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Cara Metade

1. Criatura de Duas Cabeças 2. Trabalho Feito pela Metade 3. Completa-mente 4. Casamento da Família e Além 5. Con-sócio de Construção 6. Feliz-cidade 7. Espaçotempo de Reunião Vitória, segunda-feira, 16 de junho de 2008. José Augusto Gava.

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Capítulo 1 Criatura de Duas Cabeças Na realidade a humanidade é uma equação que começa como ½ + ½ = 100 % e não 1 + 1 = 2, como o mito bíblico de Adão e Eva nos induziu a pensar. Não somos homem + mulher e sim um par fundamental feito de um só ser com duas cabeças, quatro pernas, quatro braços e assim por diante, com a vantagem enorme de estarmos separados-unidos pela sexualidade da Curva do Sino que a Natureza inventou para a gente. UM DESENHO DO PAR FUNDAMENTAL • bifacial (duas faces); • quadrúpede (quatro pernas; uns são mais que outros); • quadrúmano (quatro mãos); • bimental (duas mentes, quatro hemisférios); • hermafrodita (consegue se reproduzir só, pois tem os dois sexos); • e segue. CURVA DO SINO/PAI E DO NANO/MÃE (a coroa da humanidade tem dois lados que se reúnem atrás)

homem

mulher

união

cara

moeda futura

coroa 2


Trono pelo centro, reunindo os pares de oposto-complementares. Veja só que coisa interessante! A coroa não é de um só, é de dois, é do rei e da rainha, que constituem pelo centro a cara-coroa. De um lado o homem que não tolera tarefas cíclicas vai à guerra correr riscos; do outro, a mulher que não suporta conflitos repete os recorrentes que subjugariam os homens até o cansaço. A Natureza lá nos primórdios separou o ser único (que, lembre-se, teria chance muito menor de conflitos internos, até porque se fossem destrutivos demais a evolução nem teria acontecido) em dois, mas uniu-os novamente pela sexualidade; foi um risco enorme, mas também foi sabedoria. SEXO (isso é bom demais!)

O mundo gira em torno do sexo e o sexo gira em torno do mundo. 3


Sexo não é apenas isso que nós racionais pensamos, é muito mais, é o panorama geral de construção de toda a evolução que veio dos fundos até hoje, que começou a acontecer lá para trás. Como é tão fundamental para o nosso futuro, a nossa integridade psicológica e tudo mais, deveríamos estar estudando-o obsessivamente desde as algas cianofíceas, desde 3,8 bilhões de anos, desde o começo da vida. Sexo é chance de problemas e de soluções, é ceder seu corpomente para agradar o “outro” sexo. Pense que só nós, seres humanos, somos 6,5 bilhões de na Terra em vários graus de sexualização, do nascer ao morrer em qualquer idade. Quem não faz pelo menos tenta lembrar. Ocupa uma porção enorme dos nossos dias e das nossas noites e é inventado e reinventado todos os dias. Sexo está infinitamente mais em nossas vidas do que futebol ou qualquer outra atividade. Na realidade, uma grande quantidade de preceitos se volta para impedir ou controlar a excessiva sexualização humana – há uma quantidade incrível de proibições claras ou veladas. SÍMBOLO TAMBÉM DO SEXO, YIN+YANG

Homem

Mulher

Com essa roupa de astronauta por cima não dá para saber se é homem ou mulher; não estou estimulando nada, só dizendo que é um conjunto que nos levou lá, na Lua e a tantos lugares da Terra. A Natureza plantou dentro de cada uma a necessidade do outro e dentro de cada outro a necessidade de uma e disso fez uma geo-história belíssima. E nós fomos adiante conjuntamente. Em duas metades, não é uma metade só. De que maneira somos duas metades? Somos oposto-complementares, um precisa da outra; é uma combinação selada por 3,8 bilhões de anos da vida, 100 milhões de anos dos primatas, 10 milhões de anos dos hominídeos, 200 mil dos neanderthais, 80 a 70 mil anos dos cro-magnons, nossa espécie. De problemas tornados soluções. É de fato como o símbolo do Yin/Yang, independentemente de interpretação oriental: dentro de cada lado existe uma imagem do outro, que nos guia. 4


Capítulo 2 Trabalho Feito pela Metade Mas há alguns que não reconhecem isso. A CURVA DO SINO LEVADA AOS EXTREMISMOS MACHISTAS: 47,5 % 47,5 % FEMINISTAS: 2,5 % 2,5 % superafirmação superafirmação dos machos das fêmeas Isso porque existem quatro sexos e não dois, e daí todas as combinações que vem deles (como está dito no modelo): • machos; • fêmeas; • pseudo-machos (veados, gays, boiolas e todos os apelidos ofensivos: a ofensibilidade não está no nome e sim no desejo de ofender); • pseudo-fêmeas (sapatões, lésbicas e demais enquadramentos). Machismo leva a homossexualismo masculino (se é homossexual, como pode ser másculo?) e feminismo leva a homossexualismo feminino (idem). São extremizações, supertemperaturas que só aparecem em excesso em certas situações que declararemos depois. UMA LISTA IMENSA DE TRABALHOS FEITOS PELA NOSSA OUTRA METADE (significa que você ficou livre disso, ficou livre, ficou você, teve tempo para você porque alguém que participa de seu projeto de vida livrou-o ou livrou-a de ter de fazer tudo; o que significou milhões de produtos postos a seu serviço)

Na verdade a lista acima é pequena, bem pequena. Ela poderia ser encomprida ilimitadamente para conter tudo que a humanidade faz, pois a soma de tudo é feita pela outra metade: outra metade em relação a uma e outra uma em relação à metade. Todas as coisas que existiram, existem e existirão (fora o que vem dos não-humanos: fungos, plantas, animais e primatas) vem da outra metade, alguma outra metade, soma da metadehomem e metade-mulher. E se incluirmos cada uma das outras espécies (dizem que são 30 milhões), então é tudo mesmo. 5


Você pensa que se metade fosse excluída sempre poderíamos aprender a fazer o que ela faz, mas pense em todas as coisas tão difíceis de VOCÊ fazer: se aceitaria fazê-las de agora em diante. TODAS AS COISAS QUE VOCÊ DETESTA FAZER

PENSANDO BEM, TODAS MESMO!

E em relação a tudo que a humanidade faz e tudo que as espécies fazem, nem haveria força no indivíduo. Olhe para todas as tarefas, OLHE MESMO, para tudo, TUDO MESMO, e comece então a reparar na utilidade de sua outra metade, em como seremos (ou poderíamos ser) felizes se nos dedicarmos (ou se nos dedicássemos) mais à felicidade e menos a reclamar. DUAS METADES DE ESFERA FAZEM A VIABILIDADE QUANDO ESFERA homem-hemisférico casal-esférico mulher-hemisférica

A esfera é totalmente estável.

Capítulo 3 Completa-mente Somos criaturas de duas cabeças, quatro braços, quatro pernas e assim por diante, tudo duplicado, só que separado; você não sente TANTA falta - se está só - porque o trabalho da outra 6


metade está sendo socialmente suprido. Não somos 6,6 bilhões (para dar conta certa), somos 3,3 bilhões de pares potenciais. DUAS CABEÇAS (mas não somos monstros, porque as cabeças estão postas em corpos diferentes)

DUAS E QUATRO FACES (embora não reparemos, na realidade partes de nós estão operando, suprindo nossas faltas)

família casal Pois nós não somos mais indivíduos, somos grupo. Um desses grupos, chamado “Grande Vitória”, tinha menos de 300 mil faces em 1971, quando vim morar aqui; agora passa de 1.400 mil, cresceu muito, incorporando várias cidades. Existem outros muito maiores. AS MAIORES AGLOMERAÇÕES URBANAS Maiores Cidades do planeta 7 nov 2006

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OS MAIORES PIBs EM 2020

AS MELHORES CIDADES PARA VIVER (cidades são supermáquinas e superprogramas, superprogramáquinas para se viver; Le Corbusier não as viu como máquinas de morar) Segue-se uma lista com as melhores cidades do mundo para se viver de acordo com a revista Business Week com relação à qualidade de vida. 215 grandes cidades foram avaliadas:

Embora ainda nos vejamos como indivíduos, esses são grupos, indefectivelmente grupos, grupos imensos, inimagináveis. Por exemplo, a cidade-capital de São Paulo, sozinha, tem 10,4 % do PIB brasileiro e a Grande SP tem 2.500 km2 de área ocupada com construções. 8


Embora eu diga “minha mente”, metade dela, a minha outra metade está fora; muito mais que isso, 3,3 bilhões das nossas metades estão amplamente disseminadas em toda longitude, latitude, altitude. Quase não sinto falta, quando estou só (exceto sexualmente), porque todos esses 3.300 milhões estão por aí trabalhando com afinco para suprir o que não sei fazer, em relação às ocupações delas (sem falar dos 3,3 bilhões do nosso lado que fazem tudo que você e eu não sabemos; mas isso é outra história). HEMISFÉRIAS (você eu vivemos em férias do que faz a outra metade; e nem agradecemos isso) AS OUTRAS DUAS METADES NOSSAS DUAS METADES 1/2 1/2 1/2 1/2 hemisfério hemisfério hemisfério hemisfério esquerdo direito esquerdo direito Como Koestler disse primeiro (dividindo nosso cérebro em reptiliano, mamífero e humano) e o modelo colocou de outro modo, temos vários cérebros em cada um de nós; de fato, reparando sermos um-em-dois, é uma profusão, uma quantidade insuspeitada, ainda mais porque vamos muito além do indivíduo. Os paleontólogos, os arqueólogos, os antropólogos e os geo-historiadores não analisaram e porisso não sintetizaram uma teoria-prática coerente da convivência um-uma e nem do conjunto da humanidade DO PONTO DE VISTA DA FUSÃO ou da tentativa constante dela, exceto pelo lado do episódico, quer dizer, de cada tentativa homem-mulher (ou outras). Mas esse vasto mecanismo no tempo e no espaço não foi visto a contento. GEO-HISTÓRIA DO CASAMENTO a) CASAMENTO PESSOAL 1. casamento dos indivíduos; 2. casamento das famílias; 3. casamento dos grupos; 4. casamento das empresas (embora as empresas não prestem atenção, se os indivíduos no casamento não são estáveis em todos os sentidos as empresas serão afetadas, com grandes danos); b) CASAMENTO COLETIVO 5. mediação municipal-urbana; 6. mediação estadual; 7. mediação nacional; 8. mediação mundial. O que quer dizer casamento? 1. o que quer dizer ser o homem? 2. o que quer dizer ser a mulher?

