Page 86

Antropologia Rituais ancestrais dos solstícios

Por detrás da MÁSCARA Quando se fala em máscaras, pensa-se de imediato no Carnaval. Porém, estas usam-se desde tempos imemoriais com outros propósitos que não apenas a folia carnavalesca. São ritos milenares, em que as máscaras e os mascarados carregam valores simbólicos e asseguram a identidade coletiva.

FOTOS: JORGE NUNES

N

o Nordeste Transmontano, por alturas do Natal, do Ano Novo e dos Reis, acontecem curiosos festejos, protagonizados por mascarados (conhecidos na região por “caretos”), com chocalhos presos nos trajes tradicionais feitos de mantas. Mesmo com frio e chuva, são, geralmente, festas com muita cor, barulho e euforia, fazendo lembrar um Entrudo antecipado. Em Salsas, por exemplo, uma pequena aldeia localizada 27 quilómetros a sul de Bragança, a ação dos mascarados é protagonizada por rapazes. Todas as noites, entre o Ano Novo e os Reis, saem à rua e invadem as casas à procura de fumeiro e das raparigas, que pretendem “castigar”. Gozando de uma liberdade quase sem limites, dão largas à sua imaginação e executam o rito das chocalhadas: agitam as ancas, batendo violentamente com o molho de chocalhos contra o corpo das suas vítimas. Na noite de Reis, os caretos vão de porta em porta, acompanhados pelas crianças e pelos jovens da povoação, recolhendo esmolas: dinheiro, chouriços, carne fumada e produtos da terra. Terminado o peditório, o povo reúne-se para o grande momento de convívio: come-se, bebe-se e dança-se animadamente. Afinal, é tempo de frio e é preciso aquecer os corpos e alegrar os espíritos. A festa termina com o ritual do fogo, em que se queima um careto gigante, simbolizando o ano velho.

84 SUPER

Estas confraternizações comunitárias, com tropelias, gritarias e chocalhadas, não se passam apenas em Salsas, mas acontecem em muitas outras aldeias brigantinas, como Aveleda, Baçal, Bemposta, Bruçó, Constantim, Grijó de Parada, Ousilhão, Parada de Infanções, Rebordainhos, Rebordãos, Rio de Onor, Tó, Torre de D. Chama, Vale do Porco, Varge e Vila Chã da Braciosa. Segundo um estudo levado a cabo por António Pinelo Tiza, em 2013, há 26 festas tradicionais com mascarados só no distrito de Bragança, das quais vinte decorrem entre o Natal e os Reis, quatro no Carnaval e duas no dia seguinte (quarta-feira de Cinzas). Há quem pense que estes festejos são apenas folclore, modas recentes que servem para atrair turistas e para dar algum ânimo à depauperada economia de lugarejos recônditos e quase esquecidos do “Portugal profundo”. Será mesmo assim?

ORIGENS MILENARES

As máscaras e os mascarados percebem-se no Entrudo, mas qual o seu significado numa altura em que se comemora o nascimento de Jesus ou a visita dos Reis Magos? Por estranho que pareça, não são esses eventos cristãos que justificam a sua existência, mas os rituais pagãos do solstício de inverno, muito anteriores ao cristianismo. Estamos perante manifestações culturais antiquíssimas, cuja origem será, com cer-

Património espiritual. A máscara permite esquecer e subverter os estatutos e as hierarquias sociais. O carnaval de Lazarim atrai milhares de visitantes.

Super Interessante Portugal N.215, marco 2016  
Advertisement