e julgados. O manifestante Iaroslav Beloussov, de 23 anos, é um deles. Foi condenado a dois anos e meio de prisão. A decisão judicial foi feita com base em depoimento da polícia e em um vídeo que mostrava o jovem jogando um limão no meio da multidão. Em 24 de fevereiro deste ano, outros seis réus foram condenados a prisão. Suas sentenças variam entre dois e me io e qu at r o a no s de encarceramento.

QUEM É...

O advogado Aleksêi Naválni investigou casos de corrupção em empresas estatais russas durante vários anos e escrevia sobre o assunto em seu blog antes de ganhar fama durante os protestos de 2011 e 2012 contra as fraudes eleitorais. Enquanto muitos de seus seguidores o consideram como a melhor opção de líder político, outros criticam seu histórico como difusor de opiniões ultranacionalistas.

Em meados de 2013, o blogueiro e ativista da oposição Aleksêi Naválni, que ganhou fama após publicar na internet suas investigações anticorrupção, foi acusado de apropriação indevida de bens e condenado a cinco anos de prisão. Mas sua sentença foi logo suspensa, depois de Pútin descrevê-la como “estranha”. Na época, o blogueiro já enfrentava outro processo judicial, no qual uma empresa ligada a ele e seu irmão era acusada de desviar um montante de 753 mil dólares da companhia de cosméticos francesa Yves Rocher. Atualmente, Naválni está sob prisão domiciliar e não tem permissão para usar a internet ou o telefone nem se comunicar com qualquer pessoa que não sejam os familiares e advogados. O fato de Naválni não ter sido levado sob custódia durante a investigação é incomum em termos de prática jurídica russa, e alguns es-

pecialistas acreditam que esse movimento é parte de uma campanha para desacreditá-lo. “Levando em conta as decisões judiciais do Caso Bolótnaia, a clemência do sistema jurídico em relação a Naválni o distingue dos demais manifestantes”, diz Aleksandr Pojalov, analista do Instituto de Estudos Políticos e Socioeconômicos. Os principais oposicionistas do país são pessimistas sobre o futuro do movimento. “A oposição não anda tão bem agora”, diz Boris Nemtsov, um dos liberais mais conhecidos da Rússia. “Muitos dos nossos companheiros estão atrás das grades. Alguns são procurados, outros emigraram.” “A oposição deixou de existir como força política organizada porque houve uma divisão das vár ias forças políticas”, aponta o político de esquerda e deputado da Duma, Iliá Ponomariov. O Conselho de Coordenação da Oposição, estabeleci-

REUTERS

Integração da Crimeia afasta críticas a Pútin

Manifestantes, que lotaram as ruas de Moscou entre 2011 e 2012, começam a minguar

do por representantes de vários grupos em outubro de 2012, desmantelou-se apenas um ano depois de criado, após seus membros entrarem em conflito.

A ‘mão do Ocidente’ “As ideias apresentadas pela oposição – eleições justas, iniciativas anticorrupção e reformas eleitorais – eram apoiadas por quase metade da população no início”, exp l ic a o s o c ió l o g o L e v Gudkov. “Os números caíram na medida em que o Kremlin lançou uma campanha de propaganda que enfatiza

conceitos como ‘a mão do Ocidente’ e ‘agentes estrangeiros’. Em algum momento, o público começou a ouvir o Kremlin, e as opiniões passaram a ficar ao lado das autoridades.” Em Moscou, porém, a quantidade de protestos sempre foi superior à do resto do país. Em 15 de março, por exemplo, uma manifestação na capital contra a intervenção militar russa na Ucrânia atraiu 50 mil pessoas, de acordo com n ú m e r o s d o s organizadores. “Apenas cerca de 7% da população sente vergonha e

indignação quando se trata das ações das autoridades russas. Várias pessoas que simpatizavam com a oposição agora endossam as políticas do Kremlin”, diz Gudkov. Hoje, os que se opõem à intervenção da Rússia na Ucrânia são minoria. Por isso, não se espera um grande apoio à oposição em um futuro próximo. “A parte mais sensata da oposição liberal deve se concentrar em aspectos culturais e ideológicos, e não há expectativa de efeito político em um futuro próximo”, diz o analista político Mark Urnov.