Capítulo 4 Casamento das Famílias e Além 9


UMA ÁRVORE GENEALÓGICA É UMA INDICAÇÃO DE MISCIGENAÇÃO DAS FAMÍLIAS

O tempo todo, em toda parte, as pessoas estão miscigenando, misturando: indivíduos formando famílias, estas grupos, estes empresas e assim por diante. Como diz o povo, em toda parte a todo instante uma “aflição de gente” está se misturando sexualmente (homem e mulher), racialmente (negros, brancos, amarelos, vermelhos), por idade (jovens e novos), por origem, por classe social e segue. Onde fica a individualidade nisso tudo? Essa individualidade QUE NÃO SE MISTURA é um defeito de visão de nossas mentes racionais segregadoras. É verdade que somos indivíduos, porém é verdade também que não somos. Primeiro há o além-de-mim que são os ambientes e as pessoas não-eu. Depois temos TODAS AS MISTURAS de não-eu (sexo, raça, idade, origem, classe e segue) de que dependo. A seguir todo o saber não-eu, todas as memórias e inteligências que o mundo produz. Enfim, o não-eu é uma amplidão para o passado e o futuro, no presente abrindo-se em 200 nações, 4.000 estados e o resto todo. Em resumo, não-eu, em relação a eu, é tanto mais além de mim que quase desapareço. Sou metade com minha metade e só nesse par sou um, embora metade: 0,5 + 0,5 = 1,0 = casamento; além desse par-de10


defesa, quer dizer, além do casamento monogâmico estão as inumeráveis facetas do mundo, as complexidades ilimitadas que não posso resolver. Então, Natureza-Deus quebrou-nos em duas partes que devem voltar a se unir, para produzir a necessidade de união em famílias e além, para criar as sociedades.

Capítulo 5 Con-sócio de Construção Então, nós temos vários tipos de sociedades: a) dentro de nós vieram nos montando todas as sociedades que deram no indivíduo, por exemplo, sociedade dos órgãos; b) a seguir nos unimos em famílias, com ou sem filhos (no meu caso tive dois, grandes amigos); c) e aí segue todos aqueles níveis pessoais e ambientais. De fato a vida é uma sociedade tremenda: i. sociedades vitais (fungos, plantas, animais e primatas); ii. sociedades psicológicas (pessoas e ambientes). Cada sociedade dessas abre-se em multíplices camadas de complexidades, complexidades quase indescritíveis que os estudiosos penam para descrever apenas no nível biológico-p.2. No nível psicológico-p.3, claro, é muito mais difícil, chega a ser impossível, pois estamos dentro. Não existe nenhum SUPERMUNDO que esteja de fora olhando o mundo, somos nós as mesmas cabeças individuais que ousam pensar a totalidade, dividindo-a e subdividindo-a em numerosas frações tratáveis. NÓS NOS SENTIMOS ESMAGADOS PELA CRESCENTE COMPLEXIDADE (é preciso começar urgentemente o processo de re-união)

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Quanto mais tentamos alisar, mais o cabelo embola.

Uma galáxia de dados, e nem há um centro gravitacional. O método científico redutor é muito bom, produziu a maioria das coisas que vemos e grande parte de nossas liberdades (e prisões) atuais. Contudo, também foi ruim, porque o redutor (e ampliador) levou ao reducionismo, a superafirmação da redução. Já que funcionava tão bem as pessoas não se preocuparam com um método científico ampliador. Em particular, a Ciência geral não ajudou a colar homem e mulher despedaçados, nem as famílias, nem os grupos, nem mesmo coisa alguma; na verdade, ajudou a rebentar. Não fez de nós felizes criaturas re-unidas, fez de nós consumidores seres infelizes superconsumindo e mesmo assim incapazes de chegar à felicidade, ainda que livres para procurá-la. A re-união deve começar pela re-união do par fundamental. Re-construir a família é fundamental.

Capítulo 6 Feliz-Cidade Se a cidade é, apesar de tudo, feliz, se é feliz-cidade é porque o trabalho é muito dividido e, enquanto estou de férias deitado na rede, por toda parte milhões estão se azafamando, trabalhando continuamente, com afinco; se tiro um mês de férias nem um dia de mim vai trabalhar – por 30 dias eu falto ao trabalho sem que o trabalho falte a mim. Minha casa continua comendo, bebendo e fazendo todas as competentes graças que nos dão. E por toda parte milhões operam com vigor quando estou dormindo. Se alguém entra em coma não acorda num mundo destruído: na sua ausência todos continuaram a trabalhar diligentemente. 12


O FORMIGUEIRO CONTINUA DIA E NOITE

Eu formiguinha, formiguinha você. VIDA DE FORMIGA Z NO FORMIGUEIRO Z (Woody Allen interpreta o filho quinto-milhão, Z; pois existe todo um abecedário de formigas e formigueiros, com índices e sub-índices) A formiga Z se apaixona pela princesa Bala e termina enfrentando os desafios do mundo exterior e o impiedoso General Mandíbula. Com vozes de Woody Allen, Sharon Stone, Jennifer Lopez, Gene Hackman e Sylvester Stallone. Ficha Técnica Sinopse Pôsters Premiações

Elenco Críticas Imagens / Trailers Curiosidades

Ficha Técnica

Título Original: AntZ Gênero: Animação Computadorizada Tempo de Duração: 82 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1998 Site Oficial: www.pepsi.com/antz Estúdio: DreamWorks SKG / Pacific Data Images Distribuição: DreamWorks Distribution L.L.C. / UIP Direção: Eric Darnell e Tim Johnson Roteiro: Todd Alcott, Chris Weitz e Paul Weitz Produção: Brad Lewis, Aron Warner e Patty Wooton Música: Harry Gregson-Williams e John Powell Desenho de Produção: John Bell Direção de Arte: Kendall Crockhite Edição: Stan Webb Efeitos Especiais: Pacific Data Images Elenco (Vzes) Woody Allen (Z) Sharon Stone (Princesa Bala) Gene Hackman (General Mandíbula) Jennifer Lopez (Azteca) Danny Glover (Barbatus) Sylvester Stallone (Weaver)

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Christopher Walken (Coronel Cutter) Dan Akroyd (Chip) Anne Bancroft (Rainha) Jane Curtin (Muffy) Paul Mazursky (Psicólogo) Sinopse A formiguinha Z é apenas um operário, que sonha roubar o coração da princesa Bala. Para isso, convence seu amigo soldado a trocar de lugar com ele, o que faz com que tenha que enfrentar o impiedoso General Mandíbula, que planeja uma grande ofensiva contra o formigueiro.

A formiguinha, tendo ao fundo o Um dos formigueiros, sem que se veja formigueiro. uma só formiguinha. Isto é a Terra, o terrário-aquário da humanidade, a gaiola redonda dos loucos de pedra. Somos 6,6 bilhões de formigas dentro deste formigueiro-mundo. E NÓS AINDA PARTILHAMOS A TERRA/AR/ÁGUA (aqui, as aves)

Em resumo, embora nos vejamos como indivíduos, na verdade somos um CORRELATIVO DE EMPREENDIMENTOS em furiosa mutação tempespacial. 14


Capítulo 7 Espaçotempo de Reunião Pois então, é hora de re-unir a humanidade, de fazer cessar o pecado original divisor. RE-FAZENDO: família não mais ilha. Famílias de todos os tipos, com todas as uniões, todas as misturas.

É preciso, é fundamental que os governos de todo o mundo invistam maciçamente na reunião dos pares fundamentais, nos casamentos, no estudo das uniões estáveis, na restauração, no contorno não-forçado dos divórcios e separações, digamos com um período de experiência antes da consagração do casamento: uniõesem-experiência. A gestação da nova família deve ser o mote deste século XXI todo e do futuro. Vitória, quinta-feira, 12 de março de 2009. José Augusto Gava.

Anexos Capítulo 5

O MÉTODO CIENTÍFICO REDUTOR (logo de cara esse quebrar em partes rompe os vínculos da totalidade, da funcionabilidade total) 15


II.2. Características do método científico

O método dedutivo, o método indutivo e o método hipotético-dedutivo são os três métodos científicos a que se refere a denominação genética de método científico. A primeira característica do método científico é a sua natureza convencional, a de servir de marco de geração do conhecimento objetivo. Por isso existem múltiplas características em função da perspectiva com que se classifiquem, se estudem e inclusivamente se denominem. A primeira que me chama a atenção é o fato de que os dois primeiros têm um nome difícil de distinguir, visto que no âmbito lingüístico, podem representar um só conceito com duas manifestações: raciocínio numa direção ou na contrária, do geral para o particular ou vice-versa. O problema, logicamente, deriva da dificuldade conceptual de separar um método científico de outro de uma forma clara; evidentemente os termos escolhidos não ajudam a reter na memória estes dois conceitos de método científico. Também não ajuda muito a denominação do terceiro método científico. Uma característica de ambos métodos é que podem ir do geral para o particular ou vice-versa, num sentido ou no inverso. Ambos utilizam a lógica e chegam a uma conclusão. Em última instância, sempre têm elementos filosóficos subjacentes. Ambos costumam ser susceptíveis de verificação empírica. Ainda que o método dedutivo seja mais próprio das ciências formais e o indutivo das ciências empíricas, nada impede a aplicação indistinta de um método científico ou outro a uma teoria concreta. Para mim, sem pretender entrar em polêmica neste tema, a diferença fundamental entre o método dedutivo e o método indutivo é que o primeiro aspira a demonstrar, mediante a lógica pura, a conclusão na sua totalidade a partir de umas premissas, de maneira que se garante a veracidade das conclusões, se não se invalida a lógica aplicada. Trata-se do modelo axiomático proposto por Aristóteles como método científico ideal. Pelo contrário, o método indutivo cria leis a partir da observação dos fatos, mediante a generalização do comportamento observado; na realidade, o que realiza é uma espécie de generalização, sem que através da lógica possa conseguir uma demonstração das citadas leis ou conjunto de conclusões. As referidas conclusões poderiam ser falsas e, ao mesmo tempo, a aplicação parcial efetuada da lógica poderia manter a sua validade; por isso, o método indutivo necessita de uma condição adicional, a sua aplicação considera-se válida enquanto não se encontrar nenhum caso que não cumpra o modelo proposto. O método hipotético-dedutivo ou de verificação de hipóteses não coloca, em princípio, nenhum problema, visto que a sua validade depende dos resultados da própria verificação. Este método científico costuma utilizar-se para melhorar ou precisas teorias prévias em função de novos conhecimentos, nas quais a complexidade do modelo não permite formulações lógicas. Portanto, tem um caráter predominantemente intuitivo e necessita, não só para ser rejeitado mas também para impor a sua validade, a verificação das suas conclusões. 16


