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Ritual original

H

Expressão identitária. Mascarados típicos da festa de Vila Boa de Ousilhão (à esquerda), que passou de Santo Estêvão para o carnaval, e da Festa dos Rapazes de Varge (à direita).

Muitas destas tradições têm raízes na herança celta teza, pré-romana: “Alguns destes elementos rituais poderão ter a sua génese na tradição celta e zoela”, defende António Tiza. Os celtas povoaram o seu mundo de magia e de deuses: viviam num universo mágico em que toda a natureza era habitada por divindades, desde as árvores (como os carvalhos) aos animais e aos cursos de água. Também atribuíam grande simbolismo aos solstícios, tanto de verão (este ano, acontecerá a 20 de junho, às 22h34, sendo o dia mais longo do ano), como de inverno (ocorrerá a 21 de dezembro, às 10h44, sendo o dia mais curto do ano), pois consideravam o Sol como sinal de vida e de fecundidade. “Eram panteístas e adoravam o Sol, que sempre foi considerado o símbolo mais perfeito do espírito para a generalidade dos povos antigos”, explica o historiador e filósofo Paulo Alexandre Loução. Assim, não é de estranhar que lhe prestassem culto e celebrassem as colheitas, fazendo festas em honra do deus Lug (o Deus do Sol celta, cujo atributo é uma lança mágica, representada pelo fogo, também conhecido como “Lugh”, que significa “cintilante”). Sendo rituais solsticiais tão antigos, é incrível que tenham perdurado até aos nossos dias, sobretudo, por causa da cristianização, que não os via com bons olhos. A sua longevidade poderá

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explicar-se com o facto de os romanos também festejarem estes momentos críticos do ciclo agrário com ritos em honra do Sol. “Anteriormente ao cristianismo, celebrava-se exatamente no dia 25 de dezembro o nascimento do Sol Invencível: o deus-Sol que revigora e se levanta no solstício de Inverno”, recorda Moisés Espírito Santo, sociólogo das religiões. As festas romanas das Calendas de Janeiro eram celebrações agrárias, as Bacanais, em honra de Baco, deus do vinho que também presidia à plantação e frutificação. Além disso, nas últimas semanas de dezembro, os romanos festejavam ainda as Saturnais e a Juvenália. As Saturnais decorriam entre os dias 17 e 23 e eram dedicadas a Saturno, o divino agricultor e deus da abundância. Durante esses dias, era comum a inversão dos papéis sociais, como, por exemplo, entre ricos e pobres: era habitual que os senhores da casa servissem à mesa os seus servos, que tinham licença para se embebedar e injuriar os amos. Além disso, realizava-se um banquete público, que dava azo à mais absoluta permissividade e libertinagem. Ninguém estava a salvo das brincadeiras: caricaturavam-se as leis e os cargos públicos e ofereciam-se presentes mordazes. As Juvenálias tinham lugar a 24 de dezembro e eram festas licenciosas e transgressoras pro-

á um festejo com máscaras e mascarados que quebra a tradição e acontece no início do estio, sinalizando o solstício de verão: quando o calendário marca o dia 24 de junho, as gentes de Sobrado (Valongo) saem à rua para comemorar o S. João através de um ritual único em Portugal, designado pelos autóctones por “Bugiada” (a literatura, em geral, também lhe chama “Mouriscada”). Trata-se de uma representação cuja origem permanece desconhecida, mas que nos remete para a época da reconquista cristã e para os confrontos entre “mouros”, denominados localmente por “mourisqueiros”, e cristãos, a que o povo chama “bugios”. Na Bugiada, participam, todos os anos, centenas de figurantes, nascidos e criados na terra (é uma festa profundamente enraizada na consciência popular), que revivem uma disputa antiga entre cristãos e mouros pela posse de uma imagem de S. João. Segundo reza a lenda, num determinado dia, a filha do rei árabe caiu enferma, e o pai, conhecendo os milagres de S. João, pediu ao rei dos cristãos a imagem do santo milagreiro. Este acedeu ao pedido e fez o empréstimo. Porém, como a imagem não foi restituída, originou-se uma violenta batalha entre os dois exércitos, acabando com a vitória dos cristãos. Embora seja uma lenda, é verdade que houve árabes na região. Segundo A Villa de Vallongo, de Joaquim Reis (1903), por volta do ano 716, “o emir Abd-el-Azim, com um grande exército de mouros, tinha tomado e saqueado a cidade [Porto], matando todos os seus habitantes e ficando senhor dela durante 104 anos, até 820, quando D. Afonso I de Leão, o Católico, a resgatou, expulsando os terríveis e ferozes infiéis”. Em 824, Abd-el-Raman, califa de Córdova, tentou reconquistá-la, mas o conde Hermenegildo, governador do Porto, saiu-lhe ao encontro e infligiu-lhe uma severa derrota. No ano seguinte, Almansor, que se intitulava o “terror dos cristãos”, desforrou-se: reuniu um grande exército, tomou a cidade e destruiu-a, tendo ficado totalmente desabitada durante 157 anos. Finalmente, em 982, D. Raimundo III, com o auxílio de cruzados normandos e franceses, reconquistou a cidade, empurrando os infiéis para as serras de Valongo e para os montes de Sobrado. “Retemperadas as forças, os árabes fizeram frente aos cristãos, que se gladiaram ferozmente. Este combate foi um dos mais terríveis que por estes lugares tiveram os mouros com os cristãos”, escreveu Joaquim Reis. Portanto, houve batalhas entre cristãos e mouros na região de Sobrado. Porque terão permanecido, durante mais de mil anos,

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
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