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De localidade para localidade, mudam os trajes e as máscaras ras se submetem tem como finalidade torná-los seres superiores, transcendentes, misteriosos e proféticos. Como sacerdotes, lembram os mortos, impõem aos outros o respeito pela ordem e protagonizam os rituais dos peditórios em benefício dos santos e das almas dos defuntos. Como diabos, instituem a desordem e o caos na comunidade, criticam o povo, atuam à margem das normas sociais e morais e tomam para si as liberdades próprias de quem está acima de tudo e de todos. Olhemos, por exemplo, para a Festa dos Rapazes de Varge, que decorre nos dias de Natal e de Santo Estêvão. Os caretos (jovens solteiros), devidamente paramentados, encarnam o papel de profetas e denunciam os atos reprováveis de alguns membros, famílias ou grupos sociais das suas comunidades. Esses rituais de crítica social, conhecidos por “loas”, são momentos solenes, quase litúrgicos, mas de cariz pagão, que se seguem à liturgia da missa solene de Natal. As loas consistem na declamação de quadras satíricas que visam denunciar vizinhos e autoridades da terra. No final de cada quadra mordaz, os caretos aplaudem com gritos, saltos e chocalhos ensurdecedores. Diz quem sabe que se trata de um ritual com função expurgatória, que visa a expulsão dos males da comunidade.

FUNÇÕES PROFILÁTICAS

As funções purificadoras e profiláticas não se ficam por aqui: manifestam-se, igualmente, em muitas outras atitudes libertárias dos caretos, que assumem o papel de diabos e instituem o caos no grupo e na multidão que se reúne para assistir: soltam os característicos gritos “hi! hu! hu!”, saltam, dão cambalhotas, rebolam pelo chão e, com os seus grossos e compridos varapaus, lançam palha às pessoas. Segundo o antropólogo Aurélio Lopes, é o momento da “subversão solsticial”, a ocasião “do caos por excelência, em que proliferam desordens e irreverências, transgressões e transversões, bem como o desencadear de excessos”. Estas atitudes e comportamentos manter-se-ão ao longo dos dois dias de festa, em orgias, excessos na comida e na bebida, atitudes grotescas e invasão de espaços privados com o intuito de recolher peças de fumeiro. Embora a Festa dos Rapazes de Varge, bem como de outras aldeias brigantinas, seja um momento de expiação comunitária, boa-disposição e folia, convém não esquecer que também serve para demonstrar a capacidade organizativa e maturidade dos jovens solteiros, constituindo, em pleno século XXI, um singular rito

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pubertário de passagem da adolescência para a idade adulta: neste contexto, os jovens como que deixam de pertencer ao seu grupo familiar para passarem a integrar o grupo festeiro, por dois dias e a tempo inteiro. Embora cada localidade tenha as suas especificidades, tanto ao nível das máscaras (de latão, madeira ou cortiça), como dos trajes, rituais e acessórios (varas, bastões, tridentes, chocalhos, etc.), todas as festas de inverno se enquadram no mesmo objetivo comum: a destruição do velho para que se crie de novo, ou seja, o caos que dá origem à ordem, necessária ao bom andamento da vida comunitária. Para os jovens, é ainda a oportunidade de viverem alguns dias bem diferentes do quotidiano, tornando-se personagens principais de uma ação que vai dar continuidade à tradição e perpetuar a memória coletiva das povoações. Afinal, o que haverá de mais fascinante para um adolescente que se queira afirmar no seio da sua comunidade do que o estatuto de superioridade que lhe permite controlar toda a vida local e desempenhar ritos sagrados, mesmo que seja por artes diabólicas?

CARNAVAIS AUTÓCTONES

Quando se fala em Carnaval, a maioria das pessoas pensa de imediato em escolas de

samba e em espampanantes corsos carnavalescos, que podem ser muito atrativos para os olhos e para os ouvidos e excelentes chamarizes turísticos, mas nada têm a ver com a nossa identidade cultural. Segundo os especialistas, se quisermos ver festividades carnavalescas autênticas, teremos de ir ao Nordeste Transmontano ou à Beira Alta: por exemplo, a Freixo de Espada à Cinta, Podence, Santulhão e Vila Boa de Ousilhão (Bragança) ou Lazarim (Lamego). Convém não esquecer que a origem do Carnaval remonta às antigas festas da natureza pré-romanas e às Saturnais e Lupercais, celebradas pelos romanos em honra de Pã, o deus dos rebanhos. Estas últimas eram festividades agro-pastoris que aconteciam a 15 de fevereiro, quando os sacerdotes, despidos, tapando apenas as partes genitais, percorriam as ruas, batendo com um chicote em quantos encontravam, principalmente nas mulheres, que julgavam fecundar com estas pancadas. António Tiza advoga que “os mascarados que saem à rua no período do Carnaval assumem, ainda que simbolicamente, estas mesmas funções, embora, aos olhos do povo, representem o diabo e eles próprios se assumam como tal nos gestos e atitudes que tomam”. Assim, defende o investigador, “a licenciosidade consentida aos caretos e os ritos expurgatórios constituem hoje

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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