Poderia propor-se, para estas três variantes do método científico, a denominação de método dedutivo, método intuitivo e método experimental ou método de verificação, ou qualquer conjunto de palavras que façam referência às suas diferenças fundamentais e não coloquem problemas à memória lingüística. Não obstante, nesta exposição, manterei a nomenclatura geralmente utilizada. A Teoria Geral da Evolução Condicionada da Vida seria, em princípio, uma teoria baseada no método hipotéticodedutivo ou método de verificação de hipóteses. A teoria de Darwin, pelo contrário, estaria enquadrada no método indutivo; mas que, apesar de encontrar exemplos contrários não se invalida, adéqua-se para encaixar qualquer triângulo.

Porque será?

Como se disse anteriormente, toda a teoria deve ser resistente à sua refutação, contudo, uma teoria que não pode ser refutada por nenhum fato concebível, não é científica. A impossibilidade de refutação de uma teoria científica não é uma virtude, mas sim um vício. TEORIA SOBRE O MÉTODO CIENTÍFICO EM BUSCA DE UM MODELO UNIFICANTE PARA AS CIÊNCIAS E DE UM RETORNO À UNIVERSIDADE CRIATIVA I -- INTRODUÇÃO

Alberto Mesquita Filho Começo, regra geral, as minhas lições sobre Método Científico dizendo aos meus alunos que o método científico não existe. Acrescento que tenho obrigação de saber isso, tendo eu sido, durante algum tempo, pelo menos, o único professor desse inexistente assunto em toda a Comunidade Britânica. ... Tendo, então, explicado aos meus alunos que não há essa coisa que seria o método científico, apresso-me a começar o meu discurso, e ficamos ocupadíssimos. Pois um ano mal chega para roçar a superfície mesmo de um assunto inexistente. Karl R. Popper [1] Resumo: Este artigo é o primeiro de uma série de artigos relacionados à metodologia científica e cuja temática foi dividida em cinco tópicos principais. Corresponde a uma versão atualizada de considerações expressas pelo autor a partir de 1983, em livros, artigos e conferências citados no texto; colaborou, para esta atualização, a experiência adquirida pelo autor no processo de remodelação da PróReitoria Comunitária da USJT (1992-1993), bem como aquela adquirida junto aos demais membros da equipe criada pelos Conselhos Superiores da USJT (1994) --expandida em 1995-com a finalidade de implantar o Centro de Pesquisa da USJT. Os conceitos foram axiomatizados, de forma a darem corpo a uma nova teoria sobre o método científico, permitindo mesmo a constatação de possíveis aplicações dentro de um contexto abrangente, tais como: 1) a teoria fornece os meios necessários para que se promova a integração das ciências; e, 2) propicia a sustentação de um projeto visando a caracterizar a universidade como o local apropriado para a formação de cientistas. Os cinco tópicos a serem abordados são, pela ordem: I - Introdução, na qual é proposta a regra delimitante da ciência; II - O macrométodo científico e a História da Ciência; III - O 17


papel da universidade na produção de conhecimentos; IV - O método científico propriamente dito: a) A teoria da prática em ciência; b) A prática da teorização científica; V - O micrométodo científico e a Filosofia da Ciência. Os demais tópicos estão em fase de projeto, não havendo portanto previsão quanto à época de publicação. [*] 1. Colocação do problema. Método, entre outras coisas, significa caminho para chegar a um fim ou pelo qual se atinge um objetivo. Que dizer então do método científico? [2] Poderia dizer que é o

caminho trilhado pelo cientista quando em busca de "verdades" científicas. Percebam que estou meramente

jogando com as palavras e associando-as ao conceito de método acima postulado. Quais são as "verdades" científicas? O que é ser cientista? O que é ciência? Existe uma ciência única? Quando nos reportamos a uma hipotética linha demarcatória, a separar o que julgamos ser uma verdade científica de outras possíveis verdades, a que nos estamos referindo? Afirma-se, com grande freqüência, que o cientista é aquele que se utiliza do método científico. Os que aceitam esta verdade, --e há muitos que o fazem-- devem procurar uma conceituação para método científico diferente da exposta no parágrafo anterior, sob pena de andarem em círculo. Ou definimos cientista a partir da definição de método ¾algo tentado por Popper ao propor o falsificacionismo [3]¾ ou definimos método a partir da definição de cientista; do contrário não chegamos a nada. Conservarei a idéia de método científico como caminho trilhado pelo cientista, com o que estou assumindo o risco de ter que definir ciência e/ou cientista. É o que tentarei fazer nesta introdução. 2. O que é ciência? Não é fácil definir ciência, e são inúmeros os tratados sobre o assunto a abordarem esta dificuldade. Ao leitor principiante em ciência e que queira penetrar na complexidade do tema, ou então perceber a quantas anda nossa ignorância a respeito, sugiro, se tiver pendores filosóficos, que comece pelo livro de Chalmers (1976) [4]; ou então, se preferir algo mais ameno e mais voltado à prática científica, pelo livro de Beveridge (1980) [5]. Ao leitor acomodado, e que não tenha amplo conhecimento do assunto, ou mesmo para aquele que pretenda prosseguir com esta leitura ciente de que é possível, pelo menos em nível conjetural, enfrentar o desafio apontado, relatarei aqui a conclusão de um ensaio, que sintetiza uma idéia que me ocorreu há cerca de dez anos [6], e que apresentei, na sessão de debates da mesa redonda A Pesquisa na Universidade Particular, ocorrida por ocasião da IV Semana de Psicologia da USJT (1994), com as seguintes palavras:

"Vejo a ciência como a área do conhecimento que se apóia não num método, mas sim na regra da repetitividade, a que eu tenho chamado de regra científica fundamental: Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda." [7] A regra científica fundamental, conquanto aceita,

intuitivamente, por todos os cientistas, ocupa, entre os mesmos, e até entre os filósofos da ciência, um papel secundário, quando não totalmente ignorada. Via de regra, considera-se a ciência como que apoiada em regras outras, 18


como por exemplo: o princípio da causalidade de Kant, a regra metodológica de Popper que se associa a seu método dedutivo de prova, o princípio ou argumento indutivista, e as regras ou critérios de utilidade. Como posições

extremas, e apoiadas em regras mais rígidas, podemos citar a visão paradigmática de Thomas Kuhn, a defender o dogmatismo científico; o ponto de vista de Chalmers, a questionar a argumentação filosófica, no que diz respeito à delimitação da ciência; e a visão anarquista de Feyerabend, a se opor frontalmente ao racionalismo em ciência. A fim de ilustrar o comentado no parágrafo anterior, vejamos como Thomas Kuhn (1962) --defensor de uma posição científico-filosófica incompatível com a que aqui pretendo apresentar-- retrata a importância da repetitividade dos eventos como algo a semear o surgimento de novas idéias:

"Existem, em princípio, somente três tipos de fenômenos a propósito dos quais pode ser desenvolvida uma nova teoria. O primeiro tipo compreende os fenômenos já bem explicados pelos paradigmas existentes. Tais fenômenos raramente fornecem motivos ou um ponto de partida para a construção de uma teoria. Quando o fazem, ... as teorias resultantes raramente são aceitas, visto que a natureza não proporciona nenhuma base para uma discriminação entre as alternativas. Uma segunda classe de fenômenos compreende aqueles cuja natureza é indicada pelos paradigmas existentes, mas cujos detalhes somente podem ser entendidos após uma maior articulação da teoria. Os cientistas dirigem a maior parte de sua pesquisa a esses fenômenos, mas tal pesquisa visa antes à articulação dos paradigmas existentes do que à invenção de novos. Somente quando esses esforços de articulação fracassam é que os cientistas encontram o terceiro tipo de fenômeno: as anomalias reconhecidas, cujo traço característico é a sua recusa obstinada a serem assimiladas aos paradigmas existentes. Apenas esse último tipo de fenômeno faz surgir novas teorias. [8] Ora, se um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se

recusou obstinadamente a ser assimilado aos paradigmas existentes, e se esta recusa é quem orienta a

caracterização de novas teorias, e mais: se a ciência é, fundamentalmente, o conjunto das idéias e teorias geradas pela mente humana, bem como a aplicação, pelo homem, dessas idéias e teorias, em busca de um relacionamento sadio com a natureza e com os seus semelhantes, podemos sossegadamente concluir que ciência é o processo pelo qual o homem se

relaciona com os fenômenos universais que se sujeitam à regra científica fundamental.

