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IMAGO URBIS ESCRITOS SOBRE PAISAGEM URBANA E IMAGEM DA CIDADE


IMAGO URBIS ESCRITOS SOBRE PAISAGEM URBANA E IMAGEM DA CIDADE

MARCOS A. RODRIGUES


MARCOS RODRIGUES

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Apresentação

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Em busca da paisagem urbana perdida

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A paisagem urbana na era da sua circulação numérica

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Salvador, a by-passed city

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Lento, Moderato, Presto, Prestissimo

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Nunca fomos tão modernos

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Uma nova flânerie

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Mediascapes

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Cronicamente inviável

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O fim da cidade barroca

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Guggenheim, 22°54’S 43°12’W


APRESENTAÇÃO

LOTUS HEAD

Cidade. Uma palavra soterrada de conceitos e interpretações. Laboratório privilegiado de diversos saberes e esfinge cruel para a maioria dos que tentam decifrá-la. Não sem razão. As respostas possíveis são muitas. No cardápio das possibilidades que tentam dar sentido ao termo, as questões ligadas às suas formas parecem ser, historicamente, as mais recorrentes: dos dicionários genéricos aos guias turísticos. A cidade se dá à vista. É nas suas paisagens que geralmente se realiza as suas melhores traduções. Nas suas arquiteturas, nos seus equipamentos técnicos, nos seus limites físicos (o mar, o rio, a montanha), nas suas movimentações de pessoas, informações e objetos. Ao que se acrescentam os potenciais de aglomeração; de pessoas, de construções e de objetos diversos. Assim não se tem dúvidas que as grandes extensões de areia do deserto do Saara não traduzem uma cidade, bem como o mesmo acontece com a maior parte da Amazônia ou com as geleiras do Pólo Norte.

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Acrescentando complexidade a esse conforto conceitual, tácito, que coloca a cidade naquela posição em que se sabe que se encontra uma assim que se vê; uma série de outros conceitos - vindos de campos como a sociologia, a antropologia urbana, a geografia crítica e a psicologia social - adicionam, às questões da morfologia, variáveis que as distinguem e as diferenciam no tempo e espaço. Seja pela produção social do seu ambiente construído, seja pela apreensão perceptiva dos seus territórios, seja pelas reificações de imaginários, seja pelas atividades ali exercidas de forma hegemônica. Assim as cidades ao longo dos séculos foram identificadas de maneiras diversas, a depender das suas funções primeiras e da tradução dessas atividades nas suas paisagens mais óbvias. Salvador, do século XVI, como cidade-fortaleza; Londres, do século XIX, como cidade industrial; Atenas, do século V a.C, e Brasília, do século XX, como cidades políticas; Meca, desde o século V, como cidade religiosa; Londres, deste início de século XXI, como cidade financeira. Essas classificações mais genéricas, embora tenham dado suporte à boa parte das interpretações e construções de uma historiografia sobre as cidades, têm limitações e inconveniências no entendimento das cidades contemporâneas. Nem todas as cidades do mundo exercem ou exerceram papéis destacados em setores específicos da economia. Da mesma maneira, nem todas as cidades do mundo têm uma legibilidade óbvia da sua paisagem. A maioria dilui-se em paisagens genéricas . Seja nas cidades sem a forte carga da memória ou no tecido esgarçado das metrópoles tradicionais quando se avança em direção às suas periferias. O aumento da velocidade de circulação, provocado pelos meios técnicos, criou rupturas e fragmentou a linearidade das paisagens

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urbanas, requalificando o espaço urbano. Criaram-se enclaves e lugares de passagens. Estes últimos, em muitos casos, se transformaram numa espécie de “no man’s land”. Na verdade, mais do que aumento da velocidade é a configuração das metrópoles contemporâneas em territórios transpassados por velocidades variadas. Uma nova organização espacial em escalas diversas. Também a crescente desregulamentação das economias nacionais nos últimas décadas, acompanhada de uma crescente competição entre cidades para se estabelecerem como lócus privilegiado dos fluxos de capitais que circulam pelo mundo, a questão da definição do que vem a ser a cidade passa, também, a ser assunto de marketing. Amparada, sobretudo, na escolha de paisagens urbanas específicas para serem valorizadas e tomadas como o todo. Entram ai as requalificações urbanas, as novas construções em grande escala e a circulação dessas paisagens através de mídias diversas, impressas e eletrônicas; onde a operação de enquadramento exerce papel fundamental: a paisagem da cidade, numa acepção de imagem pública. Mas falar de paisagem é cair num campo tão ou mais difuso do que o conceito de cidade. Há muito que o termo deixou de ser o território legítimo dos artistas e passou a ser também a moeda de troca na concorrência entre cidades, no discurso dos ecologistas e dos urbanistas ou mesmo nas visões elásticas dos gestores do patrimônio na paranóia pelos lugares protegidos (ou a proteger). A falta de rigor na definição do termo, dentro dos diversos campos, também contribui para que a utilização da palavra “paisagem” se torne difusa e seja quase sempre usada de forma tácita. Tudo é paisagem; o que equivaleria dizer que nada é paisagem. Sejam

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as cinematográficas e injustas paisagens da Los Angeles de Mike DAVIS , sejam as paisagens opressoras e reluzentes do poder em Sharon ZUKIN , seja o palimpsesto impenetrável de Nelson BRISSAC PEIXOTO. Na série de ensaios aqui selecionadas, escritos entre 2006 e 2007 para o blog Imago Urbis, estão as bases do nosso entendimento - que foi depois consolidado na tese de doutorado “Dromorfoses da Cidade: A Paisagem Urbana na Era da Circulação Numérica” - de que a paisagem urbana contemporânea é, na verdade, um complexo de paisagens heterogêneas – “heteroramas” – que coexistem, estruturada fundamentalmente pela circulação em velocidades diversas. Esses pequenos ensaios, quase crônicas, que carregam consigo a fluidez e a urgência dos textos produzidos para um blog, se encontram aqui sistematizados em ordem cronológica decrescente. E servem, tanto para esvaziar um pouco as gavetas do autor quanto para dar uma pequena contribuição a uma necessária atualização ao estudo da paisagem urbana.

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EM BUSCA DA PAISAGEM URBANA PERDIDA

WNY

OUTUBRO 2007

Desde o início de 2007 está em vigor na capital paulista a Lei nº 14.223, mais conhecida como Cidade Limpa. Grosso modo, a lei, proposta pelo prefeito Gilberto Kassab e aprovada rapidamente pela grande maioria dos vereadores da cidade, trata das questões relacionadas à comunicação externa; letreiros de lojas, outdoors, banners, painéis eletrônicos etc, numa cidade que estava sufocada por uma comunicação visual precária e sem hierarquias. A nova lei deixa de lado a antiga legislação que tratava do assunto em São Paulo e estabelece uma espécie de ‘grau zero’ para as chamadas ‘mídias outdoor’, proibindo quase que totalmente a publicidade externa na cidade. Algumas exceções feitas a espaços culturais e patrocínios de empresas para áreas de proteção ambiental. Uma batalha de interesses foi então deflagrada. Prefeitura de um lado e associações ligadas ao setor de mídia outdoor do outro. São ações na justiça, cartas às revistas de grande circulação e até mesmo campanhas publicitárias. Entra no jogo a questão dos empregos

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perdidos e os que serão criados, além da própria economia gerada para a cidade, pelo setor. A aplicação de multas pesadas, no entanto, conseguiu promover uma rápida movimentação dos comerciantes paulistanos para mudanças na sinalização indicativa, feita por letreiros e placas nas fachadas dos prédios. E com uma aprovação expressiva da população da cidade, a balança pendeu para o lado do prefeito, que viu sua popularidade melhorar nos últimos meses e passou a receber elogios espontâneos vindos de arquitetos, urbanistas e outros tradicionais formadores de opinião, como é o caso do cineasta Fernando Meirelles, que agradeceu ao prefeito por deixar a cidade mais bonita (Folha de S. Paulo, 15. 04. 07). A questão, à primeira vista simples e de final feliz para a maioria, possui uma complexidade que a força da chamada opinião pública vai empurrando para a irrelevância, ao mesmo tempo em que credencia o prefeito Kassab para concorrer nas eleição municipal seguinte, segundo pesquisas de opinião. Uma cidade do porte de São Paulo tem, seguramente, dificuldades imensas para a sua gestão. Uma delas cabe à questão da fiscalização que tange o cumprimento das diversas leis aplicadas ao meio ambiente urbano. O que passa pela escassez de recursos financeiros e humanos até chegar às diversas anomalias burocráticas para que as ações de estado sejam de fato executadas. Começam ai as fragilidades para corrigir os excessos de um mercado imenso e feroz. Entre empresas estabelecidas que seguem normas e cumprem leis e uma série de outras que sobrevivem nas brechas e oportunidades da lógica capitalista, a cidade vê reproduzida na sua paisagem justamente a concorrência pela visibilidade. Seja o grande shopping