Economia

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Comércio Longe de representar diversidade das duas economias, volume da balança bilateral ainda vem caindo nos últimos dois anos

Pequeno, concentrado e em queda Na contramão das trocas comerciais, relações diplomáticas registraram visível aproximação nos últimos anos. GIOVANNI LORENZON ESPECIAL PARA A GAZETA RUSSA

Brasil e Rússia estão mais próximos. Pelo menos no âmbito das relações bilaterais, no alinhamento em questões geopolíticas mundiais importantes e nos Brics, cuja próxima reunião de cúpula será realizada em Fortaleza, em 15 e 16 de julho, com a presença do presidente Vladímir Pútin. Mas os dois últimos anos marcaram também queda na balança comercial entre os países, sobretudo para o Brasil, cujo recorde histórico de US$ 4,216 bilhões em exportações, em 2011, caiu em cerca de US$ 1 bilhão no ano seguinte. A Rússia, que em 2011 conseguiu dobrar suas exportações em relação ao ano anterior, quando vendeu US$ 1,910 bilhão ao Brasil, também perdeu margem em 2012. O reflexo dessa queda no intercâmbio continuou em 2013 e no primeiro quadrimestre deste ano (ver infográfico).

Negócios à parte Mesmo que a boa sintonia diplomática tenha ajudado a Rússia a reduzir drasticamente o déficit com o Brasil – especialmente com a venda de helicópteros militares Mi 35 e suprimentos – o quadro geral mostra retrocesso. “Sim, temos que admitir que os negócios não avançam como gostaríamos”, afirma o assessor da Representação Comercial da Rússia no Brasil, Anton Pissarenko. Mas, segundo a visão corrente na missão do Ministé-

rio do Desenvolvimento Econômico russo em Brasília, chefiada por Serguêi Lôguinov, o resultado é igualmente fruto da estagnação econômica dos dois países. Ou, como diz Pisarenko, as economias andam “lentas”. Dois fatores para a retração saltam da lista de produtos exportados reciprocamente. O primeiro é que, além da concentração em pouquíssimos itens dos dois lados, esses ou não avançam ou caíram. O outro fator é a insignificante inserção de novos produtos nas pautas de exportações. Pelo lado brasileiro, a pauta é limitada basicamente a açúcar, carne, fumo, soja e algumas máquinas e aparelhos mecânicos. Em 2012, a Rússia reduziu suas importações de açúcar em uma proporção impressionante, resultando na entrada de US$ 650 milhões. Desde então, o item, que é o segundo mais vendido pelo país, não se recuperou mais. O complexo carne (bovina, suína e de aves) também vem sofrendo retração desde 2012. A carne bovina, que teve na Rússia o segundo maior comprador mundial em 2013, cresceu marginalmente: US$ 1,2 bilhão contra US$ 1,1 bilhão em 2012. Mas no primeiro quadrimestre de 2014 o produto sofreu um forte abalo, comparado ao período anterior: uma queda de 14% em volume e 18% em receita, fechando em 87,8 mil toneladas e US$ 335,7 milhões. O frango, porém, foi o pior caso. Até 2010, este representava cerca de 18% das exportações totais brasileiras ao parceiro. No ano passado, chegou a pouco mais de 1%, continuando a minguar nos quatro primeiros meses de

Intercâmbio Brasil-Rússia (em milhões de dólares)

NATALIA MIKHAYLENKO

2014, perdendo em volume e US$ 1,5 bilhão em receita. Na mão inversa, as exportações russas apresentam oscilações nos cinco itens dominantes: adubos/fertilizantes, derivados de petróleo, borracha, ferro/aço e enxofre. Os primeiros, que representam cerca de 60% de tudo que o Brasil importa da Rússia, perdem espaço para fornecedores chineses e indianos desde 2012. Até então, o Brasil gastou US$ 1,6 bilhão nessas im-