3. O "ser" cientista. Cientista, diz-nos Ferreira (1986), é a pessoa que cultiva

ou que é especialista em alguma ciência, ou em ciências

[9]; e ciência é um processo definido no item anterior. Se aceitarmos estas premissas, concluiremos que o conhecimento científico é aquele factível de reprodução, enquanto o cientista é aquele que, de alguma forma, cultiva esses conhecimentos. É importante aqui salientar que, muitas vezes, o que se espera reproduzir é um dado probabilístico. Por exemplo, se dissermos que 80% das moléculas de um gás são do elemento químico oxigênio, isto não significa estarmos afirmando ser oxigênio esta ou aquela molécula objeto de verificação experimental; o que a regra nos preconiza é que, independentemente de qual cientista for tentar reproduzir a medida, ou do local escolhido para que 19


esta segunda medida seja efetuada, observando-se as condições em que a mesma foi realizada anteriormente, o valor obtido concordará com o valor precedente, dentro de uma margem de erro também estimável por métodos experimentais. Todos nós, vez ou outra, nos comportamos como cientistas. Ser cientista não é possuir um rótulo, mas sim postar-se com uma atitude científica; por outro lado, mesmo aquele que se diz cientista, vez ou outra assume atitudes não científicas e penetra em terrenos apoiados em regras próprias ou, até mesmo, sem regras. O rótulo é freqüentemente utilizado quando queremos nos referir às pessoas que se utilizam de seus talentos científicos como meio de vida: seriam então os cientistas profissionais. A filosofia, por exemplo, é um campo de atuação bem mais abrangente que aquele ditado pela regra científica fundamental. Poderíamos dizer que a filosofia comporta a ciência, ainda que esta idéia não agrade a alguns cientistas; mas jamais poderíamos dizer, e quanto a isso todos são concordes, que a ciência comporta a filosofia. O bom cientista utiliza-se da filosofia, da mesma forma que a maioria dos indivíduos com sede se utilizam do copo. Outras áreas do conhecimento seriam: 1) o ocultismo ¾e aqui poderíamos incluir, a título de exemplo, a alquimia e a astrologia; 2) as artes ¾e vale a pena aqui frisar que a arte pode ser encarada cientificamente, postura esta que foi freqüentemente adotada por Leonardo da Vinci [10], e defendida em sua Teoria do Conhecimento. 3) a teologia; etc. A busca pela verdade, que também é objetivo da grande maioria destas áreas não científicas, segue-se por caminhos nem sempre limitados ou compatíveis com a regra científica fundamental. O cultivo da ciência pode se dar através da observação de alguns ou todos dentre seus objetivos nobres, quais sejam: 1) aquisição, transmissão e aplicação de conhecimentos científicos já sistematizados; e 2) produção e divulgação de novos conhecimentos. Visto sob este ângulo, são cientistas: 1) o estudioso e/ou o professor e/ou o profissional bacharel em quaisquer das ciências; 2) o tecnólogo; 3) o pesquisador em áreas científicas; 4) o teorizador em ciências; 5) e o autor de artigos científicos relatando idéias próprias e/ou revisões bibliográficas. Sob um ponto de vista mais rigoroso, o cientista seria apenas aquele capaz de dominar as técnicas inerentes a todos os objetivos nobres acima apontados. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Percebam que já conceituamos ciência e já conseguimos ir além, a ponto de fornecer dados para que se analise o comportamento daqueles que trabalham em ciência. Observado este comportamento, poderíamos assumir como cientistas aqueles que realmente contribuem para o progresso das ciências. Adotarei esta postura, mas gostaria de esclarecer, conforme será comentado oportunamente, que a noção de progresso aqui defendida é um pouco mais abrangente do que aquela preconizada pelos pensadores iluministas [11] que tanto influenciaram os positivistas. Aceita esta premissa ¾a de que cientistas são somente aqueles que real e diretamente [12] contribuem para o progresso das ciências¾ suponha que consigamos caracterizar os cientistas, assim definidos, como aqueles que, ao contribuir para o progresso das ciências, se utilizam de um método comum, a que chamaremos 20


método científico. Poderemos, então, afirmar, e não se trata aqui da busca por uma definição, que o cientista é aquele que se utiliza do método científico; o raciocínio cíclico, da forma como foi agora utilizado, está livre de conseqüências funestas. Notem, com o auxílio da figura 1, a sintetizar as idéias principais aqui focalizadas, que, do ponto de vista conceitual, não estamos andando em círculo. REGRA CIENTÍFICA FUNDAMENTAL

Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, é de se admitir que em futuras verificações o mesmo suceda.

DEFINIÇÃO DE CIÊNCIA

Ciência é o processo pelo qual o homem se relaciona com os fenômenos universais que se sujeitam à regra científica fundamental

OBSERVAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOS QUE TRABALHAM EM CIÊNCIA

VERIFICAÇÃO DE QUE ALGUNS CONTRIBUEM PARA O PROGRESSO DAS CIÊNCIAS

Cientista é todo ser racional que contribui diretamente para o progresso das ciências.

CONSTATAÇÃO DE QUE ESTES SE UTILIZAM DE UM MÉTODO COMUM Figura 1 - Para explicação vide texto Resta-nos, então, para que a idéia ganhe em consistência, comprovar a existência de um único método científico; e isto não parece ser uma tarefa fácil. Antes de enfrentarmos esta dificuldade, vamos verificar como as idéias aqui apresentadas se conformam a conceitos classicamente adotados como modelos de método científico. Referências: [*] Muitos dentre esses tópicos são apresentados, em um contexto diverso, em "Ensaios sobre a Filosofia da Ciência" ou então em outros artigos expostos acima na seção "Temas relacionados". [1] POPPER, K. R., 1956, Acerca da inexistência do método científico, in Prefácio da edição de 1956 do livro O realismo e o objetivo da ciência, Publicações Dom Quixote (tradução), Lisboa, 1987. Este prefácio foi lido num encontro dos Fellows of Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences, em Stanford, Califórnia, em novembro de 1956. [2] FERREIRA, A. B. H., 1986, Novo dicionário da língua portuguesa, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, p. 1128. [3] POPPER, K. R., (1959), A lógica da pesquisa científica, Ed. Cultrix (tradução, 1975), São Paulo. 21


[4] CHALMERS, A. F., 1976 (tradução, 1993), O que é ciência afinal?, Ed. Brasiliense, São Paulo, 225 p. [5] BEVERIDGE, W. I. B., 1980, Sementes da descoberta científica, Edusp (tradução), São Paulo. [6] MESQUITA F.° , A., 1987, Confesso que blefei! -Física antiga vs moderna, editado pela USJT (na época

Faculdades São Judas Tadeu), São Paulo, capítulo 13, A Ciência Existe!, p. 92-8. [7] Perguntas e Debates, 1995, item V, Sobre Pesquisa e Filosofia da Ciência, p. 75., in Especial/Integração: A pesquisa na universidade particular, Integração I(1):5175, 1995. Este ensaio foi também apresentado e discutido em palestra (não publicada) que ministrei por ocasião da Semana de Filosofia da USJT de 1994. [8] KUHN, T. S., 1962 (tradução, 1975), A estrutura das revoluções científicas, Ed. Perspectiva, São Paulo, 257 pp., capítulo 8, A natureza e a necessidade das revoluções científicas, p. 131. [Os grifos são meus.] [9] FERREIRA, 1986, Idem, p. 404. [10] Leonardo da Vinci, in The New Encyclopaedia Britannica, Vol. 22 (Macropaedia), Enc. Brit. Inc., Chicago, 1993, p. 946 (Leonardo as artist-scientist). [11] SANTOS, G. T., Os caminhos do pensamento científico a partir do Iluminismo, Integração I(5):131-6, 1996, conferência proferida por ocasião da Semana de Filosofia da USJT de 1995. Na sessão de debates, Santos, dentre outras considerações interessantes a respeito, faz a seguinte observação: O progresso, como vai ser definido no

Iluminismo, é uma noção de abandono: passa pelo abandono necessário de coisas que ficaram ou que deverão ficar no passado.

[12] O termo diretamente, aqui empregado, é essencial; a não ser levado em conta, corremos o risco de considerar como cientistas, dentre outros, os mecenas, que, no passado, contribuíram de maneira indireta para o progresso das ciências. O argumento indutivista. Uma crítica imparcial, conquanto demolidora, ao indutivismo, é apresentada por Chalmers nos três primeiros capítulos de seu livro [13]. Veremos aqui apenas alguns tópicos interessantes do ponto de vista epistemológico, e/ou necessários para um melhor entendimento da teoria ora sendo apresentada. Um sumário completo do argumento indutivista da ciência está esquematizado na figura 2, adaptada de Chalmers [14]. Chama a atenção a omissão da dedução de hipóteses: o indutivista admite ser possível partir da observação e chegar a leis apelando exclusivamente ao raciocínio indutivo. O método indutivo baseia-se na crença de que é possível confirmar um enunciado universal (lei) através de um certo número de observações singulares. Via de regra, quando se questiona o indutivista a respeito da omissão da hipótese, ele logo repete uma frase de Newton: Não faço hipóteses. Obviamente este indutivista ingênuo ouviu esta frase, sabe que foi proferida por Newton, mas demonstra não saber a que Newton estava se referindo. A hipótese, a que Newton se refere, não é a mesma que hoje se conceitua nos tratados de metodologia científica ou de estatística. Newton deixou bastante claro, em sua obra, que não fazia, como cientista, especulações ou conjecturas infundadas. No 22


que se refere a hipóteses, no contexto em que o termo é hoje aceito, raríssimos foram os cientistas que, em sua fase produtiva, as levantaram em número tal cuja ordem de grandeza se aproximasse daquela atingida por Newton.