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center com seus banners e totens colossais; o templo evangélico com seus letreiros nada cristãos ou mesmo a quitanda da esquina com seus cartazes de papelão e maus tratos à língua portuguesa. O resultado é uma paisagem indiferenciada e medíocre que nivela esteticamente diversas áreas das grandes cidades brasileiras, sobretudo aquelas onde predominam o comércio de varejo. No entanto, ao fazer a política de terra arrasada, proibindo quase tudo, a prefeitura de São Paulo assume a sua incapacidade de regular a atividade de comunicação exterior e de estabelecer diferenças de tratamento para as diversas áreas da cidade. O que deixa espaço para as especulações que apostam se tratar de preparar a cidade para que transnacionais do mobiliário urbano, como a Cemusa, JC Decaux e Clear Channel, possam disputar o milionário mercado que fica aberto. As duas primeiras já atuam sob contrato em diversas cidades brasileiras, inclusive em Salvador. Análises apressadas, repletas de certo romantismo pela cidade, já louvam, no entanto, uma pretensa pureza arquitetônica da paisagem da velha São Paulo. Parte desses estetas nostálgicos parecem se unir em torno da lei Cidade Limpa, menos em função dos benefícios de um arejamento da paisagem urbana do que por uma condenação velada às suas próprias condições de artífices de uma sociedade de consumo. É o caso de muitos arquitetos que louvam «o retorno da arquitetura», como se a atividade que exercem também não obedecesse às lógicas de mercado e muitas vezes não fosse muito mais danosa à cidade que as publicidades que rejeitam. Claro, a cidade não é só mercado e nem a economia responde sozinha pela sua definição. Também é verdade que muitos dos painéis publicitários retirados de São Paulo eram esteticamente condenáveis

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e escondiam preciosas fachadas que agora voltam à luz. Mas, da mesma forma, anúncios bons e medianos escondiam arquiteturas duvidosas. O que deixa claro que não se trata de uma oposição pura e simples ou, como diz o velho ditado; “não precisa jogar fora o bebê, junto com a água suja do banho”. A atividade publicitária é inerente às sociedades de mercado e suas materializações no espaço urbano constituem signos das eras moderna e contemporânea. Objetos, serviços, cultura e entretenimento não só habitam o cotidiano como fazem parte de uma cultura de consumo que demanda exposição para que possam circular. Não à toa, a cultura pop nasce justamente desse entendimento, ao longo dos anos 50 e 60. Seja com Andy Warhol e Roy Lichtenstein, nas artes plásticas; com o rock’n’roll, na música; além do coletivo inglês Archigram, que foi pioneiro na incorporação da publicidade à linguagem arquitetônica. Alguns dos projetos mais inovadores e criativos na arquitetura contemporânea se utilizam dessa simbiose, como é o caso da boutique Chanel em Tokyo, onde uma das suas fachadas é uma imensa tela de light-emitting diode (LED), que mescla publicidade e arte urbana ou a Dundas Square, em Toronto, onde a revitalização de toda uma área foi possível numa parceria público/privado e imensas telas eletrônicas servem de referência à praça. Aliás, em que deplorem os puristas, essas são manifestações cada vez mais indissociáveis. Mas não só. Mesmo o uso tradicional da publicidade, consegue dar contornos e definição a um lugar, como é o caso da Times Square, em New York, rodeada de anúncios eletrônicos. E, ficando em São Paulo, não causa espanto que a cidade tenha catalogado em seu patrimônio o prédio do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, e a própria lei Cidade Limpa coloque o gigantesco relógio do Itaú, que faz

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o seu coroamento, como uma das suas exceções por considerá-lo um símbolo da cidade. Ao que parece, e sem saber, os que apoiam a Lei do Cidade Limpa, aplaudem antes o fato de a prefeitura estar fazendo uma organização da paisagem urbana “por baixo” do que em ter uma cidade sem publicidade. Essas mesmas pessoas provavelmente não desaprovariam a mídia exterior, organizada e hierarquizada, em cidades como Paris e Londres, que se desdobra de maneira intensa nos corredores e estações de metrôs e, de forma mais seletiva, na interação com os outros elementos da paisagem externa. Não deixam de estar presentes, no entanto. O caso de São Paulo abre um debate desejável e, de certa forma, inédito, sobre a questão da paisagem urbana no Brasil, já que tem mobilizado diversos setores da cidade. Uma primeira observação é que não dá para sair generalizando as soluções de nenhuma cidade do mundo. As cidades têm geografia, climas e histórias diferentes. E a cada uma cabe encontrar os caminhos para a gestão da sua imagem física. Salvador, por exemplo, caminhou nas últimas décadas para um modelo mais disperso, que privilegia o deslocamento por carros em grandes avenidas de vale. A comunicação publicitária externa, os outdoors, têm, justamente ai, seus melhores pontos. Praticamente não existem conflitos nessas áreas com a arquitetura, também mais esparsa e mais recente. Da mesma forma, parece acertada a decisão de estabelecer contratos empresas especializadas para a instalação de bancas, pontos de ônibus e outros suportes mais adequados à publicidade em centros urbanos, embora em Salvador não se possa tirar melhor partido desse

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mobiliário por conta do exíguo e deteriorado espaço disponível. Ainda que pesem objeções em relação ao design standard, encontrado em muitas cidades do mundo, o modelo de gestão de manutenção desses equipamentos, a qualidade do material publicitário e dos seus suportes compensam, largamente, as soluções domésticas anteriores. Já no caso da comunicação indicativa, aquela que identifica lojas e pontos de comércio e serviço, o problema é grande, sobretudo nas áreas mais populares e informais. Provavelmente reações positivas, como as de parte dos paulistanos, se repetiriam em Salvador caso se votasse uma lei para que fossem retiradas painéis e letreiros das regiões da Baixa dos Sapateiros, Sete Portas, Avenida Sete de Setembro e parte da Cidade Baixa. Áreas tradicionais da cidade onde uma arquitetura do final do século XIX e início do século XX segue sufocada por lamentáveis estruturas em ferro, alumínio e PVC. Mas à Salvador, em termos de paisagem, e ficando nos seus elementos fixos, faltaria ainda uma ação efetiva para tornar a rede elétrica subterrânea e ampliar a iluminação; recuperar e ampliar quilômetros de calçadas, sem as quais falar de mobiliário urbano (sanitários, bancos, pontos de ônibus, lixeiras etc.) não faz nenhum sentido; além da necessidade de se colocar em prática uma política de longo prazo para o plantio de árvores. Ao que parece, no entanto, quem tem mobilidade na cidade está mais preocupado em que o trânsito não esteja engarrafado e que os shoppings tenham vagas para estacionar. O espaço público urbano de Salvador, por enquanto, aguarda pela sua (re)criação.

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A PAISAGEM URBANA NA ERA DA SUA CIRCULAÇÃO NUMÉRICA

SIMONA DUMITRU

JULHO 2007

A relação entre as cidades contemporâneas e a produção das suas imagens baseadas nas paisagens move-se em consonância com o estatuto do próprio homem urbano atual. A abrangência da esfera mercantil que abarcou quase todas os patamares da vida humana, desde o advento da modernidade, nivela todos os seus aspectos por uma lógica contábil financeira, o que pode ser medido pela transmutação das relações entre os homens e seus objetos em relações de consumo. Um contrato tácito que elabora uma espécie de religiosidade monetária e que substitui a antiga religiosidade metafísica predominante até a Idade Média (Simmel). Assim as paisagens mais recorrentes das cidades são antes os frutos de uma ‘distração’ coletiva consensual, que consagra uma comunhão dos seus habitantes e visitantes com as imagens que lhe são confortáveis, do que processos baseados na legibilidade visual ou na recepção simbólica. O conforto vem justamente da possibilidade

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da redução das paisagens urbanas ao mínimo denominador comum monetário e que implica na sua circulação em suportes diversos: desenhos, pinturas, fotografias, vídeos. E que ganha em intensidade com as cidades turísticas e o seus cartões postais, de caráter histórico ou não. Esse processo só é possível porque desejado; um pacto entre os que fazem e os que consomem as cidades. A publicidade funciona hoje como mediadora dessa relação e as políticas de marketing, ligadas ao urbano, tentam estabelecer o que é conhecido nos estudos da comunicação como agenda-setting; um tipo de efeito social do campo midiático que seleciona os temas que o público discute num determinado momento. Quando essas políticas são bem sucedidas as maiorias silenciosas movem-se ao seu encontro. São os novos Codex Calistinus, espécie de guia da Idade Média, que no livro V orientava a atenção do peregrinos para a arquitetura presente no caminho de Santiago de Compostela. É por isso que as investigações que buscam mapear a legibilidade das grandes cidades do mundo capitalista contemporâneo baseadas na ‘recepção’ das suas paisagens, ainda que lancem mão de metodologias diversas, encontrarão resultados parecidos. Lá onde estão as paisagens mais bem cotadas na grande bolsa de imagens; hoje, majoritariamente, conduzida pelas mídias, estarão a tradução da cidade. O que torna particularmente questionável a tradição de estudos que começa com Kevin Lynch e o seu clássico a Imagem da Cidade (1960), baseada em psicologia comportamental, memória e significados. Princípio válido, também, para redes que consomem a cidade de forma alternativa, como nos casos das diversas tribos urbanas ou

