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entrevista/Zé Ricardo & Bruno Garcia

Papo de artista O ator Bruno Garcia se encontra com o amigo, músico e produtor Zé Ricardo, no bairro da Gávea, no Rio, para um incrível batepapo sobre os bastidores do teatro, da televisão e, é claro, do Rock in Rio por christina fuscaldo fotos luiz garrido

Bate-papo descontraído entre o músico Zé Ricardo (à esquerda) e o ator Bruno Garcia - em restaurante na Gávea

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Amigos de longa data, o ator Bruno Garcia, 40, e o músico e produtor Zé Ricardo, 41, têm em comum a paixão pela música e a mania de agarrar vários projetos ao mesmo tempo. Em cartaz com a peça A escola do escândalo, em São Paulo, o ator percorreu vários cinemas em agosto para divulgar Onde está a felicidade?, filme de Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi no qual faz um dos papéis principais. Neste mês de setembro, Bruno começa a gravar Aquele beijo, próxima novela das sete da TV Globo, que estreia em outubro. E Zé Ricardo segue trabalhando na divulgação do seu novo CD, Vários em um (Warner, 2011), que terá uma faixa (Exato momento) na trilha sonora da nova novela de Bruno. Também em setembro, Zé finalmente assistirá aos shows que produziu durante o último ano para o palco Sunset, do Rock in Rio (23/9 a 2/10), que terá, entre as inusitadas atrações, duetos de Bebel Gilberto com Sandra de Sá, Milton Nascimento com Esperanza Spalding, Erasmo Carlos com Arnaldo Antunes, e Sepultura com Tambours du Bronx. A convite de TOP, os dois se encontraram no restaurante Guimas, na Gávea, em uma tarde de segunda-feira, e mataram uma série de curiosidades sobre os bastidores da vida artística.

bruno garcia: Como você começou no Rock in Rio? zé ricardo: Foi resultado de um trabalho que

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eu tinha feito no festival Open Air, em Portugal, em 2005. A produtora era a Roberta Medina, vicepresidente do RIR. Ela me viu e me convidou para tocar na edição de 2006. Em 2008, ela me chamou para criar um conceito para o segundo palco do RIR Lisboa, porque queria que ele tivesse a mesma importância do palco principal, apenas com funções artísticas diferentes. Fui transformando o palco pequeno, que era reservado para bandas novas, em um palco para artista consagrado. O público aumentou, em média, de duas mil para 15 mil pessoas. Ralei muito e ralo para fazer com que esse palco cresça dentro do festival. É como estar em uma novela e querer que seu personagem cresça. Me sinto assim, pegando um personagem que era pequeno e o

transformando em uma coisa grande. bruno garcia:O Rock in Rio atrapalhou seu trabalho como músico? Pergunto isso porque você ficou algum tempo sem lançar um novo disco e sem tocar no Brasil. zé ricardo: Pelo contrário. Ajudou. Difícil foi ter paciência. Mas, às vezes, você percebe que precisa ter paciência. Um dos exemplos mais legais que eu vi foi a Ingrid Guimarães. A gente viu a Ingrid ralando, fazendo muitas peças até conseguir chegar à Globo. Não que o objetivo dela fosse esse, mas ela ganhou visibilidade para poder viver da arte. Deu uma volta

e chegou aonde queria. Com Seu Jorge, aconteceu o mesmo: ele foi pelo cinema e chegou à música. Depois que fiz o primeiro ano de festival, passei a encará-lo como algo que poderia ajudar na minha carreira. Foi um caminho que me enriqueceu, até porque eu estava sempre tocando com as pessoas. Convido as pessoas para tocar e a gente acaba ensaiando, fazendo uma música. Isso me enriqueceu muito. Mas, sim, é f*** ficar de técnico sabendo que ainda posso jogar. bruno garcia:Interessante essa comparação. zé ricardo: É isso. Eu queria jogar. Sabia que estava

ali, pronto. Mas também não adiantava lançar um disco sem estrutura. Por isso, foi muito difícil ter calma e paciência para esperar e voltar com o festival para o Brasil, já com uma história de diretor artístico consolidada, para depois fazer o CD. Eu achei que ia conseguir administrar melhor, mas é uma loucura. zé ricardo: Mas agora eu queria te perguntar: como a música entrou na sua vida? Porque você é um cara muito musical, toca violão... Um ator que sabe tocar um instrumento é diferente do que não toca... Além disso, você tem uma boa voz. Já estudou canto? 103