Figura 2 - O argumento indutivista (segundo Chalmers) O argumento indutivista baseia-se na crença no princípio da indução que, dentre outras formas, pode ser enunciado como: "Se, em dadas condições, um determinado fenômeno,

sempre que pesquisado, se repetiu, em futuras verificações o mesmo sucederá." [15] Escolhi esta versão para que fique claro o contraste entre o princípio da indução e a regra científica fundamental explícita na figura 1. Três comentários merecem ser feitos a respeito: 1) Conquanto seja usado como regra metodológica, o princípio da indução não define o número de observações singulares a permitir uma generalização (obtenção de leis). 2) Esta e outras falhas conceituais, inerentes ao argumento indutivista, propiciam interpretações ingênuas ao princípio, conforme veremos abaixo. 3) O princípio, sem perder em generalidade, no que diz respeito às premissas (tem o mesmo campo de atuação que a regra científica fundamental), e para que possa caracterizar-se como metodológico, e não apenas norteador, torna-se mais restritivo que a regra científica fundamental ¾afirma, ao invés de supor.¾ Conseqüentemente, os que abraçam esta ideologia, devem procurar por uma outra definição de ciência que não a apresentada no item 2 e figura 1. As conseqüências epistemológicas daí resultantes serão objeto de discussão em itens posteriores. O indutivista ingênuo é aquele que, dentre outras falhas conceituais e/ou de raciocínio, consegue provar "cientificamente", por exemplo, a inexistência de Deus, pelo simples fato de Deus não se manifestar a ele; tendo em vista que ele não possui uma regra para delimitar a ciência que não seja o princípio da causalidade --não há efeito sem causa-- ele tenta inverter o princípio ¾que no caso ficaria: não há causa sem efeito¾ e, apelando para o argumento indutivista, consegue, por métodos "científicos" chegar a conclusões não científicas ¾no caso, teológicas. Mais comum, no entanto, é o erro, agora não tão ingênuo, cometido por alguns indutivistas que conseguem provar "cientificamente" que "todas as maçãs são vermelhas", prova esta "válida" somente até o dia em que eles se depararem com maçãs verdes. Neste caso, a falha decorre da crença num método repleto de incoerências internas. 5. O argumento dedutivista

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O argumento dedutivista, ainda que não isento de críticas, representou, sem dúvida alguma, uma evolução, no sentido em que propiciou uma metodologia científica dotada de coerência interna. A esse respeito, é dito, com freqüência, que o raciocínio dedutivo constitui o argumento da lógica. A fim de padronizar comparações, apresentarei o argumento dedutivista como apoiado no seguinte princípio: Se em

dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, para que seja hipótese, deverá ser passível de verificação observacional. A figura 3 ilustra a proposição deste argumento.

Figura 3 - O argumento dedutivista É importante observar que nem toda a afirmação "deduzida" será uma hipótese, motivo pelo qual não utilizamos o argumento lógico se, e somente se, ao enunciarmos o princípio [16]. Em particular, é de se ressaltar a opinião de Severino (1994) a respeito:

"É preciso não confundir hipótese com pressuposto, com evidência prévia. Hipótese é o que se pretende demonstrar e não o que já se tem demonstrado." [17]

A lógica dedutiva, ao caminhar do geral para o particular, nos garante a formulação de hipóteses; e hipótese "comprovada" através de uma observação controlada (teste e/ou experiência) nos permite suspeitar, através de um raciocínio indutivo (do singular para o geral), sua condição de lei. Observem o cuidado na colocação das palavras: Eu disse nos permite suspeitar, e não nos permite garantir. Por que esse cuidado? A experimentação não nos garante verdades? A esse respeito, Popper assim se referiu:

"Não há um método para determinar se uma hipótese é ‘provável’, ou provavelmente verdadeira." [18]

É interessante notar que algumas limitações inerentes ao indutivismo, e que propiciam o aparecimento de conclusões ingênuas, são aqui substituídas por uma impossibilidade. Sob esse aspecto, o dedutivismo não solucionou o problema, mas, simplesmente, reduziu a possibilidade de que se cometessem determinados raciocínios ingênuos. Rigorosamente falando, o problema não é tão insolúvel assim. Será insolúvel tão-somente para aqueles que julgam estar, cientificamente, buscando por verdades absolutas. A verdade científica, e só o leigo talvez não saiba, é uma verdade provisória, tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela se nos aparenta ser. As verdades 24


científicas de hoje serão, quando não negadas, lapidadas e reformuladas amanhã. Se chegaremos ou não, por métodos científicos, à verdade absoluta, é um questionamento que a ciência não está aparelhada para responder. E talvez nunca esteja, o que não nos impede de que continuemos procurando pela verdade. Popper foi mais além, demonstrando ser impossível até mesmo probabilizar uma afirmação comprovada por um raciocínio que siga a metodologia dedutiva (incluindo, e é aí que reside o problema principal do método, a indução -vide lado direito da figura 3). A esse respeito, Popper propõe a substituição do termo probabilizar por corroborar: Uma hipótese seria tanto mais corroborável quanto mais propiciasse verificações experimentais; e teria sido tanto mais corroborada, e não há como se atribuir números probabilísticos a esse efeito, quanto mais resistisse a essas verificações. Siegel (1977, tradução) adota, provavelmente com o mesmo objetivo, a expressão grau de aceitabilidade.

"Efetuamos pesquisas a fim de determinar o grau de aceitabilidade de hipóteses deduzidas de nossas teorias." [19]

Esta impossibilidade em garantir um acerto preocupou bastante Popper, e, certamente, foi um dos motivos que o levou a expandir o argumento dedutivista através da proposição do falsificacionismo, a ser apresentado no item 7. Independentemente das dificuldades apontadas neste e nos itens precedentes, a verdade é que a ciência progride, e este progresso é guiado por homens que conhecem o terreno por onde pisam. E conquanto todos saibam da não existência, em ciência, de verdades absolutas, da impossibilidade de se chegar a uma solução definitiva para os problemas científicos, e da não existência de provas observacionais irrefutáveis, quase todos [20] entendem e concordam com a afirmação de GIL (1994) expressa a seguir:

"A pesquisa científica inicia-se sempre com a colocação de um problema solucionável. O passo seguinte consiste em oferecer uma solução possível através de uma proposição, ou seja, de uma expressão suscetível de ser declarada verdadeira ou falsa. A esta proposição dá-se o nome de hipótese. Assim, a hipótese é a proposição testável que pode vir a ser a solução do problema." [21]

6. O que é teoria? É importante salientar que a finalidade primordial da ciência não é formular hipóteses, e sim, sistematizar teorias; e que teoria não é pura e simplesmente uma coletânea de hipóteses: Teoria é um conjunto de hipóteses

coerentemente interligadas, tendo por finalidade explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio do conhecimento [22]. Por que, então, os livros de

metodologia insistem em justificar os métodos através de hipóteses únicas e, via de regra, desinteressantes, tais como: As maçãs são vermelhas, os cisnes são brancos, etc.? A verdade é que nem sempre é fácil encontrar teorias ao mesmo tempo simples e de amplo espectro, ou seja, que 25


possam ser entendidas por leitores das várias áreas do conhecimento. Por outro lado, os argumentos que corroboram ou derrubam teorias são, em princípio, idênticos aos que corroboram ou derrubam hipóteses ¾poderíamos também dizer que uma hipótese é, ou simula ser, uma teoria, cujo conjunto de hipóteses é unitário. Em geral, a dificuldade inerente ao grau de complexidade de uma teoria, pode ser superada, desde que o cientista conheça a fundo esta teoria, cujo grau de aceitabilidade pretende testar, e domine a lógica envolvida em situações similares, porém simples, como aquelas que aparecem nos compêndios sobre o assunto. A ênfase, dada pelos textos de metodologia científica, a métodos relacionados a testes de hipóteses, contrasta com a quase ausência de referências a métodos relativos à prática da teorização. Existem exceções a esta regra, e eu não poderia deixar de citar [23] os livros de Bunge [24] e de Lacey [25], indicados especialmente para os iniciantes da área de exatas. Embora não especificamente dirigido a esta temática, há que se destacar também o livro de Bohm e Peat [26] e que merece ser lido, posto que focaliza a essência da problemática aqui apontada; neste caso, e por este motivo, é indicado aos iniciantes de todas as áreas. A prática da teorização, com raríssimas exceções, não se aprende na escola. Grandes teorizadores, por terem aprendido a utilizar uma técnica não encontrada nos livros tradicionais, e que nem mesmo é ensinada na maioria dos regimes de iniciação científica, chegaram a ser confundidos com gênios. É bem possível que estes gênios tenham adquirido esta práxis cultuando algum resquício da filosofia que a sociedade moderna não conseguiu despedaçar. A lacuna, acima apontada, fomenta a ingenuidade ou, até mesmo, o charlatanismo, multiplicando. sobremaneira, o número dos que, sem estarem devidamente preparados para teorizar ¾uma atividade que não é elementar¾ ainda assim teorizam, e teorizam mal ¾fato este que chega a incomodar cientistas de respeito que ocupam postos importantes nas universidades [27]. Por outro lado, e em decorrência disto, permite que se condene, à marginalidade científica, e por períodos variáveis de tempo, todos aqueles que, certos ou errados, pretendem evoluir seriamente no sentido de atender à finalidade última da ciência: a edificação de teorias representacionais. Que métodos estes homens seguiram que não a paixão, a devoção, a persistência e a crença num espírito universal? ¾Espírito este que, segundo alguns admitem, não está a se divertir com nossos erros e "acertos", o que foi sintetizado, pelo maior dos gênios do século XX, nas seguintes palavras: Deus não joga dados. A resposta nos é dada pelo próprio autor desta afirmação:

"O alvo de construir uma teoria de campo eletromagnético da matéria permanece inatingível por ora, embora em princípio nenhuma objeção possa ser levantada contra a possibilidade de vir a se alcançar tal objetivo. O que reteve qualquer tentativa posterior nessa direção foi a falta de qualquer método sistemático que levasse a uma solução" [28]