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grupos minoritários bem informados. Seus territórios se revelam nas mídias que lhe dão suporte, como por exemplo nos circuitos de arte e arquitetônicos. Os projetos do star system da arquitetura contemporânea, que comporta nomes com Jean Nouvel, Norman Foster, Zaha Hadid, Libeskind e outros, têm um enorme capital simbólico amparados em boa parte por revistas internacionais de arquitetura como El Croquis e Architectural Review. Troca-se a moeda mas não o fundamento. Uma rápida aplicação do que foi dito acima. Tomando-se como base as fotografias de Paris e Salvador que são disponibilizadas por habitantes locais e turistas, em sites da internet como Flickr (Yahoo) e Panoramio (Google), pode-se, utilizando-se os sistemas de busca dos próprios sites e através de procedimentos estatísticos, fazer um mapeamento das maiores incidências de registros fotográficos das paisagens das duas cidades. Apesar do processo extremamente individualizado, muitas vezes solitário, da seleção das paisagens a serem fotografadas e das quais serão disponibilizadas no site, a imensa maioria das fotos recai sobre as paisagens mais recorrentes. E, em boa parte, a seleção feitas pelos habitantes coincide com a realizada pelos visitantes e turistas. No caso de Paris as maiores recorrências em relação à paisagem urbana são a Torre Eiffel, o Museu do Louvre, o Quartier Latin e a área de La Défense, esta última mais recente e com uma arquitetura internacional mais genérica. No caso de Salvador a principal região é a do Centro Histórico, sobretudo o Pelourinho, que sofreu uma intervenção na virada para os anos 90, seguida pelo bairro da Barra. Nada de muito novo. Um estudo equivalente que fosse produzido na Salvador do início dos anos 70, provavelmente registraria maiores

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incidências nas paisagens próximas ao litoral atlântico (Rodrigues). Salvador e Paris, em escalas e redes diferentes, são destinos turísticos tradicionais; com as duas cidades carregadas de história. O que, pela quantidade de narrativas já produzidas sobre as duas cidades - sejam na música, cinema ou literatura - poderia tornar difuso um estudo sobre as paisagens e seus registros. O mesmo não se poderia dizer sobre a espanhola Bilbao. A cidade teve uma importância grande no período capitalista industrial, mas o seu peso só foi importante para a economia da Espanha, mesmo assim até a década de 30 do século passado. Com o desmonte da economia industrial, primeiro com a Guerra Civil Espanhola, em 1937, e depois com a Segunda Guerra Mundial, a cidade amargou uma regressão por mais de 50 anos, que atingiu seu cume com as grandes inundações em 1983. A saída encontrada pela cidade passou pelas políticas de requalificação das suas antigas áreas industriais, onde a construção do majestoso museu Guggenheim, terminada em 1997, firma-se como representante maior. O impacto midiático que a obra suscitou transformou Bilbao num paradigma da construção de ‘identidades por projeto’ (Castells) e colocou a cidade no mapa do mundo, porque imersa nos circuitos culturais. Dez anos depois da inauguração a imagem de Bilbao quase se confunde com a da seu museu. No levantamento feito a partir do site Panoramio, a área que tem uma concentração de registros em mais de 90% não é outra senão o ponto nas margens do Rio Nérvio onde está o museu projetado pelo arquiteto Frank Gehry.

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Algumas conclusões

O olhar contemporâneo continua a passar distraído pelas cidades, desde a modernidade de Walter Benjamim. As alterações se fizeram nas escalas, nas velocidades, nos enquadramentos, nas próteses da visão e no conseqüente aumento da perda de profundidade (o olhar tátil). Tudo isso já observado por alguns autores, sobretudo Baudrillard e Virilio. Nas diferentes redes de relações sociais, sejam hegemônicas ou não, diretas ou mediadas, a fabricação dos consensos é antes uma espécie de demanda religiosa (religare), na fuga humana da solidão (hiper)moderna, do que a imposição pura e simples dos sistemas de poder. E que não se faz diferente no culto contemporâneo do consumo de cidades. Cabe, então, observar que continuar a repetir as explicações de como se reproduz o espaço urbano capitalista - foco insistente de muitas das investigações atuais, sobretudo na tradição francesa e latino-americana – não ajuda muito aos arquitetos e urbanistas a lidarem com a cidade contemporânea. No vácuo do pensamento, as formas das cidades já são, há algum tempo, competência também de outros métiers, como os publicitários e os profissionais de marketing. Nos estudos e propostas para as cidades, sobretudo naqueles que dizem respeito aos domínios da arquitetura e do urbanismo, parece que é mais do que hora de sair do campo da denúncia, este já bem inflacionado por parte das ciências humanas, e voltar com rigor e zelo ao território crítico das pranchetas.

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SALVADOR, A BY-PASSED CITY

MARCOS RODRIGUES

JUNHO 2007

Uma série de pesquisas conduzidas pelo mundo tem dado ênfase ao papel das cidades na atual economia globalizada. Algumas dessas pesquisas, sobretudo as conduzidas pelo Globalization and World Cities (GaWC), grupo criado por Peter Taylor, professor de geografia da Loughborough University no Reino Unido e pelo GW Center for the Study of Globalization (GWCSG), com sede na George Washington University, Estados Unidos, focam principalmente nas questões ligadas aos fluxos de capitais e suas implicações locais. Em outros termos, como o capital financeiro que movimenta os mercados globais se materializa na cidades; seja pressionando mudanças no uso do solo, com requalificações de antigas áreas e (ou) construções de novos equipamentos e edifícios, seja demandando investimentos em tecnologia de informação e comunicação ou induzindo combinações e variantes desses dois eixos. Considerando esse viés de investigação, Salvador é uma das cidades que sempre aparece nas diversas pesquisas quando se

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estabelece uma hierarquia de cidades na escala nacional brasileira. A depender do atividade a ser estudada, a posição da cidade varia entre 3a e 6a nos diversos rankings, alternando com Recife, Porto Alegre, Brasília, Curitiba, Fortaleza e Belém. Essa posição é muito mais desfavorável quando entram dados sociais e índices de qualidade de vida. Com a ótica das estratégias globais, no entanto, a importância de Salvador é quase insignificante; ainda que a cidade esteja inserida numa ou noutra rede secundária, ligada as atividades de turismo e lazer tropicais (praias e festas), como são os links diretos com a Alemanha, Península Ibérica, Itália, América do Sul e a cidade de Miami, nos Estados Unidos. Esta última, em verdade, servindo mais como porta de entrada de turistas brasileiros nos Estados Unidos do que recebendo norte-americanos. Sob o viés da lógica centro-semiperiferia-periferia (World City hyphotesis, John Friedmann, 1986), Salvador, como outras capitais brasileiras, apenas sofre os efeitos colaterais da globalização, em nenhum momento sendo agente ativo do processo. A atração dos capitais por lugares estratégicos’, onde uma infraestrutura informacional, de comunicações e de transportes esteja instalada, aliada a presença de mão-de-obra qualificada e serviços de padrão internacional, isola a cidade de São Paulo de quase toda a América do Sul. Buenos Aires, Rio de Janeiro e Curitiba lhe seguem, numa espécie de segundo escalão. A by-passed city. Uma espécie de lógica perversa tende a empurrar para uma obscuridade ainda maior cidades que, de certa forma, optam por estar à sombra. Não estão atentas à violenta desregulamentação que rege os mercados atuais e muito menos à

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saída do ‘estado provedor’ do papel de suporte do bem estar social. Esse estágio atual do capitalismo avançado, que submete as cidades a uma competição por atração de capitais, exige das administrações locais bem mais do que esforços de marketing em busca de uma imagem positiva de cidade. Exige investimentos concretos em capital humano, redução da pobreza e dos abismos sociais, bem como investimentos na infraestrutura de funcionamento da cidade; transportes eficientes, limpeza pública, segurança. Nesse ponto os esforços dos que se alternam na prefeitura de Salvador nos últimos 20 anos têm se mostrado medíocres. Tanto nas gestões ditas liberais quanto nas que se colocam à esquerda, uma opção por vender uma imagem cultural, carregada de clichês, tem empurrado a cidade para um exotismo autocomplacente, baseado em eventos efêmeros (festas religiosas, carnaval), estetização da pobreza e valorização publicitária da paisagem litorânea, sem que mesmo se tenha para essa última uma política efetiva para o seu consumo sustentável. As praias de Salvador são sujas; de difícil acesso; repletas de comércio informal e pedintes; com suas areias privatizadas por quiosques de alimentação, além de terem se tornado territórios privilegiados para a prática de pequenos furtos. A economia do chamado patrimônio intangível, sobretudo ligada as grandes festas, interfere de forma pontual e sazonal na cidade. Os eventos efêmeros não estruturam materialmente a cidade para o seu cotidiano, não melhoram sua paisagem construída, não transferem renda, nem formam ou qualificam seus habitantes. A cidade segue sendo pobre, injusta e caminha a passos largos para uma esquizofrenia, celebrando anualmente, em tórridos fevereiros, a sua pouca importância em relação ao mundo.