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“Entrei no palco de paletó e gravata e fui me despindo. Quando tirei a cueca, a luz apagou. A gente vive em uma dicotomia incrível, né? Ou tudo é permitido ou nada pode.não sei se a sociedade está despudorada ou careta” 104

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bruno garcia: Desde criança, sempre gostei muito de música – rock’n’roll, coisas pesadas, coisas clássicas, samba, músicas que emocionam. No ginásio, participei de alguns shows de calouros. Uma vez, compus para um festival e passei. Foi a primeira vez que tive a sensação de estar em uma banda, e eu tinha uns 12 anos. Fiz a melodia de cabeça e a banda deu uma melhorada. Cantei junto com eles, mal pra caramba, porque tenho certa dificuldade de ritmo. Sou afinado, mas não tenho muito traquejo. Os anos se passaram e eu estava dirigindo um espetáculo para dois filósofos amigos e eles me deram um violão de presente porque não tinham dinheiro para me dar um cachê. Fiz umas aulas, aprendi uns acordes e fiquei com aquilo. Muito preguiçoso, nunca aprendi uma música inteira. Um tempo depois, escrevi minha primeira peça de teatro, O livro de Tatiana, e fiquei pensando em quem chamar para fazer as músicas. Brincando com o violão, saiu a primeira música, Tente Tatiana. Me lembro que olhei para o instrumento e me assustei, fui surpreendido! Aí pensei que, se eu tinha feito uma, poderia compor outra, e acabei fazendo todo o repertório da peça. Nunca estudei canto. Comecei a fazer teatro aos 11 anos e, no ano que vem, vou completar 30 anos de carreira. Sou completamente autodidata. Essa coisa da voz, desenvolvi no palco, por isso tenho a voz boa para cantar. Já o ritmo é difícil, preciso fazer umas aulinhas... Que tal me ensinar? zé ricardo: Não tenho tempo! (risos) O cara que inventou o dia com 24 h estava maluquinho da cabeça... E quanto mais trabalho você tem, mais pressão, mais demanda – e mais fácil de pirar. Como você controla isso? bruno garcia: Comecei a trabalhar muito cedo, numa época em que ser ator mirim não era muito comum. Então acabei sendo muito requisitado. Fiz muitos filmes publicitários, o que me deu uma certa bagagem para trabalhar com a TV. Apesar de a linguagem ser outra, trabalhei com cores, luzes, câmeras e com a exposição da imagem. Aos 16 anos, fiquei famoso em Recife. Só que, como era publicidade, as pessoas não sabiam meu nome. Rapidamente entendi que minha imagem é só uma 106

imagem, que ela vai ter um efeito em um lugar e que não necessariamente está me levando junto. Quando vim para o Rio, não queria ser capa de revista, preferia ir comendo pelas beiradas. Eu tenho uma teoria de que essa coisa que as pessoas têm com os famosos é um fenômeno físico. Mesmo para nós, que somos conhecidos, se o Mick Jagger entrar aqui agora, a gente vai se assustar! Ou se o Papa, o Barack Obama... Você está acostumado a ver aquela pessoa bidimensionalmente e, de repente, vê

tridimensionalmente. Isso causa um impacto físico. zé ricardo:Uma vez fiz uma viagem a Los Angeles com o Thiago Lacerda... Quando chegamos lá, um amigo americano, que é produtor, disse que tinha uma surpresa: era o Stevie Wonder, sentado, tocando gaita. Quando o Thiago viu, quis fazer uma foto. Aí zoei, falando sobre como ele se sente quando as pessoas querem fazer foto com ele. Ele disse: “Vai tomar no c...! Eu quero uma foto com o Stevie Wonder!” (Risos) bruno garcia: Por isso tem que ter uma paciência incrível quando você tem essa demanda, por mais que

ela seja impertinente. Eu desenvolvi algumas técnicas. Quando vou a Recife, onde a demanda é maior, adoro ir a lugares populares. Quando a primeira pessoa toma coragem e pede para tirar uma foto, se estou com minha família, explico que seria um prazer, mas que, se eu tirar aquela foto, não vou conseguir parar de tirar outras. Para ela vai ser uma, mas para mim e para minha família, vai ser um monte e uma tarde perdida. Falo isso com cuidado e pergunto se a pessoa entendeu. Nunca recebi uma resposta atravessada, porque elas se 107