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Será que não existem métodos ou regras a serem adotados nesta práxis? E por falar nisso, a prática da teorização não seria uma "teorexis"? [29] Será que teorizar em ciência é uma atividade puramente filosófica? Não existe uma metodologia científica a orientar aqueles que se preocupam em decifrar os segredos que estão por trás dos fenômenos que se adaptam à regra científica fundamental? Caso exista um método a ser sistematizado: Seria ele diferente do método científico? O que é o método científico? Tentarei, dentro do possível, e da finalidade a que me propus ao conceber esta série de artigos, responder, oportunamente, e/ou orientar o leitor, se houver como, no que diz respeito aos questionamentos aqui assinalados. De qualquer forma, mais detalhes sobre teoria e/ou teorização serão apresentados no tópico IV-b: A prática da teorização (em preparo). Referências: [13] CHALMERS, A. F., 1976, op. cit. (Voltar pelo browser), pp. 23-63. [14] Idem, p. 28. [15] Esta versão é uma adaptação do princípio da indução como enunciado por CHALMERS (1976), op. cit.: "Se um grande

número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam, sem exceção, a propriedade B, então todos os As possuem a propriedade B." Aparentes contradições, que o iniciante possa descobrir ao comparar os dois enunciados, não comprometem o raciocínio que se segue, razão pela qual admitirei a equivalência sem justificá-la. [16] Neste caso, o princípio ficaria: Se em dadas

condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, será hipótese se e somente se for passível de verificação observacional. O primeiro se torna a afirmação

inconsistente. [17] SEVERINO, J. S., 1994, Metodologia do trabalho científico, Cortez Editora, São Paulo. [18] POPPER, K. R., 1956, op. cit. [19] SIEGEL, S., 1977, Estatística não-paramétrica, Ed. McGraw-Hill do Brasil, Ltda., São Paulo, p. 6. [20] É possível que alguns, dentre os indutivistas, não concordem com alguns dos termos da afirmação, por motivos que podem ser suspeitados, tendo em vista o apresentado neste e no item anterior. [21] GIL, A. C., 1994, Como elaborar projetos de pesquisas, Editora Atlas S. A., São Paulo, p. 35. [Os grifos são meus.] [22] Em FERREIRA, A. B. H., 1986, op. cit. (Voltar pelo browser), encontramos uma definição mais geral, a satisfazer também o argumento indutivista: "Teoria é um conjunto de conhecimentos não ingênuos que apresentam graus diversos de sistematização e credibilidade, e que se propõem a explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio de fenômenos ou de acontecimentos que se oferecem à atividade prática." [23] Os três livros, citados a seguir, não são os únicos nos gêneros assinalados, a despeito da disparidade apontada. Ao tempo em que registro, com estes exemplos, a exceção à regra, presto também uma homenagem a autores que, ao serem por mim lidos, transmutaram em dúvidas muitas das respostas a questões fundamentais, e que eu, 27


pretensiosamente, julgava possuir. [24] BUNGE, M., Teoria e realidade, Ed. Perspectiva (tradução, 1994), São Paulo. [25] LACEY, H.M., 1972, A linguagem do espaço e do tempo, Ed. Perspectiva S.A. [26] BOHM, D., e PEAT, F. D.: Ciência, ordem e criatividade, Gradiva Publicações Ltda (tradução, 1989), Lisboa [27] A esse respeito vale a pena ler Científicos Chiflados, capítulo XIV do livro: BERNSTEIN, J., 1988, Observación de la Ciencia, Ed. Fondo de Cultura Económica, México. [28] EINSTEIN, A., Física e realidade, in Albert Einstein, Pensamento político e últimas conclusões (1983, tradução), Edit. Brasiliense S. A., São Paulo. [O grifo é meu.] [29] Este termo eu utilizei pela primeira vez no artigo: MESQUITA F.° , A, 1983, Ciência empírica: uma arma ou uma dádiva?, Faculdade (Revista do IAMC), n.° 6, p. 28-43, agosto/83. 7. O falsificacionismo. O falsificacionismo não foi proposto como um método novo, mas sim como um critério, ou conduta, a ser ou não adotado por aqueles que se conformam ao método dedutivo de prova. Não há nada, no falsificacionismo, do ponto de vista metodológico, que não esteja previsto, ou que não decorra naturalmente de uma opção a ser seguida, espontaneamente ou não, por este ou aquele dedutivista. Qual seria então este critério? Com que finalidade foi proposto? A resposta a estas perguntas, bem como o mérito do falsificacionismo constituem o objetivo deste e dos próximos dois itens. Antes de mais nada afirmarei, sem me alongar, que uma teoria, adotado o argumento dedutivista, pode ser corroborada, ou negada, fundamentalmente, através de um dos três procedimentos seguintes: 1) Pela corroboração ou negação de uma de suas hipóteses; 2) pela verificação ou negação de uma de suas predições; 3) pela corroboração ou negação de teorias auxiliares, deduzidas da teoria principal (teoria em teste, ou sob suspeita); as teorias auxiliares podem ser de três tipos: teorias ou hipóteses de nulidade, teorias ou hipóteses salvadoras e teorias ou hipóteses assassinas [30]. Incluem-se no rol das teorias auxiliares, como veremos oportunamente, as teorias transcendentais, freqüentemente conotadas por experiências de pensamento. As predições e as hipóteses ou teorias auxiliares são teorias geradas utilizando-se do próprio argumento dedutivista, esquematizado na figura 3. Neste caso, o foco de atenção inicial, ¾representado na figura como observação¾ é, nada mais, nada menos, que a própria teoria que deu origem à predição e/ou à teoria auxiliar. Ao valorizar a falseabilidade, como critério a ser adotado pelos dedutivistas, Popper nada mais fez que tentar expandir, ou trazer para o domínio da metodologia científica, uma prática amplamente utilizada com sucesso em estatística: o critério de tomada de decisão através da hipótese de nulidade (H o ):

"O primeiro passo, ou estágio, no processo de tomada de decisão, é definir a hipótese de nulidade (H o ). Formula-se usualmente com o expresso propósito de ser rejeitada. Se é

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rejeitada, pode-se aceitar a hipótese alternativa (H 1 ). A hipótese alternativa é a definição operacional da hipótese de pesquisa do pesquisador. A hipótese de pesquisa é a predição deduzida da teoria que está sendo comprovada." [31]

A contribuição de Popper, a esse respeito, limitou-se à ênfase que deu à importância da procura por hipóteses de nulidade. Até então, este costume estava restrito à procura por previsões ¾apresentadas, via de regra, pelo próprio autor da teoria¾ e/ou hipóteses salvadoras ¾levantadas pelos adeptos da teoria em foco¾ e/ou hipóteses assassinas ¾levantadas pelos críticos da teoria em questão. As quatro têm uma característica comum: são todas teorias falseadoras. A boa teoria, dentre outras qualidades [32], e segundo Popper, é aquela potencialmente geradora de hipóteses falseadoras; e tanto melhor será quanto maior for o risco de ser negada. Ela pode até mesmo ser derrubada no primeiro teste a que for submetida, o que não invalida o que foi dito: foi uma boa teoria enquanto durou, e voltará a ser se conseguir ressurgir das cinzas. Dito em outras palavras: o critério, para se avaliar a virtude de uma teoria nascente, repousa no seu grau de submissão a testes adversos. Uma teoria de baixo risco raramente é bem vinda [33]; e uma teoria sem risco algum, na opinião de Popper, não é científica; e eu iria além: sequer é teoria. Levando-se em conta que o critério falsificacionista peca pela subjetividade, deve-se tomar cuidado ao se optar por uma teoria, em detrimento de outra, pelo fato de a primeira ser mais falseável que a segunda. Diferentes hipóteses falseadoras devem apresentar pesos diferentes; e este peso, mesmo quando bem estimado, freqüentemente o é por um processo subjetivo. Não é raro utilizar-se desta subjetividade inerente ao falsificacionismo para justificar escolhas feitas segundo critérios políticos, econômicos, interesseiros, corporativistas, ou então apoiados em "princípios" outros que também deixam a desejar, no que diz respeito à ética do cientista. 8. Entendendo o falsificacionismo Suponha que alguém deduza a seguinte hipótese H 1 : As maçãs do Estado de São Paulo são vermelhas. A teoria, assim simulada, é uma teoria de hipótese única. Percebam que, no argumento da hipótese, está se admitindo como pressupostos uma infinidade de conceitos, tais como fruta, maçã, cor, vermelho, local, São Paulo, Brasil, etc. Estes pressupostos são o que Severino chama de evidências prévias, como vimos no item 5, e constituem uma das bases da argumentação de Chalmers [34] ao contestar os que afirmam que a ciência começa com a observação. Um exemplo de previsão desta teoria seria: as maçãs de Jundiaí devem ser vermelhas, tendo em vista que Jundiaí se localiza no Estado de São Paulo. Suponha, também, que alguém tenha demonstrado que, em condições X, outra fruta que não a maçã, e que originalmente era de determinada cor, se modifica; e conclui que, se a teoria sobre as maçãs for verdadeira, ela deverá permanecer verdadeira nas condições X. Pode-se, então, construir a seguinte hipótese de nulidade H o : Em condições X, obter-se-ão, em São Paulo, maçãs não 29


vermelhas. Esta previsão não decorre da teoria (H 1 ), mas de evidências prévias outras e estranhas à mesma. Se esta

hipótese (H o ) for verificada, a hipótese original H 1 estará falseada. Será que este simples fato condena a teoria original? Para o falsificacionista ingênuo, sim. Para aquele que entendeu e aceitou o significado da afirmação de Popper, citada neste artigo, ao final do quarto parágrafo do item 5, não. Optar por uma teoria não significa crer numa verdade absoluta. Se eu afirmo que H o é verdadeira, e conseqüentemente H 1 é falsa, isto não significa que eu estou atribuindo o grau de veracidade 100% a uma hipótese e 0% à outra; significa, simplesmente, que a verificação experimental me convenceu a optar por uma teoria em detrimento da outra. A opção é uma das maneiras pelas quais o cientista expressa a sua fé na ciência [35], e o falsificacionismo estabelece normas a lhe orientar nesta opção. Suponha agora que, em condições X, ou em outra condição qualquer, se encontrem, no Estado de São Paulo, maçãs verdes. Significa isto que a hipótese H 1 é falsa? Não. Simplesmente ela foi falseada. Nada impede que amanhã, com a evolução da ciência, se descubra que estes frutos verdes, a que hoje associamos a idéia maçã, estejam inseridos num outro contexto, e que realmente não sejam maçãs. Por que então se dá preferência a verificações falseadoras em detrimento das corroboradoras? Ora, isto nem sempre acontece, conquanto seja esta uma das regras propostas pelo falsificacionismo. Por exemplo, tanto a teoria da relatividade, quanto a mecânica quântica são teorias físicas amplamente aceitas, graças a terem sido corroboradas por previsões que se confirmaram; e pouco valor se deu a um grande número de testes que as falsearam. Por outro lado, estas duas teorias são, concomitantemente, aceitas pelos físicos, conquanto existam fortes argumentos a "provar" que cada uma destas duas teorias falseia a outra, e ambas falseiam a teoria de Maxwell, que também é aceita como verdadeira. Certos ou errados, neste caso, os físicos modernos, dentre os quais se inclui Popper, fizeram uma opção contrária à norma falsificacionista, e não há como criticá-los por essa conduta, a menos que se pretenda atribuir ao falsificacionismo uma qualidade que ele não possui: a de estabelecer critérios absolutos de veracidade. O falsificacionismo presta-se também a fomentar o diálogo e a criatividade. Neste caso, surge quase como que um apelo para que se invista mais em experiências de pensamento, um recurso legítimo e de grande valor em ciência. 9. O falsificacionismo como delimitador da ciência Vimos, no item 7, que, para Popper, uma teoria sem risco algum não é científica, e eu acrescentei: sequer é teoria. Popper quis se aproveitar deste argumento para delimitar a ciência, utilizando-se então do falsificacionismo como critério de cientificidade. Com esta opção, Popper desagradou a muitos e convenceu a poucos, ainda que sua idéia não fosse de todo má. Não podemos, em sã consciência, dizer que a psicanálise, por exemplo, não pertença ao campo da ciência pelo simples fato de uma de suas "teorias" precursoras ser não falseável. Sequer podemos dizer que o autor dessa idéia não fosse cientista: se é verdade que a psicanálise se desenvolveu em cima desta idéia, e apesar disso, conseguiu, 30