perdeu espaço para o indiano e tailandês. O frango americano possui uma cota maior de entrada, apesar dos problemas políticos entre os dois países. Além disso, a Rússia cor re para se tor nar autossuficiente. As barreiras comerciais são outro motivo para a queda. Para a Abrafrigo, associação que reúne frigoríficos bovinos, a situação reflete os embargos russos a 35 empresas exportadoras (das quais quatro

portações. Os derivados de petróleo caíram de US$ 503 m i l hõ e s pa r a US$ 300 milhões. “O mais curioso é que em 2013 o Brasil aumentou suas compras internacionais de adubos e derivados, mas preferiu diversificar fornecedores”, diz o consultor em comércio exterior Michel Alaby. A diversificação de fornecedores foi realizada também em outros setores. No mercado russo, o açúcar brasileiro

foram liberadas em abril) por problemas sanitários. Os embargos também se aplicam ao frango. “Mas essas questões são pontuais e tratadas no mais alto nível, mostrando que os dois lados poderão resolvê-las definitivamente”, diz o assessor da Representação Comercial da Rússia. Entre os setores novos que poderiam ganhar mercados mútuos há muito o que fazer. O farelo de soja brasileiro, por

exemplo, não entra na Rússia, apesar de um acordo sanitário de 2013; o trigo russo só é liberado no Brasil quando quebra a safra da Argentina, país que tem reserva de mercado pelo acordo do Mercosul. Além disso, há desafios conjunturais nas duas economias, como lembra Pissarenko, exemplificando com a emperrada reestruturação do sistema ferroviário brasileiro, de interesse das empresas russas.

Retrô Com crescimento de até 430% nos lucros, proprietários deixam veículos na garagem maior parte do tempo e ganham com aluguel

Clássicos russos caem no gosto de investidores. Com fabricação contínua de peças, restauração de nacionais sai mais em conta. DÁRIA TROSTNIKOVA ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Nos últimos dez anos, o lucro gerado por investimentos em carros antigos russos ultrapassou os 430%, de acordo com dados da agência Knight Frank. A margem é superior a qualquer outro investimento em bens de luxo. A título de comparação, os investimentos em relógios de luxo trouxe um lucro de 176% no mesmo período, de acordo com os dados do Coutts Bank. O principal alvo dos colecionadores estrangeiros são carros fabricados durante a era soviética, como os clássicos GAZ 13 Chaika, GAZ21 Volga ou GAZ 20 Pobeda. Além disso, veículos utilizados para transporte de funcionários do governo soviético, como o Zil, o Zis e o Zim, são os mais prestigiados. As fábricas que mais chamam a atenção desses investidores são a Likhatchov e a Stálin.

O preço de um carro vintage depende de seu estado de conservação, do ano de fabricação e da exclusividade do modelo. De acordo com Stanislav Soloviov, presidente da associação de proprietários de automóveis clássicos Rally Club, o preço desses veículos pode chegar a R$ 680 mil.

Acumuladores Enquanto cresce o interesse de estrangeiros nos modelos russos, os colecionadores do país buscam clássicos ocidentais. E se durante a era soviética era necessário se desfazer de seu carro soviético - e de outros bens de consumo - para obter capital para a compra deles, hoje esses compradores agem como “acumuladores”, proprietários de diversos model o s c o nt e m p o r â n e o s e antigos. “Meu primeiro carro antigo foi um BMW 319 do início dos anos 70”, conta Soloviov. Ele diz que, para adquirir o modelo, teve que vender o sonho de qualquer cidadão de classe média: o soviético VAZ-2103, criado

a partir do modelo italiano Fiat 124. No entanto, após a restauração do BMW, conseguiu trocá-lo pelo Volga GAZ 24, o melhor automóvel produzido na URSS. Uma vantagem de que gozam os colecionadores do país, nos quais se inclui o atual presidente Vladímir Pútin, é a atual isenção de impostos para qualquer veículo com mais de 50 anos de fabricação. “Mas se o carro for mais novo, vários fatores influenciam no preço, como ano de fabricação, personalização e motor. Um imposto alfandegário pode, sozinho, ultrapassar os 800 mil rublos [R$ 50 mil]”, diz a especialista em carros Maria Boiko. Por isso, os colecionadores geralmente preferem restaurar os automóveis na Rússia. Além disso, é muito fácil encomendar peças no país. A restauração de um carro antigo dura cerca de um ano e custa a partir de R$ 10 mil. A restauração completa de um GAZ 21 na empresa Ant i k v á r n ie Av t o m obi l i , porém, pode custar até R$ 95 mil. Outros modelos