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colocam no meu lugar. Agora, claro, se for num lugar tranquilo, não tem necessidade de fazer isso. bruno garcia: E você, como lida com o assédio? zé ricardo: Comigo, é mais tranquilo. Em Lisboa, sou Zé Ricardo, o cantor. Aqui, virei “o cara do Rock in Rio”. No Brasil tem uma inversão de valores. Se um dia sua filha, Bella, virar uma Katy Perry, você passa a ser “o pai da Bella”. Hoje, ela ainda é a filha do Bruno Garcia. Quando me chamam de “cara do Rock in Rio”, eu falo: “Peraí, eu sou o Zé, o cantor, e também trabalho no Rock in Rio”. bruno garcia:Antes você lidava com sua banda, agora você lida com bandas e componentes de todas as bandas. Como administrar essa plantação de egos? zé ricardo: Sendo gentil. É a única maneira. A pessoa faz uma grosseria comigo e digo que não acredito que ela está fazendo aquilo porque ela é uma pessoa educada. Falei isso para um cara e ele: “Pô, me quebrou, hein?!” Eu sou muito legal, mas sou incisivo

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o Brasil, virei “o cara do Rock in Rio”

na hora que tenho que ser. Já falei: “Você tá ficando maluco de falar isso para a minha assistente?” Teve um cara que, no Rock in Rio de Portugal, reclamou que a cerveja estava quente. Falei: “Seu equipamento ficou preso em um lugar e minha produção conseguiu o amplificador que você queria, a guitarra que nós não tínhamos obrigação de conseguir, o pedal que você queria... Mandamos o carro que você queria para te buscar, seu camarim tem flores, está tudo bonitinho. Você chegou duas horas antes e a cerveja ainda não gelou. Você não acha que está sendo mal educado de vir aqui falar da cerveja e não elogiar nada?” A pessoa pede desculpa. zé ricardo:Vejo meus amigos atores tendo dificuldade porque existem diretores que esculacham as pessoas. Existe essa cultura de o diretor esculhambar os atores? Porque na música ninguém chega para o outro e o chama de burro... bruno garcia: Existe uma ideia, que acho

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absolutamente equivocada, de que os atores precisam ser burilados psicologicamente. Isso é um perigo. Tem que se fazer faculdade para saber como entrar na psique de uma pessoa. Isso vem do teatro, essa linha do diretor déspota. Não sei quando e onde surgiu. Antigamente, quem dirigia o grupo era o ator mais velho da companhia, que conhecia todos os textos, toda a equipe e que ficava no centro do palco dizendo aonde todo mundo tinha que ir. O teatro se modernizou e veio esse cara, o diretor, para ter uma visão mais distanciada, que ajuda aquela história a ser contada. Em algum momento, apareceu essa ideia de que, se você humilha ou se tem uma ascendência psicológica hierárquica para os atores, aquilo vai funcionar. Comigo não funciona assim... zé ricardo:Durante uma leitura dramática no teatro Sérgio Porto, você ficou pelado. Como é isso? bruno garcia: Essa história aconteceu no evento CEP 20000. Michel Melamed me convidou para fazer a performance de um texto meu. Senti que precisava de uma ação e resolvi me desnudar. Entrei de paletó e gravata e fui me despindo. Quando tirei a cueca, a luz apagou. A gente vive em uma dicotomia incrível, né? Ou tudo é permitido ou nada pode. Eu não sei se a sociedade está absolutamente despudorada ou careta. Outro dia, um alemão trocou de roupa no saguão do aeroporto de Salvador e foi preso. Ele se defendeu dizendo que no Brasil todo mundo anda sem roupa. O raciocínio dele foi pertinente. Essa questão do nu, para mim, é relax, sobretudo se ela tem um valor. O que me incomoda é a questão estética. Se sei que eu vou fazer uma cena de nu na TV, por exemplo, vou ficar preocupado com a barriguinha. Vou dar uma parada no chope. A exigência é grande. É diferente do nu em um filme, que tem uma coisa mais real. Um cara nu no cinema europeu é uma pessoa de verdade. Tem barriga, bunda meio caída... No cinema americano, os corpos são perfeitos. Essa manipulação dos corpos hoje em dia é péssima para a dramaturgia. É difícil, hoje, achar uma atriz que tenha cara de velha. Como chamar uma atriz de 80 anos, que faz plástica desde os 30, para fazer uma senhora que vive no século 18? Não existia botox. Acho que o ator tem que estar muito maleável, sempre neutro. 109


Zé Ricardo e Bruno Garcia na TOP