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Tentar mudar o quadro atual de Salvador não significa, necessariamente, que a cidade opte por uma adesão aos ideários de cidade estratégica nos moldes catalães e suas receitas prontas para a América Latina e Caribe. Num primeiro momento é necessário que se entenda os mecanismos que tem mudado a realidade de muitas cidades no mundo, para melhor ou para pior. E esse entendimento passa, sim, por lidar com as questões de mercado que regem o mundo contemporâneo e que exigem tomada de posição, sob pena de continuar sendo uma cidade que apenas sofre os efeitos colaterais da nova lógica global. O passo imediato é decidir se Salvador quer seguir sendo destino de um turismo exótico, em boa parte duvidoso, como as levas de europeus à cata de sexo fácil, ou pretende obter um lugar mais digno na distribuição do que há de melhor no mundo. As pistas atuais, infelizmente, não são muito animadoras.

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LENTO, MODERATO, PRESTO, PRESTISSIMO

YURCDACAN

NOVEMBRO 2006

O pensamento adjacente ao mundo em que vivemos - das metrópoles contemporâneas ocidentais - move-se na direção da procura de novos espaços desde que Galileu Galilei descobriu a Lei dos Corpos e enunciou o Princípio da Inércia, no século XVI. Começo do fim para a era medieval e para o horizonte restrito aos lugares de localização. Desde então a possibilidade do espaço aumentado estava dada. Mover-se (epur si muove!), para os habitantes desse planeta, passa a ser dado naturalizado, inerente à sua própria humanidade. As cidades são o lócus privilegiado da circulação. Dos corpos, dos objetos. A era moderna moldou as características diversas que ainda marcam as cidades de hoje: a transitoriedade, os choques físicos, o olhar fragmentado e distraído, a vulnerabilidade. O automóvel e, sobretudo, o cinema alteraram o olhar humano, esquadrinhando e alterando a velocidade (câmera lenta ou acelerada) e a linearidade das narrativas. O mundo perde parte da sua profundidade e prenuncia-se o universo das superfícies.

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Com a compressão do espaço e do tempo, proporcionado pelos transportes e pelos meios de comunicação sem deslocamento corporal, também se relativizam as questões sobre lugar, vizinhança por contigüidade territorial e cotidiano. É, como diz Foucault, a substituição dos lugares de localização pelos lugares de extensão. Substituição da hierarquia dos lugares medievais por um espaço aberto, sem margens nem centro. E, em 1967, o pensador avança, e já define o mundo atual como lugar do posicionamento (emplacement), em substituição aos espaços, modernos, de extensão, enunciando os conceitos de vizinhança por pontos e em redes. No entanto, ainda que a aceleração da circulação seja uma das características e um dos valores do atual momento, hipermoderno, ela não define por si só as metrópoles contemporâneas. Assim como a velocidade não é necessariamente um mal, nem a vertigem que consumirá o mundo numa bomba informática, como diz Virilio emulando Einstein. Dominar Chronos continua sendo, desde Galileu, o desejo de mortais e não apenas um imperativo do capitalismo avançado, onde desterritorialização, fluxos diversos e identidades híbridas seriam imposições frente às necessidades de circulação de capitais transnacionais. É também tempo de outras velocidades. Uma época de simultaneidade e justaposição. Dos choques físicos e da telepresença. Das aglomerações e da dispersão. As cidades, nos dias que correm, se mostram e se escondem em camadas diversas e precisam tanto de calçadas largas quanto de redes wi-fi, precisam tanto de ciclovias quanto de fibras óticas. Precisam de praças e telecentros e bancos e GPS e metrôs e árvores e celulares.

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É um falso problema pensar nas cidades como espaço das ilusões para os que têm mobilidade e como lócus da realidade para os desprovidos dos confortos tecnológicos; seja o deslocamento em automóveis ou o flanar cibernético. É uma construção frágil, que se aproxima da crença romântica do bom selvagem, de Rousseau. Nas cidades periféricas do globo, onde os problemas sociais possuem contornos dramáticos, essa questão costuma ser mais freqüente. Limitar a velocidade, então, parece ser, para os teóricos do ‘lugar’, o contraponto correto à hegemonia do poderoso centro, que passa pelos números nervosos das bolsas de Tóquio, Paris, Londres e Nova Iorque. E, quase como teoria adjacente, tem-se em pauta o velho debate que contrapõe natureza e artifício, natureza e cultura. No caso da velocidade ou, de mais velocidade, essa dicotomia, de forma invariável, passa pela questão tecnológica. Que vira símbolo do mal da civilização. Como diz Ieda Tucherman, essa oposição foi produzida no mundo moderno e está diretamente relacionada com a idéia de “perda” que caracteriza os apocalípticos que choram a uma pretensa volta a uma essência da realidade. A questão atual, para Tucherman, vai além desse dualismo e tem outra perspectiva: o cultural está intervindo no biológico, na carne. A biotecnologia entra em cena e a engenharia genética coloca a todos em face às questões dos seres híbridos. As próteses, antes objetos externos, entram em simbiose com o corpo humano, essa última fronteira. Titânio e ossos, chips e epiderme. Não é preciso, no entanto, se alinhar com os que já vislumbram o pós-humano, o pós-biológico, o pós-histórico, para entender que a

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cidade contemporânea tem redes mais complexas que uma divisão dual entre lentos e rápidos. Conceitos, estes, que apenas atualizam e inflacionam a nomenclatura para os termos clássicos da luta de classes. Os hackers da América Latina e do Oriente Médio; os Zapatistas e a Al Qaeda; o PCC e os eletropunks já sabem, entretanto, que tecnologia também significa possibilidades para os excêntricos e que as metrópoles movem-se em andamentos diversos. Nada mais cotidianamente normal em Miyagi, no nordeste de Tóquio, que atravessar a cidade a 360 km/h num trem bala, ouvindo no iPod o segundo movimento do Concerto em Lá Maior para Clarineta, de Mozart. Em delicado adagio.

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NUNCA FOMOS TÃO MODERNOS OUTUBRO 2006

MARCOS RODRIGUES

“Um homem que quisesse sempre sentir historicamente seria semelhante ao que se obrigasse abster-se de dormir... Portanto: é possível viver quase sem lembrança, sim, e viver feliz assim, como mostra o animal; mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento.” F. Nietzsche

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador (PDDU), que seguiu para a votação na Câmara Municipal, estabeleceu nas suas versões preliminares e dentro das suas Áreas de Proteção Cultural e Paisagística (APCP) um conjunto de 46 edificações enquadradas como ‘monumentos da arquitetura civil moderna’. Segundo o texto da lei as APCP são “áreas que possuem elementos de paisagem natural ou construída, que configuram referencial cênico ou simbólico significativo para a vida e estrutura urbanas, vinculadas à imagem da Cidade”. O que significa que fica proibido a substituição das edificações catalogadas, salvo reformas sem ampliação, que

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mantenham a volumetria e a fachada dos imóveis, ou obras destinadas à manutenção e segurança. A listagem dos edifícios baseia-se no levantamento feito pelo núcleo baiano (Faculdade de Arquitetura/UFBa) da organização internacional Do.Co.Mo.Mo - que existe em nome da conservação do patrimônio do movimento moderno - e inclui, no caso de Salvador, construções compreendidas entre 1930 (Elevador Lacerda) e 1968 (Banco do Brasil). Na sua quase totalidade, edifícios erguidos na franja da cidade voltada para a Baía de Todos os Santos, que vai do bairro da Barra à península da Ribeira. Faixa onde Salvador até o final dos anos 60, de fato, importava. Na sua centralidade, na sua urbanidade. A inclusão dessas construções da arquitetura moderna no rol dos monumentos sujeitos a proteção da lei nos permite algumas reflexões. Imagem Pública