podem chegar a dispender dez vezes mais, de acordo com a disponibilidade das peças. Apesar dos altos lucros, os colecionadores raramente compram automóveis para revenda. Muitos gastam milhares na compra de um carro apenas para guardá-lo na garagem e participar de exposições temáticas ou corridas algumas vezes ao ano. Isso não significa que os proprietários de carros clássicos não estejam dispostos a vender modelos das suas coleções. Mas, como nos tempos soviéticos, os proprietários vendem os carros principalmente para comprar outro modelo. Além disso, alguns fazem ganhos extras alugando seus carros antigos para casamentos ou sessões de fotos. Em Moscou, é possível alugar uma dessas máquinas por cerca de R$ 220 por hora. O modelos mais populares são o Fiat Balilla 508 e o Chrysler de Soto. O aluguel de um cultuado modelo Packard custa cerca de quatro vezes mais.

ALAMY/LEGION MEDIA

Automóveis vintage tornam-se investimento

O Tchaika GAZ-13, fabricado entre 1959 e 1981, é um dos modelos preferidos dos colecionadores

Raio-x dos carros na Rússia

Mercado de pescados pode ter abertura bilateral CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 1

ranguejo e 77 mil de salmão. Dados do Instituto de Estatística da Rússia mostram que a exportação de peixes e frutos do mar aumentaram 37% nos últimos anos. Os principais importadores da produção russa são países da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico). No momento, o setor está prestes a passar por uma grande reforma no país. Sob os termos da adesão à OMC

(Organização Mundial do Comércio), o país deve cancelar os tributos para a exportação de peixes – o que tem causado insatisfação entre as empresas processadoras do produto nacional. Em uma reunião recente entre o primeiro-ministro Dmítri Medvedev e os representantes da indústria de pesca em Magadan, no Extremo Oriente russo, ficou patente o interesse em investir em instalações de pro-

Maior interesse está na tilápia brasileira, já que peixe vindo da China tem pontos negativos Arenque, salmão e bacalhau são trunfos da Rússia, que quer concorrência com produto norueguês

cessamento de pescados. Por isso, acredita-se que as empresas russas processadoras de pescados irão insistir na abertura do mercado brasileiro justamente com produtos de ma ior va lor agregado.

Perspectiva incerta De acordo com informações do Sindicato dos Pescadores da Rússia, o bacalhau nacional chega ao Brasil através de Portugal, que re-

vende o excedente das importações. No entanto, a Noruega, que pesca o mesmo tipo de bacalhau, vende diretamente ao Brasil cerca de 10 mil toneladas por ano. “É improvável que a Rússia exporte ao Brasil uma quantidade de bacalhau semelhante à norueguesa, embora isso dependa da econom ia r ussa. Quando tivermos um mercado do porte do brasileiro, será possível ampliar a capacidade

industrial na região de Murmansk. A Rússia poderá apresentar seus processados onde quer que a Noruega esteja vendendo seus peixes, e está pronta para competir diretamente”, diz o porta-voz do sindicato. Caso a autorização de importação e exportação de pescados entre os dois países se efetue, o comércio poderá se dar de forma direta entre eles. “Este seria um caminho

mais rentável”, aponta o analista da consultoria Investkafe, Roman Grinchenko. “Mas não acho que a Rússia possa aumentar significativamente a importação de produtos da pesca brasileiros, uma vez que os compradores russos já estabeleceram suas conexões com produtores locais, e os noruegueses já ocupam uma parte significativa das importações”, diz.


Em Foco

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RECEITA

De meca de escritores a objeto de disputa

De volta aos tempos difíceis com a Pasta Perestroika JENNIFER EREMEEVA ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

DIVULGAÇÃO

Paisagens idílicas e clima quente atraíram escritores diversos como Bródski, Volôchin, Tsvetáeva. Na pintura de Ivan Aivazóvski, Púchkin à beira do mar Negro.

