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Caráter anual. Os mascarados de Lazarim exibem fantásticas máscaras carnavalescas de madeira de amieiro, esculpidas por artesãos da própria aldeia, que as renovam todos os anos, pondo à prova a sua criatividade.

a principal marca do Carnaval no Nordeste Transmontano”. Olhemos, por exemplo para o ritual do “julgamento do Entrudo”, que acontece em Santulhão (Vimioso) e implica um cortejo de figurantes e de foliões acompanhantes, transportados em máquinas agrícolas devidamente ornamentadas. O ponto alto da festa é o Auto Popular, em que o Entrudo e a sua família são acusados de malfeitorias e de serem responsáveis por todos os males que afetaram a comunidade durante o inverno. Assim, são condenados e queimados, purificando a povoação e dando origem a um novo ciclo produtivo. Em Podence, uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, os caretos vestem fatos felpudos e coloridos, feitos de lã, que lhes cobrem o corpo todo, incluindo a cabeça. Escondem a cara com máscaras de latão, pintadas de várias cores, sobretudo de vermelho. No peito, carregam duas grossas correias de couro, de onde pende um volumoso molho de chocalhos. Paramentados desta forma, nada, ou quase nada, os detém nas suas correrias desenfreadas pelas ruas da povoação, perseguindo as moçoilas para as chocalhar, num apelo à fertilidade da natureza: encostam-se às mulheres consideradas fecundantes e executam uma dança quase erótica (agitam as ancas, fazendo

bater o molho de chocalhos contra o corpo das suas vítimas). Porém, as violentas chocalhadas não se destinam apenas às jovens: dirigem-se igualmente a outros membros da comunidade que mereçam ser castigados, constituindo, nesse caso, uma função expurgatória.

ENTRUDO EM DEZEMBRO

Constata-se que, afinal, o verdadeiro Carnaval não é muito diferente do que se passa nas festas solsticiais e dos Rapazes (entre o Natal e os Reis), uma vez que, na verdade, o Entrudo encerra o ciclo festivo do inverno. Por exemplo, em Vila Boa de Ousilhão (Vinhais), a festa de Santo Estêvão perdeu-se em meados do século passado e os “máscaros”, como lhe chamam na região, passaram a sair à rua no dia de Carnaval, concretizando uma transferência temporal dos seus rituais do solstício de inverno para o início da primavera. Nesta aldeia, os mascarados vestem uma indumentária constituída por um fato (calças, casaco e gorro) com franjas, polainas, chocalhos e campainhas suspensos de correias de couro a tiracolo e cruzadas no peito e nas costas, e exibem máscaras de madeira. Quer chova, quer faça sol, percorrem a povoação atormentando os transeuntes, castigando-os com bastonadas e chocalhadas e fazendo tropelias.

Também neste caso, o ato de bater (e chocalhar) simboliza o sacrifício necessário à purificação da comunidade e à expulsão dos seus males. Embora a simbologia dos rituais seja sempre a mesma, os mascarados de Lazarim, nas imediações de Lamego, aparecem com outra roupagem e, sobretudo, com outra cara: exibem fantásticas máscaras carnavalescas de madeira de amieiro, esculpidas por artesãos da própria aldeia, que se encarregam de as renovar todos os anos, pondo à prova a sua mestria e criatividade. Assim, não admira que, além de serem usadas nas festividades carnavalescas, também surjam em exposições, coleções privadas, espetáculos e documentários. Numa altura em que o calendário agrícola assinala o tempo de fecundação da terra, com início da primavera, e o cristão permite os últimos excessos antes da abstinência própria da Quaresma, em Lazarim (tal como por todo o país) vive-se um ambiente de transgressão e exageros, que não inclui apenas máscaras carrancudas de madeira, mas envolve provocações entre comadres e compadres, acentuando a rivalidade milenar entre mulheres e homens. O ponto alto dos festejos ocorre quando o povo se reúne para a leitura pública dos testamentos: a moça inicia a leitura do Testamento do Compadre e de imediato surgem as críticas aos rapazes da vila, com a sagacidade de quem aguardou o ano inteiro para dizer umas verdades. Depois, invertem-se os papéis e é o moço que toma a palavra. Como seria de esperar, o Testamento da Comadre afina pela mesma bitola: é uma mordaz crítica social pautada pelos excessos da linguagem. Finda a leitura dos testamentos, segue-se o cortejo dos mascarados pelas ruas da aldeia e a queima dos compadres (bonecos representativos de personagens de ambos os sexos). Expurgados dos males pretéritos e resolvidos os conflitos com vista ao fortalecimento de laços e à coesão da comunidade, segue-se o convívio, com comida (feijoada e caldo da farinha) e bebida em abundância, distribuída gratuitamente, como convém num dia festivo. Pela sua especificidade, o carnaval de Lazarim, tal como os do Nordeste Transmontano, costuma atrair muitos visitantes, bem como uma romaria de órgãos de comunicação social estrangeiros, de estudiosos dos costumes “autênticos”, de curiosos do grotesco e do exótico, de intelectuais e artistas. Isto acontece porque as máscaras e os mascarados, ligados a rituais seculares, significam muito mais do que aquilo que parece à primeira vista. Assim, não basta assistir aos festejos, é essencial perceber o que se esconde por detrás das máscaras. J.N.

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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