Para além de uma crítica dos critérios que levaram o Do.Co. Mo.Mo/Bahia a selecionar estes 46 prédios - e aos artífices do PDDU a incorporá-los no texto -, interessa aqui, dentro dos contornos do blog Imago Urbis, a questão da imagem da cidade. A expressão, quase como um conceito tácito na minuta do Plano Diretor de Salvador, é colocada sem maiores definições. Que imagem da cidade? Do que se fala? Do conceito behaviorista de Kevin Lynch e seus mapas mentais e a boa legibilidade de uma cidade? Ou da idéia de imagem pública, numa acepção mais próxima das práticas de marketing? O clássico estudo de Lynch não parece nos ajudar muito nesses dias de multicentralidades, pastiche arquitetônico, velocidades diversas e próteses do corpo - potencializadas pelas novas tecnologias da informação e comunicação - que subvertem, além do tempo e

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espaço, a visualidade linear e em perspectiva. A percepção da cidade dilui-se e as experiências individuais, salvo alguns eventos, já não encontram o respaldo de uma fruição coletiva. A imagem da cidade como ‘imagem pública’ pode ter o seu suporte na paisagem urbana, natural e construída, mas é complementada e ativada com discursos de outra ordem, inclusive de natureza intangível, como as sensações de segurança ou medo, de aconchego ou estranheza, de alegria ou melancolia etc. Pode ser construída, ao longo do tempo, por um imaginário que também se apóia em narrativas artísticas, como literatura e cinema, caso de New York e Paris, ou ainda, rapidamente elaborada em práticas com fortes doses publicitárias, como os casos de sucesso do chamado planejamento estratégico, onde Barcelona segue como paradigma. Em geral, no entanto, o senso comum leva o conceito de imagem da cidade para um rebatimento quase imediato a outro conceito difuso: o de identidade. É quase uma doxa nos dias que correm. Invocar a identidade parece ser uma espécie de autodefesa à incapacidade atual de se lidar com os acelerados processos de compressão do tempo e espaço que estão em curso, bem como com as suas consequências: hibridismos, desterritorialização, difusão. É um estranho e perigoso consenso, naturalizado, onde campos distintos e, por vezes, antagônicos da sociedade entoam a mesma cantilena. Outras memórias

O levantamento dos prédios modernos, endossado pela minuta do PDDU, não constitui, necessariamente, e no seu conjunto, uma imagem que seja “referencial cênico ou simbólico significativo” para a Salvador contemporânea, como estabelece a lei para as APCP.

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Ressalva talvez aos prédios da área do bairro do Comércio, zona moderna da cidade por excelência. Ainda assim não arriscaria dizer que essa é uma percepção coletiva. Algumas edificações de uso público como o Elevador Lacerda, e o Teatro Castro Alves, por exemplo, permanecem vivos, mantendo a sua funcionalidade, suas dimensões simbólicas e, até mesmo, existindo como monumentos isolados. Os outros exemplares, na imensa maioria, mesmo os que têm localização privilegiada, como o edifício Oceania e o Hotel da Bahia, seguem sendo um desfrute para um grupo seleto, que conhece e entende a linguagem da arquitetura. O fato da existência de uma enunciação vinda de um saber especializado, que cataloga e apresenta uma leitura possível da cidade, logo uma crítica, pode, no entanto, ampliar positivamente as possibilidades do olhar e dos discursos sobre Salvador. Hoje ele encontra-se monofônico, reificado nas práticas do campo de um turismo que folcloriza, mesmo para os que aqui habitam. Em alguns lugares e em outros tempos, a amnésia. Caso da reação à arquitetura moderna da Alemanha nazista e da Itália fascista. No caso de Salvador, o acionamento de outras memórias pode funcionar como uma resistência ao lugar de silêncio em que têm permanecido os discursos das elites intelectuais. Podem ganhar força caso saibam dialogar também com as diversas dimensões midiáticas. Hoje, imprescindíveis. Que todos esses edifícios da arquitetura moderna em Salvador não tenham sido capaz de reivindicar outras imagens para a cidade nessas últimas décadas, é só a constatação de que a escrita arquitetônica divide com outros textos, e já há algum tempo, as possibilidades de semantização dos lugares.

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Outro ângulo, mais lacônico, sobretudo aos arquitetos, é o da qualidade ainda não superada, ou mesmo igualada, da produção arquitetônica do período modernista e dos seus mestres de reputação internacional. Uma fratura no tempo para uma jovem nação, onde Niemeyer, Brasília, Lúcio Costa, JK, arquitetura moderna, continuam povoando, como fantasmas, as possibilidades simbólicas de um eterno país do futuro. Ainda que Salvador não tenha estado na linha de frente desse debate, herdou, como todas as metrópoles do país, esses rastros. A eles recorremos sempre que queremos um rumo. Talvez para nós, de fato, como ainda reclama Habermas para a contemporaneidade, temos uma modernidade inconclusa.

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UMA NOVA FLÂNERIE

SPACE IMAGING

JULHO 2006

O olhar urbano está mudando seu estatuto. A imersão moderna, de Poe e Baudelaire, do flanar pelas metrópoles do mundo, se expande e se reconfigura com as novíssimas tecnologias de informação e comunicação. O corpo humano, que desde as próteses mecânicas da visão - óculos, binóculos, telescópios e lentes diversas dos inúmeros tipos de câmeras - já havia superado seus limites imediatos, rompe outras fronteiras com as possibilidades da telepresença interativa. As tecnologias que estão por trás das mudanças no cotidiano das grandes cidades são o Sistema de Posicionamento Global (GPS), telefones celulares, wireless laptops, Bluetooth, RFID (Identificação de Rádio Frequência), WiFi/WiMax e os Sistemas Globais para Comunicação Móvel (GSM). Basicamente são as técnicas que combinam mídias móveis e redes sem fio que permitem que nos localizemos no espaço através de posições geográficas (latitudes e longitude recebidas via GPS) em combinação com a acesso a

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informações suplementares (como a condição do tráfego), extraídas diretamente de inúmeros serviços e bancos de dados, via internet. São também conhecidas como ‘locative media’, nas experiências européias, ou ‘augmented reality’, na visão norte-americana do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A mudança de paradigma vem justamente da introdução da mobilidade. Se, há alguns anos, a discussão do ‘espaço ampliado’ era relativizada pelos mais céticos, com argumentos de que a ‘janela eletrônica’ necessitava de bases geograficamente localizadas - desktops, webcams fixas, etc. - a crescente massificação das tecnologias móveis deixa definitivamente de lado esse porém. Estão sendo também superadas as experiências iniciais das chamadas ‘cidades digitais’, que se debatiam entre simulacros virtuais de cidades físicas e redes de informação em pontos fixos, onde o espaço materialmente construído ainda era indispensável. Hoje através de aparatos portáteis diversos (handhelds), é possível ter uma gama bem variada de informações estando em trânsito. Algumas das mais bem sucedidas iniciativas no terreno das mídias de localização para usuários domésticos partiram da gigante americana Google, com os correlatos produtos Google Maps e Google Earth. Softwares de localização, baseados na internet, que combinam imagens de alta definição feitas pelo satélite Quickbird, GPS e sistemas de informação diversos espalhados pelo globo. Os sistemas permitem a vista aérea de diversas cidades - incluindo as maiores brasileiras - e, nas metrópoles com serviços de localização de trajetos para uso pessoal, a interação com esses bancos de dados. Em algumas cidades norte-americanas a Google está fazendo a modelização 3D de edifícios. Caso de Chicago, Los Angeles e New York. Com isso é possível mesmo

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‘passear’ por entre as ruas ou fazer sobrevôos a qualquer altura e em qualquer ângulo. Outros sistemas, que pretendem fazer concorrência a Google, já anunciam a integração das imagens de satélite com webcams, o que permite saber em ‘tempo real’ o que se passa em alguns pontos do planeta. Uma outra cidade

As narrativas modernas - fotografia, cinema - já haviam multiplicado as possibilidades de percepção da cidade, fragmentando e ‘editando’ nossa visão. As tecnologias da hipermodernidade, no entanto, nos afasta do enquadramento do autor e nos permite, cada vez mais, estar no comando da seleção do que queremos perceber do ambiente construído urbano. Associado às informações suplementares, ao alcance das mãos via dispositivos portáteis, a nova flânerie passa pelo estabelecimento de um espaço urbano ampliado por uma realidade dual. As consequências, a médio e longo prazo, desse entendimento certamente passará pela revisão de muitos conceitos sobre a cidade. Um campo profícuo para algumas dessas discussões está, por exemplo, nas legislações sobre sítios históricos, que ainda se baseiam, unicamente, em percursos, perspectivas e marcos visuais prémodernos (barrocos até). Não são poucos os estudiosos do assunto que arbitram sobre intervenções em sítios com pré-existências de relevância histórico-cultural, baseados no olhar ‘original’; àquele, contemporâneo à data de construção de edifícios e monumentos. Um outro aspecto, que também motiva discussões acaloradas, passa pela questão do ‘público/privado’. Está a cada dia mais complexa a definição desses limites, sobretudo quando a questão passa pelo olhar. Através das imagens de satélite se pode ver os quintais da

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arquitetura colonial, até então ‘escondidos’; pátios de fortes militares de acesso restrito ou piscinas privadas em condomínios de luxo. Tudo em poucos minutos, passando-se de um extremo a outro do globo. O mundo sem sombras de que nos fala Baudrillard.