A PENÍNSULA TRADUZIDA

visão de mundo livresca, começando a escrever com maior simplicidade e rigor. Tsvetáeva visitou locais puchkinianos na península, como Bakhtchisarai e Ialta. Em seu poema “Encontro com Púchkin”, ela se imagina passeando com o “mago de cabelo encaracolado”. A poetisa conversa com o gênio como se fossem conhecidos, encontrando muitos pontos em comum em suas vidas. À semelhança de Púchkin, também ela não gostava de opressão e não abria mão da liberdade individual. Já o escritor Aleksandr Grin, outro amigo de Volôchin, mudou-se para a Crimeia por razões de saúde, no início dos anos 1930. Grin era um notável escapista, evitando a comunidade para se refugiar na solidão. Sua grande fonte de inspiração era o mar. Na Crimeia, escreveu sua grande obra, “A Que Corre sobre as Ondas”. A história trata de um sonhador doente, curado pelo amor e pelas viagens. Grin foi sepultado numa colina com vista para o mar na cidade de Velha Crimeia.

1799 - 1837

1899 -1 977

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“Primavera em Fialta” “Brincadeira, brincadeira” — eu me apressei a exclamar, abraçando-a gentilmente do lado direito do peito. Sabe-se lá de onde apareceu em suas mãos um buquê cheio de violetas escuras, miúdas, aromáticas, desinteressadas, e, antes de retornar ao hotel, ainda ficamos um pouco perto do parapeito, e tudo ficou sem esperança, como antes. Mas a pedra estava quente, como o corpo, e, de repente, entendi o que até então, vendo, não havia entendido: por que até pouco tempo antes o papel alumínio brilhava, por que o reflexo do copo tremia, por que o mar cintilava — o sol penetrava o céu branco sobre Fialta imperceptivelmente, e agora estava ensolarado por todos os lados, e esse brilho branco aumentava, aumentava, tudo se dissolvia nele, tudo desaparecia...

Tradução: Lucas Simone

Tradução: Graziela Schneider

Aleksandr Grin

Ióssif Bródski

1880 - 1932

1940 - 1996

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Exílio compulsório, meca artística, saúde frágil: motivos diversos levaram escritores à Crimeia

O escritor Gaito Gazdanov emigrou para a França através da Crimeia. Em seu romance “Uma Noite em Casa de Clair”, ele descreve a anarquia reinante nas ruas da península, os trens com feridos nas estações. A última impressão que o escritor guardou da pátria: a areia escaldante do litoral da cidade de Feodóssia voando para os navios carregados de fugitivos. A Crimeia já fora tomada, mas continuava resistindo. Vladímir Nabokov também emigrou passando pela Crimeia. Mas preferiu fechar os olhos à catástrofe e criar seu próprio mito. O conto “A Primavera na Fialta” trata da imagem coletiva de cidades da península, como Ialta, Sudak e Kerch. Nele, o protagonista, um feliz pai de família, chega à Crimeia, onde encontra Nina – sua amiga, casada também, que conheceu há 15 anos, em 1917, e com que namor iscava de vez em quando. A hipotética vida com Nina seria “dificilmente imaginável, desde sempre impreg nada de tr isteza apaixonante e insuportável (...)”. Para Nabokov, Nina personificava a Rússia e o ano de 1917, as mudanças que estavam para acontecer. Pouco depois da despedida, a jovem morre em um acidente de avião. O automóvel em que ela seguia a grande velocidade se chocou contra um ca r r i n ho de u m ci rco ambulante. Em seus romances posteriores, Nabokov deixa transparecer a nostalgia de uma potência liberal do Leste Europeu. O palácio do imperador entre palmeiras e o

Vladímir Nabokov

“A Fonte de Bakhtchissarai” Colírio aos olhos, terra alvissareira! Florestas, morros: lá tudo é vivente, Qual âmbar ou rubi cresce a videira Vales de uma beleza hospitaleira Sob o choupo o frescor de uma torrente. Mal pode o viandante resistir, Quando cedo, à hora mais tranquila, Nas montanhas, no caminho costeiro, Cavalgando em seu passo costumeiro, Diante dele farfalha e cintila Manta, da mais viçosa e verdejante, No rochoso Ayu-Dag, logo adiante.