de alguma forma, se impor como ciência, muito provavelmente, queiramos ou não, seu autor contribuiu diretamente para o progresso da ciência. Mesmo que hoje alguém chegasse a concluir, categoricamente, pelo caráter não científico da psicanálise, isto, de forma alguma, nos autorizaria a, hipoteticamente, condená-la à estagnação. Se um cientista, utilizando-se de maus critérios, ou até mesmo apoiando-se em dogmas, constrói, de maneira não científica, um determinado campo do conhecimento, isto não significa que este campo não possa vir a ser estudado cientificamente; e que não se possam criteriosamente, aproveitar as conclusões de seus estudos. Nada impede que uma teoria, considerada hoje como não científica, pelo fato de possuir uma ou mais hipóteses não falseáveis, adquira esse status após passar por ligeiras reformulações. Não podemos assumir que um campo do conhecimento seja não científico pelo simples fato de não encontrarmos nele teorias científicas. Este posicionamento de Popper, a meu ver, não se justifica: o falsificacionismo não é um bom critério delimitador da ciência, e isto eu espero que tenha ficado claro para o leitor. E mais: não existem áreas não científicas, mas sim áreas onde ainda não foram produzidos conhecimentos científicos. O progresso científico tem sua origem na intuição e, pelo menos nesta etapa, nada é absolutamente corroborável ou falseável. Podemos ainda dizer que a ciência não se localiza aqui ou acolá: sob esse aspecto, a ciência não tem fronteiras. 10. Enfim, a teoria do método Nos demais artigos desta série, irei demonstrar ser possível, partindo da regra científica fundamental, desenvolver uma teoria sobre o método científico utilizando-se das três hipóteses seguintes:

1. O progresso científico tem sua origem na intuição. 2. A produção de conhecimentos passa necessariamente pelas etapas dedução, análise, indução e síntese, na ordem apresentada. 3. Os princípios científicos fundamentais são universais.

Por questão de simplicidade, subdividirei o estudo do método em três etapas, correspondentes a cada uma das hipóteses: 1) o estudo do macrométodo científico; 2) o estudo do método científico propriamente dito; e 3) o estudo do micrométodo científico. Os tópicos, nos quais desenvolverei estas etapas, estão em fase de projeto, não havendo, portanto, previsão quanto à época de publicação. Método científico Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. A palavra método vem do grego méthodos, (caminho para chegar a um fim). O método científico é um conjunto de regras básicas para desenvolver uma experiência a fim de produzir novo conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos pré-existentes. Na maioria das disciplinas científicas consiste em juntar evidências observáveis, empíricas (ou seja, baseadas apenas na experiência) e mensuráveis e as analisar com o uso da lógica. Para muitos autores o método científico nada mais é do que a lógica 31


aplicada à ciência (Haddad). Metodologia literalmente refere-se ao estudo dos métodos e, especialmente, do método da ciência, que se supõe universal. Embora procedimentos variem de uma área da ciência para outra (as disciplinas científicas), diferenciadas por seus distintos objetos de estudo, consegue-se determinar certos elementos que diferenciam o método científico de outros métodos (filosófico, algoritmo – matemático, etc.).

O contexto de uma pesquisa

Primeiramente os pesquisadores definem proposições lógicas ou suposições (hipóteses) para explicar certos fenômenos e observações, e então desenvolvem experimentos que testam essas hipóteses. Se confirmadas, as hipóteses podem gerar leis e teorias. Integrando-se hipóteses de certa área em uma estrutura coerente de conhecimento contribuí-se na formulação de novas hipóteses, bem como coloca as hipóteses em um conjunto de conhecimento maior que são as leis e teorias reconhecidas consensualmente pela comunidade científica e/ou o paradigma de seu tempo. Outra característica do método é que o processo precisa ser objetivo, e o cientista deve ser imparcial na interpretação dos resultados. Sobre a objetividade o seja, atente às propriedades do objeto e não do sujeito (subjetividade) é conhecida a afirmação de Hans Selye, pesquisador canadense que formulou a moderna concepção de stress: “Quem não sabe o que procura não entende o que encontra” referindo-se a necessidade de formulação de definições precisas (a essência dos conceitos) e que possam ser respondidas com o simples sim ou não. Tanto a imparcialidade (evidência) como a objetividade foram incluídas por René Descartes (1596 – 1649) nas regras lógicas que caracterizam o método científico. Além disso, o procedimento precisa ser documentado, tanto no que diz respeito à fonte de dados como as regras de análise, para que outros cientistas possam re-analisar, reproduzir e verificar a confiabilidade dos resultados. Assim se distingue os relatos científicos (artigos, monografias, teses e dissertações) de um simples estilo (padrão) ou arquitetura de texto orientados pelo que caracteriza as normas da Retórica ou estudo do uso persuasivo da linguagem, em função da eloqüência. É comum o uso da análise matemática ou estatística, quando possível, ou aproximação de modelos abstratos (tipos ideais) e categorias de classificação a depender do objetivo da pesquisa (identificar, descrever, analisar) que pode ser basicamente quantitativa ou qualitativa. A divisão da ciência em áreas ou distintas disciplinas cientificas tem levado a tais adequações da metodologia. É comum a afirmação de que em função da evolução do método cientifico num extremo temos a física e química seguida da biologia e por último as ciências sociais, psicologia e ciências jurídicas quase se aproximando da filosofia e estudo das crenças (senso comum) ou ciências do espírito (sistemas mítico - religiosos). Contudo pesquisadores contemporâneos vêem nessas duas abordagens uma oposição complementar, enquanto as pesquisas quantitativas visam descrever e explicar fenômenos que produzem regularidades mensuráveis são recorrentes (ou discrepantes) e exteriores ao sujeito 32


(objetivos) na pesquisa qualitativa o observador (sujeito) é da mesma natureza que o objeto de sua análise e, ele próprio, uma parte de sua observação (o subjetivo). É importante ter em mente que as pesquisas cientificas relacionam-se com um modelo (paradigmático) ou uma constelação de pressupostos e crenças, escalas de valores, técnicas e conceitos compartilhados pelos membros de uma determinada comunidade científica num determinado momento histórico.

Elementos do método científico

"Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos." - Carl Sagan "...ciência consiste em agrupar factos para que leis gerais ou conclusões possam ser tiradas deles." - Charles Darwin O método científico é composto dos seguintes elementos: • Caracterização - Quantificações, observações e medidas. • Hipóteses - Explicações hipotéticas das observações e medidas. • Previsões - Deduções lógicas das hipóteses. • Experimentos - Testes dos três elementos acima. O método científico consiste dos seguintes aspectos: • Observação - Uma observação pode ser simples, isto é, feita a olho nu, ou pode exigir a utilização de instrumentos apropriados. • Descrição - O experimento precisa ser replicável (capaz de ser reproduzido). • Previsão - As hipóteses precisam ser válidas para observações feitas no passado, no presente e no futuro. • Controle - Para maior segurança nas conclusões, toda experiência deve ser controlada. Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. [1] • Falseabilidade - toda hipótese tem que ser falseável ou refutável. Isso não quer dizer que o experimento seja falso; mas sim que ele pode ser verificado, contestado. Ou seja, se ele realmente for falso, deve ser possível prová-lo. • Explicação das Causas - Na maioria das áreas da Ciência é necessário que haja causalidade. Nessas condições os seguintes requerimentos são vistos como importantes no entendimento científico: • Identificação das Causas • Correlação dos eventos - As causas precisam se correlacionar com as observações. • Ordem dos eventos - As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados. Na área da saúde a natureza da associação causal foi formulada por Hence e adaptada por Robert Koch em 1877 para demonstração da relação causal entre microrganismos e patologias consistindo basicamente no enunciado acima ou seja: força da associação (conectividade); seqüência temporal (assimetria); transitividade (evidência experimental); previsibilidade/ estabilidade. Uma maneira linearizada e pragmática de apresentar os quatro pontos acima está exposto a seguir passo-a-passo. 33


Vale a pena notar que é apenas um exemplo, não sendo obrigatório a existência de todos esses passos. Na verdade, na maioria dos casos não se segue todos esses passos, ou mesmo parte deles. O método científico não é uma receita: ele requer inteligência, imaginação e criatividade. O importante é que os aspectos e elementos apresentados acima estejam presentes. • Definir o problema. • Recolhimento de dados • Proposta de uma hipótese • Realização de uma experiência controlada, para testar a validade da hipótese • Análise dos resultados • Interpretar os dados e tirar conclusões, o que serve para a formulação de novas hipóteses. • Publicação dos resultados em monografias, dissertações, teses, artigos ou livros aceitos por universidades e ou reconhecidos pela comunidade científica. Observe-se que nem todas as hipótese podem ser confirmadas ou refutadas por experimentos e que em muitas áreas do conhecimento o recolhimento de dados e a tentativas de interpretá-los já é uma grande tarefa como nas ciências humanas e jurídicas (criminologia).

