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A Bugiada envolve dezenas de bugios (à esquerda) e centenas de mourisqueiros.

no imaginário popular? Estamos, sem dúvida, perante uma contenda que opõe dois grupos portadores de valores culturais antagónicos. Segundo Maria Cristina Araújo, antropóloga e autora da dissertação Bugios e Mourisqueiros – O Outro Lado do Espelho, existe claramente uma leitura simbólica que tanto é espacial (Norte/Sul), como teológica (Deus/Alá), religiosa (cristianismo/islamismo), moral (bem/ mal), histórica (vencedores/vencidos), cultural (ocidental/berbere) e identitária (eu/outro). Todavia, a lenda e o confronto histórico-cultural parecem ser apenas o mote para a festa, que inclui também um inusitado desfile carnavalesco (recorde-se que o carnaval, em todos os outros lugares do país, decorreu uns três ou quatro meses antes), no qual não faltam as representações satíricas e burlescas e as máscaras e os mascarados. Logo bem cedo, assiste-se aos preparativos para ataviar e caracterizar os participantes (crianças, jovens, adultos e idosos) na trupe dos bugios (outrora, mandava a tradição que fossem apenas homens casados) e cerca de 30 a 40 rapazes solteiros na trupe dos mourisqueiros. Todos os bugios se apresentam mascarados (antigamente, usavam máscaras de cortiça) e vestidos a rigor, com trajes ricamente confecionados em veludos e sedas em que abundam cores garridas, como o vermelho, o verde e o amarelo. O chapéu é de aba larga, forrado a vermelho, decorado com espelhos redondos e encimado por uma explosão de plumas e serpentinas coloridas. Os calções de gibão de veludo possuem dois grandes guizos (a que se juntam mais quatro, na capa colorida de veludo) e são rematados por um folho de renda

branca, recordando a vestimenta da nobreza do século XVII. Amiúde, transportam castanholas e objetos como cornos, cobras de pano ou borracha, ramos de flores e de trigo, bonecas ou peluches. Como se imagina pela indumentária e pela máscara (recorde-se que esta dilui os estatutos e hierarquias sociais, permitindo, momentaneamente, uma espécie de liberdade silenciosa, sendo um adereço indispensável ao exercício de tropelias e de atos socialmente inaceitáveis), os bugios são muito desordeiros, barulhentos e, muitas vezes, de comportamento e linguagem “lasciva”, desatando numa correria louca, saltando e serpenteando pela multidão, que se afasta rapidamente. Esta conduta contrasta com a dos mourisqueiros, que não usam máscara e se regem pela distinção, pela elegância das suas danças e pelo silêncio austero. Os mourisqueiros usam uma farda muito sóbria. Ostentam uma barretina cilíndrica da cor da farda, feita de cartão, com quatro espelhos retangulares em lados opostos e encimada por duas plumas. O destaque vai para a espada de cavalaria que seguram verticalmente, na mão direita, onde está amarrado um lenço branco. Porém, os mais emblemáticos são, sem dúvida, os chefes dos respetivos grupos, como o Velho, que lidera os bugios. Este usa um longo manto de veludo vermelho, atado à cinta com um cordão dourado, fazendo lembrar vestes litúrgicas. A barretina cilíndrica é idêntica à dos mourisqueiros e apresenta “dragonas” douradas nos ombros, que lhe conferem um estatuto superior. O mais interessante é, no entanto, a máscara, que difere de todas as outras: é confecionada artesanalmente em cera e pintada à

mão, e encontra-se rematada por uma chita alva, que representa a barba branca do idoso (curiosamente, desta máscara não sobressai uma fisionomia vetusta, mas um rosto jovem, que começa por ter feições alegres, durante a manhã, e feições tristes, à medida que o dia avança). “A Bugiada é um verdadeiro fenómeno cultural sincrético, que o povo de Sobrado criou, adaptou e conservou”, afirma Maria Cristina Araújo, enquanto nos guia pelas ruas apinhadas de gente: como é natural, pela sua singularidade, esta festa não envolve apenas os autóctones, mas atrai forasteiros curiosos de todos os cantos do país, tendo-se tornado uma autêntica atração turística. Porém, onde a maioria dos participantes e visitantes vê apenas diversão, o olhar antropológico descortina uma associação de diversos rituais que interessa desvendar. Existe o rito de expulsão dos males que afligem a comunidade, exemplificado na própria lenda da Bugiada (a doença da princesa árabe e toda a situação que se gerou em torno desse acontecimento). Daí, lembra a antropóloga, “o barulho produzido pelos bugios e pelos seus objetos (castanholas e guizos), que visa afastar o mal da comunidade, repondo a marcha normal da vida”. Verifica-se também o rito da fertilidade. Este momento solsticial está imbuído de um caráter mágico, visto ser a época ideal para agradecer aos deuses e às forças da natureza a existência humana, vegetal e animal. Além disso, recorda Maria Cristina Araújo, “esta data traduz-se numa atmosfera de folia, erotismo e liberdade licenciosa, que permite a exteriorização dos desejos primários e de sensualidades”. Basta olhar para os bugios para ver que neles tudo evoca fertilidade: o seu estilo irreverente, o serpenteado da sua dança, os sons que produzem, o colorido das suas vestimentas, o assédio que fazem às raparigas, os objetos que carregam (desde cornos, passando por bonecas e raminhos de trigo). Ou para os mourisqueiros, que transportam as suas espadas em posição ereta, conotando, simbolicamente, verdadeiros falos humanos, que traduzem o vigor sexual atribuído aos jovens e marcam este grupo como potencial promotor da fertilidade. Também ocorre o ritual da iniciação e de passagem, tanto do indivíduo (do estado juvenil ao adulto), como de toda a comunidade (uma passagem física, social e cultural). Muito mais haveria para dizer sobre a Bugiada, mas o melhor é o leitor ir a Sobrado no próximo dia 24 de junho e descobrir com os seus próprios olhos os segredos de uma festa singular. Interessante

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Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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