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MEDIASCAPES MAIO 2006

A luz sempre foi um elemento determinante na definição da arquitetura. De Vitrúvio a Jean Nouvel, passando por Le Corbusier “o jogo correto de volumes sob a luz”, muitos foram os teóricos que colocaram o elemento como constitutivo dos espaços planejados e construídos, assim como a melhor arquitetura realizada através dos tempos também soube se utilizar. Veja os exemplos das catedrais góticas e seus vitrais; o Pantheon, em Roma; as galerias parisienses; toda a arquitetura moderna de ferro e vidro e, mesmo, o exemplo mais radical; da Catedral de Luz feita pelo arquiteto de Hitler, Albert Speer, apenas com refletores de guerra. A questão da interação entre luz artificial e arquitetura é, no entanto, muito recente. Data de 1882 o primeiro fornecimento regular de energia elétrica pública. Pouco mais de 100 anos. Chega com a era moderna uma caminhada em direção à transparência. De um dia solar passamos a um dia elétrico, com as atividades

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humanas ganhando algumas horas. Com o advento da informática, temos um dia eletrônico. Um tempo global que estabelece o ‘agora’ em escala planetária. A arquitetura, que desde a invenção da prensa de Gutemberg tem se esvaído das suas obrigações de ser um registro do tempo e do espaço, tem aos poucos incorporado ao seu repertório aparatos tecnológicos de comunicação que potencializam essa fuga de ‘lugar da memória’. E são as grandes telas eletrônicas de alta definição em Liquid Crystal Display (LCD), as maiores responsáveis por começar a tornar corriqueiro nas grandes cidades a paisagem urbana de filmes de ficção científica como Blade Runner (1982). Também novos materiais de construção, englobados na definição de ‘transmaterials’, que permitem transparência e transmissão de dados digitais através deles, concorrem para a potencialização da antiga simbiose entre arquitetura e comunicação visual, bem como para o estabelecimento de novas estéticas baseadas nas rápidas mudanças de imagens, onde a luz é fundamental. Persistentes apenas na duração retiniana. Aparição/desaparição que vai além da utilização das estruturas de edifícios como suportes de grandes anúncios. São novos concretos e cerâmicas transparentes; pl��sticos flexíveis que transmitem informação; fibras óticas etc. Não se trata, como escreveu Venturi, da utilização de elementos de uma ‘arquitetura vernacular comercial’, mas a comunicação que engloba, além da publicidade mais popular, a própria arte urbana, além de permitir interatividade, como mudar as cores de um prédio a partir de um telefone celular e a supressão do tempo e espaço com prédios que podem abrir uma janela eletrônica para qualquer lugar do mundo em tempo real. Arquitetura não só como face, mas como interface. Interfachadas.

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CRONICAMENTE INVIÁVEL

SECOM / PMS

MAIO 2006

Os que circulam pelas ruas de Salvador com certeza já notaram a proliferação de paredes pintadas com grafismos coloridos, ora fazendo o papel de educação ambiental ora enaltecendo a cultura folclórica baiana ora fazendo propaganda de eventos apoiados pelo governo, como a recente Fórmula Renault. Em quase todos os casos a ‘logo’ da Prefeitura Municipal vem adjacente co-assinando a ‘intervenção’ com o slogan: Prefeitura de participação popular. Corta. Salvador segue sendo uma cidade muito peculiar, sobretudo no que diz respeito às trajetórias das chamadas manifestações populares. De blocos carnavalescos a alguns grupos de rap, dos ritmos eletrônicos de teclados japoneses fazendo base para o ‘arrocha’ aos grafismos nos muros da cidade. Onde em outras cidades as expressões dos subjugados socialmente criam tensões e forçam avanços nas correlações de força, na capital baiana uma ‘cultura’ de ‘incorporação das diferenças’ - promovida pelo campo do poder - apara arestas, arrefece ânimos e estabelece consensos.

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Assim, temos por aqui líderes de blocos populares apoiando candidatos da situação, ‘raps’ como jingle de campanha política pela reeleição e, mais recentemente, servidores públicos ‘grafiteiros’ com carteira assinada ganhando salário, tickets e trabalhando cinco horas por dia. Para muitos são avanços incontestáveis, já que na verdade o que se deseja não é ser o ‘outro’, à margem, mas sim ter a inclusão na sociedade tal com ela é. Parece o paraíso da inclusão social; mas pelos números e indicadores sociais que são constantemente ventilados pela imprensa que foge às amarras do poder local, está difícil enxergar onde as mudanças estão operando para além do ganho temporário de alguns. As cordas que durante o carnaval separam associados de simples foliões continuam apinhadas de mãos de não-inclusos, bem como a fila que se forma a partir das 10h da manhã em frente ao restaurante popular para se ter um prato de comida a R$1, bem como as sinaleiras da cidade e as vagas de estacionamento nas ruas e a multidão de ambulantes e etc etc etc. Ficando só na questão dos ‘grafites’, é de causar espécie até onde o avalanche do discurso politicamente correto já está fazendo vítimas. O que nasceu em maio de 68 nas ruas de Paris como meio de contestação em famosos slogans, ganhou autonomia como arte urbana nos vagões dos metrôs de Nova Iorque no início dos anos 70, se espalhou pelo mundo na urgência punk da virada dos 80 (Miguel Cordeiro em Salvador, incluso) e se consolidou como parte do tripé da cultura hiphop (os outros dois são o rap e a breakdance) em cidades como Marseille, São Paulo, Cairo etc, vira na Salvador contemporânea, pastiche de propaganda oficial de governo.

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Mesmo que fossem, ainda que irrelevantes, só pelo aspecto ‘decorativo’, essa pintura mural (não é mais do que isso) que se espalha pela cidade carece de inventividade, originalidade e mesmo qualidades técnicas. Os traços são infantis e primários, os temas ‘chapa-branca’, bobinhos, não acrescentam nada à vida de ninguém, a não ser os R$400 no fim do mês para “ex-pichadores” que agora andam felizes por não correrem mais da polícia. São agora ‘grafiteiros do bem’. O que a pobreza nos faz. O grafite é comunicação de guerrilha. Tem que ser necessariamente não autorizado. Tem que ser imprevisível, tanto nos temas quanto nos locais onde se interfere. Tem que gritar e não pedir licença. Falar de amor, de ódio, de vida e de morte, fazer pensar. Trazer uma poética viva para as ruas e não a morbidez dos murais chapa-branca. Grafite tem que ser um crime. Ou não é grafite.

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O FIM DA CIDADE BARROCA MAIO 2006

“Quanto mais os telescópios forem aperfeiçoados mais estrelas surgirão” Gustave Flaubert

NEAREST TUBE

Paisagens mediadas

Desde que no Renascimento Filippo Brunelleschi criou com Leon Batista Alberti a perspectiva artificialis e com ela o primeiro instrumento processador de uma imagem técnica - a tavolleta - o olhar do homem nunca mais foi o mesmo. Os princípios do apetrecho dos renascentistas instituíram a câmera escura e a base para captação de imagens que dura até os dias de hoje: na fotografia, no cinema, na televisão. Mudaram as bases de fixação dessa imagem. De chapas metálicas para películas com nitrato de prata, para tubos catódicos, para fitas magnéticas, para discos rígidos. Mudou também o alcance visual com o uso e aperfeiçoamento das lentes; microscópicas, grande angulares, telescópicas. Próteses da visão.