Ciências humanas

A limitação ética da realização experimentos com seres humanos, o estudo das subjetividades ou essencialmente subjetivo, individual e particular psiquismo humano, ou a natureza histórica do objeto das ciências sociais, conduziram os pensadores a distintos caminhos ou proposições de estudo para o método científico. Contudo, parafraseando Minayo,...“uma base de dados quando bem trabalhada teórica e praticamente, produz riqueza de informações, aprofundamento e maior fidedignidade interpretativa”... As principais divergências na análise dos resultados de pesquisas em ciências sociais ou humanas se dão no plano da contextualização dos dados ou informações obtidas em campo nos diversos sistemas teóricos ou seja conjunto de teorias e leis reconhecidas como consensuais em distintos momentos históricos e/ou segmentos das comunidades científicas. Nas ciências sociais identifica-se três grandes correntes de pensamentos: • Positivismo / Auguste Comte. • Fenomenologia (Fenomenologia do Espírito / Estruturalismo • Materialismo dialético; Dialética / Marxismo

A evolução do conceito de método

A história do método científico se mistura com a história da ciência. Documentos do Antigo Egito já descrevem métodos de diagnósticos médicos. Na cultura da Grécia Antiga, os primeiros indícios do método científico começam a aparecer. Grande avanço no método foi feito no começo da filosofia islâmica, principalmente no uso de experimentos para decidir entre duas hipóteses. Os principios fundamentais do método científico se consolidaram com o surgimento da Física nos séculos XVII e XVIII. Francis Bacon, em seu trabalho Novum Organum(1620)-uma referência 34


ao Organon de Aristóteles-especifica um novo sistema lógico para melhorar o velho processo filosófico do silogismo. A metodologia científica tem sua origem no pensamento de Descartes, que foi posteriormente desenvolvimento empiricamente pelo físico inglês Isaac Newton. René Descartes propôs chegar à verdade através da dúvida sistemática e da decomposição do problema em pequenas partes, características que definiram a base da pesquisa científica. Lê-se no livro o Discurso do método: ...''E como a multiplicidade de leis serve frequentemente

para escusar os vícios, de sorte que um estado é muito melhor governado quando, possuindo poucas, elas são aí rigorosamente aplicadas, assim, em lugar de um grande número de preceitosde qua a lógica é composta, acrediteis que já me seriam bastante quatro, contanto que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma vez só de observá-los O primeiro consistia em nunca aceitar , por verdadeira, coisa nenhuma que não conhecesse como evidente; isto é, devia evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e nada incluir em meus juizos que não se apresentasse tão claramente e tão distintamente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião de o por em dúvida. O segundo – dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas pudesse ser e fossem exigidas para melhor compreendê-las. O terceiro – conduzir por ordem os meus pensamento, começando pelos objetos mais simples e fáceis de serem conhecidos, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo certa ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. e o último – fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais, que ficasse certo de nada omitir''."... Correntemente estas regras são 1 – da evidência; 2 – da divisão ou análise; 3 – da ordem ou dedução; 3 da enumeração (contar; especificar), classificação.

O acidente (serendipity)

É comum considerar alguns dos mais importantes avanços na ciência, tais como as descobertas da radioatividade por Henri Becquerel ou da penicilina por Alexander Fleming, como tendo ocorrido por acidente, no entanto, o que é possível afirmar à luz da observação científica é que terão sido parcialmente acidentais, uma vez que as pessoas envolvidas haviam aprendido a "pensar cientificamente", estando, portanto, conscientes de que observaram algo novo e interessante. Os progressos da ciência são acompanhados de muitas horas de trabalho cuidadoso, que segue um caminho mais ou menos sistemático na busca de respostas a questões científicas. É este o caminho denominado de método científico.

A hipótese

A Hipótese (do gr. Hypóthesis) é uma proposição que se admite de modo provisório como princípio do qual se pode deduzir pelas regras da lógica um conjunto dado de proposições, ou um mecanismo da experiência a explicar. 35


Literalmente pode ser compreendida como uma suposição ou pergunta, conjetura que orienta uma investigação por antecipar características prováveis do objeto investigado e que vale, quer pela confirmação através de deduções lógicas dessas características, quer pelo encontro de novos caminhos de investigação (novas hipóteses e novos experimentos). No método científico, a hipótese é o caminho que deve levar à formulação de uma teoria. O cientista, na sua hipótese, tem dois objetivos: explicar um fato e prever outros acontecimentos dele decorrentes (deduzir as consequencias). A hipótese deverá ser testada em experiências laboratoriais controladas.Se, após muitas dessas experiências, os resultados obtidos pelos pesquisadores não contrariarem a hipótese, então ela será aceita como uma lei e integrada à uma teoria e/ou sistema téórico.

Referências

1. ↑ [PDF] Estudos do método científico

Ver também •

Verdade • Falseabilidade • Karl Popper • Filosofia da ciência • História da ciência • Epistemologia • Lógica • Aristóteles Georg Wilhelm Friedrich Hegel • Complexidade • Reducionismo • Navalha de Occam • Ciência • Pseudociência • Paradigma • Paul Feyerabend • Thomas Kuhn • Gaston Bachelard • Teoria • Lei (ciências) • Hipótese • Tese • Dissertação

Bibliografia

Becker, Howard S. Métodos de pesquisa em ciências sociais. SP, Hucitec, 1999 Chizzotti, Antonio. Pesquisa em ciência humanas e sociais. SP, Cortez, 2006 Comte, August. Discurso preliminar sobre o espírito positivo Descartes, René. Discurso do método. (tradução prefácio e notas de João Cruz Costa. SP, Ed de Ouro, 1970 disponível para download em domínio público http://www.dominiopublico... e eBooket http://www.eBooket.net IntraText René Descartes - e-books 36


Haddad, Nagib. Metodologia de estudos em ciências da saúde, como planejar, analisar e apresentar um trabalho científico. SP, Roca, 2004 Minayo, Maria C. de Souza (org.); Deslandes (Suely F.; Gomes Romeu. Pesquisa social, teoria método e criatividade. Petrópolis, RJ, Vozes, 2007 Lakatos, Eva; Maria Marconi, Marina de A. Métodologia científica. SP, Atlas, 2007 Selye, Hans. Stress a tensão da vida. SP, IBRASA, 1965 •

Ligações externas

Explicando o Método Científico • Prova Científica? • Diretrizes para elaboração de dissertações e teses USP • Centro Cochrane do Brasil • Metodologia.org • Evidências.com • Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) • Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência • Lista de Periódicos cientificos brasileiros por assunto • SciELO - Scientific Electronic Library Online • Periódicos UNESCO • Ciência Hoje • Scientific American - Brasil • Scientific American COLCHA DE RETALHOS CIENTÍFICA (a realidade não é Frankenstein, ela é única e funcional)

A realidade, segundo a Ciência geral.

A senhora Ciência trabalhando com seus remendos.

Drª. Ciência e seu filho.

Mary Shelley viu o futuro. 37


Somos Monstros 6 05 2008

Tudo começou com um desafio feito a Mary Shelley (17971851), então uma jovem de 21 anos, por Lord Byron. Na época, 1918, Byron propôs a Mary e seu marido que escrevessem um conto de terror, uma maneira de passar o tempo, já que suas férias estavam sendo consumidas intediantemente pelo mau tempo. Mary foi a última a dar início ao seu conto, que acabou baseado em um pesadelo que teve numa daquelas noites de chuva. E, dentre todos, o conto de Shelley foi o que mais surpreendeu e arrepiou. Insentivada a continuar, Mary Shelley desenvolveu ainda mais sua história e transformou-a em um dos mais conhecidos e celebrados livros da História: Frankenstein. Victor Frankenstein era um jovem curioso, com sede de conhecimento, apaixonado pela ciência, intrigado com os segredos da vida e louco para deixar sua marca no mundo. Havia aprendido sozinho em casa sobre as fantasias da Alquimia, no entanto apenas na universidade ele foi descobrir que toda sua bagagem de conhecimento estava ultrapassada há muito. Acabou se tornando um aluno exemplar, dedicado à química e à biologia. Foi assim que, sozinho em seu laboratório em Ingolstadt, Victor deu início à sua criação, misturando seus conhecimentos teóricos de fisiologia e filosofia natural com princípios de mecânica, decido a descobrir se o princípio que mantinha animado o corpo poderia pernecer mesmo após a morte. Como Victor fez isso, todos já sabemos: deu vida a uma criatura formada por partes de cadáveres, de tamanho descomunal (cerca de 2,5m de altura) e aparência horripilante. E é aqui que dá-se início ao grande trunfo da história! Ao despertar da Criatura, Frankenstein acaba por cair na realidade vendo como era realmente feia sua criação, com seus membros desproporcionais, seu olhos aquosos e amarelos, incompleta a ponto de seus tecidos nem sequer cobrirem todo o corpo, deixando à mostra músculos e ossos. Desesperado e com medo, arrependido de sua audácia, Victor abandona sua Criatura, decaindo num súbito acesso de náusea e lucidez.

Pobre Criatura, um ser vazio de conhecimentos, ignorante em relação ao convívio social, solto num mundo de pessoas 38


preconceituosas e indiferentes. A personificação perfeita da famosa teoria de Rousseau, a do “bom selvagem”, que diz que todo o homem nasce “puro” e é corrompido pela sociedade violenta, viciosa e materialista. Quem lê a história de Frankenstein espera encontrar terror, suspense e aventura, onde um monstro estaria a solta para destruir e matar. No entanto descobre um mundo onde nós humanos somos totalmente repugnantes e no qual o único ser que realmente tem algum valor é o monstro excluído por todos. Poucos livros retratam tão bem a indiferença humana e a nossa mania de dar mais valor às aparências do que aos sentimentos, carater e virtudes. Mary Shelley escreveu uma autêntica obra-prima da literatura universal, um romance capaz de despertar no leitor a pena e a compaixão por um monstro e a repugnância de nossa própria raça. Uma lição que ainda não foi aprendida, mesmo depois de quase 200 anos. Ficha Técnica Título: Frankestein (Frankenstein; or the Modern Prometheus) Autor: Mary Shalley País: Inglaterra Publicação Original: 1818 Publicação Lida: Martin Claret Editora, 2001

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cara metade