Ponto de fuga

Clima agradável e recepção calorosa curavam bloqueios de criatividade dos poetas

Aleksandr Púchkin

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dar o exemplo. Sua porta estava aberta para todos, quaisquer que fossem seus cargos ou orientações políticas. Mesmo durante a guerra civil, Volôchin se manteve fiel a seus princípios, escondendo ta nto “brancos” dos “vermelhos”, como “ve r me l ho s” do s “brancos”. O clima agradável da Crimeia e a recepção calorosa da comunidade curavam os poetas dos bloqueios criativos. Para a poetisa Marina Tsvetáeva, Volôchin foi um verdadeiro guru literário. Foi ele quem lhe ensinou a confiar no leitor e a libertar a imaginação. E com seu apoio ela se libertou de uma

Durante a Guerra Civil, a Crimeia foi o último bastião do Exército Branco a cair. De seus portos partiam fugitivos da Rússia: cientistas, artistas, escritores. Os bolcheviques alcançaram a vitória final em 1920, ano também marcante para a literatura russa. “A Fuga”, peça de Mikhail Bulgakov, trata dos últimos dias da velha Rússia. Nessa obra, a Crimeia é representada como uma Arca de Noé que guarda os que procuram se salvar da catástrofe. Militares do Exército Branco, sacerdotes e aristocratas petersburguenses tentam entender o que terá acontecido com a Rússia e qual será o lugar deles no mundo.

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“Velas escarlates” Grey olhou ao redor, voltando-se para cima; sobre ele, irrompiam silenciosamente velas escarlates; o sol em suas costuras resplandecia em uma fumaça purpúrea. O Segredo ia pelo mar, afastando-se da margem. Na estrepitosa alma de Grey não havia qualquer dúvida — nem dos estrondos surdos de alarme, nem do ruído de coisas insignificantes; calmamente, como uma vela, ele irrompia em direção ao maravilhoso alvo; cheio daqueles pensamentos que vão além das palavras.

“Noite de Inverno em Ialta” E assim um sorriso, o ocaso, uma garrafa. Ao longe, um garçom, de braços cruzados dá voltas, como um jovem golfinho ao redor de uma faluca, repleta de peixes. O quadrado da janela. Num vaso, alelis. Cristais de neve que passam voando... Detenha-se, átimo! Não és tão belo, quanto és único.

Tradução: Lucas Simone

Tradução: Lucas Simone

senhor feudal contemplando o mar através da janela. Nabokov transfere para a Crimeia a capital de uma Rússia idealizada.

Península ou miragem É claro que a literatura russa não desapareceu com a partida para o estrangeiro de uma verdadeira plêiade de escritores. A Crimeia continuou a atrair personalidades criadoras em desacordo com o poder - ou seja, potenciais emigrantes. Entre eles, estava o jovem poeta e tradutor Iossif Bródski, futuro Prêmio Nobel. Natural da fria Petersburgo, ele encontrou na Crimeia a união ideal de mar e vinho, elementos preponderantes em todas suas obras ali escritas. Numa obra de rima branca intitulada “Dedicada a Ialta”, Bródski nos fala da incerteza e da casualidade da vida terrena, governada invisivelmente pelo “fatum” impiedoso. No poema “Numa Noite de Inverno em Ialta”, entra em uma polêmica com o gênio do romantismo Goethe: “(…) para, oh instante, pois és mais irrepetível do que belo!” A sensação de liberdade da Crimeia atinge seu ápice no romance de Vassíli Aksionov, “A Ilha da Crimeia”, escrito nos anos 1970. Aksionov foi mais longe ainda que Nabokov, ao reescrever a história e transmutar a geografia. No romance, a Crimeia surge como uma ilha que os bolcheviques não dominam nem em 1920. Não se deixando vergar, torna-se um Estado independente. A Ilha da Crimeia de Aksionov está florescendo, mas procura a amizade da vizinha URSS. Mas a recíproca não é verdadeira por parte da “irmã mais velha”. Apenas meio século depois, o Exército Vermelho toma a Crimeia. A história alternativa da Rússia é engolida pela real. A ilha da liberdade regressou à não existência. A queda da Crimeia de Aksionov é uma metáfora da destruição dos idealistas dos anos 1960, escritores soviéticos talentosos que ingenuamente acreditaram na humanidade do Partido Comunista. A “ilha da liberdade” é uma utopia para um país do tamanho de um continente, cujo povo acredita somente na força. Apesar disso, a Crimeia realmente orienta os pensamentos e as almas para a liberdade. Púchkin tinha razão: passeando por Ialta ou por Gurzúf, há que procurar a liberdade na própria alma.