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Com o cinema e as imagens em movimento, mais do que os ângulos inusuais e o zoom - já possíveis na fotografia estática - as técnicas de edição subverteram o espaço/tempo “real”. Essa última considerada pelo cineasta russo Sergei Einsenstein como a mais importante característica do cinema. Invertendo seqüências, cortando passagens, enxertando imagens, misturando tempos e lugares. As técnicas e capacidades diversas do registro cinematográfico quando passam à TV, à sua difusão por antenas e satélites e à sua recepção doméstica, banalizam a imagem editada. Assim também o zoom, o superclose, os movimentos diversos da câmera como travellings e panorâmicas, bem como os ângulos inusuais. Mais de um século em que o homem tem a possibilidade de vistas aéreas, submarinas, subterrâneas, em velocidades diversas. Choques violentos em câmera lenta ou a passagem de todo um dia num só minuto. Mais de um século tendo a câmera como prótese da visão. O século moderno: que tornou a visão fragmentada, arrítmica, atemporal, artificial. Tornou a todos um pouco ciborgues. É já é passado. Desde o advento do processamento binário da informação que a imagem libertou-se do referente. Já não é nem mais imagem (duplo, espelho, representação), mas sim ‘imagem de síntese’, autoreferenciada. Não precisa do “real” para existir. Fractais, simuladores de vôos, videogames, maquetes virtuais. Mundo de bits e pixels. Cidades e limites escrituras no tempo

Com a compressão de tempo e espaço operada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, as cidades experimentam um duplo movimento de forças que tendem a tornar ainda complexa

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a compreensão da sua materialidade. Por um lado a comunicação em tempo real que permite teleconferências, teletrabalho, transações financeiras, visualizações à distância etc, expande os limites da cidade contemporânea para além das coordenadas geográficas. Na outra mão, um movimento acelerado procura prospectar a cidade e eliminar suas zonas de sombras. Toda uma tecnologia que fotografa, filma, registra e localiza, numa busca contínua pela transparência: câmeras, circuitos de TV, celulares que fotografam, palmtops, GPS etc. A leitura da cidade fragmenta-se, torna-se não-linear. A cidade antiga, pré-moderna, tinha seus contornos definidos por marcos arquitetônicos bem palpáveis, no que Benjamin chamava de ‘olhar tátil’. O castelo, a catedral, os muros e os portões. Uma leitura linear com frente, fundo, laterais e percursos definidos. A cidade moderna, de Kevin Lynch, ainda se pautava pelos suportes físicos da memória, ancorados em marcos arquitetônicos e urbanísticos. Na cidade contemporânea, ampliada, cidade de interfaces, temos um diluição dos limites objetivos. A entrada da cidade não mais corresponde, necessariamente a um ponto localizado geograficamente, mas pode ser um website governamental acessado de outro país ou um terminal eletrônico num aeroporto fora dos limites geográficos da cidade. A arquitetura é cada vez menos uma escrita linear no tempo e no espaço que preserva a nossa memória coletiva; um dos conceitos de monumento. Victor Hugo em Notre Dame de Paris, já dizia a respeito da invenção da imprensa em relação aos monumentos arquitetônicos “este matará aquele” (ceci tuera cela).

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Fim das dobras, fim da cidade Barroca

A visão (e a percepção) da paisagem urbana, sobretudo a arquitetônica, não é mais hoje necessariamente seriada e linear como num percurso a pé, mas sim, desde o advento das tecnologias da captação da imagem em movimento é também fragmentada, arrítmica, atemporal e maquínica. Nos últimos anos as chamadas mídias localizadas vieram comprometer um pouco mais o romantismo da figura do flanêur e sua relação com o andar à deriva. Com a tecnologia de geoprocessamento (GPS) em combinação com os telefones portáteis, está cada dia mais difícil perder-se numa cidade ou mesmo descobrir um lugar por acaso. As dobras, surpresas e descobertas urbanas estão cada vez mais para assunto de literatura. A Igreja do Passo, em Salvador, que foi cenário para o filme O Pagador de Promessas, possui uma escadaria monumental. Um movimento de ascendência leva ao limite, ao ponto máximo: a própria igreja. Quer dizer; isso até a invenção de máquinas voadoras, câmeras e de publicitários. Num vídeo promocional sobre a Bahia, a Igreja do Passo vira apenas uma passagem numa busca desenfreada paro o mar e sua escadaria, uma clareira facilmente transponível. Da mesma forma a famosa Igreja do Bonfim, também em Salvador, vista por meio de uma câmera num helicóptero de telejornalismo, não acolhe mais o olhar particular e intransferível do fiel que chega a um santuário e deve erguer os olhos, mas se transmuta em objeto, dessacralizado, sob um olhar onipotente que a perscruta por todos os ângulos, a desvela, e transforma o enquadramento de um na visão de milhares. A Colina Sagrada vira plano e, na verdade, no dia da festa do Senhor do Bonfim, pela TV se chega à igreja muito antes do alegre cortejo de 8 km.

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Arquitetura e lugar

Embora a arquitetura tenha hoje a sua importância relativizada como referência do espaço e do tempo, em contraposição ao aumento das materializações efêmeras, sobretudo publicitárias, em parte pela proliferação de novos suportes artificiais da memória (imprensa, fotograma, vídeo, pixels e bits), paradoxalmente, o tecido urbano de grandes metrópoles tem sofrido intervenções arquitetônicas de grande porte, com reconversões inteiras de antigas áreas industriais e portuárias, onde uma arquitetura monumental tem se sobressaído. Os Grandes Projetos em Paris; Berlin e a incorporação da parte oriental; Lisboa; Buenos Aires e, aqui em Salvador, fala-se na requalificação da área do bairro do Comércio. Toma-se então a arquitetura com uma espécie de último bastião para reterritorializar as cidades. A tentativa de construção de novas narrativas através da construção de novos monumentos que possam, quem sabe, criar identidades por projeto, no dizer de um Castells. Uma tarefa conservadora para arquitetos e urbanistas.

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GUGGENHEIM, 22°54’S 43°12’W RIO DE JANEIRO, ARQUITETURA E IMAGEM PÚBLICA ABRIL DE 2003

Intróito

O anúncio da construção de uma filial do museu Guggenheim na América do Sul tem levantado polêmicas e se constituído numa boa oportunidade para avaliar questões relativas à arquitetura e ao urbanismo, no que implica da relação destes campos com o entendimento do pensamento sobre as cidades contemporâneas. Vários aspectos se entrecruzam nesse fato - planejamento urbano, competição entre cidades num mundo globalizado, imagem pública, relações entre público e privado, identidade, consumo de lugares, arquitetura, representação e mídia – e justamente por isso torna a questão complexa e estimulante. Reinventando cidades

Os caminhos que abriram espaço para a eclosão de novas formas de pensar a cidade podem encontrar a sua origem nos anos que se

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seguiram à Segunda Guerra Mundial, sobretudo em meados da década de sessenta. O chamado planejamento urbano, de concepção moderna, dependente direto do Estado Providência (Welfare State), foi afetado pela chamada crise fiscal; reversão econômica mundial causada pela crise do petróleo no início da década de 70 afastando os Estados nacionais dos investimentos urbanísticos. Quebrou-se o ciclo de crescimento e aprofundou-se um processo de globalização econômica que transformou o mundo numa intensa rede de fluxos de comunicações e transações de bens materiais e imateriais. A proximidade física, como princípio regulador do crescimento urbano, foi preterida pela importância do tempo e do espaço relacional. As dinâmicas metropolitanas passaram a depender cada vez mais do relacionamento regional ou internacional, comandado à distância, e menos da sua inserção regional ou mesmo nacional. As pesadas infraestruturas econômicas e industriais próprias da cidade fordista - estaleiros navais, siderurgias, complexos petroquímicos, refinarias petrolíferas, assim como as grandes infraestruturas logísticas, terminais ferroviários, portos alfandegários entraram em progressiva obsolescência. Produziram-se assim, rupturas físicas entre a cidade e o esvaziamento de grandes áreas do tecido consolidado, abrindo oportunidades para transformações urbanísticas. Desde então os vazios urbanos, resultantes da recomposição econômica, vêm se tornando áreas privilegiadas para a capitalização da cidade, sobretudo as frentes de água de cidades costeiras ou fluviais. As potencialidades paisagísticas e lúdicas desses lugares e a revalorização midiática do seu valor simbólico alimentam o caráter

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especulativo dos investimentos. São os conhecidos exemplos das Docklands de Londres, do porto de Shangai, dos condomínios de luxo no Battery Park de Nova Iorque ou da fixação da telemática no teleporto de Tóquio. No contexto de formação dos grandes blocos econômicos e de crise dos mecanismos de regulação dos Estados nacionais, algumas cidades assumiram o papel de atores principais no novo mercado mundial. Em tempos de capitalismo avançado, de economias globalizadas e de capital simbólico, a competição entre cidades para se transformarem em pólos de turismo e investimentos emerge, para muitas administrações, como uma possibilidade para o desmonte avançado da velha economia industrial. O exemplo, sob muitos aspectos vitoriosos, de cidades como Baltimore e, mais recentemente, Barcelona, aparecem então como modelos a serem copiados, principalmente em reconversões de cidades portuárias, que avançam esperançosas para o terciário, como para uma tábua de salvação ao Titanic do moderno. Uma das questões mais paradoxais que aparece, no entanto, nesse “urbanismo em fim de linha” é justamente o reaparecimento da cidade. Quando das análises sobre as aglomerações do período moderno já se vaticinava o seu fim e eis que ela ressurge, a fórceps, na era dos planejamentos estratégicos. Para justificar territórios, lugares, identidades e assim vender, por exemplo, pacotes turísticos. Evidentemente nem toda a cidade é Nova Iorque, Londres ou Tóquio; cidades-globais. Inserir, portanto uma coordenada geográfica na rede de fluxos dos capitais voláteis que correm o mundo, passa a ser em boa medida reforçar (ou construir) “características” e “vocações”

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de um povo ou de um lugar. Tentar torná-lo único, logo atrativo. Construir uma imagem passa a ser requisito fundamental do novo pensamento sobre a cidade. Um Guggenheim no Rio de Janeiro

A relação entre monumentos arquitetônicos e a imagem pública de uma cidade não é nova. Foram construídos, em lugares e tempos diversos, os castelos, os arcos do triunfo, os templos, as falsas fachadas da Roma Barroca de Sisto V ou da Venezia dos Médici, os arranhacéus comerciais, os prédios de Oscar Niemeyer em Brasília, o museu Guggenheim de Bilbao. De certa forma, com a exceção da arquitetura vernacular de algumas regiões do mundo, como a mediterrânea, boa parte dos símbolos materiais de uma cidade acabam por ter uma relação direta com o poder, seja ele político, religioso ou econômico. O que é novo nessa relação é a capacidade de articulação de forças em torno de uma intervenção arquitetônica ou urbanística para provêlo de apelo midiático (de preferência global); condição fundamental da criação ou reposicionamento de uma imagem pública. E nada melhor para isso, desde que a palavra cultura entrou na ordem do dia, do que investimentos que apelem para o entretenimento, para a animação cultural ou, como já vaticinava Débord, para o espetáculo. Nesse quesito os museus têm sido as grandes vedetes. Desde a inauguração em 1997 do museu projetado por Frank Gehry, na cidade espanhola de Bilbao, a Fundação Solomon R. Guggenheim tem colaborado como nenhuma outra nas relações entre arquitetura e imagem pública de cidade. Com uma política de convidar arquitetos renomados para os seus projetos – Frank Lloyd Wright, Rem Koolhas, Jean Nouvel – a instituição levou aos extremos

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a inversão do papel dos museus. De lugar reservado, introvertido, sóbrio, destinado a ser invólucro para a guarda e contemplação profunda de obras de arte para o edifício-espetáculo; ele mesmo como grande atração que se basta. A extravagância do museu de Gehry colocou a capital basca no mapa e se alinhou ao pensamento contemporâneo sobre a cidade, que receita para a boa saúde financeira das administrações municipais as parcerias entre público e privado e, para a renovação urbanística, intervenções pontuais que sejam capazes de atrair outros investimentos e por indução ter uma área de influência que afete toda a cidade. Uma espécie de ‘metástase benigna’, na expressão de Bohigas. A Fundação Guggenheim inovou também na sua política de multiplicar suas unidades pelo mundo. São duas em Las Vegas, uma em New York, uma em Berlin, uma em Venezia e uma em Bilbao. Agora se prepara para cruzar a linha do Equador rumo a América do Sul. Mais precisamente ao Rio de Janeiro. A chegada do Guggenheim ao Brasil não está se fazendo sem polêmicas. Depois de uma certa competição entre as cidades de Salvador, Recife, Curitiba e Rio de Janeiro, a mítica capital do carnaval foi a escolhida. Intelectuais, arquitetos e estudantes e, até mesmo o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, têm se colocado contra a sua construção, alegando entre outras coisas o alto custo de construção (U$150 milhões) e manutenção do museu, assumido pela prefeitura do Rio, e a real necessidade de uma arquitetura monumental (42 mil m2) numa cidade repleta de símbolos e belezas paisagísticas. Não escapou à polêmica o fato do projeto do Guggenheim-Rio estar sendo elaborado pelo arquiteto francês Jean Nouvel. Alega-se

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que o Brasil tem nomes para empreitada de tal magnitude, como Ruy Othake, Paulo Mendes da Rocha e, mesmo, o eterno Oscar Niemeyer, em plena produção aos 94 anos. Um certo corporativismo que também se fez presente no recente projeto para o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC), executado pelo suíço Bernard Tschumi. A verdade é que, descontados alguns argumentos que mereceriam alguma consideração para discussões públicas e, mais ainda, a questionável justificativa dos atuais planejadores urbanos de que é necessária uma âncora pontual para a renovação urbanística de uma cidade, a chegada do Guggenheim à América do Sul é um bem vindo sopro de frescor na estagnação da crítica à produção arquitetônica local. Há quatro décadas assentada confortavelmente nas referências aos mestres modernistas brasileiros. É também uma boa oportunidade para se discutir os estatutos da arquitetura que ainda se pautam unicamente pela dimensão material das construções - no que isso implica no reforço à construção de imagem pública para uma cidade e um povo. Ampliar o entendimento da imagem da cidade para incluir a representação midiática de lugares, sejam ambientes naturais ou construídos, implica também em repensar o conceito de realidade. O lugar é o Rio de Janeiro e sua área portuária, geograficamente localizados, mas os processos comunicacionais contemporâneos interagem dialeticamente com o processo de constituição desse espaço urbano constituindo-se numa terceira coisa que, ao final, ainda é o Rio de Janeiro e o Brasil no imaginário coletivo. Carnaval, futebol, violência, praias, bossa nova, Guggenheim. Recriados pelos livros, pela música, pelos filmes, pelos telejornais ou pelos websites.

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“Este matará aquele”, escrevia Victor Hugo referindo-se ao que ele entendia como uma substituição de escritas. O livro pela catedral. Não foi bem assim. De lá para cá não só ainda tivemos a fotografia, o cinema, o vídeo e a imagem de síntese, como ainda temos a arquitetura. Ela não morreu. Apenas não possui mais a capacidade de sintetizar por ela mesmo a imagem pública de uma cidade como fez até meados do século XIX. Necessita da relação dialética que tem com as suas diversas representações. Bilbao apareceu no mapa do mundo pela eloqüência do prédio de Gehry, na combinação com as suas representações em reluzentes imagens nos periódicos e programas televisivos sobre arquitetura e turismo. Apareceu, enfim, pela sua capacidade de se tornar midiática. O Rio de Janeiro e o Brasil certamente devem, para bem ou para o mal, à Carmem Miranda, à Lévy-Strauss, a Stan Getz, à Niemeyer, aos filmes de James Bond, a Ronald Biggs, à CNN e, desde já, a Jean Nouvel. Uma cidade como o Rio, com seus talentos e atrações, talvez não precise do Guggenheim. Uma cidade cosmopolita como o Rio, para muitos um lugar síntese de todo o Brasil, talvez precise do Guggenheim. Até para continuar sendo Rio de Janeiro. Para, na antropofagia que a marca, continuar devorando Le Corbusier, Chet Baker, Antonioni e devolvendo ao mundo a sua imagem particular nas obras de Niemeyer, João Gilberto e Walter Salles. O receituário espanhol, de autores com Jodi Borja, que preconizam para as cidades da América Latina os mesmos passos do plano de Barcelona, certamente simplificam muito o cenário existente do lado de baixo do Equador. Para além do El Dorado do mundo globalizado, prometido a todas as cidades que investirem em suas

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‘vocações’, existirão cidades únicas como o Rio de Janeiro ou a capital da Catalunha. Já o brilho do titânio do museu de Bilbao precisará ver se resiste às mudanças do tempo.

• O texto original, “Guggenheim, 22°54’S 43°12’W, Rio de Janeiro, Architettura ed Immagine Pubblica” – foi escrito para a revista italiana C:Cube, vol.2 – L’Invenzione del Brasile. Bevivino Editore, Roma.

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Sobre o autor Marcos A. Rodrigues é arquiteto, urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Pesquisador do Programa de PósGraduação da Faculdade de Arquitetura, coordenador do Núcleo de Estudos em Mobilidade Urbana (NMob) e editor do blog Imago Urbis (imagourbis.org).

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© Gattopardo, 2011

Coleção Urbanorama, vol.1 Foto da capa Marcos A. Rodrigues, São Paulo, 2011. Projeto gráfico e editoração eletrônica Marcos A. Rodrigues

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Rodrigues, Marcos Antônio Nunes [1968-]

Imago urbis: escritos sobre paisagem urbana e imagem da cidade. Salvador: Gattopardo, 2011. 80p

ISBN 978-1466469372

CDD 711.4

1. Cidades 2. Paisagem 3. Urbanismo I. Título II. Série

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Imago Urbis: Escritos sobre Paisagem Urbana e Imagem da Cidade