Os recentes acontecimentos na Rússia me trouxeram a lembrança dos anos 1990. Não sei exatamente por quê. Talvez porque eu fosse mais nova e ávida por liberdade, ou talvez mais otimista e esperançosa sobre a vida na nova Rússia. Naqueles tempos difíceis, o Metropol de Moscou era o ponto de encontro de expatriados. Todos viviam e comiam por ali, em um restaurante subterrâneo elegante chamado Teatro. Meu prato favorito no Teatro era massa com salmão fumado e molho de vodca. Desde então, esse prato foi diversas vezes recriado na florescente cena culinária de Moscou. Mas, naquela época, parecia uma combinação muito exótica. O salmão defumado ou salgado foi sempre abundante: preservar o peixe por defumação ou curar filés de peixe em açúcar e sal é uma tradição

culinária consagrada pelo tempo na Rússia. A vodca, é claro, esteve sempre à mão, bem como os laticínios – embora, às vezes, eu tenha tido que substitui-los por algo menos mágico do que parmesão quando aperfeiçoei aquilo que chamo de “Pasta Perestroika”. Vinte anos mais tarde, creio ser apropriado incluir a perestroika no cânone da culinária nacional. Esse período será certamente lembrado como um momento de grande criatividade e inovação, tanto quanto o período imperial, que produziu pratos significativos a partir da aristocracia russa francófila. Também será recordado pela experimentação vigorosa com novos métodos de cozimento, transição para uma alimentação mais saudável e entusiasmo por produtos locais, bem como pela exploração e incorporação de aromas e temperos do mundo inteiro.

JENNIFER EREMEEVA

Ingredientes: · 1 colher de sopa de azeite de oliva; · 1 colher de chá de sal ; · 375 gramas de salmão salgado ou defumado, picado em pedacinhos; · 500 gramas de penne, rigatoni ou gravatinha; · 1 xícara de creme de leite; · 125 ml de vodca com sabor de limão; · 2 colheres de sopa de manteiga; · 1/3 xícara de queijo parmesão ralado; · 1 pitada de pimenta caiena amassada; · 4 cebolinhas picadas; · 4 colheres de sopa de endro picado.

Modo de preparo: Encha uma panela com água fria. Adicione azeite e sal. Leve a água à fervura e, em seguida, coloque o macarrão. Reduza o fogo e cozinhe por 12 a 15 minutos até ficar ‘al dente’. Separe ½ xícara da água do macarrão e reserve. Enquanto a massa está cozi-

nhando, derreta a manteiga em uma panela pequena. Acrescente o creme de leite e misture. Aos poucos, adicione o queijo e misture tudo até que fique homogêneo. Coloque a vodca e deixe cozinhar em fogo baixo por dois minutos. Acrescente a pimenta caiena. Escorra o macarrão, e depois retorne à panela em fogo médio. Adicione a água do macarrão reservada e termine de cozinhar a massa. A água vai se misturar gradualmente com o amido da massa e evaporar. Acrescente mais água conforme necessário. Adicione a mistura de creme de leite, manteiga e queijo até que a massa fique completamente submersa no molho. A vodca vai evaporar, enquanto o molho cozinha por mais um minuto em fogo baixo. Acrescente o salmão e a cebolinha, mexendo bastante. Decore com endro e sirva imediatamente. Se você gosta de um toque verde no prato, adicione ervilhas, aspargos ou abobrinhas picadas. Priátnogo appetita!

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